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SUMÁRIO Editorial

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As manifestações como arte.

Fica a dica!

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Uma banda de nosso estado.

FITUB, oito dias de magia

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Sobre a 26º edição Festival de Blumenau

O FITUB e o Trabalho dos “anjos” O cotidiano de quem trabalhou no Festival

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Quando o teatro me recordou as vozes das ruas

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A arte que veio das ruas para os palcos do FITUB

Bastidores: montagem de uma exposição de arte

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Os bastidores da exposição de Miguel Penha

A nova Lei Rouanet

P. 32

Um pouco sobre a lei da arte

Diário de uma velha árvore

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Filosofia e pensamento

Boatos duma Beata

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Os colaboradores desta edição

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Editorial

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sociedade atual passa por movimentos e manifestações que tomaram as ruas brasileiras pedindo dignidade às pessoas que consideramos administradores públicos. Colocando em pauta transporte, saúde, educação, transparência, arte e cultura, não a isso e aquilo, entre outros. Com exceção de vândalos, que se aproveitaram da situação para criar um movimento contrário e desorganizado, podemos considerar estes manifestos como uma parte cultural da sociedade que é transformada de acordo com seu histórico cultural e social. E, SIM, considero esses manifestos como arte. Pois a arte entende e se faz entender. Ela quebra barreiras e pré-conceitos, ela cria formas e desformas, ela se desenvolve e envolve. A arte que conhecemos é a arte que cada um carrega consigo e que é adquirida ao longo da estrada através das experiências, encontros e desencontros. O que me agrada pode ser que não agrade o próximo. A arte que

REDAÇÃO redacao@revistabalo.com.br

me toca pode ser a arte que lhe incomoda, e vice-versa. Esta arte até podemos chamar de fenômeno, pois é dinâmica e vive em constante mutação. Citando Laraia, do livro Cultura: Um Conceito Antropológico: "qualquer sistema cultural está num contínuo processo de modificação. Assim sendo, a mudança que é inculcada pelo contato não representa um salto de um estado estático para um dinâmico, mas, antes, a passagem de uma espécie de mudança para outra. O contato, muitas vezes, estimula a mudança mais brusca, geral e rápida do que as forças internas". Reparem nas palavras; contínuo, modificação, mudança, estático, dinâmico, espécie, rápida e forças: as mesmas cabem e fazem “jus” aos dias atuais. Deste modo, buscamos apresentar nessa edição as formas e desformas do mundo da arte, como, por exemplo, o Festival

Internacional de Teatro Universitário de Blumenau (FITUB) que é contínuo, dinâmico e transforma a cidade em um clima que não sei explicar ao certo. A filosofia e pensamentos que mexem com a espécie humana e muitas vezes incomodam e criam mudanças de comportamento. Há ainda os bastidores de uma exposição de artes plásticas que é estática, mas muda. Cria uma forma vista com cada olhar, as forças e mudanças criadas pelas leis de incentivo a cultura. Deixo para vocês, caros amigos, a conclusão e a escolha de uma das palavras citadas acima que melhor representa a CENA DO MÊS. Em meio a encontros e desencontros, agrados e desagrados... Desejo a vocês uma boa leitura com reflexões que possam ir além das palavras, além do espetáculo!

Obrigado! Ítalo Mongconãnn

Expediente Ítalo Mongconãnn

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William Westerkamp

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Manoella Back

Produtora Cultural cultura@revistabalo.com.br

Marina Melz

Jornalista Responsável ed.jornalista@revistabalo.com.br


Fica a dica!

por Rafael Lanznaster

Reino Fungi é uma banda formada em Joinville, Santa Catarina, e traz no seu repertório um estilo de música voltado aos anos de 1960. Para quem gosta do estilo rock'n roll, que fez história nesta época, como Beatles, dentre outras, certamente aprovará o som que o Reino Fungi tem a oferecer!

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FITUB, oito dias de magia! Por Ítalo Mongconãnn

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m sua vigésima sexta edição o Festival Internacional de Teatro de Blumenau, o FITUB, tem muita história para contar, afinal, foi um dos poucos festivais universitários de teatro sobreviventes no decorrer desses anos. Com características marcantes o FITUB se firmou por sua popularidade e por ser considerado um dos mais importantes eventos de ensino, pesquisa e extensão do cenário brasileiro do teatro universitário e sul-americano, com o intuito de incentivar e aprofundar estudos da produção teatral, as artes cênicas, dentro das universidades brasileiras e ibero-americanas. O evento se propõe à realização de oficinas, palestras, mesas de debates apresentações e análise dos espetáculos, nos quais todas essas funções acabam se tornando um intercâmbio entre professores, técnicos, artistas e comunidade, o que faz com que o mesmo possa estimular a criação artística teatral como um todo. O FITUB se preocupa também com maneiras e oportunidades de levar teatro gratuito para todos. Isso acontece através do Palco Sobre Rodas, que leva os espetáculos para escolas, praças, centros comunitários, entre outros espaços. Este projeto nos faz compreender que o festival não tem um público específico, ele é destinado para toda a comunidade. Além do Palco Sobre Rodas, o festival conta com eventos especiais, apresentações artísticas de vários segmentos criando momentos de trocas culturais valiosas aos participantes.

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Desde a décima quinta edição do FITUB foi instituído que a cada edição seria discutido um tema específico e direcionado ao meio teatral, onde o tema é definido durante a realização do evento e divulgado no último dia do festival. Para sua vigésima sexta edição foi escolhido o tema “Produção Teatral e Ética”, pois o tema envolve questões ligadas à infraestrutura de uma montagem, sobre as leis de incentivos à cultura, questões econômicas e culturais. O tema escolhido teve relevância pela forma e maneira informal que era realizado essa função de produtor teatral, juntos aos grupos de teatro, que, de fato, estão mais exigentes e buscam por profissionais qualificados. E como toda profissão é regida por um código de conduta, o Código de Ética, e no teatro não é diferente. Uma função do resultado estético e do resultado humano. Com resultados alcançados pode-se ressaltar que o FITUB serviu e serve para promover e incentivar outros artistas a também disseminar a cultura em todas as formas e partes da cidade de Blumenau.

Curiosidade: Em 25 edições, o FITUB já atingiu a marca de

417.500 mil espectadores.

Baseado nas informações disponíveis em www.furb.br/fitub


O FITUB e o trabalho dos “anjos” Por Natália Curioletti

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omecei a trabalhar no Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau (Fitub) quando entrei para o Bacharelado em Teatro da Furb em 2003, e desde então faço parte da equipe de trabalho deste que, sem dúvida, é um dos maiores acontecimentos artísticos de Blumenau e que cada vez mais se configura como um importante espaço de aprendizado e estudo para artistas e estudantes, bem como uma fonte de arte de qualidade para a plateia. O Fitub é um dos maiores eventos de teatro universitário da América Latina, senão o maior, e é voltado para os estudantes e para toda a comunidade. Recebemos espetáculos de universidades de todo Brasil na Mostra Nacional e, na Mostra Ibero-Americana, das universidades da América Latina além de outros lugares do mundo como Portugal e Israel. Temos também espetáculos convidados de companhias profissionais, Mostra Blumenauense, Ação Teatro na Escola e Palco Sobre Rodas. Ao longo desses dez anos atuei em diferentes funções dentro da equipe do festival, mas desde 2006 faço a produção local para os grupos que se apresentam. Essa equipe é chamada carinhosamente de “anjos”, nosso trabalho começa muito antes do festival, assim que os grupos são selecionados para cada edição. Somos responsáveis por recepcionar e auxiliar os grupos na produção local de cada espetáculo, pois muitas vezes são necessárias adaptações técnicas das obras aos espaços onde acontecem as apresentações. Também cuidamos da organização da vinda de cada grupo, e acompanhamos montagens e desmontagens de todas as peças. Entramos em contato com os grupos assim que são selecionados e, a partir da necessidade de cada espetáculo, auxiliamos da melhor forma possível a adaptação de cada um deles. Por se

tratar de um contexto de pesquisa teatral recebemos muitos trabalhos com necessidades muito específicas e, às vezes, de difícil adaptação. Em virtude das distâncias e longas viagens que os grupos encaram pra chegar a Blumenau, já tivemos uma variedade curiosa de necessidades que os grupos têm dificuldade de transportar e nos pedem pra conseguir, como: adaptar piscinas no palco, inundar uma sala, toneladas de areia, caminhões de barro, vísceras de boi frescas, banheiras, baratas vivas, espelhos, móveis e objetos dos mais diversos. Sem contar os infindáveis e-mails e tentativas de comunicação, em diversas línguas que não dominamos, até entendermos o que cada um precisa. Toda a equipe de Anjos é formada por profissionais do teatro Blumenauense e por estudantes de teatro da Furb. Neste ano nós somos uma equipe de seis anjos para as mostras Nacional, Ibero-Americana e Espetáculos Convidados. Também temos outros produtores específicos para o A Ação Teatro na Escola e Palco sobre rodas. Ter a oportunidade de trabalhar tão próximo aos grupos traz muitas lições e tem sido uma grande escola de produção cultural. Nesses dez anos acompanhando artistas e companhias pude aprender muito sobre teatro, sobre linguagens, estéticas, e ver como isso acontece para além daquilo que vemos quando sentamos na plateia. Há uma imensa mobilização por detrás das cortinas para que os espetáculos aconteçam e um trabalho muito grande anterior aos dias do festival. Acho incrível fazer parte disso e sinto que toda a trabalheira é compensada quando se finda cada apresentação e vemos o público e os artistas satisfeitos: missão cumprida! www.revistabalo.com.br

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O Festival e a comunidade: uma importante relação Por Aline Grazielle Appi O FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO UNIVERSITÁRIO DE BLUMENAU – FITUB entrou na minha vida em 2003, em virtude do curso de Bacharelado em Teatro da Universidade Regional de Blumenau. O Fitub foi também meu primeiro contato com um Festival de Teatro e logo percebi a grandiosidade e importância dele. Percebi que naquele mês de julho a cidade entrou em um novo ritmo, tinha um novo ar. Fiquei encantada com a presença de tantas pessoas em busca da arte teatral, em busca da cultura e da troca de ideias. Esse grande encontro de pessoas significava que elas ansiavam por aquele momento. Cheguei a ver algumas vezes pessoas muito tristes por não haver mais ingresso para a apresentação da noite. Sempre acreditei que esse movimento era muito importante para a comunidade e para a cidade. De fato ele é. Durante muito tempo trabalhei como anjo. Anjo é basicamente o que o próprio nome diz: um anjo do grupo. Assim que é feita a seleção dos espetáculos os anjos entram em contato com os grupos para a organização do grupo no Festival. Precisamos saber das necessidades de cada espetáculo, o espaço específico, quantidade de público, necessidade de iluminação e até mesmo o tempo que cada grupo ficará na cidade, para podermos organizar a hospedagem e ajuda de custo que cada grupo que vem ao Festival rece-

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be. Como anjo, trabalhando diretamente com os grupos das universidades que vinham para o festival, tinha contato direto com o grupo e a plateia e via bem próximo a reação que o teatro causava nas pessoas quando se findava uma apresentação. As pessoas saiam felizes, pensativas, renovadas e questionadoras desse grande mundo que nos rodeia. Isso faz parte do teatro, o Festival faz parte dessas pessoas, dessa comunidade. Ele sempre foi pensado para chegar até a comunidade. Todas as ações que existem dentro do FITUB são pensadas, tanto pela equipe como pela coordenadora Pita Belli, para chegar aos mais diversos locais da cidade e até mesmo da região, atingindo o maior número possível de pessoas. O projeto “Palco sobre Rodas” é de extrema importância, pois ele tem como objetivo levar espetáculos para os diversos lugares da cidade como: escolas, terminais de ônibus, asilos, entre outros, fazendo com que o teatro chegue até às pessoas que não conseguem ir até ele. Percebo que quando o Festival consegue levar um espetáculo a uma determinada região, este local consegue gerar a mesma atmosfera e a mesma reação nas pessoas que acontece dentro do Teatro Carlos Gomes. Estas pessoas que participam desse momento são, juntamente com esse espaço, transformadas. Além do “Palco sobre Rodas”, outra forma de levar o teatro para as mais diversas comunidades é através da Ação Teatro na Escola, que atende especificamente as escolas de Blumenau e região. No início do processo para o 26º Festival tive o privilégio de ser convidada pela coor-

denadora Pita Belli para coordenar a Ação Teatro na Escola. Essa ação é voltada para o fomento dessa arte nas unidades de ensino formal, sendo oferecidas oficinas para alunos e professores, além de uma experiência estética teatral com a apresentação de espetáculos. Este ano combinamos uma parceria com a Biblioteca Universitária, dando apoio e fomentando espaços de leitura nas escolas. Sendo a Universidade Regional de Blumenau realizadora deste grande evento, a FURB e o 26º FITUB levam para diversas regiões, incluindo a cidade de Gaspar, dez espetáculos e três oficinas. Essa relação do Festival diretamente com a comunidade mostrou a mim e ao Darlan, diretor da Biblioteca Universitária, como as escolas e essas comunidades são carentes de momentos culturais e como elas anseiam por esses momentos. Mostrou a importância dessas ações inseridas nesses locais. Neste evento teatral que é o FITUB estreitamos relações com esses espaços e essas pessoas. O Festival se torna o grande evento da comunidade, as crianças e a escola esperam ansiosas pelo momento de fazer parte do “mundo teatral”, esperam ansiosas para poder comungar com esse momento que é único para cada uma delas. Então levar o teatro até estes locais mais distantes é presentear pessoas. É poder dar as crianças e a todos a oportunidade de fazer parte desse Festival, deste Festival que é de Blumenau, que é dos artistas, dos voluntários, dos trabalhadores, da região, do país. Desse Festival que é de todos nós. www.revistabalo.com.br

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Quando o teatro me recordou a voz das ruas Por Max Jaques

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á algumas semanas fomos às ruas. Digo melhor: alguns de nós estivemos nas ruas enquanto as ruas invadiam nossas casas sustentadas em diversas plataformas. Destaque ao inédito papel das tecnologias, que recortaram fragmentos de muitos pedaços desse país e nos fizeram sentir para além dos pixels, parafraseando o dramaturgo Gregory Haertel. Houve, há algumas semanas, um ímpeto de se dispor a escutar o que a rua tinha a dizer. Houve uma disposição coletiva de se posicionar frente às velhas queixas geradas por nossas escolhas por uma vida a cada dia mais urbana. Surgiram de todos os cantos, discursos que desqualificaram as vozes que se ouviam. Falou-se de uma completa confusão entre os falantes e do quanto essa multiplicidade era prejudicial. Tolice. Coisa de quem nunca esteve na rua para constatar que ela é mais que uma junção de dois perfumes que formam um terceiro, único, porém, desagradável. Ela é, sobretudo, uma composição múltipla, contraditória, permanente na sua unidade, mas etérea na sua composição. A militância que se fez coletivamente pelas veias e artérias das nossas pólis anunciou-se inicialmente como surpreendente e vanguardista. Outra bobagem. Fomos às ruas tão somente porque sabíamos que era possível e útil. Seguimos assim, uma tradição tão antiga quanto a história das lutas democráticas. Não há novidade em ir às ruas. Mas, há sim, algo que nos torna efetivamente particulares nesta ação. A educação básica precária oferecida nas últimas www.revistabalo.com.br

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décadas à população e a quase ausência de articulação dos partidos políticos com as suas bases, nos fizeram ocupar as avenidas para gritar, erguidos tão somente no alto daquilo que vivemos. Um levante popular apoiado na angústia e desconforto de viver o que se vive e sentir o que sente. Tudo isso, sendo construído, editado e retratado através de clicks, touches e deletes. A escrita desse texto é impulsionada pelo desejo de relatar um acalento que sinto e um conforto que me acolhe poucos dias depois de ver meu país aos gritos, tateando no escuro tentado identificar entre tantos os seus opressores. Vi surgir dos palcos uma voz sentida nas ruas, contada nas ruas e transformada em pretextos para a minha esperança. Emolduradas nos limites dos palcos – tão antigos quanto a democracia – mas articulando-os não como limites, mas sim como suportes de uma propulsão desejada e necessária. Entre as boas tradições de Blumenau figura o Festival Internacional de Teatro Universitário. O mês de julho já é, portanto, anunciado como aquele que guarda o intenso reencontro do público blumenauense com a produção teatral universitária do Brasil e de alguns outros países. Destaque para o fato de que este Festival, nas suas

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26 edições, já ultrapassou o nada simples desafio de cumprir uma semana de programação teatral na cidade. O que se vê agora é uma clara tentativa de efetivamente discutir o teatro e sua sustentação teórica, estética e política. Com isso, todos ganham. Com uma programação articulada com o tema “Produção Teatral e Ética”, o 26º FITUB parece se posicionar como um marco no percurso deste evento por ter conseguido apresentar um acervo quase que inteiramente articulado com a especificidade do momento político que vivemos. Quero destacar aqui a repetida e fundamental fala da coordenadora geral do evento, Pita Belli, ao afirmar que as premiações que o festival confere têm um propósito bastante claro: a de abrir portas aos grupos ao retornarem para suas instituições. Todavia, ainda nas palavras de Pita, o caráter central do FITUB está na possibilidade de promover o debate e, assim, os rumos do teatro universitário. As montagens apresentadas neste ano trouxeram diferentes versões de diferentes histórias que alcançaram extremos como um importante recorte da Revolução Francesa e as idiossincrasias coletadas nas ruas de Salvador e costuradas de forma a contar a própria história da cidade e de seu povo. Ainda que a ênfase que quer se dar ao FITUB não esteja na premiação, a existência dela delimita uma possibilidade de transmissão de conceitos. Ao escolher entre premiar um ou outro espetáculo e/ou suas partes, a comissão de jurados assume – ainda que indiretamente - um conjunto de valores, baseados sim numa avaliação e, nesse sentido, numa posição ideológica e política. Há uma série de reflexões possíveis ao www.revistabalo.com.br

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constatar isso. Sinto uma felicidade pulsante ao lembrar que a premiação de melhor direção foi concebida ao grupo Núcleo dos 5 pelo espetáculo Danton.5. A vanguarda está no fato de que esta montagem não é assinada por um diretor. Trata-se de um processo dirigido pelos próprios atores, através da sustentação de um projeto coletivo que perpassou desde a escolha dramatúrgica até a chegada neste festival. O Grupo Toca de Joaçaba recebeu uma menção pelo trabalho coletivo que desenvolve na extensão universitária e que resultou numa emocionante apresentação de uma das diferentes versões da Guerra do Contestado. Emocionando, especialmente aos catarinenses, mas extensivo a todos os brasileiros, porque nos conta uma parte da história que nos constitui como sujeitos sociais e que, todavia, nos é negligenciada sistematicamente. Há uma envolvente sensação de pertencimento que me acomete quando vejo a rua representada no palco e o palco montada na praça, como aconteceu com Clotário e Brigadas, trazidas do Chile para dizer dos levantes relacionados à luta contra a ditadura naquele país. Há prazer em reconhecer que a voz que o ator emite já foi voz sentida no corpo, já foi som que tocou o peito. Assim também o fez a blumenauense Cia Carona ao adaptar alguns trechos de Passarópolis para nos aproximar ainda mais daquilo que víamos com aquilo que vivemos. O troféu de melhor espetáculo foi entregue à UFBA, por Amnésis – uma busca intencional pela lembrança. De forma sensível e bem humorada, o elenco composto por três jovens atores apresenta uma paleta de personagens tão versátil quanto a

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qualidade técnica do grupo. Um tratado sobre o uso da linguagem cênica como alternativa de construção de memória baseada na escuta. É recorrente ouvir que o artista brasileiro está à margem. Há o contraponto de pensar que, na verdade, ele está na vanguarda. Entre uma coisa ou outra, prefiro continuar sentindo o que senti nos últimos dias: que estão conosco, nem à frente, nem à margem. Lado a lado! Por fim, tento aqui manifestar com algum rigor narrativo a alegria daquilo que pude ver ser anunciado nos palcos: para cada corpo vivente há uma história sempre nascente sobre a qual é possível construir e contar diferentes versões. Nascido no mesmo berço que a democracia, ainda há teatro que prefira a pólis à apólice. Ouso a retomada do clichê ao propor, ainda como pretexto para a esperança, que parece que se o gigante quiser voltar a dormir, o teatro relutará em cantar as cantigas de ninar.

Fotos cedidadas pelo evento www.revistabalo.com.br

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Bastidores Montagem de uma exposição de arte

Exposição de Miguel Penha 18

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Curadores da Exposição “Dentro da Mata” - Mia Ávila e Fabrício Zimmermann

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Miguel Penha:

artista plástico contemporâneo e autodidata. O artista Miguel Penha iniciou sua carreira no mundo das artes plásticas em 1979 aos 18 anos com um curso de História da Arte realizado em Brasília na Fundação Nacional das Artes (FUNARTE). Seu tutor foi crítico de arte João Evangelista. Em 2009 seu trabalho se torna reconhecido nacionalmente ao receber o Prêmio de Artes Plásticas Marcantônio Villaça que é promovido pelo Ministério da Cultura (Minc) e pela FUNARTE. Durante os 30 anos de carreira seu trabalho ganhou os salões de artes pelo mundo. Por ser indígena e ter vivencia direta com a paisagem, o artista plástico desenvolveu o gosto pelo naturalismo e trabalha formas que retratam os viajantes que passaram pelo Brasil no século XVIII, como a expedição de Langsdorff, na qual Miguel procura “representar a paisagem, aprimorando em um surpreendente e inesgotável fazer artístico e estético”.

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Exposições Individuais – As dez principais: 1981

Cuiabá/MT,1º Semana da Cultura da UFMT

1997

Cochabamba/Bolívia , Morada de los invisibles, Casa da Cultura

2002

Cuiabá/MT , Meu Refúgio, Museu do rio Cuiabá

2006

Cáceres/MT,Museu da UNEMAT, UNEMAT,

2010

Cuiabá/MT, A natureza sob o olhar do artista, Museu de Arte e Cultura Popular- UFMT

2011

São Luis/MA , Dentro da Mata, Projeto SESCAMAZÔNIA DAS ARTES

2011

Manaus/AM, Dentro da Mata, Projeto SESCAMAZÔNIA DAS ARTES

2011

Belém/PA, Dentro da Mata, Projeto SESCAMAZÔNIA DAS ARTES

2011

Teresina/PI, Dentro da Mata, Projeto SESCAMAZÔNIA DAS ARTES

2011

Macapá/AP, Dentro da Mata, Projeto SESCAMAZÔNIA DAS ARTES

Exposições Exterior 1997

Cochabamba/Bolívia , Morada de los invisibles, Casa da Cultura

2000

Viena/ Áustria, The Meeting of the Two Americas, Palais Pálffy

2005

Tampa/USA, Festival Brasil Tampa, Galeria Brasil Artes

2009

Deutschland/Alemanha, Art Fair Europe

2009

Emirados Arabes, Art European Fair

2012

Milão/Itália, Brasil sem Fronteiras

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A nova Lei Rouanet e as novas perspectivas para a cultura no Brasil Por Clarissa Iser

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m pauta desde 2010, o Projeto de Lei no. 6722/2010 trata da aprovação do Programa Pró-cultura, do Ministério da Cultura, que pretende substituir a Lei Rouanet vigente. Sim, a Lei Rouanet está prestes a ser modificada, ou melhor, revogada. Para corrigir algumas distorções causadas pela Lei Rouanet desde 1991, sendo a principal delas a concentração de recursos na região Sudeste do país e em mãos de poucos proponentes, o Governo Federal propôs alterações na legislação. O projeto de lei foi amplamente debatido com a população no ano de 2010, mas encontra-se parado até hoje, em análise no Congresso Federal. A previsão é de que a nova lei entre em vigor em 2014 se aprovada ainda esse ano (ou, ainda numa boa perspectiva, a partir de 2015). O PL 6722/2010 prevê a implantação do Programa Pró-cultura, que irá contemplar o Fundo Nacional da Cultura (FNC), a modalidade de incentivo fiscal (mecenato), o Ficart (fundo de investimentos) e o Vale-Cultura, com legislação específica. A ideia é direcionar a maior parte do orçamento para o Fundo Nacional da Cultura e distribuir esses recursos via editais, sem a necessidade de patrocinadores. Para a modalidade de mecenato, que continuará existindo, algumas regras irão mudar.

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Atualmente, pela Lei Rouanet, um patrocinador pode deduzir até 100% do valor investido no projeto, de acordo com o enquadramento recebido pelo MinC. O novo projeto de lei prevê dedução máxima de 80% aos patrocinadores. Ou seja, no mínimo 20%, obrigatoriamente, deverá ser investimento direto do patrocinador, proveniente de suas verbas de marketing. Aqueles projetos que oferecem “naming rights” ao patrocinador terão apenas 40% de dedução e os patrocinadores que desejarem ter sua marca vinculada ao projeto poderão deduzir as doações dentro de faixas percentuais que variam entre 40%, 60% ou 80%. Para obter as deduções, o patrocinador deverá, ainda, oferecer serviço direto e automatizado de atendimento ao proponente (ter um canal de atendimento só para isso), divulgar os critérios pelos quais os projetos culturais serão selecionados e os prazos para ingresso na seleção e divulgar os projetos culturais que forem selecionados e o percentual de dedução permitido em caso de sua logomarca ser vinculada ao projeto. Com isso, o Ministério da Cultura deseja eliminar os intermediários (ou captadores de recursos), facilitando o contato direto dos proponentes com os patrocinadores, e ainda estabelece que irá instituir a partir da nova lei um Sistema Nacional de Informações Culturais e um Cadastro Nacional de Proponentes e Patrocinadores. Apesar de ter eliminado a figura do captador de recursos neste novo formato da lei, o Ministério da Cultura irá abrir uma possibilidade para remunerar serviços de elaboração e administração do projeto, com valores até 10% do total aprovado (somente para projetos que buscam patrocinadores via mecenato).

Estas mudanças certamente irão contribuir para uma melhoria do mecanismo de apoio a projetos culturais no Brasil, especialmente por permitir uma melhor distribuição do orçamento entre as regiões do país e para mais proponentes. A grande contribuição virá no aumento dos recursos disponíveis para o Fundo Nacional da Cultura, aumentando as chances de apoiar projetos sem a necessidade de patrocinadores. Entretanto, há de se pensar que, para o mecenato, existe um grande risco desta nova lei não funcionar. Os patrocinadores estão acostumados a deduzir 100% dos valores doados e angariar contrapartidas associadas à mídia e à veiculação de sua marca nos projetos. Tanto é verdade que, no formato atual da lei, projetos enquadrados no artigo 26 (que permitem deduções de 30% ou 40% apenas) são muito difíceis de captar patrocínio. A maioria das empresas nem recebe este tipo de projeto para análise. Fica a indagação se isso vai funcionar na prática. Ou, se funcionar, quanto tempo irá levar até que as empresas se adaptem ao novo sistema. O ideal mesmo seria permitir 100% de dedução às empresas, para qualquer tipo de projeto, incluindo no hall de habilitados a patrocinar as empresas optantes por lucro presumido. Além disso, organizar as informações de mercado (políticas de patrocínio) a fim de tornar acessível o contato com os patrocinadores para todos os proponentes. Poderia ser este um critério para que a empresa se habilitasse como patrocinadora do mecenato. As chances seriam iguais para todos. Pode ser utópico. Mas seria muito bom para a cultura brasileira.

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DIÁRIO DE UMA VELHA ÁRVORE por Cicero Nunes da Silva

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or um acaso do destino, a semente que me deu vida foi jogada neste lugar ao sabor de algum vento, pelo bico

de algum pássaro ou mesmo carregada pela enxurrada de alguma chuva de verão. Entre os cascalhos e entulhos que aos poucos se aglomeravam, lá fiquei esperando a luminosidade e umidade ideal para poder germinar, o que aconteceu após um intenso inverno. Timidamente minhas raízes rasgaram a casca da semente e o broto rompeu o invólucro que protegia o cerne da semente. Aos poucos consegui produzir alguma clorofila com as folhas já expostas à luz do sol. Tudo era muito estranho e novo. Via os pés com sapatos barulhentos que passavam muito rente às minhas frágeis folhas e muitas vezes algumas formigas se satisfaziam com elas deixando somente o caule desnudo. Aos poucos fui crescendo e as vezes do nada meus galhos eram quebrados por alguma criança que passava correndo atrás de outro colega de escola, e batiam um ao outro com o que restava dos galhos arrancados. A fumaça dos carros me incomodava mas acabei me acostumando com isto. O tempo passava e vagarosamente crescia observando tudo o que acontecia. Algumas lojas apareceram e outras desapareceram. A cada inverno minhas folhas eram levadas pelo vento e eu adormecia por alguns meses.

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Quando a primavera se aproximava eu despertava lentamente e via como muita coisa havia mudado. Certa vez, ao despertar dum desses invernos fui surpreendida pelo barulho constante que fazia o chão tremer ao meu redor. Uma escavadeira abria fendas próximo ao meu tronco ainda frágil, removendo o solo e arrancando canos, fios, pedras e consequentemente algumas raízes minhas foram decepadas pelos solavancos da máquina de aço e ferro que cravava seus dentes no chão. Pensei que seria meu fim. Meus galhos e tronco virariam lenha sendo mais uma vítima das motosserras tão assustadoras que muitas vezes via decepar velhas e frondosas árvores cá e acolá, ou então seria jogada num terreno baldio junto com outros entulhos e depois de seca seria ateado fogo até que virasse cinzas. Durante muitos meses do ano eu abrigava os pássaros das chuvas torrenciais e do sol causticante do verão ou os protegia das tempestades com ventos suntuosos. Muitas vezes cedia meus galhos para que seus ninhos fossem amparados até que os filhotes pudessem voar e até voltar para fazer seus ninhos meses mais tarde. Um urutau de quando em quanto disfarçava-se ser um galho meu não permitindo que os predadores o identificassem. Certa vez tive ele e seu filhote como extensões de meu tronco por algumas semanas. Meus frutos, embora pequenos e levemente avermelhados, saciavam vários insetos e animais silvestres que aqui chegavam. Não sei por quais bandas

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deste mundo devo ter sementes que puderam germinar e se desenvolver e assim como eu cheguei aqui, espero que algumas possam ter crescido e frutificado em algum lugar. Bem ao lado de onde estou abriram vários bancos. Vejo velhinhos, jovens, empresários, crianças e todo tipo de pessoas que ali vão fazer suas transações financeiras e comerciais ou não. Várias lojas também apareceram

e mais adiante um

enorme edifício de concreto e ferro com vidros espelhados se ergueu do solo, sem raízes mas com uma imponência que me mete medo, pois me sinto intimidada perante sua frieza. Não sei se chegarei a ficar da altura que ele está, pois desde que ele foi construído não consegui mais avistar as montanhas e o por do sol que fica do lado oposto a que estou, mas pela manhã sempre sou abraçada pelo calor do sol que a todos dá sem nada cobrar. Acima do meu galho mais grosso tenho duas balas encravadas resultado de conflitos de assaltantes com policiais numa dessas manhãs em que os carros fortes trazem dinheiro para os bancos. Felizmente a dor foi diminuindo e minha casca conseguiu criar um calo envolvendo as balas que ali ficaram sem causar maiores danos, pois em algumas destas vezes, vi pessoas cairem em razão disto sem nunca mais vê-las entrar nestas agências bancárias. Mais

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abaixo tenho as cicatrizes de um amor entre jovens que mediante promessas de amor entalharam na minha casca um coração com flecha e tudo, onde seus nomes seriam eternizados na cicatriz que a casca não conseguiu encobrir totalmente. Levemente se consegue ler ainda “AUDRA E ANTONINHO AMOR ETERNO”. Sempre namoravam sob a sombra de minhas folhas. Depois algum tempo não mais apareceram. Imaginei que haviam chegado ao matrimônio e que logo veria seus filhos correrem a brincarem no mesmo lugar que outrora namoravam. Ao contrário, depois de algum tempo, vi Audra sempre sozinha, cabisbaixa e nem sempre sorridente. Somente uma vez parou diante de mim e ficou olhando em direção ao meu tronco, talvez tentando ver onde havia sido feita a inscrição. O tempo passou e Audra continuou sozinha. Hoje faz muitos anos e de quando em quando a vejo passar vagarosamente, quase sempre com o mesmo casaco de lã e os cabelos levemente despenteados e já esbranquiçados, figurando uma idade já não tão jovem. Hoje estou aqui, e sinto-me protegida pelos transeuntes que aqui passam. Ao redor do meu tronco e raízes foram colocados pequenos tijolos brancos e alguma flores foram plantadas tornando o lugar mais bonito. Sou uma velha árvore e não sei de quantos invernos ainda acordarei para produzir as folhas e frutos que sempre produzi. Nunca pude sair de onde estou, porque sou

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uma árvore com raízes profundas e árvores não podem sair andando por ai, mas imagino que existam muitos lugares felizes como este onde estou e que muitas árvores também tenham tido a mesma sorte que eu. Sei também que muitas florestas são devastadas e muitos animais dizimados, e

me entristece e sinto ar-

repios quando vejo caminhões com toras gigantescas passarem pela avenida, borrando a imagem de que o mundo é um eterno paraíso e que todos podemos viver felizes aqui. A vida é um milagre

com

ventos que as vezes entornam os galhos e levam as folhas para longe. Passadas as tempestades as brisas acalentam as folhas ou o que sobrou delas e as chuvas lavam as lágrimas sendo enxugadas pelo sol de cada dia. Sinto que as brisas estão se arrefecendo o que indica que mais um inverno se aproxima e minhas folhas aos poucos são levadas pelos ventos do outono. Logo dormirei por alguns meses e espero acordar novamente num dia ensolarado de primavera e sempre fico na expectativa de como tudo aqui estará após alguns meses, quando acordarei para mais um presente do dia a dia de uma vida. Mesmo sendo uma árvore, agradeço todos os dias a bênção de estar aqui. Desejo a todos a mesma felicidade que sinto em viver cada dia.

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Boatus duma Beata Por Beli Lessa Beli Lessa é caminhante e nas trilhas da sua vida foi costureira, graduou-se em história, e esteve e-ou está produzindo coletivamente nas artes da fotografia, vídeos e documentários, grupos de discussão, pesquisas acadêmicas, literatura, educação, práticas ecológicas e arte de rua. Beata é uma persona que se fez humanamente possível através da foto-vídeo-grafia, no entanto, sua aparição primária diz respeito ao nobre teatro da vida. Este espaço é um meio de enviar suas cartas aos personagens que vivem esta obra de arte junto a ela, pois transitam vívidos em sua memória. Cartas para que se possa morrer - dignamente - de saudade...

Paraguayo Ana Acácia – Chaco

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De repente, expectadora da própria voz. Um mundo fala, outro escuta dentro daqui. Isto que conto em seguida foi dito pelos olhos castanhos dos meninos do grande posto de gasolina de Pozo Colorado, Chaco Paraguayo, ao lado de outra peregrina e amiga, a que fotografou estes outros olhos. Mas acolá, no cerre dos olhos, o filho quer voltar ao ventre. É de tanta sede: água tem é fora do seu copo. Mamãe chora em cima do copo que é de cuia, e vai à boca daquela pequena e fina criatura. Sol de rachar pé de moleque que lustra botas, lustra pneus, lustra caminho vendendo de tudo, Oh, Deus! Que de tudo não lhe interessa para não ser preso Não ser presa, Não quer ser como vovó, não quer ser como papai. Quase não sorri. Sorte que não faz frio. Sorte que falamos nossa língua. Sorte que mamãe chorou. Não é nada é só um trevo, um trevo no meio do caminho. Sorte que não existe trevo do azar! Senhor, neste trevo qual é o caminho da terra sem mal? Vovô contava que dependia das estrelas, não lembro, ele morreu. Já mamãe não fala mais disto, nem de nada, só me olha e chora, é porque tenho sede. Eu tô indo, sonhei com vovô, ele me contou, ele sorria, ele dizia para alguns sorte, só depois da norte, ele sorria, já não tem mais sede. Ele é estrela, eu tô indo. Eu tô indo mamãe, já não precisa chorar. ***

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Foto de Sabrina Marthendal


Revista Balô - Edição 03  
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