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editorial. A BICA é uma revista cultural. Moderna e cosmopolita, de causas e de propostas, de afirmação da identidade multicultural de Lisboa e do País, a BICA será, sobretudo, uma revista de ideias. Das ideias que ao longo de séculos fizeram de Lisboa, e por isso de Portugal, uma cidade e um País diferentes. Das ideias que ficaram registadas nas pedras das calçadas, nas esquinas das ruas, nas varandas dos edifícios, nas quilhas dos barcos, nos cheiros das vielas, na alma dos lisboetas e de todos os que, mesmo que por breve período, cruzaram as suas vidas com a vida da cidade. A BICA é uma revista de futuro. De um futuro que só ganha sentido à luz do passado que o enriquece. Um passado que nos orgulha sem saudosismos, que nos inspira sem limitações. Um passado riquíssimo em história, em arquitectura, em gastronomia, em literatura, em poesia, em arte, em etnografia, em música, em tradição. Um passado que se mescla na perfeição com um presente inovador e ousado, fruto do muiticulturalismo e do multiracialismo que constituem o DNA daquela que já foi a capital de um dos mais vastos Impérios da Humanidade. A BICA é, por isso, uma revista de Lisboa para o mundo. O mundo que diariamente nos entra porta dentro para nos conhecer um pouco melhor, mas também o mundo que somos e a que nos habituámos, por descuido e preguiça, a ser indiferentes. A BICA é uma revista para os lisboetas que amam a sua cidade, para os portugueses que querem conhecer melhor a sua capital, para os turistas que buscam a essência dos locais que visitam. A BICA resulta de um sonho. O sonho de reunir num projecto editorial escritores, jornalistas, historiadores, artistas, produtores agrícolas, professores, gastrónomos, enólogos, empresários e, sobretudo, cidadãos comuns, com as mais diversas profissões, mas com a enorme vontade de intervir socialmente numa espécie de resgate de cidadania em torno da cultura, da etnografia e da história da sua cidade: LISBOA. Porque acreditamos que a cultura deve chegar a todos, a BICA terá uma distribuição gratuita, mas cuidada, com particular atenção para os locais onde quem nos visita a possa encontrar. Por isso, a BICA é para saborear devagar, ao longo dos três meses que durará cada edição, degustando com tranquilidade cada texto, cada reportagem, cada entrevista, cada fotografia, cada ilustração. Experimente... vai ver que vai gostar!

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por João Moreira


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Fotografia por Jorge Barrote


Esta nossa bica... É de luz que falamos nesta edição inaugural da Bica. Da luz de Lisboa, que Tanner viu branca com a quase imediata indignação de Mário de Carvalho disposto “a jurar e a declarar notarialmente que branca não é.” Como poderia ser branca, se para ele “a cidade, descontando o grená rugoso dos telhados, varia entre os rosa-suaves, os verdes-esbatidos, os amarelos-doces, em milhentas tonalidades que não fazem mal à vista.” Foi Cardoso Pires que acabou com a polémica: “em poucos lugares como este de tantas cores cada cor é feita”. Feita por cada um de nós, acrescentaríamos.

“A luz vinha devagar Através do firmamento... Vinha e ficava no ar, Parada por um momento, A ver a terra passar No seu térreo movimento

Milhentas cores tem Lisboa, por isso não estranhem a nossa capa. Não estranhem, porque foi pensada para dar luz à Bica e a cada um dos muitos colaboradores e amigos que a tornaram possível.

Miguel Torga

Uma palavra especial de agradecimento ao Jorge Barrote, extraordinário artista plástico e fotógrafo, autor da imagem gráfica da Bica e da fotografia que ilustra este passeio pela revista; ao Fernando Madaíl, jornalista de excepção, pelas ideias, pela força e pelos dois textos brilhantes que escreveu para esta edição; ao Jorge Almeida, pelas belíssimas ilustrações que, com uma absoluta disponibilidade, acedeu a desenhar para a nossa Revista. A todos os outros cuja colaboração encontrará nesta edição e que não constam deste resumido texto. A todos o nosso obrigado. Para terminar, queremos que saiba que, em cada edição, num caderno especial, a Bica convida-o a visitar outra região do país. Começamos por Viseu, a capital da Beira Alta, que nas últimas décadas se tem vindo a transformar na cidade mais cosmopolita do interior. Até à próxima.

por Revista Bica

Propriedade: Studiobox, Publicidade e Gestão de Meios, Unipessoal Lda Direcção: Bruno Esteves Edição: João Moreira, João Albuquerque Carreiras Fotografia: Hugo Macedo, Carina Martins, Bruno Cerveira, Patrícia Belo Arte: Studiobox Ilustração: José Almeida, Mafalda d´Oliveira Martins Comercial: geral@revistabica.com +351 962 706 373 / 968 405 494 Impressão: Tondelgráfica SA Periodicidade: Trimestral Depósito legal: 00000000000 Interdita a reprodução de quaisquer textos ou ilustrações por quaisquer meios. A Revista Bica é escrita em português, sem utilização do Acordo Ortográfico. Os conteúdos dos textos e as opiniões neles expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores.

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O António Filipe Pimentel, que tanto nos incentivou e a quem fazemos uma grande entrevista sobre os 6 anos que leva à frente do Museu Nacional de Arte Antiga e que mudaram a imagem da Casa dos Tesouros de Portugal; a Joana Sousa Monteiro, directora do Museu de Lisboa, a quem convidámos para escrever sobre a exposição que coordenou sobre o inspirador tema Luz de Lisboa; o Embaixador Francisco Seixas da Costa, que nos guia através das sombras da cidade; a Alexandra Markl, a Susana Campos e a Teresa Serra e Moura que escrevem sobre a maravilhosa transformação na luz da “Adoração dos Magos” de Domingos Sequeira, após o seu restauro; o Miguel Simão que, através da sua câmara, nos mostra o seu olhar de Lisboa; o Professor Galopim de Carvalho, que aceitou contar-nos a história de uma vida dedicada ao estudo do chão que pisamos; a Graça Canto Moniz que conversou com a Embaixadora de Israel em Portugal sobre o nosso país; o Nuno Costa Santos, que aceitou o desafio de legendar as fotografias do nosso Coronel fotógrafo António Conde Falcão; a Bárbara Bulhosa com quem conversámos sobre edição, literatura, política e muito mais; o Francisco Mallmann que, do outro lado do Atlântico, nos enviou um excelente ensaio literário; o André Serpa Soares que nos escreve sobre a Lisboa que ama; o Moullinex, que nos conta como começou a fazer a música que anima as noites da cidade; o André Pinguel que nos mostra que os vinhos também têm música; o Pedro Santo Tirso que relembra a receita de Dry Martini de Buñuel; o Frederico Falcão, director do Instituto da Vinha e do Vinho, que anuncia os caminhos de futuro para os vinhos portugueses; o António Ferrari que nos alerta para os perigos da informação não filtrada da internet e, sobretudo, das redes sociais.

Depois caía em toalha Sobre as dobras da cidade; (...)”


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Grande Entrevista


António Filipe Pimentel Fundado em 1884, o Museu Nacional de Arte Antiga é, na definição feliz do seu actual diretor, em artigo escrito para a revista brasileira Valeu!, a ‘Casa dos Tesouros de Portugal’. Localizado na Rua das Janelas Verdes, sobranceiro ao Tejo e englobando dois edifícios históricos representativos da arquitectura portuguesa — o Palácio Alvor-Pombal e a Capela das Albertas —, nele se encontra um incrível acervo museológico, com especial destaque para a mais importante colecção de pintura antiga portuguesa dos séculos XV e XVI, de onde sobressai em todo o seu esplendor, a genial obra de Nuno Gonçalves, os Painéis de São Vicente: hoje, após remodelação recentíssima, colocada em destaque com a “dignidade e o mistério de uma capela mor”, no renovado 3º piso do museu.

Mas, de há 6 anos esta parte, tudo mudou! O Museu Nacional de Arte Antiga passou a estar na moda! Desde que se abriu à cidade, para ocupar por seis meses a Praça Central do maior centro comercial do país, o Colombo, ou que “inundou” Lisboa de réplicas de obras do seu acervo, que o mais importante museu nacional não sai das páginas dos jornais e da boca dos portugueses. Como se não bastasse, conseguiu o feito de mobilizar o país, coisa nunca vista, em torno de uma obra de arte, a Adoração dos Magos de Domingos Sequeira, com o resultado que todos conhecemos.

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Durante os seus mais de 130 anos de existência, reconhecendo-lhe a importância de maior museu do país, onde repousavam, ao cuidado dos melhores conservadores, os Painéis, a Custódia de Belém ou as Tentações de Santo Antão, de Hieronymous Bosch, poucos foram, contudo, os portugueses que lhe concederam a gentileza de uma visita ou lhe conheciam verdadeiramente o acervo. Quantos de nós saberíamos que nele se encontram o único Rafael existente em Portugal, ou o magnífico Santo Agostinho, de Piero dela Francesca?


Grande Entrevista | António Filipe Pimentel Esta transformação tem um rosto: o do actual director do MNAA, António Filipe Pimentel, Licenciado em História da Arte pela Universidade de Coimbra, mestre em História Cultural e Política da Época Moderna, doutorado desde 2002, com a dissertação A Morada da Sabedoria. I – O Paço Real de Coimbra: das origens ao estabelecimento da Universidade, publicada em 2005 e Pró-Reitor da Universidade para o Património, entre 2007 e 2009 (com a responsabilidade de coordenação científica da candidatura UNESCO, que Coimbra viria a ganhar), cargo que abandonaria para assumir, por breve tempo, a direcção do Museu Grão Vasco, em Viseu. Já passaram seis anos desde que António Filipe Pimentel assumiu a chefia da “Casa dos Tesouros de Portugal”. Desde lá, o museu afirmou-se no panorama cultural português e, mais importante, no panorama internacional, tornandose parceiro dos maiores museus, produzindo investigação regular e publicada na área da História da Arte e mantendo um calendário pendular e intenso de exposições, que neste período de 6 anos, atingiu o impressionante número de 79. É com o gestor cultural mais badalado do momento que a BICA veio conversar, para perceber como foi possível uma tão grande revolução, em tão curto espaço de tempo e, sobretudo, com os escassos meios de que o MNAA dispõe.

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A conversa decorreu nas instalações do museu, entre um passeio pelas galerias entretanto remodeladas e a esplanada sobranceira ao Tejo. Existem tesouros artísticos portugueses espalhados por muitas casas, mas no MNNA existem numa escala muito superior a todas as outras instituições. É o museu onde existe a possibilidade de ver o que de melhor o país produziu ou acolheu e isso tem uma capacidade de comunicação coerente: ou seja, não é um museu sectorial, mais focado numa coleção específica, como o Museu dos Coches, como o Museu do Azulejo, em si mesmos esplêndidos, ou numa vertente de produção regional, ou de património regional, como são os vários museus de belas artes disseminados pelo país. Cumpre o papel de ser o grande museu nacional, uma espécie de cúpula, de resumo de todos os outros e isso torna-o num interface fundamental da marca colectiva,

da marca Portugal. Esse jargão das marcas não é muito simpático, mas permitenos perceber rapidamente do que estamos a falar. Por conseguinte, é um activo. Um activo anímico e a campanha do Sequeira mostrou isso mesmo: funcionou como um censo informal da representatividade do museu. Se o Museu não fosse transversalmente reconhecido como a tal Casa dos Tesouros de Portugal, nunca tinha sido possível mobilizar o país de norte a sul como aconteceu numa campanha para adquirir uma pintura para enriquecer esta coleção que é de todos. Quando a Câmara de Mirandela ou a de Alvito ou a de Cantanhede se mobilizam activamente para contribuir e apelam ao contributo da própria cidadania, ou chamam sobre si o contributo dos seus munícipes, acontece exactamente isso. Ao contrario do que se diz, um museu não serve para estar na moda. A moda é efémera. Um museu serve para ser motivo de orgulho, para nos estimular o ânimo e gostarmos de nos ver ao espelho. É um espelho de nós próprios, do que fomos, do que somos e do que queremos ser. Atravessando e unindo as gerações. Que reflexo vemos nesse espelho? Vemos uma revolução em marcha. Um dos aspectos mais complexos e penosos de Portugal como marca, porque antes de uma marca funcionar para fora, tem de funcionar para dentro, é a descrença dos portugueses no seu próprio projecto nacional, embora com sinais contraditórios muito interessantes — por exemplo, uma coisa que eu acho espectacular é o modo como se está a passar o boom turístico no país e muito especificamente em Lisboa; o confronto do turista que nos visita com o orgulho que os lisboetas têm da sua cidade (e outro tanto se pode, por exemplo, dizer do Porto). Os lisboetas são e tornaram-se, sobretudo nos últimos anos, muito conscientes da beleza especial de Lisboa, embora com a noção do que há para fazer em termos de reabilitação urbana, de comodidade de circulação, etc, mas globalmente têm muito orgulho na sua cidade. E esse orgulho passa mobilizadoramente para aqueles que nos visitam, contamina-os. Ora, o que acontecia na relação que os portugueses têm com o seu património, era patologicamente a situação inversa. Nomeadamente no que se referia aos equipamentos do Estado, que têm de ter a sua própria majestade. A coisa pública tem de ser a referência da majestade, porque é a majestade colectiva; as


Grande Entrevista | António Filipe Pimentel

Mas durante décadas foi o contrário. Exactamente. Ora, o que o museu conseguiu fazer, e isso é fundamental para os outros museus, para a causa dos museus públicos, para mobilizar a sua escala e lhe permitir ser a nau almirante que puxa a frota, foi passar a ser a referência nacional pela posição activa de marca que criou, ao realçar o valor intrínseco da instituição. Isso foi um exercício bastante alucinante, como é óbvio, porque partiu do zero absoluto para chegar a um desempenho que ultrapassou as instituições melhor patrimoniadas. E também é certo que, entre outras coisas, levou ao limite a estrutura. E, se tivermos em linha de conta que ela já estava subnutrida antes do arranque, imagine-se o ponto a que chegou agora. Mas, com tudo isso, conseguiu-se fazer uma consciencialização colectiva que correspondeu também a uma consciencialização política, que é outro dos aspectos que os portugueses têm, às vezes, dificuldade em perceber: é que a polis somos nós, a política somos nós. Somos nós que escolhemos os bons ou maus governantes, que antes de serem governantes são cidadãos como nós e que eles próprios colheram a percepção global. Isso permitiu, finalmente, que o museu esteja na mesa negocial: por um lado com a consciência de que existe um bem estratégico que importa preservar, por outro de que se não se actua com a devida rapidez, vai-se comprometer todo este exercício que está no ponto de viragem. Aqui chegados — e foram seis anos metódicos de trabalho para chegar aqui (metódicos em todos os sentidos, porque foram planificados e passados a escrito e entregues à tutela logo no início)—, espero que as coisas não tardem e que a decisão política esteja em cima da mesa naquilo que é necessário, que é dar instrumentos de viabilidade ao museu para que ele possa cumprir com elementares condições e prever a questão da ampliação que é o outro eixo fundamental para dar ao grande museu de Portugal — à tal Casa dos Tesouros Nacionais —, a escala física, urbana, pública que tem que ter para cumprir o fundamental papel de mantermos o ânimo em alta. Isto à margem de tudo o resto, que é o contributo activo que tem para a economia. Basta dizer que estimamos que o valor de comu-

nicação do Sequeira tenha ultrapassado os 2,5 milhões de euros, o que é mais do que os custos de manutenção do museu. A ComingOut nem conseguimos calcular, porque, como não temos capacidade de contratar esse estudo, não podemos fazer essa monitorização. Mas chegou aos EUA e a toda a Europa em dias consecutivos, ao longo de três meses! Um colega meu, que estava em Dusseldorf a entregar três dos nossos Zubaráns para uma exposição, apanhou em directo na ZDF uma reportagem sobre a ComingOut; no dia seguinte um amigo que estava em Oslo, numa reunião europeia sobre comunicação para museus, é surpreendido quando o MNNA é dado como referência por causa do mesmo projecto... Isto foi o ponto de chegada de 6 anos de trabalho. Quanto é que isto vale em comunicação? Para além do clássico rendimento de bilheteira, de loja, etc.? O estudo que em finais de 2015 foi apresentado à tutela, um estudo como nunca foi feito para nenhuma instituição cultural portuguesa — o MNNA2020 —, com o apoio da consultora Mckinsey (Fundação Manuel Violante) no plano económico e da Fundação PLMJ no plano jurídico e de um conjunto de consultores do melhor nível, aponta, uma vez completado o plano, já com o museu ampliado, para o número de 800 mil visitantes ano. Penso que é possível ir além. Neste momento estamos praticamente nos 200 mil. Há que encontrar um equilíbrio hábil entre as finanças e a economia. As finanças, que obviamente estão preocupadas com o dinheiro em caixa e o saldo no final do ano (e isso é fundamental) e a economia, que tem de pensar estrategicamente no futuro ao país. Nós trabalhamos obviamente no domínio financeiro com total rigor de gestão o que é por demais evidente — basta pensar que neste momento temos a decorrer 5 exposições em simultâneo, com um orçamento que seria inverosímil em termos internacionais. Se isto não é rigor de gestão, não sei o que será... Uma questão que gostaríamos que esclarecesse é a forma de financiamento do museu, e a gestão das receitas incluindo as comparticipações privadas. O modelo actual permite ou não permite o mecenato directo? Não permite, porque o museu não existe juridicamente nem administrativamente. Para as pessoas entenderem, não tem número de contribuinte.

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instituições privadas têm, quando muito, de procurar aproximar-se da majestade pública que nos representa.


Grande Entrevista | António Filipe Pimentel O que quer dizer que se o museu angariar o contributo de um mecenas, o valor desse contributo não vem directamente para o museu, podendo inclusivamente não vir na totalidade. - Não havendo personalidade jurídica, não há personalidade financeira, nem administrativa. No mesmo sentido, o museu não pode ter política de horários próprios, receber doações, nem gerir a política de imagens da sua coleção, o que é importantíssimo, numa altura em que a imagem tem uma importância fulcral e em que todos os grandes museus estão a disponibilizar online, em alta resolução, as suas colecções inteiras ou a promover visitas virtuais. Isso estimula a noção de que, a obra de arte vista na internet nunca substitui a experiência da contemplação directa e promove as visitas. Actualmente existe uma política de cobrar as imagens do nosso património, mas sem antes criar o mercado. É um contrassenso: primeiro há que divulgar o nosso património e depois rendibilizá-lo de forma criativa. Nós somos uma das faces da Direcção Geral do Património, que, além do MNNA, tem sob a sua tutela um amplo conjunto de museus e monumentos. Isso impede-nos de ser interface directo de projectos nacionais ou internacionais. Curiosamente existimos enquanto alma, enquanto entidade - não passa pela cabeça de ninguém extinguir o MNAA - mas não existimos à luz do quadro jurídico-administrativo. Não é por acaso que, em todos os países de primeiro mundo, os principais museus têm estruturas de agilidade administrativa. No Museu do Louvre, mesmo durante o período da ocupação alemã, continuou-se a adquirir obras; em Portugal deixou-se de consignar a noção de que as colecções têm de enriquecer.

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Desde quando? O pecado original é velhíssimo – António sorrindo. A história dos museus portugueses é muito curiosa. Começa durante o século XIX, com o primeiro, no Porto, o Museu do Ateneu, que surge logo a seguir ao cerco do Porto, porque era necessário albergar as obras dos Conventos que tinham sido expropriados; depois o MNAA, o de Castelo Branco e, com a implantação da República, há uma euforia de museus nacionais por toda a parte. Foram criados muito meritoriamente, mas esqueceu-se o passo a seguir, que era alimentá-los e dar-lhes uma missão. Porque a partir do momento em que há uma missão definida, tem de haver alocação de meios, poucos

ou muitos, para o seu cumprimento. Se não há missão, pode não haver meios e isso foi exactamente aquilo que se fez. Chegados ao fim do século XX, fazem-se, enfim, obras, mais que necessárias de renovação, na maioria deles, com apoios europeus, mas renovações do invólucro, porque o conteúdo encontrava-se, em muitos casos em estado decrépito e sem reais condições de exposição e, sobretudo, não se investiu nos recursos humanos. Há pouco dizia que o MNAA era a Nau Almirante dos museus portugueses. Mas, há mais caravelas para acompanhar essa viagem? É preciso contrariar o sentimento de desesperança que se vive no meio museológico. Criou-se uma cultura anímica de que não vale a pena fazer nada. Temos de dar condições para que todos possamos navegar no mesmo sentido. Nalguns casos, alguns diretores de museus também não privilegiaram a conservação em detrimento do público e da exposição das peças? A principal razão para o estado de coisas é política e colectiva, porque só uma sociedade que nada pede aos museus, é que pode permitir que os museus não tenham uma determinada performance. Repare, lembram-se das Finanças antigamente? Como era exasperante tratar de qualquer coisa num departamento de Finanças? Hoje estão na linha da frente da modernização e não há nada que não se trate informaticamente e de forma célere. Isso aconteceu porque as Finanças tiveram uma missão com meios, o que faz com que hoje, a Direcção Geral de Finanças se tenha tornado atractiva para novos licenciados, porque tem prémios, promoção de carreira, estímulos, etc. Por isso não vale a pena dizer que o director A não faz isto, o B não faz aquilo. São heróis. Para todos os efeitos, vão mantendo abertas estruturas com meios escassíssimos. E são eles que dão a cara. Aí está outra das perversidades do sistema: nenhum de nós tem contribuinte, mas quando as pessoas reclamam ou pedem o livro amarelo, é ao museu e ao seu director que estão a pedir contas, é o museu que dá a cara. Mesmo aqui no MNAA, onde encontrei uma equipa de excelência, havia, sobretudo, em alguns funcionários mais antigos, a ideia de que quando Nosso Senhor criou o Mundo, criou também as


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Grande Entrevista | António Filipe Pimentel pessoas que viriam ao MNAA e as que nunca viriam, por mais que fizéssemos e não havia nada a fazer contra isso – risos. Mas, isso é culpa nossa, uma responsabilidade colectiva nossa, não tem nada a ver com política. Já repararam que os espanhóis aproveitam todas as oportunidades para sair à rua? Velhos, novos, crianças. E quem sai à rua faz coisas, vai ver a nova exposição, a nova galeria, a loja. Nós aproveitamos todas as oportunidades para nos sentarmos em frente ao televisor a ver telenovelas e futebol. Se bem que isso mudou... Ora bem. Há uma nova geração que é mais cosmopolita mais atenta à cultura e à arte e isso é bom. O MNAA tem capacidade de sedução, sempre teve e ainda mais agora, com a programação que apresenta e a progressiva renovação das suas salas. Quando as pessoas veem, ficam surpreendidas e tornam-se embaixadores do museu. Ou seja, uma roda que estava a andar para o lado errado, começa a rodar no sentido certo.

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Talvez o momento publicamente mais visível de que essa roda começara a girar no sentido certo, tenha sido a abertura do museu à cidade, através das réplicas expostas em determinados pontos de Lisboa e que, contrariamente ao esperado, resultou sem vandalismos e com a curiosíssima apropriação para a outra banda de quatro peças. Isso não revela uma nova forma de cidadania? Claro que sim. As pessoas estão ávidas e aderem. Por isso é que digo que tem de existir uma maior consciencialização da importância da cultura. Somos todos nós que temos essa responsabilidade. Não é por acaso que decidimos fazer a ComingOut, embora a primeira pedrada no charco tenha sido o projecto no Colombo, em 2012. Essa foi a grande ousadia, levar o museu para a Praça Central de um centro comercial e funcionou um pouco como laboratório. Porque a ideia foi perceber como reagiriam à marca os frequentadores de um dos maiores espaços comerciais de Lisboa e o resultado foi espectacular. As duas exposições não só tiveram 118 mil visitantes em 6 meses, como houve gente a ir lá de propósito para ver a exposição e se verificou uma migração dos frequentadores para a zona

menos densa do ponto de vista do pulsar da vida do centro, que é a praça central. Sucede que, entretanto, nos disseram que a exposição anterior, do Museu Berardo, tinha tido um retorno de comunicação de 500 mil euros e que queriam ultrapassar conosco. Ora, nem sabíamos que a comunicação tinha valor, que se media. – risos. A verdade é que esse valor foi ultrapassado ao fim dos primeiros 3 meses e da primeira exposição, portanto a marca funcionava. A ComingOut, foi outra demonstração que funcionou pelo absurdo das pessoas pensarem que o MNAA tinha colocado os seus quadros na rua e teve o impacto de que todos nos apercebemos. Depois, o Sequeira, que exigiu um contributo financeiro, que foi ao bolso das pessoas, muito ou pouco e que foi um sucesso extraordinário. Portanto, tudo isto demonstra que a sociedade mudou e continua a mudar muito aceleradamente. As pessoas estão ávidas de ser puxadas para cima. Estão cansadas de ser puxadas para baixo. E a cultura e, dentro da cultura o património, sobre o qual as pessoas têm apesar de tudo uma visão de preservação, de algo que deve ser mantido para as futuras gerações, significa investimento e, portanto, a sociedade já não acha que tem de ser o Estado a fazer tudo. As pessoas já estão abertas a fazer e querem ser mobilizadas para causas positivas. Isto significa que não existe só aquele país indiferente, negligente, que se está nas tintas para a cultura; existe um novo país que está a pulsar cada vez mais e em que cada um é um agente contaminador. Isto é como a evangelização: assim nascem as igrejas, não é? – risos. – O que os projectos da ComingOut e do Sequeira mostraram, foi que há um novo país, mais europeu, mais aberto e mais cosmopolita. Quem ganhar esse país, ganha o futuro. Qual o perfil de quem contribuiu para ajudar a “pôr o Sequeira no lugar certo”? Não conseguimos ter um recenseamento total de quem contribuiu (até porque recebemos muitíssimos contributos anónimos) no magma do contribuinte individual, que na sua maioria são simples nomes. Mas conseguimos ter alguma percepção geográfica, etária e sociocultural e mesmo económica. Em relação às empresas conseguimos ter uma informação global e detalhada. A amostra é suficientemente ampla para perceber duas coisas: primeiro, que os contributos são absolutamente transversais, de norte a sul do país. Em ter-


Grande Entrevista | António Filipe Pimentel

É o grande problema da nossa educação. A constante adopção de modelos alheios e ultrapassados...

Exacto. Por isso é necessário investir na educação e na cultura. A cultura é a âncora da criatividade. O homem culto é criativo Há tempos, numa entrevista, disse que quando formos um país desenvolvido, investiremos na cultura. Estamos longe? Ironizava, claro. Acho que estamos longe, o que não quer dizer que não estejamos no bom caminho. O que acontece é que os portugueses têm de ter noção do tempo que passa. Não basta dizer que já estamos mais próximos. Estamos mais à frente, mas os outros também não estão parados, por isso temos de correr mais do que os outros para encurtar progressivamente a distância. Mas também temos de olhar para os que estão mais longe, para ganhar ânimo para acreditarmos em nós e sabermos que vamos conseguir. Por isso é que uma casa como esta é muito importante: é uma plataforma internacional. Estamos permanentemente em rede com o mundo, o que faz muito bem à saúde, porque nos faz perceber o lado bom e o lado menos bom dos outros. E é bom verificar como os nossos colegas estrangeiros chegam aqui e ficam perplexos com o nosso ritmo, capacidade e qualidade de realização; como nos impomos ao respeito, pelo nosso profissionalismo, pelo rigor, pelo empenho, pela alma que puxa para cima. Ora, Portugal tem essa capacidade de se apaixonar por um projecto. Os portugueses apaixonaram-se pelo Sequeira, isso é extremamente importante. O Sequeira é um case study notável, porque é a primeira vez que os portugueses se apaixonaram por uma obra de arte sua e que, em grande parte, nem conheceriam. Só para conhecerem o Sequeira já teria valido a pena. Sim, o Museu já teria cumprido a sua missão estrita divulgando a vida e obra de um grande pintor poruguês. Agora os portugueses apaixonarem-se por uma obra de arte sua é notável. Só isso significa crescer, ajudar as pessoas a passar para uma outra dimensão. E sentirem orgulho de si. Sentirem que não são menos do que os outros. É todo esse trabalho que este museu se orgulha de fazer. E isso do ponto de vista anímico também é muito bom, porque somos muito poucos, uma associação de estudantes como eu costumo dizer, mas de elite, capazes de nos bater com qualquer museu do mundo. Mas com uma equipa muito reduzida, que se multiplica em esforço e dedicação... Este museu vive da paixão que as pessoas

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mos socioculturais também, de todo o tipo, desde a elite económica até reformados e pessoas com mais dificuldades. Finalmente, também em termos etários: por exemplo, o movimento dos alunos das escolas secundárias foi brutal. O meu Liceu José Falcão, de Coimbra, mobilizou-se todo: fiquei orgulhosíssimo. Outra vertente importante e muito curiosa foi a do empenho dos municípios, que começou em Cantanhede e se espalhou a Alvito ou Mirandela e o das Juntas de Freguesia de Lisboa. Sendo que o papel determinante foi do Município de Cantanhede, sobretudo na Associação de Municípios. É igualmente curioso verificar que a primeira vaga das empresas que contribuíram foi de empresas de cidadania: o consultório, a lavandaria, a pequena galeria de arte. Depois começaram as grandes empresas e instituições nacionais, das quais a Fundação da Casa de Bragança foi muito importante. E, claro, a Fundação Aga Khan, que deu um contributo importantíssimo, com um terço do valor, numa altura em que já se tinha ultrapassado o primeiro terço e, portanto, a partir daí, como disse em Março, não ia haver Sequeira que chegasse. O contributo da Fundação Aga Khan é muito curioso, porque, além da questão cultural envolvida, deu um sinal à comunidade muçulmana de abertura e tolerância, porque na prática contribuiu para a compra de uma obra de dimensão religiosa cristã. Mas, como quem pensa com ousadia, colhe com ousadia, é óbvio que, em termos de comunicação, terá rendido à Fundação muito mais do que o valor investido, porque a partir daquele momento, não há português que não saiba o que é a Fundação Aga Khan e não lhe esteja reconhecido. Os anos que levaria a atingir este objetivo... Nós somos, tendencialmente, tímidos e pouco criativos. Como não temos educação para a cultura e para as artes, que é de onde vem a criatividade, estamos sempre à espera da receita mágica de sucesso e não somos ousados; e, como não somos ousados, tendemos a ir sempre a reboque. Andamos sempre a copiar modelos alheios em vez de criar o nosso. Os modelos alheios, por regra já passaram, foram válidos no momento em que foram criados para responder a problemas alheios e eles próprios, os outros, já não estão naquele modelo, estão noutro a seguir... E, contudo, há cada vez mais portugueses a marcarem pontos na inovação...


Grande Entrevista | António Filipe Pimentel têm por ele. O que não é sustentável em termos de administração pública, porque a administração pública não pode estar dependente da paixão que as pessoas têm pelo seu trabalho. E o conhecimento aqui concentrado tem de transmitir-se a novas gerações. Só para encerrar o dossier Sequeira, foi público que a angariação de fundos superou o valor do quadro. E agora acaba de ser anunciada uma nova aquisição. Foi outra aventura. Localizar no Brasil esta importante pintura (o “Retrato de D. João V com a Batalha do Cabo Matapã”, por Domenico Duprà) a partir de uma foto a preto e branco publicada em 1962 e que a dava por existente em Haia; conseguir trazê-la a Portugal em 2013, para a exposição “A Encomenda Prodigiosa” e agora adquiri-la, com isso inaugurando a representação no museu deste importante pintor régio e, simultaneamente, iniciar um outro ciclo virtuoso: o da recuperação de património nacional disperso. É o que faz um grande museu. Estou feliz, orgulhoso e infinitamente grato, como é obvio, à onda de generosidade que o possibilitou.

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Se aparecer outro Sequeira, coloca-se a hipótese de nova campanha? A Adoração dos Magos era uma obra fulcral para o nosso museu. A colecção das quatro últimas pinturas de Domingos Sequeira de que faz parte e que forma um conjunto coerente deve vir a integrar este museu. Temos os quatro cartões ou desenhos finais, além de inúmeros estudos preparatórios. Quando e se houver oportunidade de adquirir as restantes , terão de entrar aqui, não noutro museu qualquer. Daí a importância estratégica desta pintura para nós. Este tipo de campanha foi a primeira, portanto, a partir daqui, ficou ao alcance de todos. Yes we can! As pessoas ficaram a saber, que, pelo preço de um café, podiam comprar arte. Isso foi uma vertente genial da campanha, encostar as pessoas à parede do absurdo, “Ah, porque isso é uma coisa de países ricos!”, nada! Nós estivemos presentes na BTL e na Futurália, mais para divulgar do que propriamente para angariar, mas estivemos lá, no átrio, com uma cópia do Sequeira em escala natural. E aconteceu uma coisa absolutamente incrível: um sem abrigo entrou no átrio e veio entregar 1 euro para contribuir. Não há palavras... Aquele sem abrigo, com aquele gesto, mostrou que tinha dignidade. Quando toda a gente pensava que estava na base da sociedade, não estava. Portanto, o Sequeira mobilizou todos, da Fundação Aga Khan, ao sem abrigo.

O que é, António, o MNAA2020? Do que conhecemos, entendemos que passará pela criação de uma entidade pública empresarial. É esse o projecto? Esse era o projecto, como ele foi desenhado e apresentado em final de 2015, onde constam, solidariamente, autonomia e ampliação do Museu. Poderá haver outras soluções. Sobretudo, o MNAA2020 configura o museu do futuro, com razoáveis e equilibradas condições de trabalho. É, também, a garantia de sobrevivência do museu, cuja valência estes seis anos demonstraram, mas que não sobreviverá se continuar assim. Ao menos com as potencialidades que demonstrou. É por um lado, a criação de condições jurídicas, administrativas e financeiras elementares para o cumprimento da sua missão, por outro, a escala física necessária. No discurso de inauguração da exposição “Obras em Reserva. O Museu que não se vê”, o Primeiro-Ministro António Costa, assumiu a concretização desse projecto. Sim, da mesma forma que o Ministro da Cultura o tem feito reiteradas vezes. Isso também implicará autonomia para a gestão de fundos conseguidos pelo próprio museu. Esse é um dos objetivos. Quanto mais autónomo o museu for, mais poderá contribuir para a sua própria sustentabilidade. Só para que fique claro: o MNAA2020 não implica um esforço financeiro gigantesco para os contribuintes. Claro que não. Implica, essencialmente, flexibilidade administrativa e a libertação das receitas geradas. Essa mesma flexibilidade permitirá o seu aumento gradual, contribuindo, de modo mais eficaz, para a sua própria sustentabilidade e, muito especialmente, permitindo-lhe ir sempre mais longe na afirmação da própria marca. Se o tem feito quase sem meios, imagine o que poderá fazer, com condições elementarmente adequadas!... Nem implica nenhuma privatização do museu. Isso seria ridículo. Não se privatiza a bandeira nacional. (risos). Isso é ponto de hon-


ra para mim e para a equipa. E imagino que para toda a gente sensata. No fundo é um modelo ágil que permita a gestão autónoma dos fundos que angaria e que saiba qual a dotação orçamental do Estado e que a possa gerir autonomamente. Exacto. Por exemplo, uma grande exposição é um projecto que leva 2, 3, 4 anos a amadurecer e a trabalhar. E que obriga a negociar empréstimos com ampla antecedência. Como é que nós podemos anunciar que vamos fazer uma exposição X em 2018, ou 19, agilizando em conformidade todos os meios de turismo, fazendo programar as agências de viagens, etc, etc, se, provavelmente, só em Abril desse ano teremos acesso ao Orçamento e a sabermos se alguma coisa nos foi dotado? Os processos de empréstimo internacionais duram 2 anos ou mais! Para já não falar nos labirínticos procedimentos administrativos.. Nós vivemos, a duras penas, a conseguir ultrapassar esse problema, justamente porque pertencemos à 1ª divisão. Mas sempre no fio da navalha. Por exemplo, a preciosa tabuinha da Rainha Santa Isabel, da oficina de Quentin Metzys, que pertenceu ao Convento da Madre de Deus, de onde saiu tranquilissimamente no séc. XIX, não se sabe como, e hoje pertence à Gemäldegalerie de Berlim. Nunca a tinha emprestado a Portugal, mesmo depois de duas ou três tentativas — emprestounos agora a nós para a exposição da Rainha Santa, restaurou-a para vir e ainda acedeu ao pedido do Museu Machado de Castro em Coimbra para o prolongamento da estadia lá acompanhando a exposição. Isto conseguiu-se porquê? Credibilidade?

Por falar na nossa História, um comentário que se ouve correntemente é da inexistência de um Museu que conte a epopeia dos descobrimentos. Acha que faz sentido criar um museu especificamente ou o MNAA deveria ser esse museu, sobretudo agora, com a ampliação?

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Credibilidade internacional, que depois é benéfica para todos. Nós não queremos soltar as amarras do MNAA deixando os outros todos para trás. Não é isso. É dar ao Museu Nacional de Arte Antiga a capacidade de ser a locomotiva que puxa os outros e que vai aos poucos conseguindo dar aos outros um sinal de esperança. Isso é fundamental, porque os museus públicos são os nossos museus. A colecção Gulbenkian é uma maravilhosa colecção e é um privilégio para Portugal tê-la cá, como para Madrid ter a Thyssen; mas Madrid não é a Thyssen, é o Prado. A colecção do MNAA é a nossa colecção, a que conta a nossa história. O Bosch fazia parte das colecções reais; o Piero della Francesca não fazia, mas foi comprado em 1939 e pertence-nos. É a nossa História!


Grande Entrevista | António Filipe Pimentel

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Vamos lá a ver... Nós podemos achar que todos os projectos fazem sentido. Podemos achar que, no momento em estamos a especular se o país tem capacidade financeira para dotar o MNAA dos instrumentos financeiros de que ele precisa, faz sentido (e a expressão faz sentido é muito útil), que o mesmo país tenha, por exemplo, por intermédio do Banco de Portugal, feito o Museu do Dinheiro, na antiga Igreja de São Julião — que, aliás, é um museu muito interessante bem feito —, de acesso livre e gratuito, portanto sustentado em todos os seus custos pelo contribuinte. Logo, podemos fazer tudo o que quisermos. Até transformar o país num parque temático, se assim o entendermos (risos). O museu das descobertas, para mim, corresponde exactamente a esse conceito. Outra coisa é que este museu tenha uma natural vocação, que tem, de ser um pouco como o Rijksmuseum, que é à letra o Museu do Reino e conta a história da Holanda a partir das suas obras de arte. Porquê? Porque os ícones centrais da história da Holanda estão ali. Porventura sem uma versão tão radical como a do Rijksmuseum, este museu tem condições para fazê-lo. Aliás, está a fazê-lo, regenerando-se sem parar. O Rijksmuseum fechou 10 anos e reabriu agora em todo o seu esplendor e nós estamos, como a serpente, a mudar de casca continuando vivos e activos. O museu começa a ser uma espécie de puzzle de áreas luminosas e sombrias, onde as áreas luminosas já se vão tornando dominantes. Quem entra pela porta das Janelas Verdes, o átrio, a Galeria de Exposições Temporárias, a Biblioteca, a escadaria de honra, as casas de banho, o bengaleiro, mesmo o restaurante, já está tudo renovado. Falta o auditório. Chega ao 1º piso, falta toda a galeria de pintura europeia que há-de ir a seguir, mas para a esquerda já estão as salas de artes decorativas francesas. Do outro lado já está o átrio principal até ao piso 3; está a sala do mezanino, a sala do tecto pintado. Portanto eu conto que, ganhando uma eficácia que só se ganhará num quadro de maior espacialidade, que será o da ampliação, seja possível ter o museu novo, sem paragem. De maneira que quando o novo edifício estiver terminado, engancha no antigo edifício renovado em termos de estrutura, faltando obviamente a recolocação de peças e colecções. Agora estamos a trabalhar na Capela das Albertas, porque o museu tinha amplos espaços fechados (como o Piso 3) que temos vindo a renovar. O MNAA de hoje é um

processo em absoluto contra ciclo, iniciado com o país a caminhar para uma vertiginosa crise e o museu em simultâneo a descolar. Para que quando tivermos o museu do futuro, ao menos tenhamos o museu do passado integro. Depois da Capela das Albertas avançaremos para a galeria de pintura europeia, que é uma obra relativamente simples, porque não tem necessidade de nenhuma intervenção de fundo, até porque não tem vitrinas, nem complexos dispositivos museográficos, é, sobretudo, iluminação e a inversão do circuito, para ganharmos a sala dos contadores e a seguinte que tem o cofre da Graça e os vidros venezianos, começando por aí a cronologia da colecção de pintura e escultura e acabando ao contrário no patamar da escada das janelas verdes, com o séc. XIX, com o Rodin e por aí fora. É muito mais lógico porque o museu está agora orientado a partir da porta principal. Portanto, primeiro somos recebidos pela arte portuguesa e da expansão e depois entramos nas colecções europeias e em baixo a galeria de exposições temporárias, o restaurante e o jardim. Mas o grande projecto de fundo que vamos tentar iniciar, é a renovação de todo o 2º piso, exactamente convertendo-o numa galeria das artes da expansão. Se quiser, num museu das descobertas... Quem chega, tem a Custódia de Belém, que mostra que os portugueses conseguiram dobrar África, tem a Índia, as Jóias de Goa vão entrar na exposição permanente, tem o Tesouro da Vidigueira, as porcelanas da China, até chegar triunfalmente aos Biombos Namban, que têm de ser o final glorioso dessa galeria e não, como agora estão, numa salinha onde parece que só falta ouvir a Butterfly a cantar em fundo. Ou seja, com a ampliação, vamos ter o nosso Museu da expansão no MNAA. Também. Não só, mas também. (risos). Como vai ser essa expansão? A do museu, não a portuguesa. (risos). Isto porque ficámos com a ideia de que essa ampliação passaria por uma ligação ao boullevard que a Câmara tem projectado para a zona que liga o Cais do Sodré à Av. Infante Santo. Penso que, dentro em pouco, teremos uma noção mais exacta da escala desejável dessa ampliação para, entre a DGPC, o Ministério e a Câmara, poder fechar-se uma estratégia de como será feita essa ligação. Há áreas devolutas, áreas que podem,


Grande Entrevista | António Filipe Pimentel

No fundo, esta ampliação que está a ser projectada em estreita ligação com a Câmara, o que é logo à partida um óptimo princípio, pretende fazer do MNAA um equipamento âncora desta zona da cidade, com uma acessibilidade mais fácil pela 24 de Julho. É finalmente fazer do MNAA o Museu de Portugal. É isso exactamente. Para isso muito contribuiu o ciclo virtuoso do impacto turístico que o país está a viver. Esse impacto é incontrolável. Abrimos a caixa de pandora positiva. A sorte dá muito trabalho, como costuma dizer-se. Posicionámo-nos no mercado, activando redes de comunicação e de colaboração que, como o produto é bom, vão replicar a vontade de cada vez mais vir a Lisboa e tudo isso está a gerar na cidade, com o benefício, um malefício, que é uma pressão concentrada na Baixa, entre o Castelo e o Chiado. Portanto a própria cidade tem necessidade de fazer divergir essa pressão. Por um lado para Belém (e agora Ajuda) — mas mesmo em Belém tem de ser rarefeita. Ora, ao criar-se um boullevard nesta zona, está-se a convidar as pessoas a passear para aqui; mas o passeio tem de ter um objetivo, porque as pessoas não se põem a passear para nenhures. O MNAA pode e deve ser o objetivo do passeio. O motor desta zona renovada. Esperemos, pois, que esta conciliação de vontades acelere o processo. Porque isso é outro problema muito português, que é o de não termos a percepção de que o tempo não passa duas vezes no relógio. De que as coisas têm de ser feitas em tempo útil. Todo este trabalho que culmina no projecto MNAA2020, só foi possível pela estabilidade. Durante os seis anos em que o António está à frente do MNAA, foram diversos os diretores-gerais, secretários de Estado, ministros com quem já trabalhou... Claro e isso não faz nada bem à saúde porque nos sentimos os decanos (risos). É evidente que não há projecto nenhum que não sofra com as permanentes mudanças de chefia. Apesar disso, foi sempre construída uma relação de trabalho qualificada, com todos e cada um. Mas creio que, além da estabilidade, há outro valor muito importante: a atitude. Porque é que o projecto arran-

cou tão rapidamente? Porque entre outras coisas, atavicamente eu tenho um enorme respeito e consideração pelas pessoas que me precederam. Quando eu cheguei a esta casa, tive e disse-o, a perfeita noção de que eu era o mais novo elemento da equipa. Não tinha sido eu a fazer a casa. Se ela existia era porque toda a equipa, desde o vigilante ao jardineiro, à senhora da limpeza, aos técnicos superiores, a tinham feito. Era com essa vénia, digamos assim, que eu devia entrar. Incluindo, obviamente, os diretores que me precederam. Portanto, impondo a minha marca pessoal de que, obviamente, não posso abdicar —como, aliás, tinha acontecido nas experiências profissionais anteriores —, o facto de ter tido a elementar curialidade de não destruir o trabalho feito pelos meus antecessores, mas recicla-lo, colhendo-lhe a melhor parte, deu um impulso que permitiu chegar muito mais rapidamente aos objetivos. Desde logo pelos reflexos internos ao nível da coesão da equipa. Creio que um dos grandes problemas portugueses, associado à precariedade contínua da administração, é a tentação arrogante e faraónica de que “agora é que vai ser, nós é que vamos ser os génios.” Essa falta de respeito pelos que nos precederam é sempre errada. Portanto, pegar no que de bom estava feito, deu ao projecto uma capacidade de arranque, de ganhar velocidade adquirida muito maior. Daí o director-adjunto, que é uma peça chave da casa e que foi uma novidade com a minha direção: o meu alter ego, o José Alberto Seabra e que é absolutamente fundamental, porque me permitiu colher o saber da casa e fazer essa ligação rápida com toda a equipa. Pelo menos inicialmente foi assim, até eu próprio ter ganho as minhas capilaridades. Foi e é uma pedra angular deste processo. Isso é fundamental. Isso e estabilidade, claro. A estabilidade boa, não a estabilidade dos jazigos. Porque também se veio desse domínio: da estabilidade dos jazigos... Voltando ao exemplo do Sequeira e à disponibilidade dos portugueses para aderirem a um projecto concreto e facilmente perceptível, com o conhecimento a priori do destino do seu dinheiro, não seria uma forma de financiamento viável para os museus, uma contribuição directa de 1 ou 2 euros de todos os portugueses para, dada a fundamental autonomia jurídica, administrativa e financeira aos museus, ser atribuída a cada um deles para fins concretos e conhecidos e mediante uma escrupulosa prestação de contas por parte de cada um?

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eventualmente, ser mobilizadas. Estamos, entre todos, a trabalhar activamente nesse processo e espero e confio que possa haver uma evolução em breve.


Grande Entrevista | António Filipe Pimentel Eu acho que sim: embora isso nos faça voltar à questão inicial. Isto é: no sistema atual, nenhum museu pode receber diretamente nem um euro... Com isso, na verdade, estava-se não só a dar meios aos museus mas aos agentes culturais (porque essa ideia podia ser alargada), bem como a estimular um universo consumidor. Porque, entretanto, o facto das pessoas terem contribuído para a aquisição pelo MNAA da Adoração dos Magos do Domingos Sequeira, faz com que cada contribuidor queira vir ver ao vivo aquilo para que contribuiu. Não é por acaso que há dias tenha saído a notícia de que o governo italiano, cumprindo uma promessa eleitoral, tenha decidido atribuir 500 euros a cada um dos cidadãos, incluindo os estrangeiros desde que residentes em Itália, nos dia dos seus 18 anos, para consumirem em cultura. Num processo agilíssimo, simples e prático. Recebem o dinheiro, que só pode ser gasto em museus, livros, espectáculos e uma série de outros eventos culturais. Nós acharíamos que a Itália tinha semeado durante dois mil anos para estar com o trabalho da cultura feito, mas no fim de contas, está preocupada em criar uma geração de consumidores de cultura.

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Numa época em que praticamente tudo se resume a números e à avaliação de custos-benefícios, não falta a quem trabalha na cultura a capacidade de medir a rentabilidade dos projectos e fazer passar essa mensagem para aos mecenas, ao público em geral e ao Estado. Porque além das receitas de bilheira, que são dados objetivos, há uma rentabilidade pedagógica, educacional, comunicacional, turística, que têm valor. A pobreza gera pobreza. Costuma dizer-se que o que custa é ser riquinho. De riquinho a rico, é quase simplesmente não ser tonto. Há pouco falávamos exactamente nisso. Se não temos a capacidade de adquirir os serviços de quem sabe medir essa rentabilidade, como é que podemos usar isso como argumento a nosso favor? A partir do momento em que tivermos a capacidade financeira para poder fazer essa monitorização muita coisa mudará. A minha entrada para o museu implicou uma mudança de paradigma. Porque eu não sou um conservador. O museu tem o seu corpo de conservadores, notável, e até aqui, o perfil do diretor era o do conservador chefe, o que implicava uma dedicação quase exclusiva às obras e à sua apresentação. A investigação científica quase não existia, pelo menos em

termos de investigação em História da Arte. Hoje somos um centro importante no estudo da História da Arte, com cerca de 1000 páginas ano editadas sobre arte portuguesa e internacional, que é outro salto. Além disso, introduzi a gestão cultural, porque é isso que eu sou, um gestor cultural. Mas com conhecimento suficiente sobre a área cultural para saber que a gestão é um instrumento e não um fim. São precisas uma gestão eficaz e capacidade estratégica, justamente para que os conservadores possam ter condições para fazer o seu trabalho, como devem e inquestionavelmente sabem. Sucede que eu comecei a trabalhar os números, que era o que não acontecia. Quando as pessoas não conhecem os números, não sabem quanto valem, não conseguem ter um discurso voltado para fora, porque os stakeholders o que querem, entre outras coisas, porque são sensíveis à responsabilidade social, é números. Nós tivemos essa percepção com o Sequeira, porque a Fuel, a agência de publicidade que foi nossa parceira no projecto, tem esses instrumentos de medição e avaliou a comunicação, como já disse, em dois milhões e meio. António, levante um bocadinho o véu do que está previsto para este final de 2016 e para 2017. Em final deste ano, vamos ter a grande exposição “A Cidade Global”. Uma exposição feita a partir do livro de Annemarie Jordan e de Kate Lowe com aquela vista de Lisboa que está em Londres e que vem para a exposição, da Rua dos Mercadores e que mostra a cidade no séc.XVI, como nervo financeiro e económico. Vai ser uma exposição espectacular! Depois, em Maio de 2017, sem data ainda definida, porque depende do calendário político e protocolar, teremos a exposição dos Museus do Vaticano, em articulação com a comemoração das Aparições de Fátima e com a eventual inauguração presidida por Sua Santidade o Papa Francisco (mas ainda não confirmada). Será um grande evento nacional. É um evento religioso, mas não só, é um grande evento nacional e o MNAA sendo uma instituição pública, laica e neutra em matéria religiosa, tem com a tradição da iconografia cristã uma relação intima de trabalho, por isso fazer uma exposição sobre a iconografia da Virgem nos Museus do Vaticano é um tema que nos interessa, a nós historiadores da arte e a nós público consumidor. por Revista Bica Fotografia por Carina Martins


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Arquivo Municipal de Lisboa, Coleção Artur João Goulart, PT_AMLSB_ART_034980

“A Luz de Lisboa”

UM PROJETO ESPECIAL DO MUSEU DE LISBOA


A luz de Lisboa “A Luz de Lisboa” foi uma exposição pensada e organizada pelo Museu de Lisboa, e comissariada por Ana Eiró e por Acácio de Almeida. Esteve patente no Torreão Poente do Terreiro do Paço, de Julho de 2015 até Março de 2016. Foi uma exposição muito especial, uma experiência irrepetível. A luz natural da nossa cidade é considerada por muitos o seu ícone imaterial por excelência. É uma das causas do maravilhamento que Lisboa imprime a quem nela vive e por quem por ela passa. Para quem é lisboeta ou se tornou lisboeta, a nossa luz, intensa, penetrante, colorida (ou branca?), faz parte de nós; é dela que temos saudades quando estamos longe; é dela que falamos com nostalgia nos dias cinzentos. E, no entanto, pouco sabíamos sobre ela. Será que a luz de Lisboa é mesmo especial e única, como é comum dizer-se? Estaremos perante um mito turístico urbano, ou perante um fenómeno físico do cenário alfacinha? O Museu de Lisboa promoveu um projeto inédito de investigação e de exposição sobre a luz da nossa cidade, que apresentou no belíssimo núcleo do Torreão Poente do Terreiro do Paço, local privilegiado para a observação e a contemplação pelo seu posicionamento face ao rio, e pelo edifício em si mesmo. Tratava-se de uma empresa arriscada, a de dedicar uma exposição a algo que não se pode expor, que não é passível de ser aprisionado em vitrinas ou painéis, a algo que, de facto, não se vê. Do ponto de vista físico, a luz do sol é toda igual, é radiação eletromagnética vinda do sol. O confronto entre esta perspetiva e as expressões artísticas e poéticas sobre as qualidades da luz de Lisboa começou por nos parecer desconcertante. No entanto, o diálogo que se foi construindo entre cientistas, artistas e museólogos foi complexo, mas profícuo e enriquecedor. O resultado foi uma exposição multidisciplinar que cruzou linguagens científicas e artísticas, abordando o fenómeno da luz e apresentando obras de artes visuais, obras de cinema e de literatura e poesia do século XX e da contemporaneidade, de algum modo relacionadas com a luz desta cidade, tanto de modo mais literal, como mais simbólico. A par das imagens, gráficos, vídeos e experiências de carácter científico, foram apresentadas obras de arte da coleção do Museu de Lisboa, bem como de outros acervos provenientes do Museu Nacional de Arte Contemporânea/ Museu do Chiado, da Fundação EDP e de coleções privadas. De entre outros artistas visuais e fotógrafos presentes na exposição, podemos referir Artur Pastor, Paulo Guedes, Luis Pavão, Carlos Botelho, Eduardo Viana, Jorge Barradas, Alice Jorge, Querubim Lapa, Manuel Amado, Sena da Silva, Rui Calçada Bastos, Nuno Cera, Daniel Blaufuks, e Jorge Martins. No que concerne ao cinema, Acácio de Almeida produziu e realizou um pequeno filme propositado para a exposição, Mensagens de Luz, tendo de igual modo feito parte da exposição a apresentação de excertos de outros filmes, como os Verdes Anos (Paulo Rocha), Dans la Ville Blanche (Alain Tanner), Lisbon Story (Wim Wenders), e Belarmino (Fernando Lopes). Foi produzido pela Videoteca Municipal de Lisboa um excelente documentário propositado para a exposição, intitulado As Artes da Luz de Lisboa, o qual acrescentava outras perspetivas sobre a luz de Lisboa com referência a outras obras de artes visuais, de fotografia e de cinema, acrescidas às que estavam expostas. Também inédita e patente na exposição, foi a curta-metragem A Peça, do realizador Bruno Canas, que problematiza de modo mais conceptual o fenómeno da luz na cidade.

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A literatura e a poesia foram presenças constantes ao longo de toda a exposição, através de excertos ora escritos nos painéis expositivos, ora audíveis em narrações em português e inglês, de escritores e poetas como Bernardo Soares (Fernando Pessoa), Assis Pacheco, Mário de Carvalho, Baptista Bastos, Pedro Mexia, Maria Andresen, Ramos Rosa, António Tabucchi, Ruy Bello, Adília Lopes, entre outros. Os estudos promovidos por Ana Eiró, física e Professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e pelo grupo de consultores científicos da mesma faculdade, permitiram a identificação e a sistematização de um conjunto de características da luz


Arquivo Municipal de Lisboa, Coleção Artur João Goulart, PT-AMLSB-ART-000255

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“Se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa” (Fernando Assis Pacheco)

Arquivo Municipal de Lisboa, Coleção Artur João Goulart, PT-AMLSB-ART-000118


A luz de Lisboa natural que banha Lisboa, que ajudam a explicar porque é que a luz de Lisboa é tão límpida, clara, e, para nós, “bonita”. São fatores essenciais o número de horas de sol descoberto, que em média é o mais elevado da Europa; os ventos, tão habituais em Lisboa (sobretudo os de Norte/ Nordeste); a topografia da cidade; a latitude e a proximidade do rio. Mas estes fatores só são relevantes quando em convergência com os materiais e as cores que têm sido maioritariamente usados na construção em Lisboa, essenciais para a promoção dos fenómenos da reflexão e da refração a luz, tais como a branca calçada portuguesa no pavimento, as cores amareladas ou ocres e rosas nas fachadas das casas e os azulejos de exterior. A confluência de todos estes elementos, naturais e construídos pela mão humana, torna a matéria da luz natural da nossa cidade específica, ou “especial” aos olhos humanos. Um dos aspetos curiosos com que nos deparámos foi a coincidência, ou antes, a aparente correspondência entre literatura e poesia e os fenómenos científicos que fomos tentando compreender. Perante as colinas descendo para Sul, a Baixa tem, de facto, uma forma semelhante a uma concha ou a um leque aberto, que reflete ainda mais a luz solar. Ou, como afirma Baptista Bastos, “Lisboa é a mão em concha. Vejam-lhe o recorte macio, o límpido volume das sombras, as teias reticulares de que as ruas se tecem (...)”. Já o tema da cor de Lisboa se revelou polémico. Uma das obras que inspirou a exposição foi o filme Dans la Ville Blanche (Lisboa, Cidade Branca), de Alain Tanner, do qual o autor da fotografia foi Acácio de Almeida, co-comissário da exposição. No entanto, “Quanto à cor de Lisboa (…) disponho-me a jurar e a declarar notarialmente que branca não é. (…) Lá terá as suas brancuras aqui e além, mas estão preciosamente colocadas para compor o todo“ (Mário de Carvalho). Para muitos dos escritores citados na exposição, bem como para muitos de nós, Lisboa é local colorido e vibrante, embora luminoso e claro, o que não deixa de estar associado à cor branca. Entretanto, aprendemos com os físicos que as cores que mais influenciam a qualidade “quente” da luz de Lisboa, são precisamente as que Pedro Mexia refere: “Sobes a um miradouro para ver tudo isto:/ talvez a cidade não seja assim tão branca/ mas também ocre e rosa e amarelo torrado,/ e gostes mais das ruas ao vê-las de cima,/ no seu desenho, e penses que o rio é mais/ azul quando surge ao fundo de uma rua (...)”. Mais do que apresentar resultados definitivos, interessou-nos colocar questões. A nós próprios durante o processo de trabalho, e ao público, ao longo da exposição. Começámos com muitas dúvidas e terminámos com mais dúvidas ainda, embora também com respostas muito interessantes. Para a equipa que desenvolveu o projeto e também para o público, tratou-se de ter passado a ver de modo diferente, com outros olhos, a mesma cidade, a mesma paisagem urbana, a mesma luz, tanto para dentro do espaço expositivo do Torreão Poente, como para fora, através das suas muitas janelas, o Terreiro do Paço e o Tejo. As reações emotivas que esta exposição provocou em muitos lisboetas, portugueses de outras paragens, e estrangeiros, resultaram em dois livros de visita presentes no final da exposição, plenos de comentários, desenhos, poemas, letras de músicas e muitas exclamações. Muitos dos autores dos comentários referiam que a exposição os fez gostar ainda mais de Lisboa e da sua luz; ou que tinham passado a compreender melhor porque gostam tanto da luz de Lisboa ou porque a sentem como parte da sua identidade; ou ainda que passaram a ver melhor o que julgavam conhecer tão bem. Para nós, equipa do Museu de Lisboa, tratou-se sem dúvida de uma experiência irrepetível.

por Joana Sousa Monteiro Museu de Lisboa

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Nota: A exposição está disponível para itinerar noutros museus e o catálogo encontra-se à venda no Museu de Lisboa, em versão portuguesa e inglesa.


www.alki.fr

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Agente em Portugal: www.cubbo.pt | info@cubbo.pt


Fotografia por Jorge Barrote

Em Lisboa, vá pela sombra

Mas se se olhar um pouco para além dessa luz quase obscena que parece dominar o cenário, invasora, nada pudica, há na pintura a preto e branco da máquina de Castello-Lopes um recorte bem mais variado, sofisticado, seja no elegante pormenor geométrico que rebate, como num desenho, as casas - e que, diacronicamente, imaginamos evolutivo, como num filme -, seja nas caricaturas individuais das figuras em presumível movimento, que se projetam contra a grade bordejante. A luz está lá, sempre igual, por toda a parte, quase banal. É, porém, nas sombras que a criatividade se forja.

Lisboa é uma cidade de sombras - e essa não é uma expressão de retórica passadista, sentimental ou misteriosa, embora pudesse ser também isso tudo, até com fado à mistura. É uma realidade insofismável, que só não tem emergido porque, é preciso dizê-lo, há uma óbvia conspiração a favor da luz, para a qual o exército das sombras não encontrou até hoje o adequado antídoto. Querem exemplos, omnipresentes na cidade ? É a sombra que o Aqueduto das Águas Livres atira contra o solo que lhe confere uma grandeza humanizada. Sem a sombra, aquela obra de arte seria apenas uma maqueta, em ponto grande. Passeie-se sob as arcadas do Terreiro do Paço, num dia inundado de sol, e olhe-se a riqueza dos desenhos que as sombras produzem nas paredes pombalinas. É a sombra que acomoda o viajante que por ali anda e que, por alguma razão, a procura, fugindo da luz, da torreira. A sombra protege, a luz abafa. A sombra, no fundo, é o lado bom da luz. Um dia, dedique o leitor uma boa hora a percorrer os caminhos do lisboeta cemitério dos Prazeres. Escolha um dia de sol (Lisboa tem uma obsessão tal com o sol que

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Se acaso pretendesse reduzir a famigerada (gerada pela fama) luz de Lisboa a uma única fotografia, não hesitaria um segundo. A cidade está toda na imagem que Gérard Castello-Lopes nos deixou, do alto, voltado para a rua do Arco do Carvalhão, um local a que os antigos chamavam os Terramotos. Nessa fotografia, um monumento de arte, a luz segue pela rua adiante, lado-a-lado de uma estranha fila de gente, numa adivinhada monotonia, que é bem o retrato de um Portugal onde, como dizia o ditador, as pessoas “viviam habitualmente”.


até deu a uma sua rua o nome de “rua do Sol ao Rato”) e perceberá melhor o que lhe quero dizer. Para além das árvores que lhe filtram a incómoda luz, um dos mais óbvios “prazeres” do cemitério é, para os vivos, claro, poder apreciar a infinda variedade das projeções das sombras dos jazigos, um rendilhado criativo que confere a algumas daquelas fúnebres moradias uma dignidade de bairro, onde nem sequer faltam os gatos, que o silêncio reinante permite melhor apreciar. Sente-se num dos bancos que por ali há, à sombra, à conversa, gastando o tempo, que é, além da esplêndida penumbra da contraluz, a mercadoria mais abundante no local, e logo perceberá melhor o que lhe quero dizer Nem lhes conto o quanto me perturba ver alguns fabianos, « cara al sol », como se entoava no tempo infame, loiros de escaldão, a calcorrearem a ala central do Parque Eduardo VII, já de si escavado como uma vala para adoradores do dito, como se acaso estivéssemos por aqui à borda de um fiorde, num país em que o verão se esgotasse num fim de semana. Convide-se essa gente ao gosto da fuga, por um momento, para a adjacente Estufa Fria e, estou seguro que eles logo perceberão o “calor” ímpar da sombra, das árvores, da delicadeza da luz filtrada. Eles verão que é a noite e o dia, ou melhor, um quase vice-versa.

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Lembram-se das imagens brancas, desertas ou quase, muito ensoleiradas (em especial aos domingos, em que a brutalidade da luz parece apostada em rimar com a santidade do dia), dos filmes do neo-realismo italiano? Pois bem, o velho “novo cinema português” tentou reeeditar esse registo, jogando com a alvura das avenidas a que nos habituámos a chamar “novas”, usando e abusando de uma luz sem vergonha. E se revisitarmos essas películas, com alguma sofisticação no nosso olhar, é hoje um regalo ver as imagens, inundadas de branco, ganharem de imediato « cor », logo que a câmara se descai, com bom gosto, para a intrusão das sombras, que conferem à naïveté das histórias um sentido digno de recato, de discrição, um toque de intimismo, que a luz não permite e até antagoniza. Não será por acaso que, na expressão «a-preto-e-branco» o preto surge primeiro... Como o leitor já presumiu, cansa-me muito escutar o rame-rame do discurso obsessivo, turístico-folclórico, sobre a luz de Lisboa. Tanner - um cineasta suíço que, talvez por isso, não percebe muito de cores da vida do Sul - chamou a Lisboa “A cidade branca”. Nunca percebi onde é que ele foi

descobrir a “kasbah” que o fez encontrar Argel por aqui. Lisboa não é uma “cidade branca”, é uma terra de cores vivas, a que as sombras fazem ganhar novos cambiantes. Por isso também é falso o que cantou Sérgio Godinho, no “Lisboa que amanhece”, ao dizer que “as sombras de Lisboa são da cidade branca a escura face”. Uma ova ! As sombras são a face mais “luminosa” da cidade e, claro, ganham outra expressão na noite quando, finalmente, a cidade se liberta do sol. É então que a saudável e pecaminosa - no bom sentido, que é o do bom pecado - face de Lisboa se revela. Olhem-se com atenção as sombras incomparáveis da ruas que atravessam a Bica em noites de copos e música, procure-se uma ruela esconsa no Cais do Sodré onde se imagina o «deal» final entre a meretriz e o marinheiro da esquadra da NATO, visite-se a tristeza quase suburbana da entrada de uma pensão “com águas correntes” na Almirante Reis, atravessese a Praça das Flores na penumbra de um fim de tarde da Lisboa «colorida» pela diversidade sexual, faça-se uma romagem romântica à sombria estátua de Sousa Martins, no Torel, numa noite de luar, ou à ímpar marca de solidão da Triste-Feia, a mais misteriosa rua da Alcântara que foi operária. Ou olhe-se a sombra do Tejo nas Docas, as esquinas onde os adolescentes trocam «shots», com o iPhone na outra mão, nas madrugadas divertidas de Santos ou (ainda) do Bairro Alto. As sombras de Lisboa não têm fim, morrendo no cansaço do alvor do novo dia, feito de olheiras e, claro, de sol. É essa a minha Lisboa, feita de mil sombras, de mil e uma noites, de uma resistência denodada à ditadura da luz, cuja única verdadeira virtualidade é ter o mérito de ser geradora dessa glória eterna da imagem que é a sombra. Que este texto possa ter ajudado os visitantes de Lisboa a melhor entenderem que, aqui chegados, têm uma magnífica Lisboa de sombras pronta para ser consumida. Tenho fundada esperança que o que aqui deixei, este guia irónico em forma de elegia da cidade escurecida, tenha contribuído para que, sobre este tema, haja sido feita, finalmente, alguma luz.

por Francisco Seixas da Costa Embaixador


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Intervenção de conservação e restauro: Durante remoção do verniz

A LUZ NA ADORAÇÃO DOS MAGOS DE DOMINGOS SEQUEIRA


Pintada em Roma, em 1828, a Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira, foi alvo de recente intervenção de restauro durante a qual foi removida a camada amarelecida de verniz que dourava a atmosfera, permitindo uma nova percepção da pintura, devolvendo-nos a camada cromática original e os efeitos lumínicos, tal como o pintor os concebeu. Na deslumbrante visão idealizada por Sequeira para narrar o momento do encontro entre a Sagrada Família e os míticos Reis Magos que com os seus extensos séquitos viajaram de longe conduzidos pela estrela de Belém, a luz tem um justo protagonismo, como elemento central da narrativa. Depois do recente restauro compreendemos agora melhor o alcance das preocupações do pintor ao pretender transformar este tema num espectáculo, através da abertura do campo da representação, pela inclusão de um elevado número de figuras, pela presença de elementos exóticos e introduzindo uma luz branca, intensa, que irradia e se derrama no centro da composição. A intensidade desta luz que desmaterializa as formas dos planos fundeiros gera uma ambiência de silêncio e mistério, oferecendo à imaginação a contemplação do Transcendente. Constatamos desta forma que a luz não é para ele um acessório ou simples elemento cenográfico mas, pela qualidade emocional que lhe imprime, a verdadeira protagonista da cena. Desta forma atinge, pela inspiração poética e pela profundidade das emoções que lhe estão subjacentes, um novo patamar a que a estética atribuiu a designação de Sublime, qualidade que é desenvolvida não com um sentimento de inacessibilidade perante o incomensurável mas como uma forma de acesso através da única forma a que o homem pode aspirar: a contemplação por intermédio da capacidade do artista em idealizar o indizível. E nesta escolha divergiu dos artistas do seu tempo que pouca importância concederam à luz no interior das representações. Ao contrário da maioria dos outros pintores com quem contactara em Roma no período de formação nas últimas décadas de Setecentos, Domenico Corvi, o mais influente dos seus mestres, era conhecido por prestar singular atenção a estes valo-

res. Reconhecido era o seu interesse pela produção dos pintores nórdicos da luz e da noite como Honthorst - o Gerardo della Note que Sequeira anuncia, numa carta datada de 1790, estar a copiar - ou Elsheimer, sem excluir certos caravaggescos. A ele se deve, pois, a grande influência no interesse pelas pesquisas lumínicas que Sequeira prosseguirá ao longo de toda a vida, estendendo-se à sua produção gráfica, no que é um caso praticamente isolado na sua geração internacional. Este retorno ao tema da luz vinha desde cedo a ser explorado por Sequeira. É, pois, de admitir o desenvolvimento de uma reflexão autónoma sobre as qualidades da luz baseada em experiências pessoais. Entre outras, não terá sido estranha a forte impressão causada por um espectáculo então muito popular em Paris e a que não pode ter deixado de assistir nos meses em que viveu nesta cidade entre 1823 e 1825. Refiro-me ao Diorama, uma atracção popular criada por Louis Daguerre e Charles-Marie Bouton e que consistia em enormes paisagens pintadas de ambos os lados sobre um material translúcido, montadas numa sala própria, construída para o efeito. As cenas - habitualmente paisagens e interiores de igrejas góticas - eram depois iluminadas de variadas formas e intensidades de maneira a obterem-se sucessivamente os efeitos de dia, noite, nascer e pôr-do-sol. Através da manipulação da luz conseguiam-se imitar aspectos da natureza como as mudanças trazidas pelas estações do ano ou os diferentes cambiantes atmosféricos. Grande apreciador das técnicas e das novidades, é altamente provável que Sequeira tenha assistido a uma ou mais destas sessões que contribuíram para o regresso a um gosto pela iluminação forte e contrastada como indutora de emoções, reforçando nele a atenção dada às múltiplas qualidades da luz, aos seus efeitos e potencialidades. Esta opção, sem que o soubesse, leva-o a cruzar a ponte entre a tradição em que a sua pintura solidamente se alicerça e os novos trilhos que a pintura europeia irá percorrer nas décadas seguintes.

por Alexandra Gomes Markl Historiadora da Arte Conservadora da Coleção de Desenhos do MNAA

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Um Reencontro com a Luz: A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira


A transformação da Luz na “Adoração dos Magos”, de Domingos Sequeira, com a intervenção de conservação e restauro Antes de “pôr o Sequeira no lugar certo” a pintura foi submetida a vários exames de área, por observação directa e análise fotográfica (fotografia com radiação visível, fotografia sob luz rasante, fotografia de fluorescência de ultravioleta e reflectografia de infravermelho) com o intuito de estabelecer um diagnóstico e uma metodologia de intervenção. Através da interpretação desta informação concluiu-se que a pintura tinha sido muito bem preservada pelos antigos proprietários. Apresentava unicamente uma camada de verniz alterado, que uniformizava a pintura com uma tonalidade dourada, omitindo a verdadeira leitura cromática e formal. As pinturas são constituídas por uma sobreposição de camadas: suporte, camada de preparação, camada cromática e camada de protecção final, esta última aplicada pelos artistas com função protectora e estética. Os filmes de resina (verniz) aplicados na superfície da pintura sofrem processos químicos, ao longo do tempo, que provocam o seu escurecimento. Este inevitável envelhecimento do verniz juntamente com a deposição de sujidades na superfície, são patologias que diminuem a legibilidade e luminosidade de uma pintura, condição suficiente para justificar a sua remoção. A eliminação de um verniz de uma obra de arte é uma operação complexa e delicada, que pode provocar danos irreversíveis se não for devidamente controlada por um técnico especializado. Esta operação consiste em dissolver o verniz oxidado sem atingir a camada cromática subjacente.

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Optou-se por recorrer a uma intervenção por via química, através de misturas de solventes e misturas gelificadas, precedida por testes de solubilidade. À medida que se foram removendo as diferentes camadas

depositadas sobre a superfície - primeiro a de poeiras e gorduras e depois a de verniz - a pintura foi sendo libertada da tonalidade dourada e passou a exibir uma luz resplandecente. Na sequência da intervenção de conservação e restauro realizada, a luz ganhou intensidade tal que revelou a verdadeira profundidade e transparência das cores originais da obra, dissimuladas pelo amarelo do verniz. O verde tornou-se azul e o amarelo passou a branco. Esta “nova” luminosidade desvendou a qualidade técnica de Domingos António de Sequeira, na laboriosa criação da obra, as pinceladas executadas pelo pincel, a modelação das formas, as texturas intencionais, deixadas pelas impressões digitais do artista, e os detalhes do desenho preparatório subjacente à pintura. A conservação da “Adoração dos Magos” é excepcional, o que nos privilegia na fruição desta obra de grande qualidade técnica, em que a luz é materializada, num instante religioso.

por Susana Campos

por Teresa Serra e Moura

Fotografias cedidas por Museu Nacional de Arte Antiga


Antes do tratamento de conservação

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Final do tratamento de conservação


OLHAR

LISBOA [32]

por Miguel Simão


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www.mood.pt

Os candeeiros Mood e a Luz de Lisboa

MOOD. Somos luz. Alvorada e crepúsculo. Arco-íris e fogo incandescente. Somos a limpidez das manhãs claras, o aveludado das tardes quentes, a paixão do sol poente. Captamos, filtramos, criamos, recriamos. Reflexos, luzes. Das casas, dos telhados, da água, das embarcações, das calçadas e das vielas. Formas. Geométricas, tubulares, caóticas, irregulares. Cores. Ocres, azuis, violetas, camurças e almagres. Suaves, intensas, dramáticas, apaixonadas. Contrastes. Equilíbrio, sofisticação, boémia e paixão.

Esta peça, especialmente pensada para realçar os jogos dramáticos da luz e da sombra, foi desenhada a partir da representação tradicional do globo – com meridianos e paralelos.

Somos Tejo e mar. Somos Chiado, Belém, Alfama e Mouraria. Somos luz. Somos luzes. As luzes de Lisboa. Arqº Raul Santos

Arqª Rita Muralha

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Maria José Amaral Aleixo


Galopim de Carvalho Conversa com a Bica

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São onze horas da manhã quando chegamos à entrada do prédio onde vive com a sua mulher o “avô dos dinossáurios”, que é como quem diz António Marcos Galopim de Carvalho, o mais conhecido geólogo português. O porteiro, tez negra, cabelo esbranquiçado e andar cansado de uma vida de sobe-e-desce, pergunta com sorriso aberto: - Vão para onde? - Conversar com o Professor Galopim de Carvalho. - Ui! Gente boa. Muito boa. Ele e a sua senhora. Gente muito boa. – reafirma enquanto se afasta para nos dar passagem para um elevador exíguo que nos transportará à casa do homem que pôs o país a falar de dinossáurios muito antes de Steven Spielberg assustar o mundo com o seu Parque Jurássico.

O andar, junto à Avenida Infante Santo no coração de Lisboa, está recheado de memórias de uma vida dedicada às ciências e à família. Estes são os meus filhos – Informa-nos com orgulho, enquanto nos acompanha pela casa ao sabor das recordações que vão assumando à memória ao ritmo dos muitos quadros, livros e retratos com que nos vamos cruzando. Aos 87 anos, o “professor dos afectos” (não confundir com o “Presidente dos afectos”!) continua a cativar. Olhar sincero e penetrante, fala com a sinceridade que os anos de dedicação desinteressada ao seu país lhe permitem e corta a direito, indiferente a polémicas ou melindres pessoais. Galopim de Carvalho é um comunicador nato e as mais de duas horas que durará a nossa conversa são prova disso mesmo.


Galopim de Carvalho | Conversa com a Bica

Essa expressão foi criada em 1944 pela Sociedade Geológica de Portugal fundada no Porto pelos professores Carlos Teixeira, Carrington da Costa e Cotelo Neiva: mente et malleo. Eu guiei-me por ela.

A sua vida foi, sobretudo, de investigador. Fui mais um operacional.

Um operacional que conseguiu mostrar aos portugueses uma ciência que era muito pouco conhecida e muito pouco divulgada. Era realmente. Quando eu fui para a universidade ninguém sabia o que era a Geologia... tanto que o meu Pai me disse – vais é para Biologia – e eu fui mas não vinguei. Só depois, muito mais tarde, é que procurei por mim próprio e aí fui claramente para Geologia.

Porquê essa paixão pela Geologia? Tenho contado isso centos de vezes. Tudo decorre da acção de um professor. Eu penso que o professor tem uma importância vital no futuro, na carreira de um aluno. Eu tive um professor de ciências naturais que me semeou, que me pôs essa semente da Geologia e da Mineralogia e isso vingou, nunca mais abandonei. Fui contrariado para o curso de Biologia, estampei-me. Deixei de estudar durante anos, fiz a tropa, empreguei-me, casei-me, fiz muita coisa e só muito mais tarde, aos 27 ou aos 28 anos é que fui fazer, já como trabalhador estudante, o curso de Geologia.

Mas segundo sei, já nesse tempo de tropa o Sr. Professor preferia conversar com os seus camaradas sobre Geologia do que fazer manobras militares. Pois, eu era e sou antimilitarista no sentido do militarismo das continências, das

elites militares, etc. e era contra a guerra colonial e com os soldados, eu dava-lhes instrução, mas falava de outras coisas porque felizmente vivíamos em tempo de paz, tinha havido o problema da Índia que tinha começado em 1954 que depois só perdemos em 61, mas de 54 até 61 houve aquela conflitualidade – invade, não invade, invade – foram para lá as nossas tropas, mas não havia propriamente guerra.

O que é que fez nesse entretanto, até descobrir a Geologia? Eu, ao segundo ano de reprovar em Biologia, fiz uma tentativa, fiz uma repetição do primeiro ano, mas só consegui fazer mais uma cadeirita e acabou-se-me a mensalidade paterna para estar a estudar e então regressei à terra. Como chumbei na licenciatura, tive de ir para a tropa. Chamaramme, cortei o cabelo, vesti uma farda e fui para a tropa.

Cumpriu a tropa onde, no seu Alentejo? Sim. Fiz a tropa em Vendas Novas como cadete miliciano e depois de terminar o curso fui colocado em Évora onde vivia com os meus Pais. Estive tanto tempo na tropa que cheguei a tenente. Como não tinha emprego, não estava a estudar e sabia-me bem aquele salário. Estava em casa dos pais, tinha a namorada na terra que é esta mulher que aqui está comigo – Galopim de Carvalho apontando para a sua companheira de toda a vida com olhar enternecido – e mantive-me lá, na tropa. Digamos que era uma tropa muito caseira. Ainda estávamos a viver um tempo relativamente tranquilo. Depois quando acabou, vim para Lisboa, empreguei-me na propaganda médica, fazia propaganda farmacêutica e vendia máquinas de escrever. Era vendedor, mas praticamente não vendia nada porque o tempo era mau. Entretanto fui estudando e fiz a licenciatura, acabei a licenciatura e fiquei logo na faculdade.

Até se jubilar. E sempre com uma enorme paixão pelo ensino, retribuída pelos seus alunos. Quarenta anos de Faculdade!

Tal como na tropa, não gostava do formalismo que se vivia na época nas universidades portuguesas.

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O Sr Professor, em 2008, escreveu uma autobiografia a que chamou “Fora de Portas”. O nome pretendia relatar a sua experiência como geólogo, que decorreu muito mais na rua, do que no gabinete. Levou à letra o lema da Sociedade Portuguesa de Geologia “Mente e Martelo”.


Galopim de Carvalho | Conversa com a Bica Sou um crítico da torre de marfim, do elitismo académico. Sim, sou um crítico! Eu, por exemplo, nunca comprei farda de doutor, nunca tive, recusei-me a ter. Acho que a universidade tem outros motivos para ter vaidade, não da pompa da farda. Mas era mais uma atitude de rebeldia do que outra coisa.

Uma rebeldia que chegou aos seus alunos e que fez com que criasse com eles uma relação muito próxima, que se manteve ao longo de toda a carreira como professor. Isso faz parte da minha maneira de ser, a afectividade com os alunos, foram 40 anos muitos bonitos. – A voz ligeiramente embargada de saudade.

Mas uma afectividade com exigência. Ah sim, sim! Com exemplo de trabalho.

O Sr. Professor disse há tempos numa entrevista que hoje se passava muito tempo em frente aos computadores e muito pouco tempo na rua, a investigar. É uma crítica que ainda mantém? É uma crítica à sociedade do presente e não é só em Portugal. No caso particular da Geologia, ainda mais. A Geologia faz-se no campo! Na minha geração e na anterior, a pouca Geologia que se fazia em Portugal, que nunca foi um País com grande desenvolvimento nessa área, fazia-se, sobretudo, no terreno. A grande quantidade de cartas geológicas que se fizeram, são dessa geração, não de agora!

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Segundo sei, a grande maioria feitas pelo Sr. Professor. A gente ia para o campo, de botas, de martelo na mão e andava o dia inteiro no campo a apanhar rochas, a classificar, a trazer para o laboratório para estudá-las. Hoje eu vou à universidade, vejo as salas cheias de computadores e a malta toda sentada para ali, a espreitar nos computadores. A própria Biologia deixou de ter aquela vertente naturalista. No meu tempo de liceu estudávamos as lagartas, as aranhas, as lagartixas, toda aquela bicharada. A gente mexia neles no laboratório. Hoje quase que fazem tudo virtualmente. Esse lado naturalista é que dava a formação de cidadão.

Suponhamos uma aula com 40 alunos, há 2 ou 3 que querem ser biólogos, só esses dois ou três é que estarão vocacionados para ter uma Biologia de elite, os outros 36 ou 37 ficam sem saber o que é um lagarto, o que é uma couve o que é uma uva, percebe? Essa componente naturalista que a Biologia dava aos rapazes e às raparigas tem-se vindo a perder em nome de uma atitude mais sofisticada que não é tão importante para eles como cidadãos num contexto da biodiversidade onde vivem. Os meus filhos vão ao campo e não sabem o nome das árvores que lá estão! Vá lá que sabem distinguir um porco de uma vaca, mas pouco mais!

No caso da Geologia, ainda é mais complexo... Essa esteve sempre afastada, esteve sempre subalternizada.

O Sr. Professor disse também, a certa altura, que a Geologia não tinha a força de lobby que a Biologia e outras ciências tinham. Nunca constituíram um corpo unificado. Nunca formaram uma família.

No seu entender, isso pagou-se caro? Acho que sim, porque a Biologia avança. Mesmo naquelas comissões que estão no Ministério da Educação a designar programas e maneiras de trabalhar, etc, o lobby dos biólogos está muito mais bem representado do que o nosso.

E qual é a consequência dessa falta de poder de lobby? Logo no ensino básico e secundário a Geologia tem um papel subalterno em relação à Biologia. Começa pelo facto da maioria dos professores que ensinam Geologia, a pouca Geologia que se ensina, serem biólogos não são geólogos, não é? Eles têm sabido vender o seu peixe ou, se quiser, defender a sua dama, todos os políticos estão mais integrados nos problemas da Biologia do que nos da Geologia. A ignorância dos nossos políticos no que diz respeito a minerais, a fósseis, a rochas, a tectónica é absoluta! No entanto, de Biologia sabem dizer qualquer coisa, até porque se interioriza mais facilmente. A nossa relação com o outro, com os animais é diferente da nossa re-


Galopim de Carvalho | Conversa com a Bica

Muita dessa sua paixão pela Geologia também tem a ver com a ligação necessária que ela tem à História e, em particular, à nossa história. Quer dizer, eu é que escrevi um livro onde procurei ensinar Geologia aos professores de História e ensinar um bocadinho de História aos professores de Geologia, que não sabem nada de História. Começa logo na compartimentação: o menino vai para ciências, o menino vai para letras... – ai Pai não me fale na Matemática, eu sou bom é a português ou a Francês, não quero nada com a Matemática ou com a Física. Ou então os físicos: - ai não fale em literatura e poesia, isso é para as raparigas. Agora lixam-se porque há mais raparigas em engenharia do que rapazes.

O Sr. Professor, no meio disto tudo, conseguiu, num País onde não se ensina Geologia, num País tão alheado do seu chão, levar quase 350.000 pessoas a visitar uma exposição sobre dinossáurios. Não, não fui eu! Foram os dinossáurios! Consegui trazer os dinossáurios para a sociedade portuguesa, quando fizemos a primeira exposição. Foi uma loucura!! Foi um caos, um caos na cidade de Lisboa. Não faz ideia. Imagine 9000 crianças por dia, no último mês... 9000 crianças vindas do país inteiro. 9000 crianças em camionetes de 50 lugares, quantas camionetes são? 5 minutos para descarregar em frente ao museu, depois vir buscá-las, mais 5 minutos para carregar. Um caos! Entre o Rato e o Príncipe Real era uma rolha. Chegavam a

descarregar as crianças no Rato e depois vinham a pé para o Museu porque as camionetes já não cabiam. Uma loucura!

O Sr. Professor assumiu o Museu Nacional da História Natural seis anos após o incêndio de 1978, com um edifício praticamente vazio. Sim, não tinha nada, só tinha paredes.

E como foi esse desafio de transformar um museu vazio em algo que se tornou numa referência? Digamos que foi fruto de uma equipa. Tive a sorte de ter um magnífico grupo de rapazes e raparigas que pertenciam ao museu, hoje é tudo gente de 60 anos, por essa idade, isto foi em 83, há mais de 30 anos. Salas em tosco, só de betão porque aquilo foi tudo reconstruído, a estrutura foi reposta, os telhados, tudo aquilo, mas ficou em tosco, sem portas, sem janelas, com portadas ainda de tábuas encostadas às paredes, etc. Então o que é que a gente fez para mostrar, para não estarmos parados? Começámos por fazer uma exposição na cave com uma única vitrina. Lembro-me perfeitamente, foi de meteoritos. Uma vitrina muito bonita com meteoritos trazidos dos serviços geológicos da Faculdade de Ciências do Porto, de Coimbra, de vários sítios. Tínhamos uns 10 ou 12 meteoritos, uns painéis espetados na parede e começámos a fazer barulho na comunicação social. Comecei a apresentar a exposição. Depois fizemos um concurso nacional sobre dinossáurios em que convidámos escolas do País inteiro a fazer textos, ou desenhos, ou trabalhos manuais, ou poesia, ou prosa e tivemos 800 participantes. Para o júri de pintura e de desenho tivemos o Lima de Freitas, um pintor consagrado. Ofereceu-se para ser júri, ele e mais dois ou três pintores e escultores. Isso e a comunicação social (houve um trabalho muito grande de conseguir falar com os jornalistas da rádio e da televisão) e a pouco e pouco conseguimos ir metendo o pé lá dentro e por fim tínhamos um grupo grande de jornalistas que vinham às nossas exposições. Mas eu tive sempre a sensação que o museu foi a minha grande derrota, porque eu nunca consegui pôr o museu de pé, só quando eu estava para me vir embora é que, a reitoria, com a entrada do Sampaio da Nóvoa para reitor, olhou para o museu e começou a criar condições de financiamen-

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lação com as pedras, que são mortas... mas, se não houvessem pedras não havia animais! Se não houvesse chão, não havia solo, não havia ervas, não havia borregos e não havia ensopado para a gente comer na Páscoa! Portanto, nas rochas está o essencial de toda a nossa existência! As matérias primas, tirando a madeira, a lã e o algodão, tudo o que nos rodeia, tudo, é de origem mineral! O vidro, o betão, as tintas, o xisto, a loiça, o barro, tudo! A componente mineral na sociedade humana é brutal, o televisor o telemóvel, tudo isto é de origem mineral. O betão, o ferro, o alumínio das calhas, tudo, tudo! A nossa sociedade assenta no mundo mineral. A componente biológica é a madeira, são os tecidos e pouco mais. E a Geologia é uma coisa tão bonita...


Galopim de Carvalho | Conversa com a Bica to para que se começasse a desenvolver. Logo de entrada, fez uma coisa extraordinária, acabou com as quintas lá dentro. No museu havia 4 quintas: a Botânica era do professor Catarino, a Zoologia do professor Carlos Almaça, a parte da Ciência do professor Bragança Gil e a Mineralogia do professor Galopim e portanto éramos 4 quintas. Eles elegeram-me director, mas cada um fazia como queria. O reitor Sampaio da Nóvoa, quando entrou chamou-nos, uns já tinham até morrido... aquilo começou-se a desmembrar e ele chamou-nos a todos e disse - o museu é um só e por isso vamos reunir todos para trabalhar em conjunto e hoje o museu está espectacular!

O Sr. Professor sente, até porque não foi a sua única experiência ligada à museologia, que há pouco respeito pelos museus em Portugal? Sim, nos museus de arte não tanto, mas nos museus de ciência sim, não tem havido esse respeito. Agora, os museus de arte quase que se auto-financiam, não é? O prestígio do Museu Nacional de Arte Antiga é brutal, o de Arte Contemporânea, os museus privados da Gulbenkian e outros assim, mas no nosso, tivemos um período de grande dificuldade, ligados a uma universidade que não nos ligava praticamente nenhuma. A verba para os museus vinha na verba da universidade e os departamentos comiam tudo, os museus como não tinham força reivindicativa apanhavam só as últimas migalhas, até que chegou um reitor que olhou para o museu e disse – Não! Este museu tem que ser, realmente, o espelho da universidade – ainda estive um ano ou dois com ele e avançámos muita coisa, mas de então para cá tem tido um crescimento exponencial. Hoje vale a pena visitar o Museu.

A outra experiência museológica que teve foi a do Museu do Quartzo, em Viseu, bastante elogiado por diversas entidades e de que o Sr. Professor foi responsável desde a fundação.

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Eu posso falar do Museu do Quartzo desde o momento em que surgiu a ideia, até ele ser inaugurado e até a entrada da nova vereação há 3 anos... de então para cá não posso dizer nada, porque não sei nada.

Conte-nos um bocadinho dessa história.

Em 1992-93 era vereador na Câmara de Viseu o Dr. Américo Nunes, que tinha sido nosso aluno aqui na Faculdade, em Biologia e entendeu fazer em Viseu, no Auditório Mirita Casimiro, uns cursos de actualização de professores de Ciências Naturais e como era nosso amigo, amigo de professores daqui, pediu-nos que fossemos lá fazer umas sessões. Eu, nessa altura, era o Presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais e fomos lá fazer umas aulas de actualização para professores do distrito durante dois ou três ou quatro anos. Juntavam-se ali 30, 40, 50 professores e numa dessas vezes, o Américo Nunes levou-me à pedreira de Santa Luzia e disse – “isto aqui está muito feio, uma empresa explorou quartzo durante 7 ou 8 anos, foi-se embora, deixou este buraco, e isto aqui, a gente olha e choca, porque vemos pinheiros por todo o lado e depois tem aquela cicatriz” e ele até me disse uma coisa a que achei muita graça – “a solução que estávamos a pensar para isto era reflorestar, conseguir meter aqui vegetação mas há sempre um fundo branco atrás... nem que a gente pintasse de verde a pedra, borrasse para não se ver”- eu fiquei com aquela ideia na cabeça e já estava aqui em Lisboa a trabalhar nos geomonumentos da cidade e disse-lhe: porque é que o Sr. em vez de considerar isto um valor inestético, não considera a pedreira como uma janela aberta para o interior da terra e explica o que é que isto significa em termos de geologia e mineralogia, qual o significado desta parede de rocha que aqui é quartzo? Além disso, o quartzo é o mineral mais abundante que há na crosta terrestre, é de todos eles o que maior número de aplicações tem, até as maminhas postiças das senhoras, os silicones são feitos com base no quartzo. – Risos. De maneira que o Dr. Américo Nunes ficou a pensar nessa ideia e disse - faça-me um projecto. Eu nessa altura tinha muita ligação com o Museu de Toronto, o Bob Gate que já faleceu, doutorou-se em quartzo, um doutoramento feito com base num único mineral e tinha por amigo um grande vendedor de minerais que era um autodidata brutal, o Luís Teixeira Leite, que viajava pelo mundo inteiro a comprar minerais, a comprar num lado e a vender no outro e a coleccionar. Sabia do ponto de vista prático, mais mineralogia do que qualquer professor universitário e tinha ligações com todos os museus do mundo. Esse homem teve um papel muito importante dando-me elementos que me ajudaram a preparar esse projecto. O museu nessa altura tinha um arquitecto, o


Galopim de Carvalho | Conversa com a Bica Mário Moutinho, que era professor de Sociologia e de Museografia por isso estava bem imbuído da ideia de museu, então ele fez o projecto de arquitectura. Nós apresentamos isso ao Dr. Américo, juntamente com a organização do Monte de Santa Luzia, tudo a convergir para a pedreira e para o Museu do Quartzo, isso em 1997 e a Câmara acabou por ganhar o prémio nacional do ambiente para autarquias. A Câmara ficou toda inchada e a certa altura eu percebi que começou a olhar para o Museu do Quartzo como uma coisa muito sua, sobretudo o Dr. Américo. Aquilo era a jóia da coroa dele.

travei para salvar as pegadas, porque não sou um paleontólogo! Agora, para falar de dinossáurios eu tinha que estudar, tinha que ler, tinha que estar a par do que se fazia, tinha que poder dar entrevistas falando de dinossáurios, escrever nos jornais sobre dinossáurios e assim sucessivamente. O público, pensa que sou um especialista em dinossáurios, mas não sou! Fui a pessoa em Portugal que criou as condições para que se falasse de dinossáurios, para que se salvassem jazidas e para que o museu fizesse exposições, fizemos 10 exposições, 10!!!! sobre dinossáurios, foi brutal.

O museu correu bem até há três anos para cá correu bem. De lá para cá nao sei nada!

Mas de tal forma ficou ligado, que até hoje é...

Sei o que dizem nos jornais. uma das últimas vezes que lá fui, foi para fazer uma palestra que estava programada ainda pela vereação anterior. Ao chegar a Viseu disse ao motorista que me foi buscar que queria ir oferecer à vereadora um livro e cumprimentá-la, mas o homem foi lá acima e veio-me dizer que a senhora não estava disponível, portanto nunca cheguei a falar com ela.

Sou o avô! Naquela altura era o pai agora sou o avô! – Risos. - isso às vezes dava pequeninos frissons: um especialista daqueles que sabe muito e que vai ao estrangeiro, que é conhecido como o grande especialista da matéria e ninguém fala dele e falam do Galopim que não sabe nada! - Risos aquilo dava um bocadinho de nó no estômago, mas pronto, as pessoas acabam por perceber... é a vida.

Entretanto, o Sr. Professor foi um verdadeiro activista na causa da preservação da nossa história geológica, das pegadas, combatendo forças que, em nome do progresso, as queriam destruir. Eu nunca fui um paleontólogo de dinossáurios, não fui. Alunos meus, discípulos meus que trabalharam sob a minha orientação e a quem eu dei condições para se especializarem no estrangeiro, esses é que são os verdadeiros paleontólogos, porque eu, o que quis, foi dinamizar e porquê? Para salvar as pegadas! Tive que fazer barulho e como já tinha alguma capacidade de entrar na comunicação social, ia fazendo a minha propaganda, lançando as minhas sementes e consegui tornar-me numa pessoa conhecida em dinossáurios só pelas lutas que

Ah... mas isso teve muito a ver com a capacidade que o Sr. Professor... Sim, eu reconheço que criei condições, olhe não havia projectos de investigação em paleontologia, não havia. O Mariano Gago fazia hoje 68 anos e escrevi no facebook dois artigos sobre ele. Ele era Ministro da Ciência, começou por ser o director da JNICT que era a actual Fundação para a Ciência e Tecnologia que se chamava Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica e ele era o presidente, com ele e com a acção que eu fiz, conseguiu que a JNICT começasse a financiar projectos de investigação. A partir daí pudemos ter dinheiro para trazer especialistas a Portugal, ter dinheiro para mandar rapazes lá para fora especializarem-se, começaram a aparecer revistas, fez-se uma revista com dois volumes muito importantes... houve, de facto, condições para a ciência e a investigação nesse domínio... e hoje há uma escola de rapazes e raparigas a trabalhar.

A verdade é que todos eles são herdeiros dessa luta...

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Nunca mais escrevi, nunca mais fui chamado, nunca mais nada, no entanto, a Câmara de Viseu pelo email, quase todas as semanas tinha acções, feira disto, feira daquilo. A autarquia tinha uma grande actividade que projectava por email, das diversas acções que faziam lá... nos últimos tempos, nunca mais soube de nenhuma actividade no Museu do Quartzo. Uma pena. Um caso de mau aproveitamento de um equipamento exemplar.


Galopim de Carvalho | Conversa com a Bica Isso sim! Tenho a consciência de ter contribuído nesse sentido, agora estar a estudar ossos, a medir, a ver... isso nunca fiz. Aprendo com eles. Sabe, custa muito dinheiro ir ao campo, ter uma equipa a escavar no terreno um mês, com pensão, com despesas, custa muito dinheiro. Está tudo a perder-se com falta de manutenção (referindo-se às jazidas).

Existe um abandono daquilo que é a nossa história natural e história edificada. Sim, sim. O governo de José Sócrates e o governo do Passos Coelho não nos ligaram nenhuma e aquilo andou para trás. O grande boom foi no tempo do Guterres e da Elisa Ferreira e do Mariano Gago, embora o Mariano Gago tenha continuado depois com o Sócrates. O Sócrates dizia: -ah, o professor manda - umas palmadas nas costas, mas nunca fez nada... nem como Ministro do Ambiente nunca me ligou nenhuma... era sempre – oh professor, o professor manda! Diga, diga, diga, mas nunca fez nada. Não têm cultura científica!

Regredimos muitos nestes últimos tempos? Sim, Carenque está ao abandono, está-se a perder. Está-se a perder completamente, está-se a destruir. A Pedreira do Galinha que é a nossa grande pérola nunca mais teve manutenção, desde a Elisa Ferreira, nunca mais teve manutenção, está-se a perder. E houve uma grande jazida que não andou para a frente, que foi a de Vale de Meios, no distrito de Santarém, essa é tão importante quanto a do Pedreira do Galinha e essa nunca ninguém falou nela porque nunca conseguiu avançar, está tudo parado. É assim...

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Não haverá entidades privadas ou mecenas privados que patrocinem essas recuperações e manutenções? Não. No outro dia fui falar com o Basílio Horta, da Câmara de Sintra. Muita simpatia, abraços, só faltou dar beijinhos e depois foinos pôr à porta como quem diz, desapareçam. Nunca mais falou, nunca mais nada... A nossa proposta era fasear a Pedreira de Carenque e até arranjar parceiros do privado. Porque os dinossáurios, o dinossáurio é uma mina! Onde há dinossáurios as pessoas aparecem! Estamos a perder uma mina, por estupidez.

O que é que falta fazer?

Aparecer um grupo de pessoas com mais actividade do que este grupo a que eu pertenci. Já mostrámos que não conseguimos avançar mais. E agora, com a perna doente e isso, o que é que eu faço? Eu agora quero é açordas e bacalhau com batatas (ehehhe!) embora continue a trabalhar.

Ainda há dias foi ao Basílio, acabou de dizer. – Risos. Sim e mando as minhas flechas pela internet, mas não chegam aos ouvidos dos decisores. Falta um Mariano Gago, uma Elisa Ferreira, por exemplo, ou um Guterres. Foram pessoas que sentiram que aquilo era importante e avançaram! Agora, a coisa está muito comprometida porque, independentemente de não haver muita vontade, agora não há dinheiro, agora não há dinheiro! E como é que uma pessoa como eu vai pedir 10 ou 12 milhões para fazer isto, quando 10 ou 12 milhões fazem falta para dar os subsídios de férias aos funcionários, não é? É difícil...

O Sr. Professor que atravessou o século passado, aliás nasceu numa fase complexa entre as guerras, como é que vê os tempos que atravessamos? Eu costumo dizer que não gosto de bater em cães mortos, mas tudo começou com os 10 anos do governo do Cavaco Silva, aí é que se destruiu tudo o que havia de bom em Portugal. Houve dinheiro a rodos, vindo da Europa e esse dinheiro serviu para tudo, menos para transformar Portugal. Com o 25 de abril e com a entrada na Europa isto teve um boom muito grande! Foi uma pena que não aproveitássemos esses anos para dignificar a pessoa humana, para dar dignidade aos portugueses, para lhes ensinar cultura, para lhes ensinar civismo! Depois começaram os lobbies, começou aquela malta toda por baixo da mesa... as politiquices...

E qual foi o papel da universidade? Penso que a universidade esteve a pensar na sua própria vida! A universidade nunca saiu para o terreno. Há exepções, evidentemente que há exepções! E eu quero ser uma dessas exepções! Mas a universidade em geral, a universidade e o mundo fora da universidade... a universidade.... como


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Galopim de Carvalho | Conversa com a Bica é que hei-de dizer? Os académicos preocuparam-se com o seu curriculum e com a sua promoção na carreira, nunca houve uma orientação governamental no sentido de que as academias trabalhassem para o exterior! Suponhamos que eu quero fazer uma investigação nos olhos das aranhas: vou a um congresso na Austrália, mais 3 ou 4 tipos que fazem essa coisa e gasto uma fortuna nos olhos das aranhas. Ora, devia haver uma orientação e dizerem: olhe, você vai estudar os sobreiros e tentar perceber porque é que a cortiça este ano... porque é que surgiu este mal do pinheiro... ou as abelhas que vêm lá do Vietname...

ao congresso em Londres ficam no hotel de 5 estrelas, percebe?

A universidade alheou-se da realidade portuguesa?

Se ouvisse os historiadores de ponta “ahhh! aquilo não é história, aquilo é folclore... aquilo é fofoca.” No entanto, se alguém ensinou história a este País, foi ele! E ele era um homem de direita com umas convicções muito diferentes das minhas. Mas que foi um grande professor, um grande divulgador de História, foi!

A universidade fazia aquilo que lhe competia, eu penso que faltou foi orientação estatal no sentido de... política! Uma política da universidade! Isso fez-se um bocadinho com o Mariano Gago, fez-se um bocadinho com o Veiga Simão, quando ele foi ministro, e depois pronto... os políticos adaptam-se, instalam-se lá dentro, depois fazem-se conselheiros do BES. – Risos.

O Sr. Professor, sendo um dos casos conhecidos, permita-me a expressão, de professor popular, sentiu que os seus pares o colocavam um bocadinho de parte ou que isso não era bem visto na universidade? Eu tenho um artigo escrito, que ainda não publiquei, mas que qualquer dia publico que é exactamente sobre isso. O divulgador de ciência nunca é bem visto pelos seus pares das academias, por esta razão que eu expliquei há um bocadinho, - como é que aquele gajo vem cá fora fazer exposições, aquilo é folclore, aquilo não é ciência!

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E porque é que acha que isso acontece? Porque há mediocridade! Por pequenez intelectual! Mas isso não é só português, isso é no mundo inteiro! Há uma dificuldade de relacionamento entre os que ousam sair da torre de marfim e vir falar a linguagem simples do cidadão, que no fundo é quem paga a investigação científica. É o povo inteiro que paga a universidade! E eles estão lá nos seus laboratórios, com as suas batas, falando com os seus académicos, vão

Isso incomodou-o durante o seu trajecto académico? Vivi sempre em conflito com essa situação, mas pronto, sou como sou! Sou de esquerda, mas não sou filiado em partido nenhum.

Estou-me a lembrar de alguém que fez algo de semelhante, também muito acusado de pouca cientificidade, que foi o professor Hermano Saraiva na História.

Há pouco dizia e eu interrompi-o, que era um homem de esquerda, embora nunca tivesse sido filiado. Sou solidário, acho que a fraternidade é fundamental, que a liberdade, que a igualdade, são essenciais. No fundo sou um revolucionário da revolução francesa, é isso, está tudo aí! A liberdade é fundamental. Acho que nós já conseguimos a liberdade. De facto Portugal é um país livre, Igualdade e fraternidade não há nenhuma. Agora, quando há uma campanha de solidariedade do banco contra a fome, o português, o povinho português, individualmente, enche aquelas carrinhas.

O português é solidário? O português é solidário agora a estrutura social portuguesa não é solidária.

Falemos um bocadinho desta Lisboa que é o mote da nossa revista e que também já é um bocadinho sua. Já vivo aqui há sessenta e tal anos.

Como é que o Sr. Professor vê estas mudanças que Lisboa sofreu ao longo das últimas décadas? Como é que vê uma cidade que se tornou cada vez mais cosmopolita, mas também cada vez menos humana?


Galopim de Carvalho | Conversa com a Bica

Tem havido cuidado no respeito pelo seu solo, pelas suas riquezas, pelo lado geológico? No tempo do João Soares criaram-se geomonumentos na cidade de Lisboa, que agora, por muito simpático que seja o Sá Fernandes, uma simpatia - e tal o Professor Galopim, o meu amigo manda - mas não faz nada. Os geomonumentos que nós identificámos na cidade de Lisboa e que alguns deles até organizámos em termos de obra pública, está tudo ao abandono! Estão referenciados, mas estão-se a perder. E há muitos por identificar, há muitos por referenciar, as obras continuam à espera.

Como é que o Sr. Professor vê esta ideia de substituir a calçada portuguesa em Lisboa? Isso é só conversa!

Acha que não vai acontecer? Não, não! Eu tenho duas posições relativamente à calçada portuguesa. A calçada portuguesa dos espaços, das salas nobres da cidade, essa é preciosa, há que protegê-la. Agora a calçada portuguesa dos passeios, das ruas, maltratada, solta.. etc.. cheia de cocó de cão.. é uma vergonha.

Não acha importante manter esse factor identitário que é uma imagem da cidade e que foi exportado para tantas cidades, basta pensar no Rio de Janeiro, ou em Macau? Conheço Macau e estava em lá quando eles estavam a calcetar de novo aquele largo onde fica o Leal Senado, espectacular! Em Manaus, lá no meio da amazónia! Também já lá há calçada portuguesa junto ao teatro. No Rio de Janeiro, a avenida junto ao mar é extraordinária! Nos Açores, na Madeira... em todo o lado. Isso é maravilhoso e deve ser preservado.

Sr Professor, como olha para o futuro da Geologia e para aquilo que tem que mudar para que passe a ser mais bem tratada e olhada de uma forma mais dinâmica pelos nossos governantes? Não sei.... Hoje a Europa é uma realidade e nós estamos no fundo da Europa, a nossa riqueza mineira não é nada por aí além, embora tenhamos as maiores jazidas de cobre do mundo, ali em Neves Corvo. Agora há o problema de quererem fazer investigação de petróleo no Algarve. Relativamente ao petróleo há o chamado paradoxo da abundância que é: os países pobres nunca enriqueceram com o petróleo. Os países pobres são explorados pelas grandes companhias! Se vamos tirar petróleo no Algarve, das duas uma: ou o país pensa que irá receber mais dinheiro sacrificando o turismo e pondo lá os poços de petróleo ou pensa que o petróleo não é muito e então salva-se o turismo. Do ponto de vista financeiro o que vai decidir é o que é que render mais. Se, de facto, o Algarve tiver petróleo em quantidade que justifique destruir o turismo, eles destroem! Aí está o paradoxo da abundância. A abundância não nos trouxe riqueza, trouxe-nos pobreza. Porque os lucros vão todos para fora

É um bocadinho a nossa história. Foi assim com o ouro do Brasil, foi assim com as especiarias da Índia... Exactamente! Exactamente! Nós já não temos quantidade de terreno, nem quantidade de problemas geológicos que dêem emprego a tantos geólogos que se podem formar, os geólogos que se estão agora a formar em Portugal vão ter que encontra resposta em Angola, em Moçambique, no Brasil, onde quer que façam falta. Para que a Geologia ganhe, porque a Geologia não é só uma fonte de riqueza, é também uma fonte de cultura, para que essa fonte de cultura inspire o cidadão e ajude a transformar a sociedade, faz falta essa aprendizagem da Geologia, a Geologia tem que ser acarinhada. E isso só pode acontecer se os professores universitários de Portugal desde Trás-os-Montes ao Algarve (estão lá professores que foram todos meus alunos), essa rapaziada se entender, se juntar e criar um lobby. [47]

Isso é o mal de todas as cidades, das cidades que crescem. Eu saio pouco, os meus filhos andam muito pela cidade. Mas o pouco que saio, acho que Lisboa tem melhorado. Desde que o João Soares foi para a Câmara Municipal, a cidade cresceu muito e melhorou muito, agora ainda há muita coisa que é preciso fazer. Mas hoje, Lisboa está muito bonita, está uma cidade muito bonita!


Galopim de Carvalho | Conversa com a Bica O Sr. Professor disse-nos que não há espaço de trabalho em Portugal para tantos geólogos e, no entanto, as nossas terras nunca estiveram tão mal estudadas. O ritmo de feitura de cartas geológicas é muito inferior ao que era, basta dizer que os serviços geológicos não têm viaturas todo-o-terreno! Eles funcionam muito com projectos de investigação, como não têm orçamento, não funcionam. Os serviços geológicos viviam numa casinha ali no Convento do Espírito Santo ao pé da Academia das Ciências, um segundo andar onde tudo estava centralizado. Depois fizeram um edifício de não sei quantos andares ali para ao pé de não sei onde. Aquilo é capaz de ter custado mais do que aqueles 10 ou 12 geólogos com 3 ou 4 jeeps a fazer trabalho no terreno, de maneira que, como não têm orçamento que chegue, os geólogos que lá estão, quase todos trabalham com projectos de investigação que submetem à junta, depois a junta aceita o projecto e capitaliza e eles trabalham dentro daquilo e vão para o terreno nos seus próprios carros ou então não vão e ficam no computador.

Para terminar, gostava que nos contasse umaa história curiosa da sua dupla condição de aluno e professor do professor Caciano Vilhena. É verdade! Que coisa tão bonita!

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Como é que foi essa experiência de que o Sr. Professor fala com tanto orgulho e com tanta emoção? Foi ele, que durante o meu 5º ano do liceu me meteu o bichinho da Geologia e era um belíssimo professor, tinha sido aluno dele em 49 por aí, 48, 49, depois, 30 anos depois em 1978, em Lisboa, quando apareceu o curso do ano propedêutico, ele já estava reformado, mas para ampliar um bocadinho a reforma trabalhava num colégio preparando alunos para a universidade, para frequentar o ano propedêutico e ele apareceu-me lá na faculdade, lembro-me... era sobre a teoria tectónica de placas (a tectónica de placas aparece em 65 e isto foi em 78), eu tinha saído do liceu em 50, portanto apanhou-nos num intervalo muito grande, e toda a geologia deu uma grande reviravolta e o homem estava desactualizado e ia lá para se actualizar. Pediu biblio-

grafia, etc e passamos grandes partes das tardes juntos. Ele ia para lá e um dia disseme – “nem calculas a satisfação que me dá estar aqui a aprender contigo e o orgulho que sinto” ... é verdade é... eu sinto isso hoje com alunos meus. Eu, quando escrevo artigos de maior responsabilidade científica e os quero publicar, mando-os ler por alunos meus que hoje sabem mais do que eu e eles fazem-me a sua crítica, dão-me um conselho e isso é tão importante! Galopim de Carvalho termina a conversa com voz embargada. Os seus alunos serão sempre o seu maior orgulho. Eles e a família que soube manter e cuidar, apesar das horas roubadas pelos muitos combates que travou em nome da defesa do nosso património geológico.

por Susana Andrade Fotografia por Studiobox


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Bordallo Pinheiro QUANDO O HUMOR GANHOU FORMA Rafael Bordalo Pinheiro ... Genuinamente português por constituição e por temperamento, de olhos pretos, nariz grosso, cabelo crespo, tendendo para a obesidade, ele é um sensual, um voluptuoso, um dispersivo, um desordenado. Uma das mais belas virtudes que ele não tem, é a que consiste em vencer os impulsos da natureza. Desgraçadamente, observa-se com frequência que os homens rígidos, que mais exemplarmente triunfam das próprias paixões, não triunfam de mais nada.

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Ramalho Ortigão, 1891


Bordallo Pinheiro | QUANDO O HUMOR GANHOU FORMA São quase 10h de uma manhã quente de final de Maio quando chegamos ao Largo de Camões, coração do Chiado, um dos bairros históricos mais turísticos de Lisboa. No chão de calçada portuguesa, alguns pombos vagueiam indiferentes ao corre-corre dos transeuntes e ao olhar deslumbrado dos turistas. Das Ruas das Flores e do Alecrim vão chegando catadupas de estrangeiros, que aos poucos inundam a praça, máquina fotográfica em riste, ansiosos por registar para a eternidade um pouco da história da cidade. As escadarias da Igreja do Loreto são literalmente tomadas de assalto por um grupo de japoneses que procuram o melhor lugar para fotografar a praça, enquanto as esplanadas da Brasileira e da Benard, se vão enchendo de gente. O nosso destino é um dos edifícios emblemáticos do Largo do Chiado, a loja da Vista Alegre, reinaugurada no final de 2012 e classificada como Bem Imóvel de Interesse Municipal. A fachada, toda em pedra mármore ornamental, foi mantida inalterada durante o processo de recuperação, bem como o pavimento em mosaico romano. Na montra do lado direito, costas voltadas à Igreja da Encarnação, estão expostas algumas peças da mítica Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, motivo principal da nossa visita. São peças de uma nova coleção, “Os Figurões”, resultantes de uma parceria da fábrica com o cartoonista do Jornal Expresso, António, também ele um herdeiro da genialidade satírica de Raphael Bordallo Pinheiro. Entramos na loja para uma conversa com Nuno Barra, Diretor de Marketing e de Design Externo do Grupo Vista Alegre, o rosto por detrás da renovação da marca, que nos recebe no piso superior com um ar tranquilo de gestor bem sucedido. Iniciamos a entrevista, enquanto somos guiados numa brevíssima visita à loja.

O que mais o surpreendeu no acervo da Bordallo?

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É preciso que se diga que eu não conhecia bem o Bordallo Pinheiro. Talvez por isso, a coisa que mais me surpreendeu quando cheguei à Bordallo, ou melhor, quando a Bordallo chegou até nós, foi a obra que ele deixou a vários níveis. O seu legado. Ele era superplástico. Surpreendente! Se olharmos os jornais que ele fazia em mil oitocentos e

tal, ficamos surpreendidos. As suas caricaturas, as suas charges políticas não deviam ser muito pacíficas para a altura. Se pensarmos que hoje estamos numa fase de maior liberdade de expressão e não temos nada daquilo, pelo menos proporcionalmente, ficamos estupefactos. Por isso, quando nos debruçamos na sua obra, do cartoon ao jornalismo e depois na cerâmica ficamos estarrecidos. Na cerâmica então, é uma loucura, porque tem peças que nunca mais acabam. É impressionante como uma pessoa naquele tempo de vida conseguiu produzir tanto. Ainda há tempos em conversa com a Joana Vasconcelos, concordávamos que uma das coisas mais extraordinárias do Bordallo, foi o legado que conseguiu construir em tão pouco tempo. Hoje em dia, para manter aquele nível de produção, é preciso ter uma máquina por trás.

Mas o que o surpreendeu mais, especificamente em relação às peças do Bordallo? Mais especificamente ao nível da cerâmica, o que mais me impressionou foram as cores, as formas, a variedade. Essa conjugação do humor misturado com a cerâmica, com algum arrojo, com um sentido sempre provocatório é que dá um produto com uma alma própria, diferente do que é habitual encontrarmos na cerâmica. Começámos a fazer feiras internacionais com a Bordallo, Paris e Frankfurt, as maiores feiras do sector e a certa altura optámos por ir com a Bordallo sozinha, separada da Vista Alegre e acabou por ser engraçado ver que a Bordallo entra nos principais espaços das feiras ao lado das melhores marcas de design, com 40m² e sempre cheia. Isso acaba por gerar situações curiosas como uma em que estávamos em frente a uma marca conhecida de vidro e eles perguntavam: o que é que vocês fazem para terem o vosso stand sempre cheio? – Nuno rindo. – Isso deve-se à diferenciação do produto e à história toda que gira à volta do produto e que é fabulosa. Claro que quem não tem curiosidade de descobrir o que está por trás, acaba por não se interessar pela marca, por isso é tão importante puxarmos a Bordallo para a frente, dar-lhe visibilidade. Daí a importância das séries especiais, que acabam por gerar essa curiosidade de descoberta da fábrica através de um artista conhecido. Quando um cliente entra no universo Bordallo, claro que não vai gostar das peças todas, mas dificilmente sai, porque


Bordallo Pinheiro | QUANDO O HUMOR GANHOU FORMA

Neste momento quais são as áreas de produto da Bordallo? A Bordallo tem três áreas de produto: uma utilitária, com terrinas, travessas, pratos, outra decorativa e as séries especiais, que são séries assinadas por artistas.

A vertente decorativa é, talvez, a mais conhecida? Sim, com o Zé Povinho, as sardinhas...

Essa ideia, relativamente recente, segundo sei, de convidar artistas reconhecidos para criar peças inspiradas no espírito fundador da Fábrica das Caldas, surge com a nova Administração ligada ao Grupo Visabeira e com uma aposta notória na dinamização da marca. De facto, o Grupo comprou a Bordallo em 2009 e a primeira coleção com artistas sai em 2010. Uma coleção exclusivamente com artistas portugueses, a Joana Vasconcelos, o Fernando Brízio, a Bela Silva, a Susanne Themlitz, a Elsa Rebelo, o Henrique Cayatte e a Catarina Pestana e com a qual procuramos celebrar os 125 anos da marca. Depois, em 2013, fez-se o lançamento de uma coleção com o mesmo espírito, convidando 20 artistas brasileiros.

Essa opção pelo Brasil surgiu pelo facto do próprio Raphael Bordallo Pinheiro ter vivido no Rio de Janeiro? Na altura fazia todo o sentido. O projecto iniciado com os 7 artistas portugueses es-

tava consolidado e sentimos a necessidade de avançar com um novo projecto para um mercado que tivesse ligação com a Bordallo e o Brasil fazia todo o sentido pelo facto do Bordallo ter vivido lá. Então decidimos convidar 20 artistas brasileiros para virem a Portugal e desenvolverem cada um a sua peça. Ainda este ano, vamos arrancar com a próxima coleção especial, com novos artistas, que já não são só brasileiros nem portugueses, vai ser uma coleção bem mais abrangente. Uma série especial que além de pessoas ligadas às artes, terá também profissionais ligados ao design. Está a ser um projeto muito interessante e com peças muito curiosas.

Em que estado se encontrava a Fábrica quando foi adquirida, em 2009, pelo Grupo Visabeira? Infelizmente, a Fábrica estava prestes a fechar. Os salários estavam em atraso e havia uma movimentação para salvar o importante legado de Bordallo. Este foi o estado em que a encontrámos. Foi necessário desenvolver um plano de recuperação da empresa que ainda não está terminado, mas que está a ser cumprido escrupulosamente e com bons resultados.

A nova administração adiquiriu a fábrica numa fase que correspondeu a uma tendência mundial de valorização das raízes. Exacto. Certo gosto pelo vintage, pelo retro. Ora isto é muito curioso e quase contraditório com o movimento de globalização que se vive a nível comercial, em que assistimos a uma uniformização mundial. Repare que, se por um lado as lojas que encontra em Portugal são muito semelhantes às que encontra em Paris ou Nova Iorque, por outro há uma valorização crescente das raízes. Os franceses continuam muito agarrados à sua cultura, os espanhóis igualmente e os portugueses, embora começando mais tarde, também começaram a descobrir que temos coisas que devemos valorizar. Hoje é notório que as novas gerações já têm imenso orgulho naquilo que se faz por cá, em grande parte porque são coisas realmente muito bem feitas. Eu costumo dizer muitas vezes, que nós só percebemos o que temos de muito bom, quando vamos para fora. E temos coisas realmente muito

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encontra sempre algumas peças que o vão encantar. Uma peça ou outra para colocar na mesa e que darão com certeza um toque diferente. Há tempos, oferecemos um jantar para designers italianos e decidimos fazer uma mesa já com louça da Bordallo e com aqueles copos de vidro com bicos e não imagina o sucesso que foi. Eles ficaram maravilhados. – Que coisa diferente – diziam. – Onde encontraram estas peças? – Percebe? As peças da Bordallo fazem uma mesa completamente diferente. Arrojada, colorida, divertida, mas ao mesmo tempo marcante.


Bordallo Pinheiro | QUANDO O HUMOR GANHOU FORMA boas em diversas áreas e uma delas é a da cerâmica. Temos belíssimas fábricas de cerâmica no país, sejam elas de faiança, sejam de porcelana. Não é por acaso que produzimos para muitas marcas mundiais. A mesma coisa ao nível dos vinhos, das conservas, da gastronomia, do turismo e tantos e tantos outros.

caso das séries limitadas de artistas, como um valor mais subjetivo, sentimental, se quiser, de ligação familiar, ou até de percepção do valor artístico de peças ligadas ao legado do próprio Bordallo.

Isso resultou muito da adesão de Portugal à Comunidade Europeia e à nova geração que começou a viajar pela Europa e pelo Mundo. A geração dos ERASMUS...

A estratégia que estamos a seguir é a que definimos em 2010 e que ainda não está completamente implementada. Ainda tem umas fases para implementar, sendo que as contas já estão equilibradas. Já não estamos a perder dinheiro. Ainda não ganhamos muito, mas estamos no bom caminho. – Nuno sorrindo. – Era um dos dois objetivos destas duas primeiras fases e conseguimos. Trabalhar muito ao nível do desenvolvimento de produto e equilibrar as contas, para que a Fábrica possa ser viável e preparar o passo seguinte, que passa muito pela internacionalização. Ou seja, estando as contas equilibradas, temos de fazer crescer a empresa, aproveitando o potencial que o produto tem, por ser um produto diferenciador, que não existe em mais lado nenhum.

Isso mesmo! Acho que ajuda imenso as pessoas irem para fora. Só assim conseguem perceber que afinal existem outras coisas, ou que as ideias pré-concebidas que têm, de que ali é que se ganha bem e tudo é óptimo, não são bem assim. Vão lá tentar viver um mês em Londres um salário que pode ser 3 vezes superior ao salário que têm aqui, não conseguem. Isto para dizer que as pessoas vão aos locais e começam a perceber. O ERASMUS tem outra vertente muito engraçada, porque se juntam 3 ou 4 miúdos de países diferentes e começam a trocar experiências. Naturalmente um deles pergunta: Olha lá, em Portugal o que fazem de diferente? E muitas vezes, a resposta a uma pergunta simples como esta, faz despertar a consciência daquele miúdo português para as suas raízes, para as coisas boas do seu país. Nuno fala gesticulando levemente quando se entusiasma, como que querendo dar expressão física ao que lhe vai na alma.

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Acontece muito, em conversa com clientes, eles dizerem: Herdei umas peças da minha avó, da Bordallo, na altura eu não queria aquilo para nada, mas hoje faço questão de mantê-las, de preservá-las. Isto tem muito a ver com o mercado, mas também com o facto de nós, na empresa, termos trabalhado muito a valorização do produto: com a entrada das peças da Bordallo em pontos de venda qualificados, como as lojas da Vista Alegre; com uma seleção mais cuidada de produtos, muitos que não faziam sentido e que descontinuámos e outros que estavam esquecidos, mas que eram importantes e retomámos; com a associação de artistas à Fábrica. Tudo isto acabou por, aos olhos do cliente, atribuir maior valor às peças. Não só um valor objetivo como no

Qual é a estratégia definida para os próximos tempos?

E essa estratégia de internacionalização vai começar por onde? Na verdade, já começámos. Os nossos mercados iniciais foram Espanha, Estados Unidos e o Brasil. No caso do Brasil, o projecto dos Bordallianos foi o motor dessa estratégia.

E como está a correr? Bem. Dentro das expectativas, embora o mercado brasileiro, pela sua dimensão, tenha implicações logísticas mais complexas e seja muito variado. Nos próximos tempos avançaremos para a abertura de uma loja online, o que alargará a oferta ao país inteiro e por uma política comunicação que passará pela dinamização das redes sociais, ou seja, uma aposta muito grande na Web. Mas, ainda há muito para fazer, sobretudo se pensarmos no enorme potencial do país. Nos Estados Unidos vendíamos muito, mas numa perspectiva de “private label” e não tanto com a marca Bordallo e é isso que estamos a mudar. Deixámos de produzir para terceiros. Outra aposta da Bordallo é a Ásia e não necessariamente a China. O nosso segundo país de exportação, neste momento, é a Coreia do Sul.


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Bordallo Pinheiro |

QUANDO O HUMOR GANHOU FORMA

Curioso. Sim. Além disso, existe um mercado muito interessante nessa zona, que engloba a Malásia, Singapura e no qual estamos bastante empenhados em apostar.

E na Europa? França é um mercado importante, para onde vendemos bem, mas com grande potencial de crescimento. A Escandinávia é também uma aposta nossa, bem como a Alemanha. Fora da Europa, o México e a Colômbia. Enfim, na verdade a Bordallo, em termos internacionais, vai beneficiar bastante das sinergias com a Vista Alegre, porque criámos uma equipa comercial comum que actua em cerca de 15 mercados, com um responsável de área que venderá Vista Alegre aos canais da Vista Alegre e Bordallo aos canais da Bordallo. Achamos que isso beneficiará muitíssimo este objectivo de internacionalização da empresa.

Em Portugal, além do reposicionamento da marca, nomeadamente através da sua colocação em pontos de venda seleccionados, existe alguma estratégia de marketing visando este mercado das raízes e do retro de que falámos? Pergunto isto, porque assistimos, por exemplo, ao aparecimento de 21 novas sardinhas que vieram fazer companhia à célebre do Bordallo, numa parceria com a EGEAC e a Câmara de Lisboa, lançadas com uma fortíssima campanha de comunicação.

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O problema dos planos de comunicação é o orçamento. – Risos. – Para fazer grandes campanhas é preciso muito dinheiro e a Bordallo, pelos problemas que referi, ainda não está nesse patamar. Sendo que, a empresa tem uma linha de comunicação bem arrojada, muito irreverente e cheia de humor, como, por exemplo, a linha dos figurões, lançada agora, numa colaboração com o cartoonista António, do “Expresso” e que vai beber muito na génese do próprio trabalho de Raphael Bordallo Pinheiro: provocatória, com conteúdo, inteligente, mas sempre com um sentido humorístico, que espicaça as consciências.

De certa forma, todos os grandes cartoonistas portugueses têm muito de bordalliano. O Raphael Bordallo foi o pai da caricatura em Portugal, mas, e isso talvez seja menos conhecido, também foi o pai da caricatura no Brasil, onde criou vários jornais satíricos, muito críticos e polémicos, motivo pelo qual acabou por ter de regressar. Há tempos, estava a ler um livro sobre a caricatura no Brasil e o capítulo maior é exactamente dedicado a Raphael Bordallo Pinheiro. Mas, regressando um bocadinho atrás – Continua Nuno, sempre focado na sua linha de raciocínio, mesmo quando aparentemente se perde em divagações. – Sim, do ponto de vista de comunicação, a Bordallo tem a sua linha própria. Não faz mais por limitações orçamentais e por isso o que faz está muito focado nas redes sociais.

Há pouco falava da aposta nas lojas online. Já têm um peso significativo nas vossas vendas? No caso da Bordallo ainda não, porque a empresa ainda só tem 3 lojas online: Portugal, Espanha, que abrimos há um ano e Europa, com apenas um mês, portanto é tudo ainda muito recente. Já tem vendas, mas ainda não representam um canal com a importância que pretendemos que venha a ter. Mas, não há dúvida de que esse é o caminho.

Uma das acções previstas para este ano, que encerrará a comemoração do centenário do Museu Grão Vasco, é o de uma grande exposição de peças de Raphael Bordallo Pinheiro e do seu irmão Columbano. Esse será um momento único de divulgação e catalogação do enorme acervo de peças da Fábrica das Caldas, não apenas as que já fazem parte do Museu Bordallo Pinheiro, mas muitas outras que estão espalhadas pelo país, em coleções privadas. Nós todos os anos recuperamos algumas peças que estão no Museu. Este ano, vamos lançar uma peça a que chamaremos “a peça do ano” e que será recuperada na sua forma original ou através de uma ré-


Bordallo Pinheiro | QUANDO O HUMOR GANHOU FORMA plica, isto porque há peças que são muito grandes que não faria sentido recuperar na sua dimensão original.

Por falar nisso, a maior peça criada por Bordallo está no Brasil. De facto, “A Jarra Beethoven” criada por Bordallo em 1899, foi oferecida ao então Presidente do Brasil, Marechal Deodoro da Fonseca e encontra-se exposta no Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro. Sim. O maior coleccionador de peças do Bordallo era brasileiro. Depois vendeu a coleção ao Berardo, mas era brasileiro. Portanto essa ligação existe desde há muito. Posso até contar uma história engraçada que ocorreu aquando da vinda dos 20 Bordallianos Brasileiros a Portugal. Um deles era de São Paulo, mas os avós eram do Nordeste e ele quando chegou à Fábrica viu as andorinhas e ficou muito surpreendido porque a avó dele tinha a casa cheia de andorinhas do lado de fora e que eram as andorinhas das Caldas. Mais tarde, investigou e percebeu que havia uma relação familiar com a região. Foi um momento bem interessante. No Brasil acontece muito isso, de existirem peças na família e nem sequer se conhecer a origem. Esta descoberta acaba por acontecer mais tarde, numa viagem, e revela-se emocionante.

O Raphael Bordallo foi o pai da caricatura em Portugal, mas, e isso talvez seja menos conhecido, também foi o pai da caricatura no Brasil...

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Nuno é interrompido por uma conhecida decoradora, cliente habitual, que precisa escolher umas peças para um jantar oficial que decorrerá ainda essa noite em Lisboa. Enquanto decorre a conversa, percorremos a sala do piso superior dedicada a Bordallo. A alegria das cores, marca um contraste com a sobriedade das peças Vista Alegre que compõem o resto da loja. Uma abóbora enorme ladeada por duas travessas verdes realçam o utilitarismo que as peças foram conquistando, sem perderem a função decorativa. A voz de Amália acompanha-nos neste deambular solitário pelo imaginário do desenhador, ceramista, jornalista e homem do teatro, que em 1884 iniciou o movimento de renovação da cerâmica nacional, enquanto Diretor Artístico da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.


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Afinal, quem foi Raphael Augusto Prostes Bordallo Pinheiro? Nascido em 21 de Março de 1846, na Rua da Fé, situada na encosta da colina sobranceira à Avenida da Liberdade em direcção ao Campo de Santana, filho terceiro de uma família de artistas, Raphael revelou-se, nas palavras de Matilde Tomaz do Couto “um espírito brilhante, ímpar de criatividade, que aplicou a uma contínua intervenção atenta e crítica à vida portuguesa”. Filho do pintor e escultor romântico Manuel Maria Bordallo Pinheiro e de D. Maria Augusta do Ó Carvalho Prostes, Raphael ingressou com 13 anos de idade na Real Academia de Belas Artes, onde frequentou as aulas de desenho até 1871, tendo-se, entretanto, matriculado no Curso Superior de Letras, em 1865. Ainda muito novo, com 14 anos, tem a sua primeira experiência em palco, numa peça que sobe à cena no Teatro Garret e no Teatro Thalia do Palácio do Conde de Farrobo. Esta passagem pelos palcos, que se manterá vida fora, apaixona-o de tal forma que o leva a inscrever-se no Curso de Arte Dramática do Conservatório de Lisboa. Se o interesse despertado por esta panóplia de opções o levou a inscrever-se sucessivamente numa série de cursos, a rigidez das regras académicas e o gosto desmesurado pela boémia lisboeta afastam-no das aulas e da conclusão de qualquer dos cursos. Consciente da necessidade do filho ter uma fonte de rendimento, seu pai consegue que assuma o cargo de amanuense da secretaria da Câmara dos Pares, lugar pouco conforme com o perfil de Raphael, mas que mantém durante 8 anos. Essa experiência paredes meias com a intriga política, acaba por servir-lhe de inspiração para a crítica social e política que acabaria por revelar-se a sua vocação.

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Em 1866, Bordallo Pinheiro casa com D. Elvira Ferreira de Almeida, num enlace à revelia da família da noiva, do qual resulta o nascimento de Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro. Desses tempos com passagem pela Quinta da Brôa, na Golegã, fica o legado

de um enorme acervo de apontamentos a desenho e aguarela naturalistas que descrevem os costumes da região. Em 1868, apostado em ganhar a vida como artista plástico, Raphael expõe na Sociedade Promotora de Belas Artes de Lisboa, sobressaindo de entre as suas obras, as aguarelas dedicadas aos tipos característicos da capital e do Ribatejo. Em 1870, em nova exposição, começa a notar-se a sua extraordinária veia de caricaturista e de atento observador da realidade que o rodeia nomeadamente na série “O Homem que ri” e em obras como “O Espirra-canivetes” e “Os Jogadores de Gamão”. Até 1874, Bordallo continua a expor com regularidade na Sociedade, porém, irrequieto, insatisfeito, virtuoso, Raphael decide alargar a sua arte a outras atividades e inicia-se no jornalismo, na ilustração e até na decoração, tendo sido o percursor dos cartazes artísticos. Enquanto ilustrador colaborou com diversos jornais e revistas internacionais: La Ilustration de Madrid, El Mundo Cómico, El Bazar, L’Univers Illustré, e para a célebre revista londrina The Illustrated London News, que o convida a trabalhar em Inglaterra, convite que declina. Em Portugal, ilustra com cerca de 250 desenhos, o livro “Os Theatros de Lisboa” de autoria de Júlio César Machado, antes de se celebrizar como atento e perspicaz caricaturista. A caricatura é a praia de Bordallo e é através dela que o seu génio marcará para sempre as artes portuguesas. Observador preocupado do quotidiano nacional, encontrando em pequenos detalhes a inspiração para o seu desenho mordaz e realista, Raphael Bordallo Pinheiro, com um olhar satírico sobre as intrigas políticas e as sucessivas crises que assolam o país, vai criar verdadeiros símbolos nacionais, entre os quais se destaca o Zé Povinho, esse retrato perfeito e ainda actual de um povo sofredor, mas conformado.


Raphael chega ao Rio de Janeiro no verão de 1875 e por lá viverá durante 4 anos, permanecendo, ainda hoje, como a mais relevante figura da caricatura humorística brasileira. Entre 1875 e 1879, produz abundantemente, de charges políticas a retratos do quotidiano carioca. O Imperador é um dos seus alvos favoritos, assim como o Clero e os poderosos políticos da época. Numa das suas charges mais famosas, intitulada “A Questão Religiosa” e publicada n’ “O Mosquito” em 1876, representa D. Pedro II dando a mão à palmatória ao Papa Pio IX, numa crítica velada à submissão do Império ao poder do Clero. Em 1877, funda o periódico “Psit!” onde surgem personagens que ficarão para sempre no imaginário carioca: o Psit e o Arolae e um ano depois, lança “O Besouro”, onde vê a luz do dia o Fagundes.

No Rio de Janeiro, Bordallo mantém a sua crítica mordaz à situação política e social e o olhar satírico com que retrata os poderosos vai valer-lhe polémicas ferozes e inimigos figadais, que terão estado por detrás das duas tentativas de assassinato que sofreu e que acabaram por obrigá-lo a regressar a Portugal. Logo em 1879, ano em que regressa a Lisboa, funda com Guilherme de Azevedo “O António Maria”, um jornal ilustrado que retrata a vivência cultural, política e social do país. Em 1885, juntamente com seu filho Manuel Gustavo, lança “Pontos nos ii”, onde denuncia questões importantes da política da época: “O Monopólio dos Tabacos”, “A Questão Inglesa”, “O Ultimatum Inglês” e “A Revolta de 31 de Janeiro”, motivo pelo qual acaba fechado em 1891, por ordem do Governo Civil de Lisboa. Retoma então o “António Maria”, que durará até 1899. Desencantado com os jogos políticos e com o rumo que o país segue, Raphael vira o seu talento humorístico para o meio cultural lisboeta e, em 1900, funda com o filho, “A Paródia”. Será das capas d’ “A Paródia” que sairão os mais importantes retratos socio-económicas por ele elaborados e que ainda hoje são recordados e retratados com frequência: “A Política: a Grande Porca”, “A Finança: o Grande Cão”, “A Economia: a Galinha Choca” entre tantos outros. Em 1880 cria com os mais importantes artistas da época, o Grupo do Leão, em referência ao Café Leão D’Ouro onde costumavam reunir-se. Dele fazem parte António Ramalho, Silva Porto, José Malhoa, João Vaz, Henrique Pinto, Cipriano Martins, Moura Girão e seu irmão Columbano Bordallo Pinheiro, que se distanciando do academicismo, foram os responsáveis pela renovação naturalista da arte portuguesa.

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Em 1870, inicia-se no humorismo gráfico, e com edições em “O Calcanhares de Aquiles”, “A Berlinda” e “O Binóculo”, lança um álbum de caricaturas em 14 edições, verdadeiro percursor da banda desenhada. Em 1872 edita Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa, que retrata, em episódios pitorescos, a viagem do Imperador do Brasil pela Europa e o Mapa de Portugal, com mais de 4000 exemplares vendidos. Em 1875, funda com Guilherme de Azevedo e Guerra Junqueiro “A Lanterna Mágica”, jornal de crítica social e política, no âmbito do qual acaba por aparecer a figura do Zé Povinho. É nesse ano que parte para o Brasil a convite do jornal humorístico brasileiro “O Mosquito”.


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A Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha A Fábrica das Caldas nasceu de um projecto do próprio Raphael, em parceria com o seu amigo Ramalho Ortigão, a sua irmã Maria Augusta e o seu irmão Feliciano. A ideia, que terá surgido por volta de 1884, implicou um sério trabalho de pesquisa dos dois irmãos que viajaram pela Europa, visitando fábricas de cerâmica francesas, inglesas e alemãs, a fim de desenvolver o projecto que resultaria num complexo fabril implantado em 80 000 metros quadrados de terreno na Vila das Caldas da Rainha, com duas nascentes de água e dois barreiros, matéria primas essenciais ao fabrico de louça artística. No dia 30 de Junho de 1884, foi assinada a escritura de constituição da fábrica, sendo atribuída a Raphael, a direção técnico-artística e a seu irmão Feliciano a responsabilidade organizativa. Coube ao próprio Raphael a concepção arquitectónica das instalações da qual resultaram dois pavilhões: um de dois andares, destinado a aulas e a depósito de louças, envolto por um parque arborizado e outro térreo, de grandes dimensões, destinado à produção e equipado com as mais modernas maquinarias da época, entre elas uma máquina eléctrica de Fauce de Limoges para depurar a massa. O complexo dispunha ainda de um grande pavilhão destinado à venda dos produtos.

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Era um projecto inovador e ambicioso onde Raphael viu a oportunidade de passar para a argila a sua frenética criatividade. Muitas das figuras que criara como caricaturista, ganham vida em faiança: o Zé Povinho, a Velha Maria, a Mamuda Ama das Caldas, o Cura e tantos outros. É a própria cerâmica da região que ganha um cunho original: vasos, pratos, jarras, surgem enriquecidas por uma decoração barroca, de uma criatividade inigualável. Mas, Bordallo não se limita à produção de loiça ornamental. Por encomenda do Visconde de São João da Pesqueira, cria uma original baixela em prata e desenha painéis de azulejos, floreiras, bustos, jarrões para o Palácio Beau Séjour, em Benfica, entre outros palacetes de Lisboa, sempre inspirado no estilo Manuelino e na Arte Nova, muito apreciada na época. Dedica-se ainda à escultura, executando uma Paixão de Cristo com 60 figuras, para as Capelas do Buçaco, em terracota, à escala humana. A convite do governo, é nomeado responsável por parte da construção do Pavilhão Português na Exposição Universal de Paris de 1889, em particular da decoração das sa-

las, onde reúne e realça a qualidade dos produtos nacionais, onde sobressaem as peças de faiança das Caldas, que acabam por lhe valer a medalha de ouro. Volta a ser premiado com a medalha de ouro em Madrid na Exposição Colombiana, para a qual realiza, em conjunto com Ramalho Ortigão, a decoração da secção portuguesa. Raphael Bordallo Pinheiro foi um génio do seu tempo. Artista ímpar, empreendedor visionário, crítico mordaz e demolidor da sociedade portuguesa dos finais do Séc. XIX. Morreu prematuramente aos 58 anos, deixando como herança, uma das mais prolíferas produções artísticas nacionais. No som de fundo da loja do Chiado, Amália é substituída pelo impressionante choro vocal de Billie Holliday interpretando “My Man”. A conversa chega ao fim e Nuno acompanha-nos até ao andar de baixo, onde sobressaem os expositores em talha preta que pertenceram à antiga loja de instrumentos musicais “Custódio Cardoso Pereira”. No Largo do Chiado, inundado pela luz do meio dia, o mesmo bulício de sempre. Turistas que saem dos táxis com olhar curioso; uma banda de músicos cabo-verdianos que toca uma morna em frente à estátua de Fernando Pessoa; um garçom impecavelmente fardado d’A Brasileira, que quase derruba a bandeja para evitar uma criança irrequieta; um grupo de jovens gestores de fato e gravata que fumam na entrada de um prédio. Rostos, corpos, figuras. Aquela senhora elegantíssima com um nariz proeminente, o homem bonacheirão sentado despreocupadamente na esplanada. Personagens de um quotidiano a cada dia mais cosmopolita. Acho que o Bordallo ia gostar.

por João Moreira

Fotografias cedidas por Fábrica Bordallo Pinheiro


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O POLIGLOTA Na hora de maior afluência, Tibúrcio cirandava lesto pelo labirinto das mesas e registava todos os timbres que lhe iam gritando dos vários pontos da sala. - Uma bica curta – pedia, estridente, um estudante de Engenharia. - Um expresso em chávena fria – exigia a mulher do fadista. por Fernando Madaíl

- O meu é cheio – advertia, no seu tom de tenor, o bancário nervoso. - Não se esqueça do abatanado – implorava o reformado da esquina, enquanto tremia a acender o cigarro. - Um café sem princípio – solicitava, fanhosa, a dama das narinas esquisitas. - Outro com cheirinho – ordenava o sportinguista fanático. - Um carioca – rogava uma velhinha com a mania dos gatos. - Veja lá a minha italiana – desafiava o major na reserva, que nunca se esquecia da disciplina castrense. - Um pingo – suplicava a viúva de um jornalista. - Um garoto – informava, num fio de voz, a adolescente que não conseguia disfarçar a acne. Chegado ao balcão, Tibúrcio deixava cair a bandeja com estrondo e vociferava para o outro lado, imperativo: - Saem mais nove cimbalinos! Três com leite e um com bagaço. Depois, à laia de desabafo, comentava ao ouvido de Terêncio, um freguês clássico: - O que vale é que até entendemos estrangeiro.

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Ilustração por Mafalda d’Oliveira Martins


As salas de outros tempos Nos dias de hoje não há nada de memorável numa sala de cinema. Aliás, a sala de cinema, enquanto espaço que proporciona uma experiência, de quinhentos ou mil lugares, cosmicamente escura, silenciosa, amniótica, espiritualmente preparada para permitir um modo de viver as imagens, para estimular a evasão, o devaneio, o “sonhar acordado”, acabou. Noutro tempo, as salas de cinemas, eram decoradas com cortinados longos, espessos, pesados, que abriam, majestosamente, no início de cada espetáculo, como que autorizando o acesso do espectador à dimensão onírica do cinema. Assistia-se, justamente, a um espetáculo composto por vários elementos que manipulavam a integridade e a o estado mental do espectador, a sua experiência intelectual dentro e fora da sala.

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Ir ver um filme era um happening que obrigava a algo mais do que estar sentado, em silêncio, com os olhos erguidos para uma tela. Vestia-se um casaco, exigia-se uma gravata; via-se, vivia-se, celebrava-se, pensava-se o filme, não se ia ao cinema; havia espectadores, hoje há um público, essa coletividade que está acima do indivíduo. Seria e. e. cummings, que dizia que aquele que coloca um coletivo acima do indivíduo é um hipócrita, um bajulador? Creio que sim. A grande maioria das salas de cinema de Lisboa (Éden, Condes, Capitólio, Europa, Império, tantas outras) não resistiu à passagem dos anos e foram absorvidas pelos novos hábitos de consumo e de lazer e por novas tecnologias que nos prendem aos filmes on demand, aos Donald Draper’s da vida e ao conforto dos nossos sofás. Restam as salas multiplex, impessoais e com falta de identidade, herméticas, encafuadas em superfícies comerciais de onde sai um público que poderia sair de qualquer uma das outras lojas do centro comercial. O cinema é apenas mais uma das formas de entretenimento que o centro comercial oferece a um público preguiçoso e esquecido do verbo “contemplar”, esse confronto pessoal que permite à alma deambulações do acaso, esse ato maravilhoso de demorar um olhar que escapa da realidade em direção ao que é bonito, bizarro, estranho, ou simplesmente ao nada.

Esta trágica tendência não é exclusivamente portuguesa ou lisboeta. Basta assistir a “Chacun Son Cinéma: une déclaration d’amour au grand écran” (uma antologia de filmes comissionada pela 60ª edição do festival de Cannes) onde vários cineastas encenam pequenas histórias que se desenrolam em salas vazias e abandonadas. Andrei Konchalovsky filma a empregada de uma bilheteira que é a única espectadora do filme em cartaz; Nanni Moretti recorda os filmes que viu filmando várias salas de cinema sem ninguém; Atom Egoyan encena uma conversa telefónica de dois espetadores em salas diferentes. Das salas lisboetas, resta o agora espaço Nimas, que não é uma amostra rigorosa do esplendor desses outros tempos, mas é onde gostava de passar mais tempo do que aquele que a vida me permite. Mas, se verdadeiramente pudesse escolher, escolhia visitar aquele tempo perdido e todas essas salas que foram demolidas ou fecharam para dar lugar a supermercados, bancos, igrejas. Os saudosistas costumam proclamar que as suas épocas foram as melhores de sempre. No que diz respeito ao cinema, não será esse o meu caso.

por Graça Canto Moniz


Viajar descansa, abre horizontes e pinta de azul o mais negro dos céus. Para viajar basta querer. Sair a porta, combater a rotina e estar aberto à surpresa. Apanhar um avião, um comboio, conduzir centenas ou milhares de quilómetros não é para isso condição sine qua non. Podemos viajar na nossa própria cidade. Partir à descoberta é sobretudo uma questão de vontade, não de tempo. Mudar de ares é um estado de espírito e tal como o amor é também uma questão de disponibilidade mental. Há cidades que se conhecem numa mãocheia de dias e que se esquecem logo ao virar da esquina. Lisboa não é assim. Creio que não há ninguém que possa vangloriarse de a conhecer na sua totalidade. Talvez nem uma vida inteira seja suficiente. Porque se reinventa e, tal como as águas do rio, muda da noite para o dia. Apesar do magnetismo que emana, Lisboa não é leviana. Lisboa é amor à primeira vista. Entra directamente para a memória do coração. É recatada, misteriosa e detentora de uma luz que deveria ser considerada Património da Humanidade, pelos tons que dá ao Tejo, pela forma como ilumina as suas colinas e pela maneira como nos aquece a alma.

É nesta cidade que viajo todos os dias e que por ela me deixo fascinar. Andar a pé em Lisboa é um desafio aos sentidos. As caminhadas, por muito rápidas que sejam, relaxam. Há sempre cantos e recantos por explorar, estórias a ouvir, pormenores para observar. Ouvem-se conversas num número sem fim de idiomas, vêem-se pessoas de todas as idades e de todos os cantos do mundo, há sorrisos, choros, saudade. Há vida. Lisboa é uma cidade para apreciar, para conhecer com calma, para nos perdermos sem pressa e nela nos voltarmos a encontrar. Seja vista da torre mais alta do castelo ou do beco mais escuro, é uma terra que quanto mais se conhece, mais se quer amar. É por isso que Lisboa não pode adormecer à sombra de paixões internacionais esporádicas nem da avalanche de turistas que todos os dias a vêm visitar. Lisboa é mais do que isso. Lisboa está muito acima disso. É um verdadeiro spa para a alma, principalmente para os que lhe dão valor, seja ela ou não capa de revista.

por Constança Martins da Cunha

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É difícil escrever sem inspiração – porque as palavras ficam presas, saem rombas, sem melodia, sem paixão – mas pior é viajar sem compreender a essência do local onde se está e sem aproveitar a oportunidade de renovação que uma mudança de ares tão facilmente nos pode proporcionar.

Fotografia por António Conde Falcão

Lisboa, cidade para amar.


O Chão que Lisboa pisa COM MUITAS RARAS EXCEPÇÕES o cidadão de Lisboa não conhece nem a natureza nem a história do chão que pisa e no qual assentam as fundações do prédio onde vive. Que sabe ele da sua história para trás do dia em que o malogrado Martim Moniz ficou entalado entre as portas do Castelo? Sabe, de facto, muito pouco. Mas ainda sabe menos de tudo o que aqui aconteceu antes do primeiro humano ter pisado estas terras, milhares de anos atrás e do que se passou nesta região há milhões de anos.

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Não sabe que o lioz, ou seja, o calcário usado na construção dos Jerónimos, da Torre de Belém, do Palácio da Ajuda, e da maior parte da cantaria e estatuária locais, nasceu num mar muito pouco profundo, de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. Nesse mar raso, há cerca de 95 milhões de anos, populações imensas de moluscos, a que chamamos rudistas, com conchas mais espessas do que as das ostras, cobriram os fundos e, proliferando uns sobre os outros, edificaram, camada após camada, os estratos de calcário que ainda podemos ver, por exemplo, na Avenida Calouste Gulbenkian, sob o aqueduto das Águas Livres, ou na base do bairro dos Sete Moínhos, à entrada de Lisboa pela ponte Duarte Pacheco. Mas voltemos ao chão de Lisboa, dizendo que os seus habitantes também não sabem que a maior parte da pedra negra das velhas calçadas da cidade é basalto, ou seja, lava consolidada de vulcões que aqui estiveram em grande actividade há uns 70 milhões de anos. Ignoram que no tempo imenso que se seguiu a este mar de fogo e cinzas, toda esta região evoluiu num ambiente continental marcado pela secura do clima, propício a grandes enxurradas, como as que ainda se podem observar na Calçada de Carriche, nas camadas sedimentares repletas de calhaus arredondados (cuja idade remonta aos 40 milhões de anos) e à deposição de calcários lacustres como os de Alfornelos e da Brandoa. Não se dão conta que o mar aqui regressou

depois, há cerca de 23 milhões de anos, e que aqui se gerou, de novo, um ambiente construtor de calcário, mas, desta vez, por um grupo de minúsculos invertebrados coloniais – os briozoários – à semelhança dos recifes de coral. Por último, não lhes ocorre que as diversas fábricas de cerâmica, hoje desactivadas ou demolidas, que aqui moldaram o barro extraído dos próprios locais, só existiram porque esse mar recuou e passou a haver nesta região, há pouco mais de uma dezena de milhões de anos, intensa deposição de sedimentos argilosos acumulados numa paisagem aplanada, vestibular de um grande rio, povoada por mastodontes (grandes herbívoros ancestrais dos elefantes), grandes crocodilos e muitos outros animais entretanto extintos, cujas ossadas desenterradas dos respectivos sedimentos são objecto de estudo dos paleontólogos. Páginas desta história, milagrosamente conservadas na densa malha urbana, são visíveis em alguns raros afloramentos rochosos nas ruas da capital. Porque escaparam ao camartelo ou porque não foram encobertos pelo betão ou pelo asfalto, são testemunhos valiosos que aqui nos ficaram desses tempos antigos. À semelhança de um qualquer património construído, aceite como um monumento, também certas ocorrências geológicas devem ser entendidas como tal e, assim, merecer-nos a atenção e o cuidado de os legarmos aos vindouros como documentos de um património natural que a civilização, o progresso e, também, a ignorância foram destruindo ou soterrando. Após alguns anos de estagnação posteriores à presidência, na Autarquia, de João Soares e à devotada acção do vereador Rui Godinho na defesa e valorização dos geomonumentos de Lisboa, consta-me que a actual vereação vai retomar esse trabalho. Bem-haja por isso!

por Galopim de Carvalho


Uma (má) evolução na continuidade (I) Sendo das poucas Capitais Europeias que escapou aos horrores e destruição das duas Guerras Mundiais, Lisboa, a cidade reconstruída, e depois construída, a partir de 1755, e a que então sobrevivera, como o núcleo primitivo, do Castelo, Alfama e Mouraria, o das Mercês e Boavista ou a Colina de Santana, chegou aos meados do Século XX praticamente incólume. Beneficiando de uma inédita, e até hoje única, concentração dos Poderes das Obras Públicas com os do Município, o Super-Ministro, neste caso o Super Presidente da Câmara, Duarte Pacheco, executa então a terceira fase do Plano expansionista da Cidade, que Pombal iniciara e Ressano Garcia, cem anos depois, prosseguira. As Quintas do Areeiro, de Alvalade e do Restelo são então exemplarmente urbanizadas, ao mesmo tempo que, também fruto de uma Política de Expropriação “ao preço da chuva”, é criado o grande Pulmão Verde de Monsanto, porventura o seu maior Legado à Capital. Mas para o Mundo de então não bastava “Fazer Novo”, a Monumentalidade estava na ordem do dia, com o Castelo de São Jorge a simbolizar para Lisboa a vasta campanha nacional de restauro, e a “desarrumação” urbanística do edificado mais remoto constituía por vezes um empecilho. Houve intervenções por todo o lado, como em Guimaraes , Vila Viçosa ou Lagos e várias vezes as consequências foram nefastas, constituindo a destruição da Alta de Coimbra o desenlace mais dramático ! Em Lisboa, o azar recaiu sobre a Baixa Mouraria, Bairro Medieval onde o emaranhado de pequenas Ruas e Travessas convivia com algumas Igrejas e Palácios de nomeada e com a única Porta da Cerca Fernandina que conseguirá sobreviver. Mas um remate digno da grande Avenida coroada pela nova “Praça Imperial” de Lisboa, o Areeiro, constituía um Imperativo Nacional e a cidade sofre então o primeiro grande Atentado Urbanístico em larga escala : o Martim Moniz! Mas a destruição não ficava por aqui e previa-se também a ligação directa dos dois eixos viários principais por alturas do Rossio. O tremendo impacto dai decorrente foi, porventura, a razão pela qual a ideia não saiu do papel. Mas muito mais não chegou, felizmente, a sair do papel! Se em finais de XIX, Julio de Castilho ao publicar a sua “Lisboa Antiga”, e com ela fundar a Olisopografia moderna, conseguirá salvar o Bairro Alto, que ia ser cortado ao meio por uma larga Alameda feita a partir da demolição de todos os quarteirões nascentes da Rua da Rosa, era agora a vez dos seus dilectos Discí-

pulos meterem mãos à obra e, ao constituírem o Grupo dos Amigos de Lisboa, conseguirem, por sua vez, salvar Alfama de ser retalhada “a régua e esquadro” ! Não era tudo! Frente ao Parlamento, a Boavista e parte das Mercês dariam lugar a uma imponente Alameda até ao Tejo. Mais acima, o sacrifício do Jardim da Estrela não era suficiente para impedir a ligação da Avenida Alvares Cabral com a nova Avenida Infante Santo. Sítio de excepção, em São Pedro de Alcântara a “garganta” viária junto a São Roque tinha que ser corrigida, e a Igreja... Na Rua de São Bento, algumas “feridas” na sua frente nascente testemunham o Plano, timidamente iniciado, da sua demolição para alargamento da via. O terceiro quartel do século XX, de Salvação Barreto, França Borges e Santos e Castro, ficou marcado por uma enorme pressão sobre o edificado Lisboeta, fruto do incremento econômico e aumento demográfico então ocorrido, com a consequente perca de uma significativa parcela da arquitectura civil de Lisboa, por vezes erudita. Consciente disso, a CML que, numa atitude invulgar, suspenderá durante seis meses as obras de construção da linha do Metropolitano no Rossio a fim de se proceder ao levantamento e recolha do espólio do Hospital de Todos os Santos sob a Praça da Figueira, leva a prática uma política de aquisição de centenas de imóveis com interesse histórico-artístico, ficando detentora de um notável conjunto de Palácios e Casas Nobres, incluindo alguns exemplares cimeiros do Patrimônio Solarengo Português, como os Palácios da Mitra, Távora-Galveias, Tancos ou Galvão Mexia. Mas era ainda muito cedo para a “Arquitectura 1900” ser devidamente apreciada, e protegida, e, num ápice, assiste-se à brutal descaracterização das Avenidas da República e Fontes Pereira de Melo, onde requintadas casas, jardins e prédios Românticos, Arte Nova e Arte Deco, são, à semelhança dos da Rotunda, demolidos. A urbanização dos vastos campos dos Olivais, já sob a cartilha da Carta de Atenas, correspondeu à quarta fase da expansão ordenada da cidade, que não chegou no entanto a Benfica e ao Lumiar, onde, lote a lote, as aprazíveis Quintas deram lugar a um urbanismo caótico. Entretanto, ao fundo da Avenida, a construção de um grande prédio “moderno” entre os Restauradores e o Rossio, enquanto era alvo de enorme polemica, revelava o recurso a um “truque” hoje frequente, a escolha de um Arquitecto consagrado... (continua)

por Pedro Mascarenhas Cassiano Neves

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RETRATOS DO PATRIMÓNIO


Bica Um Bairro genuíno no coração de Lisboa A antropologia caracteriza-se pelo estudo do homem no seu contexto social e dos diferentes grupos étnicos e sociais que encontramos no nosso mundo. Com o passar dos anos os focos foram-se alargando e surgiram novos conceitos e novos olhares que nos ajudam a compreender diferentes relações interpessoais. Surge então um ramo na disciplina: Antropologia Urbana. Ul Hannerz, na sua Exploração da cidade (1986: 15, 277-288), enfatiza que a Antropologia Urbana não deve dedicarse ao estudo de aldeias ou comunidades urbanas, mas a espaços especializados e extensivos no contexto de uma cidade plurifuncional” (Homobono, 2000: 18) e foi precisamente isso a que me dediquei no estudo do Bairro da Bica, no coração da cidade de Lisboa.

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Tentei observar as formas e graus de inter-relação existentes, divididos em residência, parentesco, lazer e relações de vizinhança percebendo assim qual a particularidade deste bairro face à vida numa grande cidade, onde nos cruzamos com inúmeros estranhos diariamente e onde a realidade de cada pessoa que não seja do nosso círculo de relações nos é totalmente desconhecida. Comecei por passear pelo bairro e fazer um reconhecimento do terreno, compreender os seus cantos e que ruas envolvem o coração da Bica. Dei-me conta daquilo a que a antropóloga Graça Índias Cordeiro chama de “imediatamente visível” e que nos chama logo a atenção: as escadinhas e o largo grande. O meu conhecimentoda Bica resumia-se às incursões ao

bairro durante aos santos populares e aos jantares de grupo na Dona Rosa, mas o pretendido neste estudo era que visse para além do casual, que olhasse para o bairro de forma a que cada pessoa e cada rua fossem importantes e me respondessem à pergunta “quem é este “microespaço” lisboeta”? Os níveis de comunicação que encontramos no bairro variam de local para vizinhança, depois para redes de amizade e, por fim, para redes de parentesco. Assim, percebidas estas dinâmicas, foi preciso participar na vida do bairro – de longe - de forma a começar a aperceber-me como é que a rotina e a dinâmica entre os habitantes se dá na Bica. Ao longo dos passeios fui-me cruzando com vários residentes que me foram contanto histórias passadas da sua vida ali e como a construíram em função da maneira de se viver neste bairro tao coeso. Apercebo-me que existe uma diferença clara entre passado e presente, onde o passado é sempre melhor. Muitos idosos consideram que as pessoas que agora vivem no bairro já não são mesmo de lá, pois os naturais ou já morreram, ou migraram. No entanto, os mais novos assumem-se como uma nova geração dinamizadora, que está pronta a espelhar as características do local onde vivem para o resto da cidade. A alegria que se vive no mês de Junho e a simpatia e carinho que recebemos quando vamos para as noites de santos populares revela a união vivida entre todos, bem como


a marca enorme e o peso que são as festas de Lisboa na dinâmica do bairro. Os seus habitantes trabalham na sua ornamentação e arraiais durante todo o ano. Esse é um dos principais factores de coesão da Bica. Existe, sem dúvida, um trabalho comum entre jovens e mais velhos de que nos damos conta todos os anos pela tradição mantida na forma de decorar as ruas, aliada a uma inovação notória nas festas, no que diz respeito aos artistas, bem como às músicas que tocam. Se na decoração é a história da Bica que está presente, na música a mão dos mais novos é notória. Apesar de toda esta dinâmica e empenho, pude verificar que a Bica é um bairro pobre, cujo coração gira em torno das escadinhas e dos seus espaços de convívio – sobretudo cafés - que sobrevivem, na sua maioria, à custa de clientes regulares. No entanto existem espaços que atraem clientela de outras zonas da cidade, e hoje, com a grande afluência turística em Lisboa e com a procura dos lugares “autênticos”, “vintage”, “tradicionais” e “intocados pela passagem da modernização”, o bairro tem vindo a ser alvo de várias visitas por parte de estrangeiros, que descobrem ali um diferente modo de estar no dia-a-dia na cidade. O meu interesse pela Bica, para além do seu espaço físico, com uma fortíssima raíz popular e genuinamente lisboeta, das suas casas antigas e do seu pulsar de vida, resultou de um texto da antropóloga Graça Índias Ribeiro, que me permitiu olhar para o bairro de forma diferente, com o obejctivo de descobrir o coração da Bica.

passam e como tal a vida vai sendo vivida, na ajuda uns dos outros, nos risos das crianças que sobem e descem as escadinhas ou a rua do elevador, nos cafés com os seus clientes habituais, com as suas Associações desportivas, com os inúmeros turistas que fotografam o bairro em todos os seus recantos, mas que passam sem parar. E esquecemo-nos que quando chegamos às ruas superiores estamos na confusão da Calçada do Combro ou lá em baixo no Cais do Sodré, onde a agitação da cidade de Lisboa não tem limites à noite. É sem dúvida um bairro com uma personalidade vincada, que não me parece que vá perder a sua essência com o passar dos anos e com as mudanças que se vão vivendo em Lisboa com a turistificação. Um bairro que sabe quem é e se quer manter assim, acompanhando os tempos, mas sem perder aquilo que o caracteriza: a amizade entre todos os que lá habitam e a sua rotina genuina de vida. (Texto baseado em estudo realizado com Matilde Branco)

por Mariana Pereira Coutinho

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E que bom foi ver as portas das ruas abertas para os vizinhos; mas por outro lado perceber que o espaço privado das suas casas assim o é. Existem códigos de honra e limites que todos conhecem e não ultra-


LISBOA VERDE NECESSIDADES, UM JARDIM ESQUECIDO. Os jardins das Necessidades, também conhecidos por Tapada das Necessidades, são daqueles recantos lisboetas pouco conhecidos, que escapam às rotas costumeiras dos locais e ainda não foram descobertos pelos turistas que hoje inundam a cidade, ocupando 10 hectares discretamente recolhidos pelos muros que o cercam e pelo fronteiro Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE).

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A grande obra das Necessidades foi mandada erguer por D. João V em honra de Nossa Senhora das Necessidades, consistindo – a exemplo de Mafra, mas em menor escala e imponência – num conjunto ao estilo barroco, de um palácio para o Rei, uma igreja, um convento para uma congregação religiosa - neste caso os Oratorianos -, uma cerca conventual para os frades e uma praça barroca fronteira ao palácio, neste caso aberta ao Tejo.

A cerca foi desenhada numa perspectiva de produção para o convento, sem no entanto descurar as preocupações estéticas necessárias a um local tão nobre. O desenho seguia o estilo barroco, com uma rede de caminhos em que a linha recta se impunha, formando grandes alamedas que dividiam os diferentes tipos de produção. Junto aos edifícios - palácio e convento - situavam-se espaços de traçado mais elaborado, formando dois patamares ao estilo italiano: o palaciano Jardim de Buxo e a Horta dos Frades, espaços hoje pertencentes ao MNE e fora do acesso público. D. João V nunca chegou a habitar no palácio e, depois de curtas permanências de membros da família real ou convidados, é com D. Maria II que o palácio retoma a sua real função – nomeadamente após o casamento da rainha com D. Fernando II – e que o jardim irá sofrer grandes mudanças que em muito alterarão a sua forma e função, transformando a cerca conventual de produção num jardim real para usofruto da família real. D. Fernando II foi o grande impulsionador das ideias românticas em Portugal e essas ideias eram incompatíveis com a cerca desenhada a régua e esquadro, como que demonstrando o poder do homem sobre a natureza. À luz das novas ideias, a natureza era um ideal a respeitar, seguir e copiar, nascendo aqui aquele que terá sido o primeiro jardim ao estilo paisagista em Portugal, seguindo uma corrente que teve a sua origem em Inglaterra.


Lisboa Verde | NECESSIDADES UM JARDIM ESQUECIDO Começando a sul, os jardins serão tomados por formas orgânicas, curvas e onduladas, buscando um ideal natural povoado de plantas exóticas com as mais diversas proveniências, bem como de uma rica colecção de pássaros e outros animais, tais como cangurus, que integravam um pequeno jardim zoológico. Vai ser neste “novo” jardim que os reis educarão os príncipes - entre os quais os futuros reis D. Pedro V e D. Luís -, em estreito contacto com a natureza. As ideias liberais vão ter nas Necessidades uma das suas primeiras expressões artísticas em Portugal, permitindo contar a história do país até final da monarquia a partir da história deste jardim. D. Carlos viveu aqui e foi daqui que D. Manuel fugiu para o exílio após o palácio ser bombardeado desde o Tejo por forças republicanas. Este é um jardim feito de história, mas interessa perceber o que chegou até aos nossos dias e pode ser visitado, pelo que proponho uma visita aos jardins das Necessidades.

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A entrada principal, à esquerda da igreja, faz-se pelo jardim inglês, com os seus caminhos ondulados e lagos naturalizados onde preguiçosos patos flutuam. Aqui se encontraria no século XIX uma rica e diversa colecção de plantas que não sobreviveu ao correr do tempo. O espírito do lugar permanece ainda assim nas formas orgânicas, acentuado pelas marcas dos anos. À direita vislumbra-se uma elegante escadaria dupla com um nicho, por onde se acede ao Jardim de Buxo, hoje vedado ao público, mas que se pode espreitar por entre as grades do portão. No topo do jardim inglês encontrase um clareira formada por um grande relvado, hoje o espaço mais utilizado do jardim, ocupado pontualmente por festivais de música ou por grupos em pic-nic solarengo. O relvado é emoldurado lateralmente por quatro fontes (duas bacias e dois leões) e encimado por um cenográfico muro cor-de-rosa ladeado por uma belíssima estufa circular, com uma elegante cúpula em vidro, e por uma casa de fresco, estranha construção que se destinaria a aclimatar plantas de climas frios, em contraponto com a estufa para plantas tropicais. O topo deste muro forma um belo belvedere, do qual se vislumbra, por entre a vegetação, o Tejo ao fundo. Neste patamar encontra-se uma zona gradeada com pequenos torreões, hoje abandonada, onde estaria o pequeno jardim zoológico real, com seus peculiares animais.


Lisboa Verde | NECESSIDADES UM JARDIM ESQUECIDO

Subindo mais um pouco encontramos um grande lago circular, construção original do século XVIII, de onde saíam os caminhos rectos em forma de estrela da vetusta cerca conventual, coração do jardim barroco. No lugar onde se situava um observatório foi construído por D. Carlos o denominado Atelier da Rainha, construção em ferro e vidro bem típica dos finais do dezanove. Ao lado, a segunda clareira deste jardim densamente arborizado, uma cateira, de onde se adivinha a esplêndida vista que se teria ao longo do jardim, caso ao mesmo fosse feita uma sábia limpeza de vegetação. Por aqui o visitante sentir-se-á dono deste espaço, tão poucas serão as pessoas que irá encontrar. Vencidos pelo declive ou desencorajados com o “ar” cada vez mais “selvagem” do jardim, poucos subirão até à zona mais alta do jardim, antigamente terras de semeadura, onde se encontra a estrutura mais antiga do jardim, um moinho anterior à obra das Necessidade e até ao terramoto, pois foi nesta zona que alguns nobres recolheram após esse desastre que devastou Lisboa. Esta é uma visita abreviada, pois este jardim esconde outras surpresas que compensarão quem se aventure por entre os seus tranquilos caminhos, descobrindo assim um tesouro escondido desta cidade, que mereceria estar mais bem tratado e ser reconhecido como um dos maiores – e potencialmente mais bonitos – jardins de Lisboa.

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Texto e fotografias por João Albuquerque Carreiras


Árvores de Lisboa

Originária da Argentina e do Brasil, esta árvore caduca, da família das Malvaceae, pode atingir até 30 metros de altura. O género Ceiba foi anteriormente denominado de Chorisia. Esta designação foi atribuída pelo naturalista Auguste de Saint-Hilaire, que viveu no Brasil de 1816 a 1822, em homenagem ao francês Louis Choris, o pintor oficial da primeira expedição científica russa. O termo speciosa significa bela, formosa e refere-se à sua exuberante floração. A ceiba speciosa caracteriza-se pela sua copa ampla e regular e pelas suas flores grandes e muito vistosas com cinco pétalas de cor rosa, branca a amarelada. A sua floração ocorre de setembro a outubro, quando está ainda praticamente desprovida de folhas. É, por isso, também apelidada de árvore da memória, uma vez que floresce na época correspondente à Primavera do local de onde é originária. Apresenta um tronco cilíndrico e volumoso, com ritidoma rugoso e aculeado (provido de espinhos) enquanto jovem. A partir dos vinte anos de idade, aproximadamente, os

espinhos costumam começar a cair na parte baixa do caule e, gradualmente, com o engrossamento da casca, acontece o mesmo nas partes mais altas da árvore, É cultivada nas regiões tropicais, devido ao valor das suas sementes, cujas fibras brancas e sedosas são usadas para estofar colchões e almofadas e o seu óleo para fins alimentares. É muito utilizada como planta ornamental em parques, jardins e como árvore de arruamento. Em Lisboa podemos encontrar exemplares da ceiba speciosa em diversos locais e jardins, como por exemplo: Parque Eduardo VII, Jardim Botânico da Ajuda, Jardim Botânico Tropical, Jardim Botânico de Lisboa, Jardim do Palácio de São Bento e no Largo das Necessidades (Figura 1) . Na Praça da Alegria e no Jardim do Príncipe Real localizam-se exemplares que se encontram classificados pelo Instituto de Conservação da Conservação da Natureza e das Florestas. Texto e fotografia por Ana Luísa Soares Ana Raquel Cunha

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Ceiba speciosa (A.St.-Hil.) Ravenna (paineira) Familia: Malvaceae


Eureka – Boas Ideias

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Rewind Cities

Durante os anos em que foi professora de História e História da Arte. Cristina Kirkby organizou dezenas de visitas de estudo com os seus alunos e sentiu sempre uma enorme dificuldade em atrair a sua atenção. “Era preciso contar uma história, fazê-los imaginar como seriam aqueles locais no momento de cada acontecimento histórico. Além do mais, não existia informação. O património histórico da cidade não estava referenciado. Então, lembrei-me de desenvolver um projecto que se chamava Legendar Lisboa e apresentei-o à Câmara. Foi aceite e ainda começou a ser implementado, mas só nos monumentos principais, depois parou.” Motivos profissionais adormeceram a ideia durante anos deixando Lisboa por legendar, até que, ao recuperar o projecto, Cristina percebeu que o tempo era outro e que as novas tecnologias permitiam uma experiência muito mais interativa e estimulante: um verdadeiro regresso ao passado, vivido em tempo real. É aqui que entra o seu filho James que depois de ter participado de uma feira de novas tecnologias, se lembrou de “desenvolver uma aplicação para telemóveis e tablets usando a tecnologia da realidade aumentada, o que permitia que as pessoas não só tivessem acesso a toda a informação histórica, imagens, etc, como realizassem uma verdadeira viagem ao passado. Daí o conceito de uma máquina do tempo de bolso. As pessoas usando o seu telemóvel ou tablet, apontam para um determinado local e conseguem ver como era há 300, 500 anos atrás.” Assim nasceu a Rewind Cities, uma aplicação desenvolvida em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, a Samsung e com os transportes de Lisboa, Metro e Carris, com 32 pontos de

interesse da cidade referenciados e permitindo ao utilizador 3 diferentes níveis de experiências: • Forgoten Cities, transversal a todos os pontos de interesse e que mostra a evolução de cada um deles ao longo dos séculos através de pinturas, gravuras e fotografias colocadas sobre uma barra cronológica que permite fazer um rewind do local ao longo dos tempos. • Time Machine, já utiliza realidade aumentada e é uma sobreposição de uma imagem antiga sobre a realidade que as pessoas estão a ver na câmara do seu telemóvel ou tablet. A utilização é muito simples, basta apontar o aparelho para um determinado ponto de interesse, como se fossem tirar uma fotografia e, utilizando o aplicativo, aparecerá uma imagem sobreposta de como era esse local, em determinada época. • Total Recall que utiliza a tecnologia de animação em 3D ou um filme de época com actores, recria um determinado acontecimento ou personagem histórico. Neste momento, o aplicativo tem disponível uma experiência de Total Recall com animação 3D, que decorre no Terreiro do Paço e tem como personagem o Marquês de Pombal, que sai da base da estátua equestre de D. José, para conversar com os visitantes. Num país como Portugal, com mais de 900 anos de história, a Rewind Cities é uma ideia genial. Imaginem percorrer o país, olhando não só o seu presente, mas o seu passado. A Rewind Cities ao permitir percorrer o nosso passado de uma forma rápida e divertida, torna-se um instrumento didáctico fundamental para as novas gerações e uma forma diferente de dar a conhecer a quem nos visita, a dimensão histórica do nosso país. por Revista Bica


A alma (da cidade), viva sempre, é o seu passado, com os quadros dramáticos e pitorescos da sua história antiga e contemporânea, com a sua rebeldia, a sua alucinação, a sua generosidade, a sua poesia… In “Peregrinações em Lisboa”, Norberto Araújo, 194 0

Agora imaginem que podiam viajar ao passado e ver as coisas tal como elas eram., conhecer a “alma da cidade”, sem ter que fazer um grande esforço de imaginação. Isso já é possível com a Rewind Cities, uma verdadeira máquina do tempo de bolso. A Rewind Cities Lisbon através de experiências de realidade aumentada e realidade virtual, leva-o numa viagem fantástica e mágica ao passado de Lisboa Viajar no tempo passou a ser fácil. “O tempo é uma ilusão“ Albert Einstein

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Baixe aqui o seu aplicativo


Alface fora d´água Por vezes queremos mesmo é o desconhecido

Cresci em São Mamede, esse bairro maravilhoso entre o largo do Rato e o Príncipe Real, tão central e perto de tudo o que me interessava, mas afastado da confusão e do barulho, pelo que podíamos brincar na rua.

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Mais tarde, vivi vários anos na Lapa. Foi naquele bairro bonito, seguro, arejado e com boas escolas, que nasceu a minha filha. Também vivi em Campo de Ourique, uns anos antes de se tornar o sucesso que é hoje, mas já com todas as condições para uma pessoa quase se esquecer de que há outros sítios na cidade. O Chiado foi o mais divertido. Como vivíamos na Rua do Loreto, sair à rua era como se estivéssemos num hotel central de outra qualquer capital europeia. Acontecia sair da mercearia com os sacos de compras, encontrar amigos que me desafiavam para um programa, voltar rápido a casa para largar os ingredientes para o nosso jantar, e sair novamente porta fora, rumo a programas inesperados. São quase sempre os melhores! Mas estacionar era impossível! Assim, rezei por uma casa com lugar à porta, e, fruto desse pedido, fui parar a Alvalade. Um bairro extraordinário, muito bem ordenado,

com jardins e muitas crianças, onde fomos muito felizes até resolvermos começar a viajar por uma grande temporada. Provavelmente não nos restavam muitos mais sítios em Lisboa para viajarmos de casa em casa, pelo que foi com muito amor por esta cidade maravilhosa, mas sem olhar para trás, que encaixotámos as nossas coisas e nos mudámos para Bali. Quando começámos a conhecer a ilha e a procurar casa começaram as comparações. Instintivamente estávamos à procura do ‘nosso’ bairro ideal para viver. Com os restaurantes, tasquinhas e outros espaços ideais para almoçar, fazer compras, sair com amigos e passear. Não eram bem saudades. Era mais uma tentativa de alinhar a nossa situação actual com a experiência de sabermos onde nos sentimos bem. No início fazíamos isso o tempo todo e até chamávamos os bairros de Bali pelos nomes dos Bairros de Lisboa. Agora, à distância, tenho até vergonha, porque só com muito boa vontade é que se estabelecem comparações entre duas realidades tão distintas. Passou um ano e voltámos a Lisboa. Voltámos não é bem o termo certo, temos estado em Lisboa e saído muito para todos os lados. Aterrar tem sido difícil. Mantenho a minha convicção de que Portugal é o melhor país do mundo para se viver. Mas o que nos moveu – a mim e à minha filha foi, acima de tudo, um enorme desejo de aventura. E quando se começa a viver do improviso e sem quase planos nenhuns, parar torna-se um grande desafio. Como disse, no inicio começámos por procurar semelhanças. Mesmo na alimentação pagávamos caro para comermos como em Portugal. Os vinhos têm preços proibitivos em toda a Ásia e não se encontram vinhos portugueses. Alguns italianos, alguns franceses mas a maior parte são australianos.


Fora isso, estávamos demasiado entusiasmadas com a nossa viagem, de modo que só tínhamos saudades do que ainda não conhecíamos. Até que um dia em conversa percebemos que, do nosso país, o que mais nos fazia falta era a comida. Aos poucos, sem nos apercebermos, ajustámos a alimentação e quase nos tornámos vegetarianas. Os locais passaram a ter identidade própria e deixámos de procurar semelhanças. Lentamente quase nos esquecemos de Lisboa. Mas chegou o dia de voltar para casa. Deixei Bali com um rio de lágrimas a escorrer pela cara abaixo. Até com estranhos que me cumprimentavam eu chorava copiosamente. Eles, quase sempre tão gentis, apertavam-me as mãos e diziam-me que tinha de voltar. No avião de regresso recomeçámos a pensar no que iriamos encontrar e nas pessoas que iriamos rever e a emoção da alegria sobrepôs-se à tristeza. Só que nós estávamos a voltar para casa sem termos nenhuma, e a leveza de não ter alicerces é um sentimento estranho de gerir. Tornamo-nos ir-

requietas e, com a casa ainda em caixotes, viajar torna-se a coisa mais óbvia de fazer a seguir, e a seguir outra vez e sempre. Agora estou em Marrocos, pela segunda vez desde Junho, e percebo que os rituais que mantive para me manter perto das minhas raízes em Portugal estão cada vez mais difusos e foram perdendo importância. No início lia diariamente os jornais portugueses e ainda me preocupava com tudo. Com oito horas de diferença horária, contava as horas que faltavam para os meus amigos acordarem. Não era que lhes fosse falar, mas sentia-me mais tranquila por saber que estávamos todos acordados ao mesmo tempo e que me podiam responder se precisasse. No meu país houve grandes mudanças e são poucos os amigos que não mudaram radicalmente de vida, de cidade, de país. Neste ano que passou, os meus amigos e família espalharam-se por tantas partes do mundo que só há uma maneira de nos mantermos próximos que é mantendo-nos em movimento. Amanhã estou de volta a Lisboa e vou saborear a liberdade quase única que vivemos, correndo no percurso junto ao Tejo, entre Santos e Belém. Passarei umas semanas a aproveitar o melhor país do mundo, mas depois há outras viagens que já estão marcadas. É que nem sempre queremos o melhor. Por vezes precisamos mesmo é do desconhecido.

Texto e fotografias por Marta Gonzaga

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Os queijos são caríssimos. E a carne, à excepção da galinha que consumíamos local, só comprávamos a que vinha da Austrália. Da produção local comprávamos os legumes e as frutas exóticas. Viciámo-nos em água de coco e de dois em dois dias entregavam-nos em casa seis cocos frescos. As pessoas que amamos mantiveram-se perto com emails, mensagens, chamadas e um postal. Foi com euforia e muita emoção que recebemos um postal da minha amiga Mariana, na altura em viagem pelo Butão. Nessas pequenas demonstrações percebíamos o quanto esses contactos nos faziam falta. E a minha filha aprendeu que podemos aguentar muitas privações se as pessoas que amamos se mantiverem firmes nos lugares que ocupam.


Um estrangeiro na cidade...

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Embaixadora de Israel em Portugal

Turismo, fado e futebol são alguns dos temas que a Bica teve oportunidade de discutir com a embaixadora, Tzipora Rimon que, pela segunda vez na sua carreira, representa Israel em Portugal.

Há já alguns anos que temos acompanhado esse fenómeno. Por exemplo, o ano passado 100.000 turistas vieram de Israel, por comparação com o ano 2005 em que apenas 5.000 israelitas visitaram Portugal.

Durante este verão seis voos semanais ligavam Lisboa a Israel e um voo por semana fazia a ligação Porto-Israel. Com o turismo a crescer tanto em Portugal, parece-lhe que, Israel está a descobrir Portugal?

Quais são os destinos escolhidos para visitar? Os turistas israelitas não visitam só Lisboa. Vão ao Porto, Belmonte, Guarda, Trancoso, Madeira, Açores. O Algarve é, naturalmente, o destino menos escolhido, porque


Um estrangeiro na cidade

E o contrário: turismo de portugueses em Israel? É mais reduzido, são cerca de 10.000 portugueses a visitar Israel, todos os anos, mas a embaixada tem trabalhado muito para dinamizar não só o turismo mas sobretudo as relações económicas e culturais entre os dois países. No final dos anos 80 esteve em Portugal como embaixadora e voltou em 2013. Encontrou um país muito diferente? Sim. Sobretudo por causa da entrada na União Europeia que permitiu ao país uma melhoria das infraestruturas e a modernização em muitas áreas. A lista de grandes mulheres judias na Historia é infindável. Desta perspetiva, do papel da mulher na sociedade, notou muitas diferenças desde essa época aos dias de hoje? Sem dúvida. Agora, mais do que no passado, lido diretamente com mulheres, sobretudo no mundo da economia. Quando regressei, em 2013, encontrei uma sociedade mais preocupada com o papel da mulher. Fizemos há pouco tempo uma competição de “startupistas”, e foi escolhida uma start up liderada por uma mulher que vai a Israel com uma delegação. Este é um assunto que também faz parte da nossa agenda. Em 2014, a RTP1, numa reportagem sobre as eleições europeias, perguntou a uma professora grega e a um empresário alemão o que achavam de Portugal e dos Portugueses. A professora falava de um país triste de gente tolerante; e o empresário alemão afirmou que gostava de ver um Portugal mais pro ativo. Concorda com estas opiniões? Os portugueses têm elementos dessas duas visões. Encontro pessoas de todo o tipo. Mas acho que os portugueses são alegres, muito abertos, querem conhecer os outros e são muito curiosos. Não há uma atitude distanciamento. No que diz respeito à pro atividade, noto uma diferença grande desde que cheguei, em 2013, quando o país estava mais preocupado com a crise.

Hoje ouço muito a palavra “internacionalização”. Nos últimos anos a cozinha asiática – e o sushi é disso um bom exemplo - entrou na alimentação diária de muitos portugueses. A cozinha Israelita ainda não. Haverá alguma razão? São gastronomias assim tão diferentes? A comida israelita é representativa dos vários movimentos migratórios que estão presentes na sociedade israelita. A nossa gastronomia é muito rica e reflete a nossa diversidade de culturas e de tradições. Dentro das várias influências, por exemplo, há alguns pratos importados dos países de leste, totalmente diferentes da dieta mediterrânica. Nos últimos anos, tem havido alguma adaptação e temos alguns chefs conhecidos que dão um toque particular e que permitem dizer que há, hoje em dia, uma cozinha israelita. Lisboa não tem as tripas à moda do porto ou migas alentejanas, mas como já não é a primeira vez que representa Israel em Portugal, imagino que já tem um prato português preferido... Gosto de tudo. Mas Portugal tem uma riqueza de peixe incomparável. Mas também gosto de outros pratos de frango e de borrego. Estando em Portugal e em Lisboa desde 2013, já conhece bem a cidade? Tem algum monumento preferido? Ou algum recanto da cidade que mais goste? Eu gosto muito de Lisboa e faço muitas caminhadas. Até já tenho percursos meus, que percorro quando faço de guia para visitas: passo por miradouros e por alguns monumentos da cidade. Leio jornais e informome sobre o que é novo, sobre exposições e espetáculos. Fui assistir ao concerto da Marisa Monte com a Carminho e gostei muito. Conhece bem o Porto? Costuma-se dizer que Lisboa tem mais luz que o Porto, concorda? O Porto tem um charme próprio, mas a luz de Lisboa fascina-me porque é muito parecida com a luz de Jerusalém. A forma como o sol bate nas pedras, por exemplo. Jerusalém tem uma luz muito especial, não é igual à de Telavive. Fui ver a exposição sobre a luz de Lisboa e percebi que não fui eu que

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a água da praia em Israel é bastante mais quente. Os turistas de Israel apreciam a gastronomia e o vinho portugueses e ficam entre uma semana a dez dias.


Um estrangeiro na cidade descobri esse encanto na luz de Lisboa: há literatura, há filmes e até pinturas dedicadas ao tema. Portugal é o país mais mediterrânico possível: árvores, cheiros, luz, céu, tudo. Tive esta sensação quando cheguei cá pela primeira vez, há 30 anos atrás, vinda da Dinamarca. Gosta de fado? Conhece uma música, cantada pela Ana Moura e pelo cantor Israelita Idan Raichel, chamada “Sabe Deus”? É um fado muito bonito em que Ana Moura canta em Hebraico. Gosto de todo o tipo de música e de fado também. Conheço e até posso cantar [risos]. Procuro sempre conhecer bem a música popular do país onde estou. Conheci a Ana Moura e tive oportunidade de lhe dizer que adorei. A Ana Moura é muito conhecida em Israel. Como a Marisa, o António Zambujo, o Pedro Abrunhosa. Lê em Português? Tem algum escritor português preferido? Sim, e já conheci alguns. A Lídia Jorge visitou Israel e participou na feira do livro. Recentemente conheci José Luís Peixoto, António Lobo Antunes, Miguel Sousa Tavares, Henrique Raposo, Richard Zimmler, e outros. A semana passada, no dia 02 de setembro, na fase de apuramento para o Euro 2017, a seleção portuguesa de Sub 21 jogou contra Israel e empataram. Viu o jogo? Gosto muito de futebol. Não vi o jogo todo, só parte. Assisti ao último Mundial de futebol e vejo alguns jogos, como o do Futebol Clube do Porto com o Maccabi Tel Aviv. Aproximam-se datas importantes do calendário judeu: o novo ano (no próximo dia 2 de Outubro anuncia-se o ano 5768) e o Yom Kippur (11 e 12 de outubro). Festeja-as em Portugal?

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Usamos mais o calendário gregoriano por razões de trabalho. Mas sim, comemoro sempre essas datas com as comunidades judaicas. Este ano vou ao Porto.

por Graça Canto Moniz

Fotografia por Carina Martins


Quando Lisboa e Edimburgo conversam Desengane-se quem pensou que as duas cidade são incomparáveis. Uma exposição que relaciona e compara Lisboa a Edimburgo. Perguntará o leitor o que terão estas cidades a ver uma com a outra? O clima e a luz não são de certeza, mas garanto-lhe que ficará surpreendido, como eu me surpreendi, com algumas das semelhanças demonstradas na exposição: “Uma história de duas cidades”, a decorrer no Torreão Poente do Museu de Lisboa até ao dia 22 de Dezembro.

Para além destas semelhanças pouco detalhadas (pretendo que o leitor não perca o interesse na visita à exposição), há curiosidades que podiam ter tornado a ligação entre as duas cidades ainda mais forte: depois do terramoto de 1755, Robert Adam, famoso arquitecto escocês, expressou uma enorme vontade e interesse em participar na reconstrução de Lisboa. Quando visitar a exposição leia atentamente o excerto de uma carta que o arquitecto escocês escreveu à família. Em conversa com a Directora do Museu, Joana Sousa Monteiro, aprendi ainda um facto muito interessante que não queria deixar de partilhar com o leitor: a noção de protecção civil data dos tempos de recons-

trução da cidade de Lisboa no pós-terramoto de 1755. A ideia da exposição surge depois de uma experiência semelhante que comparou Edimburgo à cidade chinesa de Nanjing (fascinante!). A Directora do museu partilha ainda a vontade de, num futuro próximo, realizar exposições semelhantes. Tendo especial interesse numa comparação entre Lisboa e Nagasaki, cidade japonesa lembrada pelos acontecimentos trágicos da II Grande Guerra mas que, muito antes, foi fundada por navegadores portugueses na segunda metade do século XVI. Ao visitar a exposição irá certamente descobrir alguns pormenores da cidade de Lisboa que muitas vezes nos passam despercebidos. Como diz Joana Sousa Monteiro: “participar e realizar este tipo de projectos é, em si mesmo, uma experiência de redescoberta”. Garanto-lhe que a visita será uma experiência fascinante. IMAGEM - EXPOSIÇÃO: TALE OF TWO CITIES (MUSEU DE LISBOA / TORREÃO POENTE). JOSÉ AVELAR.

por Bernardo Mascarenhas de Lemos

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As parecenças entre Lisboa e Edimburgo remontam a séculos passados. Ambas estão coroadas por um castelo que vigia do alto a cidade, ambas partilham ruínas de igrejas e bairros emblemáticos da época medieval que desafiam a arquitectura dos nossos dias. No entanto, aquilo que torna a exposição ainda mais curiosa é o facto de podermos comparar algumas obras dos dias de hoje. É o caso das duas pontes que atravessam o rio Tejo e das pontes que atravessam o Forth (rio que contempla Edimburgo) e ainda algumas obras de requalificação urbana do século XX, obedecendo, em ambos os casos, a estratégias de preservação histórica. As várias comparações permitem um olhar sobre as mudanças ocorridas ao longo dos séculos. Lisboa e Edimburgo são excelentes exemplos de cidades que reagiram à passagem do tempo sem nunca perder a sua identidade e procurando, sempre, alternativas aos anseios e necessidades das populações que nelas vivem, trabalham e convivem.


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LEGENDARLISBOA

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Gosto de ver esta gente a ir e vir. Um dia hĂŁo-de perceber as virtudes disto de ser gaivota.


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- Quem é que vem ali? É igual ao meu genro mas está mais bem vestido. Até parece polícia.


- Desculpe, tem licença para meditar? - Não. - Eu oriento-lhe uma. Falo com os meus contactos. - Deixe estar... - Atenção que quem pede o dinheiro não sou eu. São Eles. - Só tenho esta meia hora de intervalo e vou-me já embora. - Não interessa, senhor. Aqui até o Sol é obrigado a pagar a sua taxinha.

Nuno Costa Santos

Fotografia por António Conde Falcão

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por


Conversa da China

Há tempos, numa das suas muitas idas ao Rio de Janeiro, onde passa um terço do ano, Bárbara entrou na célebre Livraria Travessa do Leblon e perguntou a um dos livreiros onde podia encontrar a Obra Completa de Álvaro de Campos, que publicara recentemente no Brasil: Não estou a ver. – respondeu o livreiro. Então, outro livreiro mais velho que passava atirou: Isso é da Tinta-da-china. Bárbara emocionou-se e, recolhida a um canto da gigantesca livraria carioca ganhou consciência, nesse momento como talvez em nenhum outro, da importância da editora que há mais de onze anos começara a desenhar no sótão de sua casa, com as amigas Inês Hugon e Vera Tavares.

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“Só quem já foi livreiro percebe a importância daquele momento. Foi a constatação de que já fazíamos parte da casa. De que a Tinta-da-china existia e era da casa! Foi emocionante...” Bárbara nasceu Serras Lopes, apelido a que, por casamento, acrescentou o Bulhosa pelo qual acabaria por ficar conhecida desde os tempos de faculdade, motivo pelo qual, como explicou à jornalista e amiga

Fernanda Câncio, o decidiu manter mesmo depois do divórcio. “Casei aos 19 anos (...) e quando me divorciei, aos 38 anos, percebi (...) que passara mais tempo na minha vida com o nome dele do que sem. Não dava para mudar.” Esta é apenas uma pequena curiosidade, mas revela o lado prático de Bárbara Bulhosa, a mais conhecida editora independente do país. Não a conhecendo, dificilmente adivinharíamos a sua quase obsessão por Heathcliff, o tortuoso herói byroniano e personagem central do extraordinário Monte dos Vendavais, romance único de Emily Brontë, um dos livros que mais a marcou, juntamente com O Estrangeiro de Camus, ou o mais recente As Benevolentes, de Jonathan Littell. “É um livro que provavelmente não vou voltar a ler, mas que quero junto de mim. É um livro muito forte, porque quando o li dei comigo a criar empatia com uma pessoa que encarna o mal, com um sacana. Foi um livro que me fez questionar e questionarme. Que me pôs em causa. E isso é o que se espera de um livro.” Excelente mote para início da nossa conversa com a fundadora e proprietária da Tinta-da-china.


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Eu não tenho a pretensão de definir o que é um bom livro, até porque é sempre muito subjectivo. Há livros que nos podem marcar muito, mas que ao longo da vida vão ganhando perspectivas completamente diferentes, ou porque os lemos em determinado momento e hoje, olhando para eles, não conseguimos perceber porque nos marcaram tanto, ou livros que, quando os lemos, não percebemos logo todas as suas camadas. Para mim um bom livro tem de ter várias camadas. Isto é uma opinião muito pessoal, mas gosto de livros que tenham várias leituras. Não só consoante os leitores, mas também para o próprio leitor. A minha primeira leitura de O Estrangeiro, aos 16 anos, e foi um livro que me marcou muito, não é a mesma leitura passados mais de 20 anos. Aos 40, retiro outro tipo de conteúdos, de ideias e de emoções, porque eu mudei. Acho que um bom livro é aquele que me vai acompanhando, que me faça voltar àquela história, àquela personagem muitas vezes. As pessoas que gostam de ler, que lêem desde muito novas, têm geralmente um núcleo de livros que são os “seus” livros. Os livros que precisamos de ter à mão... Sim, sim. O Jules e Jim é um desses, e talvez por isso o tenha emprestado várias vezes, coisa que não gosto de fazer [risos], e o tenha comprado também várias vezes, porque é um livro a que preciso de voltar com regularidade. Estamos numa fase de boom na publicação e tradução de autores portugueses. Há dias disse numa entrevista que isso não significa necessariamente que este seja um tempo de excelência literária. Quer explicar melhor essa afirmação? A qualidade literária não se mede, embora também se possa medir, pelas vendas ou pelo facto de se estar traduzido em muitos países. A Hélia Correia é uma autora extraordinária e, que eu saiba, não está traduzida. Por outro lado, isso não quer dizer que a qualidade não possa vender. Esse é o meu negócio. Tentar vender bons livros. Simplesmente, o facto de existirem mais traduções de autores portugueses não quer dizer, por um lado, que tenham muitos leitores lá fora e, por outro, que se esteja a escrever melhor do que antes, quando não

existiam as redes que permitem a proliferação dessas traduções. Eu acredito que a qualidade pode vender e acredito que em Portugal vende. Aliás, há uma ideia consensual, com a qual não concordo, de que em Portugal não se lê. Se formos comparar, por exemplo, com o Brasil, lemos muito mais. Eu trabalho no Brasil e tenho noção disso. Acontece que nem todos os autores são fáceis. Por exemplo, publiquei o Breviário do Brasil, da Agustina, porque descobri que ela não estava publicada lá e achei fundamental que os brasileiros conhecessem essa autora extraordinária, o seu domínio da língua. Mas Agustina não é uma leitura fácil, embora isso não deva ser limitativo. Agustina, Lobo Antunes, Mário de Carvalho, são todos autores fantásticos. Por isso, para resumir, o que eu não acho é que os novos autores, por terem mais visibilidade, são uma geração de ouro. Nessa entrevista, falava do tempo da escrita e da incompatibilidade desse tempo com a pressão comercial das editoras para que os autores entreguem em prazos cada vez mais curtos. Falta tempo aos autores para amadurecerem os seus romances? Não tenho dúvidas de que o facto de existirem contratos em que autores, para trabalharem com determinadas editoras, têm de garantir a publicação de um livro por ano, ou em que recebem uma quantia para publicarem três livros em três anos prejudica a obra. Não é o autor que é prejudicado, até porque, para quem se dedica exclusivamente à escrita, com as vendas que temos, é muito complicado viver só de direitos de autor. Considero mais do que legítimo que os autores adiram a esse tipo de negócio. Mas isso implica que, por exigência de contrato, acabem por entregar livros que não estão suficientemente amadurecidos, porque existe por trás uma máquina preparada para promover esse livro e para o transformar num best-seller. Best-seller está quase a tornar-se sinónimo de mau livro. No entanto, há imensos óptimos autores que são best-sellers: Saramago, Phillip Roth, Elena Ferrante. Não é por serem best-sellers que têm de ser maus livros. O problema é que nós já associamos o bestseller a maus livros. Os grandes clássicos são best-sellers. As vendas não podem entrar como balança para a qualidade do livro. Se o próximo romance da Dulce Maria Car-

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O que é, para si, Bárbara Bulhosa, um bom livro?


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A luta contra os preconceitos e pela liberdade de expressão é uma imagem de marca da Tinta-da-china. Esse foi um dos motivos que a levou a publicar o trabalho de investigação de Rafael Marques Diamantes de Sangue, que lhe valeu a constituição como arguida com termo de identidade e residência, num processo singular de limitação da liberdade de edição em democracia. Estas questões políticas e sociais são essenciais para as suas escolhas editoriais? O que me faz abraçar um projecto é um conjunto de decisões: uma delas, muitas vezes, é política ou social. Há livros que eu acho muito importante serem publicados, e o Diamantes de Sangue foi um deles. Publiquei recentemente um livro do Bernardo Pires de Lima sobre Vladimir Putin, chamado Putinlândia, porque achei um livro muito pertinente. Ou o Administração Hillary, também do Bernardo e da Raquel Vaz Pinto, sobre a Hillary Clinton e que está quase nas livrarias. Ainda este ano vou publicar o Luaty Beirão, porque considero importantíssimo denunciar como viveu um preso político em 2016 e como decorreu todo esse processo: as acusações absurdas, aquela sentença ridícula, a greve de fome. Interessa-me muito ouvir uma pessoa mais nova do que eu, como o Luaty, sobre a sua experiência como prisioneiro político e dissidente. Nunca vivi em ditadura, e quero publicá-lo para que todos possamos perceber como isto foi possível na era do facebook e da internet. A Tinta-da-china não é uma editora engajada politicamente, mas publica livros que nós consideramos essenciais pela mensagem que passam. O livro que publiquei sobre a liberdade de expressão [Direito a

Ofender, de Mick Hume], onde se defende que o direito a ofender é parte integrante do direito à liberdade de expressão e onde o autor questiona o posicionamento politicamente correcto da esquerda em relação ao assunto, foi um livro que eu quis publicar para que as pessoas se questionassem. Os livros servem essencialmente para pôr as pessoas a pensar e a discutir. Eu não tenho de subscrever tudo aquilo que publico, mas publico um livro quando acho que ele tem pertinência. Um editor também tem esse papel, e eu gostava que a Tinta-dachina o desempenhasse. Que contribuísse para publicar livros, ensaios históricos, políticos, investigações jornalísticas sobre a situação social e política, tanto em Portugal como no mundo. Não tenho de concordar com os autores que publico. Tenho de lhes reconhecer a coerência das ideias e a consistência com que as defendem – está bem defendido, está bem pensado e está bem escrito. Eu só tenho de reconhecer qualidade. Esse juízo é meu. E por isso é óbvio que é muito discutível, mas por isso é que eu tenho uma editora e sou independente. É o meu juízo. A Tinta-da-china começa com três desempregadas que, vindo do meio da edição, se juntam com o objetivo de fazer uma editora diferente. Diferente na imagem gráfica e diferente nos conteúdos. O primeiro livro que lançaram foi O Pequeno Livro do Grande Terramoto, de Rui Tavares. Foi uma opção muito arriscada. Em primeiro lugar, porque o Rui fez um livro de História sem notas de rodapé, o que levantava problemas com o que era expectável, academicamente, de um livro de História. Além disso, mesmo como objeto, era um livro diferente, e muito mais caro de produzir. Acabou por ser um sucesso. O nosso objetivo sempre foi fazer livros diferentes. Foi completamente intuitivo: fazer livros que gostássemos de comprar. De alguma forma, a minha experiência de 10 anos como livreira dava-me a intuição de que havia público para isso, um público que valorizaria o livro também enquanto objecto. Felizmente tinha razão. Mas, para as coisas acontecerem, além de muito trabalho e algum talento, há um factor muito importante: o factor sorte e cruzarmo-nos com as pessoas certas no momento certo. O Rui foi a pessoa certa, nessa altura. Outra das diferenças da Tinta-da-china em relação aos grandes grupos edi-

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doso vender 40 000 exemplares e for um best-seller, eu vou ficar satisfeitíssima. Por exemplo, o Ricardo Araújo Pereira que é um autor fantástico, com um domínio extraordinário da língua, vendeu 65 000 exemplares. É mau por isso? Não, é um dos autores que melhor escreve em português. Mas como é um humorista conhecido, com programas na televisão, com programas de rádio, achamos que não pode escrever de forma brilhante e não pode pensar de forma brilhante. Isso é um enorme preconceito nosso. Mas também seria ingenuidade pensar que não somos preconceituosos. Todos somos preconceituosos, o importante é conseguir lutar contra isso. Eu tento lutar contra os meus preconceitos e olhar para as coisas de uma forma mais aberta, mais livre.


Conversa da China toriais é o facto de não pagar adiantamentos aos seus autores. Não. Não pago adiantamentos. Pago todos os direitos de autor devidamente, mas não pago adiantamentos e os meus autores sabem disso. A opção de trabalharem connosco passa, penso eu, pelo facto de preferirem o acompanhamento dedicado que uma pequena editora lhes pode dar. Da mesma forma, não dou garantias aos meus autores de que as coisas vão correr bem. Faço o meu trabalho, empenhadamente, de acompanhar o livro, de o promover, mas não posso dizer “O teu livro vai vender 3000 exemplares”. Só se os comprar eu. [risos].

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Onze anos depois, a Tinta-da-china é uma referência no meio editorial nacional, com uma legião de fãs, se é que assim lhes posso chamar e nos quais me incluo, e com diversas colecções premiadas, além de uma revista literária, a Granta Portugal, que é um sucesso. Como têm corrido esses projectos? Houve projectos que correram muito melhor do que estávamos à espera. A Granta, por exemplo, que era um projecto arriscadíssimo, porque os custos de produção são muito mais elevados do que os de qualquer outro livro. Mas a verdade é que tivemos público para isso. Eu achava que íamos vender no máximo 1500 exemplares, e vendemos 8000 no primeiro número. Isto foi conseguido sem dinheiro, porque o pouco dinheiro que temos é para gastar nos livros. O nosso dinheiro para marketing é gasto no livro. Ou seja, apostamos no produto. Não temos dinheiro para campanhas publicitárias. Onze anos depois podíamos estar a lançar apenas livros das colecções que já temos, mas eu gosto de lançar novos projectos. Só continuo a trabalhar nos livros porque acho que posso fazer melhor. Dáme muito gozo construir, fazer um projecto novo. Uma nova coleção, que é sempre um entusiasmo enorme. A verdade é que depois, como já há um público, como já há um selo associado à qualidade, acabam por ter sucesso. Por exemplo, a colecção de viagens: quando comecei a conversar com o Carlos Vaz Marques sobre essa ideia, achámos que era um risco grande. Já tinham existido outras sem grande sucesso, mas arriscámos. O grande trunfo é o Carlos, que sabe muitíssimo sobre literatura de viagens. E é uma figura conhecida, que habituou as pessoas a excelentes entrevistas no Pessoal e Transmissível. Era uma garantia de qualidade. Aconteceu o mesmo na colecção de poesia. Eu convidei o Pedro

Mexia porque ele é um grande conhecedor, leitor, tradutor e coleccionador de poesia. Quer o Pedro quer o Carlos proporcionam um selo pessoal de qualidade. Como o Ricardo Araújo Pereira na colecção de literatura de humor. Eu nunca teria publicado Dickens ou Oblomov se não fosse ele, que é das pessoas que eu conheço que mais sabe sobre grande literatura de humor. Portanto, pareceu-me óbvio convidar editores para colaborarem comigo nessas áreas específicas. Eu sa-bia que fariam melhor trabalho do que eu, e tanto fazem que todas essas colecções são reconhecidas. Mas isso só uma editora independente pode fazer! Somos independentes, porque não há ninguém que tenha poder sobre a Tinta-dachina a não ser a equipa da Tinta-da-china. Sou responsável editorial e financeira, o que muitas vezes gera conflitos insanáveis comigo mesma [risos], e sei que só sobreviremos se trabalharmos cada vez mais e cada vez melhor, porque dependemos em exclusivo do mercado, da venda dos livros, e apenas isso nos manterá independentes. Eu só serei independente enquanto o meu projecto tiver viabilidade comercial. Porque quando deixar de ter viabilidade comercial, fecho ou fecho, porque a venda para mim é impensável. [Gargalhada.] A decisão de publicar ou não publicar é, muitas vezes, pessoal. E depende de muitos factores. Às vezes da altura do ano... Se há pouco dinheiro, se é uma fase mais difícil. Outras vezes, depende do meu entusiasmo. Tudo é vivido de forma muito intensa. Se ganhamos um prémio, ficamos eufóricas, como é normal, se recebemos uma devolução de 1000 exemplares, numa edição de 1500, ficamos devastadas. Quando estou numa fase muito entusiasmada, vou ao armazém. Porque aí paro um bocado e começo a pensar... O dinheiro que está aqui... Os erros... Em que é que estava a pensar para fazer esta tiragem? Ou seja, é muito importante eu estar sempre a confrontar-me com as minhas próprias decisões e não culpar os outros por esses erros. Entretanto, aventurou-se a lançar a Tinta-da-china no Brasil... A Tinta-da-china Brasil surge em 2012. É preciso dizer que eu tenho condições especiais para fazer isto, porque tenho uma irmã que vive no Brasil, que é brasileira, advogada e que é a minha sócia lá e me ajudou a criar a empresa. As exigências


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Como é o mercado editorial no Brasil? A edição no Brasil é muito rica. Eles são muito bons. Editam muito e bem. Além disso, sendo um país que é quase um continente, editam muito local e regionalmente. Por exemplo, se eu entrar numa livraria em Porto Alegre, vou encontrar livros completamente diferentes dos que encontro em São Paulo ou no Rio. Os livros no Brasil são comprados por uma pequena elite intelectual – não há tradição de oferecer livros, nem é comum encontrarmos bibliotecas nas casas das pessoas, como em Portugal. Aqui, o livro é um presente de prestígio, reconhecido, e quem herdou uma biblioteca cuida dela, tem orgulho nela. No Brasil não há essa tradição. Vamos a casa das pessoas com dinheiro e vemos obras de arte, mas nada de livros. No entanto, apesar da pouca leitura da generalidade da população, os livreiros tratam muito bem os livros. As grandes livrarias, como a Travessa, a

Cultura, a Livraria da Vila, são livrarias de fundo, coisa que acabou em Portugal. Sei que isso tem a ver com o mercado e com as dificuldades que os livreiros atravessam, mas também sei que isso faz toda a diferença. A Travessa no Leblon deve ter uns 800 m² e tem tudo, um fundo extraordinário. Eu compro muito mais livros no Brasil do que cá, porque encontro tudo. Mas depois acontecem coisas inexplicáveis, como a Agustina não estar publicada lá, ou o Herberto, ou o Professor Eduardo Lourenço. Por isso, se eu puser 100 ou 200 brasileiros a conhecer os poemas do Herberto ou a ler o Professor Eduardo Lourenço, a perceber o pensamento dele, sinto que já fiz aqui alguma coisa. Por outro lado, por aqui tem ajudado a divulgar a literatura brasileira, ao publicar autores como Gregorio Duvivier, Tatiana Salem Levy, Luiz Rufatto, Michel Laub, e agora dois gigantes: Ruy Castro, com o lançamento da bíblia da Bossa Nova, Chega de Saudade, e o genial Nelson Rodrigues. E o Antonio Prata, que acabámos de publicar. O Ruy Castro é o maior biógrafo da língua portuguesa, um escritor fantástico que escreve de uma forma deliciosa e cativante. E o Nelson Rodrigues é um génio que eu espero sinceramente que as pessoas entendam. É misógino e reaccionário, o que

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legais para abrir uma empresa no Brasil são indescritíveis. Tudo aconteceu porque a Dulce Maria Cardoso teve uma proposta para editar na Companhia das Letras O Retorno e disse-me que, se eu fosse para o Brasil, podia abrir a Tinta-da-china lá com O Retorno. Tendo um livro como esse e o Ricardo Araújo Pereira, que foi o outro autor que lancei, ganhei uma segurança muito maior para arriscar.


o torna desconcertante. Mas é isso que faz dele um autor extraordinário. Quais foram os editores que mais a marcaram? O Hermínio Monteiro. A Assírio foi uma grande lufada de ar fresco na edição portuguesa. A Cotovia. A coleção de autores brasileiros da Cotovia é fantástica. São todos bons. O André Jorge [que viria a morrer dias depois desta entrevista] é um editor extraordinário. Outro editor por quem tenho uma grande admiração é o Francisco Vale, da Relógio d’Água, que tem o melhor catálogo editorial em Portugal, e continua indepen¬dente. Quem ler o catálogo da Relógio d’Água fica cultíssimo, não precisa de ler mais nada! [Risos.] Como leitora, tenho uma admiração imensa por ele. Também o Zeferino Coelho, da Caminho, que editou uma série de autores africanos geniais. Quais são as novidades editorias da Tinta-da-china para este final de ano além, é claro, do Biblioteca À Noite, de Alberto Manguel, do qual pré-publicamos um excerto nesta edição da BICA? Já temos nas bancas o Nelson Rodrigues, o Antonio Prata, e ainda vamos ter o novo romance da Alexandra Lucas Coelho, um novo número da Granta dedicado ao Medo, entre muitas outras coisas.

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Em termos pessoais, como se sente na pele de editora, onze anos passados? Fantástica! Nem imagina o bom que é acordar de manhã e vir trabalhar para uma coisa que nos dá gozo e querer continuar. O bom que é sentir falta do trabalho. Isso é uma sorte.

A avaliar pelo ambiente familiar que se vive na Tinta-da-china, percebemos o que Bár-bara quer dizer. A editora é uma “grande” família, a que, talvez por ser Agosto, nem faltam filhos (única e compreensível limitação imposta na recolha de imagens que fizemos). Numa pausa para café Bárbara aproveita para colocar em dia os assuntos mais prementes da editora enquanto nos acompanha num cigarro fumado num pequeno jardim inundado de sol. E, olhando aquele vulto em contraluz gesticulando enquanto fala ao telefone, percebemos o entusiasmo que coloca no trabalho e que fez da Tinta-da-china o maior sucesso editorial em Portugal da última década.

por João Moreira

Fotografia por Hugo Macedo


«Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. O buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.» — Nelson Rodrigues

PELA PRIMEIRA VEZ EM PORTUGAL, OS CONTOS E AS CRÓNICAS DE UM DOS MAIS CONCEITUADOS E DESCONCERTANTES ESCRITORES BRASILEIROS DO SÉCULO XX já nas livrarias

SELECÇÃO E PREFÁCIO DE ABEL BARROS BAPTISTA

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SELECÇÃO E PREFÁCIO DE PEDRO MEXIA


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Tinta Fresca Edições Tinta da China Tradutora Rita Almeida Simões Lançamento : 14 de Outubro 2016 Desempacotar livros é uma actividade reveladora. Em 1931, durante uma das suas muitas mudanças de morada, Walter Benjamin descreveu a experiência de estar rodeado de livros «ainda intocados pelo ligeiro aborrecimento da ordem», assombrado por visões dos tempos e dos lugares em que os tinha adquirido, da prova circunstancial que tornava cada livro verdadeiramente seu. Também eu, durante aqueles meses de Verão, fui dominado por essas visões: um bilhete que sai a voar de um livro aberto e me lembra de uma viagem de eléctrico em Buenos Aires (os eléctricos deixaram de circular no final da década de 1960), quando li pela primeira vez Moira, de Julian Green; um nome e um número de telefone escritos numa folha de guarda e que me trazem à memória o rosto de um amigo há muito perdido que me deu um exemplar de Cantos, de Ezra Pound; um guardanapo com o logótipo do Café de Flore, dobrado no interior do Siddhartha, de Hermann Hesse, certificando a minha primeira viagem a Paris, em 1966; a carta de um professor dentro de uma antologia de poesia espanhola fez‑me pensar nas longínquas aulas em que ouvi pela primeira vez falar de Góngora e de Vicente Gaos. «Habent sua fata libelli», diz Benjamin, citando o esquecido ensaísta medieval Terenciano Mauro. «Os livros têm o seu próprio destino.» Alguns dos meus esperaram meio século para chegar a este pequeno lugar no Oeste de França, ao qual, aparentemente, estavam destinados. Como disse, já tinha concebido a organização da minha biblioteca em várias secções. Fundamental entre elas era a das línguas em que os livros estavam escritos. Formei vastas comunidades mentais das obras escritas em inglês ou espanhol, alemão ou francês, fossem poesia ou prosa. Excluí destes grupos linguísticos certos títulos que pertenciam a assuntos que me interessavam particularmente, como a mitologia grega, as religiões monoteístas, as lendas da Idade Média, as culturas do Renascimento, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, a História do Livro... A minha escolha do que acomodar sob estas categorias pode parecer caprichosa a muitos leitores. Porquê guardar as obras de Santo Agostinho na secção Cristianismo, e não em Literatura em Latim ou Civilizações da Alta Idade Média? Porquê atribuir a Revolução Francesa de Carlyle à Literatura Inglesa e não a História Europeia, e não fazer o mesmo ao Cidadãos, de Simon Schama? Porquê manter os sete volumes das Legends of the Jews de Louis Ginzberg no Judaísmo, mas pôr o estudo de Joseph Gaer sobre o Judeu Errante em Mitos? Porquê destinar as traduções de Safo feitas por Anne Carson em Carson, mas arrumar as Metamorfoses de Arthur Golding na secção Ovídio? Porquê guardar os meus dois livros de bolso de Homero traduzido por Chapman no lugar ocupado por Keats? Em última análise, toda a organização é arbitrária. En-

contrei muitas classificações estranhas em bibliotecas de amigos por todo o mundo. O Barco Bêbado de Rimbaud em Navegação, o Robinson Crusoé de Defoe em Viagens, o Birds of America de Mary McCarthy em Ornitologia, o Le cru et le cuit de Claude Lévi‑Strauss em Cozinha. Mas as bibliotecas públicas também têm metodologias estranhas. Um leitor sentiu‑se incomodado por, na Biblioteca de Londres, Stendhal estar arrumado em «B», por causa do seu verdadeiro apelido, Beyle, e Gérard de Nerval estar no «G». Outro queixou‑se de que, na mesma biblioteca, as Mulheres («Women») estavam classificadas «na secção de Diversos no final da categoria da Ciência», depois de Bruxaria («Witchcraft») e antes de Lã («Wool») e Luta Livre («Wrestling»). Os catálogos da Biblioteca do Congresso incluem categorias tão curiosas como: - estudos sobre bananas - vínculos entre morcegos - botas e sapatos na arte - a galinha na religião e no folclore - esgotos: obras seleccionadas É como se a singularidade do tema sob o qual os livros são catalogados importasse mais a estes organizadores do que o seu conteúdo, de tal forma que uma biblioteca se torna uma colecção de antologias temáticas. Efectivamente, os temas ou categorias em que uma biblioteca é dividida não só mudam a natureza dos livros (lidos ou não) que ela contém, mas também são, por sua vez, mudados por eles. Pôr os romances de Robert Musil na secção de Literatura Austríaca circunscreve a sua obra a uma definição nacionalista da escrita de romances; ao mesmo tempo, ilumina obras sociológicas e históricas vizinhas acerca do Império Austro‑Húngaro, porque expande as perspectivas académicas restritivas sobre o assunto. A inclusão de Um Drama na Caça de Anton Tchékhov na secção de Romances Policiais obriga o leitor a seguir a história com uma atenção indispensável ao assassínio, às pistas e às manobras de diversão, mas também abre o género policial a autores como Tchékhov, que habitualmente não são associados a escritores como Raymond Chandler e Agatha Christie. Se eu guardar o Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez, na minha secção de História da Argentina, diminuo o valor literário do livro? E, se o puser na Ficção em Espanhol, será que desprezo a sua exactidão histórica? Sir Robert Cotton, um excêntrico bibliófilo inglês do século XVII, alinhava os seus livros (entre eles muitos manuscritos raros, como o único manuscrito conhecido de Beowulf, e os Evangelhos de Lindisfarne, de cerca de 698), em 12 estantes, cada qual decorada com o busto dos primeiros 12 césares. Quando a Biblioteca Britânica adquiriu parte da colecção, manteve o estranho sistema de catalogação de Cotton, e portanto os Evangelhos de Lindisfarne podem ser hoje requisitados na cota «Cotton MS Nero D. IV», porque foram outrora o quarto livro na quarta prateleira da estante encimada pelo busto de Nero. E, no entanto, seja de que tipo for, toda a ordem tem o mérito de conter o incontenível.

(página 304)

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Pré-publicação de um excerto do livro a Biblioteca à noite de Alberto Manguel


aqui, alguma réstia por Francisco Mallmann

“ardem cidades, ardem palavras. inocentes chamas que nomeiam amigos, lugares, arqueologias. arde a paixão no esquecimento de voltar a dialogar com o mundo” al berto

I

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se tento te dizer com clareza todas as coisas que me aconteceram, talvez eu erre na pretensão de ser fiel à luz que, definitivamente, não se repete em nenhuma outra parte do mundo. esta luz, agora entendo, não permite transposição. é preciso estar. habitá-la por dentro e desvendar o caminho existente entre as extremidades. isto ninguém me avisou. eu é que descobri tentando guardar os feixes em lugares impossíveis. (depois de um tempo, lentamente, vais entender que cabe no peito, na pele e na memória – mas isto também ninguém me avisou). as descobertas da página ficam quase todas girando ao redor de lisboa. no centro, uma profusão de gentes e nomes. e afetos.


II se apago as letras escritas a lápis embaixo fica o instante que não se lê mas se percebe, escondido pela rapidez da fricção. automático – escrever tomar distância criar teorias para corpos em movimentos de contínuo afastamento e embate. repetição – as mesmas palavras reorganizadas em cada um dos vários miradouros espalhados pela cidade inundada pelo pôr-do-sol. desafiei o que disseram sobre paciência, passos curtos e contínuos. respiração desordenada para atingir a visão, a imensidão que, sei, à distância, é um ponto dentro do qual eu sou mortal. a vida, dizem, é um sopro mas, a mim, agora, se assemelha mais a falta de ar. meu coração é uma grande avenida, talvez se chame liberdade, eu ainda não sei acontece que ele permanece aberto para todos os acidentes de percurso – até os que eu invento e fica cheio de gente a caminhar para todos os lados e eu nunca sei para onde ir. (é que sou estrangeiro e me empenho em criar rotas de fuga)

III

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se envio todas as cartas que escrevi para te dizer que estou bem provavelmente não consigas encontrar nenhuma lucidez. sei que estou cego. imerso em uma luz que não sei como definir. e é bem por isso que, agora, acho que posso ver melhor. a amplitude se conquista, entendi. a vastidão é resultado de um gesto profundamente simples. nós já somos eternos. e às vezes dói. só se pode adentrar espaços vazios com coragem porque fica no interior dos passos a memória de outro tempo. quem sabe outra vida, quem sabe ontem. te explico: não se pode olhar o fundo dos olhos de outra pessoa sem que já tenham olhado pelos teus, talvez despretensiosamente, talvez com a intensão de guardar delicada e detalhadamente aquilo tudo – é bonito e importante sonhar com olhos iluminados. é bonito e importante se esses olhos forem de alguém cujo nome sabes pronunciar.


IV se descrevo as sensações nesse exato momento posso te dizer que há um desejo de voltar ao exato instante do despejo das cinzas no prato improvisado para ter certeza de que sigo acumulando vida e que só arrancarei tudo o que me dói quando eu pousar no país que chamo de meu isso foi há tanto tempo que parece hoje em outro ano parece projeção eu nem sei bem o que parece restaram apenas fotografias clandestinas a tua imagem festiva no centro do espaço livre da memória um sorvete no cais do sodré o gin no terraço o príncipe real o jardim da estrela o bairro alto o chiado me contaram que existem no mundo várias lacunas que ocasionalmente são ocupadas por presenças sem contornos definidos elas são intercambiáveis e mutáveis às vezes levam nomes às vezes não tudo depende das estações internas das fibras do intestino da quantidade de terceiros olhos não sei ainda estou apaixonado pela maneira com que se pode levar a mão acima das cabeças de quem amamos ainda permaneço escutando a mastigação dos dentes de ouro do senhor robusto que tentou me enganar no troco ainda estou parado no meio de toda aquela exaltação brilhante e totalmente alheia a minha banalidade ainda estou desconfiado de que eu não deveria reciclar poemas prometo trabalhar nisso quando for possível a plenitude o que posso te dizer agora é que o fim do amortecimento gera sempre reescritura e adesão de novas palavras (porque são muitas as possibilidades quando é de impaciência a energia vital)

V

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se digo que tudo está profundamente diferente não é suficiente. tão lindas as cores. todos os rostos reunidos como que em fotografia. estáticos e, ao mesmo tempo, em efusão. terei sorrido o suficiente? terei te mostrado o bastante o quanto te reconheci nas pequenas aberturas? antes desconfiei e agora eu sei, quase certamente, que as cavaste para mim. frestas – são convites? são delírios? são saudade – desde um aeroporto ao outro. sal e água e eu aprendi tantas novas composições. me apaixonei pelos ouvidos. não posso me fazer novo, agora. vai levar tempo até que eu possa apontar as mudanças. mas eu sei – da superfície ao cerne – que é transformação. dedico aos que, como eu, levam dor ao papel – que se fecham em amor tanto quanto é possível. para abrir, depois. generosa e infinitamente. eu preciso parar de estar preso ao equívoco, alinhar a vida aos conceitos. sair – mais distante, muito mais distante. parece sonho e parece o que é: estonteante e brutal. cigarros de filtro amarelo, estou perdido. ruas estreitas e íngremes. no fim alguém sempre me pergunta “de onde vens?” e eu só consigo responder que “eu já não me lembro”.


VI se choro: o amor na curva

tão difícil ter um corpo

estranho o espelho a frente

saber da morte difícil

o pó no rosto

usar a língua

mapa aberto

alcançar a extremidade

tão estranho

atravessar o oceano

contar quilômetros

tão difícil

enumerar vestígios

avistar o cais

estranho

olhar as luzes

pronunciar o nome explicar o frio

difícil o desprendimento

enganar o acaso

ir até o último gole

a parte isso com isso

permanecer respirando

mesmo assim

tão estranho

cá estamos

as mãos dadas

VII

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se escuto matilde mais uma vez me soprar no ouvido que “não sei se te disse, mas durante os nossos dias, fez sempre verão em lisboa” descubro que eu também continuo achando que vivo em um filme e que essa cinematografia é, de fato, um tanto estapafúrdia. tenho certeza de que a rua cor-de-rosa continua com a mesma cor, ainda que estejamos distantes por vários quilômetros. não estão lá as minhas retinas mas continuo com os olhinhos escuros e úmidos. misturando pele e pedra, encaixando meu corpo em paisagens enormes. tentando fazer da minha superfície algo tão vasto quanto a linha do tejo. ainda sonho com cantoras de fado que guardam o sofrimento na garganta e a ancestralidade na voz. ainda não conseguiram traduzir a saudade, felizmente. ainda escuto o som das pessoas que festejam os santos. ainda vejo a multidão na bica. é amarelo até durante a noite. faz calor e os corpos se tocam, em exposição. é quando me lembro que sei andar a zero graus. com cada pequena parte protegida. também faz frio no sul do brasil. do lugar de onde eu venho nós também imploramos pelo sol que se mantém ausente e alheio aos nossos pedidos. hoje escrevo com as mãos geladas. é inverno nos trópicos mas tenho sempre aqui uma réstia.


VIII se lembro: me perdoa por não ter te visto, no início, por ter escrito demais na distância e por ter te arranhado a pele quando chegou perdoa por não ter te tomado como horizonte possível quando respirou deitado em minha frente perdoa por não saber que a delinquência dorme sempre tarde e que não vê os domingos passarem, porque permanecem fechados os olhos me perdoa por ter tentando alcançar o cerne do sono, puxar os fios da fome, do amor e do azul desculpa por calçar os sapatos quando havia correntes de água invadindo o quarto me desculpa por ter te feito esperar os momentos exatos e egoístas desculpa pelas escaladas, infinitas, sem destino e pôr-do-sol desculpa os trajes impróprios ao verão, a minha busca pelo frio desculpa a facilidade com que desmancho os laços cotidianos, os acordos silenciosos, a ordem do ar me desculpa por não fazer perguntas simples e, ainda assim, prever o consentimento

é que eu não havia entendido a forma verbal o gênero de pietá o nome do tecido a geografia oriental a perfumaria mágica o cansaço de nicolàs eu não sabia nada sobre a arqueologia do lugar em que estão aterrados os teus pés eu não sabia pôr de lado as flores e deitar nas pedras quentes. disso eu não sabia. eu não sabia forjar o riso inventar compreensão neutralizar o rosto gozar para dentro eu não sabia ser fotografado nem o caminho dos correios nem das ruínas de são jorge eu não sabia que a tradução exige doses semelhantes de ternura e precisão

IX

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se me perco: algumas pessoas vão culpar poetas por seus encontros. mas uma coisa precisas saber: se eu pudesse te escolheria, mais uma vez, no centro da multidão. e faria com que todos os desenhos no mapa tivessem sempre como início e fim a tua casa. só para eu não me esquecer de que haverá sempre lisboa. eternamente.


Lisboa do Tejo Bebes e inebrias-te de luz e de reflexos e de excesso de ti, cidade Tornas-te tu própria reflexo do que foste, do que és, do que vais ser És luz e reflexo, Lisboa Refletes o Tejo com as naus e os marinheiros que dos teus cais partiram e que às tuas muralhas voltaram Alguns Descarregando o desconhecido Em ti, cidade, se desenhou o mundo completo, inteiro De ti brotaram novos mapas com tudo o que não vinha nos mapas És mistério e descobrimento És história antiga E porto do que é novo És contraste Tens em ti Europa África Américas Ásia Oceânia És cidade de todos os continentes, todos os continentes são teus E isto, Lisboa, é velho, não é de agora, não é moderno Tens séculos de mundo, Lisboa. Tens séculos de mundo E guardas O cheiro das especiarias exóticas E todos os tons de pele É este reflexo de ti, mais do que qualquer outro, que te dá esta luz única Com a qual te reinventas Mas o que de mais notável em ti existe é que és humana Lisboa Uma cidade mulher Quente, voluptuosa, sedutora, fértil, espirituosa Aconchegante Imperfeita És à escala humana, Lisboa Uma mulher em que um homem não se sente pequeno Ou vice-versa

E eu quero fazer amor contigo Lisboa Deslizar errante pelas tuas colinas Perder-me para sempre nos teus vales Perpetuar-me em ti, contigo E tantas vezes consentes e te abres e ofereces e me deixas em êxtase Como nenhuma outra Lisboa E outras, poucas, me rechaças e maltratas E te vejo pérfida, velha, abandonada, seca, esventrada, maltratada E dói És contraste Lisboa cidade Lisboa mulher Lisboa que amo

por André Serpa Soares

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Bebes parte da tua luz Do rio que em ti se faz mar Como em ti desaguei em homem


DA TIPÓIA AO TUK-TUK

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Ignoremos um dos primeiros clássicos portugueses, o Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela, escrito por D. Duarte, Rei de Portugal e do Algarve e Senhor de Ceuta, no longínquo ano de 1438, e um best-seller de todos os anos, o Código da Estrada, cujo primeiro exemplar, de 1928, custava 25 tostões.


Da Tipóia ao Tuk-tuk

Desde sempre, o manuelino dos Jerónimos e da Torre de Belém, as sete colinas e o casario alfacinha, o Castelo da Reconquista e os Terreiros do Poder, com os diversos tons que os iluminam ao cair do dia, ao correr das estações, podem ser admirados a partir do Tejo, nas naus de volta das Índias ou nos cacilheiros de agora, nos vapores onde partiam emigrantes para Belém ou Benguela e nos paquetes em que regressavam os fardados que tinham andado aos tiros em Nambuangongo ou em Tete, nas canoas do fado ou nos veleiros transatlânticos. Embora os primeiros coches tenham surgido ainda no reinado de D. Sebastião, para o leitor mais curioso poder confirmar tudo, vamos marcar a moda das quatro rodas com o veículo em que Felipe II de Espanha, quando era “Senhor do Mundo”, chegou a Lisboa, no ano da graça de 1619 (e que pode ser apreciado no Museu Nacional dos Coches), causando espanto e tornando-se assim o responsável pelo trânsito futuro na capital portuguesa. Além daquele tipo de viatura, que surgiu em meados do século XV na localidade húngara de Kocs, começaram a proliferar os modelos de estufas e berlindas, a que se juntavam cadeirinhas e liteiras, carroções e diligências, a ponto das Ordenações do Reino de 1686 estabelecerem regras de prioridade nas ruas estreitas onde fosse preciso recuar – e, mais tarde, a arredondar certas esquinas para facilitar esse tráfego de antanho. E, ao mesmo tempo em que o ouro brasileiro – a par de capelas barrocas, quintais com palmeiras e penteados à Maria Antonieta – pagava a exuberância dos coches reais e outras carruagens que tais, surgiam os primeiros carros de praça, que os camilianistas e os queirosianos tão bem conhecem. Quem não tinha posses para uma carruagem própria alugava, à hora ou ao dia, as primeiras tipóias, essas famosas seges (que os germânicos seiscentistas construíram com a designação de chaise), de caixa pequena (ou meia caixa), origi-

nalmente apenas com duas largas rodas (posteriormente, assentes em quatro e ganhando então a alcunha de “traquitanas”), com cortinas de oleado para proteger da poeira e óculos de vidro para se apreciar a paisagem. Estavam estacionadas em fila nas praças do Chiado, do Camões, do Cais do Sodré, com os boleeiros de chapéu de pala e bota alta, ou guardadas em cocheiras e contratadas por fidalgos com outros cabedais, para irem à abertura da corte ou a um funeral, com condutores de casaca e chapéu alto. Com o decorrer do século XVIII e das primeiras décadas do seguinte, o envelhecimento daquele veículo foi-lhe dando má fama. A pena talentosa de Pinto de Carvalho (Tinop), ao descrever o primeiro baile do reinado de D. Pedro IV, realizado a 5 de Fevereiro de 1855 e dedicado ao príncipe de Gotha, conta que para o Palácio de Belém “bateram, pois, as principais equipagens particulares, e as tipóias de praça, que, então, principiavam a transformar-se de traquitanas em caleches, tilburise coupés”. No seu livro Lisboa d’ Outros Tempos, Tinop esclarecia que “já ia longe a época das seges do Coqueijo e do Barateiro, perfeitas capoeiras atadas com cordas, onde chovia como na rua, puxadas por cavalos transparentes”. Camilo Castelo Branco, para enaltecer o portuense carroção de bois, que levava as famílias da Invicta quando iam a banhos para Leça, à romaria do Senhor de Matosinhos ou ao Teatro São João, garantia, em Noites de Insónia Oferecidas a Quem Não Pode Dormir, que aquela viatura, num “lapso de duzentos anos, (…) viu passar e desaparecer todos os veículos adelgaçados pelo cepilho do progresso”. E acrescentava: “O carroção escancarou as goelas e riu da americana, da vitória, do phaeton, do Landau, da caleche, do dog-cart, da tipóia, do coupé, do tilburi, do daumont, do brougham, do mail-coach, do poney-chaise, do groom, do break”– e podia ainda acrescentar a aranha, o char à bancs, o cabriolé, a clarence, o fiacre, a hanoveriana, o milord. Alguns destes modelos chegaram tão atrasados como as tropas napoleónicas de Junot – que ficaram a ver a Corte de D. João VI já no Tejo, rumo ao Rio de Janeiro; outras firmaram-se tão bem como a regência de Wellington. Imaginemos, pois, uma Lisboa com os coupés de praça onde Eça de Queirós, por exemplo, fazia descer, perante Carlos

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O viajante, alfacinha ou forasteiro, deve apreciar Lisboa sem se preocupar com rédeas nem com volantes, mirando a paisagem em transportes urbanos de aluguer ou de bilhete. Vamos também fazer de conta que por estes séculos todos a maioria dos que por aí perambulavam não tinham pileca magra nem sequer um par de botas e pisavam as ruas de lama ou de pedra da cidade da lenda de Ulisses e da conquista de Afonso I de pé ao léu. Adiante.


Da Tipóia ao Tuk-tuk da Maia e Craft, a surpreendente Maria Eduarda, “com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar”. Ou seja, com este modelo citadino para dois passageiros, de caixa fechada e com cortinas nas janelas, para garantir maior privacidade, que também ficou conhecido como brougham (devido ao apelido do seu construtor inglês) ou fiacre – por se alugar em Paris entre as ruas de Saint-Fiacre e Saint-Martin. Mas o coupé era um carro de inverno, ao contrário da milord, confortável viatura de passeio de caixa aberta, tão popular no nosso país que ainda hoje transporta turistas em Sintra, e que era uma carruagem com muitas semelhanças com o vitória, cujo nome era uma homenagem à então Rainha Vitória de Inglaterra. Mais espaçoso era o landau, que ganhou o nome da cidade alemã onde se começou a fabricar, elegante viatura de passeio com caixa fechada – mas cujas capotas eram rebatíveis e se podiam baixar completamente –,onde os quatro passageiros se sentavam cara-a-cara e podiam baixar os vidros de ambos os lados. “O primeiro landau que Lisboa viu foi o que em 1812 apresentou o negociante inglês João Fletcher”, assevera Tinop, acrescentando que comprara aquela carruagem em Londres por 400 libras esterlinas; e o mais famoso foi aquele em que, quase um século volvido, revelando todo o aparato que mantinha como carro de grande cerimónia muito usado nas cortes europeias, a 1de fevereiro de 1908, seguiam o Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. No seu popular Tratado de Civilidade e Etiqueta, ao referir-se à organização de um casamento, a Condessa de Gencé sugeria que, para quem não aparecesse em casa dos nubentes nas suas carruagens de luxo, convinha alugar uns landaus para os convidados serem conduzidos à igreja, por serem maiores e mais confortáveis. Os noivos, porém, deveriam seguir em coupés, tendo a autora o cuidado de informar que o cocheiro tinha de enfeitar o chicote com um ramo de flores.

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Nesta altura, quando o Terramoto de 1755 já tinha facilitado ao Marquês de Pombal os problemas de trânsito da sua época e da seguinte, vamos esquecer os ancestrais

Assim, como se estivéssemos em Bangkok – onde estes veículos são quase tão antigos como o reinado de Bhumibol Adulyadej e acrescentaram um toque de exotismo comparável às placas com as letras tailandesas –, Lisboa tem agora centenas de tuk-tuks:

dos autocarros – as carreiras regulares dos omnibus, a partir de 1834, a que se seguiram os chora, os simplício ou os lusitana; e desviar-nos dos carris dos antepassados dos elétricos, puxados a bestas – os americanos, em 1893, e, depois, os concorrentes ripert; e ficarpelo que Madame Rattazzi, no seu livro Portugal de Relance, anotou: o phateon“ aparece muitas vezes nas ruas de Lisboa”. O phateon era um carro de passeio, de caixa aberta e bancos paralelos, com travão de volante e campainha de pedal, sendo conduzido pelo seu proprietário – no fundo, um dos avós do automóvel particular. Apesar de comboios fracassados como o monocarril Larmanjat (e, presentemente, podem-se ainda ver bons nacos urbanos de comboio, sobretudo na actual linha de Cascais), de elevadores tão rendilhados com o de Santa Justa, dos elétricos que começaram a circular em 1901 – e uma das melhores formas de conhecer a cidade é o percurso que tem a placa “Prazeres”, se esquecermos que a maioria dos passageiros são turistas e carteiristas e que o destino é… um cemitério –, desde que, em 1895, o Conde de Avilez importou de Paris um Panhard & Levassor – que atropelou logo um burro na sua primeira viagem, entre Lisboa e Santiago do Cacém –, D. Carlos passou a conduzir Peugeots e o seu irmão Afonso um Fiat, nunca mais parou a confusão. Em 1903, foi fundado o Real Automóvel Clube de Portugal, que, sem o Real, é o clube português que, batendo Benfica e Sporting, tem mais sócios.


Da Tipóia ao Tuk-tuk

E, assim, no século passado, o carro de praça por excelência chamou-se táxi. Os primeiros começam a circular em Lisboa em 1907 e, vinte anos depois, Reinaldo Ferreira, o famoso Repórter X, escrevia o argumento e realizava o filme O Táxi Nº 9297 – inaugurando talvez a tradição dos jornalistas registarem o estado de espírito de um país, a opinião pública sobre um acontecimento, conversando apenas com um qualquer vulgar taxista de Alfama ou de Zanzibar. E, durante décadas, os carros pretos de capota verde até eram... Mercedes. Mudou o milénio e atualizou-se o mote vicentino da Farsa de Inês Pereira: “Mais quero asno que me leve do que cavalo que me derrube.” Sem ferraduras autorizadas a trotar no alcatrão, excluímos cavalgadas e burricadas, mas também correrias à antiga e running modernaço, pedais de bicicleta e capacetes de mota – e o segway, que é um cavalo sem crina nem cauda, um burro mecânico sem coração nem cascos. Mas o nec plus ultra do carro de aluguer foi importado do antigo Reino do Sião. E, neste extremo da Europa – onde, por questão de poupança ou de equilíbrio, os hipomóveis sempre tinham sido puxados por um animal ou uma parelha, nunca pegando a moda russa, descrita nos romances de Tolstoi e nos contos de Tchekov, de atrelar qualquer

carruagem a uma troika de baios ou de burros –, triunfou recentemente o conceito deste veículo com três rodas, inspirado na paisagem económica asiática, que é simultaneamente uma boa demonstração do novo espírito empreendedor lusitano e um exemplo da troca da zona de conforto dos assentos dos automóveis por uma trepidação que se parece com as oscilações dos gráficos das bolsas de valores. Assim, como se estivéssemos em Bangkok – onde estes veículos são quase tão antigos como o reinado de Bhumibol Adulyadej e acrescentaram um toque de exotismo comparável às placas com as letras tailandesas –, Lisboa tem agora centenas de tuk-tuks: pretos, brancos, azuis, encarnados, verdes, amarelos, em tonalidades para daltónico não reconhecer, estampados com padrão de azulejo de parede, sardinhas de modelo modernaço, telas da Tamara Lempicka, pinturas pop de Roy Lichtenstein, imagens do filme Laranja Mecânica... Há quem garanta que esta é a melhor forma de conhecer a Lisboa de Pessoa, a cidade de Cesário, as ruelas e calçadas dos pombos e das guitarras, a Baixa do Pombal e o Chiado do Siza, as vielas e escadinhas da ginjinha e do manjerico, o Bairro Alto e a Rua Cor de Rosa, os sítios onde com sorte talvez cante a Carminho ou o Camané, a cidade branca filmada pelo Alain Tanner e a mais cromática da câmara do Wim Wenders. “Oh! Tempora! Oh! Mores!”

por Fernando Madaíl

Ilustração por José Almeida

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Assim, não chegaram as avenidas novas, os viadutos, as circulares, os tunéis – nada! A Calçada do Carriche, de que Portugal ouve falar todos os dias nas informações de trânsito, encheu-se de carros utilitários; a Marginal com a vertigem de Ferraris que aceleram como se imitassem o Gerhard Berger no autódromo do Estoril; o acanhado Largo da Misericórdia já assistiu às manobras de uma longa limousine hollywoodesca a fazer ali inversão de marcha; toda a cidade se habituou aos autocarros que, entre os desaparecidos verdes de dois andares e os vermelhos dos tours turísticos, se familiarizou com os laranjas da Carris – e os leitores de jornais do resto do país leram títulos surrealistas: “Laranja atropela três pessoas”. O metro, que não sendo claustrofóbico como o pioneiro londrino e tendo estações que seriam as mais belas do mundo se não existissem as monumentais moscovitas, não conta, pois nunca deixa de ser um transporte-toupeira.


100 ORPHEU Numa carta datada de 21 de Setembro de 1915, dirigida a Santa-Rita, escrevia Pessoa:

[…] “Orpheu” não acabou. “Orpheu” não pode acabar. Na mitologia dos antigos, que o meu espírito radicalmente pagão se não cansa nunca de recordar […] há a história de um rio, de cujo nome apenas me entrelembro, que, a certa altura do seu curso, se sumia na areia. Aparentemente morto, ele, porém, mais adiante […] surgia outra vez à superfície, e continuava, com aquático escrúpulo, o seu leve caminho para o mar. Assim quero crer que seja […] a revista […] “Orpheu”.

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Em 2015, um grupo de trabalho reavivou (mais uma vez) esse “rio”, delineando cuidadosamente, laborando intensamente, organizando diversos seminários, colóquios, exposições e congressos internacionais, dezenas de iniciativas que comemorassem o centenário do Orpheu. E consideramos ter sido com um elevado sentido de responsabilidade que, 100 anos depois do lançamento da revista Orpheu, este grupo de trabalho acabou por despertar esse outro “rio” — não de “noturna consistência”, não lidiamente sossegado, antes multicolor, polifónico e pluridiscursivo — como, aliás, convém. Assim se publicam, neste livro, diversos contributos que refletem sobre uma plêiade de escritores e artistas cuja produção foi marcada profundamente por uma experimentação estética e literária: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, António Ferro, Amadeo de Sousa-Cardoso, Santa-Rita Pintor, Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho, Alfredo Pedro Guisado, Armando César Cortes-Rodrigues, Ângelo de Lima, Raul Leal, e outros que, balizados pelo timbre das obras que estes legaram à posteridade, aprofundaram a descontinuidade moderna, numa cadeia de acontecimentos que ainda hoje persistem na memória coletiva luso-brasileira.

Referindo-se ao grupo do Orpheu, disse Eduardo Lourenço: “Tudo o que eles tocam, levanta voo à nossa frente”. Descreveu, desse modo, o impacto que o grupo modernista português vem exercendo sobre a produção artística e literária da contemporaneidade com a publicação da revista Orpheu. Defini-lo perentoriamente como “autêntica revolução poética, sem paralelo na história literária portuguesa” foi um acerto visionário, de modo que estamos ainda a colher os frutos dessa viragem, disseminados muito para além da lusofonia. Procurando celebrar esse centenário (com as honras que também à [re]leitura convidam), o CLEPUL, o LEPEM e o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes responderam de pronto — com a intensidade consentida pela paixão e amor profundos pela Literatura, pelas Artes, pelas Humanidades (reservando-nos, todos nós, o direito de homenagear, diversamente, aqueles que questionaram, clarificando, uma memória coletiva). Perguntar-se-á: Quanto de coletivo terá essa memória coletiva? Quanto de amena perversidade (ou não) terão a mitificação da História e a comemoração de uma revista que definitivamente balizou? Se dúvidas houvesse acerca da representatividade e do benefício estruturante da consciência histórica para a sobrevivência de uma coletividade, bastaria recordar que o próprio conceito de coletividade linguística integra em si uma imagem dinâmica — imagem esta que só se concretiza enquanto consciência transformada em discurso, ato e obra realizada. E é, no fundo, essa consciência que (de acordo com Pessoa) permitirá ao homem atingir aquela «vitalidade» que, em 1912, ele emprestava à «exuberância de alma» de uma comunidade, à sua «capacidade de criar […] novos moldes, novas ideias gerais». É, afinal, essa “exuberância”, essa “capacidade criativa” com que os órficos sinalizaram a literatura portuguesa que, com este livro, relembramos — procurando, por um lado, contribuir para a (re)avaliação da geração de Orpheu (preenchendo novos “lugares” de leituras) e, por outro, dar razão às palavras de Pessoa publicadas em 1935, no nº 3 da revista Sudoeste, quando dizia: “[…] Orpheu acabou. Orpheucontinua”. Dionísio Vila Maior Annabela Rita


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Lugar aos novos

A cloaca do futuro Para dizer a verdade, às vezes não percebo os mais velhos. E no meu rosto, um peso traz um paladar amargo, como se estivesse vestida com um roupão de azedas. Felizmente, consigo logo trocá-lo pelo meu de cetim. Por um lado, não percebo os que decidiram construir aquele prédio enorme e por outro, já não conheço o meu avô. Eu tento-lhe contar anedotas novas e ele ri-se um bocadinho, abre devagarinho a boca e mostra alguns dentes mas acho que ele não se está a rir a sério como acontecia antes de os médicos o devolverem para se instalar numa cama toda xpto no quarto lá de cima de tudo, com tubinhos e sacos com líquidos a entrarem-lhe nos braços por debaixo dos pensos.

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Ainda me lembro quando íamos juntos, era eu ainda mesmo pequenina, àquela tasca mesmo ao lado de casa e que tem uma fotografia grande do Fernando Farinha esticada com orgulho na parede principal. O meu avô dizia-me que lhe chamavam o miúdo da Bica e que tinha uma voz perfeitinha, aguda, quase de ópera e que, nas noites em que cantava toda a gente aqui na Bica abria as janelas de casa para ouvir o Fado, já que era de noite e os passarinhos se tinham calado quando o Sol escondia as suas últimas linhas redondas e cálidas atrás das telhas. Lembro-me especialmente dos momentos em que ele se ria às gargalhadas com aquela força que só os adultos conseguem fazer, até àquele ponto em que achamos que o peito pode rebentar com aqueles batimentos violentos e roucos. Normalmente, fazia-o quando uma desgraçazinha menos grave acontecia a alguém e ele achava por bem rir-se dela, ou deles. No princípio, ficávamos ofendidos, mas, logo a seguir, e quando conseguíamos ver as coisas da perspectiva dele, percebíamos que rirmos dos nossos problemas era remédio santo. O difícil, mesmo, era chegar a esse ponto e não ficarmos com ressentimentos, aqueles ressentimentos que nos obrigavam a pensar que o avô estava a ser injusto egoísta ou apático, e que até às vezes instigavam uma temporária revolta dentro de nós no sentido em que talvez a nossa amizade e entrega tinha sido toda em vão. Normalmente, percebíamos aquele sorriso quando

depois da piada aparentemente de mau gosto que ele dizia ficava a olhar para nós através do brilho especialmente ternurento que lhe vestia a capa fina dos olhos e com uma boca amorosa e jovem, com as rugas de sempre a cruzarem-lhe o rosto, as rugas de sempre a confirmarem que ainda era ele quem ria. Ele era mesmo feliz! E lá por se rir dos outros às vezes não quer dizer que o fosse à custa deles. Não. Não era, porque pura e simplesmente acho que se é feliz como o avô quando rir de alguém não traz infelicidade nem desprezo sobre ninguém. Pronto, está claro que às vezes ficávamos ofendidos, mas por tal não ser suposto, o problema era nosso! No outro dia, o avô já não era o mesmo. No outro dia, percebi finalmente que não percebo os mais velhos. E no meu rosto, um peso traz algo amargo, que flutua dentro de mim e se dispersa através dos dedos quando eu resisto à tentação de me zangar com o Mundo. Apesar de ter só nove anos, eu gosto tanto de ler e de escrever que até acho que já consegui perceber algumas coisas de uma forma mais pura e bonita do que eles. Na cara do meu avô ainda vejo algumas feições que poderia descrever como sendo a nuvem mais densa e escura de uma desilusão só encontrada no derradeiro fim da vida. Às vezes parece que ele acha que o Mundo está perdido. Porquê? Perguntaram-me os curiosos. O merceeiro, o arrumador de carros, o maquinista do elevador da Bica, o mecânico das suas roldanas, que exibe metade do seu corpo pintado com óleo preto sobre as jardineiras de ganga ao espreitar como uma toupeira pela cave das máquinas, a costureira que vende roupa às escondidas, o sapateiro da Calçada do Combro, o senhor António das gomas, aquele vizinho estranho que ainda vive com os pais e anda sempre de fato-de-treino, os meus tios, os meus primos mais velhos. Falei com todos eles para perceber se eles achavam que eu tenho razão ou não, mas a única reacção que tive foi uma gargalhada completamente despropositada e uma resposta ingénua a condizer: “Que rapariga tão engraçada! Vejam-me só a conversa dela!”, “Parece mesmo uma adultazinha!”, “Que amor!”, “Esta vai ser atriz!”. O que mais me incomo-


Pois bem. Neste momento escrevo essa carta desde a varanda de minha casa, um terceiro andar na Rua da Bica Duarte Belo, e por debaixo de mim sinto, como sempre senti, absolutamente maravilhada e conquistada pelo amor do bairro, que tenho um milagre de cantaria. Que rua mais perfeita! Parece que estou num conto de princesas e de príncipes. Parece, não estivesse o meu avô de cama, com uns óculos de realidade virtual, último grito da tecnologia de hoje em dia, repousados e abandonados na mesinha de cabeceira dele, para onde agora olha com desprezo. É que há uns meses o avô ficou doente. Veio para cá, onde ficou deitado numa cama de hospital até hoje, e sempre que eu o ia visitar ele dizia-me, com aquela vozinha firme que ele tem, enquanto apontava com o dedo para a janela e com ele desenhava uma coisa invisível no ar: “A coisa que mais me mantém alegre aqui apesar da minha doença é poder ver o Tejo e o pôr-doSol através desta janela, especificamente aquele momento, que dura uns cinco minutos, em que o Sol a atravessa desde o lado esquerdo para o direito para se ir esconder atrás do mar. Sinto-me vivo, como se tivesse o privilégio de, para sempre, poder observar o mais belo quadro do Mundo.” Mas nem tudo correu bem. Sabíamos que a doença do avô era terminal, mas ele não merecia uma falta de respeito tão grande. Houve um dia em que acabaram de construir aquele prédio enorme, numa zona ribeirinha, e qual não foi o espanto do meu

pobre avô quando, ao acordar dum sono tranquilo, numa manhã fresca de primavera, viu que o último andar do mamarracho era tão alto que o cegou definitivamente para o lindo quadro na janela. Num abrir e fechar de olhos, algo parecido ao Soleil Levant de Monet, versão poente, desaparecera para sempre da sua parede, restando só o parafuso pequeno que o segurava para iluminar umas quantas almas. A arte, a beleza, submersas em paredes de betão. Não percebo os mais velhos! Porque é que não o construiram noutro lado? É que aquele prédio moderno, quase futurista, nem tem nada a ver com as casas dos bairros antigos que, com séculos de idade, têm a privilegiada responsabilidade de dar a cara a quem vem de fora, de dizer que assim é Lisboa!, de servir de ninho para as pessoas, o povo daqui, e de aparecer em primeiro lugar nas gravuras da cidade, nas fotografias tiradas desde o Cristo-Rei e cuidadosamente colocadas à venda sob forma de postais nos quiosques dos jardins. Há alguém aí que me compreenda? É que não se trata só de um problema de desenquadramento urbano. Trata-se, sim, de meia dúzia de corações entristecidos, de um enorme véu de fel atirado para cima de umas quantas pessoas do povo, dos vulgares, daqueles que preenchem o Mundo e a nossa cidade, duma cúpula opaca que foi largada desde o céu sobre um bairro histórico, caindo sobre a calçada íngreme com um estrondoso terremoto de desilusão. O avô ficou desfeito. Triste, tão tristinho que até emagreceu. Na cara já não tem rugas, mas toda ela é agora uma grande ruga. Os olhos perderam aquelas estrelinhas de antes, as estrelinhas que colhia serenamente desde o seu pedestal sobre o rio. No dia em que uma petição bairrista circulou de mão em mão, de computador em computador, de boca em boca, no sentido de indemnizar os moradores lesados por tão grave obstrução inabalável à possibilidade feliz e vital de admirar e rezar ao Tejo, muitos diziam que não ia dar em nada. Olhem só no que deu! O presidente da companhia que promoveu e se orgulhou tanto perante os jornais e as câmaras, da maravilhosa sede abismal de cimento e metal que edificou cuidadosamente, a pés de meia, sem fazer barulho para que não se levantassem vozes e rugidos, até que o produto final do dia para a noite mostrava irremediavelmente que quem tem poder e amigos tem prédios da-

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da, e até nem incomoda muito, é que eles nunca perceberam que eu estava mesmo a falar a sério quando saía de casa de propósito para lhes apresentar o problema sério que é a amargura que o meu avô abraçou, sem previsível desapego, desde aquele dia. “Olha-me só esta riqueza! É de chorar por mais.” disse a dona Gertrudes do café do bilhar. Como é que é possível que os adultos não percebam quando é que os mais novos falam com sinceridade? Porque é que olham só para a maneira como falamos e não para aquilo que dizemos e para que os convidamos a ser cúmplices na missão de ajudar? Não percebo, e desde esse dia, decidi que vou tentar mudá-los talvez com uma carta, cuidadosamente dobrada em três e selada num envelope branco e com letra de coisa séria. Em cada casa, pus uma, grande parte das quais ouvi o papel escorregar docemente pela brecha do correio, e em cada queda no fundo da caixa via em mim crescer mais uma refrega de esperança.


quele calibre à frente de toda a gente, decidiu nem sequer responder. Ofereceu, porém, ao meu avô, depois de ter conhecido o seu triste fim, sem quadro com rio e Sol na janela, num detalhe perdido na manchete dum jornal, um presente altamente sofisticado. Acompanhado de uma dúzia de jornalistas com câmaras e rodeado de uma camarilha de assessores, tocou à nossa porta, premindo com um sorriso brilhante a campainha estragada do rés-do-chão, abrindo os olhos para a fotografia, permanecendo com o dedo no botão para que o filmassem a agir com altruísmo, lançando vénias e sorrisos continuamente para justificar o aparato. E eu, atrás dele, encostada à parede do talho, de mão atrás das costas, sem perceber os mais velhos.

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Assim que a nossa enfermeira percebeu o alarido, abriu a janela do último andar, onde o meu avô estava deitado, e ficou ali, paralisada e séria, sem perceber o que se passava. Em baixo, Romeu, os bonzinhos, os empresários beneméritos, a parte irresponsável da classe política e empresarial a querer pedir desculpa, a mostrar que da sua gula selvagem também transbordam resquícios vivos de solidariedade, a declarar amor, perdidos na sua paixão unilateral. Em cima, Julieta, no topo, na varanda, de cabelo solto. Onde é que eu já li isto? Mas tudo acabou de forma inesperada. O presidente da companhia que construiu o grande edifício falou aos jornalistas e sacou duns óculos de realidade virtual. Disse, alegremente, que aquele coração abalado não tinha de sofrer mais. Por isso, ser-lhe-ia oferecido um par de óculos sofisticado, uns óculos com um visor em três dimensões, que se colava à cara e onde se poderiam programar as mais diversas e exóticas paisagens, em substituição do pôr-do-Sol no Tejo real. O homem pôs os óculos em si mesmo, levantou os polegares perante as câmaras, sorriu, fez vivas!, abriu os braços, tirou fotografias, como se a solução para o problema do meu avô estivesse ali, tão fácil, tão tecnológica, tão ao alcance duma mesinha de cabeceira, e começou a subir as escadas íngremes de nossa casa a ser observado por centenas de pessoas que se amontoavam à porta. Feliz e infelizmente, tropeçou, de óculos postos, começou a descer de volta as escadas de marcha atrás, o povo não o segurou, os jornalistas afastaram-se para o filmar, a sua entourage ingénua ficou paralítica com aquela cena e por isso toda a gente o deixou ir, costa

abaixo, quase de patins, de costas, desamparado, de braços esticados para a frente, voltando a sair do nosso prédio, em desequilíbrio, atravessando a rua do elevador da Bica dum lado para o outro, onde estava uma casa-de-banho portátil de porta aberta, reminiscência da festa dos santos populares, e em cujo buraco negro foi mergulhar o seu magistral rabo em fato de seda, e de onde jorrou, dado o impacto sobre cloaca, um jacto líquido de caca vertical. O que se passou a seguir não pode ser descrito ao correr da pena. O homem ficou ali, sentado dentro da retrete, recheado daquilo que de todos nós sai para nunca mais voltar, de óculos de realidade virtual pendurados toscamente no nariz, ridicularizado, fotografado por todos, e talvez só assim compreendendo que nada substitui o paladar e a imagem real dum rio e do Sol, nada é mais elevado que a Vida, a de todos e a de cada um, Vida que o fez justiça fazê-lo cair na real, compreendendo então que, afinal, viver sentado ou deitado enquanto se foge à realidade com a imagem tridimensional daquele artefacto artificial só pode resultar, ao fim de contas, numa valente porcaria. Para dizer a verdade, às vezes não percebo os mais velhos. E no meu rosto, um peso traz um paladar amargo, como se estivesse vestida com o roupão de azedas. Felizmente, consigo logo trocá-lo pelo meu de cetim.

por Sebastião Botelho Moniz Burnay


Tradicional

Cosmopolita

Alternativo

Hipster

Multicultural

Para entrar

Na rua

LIS BO NAR O Nosso Guia de Lisboa

[111]

Clรกssico


Mapade

Lisboa COA

PR

SLM

AP

[112]

ZR

BCS


BXM

AV GM

CA

BA BC

ZR - Zona Ribeirinha AP- Alcântara | Pampulha COA - Campo de Ourique | Amoreiras SLM - Santos | Lapa | Madragoa PR - Príncipe Real BCS- Bica | Cais do Sodré BA - Bairro Alto AV - Avenida BC - Baixo Chiado CA - Castelo | Alfama GM- Graça | Mouraria AR - Almirante Reis BXM - Beato | Xabregas | Marvila FC - Fora do centro [113]

S

AR


CLÁSSICO GAMBRINUS | AV

BAR PROCÓPIO | COA

Todos os dias das 12h00 à 01h30 Rua das Portas de Santo Antão, 23 1150-264 Lisboa N 38° 42’ 55’’ W 9° 8’ 22’’ +351 213 421 466 www.gambrinuslisboa.com

Segunda a Sexta das 18h00 às 03h00 Sábado a partir das 21h00 Alto de S. Francisco, 21 A 1250-096 Lisboa N 38° 43’ 19’’ W 9° 9’ 19’’ +351 213 852 851 www.barprocopio.com

RESTAURANTE

PINÓQUIO | AV RESTAURANTE

PASTELARIA BÉNARD | BC

Segunda a Domingo das 12h00 às 24h00 Praça dos Restauradores, 79 1250-188 Lisboa N 38° 42’ 55’’ W 9° 8’ 27’’ +351 213 465 106 www.restaurantepinoquio.pt

Segunda a Sábado das 8h00 às 23h00 Rua Garrett, 104 1200-205 Lisboa N 38° 42’ 38’’ W 9° 8’ 30’’ +351 213 473 133

XL | SLM

RESTAURANTE Segunda e Terça das 20h00 às 00h00 Quarta e Quinta das 20h00 às 01h00 Sexta e Sábado das 20h00 às 02h00 Calçada da Estrela, 57 1200-661 Lisboa N 38° 42’ 42’’ W 9° 9’ 17’’ +351 213 956 118

COELHO DA ROCHA | COA RESTAURANTE

De Segunda a Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Rua Coelho da Rocha, 104 1350-079 Lisboa N 38° 42’ 59’’ W 9° 10’ 0’’ +351 213 900 855 www.facebook.com/restaurantecoelhodarocha

O POLEIRO | FC RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h15 às 15h00 e das 19h15 às 23h00 Rua de Entrecampos 30 - A 1700 158 Lisboa N 38° 44’ 44’’ W 9° 8’ 45’’ +351 217 976 265 www.opoleiro.com

BAR SNOB | PR BAR

Todos os dias das 16h00 às 03h00 Rua do Século, 178 1200-438 Lisboa N 38° 42’ 54’’ W 9° 8’ 51’’ +351 213 463 723 www.snobarestaurante.com

[114]

BAR

PASTELARIA

CASA DE CHÁ DE STª ISABEL VICENTINAS | SLM SALA DE CHÁ

Segunda das 15h30 ás 19h00 Terça a Sábado das 11h30 às 19h00 Rua de São Bento, 700 1250-223 Lisboa N 38° 43’ 9’’ W 9° 9’ 20’’ +351 917 422 749 www.casadecha.org

CASA PEREIRA | BC CASA DE CAFÉS

Segunda a Sábado 09h30 às 18h30 Rua Garrett, 38 1200-028 Lisboa N 38° 42’ 39’’ W 9° 8’ 25’’ +351 213 426 694 www.facebook.com/casapereira

CAMISARIA PITTA | BC LOJA

R. Augusta, nº195/197 1100-170 Lisboa N 38° 42’ 41’’ W 9° 8’ 17’’ +351 213 427 526

PARIS EM LISBOA | BC LOJA

Segunda a Sábado das 10h00 às 19h00 Rua Garrett, 77, 1200-203 Lisboa N 38° 42’ 28’’ W 9° 8’’ 30’’ +351 213 424 329 www.parisemlisboa.pt


TRADICIONAL PÁTEO 13 | CA

MANTEIGARIA SILVA | BC

Terça a Domingo das 11h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Calçadinha de Santo Estêvão, 13 1100-502 Lisboa N 38° 42’ 42’’ W 9° 7’ 39’’ +351 218 882 325 https://www.facebook.com/PATEO13

Segunda a Sábado das 09h00 às 19h30 Rua Dom Antão de Almada, 1 D 1100-197 Lisboa N 38° 42’ 50’’ W 9° 8’ 19’’ +351 213 424 905 www.manteigariasilva.pt

D. QUITÉRIA | PR

ALUNOS DE APOLO | COA

RESTAURANTE

DANÇAS DE SALÃO

Terças das 19h00 às 00h00 Quarta a Domingo das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 00h00 Travessa de São José, nº1 - Praça das Flores 1200-415 Lisboa N 38° 42’ 50’’ W 9° 9’ 5’’ +351 213 951 521

Rua Silva Carvalho, n.º 225 1250-250 Lisboa N 38° 43’ 13’’ W 9° 9’ 40’’ +351 213 885 366 www.alunosdeapolo.com

SINAL VERMELHO | BA

MESA DE FRADES | CA

Segunda das 19h00 às 00h00 Terça a Sexta das 12h30 às 00h30 Sábado das 19h00 às 00h30 Rua das Gáveas, 89 1200-206 Lisboa N 38° 42’ 44’’ W 9° 8’ 36’’ +351 213 461 252 / +351 213 431 281 www.facebook.com/RestauranteSinalVermelho

Segunda a Sábado das 20h00 às 02h30 Rua dos Remédios, 139 A 1100-445 Lisboa N 38° 42’ 47’’ W 9° 7’ 33’’ +351 917 029 436 www.facebook.com/mesadefradeslisboa

TASQUINHA DO LAGARTO | FC

CARROSSEL | SLM

RESTAURANTE

RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 15h30 e das 19h00 às 22h30 Rua de Campolide, Nº 258 1070-039 Lisboa N 38° 44’ 3’’ W 9° 9’ 52’’ +351 213 883 202 www.facebook.com/tasquinhadolagarto

TABERNA DA RUA DAS FLORES | BCS RESTAURANTE

Segunda a Sexta das 12h00 às 00h00 Sábado das 18h00 às 00h00 Rua das Flores, 103 1200-194 Lisboa N 38° 42’ 36’’ W 9° 8’ 36’’

CHARCUTARIA

CASA DE FADOS

PASTELARIA

Segunda a Sexta das 07h00 às 22h00 Sábado das 08h00 às 18h00 Avenida Infante Santo, 347 A 1350-290 Lisboa N 38° 42’ 41’’ W 9° 9’ 51’’ +351 213 960 536

GINJINHA SEM RIVAL | BC BAR

Rua das Portas de Santo Antão, nº7 1150-268Lisboa N 38° 42’ 54’’ W 9° 8’ 22’’ +351 213 468 231 www.facebook.com/GinjaSemRivaleEduardino

[115]

RESTAURANTE


COSMOPOLITA MINI BAR | BC

CINCO LOUNGE | PR

Segunda a Domingo das 19h00 à 02h00 Rua António Maria Cardoso, nº58 1200-027 Lisboa N 38° 42’ 33’’ W 9° 8’ 32’’ + 351 211 305 393 www.minipabar.pt

Segunda a Domingo das 21h00 às 02h00 Rua Ruben A Leitão, 17 A 1200-392 Lisboa N 38° 42’ 51’’ W 9° 8’ 59’’ +352 914 668 242 www.cincolounge.com

PAP’AÇORDA | BCS

ROOFTOP BAR HOTEL MUNDIAL | AR

RESTAURANTE

RESTAURANTE

Terça a Quarta das 12h00 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h00 às 02h00 Domingo das 12h00 às 00h00 Avenida 24 de Julho, 49 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 24’’ W 9° 8’ 45’’ +351 213 464 811 www.papacorda.com

BY THE WINE | BCS

RESTAURANTE/WINE BAR

Segunda das 18h00 às 00h00 Terça a Domingo das 12h00 às 00h00 Rua das Flores, nº 41-43 1200-014 Lisboa N 38° 42’ 32’’ W 9° 8’ 37’’ +351 213 420 319 www.jmf.pt

BAR

Verão das 18h00 às 00h30 Inverno 17h30 às 23h30 Encerra às Segundas-feiras Praça Martim Moniz, 2 1100-341 Lisboa N 38° 42’ 54’’ W 9° 8’ 13’’ +351 218 842 000 www.hotel-mundial.pt/pt-pt/restaurantes-e-bar/rooftop-bar

TOPO CHIADO | BC BAR

Segunda a Quarta das 12h30 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h30 às 02h00 Domingo das 12h30 às 00h00 Centro Comercial Martim Moniz, Piso 6 N 38° 42’ 58’’ W 9° 8’ 8’’ +351 215 881 322 www.topo-lisboa.pt

RIO MARAVILHA | AP

LUX – FRÁGIL | ZR

Terça das 18h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 12h30 às 02h00 Sexta e Sábado das 12h30 às 03h00 Domingo das 12h30 às 18h00 Rua Rodrigues Faria, nº 103 LX Factory | Entrada 3 | Piso 4 1300-501 Lisboa N 38° 42’ 12’’ W 9° 10’ 43’’ +351 966 028 229 www.riomaravilha.pt

Avenida Infante D. Henrique, Armazém A Cais da Pedra de Santa Apolónia 1950-376 Lisboa N 38° 42’ 53’’ W 9° 7’ 15’’ +351 218 820 890 www.luxfragil.com

RESTAURANTE/BAR

SEA ME PEIXARIA MODERNA | BCS RESTAURANTE/ BAR

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BAR

Segunda a Quinta das 12h30 às 15h30 e das 19h30 às 00h00 Sexta das 12h30 às15h30 e das 19h30 à 01h00 Sábado das 12h30 à 01h00 Domingo das 12h30 às 00h00 Rua do Loreto, 21 1200-049 Lisboa N 38° 42’ 38’’ W 9° 8’ 39’’ +351 213 461 564/65 www.peixariamoderna.com

DISCOTECA

EMBAIXADA | PR LOJA

Segunda a Quarta das 12h00 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h00 às 02h00 Domingo das 12h00 às 00h00 Praça do Príncipe Real, 26 1250-184 Lisboa N 38° 43’ 1’’ W 9° 9’ 54’’ +351 965 309 154 www.embaixadalx.pt

GALERIAS DE SÃO BENTO | BCS LOJA

R. de São Bento, 25-35 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 38’’ W 9° 9’ 9’’ +351 912 984 929 www.galeriasdesaobento.com


HIPSTER PETISQUEIRA IDEAL | SLM

TABACARIA | BCS

Segunda a Sábado das 19h30 às 02h00 Rua da Esperança, 100 1200-658 Lisboa N 38° 42’ 29’’ W 9° 9’ 17’’ +351 213 971 504

Segunda a Domingo das 18h00 às 02h00 Rua de São Paulo, nº 75 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 29’’ W 9° 8’ 45’’ +351 213 420 281

OSTERIA | SLM

LOUNGE | BCS

RESTAURANTE

BAR

Segunda e Terça das 19h30 à 01h30 Quarta a Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h30 à 01h30 Domingo das 12h00 às 00h00 Rua das Madres, nº 52-54 1200-712 Lisboa N 38° 42’ 31’’ W 9° 9’ 17’’ +351 213 960 584 www.osteria.pt

Segunda a Domingo das 22h00 às 04h00 Rua da Moeda, nº1 - Porta O/P 1200-275 Lisboa N 38° 42’ 28’’ W 9° 8’ 49’’ +351 213 973 730 www.loungelisboa.com.pt/blog

ISCO | BCS

RESTAURANTE Segunda a Quinta das 19h00 às 00h30 Sexta das 19h00 às 02h00 Sábado das 12h30 às 02h00 Domingo das 12h30 às 00h30 Rua do Almada, 29 1200-288 Lisboa N 38° 42’ 36’’ W 9° 8’ 48’’ +351 213 461 376 www.facebook.com/restauranteisco

QUIOSQUE DO OLIVEIRA | PR QUIOSQUE PRÍNCIPE REAL Aberto 24h Praça Príncipe Real 1250-301 Lisboa N 38° 42’ 58’’ W 9° 8’ 52’’ +351 213 428 334

O BOM O MAU E O VILÃO | BCS BAR

Segunda a Quinta das 19h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 19h00 às 03h00 Domingo das 19h00 às 02h00 Rua do Alecrim, 21 1200-161 Lisboa N 38° 42’ 26’’ W 9° 8’ 36’’ +351 964 531 423 www.thegoodthebadandtheuglybar.com

BAR

MAGA SESSIONS | FC CONCERTOS

Aberto em dias de concerto das 18h00 às 23h00 Avenida da República, nº 10 - 2E 1050-191 Lisboa N 38° 42’ 7’’ W 9° 8’ 41’’ +351 919 370 527 www.magasessions.com

LX FACTORY | AP SÍTIO

Rua Rodrigues de Faria, nº103 1300-501Lisboa N 38° 42’ 12’’ W 9° 10’ 43’’ +351 213 143 399 www.lxfactory.com

FEIRA DAS ALMAS | AR COMPRAS

Regueirão Dos Anjos, 70 1150-028 Lisboa N 38° 43’ 31’’ W 9° 8’ 9’’ www.feiradasalmas.org

CAFÉ TATI | BCS BAR

Terça a Domingo das 11h00 à 01h00 R. Ribeira Nova, nº 36 1200-371 Lisboa N 38° 42’ 27’’ W 9° 8’ 43’’ +351 213 461 279 www.cafetati.blogspot.pt

[117]

RESTAURANTE


ALTERNATIVO CREW HASSAN | AV ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Segunda a Domingo das 12h00 às 24h00 Rua Portas de Santo Antão, 159 1170-016 Lisboa N 38° 43’ 21’’ W 9° 7’ 59’’ +351 21 8120373 | +351 962 233 416 www.facebook.com/ccrewhassan

FÁBRICA DE BRAÇO DE PRATA | BXM ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Terça das 20h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 18h00 às 02h00 Sexta das 18h00 às 04h00 Sábado das 14h00 às 04h00 Rua da Fábrica de Material de Guerra, nº1 1950-128 Lisboa N 38° 44’ 37’’ W 9° 6’ 4’’ +351 965 518 068 | +351 925 864 579 www.bracodeprata.com

CASA INDEPENDENTE | AR BAR

Terça a Quinta das 14h00 às 23h45 Sexta das 14h00 às 02h00 Sábado das 12h00 às 02h00 Largo do Intendente Pina Manique, 45 1100-395 Lisboa N 38° 43’ 15’’ W 9° 8’ 4’’ +351 218 872 842 ww.casaindependente.com

BAR

Segunda a Sábado das 19h30 às 03h00 Rua da Rosa, 261, 1200-391 Lisboa N 38° 42’ 52’’ W 9° 8’ 45’’ +351 213 430 622

49 | BA BAR

Quarta e Quinta das 22h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 22h00 às 03h00 Rua da Barroca, 49 1200-043 Lisboa N 38° 42’ 41’’ W 9° 8’ 40’’ +351 213 430 205

MIRADOURO DO ADAMASTOR | BCS ESPLANADA

Segunda a Domingo das 10h00 às 04h00 Miradouro de Rua de Santa Catarina, 401 1200 Lisboa, Portugal N 38° 42’ 34’’ W 9° 8’ 51’’ +351 213 430 582

CHAPITÔ | CA Costa do Castelo, n.º 1/7 1149-079 Lisboa N 38° 42’ 41’’ W 9° 8’ 1’’ + 351 218 855 550 www.chapito.org

ÁGUA NO BICO | BCS

DAMAS | GM

RESTAURANTE

BAR / SALA DE CONCERTOS

Terça a Quarta das 10h00 às 21h00 Quinta a Sábado das 10h00 às 00h00 Domingo das 11h00 às 18h00 Rua das Gaivotas, 8 1200-202 Lisboa N 38° 42’ 33’’ W 9° 9’ 3’’ +351 910 111 470

Terça a Quinta das 13h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 13h00 às 04h00 Domingo das 17h00 às 24h00 Rua da Voz do Operário, 60 1100-621 Lisboa N 38° 42’ 59’’ W 9° 7’ 45’’ +351 964 964 416

ZDB | BA

ASSOCIAÇÃO CULTURAL Rua da Barroca, nº 59 1200-049 Lisboa N 38° 42’ 42’’ W 9° 8’ 40’’ +351 213 430 205 www.zedosbois.org

[118]

AGITO | BA

CINEMA IDEAL | BCS CINEMA

Rua do Loreto, 15/17 1200-106 Lisboa N 38° 42’ 38’’ W 9° 8’ 39’’ +351 210 998 295 www.cinemaideal.pt


MULTICULTURAL EL ULTIMO TANGO | BA

OS TIBETANOS | AV

Segunda a Quinta das 19h30 às 23h00 Sexta e Sábado das 19h30 às 23h30 Rua do Diário de Notícias, 62 1200 Lisboa N 38° 42’ 43’’ W 9° 8’ 38’’ +351 213 420 341

Segunda a Sextas das 12:h15 às 14h45 e das 19h30 às 22h30 Sábados das 12h45 às 15h30 e das 20h00 às 23h00 Domingos das 12h45 às 15h30 e das 19h30 às 22h30 Rua do Salitre, 117 1250-198 Lisboa N 38° 43’ 11’’ W 9° 8’ 55’’ +351 213 142 038 | +351 932 846 610 www.tibetanos.com

RESTAURANTE

BELLA CIAO | BC RESTAURANTE

Segunda a Quinta das 11h00 às 16h00 e das 19h00 às 00h00 Sexta e Sábado das 11h00 às 16h00 e das 19h00 à 01h00 Rua do Crucifixo, 21 1100-548 Lisboa N 38° 42’ 34’’ W 9° 8’ 19’’ +351 210 935 708 www.cantinabellaciao.wixsite.com/bellaciao

PISTOLA Y CORAZÓN | BCS

RESTAURANTE

CHINÊS CLANDESTINO | GM RESTAURANTE

Segunda a Domingo das 11h30 às 15h30 e das 19h30 às 23h30 Rua da Guia, 9, 2º Dto, 1100-335 Lisboa N 38° 42’ 57’’ W 9° 8’ 2’’ +351 966 355 786

RESTAURANTE

Almoço: Terça a Sexta das 12h00 às 15h00 Jantar: Segunda a Domingo das 18h00 às 00h00 Almoço: Domingo das 12h00 às 15h00 Rua da Boavista, 16 1200-427Lisboa – Portugal N 38° 42’ 31’’ W 9° 8’ 51’’ +351 213 420 482 www.pistolaycorazon.com

CAXEMIRA | BC

PIZZARIA LUCCA | FC PIZZARIA

Todos os dias das 12h00 às 15h30 e das 19h00 à 01h00 Travessa Henrique Cardoso, 19-B, 1700-342 Lisboa N 38° 44’ 42’’ W 9° 8’ 28’’ +351 217 972 687 www.lucca.pt

RESTAURANTE

TEMPLO HINDU | FC

KAMPAI | SLM RESTAURANTE

Calçada da Estrela, 35-37, 1200-661 Lisboa N 38° 42’ 41” W 9° 9’ 12” T +351 213 971 214 www.kampai.pt

RESTAURANTE

ÁGUA DE BEBER | BCS

Segunda a Domingo das 12h30 às 14h30 e das 19h30 às 21h30 Alameda Mahatma Gandhi Complexo Comunidade Hindu 1600-500 Lisboa N 38° 46’ 11’’ W 9° 10’ 25’’ +351 217 524 982

Quarta, Quinta e Domingo das 18h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 03h00 Travessa de São Paulo, 8, 1200-431 Lisboa N 38° 42’ 27” W 9° 8’ 42” +351 214 039 956

BAR

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Segunda a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 18h30 às 22h00 Rua Condes de Monsanto, 4 1100 Lisboa N 38° 42’ 48’’ W 9° 8’ 12’’ +351 218 865 486 | +351 218 874 791


PARA ENTRAR

NA RUA

MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA | SLM

AVENIDA RIBEIRA DAS NAUS N 38° 42’ 20’’ W 9° 8’ 25’’

Terça a Domingo das 10h às 18h Rua das Janelas Verdes 1249-017 Lisboa N 38° 42’ 17’’ W 9° 9’ 41’’ +351 213 912 800 www.museudearteantiga.pt

MAAT | ZR Quarta a Segunda das 12h às 20h Av. Brasília, Central Tejo 1300-598 Lisboa N 38° 41’ 44’’ W 9° 11’ 41’’ +351 210 028 130 www.maat.pt

MUSEU DE LISBOA | FC Museu de Lisboa Palácio Pimenta | Museu de Lisboa – Santo António | Museu de Lisboa – Teatro Romano Terça a Domingo das 10h00 às 18h00 Museu de Lisboa – Casa dos Bicos De Segunda a Sábado das 10h00 às 18h00 Palácio Pimenta Campo Grande 245, 1700-091 Lisboa N 38° 45’ 30” W 9° 9’ 23” +351 217 513 200 www.museudelisboa.pt

JARDIM DA ESTRELA N 38° 42’ 52’’ W 9° 9’ 32’’

JARDIM DO TOREL N 38° 43’ 8’’ W 9° 8’ 27’’

CICLOVIA DE MONSANTO N 38° 43’ 57’’ W 9° 11’ 22’’

ROCHA DO CONDE DE ÓBIDOS N 38° 42’ 10’’ W 9° 9’ 45’’

TAPADA DAS NECESSIDADES N 38° 42’ 32” W 9° 10’ 11”

MIRADOURO DA SENHORA DO MONTE N 38° 43’ 10” W 9° 7’ 57”

CONVENTO DOS CARDAES | PR Segunda a Sexta das 14h30 às 17h30 Rua Eduardo Coelho, nº1 1200 -164 Lisboa N 38° 42’ 53’’ W 9° 8’ 53’’ +351 213 427 525 www.conventodoscardaes.com

PARQUE DO MONTEIRO MOR N 38° 46’ 33” W 9° 10’ 0”

JARDIM BOTÂNICO DA AJUDA N 38° 42’ 22” W 9° 12’ 2”

CONVENTO DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA | BA

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Outubro a Março: de Terça-feira a Domingo, das 10h00 às 18h00. Segunda-feira das 14h00 às 18h00 Abril a Setembro: Terça-feira a Domingo, das 10h00 às 19h00. Segunda-feira das 14h00 às 19h00. Quinta-feira das 10h00 às 20h00. Rua São Pedro de Alcântara, 85 1200-089 Lisboa N 38° 42’ 54’’ W 9° 8’ 41’’

MIRADOURO DE SANTA LUZIA N 38° 42’ 42” W 9° 7’ 49”


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MOULLINEX A CELEBRAÇÃO DO GROOVE


Moullinex é um dos mais interessantes músicos do momento, arrastando fãs fidelíssimos para os seus concertos e DJ sets, seja em grandes festivais como o SBSR ou em discotecas como o LuxFrágil. A sua música electrónica já passa fronteiras e tem animado as noites de países longínquos como o México ou a Coreia, com um sucesso que, como veremos ao longo desta pequena conversa, surpreendeu até o próprio. Moullinex é, na verdade, Luís Clara Gomes, filho do músico/compositor/dramaturgo/poeta Carlos Clara Gomes, por isso é natural que a música lhe corra nas veias, com a mesma intensidade que o gosto pela investigação científica, que abandonou definitivamente, mas com pena, para se dedicar de alma e coração à música electrónica e à produtora discográfica D.I.S.C.O Texas, que fundou em 2007 com o amigo XINOBI. Como é que surgiu Moullinex? Bem, surgiu sem grande plano. Foi em 2007, creio eu. Nessa altura tinha um colectivo de Djs em Viseu que se chamava Mecanismo Divino, que nós criámos não com grandes pretensões, mas com o objectivo de passar música que gostássemos, porque não tínhamos essa oferta na cidade. Isto fez com que me interessasse cada vez mais pela música dançável e pela electrónica. Eu já estava a fazer música na altura, envolvido em diferentes bandas - com muita música electrónica também - mas nunca tinha publicado nada. Então comecei, não oficialmente, a fazer remixes de temas que gostava e numa altura em que precisava dar um nome a uma remix que fiz, decidi chamar-lhe Moullinex. Foi assim o contexto, se calhar porque gostava de electrónica francesa.... Mas não foi assim que entraste no mundo da música, pois não?

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Pois....não foi... Sempre tive uma relação próxima com a música, mas nunca levei a sério, porque sempre quis ser cientista, estar ligado à engenharia. A minha chegada à música veio através da tecnologia, era o que me fascinava quando era miúdo, desmontar e montar coisas. Daí a música electrónica, porque acho que é a que se faz mais fácil quando temos domínio da tecnologia e nenhum domínio dos instrumentos. Foi assim que comecei.


Moullinex Entretanto começaram a convidar-me para tocar aqui e ali, como Dj. Nunca o tinha feito e senti necessidade de aprender e de compreender essa tarefa. E como se compreende essa tarefa? Ouvindo outros Djs basicamente...uma mistura de... Hoje ser DJ é algo de muito mais tecnológico do que na década de 70. Aquela imagem mítica do DJ com 300 discos à volta desapareceu. Pois, exatamente, é quase uma escola de artesanato que eu aprecio muito. Mas era difícil, até economicamente. Ser DJ antigamente implicava ter uma colecção de discos a sério, portanto era preciso perder tempo a ir às lojas encontrar aquelas coisas de que andamos à procura para contar histórias, porque, no fundo, ser DJ é saber criar um diálogo com o público. Se o público não estiver para ouvir aquela história o DJ, se calhar, terá de fazer um desvio e contar outra. Isso já te aconteceu? Sim....Eu acho que é isso que é apelativo, poder ir ao outro lado do mundo e encontrar um público que reage de maneira diferente à música. Se bem que acho que a música com groove é universal e desperta o mesmo tipo de reacção em qualquer ser humano, mas depois existem alguns públicos mais gloser. Que estão habituados a ver muita coisa, que têm esse sentimento de: “Ah já vi coisas demais não me vou divertir”, ou então há públicos que reagem a tudo efusivamente e é muito bom ter estas diferenças, é o que faz os DJ sets serem apelativos para mim. É sempre diferente. Por isso é que não faço sets pré-definidos, pois sei que a mesma sequência de músicas pode funcionar num lugar, ou não, dependendo de quem estava a tocar antes de mim, do tempo que está, da disposição das pessoas naquele sítio, das horas a que toco, se é de dia ou de noite, se as bebidas são boas ou são más (risos). Portanto há muitos factores, eu gosto de não ir com as coisas definidas, até porque acho que quanto mais uma pessoa vai preparada e demasiado rígida em relação ao que vai fazer, pior é a experiência.

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E qual foi o DJ set que te deu mais gozo fazer? Muitos, é difícil escolher um, se calhar con-

sigo dizer-te uns 5, mas um é muito difícil. A primeira vez que fomos à Coreia, eu e o Xinobi, foi uma reacção muito efusiva do público a cada passagem que fazíamos, não conhecendo as músicas, já estavam a celebrar e isso foi mesmo interessante, não estava à espera de ter um público tão caloroso na Coreia. Sempre que posso, sempre que me convidam, vou ao México. Acho que é um público fantástico e isso é que é mágico na música, nós fazermos música em Lisboa sem nunca pensar na eventualidade de alguém no México poder gostar dela. Isso acontece, e isso é mesmo bom! Assim, ter de eleger um lugar, um momento, é muito difícil. Também em Portugal gosto de ver as diferenças entre os vários sítios, festivais, clubes, discotecas, festas que só acontecem uma vez ou outra neste lugar e gosto de explorar essas diferenças, é muito bom tocar cá! E o que é que te inspira para compor? Eu acho que sou uma pessoa muito pragmática e sempre tive uma abordagem muito contida. Não tenho ilusões de grandeza. Embora sejas o ídolo hipster do momento... Não claro que não. Espero bem que não, porque, por norma esse título desaparece tão rápido quanto aparece, portanto espero bem que não! Estava perfeitamente contente com a minha carreira de investigação, quando dei conta que havia gente suficiente que gostava da minha música ao ponto de estarem dispostos a convidar-me para lhes ir apresentar a minha música. Isso fezme levá-la um pouco mais a sério. Não foi do tipo sentar-me e decidir: vou fazer música pois é isto que eu tenho de fazer. O problema é que há muitas coisas que eu gosto de fazer e é por isso que também não estou satisfeito só como DJ, nem só como produtor. Eu e o Xinobi, sentimos necessidade de criar uma editora, uma plataforma que nos permitisse lançar não só a nossa música, mas também a música das pessoas que admiramos e que sentimos que também têm esse problema da logística de saber editar um disco, de o fazer chegar às pessoas, de o materializar num objecto físico. Não existia... Não existia. Por outro lado tínhamos a ingenuidade de pensar: então, hoje em dia as fronteiras entre público e artistas e consumidores diluíram-se”, não faz muito


Moullinex

Entre a perfeição técnica e a veia artística? É isso! É isso! Gosto mesmo que assim seja, até por causa da investigação. Estive muito tempo a fazer música e a fazer investigação em simultâneo, sempre rodeado de artistas ou cientistas, apesar de existir uma espécie de.... Barreiras? Sim, mas que acabam por não existir na realidade, porque cientistas e artistas têm o mesmo tipo de personalidade. Os bons cientistas têm os mesmos traços de personalidade dos bons artistas. E quais são eles? Uma curiosidade gigante pelo mundo; o gosto de questionar as coisas que ninguém questiona; o facto de não aceitarem verdades que nos são impostas: a música de dança tem que ser 4 por 4 e não pode ter instrumentos orgânicos, ou a Terra é plana e no final está um precipício! Mas isso todos sabemos que está (risos). No final está um precipício, mas acho que

é mais causado por nós do que por uma entidade externa. Lá está, acho que o facto de vir da ciência faz com que aborde a música de uma forma pragmática, embora tenha percebido que tenho de deixar espaço para que as coisas aconteçam caoticamente. Insistes muito no teu lado pragmático de cientista, e hesitas muito em aceitar o teu lado criativo de artista. Não gosto de achar que é só uma veia artistica que me move. Há muitas coisas a impulsionar-me nesta direcção. Demorei a deixar de ser cientista, custou-me muito. Mas, dei conta que não tinha tempo para isso e tive de o fazer. Já lá vão 10 anos desde que eu faço a música com este nome e só nos últimos 4-5 é que me dispus a fazê-la a tempo inteiro. Felizmente tive a sorte de haver gente suficiente a gostar do que faço para me dar a possibilidade de eu viver disto. Sei que é um privilégio grande e por isso honro-o todos os dias com muito trabalho! É isso... Quais são, enquanto músico e produtor, os projectos que tens em mente? Qual é o caminho que vais dar ao projeto Moullinex? Aprendi já há algum tempo que o que eu procuro e planeio fazer depois não acontece. Acontece algo diferente e aprendo a gostar. Isso tem sido característico no que faço, tanto é, que não consigo sentar-me hoje e fazer uma balada. Se tentar sai-me algo que não tem nada a ver. Estou a trabalhar num álbum novo onde estou onde procuro, ao contrário do anterior, ter o máximo de colaborações possível, envolver cantores diferentes. O outro foi muito EU EU EU, muito porque foi esse desafio que fiz a mim próprio, por ter de começar a tocar com a banda e não conseguir andar com todos os colaboradores atrás, porque a Peaches era do Canadá, a Ivone que também cantou no outro album era Polaca. Era muito difícil andar em tour com pessoas de fora, o que fez com que eu me chegasse à frente com no papel de cantor. Não foi algo que eu tenha procurado, longe disso, tinha de cantar porque é assim que a gente se apresenta ao vivo. Agora que isso está feito e se calhar era o que eu precisava de provar a mim próprio, apetece-me de novo envolver outras pessoas, porque senti essa falta. Por outro lado tocar com a banda e ter convidados, faz com que traga novas ideias para a minha música, é isso que estou a explo-

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sentido abordar editoras porque se calhar conseguimos editar discos. Foi isso a que nos propusemos, isso levou a que demorássemos um pouco a começar, quer a editar coisas organicamente na internet, quer a conseguir ter discos em vinil e CD. Também temos esse fetiche pelo objecto, quando compro música de alguém não o faço porque quero ouvir a música nesse formato físico, porque é inconveniente, faço-o porque gosto de ter um objecto que me associe a um determinado artista, ou a um determinado álbum de que goste muito. É bom ter um objecto a que consiga ter uma ligação e não simplesmente a uma ideia abstrata feita de mp3 ou streaming. É por aí... Então, a inspiração vem da vontade de fazer coisas, de colocar um objectivo e tentar superá-lo a cada projecto em que estou envolvido. Acho que tem um bocado mais a ver com a vontade de superação pessoal através da expressão artística. Se calhar é isso, considero-me uma pessoa técnica e não artística. Apesar de expôr a minha sensibilidade na música que faço, acho que acabo por fazer uma abordagem técnica às coisas e gosto que assim seja. Caminho nesse limbo entre algo....


rar agora. Este ano planeio tê-lo terminado para lançar no início do ano que vem. Estás na fase da criação. Essa criação é mais solitária ou é partilhada? Até agora estive numa fase solitária. Como já tenho uma ideia geral do álbum, já sei de que forma é que determinadas pessoas podem contribuir. Esta semana vou chamar x para fazer as guitarras, y para cantar, baterias, etc... É óbvio que nesse processo a música, muitas vezes, não tem nada a ver com aquilo que idealizei. Estou a dar espaço para que as pessoas criem, não quero chamar executantes, quero deixar espaço para as pessoas contaminarem, de uma forma boa, a música que faço, quero fazer uma coisa mais colaborativa.

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Mais jazzística no sentido da improvisação e da influência que cada um deles pode trazer. Filosoficamente sim. Imagina que eu tinha

idealizado para aqui esta parte, mas esta pessoa que vem torce a coisa, vai ser uma música diferente por causa disso, porque vou abraçar essa influência. No álbum anterior fechei-me numa casa da família no Norte durante 2 semanas, sem rede de telefone, sem telemóvel, foi mesmo.... A onda mística do isolamento para criar! Sim, mas sem misticismos, pois a minha veia de ciência não permite acreditar em esoterismos, mas parte do isolamento auto-imposto foi muito importante para que saísse como saiu, não sei se bom ou mau, não sei, mas a mim soa-me àquele lugar, àquele momento durante aquelas duas semanas. E o novo álbum vai sair quando? Vai sair para o ano. Para o ano também faz 10 anos da Discotexas. 10 anos disto, já


Mas além desses espectáculos vão fazer o lançamento de um disco que vai ser uma compilação dos vossos diversos projectos e com saída anunciada para o ano que vem? Exactamente e que represente isso! Com originais e com remisturas de temas já existentes e colaborações entre os artistas da editora para manter essa promiscuidade saudável. E espectáculos agendados para fora? Tens alguma coisa até ao final do ano ou estás mais empenhado na parte da criação? Felizmente, como não me propus ao isolamento estou a conseguir conciliar, porque estou a fazer mais DJ set que obviamente não tem tanta preparação associada, soundcheck, ensaios etc., e permite-me estar a trabalhar no disco enquanto, às vezes, saio ao fim de semana, vou agora ao México... Dito assim é uma coisa simpática: “às vezes saio ao fim-de-semana, vou ao México” (risos).

Alguns já agendados? Sim sim, não podemos ainda anunciar nada, já temos coisas agendadas, mas a ideia é apresentar sempre a Discotexas como um showcase de diferentes projectos como é o meu caso, Moullinex, Da Chic, XINOBI, Throes + The Shine, que editámos este ano. Temos também o Buffy que é um artista mexicano com quem trabalhamos muitas vezes. Vamos lançar o álbum dele ainda este ano. Queremos que seja plural, que seja uma celebração dessa amálgama, que é esta editora, que começou como uma editora de música de dança, mas agora tem rock, electrónica, kuduro, funk, disco, tem tudo..., e é isso que a gente quer que passe como o nosso ADN.

Porquê? [127]

somos veteranos, (risos) e vamos assinalar a data com uma compilação especial da editora e com diferentes espectáculos que estamos a preparar, uma espécie de showcase com vários artistas.

Por acaso no México vou estar uma semana e meia (risos), depois vamos ter Barcelona, Londres e Paris, até ao final do ano ainda há mais algumas datas fora, mas é isso. Tínhamos agora datas agendadas na Turquia, mas cancelámos por causa do ambiente político que se está a viver lá, mas também é um país a que gosto muito de ir e sei que até ao final do ano lá irei, até porque cancelar datas por causa de ameaças de atentados terroristas é deixar que o medo nos consuma, é dar força ao ódio! Desde sempre a música de dança tem esse papel que muitas vezes é associada ao hedonismo e ao escapismo, mas eu acho que foi criada para minorias, era um local de confluências de pessoas que se calhar não se podiam exprimir de uma forma honesta no seu dia-a-dia, seja por questões raciais, seja por questões de opção sexual, seja por questões políticas, e foi criada um bocado para celebrar o facto do amor ser a coisa que nos move enquanto seres humanos. Acho que esse papel político da música de dança está-se a perder. É difícil olhar para um evento da dimensão do Coachella e daqueles mega DJs de EDM globais e achar que ali está uma mensagem política. Não está, desapareceu, foi sujeita ao branqueamento.


Moullinex Porque para ser consumida por massas, tem de ser branqueada, no sentido verdadeiro da palavra (riso), porque as coisas idiossincráticas, as coisas complexas, as coisas estranhas, as coisas esquisitas, não têm esse apelo de massas. Não tenho a pretensão de ser um artista assim, por isso fico confortável no terreno do estranho, do desconhecido e por isso mais do que nunca sinto que tenho esse dever de prestar ...não é uma homenagem... Achas que é preciso ser marginal para se conseguir essa afirmação política na música? Marginal não no sentido literal do termo, mais no sentido de underground, de não ser tão aceite, de estranho se tu quiseres.... Isso talvez, o que acontece quando muitos artistas que têm uma mensagem forte se popularizam demasiado, é que sofrem a tentação gigante de suavizar essa mensagem para que não estejam tão associados à controvérsia. Contudo há óptimos exemplos de pessoas que fizeram carreiras de muito sucesso e que sempre conseguiram passar a sua mensagem! Seja uma mensagem de inclusão, seja uma mensagem política, musical ou a favor de coisas em que acreditam. Por outro lado, é desse caos, é nas entrelinhas que nascem as coisas boas. É onde menos esperamos que nascem as coisas boas. Acho que em Portugal estamos a viver um bom momento em relação à música, não graças aos apoios, mas apesar da falta de apoios. Pessoas que dizem, por exemplo, que a crise é óptima para a criatividade, infelizmente é, mas eu preferia que não houvesse crise e houvesse menos criatividade um bocadinho, não acho que seja bom promover a fome para que haja música melhor, eu acho é que existe essa característica, nesses espaços com uma atmosfera intensa, onde existe tristeza, desigualdade, existe também uma vontade das pessoas se exprimirem.... é o que faz surgir coisas boas! E aí, acho que o underground, entre aspas, vai ter sempre muito a dizer ao mainstream.

Qual é essa afirmação política que o Moullinex quer fazer passar? Enquanto produtor de música de dança, procuro honrar (não tenho nenhuma pretensão de ser um porta estandarte de nada) as pessoas que me estimularam, me fizeram gostar tanto destas coisas como é o funk, soul, disco, house, a música de expressão dançável. Tenho esse dever de honrar este legado que nos foi deixado por tanta gente que se calhar não foi apreciada pela indústria e pelo público da forma que devia. Não tenho uma mensagem clara, mas tenho um sentido de dever para com isso, para aquilo que entre, aspas, herdei. É a celebração da diferença, celebração de estarmos todos debaixo do mesmo groove, sermos ser humanos e de todos gostarmos de dançar!

por João Moreira

Fotografias por Carina Martins

Playlist escolha Moullinex Moullinex - Things We Do Kaytranada - Lite Spots Mac Miller feat Anderson Paak - Dang! Xinobi & Lazarusman - See Me Da Chick - Cocktail Best Youth - Red Diamond Badbadnotgood feat Sam Herring - Time Moves Slow Roy Ayers - everybody loves the sunshine Moullinex - Sunflare

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Veja aqui o vídeo Moullinex - Sunflare


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Capitão Fausto

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ALVALADE CHAMA POR ELES E NÓS TAMBÉM.


Depois de ouvir o álbum Capitão Fausto têm os dias contados, ninguém morre na praia, isso é certo. Ouvi falar no quinteto com o single “Teresa”, explorei-os com “verdade” e rendi-me com frieza à “música fria” do álbum Gazela. Já vi os Capitão Fausto pelos menos umas 10 vezes ao vivo (serei suspeito?). Sou fã desde o início da banda. Lembro-me do tempo do primeiro álbum, em que os Fausto (como gosto de lhes chamar) não passavam dos 4000 likes no facebook. Em 2012 mostrei algumas faixas da banda lisboeta a um amigo “músico”. Disse-me que eram bons mas que jamais conseguiriam tocar com a qualidade de estúdio ao vivo. Fiquei a pensar nisso e com uma vontade imensa de os desmistificar, na primeira oportunidade que tive fui vê-los actuar. Foi no Punch Fest, um excelente evento na feira da Almas organizado pela Punch Magazine (fica a dica que se devia repetir). Assim que entraram em palco percebi o quão errado estava o meu “amigo músico”. A sonoridade ao vivo superava todas as expectativas e a harmonia da banda em palco dava um gozo imenso de se ver. Desde aí que segui a banda de norte a sul do país. Super Bock Super Rock 2012, Paredes de Coura no mesmo ano e até no terraço do colaço, um concerto mais intimista, tive a oportunidade de os ver. Os Capitão Fausto foram crescendo. Algum tempo se passou e o sol apareceu em meados de 2014. Um sol “pesado”, pintado com cores alucinantes e psicadélicas, cheio de ecos e de reflexos. Apressei-me à fnac para apanhar uma cópia do CD. A compra do álbum dava convite directo para o concerto de apresentação na meca electrónica de Santa Apolónia. O Lux esteve ao rubro. As lâmpadas efervescentes do espaço em sintonia com a sonoridade dos Capitão Fausto proporcionaram uma verdadeira “trip”. Não foi preciso ácido, bastou o peso do sol. Muito psicadelismo, instrumentais longuíssimos, muitos ecos e muita distorção. Quando tocaram a faixa “pesar o sol” parecia estar, quase, perante os Pink Floyd. O fechar do concerto com “lameira” transportou Santa Apolónia para outra dimensão. Mais tempo se passou e, entre concertos e tributos a Syd Barrett dos Pink Floyd, os Capitão Fausto voltaram a crescer. “Têm os dias contados” mas nós esperamos que não.

não só pelas letras como pela musicalidade. Deixaram o eco e a reverberação de lado e substituíram-nos por arranjos primorosos. Ao longo do álbum ouvem-se congas, clarinetes e flautas o que nos leva a outra dimensão, uma dimensão diferente do álbum pesar o sol. Esta dimensão deixanos os pés bem assentes na terra. Somos deparados com os problemas da vida de jovem em Portugal e reflectimos sobre o ultrapassar da mocidade. Numa entrevista à IDS Imagem e Som, Salvador Seabra (baterista) fala da importância das letras que, inevitavelmente, acabam por ser uma consequência das vivências comuns dos membros da banda que, mais do que músicos, são grandes amigos. O álbum é coerente. As faixas seguem todas a mesma linha, guiada com sentimento e preponderância. Tomás Wallenstein (guitarrista e vocalista) conta histórias diferentes e quem é jovem enfia bem a carapuça porque aquilo que se conta toca-nos a todos. As segundas vozes, estão muito presentes neste trabalho, sobretudo nos refrões, renascem dos tempos de Gazela e, quase, se tornam num “habitué”. Nos dias contados não há psicadelismo mas sim um rock ligeiro, progressivo, calmo, educado e compacto, direito e sem grandes invenções. A guitarra está presente como sempre. Desta vez, com poucos ecos, é mais sóbria e dá um certo toque de “antique”. O instrumental assume uma presença mais curta. O single “amanhã tou melhor” fala bem. “Uma malha não vai bastar”, e não basta, não basta porque queremos ouvir mais e mais e descobrir esta vertente mais poética de uns Capitão Fausto mais adultos e cientes daquilo que fazem. O trabalho “compensou” e de que maneira. Que as gazelas não comam as guitarras, que o sol continue quente mas pesado e que, sobretudo, os Capitão Fausto não tenham os dias contados.

por Bernardo Mascarenhas de Lemos

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O novo álbum é diferente de tudo aquilo que a banda lisboeta apresentou anteriormente. Vê-se que estão mais crescidos,


A Música dos Vinhos Ao provar um vinho usamos 4 dos 5 sentidos. Avaliamos cores, aromas, texturas e sabores. E se os vinhos tivessem música?

VINHO BRANCO ALVARINHO SOALHEIRO GRANIT

MÚSICA

The Penguin Cafe Orchestra Music For a Found Harmonium

Ouça aqui!

ROSÉ REDOMA ROSÉ 2015

MÚSICA

Vanessa da Mata - Fotografia

Ouça aqui!

ESPUMANTE VÉRTICE MILLÉSIME 2009

MÚSICA

Carlos Paredes – Verdes Anos

por

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André Pinguel

Ouça aqui!


O Soalheiro Granit 2015 é um tributo merecido à nobreza da casta Alvarinho e à sub-região de Monção e Melgaço.

O Redoma é um rosé diferente. É pelo menos diferente de muitos outros rosés que gritam coisas como “verão, piscina, festa...”. O Redoma rosé é um vinho sério, um rosé que não deixa de ser muito apropriado para dias de Verão, mas talvez mais adequado para noites quentes. É um vinho envolvente, com volume na boca e muito gastronómico. Ao provar este vinho a música revelou-se quase de imediato na ideia. A Vanessa da Mata a cantar Jobim, tal como o Redoma rosé é uma versão mais feminina do tinto com o mesmo nome. Jobim, aqui pela voz de Vanessa, vai semeando em nós imagens de um terraço, beira-mar, entardecer... até acabar num beijo apaixonado, “aquele beijo”. A Niepoort consegue tocar-nos da mesma forma através deste vinho. Somos seduzidos pela sua tonalidade salmão leve e brilhante, o seu aroma fino de flores secas e frutos vermelhos envoltos num perfil ligeiramente fumado. As notas de fruta fresca e minerais estão em plena harmonia, proporcionando um final de boca muito longo e delicado.

É o dedilhar de cordas de Carlos Paredes que me remete para a persistência elegante das bolhas de Vértice Millésime. Parecem ser centenas as notas que jorram da guitarra a cada segundo e agrada-me a comparação com as bolhas libertas num flute de espumante. A música “Os Verdes Anos” faz parte da banda sonora do filme com o mesmo nome e é um solo de guitarra portuguesa pela mestria de Carlos Paredes. A carga poética que traz consigo é também ela comparada com a poesia de Vértice Millésime. Um vinho de aroma complexo, frescura presente no ponto certo, bolha delicada que proporciona uma excelente mousse na boca. A sensação de obra-prima atingida através do conjunto de incontáveis componentes é comum ao tema de Carlos Paredes e ao espumante de Celso Pereira. O filme “Os Verdes Anos” apresenta marcas evidentes da Nouvelle Vague francesa. O Vértice Millésime segue o método de vinificação champanhês, não ficando a dever nada a tantos Champanhes Franceses!

Alvarinho Soalheiro Granit 2015 Produtor: Soalheiro Região:Melgaço, Monção Vinhas:Vinhas de pequena dimensão implantadas em solo de origem granítica Altitude: 150 metros Castas: 100% Alvarinho Fermentação: Cubas de inox a temperaturas mais elevadas que o habitual, usando leveduras pré-selecionadas para o efeito Engarrafamento: Após batonage e estágio em borras finas Álcool: 12,5%

Redoma rosé 2015 Produtor: Niepoort Região: Douro Cima Corgo Vinhas: Quinta de Nápoles e outras pequenas vinhas velhas Idade das Cepas: Entre 50 e 80 anos Castas: 30% Tinta Amarela, 20% Touriga Franca e 50% Outras Fermentação: Barricas novas de carvalho francês Estágio: 6 meses em inox Álcool: 12,5%

Vértice Millésime 2009 Produtor: Caves Transmontanas Enólogo: Celso Pereira Região: Douro Castas: Gouveio, Malvasia Fina, Rabigato, Viosinho e Touriga Franca Solos: Graníticos Estágio: Mínimo 36 meses Dégorgement: Maio 2014 Álcool: 12,5%

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Esta música nasce depois de Simon Jeffs ter encontrado um harmónio abandonado em Kioto no Verão de 1982. Simon instala o harmónio em casa de um amigo que visita com regularidade nos meses seguintes. Maravilhado não só com a beleza do local mas também com toda a atmosfera que viveu durante esse tempo, Simon Jeffs escreve este tema usando o som do orgão como uma espécie de chão sólido e estruturado, em cima do qual a música vai decorrendo de uma forma espontânea. Assim é também o Soalheiro Granit. Graças à batonage e ao estágio em borras finas o vinho ganha solidez na estrutura de boca que serve de cenário à expressão exemplar do lado mais mineral da casta Alvarinho. À semelhança da melodia festiva mas elegante de “Music For a Found Harmonium”, também este Alvarinho revela um perfil delicado mas com revigorante acidez, e final seco e persistente.


Saca-rolhas, Vinhos e Rolhas Projecto para um Museu O Vinho está na moda; disso creio que estamos todos cientes. Depois de umas décadas de ostracismo, eis que o precioso néctar, quando bebido com moderação, é novamente considerado como a bebida de excelência que sempre foi. Disso são prova não só as inúmeros reportagens televisivas, bem como artigos e blogs consagrados ao tema, mas também as incontáveis feiras e festivais totalmente dedicados a esta grande riqueza Nacional, o Vinho. Todavia, creio que para muitos dos nossos compatriotas, esta nobre bebida e todo este ambiente que actualmente a rodeiam, ainda está envolto num certo “mistério”… Rodeado de termos e designações algo “herméticas”, parece que esse “mundo” vínico não está acessível ao comum dos mortais. Mas terá de ser assim? O que fazer para entrar neste Universo de riqueza sensorial?

Por isso, apesar de alguma controvérsia (fomentada em grande parte por fabricantes de outros tipos de vedantes de garrafas), uma boa rolha de cortiça, continua a ser a melhor opção para vedar uma garrafa de vinho; Prova disso, é a sua utilização por parte dos melhores produtores de Vinhos, a nível global. E convém sempre lembrá-lo, Portugal continua a ser até hoje o Primeiro Produtor Mundial de Cortiça; Esta é uma das nossas maiores riquezas nacionais. Mas sem Saca-rolhas, seria (quase) impossível desarrolhar um Vinho engarrafado e aceder ao seu mágico conteúdo… Talvez por isso, ou também por esse motivo, desde os tempos da revolução industrial que este instrumento vínico por excelência, não tem parado de ser alvo de inúmeras alterações, inovações e aperfeiçoamentos.

Quanto a nós a resposta é simples: Ploc! Sim, basta um Saca-rolhas para fazer saltar a imprescindível rolha de cortiça, que nos separa, ao mesmo tempo que protege, qual quer vinho verdadeiramente digno desse nome.

Alguns verdadeiramente eficientes, outros nem tanto; Uns perdurando no tempo, outros caídos no total esquecimento…

Depois, munidos de um bom copo, consoante a ocasião, a disponibilidade do momento, os nossos gostos e curiosidade, eis que podemos finalmente iniciar-nos num universo (quase) sem fim, no qual Portugal tem tudo para ser uma referência incontornável: O Mundo dos Vinhos!

Muitos deles, anónimos produtos industriais, outros assinados por alguns dos mais famosos Designers mundiais.

Mas para além desta riqueza, Portugal detém ainda uma outra, sem a qual um grande vinho e o acto de beber Vinho, seria se não impossível, pelo menos diferente e certamente mais pobre. Falamos obviamente da Cortiça, matéria nobre por excelência, que protege, ao mesmo tempo que permite “respirar”, a mais excelsa das bebidas. [134]

as rolhas verdadeiras, com as quais são engarrafados, um pouco por toda a Terra, o melhor da produção vitivinícola Mundial.

É desta matéria-prima que são fabricadas

Uns, criados por modestos artífices, outros por geniais inventores.

Resumindo, um Saca-rolhas tanto pode ser um banal instrumento comprado num qualquer supermercado, mas também pode ser um objecto raro, comprado na mais exclusiva Ourivesaria; Um utensilio que tanto pode custar menos de 1,50 Euros (mas não garantimos que seja muito eficaz) até alcançar somas perto dos 50.000 Euros (sim, isso mesmo, não se trata de nenhuma gralha). Para além do mais, um bom Saca-rolhas tem essa capacidade quase “mágica” de permitir “desvendar” e trazer à “Luz” o mais raro dos Vinhos…


Rico de todas estas características, o Saca-rolhas tem suscitado grandes Paixões, que levaram à constituição de belas colecções, pelos quatro cantos do Mundo. E algumas delas deram mesmo origem a Museus dedicados em exclusivo a este objecto báquico. São disto exemplo o Musée du Tire-Bouchon, em França ou o Museo Dei Cavattappi, em Itália. Todavia em Portugal, antigo Reino fundado por Dom Afonso Henriques, País de ancestrais tradições vitivinícolas e de grande riqueza em matéria de Vinhos, não existia nenhum Museu que lhe fosse inteiramente dedicado. Facto mais notório ainda, por ser dos Sobreiros portugueses, que provêm as melhores rolhas de cortiça, que se fabricam no planeta.

Mas, ao contrário dos demais Museus mundiais que já lhe são dedicados, o Museu do Saca-rolhas, pretende ser verdadeiramente inovador. Assim sendo, para além de vir a ser um espaço expositivo das largas centenas de saca-rolhas que temos reunido nos últimos anos, pretende-se igualmente que este espaço e projecto seja também mais uma ocasião de promoção da Marca Portugal; valorizando e promovendo os nossos vinhos, a cortiça, bem como todos os Designers e artistas que concebem não só a “roupagem” (rótulos, garrafas, etc.) do Vinho, mas também os acessórios vínicos que o acompanham, dos quais o mais relevante é certamente o Saca-rolhas. Para o fazer, este projecto tem recorrido a diversas parcerias, seja a nível de Design – na qual gostaríamos de mencionar a empresa Studiobox -, seja a nível de fabricantes de Saca-rolhas – nas quais Farmitaly, VacuVin ou Koala, são já alguns dos parceiros internacionais –, até Designers das mais diversas nacionalidades - Alessandra Baldereschi, Itália; Line Thorvildsen Bogen, Noruega; Mitsunobu Hagino, Japão -, bem como a artistas e artesão de diversas áreas – Grégory Picard, Cuteleiro, França; Miguel Laranjeira, Artesão-Cuteleiro, Portugal; Laurent Bessot, Pintor, França -. Eis apenas algumas das parcerias do momento, mas novos parceiros estão a caminho.

Quanto à colecção de Saca-rolhas, ela tem surgido fruto de um incansável calcorrear em busca de raridades, da oferta de parceiros ou então de generosas ofertas de muitos daqueles que vão conhecendo este projecto. E tanto podem vir de um antiquário, como de um pequeno café – daqueles onde sabe bem parar para tomar um café, ou beber um bom copo de vinho -, ou então das mais diversas proveniências, nacionais ou estrangeiras. Eis um pouco de Luz sobre o Museu do Saca-rolhas, do qual esperamos desvendar-vos mais muito em breve. Mas os mais curiosos e impacientes, podem sempre seguir-nos ou enviar-nos um mail, pelas “ondas” da web. Quanto a toda a equipe desta nova revista, a BICA, um grande obrigado por nos abrir as suas páginas, desejando-vos votos do maior sucesso! E a todos os leitores dizemos, desejandolhes que se encontrem diante de uma boa garrafa de vinho, e munidos de um bom Saca-rolhas: Ploc! www.museudosacarolhas.com

Texto e fotografia por Lopo de Castilho

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Urgia fazer algo e foi assim que surgiu, primeiro de forma virtual – no Universo da Web : Facebook, Pinterest, etc – e muito em breve em instalações próprias, um inovador Museu, centrado no Saca-Rolhas.


A medida das coisas MAS SOBRETUDO DO DRY MARTINI

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Quando o João me convidou para escrever sobre bebida, fiquei naturalmente contente. Eis um tema sobre o qual tenho feito uma extensa reflexão, um profundo trabalho de campo e uma elaboração teórica aturada. Contudo, parecia-me um pouco limitado escrever apenas sobre bebida. Atenção, não há qualquer problema com bebida desacompanhada. Mas até isso tem arte. A bebida só faz sentido no contexto do bebedor. Daí que tenha pedido ao João para elaborar um pouco sobre seu convite e poder falar rigorosamente sobre “bebidas e outras coisas”. Creio que assim ficamos todos mais descansados e esclarecidos. Mas logo para começar o João não me deu tarefa fácil. Estava eu a pensar em escrever sobre o Dry Martini e Luís Buñuel, uma ligação tranquila, quando ele me diz que o tema deste primeiro número seria a luz de Lisboa. A luz de Lisboa a mim sempre me pareceu normal. Só quando os regressos a casa começaram a acumular-se dei por mim a pensar que se calhar havia qualquer coisa de especial nesta luz. A princípio ocorreu-me que a única especialidade era ser muita. Lisboa é uma cidade com sol boa parte do ano, é normal que a sua luz se faça notar. Mas a verdade é que muitas outras cidades podem dizer de si o mesmo e nem por isso parecem ter a mesma luz de Lisboa.

Talvez o segredo, tenho vindo a pensar mais recentemente, esteja na combinação da luz com outros ingredientes. Esta ideia surgiu-me quando revia o Charme Discreto da Burguesia, de Luís Buñuel, e me lembrei de algo que ele afirma na sua autobiografia: “os conhecedores que gostam dos seus martinis muito secos sugerem que se deixe apenas brilhar um raio de sol através de uma garrafa de Noilly Prat antes de atingir a garrafa de gin”. Fiquei a pensar em brilhos e reflexos e de como a luz de Lisboa resulta de uma boa combinação de céu limpo e o enorme estuário do Tejo. Talvez seja este o segredo: uma luz que é simultaneamente sol e reflexo das águas do rio, com aquele grande mar da Palha, que vem de Alhandra até ao Terreiro do Paço, a dar uma segunda camada de luz ao nosso olhar. Fico a pensar na luz de Lisboa, mas não desisto de Buñuel e do seu Dry Martini. Como quase tudo em Buñuel, realizador genial e subversivo, há ali muita transgressão e muita secura. Na verdade, a versão de Buñuel é uma versão tão seca quanto poder dizer-se que bebemos gin apenas com uma lembrança recente de vermute e umas gotas de Angostura (há um vídeo no youtube do próprio a preparar a sua receita, se duvidarem de mim). Mas não se trata um vermute qualquer, o que surge como um paradoxo. Apesar do gin ser o espírito ingerido ele não aparece nomeado por Buñuel, já o vermute, que apenas dá o mote para a descontração que há de vir, tem um nome: Noilly Prat. Há algo de bom nesta precisão pois serve de esclarecimento a um dos maiores equívocos da história dos cocktails (highballs, se quisermos ser rigorosos): o Dry Martini apenas por coincidência tem algo que ver com o vermute de nome Martini. Isso mesmo nos recorda Kingsley Amis no fundamental Everyday Drinking, a que tive que recorrer para temperar a transgressão iberoamericana de Buñuel com um pouco de humor inglês. O mestre inelutável de qualquer amante da bebida, à semelhança de Buñuel, era também um homem preocupado com as medidas para um Dry Martini perfeito. Ele refere quatro partes de gin e uma parte de Martini Rossi seco, devendo notar-se que também Amis deixa ao bebedor a dilacerante escolha do gin (“any nationally known gin is suitable”), mas incute-lhe o seu vermute (“but the vermouth must be Martini Rossi dry). Há aqui algo de profundamente antigo, nestas visões do Dry Martini, em que o gin serve apenas de émulo do álcool, quase sem variações ou identidade, e é o vermute que lhe dá o caráter e transforma o gin em algo que merece ser bebido. Como estamos lon-


O Dry Martini, porém, é o Moby Dick dos cocktails: toda a gente o conhece (the name is Bond, James Bond), mas ninguém o bebe. É compreensível. Ora porque é caro, ora porque na discoteca da moda não o fazem, ora porque tem álcool a mais (santo deus), o Dry Martini é hoje uma bebida mais de páginas de revista (aqui o tendes) e de ecrã de cinema do que de mesa de bar. O seu ingrediente principal vê-se e bebe-se, claro. Mas sempre amansado por 20 cl de água tónica (quando não mais). E aqui está a explicação: o Dry Martini é gin perfumado em vermute não se deixa domesticar. E ninguém tem tempo para beber uma bebida a sério nos dias que correm.

Para os que ainda bebem cocktails, contudo, não há melhor que o Dry Martini. Tirando o Vesper, claro, a que voltaremos noutro dia, o Dry Martini recusa totalmente a facilidade adocicada da maioria, pedindo ao vermute apenas um lampejo de doçura, insuficiente para emascular a secura do gin. A vida tal como ela é, mesmo que não tenhamos tempo para ela, o que é, quotidianamente, o grande inimigo do Dry Martini: a impossibilidade e a incapacidade para vivermos uma vida à altura deste cocktail. Regresso a Lisboa. Também ela, com o incremento recente de turistas que enxameiam a cidade, e já não apenas o centro, perde a possibilidade de ser descoberta na medida imposta por um Dry Martini: cheirar o perfume adoçado do bulício da BaixaChiado mas beber a firmes tragos a cidade dura, seca e cheia do caráter, que se estende de Sacavém a Algés. Mas regresso também a Buñuel e a O Charme Discreto da Burguesia (a uma das suas cenas mais memoráveis, com burgueses e um motorista) para recordar, à luz das lições que Lisboa nos dá sobre a medida e o modo de uma bebida, que só há duas maneiras de beber um Dry Martini: a certa e a errada. Ambas são boas. Podemos beber um Dry Martini de um trago antes de uma loucura a ser cometida, sob um céu e um espírito nublados, e que diabos! Ao menos será uma loucura bem temperada. Ou podemos beber um Dry Martini, lentamente, a leves goles, a caminho da contemplação que ele nos proporciona. E que é melhor acompanhado em terraços, ao fim do dia ou em noites de muita lua. E se posso ainda pedir mais, com a luz, solar ou lunar, de Lisboa. Buñuel aprovaria.

Eis o vídeo de Buñuel a fazer o seu (e o meu) Dry Martini.

Excerto do “Charme Discreto da Burguesia”

Texto e fotografia por Pedro Santo Tirso

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ge da comoção e do transtorno que se abateu sobre a civilização ocidental há um par de anos erigindo o gin em moda de cuidados íntimos, com centenas de variedades e milhares de produtos complementares! Torna-se hoje tão difícil escolher um gin como um champô, flagelo pelo qual, manifestamente Amis e Buñuel não passaram (e vou deixar para outra ocasião a opinião de Amis sobre o gin tónico). O inglês, porém, admitia outras proporções. Ainda no seu Everyday Drinking referia que era comum ver-se uma divisão de 16 partes de gin para uma parte de vermute. A aproximação a Buñuel é visível à medida que o vermute se rarefaz, mas estaca furiosamente quando Amis admite servir um Dry Martini “on the rocks”. Que pensamento absurdo. Buñuel dizia que não havia nada pior que um Dry Martini aguado. E tem toda a razão. Não sei o que terá passado pela cabeça de Amis, mas entre o humor de Amis e os humores de Buñuel não restam dúvidas de que em matéria de gelo no Dry Martini devemos ficar com o nosso irmão surrealista. O inglês, contudo, redime-se: além de, em circunstâncias especiais, quase se juntar à receita de Buñuel (“Numa emergência consideraria pedir bastante gin e pouco vermute, mergulhando o meu dedo no vermute e mexendo depois o gin com ele”), a receita final de Amis para um Dry Martini é algo que quase podemos aceitar, não obstante a água e as cebolas: “O melhor Dry Martini conhecido pelo homem é o que eu faço para mim próprio. Na parte mais fria do frigorífico tenho uma garrafa de gin e um pequeno copo de vinho meio cheio de água que se permitiu ficar gelada. Quando chega a hora, encho metade do espaço remanescente com gin, salpico umas quantas gotas de vermute e junto um par de cebolas de cocktail, daquelas pequenas, brancas e duras. Isto sim é uma bebida”. Enfim, chamemos-lhe uma versão excêntrica.


O que é nacional é bom Os vinhos de portugal

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Longe vão os tempos em que os únicos vinhos portugueses que constavam nas listagens dos melhores vinhos mundiais eram os vinhos generosos do Porto e da Madeira. Nas últimas décadas, o exigente mercado mundial do vinho descobriu Portugal e, hoje, os vinhos nacionais correm mundo a conquistar prémios sobre prémios. Os terroirs portugueses passaram a estar na moda e nomes como Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinta Pinheira passaram a constar do léxico das mais importantes revistas mundiais da especialidade. Entusiasmados com este reconhecimento internacional e aproveitando a boleia do boom turístico da última década, os produtores nacionais apostaram no enoturismo e no turismo de experiências como complemento das suas explorações vitivinícolas, atraíndo ao interior um número crescente de vistantes e afirmando o turismo do vinho como um dos maiores atractivos nacionais. Mas, qual é o peso real do sector na economia nacional? Qual o seu potencial de crescimento? Foi para obter resposta a estas e outras perguntas que visitámos o organismo estatal que tem por função coordenar a política vitivinícola nacional, o Instituto da Vinha e do Vinha, conversar com o seu presidente, Engenheiro Frederico Falcão.

O vinho é uma atracção grande do nosso País. Segundo diversos estudos, os dois factores que mais impressionam os turistas que vêm a Portugal, são o vinho e a gastronomia por isso o sector vitivinícola e o enoturismo a ele associado desempenham um papel essencial na promoção turística do país, além de representarem uma fatia muito importante das exportações nacionais. Embora o IVV não detenha a tutela do enoturismo, está muito atento ao que se passa no sector e em permanente colaboração com o Turismo de Portugal, organismo responsável pela área. E muito tem sido feito no sentido de dinamizar essa ligação inevitável e saudável do vinho ao turismo. Desde logo apoiando os produtores que perceberam a importância do enoturismo, das vendas à porta, da fidelização dos seus clientes, dos seus turistas através de visitas às vinhas e às adegas como forma de promoção das suas marcas. Por outro lado, trabalhando muito de perto com a Associação de Escanções, chamando a atenção para a importância do incentivo ao consumo de vinho nos restaurantes através da elaboração de cartas variadas e representativas da diversidade vitivinícola do país e de um serviço de excelência. Também já reunimos com a Câmara Municipal de Lisboa no sentido de definir estratégias conjuntas que levem os turistas a “respirarem” vinho quando aterram em Lisboa,


Frederico Falcão pertence à geração de jovens enólogos nacionais que transformou a face da viticultura nacional nas últimas décadas. Apoiados na rigorosa selecção de castas resultante da reconversão das vinhas levada a cabo pelos produtores em meados dos anos 90 do século passado, os novos enólogos ousaram apostar na vinificação de monovarietais e de novos blends, conciliando tradição com modernidade, com resultados extraordinários. O actual Presidente do IVV, enquanto director de enologia da Companhia das Lezírias, cargo que exerceu por diversos anos, foi a cara da renovação vitícola da casa agrícola estatal fundada em 1836, tornando-se um dos enólogos de referência do país e conhecedor profundo da realidade vítivinícola nacional. O País vitícola tem melhorado, tem crescido em termos de imagem nos últimos anos. Portugal foi sempre, historicamente, um país em que todas as regiões são produtoras de vinho. Aliás, isto é único na Europa e no mundo. Não há nenhum país no mundo que tenha esta particularidade que se vê em Portugal em que quase todas as regiões são demarcadas ou são indicações geográficas (IGs) para a produção de vinho. Por exemplo, a região de Lisboa que antes se chamava Estremadura em termos de Indicação Geográfica tinha várias Denominações de Origem o que dificultava a sua promoção. Com a grande restruturação que houve em 2012, quando nasceu a nova lei orgânica do sector, a região, e bem no meu entender, mudou o seu nome de Estremadura para Lisboa e apostou fortemente na IG. Portanto, Lisboa em termos vitícolas passou a ser uma indicação geográfica, e as DO passaram a ter muito pouca importância, mantendo-se pela sua relevância histórica e vitícola as DOs de Bucelas e de Colares. A maior parte dos produtores está a apostar nos vinhos regionais com indicação Lisboa, que é um nome muito forte e muito feliz porque é o nome conhecido lá fora, de uma capital europeia, o que natu-

ralmente faz com que os vinhos da região de Lisboa cresçam muito. Isto obviamente foi acompanhado com uma grande restruturação de vinhas, que implicou a instalação de novas vinhas e de castas mais adaptadas à região. Como é uma região que sempre esteve muito virada para fora, para a exportação, conseguiu encontrar padrões de consumo em alguns países e está a crescer a um ritmo alucinante e o termo é este. Há produtores na região de Lisboa a crescer a um ritmo alucinante! É uma região que tem uma excelente relação qualidade preço, hoje com grandes vinhos e, naturalmente, está a conseguir conquistar muitos mercados. Outras regiões mantêm este dinamismo. Há uns anos atrás nós olhávamos para Portugal e destacávamos duas ou três regiões, hoje é difícil escolher. Fruto das minhas funções, eu visito todas as regiões e participo em muitas provas em todas as regiões e, de facto, é impressionante o crescimento qualitativo que todas tiveram, a começar em Trás-os-Montes e a acabar no Algarve. É engraçado como todas as regiões têm excelentes vinhos e têm marcas que são hoje reconhecidas cá dentro e lá fora. Isso é muito gratificante, mas também nos dá a consciência de que existe um grande trabalho a ser feito em Portugal em termos de vinho, um trabalho a ser feito pelos produtores e pelas comissões vitivinícolas, porque o trabalho do IVV é apenas não atrapalhar, é criar as condições para que as pessoas possam crescer de uma forma sustentada, é auxiliar na organização e na coordenação, muito pouco quando comparado com o dos produtores e das comissões vitivinícolas. Frederico Falcão está optimista em relação ao futuro do sector, até porque os últimos indicadores económicos são positivos, passada uma fase mais difícil que coincidiu com os anos da Troika e com a chegada da crise a países como Angola, tradicionalmente dos maiores importadores de vinhos nacionais. O vinho em Portugal está muito bem e recomenda-se. Em termos de consumo nacional, as coisas estiveram mal durante os anos em que Portugal passou por uma situação económica difícil. No final de 2014 começámos a sentir uma viragem e 2015 já foi um ano de crescimento do consumo interno de vinho quer em valor, quer em volume, o que é um bom sinal. Embora não tenhamos dados completos que expliquem este crescimento, estamos

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no fundo, tornando o vinho numa grande atracção turística de Portugal. Obviamente faremos o mesmo com a Câmara Municipal de Porto e com diversas autarquias de todo o país, porque felizmente o turismo disseminou-se por todo o território nacional. Portanto, o IVV procura articular-se com os diversos agentes do sector do turismo, auxiliando na sua ligação com a área que tutelamos. Essa é uma das nossas funções e prioridades.


convencidos que os ligeiros sinais de retoma económica conciliados com o boom turístico (porque o vinho consumido por turistas no país, reflecte-se no consumo interno) terão sido factores determinantes. Não temos dados em separado, que nos permitam avaliar a percentagem que cabe ao consumo de nacionais e de turistas, mas o que vemos claramente é que em final de 2014 e durante o ano de 2015 houve um aumento do consumo interno. Durante o primeiro semestre de 2016 o consumo interno também cresceu. Nas exportações crescemos há 6 anos consecutivos em volume e em valor, portanto, tem sido muito positivo em termos de vendas. Claro que com alguns problemas pontuais que passam pelas contingências económicas de cada país. Por exemplo, Angola que é o principal mercado dos vinhos portugueses, o mercado nº 1 em volume e nº2 em valor, como internamente sofreu uma retracção económica, no ano passado terminámos as exportações com uma quebra substancial e este ano de 2016 vamos com quebras na ordem dos 70%, 72% em relação ao ano passado, que já tinha sido um ano de retracção. Essa desaceleração de exportações para o nosso principal mercado só não foi mais grave, porque felizmente conseguimos compensar com o crescimento em muitos outros mercados, refiro-me ao Canadá, aos Estados Unidos, ao Reino Unido, à própria China, a Polónia com um crescimento muito grande, o Japão, enfim vários países no mundo para os quais estamos a exportar mais e que felizmente estão a conseguir compensar o mercado de Angola. O Brasil também é um País que está a passar por dificuldades, sobretudo, por cariações cambiais que nos são desfavoráveis, no entanto, a quebra mercado brasileiro não é substancial, até porque o seu peso nas nossas exportações não é tão significativo. Mas, repito, temos tido uma evolução muito positiva. Além disso, em termos de imagem as coisas têm corrido muito bem lá fora.

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A divulgação do vinho português é responsabilidade do IVV? Sim, claramente. É tutela do IVV, hoje não é o IVV que a faz, mas é o IVV que aprova os programas de promoção e os financia ou co-financia. A promoção directa é feita pela Viniportugal que é uma associação do sector, mas que vive com os fundos do IVV; é feita pelas comissões vitivinícolas regionais que têm funções delegadas pelo IVV e é feita pelo sector, pelos agentes económicos em especial que também podem concorrer ao IVV a programas comunitários para fi-

nanciamento das acções de promoção. Em tudo isso o IVV tem uma acção preponderante e essencial. A nossa imagem lá fora tem melhorado muito, os vinhos portugueses têm conquistado muitas medalhas em concursos internacionais, aliás, Portugal tem sido nos últimos anos o país com o maior rácio de medalhas nos concursos de vinhos internacionais, se compararmos o número de amostras enviadas com o número de medalhas obtidas. Portugal tem tido, nos últimos anos, vinhos a obterem altas pontuações em revistas da especialidade. Estamos muitas vezes nos Top Ten. Temos 4, 5 vinhos nos dez melhores do mundo, o que é muito bom e alguns deles nos 3 primeiros. Vemos uma jornalista como uma Jancis Robinson, que é a principal jornalista inglesa de vinhos que fez uma média das pontuações que deu aos vinhos de todo o mundo dos últimos 10 anos e o País que aparece em número 1 em termos de vinhos tintos é Portugal com a maior média de pontuações. Portanto, a imagem dos vinhos portugueses está a melhorar substancialmente, mas se é verdade que nós já chegámos aos jornalistas do sector e aos maiores conhecedores/consumidores lá fora, também é verdade que o grosso dos consumidores nos Estados unidos ou na China ou na Rússia ou no Japão não conhecem Portugal. Nem falo só dos vinhos portugueses, não conhecem Portugal. Isso dificulta a tarefa de promoção dos nossos vinhos. A nossa vitória recente no campeonato europeu de futebol ajuda muito a passar a imagem do país e ajudando a passar a imagem país ganham todos os produtos nacionais, incluindo o vinho, claro. Interessa-nos que o nome de Portugal seja conhecido lá fora, tenha uma carga positiva porque com isso ganham os vinhos e ganham todos os outros produtos. Durante décadas, o Estado pormoveu e apoiou uma investigação técnica e científica em torno da vinha e do vinho, através dos diversos Centros de Estudos Vitivinícolas espalhados pelo país, cujo papel foi fundamental para a reconversão das vinhas e para a selecção de bacelos e castas características de cada região. Hoje, esse trabalho investigativo desapareceu e o pouco que existe é realizado em exclusivo por associações ou empresas privadas. Frederico Falcão concorda que é necessário fazer mais e melhor.


Há um grande trabalho de investigação que deve ser conduzido, que é importante que seja feito, até porque estamos numa altura de grandes mudanças climáticas e temos de preparar o nosso sector para essas alterações, que tendem a tornar-se sistémicas. Isso apenas se consegue fazer conhecendo bem o nosso património genético, conhecendo bem as características das nossas castas, conhecendo a sua adaptação ao solo e ao clima e sabendo quais as castas em que devemos apostar no futuro. Esse trabalho está agora a começar a ser iniciado e é uma das nossas apostas, uma das áreas que queremos desenvolver bastante, porque é a chave da sustentabilidade futura do sector. Para terminar lançámos o desafio ao Presidente do IVV para que nos descreva brevemente as modificações que se anunciam num nicho de mercado ligado ao vinho e com enorme potencial de crescimento, o dos vinagres vínicos. Portugal tem potencial para vir a ser líder do mercado mundial de vinagres vínicos de qualidade. Já reuni com o sector que também é tutelado por nós, por ser um produto do sector vitivinícola, no sentido de conjugar forças para a promoção dos vinagres nacionais e tentar estimular a sua certificação. Aliás, vou dizer em primeira mão, o sector dos vinagres está a criar um produto inovador para poder ostentar depois uma marca semelhante à marca Wines of Portugal, que nos auxilie a todos a promover os vinagres nacionais, associando-os às nossas produções de vinho, aproveitando essas sinergias. Portanto, é um produto que queremos valorizar e consideramos que a criação de uma marca comum de vinagres certificados nos ajude nessa promoção. Fotografias cedidas por IVV

por Revista Bica

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O Estado, de há uns anos a esta parte alheou-se desse trabalho de investigação que, por esse motivo, não tem sido realizado de forma sistemática e consistente. Portanto, muito do trabalho de investigação tem sido feito directamente pelos privados. Há, de facto, uma lacuna nesta área, mas estão a surgir algumas ideias e o IVV, obviamente, tem de estar na linha da frente desse processo, embora não o lidere propositadamente, porque consideramos que deverão ser os agentes económicos do sector a liderar o processo, mas com total envolvimento e apoio do IVV e de outros institutos, em particular, o Instituto Nacional de Investigação Agrícola e Veterinária. É muito importante que continuemos a fazer essa investigação, até porque temos, em Portugal, aptas à produção de vinho, 342 castas, sendo que destas, mais de 250 são castas nacionais. Temo-las hoje todas preservadas genéticamente e estudadas com marcadores genéticos. Nisso, somos pioneiros a nível mundial. Nenhum outro país se aproxima ao trabalho que Portugal tem feito em termos de estudo de DNA e preservação de património genético e isso deve-se fundamentalmente à intervenção do Estado. Falta-nos, no entanto, um outro trabalho essencial de reconhecimento das características enológicas destas castas, até porque das nossas 250 castas, sem qualquer dado efectivo, direi que conhecemos umas 40-50, todas as outras não conhecemos o seu potencial enológico e não conhecemos a sua adaptabilidade aos vários perfis de terreno, de solo, de terroir.


Mil e uma maneiras de fazer bacalhau Bacalhau Confit com pimentos agridoces e puré de grão Para 4 Pessoas

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Ingredientes: • 4 Lombos de Bacalhau • 1 Pimento Verde • 1Pimento Vermelho • 100 Grs Chalotas • 500grs de Grão de Bico • Azeite • Vinagre Balsâmico • Açúcar • Alho • Louro • Q.B Noz moscada, pimenta preta sal


Confecção: Para o Bacalhau: 1. Demolhar e arranjar os lombos de bacalhau. 2. Numa frigideira com azeite bem quente corar a pele do bacalhau até ficar dourada. 3. Cobrir as postas de bacalhau com azeite,até ficar submerso, com um dente de alho e uma folha de louro. 4. Levar ao forno a 160ºC, 5minutos. Pimentos: 1.Picar chalotas e alho, cortar os pimentos em juliana (tiras finas). 2.Numa frigideira com azeite, alourar chalotas e alho. 3.Adicionar pimentos e açúcar e deixe caramelizar. 4.Refresque com vinagre balsâmico e deixe reduzir. Puré de Grão: 1.Cozer grão e reservar água da cozedura. 2.Refogar chalota e alho com uma folha de louro. 3.Adicionar o grão e um bocadinho de colorau. 4.Adicionar um pouco da água de cozedura do grão e deixar apurar. 5.Temperar com um bocadinho de sal,pimenta preta e noz moscada. 6.Triturar e ligar com azeite. Empratar como na fotografia

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Receita da autoria : Chef Mariana Claro Restaurante Mercearia Dona Quitéria Travessa de S.José nº1


RAIO GOURMETIZADOR

HAM(BURGUÊS) Raio gourmetizador - poderoso fenómeno artificial que transforma um produto ou local em algo de maior, através da elevação à categoria de gourmet

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O pobre hambúrguer, durante tanto tempo maltratado como comida de segunda, num desprestígio que não merecia, foi alvo de um movimento de massas que lhe trouxe a atenção generalizada e o elevou, em boa hora e numa escalada imparável, a um novo estatuto. Hoje já não nos enganam, dificilmente encontramos um hambúrguer de carne de vaca em pão brioche com alface e tomate, com os extras de queijo ou bacon. Os tempos são outros e já ninguém quer vender coisas tão simples e acessíveis. Afinal, porque teria o pobre hamburguer de ser barato, ao preço de um lanche de pastelaria, se o podemos dignificar por forma a cobrar o mesmo que por um bom bife, ou pelo menos um bom bitoque. Acabou a simplicidade, o hambúrguer precisava de novas companhias, como os pais que escolhem os amigos dos filhos, pois não é de bom-tom estar acompanhado por vulgares tomate e cebola ou pão de brioche que dificilmente ajudavam o hambúrguer na sua ascensão. Foi então chamado para o abraçar o madeirense bolo do caco, hoje representante da mais alta classe dos pães, com uma distribuição pelo país de fazer inveja a muitos jornais. Enredado neste abraço, surgiu o cheddar fumado, o confit de cebola roxa, o ovo biológico de codorniz, a pancetta, os cogumelos shitake, o ananás dos Açores, o queijo de S. Miguel, o tomate coração de boi, o foie fresco da Borgonha, as trufas do Piedmont e outros ingredientes exóticos ou DOP, carimbados por um certo toque aristocrático que logo traz as suas companhias para um outro nível. Assim era seguro que o hambúrguer deixaria de ser um vulgar disco de carne de vaca para se transformar numa iguaria digna de Escofier. Junte-se um molho em redução e o objectivo está cumprido. Nem era preciso recuar na sua ascendência em busca de nomes sonantes, alguém que circula nesta companhia fica de imediato com um alto estatuto.

Para além das companhias mais próximas, era necessário intervir nos acompanhamentos, as simples batatas fritas não são companhia desejável nos tempos de hoje, como aquelas senhoras de má fama com quem ninguém quer ser encontrado. Há que deixar para os outros, os inferiores que ninguém se orgulha de consumir, aquele povo indistinto. Apareceram então as batatas com ervas de algum tipo, as doces, os arrozes estrangeirados as saladas exóticas. Anda assim Lisboa tomada por estes burgueses, pululando as hamburguerias, ditas gourmet, ou, em versão um pouco mais humilde, artesanais ou orgânicas. Do outro lado os hambúrgueres de fast-food, marcas sem status, deixadas para adolescentes e família obesas, o povo. Os tradicionais foram desprezados, restando alguns clássicos e novos humildes, que não querem ascender na sua situação social e apenas pretendem ser honestas casas que servem hambúrgueres, votadas agora a um aparente esquecimento, tentando sobreviver à ascensão social de outras. Os hambúrgueres tornaram-se então um espelho da sociedade portuguesa, pois temos o povo massificado dos fast food, um folhado do meio do gourmet, querendo ascender socialmente e aparecer como algo de superior, e a velha aristocracia dos clássicos, cada vez mais discreta, recolhida na manutenção dos seus pergaminhos. Os novos hambúrgueres são assim os Barões e os Viscondes do dezanove, tornando actual o dito popular, foge “hambúrguer no pão”, que te fazem Barão, para onde, se me fazem Visconde. Quem diria que os hambúrgueres podiam ser tão importantes.

por Pedro M. e Nápoles


Fotografia por Cátia Mingote

Chapéus há muitos

Um adereço que encanta, protege ou até ridiculariza uma Senhora.

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por Joana da Franca


COLUNA DESCOLADA

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“CONGA, UMA GRANDE FESTA”

Há cinco anos, Lisboa era uma cidade mais tímida e discreta, apesar de já serem muitos os espaços de em que as minorias conviviam sem barreiras. A noite gay passava pelo Bairro Alto que era, como sempre foi, um lugar de tolerância, ou pelo Príncipe Real, o bairro cor-de-rosa por excelência, onde algum público hetero-friendly se deslocava a espaços que se mantinham há vários anos, por vezes com fórmulas já batidas. Para muitos faltava novidade e agitação. Corria o verão, quando cinco amigos se juntaram para criar algo de novo, que agitasse a cidade, em particular o meio gay e gay-friendly, e criasse um espaço de pura diversão em que as barreiras de género caíssem em nome de um sã e desbragada convivência. Nasceu o Conga, festa a que os organizadores atribuíram o género masculino, mas que os clientes persistem em tratar no feminino, mostrando bem do carácter polisexual que sempre esteve agarrado ao conceito da festa. O Conga nasceu a pensar no público gay, mas logo se transformou num espaço de liberdade


Como dizem os seus organizadores, o Conga é “como um adolescente imprudente”, cheio de imperfeições, procurando a diversão sem complexos nem barreiras. Pois esse adolescente cresceu bem e tornou-se uma referência para onda mais descolada da cidade, ganhando prémios de melhor festa de Lisboa e tornando-se uma romaria mensal - esperada com curiosidade, imaginando o próximo tema ou local para um público cada vez mais abrangente e fiel.

Todos os meses um novo tema, apoiado em sempre divertidos filmes promocionais, transportado para a festa em cenários e adereços, desde trajes tribais africanos a réplicas de Hillary Clinton, marinheiros ou fatos-de-treino, que se passeavam entre dançarinos musculados ou drag-queens atrevidas. Nem sempre o público aderiu aos temas, numa demonstração de alguma timidez bem portuguesa, mas eles ajudavam a que cada Conga fosse diferente. Como ajudava a sua localização, rotativa, que passou por locais como discotecas abandonadas, bares de má fama ou hotéis. A pista, animada por DJ’s escolhidos criteriosamente, ao som de house music ou das divas da moda, é o seu palco, onde todos são chamados a actuar, sejam bailarinos de mão cheia ou pés de chumbo esforçados, empurrados pela animação geral que não deixa ninguém parado.

por João Almada

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onde todos os géneros eram bem recebidos e em que a diversão sem preconceitos era o principal objectivo. Nascida com um espírito alternativo e underground, a sua popularidade empurrou-a para um mainstream que nunca negou, mas que também nunca procurou.

Passados cinco anos o Conga fechou um ciclo, mas felizmente não as portas. No primeiro fim-de-semana de Outubro regressa, num novo local, mas, mais importante, com um novo conceito. Os Congas temáticos ao som de Beyonce ou Rhyana vão dar lugar a música de DJ’s com outro perfil e a festa regressa agora sem a componente temática, apesar de manter a periodicidade. O Conga renova-se indo de encontro a novas tendências e procurando continuar a ser uma referência, reinventando-se. O que será de esperar desta “New Conga”? Diversão pura, é o que todos os seus muitos seguidores esperam. No dia 1 de Outubro, em espaço ainda secreto, começa um novo ciclo.


Imaginem os mad math men “Mad Men” é um termo histórico que é uma abreviatura para os homens da Madison Avenue, e que foi definido pela própria indústria da Publicidade, numa forma de se autopublicitar. Madison Avenue tem sido sinónimo da Indústria da Publicidade desde os anos 20. Quando examinada de perto, a história ainda se torna mais interessante. Actualmente a Indústria da Publicidade sofre o impacto da disrupção do Digital, da Conectividade, da mudança de hábitos de Media, do Big Data, da democratização do Marketing, da Publicidade, e da Criatividade. Com o advento do Big Data, que na sua essência é um grande volume de dados, numa grande variedade de formatos (texto, imagens, vídeos, logs, etc), que cresce a uma grande velocidade por vezes de veracidade questionável, é hoje crítico conseguir processar todos estes dados para poder suportar o processo criativo.

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Imagine-se só a quantidade de dados que é hoje possível obter só a “ouvir” o que o Consumidor tem para nos dizer, ou melhor, o que diz das Marcas e das Empresas, quando estas não estão a ouvir. Sim, façamos um esforço para nos lembrarmos da última vez que libertámos a nossa raiva num qualquer serviço público, ou quando um produto não foi de encontro às nossa expectactivas, ou quando não conseguimos abrir um pacote de batatas fritas, apenas para quando o conseguimos espalhar as batatas pela mesa ou pela sala...

Imagine-se só o que conseguiríamos saber se “ouvíssemos” todos os ”posts“ públicos feitos nas lojas da McDonalds, ou seja, os Tweets, os posts no Facebook, as fotos do Instagram, os vídeos do YouTube que são feitos em modo público para todos os nossos “amigos” ouvirem. Numa lógica de Design Thinking, a capacidade de pensar como um engenheiro e decompor um problema em vários para o resolver da melhor maneira, é crítico usar o lado racional e emocional, combinar arte e ciência para gerar grandes ideias que sejam ganhadoras no mercado. No exemplo anterior da McDonalds, imagine que os gestores da marca conseguiam “ouvir” o que estamos a dizer da sua marca, no ambiente digital, dos seus produtos, da experiência que é ir a este ou a aquele restaurante e do que representa a marca para eles. Atenção que tudo isto é possível de ser feito, e em tempo real, ou seja, ouvirmos o que dizem, no momento que o dizem e sem filtros! Outro exemplo, que me dei conta hoje é o de um pedido de ajuda de uma amiga por causa de uma actualização do sistema iOS da Apple. Imaginem se o Serviço ao Cliente da Apple estivesse a ouvir e explicasse à minha amiga o que fazer para resolver o problema. Mais, imaginem o que um caso destes faz à reputação de uma marca que é conhecida por tornar tudo mais fácil, não mais difícil...


O Intelligence (sem tradução em Português) são conclusões que podem ser accionadas para tomarmos decisões ou desenvolvermos estratégias de Marketing. Assim o Marketing Intelligence é a arte e a ciência de conseguir tirar conclusões sobre os principais desafios de Marketing com que se deparam os seus gestores para assegurar que os consumidores preferem sempre as suas marcas, de uma maneira rentável para essas mesmas marcas e para as empresas que são suas proprietárias. Os profissionais de Marketing Intelligence são uma “raça” rara pois têm de possuir Inteligência Emocional, para compreenderem os consumidores, mas também uma capacidade analítica superior para encontrarem as relações e processarem todos os dados, informações e insights e para produzir a dita Marketing Intelligence. Serem altamente criativos na forma como abordam os problemas e a Intelligence que os resolve. Mais, têm de ter a capacidade de comunicar essa mesma Marketing Intelligence, que muita vezes é resposta a problemas complicados de explicar, quando mais explicar a sua resolução. Estes profissionais são como os originais Mad Men, no sentido de serem altamente criativos na produção de Big Ideas, o termo usado na Indústria para os conceitos que depois se vêm repercutidos nas campanhas das marcas e que nos entram pelos olhos dentro todos os dias. Estas Big Ideas são, no entanto, fundadas numa análise da informação de uma forma qualitativa, mas também quantitiva.

Mais um exemplo, suponha que era possível imaginar as tribos que giram à volta de uma marca. Ou seja, imagine os vários tipos de grupos que gostam de uma marca. A marca de óculos OAKLEY por exemplo, tem vários tribos. A tribo dos Surfistas, dos Motoqueiros, dos Ciclistas, dos Estilosos com e sem SWAG, das revistas da especialidade, das revistas de desporto, das revistas de tecnologia (usam materiais como o titânio), e poderíamos referir ainda mais algumas. Agora imaginem “falar” com cada uma das tribos sobre os assuntos que mais importância têm para cada um. Por exemplo, para os ciclistas, a visão com maior definição e protecção dos UV, para os estilosos o design vanguardista, para os atletas a sua leveza e durabilidade, e por aí adiante no que se refere a Comunicação de Marketing One-to-One. Sumarizando, um Math Men sem criatividade é apenas um Data Scientist, ou seja, um analista com grande poder de raciocínio lógico e capacidade de processamento de dados e sua interpretação, mas que não consegue a preferência do consumidor de forma contínua e sustentável no tempo. Os Mad Men, publicitários com uma elevada criatividade sem o suporte de insights quantitativos, são meramente inventores de ideias, onde a maioria não serão Big Ideas. Para ter impacto hoje, é preciso ser um Mad Math Men, ou seja, alguém que consegue processar uma grande quantidade de informação de forma racional e emocional de maneira a perceber os reais problemas dos consumidores para desenvolver respostas relevantes, quer seja a nível da comunicação, quer seja a nível do produto via inovação, que os consumidores realmente necessitam.

por Luís Madureira

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A disciplina que o faz já existe e chama-se Marketing Intelligence. Marketing é de uma maneira muito simples, conseguir obter a preferência do consumidor de maneira rentável.


Quero ter educação digital

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Nos últimos anos, a comunicação tem vindo a ganhar um peso cada vez mais relevante, em todas as dimensões, deixando de ser percecionada como ferramenta secundária dispensável, frequentemente cilindrada pelo marketing, para passar a ser considerada um serviço fundamental para qualquer empresa, instituição pública ou privada, partido político, grupo de pressão, etc. Há dois fatores centrais que explicam esta evolução e que têm contribuído para tal engrandecimento: o custo e a eficácia. Por um lado, a crise financeira que o mundo ocidental viveu a partir de 2008, sentida de forma muito expressiva nas economias periféricas, atingiu mercados menos relevantes, como Portugal, com uma fortíssima machadada financeira. Os orçamentos de marketing caíram a pique e as empresas e as instituições tiveram de contemplar outras formas de impactar consumidores e públicos com muito menos recursos. Por outro lado, o espaço público cresceu vertiginosamente nas últimas duas décadas. A internet surge como um meio de fácil acesso, capaz de albergar uma infinidade de conteúdos, sem limitações de páginas, de segundos ou de frames, em oposição aos meios de comunicação tradicionais. Vivemos um momento em que todos passaram a ter a possibilidade de conquistar um público, dirigir-se a um fórum onde podem expressar, livremente, as suas opiniões, desempenhar, por vezes, o papel de jornalistas e a ter, não só acesso a um oceano de informação, mas também a capacidade de produção e difusão de conteúdos que impactam a sua rede. Os mais brilhantes têm hoje direito ao título de “influenciadores digitais”. Estes novos agentes, influenciadores nas mais diversas áreas, são uma das muitas ferramentas que a comunicação e o marketing digital limaram a partir das serralharias contemporâneas: as redes sociais. Com efeito, estas nossas novas melhores amigas martelam-nos com conteúdos sem limite de espaço e de fronteiras que beneficiam, em muito, as aparafusadoras de mensagens estudadas, com fins comerciais., encaixando quase sempre o parafuso na porca certa. Uma maravilha!

Contudo, este novo paradigma tem, a meu ver, uma consequência imediata que merece uma reflexão profunda: como poderemos garantir a credibilidade e veracidade da mais variada informação que consumimos diariamente? Refiro-me nomeadamente a conteúdos informativos, refiro-me a notícias. A crescente propagação de conteúdos, geralmente percecionados pelo consumidor mais desavisado como artigos jornalísticos, supostamente filtrados por um jornalista profissional, produzidos a partir de fontes credíveis, são, muitas vezes, conteúdos com um objetivo publicitário, difundidos por influenciadores cuja agenda é desconhecida pelo público em geral. Seria ingénuo pensar que a comunicação não se baseia em influência de comportamentos mas este novo espaço público, oferecido pela imensidade do mundo digital, deverá forçar-nos a uma ponderação sobre a forma como estamos a ser manipulados, com a agravante do instalado desconhecimento generalizado por parte dos cibernautas da quantidade de dados pessoais que fornecem, de forma inconsciente, às empresas tecnológicas sempre que navegam na internet. Quando na posse dos grandes players do mercado este “ouro digital” é transformado nos fios que manobram decisões, comportamentos e consumos. As clouds e os servidores sabem tudo sobre nós! Sabem mais do que os nossos pais, sabem mais do que os nossos amigos. Há muito que a Comissão Europeia está de dedo em riste e tenta monitorizar os movimentos dos gigantes tecnológicos mas de certa forma o leitor, o leitor-consumidor, está muito longe de perceber as implicações que resultam de uma utilização imprudente da internet. A apatia política em relação a esta questão é evidente, por isso, é urgente explorar um novo ramo da pedagogia. Quero ter educação digital.

por António Ferrari


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Interecycling

fotografia Bruno Esteves

Baixe aqui o aplicativo.

O sonho da economia circular

Fundada há 16 anos, a Interecycling foi a primeira empresa de Reciclagem de Resíduos de Equipamentos Eléctricos e Electrónicos (REEE’s) da Península Ibérica e uma referência no investimento contínuo nas mais modernas tecnologias, 18 milhões de euros, desde a sua fundação.

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Localizada no interior do país, em Campo de Besteiros, ocupando uma área de mais de 32 000m2, dos quais, quase 10 000m de área coberta, a Interecycling tem uma quota de mercado que ronda os 20% e um índice de separação e recuperação na faixa dos 98%, mais alto do que o das suas congéneres alemãs, o que a coloca entre as empresas líderes na Europa na área dos equipamentos eléctricos e electrónicos. Para termos uma noção mais concreta, para se produzir o alumínio que é gerado na Intereciclyng, eram precisas duas turbinas iguais às da Barragem de Castelo de Bode ou o equivalente à da Barragem da Agueira, trabalhando em exclusivo para esse fim. Com o intuito de perceber um pouco melhor o funcionamento da reciclagem em Portugal e em particular da reciclagem de materiais eléctricos e electrónicos, fomos visitar as suas instalações e acabamos surpreendidos por uma conversa sobre Economia Circular e Sociedade Colaborativa com o seu Administrador, Ricardo Vidal, um gestor preocupado com o futuro da humanidade.

A tecnologia que utilizamos na reciclagem está em actualização permanente e exige um investimento constante. Devia ser promovida através de incentivos para o seu desenvolvimento e quando falo de incentivos não falo de pedir dinheiro ao Estado, não falo da lógica do subsídio permanente. Falo de outro tipo de incentivos, por exemplo, um enorme incentivo é colocar o petróleo a 140 dólares o barril. Dessa forma, criam-se uma série de incentivos e estímulos naturais para o investimento em energias alternativas, da mesma forma que quando o petróleo desce para USD$40,00, há um desincentivo forte na utilização dos alternativos. O mercado privado e a própria investigação pública ou outra, assentam sempre na regulação de oferta e procura. Por isso, quando ela justifica surgem alternativas, quando ela não justifica congelam-se. A fase que estamos a passar é de profundo desinvestimento ou desincentivo nas novas tecnologias ou tecnologias mais limpas. Porque com esta baixa do petróleo, parece que tudo ficou bem outra vez. Do ponto de vista económico talvez, porque do ambiental...


Historicamente, a natureza tem um número incalculável de seres vivos e de espécies e fez sempre a gestão destes milhões de seres de forma equilibrada e sustentável. Já o Homem, não consegue fazer essa gestão de forma sustentável. Há mil anos ou dois mil anos, as comunidades humanas viviam em harmonia com a natureza. Porquê? Porque todos os impactos causados pelo Homem eram absorvidos. Hoje, na Amazónia e em algumas regiões de África talvez ainda encontremos esse estilo de vida. No entanto, há luz dos países desenvolvidos, essas comunidades são olhadas como subdesenvolvidas, mas não são. Elas vivem numa profunda simbiose com a natureza. A partir do momento em que passámos a fazer cidades de 1 milhão, 2 milhões, 20 milhões de pessoas, a natureza deixou de conseguir absorver os impactos gerados por essa concentração, bem como os materiais que fomos adoptando para essa concentração. Actualmente o mundo está com 7 mil milhões de habitantes. Em 2030, que é amanhã, passarão a ser 9 mil milhões. São as primeiras duas décadas com um abrandamento abaixo dos mil milhões de crescimento populacional. Nesse calendário, dos 9 mil milhões, os actuais 7 mil milhões, estarão a viver em cidades. Portanto, as cidades ainda vão crescer mais 2 mil milhões de habitantes. A cidade por definição não produz nada. É preciso colocar lá tudo. Água, combustíveis, materiais, comida, enfim, todos os bens de consumo dos quais resultarão quantidades exorbitantes de resíduos para retirar e tratar e essa é a trilogia de que tantas vezes falo: cidades, resíduos e sustentabilidade. Esse é o desafio que vamos ter e onde o cuidado ambiental é determinante. Porque além de abastecer é necessário retirar os desperdícios, o que sobra desse consumo, de forma a serem reutilizados e não gerarem impactos. Estamos a falar de um novo paradigma económico, a economia circular, algo que começa a ser debatido no contexto social, económico e político. E, no fundo, o que é a economia circular? É um novo modelo económico que surge em contraponto aos modelos económicos existentes, que se baseiam numa economia linear. A economia linear assenta na extracção, transformação, comercialização e a seguir no descarte, na deposição. A economia circular assenta na

tentativa de correcção da economia linear nas diversas etapas do seu processo através do tratamento e da reintrodução no sistema dos desperdícios, porque a economia linear gera enormes desperdícios nas fases intermédias, ou por défice tecnológico ou por questões geográficas de aposição de localização. Com isso, obviamente, também gerou enormes transações físicas e financeiras, que nunca levaram em linha de conta as riquezas que deviam ser fixadas, quando falo de riquezas falo de valor acrescentado. Alguns dos resultados disso estão aí à vista: não me parece que a Ásia esteja particularmente desenvolvida e começamos a ver que a Europa não tem emprego e está com taxas de crescimentos 0. Este é o lado mais perverso da economia linear e da globalização que ela gerou. A economia circular, já começou a notarse em muitas coisas, como no fenómeno das sociedades colaborativas, dos serviços gratuitos, numa nova forma de pensar actividades económicas inclusivas e colaborativas. De certa forma este fenómeno já existe há alguns anos sob a figura de cooperativas, se bem que, neste caso, falo das associações colaborativas. A partir do momento em que tenhamos essa economia circular em funcionamento, numa primeira fase, a reciclagem volta a ser essencial em colaboração com os cidadãos e vai permitir retirar valor acrescentado que hoje não está a ser retirado, o que ajudará a fixar indústrias em territórios próximos. Um dos grandes desperdícios à luz da economia circular é a logística e a distribuição. Se essa despesa for cada vez mais reduzida, liberta uma margem que poderá voltar a acomodar o regresso das indústrias que se deslocalizaram na expectativa de custos de produção mais baratos. A redução dos custos de distribuição, pelo encurtamento da distância, compensaria as vantagens de uma mão de obra mais barata. Se pensarmos, o mundo anda sempre atrás de matérias primas. A mudança do nomadismo para o sedentarismo só foi possível a partir do momento em que se garantiu o fornecimento de matérias primas. Na época seriam mais alimentos, hoje já não falamos apenas da matriz alimentar. A Europa sempre andou atrás de matérias primas e por isso é que os países europeus foram os responsáveis pelo comércio global e pela descoberta de todos os continentes. Sabemos que toda a desindustrialização que sofremos nos últimos 20 anos aconteceu pela deslocação das indústrias para locais mais próximos das fontes de matérias primas e com custos laborais mais baixos, se as ma-

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Ricardo Vidal tem 37 anos e uma filha quase a chegar aos 2, talvez por isso se mostre tão preocupado com o estado em que ela irá encontrar o Planeta quando chegar à sua idade.


térias primas forem produzidas a partir da reciclagem, o que até tem a ver com políticas de ambiente e protecção de saúde pública e de ecossistemas, essas matérias primas disponibilizadas à indústria local, passam a ser um factor não só de fixação, como de retorno de muitas indústrias. Ricardo fala de forma pausada, quase doutoral, mas quando fala de economia circular, a expressão corporal altera-se revelando o entusiasmo indisfarçável. Desde a Segunda Guerra Mundial que a Europa foi enraizando os Estados Sociais, o balizamento de salários mínimos e a defesa do ambiente e tudo isso parecia que onerava as empresas que operavam nos países europeus. Ora a Europa, hoje, chegou ao patamar daquilo que se designa de mercado maduro e isso quer dizer que tem pouco crescimento, mas é um crescimento enormíssimo quando comparado com outros, porque 1% de crescimento na Europa, vai continuar a corresponder, no mínimo a 7 ou 8 do Brasil, a 6 ou 7 da China, porque tem um peso muito grande na economia mundial. Ora se a Europa não é competitiva pelo seu Estado Social e pela sua protecção laboral, com matérias primas produzidas localmente em escala e em qualidade suficientes para abastecer o mercado europeu, não digo na totalidade, mas numa boa parte, então a nossa diferença salarial e os nossos custos sociais e de produção, acomodamse de uma forma muito competitiva face à deslocalização para outros países como a China, onde em primeiro lugar, continuamos a contribuir para produtos que não são feitos com a base ambiental que a Europa se impôs a si própria e isto é incoerência, em segundo lugar, com matérias primas conseguidas à custa duma exploração anárquica da natureza e com custos sociais elevados e tudo isto com enormes logísticas pelo meio.

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Ouvindo Ricardo Vidal falar, uma pergunta óbvia se nos coloca: o que tem entravado esta solução, que nos parece tão sensata? A Europa é líder e tem estado há muito tempo isolada nas políticas ambientais e de protecção de ecossistemas, entre as quais se conta a gestão correcta de resíduos. Tem estado demasiado isolada, até porque países como o Japão, a Coreia do Sul, a Malásia, já deveriam estar preocupados com isso e os EUA fundamentalmente.

Durante décadas, o que tem sido lamentável, criou-se uma ideia pré-concebida de que os temas ambientais eram um luxo só possível para países ricos, porque custavam muito dinheiro, sem trazerem vantagens à competitividade. A grande questão é que com a evolução mundial das últimas décadas, as questões ambientais já não podem ser olhadas apenas como luxo, hoje existem duas linhas perfeitamente identificadas na aplicação de políticas ambientais correctas e que são positivas: além da vantagem ambiental, é a competitividade dos países que ganha, pois são geradoras de postos de trabalho e de riqueza. Ora este mito não cai, porque existe uma cristalização de quem tem poder para alterar as coisas. Parece que continua a haver a ideia, por parte das pessoas que estão à frente dos ministérios que tutelam estes assuntos, de que isto são coisas muito onerosas, impossíveis, inviáveis. Isto não é verdade porque hoje existe uma componente económica muito importante a ter em conta. Na Europa são gerados para resíduos cerca de 230 milhões de toneladas só de plástico. Se admitirmos que 50% disso possa ser reciclado, estamos a falar de muito emprego, muito investimento e num ganho considerável. A tabela de Mendeliev só tem 98 elementos, o que quer dizer que todos os nossos objetos de consumo só podem vir daquela proveniência. Está provado que a reciclagem de muitos artigos é infinita, quer dizer, os materiais não perdem propriedades só porque foram fundidos e reutilizados. Portanto, veja-se o potencial. Porém, não se trata apenas de uma questão de políticas, outro dos entraves é individual: o ser humano é por definição competitivo e individualista e isso tem de ser alterado, porque com estas duas características, não há nem economia circular, nem sociedade colaborativa. E a defesa do ambiente centra-se nessa noção do colectivo. Por exemplo, ninguém liga muito aos electrodomésticos que tem esquecidos em casa, ou à separação efectiva do lixo, mas se o Estado vem dizer que vai gastar mais 60 milhões para despoluir o Tua já está tudo bem. Quanto teria custado fazer uma política ambiental correcta? – Pergunta Ricardo empolgado. No mercado da energia, empresas do sector falam na necessidade de nos ligarmos ao mercado Ibérico, discutem a necessidade fazer nucleares, a própria EDP tinha projectos para fazer entre 7 a 8 novas barragens. Tudo para satisfazer consumo e sem nunca se equacionar a utilização do desperdício. Se calhar com muito menos dinheiro do que o gasto numa turbina de uma


Enquanto conversamos, acompanhamos Ricardo Vidal numa visita à fábrica, começando na impressionante aglomeração exterior de frigoríficos, máquinas de lavar roupa, televisões, computadores e dezenas de outros electrodomésticos que chegam a ritmo quase diário, aguardando os diversos processos de separação a que serão sujeitos até à sua reciclagem e transformação em materiais de pureza quase virgem. É já no Museu que a empresa decidiu criar em 2011 e onde expõe uma evolução temporal de diversos materiais eléctricos e electrónicos e onde recebe anualmente cerca de 2500 estudantes de diversos graus de ensino, onde são sensibilizados para os problemas ambientais, que o jovem administrador da Interecycling conclui a sua explanação sobre os novos caminhos da reciclagem e reutilização de desperdícios. O ambiente é inadiável e ou se paga a bem ou se paga a mal. É fulcral que todos tenhamos consciência disso, em particular os nossos governantes. Qual foi o custo, só neste último meio ano, das cheias, das secas e de distúrbios de outra natureza? Quanto? Para depois se queixarem dos tostões gastos com o ambiente. Não sei por quanto tempo podemos fingir que o problema ambiental não existe, mas o que sei que hoje há duas ilhas do tamanho de França, formadas de plásticos, no

Pacífico. Sei que este ano vi chuvas até Junho e temperaturas de que as pessoas da idade do meu pai não se recordam. Sei que cada vez há mais doenças, nomeadamente oncológicas registadas em pessoas cada vez mais novas, o que há anos atrás não acontecia. Temos de investir no ambiente, na reciclagem. Temos de repensar a produção, para que todos os produtos que fabricamos o sejam com materiais que possam ser reclicados. É só aprender com a natureza. Os desperdícios ou o que não se integra na circularidade, a natureza extingue. Nós não. Temos de nos consciencializar que o ambiente não é a causa utópica e fundamentalista que se pensa, é parte integrante do sistema económico e motivo de viabilidade de muitas actividades. Num estudo europeu, a previsão de empregabilidade de um sector ambiental forte é na faixa dos 4 milhões de postos de trabalho. Portugal está ao nível dos melhores da Europa na área da recolha, da deposição e aterro e na primeira separação ou despoluição dos artigos. A seguir a esta fase. Toda esta cascata de maximização de valor acrescentado, que poderia ficar no país, ainda continua a ser exportada para outros fazerem, por falta de investimento. E é nessa industrialização final do processo que teremos os postos de trabalho mais qualificados, porque nessa fase já estamos a falar de um misto de reciclagem com indústria transformadora, porque implica fundições, separações muito mais apetrechadas e tecnológicas, portanto é a fatia apetecível que estamos a desperdiçar. Para as pessoas terem uma ideia mais exacta de quanto o sector pode crescer, basta fazerem o seguinte exercício: tentem lembrar-se por quantas fábricas de reciclagem passaram nos últimos tempos e depois por quantas fábricas tradicionais. Ora se pensarmos que as fábricas tradicionais existem para colocar produtos no mercado, deveria haver mais ou menos a mesma ocupação de área coberta e trabalhadores em fábricas de reciclagem. Porque se tudo o resto é para abastecer o novo, seria preciso mais o menos o mesmo para reciclar. É um longo para percorrer, mas se o percorrermos, não só o ambiente será melhor, mais cuidado, como a economia de cada país fica a ganhar, em rentabilidade, em emprego e em qualidade de vida.

Texto e fotografia por Bruno Esteves

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dessas barragens, gerávamos a troca de milhares de objetos que já estão obsoletos face a novas gerações de consumo, com muito maior impacto social, económico e de crescimento. Porque para a turbina e para a barragem, vamos contratar uma empresa estrangeira que trata da tecnologia e uma construtora, criando uma vaga de troca de milhares de electrodomésticos, é o distribuidor, o tratador, o separador, que ficam a ganhar, portanto seria uma solução com muito mais equidade social. A reciclagem e reintrodução de materiais à escala global não deverá rondar os 10%. As pessoas pensam que quando colocam os resíduos no contentor passam a ser automaticamente reciclado e não é assim. O grande volume ainda está a ir para aterros. No Brasil, só São Paulo e Rio de Janeiro originam por dia, cerca de 35 000 toneladas de resíduos sólidos urbanos. Um volume destes reciclado, geraria entre investimentos logísticos e industriais entre 3000 a 4000 postos de trabalho!


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Fotografias por JoĂŁo Albuquerque Carreiras


POSTAIS PERDIDOS Por João Albuquerque Carreiras

Caríssimo, Faz já algum tempo que deixei a nossa terra para me aventurar por terras de “sudamerica”, num caminho errático e sem preparação que me levou ao Norte do Chile, a um lugar remoto chamado São Pedro de Atacama, onde o tempo parece ter parado numa indolente e prolongada sesta. Sabes como preciso de me desligar do mundo de quando em quando. Nada melhor que o deserto para nos esvaziar a mente de todo o acessório e nos deixar simplesmente estar, ser, viver. Deambulo entre as casas brancas sob efeitos de Pisco Sour e sinto a liberdade percorrer-me da cabeça aos pés, como se de repente levitasse sobre vida mundana e o frenesim quotidiano. Ocupo os meus dias a passear, simplesmente a passear por caprichos da natureza. Geiseres a cinco mil metros de altitude onde chegamos ao nascer do sol e subitamente parecem o destino de uma viagem espacial a um qualquer outro planeta. As lagoas de um azul único, sem pantone que o possa definir, contrastando com o creme quase laranja das montanhas inóspitas, pontuadas por lamas que nos distraem da contemplação andando preguiçosamente junto à água. Os imensos salares povoados de flamingos, esse animal que tanto gosto, com uma elegância saída das passerelles de Paris, rosa suave e pastel, fazendo quase um skyline sobre os espelhos da água salgada.

A natureza brincou aqui, e resolveu brincar sem o verde, seu habitual material. Sendo a água o meu elemento, não deixa de ser curioso que o deserto me preencha no seu vazio. Curioso, se calhar não, o ser humano é tão bom nas suas contradições. Os locais falam de uma energia especial desta zona, proveniente de um qualquer mineral. Saio a acreditar nela, pois Atacama foi um momento único nesta minha viagem, um tempo de liberdade total e absoluta, que começou na minha chegada de mochila às costas e sem lugar marcado para ficar e terminou numa custosa despedida, saindo de autocarro rumo à Argentina por um planalto que parece tocar o céu. Já foi escrito que o deserto muda as pessoas, este mostrou-me a nossa pequenez perante a natureza em estado bruto. Só por esta lição de humildade teria valido a pena, mas foi tanto mais. Um abraço imenso como este deserto. João

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São Pedro de Atacama 28-XI-09


Viagens na nossa terra VISEU

Gosto da sensação acolhedora do regresso. De voltar a lugares que conheço. Do sorriso cortês nas caras familiares. Do abraço sentido dos velhos conhecidos. De deambular por ruas que me trazem lembranças de sons, de cheiros, de momentos. Não são muitas as cidades em que descubro estas sensações, mas por maioria de razão Viseu é uma delas.

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Durante muitos anos Viseu foi a minha cidade. Melhor, durante muitos anos, Viseu foi a cidade. Nascido nas encostas solarengas do Dão, janela aberta à imensidão da Serra, cresci numa espécie de redoma aquiliniana que se abria de tempos a tempos para ir à cidade e descobrir, com excitação, a história das casas, das igrejas, das ruas, o corre-corre agitado das pessoas, o encanto dos parques, a simpatia das gentes. E, apesar da dimensão assustadora de quase tudo para uma criança só habituada a jardins e a vinhedos, havia uma magia encantatória que me atraía e tornava familiar aquele local distante e quase inacessível.


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Depois, foi a descoberta duma outra cidade na idade de todas as descobertas. Dos primeiros beijos “roubados” à socapa na reconfortante penumbra das árvores do Parque Aquilino Ribeiro, dos westerns do Peckinpah no velhinho Cine Rossio, dos primeiros traçadinhos bebidos de trago nas obscuras tascas da Rua Direita, dos amigos jurados para a vida no Liceu Alves Martins, das tardes de bilhar no Clube, marcadas pelas inesquecíveis torradas da D. Alice. Com as certezas da juventude vem o desencanto com o que nos é próximo. Cheios de sobranceria, olhamos com desdém tudo o que até então nos encantou, desdenhando da pequenez, do provincianismo, da falta de cosmopolitismo. Inflados de ambição, sonhamos com o glamour de Nova Iorque, com os bas-fonds jazzísticos de Paris e até com a “movida” madrilena. E partimos... No início, as visitas espaçadas, resumemse a longos dias de mimos em família e a um ou outro jantar pré-agendado com amigos. Com o decorrer dos anos vamos redescobrindo, com saudosismo, os lugares da infância e da adolescência. Em relação a Viseu esta redescoberta, apercebi-me há pouco, implicou o regresso definitivo às origens de grande parte dos amigos que, formados e com a vida estabilizada, procuravam o local ideal para trabalhar e viver. Aguçou-me a curiosidade este caso raro, num país com o interior ao abandono, apesar dos quilómetros e quilómetros de novas estradas ligando lugares vazios de gentes e de esperança. Por isso, decidi ser turista na minha cidade e tentar perceber o porquê do seu rejuvenescimento e crescimento. A verdade é que Viseu está linda! Cresceu de forma equilibrada e ordenada, sabendo respeitar o seu património e preservar os muitos espaços verdes que sempre a caracterizaram.

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O centro histórico impecavelmente recuperado foi devolvido às pessoas, sem destruir o comércio tradicional, apesar das queixas habituais dos comerciantes locais que anunciam a sua morte desde a minha meninice. Passeando pela zona da Sé, encontramos wine bares que promovem os vinhos do Dão, lojas de requintados produtos regionais, livrarias, restaurantes. Famílias passeiam pela cidade, cruzando-se com um cada vez maior número de turistas que procuram o interior do país e se surpreendem com a agitação desta pequena cidade beirã.


Mas, é falando com as pessoas que percebemos os principais motivos desta atracção. “Aqui temos tudo o que uma cidade grande oferece sem os problemas que teríamos em Lisboa ou no Porto. Os nossos filhos estudam ao lado de casa, em boas escolas públicas. São os avós que os vão buscar e ajudam a fazer os trabalhos de casa. Chegamos do trabalho a horas decentes, a tempo de brincar com eles. Temos um óptimo teatro, bons cinemas, amigos ao lado e, na prática, estamos perto do Porto, de Salamanca, de Lisboa e até de Madrid” A esta descrição, recorrente em todas as conversas que mantive com amigos que decidiram regressar, soma-se o fator essencial: o emprego. Durante anos, a região do Dão caracterizou-se por uma economia rural de subsistência, fruto dum arraigado sentido de propriedade que impediu o associativismo. A tentativa de implantar o espírito cooperativo, que funcionou, sobretudo, no sector vinícola, esbarrou com anos de má gestão e de péssima visão empresarial. No entanto, tudo isso foi ultrapassado com políticas locais direccionadas à atracção de empreendedores privados e à fixação dos grandes grupos económicos regionais. A somar a isto, desenvolveu-se um plano de investimentos gerador de emprego, nomeadamente com a construção do novo hospital distrital, do politécnico e da recuperação de alguns organismos públicos deslocalizados para o litoral. A melhoria das vias de comunicação, sobretudo da antiga IP5, principal pólo de entrada e saída de produtos do país, colocou a região no mapa da rede de distribuição nacional, permitindo a redução de custos de transporte para os investidores locais.

lo, o Parque Nacional do Buçaco, a região de Lafões e as cidades fortaleza da raia, fazem de Viseu o centro de um dos roteiros mais atrativos do país, com um enorme potencial de crescimento nos próximos anos e para o qual a região está preparada. Nas últimas décadas, renovou-se a oferta hoteleira da região, apostando num turismo diferenciado, forte e dinâmico, mas sustentável, de base comunitária e socialmente responsável. Recuperou-se o património histórico, em muitos casos, adaptando-o a fins turísticos. Investiu-se na agricultura biológica não só como forma de diferenciação de mercado, mas, sobretudo, como aposta num desenvolvimento agrícola ecologicamente correcto e ambientalmente equilibrado. Desenvolveu-se a oferta cultural, com a proliferação de diversos festivais, concertos e espectáculos. Permitiu-se a recuperação e ocupação do centro histórico com bares e restaurantes, tornando a cidade viva e atractiva. Soube dinamizar-se uma gastronomia riquíssima, mantendo as raízes tradicionais e aproveitando a qualidade invulgar dos produtos locais, em espaços modernos e acolhedores, onde se faz jus à hospitalidade da região. Por tudo isto, hoje, Viseu é e um exemplo de sucesso que deve ser estudado para que possa ser replicado num interior votado ao abandono.

por João Moreira

Ilustrações por José Almeida

Finalmente, o turismo até então incipiente, cresce de forma sustentada, consequência duma aposta ganhadora na divulgação do património histórico, gastronómico e ambiental da região, que antecipou as grandes alterações na procura dos principais emissores turísticos internacionais. A localização privilegiada entre o Parque Nacional da Serra da Estrela e o Parque Natural do Douro, a que se somam a Serra do Caramu-

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A agricultura, fruto da ascensão duma nova geração com um espírito empresarial renovado, revitalizou-se, sobretudo, em torno do vinho, com um sucesso reconhecido nacional e internacionalmente.


Prémios Nacionais e Internacionais

Robert Parker - Classificações 2016

Portugal Wine Trophy Sakura Awards IWC - International Wine Challenge CMB - Concours Mondial de Bruxelles Brazil Wine Trophy

Dona Georgina 2008 e 2009 - 93 pt Jaen 2010 - 92 pt Dona Georgina 2007 e 2010 - 92pt Touriga Nacional 2007, 2008, 2009 e 2010 - 92 pt

Disponível nas lojas: [162]

Portfolio (Aeroportos de Lisboa e Porto) | Garrafeira Veneza - Lisboa | Garrafeira Sommelier - Lagos - Algarve Garrafeira Feira do Vinho - Almancil - Algarve | loja online - www.quintadelemos.com Quinta de Lemos - Passos de Silgueiros 3500-541 Silgueiros - Portugal | GPS Lat. 40º34’32”N | Long. 7º58’55”W Tel. +351 232 951 748 | info@quintadelemos.com


Quinta de Lemos

Por amor às origens.

É a Serra que olharemos quase até virarmos à direita em direcção a Silgueiros, mesmo quando escondida pelas cúpulas de velhos pinheiros ou de ancestrais oliveiras que dominam a paisagem. Depois, como por magia, as vinhas começam a atrair a nossa atenção, intercaladas por velhos casarios de granito e por imponentes moradias, mescla de arquitectura centro-europeia e da fértil imaginação edificadora dos seus proprietários. Vinhas novas, na sua maioria, a avaliar pelo compasso em que foram plantados os bacelos, permitindo o uso dos tractores no auxílio das tarefas agrícolas. Vinhas irrepreensivelmente tratadas, bem

podadas, um mimo para a vista. Vinhas tão novas como os enólogos que delas cuidam e que se têm empenhado nas últimas décadas em recuperar para o vinho do Dão, nestas margens ensolaradas do rio a que roubou o nome, o prestígio e, sobretudo, a qualidade de outros tempos. É com um desses novos artesãos do vinho que vamos conversar, cruzadas as estreitas ruas de Passos de Silgueiros, pequena aldeia beirã, riquíssima na tradição etnográfica da região, em direcção à Quinta de Lemos, sonho tornado realidade pelo espírito empreendedor de Celso de Lemos, filho da região, cedo emigrado para a Bélgica de onde, após os estudos em engenharia química e quase duas décadas de trabalho na área do têxtil, regressou para fundar a Abyss & Habidecor, a empresa têxtil nacional que, segundo o Wall Street Journal, fabrica as melhores toalhas do mundo, utilizadas por Barack Obama, por Putin e pelos clientes dos exclusivos hotéis Burj Al Arab, no Dubai e Grand Hyatt, em Hong Kong. [163]

A imponência majestática da Serra da Estrela ao fundo, tingindo de negro um irrepreensível azul celeste que domina todo o horizonte, é o que nos prende a atenção. Dos prédios incaracterísticos que vão ladeando os primeiros quilómetros da Estrada Nacional 231, que liga Viseu a Nelas e que em breve darão lugar a pequenas vinhas cuidadas, não ficará senão uma brevíssima lembrança.


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“O pior dos crimes é produzir vinho mau, engarrafá-lo e servi-lo aos amigos” Aquilino Ribeiro


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Conversa Ă volta do vinho


Eu estou aqui desde 1997. Já lá vão 18 anos. Tinha acabado de fazer um Bacharelato em Engenharia Alimentar em Viseu e fui convidado para vir para aqui, porque tinha relações familiares com o Celso que é o proprietário. A ideia inicial não era fazer algo destas dimensões. Era criar um espaço onde ele pudesse vir descansar com a família e trazer alguns amigos e clientes e onde se produzisse um bom vinho do Dão. O Celso tem um amor desmedido a esta terra. A Viseu. Para terem uma ideia, um dia estávamos juntos numa feira de vinhos em Dusseldorf e ele esteve duas horas a ouvir o relato do Académico de Viseu. – Hugo com um sorriso rasgado. - Já trabalhando aqui, fui estudar enologia para Trás-os-Montes. O meu percurso académico foi este, sempre acompanhado pelo trabalho, que aqui na Quinta de Lemos, começou como disse, há 18 anos, adquirindo as propriedades, plantando as vinhas, orientando a construção da adega.

As vossas vinhas não têm a distância habitualmente usada na região. O compasso é diferente, não é?

Hugo Chaves

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Hugo Chaves, o engenheiro alimentar especializado em enologia a quem Celso de Lemos incumbiu a tarefa de fazer vinho do Dão nas terras de família, acrescentadas de uns tantos hectares adquiridos para o efeito, tem o ar atarefado dos homens da lavoura a quem o negócio prospera. Numa sala enorme, virada à vinha, sentado a uma secretária coberta por papéis com anotações à mão e por revistas de enologia, recebe-nos indo directo ao assunto:

Engraçado que tenham reparado. De facto, não têm o mesmo compasso e eu passo a explicar porquê. No período que mediou entre 1997, quando o projecto começa e 2000, quando iniciamos a plantação das vinhas, deram-me a possibilidade de fazer diversos estágios, na Califórnia, em Bordéus, na Borgonha, para perceber melhor este mundo dos vinhos. Por outro lado, à medida que fomos ganhando dimensão de área, o projecto começou a ganhar outros contornos. A ideia inicial de fazer um vinho para amigos e clientes deu lugar a outra, bem mais ambiciosa de criar um dos melhores vinhos do mundo, usando as nossas variedades e a nossa gente. Por isso, os estágios que realizei e as visitas que fiz a vinícolas do mundo inteiro tinham um único objectivo, perceber como havíamos de plantar a vinha com a finalidade de atingir o objectivo de fazer um dos melhores vinhos do mundo. Acabámos por decidir que a melhor forma de plantio era a praticada em Saint Emillion e foi a que adoptámos. A condução de 1 metro e meio por um metro, 6000 plantas de


Quinta de Lemos | CONVERSA À VOLTA DO VINHO

Hugo fala de forma pausada, lenta, como que para nos dar tempo para digerirmos as informações que vai transmitindo e para que possamos acompanhar a explanação técnica que entende necessária. O que é que nos levou a introduzir este novo sistema, que é único em Portugal, à excepção de umas quantas outras vinhas que foram plantadas por mim ou sob a minha supervisão? Foi o facto de com este tipo de plantio, com o dobro das plantas, produzirmos a mesma quantidade de uma plantação convencional. Isto é, o rendimento unitário de cada planta é aproximadamente metade do de uma planta numa plantação convencional.

Isso tem a ver com o compasso escolhido ou também tem a ver com a poda que é feita posteriormente? É óbvio que depois tudo isso tem de ser ajustado, porque acabamos por ter um microclima diferente uma vez que temos uma área folhear muito superior ao normal, logo uma evapotranspiração muito maior, ora isso implica uma mentalidade diferente em relação à manutenção da vinha. Mas, voltando atrás, o que nos levou a fazer este tipo de compasso foi o facto de que produzimos menos por planta e por isso, quando temos um determinado número de folhas, que são as fábricas que produzem os foto assimilados que são canalizados para as uvas e que as amadurecem, se tivermos

um número x de folhas e os nutrientes forem canalizados para 4 uvas, elas vão amadurecer muito mais rapidamente do que se o mesmo número x de folhas tiver de alimentar 8 uvas, logo vou ter uma maturação mais precoce, o que implica uma vindima muito mais cedo, o que nos permite ultrapassar o grande problema da região que acabei por não explicar antes e que é o equinócio de 21 de Setembro que vem sempre acompanhado de chuva. Explicadas as motivações por detrás da opção técnica que tomou para o plantio da vinha, Hugo retoma o ritmo normal da conversa, substituindo a fala pausada e quase professoral por um tom coloquial e até acelerado em alguns momentos, como que querendo chegar rapidamente ao cerne da questão, o vinho que produz. Em condições naturais, no Dão, as vindimas ocorrem no final de Setembro princípio de Outubro, estamos nós em plena época de chuvas. Se tudo correr bem não chove, dizem, mas nós não nos podemos permitir ao “se tudo correr bem”, por isso temos de vindimar antes de 21 de Setembro e para vindimar antes dessa data temos de antecipar a maturação e para antecipar a maturação temos de produzir menos, daí termos de aumentar o número de plantas por metro quadrado, para que não se perca tanto rendimento.

Essa opção reflectiu-se na enxertia? Isto é, levaram em consideração as diferenças de produção diversas castas?” Não, porque nós aqui fazemos a nossa monda, não esperamos que o São Pedro a faça. – Hugo com um sorriso malicioso no rosto. – Cada variedade na Quinta de Lemos produz 4 toneladas de uvas por hectare. Se na Touriga temos de deitar abaixo 3 toneladas de uvas que são o excedente, se calhar no Jaen temos deitar 5, porque produz muito mais, na Tinta Roriz outras 5, no Alfrocheiro Preto, só 3 ou 4. Nós fazemos essa monda. Mas, com tudo isto que expliquei, acabámos por produzir um vinho do Dão, com as castas do Dão, com as pessoas do Dão, mas com uma personalidade diferente e características bem distintas, porque temos uvas maduras mais cedo, acabamos por vindimar em Agosto. Se eu dissesse isso há uns tempos, diziam que eu era maluco.

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densidade. Tecnicamente, fiquei convencido que, para esta dimensão, este era o melhor método para a plantação da vinha em termos vitícolas e continuo convencido disso. Para mim é o melhor sistema de condução e a melhor densidade. Isto porque, a nossa região é muito semelhante em termos climáticos à de Bordéus, no caso a Saint Emillion, com uma única diferença que é o tipo de solo. Enquanto lá é argilo-calcário, nós aqui temos um solo de areia granítica, o que imprime um resultado completamente distinto aos vinhos. Qual é o nosso maior problema aqui no Dão e isso é conhecido do produtor e do consumidor? É a constância. Podemos fazer o melhor vinho do mundo, mas só o conseguimos de 1 vez sobre 10. Não temos regularidade na qualidade da produção. Não é na quantidade é, sobretudo, na qualidade. Na regularidade da qualidade é que temos um problema grande, daí a desconfiança do consumidor e a não afirmação da região.


Quinta de Lemos | CONVERSA À VOLTA DO VINHO Lembro-me de nas vinhas antigas se vindimar em Agosto. Ora aí tens. É que as vinhas velhas eram plantadas com este compasso. Até mais estreito. Eram tratadas manualmente e por isso duravam o dobro dos anos. Logo, por causa da idade, frutificavam cada vez menos, o que faz com que se diga hoje que (não só, mas também) das vinhas velhas é que se fazem os grandes vinhos. Voltando à Quinta de Lemos, acabámos por criar um estilo de vinho completamente diferente, porque sendo pioneiros no tipo de plantação, produzimos um vinho com um estilo próprio. Embora sejamos um vinho do Dão, somo-lo de forma bem diversa. É um vinho com uma identidade. O que ganhámos? Ganhámos uma regularidade na qualidade dos vinhos anual, por causa da vindima em Agosto, porque evitamos a chuva da vindima que é o factor que mais deprecia a qualidade do vinho. E um vinho com uma identidade.

E qual é essa identidade? Como definirias os vinhos da Quinta de Lemos? São vinhos muito ricos, com muita estrutura. São vinhos que colocamos no mercado 5 anos após a colheita porque fazemos a sua estabilização natural e como são tão ricos, tão ricos, precisam de mais tempo para estabilizar. Não fazemos estabilizações físicas nem químicas, por isso precisam de mais tempo. Depois são vinhos com uma longevidade enorme. Temos vinhos com 10 anos que parecem que foram engarrafados ontem.

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Que vinhos estás a fazer actualmente? Temos 25 hectares de vinha, dos quais, 60% de Touriga Nacional, 20% de Tinta Roriz, 10% de Jaen e 10% de Alfrocheiro e temos um pouco de Encruzado, casta branca. A Touriga Nacional é uma das melhores castas que existem do que ladeia perfeitamente com um Merlot, um Cabernet Sauvignon, ou um Syrah. É uma casta quase completa, que faz um varietal de excelência e que, em vinhos de lote, dá logo outra dimensão ao vinho. A Tinta Roriz é uma casta que em Portugal é mal-amada por uns e adorada por outros, porque é uma casta

que tem uns taninos que ou são muito secos, ou muito herbáceos ou muito vegetais. É uma casta que precisa de calor. É o Tempranillo espanhol, só que Espanha tem um calor enorme, muito maior e mais seco que Portugal e o solo é diferente. Por exemplo, aqui chovem cerca de 1200 a 1400mm de média anual e em Espanha 300, 400, mas lá as plantas nunca entram em stress hídrico e aqui entram, por ser um solo arenoso granítico, que não tem capacidade de retenção de água. Nós, para a produzirmos, porque acho que é uma casta espectacular e que faz um vinho fantástico, embora tenha aquela característica seca, mas de que eu gosto e que dá um esqueleto aos vinhos de lote muito interessante, só produzimos as tais 750 gramas, fazemos cinco uvas, mas só aproveitamos os dois elos superiores do cacho. Um cacho de Tinta Roriz tem um quilo de peso, em média, nós produzimos 750 gramas, menos o peso médio de um cacho, mas cortamos o corpo todo, só usamos os dois elos superiores junto ao pedúnculo. Reparem bem a quantidade de mão-de-obra que esta casta exige! Mas, produzimos um Tinta Roriz que é de chorar devagarinho. – Risos.

Fazem varietal de Tinta Roriz? Sim, fazemos mono-varietais de tudo. A partir de 2008, a nossa gama passou a ser 4 varietais e 2 ou 3 blends. Queremos levar ao mundo inteiro o sabor específico de cada variedade. Se aqui estivesse o proprietário diria que os blends são uma perda de tempo. Para ele só deveríamos estar a fazer varietais.

Mas os vinhos do Dão são, por definição, vinhos de lote. Por isso temos os blends. Os que nos dão mais trabalho são os varietais porque exigem que as uvas saiam perfeitas da vinha e cheguem perfeitas ao lagar. E quando falo em varietal, aqui, significa 100% de uma casta, porque, como devem saber, pode ser feito um varietal com 85%, 15%. Mas, voltando aos vinhos e às variedades, depois da Touriga e da Tinta Roriz, temos o Jaen que aqui fazemos com 3 cachos, o que exige muita monda, porque é uma casta que produz em abundância. Facilmente se chega a uma produção de 20 toneladas, nós só aproveitamos 4, o que quer dizer que deitamos abaixo cerca de 75% da produção. O pessoal aqui diz que eu sou doido, mas tem de ser assim, por isso é


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Quinta de Lemos | CONVERSA À VOLTA DO VINHO que o nosso Jaen é tão concentrado, com tanta matéria fenólica, com tanto corante. Finalmente o Alfrocheiro Preto, que foi uma casta que eu mal plantei disse que não conseguiria fazer nada dela. Difícil. Talvez por isso existam apenas 2 ou 3 produtores a fazer varietal de Alfrocheiro.

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Mas quando fazem é muito bom! – Risos Disseste e bem. Quando o fazem! Porque acontece fazerem bem em 2005, mas depois só sair igualmente bem em 2009. Ora, como expliquei, isso para nós não dá. Tem de existir constância, regularidade. Como é que torneámos a questão? O Alfrocheiro tem um cacho muito denso, uma espécie de Pinot Noir, com um peso médio na casa dos 120 gramas. E tem um número de bagos tão grande para o tamanho de ráquis, que há uma percentagem de bagos, quando eles começam a aumentar o volume por altura do pintor – Hugo referindo-se ao período do ciclo de vida da uva, cerca de 40 a 50 dias após a fertilização do fruto, em que ela muda de cor, marcando o início da maturação – que não conseguem ficar expostos ao sol. Ficam tapados pelos que vingaram, ainda verdes e sem a maturação necessária. Em anos excepcionais para o Alfrocheiro, quando chove na floração, provocando um aborto natural das flores a que chamamos desavinho e um período que antecede a vindima, seco e quente, fazemos um vinho maravilhoso. Agora quando é que estas condições se reúnem? – Hugo fazendo um silêncio de suspense no final da pergunta retórica. – Quase nunca. Então, já doido com o Alfrocheiro e prestes a mandar cortar a vinha, comecei a reflectir como é que conseguiria provocar o desavinho, o aborto das flores. À mão era impensável. Uma monda química era possível, mas nós não usamos venenos. Como é que eu ia conseguir aquilo? – Hugo aumentando o suspense. – Despontando a vinha no meio da floração. Se fizermos um corte na planta, nos ápices vegetativos, é como se estivéssemos a amputar a planta. Fisiologicamente o que é que vai acontecer, naquele período muito preciso da floração, todos os nutrientes são canalizados para a produção do fruto, por isso se diz que a vinha não cresce nesse período, a seiva é canalizada para a floração, para que se transformem as flores em bagos, ao amputarmos os ápices vegetativos, estamos a provocar uma competição entre sarar uma ferida que foi aberta e a transformação da flor em fruto.

Conseguimos com isto um super resultado. Temos os cachos muito mais abertos, não temos problemas com podridões, porque numa situação normal, num cacho denso, os bagos internos que dão um caracter rústico aos vinhos, normalmente apodrecem. Se os abrirmos, estão todos podres. Ora, encontrámos esta solução que é fácil e simples, porque no fundo, em vez de fazermos a desponta no final da floração para dar às plantas uma melhor exposição ao Sol, fazemo-la no início da floração e temos este resultado. Isto, normalmente, é considerado um problema fisiológico, em termos vitícolas, o desavinho é um problema fisiológico, mas no caso do Alfrocheiro é um benefício. Passámos a ter um vinho que é o nosso vinho mais vendável.

Quanto aos vinhos de lote? - Fazemos três. Um que é uma espécie de topo de gama, com um perfil mais internacional, estagiado 100% em madeira nova, com uma escolha meticulosa das nossas uvas mais ricas e do qual já produzimos cerca de 10 000 garrafas, o que é muito: é o Dona Georgina. Depois produzimos outro que é o típico vinho do Dão, apesar de com um estilo muito próprio, 30% de madeira nova de estágio e usando as 4 variedades: é o Dona Santana. Fazemos ainda, dependendo dos anos, o Dona Louise, que é um vinho mais fresco, mais gastronómico, um vinho de sommelier, que é um blend que só não leva Alfrocheiro. Finalmente temos um vinho branco 100% Encruzado.

Deve ter sido engraçado explicar que tinhas de desavinhar o Alfrocheiro ou de deitar ao chão 75% da produção de Jaen. Nem queiram saber. Mal cheguei começaram-me logo a chamar de maluco. Isso foi engraçado, mas hoje respeitam-me. Os resultados estão aí.

Como é que vês este despontar dos vinhos do Dão, com os novos vinhos de quinta a afirmarem-se um pouco por todo o lado, na maioria dos casos desenvolvidos por enólogos da tua geração? - É moda. Há 50 anos só existia o vinho do Dão, eramos os maiores. Depois apareceram os vinhos do Alentejo e do Douro que


Quinta de Lemos | CONVERSA À VOLTA DO VINHO

- O grande problema para o Dão é que acaba por ser avaliado e classificado num registo que não é o seu registo de consumo. As provas não são realizadas à mesa, durante uma refeição, são feitas “às secas” e isso reflecte-se nas escolhas, os vinhos do Dão levam sempre pancada, porque te afectam muito mais as papilas. Só que 99% do vinho é consumido à refeição e não é aí que se avalia. Hoje, felizmente começa-se a dar alguma importância a isso com os Chefs de Cuisine e as suas harmonizações e aí os

Dão começam a vir ao de cima. Claro que o trabalho dos enólogos melhorou muito o que era feito, mas não retirou as características essenciais da região.

Hugo, o que faz a diferenças nos vinhos portugueses? A tradição. A tradição é que faz a diferença. Vinhos feitos em lagar, de forma artesanal, o que é impensável na Argentina, no Chile ou na Califórnia. Nós produzimos desta forma há centenas de anos. Isso é único. Só existe em Portugal, em França e em Itália. Na Quinta de Lemos somos umas crianças neste meio do vinho, mas há famílias a fazer vinho há mais de trezentos anos. É muito tempo. Isso tem um peso. O peso da tradição. Não há como experimentar de mente aberta e quem o fizer, não tenho dúvidas que sentirá em cada copo o trabalho artesanal que está por trás daquela garrafa e o carinho e a dedicação que gerações e gerações dedicaram às plantas que dão o fruto que permite essa experiência.” Hugo é emotivo. Fala gesticulando para dar enfase às palavras que quer realçar e vive intensamente a sua paixão pelas vinhas que plantou. O Dão é o seu reduto, que defende intransigentemente.

Brindemos a isso!

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rapidamente nos ultrapassaram. Eram vinhos muito diferentes dos que se faziam por aqui, muito mais encorpados, mais doces e sobretudo, muito mais chatos. Isso é fácil de comprovar. Ainda há dias disse isto, vais jantar e colocas um vinho do Douro e outro do Dão na mesa e vais ver qual é a garrafa que se bebe. Duas pessoas, senão bebemse os dois porque há falta de vinho. – Risos. – O que se bebe é o mais gastronómico, que é o Dão. É uma característica do solo, que faz com que os vinhos do Dão sejam vinhos mais frescos, com uma estrutura tânica que pede mais comida. Enquanto um vinho do Douro pode ser um vinho social, que se bebe tranquilamente pela doçura e porque os taninos também são doces, o vinho do Dão é um vinho que pede comida e por isso, à mesa, bate qualquer outro. Um Douro ou um Alentejo, com a comida perde-se, torna-se cansativo e acabas por não conseguir bebê-lo.


Ousadia de ser português

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O homem põe tanto do seu carácter e da sua individualidade nas invenções da cozinha, como nas da arte. Eça de Queiroz


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Este edifício nunca foi pensado para ser um restaurante. É preciso ter esta noção. O objectivo deste projecto era conceber um espaço digno para receber os clientes mundiais da Abyss & Habidecor e obviamente dar apoio a alguns clientes da Quinta de Lemos. Essa era a ideia inicial, por um lado, criar um espaço na região que correspondesse às exigências dos clientes da Abyss & Habidecor e por outro, como estamos a falar de um produto têxtil de elevada qualidade, que permitisse o contacto directo, táctil com o produto. Daí tudo ter sido inicialmente pensado numa escala reduzida, que permitisse a quem viesse visitar-nos, ter a sensação de estar em casa. Uma casa rodeada de vinhedos. – Diogo entreabrindo um sorriso, ao mesmo tempo que aponta para paisagem escurecida pelo fim de tarde. - Com três quartos, uma cozinha aberta, dimensionada para cerca de 10, 12 clientes. – Meu Deus, se eu soubesse… Diogo largando uma pequena gargalhada de mea culpa. – e uma pequena piscina. Tudo bem acolhedor.

Em que fase do projecto é que entras?

Diogo Rocha

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Diogo Rocha tem ar de chef de cuisine. Olha-nos ao longe, sentado a uma enorme mesa com a sua equipa, pedindo um momento para que nos possa dar atenção.

Eu assumi, mais ou menos, na fase da abertura da cozinha, como uma espécie de consultor. Começámos a organizar uns jantares para o Celso, – referindo-se ao proprietário - para a equipe e para a Abyss & Habidecor. Experiências pontuais. Um dia o Celso disse que teríamos de tornar estes eventos em algo de mais permanente. Eu estava metido em outros projectos, na época, e nem sempre conseguia conciliar datas com as pretendidas por ele. Passava a ser uma exigência a tempo inteiro e nós impusemos uma condição. Projectarmos a abertura do restaurante ao público.

Nós, quem? A minha equipa.

Apresenta-nos a tua equipa. Também ela foi crescendo com o tempo e com as exigências óbvias a cada fase do projecto, mas hoje, ao meu lado, tenho a Subchef Inês Beja, o Beto, que é o nosso pasteleiro e o Hélder que é o cozinheiro de 1ª. Na sala tenho o escanção, que é o Rui Madeira, a Raquel como Relações Públicas, o João, como Chefe de Sala e a Mariana e o Nuno. No início era só eu. Fui a primeira pessoa a chegar e andei por aqui sozinho durante mais ou menos meio ano fazendo, essencialmente, pesquisa de produtos. Porque a premissa base do nosso conceito era termos apenas


Quinta de Lemos | OUSADIA DE SER PORTUGUÊS

Alguns desses produtos são regionais? Inicialmente a ideia era usarmos produtos exclusivamente regionais. Porém, isso revelou-se inviável. A começar pelo peixe, não é? – Pergunta retoricamente entre risos. – Por isso a nossa opção é de começarmos pela selecção dos produtos regionais e quando isso não é possível, alargamos a busca até ao limite das fronteiras de Portugal. Com excepção para o chocolate. E mesmo assim, teimosamente, durante o primeiro ano, não tivemos uma única sobremesa com chocolate, mas acabou por ser inevitável. Acabámos por ceder e hoje trabalhamos só com chocolate de São Tomé, pelas óbvias ligações a Portugal.

Depois desse primeiro meio ano de “solidão”, – risos - como se foi desenvolvendo o conceito Mesa de Lemos? Verdade! Meio ano de solidão. – Retoma Diogo com um sorriso saudoso no rosto. – Percorrendo o país de carro. O que, aliás, continuo fazendo. Ainda no outro dia fui a Rabaçal. Chego a Rabaçal e digo assim: estou na vossa terra, quero queijo. Fui ao café e o senhor tinha por lá queijo para vender. Eu disse-lhe que ia à procura de queijo e ele, automaticamente, respondeu – Eu vendo. – Mas eu queria ir mesmo ao produtor. E estabelece-se aquela meia conversa do tipo, pois o produtor, isso é difícil e tal. Até que eu lhe expliquei que era cozinheiro e que queria perceber onde o queijo era feito, como e por quem. Então ele entendeu e disse-me: Vá à casa tal, bate à porta e diga que vai da parte do Nuno do café e peça para falar com o Sr. Engenheiro. Lá fui e consegui. Isto para explicar como este tipo de pesquisa é complicada. Isto tem muito a ver com uma coisa importante que decidimos desde o início, de que não vamos ser mentirosos. O que quero dizer com isto? Que existe um cliché de que os cozinheiros vão ao mercado todos os dias. Mentira.

Quando muito o mercado vem a vocês diariamente. – Risos. Exactamente! Ora nós, se dizemos que vamos ao mercado, vamos mesmo ao mercado e se dizemos que vamos ao produtor, vamos mesmo ao produtor. Não temos um único fornecedor de grande escala. Todos os nossos produtos são comprados directamente ao produtor e alguns no mercado tradicional.

Essa opção foi difícil, no sentido em que implica um grande número de pequenos fornecedores, nem sempre regulares e constantes no fornecimento? Não só foi, como ainda é difícil! Por exemplo, há dias precisei de leite de ovelha, mas só precisava de litro e meio. Tive de ir eu buscar ao produtor. Hoje, por acaso, recebemos cinco quilos de cogumelos pé-decarneiro. No início, como é natural, fomos bombardeados de propostas de diversos produtores e o produto que mais nos foi oferecido foi o cogumelo shitake. Os produtores de shitake saíam daqui todos desanimados porque eu lhes dizia que era um produto que não era autóctone e por isso não nos interessava. Este produtor de pésde-carneiro apareceu-me há mais de um ano e aconteceu o mesmo. Agora ligou-me, porque passou a ter produto que sabe que nos interessa. Durante muito, muito tempo, não tive um prato de porco na carta, porque não encontrei uma carne de porco verdadeiramente excepcional. Hoje, e isso pode parecer estranho, porque estamos abertos há mais de dois anos, fizemos ao jantar, quando vocês chegaram estávamos a acabar, uma prova de cabrito. Para a região isto pode parecer um escândalo! Mas ainda não tínhamos encontrado o perfil do cabrito que nos satisfazia plenamente. A nível dos peixes, compramos directamente à lota de Peniche. Antigamente, antes de estar aqui, estava habituado a pedir um determinado peixe porque tinha na carta e se o meu fornecedor habitual não tinha, teria de conseguir com outro. Agora não. Se a lota não tem, não também não temos. É como os produtos fora da época. Não temos. Nós é que somos tão gulosos que queremos comer todos os produtos sempre que nos apetece. E não tem graça nenhuma, porque nos desiludimos.

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produtos portugueses. Ora, isto levantava um problema. Se os nossos têxteis eram considerados dos melhores do mundo, a bitola estava lá em cima, logo, pelo menos as nossas matérias-primas teriam de ser das melhores do mundo. Isto é um desafio muito, muito exigente. E permanente.


Quinta de Lemos | OUSADIA DE SER PORTUGUÊS É bem isso. O tomate é um excelente exemplo. Nós aqui temos uma pequena horta que eu digo que é uma horta de sinal, porque a nossa produção é muito pequenina e embora o restaurante pareça pequeno, esta semana, por exemplo, já servimos mais de 60 clientes.

Esclarece-nos uma coisa, o restaurante está aberto ao público? No início só Sextas e Sábados ao jantar, mas agora já abrimos de Terça a Sábado. Depois da fase da pesquisa, quando decidi dedicar-me exclusivamente à Mesa de Lemos, tinha deixado claro que essa opção só faria sentido se o restaurante passasse a abrir ao público. Assim foi. Com um objectivo muito claro: sermos um dos melhores restaurantes de Portugal. – Assume, endireitando-se na poltrona, como que ganhando consciência do peso da responsabilidade do que acaba de afirmar. – E não temos qualquer problema em dizer isto, porque acreditamos no nosso trabalho e acreditamos na nossa equipa. Acho que às vezes, em Portugal, temos medo de dizer que somos bons, nós sabemos que ainda não somos bons, mas sabemos que temos potencial. Foi assim que abriu o restaurante, depois de muitos testes, muita pesquisa e encontrando o equilíbrio entre o conceito pretendido pelos proprietários e as nossas próprias ideias sobre o que conceptualizamos para este espaço. Baptizei-o de Mesa de Lemos, para fugir ao nome Quinta, que na região estava muito conotado a espaço de eventos, festas, casamentos e inspirandome na mesa do chefe, aquela além, onde estávamos a jantar. – Diogo apontando para uma enorme mesa localizada junto à cozinha. – A mesa pensada para os tais doze clientes. Então, em Abril, Maio de 2014, abrimos ao público. Melhor, fomos abrindo a porta. Abrimos sem dizer que estávamos abertos. Sextas e Sábados ao jantar.

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E qual é o conceito por trás da Mesa de Lemos? É cozinha portuguesa inspirada em cozinha tradicional. Isto porquê? Como eu sou um tipo muito novo, permito-me lançar algumas farpas, por isso aqui vai: a maioria dos restaurantes que se dizem de cozinha tradicional portuguesa, infelizmente,

cozinham com carne da Argentina ou de Espanha, legumes de África do Sul, uma coisa impressionante, no outro dia apercebi-me que estamos a ser bombardeados por fruta sul-africana, o que é surreal! Laranja da África do Sul em Portugal? Há aqui qualquer coisa que está mal! Então, se há alguém que pode dizer que faz cozinha portuguesa somos nós, porque nós apenas usamos produtos portugueses. A nossa linha, até pelo perfil do têxtil a que estamos ligados e que se reflecte no próprio espaço, na construção, é minimalista, clean. É essa mensagem que queremos transmitir. Para entenderem, nós começamos o nosso menu com uma batata cozida, um ovo e uma cenoura. Começamos assim a contar a nossa história, explicando que aqueles três produtos, simplesmente cozidos, são a base da nossa cozinha. São dois produtos da terra e o ovo. Quase um momento simbólico, para que as pessoas entendam que estão num restaurante que, pelo menos, dá uma atenção diferente ao produto. Três produtos que não são fáceis de encontrar, realmente bons. Exactamente. No início, como eu já falei, o peixe foi um problema que eu percebi que tinha de resolver logo, para obter com uma qualidade irrepreensível, porque por maior boa vontade que as pessoas tenham em te fornecer o melhor, não é a mesma coisa. Mas isso, eu até percebo, já não percebo é porque é que não consigo encontrar bons grelos localmente. Têm de existir, por isso a minha obrigação é procurá-los. E apresentá-los com simplicidade. O que pretendemos é ser geniais na simplicidade. Esse é o nosso desafio.

Um retorno à Maria de Lurdes Modesto? De certa forma sim, porque fazemos uma cozinha inspirada na cozinha tradicional. Porquê? Porque são os sabores de que nós gostamos. Eu dou aos clientes aquilo que gosto de comer. Às vezes tenho de ouvir o cliente. Saber ouvir, porque posso gostar muito de algo que não agrade à maioria dos clientes. A nossa principal missão é cozinhar para os outros. Dar prazer aos outros, não é dar prazer ao meu ego. Isso não existe. Porque eu posso fazer um prato que acho o melhor do mundo, mas se as pessoas não gostarem, algo não está bem. Não é? Eu dou muitas vezes este exemplo: de que serve ter um stand de Ferraris, se o pessoal só compra Fiats?


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Exactamente.

Depreendemos que essa história de que falas decorra durante um menu degustação.

Mas isso aconteceu muito em Portugal. As pessoas frequentarem os restaurantes dos grandes chefes de cozinha, elogiarem, mas efectivamente não gostarem. Ou dizerem que conheciam e nunca terem entrado. Não achas?

Exactamente. Nós só temos um menu degustação que pode ser mais ou menos extenso. O mais completo é composto por 11 momentos, incluindo snacks e sobremesas e o mais curto 7 momentos. Todos os pratos têm um guião. E qual é esse guião? É a história do que está a ser servido.

Eu conheço uma história engraçadíssima que ilustra bem isso, de um empresário que dizia que gostava imenso de ir ao meu restaurante e nunca lá entrou. – Risos. – E eu tive imensos clientes, amigos dele, que iam lá recomendados por ele.

Dá-nos um exemplo.

Fez-te uma óptima propaganda, pelos vistos. Sim, sim! – Entre risos. – Agora falando mais a sério, quando uma pessoa entra no meu restaurante, vem à procura de uma experiência e é isso que temos de lhe proporcionar. Eu não posso defraudar a pessoa. A carta muda consoante a minha inspiração, infelizmente eu não sou capaz de criar todos os dias. Eu conto uma história diariamente, que será igual durante algum tempo, mas que vai mudando em função da minha inspiração. Por exemplo, se olharem para o restaurante, vocês pensam: estes tipos não têm o restaurante montado. Não há copos, nem pratos, nem talhares nas mesas. Quando o cliente chega é exactamente assim que o restaurante está. A tal filosofia de que falava antes. Tudo limpo, clean e de repente as coisas começam a aparecer. E o que aparece primeiro? Uma fogueira. É assim que lhe chamamos. É um cepo a que ateamos fogo, ao mesmo tempo que entregamos ao cliente uma infusão de alecrim com mel e uma toalha embebida na mesma infusão de alecrim. Esse cepo a arder representa as nossas lareiras e fogueiras do interior. Acolhedoras, reconfortantes. A partir daí começamos a contar a nossa história. Vem a batata, a cenoura e o ovo. A simplicidade da nossa cozinha. Mas, como dizia, a batata tem de ser muito boa, a cenoura exemplar, o ovo perfeito e o fio de azeite que corre absolutamente divino. Lá está, o produto tem de ser óptimo, o segredo é não estragá-lo muito. – Diogo entreabrindo um sorriso a que correspondemos, em sinal de compreensão. - E a história continua até terminar com uma cepa de videira, onde vêm os petit fours que acompanham o café.

De um guião? Por exemplo, da carne. Quando a carne é servida, o chefe de sala só não informa o nome do novilho, por que de resto passa todas as informações. Neste momento estamos a trabalhar com novilhos de 198 meses, de uma raça que resulta do cruzamento entre charolesa e alentejana, resultando numa carne com um sabor mais intenso, o que achamos preferível, com 28 dias de maturação na carcaça e come apenas erva e cereais. Vem de Idanha-a-Nova, na Beira Interior. O que nós acrescentamos a esta carne que é cozinhada durante uma hora a 45º para ficar mais macia (nem é bem cozinhar, porque a 45º a carne não cozinha, é apenas para que não aconteça o que é tão habitual quando coramos a carne de um lado e do outro, ficar fria no meio, ora esta hora de forno garante que isso não aconteça quando a coramos e que fique bem enxuta, não largando aquele sangue que não é agradável de ver no prato) é uma batata-doce e cebola de curtume que trago dos Açores, onde vou pelo menos uma vez por ano. E o prato fica completo: o salgado da carne, o doce da batata, o vinagre da cebola e o molho da carne, extraído durante 24 horas e finalizado em mais 4 ou 5 horas. Lá está a simplicidade, três ingredientes, cozinhados de forma simples, com sabores definidos e depois algo que eleve o prato, que neste caso é o molho da carne. Há pouco falávamos da Maria de Lurdes Modesto e isto é algo de que eu tenho uma noção bem clara, nós utilizamos técnicas clássicas. Eu sou apaixonado pela cozinha clássica e quero recuperar essas técnicas, que deixaram de ser usadas porque levavam muito tempo. Mas, nós temos esse tempo, para a confecção dos caldos, dos molhos e de tantas outras coisas. É o nosso DNA. O DNA da cozinha portuguesa, dos seus sabores, dos seus aromas, de que todos temos saudades. [177]

Ou só sabe andar de Fiat.


Quinta de Lemos | OUSADIA DE SER PORTUGUÊS mar de poderes viajar o mundo em busca das melhores influências e dos melhores produtos. O meu percurso académico e profissional foi quase simultâneo. Fiz a escola em Coimbra, Licenciatura no Estoril e Mestrado no Politécnico da Guarda sobre gestão na área do turismo, mas a minha tese é sobre os produtos certificados da Serra da Estrela, que reduzi a um lácteo, o queijo, a uma carne, o borrego e a uma fruta, a maçã Bravo de Esmolfe. Obviamente o queijo foi o Serra de Estrela, mas com um projecto de o fazer em tamanho grande, porque se repararem, os grandes queijos são sempre grandes, em tamanho. Em todo o mundo, os bons queijos são todos grandes. O queijo da Serra é maravilhoso, mas para nós, porque passamos a fronteira e não o encontramos, então temos de encontrar formas de o divulgar. Quando é que o queijo dos Açores passou a vender, quando decidiram começar a vendê-lo às fatias. Como o maravilhoso queijo picante da Beira Baixa.

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Exactamente. Eu costumo dizer e sei que isso vai causar polémica, que nós gostamos do queijo da Serra de Estrela porque não gostamos de queijo. – Diogo entre risos. Continuando o meu percurso, acabo por me cruzar com o Victor Sobral em 99 no Terreiro do Paço, Bela Vista, Encontros e, até acabar os meus estudos em 2007, estive sempre nesse registo. Fui fazendo alguns estágios no Vila Jóia, no Valle Flôr na época do Aimé – referindo-se ao Chef Aimé de Barroyer, francês casado com uma portuguesa, que fundou e dirigiu o restaurante do Hotel Pestana Palace, localizado em Lisboa, no antigo Palácio Vale Flôr, depois foi contratado para o mais antigo e célebre restaurante lisboeta, o Tavares Rico e hoje faz as delícias de quem procura o sol da Caparica, no seu informal, Rambóia, que abriu em parceria com Roger Branco, o empresário responsável pela Hamburgueria do Bairro. – Depois, com o fim do curso, acabei por ficar um ano no Hotel da Urgeiriça, porque estava perto de casa e porque ainda não desisti da região, é uma das minhas características – afirma com uma pitada de orgulho – seguindo-se a Dão Sul, na altura em que lançam o projecto do enoturismo da Quinta de Cabriz em Carregal do Sal, a Quinta do Encontro em Anadia e o Paço

dos Cunhas em Santar, como chefe executivo do grupo, isto depois de ter montado as duas cozinhas e escolhido a equipa de cada uma, até surgir o convite do Celso e vir para aqui. Entretanto, desde 2009 que sou professor no Politécnico e como tenho uma grande paixão pela Feira do Vinho do Dão, organizo sempre uma brincadeira nessa altura, convidando algumas pessoas para cozinhar comigo. Faço muita promoção, não só da Quinta de Lemos, mas da região. Para terem uma ideia, no ano de 2015 fiz 53 workshops ou show cookings, como lhes quiserem chamar. Deu uma média de um por semana. Em todo o país, de norte a sul. É uma coisa incrível para uma estrutura como a nossa. Fazemos isto, lá está, porque ainda acreditamos na região. Aqui só temos vinhos da Quinta de Lemos na carta e o espumante e o branco são do Dão. Há pouco disseste que, como és novo, podes dizer tudo, por isso vamos às provocações. Nas últimas décadas temos assistido a uma mudança na cozinha portuguesa, com o aparecimento de uma série de chefes conceituados que conquistaram uma notoriedade de quase pop stars. Isto foi positivo, ou acabou por se cair num conceito redutor de cópia do que é feito lá por fora? - É curiosa essa pergunta, porque eu acho que a cozinha portuguesa tem três grandes momentos: o primeiro é de facto com a Maria de Lurdes Modesto, o Chefe Silva e outros que apareceram na época e que fizeram a cozinha ganhar uma dimensão diferente, mais profissionalizada. Em França há duzentos ou trezentos anos que os Chef de Cuisine são pessoas importantes, reconhecidas, em Portugal nunca foram. Com essa geração passaram a ser reconhecidos. A Maria de Lurdes Modesto deu uma nova dimensão à cozinha portuguesa, preservando e muitas vezes recuperando tradições ancestrais da nossa culinária. Depois veio uma nova vaga, a geração do Victor Sobral, do Fausto, do Figueiredo e muitos outros, que elevaram a gastronomia a uma fasquia altíssima, porque foram eles que começaram a experimentar coisas. Abandonaram a cozinha tradicional e ousaram coisas novas. Entretanto apareceu a nouvelle cuisine, em 1980 e aí descambou. Havia gente a fazer experiências absolutamente malucas, que não tinham nada a ver, mas foi necessário fazê-las.

Foi esse corte radical que permitiu à tua geração olhar para a cozinha tradicional de uma outra forma?


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Vens de encontro a outra provocação que gostaríamos de te lançar. Uma coisa é encontrares restaurantes de referência no Algarve, em Lisboa, no Porto, outra é a proliferação de óptimos restaurantes em locais absolutamente inusitados, no meio desse interior desertificado de que falavas. A que se deve este, digamos, movimento? À aposta de muito boa gente que ainda acredita nas potencialidades do resto país, sobretudo do interior. Muitos deles, senão a maioria, estrangeiros ou portugueses que viveram no estrangeiro e que anteciparam este novo movimento turístico que busca as raízes, o genuíno. Uma das coisas de que sinto mais orgulho e que me incentivou a aceitar este desafio, é o facto de este restaurante não estar em Lisboa nem no Porto. Deixa-me acrescentar uma coisa que está ligada com a pergunta anterior. Muitas pessoas perguntam-me a opinião sobre estes novos concursos de gastronomia da televisão e eu respondo sempre que acho fantástico. Nunca se falou tanto de boa comida. Além de que, com esses programas as pessoas perceberam melhor o trabalho que tudo isto dá e a exigência de muitos dos pratos que até então não valorizavam. É que uma coisa é cozinhar para amigos, em casa, outra é estar à frente da cozinha de um restaurante. Vejam o meu exemplo: a primeira vez que fiquei responsável por uma cozinha tinha 17 anos e com 24 estava a coordenar um grupo com 3 cozinhas, mas isso só foi possível porque com 5, 6 anos já sabia o que queria fazer. Na altura a minha mãe pensou: isto, coitado, passa-lhe.

Ainda bem que não passou. Depois viu-me ir para Coimbra estudar para cozinheiro e licenciar-me no Estoril, pensando que eu ia ser um desgraçado, porque só ia para a cozinha quem não sabia fazer mais nada. Até na tropa era assim. – Risos Verdade, verdade. Estes programas ajudaram a mudar isso. Até na telefonia. Ontem, no carro, fiz um zapping pelas rádios e parou na Renascença e estava uma senhora qualquer a dar uma receita de costeletas de cebolada. Eu perguntei-me, costeletas de cebolada numa rádio nacional? Mas faz sentido. As pessoas dão as receitas daquilo que comem no dia-a-dia e mais uma vez fala-se de gastronomia. – Diogo bate as mãos como que aplaudindo. – Isso é importante. Às cinco e meia da tarde, alguém falou de gastronomia numa rádio nacional.

Qual é a tua expectativa para os próximos anos do Mesa de Lemos? Como já disse é sermos um dos melhores restaurantes nacionais. Um dos restaurantes de referência de Portugal.

Mantendo este perfil meio exclusivo, abrindo poucos dias e muito focado em grupos fechados? Isso não é bem assim, aconteceu numa determinada fase, que era de descoberta, de selecção, de experimentação. Até porque quem conhece o Celso e a sua família, sabe que não são nada dados a essa exclusividade. São muito de coração, muito de terra, muito de ligação às pessoas. Neste exacto momento João, o chefe de sala, apresenta-nos um especialíssimo queijo de São Miguel acompanhado de uma regueifa. Não é à toa que Diogo viaja todos os anos para os Açores. Desta sua paixão pelas vulcânicas ilhas do Atlântico, resultou a descoberta do mais perfeito queijo de São Miguel que alguma vez provámos. Uma textura perfeita, consistente, derretendo lentamente na boca e um sabor único, fruto dos 24 meses de cura, que lhe conferem uma intensidade ideal. O acompanhamento com a regueifa resulta na perfeição, pois o adocicado deste pão entrançado de origem marroquina e popularizado no norte do país, atenuam a intensidade da cura deste queijo açoriano, motivo suficiente para uma visita ao Mesa de Lemos.

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Isso mesmo. Eles próprios, essa gente que se arriscou a fazer coisas absolutamente loucas, acabaram por regressar à cozinha tradicional. Depois então, apareceram novos chefs como o José Avillez, o Sá Pessoa, o João Rodrigues, entre muitos outros que estão num patamar de alta cozinha, a fazer um outro tipo de cozinha, que em Portugal não tem muito mercado, é preciso dizer isto. Tem algum mercado e é muito importante que exista, mas não tem muito mercado. Digo isto quando penso em mim ou no Miguel Laffan no Alentejo, quando penso no Paulo Matos no Six Senses Douro Valley, ou no Victor Adão que está a fazer um trabalho fantástico no Flôr de Sal em Mirandela, que são localizações que não são comuns. É o interior.


Quinta de Lemos | OUSADIA DE SER PORTUGUÊS Como é que essa recuperação das técnicas da cozinha clássica se reflecte na tua carta? Já percebemos que o conceito passa pela escolha criteriosa dos produtos, cozinhados de forma simples para realçar os sabores e com um elemento congregador que permita o êxtase da experiência gastronómica. Mas, como encaixas a cozinha clássica nesta viagem que pretendes tão minimalista?

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Esse é o desafio. Começamos com sabores muito suaves, depois fazemos uma provocação e descemos de novo, precisamente porque o momento que eu quero realçar de certa forma é o dos queijos, porque, entretanto, o cliente já fez o menu todo, com diversas experiências de sabor e quando chega ali, é necessário que ainda sejamos capazes de surpreender, numa espécie de grand finale. Daí a minha preocupação com os queijos portugueses. Neste momento estamos a trabalhar com um queijo velho de São Miguel, com o mínimo de 24 meses de cura, que é absolutamente extraordinário, não há ninguém que não adore. Bate qualquer Grana Padano. Isso é muito importante, surpreender com produtos nacionais. Não preciso de foie gras para mostrar que é possível fazer um menu degustação de alta qualidade. Estive agora em Nova Iorque no fim do ano, onde nunca tinha estado e naturalmente fiz um roteiro de restaurantes e o que aconteceu foi que os produtos que encontrei na maioria dos restaurantes são exactamente iguais aos que encontro em Paris, Londres, Bruxelas e isto não faz sentido. Em todos os restaurantes com estrelas – referindo-se às célebres estrelas do Guia Michelin – tens dois produtos inevitáveis: foie gras e vieiras. Gosto muito, mas meu Deus! Temos de usar os nossos produtos e ser capazes de surpreender com eles. Por exemplo nesta carta, um prato de que duvidámos, mas está a ser um sucesso, é composto de três ingredientes: tártaro de lavagante, filete de salmonete e o mais fora e que nos fez duvidar, fígado de tamboril. Nós costumamos brincar que é o nosso foie do mar. – Diogo exibindo um sorriso de orgulho. Diogo é um conversador nato, por isso a conversa vai decorrendo sem grandes regras e, felizmente, sem tempo, regada por um excelente espumante branco do Dão. - Hoje está aqui connosco o Márcio Baltazar

que é o chefe de pastelaria do Ocean, que tem duas estrelas Michelin, – Diogo referindo-se ao restaurante de fine-dinning do Vila Vita Parc Resort & Spa, no Algarve e chefiado pelo austríaco Hans Neuner, eleito chef do ano em Portugal em 2009 e 2012. – e que vai estar a cozinhar connosco hoje e amanhã, confeccionando as sobremesas. O Márcio é muito como eu, gosta de sair à rua e ver o que existe que possa ser utilizado para valorizar o prato. Trabalhar com o que há. Aproveitar tudo. Voltando ao prato de que vos falei, se temos um óptimo tamboril, vamos aproveitar apenas o filete, se quando abrimos vemos um fígado maravilhoso que dá vontade de comer? Eu sei que aos cozinheiros dá sempre vontade de comer tudo. – Diogo soltando uma gargalhada sonora. – Mas, entendem? Vamos aproveitar. Este é que é o desafio da cozinha portuguesa: reinventarmos os nossos produtos. - A cozinha portuguesa nasceu assim, do reaproveitamento, da capacidade de criar com muito pouco ou quase nada. A gastronomia alentejana é bem o exemplo disso. Tudo se aproveitava e não estamos a falar apenas de restos, mas mesmo do aproveitamento integral dos produtos. Os talos de couve são um bom exemplo. - Isso mesmo! Eu tenho um prato em que apenas utilizo talos de couve, precisamente para obrigar as pessoas a sair da zona de conforto a que estão habituadas e a regressarem às origens. Introduzir algo que não seja só o puré ou o filetezinho. Um outro produto nosso que começa a sobressair é o bacalhau. O nosso bacalhau não é da Noruega, é da Islândia que tem, para mim, o melhor bacalhau do mundo. Se há produto que identifica Portugal é o bacalhau. Para terem uma ideia, uma vez fui fazer um festival ao Brasil, em que tinha de cozinhar durante uma semana, à zona de Recife, Petrolina e tinha desenvolvido as ementas para cada um dos dias, mas quando cheguei lá, só fiz bacalhau! Ai de mim que assim não tivesse sido. Matavam-me logo. É o produto português por excelência, por isso nós tínhamos de ter, aqui, um bacalhau que fosse de uma qualidade irrepreensível. – Estalando os dedos, como para reforçar a importância de ter um “bacalhau de estalo”. Então, começámos a procura do produtor, não da grande escalada, porque sabemos que na grande escala o processo de secagem e a demolha foram alterados, até porque há mercados que preferem assim, mas nós não, nós queríamos um bacalhau que lembrasse o bacalhau de antigamente, que era um bacalhau gordo, amarelado, que abria em leque, mas mantendo a ligação, não desmanchando.


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Isso mesmo. E foi isso que conseguimos encontrar. O nosso bacalhau é da Islândia, numa selecção feita exclusivamente para o nosso restaurante e com, pelo menos, dois anos de cura. Ficou perfeito. – Por brevíssimos momentos, fez-se um silêncio absoluto em todo o restaurante, como que em respeito por essa informação, que Diogo repete, reforçando a sua importância. – Perfeito. Até acabámos por fazer a brincadeira de comercializar, no fim do ano passado, para o El Corte Ingles e mercado tradicional cinco toneladas de bacalhau, mas com nove meses de cura. É a tal preocupação com o produto. Bem trabalhado, acabam por comercializar quase todos os produtos. – Lançamos em jeito de desafio. Sim, sim. – Diogo com um sorriso nos lábios. – Outro exemplo é o azeite. No final do ano fui a Itália, primeiro a Roma, porque tinha agendado uma prova com o melhor provador de azeites do mundo, que é italiano e está em Roma e com quem eu queria aprender algumas coisas e depois a Florença.

Desculpa interromper, mas vocês fazem azeite aqui na Quinta de Lemos? Vamos começar a fazer. Por isso essa preocupação. Temos cerca de 2000 oliveiras…

Galega? Sim, mas também Aberquina e Picoal, até porque queremos fazer o que já fazemos com os vinhos, ter as castas e os blends,

porque é algo que em Portugal existe pouco. Em Roma vi uma oleoteca, onde se vendiam apenas produtos derivados do azeite, das diversas regiões produtoras de Itália, muito interessante. Algo que eu gostaria de ter aqui em Portugal, mas que sei que não iria vingar, porque nós temos alguma dificuldade em dar valor a estes produtos. Se pensarem, quantas pessoas são capazes de distinguir realmente um bom bacalhau? Quantas pessoas apreciam realmente um bom azeite? Até há pouco tempo, o hábito de consumo era para azeites extraídos a quente, com muito tempo de tulha e até com algum ranço. Não se conheciam outros. Mas, isso mudou muito, não achas? Sim, claro. Mas essa era a tradição. Não tem mal. Era o que existia. De facto as coisas, no azeite, no vinho, mudaram muito para melhor, mas há um produto em que estupidamente se mudou para pior: é o vinagre. Os nossos vinagres, antigamente eram belíssimos, porquê? Porque havia tempo, o tempo que ele precisa para maturar, em boas pipas de vinho e aguardente, onde era esquecido para ser usado anos mais tarde. Hoje o vinagre que compramos é muito mau. É ácido ascórbico. Tirando o Moura Alves, que é muito bom. O melhor do mundo. Por isso percebem que o desafio da Mesa de Lemos é escolher criteriosamente cada item e conjugá-los de forma harmoniosa. Eu não posso ter o trabalho de ir aos Açores escolher o queijo, ir a Itália aprender sobre azeites, ir à Islândia escolher o bacalhau, visitar o pasto onde o gado se alimenta e depois isto não resultar no que servimos, na experiência que pretendemos que o cliente viva.

Conta-nos um bocadinho do teu percurso até chegares a este pata-

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Aqueles bacalhaus da Rua do Arsenal?


Quinta de Lemos | OUSADIA DE SER PORTUGUÊS Diogo continua a conversa, encantado com o nosso deleite a cada pedaço de queijo de São Miguel que vamos experimentando. Nós não queríamos ser nada exclusivos. Não no sentido pretensioso do termo. Não somos, nem podemos ser, por motivos logísticos, um restaurante de massas. Temos apenas 25 lugares, nesta primeira fase, e no máximo poderemos crescer para 40 e isso sim, confere-lhe alguma exclusividade. A nossa ambição era abrir os cinco dias da semana, até porque tínhamos noção de que só conseguiríamos atingir a ambição de ser um dos melhores de Portugal se isso acontecesse. Por várias razões: porque as pessoas olham para nós de maneira diferente, porque é difícil entender o motivo pelo qual só trabalhávamos 3 dias por semana, por outro lado, como restaurante tínhamos, de facto, de trabalhar mais dias, até porque ser genial uma noite não é difícil, mas ser genial todas as noites é que é difícil. Essa regularidade, essa consistência é que faz toda a diferença. Até porque é muito complicado estares motivado 7 dias por semana. Isso tem muito a ver com as pessoas. O Márcio, que está de férias no Ocean e eu convidei para vir “brincar” connosco, motiva-se a ele próprio em permanência. Hoje já queria fazer não sei quantas sobremesas e os pães. Tive de lhe dizer para ter calma, o objectivo é divertirmo-nos. Mas ele é assim. Vocês acreditam que ele faz um pão de algas no Ocean, de fermentação natural e trouxe o fermento com ele para não correr o risco que morresse? Isso diz tudo sobre a sua motivação. São os tais pormenores sobre os cozinheiros que muitas vezes não passam. Do amor que têm pelo que fazem. Também, porque muitas vezes são encenadas. – Risos.

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Somos interrompidos pela simpática Raquel comunicando a chegada eminente de um grupo de Lisboa, com reserva efectuada há várias semanas. Aliás, no fim-de-semana em que conversamos com Diogo Rocha, o restaurante está esgotado e no próximo, apenas na sexta há uma mesa livre. Consciente da necessidade de terminar esta conversa que já vai longa, Diogo retoma, num tom ligeiramente mais apressado. Mesa de Lemos é um projecto que nós achamos que leva alguma consolidação e está num crescendo. A equipa está formada e bem entrosada. Sabem que eu sou exigente, mas também sabem que só exijo

o possível e gosto de explicar as minhas decisões. Muitas vezes os chefes montam um prato muito bonito, mas quase impossível de transportar, dá vontade de dizer, porque não levas tu? Temos de ter noção do nosso trabalho e do trabalho que desempenham as pessoas que estão connosco. Facilitar as coisas, para que realmente resultem perfeitas.

Qual foi o jantar que mais gozo te deu preparar? É sempre uma pergunta difícil, mas a abertura do Mesa de Lemos, para mim, foi excepcional. Surgiu de uma brincadeira. Eu ia viajar para a Madeira e lembrei-me de colocar no facebook algo do tipo: se abrirmos o restaurante no dia x, quem é que está interessado? Cheguei a Lisboa com o restaurante cheio. 40 pessoas. Assustei-me. Fui uma semana para a Rota das Estrelas para a Madeira e quando voltei tive mesmo de assumir. Tinha de ser no dia que tinha lançado. Nessa noite, restaurante cheio, sentei-me naquele piano – Diogo apontando para um piano colocado estrategicamente na entrada do restaurante. – que toca sozinho, aumentei o som e finjo que estou a tocar, nem imaginam a ovação quando paro. Pensei, estamos feitos ao bife. – Gargalhada geral. – Levantei-me e expliquei que o piano tocava sozinho, mas ninguém acreditou. Ainda hoje há pessoas que pensam que fui eu que toquei aquela primeira música. A partir daí, o jantar decorreu de forma perfeita. Foi uma noite maravilhosa. Se me perguntares: ó Diogo, esse foi o teu melhor menu? Nem de perto, nem de longe, porque eu acho que o meu melhor menu é sempre o último, mas o cenário, o empenho da equipa, foi perfeito.

É importante ter uns “gandas malucos” como os teus administradores, que permitem tudo isto, todo este tempo de pesquisa, toda esta exigência com o produto, todo este dinheiro investido neste espaço e nesta tua equipa? É fundamental. As pessoas que lideram este projecto são, de facto, grandes apaixonados. Ponto. Ok? Trabalham diariamente noutro sector para divulgar diariamente este projecto, da Mesa de Lemos e da Quinta de Lemos. Essa coragem deles é única e a disponibilidade que em permanência demonstram, sem cobranças e com a perfeita noção que a não é com a nossa função de


Se tivesses de definir a tua cozinha numa palavra, qual seria essa palavra? Deixa-me dizer que a minha cozinha nunca é só minha. É uma cozinha de uma equipa. Talvez me tenha expressado mal. Referia à cozinha da Mesa de Lemos. E Portugal não vale, por razões óbvias. Simplicidade. Claro que à simplicidade poderíamos juntar outra: o gosto. Essa coisa do robalo saber a robalo, entendem? Um dia um cliente chamou-me e disse-me: esse pato estava maravilhoso, fantástico, irrepreensível, mas deixe-me dizer-lhe que era um prato muito simples. Eu respondilhe: então, deixe-me agradecer-lhe porque esse foi um dos melhores elogios que já recebi. Numa outra circunstância, fiz de entrada um bacalhau à lagareiro para um cozinheiro e ele emocionou-se a comer. Isto é daquelas coisas que têm uma dimensão absolutamente extraordinária. – Ele próprio emocionado.

O restaurante começa a encher e, sentados nos confortáveis sofás da entrada, com uma imponente panorâmica para a vinha iluminada, somos sistematicamente interrompidos pelos clientes que querem cumprimentar o artesão que confeccionará o menu que irão degustar. Diogo é de uma afabilidade estonteante. Muito, porque sabe da importância da simpatia para cativar os clientes que o visitam, mas acima de tudo, porque gosta tanto do que faz que isso transpira na energia que emana durante a conversa, mesmo durante uma conversa tão longa como a com que nos brindou. Diogo levanta-se para as despedidas, enquanto lança mais uma provocação: Uma grande parte dos restaurantes em Portugal copia muito e ninguém tem coragem de dizer isto. Há restaurantes que estão a abrir e estão a deixar as pessoas loucas, mas aquilo é tudo cópias. Há uma grande falta de coragem sobre estas matérias dos críticos que deviam dizer, meus amigos, isto é bom, mas já comi melhor em outros lados. Numa das mesas, é aceso o cepo de que Diogo falava, dando aconchego a este início de noite fria de Outono beirão.

por João Moreira

Fotografias por Studiobox e Quinta de Lemos

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servir refeições que cobrirão o investimento que aqui fizeram, é extraordinário e dá-nos uma tranquilidade e uma segurança muito grandes para trabalhar e ambicionar fazer o melhor. Além disso, há uma concordância perfeita em relação ao projecto. O Celso decidiu investir aqui, porque aqui estavam as suas raízes e porque, como eu, ainda acredita na região. Cada detalhe deste espaço retracta essa paixão pela terra, pela sua terra. Por isso está sempre a promover artistas locais e nacionais, que convida para exporem aqui e a batalhar pela divulgação da região e de tudo o que é Portugal, para fora e para nós próprios.


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Um passeio com... Almeida Henriques pelo roteiro da Street Art Viseense

Na sua 2ª edição com curadoria de Aka Corleone e Kruella D’Enfer, fundadores da plataforma artística Steppin Stone, o festival contou com 11 participantes, dentre os quais o renomado artista italiano Basik que, no âmbito da comemoração dos 100 anos do Museu Grão Vasco, fez uma reinterpretação da mais importante obra do pintor renascentista português, o célebre “São Pedro”. Para percebermos um pouco melhor esta aposta na arte urbana e na dinamização do turismo cultural da cidade, convidámos o Presidente da Câmara, Dr. António Almeida Henriques, para nos acompanhar numa visita guiada a algumas das obras deste roteiro alternativo e para nos falar da sua visão para o futuro da cidade e da região. É quase hora de almoço quando chegamos ao Bairro Municipal, um típico bairro social do início do Estado Novo votado à demolição pela anterior gestão camarária e que o actual Presidente decidiu salvar: Sabe, o meu avô viveu aqui. O meu avô Alfredo, da parte materna e quando vim de Moçambique, vinha almoçar muitas vezes com ele, porque estudava no Liceu e os meus pais ainda não tinham regressado de África. Talvez estas memórias de juventude tenham pesado na decisão de parar com as demolições e de preservar e reabilitar o bairro, a verdade é que a

decisão fez de Almeida Henriques uma espécie de ídolo dos moradores locais. A Tia Céu, como é conhecida, tem 90 anos e vive no bairro quase desde a sua fundação. Perdeu a casa na primeira fase de demolições e foi-lhe atribuída uma nova habitação integralmente remodelada. Ai Sr. Presidente, como a minha casa está... tão linda! Ó Sr. Presidente, faça-me um favor, eu quero aquelas ervas, daquele terreno, todas cortadas. Tem razão, temos de mandar cá alguém. Eu vou dizer aos serviços para virem. Sabe que eu morava aqui, mas deitaram-me a casa abaixo, depois deramme aquela. – Apontando para uma casa térrea mesmo em frente. Mas ficou aqui tão bem! – Almeida Henriques com um sorriso no rosto. – É a guardiã do bairro! Agradeço aqui ao Sr. Presidente. Eu gosto muito de vocês. Tenho um carinho muito grande por este bairro. A Dona Céu ainda conheceu o meu avô Alfredo. Conheci sim senhor e a família toda, os pais, os filhos. Conheço o Sr. Presidente desde catraiozinho. Talvez por isso o bairro ainda esteja de pé. – Arriscamos. Ui, se não fosse ele já estava tudo botado abaixo. Era tudo gaiolas como aquela. – Tia Céu apontando para o edifício incaracterístico construído no local da primeira demolição. – Antes queria estar na cadeia que naquela gaiola. (risos.) Mas já não se constroem mais, não se preocupe. Agora estou muito bem. Graças a Deus! Está tudo a ficar lindo, mas não queria morrer sem ver o bairro como era.

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Em 2015, no âmbito da 1ª Edição dos Tons de Primavera, um dos três eventos ligados ao vinho do Dão realizados anualmente em Viseu, a Autarquia decidiu promover um festival de Street Art que renovou a cara de alguns locais emblemáticos da cidade. Nomes como Aka Corleone, Draw, Mariana, a Miserável, Fidel Évora e Mesk, “sprayaram” o seu talento pelas paredes da cidade jardim com tal sucesso que a Câmara decidiu repetir o desafio na edição deste ano, criando um interessantíssimo roteiro de arte urbana, que é já um dos atractivos turísticos da região.


Um passeio com... Almeida Henriques pelo roteiro da Street Art Viseense E vai ver. O amarelo das janelas era mais torrado, antigamente, mas não se arranjou. Mas está bonito, não está? Muito. Muito lindo. E gostou da pintura? – Almeida Henriques apontando para o desenho de Draw, que ocupa toda a lateral do edifício construído no local da demolição. Gostei sim senhor. Eu gosto de tudo o que faça o meu bairro ficar mais bonito. Quando Draw estava a desenhar no bairro, uma senhora sentou-se durante mais de uma hora a apreciar o trabalho e de repente começou a chorar. Draw desceu dos andaimes para ver se a senhora estava bem e foi surpreendido por esta frase – você pintou o meu pai! Quem nos conta a história é Jorge Sobrado, gestor da Marca Viseu, que nos acompanha durante o roteiro. – Cada um de nós vê ao seu jeito. – Conclui, com a aproximação do “seu” presidente, que, entretanto, aproveitara para se despedir da Tia Céu.

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O que pretendemos quando encomendámos este trabalho foi preservar a memória do bairro. Já que se tinha perdido um conjunto de casas, para construir este mamarracho, pretendemos manter a memória. Este é um bairro com muito charme, por isso vamos reabilitá-lo, devolvê-lo à sua traça original. Isto é cuidar do património. Por isso, mantendo a sua função original, de bairro social (em mais de metade das casas), vamos estimular a vinda de jovens casais para usufruírem desta tranquilidade, porque estamos no meio da cidade, mas com a sensação de se estar no campo, vamos criar residências para artistas e residências para investigadores que promovam trabalhos científicos sobre Viseu e entregámos uma casa ao Programa Avatar, que promove a integração de autistas na vida activa. Além disso, o bairro vai ser atravessado por uma ecovia e tem a escola aqui do lado, o que o torna ainda mais atractivo. Foi no Bairro Municipal, emblematicamente, que realizámos a primeira obra do orçamento participativo. Quase ao lado, fica o Bairro da Balsa, uma mancha de prédios construídos

nos anos 80 do século passado com o intuito de albergar famílias desfavorecidas. A Ângela Ferreira, ou melhor, Kruella d’Enfer, coube espalhar o seu talento numa das gigantescas paredes de um destes prédios e é junto à sua obra que ouvimos a explicação de António Almeida Henriques sobre a escolha deste local. Já na edição do ano passado do festival de Street Art tínhamos tido uma intervenção no Bairro da Balsa. Este ano convidámos a Kruella para desenvolver o seu trabalho e que acabou por resultar desta forma espectacular. A verdade é que os próprios residentes do bairro se apropriaram e tornaram suas estas pinturas. Aliás, há um pormenor engraçado que se passa na altura da primeira intervenção: houve um grupo de graffiters que começou a grafitar a parede e foram os próprios habitantes do bairro que montaram um esquema de segurança para evitar que os graffiters estragassem o trabalho dos artistas. A visita continua em direcção às antigas instalações da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, onde a Câmara decidiu criar uma ligação simbólica com a vizinha cidade de Nelas, numa homenagem conjunta ao vinho do Dão, convidando The Caver a pintar duas das antigas cubas de vinho, uma na CVR Dão e outra na Adega Cooperativa de Nelas. Seguimos para a zona histórica da cidade, onde Basik fez uma reinterpretação do “São Pedro” de Grão Vasco, no ano em que o Museu com o seu nome comemora 100 anos de existência. Aqui, além da óbvia homenagem que quisemos fazer ao Museu Nacional Grão Vasco, pretendemos introduzir uma forma de aproveitamento urbanístico inovadora. Isto é um terreno privado que estava meio abandonado, com um enorme matagal e decidimos fazer um acordo com o proprietário, que consiste na devolução de parte do IMI que ele paga sobre o terreno, em troca da sua utilização para fruição pública. No fundo, são formas criativas de melhorar a qualidade de vida da cidade, com custos muito baixos. Estes dois festivais de Street Art que organizámos, dão um ar diferente à cidade. É evidente que é uma arte efémera, mas que vai mudando a face da cidade e que nos permite já ter um roteiro de Arte Urbana. Hoje, já é possível a quem venha a Viseu, conhecer a cidade através do circuito de Street Art.


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Já sentados no conforto do seu gabinete, alargamos a conversa à política cultural do município. Nestes 40 anos houve 3 gerações de políticas autárquicas: uma inicial de infraestruturação básica e que foi comum a todo o país, de saneamento, água, estradas; uma segunda que foi a fase dos equipamentos, fazer piscinas, bibliotecas, escolas, teatros e por aí fora e uma terceira fase, que é esta em que estamos, em que, por um lado ainda temos coisas para fazer da primeira e da segunda fases, mas por outro temos que nos concentrar, sobretudo, na terceira que é muito mais imaterial e, no caso concreto da cidade de Viseu, muito centrada no conceito de felicidade, de qualidade de vida e na preocupação pela sustentabilidade futura da cidade e da região. Que responsabilidades é que isto nos tráz? Tráz a preocupação de cuidarmos bem o básico, ter os jardins bem tratados, as ruas limpas, uma boa recolha de lixo, uma água de qualidade. Depois, satisfazer aquilo que pode permitir um escalão mais de felicidade, que é uma boa aposta na vertente educativa. A nossa base educativa, o Viseu Educa tem como projecto a dois mandatos, já com 3 500 crianças envolvidas, disseminar o ensino da música, de forma a que todos os alunos saiam da escolaridade obrigatória a saber tocar um instrumento

musical. Por outro lado dinamizar uma política desportiva cada vez mais abrangente, com resultados extraordinários, mais de 4 800 atletas federados na região. Finalmente, uma vertente cultural, com Viseu a assumir-se como uma cidade de cultura e eventos. Uma cidade que estimula os vários agentes a produzirem, sem ter uma visão dirigista da cultura, antes pelo contrário, que quer ter uma oferta para os diferentes segmentos, que valoriza a dança, valoriza a música, mas ao mesmo tempo procura trazer as artes plásticas e designadamente a pintura contemporânea para a Quinta da Cruz, organiza o seu festival de teatro juntando amador com profissional, que já tem o seu festival de Jazz, os Jardins Efémeros, que são um festival urbano, mais alternativo e cosmopolita, o Teatro Viriato com uma programação regular ao longo de todo o ano, trazendo o que de melhor se faz no país, mas também produzindo com qualidade no próprio concelho. E a Feira de São Mateus, que é o ex-libris da cidade. Na música, temos o Conservatório, onde acabou por nascer a Orquestra Juvenil, por encomenda minha, que acaba por ser o topo da pirâmide, onde os melhores se poderão destacar e alguns já se destacaram integrando orquestras de renome. Por outro lado, a questão patrimonial. Uma cidade com 2500 anos de história tem um património riquíssimo. Um património material que nós estamos a recuperar, valorizando-o. Valorizando o nosso Museu Nacional Grão Vasco, este ano centenário. Valorizando a nossa Misericórdia que faz 500 anos, com a sua vertente social mostrando que há 500 anos se faz política social no concelho de Viseu. E, ao mesmo tempo, a vertente religiosa, porque temos uma matriz judaico-cristã que é identitária e a nossa Sé Catedral, ao comemorar este ano os 500 anos da sua Dedicação, tráz ao de cima a vertente espiritual da cidade. Este conjunto transforma este ano, num ano muito singular. É o terceiro ano das políticas que tenho vindo a implantar no terreno, muito viradas para as pessoas, muito centradas na felicidade das pessoas, de uma cidade feliz com qualidade de vida e ao mesmo tempo com a felicidade de ter estas 4 comemorações num só ano. António de Almeida Henriques está no 3º ano do seu primeiro mandato à frente dos destinos da autarquia substituindo um dos dinossauros autárquicos do país, Fernando Ruas, que governou a cidade por quase duas décadas. A herança de uma capital de distrito com boas acessibilidades e com os problemas básicos de infaestruturas e equipamentos praticamente resolvidos, facilitaram a aposta cultural e de recuperação patrimonial do actual edil. Estou convicto que a valorização do casco histórico, a reabilitação que estamos a fazer de forma acelerada, a criação das âncoras, toda esta dinâmica que se estende às freguesias, sobretudo às de mais baixa densidade, o enfoque que estamos


Um passeio com... Almeida Henriques pelo roteiro da Street Art viseense

Mas, para tudo isto é preciso comunicar. Só conseguimos captar investidores, comunicando e a cidade passou a comunicar e isso foi muito importante, porque hoje, quem não comunica, não existe. Viseu é demasiado rica do ponto de vista da diversidade da sua oferta para não atrair mais turistas. Nós temos 1700 camas qualificadas em Viseu, temos 3 hotéis de 5 estrelas e 2 de 4. É difícil encontrar uma cidade média com esta oferta, ainda mais fora do litoral do país. Isto é economia. É puxar pelo turismo interno, puxar pelo turismo internacional, fazer com que a nossa taxa de ocupação aumente e toda esta dinâmica da cidade nas suas diversas vertentes contribui para isso. Esta assunção da comunicação e da nova imagem como prioridades, implicou a necessidade de definir os elementos identitários da cidade: Cidade Viriato, que representa o património e a história. A história de uma cidade que, pela a sua antiguidade, se confunde com a história do país. Cidade jardim, designação que vem desde Almeida Moreira, que foi um visionário que muito honra a cidade e que imaginou e produziu um filme promocional da cidade, arrojadíssimo para a época e estamos a falar de há 80 anos atrás, onde primeiro se utiliza o slogan Viseu Cidade Jardim da Beira. (Esse filme estava perdido na Cinemateca e estamos a recuperá-lo.) Finalmente, Cidade vinhateira. Assumimos definitivamente, desde que entrei em funções, Viseu como a cidade vinhateira do Dão, porque é a grande cidade que dá suporte à Região Demarcada do Dão. Almeida Henriques foi Secretário de Estado Adjunto da Economia e Desenvolvimento Regional e vice-presidente da CIP, o que lhe granjeou uma rede de contactos que não hesita em assumir terá sido importante durante estes primeiros anos de mandato.

Uma das funções mais nobres de um Presidente da Câmara é cativar investimentos para a sua região e é óbvio que os cargos que ocupei ao longo da minha carreira, sempre ligados à economia, me auxiliaram nessa missão, até pelo conhecimento profundo do tecido empresarial nacional. No entanto, se a cidade não for atractiva, se os eventos que organizamos não tiverem qualidade, os investimentos não se fixam. Para atrair e fixar o investimento é necessário algo diferenciador além das acessibilidades, da existência de um Hospital Distrital, de um Politécnico, porque isso outras cidades têm. O nosso factor diferenciador é a qualidade de vida, que hoje é reconhecidamente um motivo de aumento de produtividade. Daí a nossa preocupação com a introdução de políticas que promovam a melhoria da qualidade de vida das pessoas: a nova rede de mobilidade virada para o futuro aliada à ousadia de querer ser uma Smart city em 2018, com a introdução de transportes ecológicos para o centro histórico, do transporte a pedido nas freguesias mais longínquas, do estacionamento com uma tecnologia que permita saber se há lugar na rua em que se pretende estacionar, aliado a uma lógica de eficiência energética, com a utilização de LEDs e a progressividade da iluminação na cidade, até à vertente ambiental com a introdução de sensores de humidade nas regas de jardins, o consumo inteligente de água nas casas (já foram instalados os primeiros 3000 contadores) e finalmente com a participação cívica, através da democracia participativa, que resultou no terceiro orçamento participativo e nos debates públicos sobre intervenções marcantes na cidade, como os que realizámos sobre a cobertura do Mercado 2 de Maio e sobre a reabilitação do centro histórico. Só no Viseu Viva, foram incorporadas 68 sugestões dos munícipes. As pessoas sabem que são ouvidas e que as suas propostas não caem em saco roto. Somos todos viseenses, querendo o melhor para a cidade. Aliás, eu só poderia ser presidente de uma câmara, da de Viseu, porque é uma cidade e um concelho que eu sinto com o coração.

Fotografias por Studiobox

por Revista Bica

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a colocar na sustentabilidade e na captação de investimento, com vitórias recentes muito valorativas, a vinda da IBM com o seu centro de competências, a inauguração do Hospital da CUF, tudo isto conjugado, fará emergir a cidade. Sempre com o objetivo de conjugar a sua tradição de 2500 anos com a modernidade, o que nos aponta para outro desígnio, o de podermos vir a candidatar Viseu, ou uma parte da cidade a Património da UNESCO. É nesta nova geração de políticas que estamos. Valorizando cada vez mais as pessoas, o pormenor e o que faz a diferença na vida das pessoas.


“A FEIRA” ESTÁ DE REGRESSO! E ainda bem. rancho beirão, do algodão doce às centenárias farturas à moda de Viseu? Ou assistir a concertos com uma cidade medieval como pano de fundo? Justamente, na Feira de São Mateus. Hoje, esta feira é bem mais do que um certame de verão ou um resquício de um tempo que passou. É, verdadeiramente, “a Feira”, assumindo-se como “a guardiã das feiras populares”. Se o “vintage” e o “retromarketing” estão na moda, então têm em Viseu um grande emblema.

Nos anos zero Portugal encheu-se de festivais de toda a espécie e feitio depois de ter perdido (a começar pelo Porto e Lisboa) as suas feiras populares. A experiência de “feirar” conservou-se em Viseu, com toda a expressão coletiva e esplendor histórico, onde mora a mais antiga feira franca viva da Península Ibérica: a Feira de São Mateus. Na sua assinatura, poderíamos marcar com letras de fogo: “desde 1392”.

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Este ano, a Feira reencontrou-se plenamente com a sua “idade de ouro”, com aquilo que os viseenses e os amigos e visitantes de Viseu esperam dela. Um intenso projeto de revitalização – do layout às novas arquiteturas, da luz decorativa em seis hectares à programação cultural, dos expositores à segurança, da memória à comunicação – restitui-lhe força e brilho e “puxou” pela sua patine social e histórica. Onde mais é possível ver grandes pórticos de luz históricos ou passear num grande “boulevard” de comércio e gastronomia? Reviver o primeiro herói da nacionalidade, Viriato? Viajar no mais antigo veículo aéreo do mundo (o balão de ar quente)? Voltar a experimentar as antigas máquinas furinhos de chocolate da Regina? Passear num jardim que é uma galeria de arte de Grão Vasco? Ter experiências de sabores tradicionais – das enguias de conserva ao

Em 2017, “a Feira” estará de regresso, autêntica e espetacular, com esse baú cheio de memórias vivas e um balão insuflado de novos sonhos e experiências. O maior evento popular do país está a mudar para reencontrar o seu passado e para construir o seu futuro. Ele é um regresso às origens e, simultaneamente, uma fábrica das memórias individuais e coletivas das novas gerações. O “feirar” é um enorme sonho de criança mesmo que já na idade adulta; é um regresso à infância e juventude, e um repto ao poder da imaginação e à felicidade.

“Feirar”? Poder-se-ia encontrar a definição num dicionário inteligente. Verbo transitivo. Ato de ir à Feira em Viseu; diversão com família; reencontro de amigos; passear num picadeiro de luz; saborear paladares tradicionais (enguias de conserva, farturas à moda de Viseu e não só); comprar bugigangas; assistir a concertos numa cidade histórica; contemplar Grão Vasco e reviver Viriato. “Feirar” é assim uma atividade de mistura: de memórias de infância e juventude, de diversões coletivas, de reencontro de amigos e de marcas, de fascínio das luzes decorativas; de concertos de verão, de uma multiplicidade de sabores.


De Viseu ou do país? Tendo a história por berço e a região por comunidade, a Feira de São Mateus vê o país, a sua diáspora e turistas como destino. A sua identidade autêntica, forjada na viragem do século XX, é o passaporte de um alcance cada vez mais nacional e internacional. A Feira é, como se disse, a “guardiã” das feiras populares do país: das feiras de luz, das feiras de verão, das feiras de diversões para todos, das feiras de encontros de amigos, famílias e emigrantes, das feiras de espetáculo, gastronomia e comércio daquelas coisas que não se encontram em outro lado algum. Tudo junto, sem mais, porque a miscelânea faz “o feirar”. Apesar da sua vocação nacional, a Feira é também uma “reserva natural” da identidade e da memória de uma comunidade local, forte e inteira: Viseu, os seus amigos e visitantes habituais. Para esses “feirar” está-lhes no sangue! Experiência e regresso são irresistíveis. Nos momentos de crise da Feira (houve vários no século XX ao ponto da sua descaracterização), vai-se lá na mesma – nem que seja para dizer mal. Os detalhes importam! E a história. Em 2016, a organização da Feira de São Mateus, a cargo da associação de city marketing Viseu Marca, cuidou especialmente dos detalhes, fazendo justiça à tradição de bom-gosto imprimida nas décadas de ouro do certame: 20, 40, 50 e 60. Porque os pormenores importam quando respeitamos e gostamos muito de alguém ou de alguma coisa. Esses detalhes são evidentes nas novas arquiteturas da Feira: a Praça de Viriato, o imperdível “Passeio Grão Vasco” e o seu jardim vertical, a rua da doçaria regional inspirada nas capuchinhas do Rossio; nas novas portas de luz inspiradas na história da Feira e da Cidade (com antigos brasões e o recurso à carpintaria como noutros tempos), no décor de luz do Viriato e da torre industrial do Museu da Eletricidade, no novo piso dos setor das diversões, nos novos WC etc., etc., e também nos serviços mais cuidados de acolhimento e informação ao visitante e de manutenção e limpeza do recinto. A Feira de São Mateus é uma feira popular histórica na “Melhor Cidade para Viver”. E isso deve fazer toda a diferença.

Por outro lado, é também singular o projeto de investigação histórica e de inventariação comunitária da Feira de São Mateus. “A Feira” é um património cultural imaterial que testemunha épocas, práticas, modas, sociabilidades, transformações, ideologias e culturas. É um acontecimento que é também uma lente para conhecer a história de Viseu e do país. Desde 2015 que se desenvolve, com a colaboração de historiadores e especialistas em património, uma iniciativa participativa de “resgate” da história e da memória coletiva do “feirar”. Levantar, registar, organizar e reapresentar as origens antigas e modernas da Feira, algumas profundamente vivas e inscritas na comunidade local, é o seu objetivo. Os regressos do “Dia de Viriato” (originário dos anos 30) e do “Concurso dos Vestidos de Chita” (dos anos 70 e 80) e a instalação de uma “gincana” virtual são exemplos dos outputs práticos deste projeto. Uma cidade dentro da cidade. A Feira é uma cidade dentro da cidade de Viseu. Uma cidade em movimento e mudança. Às vezes ao rubro, a rebentar pelas costuras. (Ainda há dias, um feirante diziame: “Oh doutor, não há feira sem zaragata!”) Outras vezes, com as suas avenidas a servir de “boulevards” de passeio e enamoramento. Durante 38 dias foi visitada por mais de 1 milhão de pessoas. Em sete hectares, reúne 50 mil metros quadrados de stands e de espaços de animação e experiências, e 400 empresas e feirantes. 2000 pessoas trabalham ali. Mas mais do que isso, a Feira de São Mateus é um enorme património simbólico, humano, cultural, histórico e económico de Viseu e do país. Património que justifica um projeto de responsabilidade e criatividade. E uma nova visita.

por Jorge Sobrado

Fotografias por João Pedro Pinto

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Feirar rima ainda com sonhar, recordar, brincar, jogar. Encontrar e reencontrar. Comprar. Trocar. Ir e voltar. Inovar. Marcar.


A FEIRA DE S. MATEUS

HÁ 100 ANOS As Iscas e Farturas do Luciano Luís Silva Fernandes

Num famoso texto de 1958, Lucena e Vale afirma que “(…) a velha Feira Franca de Viseu, a esvair-se, falha de interesse e de feirantes, morreu aí por 1916” (A. Lucena e Vale, Feira Franca de Viseu, in Beira Alta – Terra e Gente, Viseu, 1958, p.262). Tal afirmação, inserida num texto de cariz memorialista, pretendia dar nota de um período de decadência da Feira nos seus moldes tradicionais, sem necessariamente definir uma data exata. Não foi todavia esse o entendimento de numerosos autores que, ao citarem o texto de Lucena e Vale, tomaram essa afirmação de forma literal; em alguns casos, chegou-se mesmo a afirmar que a Feira ter-se-ia extinguido nesse ano, renascendo mais tarde. O ano de 1916 tornou-se assim um ano de má fama na literatura relativa à antiga Feira Franca. É certo que desde o final da Monarquia, a Feira estava em crise e o início do período republicano não trouxe grandes alterações. Para agravar a situação, a população do concelho sofria com escassez de bens essenciais, no contexto da participação de Portugal na Grande Guerra. Mas a análise dos relatos da época permite perceber que o panorama da feira de 1916 não era especialmente diferente de anos anteriores. A decadência comercial da Feira foi mais uma vez assinalada na imprensa, o “abarracamento” manteve a sua habitual pobreza estética e as diversões foram poucas, destacando-se o Circo de Variedades Elisabeth, “companhia ginasta, acrobática, cómica

(O Intransigente, 29.09.1916)

(O Democrata, 16.09.1916)

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e mímica“ (O Comércio de Viseu, 17.09.1916 e 21.09.16). Fruto do contexto de guerra, surgiu na Feira uma barraca destinada à “kermesse” da Cruzada das Mulheres Portuguesas, movimento de beneficência fundado em março de 1916 por Elzira Dantas Machado, esposa do Presidente da República, focado inicialmente no apoio às famílias dos mobilizados para a Primeira Guerra Mundial.


Como era habitual, as barracas dos “comes e bebes” foram as primeiras a iniciar atividade no espaço da Feira. Neste ano de 1916, a imprensa dava conta de uma surpresa gastronómica na Feira, trazida pelo “Luciano”, considerado um “grande impulsionador da Arte Culinária na Feira Franca” (Povo Beirão, 13.09.1916). Luciano Dias de Sousa era sócio-gerente do Teatro Viriato e também proprietário da Cervejaria Cinema, situada em frente ao teatro. Em 1913 tinha instalado no Campo de Viriato o “Salão Olimpia”, uma elegante barraca para sessões de cinema, com capacidade para 750 pessoas. O sucesso dos filmes projetados no Teatro Viriato alargava-se à Feira.

(O Democrata, 16.09.1916)

E, para maior conforto do público, ainda em 1913, Luciano Sousa anexou à sala de cinema uma sucursal da Cervejaria Cinema. Nesse novo espaço, pela primeira vez os visitantes da Feira puderam saborear as farturas, petisco que granjeou de imediato enorme sucesso (Voz da Oficina, 26.09.1913). Em 1916, a par das farturas e da “desfeita de bacalhau”, os visitantes da Feira passaram a contar com mais uma estreia gastronómica, as iscas “à moda de Lisboa”. Da expetativa passou-se rapidamente ao entusiasmo com a inovação do “Luciano”: “A sua elegante barraca constitue o verdadeiro santuário onde os apreciadores das belas Iscas, admiráveis Farturas e apetitosa Desfeita, não cessam de prestar o seu culto” (Povo Beirão, 27.09.1916).

(Voz da Oficina, 4.09.1914)

Apesar da crise vivida pela Feira, algumas novidades iam animando os seus visitantes e novos rituais iam surgindo. Há 100 anos atrás, as iscas foram incontornavelmente a novidade na Feira. E, como sugeria a imprensa da época (O Intransigente, 13/09/1916), impunha-se um novo desafio aos amigos: “ – Vamos às iscas do Luciano?”.

por Luís Silva Fernandes

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(O Intransigente, 13.09.1916)


Junto à porta dos Cavaleiros da muralha de Viseu ergue-se o imponente solar dos Albuquerques, conhecido, em virtude da sua localização, por Casa do Arco. A sua construção remonta a inícios do século XVIII e é um dos mais importantes edifícios históricos civis da cidade. A fachada principal, barroca e de apreciável extensão, denota a influência da arquitectura erudita setecentista. É composta por dois vãos laterais simétricos e por uma zona central, na qual se enquadra a porta principal, um janelão que ilumina a escadaria interior de acesso ao andar nobre e a pedra de armas, esta contida num frontão semi-circular encimado por um pináculo. Nos vãos laterais o edifício adapta-se à inclinação da rua e desenvolve-se em dois pisos. Quatro janelas direitas de cada lado, no andar nobre, e duas janelas ovais no piso térreo, ladeiam a zona central da frontaria. A Casa do Arco foi mandada construir por Duarte Pacheco de Albuquerque, fidalgo cavaleiro da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo, que nela faleceu em 1741. Duarte Pacheco de Albuquerque sucedeu nas casas e vínculos de seus pais, Manuel de Vilhegas Cardoso, 9º senhor da casa dos Coutos e dos solares e morgados dos Amarais e dos Vilhegas, e D. Maria de Albuquerque, herdeira da casa dos Esporões.

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Os descendentes de Duarte Pacheco de Albuquerque irão usar os apelidos de Albuquerque do Amaral Cardoso, os mesmos que constam do brasão de armas que ostenta a frontaria da Casa do Arco (escudo esquartelado: I e IV - Albuquerque, II -Amaral, III - Cardoso). Quatro gerações de Albuquerques do Amaral Cardoso, que se sucederam como morgados da Casa dos Coutos e dos seus solares, entre eles a Casa do Arco, separaram Duarte Pacheco de Albuquerque do último morgado, António de Albuquerque do Amaral Cardoso. Foi no tempo deste que

Seria o seu filho, também chamado António de Albuquerque do Amaral Cardoso, que se encarregaria de dar o golpe final no imenso património da família. Herdeiro da elegância de espírito e da liberalidade dos seus maiores, mas aliando estas qualidades a vícios sociais perigosos e a uma prodigalidade desmesurada, levaria a família à derrocada e à completa ruína. Antes disso, os Albuquerques do Arco ainda receberam sumptuosamente o Rei D. Luís e a Rainha D. Maria Pia, os quais terão ficado impressionados com o inesperado requinte encontrado no solar beirão. A casa do Arco foi vendida aquando da liquidação por falência dos bens de António de Albuquerque do Amaral Cardoso, passando mais tarde, em 1887, à posse do Estado. Nela funcionaram posteriormente os serviços de correios de Viseu e um estabelecimento de ensino. Quis o destino poupar o solar a um destino provavelmente mais polémico, ao não chegar este às mãos de António Barba Alardo de Albuquerque do Amaral Cardoso, filho herdeiro do último proprietário e pertencen-

Fotografia por João Pedro Pinto

A Casa do Arco dos Cavaleiros

a grandeza e o fausto que rodeou o viver desta família da aristocracia beirã atingiu o paroxismo. António de Albuquerque foi um legitimista militante que serviu as causas de D. Miguel I e de D. Carlos de Bourbon, pretendente ao trono de Espanha, combatendo no exército de ambos. Quando D. Carlos se refugiou em Portugal, o morgado do Arco fez questão de o receber na sua casa de Viseu, corria o ano de 1834. De acordo com as memórias da época, o príncipe espanhol terá ficado impressionado com a riqueza da casa e com a grandeza da hospitalidade. Segundo relata Manuel Rosado Camões e Vasconcelos, no seu livro Albuquerques da Beira, António de Albuquerque “fez recolher à Casa do Arco toda a prataria dos seus vários solares em terras do norte, reunindo assim uma colossal e artística baixela da qual afirmavam seus hóspedes não haver em Espanha a que com ela rivalizasse”. O empenho político e militar de António de Albuquerque ao lado de D. Miguel e de D. Carlos de Bourbon fizeram-no merecedor de honras (foi feito conde dos Coutos por D. Miguel) e condecorações, mas também lhe valeram a prisão e a confiscação do título e bens dos marqueses de Cardañoza, de que era herdeiro em Espanha. O morgado acabaria os seus aventurosos dias com 44 anos na sua Casa do Arco, deixando o património familiar que recebera em muito diminuído por anos de dissipação.


António Barba de Albuquerque do Amaral Cardoso foi um autêntico personagem de novela, mundano e mulherengo, literato e arrebatado republicano, aventureiro e protagonista de escândalos célebres. Conhecido por Miquéque e por Lêndea, pontificou nas tertúlias do Café Gelo e privou com insignes escritores portugueses e estrangeiros. Sobre ele escreveu Raul Brandão que “tinha tido uma vida de aventuras; bateu-se em duelo em Madrid, caçou no Cabo com lordes, tocou guitarra em Trouville e teve uma loja de instalações eléctricas em Itália. Agora é jornalista, escritor poeta e publica este livro de escândalos, em que a rainha, senhora da mais alta acepção da palavra, é posta de rasto…”. Referia-se Brandão ao romance - panfleto O Marquês da Bacalhôa (1908), desassombrado e escandaloso ataque à família Real, cuja venda foi proibida e que se tornou um fenómeno editorial, com catorze mil exemplares vendidos e traduções em espanhol e francês.

António de Albuquerque, como assinava os seus livros, escreveu outras obras de idêntico cariz crítico, contestatário e panfletário, tais como Escândalo! (1904), A Execução do Rei D. Carlos (1909), O Solar das Fontainhas (1909) e, em 1922, Sidónio na Lenda, demolidor livro histórico sobre a ascensão e a trajectória política de Sidónio. De António de Albuquerque, o Miquéque, não se falava na família. Dizia-se que se tinha desiludido com a República, que se tinha arrependido e que tinha adormecido reconciliado com Deus. De facto, em 1923, poucos dias antes da sua morte, escreveu à Rainha D. Amélia uma carta de arrependimento com um pedido de perdão, carta que reconheceu notarialmente. Por debaixo da assinatura escreveu Visconde do Amparo, título nobiliárquico que herdara de sua mãe e que até então renegara.

por José Albuquerque Carreiras

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te, com seus irmãos e primos, à última geração de Albuquerques que nasceram na casa do Arco.


O Museu Grão Vasco faz

100 Anos

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Depois de passar a fazer parte do restrito núcleo de museus nacionais, o Museu Grão Vasco comemora este ano o seu centenário, assinalado com uma série de actividades que culminam em 2017, com uma exposição dedicada aos irmãos Bordallo Pinheiro. A BICA conversou com Agostinho Ribeiro, Director do Museu e responsável pela programação, tendo por companhia uma das mais impressionantes obras renascentistas portuguesas, o “São Pedro” de Vasco Fernandes. 100 anos, é verdade! E pelo facto de fazer 100 anos, definimos uma programação que não é uma programação feita individualmente ao nível da gestão cultural, mas partilhada com a cidade. A nossa preocupação, no âmbito da programação, foi chamar todos os nossos parceiros da sociedade viseense, fossem eles entidades públicas, privadas, associações, empresariado, cidadania, ligadas à arte, à cultura e às questões da solidariedade social. Fizemos uma espécie de aproximação à totalidade ou à quase totalidade da comunidade viseense, no sentido de lhes captar o interesse e partilhar com eles a programação que existe. Constituímos uma comissão organizadora, temos uma comissão de honra, integradas e irmanadas neste espírito do projecto de programação do ano do Centenário do Museu, que é efectivamente este ano, começou em 2015 e terminará em 2017 e tem

os seus pontos maiores neste ano de 2016, com vários momentos emblemáticos, o primeiro dos quais ocorreu em torno do dia 16 de março. Como nota de abertura, comemorando a data exacta de inauguração do Museu. Isso mesmo. Como nota de abertura e por coincidir com o dia em que fez mesmo os 100 anos. O dia da publicação, na época em diário do governo, a 16 de março de 1916. Já agora Dr. Agostinho Ribeiro, conte-nos de que constou esse momento de celebração. Como o museu está umbilicalmente ligado à Igreja e à Sé Catedral, começou com uma Missa presidida pelo Sr. Bispo... Uma ligação que até é de edifícios. Exactamente, de edifício porque também este Paço dos 3 Escalões onde está o museu é de facto uma obra notável ligada à própria Igreja e Catedral. Depois tivemos o lançamento de um vinho da Sogrape, o vinho Grão Vasco em dedicatória aos 100 anos, o lançamento de uma emissão filatélica feita em parceria com os CTT e tivemos, também, a inauguração de uma exposição que é a que está patente ao público, 100


O Museu Grão Vasco faz 100 anos

Quais são os destaques desta exposição que hoje decorre, comemorativa do centenário? Eu gostaria de evidenciar 4 momentos que são fundamentais: o primeiro, que coincide com o da criação do próprio museu e que decorreu, em termos de instalação, nas dependências da Sé de Viseu. O museu não foi logo criado e instalado neste Paço, foi inicialmente inaugurado nas dependências do Claustro da Sé de Viseu e aí viveu em fases sucessivas até 1938. Portanto, temos um primeiro momento de 16 a 38. Depois há um segundo momento onde foram vivenciadas as diversas experiências museológicas e museográficas e que grosso modo irá desde 1938 (altura em que o museu veio definitivamente para o Paço dos 3 Escalões, que foi um antigo seminário, Paço Episcopal, colégio de padres, albergou alguns serviços públicos) até 1982, talvez... 83. 50 anos de grandes vivências e de grandes experiências de natureza museológica e museográfica seguindo, aliás, os conceitos e as modas de instalação dos museus desse período que, numa primeira fase, era dos aparatos quase à maneira dos gabinetes de curiosidades, passando por leituras extremamente simples em que a obra de arte vivia sem qualquer tipo de aparato, até às componentes cénicas onde se criavam cenografias especiais para relevar uma obra ou um conjunto de obras. Depois houve um momento em que o museu começa a abrir a sua sensibilidade para as questões de natureza educativa, os projectos educativos, os serviços educativos, as componentes do património cultural popular onde estava inserido, até chegar ao momento crucial em 2001-2004 que foi o momento da grande obra de remodelação que foi produzia por intermédio do projecto do arquitecto Souto de Moura. Essa foi uma obra importante, porque o museu manteve as fachadas, mas todo o seu interior foi absolutamente escavado e foi reformulada toda a sua componente edificada para albergar os diversos serviços que correspondem às funções museológicas, com a adopção de espaços de exposição permanente, de reservas devidamente organizadas para albergar as obras de arte que não se encontram em exposição, de serviços administrativos, de loja, de cafetaria, enfim das diversas componentes, incluindo um

laboratório, uma área oficinal e laboratorial, uma biblioteca, uma livraria. Hoje o museu vive com esta imagem muito importante e muito impressiva em resultado dessa obra, que de certa forma o ajuda a alcandorar-se com o estatuto de Museu Nacional, que coloca o Museu Grão Vasco e Viseu no mapa do roteiro dos museus nacionais. A elevação do museu a Museu Nacional resultou em aumento do número de visitantes? Sim, sim. Nós fazemos a monitorização praticamente diária, mas analisando, sobretudo, mensalmente e encerrados os quatro primeiros meses deste ano, eu posso dizer que temos aumentado em número de visitantes, em receitas de bilheteira, em receitas de lojas, etc acima dos 50% em relação ao mesmo período do ano passado, o que significa 50, 60 e em alguns casos até 70%. Num destes meses passados dobrámos inclusivamente o número de visitantes em relação ao mesmo período portanto isto significa que estamos a ter um acréscimo substancial... Isso acontece apesar dos poucos meios que têm sido entregues à museologia nacional, já não falo na vertente do investimento nas obras de arte, mas na necessidade que os museus têm de ganhar visibilidade, de chegar à rua para que a rua chegue até eles. Como tem sido o apoio público e privado ao Museu Nacional Grão Vasco? Não me queixo por duas ou três razões. Em primeiro lugar pela visibilidade que o museu tem e que se deve, evidentemente, a uma construção colectiva e histórica que tem esta profundidade centenária. Acresce a isso esta designação de museu nacional e sem dúvida nenhuma, a questão da programação do centenário dos 100 anos. Em segundo lugar às parcerias que nós temos vindo a desenvolver nomeadamente com as instituições âncora da cidade e da região, por exemplo, o Município de Viseu e com todas as entidades que de alguma forma constroem esta cumplicidade que leva a que o museu seja credor e devedor, quer dizer, beneficie de outros elementos que exteriormente têm trazido muita visibilidade à cidade, ao centro histórico, por outro lado contribua também para que isso aconteça. Vivemos neste dar e receber. [197]

anos de História do Museu Nacional Grão Vasco, para além de uma apresentação nocturna do Coro do Teatro Nacional de São Carlos, que foi uma gentil oferta da Fundação Milenium BCP, nossos mecenas.


O Museu Grão Vasco faz 100 anos

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Que é tão beirão (risos). Verdadeiramente beirão (gargalhada) e isso é um elemento muito importante. Depois temos verificado ao longo dos anos, com a nossa tutela, os grandes problemas com que nos vínhamos debatendo, sobretudo nas áreas mais importantes da conservação dos bens, no tratamento das espécies, nas boas normas de funcionamento dos equipamentos. Tínhamos equipamentos, que deixaram de funcionar depois das obras. Não funcionavam! Felizmente hoje isso está resolvido. Nestes últimos dois anos, temos vindo a trabalhar e a resolver diversos problemas com a tutela, que é a Direcção Geral do Património Cultural. Tínhamos um problema de infiltrações na fachada anterior, na fachada principal do edifício e no ano passado por causa do Centenário, fizemos um trabalho de reparação e recuperação de toda a cantaria, de todo o espaço exterior que hoje está magnificamente bem isolado. Estamos também a resolver os problemas que existem na fachada posterior, uma fachada que tem um pano imenso porque é daqui que se vê a grande dimensão do museu, mas está tudo preparado para avançarmos imediatamente. Portanto, eu diria que desse ponto de vista, não temos razões de queixa. Se me perguntar – então, mas não há muito mais para fazer? – eu digo – felizmente ainda há muita coisa a fazer, mas cada coisa a seu tempo. Depois temos um pequeno grande problema que é transversal a todos os museus: a questão dos recursos humanos. Aí sim, somos equipas muito pequenas, muito dedicadas, muito competentes, exige-se um esforço extraordinário. Nós, como estamos a passar pelo centenário onde as coisas acontecem em triplicado é muito complicado. Somos altamente deficitários. Sei que a própria tutela, a Direcção Geral e a Secretaria de Estado e Ministério estão muito sensíveis a esta questão. Evidentemente essa é a matéria que nos preocupa mais, como a grande prioridade no âmbito dos elementos que eu diria deficitários, é a questão dos recursos humanos, acho que sobre isso há que tomar decisões, repensar, acrescentar e enriquecer as nossas equipas para podermos corresponder às exigências que museus desta natureza nos colocam. São exigências muito grandes, são responsabilidades muito grandes, temos que fazer monitorização, inspecção permanente das obras de arte, ter projectos educativos à altura, mas para isso precisamos ter conservadores, precisamos ter monitores, precisamos ter vigilantes, preci-

samos ter segurança, precisamos ter gente em número suficiente para nos permitir, de facto, um trabalho regular e, evidentemente, exemplar. Portanto essa é a grande questão. No que se refere à programação do Centenário, além do que já falámos, teve lugar, em Maio por altura do Dia Internacional dos Museus e da Noite Europeia dos Museus, um congresso com conferencistas como a Dra. Raquel Henriques da Silva e o Professor Cláudio Torres, entre outros, uma parceria muito interessante com o Instituto Português dos Desportos e da Juventude, com worshops de artes gráficas nas próprias instalações do instituto ensinando as técnicas, o apuro, mas também o gosto pelo desenho e a parte técnica do trabalho de observação das obras de arte. Já tivemos ateliers a trabalhar nesta mesma sala, aqui mesmo na sala do retábulo, com as pessoas a tentarem o chamado desenho à vista.


E o que está ainda para vir nestas comemorações? Em Outubro vamos ter a exposição Depois de Grão Vasco - A Pintura entre o Douro e o Mondego, numa parceria com o Museu Nacional de Arte Antiga, na qual teremos obras muito significativas e representativas da influência da designada Escola de Viseu que dará uma ideia da influência magnífica que Vasco Fernandes deixou como legado. Outro grande momento será o encontro internacional do ICOM – Conselho Internacional dos Museus Portugal que vai associar o ICOM Portugal, o ICOM Europa e o ICOM LAC – América Latina e Caraíbas, onde teremos personalidades ligadas à museologia, aos museus e às diversas formas e conceitos de pensar os museus de primeira linha em termos internacionais, entre eles Teresa Morales do ICOM LAC, Peter Davis, Hugues de Varine o nosso presidente do ICOM Portugal, o José Alberto Ribeiro e também o Luis Raposo que é neste momento um dos Vice-presidentes do ICOM Europa (e que se candidata a presidente do ICOM Europa) o que provavelmente fará que venhamos a ter um presidente do Conselho Internacional dos Museus da Eu-

ropa português, o que será motivo de orgulho para todos nós. Para finalizar, vamos ter uma exposição ligada às cerâmicas de Bordallo Pinheiro por dois motivos: porque temos um parceiro, que é o Grupo Visabeira, que é sempre muito solícito e hoje é proprietário da Fábrica Bordallo Pinheiro, mas também pelo facto de o irmão Columbano Bordallo Pinheiro ter aqui uma representação muito forte na nossa colecção de pintura. Assim, entendemos que, nesta duplicidade de irmãos, o Rafael e o Columbano podemos ter uma boa mostra das cerâmicas e da pintura nacionais desde os inícios do século passado até à actualidade. Além disso, ainda temos, evidentemente, as edições, os livros, porque vamos ficar com umas 2 ou 3 obras que vão ser simbólicas e exemplares: um será o 100 anos 100 obras, compilando as obras de referência do Museu Nacional Grão Vasco. Vai ser um ano completo. por Revista Bica Fotografias por Studiobox

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Depois mantivemos a ligação aos Jardins Efémeros, uma parceria que já vem desde a primeira edição com várias actividades, dentre as quais eu destacaria os trabalhos ao nível do serviço educativo nas visitas à nossa biblioteca e ao arquivo através do projecto educativo dos próprios Jardins Efémeros e uma grande exposição do artista plástico Diogo Pimentão que veio de Londres para fazer uma apresentação no Museu Grão Vasco.


Lugares inusitados

À mesa com... Hélder Amaral no Recanto dos Carvalhos Nestas viagens na nossa terra que agora começam, decidimos, a cada edição, lançar o desafio a um político nacional, conhecido pela defesa e promoção dos produtos regionais, para nos acompanhar à descoberta do restaurante situado no local mais inusitado da sua região.

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Nesta primeira edição dedicada a Viseu, convidámos o deputado do CDS Hélder Amaral para se aventurar conosco numa viagem através da aridez granítica da Serra Montemuro, até à aldeia da Gralheira onde se situa o Recanto dos Carvalhos, que se auto-intitula, o restaurante mais alto de Portugal.


“A montanha foi muito tempo o solar do homem primitivo, vagabundo relapso sem outra telha que o céu estrelado. Ali viveu séculos e séculos entre robles frondosos, castanheiros que lhe davam boa sombra e castanhas, esfomeado crónico, mas livre. Um dia empurraram-no para o vale, onde era menos perigoso e onde podia prestar serviços, extraindo a cassiterite das minas, e o castelo dos altos ficou desamparado. O penedal é a ruína palacega da montanha.” Aquilino Ribeiro, in “O Homem da Nave”

“A ruína palacega da montanha” para usar a expressão de Aquilino, começa a notarse mal se entra na Estrada Nacional 321 deixando Castro Daire para trás e vai-se acentuando à medida que subimos por entre penhascos despidos de vegetação. Aqui e além, cardos e urzes atenuam a mancha granítica que ocupa todo o horizonte. Ultrapassámos os 900 metros de altitude e, olhando ao redor, vislumbramos a imensidão das “montanhas do norte da Beira”, como lhes chamou Orlando Ribeiro e paramos incapazes de lhes ficar indiferentes. A vista é esmagadora.

Hélder Amaral conhece bem as agruras de Montemuro. Foram muitos os quilómetros percorridos em campanha pela região, grande parte deles em pleno Inverno, por estradas de terra envoltas em nevoeiro. Chegamos à Gralheira pouco depois. Por aqui já não se encontram casas cobertas de colmo com paredes de pedra tosca e frinchas tapadas com musgo ou barro, nem pessoas vestidas de burel ou linho e calçadas com tamancos ferrados com tachas, como descrevia Carlos de Oliveira Silvestre nas suas “Crónicas da Serra”, mas ainda se respira genuinidade.

No largo da aldeia, sentados em bancos de granito, um grupo de homens, mãos grossas, pele tisnada, cabeça erguida com a suave altivez que só o orgulho numa vida honrada de trabalho consegue dar, cumprimentam-nos com um aceno. Hélder Amaral mete conversa e, durante uns minutos, ouvimos os queixumes sobre um mau ano agrícola e uma crise que não temeu subir a serra e instalar-se no coração de Montemuro. O Recanto dos Carvalhos fica bem no centro da aldeia com vista sobre a aridez da serra e foi amor à primeira vista para Cacilda, o rosto da casa. Um estranho amor, se pensarmos que se preparava para abrir um restaurante à beira-mar, do outro lado do Atlântico. Mas, como a própria reconhece, “a vida tem destas coisas e quando aqui entrei, o meu destino ficou traçado”.

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Esta região é muito pobre, mas com gente muito boa. Beirões de cepa.


O restaurante foi pensado para aproveitar ao pormenor os recantos de uma casa tipicamente beirã, o que o torna um espaço francamente acolhedor, a que não faltam os adornos decorativos da região, remetendo para um passado dedicado à lavoura e à pastorícia. Sentados à mesa, aproveitamos para perceber o empenho com que Hélder Amaral defendeu os produtos regionais, em especial as pequenas produções artesanais, ameaçadas de extinção pelo rigor higienizador dos tempos iniciais da ASAE. No início, travei uma guerra com a ASAE porque, na ânsia, embora bem intencionada, de promover um rigoroso controle da qualidade dos produtos e da higiene na sua produção impostos por Bruxelas, esqueceu-se da particularidade de algumas pequenas produções e da riqueza etnográfica, gastronómica e até cultural que representavam. Além do mais, a maioria dessas regras destinava-se mais às produções industriais e menos aos pequenos produtores locais. Entretanto a sala inunda-se de aroma a pão acabado de fazer e a mesa de caçoilas de barro com enchidos da região. Os nossos enchidos são únicos. E estes são muito bons. Sabiam que os espanhóis estão a fazer os presuntos deles com porcos criados em Portugal? Em Espanha, as regras europeias foram amenizadas para permitir a sobrevivência de pequenas empresas de escala familiar e para garantir a autenticidade dos produtos locais. O mesmo em França. No entanto, por cá, proibiram o Queijo da Lapa, feito por duas irmãs velhinhas que não dão a receita a ninguém. Eu consegui que a autarquia montasse uma estrutura comunitária, com todas as condições de higiene exigidas, mas não resultava da mesma forma e elas recusaramse a fazer o queijo lá, até para não revelarem o segredo. E o queijo é mesmo bom! Sempre que posso levo para Lisboa e toda a gente adora. Cacilda, anfitriã perfeita, anuncia a chegada da posta arouquesa, raça autóctone do concelho vizinho de Arouca, com Denominação de Origem Protegida e reconhecida pela sua maciez e suculência e pela cor rosada com um marmoreado fornecido pela gordura intramuscular, garantia de uma vivência ao ar livre e de uma alimentação natural. Hélder elogia a qualidade da carne que bem conhece e promove, mas os maiores elogios vão para as batatas miúdas assadas em forno de pedra e temperadas com azeite e alho.

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Produção local. - assegura Cacilda enquanto nos vai dando conta do sucesso do Recanto e do aumento exponencial de turistas nos últimos tempos. Belgas, holandeses, franceses, polacos, alemães, nórdicos, um pouco de toda a Europa vão chegando visitantes, que se aventuram serra acima à descober-

ta do país profundo. A Rota do Românico que atravessa Montemuro, os percursos pedonais, a tranquilidade do Rio Cabrum, a afabilidade das gentes e, como podemos comprovar, a excelente gastronomia são as razões apontadas para este crescente afluxo de turistas, a que se somam as vantagens de comunicação que as novas tecnologias trouxeram e a promoção feita por essa Europa fora pelos muitos, quase todos, que tiveram de partir em busca de uma vida melhor. Incentivado pelo entusiasmo da nossa anfitriã, Hélder retoma o tema da qualidade e diversidade dos produtos da região e do seu papel como factores de atractividade turística e dinamização económica do Distrito. O vinho do Dão e os espumantes da sub-região de Távora-Varosa, a maçã de bravo de esmolfe, única no mundo, a maçã da Beira Alta, a vitela de Lafões, a carne arouquesa, o cabrito da Gralheira, os queijos, são os nossos maiores embaixadores. À mesa chegam umas castanhas acabadas de preparar, gentileza de Cacilda para o nosso convidado, que confessa nunca ter comido melhores. Estes pequenos mimos com que o Recanto dos Carvalho cativa os clientes, aliados a uma cortesia genuína e à qualidade irrepreensível da sua culinária, são os principais factores do seu sucesso e da fidelização de quem o visita. Abdicando dos doces a favor do extraordinário queijo de ovelha que prováramos nas entradas, caminhamos rapidamente para o fim do almoço, embalados pela história da paixão de Cacilda pelo seu Recanto. Aqui tenho uma qualidade de vida única. Vivo a dois passos do trabalho, com esta paisagem magnífica, ar puro e liberdade. Hélder Amaral despede-se com a promessa de um regresso breve, em resposta ao desafio de vir experimentar o melhor cozido e o melhor cabrito da região. Também nós aceitamos o desafio. por Revista Bica Fotografias por Bruno Quadros

recanto

carvalhos

dos

r estaurante pizzaria

Restaurante Recanto dos Carvalhos: Largo dos Carvalhos, 1, Gralheira, Cinfães, (+351) 255 571 566 Horário das 12:00 às 2:00


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Vรก sozinho e colecione momEntos em boa companhia

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cidade para enfrentar qualquer obstáculo. Qual é o propósito da vida, se não sair da sua zona de conforto? Mais inteligente A menos que goste de estar uma semana num resort com tudo incluído, a trabalhar para aumentar o peso e a afogar-se em bebidas geladas ilimitadas, nas Viagens para Solteiros vai aprender mais sobre as pessoas, a história e a cultura. Terá uma melhor compreensão sobre como o mundo funciona e como as pessoas se comportam. Isso é algo que não se aprende nos livros, tem de ser vivido. Menos materialista Nas viagens, aprende-se que não precisamos de bens materiais para sermos felizes. Rapidamente, percebemos que há povos que são extremamente felizes, simplesmente porque vivem a vida, desprendidos de acumularem bens materiais que não lhes trazem qualquer sentimento. Mais feliz As viagens ensinam-lhe, simplesmente, a ser feliz. Vai sentir-se mais relaxado, mais confiante, e verá o mundo como um lugar mais brilhante. Como se pode não estar feliz com a vida, depois de tudo isso? Mais sexy O stress provoca envelhecimento. Passar dias despreocupados, relaxados, nas viagens, torna-nos mais confiantes e radiantes. Sentir-se-á rejuvenescido(a) e com boa energia. Mais adaptável Perdeu o voo, as malas desapareceram, foi assaltado(a) e ficou sem dinheiro e documentos, fez viagens em autocarros lentos, dormiu em quartos de hotéis maus, comeu do que não gostou, sofreu a pressão dos controles de polícia nos aeroportos e muito, muito mais, mas, depois de algumas destas situações, dará conta que a sua capacidade de adaptação e a sua preparação aumentaram exponencialmente. Porque vale a pena ser um viajante das Viagens para Solteiros? Porque ser extrovertido, engraçado, social, feliz, confiante e inteligente são qualidades que tornam as pessoas mais bem-sucedidas na vida. por Paulo Coelho

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Mude a sua vida pessoal. Não ter uma companhia de viagem é quase sempre um motivo para ficar em casa. Viajar é a forma mais eficaz de combater o isolamento.


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N 40º 39’ 56” W 7º 55’ 3”

Monte de Santa Luzia, 3515 Viseu +351 232 450 163 museudoquartzo@cmviseu.pt

A Ecopista do Dão é a mais comprida de Portugal com 49 quilómetros. Atravessa os concelhos de Viseu, Tondela e Santa Comba Dão, oferecendo paisagens magníficas.

N 40º 39’ 40” W 7º 54’ 3”

[206]

Rua Aristides Sousa Mendes 3501-908 Viseu +351 232 410 060 info@cvrdao.pt www.cvrdao.pt

Rua São Salvador, 3510 Viseu +351 232 423 343 quintadacruz@cmviseu.pt

N 40° 39’ 26” W 7° 54’ 42”

N 40º 39’ 30” W 7º 54’ 47”

SOLAR DO VINHO DO DÃO

QUINTA DA CRUZ N 40° 39’ 22” W 7° 56’ 00”

N 40º 39’ 19” W 7º 54’ 55”

MUSEU ALMEIDA MOREIRA

MUSEU DO QUARTZO

Associação Cultural e Recreativa de Tondela 3460-909 TONDELA +351 232 814 400 www.acert.pt

PARQUE DO FONTELO N 40º 39’ 32” W 7º 54’ 4”

MUSEU DA MISERICORDIA N 40º 39’ 56” W 7º 54’ 42” Adro da Sé, 3500-195 Viseu +351 232 470 770 geral@scmviseu.com

Foi no Jardim Renascentista do Antigo Paço Episcopal que nasceu o actual Parque Natural do Fontelo em meados do sec. XVI. Ao longo dos tempos foi enrriquecido com as mais exóticas e variadas espécies originárias da Ásia, América do Norte, América do Sul e Oceania.


Onde Dormir

Compras QUE VISO EU? HOTEL GRÃO VASCO

N 40º 39’ 32” W 7º 54’ 47”

N 40º 39’ 36” W 7º 54’ 77” Rua Gaspar Barreiros, 3510-032 VISEU +351 232 423 511 geral@hotelgraovasco.pt www.hotelgraovasco.pt

MONTEBELO VISEU HOTEL & SPA

HOTEL PALÁCIO DOS MELOS

N 40º 39’ 20” W 7º 55’ 33”

N 40º 39´ 33” W 7º 54´ 45´´

Urbanização Quinta do Bosque 3510-020 Viseu +351 232 420 000 montebeloviseu@montebelohotels.com

Rua Chão Mestre, 4 3500-103 Viseu +351 232 439 290 palaciodosmelos@montebelohotels.com

POUSADA DE VISEU

CASA DA SÉ

N 40º 39’ 17” W 7º 54’ 44”

N 40º 39’ 33” W 7º 54’ 42”

Rua do Hospital, 3500-161 Viseu +351 232 457 320 guest@pousadas.pt www.pousadadeviseu.com

Rua Augusta Cruz, 12, 3500-088 Viseu +351 232 468 032 info@casadase.net www.casadase.net

Rua Nunes de Carvalho, 5 a 9, 3500-163 Viseu +351 232 458 474 facebook.com/quevisoeu?

ANDAVER VISEU N 40º 39’ 34” W 7º 54’ 43” Rua Grão Vasco, 14, 3500-138 Viseu +351 232 099 741 www.andaverportugal.pt

CAVE LUSA N 40º 38’ 33” W 7º 54’ 32” Sítio da Manhosa, Pavilhão 2, Ranhados 3510-631 Viseu +351 232 458 440 premium@cavelusa.pt

HOTEL JOSÉ ALBERTO N 40º 39’ 28” W 7º 55’ 7” Rua Cândido dos Reis, 43, 3510-057, Viseu +351 232 440 440 geral@hotelvis.pt www.hotelvis.pt

N 40º 39’ 25” W 7º 54’ 54” Av. Alberto Sampaio, 1, 3510-030 Viseu +351 232 423 432 geral@hotelavenida.com.pt www.hotelavenida.com.pt

MOTEL TERRA CÁLIDA N 40º 37’ 15” W 7º 55’ 2” Rua do Redondo, 3500-883 Viseu +351 232 467 130 geral@motelterracalida.com www.motelterracalida.com

N 40º 39’ 35” W 7º 54’ 42” Rua do Adro, 21, 3500-069 Viseu +351 232 422 625

POUSADA DA JUVENTUDE N 40º 39’ 37’’ W 7º 54’ 14’’ Rua Dr. Aristides Sousa Mendes, Portal do Fontelo, 3500-033 Viseu +351 232 413 001 reservas@adamastor.org.pt

LOFT GUEST HOUSE N 40º 39’ 29” W 7º 54’ 47.” Rua Soar de Cima, 41 3510-569 Viseu +351 919 664 126 joelfaria@besolution.pt

MOTEL DURÃO

VISEU GARDEN HOTEL

N 40º 40’ 23” W 7º 55’ 16”

N 40º 41’ 31” W 7º 54’ 56”

Avenida da Bélgica, 203, 3510-159 Viseu +351 232 410 460 www.hoteldurao.com

Vermum, Campo, 3510-469 Viseu +351 232 430 050 www.viseugardenhotel.com

SELLECÇÃO DE SABORES N 40º 39’ 22” W 7º 54’ 46” Largo General Humberto Delgado, 20 3500-115 Viseu +351 232 468 395 www.sellecçãodesabores.pt

VIRIATVS MASCOTE DE VISEU www.facebook.com/viriatvs

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HOTEL AVENIDA

ARTESANATO VIRIATO


Onde comer O CORTIÇO N 40º 39’ 32” W 7º 54’ 40’’ Rua Augusto Hilário, 45, 3500-089 Viseu +351 232 416 127 www.restaurantecortico.com

QUINTA DA MAGARENHA

MESA DE LEMOS N 40º 34’ 32” W 7º 58’ 55” Quinta de Lemos, Paços de Silgueiros +351 961 158 503 www.mesadelemos.com

MURALHA DA SÉ N 40º 59’ 35” W 7º 54’ 42” Adro da Sé, 24, 3500-069 Viseu +351 232 437 777 www.muralhadase.pt

N 40º 38’ 22” W 7º 51’ 3” Caçador, Nó 20 (A25), 3505-577 Viseu +351 232 479 106 www.magarenha.com

MESA D’ALEGRIA

MAMMA ISA N 40º 39’ 11‘‘ W 7º 54’ 0’’

CERVEJARIA CACIMBO N 40º 39’ 12” W 7º 54’ 49”

N 40° 41’ 59’’ W 7° 55’ 48’’

Travessa das Pedras Alçadas, Lote 2, Loja B, 3500-156 Viseu +351 232 399 993 www.mammaisa.pt

PIZZARIA INPROVVISO N 40º 39’ 20” W 7º 54’ 42”

Rua da Vitória, 21, 3500-222 Viseu +351 232 400 765

Rua do Cerrado, 9, r/c +351 232 461 033

SANTA LUZIA

JASMIM

N 40º 41’ 43” W 7º 54’ 38”

N 40º 36’ 36” W 7º 56’ 8”

Estrada Nacional 2, 3515-331 Viseu +351 232 459 325 www.restaurante-santaluzia.pt

Rua Largo da Capela, Rebordinho 3500-898 Viseu +351 232 406 780 www.facebook.com/jasmimviseu

CHURRASQUEIRA CACIMBO N 40º 39’ 18‘‘ W 7º 54’ 48’’

Rua Mendonça, lote 3, Loja A 3510-156 Viseu +351 232 441 484 ww.restaurantecervejariacacimbo.pt O Restaurante Cervejaria foi pensado para criar um espaço onde o mar e a terra se toquem pelo paladar: o marisco e o peixe fresco estão presentes em conjunto com os melhores bifes. A cozinha mediterrânica é a nossa principal fonte de inspiração.

CEIA DOS MALANDROS N 40º 39’ 14” W 7º 54’ 30” Rua Dr. Azeredo Perdigão, 3500 Viseu +351 963 410 084 www.facebook.com/CeiaDosMalandros

O CANTINHO DO TITO N 40º 40’ 40” W 7º 55’ 25”

Rua Alexandre Herculano, 95, 3500 Viseu +351 232 422 894 www.restaurantechurrasqueiracacimbo.pt

CASA AROUQUESA N 40º 38’ 19” W 7º 55’ 37’’ Empreendimento Bellavista, lote 0, Repeses 3500-680 Viseu +351 232 416 174 www.casaarouquesa.pt

TABERNA DA MILINHA

HOME TRUE SUSHI N 40º 38’ 51” W 7º 54’ 38” Quinta D’El Rei, Lote 243, Loja Cl 3500-041 Viseu +351 933 330 867 www.facebook.com/hometruesushiviseu

TASQUINHA DA SÉ N 40º 39’ 33‘‘ W 7º 54’ 41’’

VINTAGE VISEU HAMBURGUERIA TRADICIONAL N 40º 39’ 23” W 7º 54’ 55”

N 40º 39’ 33‘‘ W 7º 54’ 47’’

Rua Miguel Bombarda, 76, 3510-090 Viseu +351 232 414 323

Rua Nunes de Carvalho, 3 +351 969 700 056 www.facebook.com/Taberna.damilinha

PENSÃO ROSSIO PARQUE N 40º 39’ 28” W 7º 54’ 47”

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Rua Mário Pais da Costa, Lote 10 R/C esq, 3515-174 Viseu +351 232 187 231 www.facebook.com/cantinhodotito

Rua Soar de Cima, 55, 3510-211 Viseu +351 232 422 085 www.pensaorossioparque.com

Rua Augusto Hilário, 62 3500-199 Viseu +351 232 436 138 www.facebook.com/Tasquinhadase


Onde curtir

IRISH BAR N 40º 39’ 35” W 7º 54’ 44” Largo Pintor Gata, 8 3500-158 Viseu +351 232 488 156 facebook.com/irishbarviseu

NB CLUBE VISEU N 40º 39’ 27” W 7º 54’ 52” Rua Conselheiro Afonso de Mel, 39 3510-024 Viseu +351 966 234 409 www.facebook.com/iceclubviseu

O clássico dos clássicos da cidade. Continua a ser o local de encontro das diversas gerações de viseenses. Espaço acolhedor com óptimo serviço.

SYRAH WINE & GIN N 40º 38’ 54” W 7º 54’ 40” Quinta da Saudade, lote 228, Loja R 3500-632 Viseu +351 232 395 194

MARIA XICA N 40º 39’ 33” W 7º 54’ 45”

CASA DA BONECA

ICE CLUB

N 40º 39’ 34” W 7º 54’ 42”

N 40º 38’ 39” W 7º 54’ 37”

Praça D. Duarte, 28, r/c 3500-119 Viseu casadabonecabar@gmail.com

Edifício Palácio do Gelo, Quinta da Alagoa 3510-606 Viseu +351 966 234 409 facebook.com/iceclubviseu

FACTOR C N 40º 39’ 49” W 7º 54’ 36” Rua do Coval, 43, 3500-198 Viseu +351 925 478 556 facebook.com/factorcviseu

THE BROTHERS N 40º 39’ 25” W 7º 54’ 46”

N 40° 38´ 37´´ W 7° 54´ 40”

N 40º 39’ 32” W 7º 54’ 43”

Palácio do Gelo Shopping, Piso -1 3500-606 Viseu +351 232 483 931 www.bardegeloviseu.com

Rua Augusta Cruz, 1 3500-808 Viseu

OBVIAMENTE Largo Pintor Gata, 26 3500-136 Viseu +351 232 093 132

Rua da Paz, 26, 3500-168 Viseu +351 232 440 391

N 40º 40’ 16” N 7º 55’ 25” N 40° 39´ 49” ´W 7° 54´ 36´”

N 40º 39’ 32” W 7º 54’ 42”

Largo Nossa Sra. da Conceição, 37, 3500-198 Viseu +351 966 810 757

ARMAZEM DO CAFÉ N 40º 39’ 25” W 7º 54’ 46” Rua da Paz 11, 3500-168 Viseu +351 232 425 054 facebook.com/Armazém-do-CaffèViseu-255169617995039/

CHEER ’S

A FÁBRICA

4YOU BAR

PALATO WINE HOUSE Praça D. Duarta 3500-119 Viseu +351 232 094 038

Edifício Palácio do Gelo, Quinta da Alagoa 3510-606 Viseu +351 232 483 900

BAR DO GELO

BELLE ÉPOQUE

N 40º 39’ 34” W 7º 54’ 44”

N 40º 38’ 39” W 7º 54’ 37”

VINYL VISEU BAR N 40° 38´ 47” W 7° 55´ 5” Rua Engenheiro Beirão do Carmo, 22 3510-030 Viseu +351 962 332 725 www.facebook.com/vinylbar.viseu

PALHA D’AÇO

N 40º 38’ 50” W 7º 55’ 0”

N 40° 38’ 49” W 7° 55’ 2”

Urbanização Quinta dos Jugueiros , 3500 Viseu +351 935 777 484 facebook.com/Cheer-s-1488884508032709

Rua Engenheiro Beirão Carmo, 38 a 42, 3500-445 Viseu +351 232 426 215 www.facebook.com/palhadaco.viseu

Avenida Europa 3510-431 Viseu +351 232 44 027 www.fabricaviseu.pt

BAR DO XICO N 40° 39´ 29” W 7° 54´’ 45´” Mercado 2 de Maio +351 969 189 624 facebook.com/bardoxico

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Rua Chão do Mestre, 23, 3500-111 Viseu +351 232 435 391 www.maria-chica.thefork.rest

ICE LOUNGE


Segredos do Dão A principal característica da viticultura portuguesa consiste na enorme variedade de castas das suas regiões vitivinícolas. A região demarcada dos vinhos do Dão não é exceção. O encepamento regional no passado recente concentrava o impressionante número de aproximadamente cinco dezenas de variedades, uma verdadeira dádiva da natureza. Tal variabilidade permitia a adaptação das colheitas às instabilidades climáticas da região e consequentemente às distintas maleitas daí consequentes. Com a modernização dos processos produtivos das últimas décadas a tendência assentou na utilização de um reduzido número de castas com bastantes resultados a nível produtivo no que concerne à quantidade e qualidade dos vinhos produzidos mas também, por vezes, com consequências nefastas. Contudo, o Dão, apesar de diminuir consideravelmente o número de castas nas suas vinhas, fez um notável trabalho na resistência à invasão das castas internacionais, algumas com elevadíssima qualidade mas que iriam sem dúvida descaracterizar os nossos vinhos e acabar com a fantástica herança genética que temos.

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Atualmente uma das principais premissas dos mercados é não suportarem grande variabilidade de oferta de produto. Há assim que sistematizar e dar primazia às castas piloto de cada região. No caso do Dão as duas principais castas tintas são: A Touriga Nacional, autóctone do Dão, casta tinta, antes denominada de Tourigo / Preto Mortágua, adotou o seu nome atual da sinonímia do Douro. No futuro próximo será decerto considerada como uma casta internacional pois já se encontra em produção na África do Sul, Austrália, Califórnia, Brasil e claro na nossa vizinha Espanha. Está é sem dúvida uma casta de máximo valor enológico, atingindo o seu pico qualitativo em áreas geográficas quentes dando origem a elevadíssima intensidade cromática e aromática. É assim uma casta que origina vinhos bastante complexos. A rega gota-agota anula a reduzida qualidade no caso de insuficiente disponibilidade hídrica. Os vinhos de Touriga Nacional apresentam qualidade muito elevada e oferecem um aroma a frutos silvestres vermelho escuros/pretos muito maduros e algumas notas florais de perfume doce presentes também nas flores de violeta e na esteva. A tonalidade do vinho enquanto jovem assume-se violácea e muito concentrada (retinta); O Alfrocheiro é outra casta de muito eleva-

do interesse. É provavelmente autóctone da Península Ibérica. Surge no Dão, região de maior expansão, após a praga da filoxera (a partir do último quartel do séc. XIX). Por análise molecular sabe-se que existe em Espanha com outras denominações. É uma casta sensível ao escaldão. Frequentemente apresenta segunda floração o que origina cachos imaturos na fase final da maturação. Deve-se evitar a sobrematuração devido ao engelhamento do bago o que reduz consideravelmente a produção. Os vinhos de Alfrocheiro Preto apresentam uma cor granada intensa com reflexos violáceos, um aroma frutado forte. Um sabor delicado com taninos macios e acidez equilibrada; As duas principais castas brancas do Dão são: O Encruzado, à semelhança da Touriga Nacional é também ela uma casta autóctone do Dão. Apresenta características morfológicas únicas. Em condições adequadas produz vinhos da melhor categoria, surpreendentemente elegantes e complexos nos aromas com notas vegetais de pimentas verdes, florais de violetas e rosas, frutadas de limão e minerais de pederneira (Sílex pirómaco). A Malvasia Fina, de origem antiga e desconhecida, assume-se europeia e com enorme tradição. Dá origem a vinhos muito elegantes, finos, com reduzida intensidade e complexidade no aroma e no gosto. Apresentam um bouquet extraordinário com notas de mel e noz-moscada, conseguindo apenas obterem-se em condições ambientais ótimas. As quatro castas referidas são uma ínfima parte do nosso tesouro genético vitícola providenciado pela Natureza e trabalhado pelo Homem. Se soubermos olhar para o nosso território constatamos o quão afortunados somos! Ao nosso Dão!

por L. Miguel Oliveira, Geógrafo e Enólogo


11 de agosto a 17 de setembro

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2017


© Paulo Alexandrino

OITO SÉCULOS DE PATRIMÓNIO

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PINTURA ESCULTURA ARTES DECORATIVAS

Rua das Janelas Verdes LISBOA • PORTUGAL

www.museudearteantiga.pt facebook.com/mnaa.lisboa

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