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REVISTA

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

ANO 1 Nº1 FEV.MAR.ABR. 2017

REVISTA


A NOBREZA VEM DO BERÇO Berço da Touriga Nacional, a mais nobre casta tinta portuguesa, e do Encruzado, uma das mais nobres entre as brancas, os vinhos do Dão refletem uma elegância rara: distintos, robustos, sedutores e cheios de alma porque nobreza é algo que vem do berço.

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Viaje e explore a elegância na Rota de Enoturismo do Dão. Mais informações em www.rotavinhosdao.pt

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revista

SOM João Moreira | Editorial # 3 Deolinda | Grande entrevista # 4 José Almeida | Sonoridades # 16 Raquel Castro | Ouvidos ao alto # 18 M. Eduarda Pereira da Silva | Acústica, para quê? # 20 Fernando Madaíl | O silêncio lisboeta nunca existiu # 21 Ana Motta Veiga | Memórias da casa antiga # 24 Bernardo Mascarenhas de Lemos | Low, mid, high # 26 Raquel Castro | Invisibles Places Sound # 31 Martim Crawford | Som no cinema # 32 Embaixador Francisco Seixas da Costa | Em Lisboa, pare, escute e olhe o ruído # 34 Abyss & Habidecor | Quando o melhor do mundo é português # 38 Carla Graça | Os desafios da urbanidade face às alterações climáticas # 46 Bernardo Mota Veiga | F(r)icção # 48 António Ferrari | Arredar a pós-verdade # 51 Mons. Paul Tighe | Entrevista # 52 APSA | A Casa Grande da integração # 56 MAAT | O museu que devolveu o rio à cidade # 68 Lídia Fernandes | Debaixo dos nossos pés # 78 Raquel Henriques da Silva e António Miranda | A Lisboa que teria sido # 81 Francisco Duarte Coelho | Segredos de Lisboa # 84 Pedro Mascarenhas Cassiano Neves | Retratos do património # 85 João Albuquerque Carreiras | Lisboa verde # 86 Ana Luísa Soares e Ana Raquel Cunha | Árvores de Lisboa # 88 André Serpa Soares | A escala humana de Lisboa # 89 Constança Martins da Cunha | Lisboa sem açúcar # 90 Marta Gonzaga | Pão com marmelada # 92 Andreia Correia e Manuel Vicente | Alface fora d’água # 94 LISBONAR | O nosso guia de Lisboa # 99 Cátia Mingote | Olhar Lisboa à noite # 110 Paulo Moura | Um olhar humano sobre o mundo # 114 Tiago Salazar | Deus segundo Espinoza # 123 Tatiana Salém Levy | Conversa da china # 124 Tiago Salazar | O andarilho anarco-individualista # 129 Fernando Pinto do Amaral | Farmacologia # 132 Francisco Mallmann | Doze considerações sobre o verão quando aí é inverno # 134 Maria Bragança Campilho | Lisboa aos pés do Miradouro da Graça # 136 Pedro Albuquerque | Aquilino sem palavras # 138 Duarte Cordeiro de Sousa | Lugar aos novos # 142 João Albuquerque Carreiras | Postais perdidos # 144 Tó Trips | Entrevista # 146 Oma Nata # 157 Companhia Nacional de Bailado # 158 Duarte Bénard da Costa | Espaço absoluto # 164 Bernardo Mascarenhas de Lemos | Entrevista a Salvador Salazar e António Garcia # 167 Graça Canto Moniz | Um feminismo tranquilo # 171 Venónica Mello | Uma nova Lisboa e a visão do pássaro # 172 João Júlio Rumsay Teixeira | A Praça de Lisboa # 174 André Pinguel | A música dos vinhos # 176 Lopo de Castilho | Saca-rolhas chave da capital # 178 Pedro Santo Tirso | Do bom bebedor o terror # 180 Mariana Claro | Mil e uma maneiras de fazer bacalhau # 182 Pedro Nápoles | Raio gourmetizador # 184 Joana da Franca | Chapéus há muitos # 185 Mário de Carvalho M. | Pedro Crispim # 187 Isaura Riethmuller | Talkin Skins # 190 Lopo de Castilho | Turismo equestre # 195 Quinta do Medronheiro # 203 Luís da Silva Fernandes | Visitai Viseu com Almeida Moreira # 206


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Editorial “O silêncio não existe porque é o constante rumor de uma inexistência. O que se ouve, para além do movimento da cidade, é o monótono murmúrio do nada.” António Ramos Rosa, in “Relâmpago de Nada” Do que mais me recordo é de que a casa tinha alma. Sons, cheiros, movimento e uma permanente desarrumação inerente às casas com vida. Livros largados despreocupadamente sobre sofás, com os cantos das folhas dobrados, marcando o término da última leitura; cartas abertas, esquecidas sobre as cómodas; jornais dobrados sobre a mesa, manchados aqui e ali por gotículas de café escuro; casacos atirados para cima das cadeiras de canto; mesas redondas cobertas de molduras de prata com retratos de rostos familiares amarelecidos pelo tempo; chávenas abandonadas em velhos contadores de pau santo; um suavíssimo perfume de alfazema pelos corredores; um roupão perdido há muito por trás da porta da casa de banho; o ranger da janela da sala de jantar e uma interminável azáfama na cozinha. Lá fora, o cheiro a terra remexida, misturado com o aroma intenso das flores e das frutas amadurecidas. Crianças largadas às suas brincadeiras, fazendo bolos de areia, subindo às árvores, rolando alegremente na erva ainda húmida do orvalho nocturno, acompanhando, encantadas, carreiros de formigas ou surpreendendo-se com o canto dos pardais. Do que mais me recordo é de que a casa tinha alma. Uma alma que lhe vinha dos sons que marcavam o dia-a-dia. Vozes de comando na cozinha interrompidas aqui e ali pelo barulho ensurdecedor de tampas de panelas atiradas ao acaso para o lava loiça; o uivo lancinante do vento forçando entrada pelas frestas da porta do primeiro andar; o reconfortante crepitar da lareira em noites de Inverno; o suave arpejo das folhas do velho castanheiro nos crepúsculos de Verão; o latido longínquo dos cães; a voz melodiosa de Chet Baker vinda do escritório e embalando toda a casa e o silêncio. Acima de tudo o silêncio.

Propriedade: Studiobox, Publicidade e Gestão de Meios, Unipessoal Lda Direcção: Bruno Esteves Edição: João Moreira, João Albuquerque Carreiras Fotografia: Carina Martins, Cátia Mingote, Hugo Macedo, Patrícia Belo Arte: Studiobox Ilustração: José Almeida, Pedro Albuquerque Identidade Corporativa: Jorge Barrote Comercial: geral@revistabica.com +351 962 706 373 / 968 405 494 Impressão: Tondelgráfica SA Periodicidade: Trimestral Tiragem: 5 000 unid. Depósito legal: 416462/16 Interdita a reprodução de quaisquer textos ou ilustrações por quaisquer meios. A Revista Bica é escrita em português, sem utilização do acordo ortográfico. Os conteúdos dos textos e as opiniões neles expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. APOIOS:

É de sons que falamos nesta edição da Bica. Dos sons antigos que fazem as memórias das casas e das cidades e de sons novos que lhes entregam outro colorido; dos sons que incomodam e de outros, reconfortantes, que atenuam a solidão. Dos sons que, de uma forma ou de outra, são a marca indelével da nossa identidade. Como o das inconfundíveis paisagens sonoras que os Deolinda desenham há mais de 10 anos para nossa alegria, ou como os de Tó Trips, o virtuoso da guitarra, que nos transporta em harmoniosas viagens pelo mundo. Sons de humanidade que se sobrepõem aos sons dos tiros e das bombas, como nos conta Paulo Moura e sons de Lisboa descritos com humor pelo Embaixador Seixas da Costa e pelo Fernando Madaíl. Sons dos vinhos descobertos pelo André Pinguel e sons que se entranham no nosso corpo e nos impelem a dançar, como presenciámos nos ensaios da Companhia Nacional de Bailado. Sons electrónicos explorados pelo Bernardo Mascarenhas de Lemos e o som do silêncio que a Tatiana Salém Levy diz ter descoberto em Lisboa. É de sons que falamos nesta edição da Bica. Espero que gostem!

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por João Moreira


Grande Entrevista

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Deolinda


por João Moreira

Hugo Macedo

Um ano depois de lançarem um dos melhores álbuns de música portuguesa das últimas décadas, “Outras Histórias”, os Deolinda apresentam-se nos dois Coliseus, de Lisboa e Porto, para comemorar 10 anos (!) de carreira. Quando esta reportagem sair à rua, já ela estará tomada pelas histórias destas duas noites de festa de arromba, embaladas por bailarico e funaná, por dança de roda e bombos estridentes, por uma novíssima bossa portuguesa ou por marchinhas de carnaval do recôncavo baiano. Sim, porque a música dos Deolinda é tudo isto e muito mais! E o muito mais, é o cuidado com que Pedro da Silva Martins usa a nossa língua, fazendo de cada canção uma elaborada história portuguesa contada a partir dos pequenos nadas do dia-a-dia. O resto é o contrabaixo de Zé Pedro Leitão imiscuindo-se nos devaneios musicais das duas guitarras dos irmãos Martins com a voz de Ana Bacalhau. Tem sido assim desde o começo. Desde os tempos dos ensaios no restaurante de família na Damaia e das primeiras apresentações públicas em pequenos espaços de Lisboa: animadas conversas em família tendo por mote a música popular portuguesa que deram origem a “Canção ao Lado”, primeiro álbum do grupo que rapidamente atingiu o impressionante galardão de quadrupla platina e a quarta posição no World Music Charts Europe. Dois anos depois “Um Contra o Outro”, single de apresentação do novo álbum “Dois Selos e Um Carimbo”, considerado pelo Sunday Times como um dos melhores discos de World Music de 2010, bate recordes nos tops e confirma a Deolinda como a mais original e consistente banda de música popular portuguesa do novo milénio. No início de 2011 “Parva Que Sou!”, apresentada ao vivo no Coliseu de Lisboa, torna-se hino de uma geração estrangulada pela falta de perspectivas. O Deutsche Welle chama-lhe “banda sonora da crise” e os Deolinda transformam-se, mesmo que

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10 anos de intervenção popular e “outras histórias”


inconscientemente, no rosto da contestação social. “Sou da geração sem remuneração” começava Ana Bacalhau, olhos cerrados, corpo resignado, avançando num crescendo que terminava com “sou da geração eu já não posso mais, que esta situação dura há tempo de mais e parva eu não sou”, num grito de revolta que abraçou o Coliseu e partiu para as ruas e para as redes sociais. Nunca se vira nada assim!!! A música voltara a intervir social e politicamente e a geração à rasca ganhava uma voz. Em 2013 lançam “Mundo Pequenino”, depois de uma tournée pela Europa, que lhes valeu o epíteto de “uma das melhores bandas europeias” pelo britânico “The Times”. E em 2016 decidem juntar ao quarteto alguns músicos muito lá de casa e outros, menos useiros e vezeiros nestas coisas da música popular, para fazer “Outras Histórias”, o melhor álbum de música popular da última década. Dito assim até parece simples, e talvez seja pelo menos para eles que “brincam” com isto da música desde crianças.

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Pelo meio, escreveram, compuseram, cantaram e tocaram um pouco por todo o lado. Ana Bacalhau reuniu em “15” as músicas que a marcaram desde a adolescência e encheu de encanto a Casa da Música e o São Luiz em seis espectáculos inolvidáveis. Cantou Amália, Piaf, Janis Joplin, Elis Regina, Pearl Jam e muitos outros, num exercício de irrepreensível versatilidade. Para o álbum “Cumplicidades” de António Chainho, gravou uma música com letra de sua autoria, “Certo Dia” e emocionou o exigente público do Festival Caixa Alfama, num espectáculo dedicado em exclusivo a fados tradicionais. Pedro da Silva Martins, além de compor todo o reportório de Deolinda, escreveu músicas para Mariza, António Zambujo, Cristina Branco, Marafona e muitos outros. Venceu o prémio de melhor canção do ano de 2012 atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores, pelo tema “Desfado”, que deu título ao álbum de Ana Moura. Exímio contador de histórias, aventurou-se como dramaturgo com a peça infantil “Retrato Falado”, a convite de João Fazenda, com quem editaria, um ano mais tarde, o livro para crianças “Porque Chora o Rei?”, em parceria com Leonor Tenreiro. Prolíferos, irrequietos, talentosos, genuínos, os Delinda conversaram com a

BICA no foyer do Teatro da Trindade, momentos antes do último ensaio para o concerto solidário que realizaram em Lisboa com Fábia Rebordão no final do ano passado. Uma conversa sobre estes dez anos de intensa actividade, sobre a música popular portuguesa, sobre Lisboa, sobre o Fado e sobre um retrato do país que vão desenhando a partir dos pequenos nadas do dia-a-dia. “Acho que há muita dignidade quando se consegue falar de coisas simples de uma forma artística”. Pedro da Silva Martins dixit. Bica: Vamos começar por “Outras Histórias” que, segundo sei, estiveram para ser “outra desgraça”, mas felizmente resultaram num dos melhores álbuns de 2016 (risos). Contem-nos a história dessa dificuldade em encontrar nome para este disco que acaba por marcar a comemoração dos vossos 10 anos de carreira e que, mantendo uma lógica de continuidade, pelo menos em relação ao anterior, “Mundo Pequenino”, traz novos sons, novas roupagens ao mundo de Deolinda. Ana Bacalhau: Nós tivemos dificuldade com o nome. Mas, tem sido assim com todos os nossos álbuns. De forma alternada. No primeiro álbum não tivemos, no segundo tivemos grande dificuldade, no terceiro nem tanto. Agora, neste, tivemos alguma. Nós tiramos sempre os nossos nomes da letra de uma das músicas e neste disco temos muitas expressões que podíamos utilizar, mas lá está, quando a expressão que mais nos saltou à vista foi “outra desgraça”, estão a ver!!! (risos). Depois lembrámos de “outras histórias” e decidimos que era uma forma interessante de apresentar este trabalho, por um lado por acentuar a palavra “história”, identificativa do ADN Deolinda, um projecto que quer contar histórias, por outro, porque o termo “outras” indiciava alguns caminhos, que, se calhar, as pessoas não estavam à espera que estivessem explorados neste disco. Bica: Que caminhos são esses? Alguns, imagino, passam pelas colaborações que decidiram trazer ao álbum. José Pedro Leitão: As músicas levaramnos a essas colaborações, umas mais óbvias que outras. No caso do Manuel Cruz foi uma colaboração óbvia por fazer parte das nossas influências. Teve uma banda emblemática, os “Ornatos Violeta”, que nos ajudaram a olhar de forma cuidada para a língua portuguesa. No caso do Filipe Melo, que fez os arranjos para as cordas, é também muito próximo, além de ser da nossa geração e veio enrique-


cer muito as canções, por isso foi outra das colaborações óbvias. A mesma coisa com o Eduardo na harpa. Já o Riot foi talvez a colaboração menos óbvia, mas na “Velha e o DJ” resultou de forma extraordinária, com aquele fundo de funaná, que foi sugestão dele.

que andávamos a fazer musicalmente facilitou muito, obviamente. Ana Bacalhau: E tivemos a sorte de termos instrumentos...

Ana Bacalhau: Aliás, os primeiros ensaios da Deolinda foram na Linha de Sintra de onde são alguns membros dos Buraka e essa vivência da Linha de Sintra, dos subúrbios, de uma coisa muito urbana, profundamente urbana, mas com traços de alguma ruralidade trazida por algumas pessoas das gerações anteriores que vieram para Lisboa há muito anos e que mantiveram esses traços de ruralidade, está presente nos dois projetos, embora de formas diferentes, com visões diferentes e acho que é isso que faz com que esta junção soe a algo que faça sentido.

Ana Bacalhau: Isso, compatíveis. Imagina se um tocasse fagote e outro ferrinhos? Era giro. (risos).

Pedro da Silva Martins: Sim. Ecos dessa ruralidade, talvez. Da ruralidade rural, que de certa forma se manifestava na zona urbana de uma forma surrealista. Acho que esse olhar um pouco surreal era bem vincado no início e continua até hoje. Nós não somos indiferentes a algo que seja estranho, mas ao mesmo tempo típico. Portanto, uma estranheza típica é-nos... Ana Bacalhau: Familiar... Pedro da Silva Martins: ...um pouco familiar, que acho que é, também, uma das características da Deolinda. Bica: Vocês são a banda mais familiar do país... (risos). Deolinda: (Risos). Bica: Isso facilitou? O facto de existir essa relação familiar próxima, que depois se acentuou com o casamento de Ana com o Zé Pedro? Cada um de vocês vem de experiências musicais diferentes: uns mais do jazz, outros mais do fado e até da clássica. Como é que isso se conjugou de forma a criar este som tão próprio? Luís José Martins: Nós já brincávamos desde a adolescência com a música e com as canções. Entretanto, seguimos caminhos diferentes, eu, o meu irmão e a Ana, sobretudo a partir do momento que a Ana entrou para os Lupanar. Aí os caminhos afastaram-se ainda mais, mas houve sempre uma vontade antiga de fazer coisas em conjunto. Essa vontade congregada ao facto de já nos conhecermos e de conhecermos também o

Luís José Martins: Era giro, mas se calhar não era tão fácil. Fazíamos um Ensemble. (gargalhada geral). Mas, claro que isso também contribuiu. Havia essa vontade. Havia uma... sintonia. Estávamos em sintonia para fazer alguma coisa e isso percebeu-se no momento em que experimentámos e as coisas colaram, fizeram todo o sentido. Bica: Contem-nos um bocadinho desse percurso de dez anos, quatro discos depois, elogios no The Times, no Sunday Times, na Monocle, prémios no Blitz, enorme sucesso por todo o lado, discos de platina, de dupla platina, uma música que ficará para sempre como o hino de uma geração (já lá iremos). Contem-nos como foi este caminho da Deolinda? Luís José Martins: Foram dez anos...E se dez anos na vida de uma pessoa já é muito tempo, já implica muitas mudanças, na vida de uma banda é ainda mais marcante. No nosso caso, foi incrível, surpreendente e ao mesmo tempo muito rápido. Passaram a voar! Bica: Com um primeiro disco que vos colocou logo num patamar quase inultrapassável... Pedro da Silva Martins: Sim! O que nos levou a palcos onde nunca imaginámos tocar e isso foi surpreendente e incrível! Esta caminhada, esta viagem da Deolinda tem sido extraordinária... Claro que temos crescido como músicos, individualmente, e a Deolinda reflecte esse crescimento. Bica: Um crescimento que passa por um acentuar de novas influências, muito vincadas nos dois últimos discos “Mundo Pequenino” e, principalmente em “Outras Histórias”. O assumir desses novos caminhos resultou mais desse crescimento individual e da assimilação das diversas experiências que, entretanto, cada um de vós foi protagonizando a solo ou de uma evolução natural da banda? [9]

Bica: Essa ruralidade urbana esteve também na génese da Deolinda?

Bica: Compatíveis?


Ana Bacalhau: Das duas coisas. Por um lado, da curiosidade natural de cada músico em querer experimentar, em querer perceber até onde pode ir esta sua ideia artística, o que num conjunto de quatro músicos se acentua ainda mais, por outro, cimentado por uma segurança, uma confiança que vem de experiências com a Deolinda e de experiências fora da Deolinda, em que testámos outras linguagens, outras abordagens, outras formas de fazer que nos deram essa confiança, essa segurança para apostarmos nessa curiosidade natural que todos temos em ver: Epá, deixe ver até onde é que a Deolinda estica! (risos)... Bica: Está a esticar muito bem... (risos). Luís José Martins: Acho que foi uma evolução natural. Tem muito a ver com o que a Ana disse, mas acho que os dois primeiros discos já lançam as coordenadas que indiciam as coisas que acontecem hoje. Não nos podemos esquecer que o primeiro disco tem “Clandestino” e “Lisboa Não É Cidade Perfeita” e o segundo tem “Uma Ilha”, que são já sugestões de caminhos diferentes. Claro que a partir do momento em que assumimos abrir a banda a outras colaborações, com mais produção e agora em “Outras Histórias” com a eletrónica, essas influências parecem muito mais acentuadas. Mas, acho que as coordenadas já estavam lançadas desde o início. Ser uma banda com vontade de explorar e com vontade de experimentar dentro da música popular portuguesa. Bica: Como é que se faz essa exploração, essa procura? Ana Bacalhau: Primeiro, tem de se fazer o trabalho de casa, ouvir muita música portuguesa e não só, para perceber o que é realmente português. O que é português no mundo e português de Portugal. E depois, tem de se andar muito tempo em laboratórios de outras bandas a experimentar, acertando ou não. (risos).

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José Pedro Leitão: Encontrar um som para a Deolinda não foi bem uma procura, passou muito mais por tocar juntos e perceber como é que soava, como é que devia soar, como é que achávamos que resultava. Esse foi o grande caminho que nos permitiu, mais à frente, abrir a Deolinda a outros instrumentos que não estiveram presentes no primeiro e segundo disco. Já tínhamos a nossa identidade mais cimentada. Ana Bacalhau: Sim! Os dois primeiros discos são a afirmação do nosso ADN! Depois partimos para a descoberta dos diversos

matizes da Música Popular Portuguesa, que é uma coisa muito vasta, onde, felizmente, cabe muita coisa... Pedro da Silva Martins: Pode ser tudo.

José Pedro Leitão: O popular pode ser bombos e ferrinhos, muita percussão, o popular pode ser ligeiro... Ana Bacalhau: Guitarra portuguesa, sanfona... José Pedro Leitão: Pode ser muita coisa e quando a canção nos empurra para uma dessas direccções... Bica: Como é que vocês sentem que uma canção vos encaminha em determinada direcção? Pedro da Silva Martins: A canção pede! A canção pede o caminho. Percebemos isso bem pelo número de vezes que desistimos de determinado caminho. Sentimos que não é o caminho certo. Quando encontramos o caminho... sabemos. Bica: E essa descoberta é feita em conjunto? Pedro da Silva Martins: Sim. Surge nos ensaios... José Pedro Leitão: Porque não pôr aqui uma percussão aqui? Ou umas cordas?.... Pedro da Silva Martins: A canção, por si, já pede... Ana Bacalhau: São dicas que a melodia dá. É o fato à medida da canção. Pedro da Silva Martins: E já há uma identidade que nasce do casamento das nossas linguagens pessoais. Quando a guitarra casa com o registo da Ana, isso já é o ADN Deolinda e percebe-se que coisa está lá! É difícil explicar, mas já nos é fácil descobrir quais os casamentos que irão funcionar. São coisas muito intuitivas que mal começamos a trabalhar acabam por acontecer. Cada vez é mais rápido chegarmos ao lugar pretendido. Bica: A Deolinda é um quarteto sui generis, que funcionou muito bem em disco e depois funcionou ainda melhor em palco, o que não é muito comum, sobretudo, no tipo de música que vocês fazem. Foi algo que aconteceu de forma natural? Pedro da Silva Martins: Acho que nos fomos adaptando às provas que tínhamos pela frente. Para mim, a ideia sempre foi tocar em palco e facilitar isso ao máximo. Na altura


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Ana Bacalhau: Depois fomos ficando mais à vontade. Pedro da Silva Martins: Os palcos obrigaram-nos a crescer. Bica: De tal forma que foi em palco que apresentaram uma música que se tornou o hino de uma geração. Uma música que tomou as ruas durante as maiores manifestações a que se assistiu em Portugal desde os anos 60. Sentem que “Parva Que Eu Sou!” foi tão marcante que vos persegue? Ana Bacalhau: Não diria que seja algo que nos persegue, pelo contrário, é algo que acarinhamos sempre. Foi um momento muito especial que dificilmente se tornará a repetir na nossa história, porque foi espontâneo, foi muito para lá de uma comunicação musical ou artística. Foi mesmo um momento de comunhão com o público que nunca poderíamos adivinhar que iria acontecer quando estávamos a ensaiar canção. Nunca sonhámos que em palco resultasse daquela forma! Bica: Mas o vosso intuito era lançar uma provocação? Todos: Não!!!!! Ana Bacalhau: Não. Não, não, não! José Pedro Leitão: A ideia não era provocar, era contar uma história. Tínhamos quatro concertos nos Coliseus do Porto e Lisboa e como momento especial achámos por bem apresentar uma canção nova. Tínhamos três ou quatro e aquela estava com o arranjo mais avançado... Ana Bacalhau: Obviamente, sabíamos que aquela canção falava de situações que nos eram próximas, que nós conhecíamos tanto na pele como na pele dos nossos amigos...

José Pedro Leitão: Mas uma coisa era mostrar aquela canção a uma, duas, três, quatro pessoas, outra foi cantá-la no Coliseu... Bica: Portanto, nunca imaginaram o impacto que acabou por ter? Ana Bacalhau: Nunca, nunca, nunca. Nunca imaginámos. Nós cantámos “Parva Que Eu Sou!” com o mesmo espírito com que cantamos o “Movimento Perpétuo Associativo” ou “A Problemática Colocação de Mastro”. Aquele espírito da Deolinda de contar o que vê da forma mais honesta e sincera possível. Pedro da Silva Martins: Claro que “Parva Que Eu Sou!” era muito directa. Era uma canção muito diferente do expectável e talvez isso tenha dado um peso à canção que não esperávamos. Nós tínhamos a noção de que a canção era boa, falava de um tema da actualidade e tinha alguma verdade naquilo que transmitíamos. Bica: Tinha até muita verdade! Pedro da Silva Martins: ...(risos). De repente ganhou toda essa dimensão, porque fez sentido para as pessoas e as pessoas tomaram-na como uma canção que as cantava, que contava episódios da sua vida ou da vida de pessoas próximas. Mas o que é mesmo mais impressionante é a dimensão que a canção tomou muito rapidamente. Saiunos das mãos num ápice. Nós tocámo-la e passadas umas horas estava no youtube a espalhar-se de forma viral. Isso foi incrível! Eu lembro-me de abrirmos o facebook e a canção estar por todo o lado e começarmos a ser bombardeados até por meios que não nos são nada familiares, do tipo, máquinas partidárias, jornalistas de política, comentadores. Isso também foi um retrato do país. A canção e todo o fenómeno à volta da canção acabam por ser um retrato do país. Ana Bacalhau: Um retrato político. Mais do que a canção, ela própria, a reacção à canção acabou por ser um retrato fiel do país político. Pedro da Silva Martins: Num dia diziam bem de nós, passados dois dias a mesma pessoa dizia o pior de nós. Apareceram comentadores políticos a fazer de críticos de música, a arrasar uma canção. Tudo isso tem graça. E pessoas que disseram muito mal de nós e agora dizem bem... Ana Bacalhau: ...E que já nos pediram desculpa por aquilo que disseram. Pedro da Silva Martins: Teve tudo isso, mas foi, acima de tudo, um momento muito marcante, muito bonito.

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tínhamos bandas com muitos elementos e quisemos que a Deolinda fosse uma banda mais pequena, mais fácil de pôr a tocar em qualquer lado. E foi tão em qualquer lado, que de repente estávamos em todo o lado. (risos). E em todo lado implicava adaptações de som e também de performance da Ana e de todos nós muito complicadas. Muitas vezes, acabávamos o espectáculo e questionávamo-nos: como é possível três marmanjos com instrumentos de cordas, sem bateria, sem percussão e com a Ana a andar de um lado para o outro, termos tido este impacto junto das pessoas? E isso aconteceu em festivais, a ombrear com outras bandas com baterias e guitarras e baixos elétricos... e nós lá, ao pé deles a fazer o nosso trabalho. Isso foi extraordinário.


Bica: O que é que mudou no país de “Parva Que Sou!” até hoje? Ana Bacalhau: (Suspiro)... Bom... algumas coisas durante um tempo até pioraram. Agora sinto que estão a melhorar um bocadinho. Durante uns tempos, olhou-se mais para os números de uma tabela de Excel do que para as pessoas. Agora, felizmente, estamos num momento político em que se está a procurar, com o pouco que se tem distribuir pelos que mais precisam. Eu acho que esse é o rácio justo. É o que eu sinto. Pedro da Silva Martins: Estamos em obras, vamos lá ver como é que vai ficar. (risos). Aliás, está tudo em obras! Bica: Aproveitando essa deixa das obras vamos falar um bocadinho de Lisboa (risos), até porque acho que são todos lisboetas. De que forma é que Lisboa vos inspira quanto estão a compor, quando estão a cantar e a tocar, quando estão a levar a vossa música lá fora? Ana Bacalhau: Todos não! Ele é um estranho aqui. (risos) – Ana Bacalhau referindose ao marido, José Pedro Leitão. - Ele é de Aveiro. José Pedro Leitão: Sim, eu nasci em Aveiro. Vivi até aos dezoito em Aveiro. Aveiro é a minha cidade. Mas já moro em Lisboa há tanto tempo quanto morei lá. Gosto muito de Lisboa e acho que Lisboa está no caminho positivo. Ana Bacalhau: Humm! É muito diferente de quando cá chegaste, não é? – Ana dirigindose ao marido. José Pedro Leitão: Sim, bem diferente. O Porto também está muito diferente da época em que lá estudei. Eu acho que Portugal está muito diferente. As pessoas saem mais para a rua, valorizam mais o que têm, estão a perceber, finalmente, que temos pequenas coisas, coisas corriqueiras, que acabam por ter implicações positivas na forma como as pessoas se relacionam. Por exemplo, um óptimo clima que nos permite andar na rua o ano todo... Ana Bacalhau: Em Lisboa temos um rio, uma luz fantástica...

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Bica: Mas, de que forma é que Lisboa vos inspira? Por essa luz? Pelo Tejo? Pedro da Silva Martins: Lisboa é indissociável daquilo que cantamos. As nossas experiências musicais são de Lisboa. Nós

pertencemos a uma família lisboeta que tem raízes no fado, que canta e toca. Pessoas ligadas a uma vivência de Lisboa, não só de trabalho, mas também da cultura e da música da própria cidade e isso, claro que nos influenciou bastante. Depois, acho que é uma cidade que sempre foi e continua a ser uma fonte de inspiração. É das poucas cidades no mundo que têm uma canção própria, além de ser das cidades mais cantadas do mundo.

Ana Bacalhau: Uma coisa engraçada é o facto dos lisboetas acharem que não têm sotaque. Eu, sendo lisboeta, sei que têm sotaque e muito, mas não é aquele sotaque com que se goza. Geralmente, as pessoas de fora de Lisboa acham que sotaque de Lisboa é aquele sotaque mais queque. Não é o sotaque queque. O sotaque de Lisboa é o sotaque de Alfama e eu tenho esse sotaque. Por exemplo, no “Fado Toninho”, eu faço uso dessa coisa mais bairrista, mais lisboeta, mas depois noutras canções, que pedem se calhar uma interpretação mais sofisticada, mais cosmopolita, faço uso dessa outra vertente que Lisboa também tem de estar aberta a este estrangeiro todo que nos entra porta dentro. Lisboa tendo sido sempre um porto de influências e de trocas comerciais, mas também de pessoas e de culturas diferentes e tem sabido incorporar isso. Portanto, é essa influência que eu sinto que a minha cidade me dá, como forma de trabalho para interpretar as canções. Pedro da Silva Martins: Nem que seja sentir o dia-a-dia, porque isso reflete-se sempre no trabalho que se faz e nós acabamos por ser esponjas do que vivemos e do local onde vivemos e isso transparece nas pequenas coisas que vamos pondo nas nossas canções. Bica: Ana, ao longo destes últimos três anos estiveste envolvida numa série de projectos muito ligados ao Fado, entre eles um concerto de fados tradicionais durante o Caixa Alfama. Como é que foi essa experiência? Ana Bacalhau: Safei-me. Não morri nem me mataram. (gargalhada). Bica: Pelo contrário, foi um concerto elogiadíssimo! Além disso, gravaste no disco “Cumplicidades” do António Chainho, o tema “Certo Dia” com letra tua entre outras participações relevantíssimas, como as duas canções que interpretaste para o II Volume do álbum “Voz & Guitarra”. Como é que vês este fado que nas últimas décadas tem ganho novos contornos, mantendo a sua raiz tradicional, mas abrindo-se ao


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mundo? Achas que este caminho se deve também a esta evolução da cidade, a esta evolução do país de que falávamos?

ca popular portuguesa, mas não nos queriam a tocar nos cafés, nem nos bares, (risos). Depois isso mudou.

Ana Bacalhau: Sim!...E ao pisar de palcos cada vez maiores. O fado sente, como nós sentimos, que três senhores com umas guitarritas em cima de palcos enormes, precisam de um esforço e de uma qualidade maiores para se aguentarem.

Pedro da Silva Martins: Mudou bastante, até como resultado da herança de muita gente que trabalhou muito para afirmar a música popular portuguesa. Gente que vai de Zeca Afonso, a Fausto, aos Trovante, aos Madredeus, aos Resistência, passando mais recentemente pelos Humanos. Todos eles foram deixando portas abertas que, apesar das dificuldades do início, facilitaram a afirmação da Deolinda como uma banda de música popular portuguesa.

Pedro da Silva Martins: Hoje em dia a natureza dos músicos do fado já não tem apenas a ver com o fado. São músicos com outras experiências, outro backgroud e com uma visão totalmente diferente das pessoas que nasceram no meio do fado. Isso contribui muito para essa evolução. Bica: Também existe um maior intercâmbio musical. Os contrabaixistas, na sua maioria, vindos do jazz, começaram a ser muito utilizados no fado... Pedro da Silva Martins: Exactamente. Isso também foi importante. Acho que esta nova aparência do fado se deve muito a esses músicos que trouxeram essas experiências de outros géneros musicais. Por outro lado, o público também mudou. As exigências do público, a expectativa do público, também mudaram... Ana Bacalhau: E é também uma coisa geracional. Hoje é a nossa geração que está a fazer o fado, que está a interpretar. Acho que esta evolução também é geracional. José Pedro Leitão: O meio musical evoluiu muito. Quando entrei para o conservatório não disse ao meu professor que tocava jazz. Não fazia sentido e ele não ia perceber. Hoje em dia há cursos de jazz no conservatório. Há cursos de pop na Escola Superior. Muita coisa mudou... Pedro da Silva Martins: Essas mudanças são muito positivas e no caso do fado, significam que se soube reinventar e isso é muito bom. Até porque se reinventou sabendo preservar o fado tradicional que está garantido, porque há um meio que defende a sua preservação, desde logo as casas de fado e por isso hoje, se calhar, o próprio fado tradicional está mais vivo do que há 10 anos. Nunca, como hoje, houve tantos jovens músicos a aprender guitarra portuguesa, nem nunca houve tantos bons instrumentistas, por isso, em certo sentido, este é dos momentos mais felizes da história do fado.

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Bica: Foi difícil para vocês assumirem-se como uma banda que tocava música popular portuguesa? Ana Bacalhau: No início foi muito difícil. Não sei que ideia é que as pessoas tinham da músi-

Bica: E de intervenção. Ana Bacalhau: De intervenção popular! (Risos).

Agradecimentos Teatro da Trindade teatro.trindade@inatel.pt www.eatrotrindade.inatel.pt +351 213 423 200 Discolecção www.facebook.com/Discolecao vitornunes_9@hotmail.com +351 931 464 690 Livecom.pt

Deolinda - A Velha e o DJ ft. RIOT

Deolinda - Corzinha De Verão


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WWW.VISITVISEU.PT


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Sonoridades


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Ouvidos ao alto

Texto e foto por Raquel Castro

Há mais de 10 anos atrás, a propósito de um projeto documental relacionado com tradição oral que me fez viajar por Portugal registando sons, imagens e desenhos de crianças, comecei a dar-me conta da forma como o som se inscrevia nos lugares por onde passava e no inconsciente coletivo das comunidades que visitei. Nessa altura, estava ainda longe de saber que iria dedicar a década seguinte (e as que a esta se seguirão) a essa reflexão.

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Comecei por me aperceber da forma como o som, tal como outros elementos da paisagem, me ajudava a identificar um lugar. Trás-os-Montes soava-me de uma maneira, o Douro Litoral de outra, e nessa busca pela identidade acústica dos sítios por onde passava descobri o conceito de Paisagem Sonora, que me trouxe algumas respostas e um importante novo mundo que me acompanhou e se refletiu em tudo o que fui fazendo desde então. A primeira coisa que percebi é que a forma como eu ouvia aqueles lugares estava condicionada pela meu próprio conhecimento e abordagem no momento das captações. A paisagem sonora não se limita a uma lista in-

terminável de fontes sonoras numa dada localização; ela foca-se igualmente na maneira como ouvimos o mundo. A relação entre nós, ouvintes, e a paisagem sonora é feita em dois sentidos. Somos tanto ouvintes como produtores de som num processo contínuo de causa e efeito, e vamo-nos ajustando ao ambiente sonoro através de uma arquitetura aural que é influenciada pelos nossos hábitos e convenções sociais. É evidente que despertar para este sentido nos torna, por assim dizer, mais atentos a todas as nuances do ambiente sonoro. A segunda coisa que percebi foi que a maior parte do tempo estamos imersos numa atmosfera acústica sem termos consciência disso. Se pararmos um pouco à escuta, apercebemo-nos imediatamente do zumbido de uma ou outra lâmpada, do chiar de portas, do rangido dos passos, do sussurro dos vizinhos ou do zunzum do trânsito, sons que tantas vezes nos passam despercebidos, mas que afectam a maneira como nos relacionamos com o mundo, o nosso estado de espírito, as nossas percepções e o nosso comportamento. Os sons entram na nossa consciência, vão pontuando o nosso quotidiano e providenciam uma estrutura para a interação. Muitas vezes estes sons são apenas um som, mas por vezes o que ouvimos torna-se realmente significativo, instalando-se na nossa mente e afetando a nossa visão do mundo, as nossas emoções e o nosso comportamento. E isto acontece a cada momento, porque cada ação ressoa num lugar qualquer.


A terceira coisa que percebi foi que, embora o som seja um parâmetro relevante na percepção humana, esta variável é muitas vezes negligenciada pelos profissionais envolvidos no planeamento, desenho e gestão dos lugares. Na verdade, o discurso político a nível internacional tem vindo a revelar uma preocupação crescente com os problemas do mundo acústico, mas esta aproximação é muitas vezes negativa, focada na redução quantitativa e objetiva dos níveis de ruído o que, apesar de necessário, não garante uma melhoria significativa no ambiente sonoro ou na satisfação e qualidade de vida das pessoas. É necessária uma abordagem multidisciplinar que acrescente aos aspetos físicos do som os contributos das ciências sociais e humanas, e que ajudem a estabelecer uma relação entre ambiente sonoro e sociedade. Foi perante estas descobertas que decidi permitir-me o tempo necessário para aprofundar estas questões. E foi neste contexto que surgiu o meu primeiro documentário sobre som e paisagens sonoras. O título do filme evidencia a relação com uma das principais metodologias de análise subjetiva das paisagens sonoras: Soundwalkers. Aqui, o percurso sonoro funciona como um gatilho para temas que alargam o campo do audível, integrando pensamentos e reflexões que nos transportam para uma compreensão do ambiente acústico. Em Novembro de 2016 estive em Valparaíso, no Chile, para uma residência artística de um mês no festival de arte sonora Tsonami.

Aqui dei continuidade a esta pesquisa audiovisual que se compõem de diferentes paisagens sonoras registadas em vários lugares no mundo. O ponto de partida é o passeio sonoro, um método empírico para a identificação de uma paisagem e dos seus componentes em diferentes espaços. A que soa uma cidade? Como é que a ouvimos? Valparaiso é um anfiteatro natural, com colinas abissais que amplificam os sons de fundo, uma cidade portuária, viva, selvagem e industrial. Todos os elementos vibram ao mesmo tempo em Valparaiso: o ar, que transporta os sons através do vento. A água, representada pelo mar, ou pelo porto que nunca dorme. O fogo, que é uma ameaça sempre presente, sentida nos alarmes de incêndio e no ruído da construção. E a terra, vivida em dois planos muito diferentes: a colina e o vale, onde se concentra grande parte da actividade comercial, industrial e portenha da cidade. A cidade é feita destes pequenos ritmos a cada instante, interações que se estabelecem entre as pessoas e os lugares num determinado momento. É nesta dinâmica que se define o murmúrio da cidade e a tonalidade afetiva das suas ruas e dos seus espaços.

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Sabemos que a nossa compreensão do mundo resulta de um processo cognitivo complexo que envolve todos os sentidos, bem como a história, o contexto e a cultura em que nos inserimos. Parte integrante deste processo é a percepção acústica, onde muitas vezes o ruído é sobrevalorizado e exprime uma interpretação negativa dos diferentes componentes sonoros. O ruído foi desde sempre uma preocupação para o homem. Na Roma antiga, Júlio César proibiu a circulação de carruagens durante a noite devido ao ruído emitido pelas rodas de ferro, que impediam os romanos de dormir. Mas os problemas de ruído do passado são bem diferentes dos que existem hoje em dia nas nossas cidades, onde a complexidade de atividades humanas e a mobilidade efervescente conseguem por vezes impedir-nos de ouvir o canto tranquilizador de um pássaro, o murmúrio apaziguante das águas ou a suavidade de uma brisa por entre as folhas das árvores. De certa forma, os sons naturais correm o risco de extinção e isto terá numerosos efeitos na forma como escutamos o mundo.


Acústica, para quê? por M. Eduarda Pereira da Silva

Penso que todos nós já experienciámos uma ou mais situações em que comentámos “Péssimo som!”, “Que local barulhento, não te ouço bem!”, “Parece que os teus vizinhos moram cá em casa!”. Pode acontecer, e é muito provável que já lhe tenha acontecido, em todo o tipo de espaços, desde salas de concertos à casa de alguém, passando por restaurantes, salas de conferências, salas de aula, salas de cinema e até mesmo lojas ou foyers de hotel! Pois é. Quando em fase de projecto ou em obra alguém questiona sobre a importância de um projecto de acústica, creio que é possível imaginar variados exemplos em que o mesmo tem importância, quer por meio de bons exemplos quer através de maus exemplos, sendo que, me atrevo a afirmar, ainda existem menos dos primeiros do que dos segundos.

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A Acústica é a ciência que estudo o comportamento do som. Numa sala de espectáculos a sua importância é talvez a mais óbvia, uma vez que vamos propositadamente para apreciar um concerto, talvez das vertentes mais belas e lúdicas do som. Num teatro e/ou sala de ópera a Acústica é igualmente unanimemente fulcral, dada a necessidade de percepção da palavra, muitas vezes sem auxílio de electroacústica (vulgo sistema de som). Assim como num auditório ou sala de conferência, de uma empresa, de uma escola, de uma faculdade, de um hotel, é também reconhecida a relevância de uma “boa acústica”.

Também nos espaços de restauração, lugares que mais comummente frequentamos, a Acústica começa a revelar o seu alcance e domínio. Actualmente, existe uma maior consciência do desconforto que a falta de condicionamento acústico dos espaços de restauração origina. Comentários como “Que restaurante ruidoso” são frequentes. A boa notícia é que este tipo de espaços também pode ser tratado e, já que falamos nisso, trata-se de uma medida regulamentada. Mas afinal de que se trata um estudo de Condicionamento Acústico? Consta da avaliação de um espaço no que concerne à sua geometria tridimensional, volume, soluções construtivas e revestimentos, face à sua densidade ocupacional, funcionalidade, ao objectivo final e à(s) fonte(s) de ruído em questão. Faz uso da teoria da onda aplicada à transmissão do som, e decorrentes fenómenos de acústica. No presente texto, abordei particularmente aspectos do Condicionamento Acústico ou Acústica Arquitectónica, apenas uma das vertentes Acústica, sem com isso menosprezar o isolamento acústico e a acústica ambiental, entre outras áreas desta vasta ciência. Convido-vos a experienciar, sentir, escutar os espaços que frequentam, numa espécie de reflexão sobre a qualidade acústica dos mesmos!... Afinal, dos cinco sentidos do ser humano, um é a audição, e porque não usufruir dele com a qualidade que merece! Tal será possível com consciência do que a Acústica é, e com exigência enquanto utente dos espaços que frequenta, a par do aspecto estético, programa funcional ou outros aspectos frequentemente alvo de avaliação. Inclua a Acústica (não exclua), celebre os 5 sentidos. Mestre em Acústica Arquitectónica e Ambiental / Eng. Civil e Consultora.


O silêncio lisboeta nunca existiu por Fernando Madaíl

Ilustração por Pedro Albuquerque

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“Uma esmola para o ceguinho...” “Sai um bitoque para a mesa cinco!” “Agarra, que é ladrão!” “Táxi!...” “Vivam os noivos!!!...” “Abaixo o Governo!” “Há dias de sorte, anda hoje à roda...”, “Fora o árbitro!”, “Muitos anos de vida...”, “Paz à sua alma...”


O silêncio nunca existiu, mesmo antes de Ulisses aportar a uma baía onde marulhavam as ondas, gritavam as gaivotas, assobiava o vento, uivavam os lobos, trovejavam relâmpagos, estalavam as árvores, percutia a chuva, coaxavam os batráquios, trinava a passarada. Depois, chegaram os gritos de várias línguas, os martelos de bater pedra e as espadas de tinir sangue, o repicar dos sinos que Pessoa dizia serem os da sua aldeia e os foguetes das festas com estúrdia e zaragata, as brigas de rua nos tempos da navalha e as discussões domésticas que as paredes das casas não escondem, o choro das crianças e o ladrar dos cães, a música dos sacabuxas e dos sintetizadores, as falas dos negros e as palavras asiáticas, o tropel dos cavalos e o clarim das casernas, os urros do rinoceronte a lutar com um elefante e os decibéis do avião a furar as nuvens quando aponta à pista, as arengas das vendedeiras e as telefonia nos autocarros, as sirenes dos faróis marítimos em dias de nevoeiro e a balbúrdia da mocidade em tempos de romaria, as botas dos soldados e os tamancos das varinas, a berraria dos bêbados e os altifalantes dos políticos, a pronúncia brasileira e os pregões dos galegos, os cânticos das procissões e as buzinas da feira popular, as bandas de coreto e a metralha das revoluções. “Por São Jorge!”, “Acudam, que matam o Mestre!”, “Por el Rei”, “Pardeus”, “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, “À grande e à francesa”, “Talassas!”, “Viva!”, “Morra o Dantas, morra! Pim!”, “Lá vamos, cantando e rindo...”, “O povo – está – com o MFA!”

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Nesta Lisboa lusitana onde as guitarras não tocam baixinho, desde os tempos da bigorna do ferreiro medieval às linhas de montagem das fábricas, do badalo das vacas quando ainda havia saloios à sineta do Pai Natal nos centros comerciais, das gargantas dos catraios a pedirem um tostãozinho para o trono do bailarico do Santo António até ao vozeirão imperativo das damas que solicitam a assinatura civilizada para também deixar de se ouvir a orquestra que toca nas touradas do Campo Pequeno, tudo parece esferovite a raspar em vidro, tortura de pingo de água a cair da torneira, suplício para os ouvidos que distinguem qualquer tom musical – e se gritavam de sofrimento os que ardiam nas fogueiras do Santo Ofício, gritam agora de euforia os que festejam o golo num Sporting-Benfica. Em cada quotidiano, com o despertador a retinir antes do galo cantar a despertar-nos de um pesadelo com avenidas recheadas com o “vrumm” dos dadaístas e ruas pedonais com onomatopeias da banda desenhada, é sabido que o ralo do duche e o secador de cabelo vão logo começar a inundar os tímpanos. Depois, as moedas saltitam sem fim no balcão matinal e o rádio-transistor (agora, o televisor-plasma) já nos ensurdece ainda a cafeína não fez efeito, quando fora do botequim

rangem os eléctricos, os claxons dos automóveis, as furgonetas dos bufarinheiros, os escapes das motorizadas, os motores que nem se identificam, os apitos dos polícias-sinaleiros, os ucranianos que mantêm um sotaque ao conduzirem os táxis entre as permanentes obras públicas com mais chinfrineira que prazos cumpridos, os chineses que ainda não dizem os erres como se tudo fosse tão sibilante como os estampidos dos seus brinquedos, as gaitas dos amoladores de facas e dos consertos de guarda-chuvas, os pregadores bíblicos que bramam nas praças a sua mensagem num megafone – todos preferem uma vuvuzela a um violino. E há gente que vocifera, implora, ordena, ameaça, proclama, indaga, informa, inquire, geme, branda os vitupérios que qualquer pretexto transforma em discussão e aos quais nem o capitão Hadock conseguia retorquir. O resto do dia enche-se com o bulício dos mercados, as máquinas de dinheiro que falam connosco e os telefones que retinem nas algibeiras, os passos de salto agulha a tricotar-nos os miolos nos corredores do escritório como se fossem lengalenga de charlatão a guinchar num microfone com mau contacto eléctrico, os matulões que arrastam mesas nos cafés e os desastrados que arranham rabecas nos clubes de bairros. E desde que Brian Eno inventou o conceito da música ambiental (e gravou o seu famoso álbum para as salas de espera dos aeroportos, em 1978, Ambient 1: Music for Airports) não há mercearia de bairro que não tenha música de fundo, misturada com o resmungar da patroa com os clientes, das discussões entre quem está na fila para a caixa registadora, no monte de latas que parece ter explodido ao cair no chão por causa de um cotovelo mais desastrado, da estalada sonora que avermelhou a cara do rapaz que se atreveu a apalpar fruta indevida – e o mesmo tapete sonoro, porventura com menos vozearia e barafunda, repete-se do elevador de escritórios à sala de espera de consultórios. Se as vizinhas já não avisam “água vai...”, batem os tapetes nas paredes como se fossem tambores, uma mãe histérica chama o filho de uma janela do sexto andar (“oh! Manel, não te volto a avisar...”) enquanto recolhe a gaiola do canário antes da hora da telenovela, as campainhas avariadas tocam para a nossa sala enquanto ecoa pelos prédios o estrondo das portas a bater, balbuciam os loucos e zumbem as moscas, além de tudo o mais que o sonoplasta do filme do Wim Wenders captava em Lisbon Story e daquilo que inspirou a coreógrafa Pina Bausch a criar Mazurka Fogo. Provavelmente, nenhum clamor será comparável ao daquele Dia de Todos os Santos de 1755 – nem nenhum tom triste lamuriado em uníssono, dias a fio, após os gritos lancinantes de susto e de dor e de luto, com uma cidade inteira, entre choros e lamentações, como referia Jâcome Ra-


tton, a entoar o Bendito, Ladainhas, o Miserere. Mas o panorama auditivo que nos rodeia – tão bem dissecado por Carlos Alberto Augusto no livro Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa – tornou-se um pesadelo citadino, como se tudo fossem ecos ampliados de dobradiças mal oleadas, súbitos chiares dos freios de vários comboios, miados de gatos nos loucos namoros de Janeiro, estridentes ambulâncias a chegarem em simultâneo às urgências em noite de catástrofe, trovoada de pólvora e chumbo das revoluções a caírem sobre telhados públicos e chapéus particulares. Não há fuga possível: até nas bibliotecas se escutam ligeiros murmúrios, embora em tom abafado de gente civilizada, que sabe o que é a concentração; nos templos, onde as beatas murmuram as suas rezas ou ranzingam queixas das noras enquanto aguardam pela chegada do prior, no tom pio de quem não quer incomodar o sossego dos mártires nem a pacatez dos serafins; nos jardins, que nos dias de semana, eram apenas dos melros e dos pardais, dos namorados e dos reformados, agora são também dos ecologistas que gritam ao telemóvel como se a sua mensagem fosse assim mais audível na Transilvânia ou na Patagónia, das colegas de trabalho que trocam o almoço pela natureza, mas continuam desafinadas sopranos como as que conversam no metropolitano, caras-metades dos tagarelas de tasco sempre a exibirem timbres de tenor e certezas canoras, dos corredores pedestres que resfolegam como roldanas de máquinas avariadas e pisam o cascalho com a suavidade de vidros a estilhaçar.

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No fundo, como tentou explicar o compositor John Cage, quando apresentou, no já longínquo ano de 1948, a sua obra “4’33” – em que o pianista David Tudor abria o piano de cauda, fazia quatro movimentos repetidos, sem nunca tocar nas teclas durante quatro minutos e trinta e três precisos segundos, começando, entretanto, a ouvir-se os ciciares e, depois, os protestos da sala de concertos –, o silêncio nunca existiu. Razão tinha a poetisa polaca Wislawa Symborsca: é uma palavra que, mal se pronúncia a sua primeira sílaba, rasga-se logo. Post-scriptum – Muitos termos vieram com as caravelas e com as telenovelas, com os “brasileiros” torna-viagem e os francófonos de todos os tempos e condição, com a moda de vestir parisiense e a informática americana. Mas o alfacinha, que goza com os sotaques dos outros, tem um linguarejar que é tudo menos fonética e musicalmente correcto. Ele escreve: “o autocarro treze é vermelho”; mas diz: “o ótocarro treuze é vermâlho”. Porque se rirá então quando um “tripeiro”, por exemplo, diz: “o autocarro treze é bermelho”?

BEBA COM MODERAÇÃO

O menos barulho que houve em Lisboa, nos tempos mais recentes, foi aquele minuto de silêncio por Timor e a primeira edição do Dia sem Carros. De resto, não há silêncio na noite, nem nos bosques, nem nos cemitérios. Pois se até nos funerais (pelo menos, nos dos famosos), onde a cadência dos passos e o ruído das rodas da carreta remetiam para a introspecção, para a tristeza, para a lágrima, agora aplaudem freneticamente como se tivesse descido do avião, agitando a quarta bola de ouro, o Cristiano Ronaldo, ou se a selecta plateia da Gulbenkian tivesse ficado rendida à estreia mundial de uma peça de António Pinho Vargas ou de Eurico Carrapatoso…


MEMÓRIAS DA CASA ANTIGA SONS, SINOS, BATENTES E CAMPAINHAS

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Amanhecem os dias de outros tempos ao som do galo anunciador do Sol. Diz-nos o adágio popular “tu ao canto do galo acordas, ele ao som da trombeta”, instrumento musical para juntar gentes à chegada de notícias ou visitantes. Nas igrejas, repicavam os sinos marcando as horas do dia, chamando fiéis para as missas ou anunciando as más e boas novas. E tantas igrejas tinha (e tem) Lisboa... Na Casa Antiga modesta, a chegada fazia-se sentir pela voz chamando “ó da casa” - atendendo quem estivesse -, ou pelo som de um bater de palmas que antecedia a entrada por uma porta destrancada - e tantas vezes aberta - para a cozinha, palco de todas as movimentações mais ou menos informais. Nas mais abastadas, aguardavam as visitas no pátio de honra exterior o convite de entrada pela grande porta que se abria sobre o vestíbulo, precedendo as salas e salões que as compunham. Dispensava-se o aviso para quem chegasse de sege ou charrete em visitas programadas e esperadas, tocando o recepcionista um pequeno sino já no interior da residência para o anúncio dos convidados.

Texto e fotografia por Ana Motta Veiga

E se no campo ou arredores se avisava a chegada à propriedade no sino do distante portão que antecedia a entrada pelos jardins, na casa urbana a porta fecha-se sobre a rua e a chamada faz-se pela seca pancada do batente pendurado no exterior, que ecoa até às áreas de serviço. Ao batente também se chama aldraba, ou aldrava, quando em forma de argola, com que se bate na porta ampliando o som dos dedos do punho cerrado, tão frágil para se fazer ouvir no interior da casa através da grossa espessura das madeiras. Em latão, bronze ou ferro, adquirem várias formas que lhes conferirão diferentes sons, adornando as fachadas durante todo o século XIX e inícios de XX, até que a electricidade lhes trouxesse a inutilidade pela novidade da campainha eléctrica. Pancadas de argolas, punhos, leões, animais e outras figuras, ecoavam pelas ruas como melódicas lengalengas ritmadas como a tão conhecida “mão morta, mão morta, vai bater, àquela porta”...


O “hardware” (i.e. ferragens para casa) era então outro: batentes e dobradiças, puxadores e maçanetas, chaves e ferrolhos, grades e portões, e no movimento de cada um deles, seu som. Para a segurança que se queria mais apertada, a chave que precede a entrada - essencial na casa urbana e cosmopolita -, trará à porta da rua este objecto tão usado no interior, encerrando quartos, cofres, armários ou gavetas, na procura de alguma privacidade difícil de conseguir onde tantos vivem (e convivem). Quase extinta nos dias de hoje, a sua utilidade milenar é agora substituída pelos cartões electrónicos, códigos numéricos, impressões digitais, palmares, oculares e um sem fim de alternativas consideradas mais seguras do que esta antiga peça metálica. Portas adentro, onde o silêncio dos bons modos não permitia o levantar da voz para se fazerem ouvir os chamamentos, a linguagem é igualmente sonora. Distribuem-se campainhas pelas várias divisões da casa (quartos, salas e saletas), onde a família fará sentir a necessidade da presença dos seus criados ao som do toque numerado na grelha da copa.

Antes do chegar da electricidade, era então a campainha o sino e o sino a campainha. E se o som do sino se difunde de forma mais dispersa e melodiosa pelo ar, pelo interior, exterior, jardins ou até mesmo na quinta, dependendo dos humores de quem o toca, o batente da porta da rua direcciona-o para o interior, sendo por isso mais próprio para ambientes urbanos ou limitados. Compõem assim e também os sons da Casa Antiga o ambiente da cidade ou do bairro, onde se fundem com ritmo dos passos, das vozes, dos sinos das igrejas, dos pássaros e das pessoas. Que permaneçam os antigos batentes, aldrabas e graves ferragens ecoando pelas calçadas em memórias de outros tempos e destas (e de outras) vidas da casa e da cidade...

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Não distante dos sons escolares que marcam os horários de pausa e de trabalho, também na Casa Antiga a enorme família é chamada para as refeições ao som do pequeno sino, hábito mais expedito do que a procura individual pelas grandes áreas domésticas por onde se dispersam pais, filhos, avós ou visitas. À mesa, pousa um sininho metálico em forma de boneca e que estabelece a linguagem entre a dona da casa e quem serve a mesa, disciplinando subtilmente os rituais de pôr e tirar os pratos. Mais tarde, será o sino substituído por uma discreta campainha fixada no soalho e próxima do pé da patroa, soando nesse pedal o chamamento para as áreas de serviço.


LOW MID HIGH: Descobrir a indústria da música electrónica em Portugal. Quando soube que a segunda edição da BICA teria como tema central o Som, imediatamente sugeri ao Editor, João Moreira, escrever uma peça sobre a indústria da música electrónica em Portugal. Porquê? Pelo meu fascínio: o som electrónico provoca em mim uma sensação altamente agradável. Faz o meu corpo mover-se em dimensões inimagináveis e faz-me acreditar que a vida é incrível (e não, não pus, nem preciso de pôr um Ecstasy). É uma sensação difícil de explicar mas ela acontece. É como se entrasse numa viagem indescritível onde os sentimentos se misturam. Uma viagem espacial onde vejo fios eléctricos, ondas e cores sentindo um sentimento altamente reconfortante.

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Pode dizer-se que o meu fascínio vem também da experiência que tive. Vivi um ano na capital do mundo electrónico, Berlim. Entre 2014 e 2015, a minha mente mergulhou nos sintetizadores e perdeu-se, positivamente, na potência máxima das Fuction One. No meu ano em Berlim explorei mundos inventados. Escapes de realidade que convergiam numa dança frenética e nos quais, todos os que participavam estavam ali pelo Som, esse guia confiável e concelheiro verdadeiro. Desde o famosíssimo Berghain às festas intermináveis (às vezes duravam 5 dias) do Sisyphos ao mítico Watergate. Os meus pés pisaram todos estes dancefloors, a minha energia propagou-se com a do som e dancei, dancei, dancei. Às vezes mais de oito horas. A dança era inevitável muito por causa das vibrações electrónicas que não me deixavam estar quieto. Em Berlim conheci de tudo: grandes malucos, músicos, dançarinos, pintores, arquitectos ou apenas peregrinos do som electrónico. Eu próprio foi um peregrino.

por Bernardo Mascarenhas de Lemos

Tentei conhecer a música verdadeiramente mas não consegui. Ninguém consegue, ela é inatingível e incompreensível. A melhor maneira de a compreender é dançando. Dançar é libertar energias através do nosso corpo, é celebrar a dádiva da vida. É ficarmos felizes e agradecidos sem agradecermos pessoalmente a ninguém. O agradecimento são os pés e os braços em constante movimento. E para mim, o contributo da electrónica nesta celebração é inegável. Foi exactamente por isso que quis explorar o universo da indústria da musica electrónica. Pode dizer-se que é a minha espécie de agradecimento por ela existir no nosso país, estar cada vez mais on fire. Para que pudéssemos compreender melhor qual o panorama em Portugal tive, inevitavelmente, de contar com a ajuda e testemunho de três importantes pessoas: O DJ e Produtor Jorge Caiado, a DJ e emblemática Mary B e Ricardo Varela, o “homem da direita”, que tem a seu cargo a enorme responsabilidade de decidir quem tem o privilégio de entrar na Meca electrónica portuguesa, a discoteca Lux. Foram três conversas diferentes e extremamente interessantes. Estão a ver um mixer? Ele “divide” as frequências da música que está a ser tocada em Low, Medium, High. Para quem não sabe inglês: baixos, médios e, pensem vocês. Estas divisões são essenciais à música que está a ser tocada. No caso do meu artigo todas as personalidades que entrevistei foram essenciais para a sua concretização.


Espero não ser muito rebuscado mas vou elaborar aqui uma metáfora: Jorge Caido (Low) é o grande responsável por manter uma base sólida de futuros músicos e artistas da cena electrónica em Portugal. Não fosse a sua loja Carpet and Snares a funcionar como um HUB (vão perceber na entrevista) não teríamos toda uma geração a discutir e trocar ideias para a posteridade. Precisamos de bom som para o próximo milénio. O Jorge é o Low, é assim como aquele bass e kick que ouvimos e é essencial para a música. O papel do Jorge Caiado é essencial para uma continuidade sólida e segura da industria da música electrónica em Portugal.

01

HIGH

Ricardo Varela (Mid). Sabem aquele “clap” que ouvimos nas músicas? Muitas vezes está nos médios. E quem melhor para representar o clap do que um dos homens responsáveis pelos Claps (aplausos) que ouvimos na discoteca Lux. Sem crowd, sem público, não há quem mantenha a artéria vital dos músicos e Dj`s.

MID

A conversa com o DJ e Produtor Jorge Caiado durou mais de uma hora. O seu percurso é fascinante, pelo que me é difícil resumi-lo.

Em idade de sair à noite descobriu a música House e o seu fascínio fez com que começasse a mixar cedo. Aos 16 anos já era DJ em alguns bares locais. Algum tempo passou e, na altura de ir para a faculdade, apesar de ter estado em economia e de sempre ter gostado de matemática, foi “o folheto” que a irmã lhe deu que transformou a sua vida: “Li o folheto e apercebi-me que era exactamente aquilo! Nem sabia que havia essa licenciatura. Nesse segundo inscrevi-me no curso”. Jorge Caiado inscreveu-se e entrou, tornando-se num dos quinze alunos do curso de Produção de Música e Som na ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo). O grande turning point da carreira de Jorge Caiado como músico veio em 2010 quando abriu a noite do gigante da música House, Chez Damier. Conta o produtor português que, quando chegou a hora de tocar a última música, os amigos puxaram por ele para que tocasse umas das suas produções. JC fê- lo e no momento de ser “substituído”, a lenda americana da música House, perguntou de quem era aquela última faixa. Quando soube que era do português marcou um encontro imediato para mal acabasse aquela noite. A partir daí as faixas do português Jorge Caiado passaram a ouvir-se do outro lado do Atlântico e a sua imposição como músico da cena House aconteceu. Mas como é ser músico em Portugal? “Ser artista em Portugal é muito difícil sobretudo pela dimensão do nosso país. Se não trabalhares um mercado mais mainstream é praticamente impossível viveres da música. Acho que se devia olhar para os artistas sobre uma óptica mais séria,

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A Mary B (High). Naturalmente, High, alto, está lá bem em cima: é uma senhora no meio de homens (coisa que nunca a incomodou) e com um gosto irrepreensível. A Mary B eleva a música a um nível superior.

03

JORGE CAIADO

Jorge Caiado é natural da Póvoa de Varzim. Vê a sua ligação à música como algo natural, que surgiu desde pequeno pelo contacto com a discografia dos pais e dos avós: “sempre estive muito confortável a ouvir musica em casa”.

LOW

02

Espero que estes testemunhos possam dar a conhecer mais sobre a Indústria da Música Electrónica em Portugal. E, se estás a ler este texto entre o mundo virtual do teu smartphone e o nosso mundo, é porque deves ser daqueles que estão na pista de dança agarrados ao telemovel. Mau principio: Turn it off and Dance!


é que o resultado das artes tem um impacto socio-cultural muito superior ao que às vezes se valoriza.” Em 2011 foi seleccionado para o Red Bull Music Academy, um encontro inédito que reúne jovens talentos da música de todo o mundo. Esta foi sem dúvida uma experiência única que lhe permitiu alargar a sua rede de contactos e partilhar o gosto pela música e sua produção.

dução, debates e palestras sobre os mais variados temas relacionados com a indústria”.

Para além de músico e DJ, Jorge Caiado é o grande responsável por manter uma base sólida de futuros músicos da cena electrónica. É que, não fosse a sua loja de discos Carpet and Snares, os amantes da electrónica em Lisboa não teriam onde se sentar e trocar ideias com com quem partilha a mesma paixão. Sobre a sua loja, Jorge Caiado diz tudo: “O grande objectivo é fazer da loja um HUB, tal como acontece nos outros países. No fundo fazer do espaço um ponto de encontro onde se discutem e trocam interesses, ideias, opiniões, produções e tudo o que esteja relacionado com a música. As lojas sempre foram o motor de uma interacção: partilhar opiniões e fazer contactos. É muito importante existir um espaço físico para que esta interacção exista. E é exactamente isso que me move, que me faz acreditar e contrariar o pouco interesse que há em Portugal. Acredito na loja como papel fundamental no desenvolvimento da cena local. Financeiramente, não posso dizer que a loja é um negócio extremamente lucrativo, daí o foco principal passar por torna-la auto-sustentável”.

MARY B

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Para além desta base sólida que a loja Carpet and Snares ajuda a manter, há ainda uma aposta em festas mensais para alimentar, ajudar e potenciar esta comunidade: “Carpet and Friends”, um evento que acontece uma vez por mês na discoteca Europa. Diz-nos Jorge Caiado: “São noites de amigos à volta da comunidade da loja. É também uma chance que se dá à malta nova e que às vezes tem dificuldade em entrar no circuito. Dou a oportunidade ao pessoal que pára na loja para tocar e mostrar aquilo que vale. É óptimo ver o crescimento de alguns dos artistas e poder alimentar a comunidade”. Acerca do futuro falámos essencialmente sobre o Lisboa Electrónica (12 e 13 de Maio 2017). Este será um festival 100% virado para a indústria da música electrónica: contará com actuações e showcases de várias editoras portuguesas e internacionais “Os convidados internacionais já não vêem isolados mas vêm com as suas editoras.As pessoas não imaginam a estrutura que existe por de trás de um artista e é essa uma das realidades que querermos comunicar/expor. Dar o devido valor às editoras porque o seu trabalho é fundamental para o consumo e indústria da música. Haverá ainda workshops de pro-

Em jeito de despedida, perguntei ao Jorge se há algum segredo para mixar bem. Não há, mas há um conselho valioso dado pelo artista: “Conhecer muito bem a música que se tem. E, é claro, muita prática”

A conversa com a encantadora Mariana Barosa (aka Mary B) foi muito interessante. Falámos da sua ligação à rádio, e de como é ser uma, das poucas, figuras femininas portuguesas associadas à indústria da música electrónica. Mary B confessa que não há uma história bonitinha como “Desde criança que oiço e consumo música”. Não, o gosto pela música veio mais tarde, aos dezoito anos, quando desportou para a música electrónica mais propriamente para os estilos downtempo e House: “Comecei a consumir discos aos 18 anos”. A sua relação com os movimentos da noite começou cedo. Nos tempos de faculdade trabalhava no Indústria como gerente e relações públicas, mas garante que o seu desejo era ser DJ. A ligação à rádio surge no último ano do curso que tirou no ISCEM em Comunicação Empresarial. A cada ano do curso era proposto fazer um estágio e Mary B não perdeu tempo a escolher trabalhar no mundo da radio por ser “o meio por excelência da música que mais me atraía.” Assim entrou pela porta da rádio Antena 3 onde acabou por ser convidada a ficar e onde esteve, durante dois anos, no Departamento de Marketing. Só saiu para assumir a criação do Departamento de Marketing da Rádio Marginal, Radar e da Rádio Oxigénio (Identificava- me, particularmete, com o estilo da Oxigénio por ser mais ligada à Electrónica”) e conta que, nessa altura, em paralelo, começou a ser DJ. Na rádio Oxigénio comunicava muitos dos concertos em Lisboa. A comunicação de um deles estendeu-se a um convite para abrir o palco do concerto de Nithin Sawey: “Fui convidada para abrir o concerto. Fazer um warm up para o espectáculo. E, assim de repente, estava a tocar para mais de 3000 pessoas. O feedback foi muito positivo e isso, alienado à experiência de rádio, levou à criação do meu próprio programa na rádio Oxigénio, o Ultraleve”. O seu primeiro programa de autor


O programa “Ultraleve” durou cinco anos, até 2015, quando Mary B decidiu assumir- se como DJ de música de dança criando um novo programa, também na rádio Oxigénio, chamado “Trapézio Voador”. Responsabiliza, saudavelmente, a abertura da loja “Carpet and Snares” como um dos factores que a levou a comprar cada vez mais discos de House.. Esta mudança foi também um desafio que Mary B quis colocar a si mesma: “Tinha que dar este passo, evoluir. Claro que todo o ambiente em volta ajuda. É que, sem dúvida, que há um crescimento constante do consumo da música de dança e isso é óptimo! As pessoas estão mais abertas à música electrónica e os resultados aparecem”. Mas será que este crescimento não faz com que se perca o feeling da cena underground? “Não, este crescimento é bom. Até porque a música de musica electrónica deixou de estar associada a um lado negativo como acontecia anteriormente. Embora deva confessar que prefiro ambientes mais inimistas.” Como referido no primeiro parágrafo desta entrevista, a Mary B é uma, das poucas, “Senhoras” da Indústria da música electrónica em Portugal. Inevitavelmente perguntei se houve algum entrave por ser uma rapariga no meio de rapazes. Mary B respondeu sem medos nem clichés contando as coisas como elas são: “ Nunca senti nenhum bloqueio, nenhuma barreira. Fui atrás daquilo que gostava e daquilo em que eu acreditava. É bom estares a fazer-me esta pergunta para eu te dar o meu testemunho: sempre trabalhei no meio de homens e sempre fui respeitada, sempre tive as mesmas oportunidades e sempre me senti confortável. Valorizo as miúdas que se interessam pela indústria da música electrónica, por serem poucas. Mas como disse, não é por falta de oportunidades. Como em tudo na vida, o que interessa é a pessoa correr atrás daquilo em que acredita. Até porque o não é sempre garantido. Eu própria recebi muitos nãos, mas não foi por isso que deixei de lutar. Se queres muito as coisas acontecem, não é por seres miúda que não há espaço para ti na Indústria da música electrónica”. Sobre o Lisboa Electrónica (festival no qual está envolvida como produtora) Mary B diz: “Estou mesmo muito feliz! Sempre tive um desejo muito grande que isto se realizasse. O Festival é o culminar do esforço de todas as pessoas que trabalham no desenvolvimento do meio. Serão 21 editoras portuguesas e estará tudo a celebrar a indústria da música electrónica em Portugal”.

Quando confrontada com o facto de cada vez menos pessoas utilizarem a rádio, Mary B espera que este meio por excelência se possa, de alguma maneira, reinventar “Já que é um excelente meio de conhecimento de música e de informação. Sempre consumi rádio e sempre hei de consumir”. Para finalizar esta longa viagem pelo confins da indústria da música electrónica em Portugal, decidi entrevistar o Ricardo Varela. Para quem não o conheça ele é um dos relações públicas da emblemática discoteca, Lux. Para além disso é DJ e tem um programa de rádio. Falámos da Rádio Quântica, da responsabilidade de ser um dos relações públicas da “Meca Electrónica Portuguesa” e sobre o código genético do Lux.

RICARDO VARELA Ricardo Varela começou por me contar como cresceu a sua ligação à música electrónica. Pode dizer-se que a sua irmã (dez anos mais velha) foi uma das grandes responsáveis: “A música electrónica sempre esteve presente na minha vida através da minha irmã. Lembro-me dos cd`s das cassetes e até da maquilhagem que, às vezes treinava em mim antes de sair à noite. O gosto pela música é um estimulo que acontece através das amigos, da família e das coisas que somos obrigados a ouvir. Depois logo decidimos se gostamos ou não”. Sabia, antes de ir falar com o Ricardo, que tinha um programa na rádio Quântica (“Em Jejum Com Varela”). E por isso, a inevitabilidade da pergunta: Como surge a rádio Quântica? “É um projecto da Inês Coutinho (aka Violet) e do Marco Rodrigues (aka Photonz). A rádio surge através deles e é um pouco à luz das rádios que já existem como: a Berlin Community Radio, Red Light Radio, The Lot. A rádio Quântica é muito virada para a música electrónica e para outras tendências que não a música comercial. Assim se criou uma comunidade através de artistas, dj`s e produtores”. Podemos então dizer que é uma rádio descomprometida? “Sim, descomprometida no sentido em que ninguém te obriga a passar esta ou aquela música. É estilo livre, fazes o que quiseres”. Para além deste conceito livre Ricardo Varela contou ainda que não é só música que passa na rádio Quântica: “Há programas de conversas, poesia, literatura e politica”. Explicado o conceito da Rádio Quântica chegou a hora de falar no Lux. Para mim, e cha-

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ficou marcado por uma onda mais chill-out, o chamado downtempo, embora Mary B confesse: “sempre consumi música de dança, House”.


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mem-se tendencioso, a melhor discoteca do país. Diria até da península ibérica e uma das melhores do mundo. Vivi um ano em Berlim e o Lux consegue até superar muitos dos seus dancefloors. Perguntei então quão importante é o seu contributo na indústria da música electrónica (e não só) em Portugal? “O contributo é inegável. O Lux aparece em 98 como algo muito desejado. Moldou gostos, gerações, o que ouvimos, como dançamos. Criou e gerou tendências e tenta sempre estar na vanguarda daquilo que se faz no mundo inteiro. É maravilhoso poderes sair todos os fins de semana e teres musica incrível para ouvir.” Mas como conseguem? “Faz parte do código genético do Lux estar na Vanguarda. O clube é do Manuel Reis que é um homem que está sempre è frente, desde sempre, desde que abriu o Frágil. Por isso, mesmo que ele não quisesse estar, ele estaria na frente, está-lhe no código genético e as pessoas que trabalham com ele estão envolvidos nisto há muito tempo e têm um gosto irrepreensível. Estão sempre atentos!” Sobre a sua responsabilidade enquanto relações públicas e, como se diz na gíria, o grande responsável “pela direita”, Ricardo Varela conta que o seu maior objectivo é ser Welcoming. Fazer com que as pessoas se sintam bem: “Essa é a minha única responsabilidade”. E os leigos que tremem pela fila normal? “Faz parte do encanto de entrar no Clube”. Sim, é que confrontei Ricardo com a intimidação que se sente naquela longa fila de entrada mas, de facto, concordo com o que me disse: “Nada como um nervoso miudinho para dares realmente importância à experiência que vais ter lá dentro”.

Para finalizar a nossa agradável conversa e tendo em conta o contacto inegável que Ricardo Varela tem com o meio da música electrónica em Portugal, perguntei qual a sua percepção neste momento? “ Está cada vez melhor, cada vez mais a ferver. Estamos numa fase como eu ainda não tinha vivido. Cada vez há mais labels, mais projectos, mais gente a pôr música, mais gente a interessar-se pela produção de som. Isso notase: na programação, na quantidade de festas e de relaeses. Vais a uma loja de discos conhecida, por exemplo, a Phonica em Londres, começas a procurar e há pelo menos uns 20 ou 30 releases que são portugueses e não é uma coisa estranha. Se calhar há 10 anos podia ser estranho. mas a coisa está a ferver, está! It`s happening! Escrever este texto foi uma verdadeira Odisseia e, como já disse, não teria sido possivel explorar a indústria da música electronica sem a ajuda e participação dos três entrevistados e por isso vos deixo o meu Muito Obrigado! Has been a pleasure.

Fotografias 01- Fotografia de André Leiria 02- Mary B 03-Fotografia de Luísa Ferreira 04- Bernardo Mascarenhas de Lemos em frente ao Berghain


INVISIBLES PLACES SOUND por Raquel Castro

Os estudos de som situam-se no cruzamento entre os estudos tradicionais de música, da comunicação, da filosofia, da antropologia, da tecnologia, da acústica, das ciências naturais ou da ecologia, revelando-se um tópico de grande interesse para muitos académicos e artistas e ocupando um espaço cada vez mais relevante em áreas como o urbanismo, a arquitetura e o planeamento estratégico das cidades. O Invisible Places é um simpósio internacional sobre Som, Urbanismo e Lugar que teve a sua primeira edição em 2014, integrado nos Jardins Efémeros, em Viseu. Desde logo se afirmou como um momento importante no panorama mundial de investigação e práticas artísticas relacionadas com os estudos sonoros, com apresentações teóricas, concertos, instalações sonoras por toda a cidade e oficinas acessíveis a toda a comunidade. Desta primeira edição surgiu a primeira publicação online - o livro digital de Proceedings, com mais de 800 páginas dedicadas à relação entre som, arquitetura, urbanismo e a vida quotidiana, para além da vontade de dar continuidade ao projeto.

www.invisibleplaces.org soundingcities@gmail.com

Apenas uma parte destas propostas foi selecionada, mas o reconhecimento internacional que se expressa nestes números, bem como a qualidade das submissões apresentadas, promete uma segunda edição memorável para todos os participantes e para a comunidade micaelense. Parte destas propostas são residências artísticas e oficinas que irão oferecer à ilha de S. Miguel a possibilidade de conhecer e experienciar arte sonora e, sobretudo, aumentar a sua consciência auditiva. Pretende-se, portanto, alargar a discussão e juntar a comunidade científica e artística com a comunidade local, contribuindo para uma reflexão mais alargada sobre a problemática do ambiente sonoro na vida de todos nós.

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Assim, a segunda edição irá acontecer de 7 a 9 de Abril de 2017 na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada, e o seu programa será composto por trabalhos teóricos e artísticos selecionados a partir de uma chamada internacional que encerrou há cerca de uma semana. A adesão a esta open call foi bastante significativa, com o impressionante número de 238 propostas oriundas de 39 países diferentes:


Som no Cinema por Martim Crawford

A visão e a audição, são sentidos do qual dependemos inteiramente no nosso dia a dia, os olhos ilustram o mundo, e a audição intensifica o seu significado, assim como no cinema a emoção de uma imagem passa também pelo som que lhe foi atribuído, sendo esse som realista, artificial ou mesmo o SILÊNCIO! De uma forma simplista, dividimos o som em dois departamentos: a captação feita durante as filmagens e a pós-produção onde o editor de som irá editar e recriar os mais diversos elementos sonoros. Na captação, existe um foco quase exclusivo, por parte do Diretor de Som, em captar todos os diálogos com o máximo de qualidade, e se possível ambientes locais. Depois do SOM, LUZES, CÂMARA, ACÇÃO, não podem haver quaisquer tipo de interferências sonoras. Por mais simples que isto possa parecer na teoria, na prática todos os sons, que interagem com as personagens, como o de um telefone, de uma campainha, de uma buzina de carro, ou mesmo de um aspirador, não existem durante as filmagens, os atores vão ter de representar sem os ouvir. Mais tarde, na pós-produção todos esses sons vão ser introduzidos usando bibliotecas sonoras ou gravando objetos que os representem. Esta etapa envolve não só criatividade, mas também sensibilidade na interpretação da narração de um filme. A descrição sonora divide-se em três tipos, som diegético, som não diegético e som meta diegético.

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Os diegéticos são os sons que representam o universo criado, desde os sons de chuva, vento, mar aos movimentos das personagens, passos, saltos, quedas, roupas, até aos sons mais específicos como o de um objecto que se parte, um gato que mia ou um carro que passa. Os não diegéticos, são sons subjetivos que intensificam determinados momentos de suspense, de tensão, românticos, conclusivos, etc. Estes sons não interagem com as personagens nem interferem com a ação, mas

ajudam na interpretação da narrativa. Um som associado a uma personagem ou a uma ação sempre que se repete anuncia o que está para acontecer. O som meta diegético remete ao imaginário das personagens revelando sentimentos, pensamentos e memórias. O som, para além de descrever tudo o que está presente em primeiro plano refere-se também a elementos não visíveis, sendo que alguns deles se sobrepõe à própria imagem. Isto acontece em variadíssimas situações, sendo a mais comum, a antecipação do som á mudança de plano, em que já conseguimos ouvir novos ambientes e diálogos antes da introdução de uma nova imagem. Esta técnica, tem como objectivo chamar a atenção do espectador de que o tempo ou o espaço vão mudar, mas pode também ser usada meramente por estética: um vento ou uma onda que entram ligeiramente antes do tempo, suavizam uma troca de plano mais agressiva. Existem também, situações em que o som fora de plano afecta diretamente o que decorre em cena, como um rugido de um animal feroz, uma bala perdida, ou mesmo um alarme que toca ao longe, desperta involuntariamente uma expectativa ou mesmo uma idealização do que está para vir, fazendo com que a imagem em primeiro plano deixe de ser o foco principal, e a nossa imaginação se sobreponha. Também com frequência, o som é necessário para substituir e amplificar a própria ação, por exemplo, em cenas de luta não existe contacto entre personagens, a credibilidade, violência e velocidade de cada golpe é introduzida pelo editor de som. Existe uma preocupação constante em sonorizar tudo o que se mexe, no entanto um momento dramático pode ter muito mais impacto com o diferencial do silêncio. Por ser um som tão incomum no nosso dia a dia a contradição de um momento violento em silêncio sensibiliza o espectador a envolver-se mais profundamente na narrativa do filme. O cinema é também um momento de entretenimento e ficção, onde os blockbusters vivem. Essencialmente nas ficções científicas, também por terem grandes orçamento e mais oportunidades de exibir as mais sobrenaturais sonoridades, tornaram-se um espaço onde a sonoplastia é mais evidente.


Estas grandes produções, tem como atração principal as grandes batalhas, explosões, tiros, duelos, naves, criaturas, etc. Os resultados associados a estes elementos são fruto de uma manipulação e combinação criativa de vários sons. A manipulação de áudio, tem sido uma constante desde do início do “cinema com som sincronizado” (1927), mas nas animações houve uma necessidade maior em procurar sons representativos em estúdio. Enquanto que no cinema de “Live Action” existiam as captações feitas durante as filmagens com o som ambiente e todos os movimentos dos atores na animação todo o som é feito de raiz. Se por um lado a necessidade era maior, por outro introduziu uma certa liberdade e aceitação do espectador perante sons menos credíveis e até mais cómicos. Começando por usar instrumentos musicais de percussão e sopro (pratos, tímpanos, apitos, flautas), rapidamente desenvolveram objetos próprios que reproduzissem ruídos que de algum modo se assemelhassem vento, chuva, passos, animais, etc. Embora muitos destes sons sejam primário ainda são usados nos dias de hoje, não só por se terem tornado referencias mas também porque na animação qualquer som sincronizado ao movimento da imagem, por mais cómico ou realista que seja, é sempre aceite pelo espectador para este universo fictício.

BEBA COM MODERAÇÃO

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As particularidades do som nem sempre são evidente para o expectador concentrado na grande tela. A sua descrição e subtileza passa despercebida enumeras vezes, no entanto a sua ausência ou falha de sincronismo, é bastante óbvia podendo comprometer por completo a magia de um momento que rimos e choramos dentro das salas de cinema.


Em Lisboa, pare, escute e olhe o ruído por Francisco Seixas da Costa Embaixador

Andava muito cansado e, enquanto esperava, na sala ao lado de uma oficina, que me arranjassem o carro, sentei-me numa cadeira e, por instantes, fechei os olhos. Foi então que o som, ao fundo, de uma chapa a ser batida, bem como impactos secos, provavelmente oriundos de um martelo de borrracha no realinhamento de uma direção, despertaram em mim uma súbita onda de prazer auditivo. Não tinha o ritmado do mimimalismo de Philip Glass que um dia me embalara no Barbican (levando-me a sair no intervalo, por queixas de ressonar), mas havia por ali algo que evocava no meu ouvido (talvez mesmo em melhor) uma sessão de música concreta polaca, no S. Luís, a que, só por vergonha, cerca de uma semana antes, resistira até ao fim. Terá sido nesse instante que, embora meio adormecido, acordei pela primeira vez para a fantástica identidade dos ruídos de Lisboa.

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Os estímulos auditivos que não resultem de melopeias ou de sonoridades pré-cozinhadas são, de há muito, uma das mais inspiradoras fontes da minha reatividade. E Lisboa, com o alarido mediterrânico – que os nórdicos confundem, insensivelmente, com javardice e falta de respeito pelo sossego dos outros – é um raro oásis (longe ainda de Nápoles, claro) em matéria de impactos dessa natureza. O som “oficial” de Lisboa é, como todos sabemos, o fado, mas, mesmo num registo turístico clássico, o chiar dos elétricos na descida do Ferragial ou a buzina dos cacilheiros sob neblina, bem poderiam equivaler-se-lhe nessa dignidade identitária de cartaz. Antes, no tempo do SNI e do Ferro, era também o gritar esganiçado das varinas, tão incensado na faduncha da primária, que integrava esse património decibélico. Mas ele foi-se com o tempo e com o Pingo Doce. Verdade seja que os ruídos humanos lisboetas são reportados desde as calendas. Fernão Lopes registou-os na sonoridade literária da sua Crónica, a Rattazzi tomava-os à conta de falhas na educação e nos costumes (preconceitos!), Eça ouviu-os pelos bilhares

do Montanha. Até o canto de Fausto, no “Europa, Querida Europa”, fala dessa “algazarra nas ruas”, com um “suave cheiro a sardinhas”. O chavascal é parte da nossa matriz e Lisboa é o palco orgulhoso dessa peça de chinfrim. Um amigo brasileiro, há dias, deixou-me sem palavras, num ambiente de infernal basqueiro e guinchos de máquinas, no longo concerto de barulheira operária concreta que o maestro Fernando Medina orquestrou, por meses, pela cidade, ao dizer-me: “Você sabe, Francisco, é adorável este vosso Chiado”. Como ele disse isso nas Avenidas Novas, em frente à Versailles, fiquei sem saber se havia de escrever Chiado com maiúscula ou não. Mas tudo isto, meus amigos, será sempre apenas uma singela gota de água numa realidade hoje com uma riqueza quase inesgotável. Todas as cidades, como sabemos,têm os seus sons. Questão diferente é selecionar aquelas raras urbes às quais uma forte presença auditiva confere um estatuto identitário próprio. À lembrança vem-me, de imediato, Nova Iorque, com aquela obsessiva e permanente confusão de sirenes de ambulâncias e carros de bombeiros, que alguém um dia chegou a pensarque eram pagos pelo serviço de Turismo da cidade, para lhe sustentarem, no imaginário dos viajantes e cinéfilos, essa típica marca sonora. Mas Lisboa passe a imodéstia, não fica nada atrás de Manhattan. O meu interesse por este tema, embora por muito tempo de forma pouco consciente, vem já de muito longe. O ruído lisboeta é, em mim, um eterno fator mobilizador, que me induz a certas atitudes, embora algumas, se acaso levadas até às últimas consequências,eu não garanta que evoluíssem sempre num registo de serena urbanidade. Recordo-me de, quando vivia perto do Campo Pequeno, em noites de fim-de-semana, ter sido o roncar dos escapes dos motards que, por exemplo, suscitou em mim uma inesperada vocação cinegética. Só não comprei a caçadeira por falta de espaço lá em casa para a guardar. Nos dias de hoje, na Rua da Lapa onde vivo, a desportiva tendência dos carros para aí testarem os limites urbanos de velocidade, trazme, por vezes, o impulso de complementar a


E, não raramente, a saborosa diversidade dos claxons, saídos dos SUV a fingir que por aí abundam, guiados por graves metrossexuais de barba, travados no caminho para as start-ups, desperta em mim, nesse tráfico congestionado (e Lisboa tem evoluído para grandes confusões de trânsito, garantindose assim já ao nível das grandes cidades) saborosas memórias da sétima arte: mais precisamente uma nostalgia pelos gadgets que Q colocava no Aston Martin de James Bond, capazes de disparar rajadas em várias direções. Mas aprendi que o ruído lisboeta, paradoxalmente, também convida à reflexão. Recordo-me de jantares em casa de um amigo que vivia no topo de um prédio sobre o qual passavam, na aproximação à aterragem, os aviões. Havia pausas de largos segundos nesses momentos de convívio, tipo “un ange qui passe”, que permitiam instantes valiosos de meditação ou, em alternativa, de concentração em mais umas garfadas. É, contudo, o ruído humano lisboeta, em todo o esplendor da sua criatividade, que estimula em mim os mais inesperados sentimentos, mesmo que, por vezes, ele tenda a atenuar os efeitos dos hipertensores que tomo. Quase sem igual no mundo, são os berros das adoráveis criancinhas nos restaurantes onde escolhemos ir ter uma conversa serena. Lisboa tem, nesse domínio, uma magnífica cultura liberal – e ainda há quem se queixe de sermos uma sociedade iliberal! – permitindo, desde a tenra idade, a vocalização do protesto ou da alegria. É uma espécie de aplicação do 25 de abril às creches, socializando a criança ao usufruto do seu inalienável direito à indignação ou à berraria em voz bem alta. Mas, entre nós, o que é mais notável é que os pais cuidam em não guardar essa expressão sonora dos rebentos para o recato egoísta da família, antes a partilham, com imensa generosidade, com a vizinhança, que assim pode apreciar a encantadora espontaneidade infantil. O facto de alguns circunstantes se sentirem tentados a (e cito o que, infelizmente, já ouvi) “dar um par de bofardos no puto”, também deve ser levado à conta do inestimável efeito de impulso interventivo que é desejável poder suscitar em nosso redor. A sociedade ou é interativa ou ficamos todos silenciosos de olhos nos iPads e iPhones. Não é disso de que todos se queixam? A contemporaneidade, contudo, tem sabido trazer, neste domínio, uma generosa oferta sonora, mais high-tech. O telemóvel é hoje um imprescindível instrumento da nos-

sa transparência urbana. O lisboeta típico, como os estrangeiros estasiados se fartam de constatar, dá-nos regularmente o gosto de partilhar connosco, em lugares públicos, diálogos da sua vida pessoal, como informações muito francas, por exemplo, sobre os seus padecimentos de saúde ou as crises existenciais dos conhecidos. Esperimente o leitor ir ler para um lugar público e, ao final de uns minutos, concluirá que lhe são oferecidas pausas divertidas que, tirando-lhe embora o fio à meada àquilo em que estava concentrado, o fará entrar num mundo novo de revelações alheias – excelentes para quem gosta de exercitar sociologia de pacotilha no Facebook. Outros ainda capricham, nos cruzamentos ou nas filas, em nos fazer ouvir os ritmos “metal” que saem do altifalantes dos seus carros, num volume tão elevado que, às vezes, os incapacita de tomar nota de alguns adjetivos qualificativos com que, muitas vezes sem uma explícita simpatiano nosso rosto, lhes retorquimos essa não solicitada partilha. Mas os estrangeiros visitantes, ao que me chega, já também cuidam, cada vez mais, de participar no cuidado desse património de sonoridades atípicas. Ao que parece, pelas noites animadas dos hostels, ou em partilhas de Airbnb, surgem cada vez mais interações sonoras entre andares, as quais, com o tempo, acabarão pela certa nas páginas do Correio da Manhã ou nos apanhados noticiosos das urgências. Esta Bica, que nasceu com uma explícita vocação de servir de guia a uma nova leitura de Lisboa, rompendo com estereótipos e tentando descortinar espaços inéditos de interesse para visitantes em busca de novos nichos de curiosidade, tem aqui um papel indispensável. Dar a conhecer a riqueza dos ruídos da cidade, chamar a atenção para essa Lisboa dos sons pretensamente não harmónicos, indicar mesmo oportunidades de criatividade ativa nessa área para quem nos visita, é levar à prática um imenso dever cívico. Não deixemos silenciar esse inestimável património decibélico (por onde anda a Unesco, que não viu ainda isto?) que é o ruído urbano lisboeta, não façamos orelhas moucas à necessidade de cultivar essa riqueza e, acima de tudo, não calemos a nossa voz perante a óbvia conspiração que se está a fazer contra o chavascal popular, contra a (tão típica) conversa aos berros em voz alta pela rua, contra a espontaneidade das mães chamando crianças à distância, nos lugares públicos e outras amenidades correlativas. Cuidemos do que é nosso, povo de Lisboa! Há alguma coisa melhor que isto? Pode haver, mas por cá ainda não se sabe.

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minha reforma com uma atividade de bricolage, onde o uso de pregos e taxas é, como é sabido, imperativo.


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Abyss


& Habidecor [39]

Quando o melhor do mundo ĂŠ portuguĂŞs


por Susana Andrade Abyss & Habidecor

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce...” Fernando Pessoa, excerto do poema “O Infante”, in Mensagem Há 40 anos ninguém acreditaria que numa cave situada no centro da cidade de Viseu se viriam a produzir as melhores toalhas do mundo. Ninguém, excepto Celso de Lemos, o visionário engenheiro químico formado na Bélgica, que sempre acreditou que a conjugação dos melhores linhos e algodões do mundo com a ancestral habilidade manual das mulheres da Beira, resultaria num produto único. De tal forma único, que a Abyss & Habidecor Super Pile Towal 700gr foi eleita, em 2007, pelo Wall Street Journal, a melhor toalha do mundo. A aclamação internacional, que muito antes do Wall Street Journal já fora reconhecida pelas melhores boutiques do mundo e pelas mais conceituadas lojas de Londres, Paris e Nova Iorque, resultou do sonho do promissor jogador de futebol viseense, que abandonou os relvados de Alvalade para se dedicar ao têxtil. A sua capacidade de trabalho, a sua dedicação e o inexedível amor pela sua terra fizeram da Abyss & Habidecor uma marca incontornável no têxtil mundial. É isso mesmo que nos conta Pierre de Lemos, filho de Celso de Lemos e uma das caras da equipa familiar que gere os destinos da empresa. “A Habidecor começou há 40 anos aqui em Viseu e surgiu do sonho do senhor Celso de Lemos, meu pai, que nasceu em Poives, uma pequena aldeia do Concelho, numa família de 7 irmãos. Viveu em Portugal até os 17 e depois apanhou um comboio e foi para a Bélgica estudar engenharia química. Foi para uma escola que, naquela época, era uma das escolas mais reconhecidas no têxtil na Europa e no Mundo. Nessa escola estudavam pessoas de mais de 61 nacionalidades … e uma mulher, que viria a ser a minha mãe. “

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Pierre fala com um forte sotaque francês que acentua a excentricidade da história que nos conta com um sorriso de orgulho no rosto. “Depois começou a trabalhar aqui e ali, até ir para uma empresa têxtil onde encontrou uma espécie de mentor. Isso mudou a sua

vida porque aprendeu tudo sobre a indústria e um dia fez-se um clique e ele disse - Agora acabou, tenho experiência que chegue, tenho um caminho bem traçado e vou voltar para a minha terra para fazer o melhor tapete de casa de banho do mundo. - Foi assim que surgiu a ideia. Trouxe as máquinas da Bélgica e instalou-as na cave dos pais dele, aqui em Viseu, na avenida que dá para antiga estação. Começou na cave com duas pessoas: uma costureira e um senhor para fazer as entregas e compôr máquinas. Era o senhor Aníbal e a senhora Isabel, que ficaram nesta empresa mais de 30 anos, até se reformarem. Com os primeiros tapetes prontos, ele pegou na mala e foi bater às portas.” E como se faz o melhor tapete do mundo? Questionamos curiosos. “Não há grande segredo. Como é que se faz? Temos de fazer mil para perceber-mos como se faz um realmente fabuloso. Primeiro é fazer com devoção, com paixão… nada se faz bem sem paixão e para fazer um bem, temos que fazer dez mal, quanto a isto não há dúvida nenhuma. Depois, a qualidade da matéria prima é fundamental e com isso nós não brincamos em serviço! Não há compromisso em relação à qualidade dos nossos fios. Compramos no Egipto, compramos na Índia, compramos na Bélgica. Tudo depende do tipo de tecido. Se é algodão do Egipto obviamente é do Egipto, se é algodão da Índia é da Índia, se é linho vem da Bélgica, mas a matéria prima é fundamental. Além da matéria prima, outro aspecto que é muito importante são as mãos, as mãos! É a qualidade do artesão, porque isto é artesanato. Hoje, quarenta anos mais tarde, temos aqui, na mesma cidade, no mesmo país, Viseu-Portugal já não duas, mas 200 pessoas a fazer artesanato. O importante para fazer o melhor tapete do mundo, além da matéria prima, é o savoir-faire, o saber fazer, e isso só com o tempo e experiência se consegue. Não foi logo à primeira que saiu o melhor tapete do mundo. Demorou 10 anos, 20 anos, 30 anos... Foi assim que começou a Habidecor, com o sonho de um viseense que quis mostrar ao mundo que a terra dele, o país dele pode fazer coisas, não vou dizer as melhor do mundo, mas com uma qualidade reconhecida a nível mundial”. Segundo o Wall Street Journal, podes mesmo dizer “o melhor do mundo”, provocamos. “Nesse caso não foi o tapete, foi a toalha, mas é verdade. Segundo uma jornalista do Wall Street Jornal The best of the world foi uma toalha feita aqui, em Tondela.”


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“Muitos diziam: vocês têm um tapete excelente, mas não encontro uma toalha da mesma qualidade e com as mesmas cores. Então sugiu a ideia de criar uma empresa para fazer toalhas. Abrimos há 20 anos e chama-se Abyss e fica aqui perto de Viseu, em Tondela. É uma empresa com o mesmo espírito. Nós temos poucas regras, mas que seguimos escrupolosamente: a primeira é made in, made buy e made of Portugal. Made in Portugal é óbvio, Made buy porque é feito por gente da nossa terra e Made of Portugal, porque tentamos que tudo o que é feito para a empresa seja feito em Portugal, os catálogos, as fotos o site é tudo feito por empresas nacionais; a segunda regra é a noção de que somos pequenos e não queremos ser grandes, por isso acreditamos na qualidade since day one. Qualidade é fundamental! Para fazer alguma coisa, fazemos bem. Preferimos esperar 2, 3, 4 ou 5 anos para colocar-mos um produto no mercado se não estiver dentro dos padrões de qualidade que exigimos; a terceira regra é de cariz humano, é a partilha. Tudo o que fazemos é para os outros não é para nós. Para receber 1 temos de dar 10. Estas são as regras fundamentais de tudo que fazemos hoje em dia.” A conversa decorre nas instalações da Habidecor numa das saídas de Viseu, enquanto vamos percorrendo a fábrica e Pierre vai comprimentando cada um dos funcionários. – Bom dia, como vão, tudo bem? – Todos respondem com um sorriso no rosto. Maria Albertina acena-nos ao longe entusiasmada. Já está há alguns anos na empresa, embora não seja das mais antigas. Está no controlo de qualidade, um dos sectores mais importantes da produção. É muda, mas explica-nos com exactidão a sua função. Pega num tapete e vai conferindo a altura dos fios, o rigor dos acabamentos e sempre que encontra um erro gesticula para nos chamar a atenção. Perguntamos se gosta do que faz e um sorriso aberto e sincero antecipa o aceno de cabeça. Do outro lado do gigantesco pavilhão, Teresa Ribeiro, que trabalha com a família Lemos desde 1980, vai rematando toalhas a um ritmo avassalador. Pierre conversa mais demoradamente com ela, sem que isso a distraía da função. Ao seu lado, mais de 20 colegas de trabalho manuseiam as máquinas de costura com que rematam toalhas, tapetes e lençóis. Na zona de recepção das matérias primas pedimos que Pierre nos explique os tipos de

fio que utilizam nos seus produtos. “Tudo o que é para casa de banho, é feito 80% para não dizer 90 em algodão. Nas toalhas usamos o algodão do Egipto Giza 70. Hoje em dia o algodão do Egipto já não tem o prestígio que tinha, é como os carros alemães, tens o Porsche e tens o Opel, são ambos carros alemães, mas entre o Porsche e o Opel há uma grande diferença. No algodão do Egipto é igual. Existe o muito, muito bom e o bom. Nós só trabalhamos com o muito, muito bom que é o Giza 70. Giza é o nome do algodão e 70, o que é engraçado de perceber, é o ano. A árvore de algodão dá flores e depois da colheita é cortada, por isso é necessário replantar todos os anos e para replantar eles precisam de sementes, cada ano eles tiram a semente e replantam e por isso todos os anos são diferentes, a genética daquela flôr é diferente, é uma questão de fibra, uma questão de quantidade de fibra e do tamanho dela; são pequenas, grandes ou médias e o ano 1970 foi um ano extraordinário que deu uma enorme quantidade de fibra. Os próximos que vamos utilizar serão o Giza 88, e depois o 91, mas o melhor algodão do mundo e que já custa uma fortuna, é o Giza 45, que vamos utilizar para fazer uma colecção muito especial. Tudo em Giza 45. Esta colecção vai ser a Abyss da Abyss; a Celso de Lemos da Celso de Lemos; a Habidecor da Habidecor, porque nós não podemos dormir, temos de estar sempre a evoluir, sempre a evoluir, sempre, sempre… E sempre a ouvir o que o mercado procura!” Embora a Habidecor esteja cheia de máquinas de alta tecnologia, o trabalho manual continua a ser o factor decisivo para o reconhecimento da qualidade dos seus produtos. São, de facto, as mãos das mulheres beirãs que controlam a produção, os acabamentos e até a dobragem e o embalamento. Este handmade é que faz a diferença, esclarecenos Pierre. “No mundo têxtil há poucas empresas a fabricar os próprios produtos. O que é que eles fazem? Vão a países como a China, a Turquia, a Índia, a Itália e mesmo Portugal (80% da produção portuguesa não é para marca própria) e mandam produzir o que pretendem. Nós não! Nós somos especialistas. Há poucos na Europa, há poucos no Mundo, há mesmo poucos... que só compram o fio e transformam. Eu posso dizer que aqui na Europa somos os únicos e isso é uma diferença enorme. Um viés, uma etiqueta, parecem detalhes, mas não são. Essas pequenas coisas é que fazem com que estas nossas toalhas durem 20 anos. Somos especialistas e todos os especialistas têm de atentar aos pormenores, porque todos os pormenores contam para que o produto final seja perfeito.”

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A Habyss & Habidecor começou por produzir tapetes de casa de banho, mas teve tanto sucesso que, de repente, os seus clientes passaram a pedir outros produtos, outros tamanhos, outras cores.


Pelo que percebemos, a hipótese de deslocalização da empresa está fora de questão? “Deslocalização para nós é uma palavra que não existe. Eram precisos 50 anos para fazer o que estamos a fazer aqui num em outro local. Foi nesta terra que é a melhor terra do mundo, com esta gente que aqui vive que é a melhor gente do mundo que conseguimos fazer a Habidecor e esta experiência não tem preço. Mudar para onde? Para a China? A China não tem experiência, não tem este saber, não tem os viseenses (risos), não tem os portugueses. Eles têm chineses, nós temos portugueses… e isso é a nossa força. É a nossa primeira regra made in, may buy, made of Portugal e no dia que mudarmos isto, perdemos tudo.” Já sentados no gabinete de Pierre conversamos sobre os mais famosos clientes da Abyss & Habidecor, de Obama a Putin, passando por Cristiano Ronaldo ou por hotéis como o Burj Al Arab no Dubai, ou o Grand Hyatt, em Hong Kong e sobre a importância que Pierre dá às pequenas boutiques espalhadas pelo mundo e que acredita serem o futuro. “O que aparece nos media, nem sempre é o que nós dizemos. – Risos. – É como na política! Só aparece o que chama mais a atenção!!! Nós vendemos alguma coisa para grandes cadeias de hotéis, mas não é o nosso mercado. O nosso mercado são as boutiques. É aquela senhora, ou aquele senhor que tem uma loja pequenina, numa cidade talvez não tão conhecida como as capitais. Esses é que são os nossos clientes de sempre. Sim, vendemos para o Harrods, sim vendemos para Bloomingdale’s, sim vendemos para o El Corte Inglés na Península Ibérica, mas o nosso mercado não são só eles. Claro que são clientes importantes, mas o nosso cliente típico não é esse, o nosso cliente típico são as pequenas boutiques, são os retalhistas que estão em Bruxelas, que estão nos recônditos da Austrália e que encomendam 4 tapetes ao ano. Esses é que andamos a trabalhar há anos. É sempre bom ter um Harrods, porque trás números, quantidades, trás notoriedade, mas não é só para eles o nosso trabalho diário.”

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A fidelização tem sido muito importante para o negócio da empresa e isso percebe-se nas palavras do filho de Celso de Lemos. “O essencial é o lado humano, como disse há pouco. É a terceira regra, o factor humano. Nós não trabalhamos para nós. Eu quando vou visitar clientes, vou apresentar um produto de Portugal e vou essencialmente dizer: nós estamos aqui para trabalhar pelos vos-

sos clientes. Não é para vocês nem para nós. É para que os vossos clientes fiquem felizes ao encontrarem um produto de alta qualidade e regressem às vossas lojas. Isto é o nosso trabalho diário! Sim, agora vendemos para algumas cadeias de hotéis aqui e acolá, mas o nosso trabalho são os retalhistas, são as boutiques.” Indagamos se também vendem em Portugal para lojas como a Paris em Lisboa. “A Paris em Lisboa é um bom exemplo. É o tipo de loja com que trabalhamos! É com esta gente que trabalhamos, é esta gente que defendemos. Neste momento estamos a querer defender muito as boutiques porque sabemos a pressão a que estão sujeitas. No futuro existirão muito menos. Hoje em dia vendemos para 61 países e 1200 lojas. O nosso futuro não é vender para 2 mil lojas, talvez seja vender para apenas 500, mas com este tipo de clientes fidelizados e que conheçam os nossos produtos. Para conseguirmos isto, temos que ter mais produtos. Daí a criação de uma linha de cama, a colecção que chamámos Celso de Lemos, vamos também apostar numa colecção para cozinha, fazemos vinho, fazemos azeite. Isto é o next step. O nosso caminho não são as grandes cadeias, embora eu esteja muito feliz de trabalhar com a Harrods com quem temos uma relação fantástica, mas o nosso caminho são as boutiques, são as lojas.” Pierre fala como se toda a vida se tivesse dedicado ao negócio de família, por isso perguntamos quando começou a trabalhar na empresa. “Ontem. Aahahah! Inconscientemente, eu entrei no projecto desde pequeno. Eu não era bom na escola e sempre gostei de Portugal e o meu pai foi esperto e mandou-me trabalhar para aqui uma ou duas vezes no verão, a tratar do lixo, a regar as plantas. Então, step by step foi-me integrando. Fui aprender a vender com um agente, a perceber a qualidade dos produtos e quando ele decidiu fazer a Abyss, em Tondela, foi acertivo e perguntou-me: queres vir trabalhar para a Abyss ou não? Eu disse que sim. Fui com o meu primo Nuno Rodrigues que é o filho do nosso director da produção aqui, na Habidecor. O meu pai desafiou-nos aos dois - Tenho aqui um novo projecto para fazer toalhas, o Nuno fica responsável pela produção e o Pierre pelo comercial… pronto foi assim, já lá vão 17 anos. Naquele momento estava a fazer música.” Pierre solta uma gargalhada quando comentamos que passou de líder de uma banda de metal para a liderança da empresa.


Quais são os caminhos do futuro da Abyss & Habidecor? “O futuro desta empresa é ser como até aqui, partilhar Portugal, talvez de outra forma. Estamos a pensar em ter lojas próprias. Isso será um sucesso. Estou a falar da geração dos meus filhos, dos filhos da equipa que está aqui. O futuro é ter boutiques próprias. Boutiques Celso de Lemos espalhadas pelo mundo inteiro, que vendam Portugal, que vendam tudo o que é feito em Portugal. Tudo o que tem o nosso espirito que se baseia na qualidade, produzido de acordo com aqueles valores simples da vida: não gastar mais o que se tem no e respeitar o outro. Acho que temos uma equipe que pode fornecer boutiques nossas espalhadas pelo mundo e podemos juntar o vinho, o azeite, sapatos, pois Portugal é um grande produtor de sapatos. O futuro é isso. É trabalhar pelos outros, pelas boutiques que são nossas clientes no mundo, abrirmos as nossas boutiques próprias e proteger o mercado. Por exemplo, hoje em dia existe uma ferramenta que é a internet com a venda online e nós estamos a começar a dar alguma atenção a isso, mas começámos com uma politica muito cuidada. A nossa venda online não pode ser para toda gente. Nós vamos diminuir ou controlar as vendas online, porque vendendo online deixamos de poder acompanhar a forma como as toalhas estão dobradas na loja, se foi colocado o perfume, se a apresentação está como pretendemos. São dois mundos diferentes para o mesmo resultado. Por isso temos que ter cuidado com a internet. Hoje posso confirmar que a marca Celso de Lemos vai surgir como uma colecção de roupas de cama de prestígio, por isso não vamos vender pela internet. Temos que proteger o produto.” Queremos conhecer a opinião de Pierre sobre a aposta do pai na Quinta de Lemos, que produz excelentes e já premiados vinhos do Dão e na Mesa de Lemos que é uma refe-

rência gastronómica nacional e se entende essa diversificação como uma estratégia de marketing para cativar os clientes da Abyss & habidecor. “Não. Não foi uma estratégia de marketing. Foi um sonho fantástico de um puto de 17 anos tornado realidade! Ele fez a Quinta para acolher e para receber os amigos e a família. Foi uma espécie de homenagem a Portugal, uma homenagem à terra dele! Mas, claro que também se tornou um factor de marketing para os nossos clientes. Por exemplo, temos um cliente do Dubai, uma miúda que nasceu no Afeganistão e estudou nos Estados Unidos e trabalha para uma empresa no Dubai. Convidei-a para vir visitar a Quinta e ver os nossos produtos no local e percebi que ela estava meio sem vontade. Fora de Paris, fora de Milão, sabes como é... Mas acabou por vir e aí entendeu o percurso deste homem, o percurso do sonho deste homem que queria partilhar com ela o que é Portugal. Então ela volta, e volta e volta, e criamos uma melhor relação, uma relação mais humana. Isso também traz uma nova energia à nossa relação comercial. Mas, na verdade, foi o sonho deste homem em querer mostrar aos seus amigos e clientes o quão bela é esta região, o quão belo é o seu país! É amor à terra!” A mesma opinião tem a filha Geraldine de Lemos, mas já lá iremos. Geraldine tem um olhar profundo, com um je ne sais quoi de provocador que nos fita de forma intensa e penetrante. Nascida na Bélgica, “com uma educação muito rígida. A educação de um pai emigrante que queria que os filhos seguissem o caminho dos estudos.” Geraldine cedo descobriu a sua vocação para as artes. “Queria desenhar. O desenho era a única coisa que me agradava.” A opção criou alguma discórdia entre pai e filha, mas mesmo assim conseguiu ir estudar para a Escola Superior de Artes Saint-Luc em Bruxelas. No início não foi fácil, para uma menina de uma família tradicional de emigrantes portugueses, habituada a ser controlada e a obedecer, ver-se sozinha no meio artístico de Bruxelas, onde se estimulava os alunos a esprimirem-se, a transpôrem para as artes as suas ansiedades, os seus desejos, as suas emoções, o seu eu, tudo o que sempre fora habituada a reprimir. Não foi fácil, mas como era teimosa e queria provar ao pai que conseguia, lá acabou o curso. “Para mim foi importante esta experiência, até para dominar a técnica. Aprendi a contornar o que não sabia ou não dominava tão bem. Por exemplo, o retratismo que definitivamente não me atraía. Eu não queria pintar certinho, bonitino, queria exprimir o que sentia no momento.”

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“Não! Não, estou nada à frente da empresa. Quem está à frente da empresa é uma equipa. Somos uma empresa de cariz familiar, mas à frente está uma equipa. Temos um coach que é o Celso de Lemos e temos uma equipa. Nós trabalhamos em família. Eu defendo os valores desta família, os valores desta empresa. Acho que o faria da mesma forma mesmo que não fosse filho de Celso de Lemos. Eu gosto desta empresa, gosto de Portugal, gosto de vender, gosto de partilhar Portugal no mundo, gosto do meu trabalho diário, mas à frente da empresa, nem pensar. Ainda bem que o meu pai está cá. No futuro eu vou dar tudo para que esta empresa funcione nesta linha e que estas regras se mantenham. Se vou ter capacidade ou não, francamente não sei.”


Com 18 anos precisou escolher uma área específica e foi pedir opinião a um professor que a aconselhou a ir para o têxtil e foi. “Sabes como é. O professor disse para ir, sem ter nada a ver com imposição familiar, fui e adorei.” Tinha tudo a ver com ela. Os tecidos, o toque, o volume e o facto de poder exprimir-se através da matéria. Era tudo o que sonhara e acabou por revelar-se uma descoberta transformadora. “Foram três anos muito bons. Depois fui fazer um estágio que odiei, porque foi passado em frente ao computador a produzir, produzir e eu queria produzir, mas no tecido, então decidi ir viajar durante um ano a fazer voluntariado para Cabo Verde e para a Índia.”. Entretanto regressou a Bruxelas e foi estudar floricultura durante 3 anos, atraída pela natureza e pelo desejo da criação efémera permanente com uma vertente muito prática de poder vender as suas criações. “Eu fazia e ia vender para uma loja, em contacto com os clientes. Foi muito bom! Infelizmente, no último ano apanhei uma alergia que me impediu de continuar. Como já tinha estudado e viajado, então decidi ter filhos! Conta Geraldine com uma gargalhada contagiante.” E teve dois, antes de cumprir outro sonho de infância e vir morar para Portugal. “Eu tinha lembranças muito boas das férias em Portugal. Em Santa Cruz tive as primeiras experiências amorosas e sempre que vinha, um pedacinho de coração ficava aqui.” Regressou com o intuito de abrir uma florista, mas o pai, sempre protector, ofereceu-lhe a possibilidade de ir para a quinta e com dois filhos pequenos para cuidar, acabou por aceitar.

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“Foi uma fase muito boa. Aprendi muito sobre vinhos, embora não seja apreciadora (risos) e aprendi a respeitar a forma como o meu pai encarou o desafio da Quinta de Lemos, que foi uma aposta muito mais emocional e filosófica, do que racional e empresarial.” Talvez, nada antes como essa experiência na Quinta de Lemos a tenha ajudado tanto a compreender a paixão do pai pela terra, pelo vinho, pelo estar à mesa, pelo receber amigos. De tal forma o entendeu, que se apaixonou, ela própria por essa terra que não era sua, mas que aprendera a amar. Quase ao lado da quinta, construiu a sua casa, exactamente como sonhara e com uma vista de cortar a respiração para a Serra da Estrela. Passou a organizar diversos eventos nos espaços da quinta, de exposições (sempre a arte!) a actividades para crianças, enquanto se imiscuía nos detalhes de decoração e arquitectura das obras que iam decorrendo. Mas, foi o cuidado e a originalidade com que decorava as mesas para os jantares que o

seu pai oferecia a amigos e clientes que a foram empurrando para a empresa de família. Escolhia os tecidos, fazia os arranjos de flores, fazia os guardanapos, tratava de tudo e recebia muitos elogios. Aí o meu pai foi percebendo que as minhas mesas eram uma montra da Abyss & Habidecor, porque os clientes eram clientes do têxtil e gostavam muito do que viam e podiam experimentar. Depois decidi montar um pequeno showroom na adega da Quinta onde preparei diversos quartos e foi assim que me aproximei da empresa. Hoje, é Geraldine quem prepara os eventos, os catálogos e as fotografias da Abyss & Habidecor. Continua a adorar montar cenários ousados, que transmitam as emoções que sentimos quando tocamos nos tecidos ou olhamos as cores dos produtos da empresa. As ideias fluem-lhe com a naturalidade de quem sempre viveu no meio artístico e com muito trabalho e persistência acaba por colocá-las em prática. Celso de Lemos cumpriu o seu sonho de fazer em Portugal os melhores produtos têxteis do mundo e hoje tem os filhos ao seu lado, também eles apaixonados pelo país e pela terra que o viu nascer e empenhados na perpetuação desse sonho. É obra!


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OS DESAFIOS DA URBANIDADE FACE ÀS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS Texto e Fotografia por Carla Graça

É já sobejamente conhecido que as alterações climáticas têm como consequência expectável um aumento da frequência e intensidade dos designados fenómenos climáticos extremos, como os tufões, as inundações e as secas, ao nível de todo o Planeta Terra. A Península Ibérica, e portanto Portugal, é uma das zonas que poderá ser muito afectada, com alteração dos regimes de precipitação, o “desaparecimento das quatro estações”, com um aumento de situações de cheias e inundações no Outono/Inverno, por um lado, e de secas extremas na Primavera/Verão, por outro. Aliás, estes últimos dois anos de 2015 e 2016 foram particularmente atípicos, com temperaturas moderadas no Outono/ Inverno, pouca precipitação (com registo inclusive de uma seca meteorológica severa, que no entanto não chegou a ser, felizmente, hidrológica), e temperaturas muito acima do normal durante períodos prolongados neste último Verão.

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Também devemos ter em conta que actualmente metade da população mundial vive em zonas urbanas, estimando-se que esse número aumente para mais de 60% já em 2030, e que as grandes metrópoles se situam, regra geral, junto ao oceano ou em zonas de confluências de grandes rios. Portugal não é excepção, com cerca de 80% da sua população a residir na faixa litoral entre Porto e Setúbal, e cerca de metade a residir nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Os espaços urbanos apresentam assim enormes desafios para uma adaptação e uma maior resiliência às alterações climáticas, pois apresentam um conjunto de vulnerabilidades face a fenómenos de cheias e inundações (potenciadas pela subida do nível do mar em zonas costeiras – quem não se lembra da tempestade Hércules em 2014?), devido essencialmente a questões de planeamento, seja pela sua ausência, seja pela sua permissividade,


A ZERO considera que as cidades necessitam urgentemente de medidas de retenção natural da água, isto é, soluções baseadas na natureza — as denominadas Natural Water Retention Measures (NWRM), preconizadas pela Comissão Europeia, e baseadas no conceito das infraestruturas verdes, de que o regime da Reserva Ecológica Nacional (REN), instaurado em 1983 pelo então Ministério da Qualidade de Vida liderado pelo Arq.º Gonçalo Ribeiro Telles, foi pioneiro a nível mundial. Estas medidas têm como principal função aumentar e/ou restaurar a capacidade dos aquíferos, dos solos e dos ecossistemas aquáticos para reterem água, permitindo assim minimizar cheias e inundações e, em simultâneo, favorecer a manutenção dos designados benefícios dos ecossistemas, como a melhoria da qualidade do ar, o reforço da disponibilidade de água para abastecimento e uma maior resiliência a fenómenos de seca. Exemplificando, numa área urbana em que 75 a 100% do solo se encontra impermeabilizado, o balanço hidrológico pode ser resumido da seguinte forma: o solo retém apenas 15% da precipitação, 30% são devolvidos à atmosfera através da evapotranspiração das plantas, sendo os restantes 55% deixados a escoar livremente à superfície dos espaços urbanos. Quando existem picos de precipitação, com enormes quantidades em espaços de tempo muito curtos, esta escorrência tende a ser maximizada ocorrendo as denominadas flash floods, com consequências que podem ser muito graves para a segurança de pessoas e bens, bem como para os próprios sistemas de abastecimento. Assim, a primeira medida terá de ser necessariamente a diminuição da impermeabilização do solo, de forma a aumentar a sua capacidade de infiltração, através da criação de áreas verdes, onde se podem incluir a renaturalização de linhas de água encanadas com restauração da galeria ribeirinha, charcos temporários, pavimentos permeáveis, jardins e telhados verdes. Nas áreas onde as inundações sejam mais frequentes, deverá ser ponderada a criação de zonas húmidas contíguas ou a montante dos espaços urbanos ¬— espaços que favorecerão a biodiversidade e servirão para reter grandes quantidades de água e retardar o seu escoamento após picos de precipitação intensa. Ainda, a gestão correcta de áreas agrícolas e florestais junto a bacias de drenagem, de forma a reduzir a erosão e perda de solo, é também uma medida que deverá ser urgentemente tomada pelos decisores e actores destes processos.

Se vamos viver cada vez mais em espaços urbanos, é urgente aumentar a sua resiliência, sendo fundamental que o processo e os exercícios de planeamento sejam efectivamente transpostos para as várias realidades locais e tenham em consideração os riscos que são já conhecidos e assumidos consensualmente pela comunidade científica da não aplicação de uma estratégia de adaptação às alterações climáticas. Não deixa pois de ser irónico que, de acordo com informação recentemente vinda a público, e divulgada também pela ZERO, no Litoral Alentejano a opção esteja a ser precisamente a oposta, com a diminuição da REN em cerca de 100 mil hectares em cinco anos, sendo que a maioria da área de REN desafectada corresponde precisamente a leitos de cheia e áreas de recarga de aquíferos. Falta ainda saber o que nos trará uma análise à REN no restante território nacional. Os casos já conhecidos não auguram nada de bom. A prática de planeamento em Portugal continua, e infelizmente muitas vezes, a ignorar o que a ciência e mesmo o mais liminar bom senso nos aconselham. É urgente uma mudança ao nível dos processos de decisão, que garanta a salvaguarda do interesse comum. ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável

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com elevada impermeabilização do solo, artificialização de cursos de água e /ou construção em leitos de cheia.


F(R)ICÇÃO Fotografia cedida por Martifer Solar, Voltalia Group. Localização: Monreale, Itália

por Bernardo Mota Veiga

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O fogo foi descoberto há dez mil anos, cerca de 5 mil milhões de anos depois de o sol começar a irradiar energia. Com o domínio dessa primordial fonte energia, foi na Suméria, cerca de quatro mil anos antes de Cristo, que se deu início a idade dos Metais. Muitos defendem que foi aqui o berço da civilização com o início da agricultura intensiva, invenção da roda do oleiro, e a consequente vantagem competitiva que o acesso à técnica de fundição dos Metais permitiu. Apareceram então as primeiras cidades assentes nos primeiros governos centralizados, com códigos de leis e estratificação social (inclusive escravidão). Esta organização desenvolveu fontes de poder sobre os demais povos, assente no desenvolvimento da chamada “guerra organizada” resultante do grande controlo dessa fonte de energia chamada fogo. Os Gregos e os Egípcios chegaram há idade do Bronze cerca de 1000 anos mais tarde, beneficiando do cobre de que dispunham nas suas minas junto ao deserto do Negev. Já os habitantes da Síria, Palestina, Anatólia e do Egeu procuravam as suas matérias-primas “metálicas” através de trocas comerciais com a Europa. Diz-se que a primeira transmissão radiofónica foi efetuada em 1906 por Lee de Forest,

materializando a invenção atribuída a Nikolas Tesla depois de longa disputa com Marconi que, ao inventar o seu rádio, teria utilizado 19 patentes do Senhor Tesla. Dava-se início à era de transmissão do som! Incrivelmente, apenas 15 anos mais tarde Philo Farnsworth inventaria a televisão e, tirando os filmes mudos de Charlie Chaplin, o mundo passaria a ter acesso a transmissões de som e imagem em simultâneo. Nesta nova era de partilha de informação à distância, meio mundo passou a poder conhecer melhor o outro meio. Ou pelo menos a conhecer o que se queria que se conhecesse porque nesta altura a transmissão do que quer que fosse era tendencialmente centralizada e unidirecional em que uns transmitiam, e outros recebiam. Não demorou muito mais do que 80 anos até que à televisão, que transmitia o que os “emissores” estrategicamente queriam transmitir, se sucedesse o novo mundo em que o até aí estático recetor passou a ter o poder de emitir a sua informação, a sua imagem...o seu som. Tim Berners democratizou a informação em 1989 (sim, foi apenas em 1989) com a sua World Wide Web. Foi o início da Globalização e em simultâneo o escamoteado início da atribuição do poder global ao indivíduo. Tanta roda-viva à procura de Metais converteram a importância da sua dureza mecânica em poder Humano e sobranceria, os povoados organizaram-se em cidades que cresceram na mesma proporção da ambição tra-


O capitalismo comercial cartelizado impunha as regras numa sociedade de manufatura artesanal em que a diferenciação do indivíduo garantia a diferença do bem transacionado. Foi por volta do ano 1750 e nos 100 anos seguintes que as regras do jogo mudaramdrasticamente. Ao domínio do fogo e consequente domínio dos metais que alavancaram as sociedades e empurraram o mundo para um caminho acelerado de crescimento e mobilidade, junta-se agora a grande responsável por uma nova era da revolução energética: a máquina a vapor. A energia não tem qualquer utilidade se não estiver disponível na hora certa e no momento certo. O desenvolvimento das sociedades esteve sempre condicionado à disponibilidade energética mas Alessandro Volta deu a volta a este cenário quando inventou em 1800 a forma de armazenar a energia dentro de caixas. A energia passou milagrosamente a poder acompanhar a mobilidade humana ou melhor, a potenciar ainda mais essa mesma mobilidade. As baterias foram talvez a maior invenção da história! Em 1905 Einstein lança mais uma bomba evolutiva ao explicar o efeito fotoeléctrico. Para além de um número infinito de aplicações, Einstein deu-nos a possibilidade de usar a energia do sol a nosso belo prazer. Caídos os impérios para reinos, fruto do impacto da mobilidade e do relacionamento comercial, a revolução industrial trazida pela máquina a vapor gerou novo impacto nas sociedades da época. A maior necessidade de energia em todas as suas formas criou também novas formas de organização social. A indústria viria a regular a anterior produção artesanal e a trazer uma repetibilidade que viria a ser condição. As gigantes indústrias sedentas de energia e de mão-de-obra para produções infindáveis geraram riqueza e uma nova estratificação social. Impunham-se novas leis, novas camadas e como tal, nova organização política. Caem reinados e erguem-se repúblicas! Foi o momento ideal para os políticos construírem a barreira do público e do privado e as sociedades cresciam em cima de impostos sob a capa da equidade enquanto os políticos se aproveitavam de eleitores cobertos da cegueira pela prosperidade. A globalização ganha a real forma por entre a tempestade quase perfeita: Tecnologia, transporte, produção e riqueza. Só faltava uma coisa, energia para tudo isto! Em 1850 na Califórnia só se falava em ouro ob-

servando-se uma frenética corrida metal precioso, mas não muito mais tarde, a 27 de Agosto de 1859, os Estados Unidos inauguraram a sua primeira fonte do outro ouro...o tal Ouro Negro. É estranha a coincidência de tal ter acontecido na mesma década. A revolução industrial gerou tamanha procura por energia que transformou o Petróleo no bem mais precioso ao ponto de condicionar toda a estrutura geopolítica do globo quem domina o petróleo, domina o crescimento. Viveu-se a ascensão económica e natural enriquecimento dos países possuídores de Petróleo ou de todos aqueles que tinham acesso e controlo desta nova forma de ouro. A importância do Petróleo era tal que permitiu que regimes ditatoriais se mantivessem no poder, custasse o que custasse manter uma estrutura militar necessária para manter o controlo da fonte. Foram inúmeros os países que se desenvolveram quase exclusivamente pelo acesso a este bem, assim como foram inúmeros os indivíduos que enriqueceram desmesuradamente protegidos por regimes ditatoriais que garantiam o controlo individual do Petróleo, sob a capa da partilha com o povo, que em alguns casos nunca aconteceu. As condições eram perfeitas, num mundo de transmissão de sons e imagens seletivos, o cidadão tinha pouca margem de comparação e de ação. Nos países onde o Petróleo não conseguia comprar o silêncio, as ditaduras mantinham-se, nos outros... caíam. Na Europa de hoje estima-se que haja um desperdício de bens alimentares na casa dos 100 Milhões de toneladas por ano, ou seja, mais ou menos 150 Kg por pessoa! Existem no mundo cerca de 800 Milhões de pessoas subnutridas, o que é estranho num mundo que produz comida suficiente para todos. A energia diária necessária por pessoa saudável é em média 1650Kcal para as mulheres e 2250Kcal para os homens. O mundo produz hoje 2790Kcal/pessoa/dia! As energias renováveis permitem hoje abastecer grande parte da população mundial. Se usadas de forma ainda mais eficiente e sem desperdício poderiam permitir abastecer ainda mais pessoas. A sobrevivência humana é simplesmente uma questão de energia seja ela de que forma for. Originaram-se economias cada vez mais globais assentes num modelo político que parece obsoleto como aconteceu com modelos predecessores. Os contribuintes perdem autonomia pela necessidade de contribuírem para um mundo de desperdício que sustente o fracasso deste modelo que esgotou o limite de taxação e esgotou a capacidade de gestão. E os governos sabem disto e os sinais não param de se suceder. As grandes corporações produtivas que geraram gigantes empregadores estão agora a dar novas oportunidades de autossuficiência a indivíduos conectados em rede para um objetivo comum. Os governos temem perder a força (que na reali-

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zida pela mobilidade e pelas exponencialmente crescentes trocas comerciais. Os que tinham podiam impor mais aos que não tinham e tamanha diferenciação teve um natural impacto “político”, organizacional e social que acabou por originar os poderosos impérios assentes em estrutura, liderança e leis.


dade já perderam) e temem que a passagem da Globalização para a da Globalização Individual da economia leve a uma nova mudança evolutiva do quadrante governativo. Afinal de contas Impérios, Ditaduras, Monarquias, caíram não por guerras, nem por imposições, mas pela evolução tecnológica e domínio direto ou indireto da Energia. Empresas como Airnb, Uber, Google, Facebook, e tantas outras estão a unir as pessoas aos mercados originando uma nova forma de subsistência em que cada um pode beber da globalização para se diferenciar individualmente. Os empregadores viraram agências de Marketing e Traders de ligação do indivíduo A com o B. No futuro não existirá empresa A a operar no mercado B. Haverá sim Indivíduo A a transacionar com indivíduo B. Mas o que é que a energia tem a ver com isto? Tudo! A dependência energética de regiões que se juntaram no passado para ter mais força de luta por energia condicionou a autonomia dos países e por sua vez condicionou a vida de cada indivíduo que dependia das políticas estabelecidas. Quase todas as grandes guerras que conhecemos tiveram por origem a luta por energia e como efeitos colaterais o ódio religioso. Assim se tem montado o mundo que conhecemos. A individualização energética e eliminação do desperdício energético vão transformar de forma permanente a sociedade. Se ontem grande parte do nosso rendimento se destinava direta, ou indiretamente à aquisição de energia, hoje cada um de nós pode produzir energia solar à medida das necessidades. Pode inclusive armazená-la para mais tarde, ou mesmo vender a alguém que necessite de mais energia. Grande parte do mundo já não tem falta de energia mas sim energia desperdiçada e falta de energia para aquele momento específico em que precisamos dessa energia e é aí que entra o Sr. Volta e as suas baterias para fechar o “loop”. Já podemos produzir a nossa energia para aquecimento, arrefecimento, para carregar o carro, para carregar telemóveis, para as máquinas, bombagem de água, enfim: para tudo! Com a energia em excesso poderemos inclusive produzir oxigénio ou absorver CO2 da atmosfera, ou dessalinizar água, fazer chover onde não chove, ou fazer o que quer que seja porque efetivamente com o acesso ilimitado a energia a um preço irrisório, o mundo muda completamente.

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A descoberta do fogo tornou os Sumérios grandiosos, mas todas as guerras pela conquista e domínio das fontes de energia têm os dias contados e a pergunta que se coloca é: Como será um mundo em que a Energia é como a World Wide Web; ilimitada e tendencialmente gratuita?


por António Ferrari

Escrevo no rescaldo do 4º Congresso dos Jornalistas, evento que tanto tardou a ser realizado (o Congresso anterior foi em 1998!) e onde muito se debateu, pelo que pude ler pela imprensa, o futuro do papel dos jornalistas, da indústria dos media e os desafios que os meios de comunicação digitais, entenda-se as redes sociais, têm vindo a despoletar num setor que vive mudanças sem precedentes. É verdade que as redes sociais vieram alargar o espaço público de intervenção dos cidadãos com efeitos claros na forma como todos podemos de forma fácil e eficaz disseminar os nossos pontos de vista sobre qualquer tema que nos suscite interesse. Contudo, se os anónimos têm agora mais espaço para espraiar os seus pontos de vista, uns com mais influência do que outros, também aqueles que têm interesses maiores em comunicar se adaptaram a este novo sistema, inovando nos formatos e nas plataformas em que comunicam com o objetivo de ser mais eficaz mas também menos incomodados, sobretudo por jornalistas inconformados. Na prática, a estratégia passa por suplantar o “quarto poder” optando por utilizar uma comunicação paralela, o que tem vindo a pôr em causa parte do importantíssimo papel que a imprensa desempenha nas sociedades democráticas: fiscalizar a veracidade da informação a veicular, cruzar fontes e pontos de vista e, sob a égide de um órgão de comunicação social devidamente reconhecido, bem informar os cidadãos. Ora, a intrusão dos social media nas nossas vidas tem feito com que vários poderes, nomeadamente o poder político, adotem novas formas de comunicar de forma muito ampla e abrangente mas que permite manter um distanciamento da imprensa muito conveniente, impedindo-a, muitas vezes, de exercer a tão essencial sindicância por parte dos meios de comunicação social para um correcto tratamento da informação. Ainda recentemente, um Ministro do atual Governo publicou um vídeo no Twitter onde explica determinada decisão política e o impacto que essa medida tem na vida dos cidadãos, neste caso de cidadãos aposentados. Ora, a troca da clássica conferência de imprensa por um momento de comunicação deste género enfraquece a imprensa tradicional que numa democracia se quer robusta, bem de saúde e minimamente independente, dentro das actuais regras de mercado. (Neste aspeto o Congresso dos Jornalistas aprovou uma resolução que há muito deveria vigorar em Portugal: não comparecer a conferências de imprensa em que não esteja previsto o direito a perguntas por parte dos jornalistas.)

Voltando à análise do exemplo supra mencionado, o vídeo do Sr. Ministro foi disseminado numa rede social, num formato que veda por completo qualquer tipo de inquirição por parte da imprensa. O vídeo torna-se notícia posteriormente porque os meios de comunicação tradicionais consideram o seu conteúdo relevante para os consumidores de informação, consequentemente, a abordagem dos meios a esta temática foi muito mais homogénea e acrítica, uma vez que não foi possível apresentar dúvidas, questionar determinadas características da medida anunciada e explorar novos ângulos de abordagem, uma vez que a fonte noticiosa não está, pelo menos naquele momento, disponível para prestar declarações ou esclarecimentos. Este exemplo é um entre muitos que caracteriza o novo modelo de comunicação que se está a definir, assente em estratégias que pretendem secundarizar o papel da imprensa. Um outro exemplo que merece ser analisado e debatido é o das notícias falsas, as fakenews, que tanto tem dado que falar e que escrever. A campanha de Donald Trump e o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia foram momentos paradigmáticos em que as injecções em catadupa de falsos conteúdos informativos na esfera pública, através das redes sociais, foi por demais evidente. Académicos, investigadores e jornalistas muito têm denunciado e evidenciado as consequências da introdução de notícias falsas que acabam, muitas vezes, por ter mais peso na opinião pública do que os factos. Estamos, segundo os especialistas, na era da pós-verdade, ou seja, num período em que as opiniões e pontos de vista prevalecem e influenciam mais a opinião pública do que a verdade, ainda que determinada informação, depois de escrutinada, tenha sido considerada incorrecta ou falsa. Estamos num período em que o argumento emocional, ainda que enganador, prevalece sobre o facto. Com efeito, a proliferação de conteúdos inverídicos, sobretudo no meio digital, nunca foi tão evidente, mas está a provocar um comportamento positivo por parte dos meios tradicionais que ao longo dos últimos anos tinham adoptado uma política muito duvidosa no que ao tratamento de informação oriunda das redes sociais diz respeito. Depois de várias situações embaraçosas, os grandes jornais e cadeias de televisão dos Estados Unidos da América e do Reino Unido criaram mecanismos para verificar se a informação que estão a veicular é verdadeira e credível. Contudo, este processo por melhor que se aprimore não evita que a pós-verdade continue a afirmar-se no infinito da rede. Neste sentido, cresce a responsabilidade dos consumidores/produtores de informação em escrutinar e divulgar informação. O papel dos jornalistas e dos meios de comunicação tradicionais não pode ser posto em causa. São estes agentes que auxiliam, de forma profissional, a triagem de conteúdos informativos que todos queremos que sejam factuais e imparciais. Contudo, também os que influenciam e utilizam o espaço internético devem ser provedores da verdade para que possamos ter uma sociedade mais iluminada e democrática. É fundamental que se discuta esta questão para que a verdade seja sempre valorizada e a pós-verdade para sempre arredada.

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Arredar a pós-verdade


Um homem de Deus entre “incubadoras” e “unicórnios”

por Revista Bica

Já quase tudo foi escrito sobre a Web Summit que decorreu, pela primeira vez, em Lisboa no final do ano passado. Por mais de uma semana não se falou de outra coisa em Portugal. Os hotéis encheram, os espaços nocturnos da capital viraram centros de negócios e pelos pavilhões da Expo, passaram 1490 startups de todo o mundo, 1300 investidores, 677 oradores e mais de dois mil jornalistas. Expressões como aceleradora, incubadora, “business angel”, “coworking”, “crowdfunding”, entraram no léxico dos portugueses e frases como “dás-me o teu QR Code?” ouviam-se a cada esquina.

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O evento foi um sucesso e, como era de esperar, os visitantes adoraram Lisboa e estão ansiosos pela edição de 2017. O que não seria tão expectável é que um dos visitantes mais entusiastas da Web Summit 2016 fosse um irlandês (país que perdeu para Portugal a organização do evento) e ainda por cima um Bispo Católico, Secretário Adjunto do Conselho Pontifício para a Cultura. Foi com o Monsenhor Paul Tighe que a BICA conversou durante a Web Summit, para perce-

ber o que leva um alto responsável do Vaticano a participar num evento com estas características e de que forma a Igreja Católica se está a adaptar ao mundo altamente tecnológico em que vivemos.

Peço desculpa pelo meu Inglês! O nível de inglês em Portugal é extraordinariamente bom! Até o cinema é apresentado com o recurso a legendas, o que é muito melhor. Em Itália, todo o cinema é dobrado.

O que faz um homem da Igreja numa conferência tecnológica? Suponho que duas coisas fizeram com que participasse deste encontro. A primeira foi o facto de ter sido convidado, uma vez que trabalho para o Departamento de Cultura do Vaticano, que está interessado em envolver-se no mundo cultural e, consequentemente, no mundo tecnológico. A segunda é o facto de o espaço digital ou a cultura digital, se preferir, ser uma realidade cada vez mais incontornável no mundo actual.


Se ouvirmos muitas das discussões que estão, neste momento, a acontecer aqui na Web Summit, percebemos que estas abordam questões muito mais profundas do que questões de carácter meramente tecnológico. Elas mergulham além da superfície e abordam questões como tornar o mundo um local melhor, como melhorar a colaboração e a comunicação entre os povos, como lidar com um futuro onde a tecnologia irá modificar

tal como mecanismo de comunicação. Mas, mais importante do que isso, é compreender que a revolução digital não está a alterar apenas as formas de comunicação e conectividade, mas está igualmente a metamorfosear a própria realidade. Uma das funções da Igreja é, precisamente, comunicar. Afinal a Igreja foi fundada por Jesus para difundir a sua mensagem, as suas ideias pelo mundo. A tecnologia, por si só, não nos salvará. Acho que é importante compreender que a revolução digital está a mudar a nossa forma de estar e pensar, assim como a própria forma como nos expressamos.

Para melhor ou pior? Acho que poderá ser para melhor. Mas é importante perceber que isso não acontecerá automaticamente. Essa é uma das razões porque me encontro aqui. Para me certificar e encorajar as pessoas a utilizarem esse potencial tecnológico da melhor forma. Repito: a tecnologia, por si só, não nos salvará. As pessoas de boa vontade terão de trabalhar em conjunto para se certificarem que as novas tecnologias são usadas de uma forma positiva através da criação de uma cultura e envolvência que conduza ao bem estar comum.

Antes de mais, desejo ouvir, aprender e perceber o ambiente deste encontro e estou muito feliz com este convite para fazer parte deste simpósio. Por outro lado, o meu desejo pessoal e particular de deixar algumas palavras de encorajamento. Ontem, algumas pessoas estavam muito perturbadas acerca de uma eleição… É preciso ultrapassar momentos como esse, prosseguirmos e não cairmos em armadilhas… Muitas das instituições representadas nesta Web Summit têm muito a oferecer a este encontro, mas a sabedoria tradicional da Igreja também tem muito a oferecer.

Sua Santidade o Papa, possui uma página de Facebook e Twitter, como comenta este facto? Acha importante esta aproximação dos fieis através das redes sociais? Sim, a Igreja está interessada no espaço digi-

Inicialmente a Igreja interessou-se pela tecnologia em si mesma, mas agora o interesse da Igreja é no novo mundo criado por essa mesma tecnologia. O Papa Bento foi à África e Ásia para aprender novas línguas e costumes. Agora, a Igreja também necessita de compreender e conhecer esse novo continente que é o mundo digital. Este novo mundo não é diferente do anterior, mas integrado. Como quando uma pessoa como eu coloca o seu nome no google para descobrir de quem se trata e o que faz e viceversa. Não altera quem somos, mas potencia e releva quem somos e a nossa forma de estar e viver no mundo. 50 mil pessoas estão, neste momento, a partilhar conhecimento relativo às tecnologias de comunicação. A chave é fazer parte dessa partilha de ideias que leva ao progresso. Uma das coisas que me preocupou foi a constatação de que não há muitas caras africanas aqui…

E, em Portugal, tínhamos essa obrigação…

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os princípios básicos do trabalho e da própria economia…


Sim, vocês têm uma ligação tradicional… Esta Cimeira tem uma boa envolvência, mas também muita pressão… “ Eu adoro o meu mundo digital!” Mas pode-se estar online e encontrar bons espaços de meditação e reflexão guiada... Uma boa decisão requer tempo, ouvir uma opinião diferente. A lógica não se desenrola por si só. A tecnologia necessita de ser combinada com diferentes fontes de sabedoria e conhecimento. Uma dessas fontes é a tradição católica, há muito esquecida pela Europa. Muitos jovens europeus, não olham para a Religião Católica como algo interessante.

Acha que uma das razões para que isso suceda se prende com a tecnologia? Sim, penso que sim. Os jovens são absorvidos por esse mundo. A Igreja tem que fazer parte desse mundo.

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Muitas pessoas estão à procura de páticas espirituais e alternativas da nova era. Eu não me oponho a isso, quero apenas fazer um convite Muitas das práticas espirituais contemporâneas têm como base as pessoas tomarem conta de si próprias da melhor forma, mas o Evangelho incita a ajudar o próximo, a partilhar… No Facebook partilha-se “ o meu jantar, as minhas fotografias…”. Tudo isto é oco e superficial. As pessoas deveriam partilhar conhecimento e sabedoria, não fotografias ou jantares. A Igreja pretende aprofundar essa mensagem. A mensagem de Jesus é que Deus nos ama. Não é necessário representar ou provar algo para se ganhar o Amor de Deus. O Amor de Deus é incondicional.

Este mundo é condicional. Tem que se ser merecedor da atenção dos outros, ganhar batalhas. A mensagem que eu pretendo transmitir é a de que o Amor de Deus não depende de nada e é absolutamente incondicional.

A Igreja Católica é a única que advoga esse Perdão absoluto e incondicional… Bom, penso que se encontram elementos dessa ideia também em outras religiões, mas não da mesma forma. Esta é uma ideia que altera a forma como percepcionamos o mundo.

Acha que seria diferente se estivessem aqui presentes mais Latino-Americanos? A Igreja está a ganhar terreno na América Latina… Sim, porque essa ideia tem a ver com a abertura e tolerância pós-modernas… “ Nós toleramos-te…” Fazemos afirmações e reivindicações acerca da verdade, mas o que é realmente verdade? O que é realmente confiável? Esta questão tem potencial para uma discussão rica…

O que foi, para si, mais surpreendente aqui? Tudo! Já não vinha a Lisboa à cerca de 15 anos, as minhas memórias eram de uma cidade escura e triste, mas agora está transformada, algo de muito interessante aconteceu. Lisboa tornouse numa cidade bonita, toda a gente fala agora Inglês o que revela uma alteração no sistema educativo. Toda a gente quer falar e compreender as coisas relativas à Igreja. Pessoas que não são católicas por definição.


Qual é, aos olhos da Igreja, o futuro da Cultura na Europa? O Futuro está nas Artes Visuais, mas uma Arte não aparente, para lá da superfície. Algum do criticismo mais veemente relativamente à industria tecnológica parte de autores como David Eggers que é exímio no reconhecimento e demonstração da natureza aditiva ou viciante do consumo digital. Um outro escritor que procede à análise psicológica de grandes figuras da Internet de forma interessante, é Johnson Frankson em “Purity”. Por vezes, estes autores exageram, mas no fundo é uma questão de sobrevivência para eles. A arte, o cinema, a literatura parecem opor-se, mas têm muito em comum.

Uma última questão sobre o Vaticano: alguns Católicos têm revelado algum desconforto relativamente às alterações no Vaticano dinamizadas pelo Papa Francisco. Alguns deles não olham com desconfiança essa mudança. O Papa Francisco teve a clarividência de olhar para as pessoas externas à Igreja. É uma pessoa muito livre, que se expressa de uma forma muito livre e não estamos habituados a isso. Daqui a 100 anos as pessoas olharão para este momento histórico como um momento de extrema relevância. Ele é o primeiro Papa não Europeu. Um Papa muito latino. Diferente da nossa cultura que tende a ser muito europeia e tradicional. Um outro aspeto prende-se com o facto de ele pertencer a uma ordem Religiosa, a dos Jesuítas. As Ordens religiosas tendem a focar-se mais na comunhão e no carisma. A maioria dos Papas eram diocesanos, mais institucionais. Em última Instância, a Igreja não é o trabalho de um Papa, mas de Deus. O Espírito deve ser capaz de ver para além da superfície. Como pessoas de Fé confiamos em Deus e é assim que encontramos Esperança.

Como está a sua Irlanda? Tenho estado fora da Irlanda há cerca de 10 anos. Está a mudar rapidamente, muito diferente da Irlanda em que cresci. Tenho sobrinhos e sobrinhas de idades entre os 8 e os 31 que cresceram num mundo muito diferente do meu e eu teria muita relutância em afirmar que esse mundo é de alguma forma pior do mundo que eu conheci. A Igreja não tenta manter as estruturas anteriores, a relação entre a Igreja e a sociedade está a alterar-se rapidamente, mas tentamos focar-nos em ideias comuns como Esperança e Alegria.

Eu não bebo, mas creio que sim. – Risos.

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A Guiness felizmente está na mesma!


A Casa Grande da integração

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por João Moreira

Hugo Macedo

Quem fizer um esforço de memória talvez se lembre de um descampado lamacento, ali, quase em frente ao Centro Comercial Colombo para os lados de Benfica onde, de tempos a tempos, o circo armava tendas e vivia paredes meias com um parque de estacionamento improvisado e umas quantas hortas antigas que faziam parte de uma velha exploração agrícola encimada por uma casa grande toda em ruínas. Durante décadas, essa quinta, propriedade do Município de Lisboa, esteve abandonada e muito provavelmente assim continuaria não se tivesse dado o caso de José Sá Fernandes, vereador camarário com o pelouro da estrutura verde e energia, se ter cruzado com uma mãe coragem chamada Piedade Líbano Monteiro empenhada, com outros membros da direcção da Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger

(APSA), em encontrar um espaço onde os jovens portadores da doença pudessem ser acompanhados e auxiliados no seu processo de integração social e profissional. A verdade é que desse encontro resultou um dos mais entusiasmantes processos de recuperação patrimonial levado a cabo por uma IPSS em Lisboa com o total envolvimento dos diversos departamentos camarários e a revitalização de um espaço que hoje abre portas a um futuro mais promissor e menos estigmatizante a dezenas de jovens marcados pela mais funcional das perturbações do espectro do autismo. Com o intuito de perceber o que é a Síndrome de Asperger e conhecer o espaço que a APSA orgulhosamente inaugurou em 6 de Janeiro de 2014, visitámos a Casa Grande


São quase três horas da tarde de um dia chuvoso de inverno quando entramos pelo portão da Casa Grande. Luís (nome fictício) passeia-se por um dos páteos interios da casa, hirto, mãos atrás das costas e olhar fixo num horizonte que não conseguimos vislumbrar. Cruza-se connosco indiferente ao cumprimento e ao aceno de cabeça. Ao fundo, numa pequena horta, um grupo de outros rapazes mais ou menos da sua idade plantam verduras e ervas de cheiro. Participam num dos ateliers temáticos organizados pela APSA visando dar uma resposta inclusiva aos jovens portadores da Síndrome de Asperger. O nome Síndrome de Asperger é estranho para a maioria das pessoas, apesar de, no dia-a-dia, muito provavelmente já todos nos termos cruzados com muitos portadores da doença. Como nos explica Patrícia de Sousa, a Directora Técnica da APSA, “a perturbação do espectro do autismo, hoje em dia, é classificada por níveis. Se quisermos, podemos adoptar uma nomenclatura de níveis de funcionalidade sendo a mais funcional a Síndrome de Asperger. Basicamente estamos a falar de pessoas que têm perturbação ao nível da comunicação, comunicação verbal e não verbal, de pessoas que têm interacções sociais bastante limitadas ou desadequadas por excesso ou defeito, e por último, pessoas que têm comportamentos específicos e intensos, ritualizados o que faz também com que haja uma perturbação grave na reciprocidade social e na integração comunitária.” A Síndrome de Asperger é o caso menos dramático, menos acentuado, menos disfuncional do autismo, o que fez com que, durante décadas fosse muito dificilmente detectado. “Ainda hoje fazemos muitas consultas a pessoas que estão casadas, têm uma vida dita funcional, com trabalho, com família, mas com muitas disfuncionalidades a acontecerem pelo meio. São pessoas que para manterem esta funcionalidade acabam por ter um sofrimento acrescido, porque todas as relações sociais são deturpadas. Aquela gestão de sentimentos que nós temos e que nasce connosco, eles não têm, é uma coisa que é aprendida, é uma colagem que é feita e como eles são muito inteligentes conseguem ir acompanhando, mas com grande sacrifício. Isto cansa muito estas pessoas. Nós libertamo-nos do nosso cansaço tendo tempos livres, socializando. Eles não. Cansam-se ao ter que fazer estas coisas, entram em ansie-

dade ao ter que estar paradas. O mundo tem que ser previsível tem que ser organizado, tem que ter um esquema, de preferência com rotinas e de preferência sem mudanças. Ora, hoje em dia, o mundo está cheio de alterações significativas de rotinas, de imprevistos e eles sofrem muito com isso, portanto, o facto de estarem bem integrados não quer dizer que sofram menos, porque acabam por estar mais expostos. Geralmente as pessoas que têm esta grande capacidade funcional e que têm esta integração a nível social, comunitária, pessoal e laboral, são pessoas que também têm uma vida um pouco peculiar. Como têm os padrões intelectuais muito elevados passam a parte académica com menos prejuízo, mas sempre com o estigma do bullying, muitas vezes com histórias dramáticas, mas como são compensados pelo perfil intelectual vão conseguindo ultrapassar.” A APSA existe à 14 anos, criada por pais de jovens portadores da Síndrome de Asperger, com o intuito de promover intervenções, tanto de prevenção como de encaminhamento, como ainda de formação e informação que permitissem o apoio familiar e a integração social e laboral dos seus filhos. Mas surgiu também, como resposta às preocupações impostas pelo passar do tempo e pelas dificuldades encontradas em obter apoios do Estado direccionados para uma nova fase na vida destes jovens, prestes a entrar na idade adulta. “Para o Estado parece que as pessoas que vão tendo alguns apoios até determinada idade, depois deixam de ter problemas e ficam bem, deixam de ter perturbações, deixam de ter deficiências de carácter permanente. Mas não é assim. Continuamos a ter coisas ridículas como os centros onde está concentrada toda a burocracia, todos os anos solicitarem aos pais as credenciais para provar as deficiências do filho. Já nem falo ao nível de Asperger, porque uma pessoa que nasce com défice cognitivo, vai perpetuar esse défice cognitivo, o que é que estão à espera? Para as famílias é um sofrimento horrível estarem a ir buscar um atestado todos os anos para mostrar a incapacidade dos seus filhos. Parece que estão a voltar atrás no tempo, ao momento em que tiveram de assumir um diagnóstico terrível.” Patrícia, faz um esgar de indignação acentuando o final da frase como que lançando um alerta para a urgência de uma maior sensibilidade na forma de lidar com estes jovens e as suas famílias. Foi esta consciência das limitações impostas por um sistema ainda muito débil no apoio a pessoas com limitações permanentes, sobretudo em relação à sua integração profissional, que levou a APSA a desenvolver o projecto Casa Grande.

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acompanhados pela Patrícia Crespo Loureiro para conversar com Piedade Líbano Monteiro, com José Sá Fernandes, com António Hilário David e com a psicóloga Patrícia de Sousa.


“O projecto da Casa Grande é um projeto para um público-alvo da patologia de que já falámos, mas restrito aos jovens adultos, no sentido de um ganho de competências sociais, funcionais e de caráter laboral de acordo com as suas necessidades, com a sua história de vida, permitindo-lhes fazer esta passagem para o mercado empresarial e profissional. No fundo tratou-se de estender ao mercado laboral o mesmo tipo de apoio que já existia, com alguma banalidade, nas escolas. Obviamente que a cereja no topo do bolo é conseguirmos criar um link com o mercado empresarial e de serviços, que nos permita fazer esta passagem facilmente, através de parceiros empresariais, as tais empresas receptivas, para que se disponibilizem a receber e a integrar estes jovens com a nossa mediação. Felizmente tem resultado, tem sido gratificante. Não temos aqui nenhuma experiência que tenha corrido mal, ou em que a entidade se tenha arrependido.” Um dos problemas da Síndrome de Asperger é o diagnóstico tardio da doença, que acarreta uma história de vida terrível para trás, com sentimentos contraditórios por parte dos pais, de culpa por não terem acreditado e insistido nas suas suspeitas e de alívio por, finalmente, perceberem que os comportamentos dos seus filhos se devem a uma doença real, que embora não tendo cura, pode ser acompanhada e minimizada.

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“Os pais pensam sempre que são os únicos a passar por todo o processo, mas nós que estamos do lado de cá sabemos que a história é sempre a mesma. Há uma panóplia de médicos e encaminhamentos e de avaliações e de coisas mal conduzidas e mal avaliadas, é o habitual. Isso gera grande ansiedade e a preocupação em relação ao futuro, porque só na adolescência ou na entrada da idade adulta conseguem um diagnóstico.” É aí que entra o projecto Casa Grande, desde logo seleccionando os jovens com mais de 16 anos com perfil para serem admitidos no programa. “Temos de ser muito rigorosos na avaliação do processo de candidatura, sobretudo, em termos psicológicos, porque independentemente daquilo que conseguirmos avaliar e perceber dos diagnósticos temos de nos focar na funcionalidade daquela pessoa, nas suas necessidades e na fase em que está e percebermos através dessa funcionalidade se será passível de entrar no programa. A dita intervenção a que facilmente se recorre no consultório ou numa escola, depois deixa de fazer muito sentido para estas pessoas, porque por muito apoio psicológico que tenham em gabinete ou em sessões de psicoterapia, não estão a trabalhar a área de que necessitam, mais dinâmica, das patologias cognitivas comportamentais e no concreto,

porque eles só vão lá pelo concreto, em meio social, portanto nós tivemos que montar aqui um horário preenchidíssimo de actividades, umas vocacionais outras de treino de competências para depois com esses contextos podermos trabalhar os handicaps todos que eles têm…” Patrícia Crespo Loureiro acrescenta “Eles vão ao supermercado, eles vão ao correio, eles vão ao banco, elas andam com eles no autocarro ou seja trabalhar nos contextos.” “É exactamente o que fazemos.” Continua Patrícia. “Treinos de competências sociais. Individualmente e depois em grupo, ou seja, pelo facto de termos 20 jovens connosco, conseguimos trabalhar em grupo a parte da comunicação uns com os outros, a parte da interacção social, os sentimentos, a reciprocidade social porque é necessário que se habituem a ser condescendentes. Não nos podemos esquecer que estamos a falar de pessoas que se isolam, que não se incluem, pessoas que quando se querem incluir são rejeitadas e, portanto, aqueles handicaps, que já têm, de comunicação, de entendimento das relações, de promover e de ter alguma intencionalidade, vão-se agravando. Outros, que não têm tanta tendência para o isolamento, e que normalmente se expõem ali mesmo na boca do lobo, têm que ser trabalhados para o inverso, para se auto-regularem, porque as suas experiências são igualmente negativas pelo exagero de confiança. Então, o que pretendemos é que na Casa Grande, além da intervenção, tenham um ambiente estruturado em que se fala a mesma linguagem e se trabalha com eles um veículo que eles entendem para poderem aceder à comunicação e como passam a conhecer os outros, ganham outro nível de confiança e começam a generalizar para outros contextos, portanto, não é uma coisa artificial, eles percebem que tudo o que fazem aqui é para depois conseguirem fazer lá fora, em meio social. Na paragem de autocarro, no serviço de ida ao banco, na fila de supermercado, no jantar em casa com a família porque vai lá o tio e tia e antes enfiavam-se no quarto, agora já ficam, já ouvem e até já contam coisas. Nas áreas vocacionais temos situações giríssimas, porque não nos podemos esquecer que eles têm uma perturbação do espectro do autismo e têm coisas em que são muito melhores que nós e de repente quando começam a experimentar algo novo ficamos surpreendidos. Ainda agora tive aqui uma consulta com o um jovem surreal que é muito bom em tudo, em quase tudo, portanto o avô investe imenso nele, pagoulhe aulas particulares de piano e já está um nível que os próprios professores não o querem colocar num conservatório. Para não falar na competência pessoal, temos um jovem que sobe para cima dum palco a cantar e a tocar e estabelece contacto ocular, muda as


expressões faciais, interage connosco como não faz quando não está em cima dum palco. Isto é muito libertador para eles e é muito organizador para as famílias. O facto de poderem assistir a isto dos filhos é muito bom, porque nunca assistiram e isso faz com que eles também iniciem um trabalho de introspeção “Calma o meu filho tem dificuldades, mas tem a sua dignidade e é muito bom em muitas coisas”. Até porque, para estes pais, o processo escolar é muito traumático porque só realça o mau pçor falta de tempo e de meios para uma dedicação específica a alunos com esta problemática. No fundo não há tempo e eles têm que ser tão bons como os outros, o que é um erro crucial. Aqui tentamos ultrapassar este lado negativo do passado e tem corrido bem.”

O mesmo jovem está na faculdade, voltou para a faculdade está num estágio profissional, conseguimos-lhe criar um blog para ele expressar a sua veia artística que foi descoberta aqui dentro o pai ficou louco entusiasmadíssimo, porque o filho parece outro, no entnato, ainda hoje esteve 25 minutos na paragem do autocarro à espera para apanhar o transporte para vir para aqui, lá está momento de espera... entrou numa ansiedade louca começou aos murros ao placar da estação e partiu aquilo tudo… mas isto são as nossas pessoas não é? Ou seja, o que é que eu quero dizer com isto? Têm muita facilidade de evoluir positivamente, mas não se curam. Isto é outra coisa que é preciso que os pais entendam.”

A Casa Grande apoia 20 jovens em diversas áreas integrativas, que vão do treino de competências sociais, ao treino de autonomia funcional, em acções tão simples como apanhar um autocarro ou ir ao multibanco, passando por actividades laborais em cada um dos departamentos da própria instituição, pela formação para o emprego, auxiliando na elaboração de CV, no treino para entrevistas de emprego, culminando no programa empregabilidade, em parceria com empresas receptivas que aceitam a integração temporária destes jovens em meio laboral. Esta experiência tem sido um sucesso, muito pela mediação permenente realizada pelos técnicos da APSA.

Procuramos perceber melhor como foi a receptividade das empresas ao programa empregabilidade e a integração dada aos jovens seleccionados.

“Temos vários que tiraram a carta de condução, o que é giríssimo. Houve um assim mais complicado na altura, com autismo mais alto, para aí nível 2, mas com um potencial brutal e o pai espectacular apoia-o em tudo (com este pai temos que trabalhar o inverso que é “Calma, vamos devagarinho”) e a tirar a carta, tive que trabalhar com a técnica tutora “ok então vamos fazer competências sociais para a parte de trás do carro.” (risos). E tirou a carta. Nós vamos para onde for preciso.

Outra área em que o nosso trabalho tem sido importante é nas escolas, sobretudo, ao nível de 3º ciclo, quando os jovens já têm que estar integrados para aqueles projetos de vida activa como previsto na lei, que é muito bonita, mas depois não funciona porque não há recursos nenhuns. Nós temos tido algumas experiências boas e gratificantes a ajudar as escolas e as famílias para que isto corra bem, mas com muita angústia, porque as famílias é que pagam os nossos serviços para a escola, isto não está correcto. A mim angustiame muito, nós podemos ajudar 30 Miguéis que podem estar nessas circunstâncias, mas quantos Pedros, Antónios e Fernandos que por muito que pensem como nós e queiram,

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“Temos um jovem que saiu agora da REN que num departamento de engenharia e de energias renováveis, coisas complexas, operacionalizou N ferramentas que eles usavam em informática que não estavam a ser otimizadas, ele mudou para outras e melhorou aquelas, veio-se embora e deixou aquilo otimizado para a empresa, mas a empresa não o contratou. Para nós foi ótimo, foi uma oportunidade que ele teve para fazer currículo e faz parte do nosso programa, mas nós queremos é que com o tempo isso seja isso valorizado.” Patrícia Crespo Loureiro acrescenta “isso vai começar a acontecer. Se pensarmos que eles entraram aqui há 2 anos, alguns deles estavam à 3 ou 4 anos em casa e hoje trabalham, andam no autocarro, entraram para a faculdade e tiraram cursos.”

“Eu qualquer dia vou fazer um artigo sobre isso, porque estamos a ter um padrão muito engraçado em relação a essa receptividade. No início as empresas ficam muito entusiasmadas, até pelo apelo social do projecto, depois recebem a informação e entram em pânico, depois ficam a achar que o jovem que vai é pior do que aquilo que eles estavam a pensar antes de se meterem na proposta e passada uma semana do jovem lá estar, está tudo histérico porque o jovem é muito bom e não é nada daquilo que estavam à espera. (risos) Isto explica bem, que por muito que tenhamos bons valores, quer queiramos quer não vivemos numa sociedade cheia de representações negativas, em que pensamos sempre num conjunto infindável de representações que levam a preconceitos, a outros conceitos, a outras idealizações e, portanto, temos de pensar que estamos a construir uma nova mentalidade. E temos tido discursos giríssimos nos momentos das avaliações, quer das pessoas que trabalharam com estes jovens quer até dos directores, porque se criam elos e se desmistifica a doença.


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Apesar do desânimo que situações como esta acabam por gerar, Patrícia de Sousa está entusiasmada, como toda a equipe da Casa Grande. Os progressos têm sido enormes e a felicidade com que as famílias vão retratando as melhorias diárias dos seus jovens são o maior incentivo à continuidade de um projecto que surgiu do sonho de uns quantos pais que uma enorme determinação e empenho tornaram realidade. No epicentro deste furacão de boa vontade, esteve e está Piedade Líbano Monteiro, Presidente da APSA e José Sá Fernandes, vereador da Câmara de Lisboa, foi com eles que conversámos sobre essa união de esforços que resultou na Casa Grande. José Sá Fernandes (JSF): A Câmara tinha este espaço abandonado e completamente em ruínas numa altura, ainda por cima, em que estávamos em plena crise financeira e não havia possibilidades de levar a cabo uma recuperação assumida pelo Município. Eu estava a reabilitar o parque todo, que era uma coisa absolutamente inacreditável com lamas, carros estacionados e empinados uns em cima dos outros. O circo às vezes vinha para aqui e os elefantes estavam nas janelas das casas das pessoas, um cheiro nauseabundo, enfim uma coisa completamente indescritível. Começámos a fazer este jardim, o parque infantil, o quiosque, tudo integrado com as hortas que já cá estavam. Mas tínhamos este património que de facto aqui valia a

pena recuperar e, para mim, valia a pena ser ocupado por uma associação que tivesse as características que esta tem. Como em tudo na vida, quem faz as coisas andar são as pessoas não é o dinheiro, o dinheiro é importante, mas se não houver as pessoas certas nos sítios certos e nos momentos certos, as coisas não acontecem. Aqui deu-se a feliz coincidência de haver uma grande vontade minha de atribuir este património a alguém que o conseguisse recuperar e de nos ter aparecido este vulcão chamado Piedade Líbano Monteiro. (risos) e que conseguiu este milagre, porque foi quase um milagre. Piedade Libano Monteio (PLM): Não fui só eu (risos). JSF: E outras pessoas, o Professor Raposo Magalhães, o António... PLM: Muita gente contribui para este projeto. JSF: E disse: “Sim senhor, eu vou-vos entregar isto, mas tem que haver um compromisso da vossa parte de fazerem as obras de recuperação.” Muitas vezes o grande problema de entregarmos património é as pessoas terem a capacidade de depois arranjarem os meios para recuperarem e manterem. No caso de um edificado como este, era preciso, de facto, haver uma pessoa com uma força de vontade muito grande, um vulcão, mas um bom vulcão... Todos: (risos) JSF: ... associado a uma série de pessoas com a mesma determinação. Enfim, foi isso que aconteceu. Deram-nos garantias, avançámos e como pode ver, o resultado foi esta recuperação absolutamente extraordinária. E algo de mais importante, que é o facto de quando hoje aqui chegamos vemos uma data de pessoas integradas, pessoas a trabalhar todas com o mesmo objectivo, o sucesso desta associação, olha-mos lá para fora e vemos o jardim arranjando, pessoas a passear, num sítio que não era nada e que hoje é tudo. Tudo de bom exemplo! Isso deixa-nos satisfeitos e orgulhosos. Aliás, este foi um projecto que nos uniu. Temos só um diferendo, é que quando fizeram a angariação de fundos, recebíamos uma telha que tínhamos de devolver e eu não devolvi a minha. (risos). Eu quero ficar com uma recordação desta coisa que acho que foi muito bonita e a telha é o único prémio que eu tenho e vou guardá-la… a telha que vai ser minha para sempre... (gargalhada geral).

Bica: Usurpou orgulhosamente a telha. JSF: Usurpei a telha, embora eu sinta que vai

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nunca terão acesso a este projecto? Já tentámos reunir com o Ministério da Educação, com provas dadas e as respostas que nos deram foram sempre “o ensino é gratuito, portanto nós não podemos assumir isso”. É mesmo o não querer e empurrar para debaixo do tapete. Existe uma lei 3/2008 que regula o quadro de necessidades educativas especiais, que é muito boa, mas na prática não se faz nada do que lá está, não funciona. Fez-se na teoria uma lei muito boa com uma grande visibilidade em termos de inclusão que muitos países de Europa não têm, estamos muito à frente em termos legislativos, mas depois a escola não tem os recursos, não há formação contínua, o regime educativo varia de ano para ano com cada vez mais burocracias, os professores estão numa escola um ano, para o ano já sabem que vão estar noutra, como é que podem investir num projecto como este? Depois querem que os professores andem motivados, que tenham tempo… não, eles mal têm tempo para a burocracia que entretanto foi implementada como é que o arranjam para a pedagogia? Portanto, pedagogia zero, recursos humanos zero, formação zero e, claro está, nada pode correr bem com a lei, embora a lei seja muita boa.”


ser um litígio que se vai manter.

Bica: Pelo menos com o António, que eu já vi que quer muito recuperar essa telha. PLM: (risos) O António sempre que nós estamos com o senhor vereador pergunta-lhe pela telha, mas essa história da telha também é engraçada, foi na apresentação da obra e a idéia da telha partiu do António.

Bica: António, conte-nos como surgiu essa idéia. António: Foi uma forma de arranjar um símbolo que marcasse o lançamento da obra e do projecto da Casa Grande e lembrámo-nos de arranjar uma telha.

Bica: Em vez do laçamento da primeira pedra fizeram o lançando a primeira telha… António: Exactamente! A ideia era que a telha viesse para uma vitrina, como símbolo, mas enfim permanece à guarda do Senhor Vereador. (risos). JSF: (risos) Isso é uma coisa que ainda vamos negociar… PLM: Isto foi engraçado e foi dito em público: “Senhor Vereador está aqui a telha que nos vai entregar na inauguração da Casa Grande” (risos). JSF: Houve uma coisa muito interessante também, que foi a entrega, a dedicação dos serviços da Câmara a este projeto. Quer a equipe jurídica, quer de arquitectura, quer os serviços administrativos, empenharam-se neste projecto à séria.

Bica: E isso aconteceu porquê? Porque não é habitual isso acontecer, pois não?

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JSF: Sempre que há vontade das duas partes, as coisas acontecem. Neste caso eu decidi ir falar com os serviços e explicar o projecto e todos aderiram desde a primeira hora até porque é aliciante ver um edifício que estava em ruínas ganhar esta vida.

Bica: Quais foram os principais motivos deste sucesso? PLM: Primeiro a nossa forma de comunicar. A APSA nasceu para trabalhar junto das pessoas e nunca contra as pessoas. Nós, somos pais e pais um bocadinho doridos, porque ter um filho diferente não é “ai que bom! Tenho um menino com Síndrome de Asperger e vai ser o máximo!” Não é assim…

Bica: Isso é só nos jornais. PLM: É só nos jornais e nas revistas corde-rosa. Não, ter um filho assim é duro. Há bocadinho perguntava-me o que há de diferente e o que há de diferente é a maneira de comunicar, ponto. Eu sei que tenho um filho diferente, mas não posso apresentá-lo à escola e dizer “o meu filho é diferente e vocês têm de saber exactamente o que é que ele tem e como contactar com ele”. Enquanto pai ou mãe de uma criança diferente, não posso pensar que só tenho direitos e não tenho deveres. A nossa postura é essa. Nós não estamos contra o mundo, nós estamos com os professores, estamos com a comunidade e com a sociedade para explicar o que é que os nossos filhos têm e ajudar a integrá-los. É desta forma que APSA está desde o dia 7 de Novembro de 2003. Se for à nossa missão e valores verá que a missão primeira é sensibilizar, explicar, desdramatizar. Agora em relação a este projecto da Casa Grande o que nos trouxe até aqui foi o medo do futuro. O que é que eu faço ao meu filho ou o que é o meu filho faz quando eu morrer? Quem é que o prepara? Se eu lhe falto, faltalhe tudo? Não pode ser. O Estado faz uma parte, mas nós, pais, temos de fazer a outra. Então, na altura, tínhamos como elemento da direcção, a Manuela Magalhães que também tinha esta preocupação com o futuro e comecámos a organizar umas reuniões que eram diferentes das reuniões normais da Associação, porque eram apenas para pais dos jovens a partir dos x anos, pensando nesse futuro, porque covém esclarecer que ao contrário de outras deficiências, os nossos filhos não gostam de ser institucionalizados, nem nós queremos que o sejam. Nós queremos é incluí-los e integrá-los.

Mas os parabéns devem ser dados à Associação, porque de facto, foi absolutamente exemplar na maneira como pôs isto de pé, e todos conhecemos demasiados maus exemplos para não valorizarmos os bons e este é, de facto, um belíssimo exemplo.

Bica: Até porque as limitações existentes são muito ténues.

PLM: Foi um processo que nos deu imenso prazer, mas que também nos fez passar muitos maus bocados, porque a responsabilidade era muito grande.

Voltando à história, esta nossa colega, a Manuela Magalhães dizia-me “Ó Piedade, nós temos de ir ao Vereador Sá Fernandes, nós temos de ir à Câmara. A Câmara tem muitas

PLM: O que não quer dizer que sejam fáceis. Mas não é na institucionalização que está a solução.


Bica: Isso é interessante, porque o que estamos habituados a ver é as autarquias a assumirem os projectos, contratando um mega arquitecto para fazer uma mega obra que resulta quase sempre num mega derrapanço orçamental. JSF: Isto tinha que ser um mega projeto feito por pessoas normais. PLM: Assim foi e conseguimos fazer um trabalho fantástico com a equipe que tínhamos. Foi muito importante o apoio da Câmara, sem sombra de dúvida, e a disponibilidade com que sempre nos trataram, mas também foi um enorme teste da nossa capacidade de resposta. Eu lembro-me que, em Fevereiro, fomos a uma reunião com o Senhor Vereador Sá Fernandes com uma folhinha A4, ou duas ou três folhinhas à A4 numa capa linda e explicámos o que queríamos e o vereador olhou para nós e disse: “vamos fazer aqui uma coisa, há reunião geral de câmara em Maio, se vocês conseguirem de Fevereiro a Maio reunir um montante de 350 mil euros, eu faço protocolo convosco porque isso é o garante de início de obra”. Nós somos pais e como pais arregaçá-mos as mangas e em Maio fomos ter com o ele e dissemos “está aqui o dinheiro”. Não era o dinheiro total, mas era o compromisso do BES, o compromisso da PT, o compromisso da fundação Calouste Gulbenkian, o compromisso do Millenium BCP, que perfazia aquele montante. Fizemos uma angariação de fundos fantástica com a PLMJ, em 2009, num jantar no Casino do Estorial, que quando o Assis Ferreira percebeu que o jantar era para angariação de fundos para a

APSA, chegou meia hora antes do jantar e disse “É evidente que não vão pagar nada” e nós numa noite fizemos 40 mil euros, em 2009. O problema foi depois, o que é que nós pensámos, lembro-me perfeitamente de ter falado isto com o António, “se nós conseguimos este valor sem nada para mostrar, quando os mecenas começarem a ver as obras, vai chover euros por todo o lado”, mas não. Acabaram-se os euros todos e houve noites em que não dormi, porque a responsabilidade estava sobre a minha cabeça. Só pensava, como é que eu vou pagar aquele empreiteiro? E, lembro-me perfeitamente, na primeira Páscoa liguei ao empreiteiro da Tecnorém, o Eng. Carlos Batista, e disse-lhe, senhor engenheiro, é Páscoa e a Páscoa para mim é importantíssima, e eu tenho que lhe dizer uma coisa, vamos parar a obraporque eu não tenho dinheiro e desatei a chorar e ele, que é muito pacato disse “A senhora se quiser pode parar a obra, agora os meus homens não saem de lá” e acrescentou “A sua casa só tem valor depois de feita e eu estou cá para a fazer. Fique descansada. Passe lá a Páscoa descansada.” E a casa está feita, também muito por causa disto, porque senão, se eu tivesse parado nunca mais terminaríamos. Portanto, a Casa Grande devesse ao esforço de todas estas pessoas.

Bica: E eu diria que ouve uma conjunção de boas vontades. PLM: Sem dúvida, sem dúvida. O vereador esteve sempre connosco, as entidades que disseram que nos ajudavam, ajudaram e estiveram presentes. Eu sou uma mulher de fé e acredito que as coisas não acontecem por acaso e também acredito que se esta casa foi reconstruída para alguma coisa é, para alguma coisa foi. O fruto, vamos vendo a pouco e pouco. Neste momento já tenho empresas a abrir as portas, o que nós queremos mostrar é que por os nos filhos serem diferentes não são incapazes de serem cidadãos integrais. É difícil, mas não é impossível. O que me deixaria realmente feliz era ver que a maioria dos rapazes que aqui está daqui saísse a pagar o seu imposto.

Bica: Mas, segundo sei, a grande maioria tem uma grande capacidade em diversas áreas. PLM: Tem, mas vá lá ver o comportamento deles porque é pelo comportamento que eles são postos fora dos seus locais de trabalho. Portanto o nosso trabalho é este, é capacitar, é mediar, é estar com a sociedade, é estar com as famílias, é dizer que é possível. É preciso acreditar, porque sei que foi o que me salvou. Eu sempre acreditei que o meu filho conseguiria, que conseguiria ler, que conseguiria escrever e assim foi. Se eu não

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quintas.” Ainda fiz uma ou duas reuniões com não sei quem, já não lembro, mas só quando falámos com o Senhor Vereador e que tudo se conjugou. De facto a luta da APSA foi muito grande, mas nós não temos nada a apontar à Câmara Municipal de Lisboa. Desde o vereador, até aos serviços do Campo Grande, passando pelos arquitetos, zero. Aquilo que não pôde ser feito, era porque de facto não podia ser feito. O Município foi irrepreensível em termos de timings, de serenidade, da disponibilidade permenente em atender os nossos telefonemas, do apoio do departamento jurídico, e aqui a APSA tem uma coisa a favor é que também tem um departamento jurídico forte e que funcionou na perfeição com o departamento jurídico da Câmara, em particular com a Dra. Maria José Barreiros que foi incondicionalmente nossa amiga, ou seja, houve uma união de esforços brutal para que isto desse certo. Depois houve um promenor interessante, é que no fundo, nós trabalhámos com a prata da casa da Câmara Municipal e a arquitecta responsévl pelo projecto foi a Sofia Andrade, que era uma arquitecta da Câmara e que foi excepcional.


tivesse acreditado, mais facilmente ele estaria numa cadeira a balançar-se como ainda hoje faz quando está tenso de alguma forma. Se eu consegui isto, e eu sou 1 metro e 56 de gente...

Bica: Já percebi o vulcão (risos). PLM: (risos) Se eu consegui sem apoio, se eu consegui ter uma família feliz e harmoniosa, e aqui todos conhecem e sabem que não é fingida, se eu consegui sem apoio, com o apoio os outros também conseguem. Estamos nas escolas, estamos na família, estamos na sociedade, estamos na comunidade, onde somos chamados.

Bica: Imagino que seja muito importante manter uma ligação muito grande com os locais onde eles trabalham? Como é que isso é conseguido? PLM: Com imenso cuidado, e nisso somos pioneiros. É um dos programas desta casa. A APSA é o chapéu, a Casa Grande é um mega projecto da APSA entre outros e um dos projectos da Casa Grande, é o projecto de empregabilidade. Como é que isto se faz? Apresentando o projecto APSA Casa Grande Empregabilidade às empresas, nomeadamente ao Santander. Pedimos uma reunião de recursos humanos para podermos apresentar…

Bica: Vão com as quatro folhinhas A4, mas dizendo logo: não nos peçam 350.000 euros para daqui a 3 meses.

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PLM: (Risos). Não! Nós apresentamos o projecto e a reacção é sempre boa, porque hoje existe a noção da responsabilidade social por parte das empresas. A partir daí é procurar conjugar as áreas de trabalho em que a empresa pode contratar alguém com as aptidões dos nossos jovens, ou seja, quando nós vemos que podemos casar aquilo que é necessário na empresa com os jovens que nós temos com essa capacidade, encaixamos as peças. Mas não encaixamos as peças tipo manual. Tome lá o manual e aqui vai o Pedro. Não é assim. Somos capazes de andar no namoro durante um mês. O Pedro vai lá, conhece a equipa e a equipa conhece-o, vamos fazer uma sessão de formação à equipa, que alargamos à administração e a toda a gente que recebe os nossos Pedros, os nossos Fábios, etc. Desde a REN à Jerónimo Martins, passando pela Accenture e agora o Santander, sabem e ficam a saber o que é a Síndrome de Asperger não há volta a dar, e isto é válido do José Galamba ao porteiro.

Bica: Isso também deve ser um grande motivo de orgulho para vocês, porque se encaixa exactamente na vossa mis-

são de divulgação e sensibilização para a Síndrome. PLM: Claro que sim, mas sabe qual é o máximo do orgulho para nós? É dois meses depois de termos aberto a Casa Grande, os pais virem buscarem os filhos de lágrimas nos olhos “Eu não sei o que é que vocês fazem, mas o que é certo, é que os vizinhos notam que o meu filho está diferente”. Isso é o sucesso! Por isso temos cerca de 20 jovens em lista de espera desde o primeiro momento, fizemos um protocolo com a segurança social o que não é habitual, porque normalmente as associações andam “ao tio ao tio” para conseguir assinar esses protocolos e a nós foi o Pedro Mota Soares que nos bateu à porta no dia 22 de Novembro a perguntar: “A casa está pronta? É que eu quero assinar protocolo consigo no Dia da Deficiência, a 3 de Dezembro, em Évora”. Eu pensei que ia morrer, porque tivemos que fazer tudo, documentos… tudo nesse espaço de tempo! Nesta casa, não foi nada feito ilegalmente, abrimos com tudo legal, contratos de trabalho feitos, tudo. O senhor Ministro tinha isto tudo pronto quando abrimos a casa. Portanto esta casa foi feita com muito carinho, muita dor, muito tudo, mas muito carinho, muito empenho de ambas as partes, e também com uma coisa que nos enche o coração ainda hoje, a simpatia da vizinhança.

Bica: Também devem ter ficado encantados por ter a casa arranjada e sem elefantes nas janelas. (risos) JSF: (Gargalhada) Não só a casa, como tudo à volta. PLM: É muito engraçado porque os vizinhos, no primeiro meio ano de casa, vinham passear os filhos com os cãezitos e paravam no portão para perguntar: “Minha senhora, que casa tão bonita, é sua?” Não (risos), “É da câmara?”, “Também não, é só assim um bocadinho da Câmara” (risos), “Então o que é que isto?” e eu lá explicava e as pessoas entravam logo numa casa de porta aberta. Claro que não iam para o interior da casa, mas explicávamos o projecto, o envolvimento histórico desta casa e depois tínhamos aquilo que faz diferença em todos os projectos que é a equipa, são as pessoas, que foram acarinhadas desde sempre. JSF: O mais importante nestas coisas são sempre as pessoas e, portanto, como disse há bocado, conjugou-se aqui um encontro feliz de pessoas determinadas e empenhadas. Umas já se conheciam, outras passaram-se a conhecer e depois foi andar para a frente. PLM: E ficámos amigos.


JSF: Mas uma coisa muito importante, é que qualquer das pessoas que estiveram envolvidas nisto tinham de facto uma esperança ou uma fé, como lhe quisermos chamar, de que isto ia resultar e mesmo quando se sentia que as coisas estavam mais difíceis, arranjava-se sempre uma solução. Eu tenho como lema na vida “há sempre solução para tudo” e aqui houve e foi bom, foi muito importante. Bem, eu vou entregar a telha quando sair da câmara. (risos)

cólogo, do psicólogo...

Todos: (risos)

PLM: Completamente intuitivo de mãe, de tal forma que eu fui até aos 2 anos e meio a tontinha da família.

Bica: Quais são os maiores problemas que se colocam a um pai e a uma mãe que tem um filho nestas circunstâncias? PLM: Não é fácil esta problemática dos nossos filhos. Em primeiro lugar, não é facilmente diagnosticada, muitas vezes os pais sentem-se à toa, porque vão ao pediatra e do pediatra vão ao médico de desenvolvimento e do médico de desenvolvimento, vão ao psi-

PLM: O meu caso é um caso comum porque muitas vezes acontece aquilo que me aconteceu a mim. Quando o meu filho nasceu eu sabia que ele tinha qualquer coisa, eu sentia que ele tinha qualquer coisa.

Bica: Era uma intuição de mãe?

Bica: A única que tinha a certeza que o seu filho era diferente. PLM: Era um sentir, que às tantas acabou por ser um sentir muito silencioso. Era um sentir que o meu filho tinha qualquer coisa, porque os meus sobrinhos não agiam assim e a minha filha mais velha não agia assim. Fui pesquisar, não fui para a internet que nem sequer existia nesse tempo, mas o meu pediatra, perguntei-lhe variadíssimas vezes o que é que o Nuno poderia ter, ou o que poderia não ter, desvalorizaram sempre este meu sentir de mãe.

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José Sá Fernandes tem de sair para uma reunião camarária e aproveitamos para conversar com Piedade Líbano Monteiro sobre a sua própria experiência enquanto mãe de jovem portador de Síndrome de Asperger e sobre o efeito familiar da doença.

Bica: No seu caso como é que foi?


Bica: Mesmo os médicos? PLM: Mesmo os médicos. Isso é uma coisa que nós aqui na APSA tentamos valorizar muito, o facto de nós pais, sermos interlocutores válidos. Nós pais, conhecermos os nossos filhos como ninguém e por isso devemos ser escutados. Depois, aos dois anos e meio, levei o meu filho a um médico e o médico disse “este miúdo tem um problema de desenvolvimento global grave e irreversível” de maneira que percebemos que isto é para a vida. – Piedade suspira profundamente, como se acabasse de receber a notícia do médico e precisasse de tempo para assimilar a dimensão do que ouvira. - Só aos 10 anos é que eu fiz uma nova avaliação e aí sim, ouvi falar em Síndrome de Asperger. Depois fui voluntária no Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil, que vi nascer, e depois sim, nasceu a APSA em 2003. Foi este o percurso, que foi um percurso dorido durante dois anos e meio, porque por muito que eu perguntasse “alguém na família era assim? Será que isto é normal?”, eu era a que estava em depressão e isto acontece a muitos pais e às vezes até pior, porque eu aos dois anos e meio, pelo menos respirei fundo e disse “eu sabia que havia aqui qualquer coisa, logo eu é que sei como mãe.” A força interior dizer “Eu sou mãe, realmente eu é que tenho que ser a alavanca, o motor, a rampa de acesso, o corrimão…” e naquela altura, de facto, não havia nada. Estamos a falar à 25 anos atrás, portanto, não havia nada, de autismo ouviase falar de forma assustada.

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Bica: Era uma doença desconhecida. PLM: Depois da APSA nascer, qual é a mais valia que as pessoas têm e que eu não tive? É saberem que têm uma associação que podem contactar, ou por telefone ou através do site, ou presencialmente, como nós gostamos mais porque somos uma associação de afectos, para falar com alguém de direito, alguém que sabe, alguém que já teve experiência, alguém que é mãe ou pai e que está ali para auxiliar. Não somos uma associação clínica, não somos um centro de desenvolvimento, para isso tentamos formar os técnicos “all over the country” como eu costumo dizer. Onde vamos, deixamos mensagem, deixamos coisas escritas, deixamos formação e informação, para que as pessoas não tenham que vir a Lisboa ou ao Porto para fazerem um diagnóstico. Até porque a deficiência dos nossos filhos, a diferença dos nossos filhos exige um programa específico que implica um trabalho diário, portanto, esta coisa de ir a uma consulta ao Porto ou a Lisboa, ou até ao Algarve uma vez por mês não resulta, porque os nossos filhos têm que ser trabalha-

dos e ajudados no seio da família, no seio da comunidade onde estão inseridos, na escola onde têm aulas. Bica: Exigem uma dedicação diária e específica para cada caso. PLM: Exactamente. Um programa previsto especificamente para ele, não é para os meninos com Síndrome de Asperger no geral. É para o João, para o António e para o Manel, daí ser tão importante, após o diagnóstico, que as famílias contactem quem conhece esta realidade e venha procurar apoio.

Bica: A APSA está em condições de prestar esse apoio familiar? PLM: Claro que sim. Prestamos apoio familiar, aconselhamento e auxiliamos no encaminhamento até em termos clínicos no sentido de informar quais os hospitais mais próximos que melhor funcionam, quais os médicos mais próximos a que devem recorrer.

Bica: Esse apoio funciona bem nos hospitais? PLM: Nos hospitais… não posso dizer que os hospitais funcionem bem, infelizmente o nosso país não é assim, um funciona o outro não.

Bica: Mas, no geral e tirando as duas grandes cidades, é fácil esse apoio nos hospitais? PLM: Por exemplo, Coimbra está bem equipada, Lisboa também, o Porto também e neste momento no Algarve já se começa a falar nestes assuntos e alguns médicos irem a determinados centros e hospitais fazer consultas, portanto a coisa começa a ser mais comum do que era aqui há uns tempos, e estou a falar agora em contexto de formação de profissionais, mas há muito trabalho a fazer, sem sombra de dúvida, e principalmente nas escolas, onde, por incrível que pareça, existindo uma legislação específica para os apoios às necessidades educativas especiais, infelizmente as coisas não funcionam. Muitas vezes os locaois onde há menos dinheiro, menos massa financeira, há muito mais vontade de agarrar estes desafios do que em Lisboa, onde vemos escolas lindas de morrer, tudo montado, tudo fantástico e não há vontade de agarrar um jovem como um desafio.

Bica: Existe alguma coordenação específica entre os Ministérios da Educação, da Saúde, do Emprego e até da Ciência e Tecnologia, que permita o desenvolvimento de um projecto comum para casos como os dos jovens com Síndrome


de Asperger, dando-lhes a garantia de integração e, sobretudo, da aplicação das suas competências, que são, muitas vezes, acima da média? PLM: Devia haver esse casamento e eu acho que nós estamos a entrar por esse caminho, mas somos nós APSA e eu não tenho uma dúvida e nem é pretensiosismo dizer o que vou dizer, que a APSA vai contribuir muito para abrir as mentalidades até mesmo do próprio Estado, porque o Estado prevê o emprego apoiado, o Estado prevê uma cota para a empresa X que empregue um cidadão com deficiência, mas isto é o que está escrito e depois no terreno não se faz assim. O Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) têm lá um departamento para as pessoas com necessidades educativas especiais… não funciona. Também há um balcão para a inclusão e não funciona. Portanto, o que eu quero dizer com isto é que não duvido que neste campo, na problemática desta deficiência que não está na cara, mas existe, temos que ser nós com este trabalho de mediação, a intervir, a alertar e a formar. Piedade Líbano Monteiro e Patrícia Crespo Loureiro acompanham-nos à porta com um sorriso de orgulho no rosto à medida que vamos cruzando os diversos departamentos do projecto. Para elas não há dúvida que a Casa Grande faz a diferença para muitas famílias e se depender delas, fará para muitas mais. Hoje, Piedade dorme mais descansada, sabendo que o seu filho Nuno terá um futuro que não depende exclusivamente da mãe e do pai e como ele, muitos Nunos encontrarão um caminho de integração, assim a sociedade esteja disposta a abandonar preconceitos e a assumir o papel inclusivo que tanto propala, mas tão pouco efectiva. Luís há muito terminou o seu vai-vém num dos páteos da casa. Talvez esteja a tocar piano, ou no computador, a imaginar novos programas em complexos algoritmos. Ou talvez esteja junto a uma paragem de autocarro, aguardando o transporte para casa ou para a sua aula de condução. Esteja a fazer o que fizer Luís já não está fechado em casa, escondido de um mundo que receia e que ainda receia acolhê-lo de braços abertos.

BEBA COM MODERAÇÃO

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www.apsa.org.pt


MAAT [70]

O MUSEU QUE DEVOLVEU O RIO À CIDADE


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por João Moreira

Hugo Macedo

Quase no final do ano passado, a Fundação EDP “deu à luz” o MAAT, um projecto há muito sonhado de revitalização dos 38 mil metros quadrados que possui à beira Tejo, em Belém, conjugando o icónico edifício da Central Tejo, com um novíssimo espaço expositivo que é já uma das pérolas arquitectónicas da cidade, incluído recentemente na shortlist dos finalistas do Prémio Mies van der Rohe da Comissão Europeia para as melhores obras de arquitectura em território europeu. O projecto foi da responsabilidade do premiado atelier britânico de arquitectura e design AL_A fundado em 2009 pela arquitecta galardoada com o RIBA Stirling Prize, Amanda Levete, que nos explica que o projecto se baseou “no contexto do local, criando ligações físicas e conceptuais na zona ribeirinha que se repercutem no coração da cidade.”

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De facto, o novo espaço da Fundação EDP promove uma ligação da cidade ao rio de forma perfeita. A cobertura, um dos mais atractivos pormenores do projecto e que convive de forma harmoniosa com a natureza envolvente e com a arquitectura industrial da Central Tejo, transformou-se rapidamente num espaço apropriado pelo público que assim, pode circular por cima, por baixo e através do edifício. Os acessos que estão a ser concluídos e que se espera estejam prontos em Maio, contarão com uma nova ponte pedonal que ligará Belém ao Tejo e um projecto paisagístico da responsabilidade do arquitecto paisagista Vladimir Djurovic que envolverá os dois edifícios num parque verde com 300 árvores e mais de 30 mil arbustos. Passados os primeiros meses de actividade e com o museu encerrado para instalação das novas exposições, os números não podiam ser mais auspiciosos. Desde a sua inauguração, no dia 5 de Outubro, passaram pelo novo edifício do MAAT mais de 200 mil visitantes, que puderam usufruir do museu gratuitamente, o que deixará de acontecer a partir da reabertura agendada para 21 de Março, altura em que passarão a pagar um bilhete único de 9 euros, que permitirá acesso aos dois espaços expositórios. Para perceber um pouco melhor a estratégia delineada para a futura programação do MAAT, conversámos com o seu Director, Pedro Gadanho, recentemente regressado de Nova Iorque onde ocupava as funções de

Curador de Arquitectura Contemporânea do Museu de Arte Moderna (MoMA). “A programação, em primeiro lugar, destinase a fazer uma ligação do passado da Fundação EDP com aquilo que é um futuro muito conectado ao cenário internacional. Nesse sentido, por um lado, continuaremos a querer apoiar os artistas portugueses, contribuindo para a sua difusão internacional e por outro, queremos ir buscar alguns projectos âncora de fora, que ao mesmo tempo trazem conteúdos que não estavam a vir para Lisboa e que nos permitem entrar numa outra área de obra nova de artistas com reputação internacional que também não estavam a fazer o seu circuito por aqui. No fundo, analisaram-se os diversos espaços, quer o novo edifício quer a Central Tejo e foi-se à procura de parcerias internacionais para trazer conteúdos para cá, que não estavam a passar por Lisboa, nomeadamente exposições que circulam internacionalmente ou que são organizadas por museus em cidades referência no turismo cultural internacional e trazer estas exposições a Portugal logo que caíssem dentro do âmbito temático do novo museu. Desta forma conseguimos, não só fazer um serviço ao público português que não pode viajar para ver exposições, como também, atrair público estrangeiro. Quando se atrai público estrangeiro, podemos mostrar artistas portugueses que passam a ser levados para outros lados com uma referência. Portanto, a ambição da programação cozeuse por essas linhas e é, obviamente, suficientemente diversa, no sentido de abarcar as ligações à cultura urbana, à cidade e à arquitectura, como um dos temas que o museu decidiu abraçar, mas também à tecnologia, ou seja, à forma como os artistas reflectem o tema das tecnologias nas nossas vidas. No fundo, tecnologia e cidade são categorias semelhantes ou gémeas. A cultura urbana, as transformações das cidades nos últimos anos e a cultura tecnológica que se revela no digital das redes sociais, mas também no impacto das alterações climáticas, no uso do computador para produzir trabalho, são categorias semelhantes que levam muitos artistas a reflectir sobre a condição do presente. Estamo-nos a direccionar para o campo de um olhar crítico sobre o presente e sobre a


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contemporaneidade, mais do que olhar para a história da arte. Isso acaba por trazer uma lufada de ar fresco, no sentido em que reflecte mais a contemporaneidade e promove artistas que estão a trabalhar neste momento, com eco em diversas geografias e que começam a surgir também em Portugal.” Na busca da afirmação desta interdisciplinaridade, o MAAT abriu portas com Pynchon Park, a obra de Dominique Gonzalez-Foerster, que Pedro Gadanho classifica como “a primeira grande encomenda a um grande artista internacional, que faz uma primeira abordagem a um local que vai ser inteiramente dedicado a estas intervenções de artistas internacionais e que é a sala oval. Uma sala com cerca de mil metros quadrados, que dadas as suas características físicas e espaciais, pede um olhar específico do artista que responda não só às condições espaciais, às características específicas daquele espaço, mas que resulte numa obra nova, que nunca foi vista em outro lado, uma obra inédita que represente uma mais valia para o museu”.

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É exactamente com uma obra (re)pensada para a sala oval e integrada em dois dos mais importantes eventos culturais que terão lugar em Lisboa em 2017: a Capital Ibero-americana da Cultura e a BoCA – Biennial of Contemporary Arts, que o MAAT reabrirá portas em Março. Ordem e Progresso do mexicano Héctor Zamora é a instalação-performance que ocupará a principal sala do museu e que já esteve patente no Paseo de los Héroes Navales, em Lima e no Palais de Tokyo, em Paris. Nela, Zamora, mais do que evocar a tradição marítima portuguesa ao ocupar a sala oval com destroços de barcos de pesca tradicionais portugueses que destruirá com as próprias mãos à semelhança do que fez em Lima e Paris, pretende lançar um grito de alerta para o drama dos refugiados que diariamente tentam a sua sorte no Mediterrâneo em frágeis embarcações, tentando aportar às costas do Sul da Europa. Como afirmou à RFI, “a destruição dos barcos não tem por finalidade a construção ou o desenvolvimento de novos cenários económicos, políticos e sociais. Trata-se principalmente de destruir as promessas contidas nos barcos, no problema da migração, afinal, o barco tornou-se um símbolo do que está a acontecer aqui. Actualmente, este é um momento bastante crítico em que o mundo todo se pode questionar se essa ordem e esse progresso nos levaram a algo de positivo”. Ainda no novo edifício, com curadoria de Pedro Gadanho, João Laia e Susana Ventura e para comemorar os 500 anos da publicação do extraordinário manifesto de São Thomas More, Utopia, o MAAT propõe a exposição colectiva Utopia/Distopia, uma mostra de

mais de 60 obras e projectos de artistas e arquitectos de renome nacional e internacional. Já no edifício da Central Tejo, mantém-se a exposição inaugurada na sala das caldeiras em 9 de Novembro, Liquid Skin, dos cineastas Joaquim Sapinho e Apichatpong Weerasethakul que Pedro Gadanho explica como “a provocação de levar a arte contemporânea para um espaço muitas vezes visitado somente por crianças, que se começam a confrontar com outras linguagens visuais, nomeadamente a imagem em movimento. Neste caso temos o diálogo de dois realizadores de cinema que têm trabalhado também com espaços expositivos. Um deles é o Joaquim Sapinho que trabalha com imagens da memória muito pessoais que são confrontadas com este ambiente técnico e o outro é o tailandês Apichatpong Weerasethakul, que neste momento expõe na Tate Modern, em Londres e que tem exposto em Paris e em todos os grandes centros de arte mundiais, e que se começou a movimentar do mundo do cinema para o mundo da arte. Aqui realiza uma das suas clássicas instalações com um filme que tem um grande impacto, uma grande beleza visual, com umas ventoinhas em fogo e outros, que aludem à presença do corpo humano contra o impacto desta maquinaria e aquilo que ela traduz, numa ideia de tecnologia que nos impacta com muito força. Portanto, são artistas que, mais uma vez, foram convidados a lidar com o espaço e que responderam com estes conteúdos que aludem à presença permanente da tecnologia na nossa vida e ao modo como os humanos confrontados com ela, tentam manter a sua humanidade.” Ainda na Central Tejo, José Maçãs de Carvalho, no seu ensaio visual Arquivo e Democracia, desafia-nos a olhar os milhares de mulheres filipinas que trabalham como empregadas domésticas em Hong Kong e que ao Domingo deambulam pelas ruas e praças do luxuoso bairro de Central District. O Director do MAAT resume a programação para os diversos espaços como “uma linha coerente, onde há sempre uma referência a estas relações interdisciplinares da arte contemporânea seja com a cidade, um ambiente urbano em rápida tranformação com uma população mundial cada vez mais confinada aos grandes centros e por outro lado, a tecnologia, também sempre presente no nosso dia-a-dia de forma cotidiana e para a qual, muitas vezes as pessoas olham de uma forma acrítica e a que os artistas nos ajudam a pensar de uma forma mais crítica.” Acentuando a importância das parcerias internacionais para a programação do museu, única forma de tornar possível a vinda das mais interessantes exposições europeias e


Desafiado a apontar as diferenças que encontrou em Lisboa após o seu regresso de Nova Iorque, Pedro Gadanho esclarece: “não é uma cidade muito diferente, mas está a ser forçada a mudar devido ao número cada vez maior de pessoas que se estão a mudar para cá, do afluxo turístico que está a crescer fortemente e que faz com que as pessoas não só queiram mudar, como tenham oportunidade de mudar, porque surgem novas oportunidades de negócio etc, ou seja, eu vejo tudo como um elemento que se liga. O facto deste museu estar a aparecer com uma oferta de conteúdos para uma audiência mais internacional; o facto de haver chefes que têm estrelas Michelin; o facto do Web Summitt vir para aqui e de se ver Lisboa como um lugar onde potencialmente podem aparecer startups,

para mim, são tudo fenómenos interligados que têm a ver com um meio mais cosmopolita e isso é um momento muito privilegiado e é um momento muito interessante para algo como este projecto cultural também estar a acontecer.”

Entrevista Miguel Coutinho O Director Executivo da Fundação EDP, Miguel Coutinho explicou, em conversa com a BICA, os principais objectivos que estiveram na origem da criação da fundação e os novos caminhos que se vislumbram com a revitalização do campus da fundação, em Belém, à beira Tejo. Miguel Coutinho: A Fundação nasceu no início do século, muito focada em três áreas de intervenção: a divulgação da ciência e do conhecimento ligados à eletricidade, com intima relação com o edifício da Central Tejo; uma forte intervenção social que teve um foco muito grande nas áreas onde o Grupo EDP construiu barragens; e a área da cultura, sobretudo após a entrada do José Manuel dos Santos e do João Pinharanda para a Fundação, quando se começou a fazer uma programação no edifício da Central Tejo, aproveitando dois espaços de galerias de arte, onde se realizaram inúmeras exposições. Com a construção do MAAT e a sua inauguração em 2016, esta componente cultural ganhou um novo peso, embora a Fundação EDP tenha tido sempre, nessa componente cultural uma presença muito forte, não apenas pelas exposições que organizou, algumas com muito público, como foi o caso do Povo, do Riso, mas também porque lançou dois prémios de referência em Portugal, o Prémio Novos Artistas e o Prémio EDP Arte. A vontade é continuar a ter uma presença forte na área do conhecimento, continuar a ter uma presença muito forte na área social, temos, aliás, o maior programa privado de solidariedade social em Portugal, que é o EDP Solidário e queremos ter cada vez mais uma presença cultural forte, através dos dois museus que hoje são uma realidade. Aliás, a Fundação EDP tem uma história de mecenato cultural muito significativa, somos o mecenas exclusivo da Companhia Nacional de Bailado, somos mecenas da Casa da Música, somos mecenas de Serralves, somos mecenas da Fundação Arpad Szenes, só para dar os exemplos mais conhecidos. Portanto, tivemos sempre uma actividade mecenática muito relevante e entendemos isso como uma responsabilidade que temos e que queremos manter, apesar de hoje termos também um Museu de Arte Contemporânea. Este tipo de parcerias para nós faz todo

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mundiais, Pedro Gadanho, assume a relevância da sua experiência enquanto curador do MoMa de Nova Iorque neste fase do projecto. “Enquanto trabalhei no MoMA, apercebi-me das vantagens e limitações das parcerias internacionais e de como elas podem funcionar. Aqui sei que podemos funcionar num regime mais experimental em que vamos testar quais são as parcerias que são realmente eficazes, quer para comprir os nossos objectivos, quer para gerar uma economia de recursos que seja mais eficiente, porque nem todas as parcerias internacionais são imediatemente viáveis, por exemplo, trazer uma exposição do Picasso custaria mais de 1 milhão de euros e nós não temos condições económicas para almejar esse tipo de voos. Portanto, precisamos de definir parcerias muito estratégicas, no sentido de entrar em coproduções de conteúdos contemporâneos que estão neste momento a ser planeados por outras instituições e propormos nós próprios alguns dos nossos projectos a outras instutiuções e isso já está a acontecer. Em 2018 vamos ter um projecto chamado Ecovisionários, para o qual já arranjámos quatro parceiros internacionais e isso vem de uma experiência em ambiente internacional onde se percebe realmente o que é necessário para se conseguir entrar neste jogo que não é fácíl nem imediato, até poque, em Portugal há pouca experiência desse tipo de trocas. Isso implicou um trabalho muito atento durante este primeiro ano de lançamento do museu, ao mesmo tempo que se estava a fazer toda a comunicação e a lançar todo o projecto. Foi essa atenção a uma serie de acções internacionais que nos levou a entrar em contacto com diversas entidades, diversos colegas, diversos parceiros que agora podem começar a permitir estabelecer parcerias efectivas para daqui a dois , três anos, porque todos os museus internacionais trabalham com um calendário de dois, três, quatro anos e isso exige realmente um trabalho de preparação muito bom.”


o sentido, porque entendemos que esta partilha de experiências é relevante e entendemos isto, se quiser como um serviço público da Fundação EDP.

Bica: Sendo do conhecimento público a intenção da Autarquia em dinamizar o cluster cultural na zona de Belém, que se pretende estender até ao Cais do Sodré, de que forma o MATT olha para este projecto?

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Miguel Coutinho: A decisão de construção do MAAT foi tomada pela Administração do Grupo EDP no âmbito da responsabilidade social que o Grupo e em particular a Fundação assumiram desde o início, enquadrada numa visão mais lata, que abrange a componente cultural como factor determinante de desenvolvimento. Dito isto, o MAAT veio contribuir de forma decisiva para complementar aquilo a que alguns chamam o cluster cultural de Belém, onde se congregam espaços como a Fundação Champallimaud, o Museu dos Coches, o CCB, os Jerónimos, a Torre de Belém. Temos, portanto, uma série de polos culturais que ganhariam muito em ter maior interligação entre si. Existiram muitas tentativas para se criar uma estratégia comum, sobretudo do ponto de vista dos visitantes, por exemplo, através da criação de um bilhete único, mas ainda não se conseguiu chegar a lugar nenhum, muito à maneira portuguesa, com a nossa proverbial falta de cooperação, mas acredito que chegará o momento em que conseguiremos potenciar o facto de termos num espaço geográfico tão pequeno, tanta oferta cultural e patrimonial. Sei que da parte da Câmara Municipal de Lisboa há muito interesse em que isso aconteça e da parte da Fundação EDP há também muito interesse em que essa cooperação se torne uma realidade.

que são o clima, a gastronomia, a hospitalidade, mas também porque começa a existir nestas cidades uma oferta cultural de nível mundial. Nós temos muito orgulho em fazer parte desse movimento que contribui para uma cidade mais cosmopolita, com mais turistas, com mais animação e com mais cultura, porque isso é bom para quem nos visita, mas é igualmente bom para as pessoas que vivem todos os dias a cidade. No entanto, o sucesso destes primeiros meses, com mais de 200 mil visitantes, passou bastante por termos optando por mostrar inicialmente a arquitectura e o edifício. Tínhamos, obviamente, uma instalação da Dominique Gonzalez-Foerster que era polémica, mas que era de uma grande artista europeia e que foi umas das razões para termos atraído tantos críticos internacionais à inauguração, mas penso que a opção por uma soft opening, que aliás foi muito criticada, acabou por resultar. Todos os fins de semana, temos cerca de 10 mil pessoas a circular pelo edifício, sobretudo, pelo topo do edifício para olharem a cidade e o rio. Também por isso, o MAAT foi capa da Revista Ícon e é apontado em todos os guias como uma das principais razões para visitar Lisboa. Tornou-se um factor de atractividade e trouxe um número de visitantes que, sou sincero, não estávamos à espera. Sempre acreditámos que a partir de Março, com a todo o espaço programado, iríamos ter um grande número de visitantes, mas a arquitectura, só por si, e a localização, só por si, acabaram por tornar o espaço tão atractivo que caiu no gosto das pessoas e ainda bem, porque, de facto, está numa localização extraordinária e tem uma arquitectura muito feliz e muito bem integrada espacialmente, estabelecendo com a Central Tejo um diálogo de quase continuidade.

Bica: A inauguração do MAAT aconteceu num ano particularmente intenso a nível cultural na cidade de Lisboa e com um acréscimo significativo de turistas. Esse foi um dos factores do sucesso destes primeiros meses?

Bica: O que prova, como já tinha acontecido com a adesão ao projecto “Vamos pôr o Sequeira no lugar certo” do Museu Nacional de Arte Antiga, que as pessoas estão ávidas de cultura e aderem de alma e coração aos projectos culturais.

Miguel Coutinho: Lisboa viveu um ano de 2016 extraordinário em termos culturais, não só pela afirmação pública de vários espaços, de que o MNAA é o melhor exemplo, mas pela realização de eventos como a ArcoLisboa, de que fomos sponsers e de que seremos em 2017 main sponser, com uma programação em interligação com a Arco e a Web Summit de que fomos igualmente parceiros. Isto integra-se em algo mais vasto, que é o facto de Lisboa e do Porto se terem tornado cidades muito cosmopolitas, eleitas como dos melhores destinos mundiais e isso acontece não só pelos motivos tradicionais

Miguel Coutinho. É verdade. As pessoas estão ávidas de cultura, não tenho dúvida. Vou dar um bom exemplo disso mesmo. Nós em Julho quando inaugurámos as novas instalações da Central Tejo passámos a cobrar um bilhete para a entrada no edifício, tanto para ver a exposição permanente do Museu da Electricidade, como para ver as exposições temporárias que o MAAT programa na Central Tejo e felizmente e isso mostra essa avidez cultural, nós tivemos mais visitantes a pagar bilhete do que tínhamos anteriormente, quando era gratuito. Isso tem a ver com o facto de nós, apesar de sempre termos tido


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boas exposições, termos começado a trazer algumas exposições internacionais que de outra forma não viriam a Lisboa e isso atrai visitantes. Esse é um caminho que queremos continuar a trilhar, em conjunto com exposições de raiz, pensadas pela equipa do Pedro Gadanho, mas queremos continuar a trazer exposições que estejam nos roteiros internacionais e, inclusivamente, fazer coproduções com outros museus internacionais, porque acreditamos que esse é o caminho em que podemos acrescentar valor. Isso trás público internacional, mas também chama a atenção do público internacional.

Bica: Sendo certo que manterão uma forte componente de divulgação dos artistas portugueses. Miguel Coutinho: Claro que sim. A exposição do Prémio Novos Artistas é só com artistas portugueses, o Prémio EDP Arte é atribuído a um artista lusófono e, sobretudo, a grande novidade que começou em 2016 e irá continuar este ano, é a organização de exposições mediante o olhar de curadores internos e externos sobre a nossa própria coleção, que com a aquisição da colecção Pedro Cabrita Reis passou a ser uma das principais colecções de arte contemporânea do país. Já tínhamos uma colecção significativa feita pelo João Pinharanda, a que o Pedro Gadanho deu continuidade, mas a aquisição da colecção do Pedro Cabrita Reis deu-nos a possibilidade de expor artistas, sobretudo a partir dos anos 70 de grandíssima qualidade. Bica: Temos falado muito de Lisboa, mas gostava de saber se a Fundação EDP também estende este apoio cultural e de divulgação cultural ao resto do país.

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Miguel Coutinho: Temos essa preocupação de não estar apenas centrados em Lisboa

ou no Porto. Temos um protocolo com a Vila Nova da Barquinha e o projecto Arte Pública EDP, que é um projecto que lançámos há dois anos e que tem como preocupação levar arte e artistas portugueses a regiões onde as pessoas, normalmente, não têm acesso à arte. E como é que fazemos isto? Convidando artistas portugueses, tradicionais e de street art para fazerem intervenções em diversos espaços, normalmente rurais, muitos deles postos de transformação da EDP, em diálogo com a comunidade. Este projecto já está espalhado por diversas regiões: temos um núcleo no Algarve, outro em Trás-osMontes, outro no Centro, criando uma espécie de roteiro de arte urbana que, esperamos se estenda por Portugal. Bica: Para terminar, o que podem esperar as pessoas que venham visitar o campus Fundação EDP a partir de Março? Miguel Coutinho: O Campus Fundação EDP tem desde o início como objetivo, tornar-se um espaço central em Lisboa, no sentido de ser um espaço de lazer e um espaço de cultura. A partir de Março, Abril, penso que as condições definitivas para que isso aconteça vão estar reunidas. Por um lado vamos ter o Museu da Electricidade, a funcionar como sempre funcionou, a Central Tejo, onde está o Museu da Electricidade, mas com espaços de exposição para a arte contemporânea, para a arquitectura e para a tecnologia, vamos ter o MAAT a funcionar em pleno, com exposições em todas as salas e vamos ter um jardim que vai rodear todo este campus, que será um espaço público de lazer e que terá também uma programação própria, com música e cinema ao ar livre. No fundo, um espaço multidisciplinar aberto às pessoas e que conferirá uma nova centralidade cultural e de lazer à cidade de Lisboa.


CRÓNICAS RADIOFÓNICAS INÉDITAS DE FERNANDO ASSIS PACHECO, NO ANO EM QUE FARIA 80 ANOS

Pela primeira vez em livro, as crónicas que Fernando Assis Pacheco lia nas manhãs de domingo da RDP, entre 1977 e 1978. Tinha apenas cinco minutos para falar de futebol de botões, de viagens de eléctrico, do dia em que se foi casar de bicicleta, e de tudo o que era a «vida piolho na costura».

uma edição tinta-da-china. já nas livrarias.

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«Eu guardo o que posso na cabeça. Nem quero fazer pesar nestas palavras um grão de mágoa a mais. Basta-me a vida que desliza, o tempo que é como um cheiro intensíssimo e belíssimo e se evola da minha pele cheia de ácidos. Hoje tive 13 anos, amanhã tenho 13 anos, que já não tenho afinal. E o que eu queria era dormir ao sol.»


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Debaixo dos nossos pés O chão que lisboa pisa e o chão que Olisipo pisou: a propósito dos pavimentos do teatro romano de Lisboa por Lídia Fernandes

Debaixo dos nossos pés. O chão que lisboa pisa e o chão que Olisipo pisou: a propósito dos pavimentos do teatro romano de Lisboa

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Debaixo dos nossos pés – Pavimentos históricos de Lisboa é o título da exposição que terá lugar em março de 2017 no Museu de Lisboa - Torreão Poente, na Praça do Comércio. Com esta exposição pretende-se apresentar, de forma diacrónica, os múltiplos modos de pavimentar o chão da cidade de Lisboa. A exposição recua temporalmente até ao momento em que o homem, pela primeira vez, encontra soluções para revestir os caminhos que pretendeu percorrer. Hoje mal damos pelo chão que pisamos. O asfalto por onde os carros passam, as calçadas a preto e branco, as pedras basálticas de cor negra ou o revestimento rosa das pedras de lioz de alguns dos espaços públicos da cidade, revelam soluções de enorme diversidade que, por tão comuns, não nos merecem já admiração ou surpresa. Não se pense, no entanto, que uma ou outra forma de revestir o chão traduz uma opção casuística ou meramente pragmática. Muitas interrogações se colocaram aos homens que tiveram por missão decidir com que material e de que forma se pavimentaria a cidade.

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Do latim pavimentum, significa este termo a capa, ou revestimento, com que se reveste o solo, tendo por objetivo criar uma superfície homogénea que facilite a passagem, a circulação, a ligação de um local a outro. Este intento apenas foi possível quando o homem decidiu, em algum momento, pavimentar por onde pretendia andar. Debaixo dos Nossos Pés pretender mostrar esta outras histórias e, deste modo, conhecer melhor a cidade que, de Felicitas Iulia Olisipo se tornou, por muitos e diversos caminhos, na Lisboa de hoje. De época romana datam alguns pavimentos de enorme beleza e qualidade, como acontece com os mosaicos ornamentados geometricamente ou com motivos mitológicos.


Os pavimentos que se preservam no teatro localizam-se na área defronte do palco, qual plateia dos nossos tempos que, por tal situação privilegiada, se destinada à elite citadina. Foi eleito um pavimento de padrão geométrico, acentuado pela distinta coloração das pedras. Placas quadradas, em rosa claro, eram rodeadas por outras de cor cinza, retangulares. Os topos encerravam-se com placas quadradas, de menor dimensão, mas de um rosa vivo. Os contrastes eram evidentes e o ritmo da composição terá atraído o olhar dos espectadores. As pedras rosa são da região de Sintra, onde as pedreiras de calcário margoso foram intensamente exploradas em época romana. As pedras cinzentas provêm da região junto à atual povoação de Trigaches. Há dois mil anos a cor e dureza desta pedra levou à sua intensa exploração e ativo comércio por parte dos construtores romanos. A fachada cénica do teatro romano de Mérida1 , por exemplo, foi decorada, em meados ou finais do séc. I d.C., com este mármore que cativa pelas suas venadas brancas criando formas caprichosas na pedra polida. Na área inferior ao palco, por sua vez, encontramos um revestimento distinto designado por opus signinum. A coloração rosa deve-se aos pequeninos fragmentos de tijolo que possui. Este pavimento era geralmente empregue em superfícies que contivessem água uma vez que as tornava impermeáveis. Esta foi a pragmática solução criada pelos arquitetos/engenheiros romanos de forma a impedir que a água não se infiltrasse no subsolo. Estes pavimentos usados no teatro de Felicitas Iulia Olisipo constituem exemplos da grande variedade de revestimento do solo que se conhecem de época romana. Mas as estradas, compostas por grandes pedras, são o caso paradigmático da eficiência construtiva desta época. Uma destas vias pode hoje ser observada no Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros. De robusta construção, garantia o seu uso intenso numa cidade que, não sendo capital de província tinha na sua implantação geográfica e, naturalmente no comércio, uma importância vital no extremo do império. No interior do Museu de Lisboa – Teatro Romano os vestígios arqueológicos aí musealizados não se referem, no entanto, apenas a contextos romanos. Igualmente se registam outras solu1 2

ções de pavimentação de épocas posteriores. Uma habitação e um pequeno beco que lhe dava acesso permitem hoje saber como, em vésperas do terramoto de 1755, os habitantes de Lisboa pavimentavam o interior das casas e o exterior das mesmas. O seixo rolado era empregue no r/c sendo de menor dimensão que a pedra empregue nas ruas, atapetadas por seixos rolados de média/ grande dimensão, quase sempre basálticos, que ofereciam uma superfície irregular, mas, simultaneamente, mais confortável do que muitas outras ruas que, à época, se cobriam apenas com terra batida. Se avançarmos no tempo veremos que as deficiências de pavimentação destas épocas continuariam a perdurar ao longo do séc. XX. Em 1860 um vereador da Câmara Municipal de Lisboa referia numa sessão de Câmara: “Quasi todas as ruas estão intransitáveis e perigosas, assim para as pessoas que transitam ou caminham a pé, como também para as que se transportam a cavallo ou em trens! Os caminhantes a pé, além de encontrarem debaixo dos pés uma massa branda, que os atola, e suja até ao joelho, andam sempre em grande perigo, pelo escorregadio, em que só com dificuldade se póde deixar de cahir”2. Nem mesmo o sistema de “macadame”, criado pelo engenheiro escocês John Loudon McAdam (1756-1836) e utilizado em Portugal a partir de 1834 viria a resolver esta questão. Este e muitos outros aspetos atrairão a nossa atenção na exposição que ocorrerá no Torreão Poente da Praça do Comércio, sendo que o local escolhido não o foi por acaso. Com efeito, as soluções de pavimentação desta praça - que deve a sua designação pré-pombalina de “terreiro” precisamente ao tipo de pavimento em terra que possuía – serão também analisadas na obra que acompanhará a exposição. Mais que um catálogo pretendeu-se a apresentação de dados arqueológicos, muitos inéditos, sobre os pavimentos que, diacronicamente, pavimentaram a cidade de Lisboa. Legendas 01 – Pavimento da orchestra do teatro romano com lajes quadradas e retangulares em cores rosa e cinza. Revestimento colocado no ano 57 d.C. fotografia José Avelar. 02 – Habitação do séc. XVII/1ª metade do séc. XVIII musealizada no interior do Museu de Lisboa-Teatro Romano, observando-se o pavimento em seixo rolado empregue no r/c.

A antiga Augusta Emerita, a capital da província da Lusitânia onde Felicitas Iulia Olisipo se integrava administrativamente Sessão de Câmara de 1860, intervenção do vereador José Tedeschi.

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Mas também o monumento romano melhor conhecido da cidade de Lisboa conserva soluções de pavimentação que importa conhecer. Falamos do teatro romano. Edificado nos inícios do século I d.C., sofreu remodelações ao longo da sua longa vida, superior a quatro séculos. A sua construção a meia encosta contrariou os postulados de arquitetura romana ao optar-se por um sítio de acentuado declive. A sua localização, virada ao rio e num sítio elevado cumpriu, no entanto, o intento de capitalizar num edifício público um valor propagandístico.


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A LISBOA QUE TERIA SIDO

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A exposição «A Lisboa que teria sido» estará patente ao público de 26 de Janeiro a 2 de Junho de 2017 no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa-Palácio Pimenta. Entre desejo e realidade fez-se Lisboa. A cidade tem hoje uma fisionomia que teria sido outra se determinadas propostas urbanísticas e arquitectónicas projectadas tivessem tido concretização. É este o mote da presente mostra que convoca a capacidade de imaginação do visitante, sem pretender entrar em apreciações estéticas, sempre subjectivas . Convida-se a uma viagem a um passado outro que não se materializou no território, mas que deu origem a uma diversidade de

por António Miranda (CML-DMC-DPC-DSPC)

Comissários da exposição materiais gráficos e também tridimensionais, caso de maquetas, alguns de inegável qualidade plástica, representando objectos arquitectónicos singulares ou planos de conjunto, que possibilitam o melhor entendimento das propostas. Mantendo o desígnio de dar a conhecer publicamente obras do acervo do Museu de Lisboa e contando também com outras coleções camarárias, caso dos vários arquivos municipais, e de obras cedidas por diversas entidades públicas e privadas, a presente exposição evoca projectos encomendados que, por variadas razões, não foram realizados, pelo menos em todas as suas componentes.

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por Raquel Henriques da Silva (FCSH-UNL)


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Liga-os o desejo comum de modernização e monumentalização da capital, sobretudo desde a segunda metade do século XIX, e principalmente a partir da criação da Comissão Estética, em 1909, proposta em sessão de Câmara, pelo arquitecto Ventura Terra, então vereador. Por demasiado vasto o conjunto de projectos, houve que restringir, no espaço e no tempo, o âmbito da exposição, embora se pretenda mostrar a sua diversidade e cronologia alargada. A mostra resulta, assim, de uma apertada selecção, focando o eixo central, do Terreiro do Paço ao Parque Eduardo VII, o Martim Moniz, a frente ribeirinha, as portas da cidade e as pontes para a Outra Banda. A escolha poderia ter sido outra igualmente rica.

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Francisco de Holanda, ainda no século XVI, foi o primeiro a debruçar-se sobre a falta de monumentalidade que todos reconheciam à cidade e a conceber os primeiros planos para a sua dignificação enquanto capital. O Terramoto de 1755 ofereceu a necessária oportunidade para dotar Lisboa de uma verdadeira praça monumental que conheceu, na fase inicial da reconstrução, outras intenções projectuais que não se concretizaram. Foi a primeira proposta de arranjo urbanístico planeado para a frente ribeirinha, território que,

a partir das últimas décadas do século XIX, com a criação do Porto de Lisboa (1885), e a da linha férrea de Cascais (1895), e até ao século XXI, vai ser palco de sucessivas propostas de reformulação urbanística e arquitectónica, no sentido da sua monumentalização. Privilegiaram-se os edifícios de grande escala, e as avenidas marginais, respondendo aos estudos sobre mobilidade. O advento do transporte individual em maior escala também obrigou a pensar em melhores e mais rápidas ligações viárias entre a frente ocidental do Tejo e a Baixa. Planearam-se múltiplas soluções que privilegiavam a construção de túneis. A própria cidade pombalina não estava a salvo de críticas, daí sonho da monumentalização do Rossio que deu origem a um concurso, aberto pela Câmara Municipal (1934), para a «renovação» ou «reintegração» arquitectónica da praça. O motor para a transformação urbana passa, a partir dos anos 40, pelas questões do tráfego e da mobilidade e, apesar da ideologia do Estado e de práticas arquitectónicas historicistas, um quadro de modernidade vaise impondo. Justificou-se, assim, a par de princípios higienistas, a destruição de parte da Mouraria. Suceder-se-á uma plêiade de projectos de que, em parte, resultou a man-


O eixo Restauradores - Avenida da Liberdade – Rotunda do Marquês de Pombal, cuja edificação sempre conheceu críticas, também se transformou, ao longo do século XX, em palco para múltiplas propostas arquitectónico-urbanísticas que iam de encontro à tão desejada monumentalização dos espaços nobres da cidade. Também para o almejado Parque da Liberdade, que o coroaria, e

respectivos equipamentos, muitas propostas criativas surgiram até cristalizar no actual Parque Eduardo VII. Em 1990 o Plano Estratégico para a Preservação e Valorização do Património Arquitectónico e Urbanístico de Lisboa (Valis) haveria de repensar um conjunto de intervenções para a capital de que se destacam as propostas de recriação das desaparecidas Portas da Cidade. No final da década, e como que anunciando o novo século, na Outra Banda propunha-se a expansão da cidade do novo milénio, com a proposta de ocupação dos antigos Estaleiros Navais de Lisboa (Lisnave). Estas são, sem suma, algumas das propostas que os visitantes vão encontrar na exposição Lisboa que poderia ter sido que pode também, desejavelmente, ajudar a pensar a Lisboa que será. Legendas 01- Melhoramento estético ao Rossio. Perspectiva Cottineli Telmo. 1934. Tinta-da-china s/ papel. Museu de Lisboa 02- Hotel Hilton – perspectiva de localização em vista panorâmica a 180º F. Guerra. 1962 (atrib.). Impresso. Museu de Lisboa

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ta de retalhos que configura a actual praça Martim Moniz. A zona seria mesmo pensada como um dos principais nós viários da desejada circular em túnel da cidade histórica que, atravessando as colinas, por aqui passaria, articulando com os Restauradores, com o Corpo Santo e o Campo das Cebolas. De facto, a topografia de Lisboa, o urbanismo da cidade histórica e o próprio estuário do Tejo, desde cedo foram encarados como obstáculos ao desenvolvimento de uma rede viária franca e operacional, condicionante que se mostrou ainda mais premente com o aparecimento e o aumento do trânsito automóvel. Daí terem surgido múltiplas propostas - em túnel, viaduto, ascensores ou elevadores - com que se propunha vencer as colinas, ou de pontes transpondo o rio Tejo estabelecendo, finalmente, a ligação por ponte entre as duas margens. A arquitectura do ferro revolucionava, então, arquitecturas e obras de engenharia enquanto exemplo de modernidade.


Segredos de Lisboa

Texto e Fotografia por Francisco Duarte Coelho

“Vasco da Gama perante o Samorim” Carlos Ladeira © Sociedade de Geografia de Lisboa

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Quem nunca ouviu falar em Veloso Salgado, terá de ficar a conhecer um dos grandes mestres da pintura portuguesa, e quem sabe, senão o nosso melhor pintor histórico. E o que melhor para o descobrir, senão ver uma das suas melhores pinturas? Sim, é este o segredo que vos trago este mês, Uma peça colossal de Veloso Salgado está pendurada na entrada da Sociedade Portuguesa de Geografia, na Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa. Vê-lo é gratuito (basta entrar, e mostrar um pouco de simpatia ao funcionário da recepção). Vale a pena contemplar este segredo bem guardado.


Uma (má) evolução na continuidade (II) A pacatez do pós-revolução, relativamente ao Património obviamente, do Mandato de Aquilino Ribeiro Machado, foi abruptamente interrompida quando, ao abrir a década de oitenta, Nuno Abecasis “aterrou” na Câmara de Lisboa e, inspirado na grande tela a óleo de Miguel Ângelo Lupi do seu gabinete, onde debruçados sobre uma mesa de trabalho coberta de projectos, Pombal e a sua equipa desenham o futuro da cidade, que serviu de modelo ao cartaz da sua re-candidatura (!), declarou energicamente que depois dele “Lisboa ficaria irreconhecível”... Promessa que, para azar de todos nós, foi em grande parte cumprida! É pesadíssima a “Herança Abecasis”! Engenheiro de formação e prática, afirmou, com razão, que o edificado das Avenidas Novas era estruturalmente débil, logo a solução era o bota-abaixo e tudo novo... O martirizado Martim Moniz foi brindado com dois monumentais “Monos”, eram para ser cinco, que há muito já deviam estar no chão, como no chão devia já estar também um outro, inenarrável, que deixou “colar” ao Palácio de Xabregas... Indiferente aos sentimentos dos Lisboetas, incentivou a destruição do Monumental e, com ele, do Saldanha. Indiferente aos apelos dos críticos, retenho na memória “Em defesa da fachada”, um artigo referente ao quarteirão do Libersil no antigo Passeio Público, permitiu a destruição da Avenida da Liberdade, até então parcialmente preservada... Enquanto no cimo da Ajuda urbanizava muitas dezenas de hectares de Monsanto e no Alto do Parque, onde hoje está o Jardim Amália Rodrigues, planeava fazer o mesmo, teve a ousadia de aprovar duas descomunais construções à beira-rio, as “Torres do Tejo”, para o sítio da Standard Eléctrica, junto à Ponte, naquilo que seria um precedente dramático para Lisboa, que, após demanda Judicial foram “chutadas” para a segunda circular... Também por permuta Judicial, o prédio que autorizara para o quarteirão classificado da “Versailles” foi parar à Ameixoeira, que, à semelhança de outros notáveis núcleos históricos, como o Paco do Lumiar ou Carnide, até então integralmente preservados, começou a ser betonizada... Já depois de lançado o Projecto mais relevante do seu Mandato, a “Alta de Lisboa”, derradeira etapa da expansão ordenada da cidade, um “Golpe de Teatro”, paradoxalmente uma Tragédia, veio permitir que Abecasis se redimisse e desse um contributo histórico inestimável ao Património da cidade, quando, já de saída da Câmara e alvo de uma pressão brutal, decidiu com firmeza que o

por Pedro Mascarenhas Cassiano Neves

coração de Lisboa que havia sido destruído pelo grande Incêndio do Chiado seria integralmente recuperado segundo a sua traça original, o que foi notavelmente conseguido... Da gestão de Jorge Sampaio, que se concentrou em “arrumar a casa” e em alguns projectos estruturais, destacou-se o desempenho cultural que o seu Vereador e sucessor João Soares incrementou e que depois, já sob a sua Presidência, foi complementado por algumas medidas marcantes para a cidade de Lisboa, o Terreiro do Paço, após um século de incompreensível desprezo, foi finalmente devolvido a cidade, e ao Mundo, enquanto o Rossio recuperou o seu estatuto de “Fórum” citadino e o deslumbramento do seu “Mar Largo”... O “Fantasma” da Cidade Judiciária foi definitivamente afastado de Monsanto, que, recuperado o projecto do “Corredor verde” de Gonçalo Ribeiro Telles, abriu caminho até ao centro de Lisboa através do novo Jardim do Alto do Parque Eduardo VII… A promessa de fazer implodir os dois “Monos” do Martim Moniz não foi cumprida, mas salvouse o emblemático Cinema São Jorge, ao mesmo tempo que se procedia a uma esplêndida recuperação dos Paços do Concelho e se criavam e remodelavam Museus, Bibliotecas e Arquivos... Mas não há bela sem senão, e o crepúsculo da Presidência de Soares ficou assombrado por algumas infelizes decisões. A Praça da Figueira, que nos anos sessenta fora criminosamente despojada do seu esplêndido Mercado, transformouse, depois de uma incrível, do ponto de vista estrutural, arqueológico e Judicial, instalação de um Silo Automóvel subterrâneo, num imenso “Pandemónio” à superfície, que tarda em ser corrigido... Assistiu-se, como antes e depois, à destruição de Património Histórico relevante, como a Quinta de Santo António em Caselas ou o pequeno Solar da Rua da Quintinha em Campolide, propriedade da Câmara (!), e em simultâneo ao surgimento do inenarrável arranjo escultórico do Alto do Parque, que conseguiu a proeza de não agradar a ninguém e fazer esquecer o, esse sim notável, que realizou no extremo norte do Campo Grande... Ultrapassando toos os limites do bom senso autorizou a Escandalosa construção de um Quarteirão (!) de raiz em pleno “Território Sagrado” do Bairro Alto... Por fim, a teimosia da inconcebível construção do Elevador da Baixa para o Castelo, que gerou uma contestação sem precedente, assumiu-se como o seu suicídio eleitoral...

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RETRATOS DO PATRIMÓNIO


LISBOA VERDE “O JARDIM DA ESTRELA, À TARDE, É PARA MIM A SUGESTÃO DE UM PARQUE ANTIGO, NOS SÉCULOS ANTES DO DESCONTENTAMENTO DA ALMA.”

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Fernando Pessoa (Bernardo Soares), “O Livro do Desassossego” Defronte à imponente Basílica da Estrela, mandada erguer por D. Maria I, situa-se um dos mais belos e populares jardins de Lisboa, o da Estrela, parque público desde a sua inauguração, mas que curiosamente nasceu pela vontade da iniciativa privada. A ideia de criar um parque que criasse uma alternativa ao Passeio Público (situado na actual Avenida da Liberdade) veio de um grupo de burgueses e aristocratas – em particular o Conde de Cabral, o Barão de Barcelinhos e o Conde da Estrela – e foi acolhida e apoiada pelo Presidente da Câmara, Laureano Luz Gomes, e pela família real. As obras começaram em 1842, tendo sido interrompidas entre 1844 e 1850, dada a instabilidade política, sendo retomadas em 1850 pela mão dos jardineiros reais, Bonnard e João Francisco, cedidos para o efeito por D. Fernando II e D.

Texto e fotografias por João Albuquerque Carreiras

Maria II. O terreno, com cerca de 4 hectares, pertencia ao convento Beneditino (actual Hospital Militar), estando situado numa zona então pouco populosa, caracterizada por quintas e conventos, mas com uma belíssima situação em relação à cidade que começava a atrair gente, em particular a comunidade inglesa – o cemitério e o hospital ingleses estão aqui situados – que, como se sabe, devota grande interesse aos jardins e terá por certo contribuído para o sucesso deste. O jardim foi inaugurado em 1852 com o nome de Passeio da Estrela, entrando desde logo na moda com concertos, festas e garden parties muito concorridos. Esta moda continuou até ao início do século XX, tendo sido retomada nos últimos anos. Enquadrado na corrente do século XIX de construção de grandes parques públicos para usufruto da população – tais como o Hyde Park (Londres), o Prater (Viena), o Campo de Santana (Rio de Janeiro) ou Monceau, Montsouris e Buttes-Chaumont (Paris) –, consequência dos ideais liberais que iam ganhando o seu espaço no mundo e segundo os quais era essencial a existência de espaços de lazer para a população. São assim construídos de raiz jardins públicos, destacando-se a intervenção feita em Paris pela mão do Barão Haussman, tendo Alphand como responsável pelos jardins.


A vegetação tinha, como nos jardins desta época, em particular nos desenhados por Bonnard, um papel principal no jardim, destacando-se a inclusão em grande escala de espécies exóticas. O elenco florístico era assim muito diverso e rico, mas o furacão de 1941 devastou grande parte da vegetação, tendo chegado até hoje poucos exemplares da época da construção do jardim. Ainda assim a sua substituição foi feita com sucesso por outras espécies, criando um jardim que é, ainda hoje, de grande beleza. Este jardim tem um desenho de grande qualidade, que faz com que pudesse estar em

qualquer grande capital do mundo. Bonnard foi um talentoso paisagista que deixou um excelente trabalho, nomeadamente nos Jardins das Necessidades, e que aqui, o seu último pojecto em Portugal, mostra grande maturidade nas soluções encontradas. Esta qualidade não será alheia ao facto de ter sido na Estrela que primeiro se notou, no início do século XXI, uma saudável mudança de hábitos dos lisboetas, com a “invasão” dos jardins pelas pessoas. Durante anos os jardins em Lisboa eram, de uma forma geral, pouco utilizados, há excepção de alguns ocupados por vigorosos jogadores de sueca ou dominó. Talvez por influência dos, cada vez mais, estrangeiros a viverem na cidade, ou pelos, cada vez mais, portugueses que estudaram, ou viveram, no estrangeiro, é hoje possível ver jovens almoçarem ou fazerem pic-nics em relvados, algo impensável há uns anos atrás. Passar num fim-de-semana de bom tempo na Estrela é encontrar um jardim vivido e totalmente ocupado, pelas crianças nos parques infantis, pelos pais nas esplanadas ou bancos de jardim, por famílias ou grupos de amigos nos relvados. A Estrela será dos melhores jardins de Lisboa e, claro que também por isso, um dos mais vividos e queridos da população.

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O traçado do jardim está enquadrado no estilo da época, inspirado no paisagismo inglês, na sua reinterpretação francesa. Trata-se de um jardim fechado por um gradeamento, que aproveita o relevo existente para criar um traçado orgânico, com grutas e lagos artificiais imitando a natureza, esculturas (de autores como Simões de Almeida, Barata Feyo ou Teixeira Lopes), um coreto (desenhado por Soares Monteiro e proveniente do Passeio Público) e construções de apoio: o Pavilhão Froebel (José Luís Monteiro, 1882) e o Pavilhão Chinês (Pedro José Pézérat).


ÁRVORES DE LISBOA Texto e Fotografia: Ana Luísa Soares Ana Raquel Cunha

INVERNO

VERÃO

Ginkgo biloba Kaempf. Ex L. (ginkgo, nogueira-do-Japão) Família: Ginkgoaceae Considerada uma árvore lendária e de exuberante beleza é muito utilizada como árvore urbana ornamental por ser resistente à poluição, bem como a pragas e doenças e pouco exigente a condições de solo e clima. É a árvore símbolo da cidade de Tóquio e é considerada sagrada no Oriente, como símbolo da longevidade, da esperança e do amor. Esta espécie botânica é originária da China, onde ocupa vales em regiões temperadas. Chegou a ser dada como espécie extinta, mas encontraram-se duas pequenas áreas na China onde existem exemplares espontâneos. É considerada uma espécie muito resistente. Em 1945, aquando da explosão atómica da Hiroshima, um exemplar existente nessa cidade sobreviveu a essa catástrofe.

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A espécie Ginkgo biloba apresenta uma copa de forma piramidal, que pode atingir 25-30 metros. Caracteriza-se pelo seu ritidoma fissurado e muito fendido principalmente nos exemplares mais velhos. As suas folhas são flabeliformes (em forma de leque), com 5-20 cm de largura, geralmente inteiras nos raminhos curtos e bilobadas nos de prolongamento, de cor verde-claro tornando-se douradas pelo outono, antes de caírem.

É uma espécie dióica, isto é, tem flores masculinas e femininas em exemplares diferentes. As plantas masculinas apresentam flores amareladas agrupadas em estruturas pendentes, e as plantas femininas produzem sementes nuas, de cor verde-amarelado, que parecem uma drupa e que ao amadurecer caem e exalam um cheiro desagradável. É uma espécie sem grande interesse florestal mas as suas aplicações são inúmeras. São de destacar a utilização das suas folhas que contêm compostos de uso medicinal, com propriedades antioxidantes, dietéticas e estimulantes do cérebro, da memória, da circulação sanguínea e anti-depressivos. As suas propriedades são há muito reconhecidas na medicina tradicional chinesa e mais recentemente no ocidente. A ginkgo exibe exemplares extraordinários em diversos locais e jardins de Lisboa, em particular os existentes no Jardim das Amoreiras (ver fotografia). Também no Jardim da Estrela, Jardim Botânico da Ajuda, Jardim Botânico Tropical, Jardim Botânico de Lisboa. E como árvore de arruamento na Avenida João XXI e em avenidas do Parque das Nações se localizam outros exemplares. A única Ginkgo biloba classificada em Lisboa como árvore de interesse público, pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, encontra-se na Praça Paiva Couceiro (na Penha de França).


A ESCALA HUMANA DE LISBOA por André Serpa Soares

O que distingue Lisboa de outras capitais do mundo? Destacaria a escala. Lisboa tem escala humana, é uma cidade à dimensão do Homem. Em Lisboa, as ruas e avenidas são do nosso tamanho. Os palácios e monumentos não nos sufocam e abafam em megalomanias. As multidões não nos submergem e arrastam em fluxos avassaladores. A altura e dimensão dos prédios e edifícios não nos faz sentir pigmeus numa selva de betão. Lisboa tem céu. Lisboa tem horizonte. Lisboa tem espaço. Lisboa tem verde. Podia ter mais de tudo isto, mas tem tudo isto mais do que a maioria das outras capitais. Lisboa é uma capital de terraços sobre o Tejo e de vistas para o belo. Sou um tipo com sorte. Um privilegiado. Porque já pude viajar bastante e conheci várias das capitais do mundo, em quase todos os continentes. Falta-me a Oceânia, é certo, e tanto que quero ir à Oceânia. E em poucas capitais do mundo me sinto mais humano do que em Lisboa. Noutras capitais, nas enormes metrópoles, somos apenas um elemento de uma fauna urbana indistinta. Nova Iorque, S. Paulo, Hong-Kong, Istambul, Londres, Berlim ou Paris, arrastam-nos pelas suas ruas. São cidades avassaladoras, que tomam conta de nós, apoderam-se de nós. Avenidas sem fim e sem horizonte. Multidões. Luz. Cor. Movimento. Ruídos. Tudo em grande, tudo em espampanante. Esmaga-nos. Noutras capitais, na maioria das capitais, a beleza (ou tantas vezes, a falta dela) é óbvia, entra-nos pelos olhos, não temos de a procurar. Em Lisboa, não. Lisboa é discreta. Lisboa é como a olhamos, como a sentimos, como a vivemos. Lisboa é o que dela fazemos. Não se impõe, não é sobranceira. Lisboa é delicada, sensual, discreta. Insinuante, sem ser intrusiva. Mesmo nas suas zonas mais monumentais, de que Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e a Praça do Império serão provavelmente os melhores exemplos, tudo é a nossa escala humana. Sim, há grandes monumentos, grandes edifícios em Lisboa. Mas não nos saltam aos olhos, não nos gritam aos ouvidos, não são mais que nós. Lisboa não é arrogante. Lisboa não é agressiva. Lisboa é à nossa escala, à escala humana. Lisboa tem a nossa medida. Lisboa é orgânica. Lisboa é do nosso tamanho. E essa é uma das suas melhores qualidades.

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Em Lisboa, sinto-me mais pessoa. Pessoa.


Fotografia Hugo Macedo - Lisboa à Noite

Lisboa sem açúcar

por Constança Martins da Cunha

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Hugo Macedo

Não é difícil perder o foco quando os aplausos são muitos e os prémios são constantes. Não é difícil mascarar inconscientemente a realidade e ouvir apenas aqueles que não a confrontam. Não é difícil uma cidade acomodar-se. O que não é fácil é combater este círculo vicioso, pondo a vaidade de parte, ignorando os aplausos, os prémios internacionais, os dados do turismo e dando tempo de antena aos lisboetas que podem ter, em última análise, um papel imprescindível na construção de uma cidade melhor. Porque não têm a visão inquinada pela soberba. Porque não vivem numa redoma de vidro e no

seu dia-a-dia são confrontados com o bom e o mau, com a luz e com as trevas. E porque uma cidade que não preserva o seu ADN e que menospreza os seus cidadãos e o que é tradicional entrará facilmente em decadência, frustrando até os objectivos de ocupação turística que parecem ter-se tornado no derradeiro valor da civilização… Quem quererá vir de férias a Lisboa quando ela perder a identidade que lhe é característica e deixar de ser ela própria? Lisboa tem por isso que afogar urgentemente a vaidade nas águas do Tejo antes que este pecado mortal se torne a sua cruz. Lisboa tem que voltar a encontrar-se. Tem que pensar que cidade quer ser. Traçar um plano realista e executá-lo com racionalidade. E tem, sobretudo, que voltar a pôr os lisboetas em primeiro lugar.


Custa admitir mas a verdade é que vivemos numa cidade que não se interroga e que não preza nem defende o bem-estar dos seus habitantes. Numa cidade que parece não se aperceber que é a capital mais envelhecida da Europa, qual é o apoio efectivo que existe à Terceira Idade? E qual o apoio que existe à infância? Vivemos numa cidade onde existe um problema real de mobilidade, não só devido à inclinação natural das colinas mas também porque os transportes públicos em determinados bairros ou são insuficientes ou estão longe de ter um desempenho satisfatório. Nada que se possa resolver com ciclovias… Vivemos numa cidade suja, onde o branco encardido dos passeios esburacados, irregulares e escorregadios é um cemitério de beatas e de cacos de garrafas, onde muitas ruas cheiram a urinol e raramente são lavadas, onde os prédios são grafitados mal acabam de ser recuperados e onde a recolha de lixo não tem hora marcada. Como compreender, por exemplo, que a recolha de lixo no Bairro Alto seja feita por volta das dez da manhã e que no Chiado o vidro seja ensurdecedoramente recolhido entre as quatro e as seis da tarde? Será este tipo de planeamento de Higiene e Limpeza Urbana o melhor que os lisboetas merecem e um bom cartão-de-visita para os turistas? Vivemos numa cidade onde os hotéis, os hostels e os alojamentos turísticos se multiplicam como cogumelos e em que, para alojar estrangeiros, se desalojam os lisboetas, que parecem não ter mais lugar na sua própria Cidade. E vivemos numa cidade que não defende sequer a sua identidade, nem mesmo no que à manutenção do comércio tradicional diz respeito. Ao passear pela Baixa e pelas restantes zonas históricas, o que vemos, porta sim, porta sim? Lojas de souvenirs incaracterísticas e sem nenhuma qualidade, onde se vendem recuerdos provenientes dos países do Oriente... Há uma panóplia de problemas reais que a cidade enfrenta no seu dia-a-dia e que têm sido continuamente ignorados. A edilidade parece estar acomodada a estes problemas e focada apenas em atrair sangue novo e em fazer obras de cosmética. Seria muito positivo se fizesse um esforço para compreender que Lisboa não pode perder a individualidade e que o Turismo pode e deve ser aproveitado para melhorar, modernizar e recriar a cidade mas sem lhe destruir a alma como tem vindo a suceder.

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Haja visão e bom senso!


PÃO COM MARMELADA Texto e fotografias por Marta Gonzaga

Fotografia por António Pedro Ferreira Legenda: Eu e o meu irmão André.

A professora agarrou-me e eu sem perceber porquê tanta emoção só porque ia mudar de escola, algo que para nós era razoável e normal. Estávamos em 1979, a meio da minha segunda classe, na Escola primária Gil Vicente em Cascais prestes a ir viver para Lisboa. Nesta escola, era apaixonada pelo menino que fugia pela janela. Não me lembro de nada mais dele a não ser que tinha caracóis. Eu estava no fundo da sala à esquerda e ele estava à frente do lado direito e na primeira oportunidade fugia da aula. Como não gostar de um rapaz assim?!

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Chegámos a Lisboa e fomos viver para a Bica. Uma casa muito pequena, num prédio muito antigo: uma pequena sala, um pequeno quarto, uma muito pequena cozinha e uma casa de banho inexistente, que a minha mãe teve de (re)construir. Essa construção provocou reações nos vizinhos. Os de baixo, que eram tão velhotes que para mim teriam uns cem anos, vieram aconselhar a minha mãe e o meu padrasto a não o fazerem: — Vivo aqui há 70 anos e nunca precisei mais do que de uma sanita. Uma vez por mês, vou a casa da minha irmã tomar banho. Ou aos banhos públicos, na rua de S. Paulo. Pense bem no que vai fazer, porque roubar espaço à cozinha... onde é que já se viu isso? É onde uma mulher passa a maior parte do tempo! — dizia a senhora, consternada—.

Foi essa mesma senhora que nos ensinou a escutar os vizinhos com copos de vidro e pé alto, encostados na parede. Usei a técnica muitas vezes, até para a escutar a ela. Nunca ouvi nada de muito interessante, mas funcionava, se bem que as paredes eram tão finas que não era preciso um grande esforço para se escutar o que quer que fosse. Na Bica quase tudo se passava para uma vasta audiência, composta em grande parte por senhoras à varanda, com os braços cruzados a comentar de janela para janela o que se ia passando. Quando davam as dez horas os vizinhos de baixo começavam a dar pancadas com o pau da vassoura no tecto para nos calar. E o estrondo mantinha-se até que não andássemos mais aos saltos. Habituámo-nos a isso e também a termos sempre a vassoura pronta para avisar o vizinho de cima, quando este ultrapassava as horas de poder fazer barulho. Neste bairro, onde vivemos quase dois anos, brincávamos na rua até muito tarde. Os ritmos da brincadeira faziam-se de acordo com os horários do elevador da Bica. No ponto onde os dois elevadores se cruzam os mais audazes ficavam entre os dois com ar de heróis, apesar destes passaram a pelo menos meio metro de cada lado. Tentei uma vez, não corri perigo nenhum, mas tive tanto medo que nunca mais repeti.


A Hora do Lanche Antes ainda de termos fome, ouviam-se as mães a chamar: - Óooo Fanãaa, olha o laaanche. E todos corríamos para as nossas casas a apanhar o nosso. Na Bica, e à falta de elevadores, as mães ou as avós desciam um cesto atado a uma longa corda, com a comida. Tive muita pena de nunca ter tido um cesto. De qualquer maneira, vivíamos num segundo andar. A nossa mãe não era das que gritava por nós, até porque à hora do lanche estava na redação da revista onde trabalhava. Mesmo que estivesse em casa acho que nunca teríamos esse prazer. Ou era a empregada, ou nós mesmos que preparávamos o nosso lanche. Adorava o pão com marmelada! Uma vez, corri para a rua, ainda de pão na mão, para continuar o jogo da apanhada. Quando chovia, os carris tornam-se muito escorregadios e assim que lhes passei por cima, escorreguei e fui a deslizar deitada no chão de barriga para baixo, desde a nossa rua, a Travessa da Laranjeira, até à rua de baixo. Quando finalmente parei, ainda deitada no chão, olhei para uns senhores velhotes que observaram a situação e que com ar de orgulho comentaram: — E o pão nem sequer tocou no chão! — provocando uma gargalhada geral. E lá estava eu, naquela posição, mas com a mão direita inclinada para cima. Toda eu suja de óleo, mas o pão com marmelada mantevese incólume e perfeito para consumo. Já na altura tinha as minhas prioridades muito bem definidas.

As festas em casa Lembro-me de três festas, nesse curto período na Bica. Uma, em que fomos visitar um rapaz que fora operada às amígdalas. Nem nos dávamos mui-

to com ele, mas estas visitas eram uma obrigação social a que não podíamos faltar. Tenho ideia de que as mães do bairro nos apanhavam na mercearia, e indicavam onde tínhamos de ir, e a que horas. Então, lá fomos nós visitar o rapaz sem amígdalas. Uma casa minúscula, como quase todas, uma mesa com um lanche e uma cortina a separar o quarto. Entraram muitas crianças, a mãe dele abriu a cortinha, disse como é que ele estava a recuperar, e como ele só podia comer gelados. Ficámos a olhar, desejámos-lhe as melhoras para poder voltar rápido para a rua, a mãe voltou a fechar a cortina para ele descansar, e nós ficámos um bocadinho na sala a comer pão com fiambre e a beber Tang. Outra festa teve um desfecho muito triste na altura, mas há pouco tempo, por acaso, encontrei os intervenientes e, todos juntos, acabámos por nos rir desse dia. Era o aniversário de um dos nossos vizinhos. Mãe e filho esperavam todas as crianças do bairro com uma mesa cheia, mas mesmo cheia, de doces. Esta mesa era o orgulho da família porque era nova, em vidro fosco castanho, pés de metal, e ocupava quase toda a sala. Era mesmo moderna, no início dos anos 80. Todos nos empoleiramos em volta, e a mesa partiu-se a meio. Dividiu-se literalmente em duas, ainda antes de começarmos o lanche. Foi um momento dramático, com mãe e filho a chorarem pela mesa acabada de comprar a prestações. A festa deu lugar à tristeza «o que é que o pai vai dizer quando voltar do trabalho?». Mal entrámos, e já estávamos de saída. Nesse dia ficámos tão perturbados, que ninguém foi brincar para lado nenhum. A última festa que me lembro, já estávamos quase a mudar para outra casa, noutra freguesia, São Mamede, e teve sabor a festa de crescidos. Não havia pais. Em casa estavam alguns adolescentes e umas tantas crianças. Mal nos podíamos mexer, e dançávamos aos pulos, enquanto cantávamos e gritávamos: Quero ver Portugal na CEE Quero ver Portugal na CEE Entretanto, o meu irmão Bernardo nasceu na Bica e passeá-lo de carrinho tornou-me uma pessoa «muito importante» aos olhos das outras amigas de oito anos. Elas tinham bonecas, eu tinha um bebé verdadeiro. Chegaram a pagar-me para que eu as deixasse empurrar o carrinho. O negócio corria bem, mas a Lúcia, a empregada, apanhou-me e eu fiquei proibida de alugar o meu irmão. Entretanto, Portugal acabou mesmo por entrar para a CEE, mas primeiro mudámos nós de casa.

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Por vezes deixávamos cair coisas para os carris e lá vinham os vizinhos com cabos de esfregona ou vassouras, uma ferramenta muito importante na Bica. Na ponta colavam uma pastilha elástica ou sabão com uma pinga de água para amolecer um pouco. Com jeitinho, chegava-se ao objecto perdido, que geralmente eram as chaves de casa ou moedas, e puxava-se para cima. Se as chaves eram pesadas, demorava mais. Durante esta actividade, iam-se juntando mais e mais vizinhos para ajudar e dar palpites. Quando ouvíamos a campainha do elevador fazíamos uma pequena pausa na tarefa, e libertávamos o carril até à sua passagem.


ALFACE FORA D’ÁGUA 4 HORAS DA MANHÃ – SIEM REAP por Andreia Correia Manuel Vicente

Enquanto alguns jovens em Portugal estão a regressar a casa depois de uma noite no Urban, do outro lado do mundo nós estamos a prepararmo-nos para a volta a Siem Reap 2016 em bicicleta. Sim porque para dois jovens portugueses com falta de dinheiro a melhor forma de visitar locais é confiar nos membros inferiores! Ir a Siem Reap e falhar o nascer do sol no mítico Angkor Wat é o mesmo que ir aos pastéis de Belém para comer um croissant.

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Depois de quase perdermos um pulmão no caminho, chegamos a tempo de fazer um check no cliché Cambojano. Mas temos que ser honestos e admitir que é de facto uma experiência imperdível, já que o nascer do sol transforma o complexo numa bonita imagem. Claro que para a registar vão ter que fugir e fintar os infinitos chineses e a sua tecnologia sempre apontada para o ar.

Visitar este complexo sob um calor sobrenatural de bicicleta é sempre a melhor opção. Ficaríamos felizes se depois os cambojanos percebessem o que é vender bebidas frescas, mas num calor de 40ºC nem o gelo se aguenta. São estes momentos que nos fazem invejar os turistas que viajam nos tuk-tuk com os cabelos ao vento e nós a aproveitar descidas para ver se o conseguimos criar! Há que poupar uns trocos para nos podermos sentir magnatas em Singapura.


Tudo para neste caso ver o pôr do sol num dos hotéis mais conceituados do país e pagar 13€ por duas coca-colas. Entre betão e luxo, nenhum de nós se importaria de ser um executivo de sucesso e mudar a morada fiscal por uns tempos. Sonhos para outras horas. Viajar na Ásia é o paraíso para qualquer português ainda a recuperar do orçamento do Passos. Desde hostels baratos e sempre em harmonia com a fauna local, a almoços e jantares por 1€, este é talvez o melhor destino para uma viagem mais prolongada. Claro que a receita para poupar também passa pelas enorme quantidade de horas nos transportes que relembram os nossos avós as viagens

Os asiáticos são conhecidos por muitas qualidades, mas depois de passarmos por vários países temos que louvar a capacidade de negócio, persuasão e invenção que muitos deles têm. Desde feriados inexistentes, hostels que afinal ficam na aldeia seguinte, lotação esgotada nos transportes para mais uma noite no hostel, monumentos fechados e sugestão para irmos visitar outros mais afastados com o amigo que tem um tuk-tuk, eles tentam tudo em prol de mais umas notas no bolso. Outro pormenor fantástico sobre a Ásia é a mudança de tempo, passamos de um dia quente e com sol para um tufão de intensidade máxima em questão de segundos. Claro

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na Nacional quando iam visitar a família no interior! Mas tal como eles aproveitamos a vista, experienciamos vivências que o avião não proporciona nem que seja a venda direta de bens no comboio pela janela, viajar num sleeping bus ou parar no meio do nada para comer alguma coisa no tasco à beira da estrada.

que para eles é mais um dia normal, para nós implica duas horas parados num stand de lavagem de carros com a mota alugada e apanhar a molha de uma vida, 5 dias a viver no hostel em Phuket na esperança de nos sentirmos como o Leonardo DiCaprio ao visitar as famosas Ko Phi Phi, viajar 18 horas no rio Mekong com chuvas tropicais que nos leva a sentir que fazemos parte da equipa de Pesca

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Radical ou sentirmo-nos numa rave em plena Kuala Lumpur com os relâmpagos a transformarem os prédios em bolas de espelhos gigantes. Uma boa maneira de sobreviver nos dias de sol é aproveitar e visitar a Tailândia, Camboja e Laos no ano novo – Songkran, em Abril já que toda a gente anda preparada com armas carregadas de água ou com bidões à porta dos locais de comércio. Assim, desfrutam de banhos públicos bem fresquinhos, quase tão frios quanto a água da Costa da Caparica, mas neste caso a sensação de frescura dura só uns minutos. Para além disso acabam por ter direito a uma hidratação corporal gratuita para quem se esqueceu dos cremes em casa. No meio de tanta festa e felicidade, esta é uma boa semana para conviver com a comunidade, conhecer pessoas e divertirmo-nos com estranhos!

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Para além das paisagens lindíssimas outra coisa maravilhosa são as comidas! Que o diga o Anthony Bourdain, já que seguimos o seu roteiro gastronómico. Desde sopa de noodles, pratos bem picantes e fritos “amigos” do colesterol, a muito arroz, esta é sem dúvida a melhor experiência da viagem. Claro que passado algum tempo começamos a ter saudades de comer uma dose bem portuguesa para acalmar o estômago. Acabamos por matar saudades de um belo frango de churrasco em Macau, a ouvir passado tanto tempo portugueses a falar, uma versão bem aquém do Pastel de Nata e os pratos dos descendentes portugueses em Melaka na Malásia. Digamos que estes últimos são uma grande variação das nossas receitas, mas não vamos estragar o marketing da região onde até dançam o Rancho Folclórico. Viajar por algumas partes da Ásia faz-nos ver como os portugueses foram tão grandiosos no passado já que existem tantas heranças deixadas por nós preservadas nestes locais. Mas se por acaso estiverem em algum lugar por onde os portugueses não tenham navegado, basta mencionar o Cristiano Ronaldo ou o Mourinho para se abrir logo um sorriso do outro lado, sem esquecer de o pronunciar da maneira mais estranha que conseguirem! Alguns ainda vão mais longe e relembram o Eusébio, foi o caso do ainda ressabiado coreano que nos ajudou com a mota avariada perdidos no Vietname e à chuva. De facto, o Vietname trouxe-nos muitas experiências inesquecíveis, como as viagens intermináveis no sleeping bus, as Bánh Mì (sandes), primeira vez a conduzir uma mota e ter o primeiro acidente, viajar por paisagens fantásticas, termos conhecido companheiros de viagem, viajar com mais um português pelos campos de arroz em Sapa, fazer um treeking de dois dias ao nível de um praticante de crossfit, um homestay com um grupo de turistas na casa de uma família em Sapa,

fazermos um amigo muito especial que nos levou a conhecer a Malásia de carro e claro a oportunidade de conhecer a beleza de Ha Long Bay património mundial da UNESCO. Das planícies de arroz para o betão e desenvolvimento conhecemos Kuala Lumpur na companhia do nosso amigo. Entre centro comerciais e prédios não há muito mais a ver em Kuala Lumpur a não ser a nova coleção de alguma marca de luxo ou aproveitar os diferentes bairros e comer algumas iguarias libanesas, malaias, chinesas ou indianas. Melhor ainda é sair para jantar durante o Ramadão já que existem banquetes nos restaurantes dignos da festa de anos do Duque de Bragança. Com tantas horas sem comer é preciso aproveitar bem a noite para repor energias. Por outro lado em Jacarta o difícil é encontrar o que comer e os restaurantes por detrás dos cortinados a tapar as janelas. Com tantos olhares na rua e ruas escuras sentimonos um pouco inseguros nesta cidade. Nesta aventura por 9 países são tantas as histórias e acontecimentos para relembrarmos, pessoas e locais que olhando para trás


04

Agora que regressámos sentimos saudades do caos, dos cheiros, das comidas e de durante três meses termos gasto tão pouco dinheiro! Algo um pouco difícil em Portugal! Mas temos

uma certeza a de que ainda voltaremos para passar mais um tempo na companhia das multidões de asiáticos e de conhecer o que ficou a faltar.

Fotografias 01- Nascer do Sol no Complexo de Angkor Wat, Siem Reap - Camboja 02-Viagem de 11 horas num sleeping bus entre Nha Trang e Hôi An - Vietname 03-Monge a tomar banho no Rio Mekong - Laos 04-Crianças a refrescarem-se na semana do Songkran em Bangkok - Tailândia

Blog.www.backpackandcoins.byethost7.com

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a única constante para além dos transportes foi a escolha dos locais para dormir! Sempre a primeira opção do site ordenado por preço! Foi à conta dessa ordenação que acabámos em sítios bem estranhos, com uma ventoinha por vezes e outros situados dentro de um prédio onde existem habitações, cafés, ciber cafés, lojas e outros hostels. Claro que só podia ter sido em Hong Kong. Mas depois de uma viagem pelas ruas, acabamos por perceber que a escolha não é assim tão variada, pelo menos para o nosso bolso, já que o que mais se vê são prédios e centros comerciais. Se em Portugal queremos o último andar pela vista e pouco barulho, em Hong Kong ficaríamos nos primeiros para não passarmos o resto do tempo no elevador. Neste local cosmopolita e bem caro, salva-nos o McDonalds e os seus 237 restaurantes que se encontram ao virar da esquina. Sabe sempre bem um pacotinho de nuggets para percorrer mais uma avenida!


WHAT’S On:

BElÉM, lISBOA

UTOPIA / DISTOPIA MUDAnçA DE PARADIGMA

08 FEV – 29 MAI → cEnTRAl

22 MAR – 21 AGO → MAAT PRIncIPAl

jOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO ARQUIVO E DEMOcRAcIA

O qUE EU SOU cOlEçãO DE ARTE FUnDAçãO EDP

WAI THInk TAnk, cities of the avant-gard, 2012

AlExAnDRE PERIGOT, La maison du fada, 2013

DIMENSÕES VARIÁVEIS ARTISTAS E ARQUITETURA

09 nOV – 24 ABR → cEnTRAl

TânIA SIMõES, spotLight, 2012

JOSÉ MAçãS DE cARVAlHO, 2017 (VIDEO STIll)

22 MAR – 29 MAI → cEnTRAl

PERMAnEnTE

HÉcTOR ZAMORA, 2012. FOTO: MOUSUk nOlTE

22 MAR – 24 ABR → MAAT

CIRCUITO CENTRAL ELÉTRICA FOTO: PAUlO AlExAnDRE cOElHO

HÉCTOR ZAMORA ORDEM E PROGRESSO

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12H00 àS 20H00 — EncERRADO àS TERçAS PARcERIAS InSTITUcIOnAIS

PARcERIAS

WWW.MAAT.PT


Tradicional

Cosmopolita

Alternativo

Hipster

Multicultural

Para entrar

Na rua

LIS BO NAR O Nosso Guia de Lisboa

[101]

Clรกssico


Mapade

Lisboa COA

PR

SLM

AP

[102]

ZR

BCS


BXM

AV GM

CA

BA BC

ZR - Zona Ribeirinha AP- Alcântara | Pampulha COA - Campo de Ourique | Amoreiras SLM - Santos | Lapa | Madragoa PR - Príncipe Real BCS- Bica | Cais do Sodré BA - Bairro Alto AV - Avenida BC - Baixo Chiado CA - Castelo | Alfama GM- Graça | Mouraria AR - Almirante Reis BXM - Beato | Xabregas | Marvila FC - Fora do centro [103]

S

AR


CLÁSSICO GAMBRINUS | AV

BAR PROCÓPIO | COA

O clássico dos clássicos. A melhor barra e o melhor serviço de Lisboa, que nos faz sentir príncipes ainda que apenas comamos um prego e uns magníficos croquetes com mostarda da casa. Se lhe apetecer algo fora da carta, peça, quem sabe poderá ser surpreendido.

O mais antigo dos clássicos bares lisboetas voltou a estar na moda e ainda bem. Com o melhor barman da cidade, o Sr. Luís, sempre atento aos pormenores e um ambiente familiar, o bar de Alice Pinto Coelho por onde ainda é habitual passarem artistas das mais diversas áreas é o mais icónico da capital.

Todos os dias das 12h00 à 01h30 Rua das Portas de Santo Antão, 23 1150-264 Lisboa N 38° 42’ 55’’ W 9° 8’ 22’’ +351 213 421 466 www.gambrinuslisboa.com

Segunda a Sexta das 18h00 às 03h00 Sábado a partir das 21h00 Alto de S. Francisco, 21 A 1250-096 Lisboa N 38° 43’ 19’’ W 9° 9’ 19’’ +351 213 852 851 www.barprocopio.com

RESTAURANTE

BAR

XL | SLM

RESTAURANTE Segunda e Terça das 20h00 às 00h00 Quarta e Quinta das 20h00 às 01h00 Sexta e Sábado das 20h00 às 02h00 Calçada da Estrela, 57 1200-661 Lisboa N 38° 42’ 42’’ W 9° 9’ 17’’ +351 213 956 118

VELLAS DO LORETO | BCS LOJA

Segunda a Domingo 9h00 às 19h00 Rua do Loreto 53, 1200-036 Lisboa N 38º 42’ 38”, W 9º 8’ 41’’ +351 213 425 387 www.cazavellasloreto.com.pt

COELHO DA ROCHA | COA RESTAURANTE

De Segunda a Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Rua Coelho da Rocha, 104 1350-079 Lisboa N 38° 42’ 59’’ W 9° 10’ 0’’ +351 213 900 855 www.facebook.com/restaurantecoelhodarocha

BAR SNOB | PR BAR

No Snob quase nada mudou. O bife continua bom e o cozido, às sextas, irrepreensível e o Sr. Albino cortês e atencioso como sempre. O quase é reservado ao famoso gelo à Snob, que era picado de grandes blocos e que deixou de existir para dar lugar ao gelo de máquina, mas nem esta pequena contrariedade retira vontade de nos perdermos noite fora em conversas bem regadas.

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Todos os dias das 16h00 às 03h00 Rua do Século, 178 1200-438 Lisboa N 38° 42’ 54’’ W 9° 8’ 51’’ +351 213 463 723 www.snobarestaurante.com

CAMISARIA PITTA | BC LOJA

O Pitta, como é mais conhecido, foi uma das maiores referências da alfaiataria lisboeta. Foi e continua a ser. Por ali, bem no coração da Baixa, continua a encontrar os melhores tecidos para fatos, casacos e camisas. O resto é a arte dos alfaiates da casa... Rua Augusta, nº195/197 1100-170 Lisboa N 38° 42’ 41’’ W 9° 8’ 17’’ +351 213 427 526

LUVARIA ULISSES | BC LOJA

Segunda a Sábado 10h às 19h Rua do Cramo, 87-A 1200-093 Lisboa N 38º 42’ 44’’, W 9º 8’ 22’’ info@luvariaulisses.com +351 213 420 295 www.luvariaulisses.com


TRADICIONAL D. QUITÉRIA | PR RESTAURANTE

Terças das 19h00 às 00h00 Quarta a Domingo das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 00h00 Travessa de São José, nº1 - Praça das Flores 1200-415 Lisboa N 38° 42’ 50’’ W 9° 9’ 5’’ +351 213 951 521

SINAL VERMELHO | BA RESTAURANTE

Segunda das 19h00 às 00h00 Terça a Sexta das 12h30 às 00h30 Sábado das 19h00 às 00h30 Rua das Gáveas, 89 1200-206 Lisboa N 38° 42’ 44’’ W 9° 8’ 36’’ +351 213 461 252 / +351 213 431 281 www.facebook.com/RestauranteSinalVermelho

TASQUINHA DO LAGARTO | FC RESTAURANTE

Um clássico para o almoço. Óptima cozinha portuguesa, bons grelhados em doses generosas. Poderá ter de esperar algum tempo por mesa, mas nada que uma imperial ao balcão não resolva. Segunda a Sábado das 12h00 às 15h30 e das 19h00 às 22h30 Rua de Campolide, Nº 258 1070-039 Lisboa N 38° 44’ 3’’ W 9° 9’ 52’’ +351 213 883 202 www.facebook.com/tasquinhadolagarto

FIDALGO | BA RESTAURANTE

A sugestão deveria ser divagar pelos pratos clássicos da gastronomia português, mas, para além desses, provem o polvo com feijão, com um pouco de picante, uma receita da casa capaz de deitar abaixo uma garrafa de bom vinho tinto. Segunda a Sábado 12h às 15h e 19h às 23h Rua da Barroca 27 1200-047 Lisboa N 38º 42’ 40’’, W 9º 8’ 40’’ +351 213 422 900 www.restaurantefidalgo.com

A VIDA PORTUGUESA | AR LOJA

Qualquer uma das lojas é um antro de bom gosto e perdição, mas a do Intendente é só uma das mais belas lojas de Lisboa. Tudo é português e ficaria sempre tão bem em nossa casa. Sabonetes Ach. Brito e Claus, faiança Bordallo, Cadernos Emílio Braga e tantos outros produtos ignorados durante anos até que esta maravilhosa loja os ressuscitou. Mais que uma loja isto é verdadeiro serviço público. Loja Chiado: Horário de funcionamento: das 10h30 às 19h30, todos os dias Largo do Intendente Pina Manique 23 1100-285 Lisboa N 38º 43’ 15’’ , W 9º 8’ 5’’ +351 211 974 512 lojaintendente@avidaportuguesa.com

CONSERVEIRA DE LISBOA | CA LOJA

TABERNA DA RUA DAS FLORES | BCS

Há uma pequena loja no Mercado da Ribeira, mas não é comparável à experíencia da loja original onde nos podemos perder no aconselhamento entre sardinha e cavalas, em limão ou tomate picante, todas dentro de embalagens tão deliciosamente vintage como é delicioso o seu conteúdo. Uma instituição.

Segunda a Sexta das 12h00 às 00h00 Sábado das 18h00 às 00h00 Rua das Flores, 103 1200-194 Lisboa N 38° 42’ 36’’ W 9° 8’ 36’’

Segunda a Sábado 9h às 19h Rua dos Bacalhoeiros,34 1100-071 Lisboa N 38º 42’ 33’’, W 9º 8’ 4’’ +351 218 864 009 www.conserveiradelisboa.pt

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RESTAURANTE


COSMOPOLITA MINI BAR | BC RESTAURANTE

RIVE ROUGE | BCS BAR

Segunda a Domingo das 19h00 à 02h00 Rua António Maria Cardoso, nº58 1200-027 Lisboa N 38° 42’ 33’’ W 9° 8’ 32’’ + 351 211 305 393 www.minipabar.pt

O novo bar do Lux, como vai sendo conhecido. Tentando seguir o sucesso das matinées do Lux, o bar abre às 17h00 e continua com dois DJ sets até às 4h00. A qualidade a que o Lux nos habituou, aqui numa versão de bar onde pode tomar um copo tranquilo de fim de tarde, aquecer antes de rumar a outras paragens ou ficar até ao fecho dando um pé de dança.

RIO MARAVILHA | AP

Terça a Domingo 17h às 04h Praça de Dom Luís|, 1200-148 Lisboa N 38º 42’ 25’’ W 9º 8’ 49’’ +351 213 461 117 rouge@rive-rouge www.rive-rouge.com

RESTAURANTE/BAR

Terça das 18h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 12h30 às 02h00 Sexta e Sábado das 12h30 às 03h00 Domingo das 12h30 às 18h00 Rua Rodrigues Faria, nº 103 LX Factory | Entrada 3 | Piso 4 1300-501 Lisboa N 38° 42’ 12’’ W 9° 10’ 43’’ +351 966 028 229 www.riomaravilha.pt

TOPO | BC

CONGA CLUB BAR

As festas gay hétero-friendly mais divertidas da cidade, normalmente no primeiro sábado de cada mês e com localização itinerante. Agora com dois conceitos que alternam, a Conga, com música mais electrónica, e a Fonda, a dar lugar a sonoridades mais pop.

BAR

Segunda a Quarta das 12h30 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h30 às 02h00 Domingo das 12h30 às 00h00 Centro Comercial Martim Moniz, Piso 6 N 38° 42’ 58’’ W 9° 8’ 8’’ +351 215 881 322 www.topo-lisboa.pt

LUX – FRÁGIL | ZR DISCOTECA

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Avenida Infante D. Henrique, Armazém A Cais da Pedra de Santa Apolónia 1950-376 Lisboa N 38° 42’ 53’’ W 9° 7’ 15’’ +351 218 820 890 www.luxfragil.com

congaclubmail@gmail.com www.facebook.com/congaclubparty

COMPANHIA PORTUGUEZA DO CHÁ | BCS BAR

De repente Lisboa civilizou-se e passou a ter um lugar para comprar chá, daqueles que apetece mesmo. Onde ficamos a cheirar lotes evitando pedir um saquinho de cada um. Uma viagem pelos aromas que pode ser rematada com uma geleia de chá para lanches mais gulosos. Rua do Poço dos Negros 123 1200-649 Lisboa N 38° 42’ 35” W 9° 9’ 6” +351 213 951 614

UOY | PR

MM CAFÉ | FC

ALFAIATES

BAR

Segunda a Domingo 12h às 20h Praça do Principe Real, Embaixada Shopping Gallery, N26, 1250-184 Lisboa N 40º 44’ 30’’ W 73º 59’ 21’’ talktous@uoy.me +351 916 764 590 www.uoy.me

Teatro Maria Matos Avenida Frei Miguel Contreiras 52 Horário: terça a domingo -18:00-02:00 Encerra à segunda feira


HIPSTER OSTERIA | SLM

LX FACTORY | AP

Uma pequena e despretensiosa Osterie que poderia estar numa ruela de um bairro típico de Roma. Aqui é tudo para partilhar.

O templo hipster e cool da cidade. Para comer, beber, comprar ou simplesmente passear.

RESTAURANTE

Segunda e Terça das 19h30 à 01h30 Quarta a Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h30 à 01h30 Domingo das 12h00 às 00h00 Rua das Madres, nº 52-54 1200-712 Lisboa N 38° 42’ 31’’ W 9° 9’ 17’’ +351 213 960 584 www.osteria.pt

O BOM O MAU E O VILÃO | BCS BAR

Uma casa de copos e cultura. Uma casa porque de um apartamento se trata, transmitindo por isso mesmo um ambiente caseiro, de copos porque tem bares bem servidos, de cultura porque para além do piano muitas vezes utilizado, é variada a programação que vai do cinema à música. Segunda a Quinta das 19h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 19h00 às 03h00 Domingo das 19h00 às 02h00 Rua do Alecrim, 21 1200-161 Lisboa N 38° 42’ 26’’ W 9° 8’ 36’’ +351 964 531 423 www.thegoodthebadandtheuglybar.com

TABACARIA | BCS

SÍTIO

Rua Rodrigues de Faria, nº103 1300-501Lisboa N 38° 42’ 12’’ W 9° 10’ 43’’ +351 213 143 399 www.lxfactory.com

CAFÉ TATI | BCS BAR

Acolhedor e tranquilo. Ideal para um chá ou um copo de vinho. Com sorte pode apanhar uma boa jam session de jazz e assim prolongar a sua estadia pro tempo indeterminado. Terça a Domingo das 11h00 à 01h00 R. Ribeira Nova, nº 36 1200-371 Lisboa N 38° 42’ 27’’ W 9° 8’ 43’’ +351 213 461 279 www.cafetati.blogspot.pt

TABERNÁCULO | BCS BAR

Rua de São Paulo, 218 Cais de sodré, Lisboa N 38º 42’ 22’’ W 9º 8’ 42 +351 213 470 216 +351 916 735 926 info@tabernaculo.pt www.tabernaculo.pt

BAR

GELATARIA DAVVERO | BCS

Um pequeno bar bem sério numa antiga tabacaria, da qual restam alguns móveis, com excelentes bebidas preparadas a preceito. Onda cool e boa música.

Os melhores gelados de Lisboa.

Segunda a Domingo das 18h00 às 02h00 Rua de São Paulo, nº 75 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 29’’ W 9° 8’ 45’’ +351 213 420 281

GELATARIA

Terça a Quinta e Domingo 13h às 20h Sextas e Sábados 13h à 00h Praça São Paulo 1, 1200-425 Lisboa N 38º 42’ 26’’ W 9º 8’ 40’’ +351 929 165 208 info@gelatodavvero.com www.gelatodavvero.com

SBSR.FM

www.sbsr.fm

GERADOR

ASSOCIAÇÃO CULTURAL Seja nos Trampolim (iniciativas em redor de uma praça ou bairro), Ignição (iniciativas mensais surpresa em espaços inusitados), ou na sua revista, esta associação cultural não para de animar Lisboa com uma abordagem dessacralizada, moderna e criativa da cultura portuguesa. www.gerador.eu

[107]

RÁDIO

A nova rádio Super Bock Super Rock chegou inundada dos melhores sons indie. Ainda nascem rádios no século XXI. E ainda bem.


ALTERNATIVO FÁBRICA BRAÇO DE PRATA | BXM

BAR / SALA DE CONCERTOS

ASSOCIAÇÃO CULTURAL

A nova sala de concertos que é um bar, ou vice-versa. A melhor programação alternativa da cidade.

Terça das 20h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 18h00 às 02h00 Sexta das 18h00 às 04h00 Sábado das 14h00 às 04h00 Rua da Fábrica de Material de Guerra, nº1 1950-128 Lisboa N 38° 44’ 37’’ W 9° 6’ 4’’ +351 965 518 068 | +351 925 864 579 www.bracodeprata.com

Terça a Quinta das 13h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 13h00 às 04h00 Domingo das 17h00 às 24h00 Rua da Voz do Operário, 60 1100-621 Lisboa N 38° 42’ 59’’ W 9° 7’ 45’’ +351 964 964 416

CASA INDEPENDENTE | AR

CINEMA IDEAL | BCS

BAR

CINEMA

Terça a Quinta das 14h00 às 23h45 Sexta das 14h00 às 02h00 Sábado das 12h00 às 02h00 Largo do Intendente Pina Manique, 45 1100-395 Lisboa N 38° 43’ 15’’ W 9° 8’ 4’’ +351 218 872 842 ww.casaindependente.com

Quando os cinemas de rua fecharam, abriu o Ideal, com programação alternativa e cuidada.

49 | BA

FINALMENTE | PR

BAR

Também conhecido como o bar da Zé dos Bois, instituição da cultura alternativa lisboeta. Bons DJ’s e um ambiente bem descontraído onde se cruzam faunas diferentes em amena convivência. Quarta e Quinta das 22h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 22h00 às 03h00 Rua da Barroca, 49 1200-043 Lisboa N 38° 42’ 41’’ W 9° 8’ 40’’ +351 213 430 205

MIRADOURO DO ADAMASTOR | BCS ESPLANADA

O mítico Adamastor, onde o por do sol é mais bonito, o quiosque serve bebidas e tostas a preços para portugueses e onde o cheiro de substâncias ilícitas envolve um ambiente descontraído onde se cruzam músicos de rua, turistas e lisboetas. Segunda a Domingo das 10h00 às 04h00 Miradouro de Rua de Santa Catarina, 401 1200 Lisboa, Portugal N 38° 42’ 34’’ W 9° 8’ 51’’ +351 213 430 582

[108]

DAMAS | GM

Rua do Loreto, 15/17 1200-106 Lisboa N 38° 42’ 38’’ W 9° 8’ 39’’ +351 210 998 295 www.cinemaideal.pt

BAR

O bar gay mais antigo da cidade, por onde passou meia Lisboa nos tempos em que a noite a n que mantém um show de travestis em periodicidade diária. Para uma noite realmente diferente. Vá numa segunda-feira quando a noite parece morta e divirta-se com as audições do “lugar às novas”. Segunda a Domingo 23h59 às 6h Rua de Palmeiras 38 1200-313 Lisboa N 38º 42’ 53” W 9º 8’ 59’’ +351 213 479 923 info@finalmenteclub.com www.finalmenteclub.com

CHAPITÔ | CA Costa do Castelo, n.º 1/7 1149-079 Lisboa N 38° 42’ 41’’ W 9° 8’ 1’’ + 351 218 855 550 www.chapito.org


MULTICULTURAL EL ULTIMO TANGO | BA RESTAURANTE

Um dos melhores bifes de Lisboa, de carne argentina, grelhado, acompanhados de batata assada com manteiga de ervas e salada de agrião. Tudo em ambiente calmo, para fumadores e com o melhor tango do mundo como banda sonora. Segunda a Quinta das 19h30 às 23h00 Sexta e Sábado das 19h30 às 23h30 Rua do Diário de Notícias, 62 1200 Lisboa N 38° 42’ 43’’ W 9° 8’ 38’’ +351 213 420 341

BELLA CIAO | BC RESTAURANTE

Não espere pizzas nem massa com ananás. Aqui a comida é italiana de Itália, verdadeira cuccina della mamma. Não perca a massa com bróculos e o melhor tiramisu de Lisboa. Segunda a Quinta das 11h00 às 16h00 e das 19h00 às 00h00 Sexta e Sábado das 11h00 às 16h00 e das 19h00 à 01h00 Rua do Crucifixo, 21 1100-548 Lisboa N 38° 42’ 34’’ W 9° 8’ 19’’ +351 210 935 708 www.cantinabellaciao.wixsite.com/bellaciao

CAXEMIRA | BC RESTAURANTE

CHINÊS CLANDESTINO | GM RESTAURANTE

Segunda a Domingo das 11h30 às 15h30 e das 19h30 às 23h30 Rua da Guia, 9, 2º Dto, 1100-335 Lisboa N 38° 42’ 57’’ W 9° 8’ 2’’ +351 966 355 786

MUITO BEY | BCS RESTAURANTE

Segunda a Quinta 12h às 15h e 19h30 à 00h Sexta a Sábado 12h às 15h e 19h30 à 01h Rua Moeda 8, 1200-148 Lisboa N 38º 42’ 29’’ W 9º 8’ 48’’ +351 211 580 788 geral@muitobey.com www.facebook.com/MuitoBEY

IN BOCCA AL LUPO | PR PIZZARIA

Quarta a Domingo 19h ás 23h Rua Manuel Bernardes 5, 1200-009 Lisboa N 38º 42’ 53’’ W 9º 9’ 8” +351 213 900 582 reservas@inboccallupo.pt www.inboccaallupo.pt

PISTOLA Y CORAZÓN | BCS RESTAURANTE

O melhor indiano de Lisboa, por isso sempre cheio. Não se assuste com a entrada, suba ao primeiro andar, não perca as chamuças e vá provando os pratos. Sim, porque vai voltar várias vezes.

Vá cedo, ou prepare-se para esperar. Aqui não há reservas, mas margaritas gulosas que não se consegue parar de beber. E tacos, muitos e variados, num ambiente animado e ruidoso.

Segunda a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 18h30 às 22h00 Rua Condes de Monsanto, 4 1100 Lisboa N 38° 42’ 48’’ W 9° 8’ 12’’ +351 218 865 486 | +351 218 874 791

Almoço: Terça a Sexta das 12h00 às 15h00 Jantar: Segunda a Domingo das 18h00 às 00h00 Almoço: Domingo das 12h00 às 15h00 Rua da Boavista, 16 1200-427Lisboa – Portugal N 38° 42’ 31’’ W 9° 8’ 51’’ +351 213 420 482 www.pistolaycorazon.com

OS TIBETANOS | AV KAMPAI | SLM RESTAURANTE

Calçada da Estrela, 35-37, 1200-661 Lisboa N 38° 42’ 41” W 9° 9’ 12” T +351 213 971 214 www.kampai.pt

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RESTAURANTE

Segunda a Sextas das 12:h15 às 14h45 e das 19h30 às 22h30 Sábados das 12h45 às 15h30 e das 20h00 às 23h00 Domingos das 12h45 às 15h30 e das 19h30 às 22h30 Rua do Salitre, 117 1250-198 Lisboa N 38° 43’ 11’’ W 9° 8’ 55’’ +351 213 142 038 | +351 932 846 610 www.tibetanos.com


PARA ENTRAR MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA | SLM A casa de Portugal. O nosso grande museu onde encontrará, entre uma enorme quantidade de obras-primas, os painéis de S. Vicente, obra máxima da pintura portuguesa. Exposição 24 de Fev. a 9 de Abr. A Cidade Global A Lisboa do Renascimento Terça a Domingo das 10h às 18h Rua das Janelas Verdes 1249-017 Lisboa N 38° 42’ 17’’ W 9° 9’ 41’’ +351 213 912 800 www.museudearteantiga.pt

MAAT | ZR O novíssimo e vanguardista museu da Fundação EDP. Um edifício belíssimo sobre o Tejo e exposições de arte contemporânea pensadas para o local. Exposição a partir de 22 de Março Sala Oval Ordem e progresso de Hector Zamora Quarta a Segunda das 12h às 20h Av. Brasília, Central Tejo 1300-598 Lisboa N 38° 41’ 44’’ W 9° 11’ 41’’ +351 210 028 130 www.maat.pt

CONVENTO DOS CARDAES | PR Um tesouro escondido no centro da cidade. Não vamos dizer nada mais. Vá lá.

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Segunda a Sexta das 14h30 às 17h30 Rua Eduardo Coelho, nº1 1200-164 Lisboa N 38° 42’ 53’’ W 9° 8’ 53’’ +351 213 427 525 www.conventodoscardaes.com

MUSEU DA MOEDA | BC Quarta a Sábado, das 10h00 às 18h00 Rua de S. Julião 150, 1100-150 Lisboa N 38° 42’ 30” W 9° 8’ 20” www.museudodinheiro.pt +351 213 213 240

MUSEU DO CHIADO | BC Exposição Amadeo de Souza Cardoso Publico em Geral : Quintas 15h30 Sábados 12h Grupos Terça a Domingo Rua Serpa Pinto 4, 1200-444 Lisboa N 38º 42’ 34” W 9º 8’ 27” +351 934447678 se.amadeo@gmail.com www.museuartecontemporanea.pt

CONVENTO DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA | BA Outubro a Março: de Terça-feira a Domingo, das 10h00 às 18h00. Segunda-feira das 14h00 às 18h00 Abril a Setembro: Terça-feira a Domingo, das 10h00 às 19h00. Segunda-feira das 14h00 às 19h00. Quinta-feira das 10h00 às 20h00. Rua São Pedro de Alcântara, 85 1200-089 Lisboa N 38° 42’ 54’’ W 9° 8’ 41’’

CULTURGEST | FC Segunda a Sábado das 12h30 às 18h30 R. Arco do Cego 50, 1000 Lisboa N 38º 44’ 24’’ W 9º 8’ 33’’ +351 222 098 116 www.culturgest.pt

MUSEU DO FADO | CA Terça a Domingo 10h às 18h Largo Chafariz de Dentro 1, 1100-139 Lisbon N 38º 42’ 40’’ , W 9º 7’ 39’’ +351 218 823 470 www.museudofado.pt


NA RUA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN | FC

AVENIDA RIBEIRA DAS NAUS

Exposição Até 05 de Junho João de Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno.

N 38° 42’ 20’’ W 9° 8’ 25’’

Segunda a Sexta 9h às 13h e das 14h30 às 17h30 Av. de Berna, 45 A 1067 – 001 Lisboa N 38º 44’ 14’’ W 9º 9’ 15’’ +351 217 823 000 info@ gulbenkian.pt www.gulbenkian.pt

N 38° 42’ 52’’ W 9° 9’ 32’’

CARPINTARIA DE SÃO LAZARO | AR Exposição Até 01 de Maio Los Carpinteros Quarta a sábado 15h às 19h R. São Lázaro 72, 1150-199 Lisboa Nº 38º 43’ 6’’ W 9º 8’ 10’’ www.facebook.com/CarpintariasdeSaoLazaro/

JARDIM DA ESTRELA

JARDIM DO TOREL N 38° 43’ 8’’ W 9° 8’ 27’’

CICLOVIA DE MONSANTO N 38° 43’ 57’’ W 9° 11’ 22’’

ROCHA DO CONDE DE ÓBIDOS N 38° 42’ 10’’ W 9° 9’ 45’’

TAPADA DAS NECESSIDADES N 38º 42’ 32’’ W 9º 10’ 3’’

MUSEU DE LISBOA | FC

Museu de Lisboa Palácio Pimenta | Museu de Lisboa – Santo António | Museu de Lisboa – Teatro Romano Terça a Domingo das 10h00 às 18h00 Museu de Lisboa – Casa dos Bicos De Segunda a Sábado das 10h00 às 18h00 Palácio Pimenta Campo Grande 245, 1700-091 Lisboa N 38° 45’ 30” W 9° 9’ 23” +351 217 513 200 www.museudelisboa.pt

TAPADA DA AJUDA N 38º 42’ 27’’ W 9º 10’ 56’’

JARDIM DO PALÁCIO DA FRONTEIRA N 38º 44’ 34’’ W 9º 10’ 25’’

MIRADOURO DA SENHORA DO MONTE N 38º 43’ 9’’ , W 9º 7’ 58’’

MIRADOURO DA GRAÇA N 38º 42’ 56’’ W 9º 7’ 52’

MIRADOURO DO ADAMASTOR N 38º 42’ 34’’ W 9º 8’ 51’’

JARDIM DAS AMOREIRAS N 38º 43’ 20’’ W 9º 9’ 21’’

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Exposições: Até 18 de Junho Palácio Pimenta A Lisboa que teria sido.


OLHAR

LISBOA ร€ NOITE [112]

por Cรกtia Mingote


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Paulo Moura

Um olhar humano sobre o mundo por João Moreira

cedidas por Paulo Moura

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“Como o Paulo conta o que conta é inconfundível e inspirou várias gerações de repórteres. Há no olhar dele uma perpétua juventude sem julgamento, uma disponibilidade para a comédia humana que vem de uma total, genuína curiosidade. O Paulo é um grande repórter porque acha tudo interessante, e, como diria o García Márquez, se nos maçarmos a escrever as pessoas vão-se maçar a ler, e, como diria o Kapuscinski, se o repórter for cínico então quem vai acreditar no que ele conta? O Paulo conta o que realmente lhe interessa, portanto nunca se maça, nem nunca nos maça. Acredita no que faz, e nós acreditamos mais porque ele acredita. Mas, além de tudo o que admiro como leitora e repórter, há outra herança de quem teve, tem, a sorte de lidar com ele de perto: sempre partiu, e andou de lugar em lugar, como se tudo fosse fácil, ou pelo menos possível. Na mão dele, nada do que é humano nos é estranho.” Alexandra Lucas Coelho, In Público, 21-11-2016


Talvez seja igualmente bom explicar que Paulo Moura é herdeiro do new journalism americano dos anos 60 e 70 do século passado, uma espécie de mescla entre literatura e jornalismo, imortalizado por nomes como Gay Talese, Norman Mailler, Tom Wolfe, Truman Capote, Jimmy Breslin, entre muitos outros e que teve na New Yorker um dos seus principais veículos editoriais. Classificado como “parajornalismo” por Dwight MacDonald no acérrimo ataque que desferiu nas páginas da New York Review of Books contra o texto que Tom Wolfe publicara no suplemento de fim de semana do New York Herald Tribune, em que parodiava a New Yorker e o seu editor William Shawn, o novo jornalismo foi largamente acusado de ser subjectivo e exageradamente criativo, subvertendo muitas vezes a própria realidade dos factos. A verdade é que foi no jornalismo literário que Paulo Moura encontrou inspiração para refutar estas acusações, provando ser dos mais imparciais e rigorosos representantes da sua profissão, não deixando nunca de entregar às suas reportagens o olhar humano e muitas vezes tocante que as tornaram inconfundíveis. Paulo Moura é jornalista e foi como jornalista que integrou os quadros do Público desde a sua fundação e, durante mais de 20 anos, foi sucessivamente repórter de internacional, correspondente nos EUA, jornalista de cultura e sociedade, editor da Pública, a revista de Domingo e, de novo, repórter de internacional. Há algumas semanas, por decisão da Direcção, cessou o vínculo de uma vida com o jornal onde publicou mais de uma dezena de reportagens premiadas e centenas de outras que acabaram compiladas em 7 livros que são um passeio pela história do bom jornalismo nacional. Foi sobre os seus livros e em particular o mais recente “Depois do Fim” que conversámos com Paulo Moura, em Belém, numa entrevista que de tão entusiasmante fez esquecer o almoço e se prolongou tarde dentro.

Bica: Antes de entrarmos no teu último livro “Depois do Fim”, vamos conversar sobre “Longe do Mar” e “Extremo Ocidental” que são dois livros que nos contam as histórias dum Portugal que dificilmente chega às páginas dos jornais. Estas duas experiências que desenvolveste para o Público, salvo o erro no Verão, partiram de ideias tuas, ou foram propostas pelo jornal? Paulo Moura: A maior parte dos trabalhos que eu fiz para o Público foram propostas minhas. Eu sempre tive essa vontade de sair de Lisboa. Gosto de fazer reportagens e para mim o trabalho jornalístico é feito fora da redacção. Agora já não estou no quadro do Público, mas quando estava nunca ia à redacção. Ia uma vez por semana, duas (risos). Acho que é inútil. Prefiro escrever em casa ou noutro sitio qualquer e andar sempre a circular, a procurar histórias. Isso levou-me a fazer muitas propostas que implicavam sair, viajar e, também, muitas coisas do género séries.

Bica: É muito incomum leres essas séries na imprensa portuguesa. Dificilmente existem reportagens com uma lógica de continuidade. PM: Pois, mas eu acho muito interessante. É uma tradição que existe muito nos Estados Unidos, mas que por cá não há, ou melhor, há agora, recentemente, mas até há pouco tempo não havia. Aliás, para ser honesto, havia uma tradição antiga dos folhetins, com histórias de ficção que saíam em fascículos.

Bica: O Mistério da Estrada de Sintra do Ramalho e do Eça, o Mistério da Légua da Póvoa da Agustina, mais recentemente, para o Independente. PM: Isso. Nos EUA também há a tradição dos folhetins de não ficção, mas por cá não havia a tradição das séries. São relativamente recentes e que me lembre, foi o Público que começou.

Bica: Foste pioneiro... PM: Não sei, mas o Público foi. Para mim, as séries têm grandes vantagens. Por exemplo, tu encontras uma história e depois tens de propô-la a um editor e isso é uma trabalheira. Já imaginaste? Além de descobrires a história teres de vendê-la! E eu tenho dificuldade com isso, porque as melhores histórias são aquelas que dificilmente consegues vender a um editor. Muitas vezes, só depois de estar feita é que se percebe como é boa: “Ah afinal…” Mas antes, a ideia em si é difícil de

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Paulo Moura é repórter, aliás, dos melhores repórteres portugueses de sempre, o que em outro tempo e em outro local talvez fosse suficiente para atestar da sua qualidade como escritor e contador das histórias alheias que marcaram o nosso tempo. Mas, nesta época de jornalismo de “meia página”, é melhor acrescentar que Paulo Moura é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo, sendo actualmente professor de Reportagem e Jornalismo Literário na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa e na Escola de Tecnologias de Inovação e Criação.


vender. “Isso já foi feito mil vezes”. Estoume a lembrar duma história que fiz no Porto aqui há uns anos sobre a pobreza. Foi difícil vender a ideia de escrever algo sobre a pobreza. Vinha sempre a frase: “já saíu um milhão de coisas, porque é que vais escrever sobre isso?” Só depois de feita é que as pessoas percebem que podemos falar do mesmo tema de forma diferente. Esta história concreta teve um impacto enorme pela maneira como estava feita, pelas histórias que encontrei e contei. Fazer séries tem essa vantagem, de estares a vender algo que tem um fio condutor. Por exemplo, a estrada. A Estrada Nacional Nº2, como acontece em “Longe do Mar” é uma ideia engraçada, porque é a estrada mais longa do país, é uma estrada muito antiga, é uma estrada pelo interior do país e onde reúnes uma série de histórias únicas. A estrada é um pretexto, as histórias não são sobre a estrada…

Bica: São sobre personagens que vais descobrindo durante essa viagem. PM: Sim, são sobre coisas que vou descobrindo. Mas são histórias que surgem no contexto daquela série, que só fazem sentido naquela série, porque cada uma, individualmente, seria difícil de explicar porque não ser muito importante. No fundo é isso, as histórias não são muito importantes, não são jornalisticamente pertinentes, mas naquele contexto ganham um sentido. Eu acredito nesse tipo de histórias que à partida não são importantes. É a maneira como as contas, a oportunidade que dás à história daquelas pessoas, que as podem, de repente, tornar importantes. E, se estiverem integradas numa série, passam a ser mais fáceis de vender (risos).

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Depois, tudo isto tem a ver com a ideia de viagem de que eu também gosto muito. Para mim a reportagem está muito ligada à viagem, mesmo que não implique ir para muito longe. Se quiseres fazer histórias sobre o interior do país, que histórias é que vais fazer? Tens que andar à procura, porque se fores para o interior sem o tempo e a curiosidade da descoberta, só vais encontrar as histórias óbvias, as que já foram contadas. Só se fores sem objectivo nenhum é que encontras histórias realmente surpreendentes. Eu no Público fazia muito isso: sair sem destino para “fazer reportagens”. Uma vez pediram-me para fazer uma série de reportagens sem qualquer indicação e eu saí sem rumo. Fui na direcção do interior e acabei por ir parar à Serra da Estrela onde descobri diversas histórias fantásticas: sobre

um pastor, sobre a última indústria de lanifícios, sobre uns artesãos que faziam teares, sobre os cães Serra da Estrela... Acabei por fazer uma série de reportagens sobre a Serra, mas fui completamente à toa, sem nenhum objetivo...

Bica: Porquê essa curiosidade pelo interior do país, esquecido e ostracizado? (Risos). PM: No fundo, é a mesma curiosidade que me leva a gostar de ir à Tchetchénia. Procuro as situações que são menos conhecidas, mas onde há vida. Sempre me irritou muito este centralismo lisboeta. Parece que não se passa nada fora de Lisboa. Os jornalistas não saem de cá. A maior parte não conhece o país. Eu tenho a curiosidade de conhecer esse país do interior desertificado.

Bica: O que é que mais te surpreendeu nesse país que descreves em “Longe do Mar”? PM: O facto desse interior não estar tão desertificado como pensamos. Há vida no país interior! Tudo é surpreendente, porque tudo é desconhecido. Há muita vida, ainda que haja cada vez menos gente, mas há uma vida própria. Depois, surpreendeu-me a violência de muitas histórias, o facto de Portugal ser um país muito violento ao contrário da teoria dos brandos costumes e da ideia de que lá para a província é tudo uma pacatez. Não é. Deparo-me sempre com histórias muito violentas, muito duras, de grande agressividade entre as pessoas e até de crimes e assassínios. Regiões onde a violência faz parte da vida das pessoas. Isso foi dos aspectos mais surpreendentes.

Bica: Em “Extremo Ocidental”, em que percorres o país pela beira-mar de moto, contas histórias muito marcadas pelo fim de um determinado estilo de vida muito ligado ao mar e às pescas. Sobre algo que já foi o centro da vida daquela terra ou daquela gente e que, entretanto, se perdeu. Ficamos sempre com uma sensação de fim... PM: Há, de facto, uma precariedade em preservar as coisas em Portugal. Algo que se observa nestas viagens é a mudança tão radical que houve no país nas últimas décadas. Essa mudança muito rápida fez com que houvesse um novo tipo de atitude que, em minha opinião, implicou querer esquecer o passado traumático muito rapidamente e entrar num futuro moderno e próspero. Isso fez com que não se tenha tido o cuidado de preservar as coisas boas: as pescas, a agricultura, uma série de formas de vida e muitas tradições.


Bica: Durante estes últimos 25 anos, além de Portugal, andaste pelo mundo à procura das histórias que estão para lá do “fim da História” e que compilaste cronologicamente no extraordinário “Depois do Fim”. O livro começa com a tua primeira reportagem internacional, na Argélia, e prolonga-se até à recente guerra na Síria, sempre focado na temática do mundo árabe e em particular no islamismo radical. PM: Sim, porque o livro não é uma recolha de todas as minhas reportagens internacionais, só das que têm a ver com o islamismo e com a chamada “guerra de civilizações”.

Bica: As reportagens que foste fazendo em locais tão distintos como o Iraque e os EUA, a Tchechénia e a Turquia, acabam por estar interligadas pelo fio condutor do islamismo radical financiado pelo Ocidente durante décadas e que hoje tem um programa ideológico de combate civilizacional. Qual é o “motor” que, de facto, faz mover o islamismo radical? PM: É muito difícil responder a essa pergunta, porque é tudo muito complexo. Podemos desenvolver teorias, mas serão sempre simplistas. Por um lado, é verdade que eu vejo que isto é uma guerra ideológica, porque não tem nada a ver com religião. No entan-

to, há muitos mal entendidos, especialmente quando as pessoas dizem, por quererem ter uma linguagem politicamente correcta, “Isto não tem nada a ver com o Islão, porque uma coisa são os terroristas que são criminosos, que têm armas e são maus, outra são a generalidade dos muçulmanos que é uma grande parte da humanidade e que são pessoas boazinhas e honestas”. Ora, não é bem assim, porque estando claro que nem todos os muçulmanos são terroristas ou fundamentalistas, também nem todos os fundamentalistas são terroristas e isso é uma coisa muito importante de perceber. Há muito a ideia de que o fundamentalismo islâmico é a causa de todos os males, de todas estas guerras e isso não é verdade. O fundamentalismo islâmico já vem de há muito tempo. Eu conheci alguns velhos imãs egípcios fundamentalistas que embora sendo uns chatos, muito conversadores, com toda aquela lenga-lenga contra as mulheres, nunca pensaram em pegar em armas para impôr a sua visãode mundo e não têm nada a ver com o que hoje chamamos de fundamentalistas islâmicos. Estão lá a rezar fechados nas suas mesquitas e isso já vem de há muito tempo atrás. A Irmandade Muçulmana no Egipto é antiquíssima e nunca se lembrou de pegar em armas para combater. Sempre houve uns grupos radicais a combater, aliás, foi um muçulmano que assassinou o Presidente Saddat, mas são grupos radicais, não é o fundamentalismo. Todas as linhas conservadoras do islão não têm necessariamente a ver com o terrorismo. Os movimentos terroristas que, entretanto, surgiram aproveitaram esse radicalismo e fizeram a união entre a religião e as suas opções políticas. Até porque, uma coisa que se constata no terreno é que, grande parte desses terroristas que de facto pegam em armas, têm muito pouco de fundamentalista. Geralmente são jovens muito urbanos, muito ocidentalizados que aprenderam uma série de clichés e frases que foram buscar aos imãs, mas eles próprios não são uns estudiosos do Islão nem acreditam naquelas coisas. Há claramente um aproveitamento ideológico, que consiste na afirmação do Islão político, ou seja, na defesa da instituição de um governo islâmico regido pela sharia.

Bica: Estarei muito enganado, ou a maioria desses terroristas tem uma formação mais ocidental, na sua maior parte a viver na Europa e a estudar em mesquitas das principais capitais europeias? PM: Sim, é verdade. Há quem estude muito, do lado do mundo islâmico, a grande ligação destes grupos salafistas com o nazismo e com o fascismo onde eles vão beber muita da influência ideológica. Há teorias para tudo. (risos). Mas, a verdade é que nós pensamos

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O caso das pescas é por demasiado óbvio, De facto interessei-me muito pela forma como as pessoas vivem à beira-mar, como lidam com o mar, como encaram essa relação com o Atlântico. Procurei histórias ligadas ao fim das pescas, dos estaleiros, da indústria naval, que me impressiona muito, porque não consigo entender como é que Portugal tendo manifestamente a tradição da indústria naval, a deixa desaparecer e não aproveita esses pergaminhos para manter uma indústria naval a sério, nem que fosse mais artesanal. A história dos estaleiros em São Jacinto é incrível, porque mais uma vez não se percebe como os estaleiros estão completamente abandonados e a saque há vários anos. Encontrei o porteiro que já era o porteiro nos tempos áureos dos estaleiros e que ainda lá está, embora esteja tudo em ruínas. Ainda vive lá e continua a ser, de certa maneira, o porteiro daquela empresa que ele adora e não quer sair dali. É uma espécie de guardião do fim. Eu procuro muito esse lado simbólico nas coisas, a vontade desse homem, por exemplo, em continuar a ser porteiro daquele sítio em ruinas, como uma vontade de preservar algo que era válido, que tinha a ver com a cultura da região e que devia ter sido preservado.


que a civilização islâmica é horrível e defende a guerra e o terrorismo, quando, de facto, eles aprenderam a combater connosco, aprenderam no ocidente. Há coisas muito engraçadas, por exemplo, na Argélia, a guerra civil começou porquê? Começou porque uns fundamentalistas completamente pacíficos concorreram às eleições e ganharam. Eu estava lá e é engraçado ver que na altura me acusavam de estar a simpatizar muito com eles, mas todos os jovens eram fundamentalistas e todas as pessoas bem formadas eram fundamentalistas. O meu grande amigo lá, que era um jornalista, ele próprio tinha um dilema moral por não conseguir ser neutro. Ele simpatizava com os fundamentalistas porque naquele momento eram eles que combatiam os poderosos, que combatiam a corrupção, portanto, surgiam como os bons da fita. Só pegaram em armas quando passaram à clandestinidade, por terem sido proibidos e então começou a guerra civil…

Bica: Se misturarmos nisto tudo os palestinianos as coisas complicam-se ainda mais...

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PM: De que maneira! É engraçado esse primeiro capítulo com o Jorge Habache porque marca o começo de uma nova era. O Jorge Habache era um terrorista árabe, marxista que nem sequer era muçulmano, era cristão. Nessa altura o terrorismo era marxista, socialista e tinha o apoio da União Soviética. O grande desígnio desses terroristas era a constituição da Grande Nação Árabe, o Pan-arabismo,não tinha nada a ver com o Islão. Habache nunca imaginou que a religião fosse um motivo da união. Isso surgiu mais tarde com a percepção de que o único factor de união seria o islamismo e não o facto de serem árabes e aí já englobaram o Irão e a Turquia e países que não são árabes, mas que são muçulmanos e que por isso puderam entrar neste movimento. Respondendo à tua questão, o que move esta gente é, por um lado, uma rivalidade geoestratégica de potências que querem dominar o mundo, como a Arábia Saudita e o Irão e que jogam esta cartada do islamismo por uma questão de poder, poder politico e poder económico, por outro uma vertente ideológica que eu tento valorizar e que passa pela defesa de um estilo de vida mais tradicionalista, mais conservador no mundo muçulmano e que, de repente, levou a esta rejeição do estilo de vida ocidental. Mas, ao nível da motivação individual, do porquê destas pessoas aderirem tão facilmente a este movimento e tão facilmente se revoltarem contra o ocidente, acho que tem muito a ver com o papel da relação com as mulheres. Os homens no Islão sentem que o ocidente, o novo estilo de vida ocidental é uma ameaça ao seu domínio sobre as mulheres e isso é uma coisa

muito mais importante do que nós pensamos. No mundo Muçulmano, os homens dominam totalmente a sociedade, não dão qualquer oportunidade às mulheres, até porque têm medo delas e estes movimentos são uma espécie de alibi teórico que lhes permite manter esse estado de coisas e justificá-lo, legitimá-lo. Quando pensamos nestas questões, por serem geoestratégicas e mundiais e implicarem conflitos e guerras, tendemos a esquecer que os protagonistas são seres humanos e os seres humanos ligam, sobretudo, às coisas mais comezinhas, mais pequeninas, pois são essas que moldam a sua vida e que eles defendem até ao limite. São capazes de irem para uma guerra para defendê-las. Um muçulmano pode ir para uma guerra para defender os seus domínios ou as suas mulheres.

Bica: É nesse sentido em que falas de guerra de civilizações? Porque, para os muçulmanos, o nosso estilo de vida é uma ameaça e mesmo quando vivem na Europa, não aceitam as regras que são impostas pela cultura dita ocidental? PM: Exacto e quando se tenta interferir, como em França, dá maus resultados, acabam por criar guetos, o que os torna mais hostis. Mas, gostava de falar de outro fenómeno que é pouco comentado e que tem a ver com a facilidade com que, muitas vezes, os moderados tendem a apoiar, ainda que de forma inconfessável e não admitida, os mais radicais. Por exemplo, um partido de direita tem mais simpatia por um fascista do que uma pessoa de esquerda. Da mesma forma, quando morreu o Fidel Castro as pessoas de esquerda diziam que era um ditador, mas era um tipo por quem, no fundo, tinham alguma simpatia ou uma ligação afectiva. Era o radical do seu campo. Ora, quando uma comunidade civilizacional se sente em perigo, os radicais são aqueles que nos vão safar, são os que têm as armas, são os mais determinados, então é melhor tê-los do nosso lado. De certa forma há a tendência para desculpar e proteger os radicais do nosso campo. Foi isso que eu vi, logo em 91 quando visitei pela primeira vez a Argélia e encontrei o Jorge Habache no Palácio Presidencial. O Presidente da Argélia nunca admitiria que o apoiava, até porque ele era um tipo perseguido, já tinha cometido não sei quantos crimes, mas, pelos vistos, deslocava-se à vontade entre vários palácios de países Árabes e era apoiado e acarinhado por eles. É isso que acontece, também, com os terroristas, mesmo com o Estado Islâmico e é por isso que às vezes vemos, quando há um atentado, a Rua Árabe a comemorar.

Bica: Esses terroristas como o Habache, que tinham uma formação muito poli-


PM: Até na Palestina, a OLP desapareceu e hoje quem domina é o Hamaas que é fundamentalista. De certa maneira o embrião de todo este conflito de civilizações está ali, em Jerusalém. E mesmo isso mudou, porque a realidade vivida no contexto da guerra fria, em que tinhas o lado palestiniano apoiado pela União Soviética, como o eram todos os partidos socialistas árabes, o Baath no Iraque e na Síria, despareceu e hoje o papel dos comunistas foi substituído pelos fundamentalistas islâmicos e em todos os conflitos do mundo vais acabar por encontrá-los. Há uma espécie de nova versão da guerra fria que apenas substitui o comunismo pelo islamismo.

Bica: Foi isso que te deste conta ao percorrer as centenas de cadernos de reportagem que foste guardando e que te serviram de guia para este “Depois do Fim”? PM: Quando comecei a pensar este livro e a consultar esses cadernos de reportagem,

apercebi-me que havia uma espécie de círculo que se fechava com as Primaveras Árabes. Comecei a minha carreira como jornalista na Argélia e passados todos estes anos, acabei nos mesmos sítios. Só não aconteceu na Argélia por caso, mas acabou nos países vizinhos, porque todo o Magrebe foi assolado pelas Primaveras Árabes que aconteceram 25 anos depois de ter começado a revolta na Argélia. E, embora tenham até um sinal contrário, porque os jovens que saem à rua nas Primaveras Árabes são jovens ocidentalizados, com acesso à internet e às redes sociais, no fundo, para quem esteve lá, não eram muito diferentes e isso é engraçado. Os jovens na Argélia que adoravam aqueles xeiques fundamentalistas de uma forma quase mística, no fundo, tinham as mesmas razões, as mesmas queixas, as mesmas motivações que os jovens da Praça Tahrir. Todos estes jovens que eram a massa que se revoltou na Argélia e que depois votaram nos fundamentalistas são os mesmos que, uma geração depois, fizeram as Primaveras Árabes. É uma espécie de círculo que se fecha. Outra questão que procuro levantar no livro, porque a senti na altura na Argélia, tem a ver com o facto de tudo isto se ter agravado por o

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tizada, marcadamente marxista, desapareceram para dar lugar aos radicias islâmicos?


Ocidente ter rejeitado estes movimentos obrigando-os a radicalizarem-se.

Bica: Por não ter respeitado o resultado das eleições na Argélia?

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PM: Claro. Nunca saberemos o que teria acontecido se as eleições da Argélia tivessem sido respeitadas. Não se sabe. Podia ter sido uma tragédia, mas pior do que foi não teria sido com certeza, com uma guerra civil que matou centenas de milhares de pessoas nos anos seguintes. E em nome de quê? Para defender aquele governo corrupto e ditatorial que lá estava? Afastando os líderes moderados que dominavam a FIS, na altura? Se os tivessem deixado governar o que é que teria acontecido? O mundo poderia ser diferente. Estes tipos poderiam ter-se adaptado, domesticado, tornar-se mais razoáveis e aceitado as regras da democracia. Nunca saberemos. Já a radicalização, sabemos no que deu. Numa guerra civil e no aparecimento de diversos grupos que se depois se juntaram à Al Qaeda do Bin Laden. Alguns foram até o embrião da Al Qaeda.

Bica: Fugindo um pouco desta realpolitik que está subjacente a todo o livro. Este “Depois do Fim”, mais do que um livro de História, acaba por ser um livro das histórias de vida das diversas pessoas com que te foste cruzando ao longo das tuas reportagens...

PM: Eu digo sempre que não pretendi fazer um livro de História, ainda que esta seja uma forma das pessoas lerem a História destes 25 anos, mas não é um livro de um historiador.

Bica: Como foi voltar a pegar nos teus mais de cem cadernos de apontamentos tantos anos depois e ir lembrando as situações, as pessoas, os momentos? PM: Não só os cadernos, mas as reportagens que escrevi na altura. Esta é a vantagem de ter vivido isto como jornalista, o facto de ter feito um registo de tudo, pois se não tivesse escrito na altura, hoje não me poderia recordar das coisas que vivi. Para o livro, fui pegar nos blocos de notas, fui pegar nas reportagens feitas na altura e em textos que não foram publicados, histórias que não interessava publicar por não terem interesse noticioso, até porque eu tinha que enviar uma reportagem por dia para o jornal.

Bica: De todas as reportagens que passaste para este livro, qual foi a que mais te impressionou? PM: Não sei. Talvez as histórias das situações únicas que te dão aquela sensação de estar a viver História. A chegada dos americanos a Bagdad, no Afeganistão, na Tchetchénia, na Praça Tahrir. Depois, as histórias das pessoas. Por exemplo, na Líbia estive


Por exemplo, na Argélia existe aquele jornalista meu amigo, o Mohamed que acabou por ser preso e espancado por me ter ajudado, depois há outro, no Iraque, o Kharin que era o meu guia lá, porque na altura tinha que trabalhar com um guia arranjado pelo governo e que era um tipo do Ministério do Interior e que me acompanhava como uma lapa. Depois tornei-me amigo dele e acabei por o encontrar outras vezes até depois da queda do Sadam. Há assim figuras incríveis! Na Praça Tahrir encontrei um miúdo que se auto-intitulava meu consultor jurídico. Em todo o lado encontras pessoas a quem te afeiçoas e que fazem a diferença.

Bica: Apesar de pertenceres a uma escola jornalistica que foi acusada de subjectivismo e, muitas vezes, de tomar partido, és dos reporteres mais isentos do jornalismo português. Isso foi sempre uma preocupação para ti? PM: É engraçado dizeres isso, porque já fui muito criticado por não tomar partido em determinadas situações. Eu tenho as minhas opiniões e muitas vezes deixo-as transparecer. Convém perceber que, enquanto jornalista, normalmente, acompanhas apenas um dos lados da história e vais acabar por desenvolver alguma simpatia pelas pessoas com quem estás, sobretudo se estão a sofrer ou a morrer à tua frente. Quando estava na guerra do Kosovo, na fronteira da Albânia e da Macedônia, com os refugiados todos a fugir porque estavam a ser dizimados pelos Sérvios que lhes tinham acabado de massacar a família, eu não podia deixar de simpatizar com eles. O Pedro Rosa Mendes, meu grande amigo, estava no mesmo conflito, mas em Belgrado a ouvir histórias ao contrário, com a cidade a ser bombardeada pela NATO. Para ele os sérvios eram as vítimas e não tinham culpa nenhuma. O ideal é um jornal poder dar ao leitor essa possibilidade de ler os dois lados da história ao mesmo tempo. É normal simpatizar com as pessoas com quem estás, mas, além disso, eu de facto sinto que tenho uma grande capacidade, uma grande curiosidade em tentar compreender os outros, mesmo aqueles que são completamente diferentes de mim e dar-lhes o mesmo crédito que dou às pessoas de quem eu

gosto e com quem concordo. Isto não quer dizer que eu não tenha as minhas opiniões. Por exemplo, no Darfur (e aí não há dúvida nenhuma do lado bom e mau, porque havia uns tipos que estavam a ser massacrados e outros, execráveis, os janjaweed que matavam pessoas, violavam mulheres, decapitavam crianças, bombardeiavam aldeias com aviões do governo, massacravam e exterminavam os outros só porque eram africanos, já que eles se consideram árabes) eu fui ter com os refugiados de um conjunto de aldeias que tinham sido massacradas e eles contavam-me as histórias do que os janjaweed lhes tinham feito. Estive com uma rapariga que tinha sido violada e vivia ostracizada numa cabana; fui ter com uma mulher que tinha um bebé ao colo e quando destapou o lenço que cobria a cabeça da filha, aparecia o cérebro à vista, porque não tinha crânio e não ia aos médicos, porque nunca tinha ido ao médico na vida e só ia a feiticeiros, embora estivessem lá umas médicas escandinavas, enfim, um horror. O que eu tinha de fazer a seguir era ir ter com os janjaweer. Andei à procura deles, que são uma espécie de chefes tribais nómadas que estão nas suas tendas sei lá aonde, mas acabei por encontrar dois deles, o Owlomba e o Obonoba, que usavam sapatos de leopardo e espada à cintura (risos). inacreditáveis aqueles gajos! Eles lá me receberam e explicaram o seu lado da questão. Que a culpa era dos Estados Unidos por causa dos interesses económicos e que não tinham praticado genocídio nenhum, etc. Então, foram-me mostrar as aldeias que tinham arrasado e só encontrávamos aldeias desertas o que eles justificavam com a guerra, que tinha levado toda a gente a fugir. Depois chegámos a uma aldeia que tinha gente e eles fizeram uma reunião com os chefes fur e os eles, cheios de medo, mataram um carneiro para nós comermos numa grande festarola. Eu fui dar uma volta com os chefes fur para que me mostrassem a aldeia e só aí é que eles assumiram que tinham sido aqueles mesmos chefes tribais janjaweed que tinham assassinado a aldeia quase toda e violado todas as mulheres. E eu estive a viver com eles, a dormir nas tendas deles com o meu guia e passámos vários dias ali e tentei contar as histórias deles como se fossem tão bons como os outros, ouvindo as razões deles com o mesmo respeito com que ouvira as razões dos outros, mesmo sabendo que eles tinham matado aquela gente toda. Não tenho dificuldade de fazer isso, é mais forte em mim a curiosidade de perceber o que os motiva, partindo do princípio que todos são seres humanos, todos são parecidos. O facto de serem quase um sinónimo de mal, naquele momento, fazia com que a minha curiosidade de perceber porque é que se comportam assim fosse ainda maior. A minha função como jornalista é tentar compreender quem é

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3 meses seguidos e isso faz com que cries amizade com algumas pessoas. Quase todos os sítios têm uma ou duas pessoas com quem te relacionas mais e que acabam por se tornar especiais. Estas são situações que tu vives intensamente, porque ocorrem durante um período de tempo muito curto e o facto de teres necessidade de escrever sobre elas tornam as coisas ainda mais densas. Parece que há uma aceleração da vida.


aquela pessoa. Quem é o janjaweed. Quem é o terrorista.

Bica: Já dizia a Hannah Arendt que o mal é cometido por pessoas comuns, com família, filhos, netos, mulher. PM: Uma coisa que eu constato ao entrevistar terroristas ou fundamentalistas, é que quando as pessoas se confrontam com determinadas circunstância, acham que aquilo que fazem é correcto. Os “maus” estão convencidos que estão a fazer o bem, estão de boa fé. Mesmo quando fazem coisas inconfessáveis as pessoas têm sempre um ideal, valores que consideram nobres e que justificam as suas acções.

Bica: E agora? Depois de teres escrito “um livro único em Portugal”, como o descreveu a Alexandra Lucas Coelho, o que se segue? PM: Agora que o jornalismo está acabar? (risos)

Bica: (risos) PM: Estamos a rir, mas a minha urgência em escrever este livro tem a ver com esse fim do jornalismo, pelo menos como o entendemos. Quis deixar compiladas estas histórias que tive o privilégio de viver e que, muito provavelmente, os jornalistas mais jovens não vão ter oportunidade de realizar. Até para mostrar que eu tive essa sorte, pelas circunstâncias de estar a trabalhar num jornal que foi fantástico, que acreditou neste tipo de trabalho, que investiu nisto, que investiu em mim, fui um privilegiado, daí achar que tinha a obrigação de deixar ficar isso registado; por outro lado penso que estamos a chegar a uma espécie de fim. Mesmo para mim, não vai ser possível continuar a fazer este tipo de trabalho…. tenho a noção de que cada vez é mais difícil. Eu vou continuar a trabalhar como freelancer, investindo, apostando neste tipo de reportagens, mas sei que não é fácil.

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Bica: Estás a vaticinar o fim da imprensa? (risos) PM: Não, mas acredito que os jornais vão deixar de ter este tipo de reportagens, porque acham que não trazem leitores. É um erro porque as pessoas que lêm e que já se sabe que são uma minoria, mas sempre foram, gostam de ler coisas boas, não vão querer ler as coisas que saem nas televisões. Todos sabem que os jornais não têm dinheiro, mas podiam ter uma visão estratégica diferente, apostando neste tipo de trabalhos, mas não apostam porque acham que os leitores só querem ler uns disparates sobre futebol ou sobre os salários dos gestores da Caixa. Nos

próprios jornais, os jornalistas já não acreditam no que estão a fazer. Dizem: “vamos aguentar uns dois ou três anos enquanto dá”. É uma morte lenta.

Bica: Isso é um grande estímulo à nossa Bica. (Risos). PM: O que está em crise não é a leitura, são os modelos económicos dos meios de comunicação social. Um projecto como o vosso que assenta num modelo diferente e ousado, tem tudo para dar certo. Talvez passe por aí a manutenção das grandes reportagens e das grandes entrevistas, de um jornalismo mais literário que é credível e que fez, por exemplo, da New Yorker um caso de sucesso com mais de cem anos.

Bica: Deus te ouça. Eheheh!


DEUS SEGUNDO ESPINOZA

“Pára de ficar rezando e batendo no peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti. Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti. Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer. Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho? Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor. Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz, Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso? Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti. Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia. Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem

Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: “Acredito no Deus de Espinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe.” “A vida exige acção extraordinária, criadora, revolucionária. Só no despertar dessa inteligência criadora há possibilidade de se viver num mundo pacífico e feliz”, Jiddu Krishnamurti www.tiagosalazar.com www.quovadissalazar.blogs.sapo.pt

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por Tiago Salazar

um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é a única que há aqui e agora, e a única que precisas. Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno. Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Viva como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste? Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar. Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar. Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro de ti, aí é que estou.”


Conversa da China por João Moreira

Pedro Loureiro

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Tatiana Salém Levy tem jeito de menina. Talvez seja do ar descontraído com que se aproxima ou do sorriso sincero com que nos comprimenta, mas deixa-nos uma sensação estranha de regresso à adolescência. No resto, nada indica que seja carioca, mas é. Ou melhor, é alfacinha de papel assinado e tudo, mas apenas porque nasceu em Lisboa, no exílio, durante a ditadura militar, porque a infância e a adolescência, essas viveu-as abençoada pelo generoso sol do Rio de Janeiro. “Nasci no exílio em Portugal, de onde séculos antes a minha família havia sido expulsa

por ser judia. […] Nasci fora do meu país, no inverno, num dia frio e cinzento”, escreve Tatiana no seu primeiro e tão elogiado romance “A Chave da Casa”, uma espécie de autoficção em torno da história de uma família judia que, expulsa de Portugal na época da Inquisição, vai viver para a Turquia e depois para o Brasil. Uma família que podia ser a sua, mas não é, ou talvez seja... Mas também a quem interessa isso? “A Chave da Casa”, assim como “Dois Rios” e “Paraíso” são belíssimos romances, todos eles inspirados em pedacinhos de memórias da infância e adolescência de Tatiana Salém Levy, mas cheios de imaginação e de fortes mensagens de procupação


Douturada em Estudos de Literatura pela PUC do Rio casou com um português, e vive em Lisboa, onde continua a escrever pausadamente como gosta, com saudades dos amigos do Rio e da informalidade carioca, mas conquistada pelo silêncio e pela tranquilidade da capital portuguesa.

Bica: Porque é que uma carioca vem viver para Portugal? Tatiana Salém Levy: Porque casei com um português – Tatiana sorrindo - e vim pra cá. Eu, de facto, nasci aqui mesmo, em Lisboa. De papéis sou portuguesa há muito tempo. Voltei a primeira vez com 12 anos e depois com 26, desde então ando indo e vindo por conta dos livros e há 4 anos conheci o meu marido e acabei vindo de vez.

Bica: E como é que surgiu esse seu gosto pela escrita, que é tão brasileira? TSL: Eu sou uma escritora brasileira. Eu acho que nós somos muito marcados pela infância e pela adolescência, então você acaba sendo um escritor do local onde viveu a sua infância e adolescência, onde aprendeu a ler e escrever e de onde guarda essas memórias. Eu acho que a memória é muito importante para a escrita, por isso vou ser sempre uma escritora brasileira, mesmo que fique aqui mais 30 anos, mesmo que eu morra aqui.

Bica: E quais são essas memórias de infância que marcam a sua escrita? As leituras... TSL: As leituras e a memória familiar que eu exploro bastante, principalmente na história de “A Chave da Casa”.

Bica: Que foi o seu primeiro romance. TSL: Exactamente. Eu trabalho muito com as memórias da minha família, mas também da cidade do Rio, da praia…

Bica: O jogo das memórias está presente em todos os seus livros, não só em “A Chave da Casa”. Em “Dois Rios” e “Paraíso” existe também um peso muito grande dessas memórias de infância. TSL: Em “Dois Rios” eu exploro uma memória diferente, das férias de verão na praia, da infância bem largada, sabe?

Bica: Bem carioca...

TSL: Bem carioca. Aquela coisa do tempo que parece não ter fim, das férias de verão, dos dias longos junto ao mar.

Bica: Por outro lado, são muitas vezes memórias traumáticas, de abusos ou de violência doméstica ou da conjugação das duas coisas e de como isso marca profundamente as pessoas. É curioso que esses relatos apareçam sempre na primeira pessoa, porque dão uma força maior ao que escreve… TSL: Se bem que “Paraíso” é relatado na terceira pessoa, mas é uma terceira pessoa, muito primeira pessoa. – Tatiana esboçando um leve sorriso.

Bica: É isso mesmo, porque para quem lê é como se fosse relatado na primeira pessoa. TSL: É bem isso.

Bica: Na sua escrita a gente encontra muito o recurso a pequenas histórias que se vão imiscuíndo na história principal e que nos soam a quase pessoais. Como é que você constrói essas histórias? TSL: Cada história surge de alguma coisinha que me chama a atenção. Depois eu vou construindo, elaborando. Por exemplo, em “Paraíso” que foi o último livro, eu tinha ouvido de uma amiga, há muito tempo atrás, essa história da escrava que lança uma maldição na família e aquilo ficou na minha cabeça, entretanto eu fui escrevendo outras coisas e aí, de repente, voltou, essa escrava voltou, a voz da escrava voltou e aí eu resolvi escrever.

Bica: E tudo isso está no livro... TSL: Tudo isso está no livro (risos). Mas isso, digamos, foi o mote porque depois eu fui reconstruindo. Fiz muitas leituras sobre as fazendas de café, sobre a escravidão, por exemplo, essa coisa da língua cortada que aparece no livro, essa minha amiga não tinha falado nada disso, mas no Casa-Grande e Senzala eu li a história de uma sinhá que tirou os olhos duma escrava que era mãe de barão e colocou os olhos na sopa e aí eu transformei e coloquei a língua. Na verdade, isso nem começou com a história da escravidão, começou com essa ideia de uma pessoa que tem relações com um cara com AIDS e fica naquela angústia aguardando o resultado, eu acho que era mais essa coisa da espera que já estava muito presente em “Dois Rios” e que eu queria trabalhar de novo. Era uma forma de trabalhar a espera,

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política e social. E isso é algo que lhe está no sangue ou não fosse filha de um professor de filosofia e de uma mãe jornalista, perseguidos pela ditadura militar brasileira.


esse tempo em que você não pode fazer absolutamente nada a não ser esperar… então começou com isso e aí, quando eu estava escrevendo, a escrava voltou a aparecer e eu resolvi juntar as duas coisas.

Bica: Mais uma vez isso está no livro. TSL: Sim. (risos). Essa foi a origem da história. Aí quando estava escrevendo o livro, eu mandei para a minha irmã que é uma das minhas leitoras...

Bica: Que a vai acompanhando ao longo da escrita? TSL: Mais ou menos, quando já está mais avançada. Aí eu enviei para ela e quando ela leu falou que achava que na verdade era um livro muito sobre violência contra a mulher e isso foi uma coisa que foi nascendo por acaso, foi aparecendo. Eu fui vendo as várias dimensões disso e resolvi explorar mais essa questão da violência contra a mulher. Aí, aconteceu uma coisa muito legal: ao mesmo tempo em que eu escrevia aqui em Portugal, surgiu no Brasil esse movimento muito forte das mulheres começarem a se manifestar contra essa violência muito antiga e que vem desde a época da fundação do Brasil e aquilo me foi dando força para continuar a escrever. Eu via aquelas mulheres se manifestando, falando sobre uma coisa que é tão marcada, tão profunda na nossa sociedade, uma coisa contra a qual a gente não faz nada, o estupro, o assédio, a violência doméstica e decidi intervir com algo que é muito pessoal, que é a minha escrita. Eu ali sozinha em frente ao computador, numa espécie de união com aquela manifestação colectiva. Aquilo ia me dando força para continuar escrevendo e para querer publicar aquele livro que partia de uma coisa muito pessoal…

Bica: Da sua visão.

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TSL: É, mas não só de minha, também dos personagens. Porque lendo o livro é uma história pessoal da Ana, ou da mãe da Ana. Não são histórias grandiosas, são histórias pequenas de que parto para falar de uma história muito maior que é a história da violência doméstica, isso me entusiasmou. Já “Dois Rios” surgiu de uma viagem minha para a Córsega (risos) que adorei. Gostei muito daquela ilha e pouco tempo depois, por acaso, eu acabei voltando para a Ilha Grande onde eu tinha ido em outro tempo da minha vida. E aí, para mim, veio essa questão de falar sobre ilhas. A ilha tem uma coisa, ela é muito semelhante à literatura, é como se você estivesse fora do espaço e fora do tempo, como se você conseguisse suspender o tempo e suspender o espaço. Você está ali

isolado, com um tempo que é menos um tempo do relógio e que é mais um tempo da própria maré. Para mim escrever é isso. E ler também. Então “Dois Rios” surgiu daí e a primeira personagem que apareceu foi a da Marie-Ange, que é uma representação do outro absoluto.

Bica: E que é uma personagem que adoraria encontrar (risos). TSL: (Gargalhada). Ainda bem, né? Mas é assim que eu vou construindo as histórias.

Bica: Outro tema muito presente em “Dois Rios” é o da ditadura militar, que é uma questão mal resolvida no Brasil e que você aborda de uma forma muito intensa, porque a coloca no seio familiar. A história de um cara ateu, anticlerical e de esquerda, que casa com a filha do carcereiro do irmão preso pela ditadura, uma menina vinda de uma família católica e conservadora de uma pequena comunidade piscatória do litoral do Rio... TSL: Eu nasci em Lisboa porque os meus pais estavam exilados aqui por causa da ditadura. O meu pai era do PCdoB então isso tem a ver com as minhas memórias de infância. Eu cresci rodeada de pessoas que tinham sido torturadas, que tinham sido perseguidas, então para mim era importante falar disso.

Bica: Isso marcou você em termos pessoais? TLS: Quando você conhece pessoas que estiveram presas e foram torturadas por motivos políticos, isso te marca. Então eu queria prestar essa homenagem a essas pessoas. Por outro lado, o Brasil tem uma memória muito fútil e é importante você falar sobre os assuntos que marcam a nossa identidade enquanto povo. É importante falar sobre a nossa história. Em “Paraíso” eu não falo da ditadura, mas falo da escravidão. É importante para mim. Eu ia falar que é importante para a literatura, mas na literatura você deve ter liberdade para escrever sobre o que você quiser. Por isso direi que para mim é importante, ainda mais num momento como o de hoje, em que você vê como essa história é recente e os militares ainda estão presentes na cabeça das pessoas, porque quando tem um deputado como o Bolsonaro fazendo elogios ao torturador da Dilma e muitas pessoas apoiando, você sente que tem obrigação de denunciar isso.

Bica: Essa tradição política familiar de alguma forma influenciou o facto de


TLS: Minha mãe era jornalista, meu pai era professor de filosofia, então cresci rodeada de livros, tive um acesso ao livro que a maioria dos brasileiros não tem. Então mais do que a questão política, essa coisa do amor pelo livro sempre esteve presente. Aí também tem a questão judaica, porque eu sou de uma família de origem judaica que tem essa tradição do culto do livro. Eu venho de uma família com uma grande história de migrações, judeus sefarditas portugueses que foram expulsos de Portugal e foram para a Turquia, e depois da Turquia para o Brasil, então essa coisa do imaginário do deslocamento, para mim foi mais importante em termos de formação de escrita, do que as discussões políticas em casa. Essa simbologia judaica foi fundamental para eu me dedicar à escrita.

Bica: Com “A Chave da Casa”, ganha o Prémio São Paulo para escritora revelação, é nomeada para o Prémio Jabuti e designada pelo The Independent como das escritoras mais promissoras da nova geração brasileira. Como é que você reagiu a esse sucesso, logo no primeiro romance? TSL: No momento inicial foi muito bom, porque te dá a garantia de ter feito a escolha certa, não é? Parece mágico. De repente ganha um prémio, um monte de gente querendo falar com você, querendo que você escreva para jornais e revistas, dá uma alegria muito grande e um certo deslumbramento. Mas essa coisa do deslumbre é uma coisa do momento, depois passa, porque depois você relativiza tudo, porque percebe que tudo isso tem um certo grau de casualidade. Então a cada novo romance eu me recolho para escrever e tudo isso desaparece.

Bica: Revê muito o que vai escrevendo? TSL: Eu reescrevo muito. Eu acho que levo mais tempo reescrevendo do que escrevendo.

Bica: Em Paraíso você diz a certa altura: “Toda a vez que viajava para escrever, sentia-se meio ridícula. Dizia que precisava suspender o tempo e o espaço para se concentrar em personagens inventados, mas acabava perdendo dias tentando se ajustar à vida fora da cidade.” Sente essa necessidade de isolamento para escrever? TSL: Tem um isolamento que é fundamental, para mim pelo menos. Tenho as minhas manias, não gosto de ter muitas pessoas no mesmo ambiente em que estou trabalhando...

Bica: Agora, com um filho, não vai ser tão fácil. (risos). TSL: Eu escrevo durante o dia enquanto ele está na creche. (risos) Fica mais difícil, mas eu tenho de me isolar mesmo, porque esse ócio de poder ler, pensar, me dedicar em exclusivo é muito importante.

Bica: Mudando o foco para esta relação Brasil-Portugal que teve um novo impulso nos últimos tempos, com uma série de novos nomes da literatura brasileira a serem editados em Portugal... TSL: É, mas só são editados, porque depois não são lidos.

Bica: Acha? TSL: Tenho a certeza. Tirando o Chico Buarque, porque é o Chico e o Paulo Coelho...

Bica: Paulo Coelho? Pensei que estivéssemos a falar de literatura. TSL: (Risos). Mas vende! O resto não vende. É só analisar as vendas. Claro que tem um meio intelectual e artístico que lê, mas é um meio muito pequeno.

Bica: Porque é que acha que isso acontece? TSL: Do fundo do coração, acho que existe um preconceito. Aquela ideia de que brasileiro é bom para fazer música, para fazer novela, mas não sabe escrever porque não coloca o pronome no lugar certo. Eu já ouvi muitas coisas desse estilo fora do nosso meio. É um preconceito linguístico, porque, por exemplo, isso não acontece com os escritores africanos.

Bica: E este suposto acordo ortográfico que nenhum país na verdade adopta excepto Portugal ajuda alguma coisa? TSL: Nada, porque não uniformiza nada. Pode obrigar a que algumas palavras se escrevam da mesma forma, mas depois a construção sitáctica e vocabular são diferentes.

Bica: O que é que pode ajudar a mudar essa falta de leitura de escritores brasileiros em Portugal? TSL: Os portugueses começarem a ler. Uma abertura para se aventurarem a ler escritores brasileiros.

Bica: O facto de estar a viver em Portugal acha que é prejudicial ou benéfico para a sua escrita?

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você ter decidido ser uma escritora?


TSL: A escrita em si, não é prejudicada, mas o resto sim. Tem muita coisa que você acaba por ter de abrir mão e que afecta a tua carreira. A presença nos festivais e nos mídia. Sabe aquela coisa de mostrar o teu rostinho? Se você não fizer, acaba sendo prejudicada. Como eu vendo muito mais no Brasil do que aqui, tem essa implicação. Por outro lado, o facto de estar em Portugal não reflecte assim tão positivamente. Por exemplo, o lançamento de “Paraíso” que aconteceu morando em Lisboa e o lançamento de “Dois Rios” em que eu morava no Rio, deu no mesmo. Dei as mesmas entrevistas, fui nos mesmos festivais, então foi indiferente, o facto de estar vivendo aqui.

Bica: Noto um certo desencanto... TSL: Não!!!! Talvez eu não lute assim tanto por aparecer. Eu gosto de escrever os meus livros... mas eu estava falando mais daquela coisa de uma escritora brasileira vivendo em Portugal, isso era algo que o brasileiro ia adorar, um escritor português vivendo no Brasil, sabe? Iria a todos os festivais, aos programas de TV...aqui não é bem assim. Mas não me estou queixando. Aliás, eu gosto de morar aqui!

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Bica: De que é que você sente falta em Lisboa?

TSL: Sobretudo dos meus amigos, eu sei que é demasiado óbvio (risos), mas é verdade. Depois disso, da descontração do carioca. Eu sou muito descontraída em tudo, no jeito de me vestir, no jeito estar nos lugares, de falar com as pessoas e aqui existe uma formalidade maior. As pessoas se tocam menos, existe uma maior distância. Tem mais camadas...então eu acho que essa formalidade é o que mais me incomoda.

Bica: Vinicius dizia que os portugueses precisavam de se desengravatar. Concorda? TSL: É isso aí. Mas aqui também tem muitas vantagens, principalmente para quem vem do Rio de Janeiro. Por exemplo, a questão da segurança. Aqui você se sente seguro e isso te dá uma liberdade que não tem lá, de você poder sair de madrugada, estar tranquilo em casa, janela do carro aberta, não viver com medo e isso é muito legal. Além disso, aqui dá para ter uma vida muito mais calma, porque Lisboa é uma cidade muito menor, com muito menos trânsito, com muito menos gente, com muito menos barulho. No Rio as pessoas não aguentam o silêncio, aqui eu descobri o silêncio e isso tem muito mais a ver comigo. Mas ser estrangeiro nunca é fácil, embora, talvez pelo facto de ter nascido aqui, eu me sinta um pouco portuguesa.


Tiago Salazar O andarilho anarco-individualista. Carina Martins

Há histórias que pedem para ser contadas. A história dos Camondo é uma delas. Imaginem uma família de judeus sefarditas originária, provavelmente, de Toledo em Espanha, que viveu em Veneza e Trieste antes de prosperar na capital do Império Otomano, alargando depois os seus negócios a Paris e acabando dizimada em Auschwitz às mãos dos nazis. Imagem agora, que pelo meio, esta família foi pioneira no crédito social e na filantropia cultural na Istambul do século XIX; que o patriarca, Abraham-Solomon, banqueiro do Sultão e o homem mais rico do Oriente mandou construir escolas, casas, hospitais, templos, ruas, escadas e deixou de herança às novas gerações, não só uma fortuna incalculável, como o gosto pela arte e pela filantropia; que Moïse de Camondo era coleccionador de arte tendo doado ao Louvre uma extraordinária colecção de obras de impressionistas como Manet, Monet e Degas e deixando aos franceses um Museu, que ainda hoje existe em Paris, a que deu o nome do seu filho Nissim, piloto aviador da força aérea francesa, morto em combate em Lorraine, durante a Primeira Grande Guerra;

que Isaac de Camondo era amigo íntimo de Marcel Proust e que a última geração de Camondos morreu nos campos de extermínio de Auschwitz e Birkenau. Como disse Frank Capra sobre o guião de “It’s a wonderful life”: meu Deus, que história! Foi exactamente o que pensou Tiago Salazar que a ouviu contada por um arquitecto turco, reformado, proprietário de uma casa transformada em restaurante no cimo das Escadas Camondo, em Istambul, durante uma viagem literária de revisitação aos locais por onde haviam passado Flauvert, Pierre Loti, Ferreira de Castro e Eça de Queiroz. “Nessa viagem deparei com a escada e intrigou-me, porque a arquitectura era bonita. Tinha um formato estranho tipo Estrela de David e como era circular eu andava ali a subir e a descer. O Methe, co-autor do livro, estava lá a olhar para mim e a rir-se, porque eu parecia um tolinho, para cima e para baixo. Ele percebendo a minha curiosidade, convidoume para ir a casa dele beber raki e conversar. Bebemos muito raki, que eu não conhecia, e o Methe - lá está, às vezes os livros estão mesmo a pedir para ser escritos - contou-me a história dos Camondo com muito detalhe,

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por João Moreira


que conhecia porque é arquitecto e sabia da importância da acção deles na parte urbana do bairro de Gálata, onde mandaram construir escolas, hospitais e habitação social.” Cabelo farto, colete de repórter sobre um polar azul e um olhar sincero e intenso, Tiago fala de forma cativante, gesticulando animadamente enquanto nos conta a história pela qual se apaixonou. “As escadas também foram construídas por eles, assim como o banco que fundaram e que já não existe. Hoje só existe a rua, que é a Rua dos Banqueiros, aliás, a banca foi altamente revolucionada por eles, para melhor, ao criarem um contexto de cidade financeira, onde havia banqueiros de outras procedências, gregos e judeus, como os Fuad ou os Pereira. Ao mesmo tempo tinham uma acção social fortíssima sob a máxima “fides et caritas”. Parece que a família vivia numa espécie de mundo paralelo. Aliás, o judaísmo deles não pode ser circunscrito, eles são sefarditas e a questão do culto na família, não é evidente. A acção sim, mas a parte religiosa da casa não se sabe. Duvida-se mesmo que haja prática. No caso é muito mais importante a acção, a concretização e a réplica. Isso também me cativou.”

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Tiago é viajante desde que se lembra. Primeiro, através das leituras estimuladas pela avó materna, Maria José de Vessadas Salazar Morão de Campos Garcia, que o ensinou a ler e escrever muito antes de entrar na Escola Primária, depois, correndo mundo por mais de 50 países, “sempre com um livro nas mãos ou na cabeça”. De tal forma que dessas viagens resultaram sete livros (porque, muito embora “Hei-de Amar-te Mais” seja um diário de viagens, é, sobretudo, uma reunião de cartas de amor dirigidas à sua mulher e aos seus filhos) em que Tiago nos apresenta uma incrível panópila de vívidas paisagens humanas. “A Escada de Istambul” é o seu primeiro romance, mas não deixa de ser uma outra viagem pelo tempo e pela história de uma família que sentiu como sua, desde que lhe foi apresentada nessa noite de muito raki por Methe, o velho arquitecto que Tiago transformou em narrador. “Comecei a ver muita história e isso agrada-me. Seja na escrita de viagens, seja no romance, tudo é história. Neste caso tem também tem a ver com autobiografia, porque eu entro no livro e eu acho que quando o Henry Miller disse que a autobiografia era o romance mais puro, foi um iluminado com essa frase. Eu, de facto, descobri a história, queria contá-la, mas não era a mim que me cabia contá-la na prepectiva de um turco, por isso passei-a para o Methe.”

Mas, não se pense que o primeiro romance de Tiago resulta apenas de uma noite de conversa cativante com um turco culto e simpático, “A Escada de Istambul” é bem mais do que isso, é uma obra de profunda pesquisa histórica. “Há muita matéria neste livro que é factual, lida e documentada. Fiz muita investigação e há uma biografia que me serviu de auxílio, escrita pelas senhoras Nora Seni, turca e Directora do Centro de Estudos Anatolianos em Istambul e Sophie Le Tarnec, francesa, Directora do Museu Nissim de Camondo em Paris, que é das poucas coisas que restam feitas pela família em França.” “Depois são as coisas que permitem que se escreva um romance, que permitem que se ficcione além do que conhecemos factualmente. Imaginar o que terá sido. O porquê, o porquê, o porquê!!! A Pina Bausch é que dizia uma coisa sobre a arte da dança, “não interessa como te moves, mas o que te move” se calhar é esse o sub-tema do livro: porque é que eles fizeram o que fizeram? Queriam comprar o Reino dos Céus? O facto é que o anonimato prevaleceu e prevaleceu ao ponto de ainda hoje falares desta família, mesmo em Paris, e quase ninguém a conhecer. Quando muito relacionam-nos com a arte e não com a filantropia social, com a caridade. Repara que não falo da caridade num contexto religioso catequista, antes como algo do género:“tu não tens meios eu posso provê-los”. Mesmo a nível bancário eles foram pioneiros nos empréstimos que hoje são banais, a baixo juro. Isto apaixona! Quantas famílias com dinheiro existem em Portugal que se assemelhem? O Nabeiro, que parece que é muito acarinhado em Campo Maior. As famílias ricas portuguesas, tradicionalmente não se comportam assim. Além do mais, eles tinham uma relação com o povo, com o simples, imediata até pelas próprias vestes, pelo círculo de amizades, pela vida mundana. Um deles frequentava as meyhanes, as tabernas. Fez-me lembrar Pedro, o Grande quando foi trabalhar para Amsterdão como estivador. E depois, tinham uma cultura universalista, não exclusivamente judaica, que passou de geração em geração. Tinham mundo. Camondo deve vir de mundo.É uma história apaixonante e que não me vai largar nunca. É como se tivesse escrito a história da minha família. O Abraham-Solomon Camondo é como se fosse o meu bisavô.” Tiago é assim, apaixona-se pelos locais e pelas personagens que vai encontrando nas suas viagens durante as quais garimpa pequenas histórias que transforma em grandes relatos sobre a natureza humana. “Há partes


De todas as viagens que fez, talvez a que mais o tenha marcado, até pela maior duração, foi ao Brasil, para fazer a segunda série de “Endereço Desconhecido”, para a RTP. “Foram quatro meses intensíssimos, porque visitei todos os Estados daquele país gigante e tão desconhecido, até para os próprios brasileiros e marcou-me muito. Tem uma natureza exuberante e muito diferente e foi a que mais gostei em todo o mundo: a amazónia, o pantanal, a mata atlântica...É um país a que quero voltar, voltar, voltar! Até porque conheci figuras inesquecíveis em cada Estado a que quis prestar tributo no livro “Crónica da Selva”, que é um livro de enamoramento por essas pessoas que fui conhecendo ao longo desses quatro meses.” Hoje em dia Tiago Salazar reside em Amsterdão, embora passe grande parte do seu tempo em Lisboa conduzindo tuk-tuks e fazendo de guia cultural aos muitos turistas que visitam o país e, claro, como sempre faz quando viaja, com um livro na cabeça. “É um livro de Lisboa em movimento, que até já tem nome: O (Mo)turista Acidental. Agora que há um novo mundo dos tuk-tuk e dos carros eléctricos, tenho usado esses meios de transporte como forma de frequentar a cidade e de fazer de repórter. É um livro com mais jornalismo, mais vida de rua, porque é uma descrição de autor (não é um guia!) das minhas vivências nesta cidade. É a revisitação da minha cidade, mas também com a opinião de quem nos visita, até porque temos muito a percepção de que isto é o El Dourado, mas não é. Há estrangeiros que têm a sensibilidade de perguntar porque é que os velhotes de Alfama não têm lugar no 28 e são eles próprios a não andar de eléctrico para que os moradores possam usufruir dos transportes públicos da cidade. E isso é apenas um dos muitos pormenores, porque depois tens o problema da mobilidade, a pressão para a expulsão dos velhos moradores dos bairros históricos, que não é um problema exclusivo de Lisboa, mas que tende a agravar-se e implica a perca da identidade e da autenticidade da própria cidade. A fronteira entre a autenticidade e o museu, o circo, é muito pequena. Por exemplo, qual é a autenticidade de Alfama? É a sardinha assada? Não é. É o fado? Não é. Hoje ouves fado mais autêntico em Xabregas. A autenticidade de Alfama é a forma harmoniosa como as coisas estão encavalitadas e isso resulta de ter sido dos poucos bairros de Lisboa que sobreviveram

ao terramoto. O resto é reconstrução com charme europeu. Ali é a origem árabe da cidade que se mantém. Já pensaste na história do cerco de Lisboa? Cinco anos a resistir! Só era possível em Alfama.” “Encontro muita coisa errada e isso incomoda-me.” Tiago é anarco-individualista, na linha de Max Stirner. “O anarquismo não é uma desresponsabilização do indivíduo, é a maior responsabilização que podes ter, sendo que dependes exclusivamente de ti. O ponto de partida é teu e isto não é não pagar impostos, é querer saber para onde vai o dinheiro dos impostos que tu pagas. Neste momento para onde vai o dinheiro dos impostos portugueses? Para pagar a dívida pública. Ela está a este nível, porquê? Isso causa-me náuseas. Eu adoro Portugal, mas tenho rejeição à política económica e fiscal deste país, por isso é que fui para a Holanda. Sou um exilado fiscal, porque a minha mulher teve uma correcção fiscal de tal maneira onerosa e injusta que tivemos de sair, porque ou pagava a um advogado para a defender ou pagava ao Estado, ora como não tínhamos dinheiro nem para uma coisa nem para outra, como acontece à maioria dos portugueses, saímos. A fiscalidade em Portugal é uma coisa kafkiana, em que o fisco tem uma lista de VIP’s e aparece com perdões fiscais que só funcionam realmente para os grandes devedores que sempre tiveram dinheiro para pagar e não pagaram e aproveitam o perdão dos juros. Nós que não temos dinheiro, como é que podemos aproveitar esse perdão de juros? Isto é de loucos e mexeu com o meu património, com as minhas emoções e, sobretudo, com a minha relação com o país. Outra coisa que me incomoda, que me arrepia é o facto de existir tanta gente com tanto dinheiro em Portugal que não o aplica no seu país, o leva para fora. Se é aqui que nasces, se é aqui que consegues o dinheiro, porque tens de levar o que daqui extrais para fora? É a tal história: a minha pátria é uma conta bancária. Eu não sou daqueles discurssivos patrióticos, mas tenho uma relação de amor com Portugal. Gosto das coisas portuguesas, tenho paixão ao ouvir português no mundo. Um português não esquece que é português. Pode ter uma rejeição à política do momento, mas não em relação ao seu país.”

Escada de Istambul Oficina do Livro Lisboa 2016

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de “Viagens Sentimentais”, que parecem ficção, mas não, sou eu a viajar. Eu fui recebido pelo chefe dos Massai. Não tinha nada combinado, mas aconteceu. Tenho a lança do filho do chefe em minha casa. Isso é uma experiência única.”


FARMACOLOGIA Poema de Fernando Pinto do Amaral

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the sobs of life itself MARILYN MONROE


Era depois da morte Norma Jeane foi há cinquenta anos e é agora Continuas aqui vejo-te ainda sozinha nesse quarto procurando uma saída para tanto medo desde sempre contigo – «terror beyond fear» Era só isso – medo – o que sentias diante dos fotógrafos das câmaras o que sentes agora nessa casa ou no jardim enquanto todos dormem e ficas acordada toda a noite ao som do vento que te embala a insónia à espera de uma porta que se abra de alguém que ainda te ame que te escute que leia o que tu escreves frases curtas com o pânico lá dentro Talvez queiras esconder-te algures onde ninguém te veja dormir escapar fugir mais uma vez de todos de ti mesma dos abutres que te seguem perseguem que te sugam o sangue e a beleza e o talento em nome do showbiz Deves saber que estão fora de moda os barbitúricos e já não se usa hidrato de cloral Agora cada dia tomarias coisas mais evoluídas mais suaves benzodiazepinas ou Prozac e se todo o infinito for apenas questão de bioquímica talvez também eu te aconselhe como o outro Toma os teus comprimidos rapariga toma comprimidos Olha que não há mais metafísica no mundo senão comprimidos Olha que as religiões e as filosofias não nos ensinam mais que a farmacologia Mas acima de tudo não te assustes prometo que não vais ficar sozinha Brentwood fica tão perto de Lisboa e hei-de ir ter contigo onde estiveres Peço-te apenas que não tenhas medo e se quiseres uma destas noites agarra no telefone e fala-me em silêncio Sabes que estou aqui para te ouvir para te dizer «shhh» para chorar de novo com as tuas lágrimas até adormeceres

Ilustração Pedro Albuquerque

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in Manual de Cardiologia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2016


doze considerações sobre o verão quando aí é inverno por Francisco Mallmann

1. daqui escuto uma canção que começa dizendo “veja você, arco íris já mudou de cor” e lá pelas tantas diz “eu não quero nunca mais seu endereço” e emenda com “ou é o começo do fim ou é o fim” – e, para mim, seu endereço e o arco-íris se unem no fim, com ou sem começo. 2. não falaremos sobre solstícios, falaremos sobre suor, sol e sal, tudo isso em um mesmo rosto. é assim por aqui, é assim que faremos.

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3. coloca suas mãos dentro dos bolsos, para depois libertá-las em movimentos circulares, sentindo as junções do corpo, abrindo espaços para o ar passar, lembrando palavras sonoras, dizendo-as com os braços. é tempo de rememorar os mil modos que temos para evocar a ternura.


4. se fosse carta do tarô seria roda da fortuna. se fosse cor seria amarelo. se fosse flor seria narciso. se fosse palavra seria amplitude. se fosse objeto seria fita do senhor do bonfim. se fosse assim, você teria três pedidos para fazer. a cada nó um desejo. 5. as marcas da cidade não dão conta. não conseguem ser maiores do que nós. todo esse concreto há de se voltar para a pele humana, para verificar a maneira como no peito abrem fendas que se auto curam. todas as minhas feridas vão se desfazer, em algum momento – isso talvez leve toda a estação, isso talvez atinja o futuro de cinco, dez ou vinte anos. eu estarei aqui para ver. quem sabe também você. 6. os meninos na praia agora são figuras feitas de luz – eu nem sei qual o meu nome, eu nem sei onde eu moro. se soubesses o bem que te quero você me levaria contigo, sim. 7. precisaremos voltar alguns dias para perceber quando foi o exato instante em que nos tornamos próximos do modo como o são aqueles que se tocam e sabem bem fazer as despedidas. se você desistir, eu também desisto. não sem sofrimento. 8. dor e agressões do tempo. “esquece a paixão, meu bem”. leio poemas até saber recitá-los. busco a sombra de alguma árvore. deito meu corpo no chão. recordo paisagens frias. neve e meu coração pulsando nas extremidades, ora pés, ora cabeça. “a paixão, reinaldo, é uma fera que hiberna precariamente”. detalhes de outras eras. eu também perdi um trem. eu sou aquele que escreve nas bordas dos livros. faço um romance paralelo nas margens das páginas. não vale a pena ler sobre o amor se não podemos esboçá-lo do nosso jeito. contraposição, literatura, retas paralelas, eu e você. “tenho medo de perder este silêncio”. 9. é que sou de libra, invento motivos para chorar, acordo no meio do dia já esquecido da madrugada que me fez enlouquecer, tão teatralmente. não conheço a astrologia como essas pessoas. finjo que entendo. trabalho em novas expressões para o meu rosto, costuro novas memórias nas antigas, que é para não esquecer minha própria história, ainda que alguns trechos sejam autoficção. vai ficar tudo bem, agora que abri os olhos vou percebendo. 10. explica para ela que não há problema que os recados se acumulem, que as respostas não sejam prontamente dadas. você precisa deixar de acreditar um pouco em gênios, em homens e em deuses. ninguém vai te pegar pela mão para mostrar a linha do horizonte das resoluções. ninguém vai te salvar, querida. a alma se perdeu. seus pés é que vão marcar a areia, e só eles. essa conversa é entediante, a água é gelada demais, o beijo na boca é muito breve, e eu não deveria ter dito que te amo. 11. eu estou perto do trópico de capricórnio quando você está perto do trópico de câncer. são imaginárias essas linhas mas nós não, me parece. ao menos é assim que vamos pensando essa narrativa: estamos vivos, it’s a long way and you know we ain’t that strong.

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12. terminamos em fotografia, como eu já sabia que seria.


Lisboa aos pés do Miradouro da Graça por Maria Bragança Campilho Cátia Mingote

O sino da Igreja da Graça assinala as 17h15. Hoje, o assobio do vento está especialmente esganiçado e ecoa de uma forma desconfortável dentro dos nossos tímpanos. Chamo logo a atenção do ouvinte para o facto de este não ser o clima típico de Lisboa. As nuvens formam um capacete azul acinzentado que os braços solares tentam desesperadamente rasgar. Dizem que é o primeiro dia da Primavera, mas não se nota. Dali, do cimo do miradouro da Graça é impossível que os nossos olhos não sejam imediatamente atraídos, como um íman, pelo Castelo de São Jorge. Empoleirado no alto da encosta da Sé, exibe as bandeiras de Portugal e da Cidade de Lisboa que orgulhosas das suas conquistas dançam num alegre frenesim. Começo por explicar ao ouvinte que nos primórdios da Península Ibérica este Castelo foi uma importante fortaleza para os povos que nela habitavam -, Fenícios, Gregos, Persas, Romanos, Godos e Arábios. Dentro das muralhas encontram-se vestígios de civilizações do século VII A.C., da Idade do Ferro.

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Continuo o meu relato chamando a atenção, de uma forma entusiasta, para o facto de ter sido naquele mesmo local que em 1147, D. Afonso Henriques - o primeiro Rei de Portugal – conseguiu expulsar os Mouros e conquistar a cidade de al–Ushbuna para os cristãos, após um duro cerco de três meses. Refiro também a história do cavaleiro Martim Moniz que durante o cerco, notando que uma das portas do Castelo se encontrava entreaberta, decidiu entrar por aí dentro sozinho, sacrificando a vida ao atravessar o seu próprio corpo no vão da porta e assim impedir que o inimigo a fechasse. Com este acto heroico permitiu o acesso ao Castelo e a vitória dos seus companheiros. Em sua homenagem, esta entrada passou a ser conhecida como a Porta de Martim Moniz. É obrigatório visitá-la.

Acrescento ainda que entre o século XIII e o século XVI, o Castelo de São Jorge foi o Paço Real durante a estadia dos reis em Lisboa, mas que a sua traça original não sobreviveu à dureza dos tempos. Foi alvo de inúmeras remodelações que só terminaram no recente século XX. Vale a pena conhecer o bairro típico que o rodeia por se tratar de uma verdadeira raridade. Possui uma identidade própria feita das histórias cruzadas dos povos que por aí passaram e de um urbanismo próprio que viveu, e sempre viverá, confinado às muralhas que recortam o topo dessa colina e que a tornaram tão distinta das restantes seis. Como que para comprovar o que acabo de dizer, chamo a atenção do ouvinte para a única palmeira que se vislumbra no salpicado de arvoredo que abraça o exterior das muralhas. De uma forma


algo irónica a natureza arranjou um modo de proteger o singular vestígio vivo da influência árabe, permitindo que um resquício de um passado norte africano ali continuasse a respirar. Fora das muralhas, um pouco abaixo do Castelo e do lado direito deste, é bem visível um antigo palacete verde água que tem incorporada uma pequena torre branca, protegida por um varandim.

quiçada que rodeava a torre e, em contacto com a luz, dos seus olhos passaram a brotar lágrimas de cor. Estas foram-se libertando da torre e inundaram todas as moradas e telhados que surgiram no seu caminho, nunca deixando de se multiplicar. À medida que a cidade alastrou, as lágrimas de cor avançaram com ela. Reza a lenda que é por essa razão que do miradouro se vislumbra, até onde o nosso olhar se perde, tantas casas vestidas de trajes coloridos e diferentes: amarelo-pálido, amarelo-torrado, cor-de-rosa claro, rosa escuro, azul-turquesa, azul-petróleo, cor de sangue de boi, verde-escuro, para além de telhados de telha escura e telha clara. Os tons de Lisboa nasceram de uma bela história de amor, digo eu, terminando assim a minha breve narrativa. Desviando um pouco o olhar dos telhados de Lisboa, o nosso campo de visão engloba agora o rio Tejo, ligado de uma margem à outra pela irmã gémea da Golden Gate, sinal dos tempos modernos. Um pouco mais adiante deparamonos com a infinitude do mar. Dali partiram as caravelas à descoberta de novas terras e dali os Portugueses, com muita coragem, se lançaram para a escuridão das águas. Entre intempéries e terríveis doenças que deixaram muitos pelo caminho alcançaram o novo mundo. Tento explicar, com um certo brilho no olhar, que foi exactamente daquele ponto minúsculo que num dia como o de hoje, há muito, muito tempo, as nossas caravelas levantaram âncora. Não transpareço, mas internamente penso que todos estes feitos, apesar de distantes, se encontram bem entrelaçados na memória genética do nosso povo, e que representam uma realidade temporal muito mais livre e esperançosa que aquela que vivemos no tempo presente.

Aquando do cerco a Lisboa, um dos generais de D. Afonso Henriques apaixonou-se por uma princesa árabe, filha do rei da Taifa que regia a cidade de al–Ushbuna. Com medo de a perder na confusão da batalha, o afoito soldado trancou-a no alto da torre e prometeu voltar para juntos partirem quando o cerco findasse. Mas o tempo passou, os Mouros foram definitivamente expulsos de Lisboa e o general nunca voltou. A bela Anasir, de longos cabelos cor de azeviche, não conseguiu impedir que a tristeza invadisse o seu coração e os seus olhos negros pestanudos soltaram água sem fim. Até que um dia, o sofrimento se transformou em esperança, o seu pranto rompeu a névoa esbran-

Do lado esquerdo do miradouro, longe da vista sobre Lisboa e logo depois da esplanada, avistamos uma casa com típicas janelas de traça portuguesa no telhado. Chamo a atenção do ouvinte para o facto de as suas portadas estarem sempre encerradas. No andar superior vive um conhecido pintor que um dia, de tanto olhar o rio e de absorver a intensidade da luz esbranquiçada de Lisboa, cegou. De desgosto, virou-se de costas para aquilo que mais amava e que o ajudava a exteriorizar o que borbulhou dentro de si durante uma vida. Até nós chegam as buzinas dos cacilheiros que cruzam o Tejo e, por milésimos de segundo, conseguem abafar as nossas vozes. Também no miradouro, logo ali ao lado do sítio onde nos encostámos a conversar, ficam o Convento e a Igreja da Graça. O Convento foi fundado pelos Eremitas de Santo Agostinho, em

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Aponto o dedo na sua direcção, exactamente para o local onde de vêem com nitidez três janelas compridas que reflectem o rio. A torre, hoje restaurada, encerra um segredo imperdível que não resisto a contar.


1271, e sofreu inúmeras alterações desde então - a parede em pedra, onde repousam as nossas costas, é um vestígio bem visível do que restou do edifício inicial – acabando por ser classificado como Monumento Nacional em 1910. Embora o Convento sirva actualmente como instalação militar, a sua igreja está aberta ao público e aviso-o de que não a deve perder. Com o terramoto de 1755, a Igreja da Graça ficou em ruínas. Os trabalhos de restauração conferiramlhe o actual estilo barroco. No interior devem ser apreciados de perto os azulejos dos séculos XVI, XVII e XVIII e duas monumentais cadeiras de mármore alojadas na Sacristia. Nas capelas da Igreja são visíveis os altares de talha dourada de estilo rococó e um conjunto de esculturas religiosas do século XVII. Num piso superior encontramos uma imagem do Senhor dos Passos. Esta representação de Cristo, em trajes roxos, é ainda utilizada nas procissões da zona durante a Quaresma. Por entre aquela imensidão de telhados e miscelânea de cores, obrigo o ouvinte a prometer que não vai perder a Igreja de Santa Engrácia, onde fica o Panteão Nacional. À nossa direita, no alto de uma colina, é bem visível a cúpula de uma Igreja que lembra em ponto pequeno o topo da Basílica de São Pedro, em Roma. A Igreja de Santa Engrácia situa-se no local de uma primitiva igreja, mandada construir em 1568, por ordem da Infanta D. Maria, filha do Rei D. Manuel I, o grande impulsionador dos Descobrimentos. Essa antiga igreja ficou seriamente danificada por um temporal em 1681 e foi de tal forma alvo de modificações que, na realidade, hoje em dia não restam quaisquer vestígios da primeira edificação. A primeira pedra do actual edifício, o primeiro em estilo barroco no país, foi lançada no ano de 1682. As obras duraram tanto tempo que deram origem à famosa expressão popular “obras de Santa Engrácia”, usada pelos lisboetas para se referirem a uma tarefa iniciada, mas nunca terminada. A igreja só ficou concluída em 1966, ou seja, 284 anos após o seu começo.

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Enquanto Panteão Nacional, estão aí enterradas algumas das personalidades mais importantes da nossa história, como D. Nuno Álvares Pereira, o Infante D. Henrique, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama, Luís Vaz de Camões, inúmeros presidentes da República, vários escritores e a fadista Amália Rodrigues. Olhando para o lado esquerdo do largo do miradouro distraio-me por uns instantes e poiso o olhar em dois pinheiros mansos entrelaçados, cujos troncos unidos formam um “V”. Por entre esse espaço exíguo consigo ver o rio. Cons-

tato intimamente que nesta cidade, de onde quer que se olhe, é sempre possível observar o nosso reflexo nas águas. Entretanto, o sol tinha acabado de vencer uma pequena luta com o nevoeiro e o rasgão no capacete foi finalmente alargado. Naquele momento, suspiro e sou feliz. Retomo a lição e digo ao ouvinte atento que o miradouro da Graça, actualmente se chama miradouro Sophia de Mello Breyner, em homenagem à célebre escritora e poetisa que gostava de dali se perder na cidade. Foi a primeira mulher portuguesa a receber, em 1999, o mais importante galardão literário da língua portuguesa - o “Prémio Camões”. Pergunto-lhe se tem filhos pequenos e responde-me que sim. Aconselho-o a não partir sem levar consigo a A menina do mar e A fada Oriana. Marcaram o meu imaginário infantil e acredito que continuarão a marcar o de todas as crianças que os lerem. Os sinos da Igreja da Graça ecoam novamente, compondo a banda sonora da nossa conversa. Dos bairros que daqui se vislumbram, insisto para que não deixe de visitar a baixa pombalina, mandada construir pelo Rei D. José I, cuja estátua a cavalo decora o centro da praça do Terreiro do Paço e pelo seu Ministro, o Marquês de Pombal, depois do terramoto de 1755. O bairro da baixa está encaixado, tal como uma peça de lego, entre o Terreiro do Paço, o Rossio – com o imponente e simultaneamente acolhedor Teatro Nacional D. Maria II - e a Praça da Figueira. Longitudinalmente fica bem arrumado entre o Cais do Sodré, o Chiado e o Carmo de um lado e a Sé e a colina do Castelo, do outro. Aviso ainda o ouvinte que também não pode perder o Bairro do Martim Moniz, recuperado há poucos anos, cheio de esplanadas e restaurantes com sabores vindos de várias regiões do globo. Uma autêntica explosão de culturas e cheiros do mundo, mesmo ali, à distância de um passeio. Decido então que é hora de me calar e deixá-lo partir sozinho. Deambular pelas ruas e becos que se avistam deste terraço preso no céu. Só assim conseguirá absorver a alma de Lisboa, com os seus cheiros, luz, personagens e habitantes reais a abarcar tudo isso no coração, na esperança de que volte e torne a voltar até que tudo isto faça também parte de si.


49 LIÇÕES QUE VÃO MUDAR AS NOSSAS VIDAS, OU COMO

FERNANDO PESSOA

NÃO PÁRA DE SURPREENDER OS SEUS LEITORES Contrariando a imagem cristalizada de um homem fantasmagórico que se isolava de todos para criar um universo interior, este livro apresenta um Fernando Pessoa que criava slogans para a Coca-Cola e com quem, entre muitas outras coisas, se pode aprender: Como publicitar carros brilhantes Como interpretar narizes Como reinventar o futebol Como conhecer celebridades

uma edição tinta-da-china. já nas livrarias.

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Como insultar


Aquilino Sem Palavras

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por Revista Bica

Patrícia Belo

No final do ano passado, as Edições Esgotadas em parceria com o Centro de Estudos Aquilino Ribeiro, lançaram um livro originalíssimo, inspirado no olhar artístico de Pedro Albuquerque sobre a obra do autor beirão. Numa edição limitada, que incluiu 50 exemplares numerados e carimbados, Albuquerque transporta-nos pelo imaginário aquiliniano através de mais de duzentos trabalhos plásticos que resultaram da sua leitura da prolífera obra de Aquilino.

dos carros de bois ao fim do dia, as cozinhas com panelas de ferro ao lume. E, de repente, o olhar de Aquilino era também o meu olhar infantil sobre uma aldeia beirã.”

“A ideia do Aquilino Sem Palavras começou com umas ilustrações que eu fiz para uma reedição d’ “O Malhadinhas” que me despertaram o interesse pela obra do mestre beirão e que me levaram a ler uns quantos livros dele, sempre desenhando inspirado na imagética aquiliniana. Quando me dei conta, tudo o que lia me reportava para as férias da minha infância passadas na aldeia de Ornelas, onde acompanhava os trabalhos da lavoura: as vindimas, a apanha da azeitona, as sementeiras, as podas, as enxertias e o chiar

“Quando comecei a pintar, os artistas mais velhos, os mestres, só pintavam a cidade, naturezas mortas e paisagens e eu percebi logo que não podia fazer nenhuma destas três coisas. Em primeiro lugar porque eles já o faziam optimamente, por isso eu dificilmente iria acrescentar algo de novo e depois, porque não me revia em nenhuma delas. Então, comecei a pintar por temas, mas sempre mais focado no conteúdo e nas personagens, procurando sempre um olhar original. Por exemplo, fiz uma série inspirada no D. Quixo-

Pedro Albuquerque, que comemora este ano 50 anos de carreira, fala entusiasticamente, gesticulando com o cigarro preso à mão direita e o corpo balançando suavemente para trás e para a frente, como que embalado pelas próprias palavras.


te do Cervantes, mas focada nos delírios da própria personagem e na forma como eu os interpretava. Depois, fiz outra dedicada ao 11 de Setembro e ao atentado às Twin Towers, que me marcou bastante, e que hoje está num museu em Newark nos Estados Unidos. Entretanto decidi passar do figurativo para o abstracto e estive 3 anos a pintar abstracto. O Aquilino Sem Palavras surge numa fase de regresso ao figurativo, mas ainda com

Entrevista Teresa Adão A propósito da edição desta obra, conversámos com Teresa Adão, sócia fundadora da editora Edições Esgotadas, para onde passou a canalizar a energia contagiante com que encara o dia a dia desde que abandonou a sua grande paixão: o ensino do português a que se dedicou durante 42 anos, sempre com um sorriso nos lábios.

Bica: Como surgiu a ideia de editarem esta obra tão original sobre Aquilino?

Intenso, conflitual, provocador, Albuquerque auto intitula-se um pintor de pesquisa por precisar de viver o que pinta, de sentir o que pinta, talvez por isso o seu traço seja tão original e perturbador. Nos 240 desenhos de Aquilino Sem Palavras, é o melhor de Pedro Albuquerque que encontramos numa perfeita interpretação “dessa figura de encruzilhada cultural, entre o primitivismo rural e o amor gratuito da erudição livresca”, a que a editora decidiu acrescentar, em coordenação com o autor, um Aquilino Com Palavras, onde reúne numa pequena sebenta, ensaios dos mais importantes especialistas aquilinianos do país.

Esta conjugação de vontades acabou por permitir a edição da obra, que tem suscitado muitas críticas positivas, até pelo seu ineditismo. E isso, repito, orgulha-nos muito até porque é uma obra que nasceu na cidade, com um artista da cidade, com um tema da cidade e lançado por uma editora da cidade para o mundo. Teresa Adão fala de forma pausada, olhandonos fixamente, como que querendo certificarse da nossa atenção.

Teresa Adão: A nossa editora, como tudo o que tem um princípio, tem que se enraizar bem no meio onde se move, um meio em que

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grande influência do abstracto, uma espécie de fase de conflito interior sobre a forma de me expressar artisticamente e isso faz dele um trabalho especial.”

Teresa Adão: O Aquilino Sem Palavras, no que às Edições Esgotadas diz respeito, começou por nascer de uma parceria com o Centro de Estudos Aquilino Ribeiro, que já tinha este projecto programado há muitos anos, com uma maquete feita, mas sem o conseguir lançar. Depois de o avaliarmos, concluímos que era um projecto inovador, por ser a primeira vez que se editava uma obra com uma perspectiva aquiliniana completamente diferente, com outro tipo de arte associada e nada melhor do que a pintura, o desenho, para casar com a obra de Aquilino, ainda por cima realizada pelo grande artista Pedro Albuquerque. E trabalhar com o Pedro Albuquerque é muito motivador, porque como todos os artistas, está sempre com a cabeça em ebulição e isso permitiu uma evolução muito criativa ao longo do processo, com alterações sucessivas do formato e da capa, que acabaram por resultar nesta edição que muito nos orgulha. Decidimos acrescentar um pormenor que enriqueceu o trabalho, que foi a inserção do Aquilino Com Palavras, que o autor apelida de uma sebenta, por lhe querer entregar aquela conotação escolar e antiga que o termo tem, como que “desvalorizando” a perspectiva mais literária e crítica da obra aquiliniana, para não obnubilar o olhar artístico sobre Aquilino, sendo que reunindo figuras inultrapassáveis da cultura nacional.


as pessoas dão credibilidade e reconhecem algum valor, idoneidade, honestidade a quem está a liderar os projectos. Depois de ultrapassada essa fase inicial...

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Bica: Foi complicado ultrapassar essa fase? Teresa Adão: Como dizem os alemães, aller anfang ist schwer, todo o princípio é difícil. Demora muito tempo a uma empresa enraizar-se e no campo da edição ainda mais, porque é uma autêntica selva. E é uma selva porquê? – pergunta retoricamente com um sorriso malicioso – Porque nós queremos afirmar-nos como editora independente e ser independente de qualquer coisa na sociedade actual é sempre difícil. No mercado livreiro editorial, temos aqueles grandes tubarões que dominam tudo, portanto, é realmente muito difícil singrar. Por isso, com todos estes constrangimentos, o nosso orgulho é ainda maior pelo trabalho que temos vindo a desenvolver, porque resulta da nossa preocupação em manter a qualidade. Temos muito orgulho na nossa coleção de poesia que é reconhecida a nível nacional. Somos fundadores, em parceria com a Câmara Municipal da Moita do Prémio Joaquim Pessoa, poeta que editamos, e do Prémio Judite Teixeira, com a

autarquia de Viseu, resultante dum esforço de revitalização desse grande nome da poesia nacional que estava tão esquecido e que hoje volta à ribalta, nomeadamente através da edição da obra premiada, dum trabalho de Martim Gouveia, estudioso da obra juditiana e de uma compilação de especialistas brasileiros da poesia de Judite Teixeira. Tudo isto é resultado dessa preocupação com a qualidade e com a vontade de contribuir para a divulgação da cultura, de semear a cultura que, aliás, é o nosso lema.

Bica: O que diferencia a vossa editora, além dessa preocupação com a qualidade, com a divulgação da cultura? Teresa Adão: O que diferencia a nossa editora de outras, nomeadamente, independentes é o facto de termos uma Comissão Científica, presidida pela Professora Doutora Ana Oliveira e que funciona como um garante de que todas as nossas obras são filtradas. Isso começou a gerar uma situação curiosa de muitos autores que nos contactam não por quererem editar, mas para terem uma opinião sobre a qualidade da sua escrita, o que nos confere esse papel de orientadores de muitos jovens que pretendem escrever, mas necessitam de um olhar crítico sobre a forma como


Todo este trabalho sério que temos vindo a desenvolver levou a que, de editora regional quando começámos passássemos a ser olhados com respeito e admiração a nível nacional. Bica: As Edições Esgotadas nasceram em Viseu?

ordem social ou psicológica, é possível fazerse um tratamento através da leitura. Claro que não é uma leitura aleatória, é uma leitura escolhida pelo terapeuta, especificamente para cada caso. Eu própria fui professora durante 42 curtos anos e no âmbito da pósgraduação que tirei nesta área, apliquei nas minhas aulas e devo dizer que os resultados foram fenomenais, sobretudo em casos relacionados com indisciplina.

Teresa Adão: Em Moimenta da Beira, depois é que passámos para Viseu e agora vamos abrir no Porto e em Aveiro.

Bica: Além da poesia e da literatura lusófona, quais são as outras áreas da edição a que se dedicam?

Bica: Sentem que existe maior dificuldade de afirmação e divulgação do vosso projecto por serem uma empresa do interior?

Teresa Adão: Editamos bastante literatura infantil, com dois livros incluídos no Plano Nacional de Leitura, o “Grão de Café” e “As Histórias Tradicionais Europeias”, iniciámos uma nova colecção dedicada à arte com o lançamento de “Aquilino Sem Palavras”, temos outra dedicada ao património e a livros técnicos, com diversos trabalhos científicos e teses de doutoramento publicadas.

Teresa Adão: Na relação com os nossos autores e com a distribuição não sentimos essa dificuldade. Já em relação à divulgação e ao acesso à comunicação social, sentimos bastante esse ostracismo. Eu vou dizer algo que é polémico, mas não é uma pós-verdade como agora se diz, algumas críticas que são publicadas são influenciadas por factores externos às obras, nem todas as críticas são inocentes. Além disso, é difícil chegar aos meios de comunicação social, apesar de comunicarmos e enviarmos todas as obras que editamos. Nós temos tido a sorte de ter um excelente parceiro na divulgação da nossa colecção lusófona em que promovemos escritores e poetas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, a RTP África, mas no geral é muito complicado chegar à mídia. Bica: Quais são os vossos projectos para o futuro? O que é que as Edições Esgotadas têm programado para os próximos tempos? Teresa Adão: Em termos empresariais, temos a abertura de dois novos espaços em Aveiro e no Porto. No Porto estaremos mesmo ao lado da Casa da Música, com quem estamos a negociar algumas parcerias, até porque quando duas instituições procuram o mesmo objetivo da divulgação da cultura, fez todo o sentido que unam esforços e colaborem. Por outro lado estamos a preparar um grande congresso em Viseu a que gostaríamos de chamar “Obras de Pensamento”, onde contamos reunir diversas vertentes da cultura, não só da literatura, mas da filosofia e das artes. Vamos também iniciar uma série de workshops sobre biblioterapia que é um processo inovador e que consiste, como o próprio nome indica, num tratamento através dos livros. Bica: Explique-nos um pouco melhor em que consiste a biblioterapia? Teresa Adão: Está provado que, em determinados casos, em particular problemas de

Bica: E como é que foi esta caminhada da Teresa, de 42 curtos anos dedicados ao ensino até à direcção das Edições Esgotadas? Teresa Adão: Eu tive o privilégio de trabalhar toda a vida naquilo que adorava: dar aulas. Durante os meus 42 anos como professora, nunca fui para a escola contrariada e, talvez por isso e por ser uma pessoa muito bem humorada, aliás, sou doutorada em humor, as minhas aulas eram muito alegres o que ajudava a criar um ambiente de trabalho muito distendido. Isso fez com que não desse pelo tempo passar e quando chegou a altura de pensar na reforma, imediatamente comecei a magicar em dedicar-me a algo que estivesse ligado aos livros e foi assim que apresentei aos meus 3 actuais sócios a ideia de criarmos uma editora. Em boa hora o fiz, porque funcionamos na perfeição como equipa, apresentando ideias, criticando, discutindo, partindo muita pedra juntos e a isso se deve, em grande parte o sucesso desta empresa. Foi, portanto, assim que a editora começou, comigo ainda a dar aulas. Entretanto, fui quase compelida a pedir a reformar para garantir as mesmas condições salariais, mas sempre pensando que iria demorar. A verdade é que eu fiz o pedido em Junho e em Setembro, quando me preparava para iniciar o ano lectivo, recebi a notificação informando que estava reformada. Foi um choque muito grande! Felizmente tinha a editora e dediquei-me a ela a 100% e com a colaboração desta equipa fantástica, com muito esforço, com muita dedicação e acreditando sempre, conquistámos, ao fim de tão pouco tempo, um espaço no mercado editorial, um espaço que é nosso e isso é muito gratificante.

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escrevem e de alguma orientação no caminho a seguir.


o poeta proclama: brindemos copos erguidos, corações ao alto o meu coração está em vós a nós e à idade, o eterno primeiro brinde a hoje e à saudade, o primeiro brinde eterno à gargalhada largada que nos purifica, que nos dignifica à gargalhada improvisada que nos justifica copos erguidos, corações ao alto às conversas esquecidas em que fomos crescendo às conversas perdidas à deriva no vento às palavras repetidas improvisadas no momento e às palavras nunca ditas, o nosso cimento copos erguidos, corações ao alto às noites passadas em terraços nas nuvens em pedaços de sonho alojados no intervalo entre a cidade e o céu às noites passadas a contemplar as luzes bailarinas libertinas na sedução citadina às noites passadas sem noção das horas numa espera inesperada pela chegada da madrugada às noites passadas em passeios sem destino por entre ruas apertadas e ruelas enviesadas à procura da história entre as pedras da calçada copos erguidos, corações ao alto à cidade de lisboa, casa e cama perfeita musa alada que beija o meu voo diário àquela velha solitária observando silenciosa como o mundo se transforma se visto sempre de cima aos bêbados cansados que descansam na esquina abraçados ao bagaço como se fosse alma amiga aos velhos sentados, eternamente sentados em bancos de jardins, evitando o frenesim aos poetas de antigamente deambulando pelo tempo rodopiando por entre nós versando a voz da cidade aos elétricos amarelos, resistentes sobreviventes que patrulham as colinas aliviando-nos a saudade copos erguidos, corações ao alto às noites no cais do sodré, entre litrosas e baldes aliviando a nossa fé em escuras e mijadas esquinas aliviando os nossos pés subindo ao andar de cima através de tapetes enrolados como se fossem obras de arte às noites nos cabarés ou nos quiosques da avenida à praça da alegria e às alegrias desta vida às ruas do bairro alto e às musas do sobressalto copos erguidos, corações ao alto

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às noites entre mendigos, trocando ideias por histórias às noites de lua cheia e às noites de lua nova às horas desperdiçadas, aos minutos mal gastos aos segundos que perduram nas margens da memória aos relógios parados, aos sempre santos pecados aos erros cometidos por entre os trilhos dos telhados às negociações criminosas, às vertigens amorosas às portas misteriosas e à coragem que nos trazem copos erguidos, corações ao alto às madrugadas de sexo, às alvoradas do tejo aos sentimentos complexos e à falta de nexo às viagens intermináveis nas filas abomináveis nessa estrada divinal que é a avenida marginal copos erguidos, corações ao alto: brindemos.

Ilustração Pedro Albuquerque


Lugar aos Novos Um Brinde

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Poema de Duarte Cordeiro de Sousa


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POSTAIS PERDIDOS Por João Albuquerque Carreiras

Minha querida, Eis-me de novo em Berlim, sentado ao sol numa esplanada junto a Spree. Lembrar-te-ás da minha vinda aqui no ano passado, numas férias decididas e marcadas bem em cima da hora. Era pleno inverno e achei a cidade imensa e inóspita, com uma beleza e a alma que não encontrei. Gostei de ter vindo, mas não me senti bem recebido. Lembro o primeiro dia em que olhando o mapa resolvi caminhar e me encontrei numa rua sem fim, com árvores despidas, com o frio entrando dentro de casaco, gorro e luvas. Não me adaptei à escala da cidade, nem ao frio, nem à alma que diziam ter. Claro que gostei de muitas coisas, mas saí pensando que não voltaria tão cedo. No final, poucos meses depois e a pretexto de trabalho, aqui estou de novo encarando a cidade com todo um novo olhar. A cidade é a mesma (apesar de não o parecer), mas acabo por encontrar a sua alma, aquilo que dela faz um destino de muitos, um íman de criativos, uma das capitais culturais da Europa. Encontro parques lotados por gente bebendo cerveja ao sol, numa alegre descontração. Entro em galerias de vanguarda. Deambulo por feiras que misturam velharias com novos designers como em Mauerpark. Adapto-me à escala com a ajuda do eficientíssimo metro. Usufruo de um tempo belíssimo para me perder por vários bairros, pelos monumentos do Mitte, pelas lojas de Friedrichshain, pelos bares de Kreuzberg. Descubro, pela mão de um amigo já berlinense, um rooftop super cool sobre o estacionamento de uma galeria comercial em Neukölln, onde tive um inesquecível por-do-sol com vista sobre a cidade ao som de jazz tocado ao vivo.

Encontro uma Berlim que gosto, que me fascina, que finalmente entendo para lá das famosas e divertidas discotecas que entram noite dentro até o sol raiar. A Berlim descolada, moderna, imprevisível, onde tantas tribos se misturam numa alegre convivência. A multi-Berlim, cultural, étnica, artística. A cidade livre e das liberdades onde a expressão individual não é limitada, onde a sociedade acaba por integrar tanta diversidade que essa diversidade se torna o maior traço de personalidade da cidade. Não sei se foi só por ser verão, mas desta vez fui conquistado por Berlim. Na dúvida, não venhas aqui a primeira vez no inverno, espera pelos dias solares, pela cidade sair à rua e invadir os parques, se mostrar sem ter de ser encontrada no meio de imensas e frias ruas, ser a bela, e agora também minha, Berlim. Beijos, João

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Berlim 29-VI-16


Trips de Guitarra por Revista Bica Hugo Macedo

Tó Trips é, reconhecidamente, dos músicos portugueses mais interessantes das últimas décadas. Dos agitados tempos dos Amen Sacristi, ainda no Liceu Pedro V, e dos memoráveis Lulu Blind, aos Dead Combo, que partilha com Pedro Gonçalves, passando pelas experiências a solo de “Guitarra 66” e, mais recentemente, de “Guitarra Makaka”, Tó Trips tem marcado presença nos mais inovadores e entusiasmantes projectos do imaginário alternativo musical nacional. Conversar com ele é embrenharmo-nos numa viagem pelas músicas do mundo. As músicas que o marcaram e tantas outras que foi descobrindo ao ritmo de uma curiosidade que a idade foi aguçando. Uma viagem sem direcções pré-definidas, que tão depressa nos leva ao punk/hardcore ou ao jazz, como à guitarra de Paredes, mas semprecom um fio condutor – os sons que foram influenciando a sua composição.

Bica: Como te surgiu o gosto pela guitarra?

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Tó: Isto surgiu porque a minha mãe, aos quarenta e tal anos começou a tocar guitarra na igreja. Então, passou a haver uma guitarra lá em casa e comecei a tocar. Entretanto, no tempo de liceu (D. Pedro V), abriu o Rock Rendez Vous lá ao lado e havia umas matinés às quartas feiras aonde o pessoal ia e pronto, comecei a ter bandas com a malta lá do liceu. Depois fui para a António Arroio sempre com esta mania das bandas. Com os Amen Sacristi, que foram a minha primeira banda, ainda participámos em dois concursos de musica moderna no Rock Rendez Vous. Depois, mais tarde, essa banda acabou e o Jorge Ferraz convidou-me para os Santa Maria Gasolina em Teu Ventre! que era uma banda que gravava pela “Ama Romanta”. Ainda gravei um disco com eles e depois nos anos 90 formamos os “Lulu Blind“ que duraram para aí 10 anos.

Depois cansei-me de bandas! (risos). Eu gosto bastante de bandas, mas sabes como é, o pessoal vai saindo, muita gente com problemas, drogaria e não sei quê, e cansei-me daquilo. Por isso comecei a gravar umas coisas sozinho. Entretanto, encontrei o Pedro e formamos os Dead Combo.

Bica: Sempre foste, acima de tudo, um instrumentista, um guitarrista, apesar de algumas experiências vocais.... Tó: Sim, nos Lulu Blind. Estávamos fartos das paranóias dos vocalistas sempre com egos...

Bica: (risos) ...do tamanho do mundo! Tó: Sim pá. Estava farto de levar com isso. Estávamos fartos. Então cheguei-me à frente para continuarmos a fazer as coisas. Depois,


quando acabaram os Lulu Blind, fui gravar umas cenas sozinho para não desistir da música porque é uma coisa de que gosto. Mas eu não era, nem sou nada da cena do Guitar Hero, mas fui gravar basicamente porque gosto de música. Aos 35 anos larguei o emprego, larguei tudo e investi só na música.

Bica: Quando foste para a António Arroio foste estudar o quê? Tó: Fui para artes gráficas. Eu sempre curti desenho…

Bica: Uma área que sempre foste desenvolvendo em paralelo com a música e que tem vindo a ganhar cada vez mais visibilidade... Tó: Sim. Foi através da Revista Gerador (http://gerador.eu/revista) que isso do desenho ganhou mais notoriedade. Eu devo ter sido dos gajos que fez mais capas de disco e posters neste país. Fazia posters para a ZDB (Galeria Zé dos Bois, localizada, actualmente, na Rua da Barroca no Bairro Alto). Sempre curti muito a imagem ligada à música. As capas de discos e posters…

Bica: E ainda continuas a desenhar?

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Tó: Ainda continuo. Menos, mas sim. Sempre gostei desse lado. Faço as coisas dos Dead Combo e algumas outras, mas bastante menos.


Bica: Voltando à música, esse caminho que foste trilhando trouxe-te a um projecto exclusivamente instrumental, que é mais raro, especialmente em Portugal, mas com enorme sucesso. Tó: A gente nem estava muito à espera do sucesso precisamente por ser uma coisa instrumental, sem singles. Aliás, era algo para a malta fazer sem ter de se chatear com o que está à volta da música e deixando de lado os problemas pessoais.

Bica: Mas correu muito bem, cá dentro e lá fora. Tó: Sim, correu. Surpreendentemente bem, cá e lá fora.

Bica: Essa vossa escolha pelo instrumental surgiu pelo facto de quer tu quer o Pedro, serem, acima de tudo, dois instrumentistas? Tó: Eu tinha gravado umas malhas sozinho e o Henrique Amaro ouviu uma versão minha do “Verdes Anos” e fez-me um convite para gravar no disco-tributo ao Carlos Paredes. Foi aí que conheci o Pedro e o convidei para gravar um contrabaixo. O Pedro depois de ouvir as outras malhas disse: “pá bora lá” e pronto, foi assim que surgiram os Dead Combo. Basicamente, como o Pedro vem do jazz, fizemos uma jura que seríamos sempre só nós os dois. A primeira vez que tocámos houve alguém que veio dizer “Epá isto era fixe era com um baterista e com uma vocalista”, mas não...

Bica: Nem fazia sentido. O vosso som tem uma marca, uma identidade muito própria e que está intimamente ligada aos vossos instrumentos. Com bateria e voz seria outra coisa...

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Tó: Claro que sim. Seria outra coisa e além do mais, a nossa perspectiva era tocar na ZDB, por exemplo, em sítios pequenos e foi o que fizemos ao principio. Depois quando saiu o primeiro disco é que ficamos um bocado admirados com as críticas. Foi meio surpreendente.

Bica: Estavas a dizer que o Pedro veio do Jazz, achas que isso, para uma formação como a vossa, vocacionada para o instrumental, foi fundamental? Essa liberdade criativa que o jazz permite?

Tó: Sim… há uma química entre os dois, embora sejamos duas pessoas completamente diferentes. O Pedro tem muito a cena dos arranjos. Eu costumo dizer que eu sou o guitarrista e o Pedro é o músico. Ele tem a noção das notas, ele tem a noção dos arranjos é ele que produz mais os discos, eu sou mais o gajo das malhas, da descoberta de leaks de guitarra, de andar a experimentar coisas.

Bica: Como é que tu compões? Tó: Eu toco todos os dias. Basicamente é um processo de descoberta, de ir mudando afinações, andar a descobrir notas… fazer associação de notas. Basicamente é isso. Ou então arranjar uma imagem e fazer uma música para essa imagem, para uma fotografia, por exemplo. Normalmente escolho imagens paradas, não me inspiro muito em filmes…

Bica: Embora a vossa música seja muito cinematográfica... Tó: Pode ser quase uma música para memórias ou uma coisa assim.

Bica: Remete-nos muito para imagens de filmes. Tó: O instrumental tem essa liberdade de te permitir imaginar cenas. Quando tu colocas uma letra, ficas mais limitado. Foca-te mais para uma emoção ou para um estado de espírito. No instrumental tens essa liberdade, dá-te essa liberdade de estares a ouvir, sei lá, estares a ouvir um gajo sozinho a tocar guitarra (risos).

Bica: Permite-te criar as tuas próprias imagens, não é? Tó: Sim. Também já fiz discos a solo a partir de fotografias de viagens minhas com a minha mulher.

Bica: Ou seja, há sempre um factor de inspiração. Não necessariamente a tua procura por novas malhas, o teu treino diário? Tó: Exacto. Muitas vezes vem de imaginares coisas. Por exemplo, no caso do “Guitarra Makaka” passou por imaginar um sítio, uma ilha imaginária e criar música para isso. Queria descobrir uma afinação para isso, e depois, por acaso, era uma afinação completamente diferente, que eu não estava habituado a tocar. Ao fim e ao cabo é quase como se reaprendesses a tocar um instrumento. É quase tudo novo. Passas horas e horas naquilo, a andar de um lado para o outro a descobrir sons e a pensar num universo di-


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ferente. No caso de “Guitarra Makaka”, um universo que seria um bocado, sei lá, tropical, africano. Nos Dead Combo às vezes é ao contrário. Nós aparecemos com umas malhas e depois arranjamos uma história para embrulhar o disco.

Bica: É uma coisa que surge depois? Tó: Sim, normalmente surge depois.

Bica: Ou seja, vocês têm a preocupação de entregar uma coerência aos vossos álbuns. Isso é algo que vai rareando por aí... essa necessidade de contar uma história. Tó: Sim, sim. No caso dos Dead Combo, fazemos os temas e depois arranjamos uma história que embrulhe todos esses temas.

Bica: O que implica que os temas tenham que ter uma coerência entre eles, não é? Tó: Claro. Há uma coisa com que a malta se preocupa nos Dead Combo, que é fazer com que aquilo tenha alguma coisa que seja de cá, que seja português. Pode ter coisas de vários lados, mas tem que haver algo daqui. É das poucas coisas que nos impomos no lado criativo. Que tenhamos coisas daqui, porque nós somos daqui e é essa a diferença que poderemos levar lá para fora ou para dar aos outros.

Bica: Vocês já estão a dar muitos concertos lá fora? Tó: Sim, damos.

Bica: Para esse sucesso internacional, teve bastante importância o facto de terem feito, chamemos-lhe assim, a banda sonora do programa “No Reservations” de Anthony Bourdain gravado em Lisboa. Depois da exibição do programa, saltaram para o topo americano dos mais vendidos no iTunes...

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Tó: Sim foi a grande cena lá para fora! Por acaso isso do Bourdain é um bom exemplo, porque eu e o Pedro não o conhecíamos. Nós, por acaso, vemos pouca televisão. Eu pouco vejo.

Bica: (risos) O que é mais engraçado, então?

Tó: (risos) Sim, eu tinha ido almoçar com os meus filhos e com a minha mulher, aquilo foi num sabádo, e eu até tinha dito à minha mulher “Baby desculpa lá que eu tenho ir a uma entrevista depois de almoço com um americano.”

Bica: (risos) Tipo, um chato qualquer... Tó: Sim. Até porque, normalmente aos fins de semana a gente tem concertos, como nesse não tinha era fixe estar com a família.

Bica: (risos) Tó: Bem, mas depois de almoço lá fomos ter com o Bourdain e só depois é que nós nos apercebemos da dimensão da coisa, porque a malta amiga dizia “Epá vocês fizeram uma cena com o Bourdain, com o Bourdain… Mas quem é o Bourdain? É assim tão conhecido?

Bica: (risos) Tó: Depois é que começamos a perceber a dimensão daquilo e realmente tivemos temas no iTunes nos Estados Unidos no top da World Music e ainda hoje temos feedback de pessoas.

Bica: (risos) Quando foram a Cannes actuar na estreia mundial de “Cosmopolis” a convite do David Cronenberg, já foram mais conscientes... Tó: Em Cannes foi mais glamour do que outra coisa. Aquilo foi uma festa do Cronenberg, da estreia do filme dele. Era um jantar tipo de gala, tocámos lá e no fim passámos música, mas não sei se teve assim tão grande feedback. Quer dizer, teve feedback em Portugal, porque para a malta daqui foi algo de diferente, era algo meio inacessível, mas acho que o que teve mesmo grande impacto foi isso do Anthony Bourdain.

Bica: Vocês tiveram de facto um papel importante no programa. Não foi aparecer vagamente. O que tornou a vossa participação especial foi o facto de ter resultado num encaixe quase perfeito com o próprio Bourdain… Tó: Sim, sim. Ele utilizou várias músicas e ainda por cima calhou numa altura em que nós fomos tocar ao Mexefest e eles filmaram um bocado e resultou numa cena muito fixe. Assistiram a um concerto ao vivo. Foi mesmo fixe.


Tó: Que tenha sempre alguma alma Portuguesa. Umas referências portuguesas, que ao fim e ao cabo são aquilo que oiço desde pequeno, o que todos nós ouvimos desde pequenos. Tipo o Carlos Paredes ou algo que tenha isso que a gente define como harmonias e melodias Portuguesas. Sei lá… uma sonoridade Portuguesa.

Bica: Uma sonoridade que passa um bocadinho pelo som da guitarra portuguesa, não é? Tó: Sim, mas sem tocar guitarra Portuguesa! Por exemplo, isto dos Dead Combo, como já disse, começou com a cena do Paredes, porque eu já tinha ouvido milhares de vezes os “Verdes Anos”, mas se assobiares os “Verdes Anos” e assobiares mais lento, vou-te dar um exemplo (Tó começa a cantarolar) Tás a ver? Esse tema dos “Verdes anos” ?

Bica: Sei, sei muito bem qual é. Tó: Se tu passares aquilo a guitarra elétrica e fizeres mais lento, aquilo é um western, tu podes imaginar um western. (Tó recomeça a cantarolar). Isto é um western. É o “Verdes Anos”, mas em western (risos).

Bica: Morricone. (risos) Tó: Isso. E foi daí que surgiu esta vontade de misturar coisas, de misturar sons. Eu nem gosto que se associe sempre o pessoal ao western, (risos) porque temos outras coisas.

Bica: Enquanto músico, quais são as tuas referências? Tó: Pá, eu nos anos 90 só ouvia rock e coisas pesadas. Não gostava de jazz e depois com o Pedro comecei a descobrir coisas de jazz até um dia em que eu estava numa esplanada da Graça e estava a passar uma música de um pianista e eu pensei - Foge meu, ganda música! Está-se mesmo bem aqui! - e estava um amigo meu comigo, o Flapi, e eu perguntei-lhe - Quem é este gajo? - e ele - Não sabes quem é? - Não. – respondi. - É o Keith Jarret. Depois fui lá perguntar ao gajo do bar e era um disco que depois disso eu já comprei várias vezes e já não o tenho porque o ofereço sempre (risos) que é o “Melody at night with you”.

Bica: Que é um álbum fantástico!

Tó: Fartei-me de ouvir esse disco! Lembrome de estar a ouvir aquilo e pensar “naquele dia, aquele som elevou o nível de vida daquela esplanada”, tás a ver? Embora hoje em dia me canse de estar nas esplanadas sempre com música, música, música. É demais! Mas daquela vez, aquilo bateu e pensei: era tão fixe fazer música que gostasse de ouvir! Isto porque nos anos 90 a música que eu fiz, ou que fazia com a banda era uma música mais de descarga de energia, de deitar cá pra fora. Depois ouvia aquilo duas ou três vezes, mas não era uma música para um gajo estar sentado a curtir e a ouvir. Ou seja, eu só comecei a ouvir música a partir dos 35, porque até aos 35 consumia música todos os dias, mas não me sentava para ouvir. Só a partir dos 35 é que tive… sei lá… a disponibilidade mental para comprar um disco e estar sentado a ouvir. Nunca tinha feito isso, até que depois descobri um disco, que é um dos discos da minha vida! É do Marc Ribot a tocar músicas dum tipo haitiano, o Frantz Casseus. São cenas de guitarra clássica do Haiti, dum mestre haitiano, um senhor que já morreu. O Marc Ribot, que é um dos guitarristas, para mim, dos melhores que existe, gravou um álbum com as músicas desse mestre haitiano. E pronto, foi a primeira vez que ouvi um disco sentado no sofá, sozinho a ouvir…

Bica: A curtir! Tó: Sim, porque até lá, até aos 35, eu consumia música. Estava sempre com música, mas era sempre uma coisa de consumo…

Bica: Nessa fase, mais rock. Tó: Sempre rock, sempre rock, sempre rock! Rock, desde grunge, a hardcore, trash metal. Foi a altura do Johnny Guitar, das noitadas... (risos).

Bica: (risos). Agora estás noutra? Tó: Ainda gosto de sair e gosto de rock, mas gosto de outras coisas, coisas diferentes. Acho que um gajo quando faz uma coisa que gosta, neste caso é tocar um instrumento, a guitarra, procura sempre pessoal de praias completamente diferentes, desde gajos africanos, a gajos do Pacífico, a gajos antigos, a gajos de jazz, gajos de música improvisada, gajos do flamenco. Tentar descobrir pessoas que toquem aquele instrumento de forma diferente para aprendermos com isso. Sei lá, digo isto como guitarrista, mas acredito que um gajo que seja cozinheiro, um gajo que escreva… não sei… um gajo deve tentar ver, ler e ouvir outro pessoal. Por exemplo, eu nem sei se gosto mais de tocar se de ver e ouvir tocar, estás a ver? De ir a concertos. Gosto bastante de ir a concertos e ouvir outros.

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Bica: Há pouco, quanto te referias à vossa criação, dizias que uma coisa em que têm cuidado é ter sempre uma coisa daqui. O que é que tu definirias como sendo daqui?


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Tó: Sim, sim.

Bica: Pelo menos nesta fase, não é? Tó: Sim, sim, procuro afinações diferentes, por exemplo, esse disco “Guitarra Makaka” tem uma afinação dum instrumento Indiano, estás a ver? Porque houve uma amiga minha que é a Adriana Sá, de música improvisada, que me convidou para tocar zither nuns ciclos que ela estava a organizar. O zither é um instrumento meio turco, meio indiano, meio sírio. Então ela convidou-me para ir lá tocar. Eu não conhecia assim muita gente da música improvisada, mas bora lá. Depois quando cheguei lá, aquilo tinha uma afinação estranhíssima... não estava nada confortável com aquilo. Então afinei a guitarra com o zither e a partir daí comecei a explorar o instrumento.

Bica: E daí nasceu “Guitarra Makaka”. Tó: Fiz um disco com essa afinação. Basicamente gosto...

Bica: Dessa descoberta? Tó: Sim, é o que eu mais gosto na música. Eu quando andava no D. Pedro V, queria ser cientista. Gosto bué dessa cena de descobrir coisas (risos).

Bica: Passaste o mesmo espírito para a música. Tó: Sim. É o que eu curto mais, esse tipo de experiências. Também devo muito dessa abertura à ZDB, porque parei lá muitos anos. Tivemos uma sala de ensaios lá, fiz os cartazes para lá, vivia muito por ali e aquilo tinha desde concertos de pessoal no laptop, a rock, a improvisado.

Bica: Esse ambiente músical, esse ambiente cultural da ZDB, do Johnny Guitar, do Rock Rendez Vous, ajudou-te a abrir a cabeça? Tó: Claro. Mas a ZDB era mais aberto, muito mais aberto. Passei muitos anos no Johnny Guitar, até gravei lá um disco dos Lulu Blind. Ficámos lá fechados 3 dias, poque eles nos emprestaram aquilo para gravar. Mas o Johnny Guitar era muito a cena rock. Embora tivesse de vez em quando algumas coisas assim diferentes, Rafael Toral ou Sei Miguel. Mas na ZDB a onda é muito mais eclética. Na ZDB a única coisa que se calhar não passa é Trash Metal. (risos) Cenas do metal, mas

de resto passa lá tudo e mais alguma coisa e isso educou-me bastante. Mesmo que eu às vezes não perceba, respeito, tás a ver? E procuro saber. Acho que é fixe ter essa postura de tentar perceber. Estar aberto a cenas novas. Posso não perceber, mas tento fazer um esforço para perceber ou para…

Bica: Descodificar. Tó: Sim, para descodificar ou para deixar que aquilo me toque de alguma forma.

Bica: Retirar o que mexe contigo, o que te chama a atenção. Tó: Sim, mesmo que seja um pormenor, do tipo: o gajo faz de baixo pra cima. Nunca me tinha lembrado disso!

Bica: Ou uma afinação. Tó: Uma afinação ou um efeito ou uma maneira de tocar em silêncio, dar espaços, por exemplo. Um gajo aprende sempre com os outros.

Bica: Pegando nisso o que é mudou neste meio cultural de Lisboa desde esses tempos do Johnny Guitar até aos dias de hoje? Como é que achas que tem sido essa evolução, agora que estás mais calmo, mais por casa a curtir o teu som. Tó: Mudou bastante, mudou consideravelmente bastante! (risos). Sempre houve boas bandas, mas acho que hoje em dia, uma coisa que eu noto é que os miúdos, quando fazem bandas, sabem bem o que querem fazer. Para já há mais informação, mais facilidade de acesso, e isso nota-se nas bandas que vão aparecendo. Até nas capas dos discos notas isso! Como eu trabalhei muitos anos em publicidade, um gajo habitou-se a ter briefings sobre conceitos. É esta a revista, mas qual é o conceito da revista? Para fazer o grafismo é necessário ter essa percepção.

Bica: Sabemos bem o que isso é! (risos) Tó: E muitas vezes o que aparecia antigamente era que o pessoal fazia as coisas, mas não sabia pra onde é que queria ir, nem o conceito que usava. Eu não estou a dizer que era toda a gente, mas a maioria era assim. Hoje em dia há mais informação, os miúdos tocam bastante bem, que era uma coisa que nem sempre acontecia. Em contrapartida, nos anos 80 havia uma cena que tinha um lado fixe, embora houvesse menos pessoal a tocar bem, havia muito a cena da atitude.

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Bica: Mas mais na perspetiva do instrumento?


Isso foi-se diluindo, hoje há mais esse lado de internacionalização, há esse lado de falta de preconceitos, por exemplo, hoje em dia tu já vês muitos miúdos a gravar discos sozinhos o que antes era impossível.

Bica: Era impensável… Tó: Sim! Mas agora os miúdos perderam esses preconceitos, por exemplo, de gravar uma guitarra. Gravar um disco de guitarra clássica solo isso era uma coisa impensável há uns anos atrás, isso era para o Paco de Lucia ou para os grandes mestres da guitarra. Um gajo nem se atrevia a ousar fazer aquilo e isso perdeu-se. Hoje tens o Filho da Mãe, tens o Norberto Lobo…

Bica: Que é fantástico! Tó: Epá, tens uma data de miúdos a fazer coisas espantosas. Perderam esse preconceito de pensar: não me vou atrever a gravar um disco, quem sou eu para fazer uma coisa dessas? Estás a perceber? Isso era só para os deuses da guitarra e afinal era mentira.

Bica: Os mitos caíram. Tó: Acho que sim.

Bica: Achas que a onda da música Portuguesa está em boa fase? Tó: Acho que sempre esteve. Nos anos 90 houve muito pessoal que tinha bom material, tecnicamente já era melhor, mas havia muita referência aos sons lá de fora e hoje em dia tu vês miúdos a fazer música e aquilo só pode ser daqui. Acho fixe os gajos terem uma identidade portuguesa.

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Bica: É engraçado verificar que ao longo de décadas, existiram várias bandas a optar por cantar em inglês, muitas vezes com a perspetiva de se afirmarem lá fora e, normalmente, isso acabou por acontecer com quem continuou a cantar em português ou teve experiências portuguesas. Na prática, quem conseguiu afirmar-se na cena internacional, tirando a malta do fado, foram os Madredeus, os Moonspell, com um projecto muito específico e para um mercado muito específico, os Buraka e vocês agora, tudo malta que tem de alguma forma referências muito portuguesas. Tó: Tens o Tigerman e outros, mas hoje em dia já não há esse complexo, perdeu-se esse

preconceito de que lá fora é que é bom. Isso é fantástico, porque não era verdade man, o pessoal é tão bom como os de lá de fora. Um gajo quando é bom, é bom aqui, é bom em qualquer parte do mundo. Isso eu ponho as mãos no fogo!

Bica: Pode é ser mais difícil chegar ao mercado, mas isso é outra história... Tó: Isso é verdade, isso é verdade. Por exemplo, o nosso caso com o Bourdain, ao fim ao cabo, foi uma maneira de exportar a nossa música, mas podia ser um vinho... um livro, um filme, tás a perceber? Sapatos! Podiam ser sapatos! Neste caso estamos a falar da música. De levar a nossa música lá para fora e isso é bom porque desperta a curiosidade. A malta lá fora ouve e pensa “epá não conhecia, mas quem são estes gajos?”. Uma coisa que me deixa irritado quando vou lá fora é entrar em sítios e não ver vinhos Portugueses. Vejo Espanhóis, Italianos, Americanos, Chilenos, Australianos e eu às vezes perguntome o que andamos a fazer… tudo bem que a gente tem uma produção muito pequenina, mas irrita-me meu não ver vinhos portugueses, quando este deve ser o país com…

Bica: Maior variedade de castas e melhor relação qualidade/preço... Tó: Do mundo pá! Ainda há dias estava a dizer a alguém dos vinhos, ao pessoal da Fundação Eugénio de Almeida: epá porque é que vocês a malta dos vinhos de Portugal não se juntam e abrem lojas só de vinhos Portugueses em Nova York, em Paris, em Londres.

Bica: Porque continua tudo a ser muito individualista, é esse o grande drama. Tó: Pois, por acaso se calhar é esse um bocado o espirito Português (risos). Mas que nós somos bons, somos.

Bica: Por falar nisso, foi um desafio interessante para vocês, fazerem uma música para um vinho? Musicarem o vinho? Tó: Sim.

Bica: Já tinhas pensado nisso? Tó: Não, não. Tu, de qualquer coisa podes escrever um poema, podes fazer uma música. Tem que ser um conceito. O que é aquele vinho? O que é que aquele vinho te faz lembrar? Ou o que é que aquilo te faz sentir? Depois, é tentar passar isso a um instrumento.


Bica: Para isso contribuiu muito esta universalidade da internet, a facilidade de acesso, que tendo coisas negativas também tem coisas muito positivas. Tó: Claro que sim. Mas também o facto de sermos do sitio de onde somos e as relações que temos com África, desta cena multicultural estás a ver? De sermos um país diferente dos outros, sei lá, de sempre termos sido um país abertos aos outros...

Bica: … e aos sons dos outros... Tó: Sim e aos sons, às comidas... Sempre fomos abertos… também não tínhamos grandes hipóteses de não ser com Espanha aqui ao lado. (risos)

Bica: (risos) Cercados por Espanha e pelo oceano. Tó: Estamos aqui no fim do mundo não é? Quem vem na autoestrada topa isso não é? Um gajo vem na autoestrada e ao aproximarse de Portugal, cada vez há menos trânsito (risos) estás a chegar a um fim! (risos).

Bica: (risos) Dali pra frente só água! Tó: (risos) Ya!

Bica: Não achas muito curioso que com essa proximidade de Espanha não tenhamos quase nenhuma influência espanhola na nossa música? Tó: Eu gosto bastante de flamenco, e gosto de Espanha embora goste muito de ser Português. Gosto de ser Ibérico! Gosto de ser Português e acho que é um país fixe, mas às vezes penso que podía ser mais bem governado, mas pronto. (risos).

Bica: (risos) Pois... Tó: E acho que até é uma pena, somos um país tão pequeno não é? Até entendo isso em países grandes, mas em países pequenos devia ser uma coisa mais prá frente, somos uns gajos porreiros.

Bica: És, portanto, um optimista?

Tó: Epá sou. Tenho 3 filhos, vejo as coisas às vezes um bocado negras, mas tenho esperança de que isto mude um bocado. Tenho a esperança de que possamos voltar às pessoas… de que o valor não seja só o dinheiro, serem os valores de comunhão entre pessoas, entre comunidades. O pessoal hoje em dia vive muito a cena dos números, do dinheiro e sendo lógico que o dinheiro é necessário, não pode ser só isso. Temos um país tão fixe meu, um país bonito, com alta comida, altas pessoas...

Bica: Alto vinho! Tó: Altos vinhos!

Bica: Alto mar! (risos). Tó: Sim meu, sossegado... Tenho esperança, sim!

Bica: O que é que achaste do Dylan ter ganho o Nobel da Literatura? Tó: Eu acho que foi diferente, porque ele ao fim ao cabo tem uma longa história, uma carreira impressionante, não é? Ele escreveu altos poemas, que passaram através da musica, são letras para uma música, mas são poemas, portanto, acho que houve uma certa abertura da Academia em entregar-lhe o Nobel. Se calhar também podia ser ao Cohen, ao Leonard Cohen, mas acho que foi uma coisa ótima e revela uma certa abertura e isso é bom.

Bica: Numa palavra como é que definirias a tua música? Tó: Música para memórias, ou música memorável… acerca de memórias.

Bica: Das tuas memórias? Tó: Memórias… Todo o passado, porque as memórias, normalmente, estão ligadas ao passado não é? Todo o passado é ficção, por mais que a gente tenha feito as coisas, acabamos sempre por ficcioná-las. Por exemplo, aquela coisa de voltar a uma casa a que já não vais há 30 ou 40 anos, e perceber que aquela casa que imaginavas enorme, afinal é pequena, estás a ver? Há coisas assim por isso é que eu digo que é sempre ficção, tu ficcionas sempre as coisas. Não quer dizer que as coisas não tenham acontecido, mas acabas sempre por criar a tua memória do que aconteceu.

Bica: Para terminar, fala-nos um bocadinho do novo álbum dos

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Mas insisto, isso eu acho que é umas das coisas que os miúdos têm hoje em dia, pegam bem no conceito e sabem que o que se faz aqui não é inferior ao que se passa lá fora.


Dead Combo em que aparecem acompanhados pelas Cordas da Má Fama. Tó: Isso começou há 2 anos, quando fomos ao Coliseu tocar e convidámos esse trio de cordas. Depois, no ano passado houve um festival que nos convidou para dar-mos um concerto especial, diferente, então lembrámo-nos de fazer um concerto acústico com as cordas. Entretanto começou a haver mais pedidos e andamos este ano todo a tocar com as cordas e no final dos concertos todas as pessoas vinham perguntar “não têm um disco disto?”, então resolvemos gravar este disco. Fomos para um estúdio e gravámos com eles…

Bica: Já agora apresenta-nos as Cordas da Má Fama. Tó: As Cordas são: o Denis Shevchenko, ele é ucraniano, no violino, o Carlos Toni Gomes no violoncelo e o Bruno Silva na viola.

Bica: É uma experiência muito diferente? Tó: É bem diferente, porque nós normalmente quando convidamos as pessoas não convidamos apenas para tocar. Se vos convidamos a vocês é para vocês participarem criativamente no projecto. À partida conhece-

mos aquilo que vocês fazem, portanto confiamos. Neste caso os arranjos são deles. Portanto o álbum resulta numa coisa muito mais… sei lá… romântica, clássica, tranquila vá.

Bica: É mais um passo no vosso caminho de ir experimentado coisas novas. Tó: Sim, o próximo não vai ser assim de certeza (risos). Acho que o fixe na vida é irmos descobrindo coisas e tentando não fazer sempre a mesma coisa. Embora em algumas casos o melhor é não mexer... Não inventar muito… sei lá, o pastel de bacalhau...

Bica: O pastel de nata... (risos). Tó: (risos) Não mexam no pastel de nata, não mexam no cabrito da Manhosa… em Viseu, deixem estar como é. Não inventem. Há coisas que são simples e em que convém não mexer.

Bica: No vosso caso, vão mexendo sempre e vão-nos surpreendendo com álbuns como este. Tó: Pá, obrigado.

Sugestões Musicais

Mão Morta - Aum www.youtube.com/watch?v=2jE9RmYrTuk

Tom Waits & Crystal Gayle - One From The Heart www.youtube.com/watch?v=iaUl8M5GZHE

Nick Cave and The Bad Seeds - By The Time I Get To Phoenix www.youtube.com/watch?v=Zc2oKEXFL5w

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Carlos Paredes - Verdes Anos www.youtube.com/watch?v=sYSYPBAKiQQ


OMA NATA

Forbidden Cuts é uma nova subsidiária da editora Discotexas. Com sede em Lisboa, o novo sub-rótulo tem uma estrita política de nonsense dance floor quando se trata dos seus lançamentos de músicas que podem “tanto tocar o teu coração como nas tuas ancas”. O multiculturalismo da capital portuguesa está bem documentado e influências de todo o mundo afectam a música produzida e lançada cá, com laços particularmente fortes com África e América Latina. Como exemplo, temos o lancamento de estreia da Forbidden Cuts, o bem-sucedido EP de Oma Nata “Baiana” a atingir 200 mil plays na sua pagina do Spotify. A terceira edicão traz de volta o mesterioso português Oma Nata, com base em Berlin, para um EP de continuação. Antes de explorar o actual som “moody, vibrante e exótico” como Oma Nata, o jovem produtor Mário da Motta Veiga explorou vários géneros musicais. As influências internacionais mencionadas estão em abundância neste EP de três faixas, na forma de samples de fontes bastante jazzy, bem como algumas inclinações latino-americanas. Oma Nata é o próximo a ter “debaixo de olho” como um novo artista emergente de diferentes influências em uma produção unicamente refrescante.

Stream on Spotify: https://goo.gl/1ZVd6h Or alternatively: http://forbiddencuts.lnk.to/AloneT www.facebook.com/omanataofficial soundcloud.com/omanata

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por Revista Bica


1 HD UMA HISTÓRIA DA DANÇA

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O sonho de um menino criativo.


por João Moreira

Entrevista

Carina Martins

- Quando eu for grande quero ser bailarino. - Bailarino de quê? Há tantos tipos de dança. - Ai há? - Sim.

- E vocês, gostam de dançar? Braços abertos, como que indagando resposta numa plateia vazia, Bruno Cochat vai percorrendo em ritmo acelerado o texto de 1 HD Uma História da Dança, que estreará dia 28 de Janeiro, dias antes desta edição da Bica ver a luz do dia. Em cima do palco do Teatro Camões, os bailarinos vão fazendo alongamentos, enquanto a cenógrafa, Marta Carreiras, reajusta os cenários pensados e construídos em exclusivo para o espectáculo. Bruno continua a percorrer o guião: - A dança contemporânea pode acontecer fora do palco. Se calhar... até já está a acontecer ali... No meio da sala, escura e vazia de gente, uma bailarina inicia a interpretação de uma coreografia de Pina Bausch. Por momentos tudo para! Uma gravação de piano inunda o teatro e os olhares concentram-se naquela coreografia. Não há luzes direccionadas, não há público nas cadeiras, não há interrupção nos trabalhos de montagem, mas um silêncio inunda a sala e somos embalados por aqueles movimentos corporais. É como se a música estivesse dentro dela. É como se a música estivesse dentro de nós! Bruno continua a conversar com uma plateia de crianças imaginárias... - Mas afinal, o que está por detrás daquela parede? - Ali vai começar uma aula de ballet. - Ballet? O que é isso? Alinhados no palco 6 bailarinos vão fazendo exercícios com o auxílio de outras tantas barras. A parede de madeira crua de há momen-

Paulo Ribeiro Em Junho de 1977, por despacho do então Secretário de Estado da Cultura, David Mourão-Ferreira, foi fundada a Companhia Nacional de Bailado, que se apresentou publicamente pela primeira vez no Teatro Rivoli, no Porto, com estreia oficial em Dezembro desse mesmo ano, no Teatro Nacional de São Carlos. No ano em que comemora os seus 40 anos de actividade, o bailarino, coreógrafo, professor e programador cultural Paulo Ribeiro, assume a direcção artística da Companhia, substituindo Luísa Taveira que a dirigia desde 2010. Com um percurso invejável no mundo da dança que lhe granjeou diversos prémios internacionais, desde logo na sua estreia em Paris como coreógrafo no Concurso Volinine, Paulo Ribeiro acedeu a conversar com a BICA sobre este novo desafio e sobre os 18 anos que dedicou a Viseu, ao Teatro Viriato e à sua Companhia de Dança. Bica: Comecemos por esta mudança, da Direcção do Teatro Viriato em Viseu para a Companhia Nacional de Bailado, aqui em Lisboa, que acaba por constituir um reconhecimento do teu trabalho de muitos anos. Como é que encaras este desafio? Paulo Ribeiro: O desafio foi completamente imprevisto. Eu não estava nada à espera, aliás, foi um convite feito de uma semana para a outra. Mas, não escondo que tinha uma enorme vontade de voltar a trabalhar com uma companhia de dança com uma dimensão maior e guardava uma grande saudade dos meus tempos na Gulbenkian, porque o que me está no ADN é a dança. Por outro lado, foram 18 anos em Viseu e 18 anos completam um ciclo que é saudável que se termine dando lugar a outras pessoas. Bica: Deixa-me interromper para perguntar se essa transição está salvaguardada?

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- Quero ser bailarino do que me vai na alma.


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tos transforma-se num espelho gigante para onde os bailarinos vão olhando no intuito de corrigir posturas e pormenores. Hoje é o primeiro dia de ensaio no palco do Teatro Camões, depois de dias e dias de preparação nos estúdios da Vitor Córdon, a sede da Companhia Nacional de Bailado. 1HD Uma História da Dança é um espectáculo para crianças, ou melhor, para famílias, ou melhor ainda para todas as pessoas de todas as idades, que nos conta a evolução da dança, dos dias de hoje até ao Renascimento. Exactamente assim, detrás pra frente. O ponto de partida é um livro que um grupo de crianças vai lendo, no intuito de descobrir a resposta à pergunta “porque é que as pessoas dançam?” e que serve de guião a esta viagem pela história da dança, de Pina Bausch à dança renascentista, passando por Marta Graham, Isadora Duncan, pelo bailado clássico, pela dança romântica e pelo barroco. Muitas das grandes interpretações de sempre passarão em vídeo, numa enorme tela que Marta Carreiras conciliou com um cenário antigo, em madeira. “Achámos que era engraçado mostrar, visualmente aos miúdos, o lado de lá. Ainda por cima propondo coisas que eles já não vão encontrar na cenografia actual.” Explica-nos. “Como a peça atravessa os tempos para nos contar a história da dança quisemos que essa história mostrasse também a história do lugar da dança. Dos teatros e de como se iluminavam, de como se de-

coravam, de como se construíam os cenários. Tudo isso tentámos trazer para aqui, pensando que seria bom mostrar os dois lados: este mais antigo, mais artesanal, e depois o mais moderno, com o vídeo e a projecção que, no fundo, correspondem à linguagem desta geração mais nova. Pensámos que seria importante mostrar que mesmo o tecnológico tem de ter uma superfície por trás e essa superfície pode ser tradicional.” A ligação entre Marta e Bruno Cochat, coreógrafo da peça, já vem de “outros carnavais”, de muitos espectáculos produzidos e pensados em conjunto, numa relação de cumplicidade artística que transparece durante todo o ensaio. Numa pausa, pedimos a Bruno que nos explique melhor este 1HD Uma História da Dança. “A proposta deste espectáculo é fazer um passeio pela história da dança, numa viagem detrás pra frente. Começamos nos dias de hoje com a construção de uma coreografia em tempo real, que só estará pronta no final do espectáculo, porque vamos buscar a inspiração à própria história da dança. Para isso vamos percorrê-la através das minhas referências pessoais, por isso lhe chamo “uma história da dança” e não “a história da dança”. Essas referências vão de Pina Bausch à Marta Graham, passando pela primeira pessoa que rompeu com os clássicos, que foi a


A primeira cena é passada nos Estúdios Vitor Cordan onde ensaiamos e depois passamos para o Teatro Camões, depois vamos viajar no tempo e no espaço e vamos à Grécia, a São Petersburgo à estreia do Lago dos Cisnes no Mariinski, que é um momento de ficção, obviamente. Depois vamos ver alguns momentos em vídeo, como a “Morte do Cisne” da Pavlova numa gravação de 1924. É com esta interactividade, com esta mistura entre o que se passa no palco e o que vai sendo projectado na tela, que pretendemos captar a atenção dos miúdos.” Porquê um espectáculo para crianças? “Eu tenho trabalhado muito em espectáculos para crianças. Aliás, já fiz um aqui, em 2006, chamado Carpe Diem, sobre o prazer da dança. E para mim, é muito importante que os miúdos percebam que a dança é uma coisa intrínseca ao ser humano e que acaba por estar muito posta de parte porque temos vergonha, porque achamos que não sabemos dançar. Eu ainda hoje tenho vergonha. A vergonha faz parte do ser humano, mas não nos pode travar. A vergonha é um medo, uma fobia daquilo que os outros pensam, ora se não podemos controlar o que os outros pensam para quê ter medo?” Quem o diz é Bruno, que começou a dançar aos 9 anos, numa época em que não era fácil para um rapaz assumir que andava a aprender ballet. “Gozavam comigo, levava pancada na escola. Mesmo no Liceu ninguém sabia para onde é que eu ia. Saía às quatro da tarde para ir para a escola da companhia e só o director de turma é que sabia para onde é que eu ia.” A decisão de se tornar bailarino, tomou-a depois de mais de duas horas e meia de absoluta concentração e deleite, em frente à televisão a preto e branco lá de casa, assistindo a uma representação do “Quebra Nozes”. Os pais, habituados aos devaneios infantis de Bruno lá disseram que sim à sua insistência em querer ser bailarino, mais na expectativa de

Paulo Ribeiro: Completamente. Aliás, desde a primeira hora que estava salvaguardada. A partir do momento em que eu fui convidado, já sabia como é que as coisas podiam acontecer e o que é realmente fantástico no Teatro Viriato é que a mecânica daquela equipa é tão boa, funciona tudo tão bem, que mesmo só com os recursos internos podíamos dar resposta a este desafio. Bica: Tendo sido tão repentino e surpreendente, como é que reagiste a este convite para vires dirigir aquela que é a mais importante e, infelizmente a única, companhia portuguesa de bailado? Paulo Ribeiro: Quando recebi o convite fiquei muito satisfeito porque já estava a planear regressar a Lisboa. Depois veio a preocupação imediata de deixar tudo bem organizado em Viseu, na Escola - referindo-se Escola de Dança Lugar Presente, que fundou em 2005 na Companhia - Companhia de Dança Paulo Ribeiro, fundada em 1995 - no Teatro Viriato e na cidade, que foi uma cidade que me foi muito propícia e que me acalentou imenso. Essa foi a primeira preocupação. Quanto à Companhia Nacional de Bailado, a Luísa já tinha deixado o ano de 2017 orientado e com a programação delineada e como sei que esta é uma casa complexa, muito grande, com uma dimensão completamente diferente, com procedimentos específicos que têm a ver com a função pública, preocupei-me essencialmente em adaptar-me a esta nova realidade. Estou numa fase de estudo e habituação. Bica: Mas já focado na programação para 2018, não? Paulo Ribeiro: Para conseguirmos bons coreógrafos para 2018 já estamos um bocado em cima, mas é um trabalho que temos de ir fazendo. Há uma série de coreógrafos que gostava de trazer para trabalhar com a Companhia ou para apresentarem espectáculos e que já não podem no próximo ano, então temos de começar a organizar essas colaborações para 2019 e 2020. Bica: Uma das dificuldades que temos encontrado por parte de diversas direcções na área da cultura é a da incerteza em relação ao orçamento com que contarão para poderem fazer essa gestão de programações, sobretudo internacionais, que exigem uma planificação a médio prazo. Esse é um problema que temes ter de enfrentar na CNB? Paulo Ribeiro: Sei o orçamento que tenho para este ano e que tem transitado mais ou menos de ano para ano e para o qual tem sido essencial o mecenato da Fundação EDP e é com isso que temos de ir trabalhando.

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Isadora Duncan. Depois tento desmistificar um pouco a ideia de que o ballet clássico nasceu do nada, porque antes do ballet clássico havia o bailado romântico, antes disso a dança barroca e ainda antes havia a dança renascentista. Antes disso não havia palcos, embora já houvesse dança, obviamente, e por isso esta minha história da dança vai até aí, porque é no Renascimento que se começa a pensar a dança como arte performativa, com necessidade de coreógrafos, de mestres de dança e com a percepção de que os bailarinos tinham de estudar e de saber música.


que a vontade da dança se desvanecesse como acontecera com a de ser flautista ou judoca ou jardineiro, do que crentes nas reais intenções do garoto. A verdade é que foi e lá ficou para a vida. Dos 11 aos 16 anos esteve na CNB depois, fez audição para o Ballet Gulbenkian e entrou. Esteve lá 2 anos, dos 16 aos 18. Gostou muito, mas queria fazer outras coisas. “Coisas minhas, mas faltava-me teoria, porque o ensino hoje é muito melhor, mas na altura, as escolas de dança ensinavam dança, ponto. Não tinham filosofia, não tinham história, não tinham música, nada. Portanto, fiz o liceu normal na António Arroio e depois fiz a Escola Superior de Dança, já na perspectiva de querer criar coisas minhas, querer fazer espectáculos meus, querer viajar o mundo.” Esta ânsia pela descoberta levou-o para o estrangeiro, mas por pouco tempo. “Sempre tive esta mania de querer fazer as coisas por aqui. Não é propriamente o país mais fácil para a dança, mas gosto de fazer aqui, porque acho que a solução não pode ser irmos todos para fora.” Por isso foi ficando e ainda bem!

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1HD Uma História da Dança Teatro Camões 28 de Janeiro a 3 de Junho às 16h Coreografia e Direcção Artística – Bruno Cochat

Bica: Então, em 2017 toda a programação é ainda da responsabilidade da Luísa Taveira? Paulo Ribeiro: Inteiramente e sem espaço para mais nada. Vamos estrear uma peça para público jovem em finais de Janeiro e outra para o público mais tradicional, ambas com dispositivos cénicos pesados e complicados e estamos a fazer coabitar estes dois universos aqui, no Teatro Camões. Depois, vamos numa tournée pelo país fora em que apresentaremos cerca de 70 espectáculos em 4 meses, que correspondem a 4 programas a acontecerem ao mesmo tempo! Entretanto vamos ter o Festival ao Largo e logo a seguir, temos duas criações novas que apresentaremos em Setembro. Portanto, não há espaço para mais nada. Bica: Regressando ao teu trabalho na afirmação de uma cultura de dança no interior do país, quais foram as principais dificuldades que encontraste para desenvolver um projecto tão vasto como o que acabaste por concretizar em Viseu e que implicou a fundação de uma companhia de dança contemporânea, uma escola de dança e a direcção do Teatro Viriato? Paulo Ribeiro: A dificuldade maior que encontrei em Viseu, logo no início, foi o facto de não existir o hábito de apresentações regulares. Não falo da apresentação de espectáculos e


Bica: É a universalidade da cultura... Paulo Ribeiro: Sim, porque hoje em Viseu as pessoas já têm um olhar crítico esclarecido, informado, mas não podemos esquecer que isso se deve a um trabalho de 18 anos! Atingiu a maioridade. (Risos.) Bica: Achas que é mais fácil, numa cidade pequena, conciliar esforços e vontades em prol do desenvolvimento cultural, até por uma eventual maior proximidade com autarquias, instituições e possíveis mecenas? Paulo Ribeiro: Sinceramente não sei. Não sei se essa proximidade é tão real quanto isso, porque se um Presidente da Câmara não está voltado para aí, não se consegue ter acesso mesmo que se faça uma espera na rua. Já quando se trabalha numa casa como esta, temos acesso ao Conselho de Administração e as coisas acabam por acontecer. Por isso não sei. Já quanto a falar de desígnios para cultura é sempre um discurso muito estranho, porque normalmente se mistura muito animação cultural com programação cultural. Ora uma coisa é festa, é entretenimento outra é o trabalho de sensibilização, de preparação das pessoas e isso obedece uns critérios e a

um olhar completamente diferente. Hoje em dia está muito em voga falar-se de indústrias culturais o que na prática significa falar em entretenimento, em algo para “encher o olho” e a cultura não é pão e circo. Há que ter cuidado com estas coisas demagógicas que se põem em cima da mesa para a boa consciência, quando no fundo se está a optar pela via mais fácil e mais imediata. No nosso caso, em Viseu, o que foi muito bom foi terem-nos deixado trabalhar. Nós apresentámos um projecto, esse projecto mereceu a confiança das várias tutelas e deixaram-nos trabalhar. Isso foi óptimo porque permitiu realizar este trabalho de 18 anos. Isso é muito importante: dar autonomia às equipas. Bica: Ou seja, não interferir acaba por ser a melhor forma de ajudar... Paulo Ribeiro: Sim. Até porque os programadores culturais, as pessoas que estão neste meio, são especialistas, são pessoas que andam nisto há muito tempo e por isso são as pessoas indicadas para realizar estes projectos. Eu ando nestas dinâmicas há 38 anos! Primeiro como bailarino de várias companhias, depois como coreógrafo. Trabalhei para grandes companhias lá fora e via como é que funcionavam as orgânicas daquelas casas, por isso também tive um olhar diferente quando voltei e fui para a Companhia de Dança de Lisboa e depois para a Gulbenkian. Esta foi sempre a minha vida. ca: Com esse trajecto tão ligado a estas dinâmicas culturais, como é que vês o quadro da cultura em Portugal no actual momento? Paulo Ribeiro: Acho que temos dado um passo para frente e vários para trás. No final dos anos 90, durante o primeiro governo do António Guterres, deu-se um passo muito grande no sentido da descentralização, da abertura de equipamentos a todo o país e de uma estruturação das atividades das companhias e da sua articulação. Depois demos vários passos para trás. Enfim, não vale a pena fazer o inventário histórico desta caminhada, mas considero que nesta altura estamos num momento propício para se dar um passo em frente, porque há, da parte da tutela, um olhar especializado, ou seja, temos pessoas a desempenhar cargos na área cultural, que conhecem o meio e a realidade e têm projectos e vontade de fazer. Isso dá-me imensa esperança no futuro.

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sim de dinâmicas culturais, porque, digo muitas vezes, o que acontece no Teatro Viriato, o que é apresentado no palco é talvez um quarto de toda a dinâmica que gira à sua volta, com a comunidade, com acções de sensibilização nas escolas, com uma série de atividades que contribuíram para desmistificar, para aproximar as pessoas da dança e das outras artes cénicas, retirando-lhes aquele cariz elitista que tinham. Portanto, no início, o Teatro Viriato como novidade que era, tinha um público mais institucional, que ia ver aquilo de que já tinha ouvido falar, a Companhia Nacional de Bailado, o Ballet Gulbenkian, uma peça com um actor ou actriz conhecidos. Isso mudou! Aliás, nós tínhamos um público no início que era dos quarenta para cima e agora é absolutamente eclético, de todas as idades e classes sociais. A conquista da confiança foi algo de extraordinário. A partir de certa altura, mesmo quando as pessoas não conheciam a companhia, ou a peça, tinham curiosidade em ir, porque o facto de estar programada no Teatro Viriato lhes dava uma garantia de qualidade. Por exemplo, mesmo com a minha companhia, qualquer estreia que fizesse estava sempre esgotada e para mim, estrear em Viseu passou a ser um termómetro de avaliação da peça que tinha nas mãos, porque o público de Viseu reage como o público de Lisboa ou como o público de Paris.


Noite_05©Centro Cultural de Ílhavo

Espaço Absoluto por Duarte Bénard da Costa

Referências de um ano de dança 2016, Lisboa. Teatro Municipal São Luiz. Quem dança é a companhia Circolando, que desceu pontualmente à capital, e a dança chama-se Noite, de André Braga e Cláudia Figueiredo; baseia-se na poesia de Al Berto: A noite incendeia o lado esquivo do coração. Este será o primeiro de alguns momentos de dança, e em geral de arte performativa, a que me vou referir, por ordem cronológica.

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Noite, se a dança for a própria vivência em palco; se for possível Al Berto em movimento e evidência. O São Luiz recebeu uma dança cuja base são diários, lunários e anjos mudos, cujos gestos ultrapassam as palavras do poeta. Noite, onde a máxima delicadeza existe com a animalidade humana; onde os pêssegos, a seiva, o néon dançam pelos instintos. Noite porque os corpos – dançaram. Porque música (um Beethoven tão electrónico quanto electrificante), dança e poesia se fundiram em corpos e noite – a noite incendeia... 2016, Lisboa. O festival Alkantara. Duas semanas de dança e teatro e performance. O programa do Alkantara, completíssimo. A ideia que fica do festival que passou é a ideia de totalidade. O seu início com a peça de Christiane Jatahy, E se elas fossem para Moscou, foi muito bem conseguido, porque Jatahy utilizou elementos físicos de formas tão variadas que víamos tanto teatro, como

Noite_03©José Caldeira

dança, performance, ou mesmo um filme – e essa é a essência do festival. 2016 foi, em Lisboa, o ano de Tchekhov: desde Se alguma vez precisares da minha vida vem e toma-a, de Victor Hugo Pontes, baseada na peça Gaivota, no Centro Cultural de Belém, até à representação no São Luiz das Três Irmãs pelo espectáculo de Christiane Jatahy e à interpretação pelos tg STAN do Cerejal, no Teatro Nacional D. Maria II – este foi um ano de Tchekhov. O Alkantara foi duas semanas de intensidade: ao fim-da-tarde ia-se ver um espectáculo e à noite ia-se para a sala-estúdio Mário Viegas no São Luiz, ponto-de-encontro do festival e onde todas as noites um artista punha música – e onde, claro, se dançava. Os espaços de apresentação eram espaços de corpo e movimento, o ponto-de-encontro tornou-se também lugar de corpo e dança, lugar de acção e exercício. Era um lugar de reunião e encontro. Os artistas estrangeiros e portugueses, os espectadores, os organizadores do festival, muitos se juntavam nesse espaço, para comentar, discutir, ou simplesmente para dançar. De todos espectáculos, falta destacar a dança de João dos Santos Martins e Cyriaque Villemaux, Auto-intitulado, onde num estilo muito depurado e limpo estes bailarinos dialogaram com gravações de movimentos e os retomaram em repetição; falta referir About Kazuo Ohno, uma performance de Takao Kawaguchi, cujos movimentos são «copiados» de Kazuo Ohno, mestre do butô. Kawaguchi revelou-se em Lisboa com um espectáculo extremamente sensível e íntimo, de gestos longos e lentos a par de movimentos acutilantes e intempestivos. Lisboa, 2016: Culturgest, Vortex Temporum. Dança e música no vórtice dos tempos de


Noite_02©José Caldeira

Anne Teresa de Keersmaeker e de Gérard Grisey. Uma dança que começa sem bailarinos, apenas músicos; de seguida estes saem e surgem os bailarinos, que não dançam mas encarnam os músicos, não com música mas através de movimento. Um espectáculo de limites, um jogo entre o conforto atento e o desconforto: o limite da audição e da visão são ultrapassados várias vezes e perdemonos no vórtice da fusão entre a dança de Keersmaeker e a música de Grisey. Um último momento que cabe referir passouse na garagem da Culturgest. Em Dezembro, Boris Charmatz apresentou manger: e o este texto torna-se circular, porque a coreografia de Charmatz é tão real e crua quanto a dança de Circolando. Em manger, comia-se, tão simplesmente assim, e comer é ser instinto e viver animal. Nesta dança, o choque entre a música sacra e romântica com a voragem dos intérpretes era evidente e perturbador. Ao conjugar ambientes tão antagónicos, Charmatz criou uma dança de fusão entre o espiritual e o fisiológico; mais do que todas as outras danças deste ano, criou uma dança de humanidade.

nunca há caça suficiente – os espectáculos de dança são mais ou menos assim: nunca os há suficientes, e quando há, não se sabe deles, não se conseguem apanhar. Outro paralelismo que ocorre quando se fala de dança e caça está na imagem de grandes manadas de antílopes e no momento dos festivais de dança – significa a grande manada que na área em volta não haverá antílopes, significam os festivais de dança que serão raros os espectáculos antes e depois do festival. A sensação de vazio que os dois meses pós-Alkantara nos deixam é equivalente à sensação deixada pela paisagem abandonada pela grande manada. 2017, Lisboa, futuro. Um outro ano e continuamente novas formas de pensar a dança; re-pensemos o lugar concedido à dança pelo espaço urbano e social – o seu espaço absoluto; reformulemos os ritmos da dança e da sua apresentação. Há que acolher a dança e o movimento, em recusa da mecanização do corpo. E há que estar atento. Ir seguindo, com todo o cuidado, as programações, os eventos, o que acontece, o boca-a-boca. E ir dançando, sempre dançando.

Porque, na verdade, a situação da dança remete-nos para a situação da caça, em que nunca há presas suficientes: há uma semelhança entre os espectáculos de dança e a caça: são ambos difíceis de encontrar e difíceis de apanhar. Nunca cacei, mas dizem outros que a sensação mais natural é a de que

Culturgest. Espectáculo: Vortex Temporum

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É necessário ainda fazer com um apontamento sobre a situação da dança. Deve referir-se alguns espaços de tamanho menor mas com um fulgor semelhante, tais como a Rua das Gaivotas, ou o Negócio-ZDB, que têm apoiado e servido como o suporte de apresentação de artistas performativos nos últimos tempos, de forma muito meritória.


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entrevista

SALVADOR SALAZAR por Bernardo Mascarenhas de Lemos cedidas por Salvador Salazar e António Garcia

Surrealismo e sub realismo são conceitos que a sua mente adora desafiar e aos quais eu me desafiei na sua companhia. (E se achou este parágrafo confuso pergunto-lhe se a confusão é real ou apenas parte de uma debilidade cognitiva. Afinal de contas o que é confuso?) O designer chama-se António Garcia. É tão criativo como o seu homónimo responsável pelos maços de SG Ventil (para perceber terá de ler a entrevista). Dizse inquieto. Com o Mundo, com tudo! Quer viver intensamente procurando novas aventuras e novos desafios, numa tentativa de se exceder a si mesmo. Como aliás aconteceu quando foi percorrer meio mundo durante seis meses, solo. O António não pára e não querer parar. Entre o design e a pintura de grandes murais, preocupa-se com o tempo, uma noção que acredita, estar cada vez mais esquecida.

Como surgiu a paixão pela pintura? Sempre pintei desde miúdo. Sempre desenhei e sempre estive inclinado para o mundo das artes. Será que isso teve alguma influência? Não sei, acho que foi uma coisa natural.

Quais as técnicas artísticas que mais gostas de utilizar? Gosto muito de desenhar, sobretudo a carvão. De trabalhar com acrílico, aguarela e lápis de cor. Gosto da gravura enquanto técnica, mas adoro descobrir novas técnicas misturando diferentes materiais. Hoje em dia ando a experimentar escultura: barro e gesso mas ainda estou numa fase de experimentação.

Tens algum artista que te inspire particularmente? Edvard Munch e a suas gravuras. Magritte, não sei bem como mas ele inspira-me de alguma maneira. Depois, Picasso. Não tanto pela sua arte mas pela atitude que sempre teve. Explorou vários estilos, esteve sempre à frente, foi um verdadeiro vanguardista. Portugueses: Helena Almeida e Paula Rego.

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Num atelier meio escondido na Ajuda, tenho dois grandes amigos. Um é pintor, o outro é designer, ambos são artistas. O pintor chama-se Salvador Salazar e garante que nada neste mundo é 100% real. Seja no amor, nas amizades, no trabalho ou nas banalidades do dia a dia. Lidar com este mundo falso só tem uma solução: refugiar-se num outro. De preferência criado por si. Encontra assim reconforto em universos paralelos e aprecia as loucuras da não realidade (o que quer que isso signifique). O Salvador acha que entre a tela e a parede está o subconsciente da tela.


Podes falar-nos um pouco sobre a tua última exposição? Foi na galeria Wozen e contou com a participação de vários artistas emergentes. O tema central foi “O Universo Surreal - Entre o Delírio e o Absurdo”. A exposição aconteceu em vésperas do centenário do surrealismo como forma de o reviver. Na exposição estavam dois trabalhos meus à volta do surrealismo, é claro. Uma pintura de 2mx2m e 10 gravuras. Podem visitá-la até ao dia 20 de Janeiro nas janelas Verdes em frente ao Museu Nacional de Arte Antiga.

Ser artista em Portugal? Não é nada fácil, sobretudo, no principio. Até porque não vim de Belas Artes onde sempre é possível ter professores que nos ajudam e entrar no meio artístico. Não saí dessa incubadora e por isso foi mais difícil, tive que trabalhar mais. Aquilo que faço para ser artista é ser pró-activo, fazer muitas coisas, criar e criar. Desafiar-me e romper comigo mesmo.

Segredos para pintar bem ou mal pintar? Cada um tem o seu segredo/método que pode nascer do nada. Não há segredos, o que conta é a tua percepção. Claro que convêm seres sensível e a prática ajuda: repetir, repetir e repetir. Por isso, respondendo à pergunta directamente, acho que não há segredos.

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Realismo ou Surrealismo? Realismo? O que é isso? Se pensarmos bem, nada é real: o amor, o trabalho, o dia a dia, as amizades, nada é 100% real. Alcançar isso através da arte seria uma grande hipocrisia. Escolho o surrealismo: ele dá-me outro perspectiva e permiti-me descobrir um uni-

verso novo. Gostava no entanto de falar no subrealismo, um movimento que estou a criar que nasce da sub-consciência, consciente. O Codex Lazarus é uma consequência de tornar consciente um processo subconsciente.

Achas que acontece alguma coisa entre a tela e a parede? Acho que sim! Está lá o subconsciente da tela. Partilhas o teu estúdio com nove outros artistas. Descreve-me, numa palavra só, o teu espaço de trabalho. Missa.

Objectivos futuros? Conseguir viver da arte que crio. Não ter um patrão, ser dono de mim mesmo. Participar em projectos interessantes e desafiantes. Produzir, produzir, produzir: expor, expor, expor. Tenho a obsessão de fazer e criar novas obras, e a verdade é que quanto mais produzes mais cresces enquanto artista.

Alguma mensagem para o ministro da cultura? Senhor Sujeito: apoios mais concretos. Mais bolsas, mais concursos públicos. Investir financeiramente. A cultura é coisa mais importante numa sociedade e é aí que se deve fazer o investimento. Mais cultura é igual a mais sabedoria e uma população menos instruída causa o Caos.


entrevista

António Garcia

Sendo o meu pai arquitecto, fez-me crescer curioso pelo mundo das artes. Sempre tive um gosto especial por marcas e tinha vontade de um dia poder a vir a trabalhá-las. Inevitavelmente o meu percurso escolar passaria por aí e acabei por tirar o curso de design de Comunicação. Ser amigo do Salvador Salazar também me ajudou a entrar neste universo criativo. Quando éramos mais novos passávamos horas a trabalhar, a produzir, a criar marcas, projectos que acabaram por não ver a luz do dia. Por puro divertimento, vontade de fazer e como exercício de criatividade.

Tens algum designer que te inspire particularmente? Sagmeister & Walsh é um cliché mas não posso deixar de o referir, sobretudo pela irreverência. Parece sempre que se antecipam no tempo. Têm uma capacidade de arriscar, com a qual me identifico. Em Portugal tenho obviamente de falar de António Garcia, meu homónimo mas sem relação familiar. O homem que desenvolveu toda a imagem dos maços de SG Ventil e a par de Sebastião Rodrigues, são parte da vanguarda do design

em Portugal e referências que me veem rápido à memória. Nos dias de hoje é diferente. A inspiração é constante, vinda dos quatro cantos do mundo. As redes sociais vieram permitir o acesso a artistas/designers de todo o mundo e através de um scroll down rápido, é possivel beber de tudo um pouco sendo sempre pessoas/estúdios/artistas que fomos nós que escolhemos seguir, porque apreciamos o seu trabalho.

Sabemos que também pintas murais. Se no futuro pudesses escolher dedicavas-te exclusivamente a isso? É me difícil responder a isso. São duas áreas que acabam por se complementar um bocado. Toda a concepção da pintura mural tem muito o meu lado designer, uma visão mais gráfica aliada à sensibilidade artística. São coisas que até podem surgir juntas num só projecto.

Qual o foi o teu maior desafio na pintura de mural? Cada parede e cada projecto tem os seus próprios desafios. Todos os que tive tem a sua história e todos foram desafiantes à sua

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Como surgiu a ligação ao mundo artístico?


ANTÓNIO GARCIA Portfólio online: Inquieto.pt Facebook: @Inquieto.pt Instagram: Inquieto.pt Email: agarcia@inquieto.pt

maneira. O trabalho que desenvolvi no restaurante “À Terra” do Furnas Boutique Hotel nos Açores, em colaboração com a Nini Andrade Silva, foi um grande desafio pelos prazos em questão. Entre o primeiro contacto e a entrega do projecto era uma só semana. Comunicaram-me na sexta feira, fui para lá no domingo, as tintas só puderam sair de cá na terça-feira e na quinta-feira era o soft opening do hotel. O restaurante El Bulo, do Chef Chakall foi diferente. Não só pela dimensão da parede como pela responsabilidade de executar a peça que é a identidade do restaurante. O trabalho para a Universidade Nova deume um gozo particular por estar a trabalhar uma marca com bastante alcance para um target mais jovem.

SALVADOR SALAZAR Facebook: www.facebook.com /ssalazare/?fref=ts Instagram: @ssalazare.

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E-mail: salazarebox@gmail.com

Fala-nos do “INQUIETO”. Num percurso de aprendizagem constante, ser inquieto é a melhor maneira de se fazer mais coisas, de cumprir objectivos, de aprender sempre mais e, com isso,chegar mais longe. O nome veio com uma viagem que fiz durante seis meses pela América do Sul. Surge de e para a viagem. A página “INQUIETO SUDAMERICA” foi a maneira simples de comunicar com quem ficou, parte da experiência que foi a viagem. Inquieto representa-me e demonstrava bem o que iria ser a minha viagem já que andaria sempre de um lado para o outro, de país em país. Palavra lida e interpretada de igual maneira nos dois idiomas que iria cruzar, e numa brincadeira linguistica surge a frase “Inquieto

goes In Quiet to Sudamerica” que dá o mote à viagem. Volvido a terras lusas e dado o impacto que a palavra e a viagem tiveram em mim, não me fazia sentido abandonar uma palavra de fonética tão acentuada, que me representa e me faz ir mais longe.

Como vens parar a um atelier que partilhas com outros nove artistas? A experiência de viajar por esse mundo sozinho fez-me perceber que se perdeu a noção do que é ter tempo próprio. Ninguém tem tempo. Eu mesmo estava assim nos sítios onde trabalhei. Deixou de haver tempo e as pessoas deixaram de se preocupar com isso. Estar por conta própria faz com que seja eu a fazer toda essa gestão. Vir para o atelier permite-me trabalhar em projectos enquanto freelancer e ao mesmo tempo ter espaço para desenvolver as minhas ideias, num lado mais plástico da experimentação.

Objectivos/Ambições para o futuro? Neste preciso momento quero construir uma base sólida. Tentar ganhar mais clientes. Estar envolvido em vários projectos e ganhar ainda mais experiência, para que um dia seja mais fácil concretizar o desejo de ter a minha própria agência e ter comigo uma equipa capaz de apresentar as melhores soluções ao cliente.


UM FEMINISMO TRANQUILO por Graça Canto Moniz

“Certain women” é o título de um filme de Kelly Reichardt de 2016. Baseado em short stories de Maile Meloy, conta pequenos episódios da vida de três mulheres que ocupam o ecrã de Reichardt através da excelente representação de Laura Dern, Kirsten Stewart e Michelle Williams, no cenário do agreste e gélido Estado de Montana. Muito tem sido escrito sobre este filme: que é sobre frustrações e falhas de comunicação ou oportunidades perdidas de relacionamento; que é sobre pequenas e breves demonstrações de empatia e, sobretudo, que é sobre um feminismo tranquilo por explorar histórias de mulheres angustiadas (ainda que não assumidamente) mas corajosas, cujas presenças físicas são frágeis e contingentes, com frequência negligenciadas até no panorama do cinema indie. significa o sacrifício e a luta do dia-a-dia. A intenção de Ferrante e Roth será a de passar uma ideia de mulheres imunes a sentimentos como a tristeza ou a melancolia, fraquezas demasiado mundanas e mesquinhas. São mulheres de princípios e sólidas convicções que procuram praticar todos os dias, à medida que enfrentam as adversidades da vida. Pensando bem, o ponto em comum entre Reichardt, Ferrante e Roth é esse exercício de dar voz a partes interiores destas mulheres (e de tantas outras que se revêm em Elena ou em Lucy) que são abafadas pelas próprias e oprimidas por terceiros, mas que deviam ser conhecidas por todos nós. Uma espécie de feminismo tranquilo.

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Estes aspetos, a desarmonia familiar (sobretudo na vida da personagem de Williams), a persistência, o esforço permanente em agarrar e (re)construir estruturas sólidas de caráter e de identidade como uma espécie de salvação, são traços de personagens de dois livros que li nos últimos tempos: Elena Greco e Lila Cerullo, de Elena Ferrante, ou até da Lucy, de Philip Roth em “Quando ela era boa”. Nestes dois casos, as personagens femininas são jovens e fortes, mas desprovidas de qualquer garotice e, por isso, sempre dispostas a arregaçar as mãos para o trabalho duro que lhes permite alcançar um patamar de dignidade e integridade superior. Ao mesmo tempo, experimentam uma dor quase insuportável, sabendo como ninguém o que


Uma nova Lisboa E a visão de pássaro

01

por Veronica Mello

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Joana Portela

Lisboa tem, nos últimos dois anos, visto abrir novos restaurantes, lojas e hotéis. Chegam a cada dia, turistas e novos lisboetas de sotaques difíceis. O mundo da arte não é excepção a este crescimento e poderia até dizer-se que observamos a cosmopolitização de uma cidade que muitas vezes se descreveu como pitoresca. Já não é esse o adjectivo que se utiliza, mas sim contemporânea. Lisboa está uma cidade contemporânea com uma vasta gama de eventos culturais a acontecer cada noite, com exposições de arte contemporânea que passam por capitais europeias ou partem daqui para o mundo. Museus que mu-

daram a relação com a frente ribeirinha e galerias que dinamizam bairros. Há uma nova geografia cultural. Entre os vários elementos de construção de cidade há um novo Museu com uma programação bem estruturada, a mostra de artistas internacionais faz parte do seu programa. O Maat veio para lembrar os portugueses que a cultura é importantíssima, que as cidades devem equipar-se com estas instituições para se alimentarem e para crescerem correctamente. Também as antigas carpintarias de São Lázaro na zona do Martim Moniz, um pólo da cidade que cresce a cada dia com uma população heterogénea em idade e origem, com as diferenças culturais das variadas nacionalidades que habitam esse espaço da cidade abre portas, hoje redefinida como Centro de


Arte Contemporânea, e a sua abertura cristaliza-se ao longo de um ano. A exposição de abertura é da autoria de Los Carpinteros, dupla cubana com atelier desde os anos 90 a trabalhar entre Havana e Madrid. As Carpintarias propõem um novo olhar e em Maio ainda no âmbito da Capital da Cultura que Lisboa preside desde 7 de Janeiro de 2017, as Carpintarias inauguram, com um trabalho de Alfred Jaar, um exposição intimista que questiona a historia contemporânea do Chile, país de origem do artista. Galerias novas abrem portas também em Marvila, Francisco Fino na Madragoa, o Acervo em Santos, Galeria Barbado em Campo de Ourique e Vera Cortes uma galeria já estabelecida muda de espaço para Alvalade, bairro que irá receber uma galeria espanhola com abertura na altura de ArcoLisboa. Maio é o mês que transforma a cidade em termos de mercado de arte. Desde 2016, a feira espanhola ARCO, tem uma edição em Portugal. Este acontecimento tem grandes consequências numa cidade que não tinha sequer uma feira de arte contemporânea há alguns anos. Muda o panorama actual, dinamiza e cria interesse internacional numa produção nacional que tem muita qualidade e que muitas vezes não é conhecida lá fora. O que a feira também faz a cidade é criar um magnetismo a este evento cultural que reforça a importância da arte contemporânea, colecionadores, curiosos, comparadores, turistas passeiam-se durante essa semana pelas ruas de Lisboa à procura do que as galerias, ateliers, centros independentes de arte têm para oferecer. Vêm à procura do aspecto diferenciador, a nossa posição em relação a um mercado brasileiro e africano, posicionanos como plataforma única na Europa. Os artistas internacionais também procuram Portugal para viver e trabalhar, por razões por vezes contraditórias. Se alguns chegam pela atração das rendas baixas, outros fazem-no para poder produzir o seu trabalho numa cidade que lhes dá garantias de qualidade que os seus países de origem não podem dar. Uma visão de pássaro veloz como um voo é subjectiva e não completa, mas deixa um primeiro olhar sobra a cidade de Lisboa do ponto vista da arte contemporânea.

Fotografia

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01- Carpintarias de São Lazaro_Joana Portela


A PRAÇA DE LISBOA por João Júlio Rumsey Teixeira

O mercado leiloeiro de arte e antiguidades de Lisboa permanece vibrante. O número de peças e o valor em circulação são surpreendentes para um país com o peso actual de Portugal na economia mundial. Mas este é um mercado que, em parte, não vive do país que é, mas sim do país que foi.

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O negócio de objectos antigos e em segunda mão é tão antigo como a vida em sociedade mas a forma de funcionamento actual do mercado leiloeiro definiu-se na segunda metade do século XVIII, de mãos dadas com a generalização do gosto por antiguidades; das grandes vendas proporcionadas pelas constantes revoluções e contra-revoluções que, depois de 1789, aconteceram ao longo de todo o século XIX e XX e, tão relevante como estas, da constante transferência de riqueza para - e entre - a burguesia industrial, financeira e mais recentemente, tecnológica. Segundo Carlos Franco, no livro Casas das Elites de Lisboa, na segunda metade do século XVIII “os leilões [de Lisboa destacamse] pela quantidade de almoedas, aguerrida publicidade (…) e pela diversidade de bens que ali eram comercializados.” A forma como eram organizados mantém-se, na essência, inalterada: “as almoedas ocorriam em dias e horas devidamente anunciados, geralmente durante três dias da semana (…). Alguns promotores do leilão elaboravam “listas impressas” onde constava uma descrição dos bens a leiloar (…). Para além disso, reservavamse dois dias, antes do leilão, para que os interessados pudessem, atempadamente, observar os objectos sujeitos a venda. Aqueles sujeitavam-se a uma avaliação, que, nalguns casos, se impunha que fosse feita por peritos credenciados.” Lisboa foi, muito possivelmente, a cidade mais rica e vibrante do ocidente no início do século XVI. Depois de uma longa decadência torna-se, repentinamente, a capital de um país inundado de ouro. No primeiro quartel do século XVIII gastam-se prodigiosamente as toneladas douradas que chegam em crescendo de um Brasil que, para cúmulo, começa ainda a entregar, aos milhares de quilates, diamantes de qualidade. Rapidamente este momento dourado acaba e, entre

a diminuição constante da produção de ouro e diamantes, a ruína depois do terramoto e a pura incapacidade de criar indústria e comércio relevantes, a cidade torna-se decadente. Na viragem do século XIX sofre a maior humilhação e é abandonada pela corte, invadida, saqueada, palco de revoltas, golpes e guerra civil. Quando tudo se recompõe o Brasil já não faz parte do reino mas o que resta do império vai, milagrosamente, sobrevivendo. A capital e o país regeneram-se e as grandes fortunas burguesas surgem finalmente. Gravitando quase sempre, e perigosamente, à volta do Estado: dos monopólios concedidos pelos governos, dos contratos para a modernização do reino e evidentemente, da banca que financia tudo isto. Uma política que desemboca previsivelmente na bancarrota do início do século XX e na revolução republicana. Mais recentemente há dois ou três momentoschave para a entrada de peças no mercado nacional: os anos da Segunda Grande Guerra em que Lisboa, Estoril e Cascais se tornam, ou a porta de saída da Europa, ou o refúgio final da elite europeia em fuga; as décadas de 1950 e 1960 em que a elite portuguesa conhece uma prosperidade extemporânea, herdeira da magistral diplomacia dos anos de guerra e de uma política proteccionista que, inevitavelmente teria resultados efémeros. Por fim, também os pródigos anos 80 e 90, em que, depois do 25 de Abril e da debandada de pessoas e bens durante os anos do PREC, algumas peças são recompradas por portugueses e trazidas de volta; algumas! Uma história de constantes alto e baixos, momentos de riqueza prodigiosa e penúria miserável que, ainda assim, nos deixou um legado material responsável por mais de dois séculos povoados de colecções e hastas lendárias. Rapidamente lembramos uma pequena parte das mais relevantes: colecção do Conde do Farrobo (ca. 1874), colecção Daupias (1892, 1894, 1910 e 1911), colecção do Marquês Foz (1901), colecção de jóias da rainha D. Maria Pia (1911), colecção Burnay (1936), do Conde de Porto Côvo (1941), palácio de Monserrate (1946), colecção Nolasco (1961) quinta da Fonte Santa (1986), colecção Ernesto Vilhena (toda a década de 1990), entre tantas outras a que se de-


A cidade dos mortos Há uns anos leiloeiras e funerárias pertenciam ao mesmo sindicato, desconheço se isso ainda se manterá mas se assim for parece-me que, apesar de tudo, continua a estar certo. Não sendo cangalheiros dos corpos são, muitas vezes - cada vez menos, é certo - cangalheiros dos despojos. Isto sem o mínimo sentido pejorativo. Tanto os corpos, como os despojos materiais necessitam de um destino. Há quem diga que leiloeiros são zíngaros de fato, que esse mercado aparentemente mágico não passa de uma máquina de facturar e que as obras são apenas o pretexto. Estão, em minha opinião, enganados. Os departamentos de avaliação de uma leiloeira são, por paradoxal que pareça, lugares perigosos tanto para o leigo, como para o académico. Quem lá trabalha tem uma relação ambígua com os objectos o que recorrentemente gera personalidades singulares. É a curiosidade irresistível de poder conhecer todos os dias um pouco mais do que o génio humano foi capaz de produzir que os faz acordar de manhã; mas são essas mesmas peças que os fazem trabalhar como estivadores, intoxicarse com produtos vários para lhes restaurar o brilho e o esplendor; pesquisar, organizar e redigir em tempo recorde informação sobre as peças e o seu percurso. A convivência exaustiva com algumas obras durante curtos períodos de tempo pode causar dilemas e ansiedade mas depois de uma, e sempre mais rápido do que se espera, seguir-se-á outra. E a vida segue porque uma leiloeira não é uma loja, nem deve querer ser. A actividade leiloeira é, na essência, a liquidação de bens materiais pelo melhor preço. É a resposta a uma necessidade prática da vida. E é isto que o galerista, o curador, o académico, o museólogo ou o crítico dificilmente perdoarão!

Comissões & comichões O advento da internet revolucionou o mercado, tornando-o ainda mais democrático do que já tinha acontecido nos anos 80, mas também muito mais transparente; sobretudo pela forma como, de um momento para o outro, os catálogos se puderam tornar acessíveis a todos e não só a uma mailing list que, por mais boa vontade e esforço, seria sempre limitada. Esta foi uma revolução que, nos

anos 90, mostrou de forma clara quem eram os players do negócio mais interessados em servir o cliente. Hoje em dia em Portugal, curiosamente, o mercado leiloeiro de arte e antiguidades é, com certeza, percepcionado pelo público como o mais vantajoso e transparente, justificando-se assim o seu crescimento extraordinário nas últimas décadas. Este caminho foi trilhado pelas maiores leiloeiras de Lisboa e a elas se devem entregar todos os louros. Uma leiloeira ganha dinheiro cobrando comissões sobre o valor de venda, tanto ao comprador como ao vendedor. Durante grande parte do século XX a comissão do comprador foi de 10%, a que se acresciam impostos. No final do século e, em grande parte, para cobrir o aumento do custo de funcionamento das empresas, as comissões subiram para 12% mais impostos. Foram depois sendo actualizadas e rondavam, até há bem pouco tempo, os 14/15% mais impostos na generalidade das casas. Em 2015 uma conhecida leiloeira decidiu adoptar um novo sistema inspirado nas comissões graduais das grandes leiloeiras internacionais. Cobrava-se, antes desta mudança, 12%+IVA sobre o valor de martelo, passando nessa altura a 15%+IVA até 3000 euros, o que estava a par das restantes leiloeiras com a vantagem de que, para os clientes compradores de lotes mais caros, a comissão descia até aos 10%+IVA na parte que excedesse 20mil euros. Desde então e especialmente nos últimos tempos, as alterações nas tabelas de comissão de quase todas as casas leiloeiras têm sido uma constante, em grande parte motivadas pela aposta nos leilões on-line onde se vendem peças de valor mais baixo. É usual cobrarem-se agora comissões de 20% que, depois de acrescentado o IVA, ficam muito próximas de um quarto do valor de martelo: 25%. Na prática, para os clientes de valores baixos e médios, a comissão de compra aumentou - entre 2014 e 2016 - cerca de 65%. Se compararmos com o que acontecia há 20 anos falamos de um aumento muito próximo de 100%. Segundo o Prof. Luís U. Afonso, FLUL, in Os Leilões e o Mercado da Arte em Portugal, o valor médio de venda por lote nas leiloeiras portuguesas era, em 2011, cerca de 1300 euros. Inevitavelmente se levanta a questão de saber se, e de que forma, o público aceitará pagar, sobre o valor em que o pregoeiro bate o martelo, mais 25%.

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vem acrescentar, nos anos mais próximos, algumas importantes colecções vendidas sob anonimado - sinal dos tempos tributários - de onde surgiram importantíssimas peças.


A Música dos Vinhos Ao provar um vinho usamos 4 dos 5 sentidos. Avaliamos cores, aromas, texturas e sabores. E se os vinhos tivessem música?

VINHO TINTO M.O.B JAEN 2013

MÚSICA

Carlos do Carmo, Raquel Tavares – O Que Sobrou De Um Queixume

Ouça aqui!

VINHO TINTO CARM MARIA DE LOURDES

MÚSICA

Diana Krall – Peel Me A Grape

Ouça aqui!

MOSCATEL DSF MOSCATEL ARMAGNAC

MÚSICA

George Michael – Roxanne Jazz

por

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André Pinguel

Ouça aqui!


O M.O.B. Jaen faz parte de uma gama de vinhos interessantíssimos que nasce pelas mãos de 3 enólogos amigos, qualquer um deles responsável por grandes vinhos do Douro. Juntaram-se numa região que não a sua, trazendo cada um a sua experiência e intuição. Fruto de tudo isto, nasce o M.O.B Jaen, feito unicamente a partir desta casta do Dão que demostra um perfil cheio mas vibrante. Que bom vinho! E que bom fado também! Carlos do Carmo e Raquel Tavares emprestam toda a sua alma a esta letra que define o próprio fado. “Fado é amor que sobrou d’algum queixume...”. A mestria no uso das palavras impressiona, bem como o ritmo ligeiro e alegre com que se fala do tema pesado que é o fado. Tanto neste tema como no projecto M.O.B., estamos perante trabalhos feitos a várias mãos. No primeiro caso são dois fadistas com estilos bem diferentes, no segundo três enólogos. Em comum têm o facto do resultado de cada parceria ser maior do que a soma de cada uma das partes envolvidas.

M.O.B Jaen 2013

Um vinho do Douro Superior, feito a partir das castas Touriga Nacional e Touriga Franca, revela muita frescura e uma complexidade elegante. No nariz frutos silvestres e alguma madeira de finíssima qualidade, na boca um corpo muito harmonioso e um final persistente. E no ouvido como seria? Depois de vaguear por alguns nomes e estilos, comecei a perceber que este vinho seria jazz. Talvez sugestionado pelo nome “Maria de Lourdes” achei que seria jazz numa voz feminina, quente e envolvente... começou então a revelar-se com maior nitidez: Diana Krall. O tema Peel Me A Grape (com versões encantadoras em tantas outras grandes vozes do jazz) é ao mesmo tempo uma provocação e chamada de atenção. A interprete reclama em tom quase de ameaça atenções e cuidados ,mas simultaneamente dá a entender que se os tiver a recompensa será uma entrega total deixando revelar o seu melhor lado. Esta ideia enquadra-se muito bem no Maria de Lourdes, um lado menos visível da CARM mas apaixonante depois de conhecido.

CARM Maria de Lourdes tinto 2011 Região: Douro

Castas: 30% Touriga Franca, 70% Touriga Nacional Vinhas: Quinta da Urze Estágio: 24 meses em barricas de Carvalho Francês Álcool: 15% Engarrafamento: Junho 2014 Preço: 30,00€

DSF Moscatel Armagnac Domingos Soares Franco Colecção Privada Moscatel de Setúbal Região: Península de Setúbal Tipo de Solo: Argilo-Calcário Vinificação: Fermentação é parada com adição de aguardente. Neste caso é proveniente da região francesa de Armagnac. O vinho tem uma maceração pelicular de 3 meses. Preço: 19,00€

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A associação entre esta música e vinho é talvez a mais obvia! O tom quente, lento, doce, aveludado e romântico de Roxanne encaixa com alguma evidência no Moscatel de Setubal da José Maria da Fonseca. Mas a ligação é mais profunda, vejamos. Domingos Soares Franco inovou onde era difícil de o fazer. A produção de Moscatel de Setúbal está altamente regulamentada para que se mantenha a genuinidade e o perfil desta categoria de vinhos. Neste contexto de pouca margem de manobra, DSF agiu “out of the bottle” e substitui a aguardente normalmente usada para a produção do vinho por um armagnac, conseguindo assim este fantástico moscatel cheio de frescura e subtileza. Este poder reinventivo foi igualmente bem sucedido na versão que George Michael faz de uma das músicas mais conhecidas dos The Police. A “nova” versão de Roxanne não substitui a anterior, pelo contrário vem até valorizar e demonstrar o seu grande potencial. É exactamente isto que acontece também com o DSF Moscatel de Setúbal Armagnac.

Produtor: M.O.B. Região: Dão Castas: 100% Jaen Enologia: Jorge Moreira, Francisco Olazabal, Jorge Serôdio Borges Preço: 17,50€


Saca-rolhas, Chave da Capital

Fascinado por Saca-rolhas, sempre que posso não hesito em dar um salto até ao mais histórico evento comercial olissiponense, a Feira da Ladra. Segundo rezam as crónicas, nos tempos medievos este mercado ocorria na lada, ou seja na margem, do Tejo, o que teria dado origem ao seu nome inicial, Feira da Lada.

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Séculos mais tarde, depois de ter transitado por vários locais, foi transferida ainda no século XIX, para o local onde até hoje se realiza, no Campo de Santa Clara. Pessoalmente fascina-me esta zona antiga da cidade, a sua História, arquitectura, mo-

Texto e foto por Lopo de Castilho

numentos, nos quais se destaca o Mosteiro de São Vicente de Fora, cujo edifício inicial foi erguido pelo fundador desta Lusa pátria, El Rei Dom Afonso I… e onde se encontra o Panteão Real da Dinastia de Bragança. Mas, às terças-feiras, bem como aos sábados, a somar a estes monumentos de pedra e cal, é aqui que se realiza a Feira da Ladra. Como responsável pelo Projecto Museu do Saca-Rolhas, sempre que posso, não hesito em dar um salto até esta emblemática feira da capital. Não significa isto que por aqui abundem saca-rolhas verdadeiramente raros ou excepcionais, mas ainda assim, com paciência e


atenção, de quando em quando, lá se consegue descortinar uma peça com interesse. Julgo ser este o caso da peça que vos apresento hoje. Em primeiro lugar, foi a 1ª peça adquirida este ano, com destino ao Museu do Saca-Rolhas. E foi comprada precisamente na 1ª Feira da Ladra deste ano de 2017, na terça-feira dia 3 de Janeiro deste ano. Conhecido pela designação genérica de Saca-rolhas “Chave”, é uma peça essencial em qualquer colecção deste icónico objecto. Em termos práticos não é certamente o tipo mais funcional de saca-rolhas, pois sendo um saca-rolhas de extracção directa, obriga o seu utilizador a ter alguma destreza, bem como a ter alguma força física. Todavia, enquanto objecto, caracteriza-se por uma força simbólica bastante expressiva, para além da sua evidente originalidade estética: um saca-rolhas “camuflado” sob o aspecto de uma chave antiga. Em termos simbólicos, este tipo de saca-rolhas tanto nos podem remeter para as Chaves de São Pedro (aquelas que abrem e fecham as portas do Céu…), como para as “Chaves da Cidade”, caso este evidente na peça em questão. Para mais, neste caso não se trata de uma Cidade qualquer, real ou imaginária, - peças que já existiam na colecção do Museu do Saca-rolhas – mas sim das chaves da Capital, Lisboa! Para quem não seja especialista em Heráldica e Olissipografia, tal facto está devidamente assinalado no palhetão da dita “chave” (parte da chave que se opõe à argola, e que metida numa fechadura, uma vez girada, permite a sua abertura), quem tem de um lado marcado a palavra LISBOA e do outro, PORTUGAL. Mas o que o torna realmente interessante, é o facto da argola da dita “Chave” estar devidamente ornada com elementos heráldicos da capital; a Barca (que neste caso se assemelha a uma nau) que transportou o corpo do Mártir São Vicente, na companhia dos míticos corvos, também eles representados na dita chave.

ultimo quartel do século XX. Mas não se pense que por esse motivo se torna mais fácil a sua identificação; Visto não ostentar qualquer marca de fabrico e tratar-se de uma peça de metal fundido relativamente fácil de produzir e copiar, mesmo numa pequena oficina artesanal, descobrir quem foi o seu fabricante ou qual foi o seu ano de fabrico, pode vir a revelar-se tarefa quase impossível. A título de exemplo, em conversa com um vendedor de “velharias” numa feira em Viseu, este admitiu-me que os saca-rolhas chave que tinha para venda, eram peças que ele próprio mandara fazer a um vizinho seu, mestre neste tipo de fundição, lá para os lados de Águeda… Eis um aviso aos neófitos destas coisas dos acessórios báquicos, para que não abram excessivamente os “cordões à bolsa” quando se negoceia a compra de peças de origem incerta. Em qualquer caso, este tipo de peças figurativas, sejam elas em cobre ou bronze ou noutra qualquer liga de metálica, são relativamente significativos em termos de produção “sacarrolhistica” nacional e como tal dignas de constar no futuro Museu do Saca-rolhas. Esta é também uma forma de homenagem aos artífices e artesãos nacionais – quantas vezes anónimos -, que caracterizaram uma parte do nosso antigo tecido empresarial. Homenagem ainda mais importante numa época de “boom” turístico na capital, e na qual seria muito mais interessante que as lojas de “souvenirs” pudessem vender lembranças genuinamente portuguesas, ao invés de bugigangas, entre elas Saca-rolhas, com origem no extremo-oriente… Quem sabe se a contemplação de humildes peças como esta, não suscitará os artesãos e designers nacionais, à produção de renovadas criações “sacarrolhisticas”, inspiradas na História da Capital? Quanto a mim, aquilo que vos posso assegurar é que, diante deste saca-rolhas chave e de uma boa garrafa de vinho, muitas histórias ficam por contar… Bom ano, bons saca-rolhas e bons vinhos!

Não é garantidamente uma peça muito antiga e o mais provável é ter sido produzida no

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Foi aliás esta carga simbólica, bem como o facto de se tratar de uma peça de fabrico nacional, que me levaram a abrir a carteira e a decidir-me pela sua compra, para a vir a incluir no futuro Museu do Saca-rolhas.


DO BOM BEBEDOR, O TERROR

Texto por Pedro Santo Tirso

Living Las Vegas

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Não há maiores flagelos para o bom bebedor do que a abstinência e o alcoolismo. O bom bebedor está perante um abstémio e um alcóolico com o desespero da tormenta e a ansiedade da calmaria. Sente perturbado aquele equilíbrio que sempre procura na qualidade da bebida, na proporção dos ingredientes, na exata medida do que beber. O bêbado confunde-o, o abstémio merece-lhe pena. Juntos destroçam-no. Chega o bom bebedor a perder a vontade de beber, tal não é a desgraça. Sente como seus os estados extremos daqueles dois arquétipos arcanos. Soluça, contorce-se, ele próprio sentindo assomos de deixar de beber ou de beber tudo. Nada pior. Felizmente, o bom bebedor acaba por acordar deste pesadelo, apercebendo-se que está sentado na sua poltrona bebendo corretos dois dedos de um malte de Speyside com uma gota de água do próprio Spey. Medita. O alcoólico é à evidência aquele que mais parece aproximar-se do bom bebedor. Visto de fora parece a questão ser apenas de grau, mas não nos deixemos enganar. O grau alcoólico é para o ébrio crónico um baptismo que só acabará com a extrema-unção, já o grau do bom bebedor manifesta-se em op-

ções de enriquecimento civilizacional: quando beber, quanto beber, o que comer a acompanhar, será admissível diluir, e em quê (em quê? em quê?!). O bom bebedor mantém uma relação saudável com a sua bebida, o alcoólico nela adoece pensando que se agiganta. Perde o discernimento da qualidade, da história, dos cultos e ritos, da companhia adequada, da correta postura. Da bebida fica o álcool, como peçonha. O bom bebedor não consegue compreender o apelo solitário do álcool, já o alcoólico vê o mundo através da graduação do volume de éter e nada mais. Há aqui uma confusão entre o prazer de beber e a obrigação de beber que perturba o bom bebedor. É verdade que ambos têm uma percepção aguda do que Joseph Roth chamou “a lenta decadência, a que os bebedores sempre se prestam”, mas por razões completamente diferentes. O alcóolico decai porque o álcool dele se apodera, forçando-o a deixar tudo o resto. Apreciar um bom aperitivo ao cair do sol torna-se para o bêbado ter de beber até cair. O sublime kantiano é para o alcoólico um garrafão de tinto achado por acaso. Já o bom bebedor é lembrado a todo o momento que apenas a partilha da boa bebida com a boa conversa, a boa mesa e a boa cama evitará a decadência latente


O abstémio é para o bom bebedor outro bicho, completamente distinto. Oscila entre achá-lo um lamentável ignorante e um pedante dissimulado. Realmente quem não bebe ou não sabe o que está a perder ou está enganando quem queira ser enganado. Eis o que vai na cabeça do bom bebedor quando se preocupa com a figura. Há no abstémio a impossibilidade de completa aceitação. Nem um copo, pergunta o bom bebedor? Não, nem um. Só pode ser dogma, um princípio, uma fé. E então o bom bebedor sente pena. Não confessa, mas sente. Mesmo o mais feliz abstémio o deixa convicto de que é uma felicidade semi-plena, à míngua de umas cervejas geladas sobre o calor alentejano de um grelhado ou um copo de tinto à lareira beirã, rumo a um serão romântico. Reside aí a confusão que no bom bebedor o abstémio inspira: tudo à míngua e nem uma gota de xerez? Que diabos, não é natural. Secretamente, é claro, todo o bom bebedor se sente atraído pela abstinência e pelo alcoolismo. São a cauda e a cabeça do dragão, o yin e o yang e todas as dicotomias clássicas e new-age que possamos enumerar. O incontornável Kingsley Amis, habitual por aqui, escreveu várias crónicas a detalhar a experiência de não beber. Horrível, sem dúvida. Mas não resistiu a experimentá-la. Fiz o mesmo, confesso. Deixei-me de álcool. O mais que aceitei foi um brinde, aqui e acolá, durante seis meses. Fisicamente vi a diferença. Passei a tratar de outro modo a lei da gravidade. Mas ao cabo de algum tempo não consegui afugentar a ideia de que há também uma embriaguez de privação. Não tanto uma ressaca contínua, mas habilidade do corpo em se compor de uma outra efusão e assim se alterar a consciência. Há um diálogo fabuloso em Sexus, onde Miller coloca o seu protagonista a explicar a Ned que a verdadeira embriaguez consegue-se com água. Claro que é um mero exercício de estilo, mas a ideia fascina o bom bebedor ao ponto de querer também ele fazer da sua abstinência um exercício. Vale pelo que descobrimos de nós. Num repente apetece-nos cheirar as garrafas de gin e de whisky, como se de perfumes se tratassem. E em ocasiões sociais percebemos que o abstémio é o parente pobre da paródia. Como conseguirão eles viver, pergunto-me e isto basta-me para que se esfume o fascínio. Já a tentação do alcoolismo é difícil de experimentar: uma vez alcoólico, sempre

alcoólico. O bom bebedor não pode admitir isso. Por isso, na dúvida fugirá do diagnóstico. Para ele o alcoolismo é um fim natural. Algo que acontece mais facilmente a quem bebe bem. Algo que pede apenas um azar, um acidente pessoal, uma tragédia familiar, um período de stress. “Leaving Las Vegas” all over again. É fácil simpatizar com Nicholas Cage, é fácil sonhar com Elisabeth Shue, mas o bom bebedor acaba por ficar impressionado com aquele fim. Mesmo sendo aquele fim. É que os alcoólicos tendem a morrer. Dir-me-ão: isso são coisas que acontecem. É verdade. Mas ao bom bebedor a morte do alcóolico parece um desperdício. Não se poderia beber um pouco menos de cada vez e aproveitar para beber um pouco mais longe até ao fim? De modos que o bom bebedor vive permanentemente acompanhado pela abstinência e pelo alcoolismo. Arriscando a genealogia dir-se-á que são os pais do bom bebedor: passando-lhe os valores, metendo-o na linha, mas ainda assim com Édipo suficiente para se matar o pai e ir procurar uma mãe com que se possa beber. Há uns meses, no início da minha experiência de abstinência fiquei num jantar de aniversário sentado ao lado de um bom bebedor. Amavelmente querendo servir-me de vinho expliquei que não, que por seis meses não beberia. O cavalheiro tomou pena de mim, perguntou-me porquê. Disse-me que havia que viver a vida como se estivéssemos permanentemente no seu último ano. Assenti a tudo, mas repliquei: é justamente porque concordo completamente consigo que preciso de perceber este estranho mundo antes de morrer. Já o alcoolismo deixarei para a derrota. Se um dia me afundar e desistir, tenho para mim que é no alcoolismo que irei cair. Há por isso esta bela certeza, que dá uma certa tranquilidade. A abstinência e o alcoolismo são, sem dúvida, os maiores flagelos para o bom bebedor, por isso viver bem com eles faz parte do prazer de cada gota que se bebe. Cada um deve encontrar a sua forma. De preferência ponderada na companhia de um Yoichi de 20 anos.

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que está em cada sacar de rolha, em cada carica aberta, em cada mexer de cocktail. É filosoficamente o que separa o alcoólico do bom bebedor: a voragem da decadência. Um cai nela sem remédio nem redenção, o outro percorre-a sem querer deixar-se cair. Isso a ambos os faz sentir vivos.


Mil e uma maneiras de fazer bacalhau Bacalhau Com todos Para 4 Pessoas

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Ingredientes: 4 Lombos de Bacalhau 1kg de batata vitellote 200grs de grĂŁo de bico 50 grs de cenoura baby 50grs de ervilha torta baby 50g de cherĂłvia baby Azeite 4 ovos Couve portuguesa Couve roxa Alho Louro Q.B Noz moscada, pimenta preta Sal Manteiga Leite Coentros


Confecção: Para o Bacalhau: 1.Demolhar e arranjar os lombos de bacalhau. 2.Numa grelha com azeite bem quente corar a pele do bacalhau até ficar dourada, e grelhar até ao ponto. 3.Regar com azeite, alho e coentros

Mix de Couves Salteadas 1.Picar alho, cortar a couve em juliana (tiras finas). 2.Numa frigideira com azeite, alourar alho. 3.Adicionar couve e saltear.

Puré de batata vitellote 1.Descascar batata e cortar aos cubos. 2.Cozer em leite com sal. 3.Quando cozida, passar no passe vite. 4.Adicionar um pouco do leite e 100 grs de manteiga 5.Temperar com um bocadinho de sal, pimenta preta e noz moscada. Ovo Cozido a 3 minutos 1.Numa panela com água e sal, colocar os ovos. 2.Quando levantar fervura, contar 3 minutos. 3.Arrefecer em água fria e descascar. Resultado clara sólida, gema cremosa. Grão de bico Marinado 1.Tirar a pele ao grão. 2.Picar alho. 3.Temperar grão com paprika, azeite, alho, vinagre e sal.

Receita da autoria : Chef Mariana Claro Restaurante OutOf R. Sousa Pinto, 1250-096 Lisboa

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Empratar como na fotografia


RAIO GOURMETIZADOR

SALADAS TÓNICAS

por Pedro Nápoles

Um gin tónico, por favor. Com gelo e limão, sim. O olhar é fulminante e acusatório. Sintome pequeno e quase cedo a mudar o pedido. Ainda assim aguento estóico, esperando a minha bebida. Noto uma hesitação entre o copo aquário e o tubo, resolvendo-se pelo segundo, por certo por não achar o pedido digno do primeiro. Ainda pergunta se quero zimbro, ao que repondo, com ar humilde, tentando sobreviver, que pode ser. Retiro-me com a certeza de estar a ser comentado nas costas. Beber um gin tónico, apenas isso, um gin tónico, é hoje um processo difícil, ao nível de pedir uma Bussaco no Cais do Sodré ou um galão na noite do Bairro Alto. Confesso que achei alguma graça quando surgiram os gins ditos premium, que se bebiam com especiarias e ervas que potenciavam o seu sabor. Era coisa especial, para beber em alguns bares mais sofisticados, como quem bebe um cocktail para começar a noite. O teatro que precedia a bebida incluía espancamento de cascas de citrinos contra o copo (twist), rotação do gelo tipo carrossel (para arrefecer o copo), tempero com especiarias como se fosse um molho de tomate e inclusão de ervas para o toque final. Uma coisa entre a cozinha e o bar, uma espécie de happening. E teve graça no início, quando era novidade, quando só acontecia em certos bares. Ora tentem hoje pedir uma singela cerveja ou um copo de vinho num bar que sirva aquários e verão a paciência levada ao desespero, enquanto o barman tempera cuidadosamente e sem pressas o prato, desculpem, o copo, a servir.

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Hoje não bebemos gin tónico, bebemos uma salada aromatizada com gin e completada com tónica. Até deveriam mudar o nome para

“alecrim em pimenta de Sichuan, aromatizado em aguardente de zimbro de Oxford, com aromas cítricos de tangerina, em piscina de tónica de pimenta rosa”, ou “duo de hortelã da ribeira e manjericão, em infusão de Gin de zimbro dos portos de Hamburgo, com toque de cardamomo, em banheira de águas tónicas com essências de lima”. Tudo isto num imenso aquário de onde, a qualquer momento, pode emergir um peixe chamado Wanda, em que a tónica, de preferência também ela premium, submerge de tal maneira o gin, servido em medidas bem racionadas, que às vezes mais valia servir só a salada com tónica. Gin, gelo, tónica e limão. Espécie em vias de extinção tipo lince da Malcata, qualquer dia só avistada em bares de má fama ou tascas onde os aquários ainda não entraram. Ou no Peter’s, que esperemos mantenha o seu honesto e delicioso gin e não deixe aquários entrar em casa de baleeiros de mar aberto. A coisa teve graça enquanto não ameaçou a espécie nativa, mas hoje, com tantas essências e aromas, o básico, simples e honesto foi tornado obsoleto, o que não seria um problema não fora o caso dele ser tão bom. Tão deliciosamente bom e imbatível. É que as saladas de tónica até são agradáveis em alguns momentos, mas não substituem o gin tónico original, aquele que nos habituámos a gostar. É como se de repente se deixasse de beber whisky com Castello ou água lisa em troca de balões de whisky velho com Perrier e essências de caramelo. “Chacun à sa place” e sai um gin tónico. Sim, Gordons, Tanqueray ou Beefeather. Sim, com tónica Schweppes sem aromas. Sim, só com limão. Sim, pode por uns grãos de zimbro se o apraz, mas pare por aí, por favor. Eu não pedi uma salada tónica.


Chapéus há muitos

QUANDO O FRIO CHEGA, GELA OS OSSOS E NÃO PEDE LICENÇA PARA ENTRAR… HÁ QUE ESTAR À ALTURA DA SITUAÇÃO!

por Joana da Franca

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Cátia Mingote


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Texto por Mário de Carvalho M. João Santos

Pedro Crispim trabalha na área da moda há mais de vinte anos. Estreou-se como manequim e hoje é director de um dos mais reconhecidos ateliês/escolas de styling em Portugal.

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Com um olhar lúcido sobre o mundo, partilhou com a Bica a sua opinião sobre este “organismo vivo” que muitos tendem a menosprezar.


Bica: Como se deu a tua entrada no mundo da moda?

te da mesma forma, quase como se fosse uma coisa protocolar.

Pedro Crispim: Pela porta! (risos)

Eu apaixonei-me pela liberdade do mundo da moda e isso foi-se perdendo. Hoje em dia está tudo segmentado e demasiado arrumado nas gavetas, e honestamente eu não gosto nada de coisas arrumadas.

Fui eu que procurei a moda e não o inverso. Inicialmente procurei-a em busca de valorização pessoal e não para traçar uma carreira profissional. Não tinha qualquer noção de como funcionava esta área, não fazia ideia de que para além da componente estética existia uma industria. O que é certo é que por cá fiquei e já trabalho no meio há vinte e um anos.

Bica: Qual é o momento mais alto dessa longa carreira? PC: Ainda está para acontecer. Gosto de acreditar que o melhor ainda está por vir.

Bica: E como surge o Atelier SP Styling Project? PC: Foi mais um momento.

Numa industria que conheço há tantos anos bem como os seus protagonistas, tornou-se complicado ser inventivo. Portanto, e porque gosto de trabalhar com objectivos e de desafios, criei o atelier para formar pessoas com cabeças criativas e poder dar sangue novo ao mercado. Esta industria é um organismo vivo e precisa de novas visões - quem “anda cá” há muito tempo precisa cada vez de “balões de oxigênio”.

Bica: Porque é que a moda é um organismo vivo? PC: Porque a moda é feita para pessoas e tem de ter como finalidade chegar às mesmas.

A moda morre quando a humanidade morrer.

Bica: Mas a teu ver as pessoas respeitam ou menosprezam a área? PC: Acho que ambas as opções existem. Mas

digo-o com uma certa tranquilidade - estou-me “nas tintas”. (risos)

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A maioria das pessoas não tem cultura estética, pelo menos em Portugal, o que é estranho porque éramos muito ricos a nível cultural e artístico. Nós tivemos sempre muita expressão ao longo da história mas perdemo-la. Entrámos numa onda de ver coisas a preto e branco, cada vez mais tristes e melancólicas e a moda começou a viver isso. Toda a gente se comporta da mesma forma e toda a gente se ves-

Bica: E achas que esta mudança comportamental ocorreu só em Portugal ou é comum a mais países? PC: Acho que é comum a todos os países. O facto de a moda se tornado mais acessível aproximou-a das pessoas e tornou-a mais humana e real, mas ao mesmo tempo perdeu a magia, o brilho e a exclusividade - e isso era o que apaixonava as pessoas pelo mundo da moda. Mesmo quando não se podia pagar por uma peça original, levávamos uma fotografia à costureira e pedíamos para que fizesse igual. Só se trabalha em moda se houver paixão, não é certamente para ficar rico. (risos) Mas sobretudo aquilo que tem de cativar as pessoas em relação a esta área é o gostarmos um dos outros. É isso que me move.

Bica: A moda pode ser um espelho cultural? PC: A moda é um espelho cultural e social. A moda reflete precisamente o que acontece à nossa volta e é por isso que assusta tanta gente.

Bica: Assusta? PC: Sim. Porque obriga as pessoas a olharemse ao espelho, a olharem para o lado e a saírem da sua caixa. E fá-las aperceberem de problemas comuns a todos. A moda é um reflexo do que acontece no mundo. Quando a Chanel fez um desfile onde havia um icebergue a derreter no meio da passerelle, isso quer dizer alguma coisa. É um alerta. A moda não é assim tão fútil ou vazia. Está atenta e dá notícias, não de forma brusca mas de forma emoldurada. Claro que depois existe outra vertente dolorosa em relação a esta área; o espelho. Quando por diversas razões temos de falar de peso, tamanhos ou do dinheiro que carregamos na carteira. Quando olhamos para o vizinho que tem a mesma idade que nós e nos apercebemos que talvez ele tenha mais porque está noutro estrato social. E isso aleija o ego de qualquer pessoa.

Bica: Porque é doloroso olhar para o espelho?


E isso não deveria ser visto de forma negativa; eu não devo questionar porque é que o outro tem, eu devo questionar porque é que eu não tenho!

Bica: A moda pode ser arte? PC: Sim. A moda tem duas ramificações; a artística e a do negócio. Ou seja, a mesma pode deixar de ser arte quando se torna vendável - a verdadeira arte não tem preço.

Bica: Como é que a moda se pode tornar exclusivamente arte? PC: Há peças que passam na passerelle que as pessoas não entendem - e essas são puramente arte, não têm vinculo comercial. Há determinados editoriais e instalações de moda sem fins comerciais - é só visão estética de alguém e isso é arte. E depois há coisas que de tão comerciais que são, e pelo facto de toda a gente poder usufruir, se tornam vulgares.

Bica: E achas que em Portugal as pessoas alguma vez vão conseguir olhar para a moda enquanto arte ou espelho cultural, de forma a meterem de lado a ideia de que é fútil e vazia? PC: Acho que sim, sobretudo quando as

pessoas fúteis e vazias deixarem de trabalhar na área. (risos)

Não somos todos iguais, e existem pessoas com e sem conteúdo - como em qualquer área - mas a maioria das pessoas é muito mais do que diz, faz ou aparenta e portanto esses rótulos nunca vão ser justos. Eu sou tanto mais do que alguém que trabalha em moda. Hoje trabalho nisto, amanhã posso estar a virar frangos e não é por isso que vou perder a minha identidade. O que eu faço não representa quem eu sou.

Bica: Alguma vez sentiste que não te deixavam ser mais do que uma imagem? PC: Tantas vezes… Mas fui eu que me meti a jeito!

Bica: De que forma é que isso te tocou? PC: Tocou muito. Sobretudo porque sou consciente de que já dei muitas provas de que sou muito mais do que uma imagem. Isto magoa-me se eu conhecer as pessoas em questão, se não conhecer é me indiferente porque não me esforço para que seja de outra maneira. Estou tão focado em fazer algo de bom para quem quer, porque a moda ajuda pessoas, que não perco tempo a remar contra a maré. Eu não posso mudar o mundo, mas posso ajudar a mudar quem está ao meu redor e preocupar-me em deixar a minha semente. Não sou imortal, nem na área da moda, portanto sei que um dia eu próprio vou passar de moda e o que vai restar de mim vai ser o meu legado.

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PC: Precisamente. É doloroso olhar para os outros porque isso nos obriga a olhar para nós próprios.


Talking Skins por Isaura Riethmuller

João Santos

Mário de Carvalho M. estreou-se no mundo da moda aos 13 anos e formou-se em teatro. Actualmente estuda jornalismo. Diz-se um rapaz das artes e da comunicação. Hoje, com 21 anos, é editor do blog Talking Skins já com mais de meio milhão de visualizações.

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Este jovem multifacetado falou à Bica sobre o seu percurso profissional e sobre o sucesso do seu blog.

Bica: Olá Mário. Fala-nos um pouco do teu percurso antes do Talking Skins. Mário de Carvalho M: Comecei a trabalhar em moda com treze anos. Dei rosto a algumas marcas, e fiz alguns trabalhos publicitários. Depois, estudei teatro durante três anos e no último ano percebi que estava completamente insatisfeito com aquilo que estava a estudar; percebi que não queria ser actor porque não me apetecia sentir as coisas na pele de terceiros. Não porque as sinta de uma forma muito peculiar, acho apenas que não estou predisposto a sentir coisas com outro nome que não o de Mário.


Bica: Tendo chegado a essa conclusão, arrependes-te de ter estudado teatro? MCM: Não me arrependo de ter estudado teatro, de todo! Ao contrário daquilo que se possa pensar o teatro vive de mãos dadas com a cultura e é impossível estudar e falar de teatro sem falarmos de cultura e foram três anos onde recebi conhecimento por parte de grande nomes com quem tive o prazer de ter sido aluno. Não me arrependo nada!

A Bica: Trouxeste contigo algo do teatro ou deixaste tudo para trás? MCM: Eu tenho uma grande barreira - e sei que a tenho - para chegar aos outros, talvez porque não tenho a cara mais simpática do mundo ou por nem sempre estar disposto a sorrir, mas de facto eu gosto muito de comunicar. Ou seja, ganhei o gosto pela comunicação e acho que posso dizer que desempenho bem o papel de comunicador.

A Bica: O que te moveu a criar o Talking Skins? MCM: Foi no último ano da escola de teatro que, como já disse, descobrir estava perfeitamente insatisfeito com o que tinha andado a estudar. Sabia que queria continuar ligado à comunicação e escolhi fazer o curso de jornalismo na ETIC; na altura vi que o terceiro ano desse curso seria feito no estrangeiro e que a maior parte das universidade me exigiam um portfólio. O Talking Skins nasce para ser o meu portfólio e não era um projecto pretensioso. Era aquilo. Nasceu para ser aquilo! Hoje em dia é tudo menos isso (risos).

Bica: Para quem não conhece, explica o que é o Talking Sins. MCM: O Talking Skins agora vai consistir em mais coisas, vêm aí novidades, mas não posso contar para já (risos). O TS consiste em entrevistas a figuras ligadas ao meio artístico, que é o meio que eu mais gosto - se calhar por estar inserido nele há alguns anos - sobre a perspectiva dessas pessoas em relação à palavra imagem, que é outra paixão que eu tenho.

Bica: Fala-nos dessa tua paixão pela imagem. O que é que é para ti a imagem? MCM: Para mim a imagem é a forma como nós absorvemos o mundo. E acho que a forma como cada um absorve o mundo é

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O Blog que está a dar que falar

É tão melhor sentir as coisas por mim!


ilustrativo da pessoa que somos. Aquilo que gostamos de receber do mundo, aquilo que gostamos de partilhar com o mundo…

simples; é a forma de eu, em parceria com aquela pessoa, podermos contar a sua história.

Claro que esta é só a minha perspectiva da imagem. Ah! E para mim a verdadeira imagem é aquela que tem conteúdo, uma imagem que é apenas uma embalagem para mim é tudo menos interessante.

Bica: O TS tem como premissa a imagem e já teve um sector apenas de moda. Queres-nos falar um pouco sobre ele?

Bica: O TS é a tentativa de desmistificar a ideia de que a imagem é algo meramente superficial? MCM: Eu quero acreditar que sim, sobretudo porque as pessoas que entrevisto estão relacionadas a um meio que para muitos não passa da imagem. Em miúdo, na escola, sempre fui o diferente, o estranho e sempre senti necessidade, não para me justificar aos outros, mas a mim mesmo, de ter a minha essência em conformidade com a minha imagem. Ou seja, se a minha imagem era tão estruturada então o meu interior também tinha de o ser.

Bica: O TS celebrou recentemente um ano. Em retrospectiva, que análise fazes deste primeiro ano? MCM: Faço uma análise muito, muito positiva! Eu sei que é mais fácil lançar um projecto destes sendo uma figura pública, eu não o era, e ao inicio foi muito complicado. Como ninguém sabia quem eu era e não sabiam do que se tratava, ouvi muitos nãos e vi muitas portas fecharem-se, mas felizmente hoje em dia oiço mais sins do que nãos. Há pessoas que querem ser entrevistadas, há representantes de agências que dizem: “Fazia bem à tua imagem seres entrevistado para o Talking Sinks”, e é bom sentir essa confiança por parte das pessoas. Uma coisa que nasceu para ser para mim hoje em dia é muito mais dos outros do que meu. Bica: Quais são os sonhos e ambições para o Talking Skins? MCM: Eu não sei muito bem quando é que esta entrevista vai sair, por isso não vou revelar o que aí vem, mas posso dizer que vai nascer um novo sector em parceria com o Santiago Romero e com a ajuda da cantora Romana.

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Se eu espero mais do que isso? Espero que as pessoas continuem a confiar e a gostar do nosso trabalho. Perguntam-me muito porque que não faço vídeo. Não está fora de causa o TS vir a ter vídeo mas se há coisa que me dá prazer é redigir as entrevistas por uma razão muito

MCM: Sim, esse sector já não existe mas todos os conteúdos que estavam lá inseridos passaram para o “By me” que por sua vez é uma secção minha, onde gosto de partilhar o que me apetece, sem grandes quês nem porquês com quem lê. A Bica: Sendo tu um homem das artes, como é que essa paixão pela cultura se transporta para a tua plataforma? MCM: Pelas pessoas que entrevisto. A nossa cultura é espelhada por imagens e de facto eu escolho pessoas ligadas à cultura para entrevistar e pergunto-lhes o que para elas a palavra imagem quer dizer. Não sei muito bem responder a isso (pensa) o que posso dizer é que a imagem não vive sem cultura e a cultura não vive sem a imagem nem sem os seus intervenientes, portanto, eu dou voz aos intervenientes da cultura para me falarem sobre a imagem. Bica: O Talking Skins acaba então por se tornar numa plataforma cultural através dos diferentes intervenientes de diversas áreas? MCM: Nunca tinha pensado dessa forma, mas sim! Gosto de pensar que o TS é visto assim. Não sei de que forma quero que isto cresça mas vou sempre escutar quem me lê. Espero que continue a crescer de forma orgânica. Afinal de contas as coisas só são válidas quando vêm de dentro.

www.talkingskins.com


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Turismo Equestre Um desafio a “desbravar” – 1ª Parte por Lopo de Castilho

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Quem deambula por Lisboa não pode deixar de se deparar com o imenso afluxo de Turistas que vagueiam pela Capital; E com eles, novos Hotéis, Hostels, unidades de turismo local, Tuktuks, lojas de lembranças… Para muitos alfacinhas trata-se mesmo de uma “praga”, tal é a quantidade de Turistas com que nos cruzamos por todos os cantos da Cidade. Todavia para muitos outros, esta afluência é o garante da sua sobrevivência, bem como, o provir dos seus projectos empresariais.


Neste como noutros domínios, existem em Portugal inúmeras actividades com grande potencial de desenvolvimento, geralmente pouco conhecidas do grande público, mas susceptíveis de assegurarem momentos excepcionais a todos aqueles que delas disfrutam, como é o caso do Turismo Equestre. Mas afinal, o que é isto do Turismo Equestre? Como se pode facilmente deduzir por esta designação, trata-se de uma actividade de lazer que envolve o Cavalo, animal que durante milénios foi essencial para o Homem, nos mais diversos domínios, desde a alimentação ao transporte. Em Portugal a antiquíssima presença deste nobre animal está comprovada, pelo menos desde o Paleolítico Superior, como atestam algumas das belíssimas gravuras paleolíticas do Vale do Côa, Património Mundial da Humanidade - UNESCO. Grosso modo, podemos dizer que o Turismo Equestre se reparte em duas grandes vertentes que são o Turismo do Cavalo e o Turismo a Cavalo. Quanto à primeira, é aquela que actualmente ocorre mais frequentemente em Portugal, em certames e eventos, como por exemplo a famosa Feira da Golegã, em que o Cavalo é o centro de um determinado evento. Quanto ao Turismo a Cavalo, é uma forma que permite não só usufruir de passeios com este fantástico animal mas também, frequentemente, descobrir recantos recônditos de insuspeita beleza.

Henri Roque, um percursor Em termos modernos, podemos dizer que foi no pós 2ª Grande Guerra Mundial que esta actividade nasceu; num mundo em que o Cavalo parecia estar condenado a desaparecer, suplantado pela nova hegemonia do automóvel. Felizmente, nem todos estavam dispostos a ver desaparecer para sempre este nobre animal, que permitiu à Humanidade muitas das suas grandes conquistas e avanços civilizacionais. Entre eles destacou-se em França um Cavaleiro Chamado Henri Roque, que é por muitos considerado o “pai” do moderno Turismo Equestre.

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Corria o ano 1961 e a Federação Francesa de Equitação ia organizar a 10 de Março desse ano, o primeiro congresso do Cavalo de Desporto, em Paris. Henri Roque, que em 1957 fundara um centro equestre no sul de França, numa pequena aldeia chamada Eygualières, não se conformava com o desaparecimento do Cavalo, e antevia um mundo em que este, de simples meio de transporte, passaria a ser um meio de lazer por excelência. Se assim o pensava, melhor o fez, aproveitando esse anunciado congresso para publicitar de forma espectacular a actividade que pretendia ver nascer e prosperar; a 15 de Fevereiro partiu montado no seu Cavalo, com destino à Capital francesa, num percurso de mais de 700Km…* E assim, num momento Histórico, na abertura do referido congresso, anuncia publicamente perante o ministro gaulês da Juventude e do Desporto, Maurice Herzog, “ Senhor Ministro, o Turismo Equestre Francês acaba de nascer”! *Embora seja um percurso efectivamente bastante longo, quase que parece curto, quando comparado com o 1º Raid Hípico realizado no Reino de Portugal, em 1907 (percurso de cerca de 1400Km) e mais ainda, confrontado com o 2º Raid Hípico nacional, ocorrido no ano de 1925, no qual os concorrentes percorreram cerca de 2000Km; mas isto ficará para um próximo artigo.

01- Chegada a Paris, de Henri Roque, a 10 de Março de 1961. Fotografia gentilmente cedida pela Fundação David Parou Saint-Jacques, que consta da edição comentada e anotada, pela Historiadora Francesa Denise Péricard-Méa, na obra “ L’Homme à cheval sur les chemins de Compostelle, 1963”. 02- Fotografia da autoria de Rui Campos www.ruicamposfotografia.com

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Efectivamente, no momento actual, o Turismo apresenta-se em Portugal, não só como uma das nossas principais fontes de receita, mas também como uma actividade ainda com grande potencial de desenvolvimento. Com efeito, para além da Capital, da Cidade do Porto, ou de locais de lazer mais clássicos, como por exemplo o Algarve com as suas praias, todo o território nacional guarda um imenso potencial para actividades Turísticas, dos mais diversos tipos. Uma que pessoalmente muito me atrai, é aquela que se relaciona com uma das minhas mais antigas paixões, a Equitação.


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Travel Gate A agência que trabalha viagens à medida

A Travel Gate nasceu em 2003 e passados catorze anos contínua a ser mais do que uma agência especialista em viagens de negócios, oferece serviços personalizados, adaptados à medida e prioriza o enfoque na qualidade dos serviços.

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No seu comando está Paulo Coelho que com mais de 30 anos de experiência no setor do turismo revela-nos que ambicionava ter trabalhado em países Asiáticos, devido ao fascínio que tem pela sua cultura laboral ou no Dubai pela qualidade e o luxo que são proporcionados.

Paulo, a Travel Gate distingue-se por oferecer um conjunto alargado de produtos e serviços onde garantem um trabalho rigoroso e transparente ao cliente que vos procura?

Sim, entender e melhorar a experiência de cada viajante e otimizar o valor de cada viagem é a nossa missão diária. Asseguramos um serviço personalizado e adaptado à medida de cada cliente, num período em que os padrões de compra estão a mudar, dependendo das circunstâncias de cada viagem os nossos clientes procuram cada vez mais experiências requintadas e exclusivas, que possam garantir o seu conforto, desde que estão a caminho do aeroporto até à chegada às suas casas. Desta forma, o nosso trabalho consiste em simplificar processos e avaliar as opções que melhor respondem à necessidade de cada pessoa. Atualmente, a internet oferece uma quantidade de opções que tornam as escolhas difíceis e até confusas. O trabalho dos nossos consultores é avaliar e procurar para o cliente, a melhor opção do mercado. Os nossos clientes empresariais têm uma gran-


A vossa empresa identifica os seus funcionários como Consultores de Viagens, é assim que se vêem? Atrevo-me a dizer que há 10 anos fomos pioneiros e hoje somos especialistas. Desde sempre que nos identificamos como consultores de viagens porque era esse o nosso trabalho, procurar o melhor serviço para cada cliente, e escolher por ele qual o destino, hotéis ou operador turístico. Hoje já não somos consultores, mas sim “gestores de viagens”, este é o nosso formato atual porque passamos a gerir tudo sobre a viagem dos nossos viajantes executivos e famílias. A nossa preocupação hoje começa com a gestão do transporte desde casa, o estacionamento no aeroporto, a escolha dos lugares a bordo, a realização do check-in (mesmo ao fim de semana), a tipologia do quarto no hotel, a sua localização e características, a verificação de acesso à internet e em que condições. Hoje o nosso trabalho é sem dúvida muito mais completo e complexo. Vivemos as viagens como se fossem as nossas viagens. Essa é a nossa identidade.

Num período em que os padrões de compra estão a mudar a Travel Gate encara cada cliente como único? Esse é o nosso grande desafio diário. Não existem catálogos, nem programas na nossa empresa. As necessidades de cada cliente são únicas e avaliadas caso a caso. Fazemos o trabalho de análise e estudo, que visa poupar tempo e diminuir custos aos nossos clientes. Procuramos sempre dar um conjunto de serviços que podem ser incluídos nas viagens, desde vistos, estacionamento nos aeroportos, aluguer de carro, alojamentos, assistência, transferes e seguros.

Pretende então dizer que cada pessoa se enquadra em um determinado perfil? Exatamente isso. O nosso gene é tratar cada viagem como se fosse única porque sabemos que as necessidades e expectativas das pessoas são totalmente diferentes. Daí que o processo mais importante seja a avaliação do perfil, e a partir dai trabalhar todo o processo de gestão da viagem procurando os hotéis que melhor se enquadrem nesse perfil.

E qual é o perfil do cliente empresário?

O cliente que procura uma viagem de negócios é exigente e requer da nossa parte todo o cuidado. Os empresários concentram tudo o que necessitam de fazer em pouco tempo, por isso estão dispostos a pagar valores muito mais altos para garantir que tudo corre da forma que projetaram. Sempre trabalhámos com clientes de setores muito exigentes, em particular a indústria automóvel e a indústria farmacêutica. Para além de nos obrigar a criar uma estrutura que visa estarmos permanentemente disponíveis e com uma forte capacidade de resposta.

No entanto a Travel Gate consegue “poupar nos custos, não no conforto”? Conseguimos essa preforma de várias formas. As principais companhias aéreas a operar na europa criaram programas de incentivo de viagens corporativas. Também negociamos descontos em determinadas rotas, desde que exista uma frequência. Além disso, tornamos as tarifas flexíveis, sem restrições. Muitas empresas entenderam que as companhias Low Cost seriam o meio mais eficaz para redução de custo, mas rapidamente se veio a provar que não eram a solução, devido aos horários e às frequências de voos.

A Travel Gate tem durante estes catorze anos garantido uma presença muito consolidada e adaptável, isto é o reflexo dos prémios que têm vindo a arrecadar nos últimos anos, nomeadamente, a distinção de PME Líder? Somos um modelo de empresa que é dado como exemplo de como deverão ser as agências de viagens no presente. Construímos o nosso modelo há mais de uma década e continuamos a moldá-lo dia-a-dia e queremos que o ano de 2017 seja o ano de consolidação. Somos muito exigentes e sabemos que a quantidade não é compatível com a qualidade. Continuaremos a desenvolver o processo evolutivo em prol da qualidade e da personalização do serviço.

Depois de Viseu e Aveiro, a Travel Gate chega fisicamente ao Porto? Sim, é verdade. O que aconteceu é que nós crescemos muito nos grandes centros e faz cada vez mais sentido estarmos próximos. Ter clientes como Universidades, Fundações, Institutos e Câmaras Municipais do grande Norte a trabalharem connosco exigiu uma maior presença física. A Travel Gate também já está no panorama internacional.... Atualmente estamos presentes em Angola e Guiné-Bissau, no entanto a nossa estrutura permite dar resposta noutros países. Estamos em fase de avaliação do mercado Ame-

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de exigência no tempo disponível para as suas deslocações. Quase sempre, o melhor preço não é a melhor opção. A internet está focada no preço, enquanto os nossos consultores estão focados na relação, qualidade e preço. Isto faz toda a diferença na hora da escolha.


ricano, onde já temos presença nos Estados Unidos.

Que novidades teremos para este ano? A mais interessante, para já, será o lançamento previsto para abril, da nossa marca “Viagens para Solteiros” onde queremos proporcionar experiências que possam ser vividas pelos viajantes mais solitários. É uma forma interessante de se preencher mais a vida das pessoas que tendo possibilidade económicas de viajar, não o fazem porque não gostam de viajar sozinhas. A nossa missão será agrupar perfis culturais e até económicos de forma a garantir grupos homogéneos, que possam tirar o maior partido da experiência. Tal como viagens de cariz mais cultural ou religioso.

Para além deste nicho de mercado têm outro onde se pretendam especializar? O nosso enfoque continuará a ser viagens para executivos e de luxo. As viagens para Solteiros será detida por uma outra empresa do grupo, que também irá trabalhar noutros nichos, em particular viagens para famílias numerosas e viagens religiosas. A seu tempo avaliaremos se adicionaremos outros segmentos que atualmente estão a crescer em Portugal.

Na sua opinião qual será o futuro das agências de viagens? A minha visão sobre as agências de viagens tradicionais é que estão “fora do tempo”. Hoje, temos de criar aplicações para estar perto do cliente alvo. Embora o mercado disponibilize trabalho para as agências, a nossa visão é a medio e longo prazo. Não tenho dúvidas que as novas gerações não serão clientes das agências tradicionais. É uma morte anunciada ou não estivesse já a profissão de “agente de viagens” na lista das profissões que vão desaparecer. E eu acredito muito nisto, e que o futuro é o que estamos a fazer atualmente, especialização em nichos de mercado, proporcionando experiências aos clientes.

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Por falar em experiências, como vê a hotelaria em Portugal? Esse é um assunto muito interessante e delicado. Vivemos tempos fantásticos com as “bolhas” que atualmente temos em Lisboa e no Porto, com forte especulação imobiliária, com construções de hotéis e outras tipologias de alojamento, que não pensamos que no futuro terão de passar também pelo processo de adaptação a outros tempos. Na prática, quero dizer que o hoteleiro terá de “inventar” experiências para cativar o hospede e o operador turístico. Contínuo a achar alarmante

um hotel de luxo não conseguir oferecer mais do que cama e 20% de desconto no SPA. Está fora, não é nada disto que o viajante de hoje procura. Experiência é algo muito diferente e mais atrativo. Os hotéis turísticos serão sempre procurados para visitas curtas ou para um segmento low cost mas os hotéis de luxo, ou os que querem primar pela diferença terão de fazer mais e melhor.

Como vê o turista que viaja nas companhias de Low Cost? Desde 1999 que a Ryanair opera em Portugal. O conceito Low Cost não é só preço baixo, é um novo paradigma que hoje é usado pelas principais companhias aéreas de bandeira. Isto quer dizer que o modelo até pode funcionar e viajar de avião finalmente em Portugal passou a ser uma forma de transporte e não algo caro. As companhias Low Cost vieram revolucionar a forma como se viajava na Europa. Em voos de curta duração não fazia sentido haver tanto serviço adicionado gratuitamente. Além disso, os nossos clientes executivos também viajam nestas companhias. Julgo que desapareceu também o estigma que foi criado pela Ryanair que os agentes de viagens não seriam necessários para vender low cost.

Acha que este conceito veio mudar também a mentalidade de quem viaja? Sim, em particular da forma como se viaja. Hoje as pessoas estão a ser educadas para viajarem apenas com uma mala de cabine, enquanto em tempo próximo levar uma mala grande para estadias de duas ou três noites, era muito frequente. Foi extraordinário assistir a esta mudança de mentalidade e formado, em particular nas senhoras que normalmente levam tudo. Hoje tudo é mais simples e mais prático. E no final, julgo que hoje todos somos mais felizes.

E o Paulo, como é que se imagina daqui a 10 anos? Dividido entre Porto e Lisboa porque o futuro da Travel Gate passa pelos grandes centros e tenho a certeza que continuarei a formar a minha equipa para continuar a garantir um trabalho rigoroso, transparente, acrescentando valor aos serviços que oferecemos, características incutidas diariamente na nossa cultura.


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1 dia é bom, 2 é otimo, 3 nunca é demais. Aqui, na maior e mais diversa região turística de Portugal, as boas experiências nunca acabam. Venha ao Centro. Venha com tempo. E quando partir, leve vontade de voltar.

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“As videiras passaram todo o Inverno retorcidas e ásperas a fingir de mortas, mas começaram agora a cobrir-se de vides frescas como água dos ribeiros. As carreiras de cepas ficam cada dia mais verdejantes e há, na erva alta que cresce entre elas, milhares de pequenas flores do prado: dentes de leão amarelos com um coração coruscante de branco, extensões imensas de margaridas como neve de Primavera sobre a erva.”

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Paulo Varela Gomes in “Ouro e Cinza”, Edições Tinta da China


por Revista Bica cedidas por Quinta do Medronheiro

Na Quinta do Medronheiro, a pouquíssimos quilómetros de Viseu, é o ambiente bucólico que nos encanta. Como se o tempo tivesse parado algures em meados do século passado para preservar estes 37 hectares dos malefícios de um progresso desenfreado. A antiga exploração agrícola e pecuária perdeu o fulgor de outrora, mas nem isso transparece ao percorrermos vagarosamente os caminhos graníticos que envolvem o casario tipicamente beirão. Da vinha, no topo da Quinta, virada ao sol matinal da Estrela e irrepreensivelmente cuidada, avista-se uma mata de carvalhos despidos de folhas, onde despontam, aqui e além, pequenos rebentos que indiciam a aproximação da Primavera; num manto verde junto ao rio que corre ao fundo, umas vacas indolentes vão ruminando indiferentes aos nossos olhares curiosos, abanando a cabeça de tempos a tempos para afugentar um ou outro passarito; ao lado, mas devidamente separados das arouquesas não vá a indiferença ao que as rodeia ser apenas aparente, dois cavalos troteiam lado a lado em direcção ao rio; mais abaixo, junto a uma queda de água, um velho moinho de pedra meio encoberto pelo arvoredo serve de poiso a um guarda-rios de asas azuis e dorso alaranjado. Há por aqui uma tranquilidade que nos remete para o vagaroso tempo da infância em que tudo nos era familiar: o granito das casas, o cheiro à terra acabada de fresar, o mugido das vacas, o repicar do sino na aldeia mais próxima, o marulhar das águas no ribeiro.

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E é esse aconchego caseiro que faz da Quinta do Medronheiro um local especial.


O Hotel rural que domina a propriedade onde também se produz um belíssimo vinho do Dão, resultou de profundas obras de reabilitação, após a aquisição, em 2001, pela família Oliveira, que culminaram num equilibrado conjunto arquitectónico, onde perpassa o cuidado pela preservação da traça beirã.

Um vinho requintado e de excelência.

Em cada um dos 16 quartos disponíveis no Hotel, sobressai o contraste entre a rusticidade do granito e da madeira com o design do mobiliário que, resulta de forma equilibrada e aconchegante. Os espaços sociais, cuidadosamente decorados de forma a criar pequenos recantos, remetem-nos para a casa dos avós, onde tudo era meticulosamente organizado, mantendo, no entanto, a acolhedora sensação de uma casa com alma. Da cozinha, a cargo do Chef ucraniano Volodymyr, chegam aromas antigos de estrugidos parcimoniosamente apurados em lume brando impelindo-nos a experimentar o resultado do laborioso trabalho do Enólogo Hugo Chaves que, nos três hectares de vinha protegidos pelas Serras da Estrela, Caramulo, Nave e Buçaco, conseguiu produzir um vinho do Dão de elevadíssima qualidade. O Oloroso, assim se chama o tinto da Quinta do Medronheiro em homenagem a um dos cavalos da casa, é um vinho de aroma intenso e taninos nobres, suscetíveis de longo envelhecimento. Produzido a partir das tradicionais castas do Dão, de onde sobressaem a Touriga Nacional e o Jaen, este Oloroso é um vinho gastronómico, que pede o acompanhamento dos pratos tradicionais da região. Aproveitando a recuperação da casa destinada à adega, onde se realizam provas de vinhos, os proprietários decidiram, em boa hora, fazer uma sala de eventos envolta pela vinha e por um pequeno jardim botânico de onde sobressaem os medronheiros que dão nome à Quinta.

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BEBA COM MODERAÇÃO

Na Quinta do Medronheiro, tudo foi pensado ao pormenor sem parecer exagerado ou desenquadrado da beleza campestre que o rodeia. E é esse respeito pelas origens, essa autenticidade, aliados à ancestral hospitalidade beirã que fazem deste hotel rural uma extensão de nossa casa.

www.quintadomedronheiro.pt


Visitai Viseu‌

com Almeida Moreira

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por LuĂ­s da Silva Fernandes


O ano de 2017 foi declarado “ano oficial para visitar Viseu” pela autarquia da cidade. O desafio dirige-se não só aos visitantes mas também aos viseenses que, por estes dias, reforçam as suas competências como anfitriões da cidade.

com acepipes da casa e vinho da produção de Almeida Moreira. Enquanto esperava, deliciado com a amabilidade do seu anfitrião improvisado, o casal deslumbrou-se com a magnífica coleção de arte espalhada pelas diversas divisões da casa.

Há 90 anos, Viseu também se preparava para receber visitas. Aliás, todo o país esperava visitas. A aproximação da abertura da Exposição Ibero-Americana de Sevilha (1929-1930) agitava Portugal. Acreditava-se que milhares de viajantes americanos desembarcariam em Lisboa a caminho de Sevilha. E, antes ou depois da visita à exposição, dizia-se, não deixariam de visitar terras portuguesas.

Regressado da sua conferência, Almeida Moreira leva o casal a conhecer o casario e as ruas do centro histórico, assinala detalhes de construção, dá a conhecer azulejos de igrejas, fala das cerâmica e da cestaria tradicional da região. Há ainda tempo para uma olhadela ao mercado de gado e uma visita à Cava de Viriato, que impressiona vivamente os visitantes.

O jornal O Século tinha inclusivamente iniciado uma campanha nacional a favor do turismo, com artigos de opinião e inquéritos, face às oportunidades proporcionadas pela exposição sevilhana. Governantes, empresários e as recém-criadas comissões de iniciativa e turismo locais investiram em melhoramentos e na promoção turística. A realidade dos números não correspondeu às expetativas criadas e, em 1936, Aquilino Ribeiro ainda ironizava: «Quem se não lembra do milhão a dois milhões de americanos que desembarcariam em Lisboa, mal descerrasse portas a exposição de Sevilha?».

Terminada a visita, Lawton Mackall regista: «Custa-nos deixar uma cidade tão fascinante e uma tão hospitaleira mina de informações como o sr. Almeida Moreira».

Viseu mereceu a visita do casal americano. Instalados no hotel do Buçaco, viajaram de automóvel até Viseu. Chegados em dia de feira semanal, apreciaram a agitação, passearam pela Praça da República (vulgo Rossio), visitaram o mercado de louças, a Sé e o Museu Grão Vasco. Aproximando-se a hora do almoço, procuram um local onde fazer um piquenique. O motorista que os acompanhava não conhecia um local adequado. Dirigiram-se então à sede da Comissão de Iniciativa e Turismo, junto ao Rossio, solicitando informação sobre um sítio ao ar livre para a tal merenda. A funcionária, perplexa com o pedido, acabou por conduzi-los à residência de um dos dirigentes da Comissão, nas proximidades da sede. Era a Casa do Soar, propriedade de Almeida Moreira, diretor do Museu Grão Vasco, que os recebeu à porta, convidando-os a almoçar em sua casa, enquanto saía para proferir uma conferência sobre arte. O seu fiel mordomo põe o almoço na mesa, sendo o farnel dos visitantes visivelmente acrescentado

O Capitão Francisco António de Almeida Moreira (1873-1939) é, sem dúvida, uma figura fora do comum e incontornável na história contemporânea viseense. Foi um homem multifacetado. Militar de carreira, passou à reserva em 1916. Possuidor de formação artística e amigo de artistas como Columbano, tornou-se conhecido a nível nacional como organizador e primeiro diretor do Museu de Grão Vasco. Paralelamente, foi professor do Liceu Alves Martins e pedagogo inovador, nomeadamente no que respeita à educação física. Foi artista amador, crítico e colecionador de arte, organizador de eventos, dirigente desportivo e associativo, sócio de várias agremiações científicas, tendo obtido diversas condecorações. Como autarca, integrou diversos executivos municipais (1918-1934), atuando continuadamente como vereador responsável pelo urbanismo e pelos espaços ajardinados da cidade, com plena aceitação dos notáveis locais, pelo que desempenhou também o cargo de Vice-Presidente. Em simultâneo, exerceu funções diretivas na Comissão de Iniciativa e Turismo de Viseu (entre 1927 e 1936). Nesse âmbito, foi decisivo para a modernização de Viseu e para a sua promoção como destino turístico. Salienta-se a requalificação de espaços públicos como o Rossio e o Parque do Fontelo ou a revitalização da Feira de S. Mateus, reanimada como Feira-Exposição e Feira-Festa. A sua obra escrita é abundante e está dispersa por jornais, revistas, guias e monografias e inclui a crónica social ou desportiva, o relato das suas muitas viagens pela Europa, a divulgação turística de Viseu e da Beira Alta,

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Todavia, alguns americanos visitaram mesmo Portugal durante a exposição. Um desses turistas foi Alexander Lawton Mackall, que viajou com a esposa por terras portuguesas em 1929, publicando depois do seu regresso aos EUA um precioso relato dessa experiência (Portugal For Two, Nova Iorque, 1931).

Mas quem era então este verdadeiro anfitrião de Viseu?


bem como estudos sobre o património artístico viseense. O seu labor em prol de Viseu foi fundamental numa cidade em pleno processo de reconfiguração urbana. A ação concertada do executivo municipal e da Comissão de Iniciativa e Turismo local, produzia melhoramentos a nível do mobiliário urbano, dos espaços ajardinados e dos arruamentos da cidade. A par da qualidade de vida dos seus habitantes, perspetivava-se também uma pioneira estratégia de promoção da cidade como destino turístico, definida em larga medida por Almeida Moreira. A secular Feira de S. Mateus conhecia desde 1927 um processo de renovação que a afirmava como atração turística. A produção de materiais de promoção turística começava também a projetar uma determinada imagem da cidade. Entre esses materiais estavam os primeiros cartazes turísticos da cidade, com um apelo insistente: «Visitai Viseu, o seu museu e os seus monumentos». Afirmou-se, pois, nesse período um processo de composição de um discurso representacional da cidade, no qual a imagem teve um papel determinante: cartazes, postais e filmes turísticos, bem como guias e folhetos turísticos profusamente ilustrados. Todos tinham a marca de Almeida Moreira, que tanto convencia os seus concidadãos a apoiar tais iniciativas, como coordenava ativamente a produção de tais materiais, delineada pelos seus textos e guiões, e concretizada com a participação dos melhores artistas nacionais da época, atraídos por si a Viseu. Viseu assumiu-se então como porta de entrada para um mundo onde conviviam as tradições ligadas à província e a uma certa ruralidade pré-industrial, o património artístico e monumental secular e, simultaneamente, uma certa modernidade urbana.

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Um dos eixos dessa reconfiguração assentou numa estratégia de colocação de azulejos artísticos em espaços públicos, cuja iconografia remete para a cultura e história local. Almeida Moreira foi também o protagonista dessa ação. Um dos exemplos mais notáveis é o monumental painel de azulejos (1931), da autoria de Joaquim Lopes, instalado numa curva da sala de visitas da cidade, a Praça da República, onde se situa a Câmara Municipal e a agência do Banco de Portugal. Aí foram representadas diversas cenas alusivas ao mundo rural beirão e a feiras tradicionais, num conjunto de elevado valor artístico, que ainda hoje é um dos ícones de Viseu mais fotografados pelos turistas. Em simultâneo, é introduzida uma nova tipologia de mobiliário urbano, a «glorieta» ou «glória», diretamente inspirada nos pequenos recintos homenageando artistas instalados no Parque Maria Luísa em Sevilha. Sabemos pela documentação

existente que foi o próprio Almeida Moreira que, tendo visitado Sevilha na época da Exposição Ibero-Americana de 1929, trouxe o modelo para Viseu. A sua influência na Comissão de Iniciativa e no executivo municipal levou a que ambas as instituições apoiassem a instalação desse mobiliário. Assim, em 1931, no novo Jardim Tomás Ribeiro, igualmente na Praça da República, surge a Glorieta a Tomás Ribeiro, com planta circular, corpo central apresentando o retrato em azulejo do poeta e estadista (da autoria de Jorge Colaço) e pequenas estantes para os livros do homenageado, e bancos em granito revestidos com azulejos artísticos que registam os diversos títulos das obras de Tomás Ribeiro. Num outro espaço ajardinado e emblemático da cidade, o atual Parque do Fontelo, foi instalada a Glorieta a Grão Vasco (1933), com um painel em azulejos (da Fábrica de Louças de Sacavém), reproduzindo o afamado «S. Pedro» de Grão Vasco, obra-prima que ainda hoje ocupa um lugar central no Museu Nacional de Grão Vasco. Rodeando o painel, um conjunto de estantes e bancos, onde os visitantes poderiam ler obras sobre a história da cidade e guias turísticos locais. A par do novo mobiliário urbano, saliente-se também a colocação de artísticas placas toponímicas em azulejo (encomendadas à conhecida Fábrica Constância) precisamente nas principais artérias que configuram o percurso turístico do centro monumental e histórico da cidade. Entre as personalidades presentes nessas placas estão figuras locais, mas de âmbito nacional, ligadas à literatura, ao teatro ou à pintura. Num tempo em que os cartazes turísticos da cidade convidavam os turistas a visitar os seus monumentos e o seu museu, veiculando simultaneamente novas mensagens como «Viseu, cidade jardim das Beiras» (ainda hoje ativa), os azulejos artísticos inseridos em espaços públicos reforçavam um discurso representacional em construção. Presentes nos principais pontos de interesse turístico da cidade, valorizavam a fruição da arte e conjugavam tradição e modernidade. Almeida Moreira faleceu em 1939. No seu testamento, o Capitão legou a sua Casa do Soar, a coleção de arte e a biblioteca pessoal à cidade de Viseu, para a criação de um «pequeno Museu-Biblioteca». Tal desejo seria concretizado em 1940, com a abertura ao público do “Museu-Biblioteca Almeida Moreira”, inaugurado no dia em que tinha início mais uma edição da Feira de S. Mateus. Atualmente, após diversas remodelações, ostenta o nome de “Museu Almeida Moreira” e integra a Rede Municipal de Museus. A Casa do Soar, que tanto encantara o casal Mackall em 1929, tornou-se efetivamente um ícone turístico da cidade, lembrando até aos nossos dias o homem que fez questão de colocar Viseu no mapa do turismo nacional.


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