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Ana Bacalhau: Das duas coisas. Por um lado, da curiosidade natural de cada músico em querer experimentar, em querer perceber até onde pode ir esta sua ideia artística, o que num conjunto de quatro músicos se acentua ainda mais, por outro, cimentado por uma segurança, uma confiança que vem de experiências com a Deolinda e de experiências fora da Deolinda, em que testámos outras linguagens, outras abordagens, outras formas de fazer que nos deram essa confiança, essa segurança para apostarmos nessa curiosidade natural que todos temos em ver: Epá, deixe ver até onde é que a Deolinda estica! (risos)... Bica: Está a esticar muito bem... (risos). Luís José Martins: Acho que foi uma evolução natural. Tem muito a ver com o que a Ana disse, mas acho que os dois primeiros discos já lançam as coordenadas que indiciam as coisas que acontecem hoje. Não nos podemos esquecer que o primeiro disco tem “Clandestino” e “Lisboa Não É Cidade Perfeita” e o segundo tem “Uma Ilha”, que são já sugestões de caminhos diferentes. Claro que a partir do momento em que assumimos abrir a banda a outras colaborações, com mais produção e agora em “Outras Histórias” com a eletrónica, essas influências parecem muito mais acentuadas. Mas, acho que as coordenadas já estavam lançadas desde o início. Ser uma banda com vontade de explorar e com vontade de experimentar dentro da música popular portuguesa. Bica: Como é que se faz essa exploração, essa procura? Ana Bacalhau: Primeiro, tem de se fazer o trabalho de casa, ouvir muita música portuguesa e não só, para perceber o que é realmente português. O que é português no mundo e português de Portugal. E depois, tem de se andar muito tempo em laboratórios de outras bandas a experimentar, acertando ou não. (risos).

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José Pedro Leitão: Encontrar um som para a Deolinda não foi bem uma procura, passou muito mais por tocar juntos e perceber como é que soava, como é que devia soar, como é que achávamos que resultava. Esse foi o grande caminho que nos permitiu, mais à frente, abrir a Deolinda a outros instrumentos que não estiveram presentes no primeiro e segundo disco. Já tínhamos a nossa identidade mais cimentada. Ana Bacalhau: Sim! Os dois primeiros discos são a afirmação do nosso ADN! Depois partimos para a descoberta dos diversos

matizes da Música Popular Portuguesa, que é uma coisa muito vasta, onde, felizmente, cabe muita coisa... Pedro da Silva Martins: Pode ser tudo.

José Pedro Leitão: O popular pode ser bombos e ferrinhos, muita percussão, o popular pode ser ligeiro... Ana Bacalhau: Guitarra portuguesa, sanfona... José Pedro Leitão: Pode ser muita coisa e quando a canção nos empurra para uma dessas direccções... Bica: Como é que vocês sentem que uma canção vos encaminha em determinada direcção? Pedro da Silva Martins: A canção pede! A canção pede o caminho. Percebemos isso bem pelo número de vezes que desistimos de determinado caminho. Sentimos que não é o caminho certo. Quando encontramos o caminho... sabemos. Bica: E essa descoberta é feita em conjunto? Pedro da Silva Martins: Sim. Surge nos ensaios... José Pedro Leitão: Porque não pôr aqui uma percussão aqui? Ou umas cordas?.... Pedro da Silva Martins: A canção, por si, já pede... Ana Bacalhau: São dicas que a melodia dá. É o fato à medida da canção. Pedro da Silva Martins: E já há uma identidade que nasce do casamento das nossas linguagens pessoais. Quando a guitarra casa com o registo da Ana, isso já é o ADN Deolinda e percebe-se que coisa está lá! É difícil explicar, mas já nos é fácil descobrir quais os casamentos que irão funcionar. São coisas muito intuitivas que mal começamos a trabalhar acabam por acontecer. Cada vez é mais rápido chegarmos ao lugar pretendido. Bica: A Deolinda é um quarteto sui generis, que funcionou muito bem em disco e depois funcionou ainda melhor em palco, o que não é muito comum, sobretudo, no tipo de música que vocês fazem. Foi algo que aconteceu de forma natural? Pedro da Silva Martins: Acho que nos fomos adaptando às provas que tínhamos pela frente. Para mim, a ideia sempre foi tocar em palco e facilitar isso ao máximo. Na altura

BICA 1  
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