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A primeira cena é passada nos Estúdios Vitor Cordan onde ensaiamos e depois passamos para o Teatro Camões, depois vamos viajar no tempo e no espaço e vamos à Grécia, a São Petersburgo à estreia do Lago dos Cisnes no Mariinski, que é um momento de ficção, obviamente. Depois vamos ver alguns momentos em vídeo, como a “Morte do Cisne” da Pavlova numa gravação de 1924. É com esta interactividade, com esta mistura entre o que se passa no palco e o que vai sendo projectado na tela, que pretendemos captar a atenção dos miúdos.” Porquê um espectáculo para crianças? “Eu tenho trabalhado muito em espectáculos para crianças. Aliás, já fiz um aqui, em 2006, chamado Carpe Diem, sobre o prazer da dança. E para mim, é muito importante que os miúdos percebam que a dança é uma coisa intrínseca ao ser humano e que acaba por estar muito posta de parte porque temos vergonha, porque achamos que não sabemos dançar. Eu ainda hoje tenho vergonha. A vergonha faz parte do ser humano, mas não nos pode travar. A vergonha é um medo, uma fobia daquilo que os outros pensam, ora se não podemos controlar o que os outros pensam para quê ter medo?” Quem o diz é Bruno, que começou a dançar aos 9 anos, numa época em que não era fácil para um rapaz assumir que andava a aprender ballet. “Gozavam comigo, levava pancada na escola. Mesmo no Liceu ninguém sabia para onde é que eu ia. Saía às quatro da tarde para ir para a escola da companhia e só o director de turma é que sabia para onde é que eu ia.” A decisão de se tornar bailarino, tomou-a depois de mais de duas horas e meia de absoluta concentração e deleite, em frente à televisão a preto e branco lá de casa, assistindo a uma representação do “Quebra Nozes”. Os pais, habituados aos devaneios infantis de Bruno lá disseram que sim à sua insistência em querer ser bailarino, mais na expectativa de

Paulo Ribeiro: Completamente. Aliás, desde a primeira hora que estava salvaguardada. A partir do momento em que eu fui convidado, já sabia como é que as coisas podiam acontecer e o que é realmente fantástico no Teatro Viriato é que a mecânica daquela equipa é tão boa, funciona tudo tão bem, que mesmo só com os recursos internos podíamos dar resposta a este desafio. Bica: Tendo sido tão repentino e surpreendente, como é que reagiste a este convite para vires dirigir aquela que é a mais importante e, infelizmente a única, companhia portuguesa de bailado? Paulo Ribeiro: Quando recebi o convite fiquei muito satisfeito porque já estava a planear regressar a Lisboa. Depois veio a preocupação imediata de deixar tudo bem organizado em Viseu, na Escola - referindo-se Escola de Dança Lugar Presente, que fundou em 2005 na Companhia - Companhia de Dança Paulo Ribeiro, fundada em 1995 - no Teatro Viriato e na cidade, que foi uma cidade que me foi muito propícia e que me acalentou imenso. Essa foi a primeira preocupação. Quanto à Companhia Nacional de Bailado, a Luísa já tinha deixado o ano de 2017 orientado e com a programação delineada e como sei que esta é uma casa complexa, muito grande, com uma dimensão completamente diferente, com procedimentos específicos que têm a ver com a função pública, preocupei-me essencialmente em adaptar-me a esta nova realidade. Estou numa fase de estudo e habituação. Bica: Mas já focado na programação para 2018, não? Paulo Ribeiro: Para conseguirmos bons coreógrafos para 2018 já estamos um bocado em cima, mas é um trabalho que temos de ir fazendo. Há uma série de coreógrafos que gostava de trazer para trabalhar com a Companhia ou para apresentarem espectáculos e que já não podem no próximo ano, então temos de começar a organizar essas colaborações para 2019 e 2020. Bica: Uma das dificuldades que temos encontrado por parte de diversas direcções na área da cultura é a da incerteza em relação ao orçamento com que contarão para poderem fazer essa gestão de programações, sobretudo internacionais, que exigem uma planificação a médio prazo. Esse é um problema que temes ter de enfrentar na CNB? Paulo Ribeiro: Sei o orçamento que tenho para este ano e que tem transitado mais ou menos de ano para ano e para o qual tem sido essencial o mecenato da Fundação EDP e é com isso que temos de ir trabalhando.

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Isadora Duncan. Depois tento desmistificar um pouco a ideia de que o ballet clássico nasceu do nada, porque antes do ballet clássico havia o bailado romântico, antes disso a dança barroca e ainda antes havia a dança renascentista. Antes disso não havia palcos, embora já houvesse dança, obviamente, e por isso esta minha história da dança vai até aí, porque é no Renascimento que se começa a pensar a dança como arte performativa, com necessidade de coreógrafos, de mestres de dança e com a percepção de que os bailarinos tinham de estudar e de saber música.

BICA 1  
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