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por João Moreira

Entrevista

Carina Martins

- Quando eu for grande quero ser bailarino. - Bailarino de quê? Há tantos tipos de dança. - Ai há? - Sim.

- E vocês, gostam de dançar? Braços abertos, como que indagando resposta numa plateia vazia, Bruno Cochat vai percorrendo em ritmo acelerado o texto de 1 HD Uma História da Dança, que estreará dia 28 de Janeiro, dias antes desta edição da Bica ver a luz do dia. Em cima do palco do Teatro Camões, os bailarinos vão fazendo alongamentos, enquanto a cenógrafa, Marta Carreiras, reajusta os cenários pensados e construídos em exclusivo para o espectáculo. Bruno continua a percorrer o guião: - A dança contemporânea pode acontecer fora do palco. Se calhar... até já está a acontecer ali... No meio da sala, escura e vazia de gente, uma bailarina inicia a interpretação de uma coreografia de Pina Bausch. Por momentos tudo para! Uma gravação de piano inunda o teatro e os olhares concentram-se naquela coreografia. Não há luzes direccionadas, não há público nas cadeiras, não há interrupção nos trabalhos de montagem, mas um silêncio inunda a sala e somos embalados por aqueles movimentos corporais. É como se a música estivesse dentro dela. É como se a música estivesse dentro de nós! Bruno continua a conversar com uma plateia de crianças imaginárias... - Mas afinal, o que está por detrás daquela parede? - Ali vai começar uma aula de ballet. - Ballet? O que é isso? Alinhados no palco 6 bailarinos vão fazendo exercícios com o auxílio de outras tantas barras. A parede de madeira crua de há momen-

Paulo Ribeiro Em Junho de 1977, por despacho do então Secretário de Estado da Cultura, David Mourão-Ferreira, foi fundada a Companhia Nacional de Bailado, que se apresentou publicamente pela primeira vez no Teatro Rivoli, no Porto, com estreia oficial em Dezembro desse mesmo ano, no Teatro Nacional de São Carlos. No ano em que comemora os seus 40 anos de actividade, o bailarino, coreógrafo, professor e programador cultural Paulo Ribeiro, assume a direcção artística da Companhia, substituindo Luísa Taveira que a dirigia desde 2010. Com um percurso invejável no mundo da dança que lhe granjeou diversos prémios internacionais, desde logo na sua estreia em Paris como coreógrafo no Concurso Volinine, Paulo Ribeiro acedeu a conversar com a BICA sobre este novo desafio e sobre os 18 anos que dedicou a Viseu, ao Teatro Viriato e à sua Companhia de Dança. Bica: Comecemos por esta mudança, da Direcção do Teatro Viriato em Viseu para a Companhia Nacional de Bailado, aqui em Lisboa, que acaba por constituir um reconhecimento do teu trabalho de muitos anos. Como é que encaras este desafio? Paulo Ribeiro: O desafio foi completamente imprevisto. Eu não estava nada à espera, aliás, foi um convite feito de uma semana para a outra. Mas, não escondo que tinha uma enorme vontade de voltar a trabalhar com uma companhia de dança com uma dimensão maior e guardava uma grande saudade dos meus tempos na Gulbenkian, porque o que me está no ADN é a dança. Por outro lado, foram 18 anos em Viseu e 18 anos completam um ciclo que é saudável que se termine dando lugar a outras pessoas. Bica: Deixa-me interromper para perguntar se essa transição está salvaguardada?

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- Quero ser bailarino do que me vai na alma.

BICA 1  
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