Page 13

Ana Bacalhau: Depois fomos ficando mais à vontade. Pedro da Silva Martins: Os palcos obrigaram-nos a crescer. Bica: De tal forma que foi em palco que apresentaram uma música que se tornou o hino de uma geração. Uma música que tomou as ruas durante as maiores manifestações a que se assistiu em Portugal desde os anos 60. Sentem que “Parva Que Eu Sou!” foi tão marcante que vos persegue? Ana Bacalhau: Não diria que seja algo que nos persegue, pelo contrário, é algo que acarinhamos sempre. Foi um momento muito especial que dificilmente se tornará a repetir na nossa história, porque foi espontâneo, foi muito para lá de uma comunicação musical ou artística. Foi mesmo um momento de comunhão com o público que nunca poderíamos adivinhar que iria acontecer quando estávamos a ensaiar canção. Nunca sonhámos que em palco resultasse daquela forma! Bica: Mas o vosso intuito era lançar uma provocação? Todos: Não!!!!! Ana Bacalhau: Não. Não, não, não! José Pedro Leitão: A ideia não era provocar, era contar uma história. Tínhamos quatro concertos nos Coliseus do Porto e Lisboa e como momento especial achámos por bem apresentar uma canção nova. Tínhamos três ou quatro e aquela estava com o arranjo mais avançado... Ana Bacalhau: Obviamente, sabíamos que aquela canção falava de situações que nos eram próximas, que nós conhecíamos tanto na pele como na pele dos nossos amigos...

José Pedro Leitão: Mas uma coisa era mostrar aquela canção a uma, duas, três, quatro pessoas, outra foi cantá-la no Coliseu... Bica: Portanto, nunca imaginaram o impacto que acabou por ter? Ana Bacalhau: Nunca, nunca, nunca. Nunca imaginámos. Nós cantámos “Parva Que Eu Sou!” com o mesmo espírito com que cantamos o “Movimento Perpétuo Associativo” ou “A Problemática Colocação de Mastro”. Aquele espírito da Deolinda de contar o que vê da forma mais honesta e sincera possível. Pedro da Silva Martins: Claro que “Parva Que Eu Sou!” era muito directa. Era uma canção muito diferente do expectável e talvez isso tenha dado um peso à canção que não esperávamos. Nós tínhamos a noção de que a canção era boa, falava de um tema da actualidade e tinha alguma verdade naquilo que transmitíamos. Bica: Tinha até muita verdade! Pedro da Silva Martins: ...(risos). De repente ganhou toda essa dimensão, porque fez sentido para as pessoas e as pessoas tomaram-na como uma canção que as cantava, que contava episódios da sua vida ou da vida de pessoas próximas. Mas o que é mesmo mais impressionante é a dimensão que a canção tomou muito rapidamente. Saiunos das mãos num ápice. Nós tocámo-la e passadas umas horas estava no youtube a espalhar-se de forma viral. Isso foi incrível! Eu lembro-me de abrirmos o facebook e a canção estar por todo o lado e começarmos a ser bombardeados até por meios que não nos são nada familiares, do tipo, máquinas partidárias, jornalistas de política, comentadores. Isso também foi um retrato do país. A canção e todo o fenómeno à volta da canção acabam por ser um retrato do país. Ana Bacalhau: Um retrato político. Mais do que a canção, ela própria, a reacção à canção acabou por ser um retrato fiel do país político. Pedro da Silva Martins: Num dia diziam bem de nós, passados dois dias a mesma pessoa dizia o pior de nós. Apareceram comentadores políticos a fazer de críticos de música, a arrasar uma canção. Tudo isso tem graça. E pessoas que disseram muito mal de nós e agora dizem bem... Ana Bacalhau: ...E que já nos pediram desculpa por aquilo que disseram. Pedro da Silva Martins: Teve tudo isso, mas foi, acima de tudo, um momento muito marcante, muito bonito.

[13]

tínhamos bandas com muitos elementos e quisemos que a Deolinda fosse uma banda mais pequena, mais fácil de pôr a tocar em qualquer lado. E foi tão em qualquer lado, que de repente estávamos em todo o lado. (risos). E em todo lado implicava adaptações de som e também de performance da Ana e de todos nós muito complicadas. Muitas vezes, acabávamos o espectáculo e questionávamo-nos: como é possível três marmanjos com instrumentos de cordas, sem bateria, sem percussão e com a Ana a andar de um lado para o outro, termos tido este impacto junto das pessoas? E isso aconteceu em festivais, a ombrear com outras bandas com baterias e guitarras e baixos elétricos... e nós lá, ao pé deles a fazer o nosso trabalho. Isso foi extraordinário.

BICA 1  
BICA 1  
Advertisement