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SUMÁRIO Editorial

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A arte é coletiva.

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Os cinco músicos mais criativos da MPB - Parte II Top 5 de músicos brasileiros.

O Pop é Classico

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Estilo musical.

História que só o teatro faz

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Um pouco da história do teatro na região.

A arte do encontro Sobre o Fenatib.

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Tempo de contar, tempo de escutar

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Sobre contar hist贸rias.

Qual o sentido?

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Frohsinn.

Res(pirar)

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Poesia.

Como cuidar e respeitar algo que n茫o se conhece?

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Ciclo de palestras.

Boatus duma beata

P. 26

Coluna.

Colaboradores

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Editorial “Em primeiro lugar, quero declarar-me louco Quero deixar para depois qualquer ato de sanidade Não quero que me acompanhe a sensatez nem a razão Nada de lucidez nem claridade.” [...]

Q

uando a vontade é de quebrar protocolos significa que está na hora de quebrá-los mesmo. Significa que é chegada a hora de correr atrás do que confiamos, baseandose (ou não!!) nos nossos princípios. O verso acima é parte do Manifesto da Loucura, daqueles que a gente encontra “de bobeira” nos sites de busca na internet. Mantemos a idéia de que cada um de nós tem o próprio manifesto. Pode ser ele da loucura. Um manifesto ao vento, manifesto a paz ou aos nossos próprios medos. O ideal mesmo é fazer com que o manifesto descrito do nosso “eu” se transforme em ações. Se o manifesto é viver do teatro como fez Letaíde é porque está da hora de viver a representação. Se você preza e se manifesta por ser rigoroso, forte e lutar por projetos de valorização da arte local, que faça! Ou, se suas loucuras está em contar afetos afáveis por meio das histórias, queridos, só dizemos uma coisa: se joguem na loucura! E é por isso que a Balô está aqui. Pode ser pretensão, mas gostaríamos de ajudar e fazer valer um pouquinho de cada sonho, mostrar a conquista de cada um e criar forças motrizes para que outros também possam fazer valer, na prática, os mais íntimos de seus manifestos.

Boa Leitura! Expediente REDAÇÃO redacao@revistabalo.com.br

Ítalo Mongconãnn

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William Westerkamp

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Manoella Back

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Léo Kufner

Arte e Web Designer web@revistabalo.com.br

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OS CINCO MÚSICOS

MAIS CRIATIVOS

DA MPB Parte II

Por Manoella Back

1. GILBERTO GIL Nascido na Bahia, passou os primeiros oito anos de sua vida em Ituaçú. Acompanhava músicas pelo rádio e, foi desta maneira que passou a ter contato, já que ninguém em sua família fazia parte do ramo musical. Fez diferença nos festivais de música brasileira exibidos na década de sessenta e sagrou a canção “Domingo no Parque” (A semana passada/ No fim da semana/ João resolveu não

brigar/ No domingo de tarde sauí apressado e não foi pra Ribeira jogar/ Capoeiraaa!), faz parte do gênero Soul Brasil. Prova disto é a canção “A Novidade”( Oh! Mundo tão desigual/Tudo é tão desigual/ Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!). Participou também do cenário político do país como Ministro da Cultura no mandato do presidente Lula. Alô, alô, aquele abraço pra quem curte o Gil! www.revistabalo.com.br || 7


Os cinco músicos mais criativos da MPB

2. CHICO BUARQUE Pouca criatividade de minha parte ou “o cara” se faz presente na parte dois também? Cantor, compositor, escritor, um dos maiores nomes da música brasileira e mais um pouco. Merece figurar novamente a lista dos músicos mais criativos porque, recentemente, lançou um novo álbum depois de cinco anos com a gravadora Biscoito Fino (2011), responsável pelos mais recentes discos da Música Popular

Brasileira. Um novo álbum sem estar alheio a modernidade. De início, o Cd esteve na pré-venda e quem o comprasse teria contato com o conteúdo exclusivo sobre Buarque. O material correspondia em vídeos sobre sua vida profissional e outros em que o fã poderia vê-lo cantando algumas das faixas novas ao vivo. Uma das belas faixas é “Se eu soubesse”. O novo trabalho não é nada diferente do que ele já fez: assemelha-se a poesias cantadas. Isso não chega a ser novidade. (Sim, eu rasgo seda!)

3. BEZERRA DA SILVA Nascido em Recife, sempre “sentiu” ter as notas musicais nas veias. Decidiu seguir os caminhos do pai e se alistou na Marinha mercante do Rio de Janeiro. Porém, Bezerra era arruaceiro e “bom-malandro”, como gostava de se intitular. Quando expulso da Marinha, viveu como pintor, mendigo e migrou para a música. O autor de “A Semente” (Quando alguém lhe perguntava 8 || www.revistabalo.com.br

que mato é esse que eu nunca vi? Ele só respondia não sei, não conheço, isso nasceu aí) e A Fumaça já Subiu pra Cuca ( Não é só pau e folha que solta fumaça/ Nariz de malandro não é chaminé/ Tem nego que dança até de careta / Porque fica marcando bobeira / Quando a malandragem é perfeita ela queima o bagulho e sacode poeira) ainda marca a música brasileira. Marcelo D2 recentemente gravou um álbum com canções do saudoso sambista.


Os cinco músicos mais criativos da MPB

4.

JOÃO NOGUEIRA Também carioca e representante do samba teve 18 álbuns registrados. Oposto de seu pai, João decidiu-se pela música e aos 17 anos, já era presidente de um bloco carnavalesco no bairro do Méier. Foi neste período que gravou composição de autoria própria “Espera, ô nega”. Foi perseguido pela ditadura militar aos fazer a música “das duzentas pra lá”, que averiguava a ampliação do Brasil para 200 milhas de mar territorial.Fez parte da Ala de Compositores da Portela, sua escola de samba do coração. No

Rio de Janeiro, fundou o Clube do Samba cujo reúne até hoje sambistas do Brasil para fazer “batucada”. Porém o espelho de quebrou em 5 de junho de 2000. O músico foi vítima de enfarte aos 59 anos quando organizava um espetáculo numa casa noturna em São Paulo. O filho de João, Diogo Nogueira, na época com 19 anos e sempre amante do samba é atualmente cantor e compositor do mesmo gênero. Atualmente é vencedor do Grammy Latino, na categoria Melhor Disco de Samba com o álbum Sou Eu/Ao Vivo.

5. JORGE BEN Carioca de Madureira partiu para a música depois de não se dar tão bem quanto gostaria no futebol (integrou o time infanto-juvenil do Flamengo). Porém, a música falou mais alto e sempre esteve presente na sua vida. Começou tocando pandeiro no Carnaval e pouco depois, no coral da Igreja. Ao ganhar o primeiro violão, iniciou seus contatos e tocava bossa nova e rock nos bares da cidade. O sucesso decolou com a

música “Mais que Nada”. Pura sorte? Com certeza mais talento que sorte. A música soou num bar carioca e, na plateia, estava um executivo da Phillips (gravadora). Na carreira, Jorge tornouse um cara híbrido marcando presença em vários estilos. Um deles é o Sambalaço, atualmente chamado de Samba Rock. O estilo iniciou na década de 70 e na dança, este estilo mescla os passos de soltinho e samba de gafieira.

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O POP É

CLÁSSICO Por Geisyane Inácio

V

ocê lembra da música Flight of Bumblebee, de Nikolai Rimsky-Korsakov? O quêêêê? Nããããooooo?! CALMA, não precisa recorrer a nenhuma página de pesquisa pra saber qual é! Quem aprecia música clássica sabe que essa canção é conhecida por desafiar seus intérpretes por causa da sua velocidade. Pra refrescar um pouco a sua memória, ela foi muito utilizada em desenhos animados (quem não lembra da musiquinha de quando o Jerry fugia do Tom?). Muitas interpretações dessa canção podem ser encontradas em sites pela internet com os mais variados cantores ou violinistas e todos são um sucesso. Porém, em meio a tantos músicos maravilhosos, o topo da minha lista fica com o violinista David Garrett, conhecido atualmente pela sua mistura inusitada de Rock com música clássica e pela sua beleza e charme literalmente visíveis. A primeira vez que eu o assisti foi em 2010, na época tinha sido lançado no Brasil o 'Dvd: David Garrett: Rock Symphonies – Open Air Live', e provavelmente foi nessa época também, que ele passou a ser conhecido por aqui. No concerto lendário no Parque Wuhlheide em Berlim, David Garrett emitiu sem precedentes seu “endereço musical” individual para sua audiência multi-geracional.

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Clássicos de todas as épocas - da Idade do Barroco aos tempos modernos, de Bach a Nirvana – foram apresentados em uma linguagem sinfônica rearranjada. Mais uma vez a sua coragem de abraçar as coisas novas foi recompensada, tanto que em 2011 ele recebeu nada menos que dois prêmios ECHO por “Rock Symphonies”. O DVD “David Garrett: Rock Symphonies – Open Air Live” se destacou na categoria “Melhor Produção de DVD Nacional” e como “Melhor Artista” na categoria “Rock / Pop Nacional”. Filho de mãe americana e pai alemão, nascido com o nome de David Bongartz em 4 de Setembro de 1980,seu interesse pelo violino surgiu aos quatro anos de idade, quando seu pai resolveu presentear seu irmão com um instrumento. Mal sabia ele que esse instrumento lhe traria fama no futuro. Com a curiosidade, logo começou a aprender e, um ano depois, já participava de uma competição, ganhando o primeiro lugar. E aos sete anos, já se apresentava publicamente. Aos doze anos, Garrett começou a trabalhar com a violonista polaco-britânica Ida Haendel, viajando frequentemente a Londres e outras cidades européias para acompanhá-la. Aos treze, firmou seu primeiro contrato com a gravadora Grammophon Gesellschaft, com quem tem exclusividade. Foi nesse período, também, que mudou seu nome artístico e começou a usar o sobrenome da mãe, pois segundo o mercado musical, era mais fácil de pronunciar.

Em 1999, entrou para a Juilliard School, de Nova York (uma escola de música e artes cênicas, reconhecida como um dos mais conceituados conservatórios e escolas de dramaturgia do mundo), onde aprofundou seus conhecimentos do violino. Como não podia contar com o dinheiro de seus pais para ajudar no estudo com o violino, Garrett passou a trabalhar como modelo (o famoso 'bico'), para aumentar sua renda durante os estudos na Juilliard School. Alguns críticos de moda o descrevem como o David Beckham da cena clássica. (E a semelhança é grande, realmente!). Formou-se em 2004, para ganhar o mundo como um dos mais aclamados artistas. Garrett toca, alternativamente, um violino Stradivari de 1718 e um Giovanni Battista Guadagnini de 1772 ambos avaliados em milhões de dólares. Simpatia cativante, figurino rocker impecável (as meninas que o digam) e um talento incrível. Esse é o David Garret. Que navega do clássico ao pop, sempre com grande maestria. www.revistabalo.com.br || 11


HISTÓRIA QUE SÓ O TEATRO FAZ 12 || www.revistabalo.com.br


N

o primeiro dia do Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha fui a Itajaí com o intuito de não só assistir às peças, mas também conhecer um ponto de vista de quem já atuou no teatro catarinense entre as décadas de 50 e 60. Entrei em uma casa simples e lá foi possível ter contato com um pouquinho de quem já se realizou no teatro. Letaíde Espíndola Muller, itajaiense, 81 anos, contou-me da época em que deixou a família para seguir com o circo de Isolina de Almeida, o Circo Teatro Nhana. [Leia sobre a formação deste circo-teatro abaixo] D. Leta, como é conhecida nas ruas da cidade, encenou peças como “A Santa Pecadora”, “Coração Materno”, “A canção de Bernadete”, “E o mundo não me quis” e clássicos como “Romeu e Julieta” e “A Branca de Neve e os Sete Anões”. Ainda conta o enredo do espetáculo “O Direito de Nascer”, sua encenação preferida: “É a história de uma moça que não sabia que estava grávida e o bebê é renegado pelo pai. O avô também cria um ódio pela criança e a mãe é levada para o convento onde eu sou uma das freiras”, comenta. Outro personagens lembrados com carinho são José de Arimateia e Verônica em A Paixão de Cristo. Os dois personagens eram vividos simultaneamente e Letaíde, com graça, chamou atenção para as inúmeras trocas de roupa que fazia, muitas vezes em menos de cinco minutos. Conta ainda que as atuações eram dirigidas pelo que chamavam de Ponto. “O ponto era quem “soprava” as falas de quem estava no palco. A gente, às vezes, esquecia. Era muita apresentação”. Outro personagem que fez, desta fez fora do Circo Nhana, foi o de Papai Noel. Seu envolvimento com o teatro surgiu na época em que atendia em bilheterias e, na segunda passagem do Circo Teatro Nhana por Itajaí, foi convida a fazer parte da trupe. Não pensou duas vezes e pediu permissão aos pais para seguir com este circo-teatro bastante conhecido na época.

O grupo seguia em caminhões e passou por praticamente todas as cidades catarinenses e várias cidades brasileiras nas quais ficavam, em média, três meses. Uma surpresa, porém, foi a enchente da cidade de São Mateus do Sul, no Paraná, onde os atores tiveram que se vacinar contra a Tifo no antebraço. Em São Mateus, os artistas se fixaram mais tempo que o convencional: cinco meses. Com relação ao público do teatro da época, Letaíde declara que o circo ficava sempre lotado por onde passavam: “Era tanta gente que alguns ficavam até de fora”. D. Leta ainda confessa que hoje em dia não vai tanto ao teatro e sente falta de assistir às peças encenadas em sua época. “Hoje as pessoas querem ver novelas e não vão mais ao teatro”, afirma. Além de trabalhar como atriz, Letaíde já foi costureira e há dois anos largou a profissão de pintora. Mas, engana-se quem pensa que ela pintava singelos quadros. Sim, ela percorreu o litoral catarinense pintando casas de parentes, amigos e conhecidos! Ainda diz que só não pinta mais por aí porque a sobrinha Elisa não deixa, com receio de que sofra algum acidente. É importante perceber que a época em o Circo Teatro Nhana difundia a quinta arte pelo Brasil, o país passava por um momento conturbado chamado ditadura militar, período marcado pela constante busca de um teatro voltado às classes populares e que provia críticas ao regime vigente até então. Assim como o Circo Teatro Nhana, o Brasil ainda teve muitos outros como o Teatro de Arena, o Circo Teatro Alegria dos Pobres e o Teatro Forja. Palmas eternas a estas e outra trupes que foram indispensáveis para, de acordo com Augusto Boal, transformar o teatro em uma arma, em uma arma eficiente, de forma com que a arte do representar fosse libertadora e proporcionasse crítica social, sem fazer com que as classes dominantes apropriem-se não apenas do teatro, mas da arte e da reflexão como um todo. www.revistabalo.com.br || 13


“O POVO CATARINENSE GOSTA DE TEATRO”

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estival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau (FITUB), Festival Nacional de Teatro Infantil (FENATIB). Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha (Itajaí), Festival de Teatro de Chapecó, Festival Internacional de Teatro de Animação (FITA – Floripa), Festival Isnard de Azevedo (Floripa Teatro), Festival de Esquetes de Timbó, Festival Escolar de Teatro de Gaspar, Festival de Teatro de Joaçaba (FESTEJO)... São apenas alguns exemplos que confirmam a afirmativa de Dona Letaíde. Sim, o povo catarinense gosta – e muito! – de teatro. A história de Blumenau inclusive está fortemente ligada ao teatro. A sobrinha neta de Dr. Blumenau, Edith Gaertner, era atriz e sempre frente de seu tempo. Descobriu sua verdadeira vocação em viagem de estudos na Argentina na qual conheceu a atriz italiana Eleonora Duse. Berlim foi a cidade escolhida para Edith desenvolver a arte dramática. Alemanha e Berlim, assim como Blumenau, foram a tríade dos locais pelos quais Gaertner passou

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o maior tempo de sua vida. O primeiro teatro da cidade foi fundado em 1860, e, com o auxílio de Rose Gaertner funcionou durante muito tempo na Rua das Palmeiras. Na época, muitos consideravam loucura construir um teatro próprio para Blumenau. Mas acontece que, após a criação deste, a vida social e pública do blumenauense foi tomando outro sentido. As peças exibidas no teatro repercutiam na comunidade consideravelmente. Por falar em história, não dá para esquecer de Carlos Jardim que, na década de 70, trabalhou para sensibilizar Blumenau para o teatro. Ele, assim como Edith Gaertner, dá nome a um auditório da cidade. Em todo caso, faz parte da história do teatro blumenauense a crítica amarga do historiador José Ferreira da Silva no livro História de Blumenau “(...) Hoje, quando a arte teatral, no município, não provoca qualquer interesse, repercussão e estímulo, fica-se, realmente, admirado do entusiasmo reinante nos tempos da Colônia”.


O TEATRO NHANA

D. Isolina de Almeida, proprietária do Circo Teatro Nhana

Tudo começou na década de 30 com uma dupla de irmãos fascinados por representar que “mambeavam” pelos estados do Paraná e São Paulo. Eram eles José Epaminondas de Almeida (Nho Bastião) e Isolina de Almeida (Nhana). Mais tarde, os irmãos decidiram fazer andanças diferentes. Nho Bastião criou o Circo Teatro do Oriente e Isolina apropriou-se do Circo Teatro Nhana com o esposo Benedito Alves, mais conhecido como Tareco. Tareco era palhaço e trabalhava com a comicidade das cenas, quase um narrador, que “entrava” no meio de qualquer história a fim de promover uma “quebra” de cenas dramáticas. Os espetáculos do Circo Teatro Nhana eram apresentados nos picadeiros circenses. O Teatro Nhana deu frutos há outras trupes com artistas de sucesso como o Teatro Bebé que atua no Rio Grande do Sul.

Fachada do Circo Teatro Nhana

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Palhaço Tareco

Tareco “entrava” no meio de qualquer história a fim de promover uma “quebra” de cenas dramáticas.

Caminhões que levavam a trupe pelas terras brasileiras

A Equipe Balô busca registros sobre a passagem do Circo Teatro Nhana e outros circos teatros pelo Vale do Itajaí para desenvolver futuras pesquisas. Quem possuir algum registro e desejar contribuir com informações a respeito, favor entrar em contato através do e-mail comunicacao@revistabalo.com.br ou pelo telefone (47) 9952-3389.

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A arte do encontro Por Afonso Nilson

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ui ao Festival Nacional de Teatro Infantil de Blumenau no último final de semana. Não tenho filhos, sobrinhos, não fui levar nenhuma criança. Fui ao teatro porque gosto, porque para mim a proximidade com o ator e o público, o tipo de obra de arte imprevisível e envolvente que é o teatro, infantil ou não, supera qualquer programação de cinema de qualquer shopping, a única opção de lazer e cultura na cidade além do festival naquele final de semana. Inclusive, se tivesse filhos, preferiria mil vezes a educação estética que o teatro proporciona a síndrome do consumo exacerbado que os shoppings exercem, mas isso é outra história. No festival pude conferir o espetáculo Cantos de Encontro, da Cia Os Buriti, de Brasília. O grupo usa a música de modo muito eficiente para envolver o público em um enredo que fala primordialmente sobre o estar junto, sobre compartilhar momentos e saberes, sobre como as histórias fazem parte não apenas da identidade de cada

Afonso Nilson é ator e reside na Ilha da Magia

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indivíduo, mas também de como reconhecemos os nossos pares por histórias comuns e aproximamos os outros ao tornar comuns nossos relatos. Como não poderia deixar de ser, em um espetáculo que usa a música como uma de suas ferramentas principais, além de contar histórias, dançar e interagir com o público, todo elenco toca pelo menos um instrumento. As histórias não possuem uma unidade temática, são esparsas como se escolhidas de acordo com o gosto particular de cada um dos atores. O conceito circular de interação com o público, que se reúne em arena, propicia que cada espectador possa ter uma visão diferente do espetáculo de acordo com o local em que esteja, já que há cenas exclusivas para determinados setores da plateia. Essa concepção de estrutura, que privilegia a apreensão de cada espectador a partir de uma interação quase exclusiva, remete o público a uma realidade bastante evidente: a de que cada um tem uma visão singular do mundo. Essa consciência apresentada ao público metaforicamente através do formato 18 || www.revistabalo.com.br


com que o espetáculo se realiza, destaca de modo muito inteligente, especialmente para as crianças, o fato de que por mais que estejamos todos juntos, a visão de mundo (do espetáculo) é diferente para cada pessoa. É essa convivência a partir da tolerância recíproca às visões dos outros, um dos fundamentos de qualquer sociedade. A doçura com que o espetáculo trata os temas que aborda, o contato bastante íntimo com o imaginário infantil, a adequação de elementos de cena, figurino e atuação ao conceito da encenação dão unidade e força a montagem do grupo Os Buriti. Um ótimo espetáculo que, infelizmente os pais que levaram suas crianças ao shopping e deixaram vagos lugares no teatro, não puderam propiciar aos seus filhos. Um espetáculo que comprova a importância do Festival de Teatro Infantil de Blumenau para região e que se torna mais uma história que nos aproxima de um contexto em que talvez a arte e o afeto possam, de algum modo, exercer um influência mais duradoura do que o acesso irrestrito de informação inútil a que as crianças estão expostas continuamente. www.revistabalo.com.br || 19


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Tempo de contar,

tempo de escutar

Por Felicia Fleck Contar histórias é partilhar afetos, encontrando nos olhos de quem ouve a centelha de vida e emoção que se precisa para seguir contando. É sair do tempo cronológico, cotidiano e adentrar no tempo do “era uma vez”, onde tudo se faz possível pelo imaginar e que faz com que “as horas passem voando, assim como pirilampos1”. É partilhar um gosto, uma lembrança, uma escolha. Poder contar o que vivemos, o que ouvimos falar, o que criamos, o que lemos e até mesmo a combinação de tudo isso. O importante é a simplicidade e a naturalidade com que se narra, a palavra professada com verdade e a clareza da intenção do que se diz. Contar histórias é reativar as imagens deste e de outros tempos, a partir da modulação da voz, da precisão do gesto, do despertar dos sentimentos e do elo que se constrói com quem ouve a partir do olhar. O contador se faz ao contar. É contando que se aprende a contar melhor. A relação com quem ouve e a percepção do que acontece nesse momento único e efêmero, é que fornece as pistas para o aprimoramento da experiência de narrar. É aí que o contador pode “medir” se a história desperta ou não o interesse do público, se os recursos utilizados estão adequados, se há a necessidade de pausas e de mudança do ritmo da narração entre outros cuidados. A seleção das histórias pode revelar um pouco sobre quem conta. Ao escolher contar uma história em vez de outra, o contador traz a tona suas crenças, percepções, sonhos e esperanças. E é essa a riqueza imaterial do contar histórias: cada qual conta a sua maneira, empresta um pouco de si e partilha um pouco do que é. Como diz a poetisa Glória Kirinus: Te conto que me contaram Que se este conto te agrada Que o contes bem contado Ao contador do teu lado.

O convite está feito!

Felícia Fleck é contadora de histórias e brinquedista; bibliotecária e mestre em Ciência da Informação pela UFSC. Saiba mais em: www.feliciafleck.com www.revistabalo.com.br || 21


Qual o sentido?

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Res(pirar)

Tinta, cipó, palha Pano, pedaços... Tropeços E vou criar uma linda tela Compor alguns minutos e trançar em minha memória Preciso de tão pouco O espelho mostra o lado avesso E a alma pede um pouco de ar... Preciso de calma, de poucos Os passos, os preços, os dias Os móveis, a face, a roupa Destroem o ser Destroem pelo ter. Preciso de um velcro, de um vidro De um espaço, de uma linha, de um céu. Arame, barbante, amigos Restos do cansaço que já não quero mais. Transformar tudo em algo Algo que possa tocar Meu coração dividido em anexos Formatado e ferido. O ar perpassa as tintas e teias, os incertos. Papeis e pratos, pequenos movimentos Retidos em menos Menos perigos, mais descompassos. O tempo em tiras de seda Se entrelaçam no meu cérebro/vida. Isopor, plástico, cadeiras Quero ar. Pra res[pirar]...

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COMO CUIDAR E RESPEITAR

ALGO QUE

NÃO SE CONHECE?

E

Por Tatiane Jeruza Odorizzi

m busca dessa aproximação do conhecimento e valorização da arte catarinense, iniciei o projeto Ciclo de Palestras voltado ao público escolar. Após muita pesquisa e reflexão acerca do artista Pita Camargo e suas obras, elaborei um material teórico que pudesse sensibilizar os estudantes a perceberem a arte em seu entorno. Foi surpresa, para os alunos, perceberem que já viram obras do artista em vários pontos da cidade de Blumenau e Balneário Camboriu. A arte aproxima as pessoas e amplia o olhar cotidiano. O artista Pita Camargo tem um trabalho visceral, como ele mesmo define, parte de suas emoções é trabalhar a pedra, transformando-a seu bel prazer. A profundidade das linhas que se apresentam nas esculturas foram percebidas nos olhares atentos dos alunos, traçando suas relações, compondo novas formas e interpretando as imagens de acordo com suas vivências. A ação ocorreu no auditório Edith Gaertner da Fundação Cultural de Blumenau, com a participação de 23 alunos do 6º ano da EEB Pedro II, com a orientação da

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professora Karin. A participação dos estudantes foi efetiva, identificaram os conceitos trabalhados, neste caso o bidimensional e o tridimensional, além da definição do que é o termo figurativo e o abstrato nas obras do escultor. Um momento interessante foi durante a leitura de imagem, onde os estudantes puderam estar frente a frente com as obras de Pita Camargo. Surgiu a seguinte questão: - Mas é a obra dele mesmo? * Pude perceber a emoção dos estudantes ao estarem tão próximos da obra de arte e afirmo que esse momento foi um dos mais marcantes. Houve a explicação acerca do cuidado ao manusear as obras: com luvas para não danificar o papel, já que as obras mostradas foram realizadas nesse suporte. Ainda no exercício de leitura de imagem, dois alunos interpretaram a mesma e, com a expressão corporal demonstraram a cena produzida na litogravura do artista. Este projeto tem como objetivo levar até os estudantes o conhecimento dos artistas que fazem parte da arte catarinense, contribuindo para uma valorização e apreciação das obras e ainda da trajetória do artista. Além de possibilitar o encontro de vários olhares atentos e, quem sabe, descobrir artistas em potencial. Pois a arte, sob a devida reflexão, amplia o olhar e mostra outras maneiras de ler o mundo, a começar pelo local onde o indivíduo mora.

Caso queira participar do projeto Ciclo de Palestras, deve entrar em contato com a arte-educadora Tatiane através do e-mail arteeducadora@fcblu.com.br ou através do telefone (47) 3381-7515 das 13:30h às 19:30h.


Sem título Escultura em mármore 142cm x 72cm x 30cm

Sem título Escultura em mármore 118cm x 112cm x 65 cm

Sem título Escultura em mármore 142cm x 72cm x 30cm

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BOATUS DUMA BEATA A miserável alegria do soldado Se termina na primeira morte Se é sua, se é do outro O que determina é um estágio de sorte. Viúvos nem sempre choram Abatidos dão passos leves Combatidos em olor de flores Amar sem fim é uma ponta de febre. Porque é mais estranho o calor Que permitir uma frase de amor a um estranho Ousar se devorar pela viuvez de um tempo... Como é estranho o frio que faz "Tão só por amor" se vai... Vem-se, afinal, as palavras são dúbias E a paixão de amar não discerne tão fácil a temperaturas. Órfãos do holocausto dos sentimentos profundos Apodam-se a si mesmos na aurora de um dia triste Apodrecem suas raízes dos vários mundos Podam suas folhas brancas e esperam que nasça, ao menos um chiste: Que bom que esperam É melhor que nada esperar A esperança é a última que morre Resta um suspiro, põem-se a falar O peixe morre pela boca Teria esperança ele de ao predador, burlar? Que bom que esperam É melhor que nada esperar A esperança é a última que morre E por isto voltam a falar Mais vale um pássaro na mão do que dois voando E matam a liberdade de contemplar. Que bom que esperam É melhor que nada esperar! 26 || www.revistabalo.com.br


Atenção: alguém riu deste gracejo? Assim, mais vale o desespero - se ele faz gracejar Porque a graça de um dia pode grassar Grassar, grassar e grassar... Até que se percam nas cócegas da magia O encontro sem espera à espera de um encontro. Sem bilhetes, Velório sem trompetes, E o barulho que o silêncio cria Depois da morte de todos os dias. O epicentro do coração de quem ama Pode ser uma cisma, O epicentro do coração de quem espera, Pode ser sismal, Quem logra a fortuna de amar e esperar E se arroja, intrépido em todo amor de carnaval E se veste, desnudo em toda esperança vital Possui a força destemida, A natureza das coisas, A cultura natural, Que mescla o epicentro aos pólos O coração aos outros órgãos A veia é um cereal! O ser é belo é sensorial! E sente o sangue tão matinal Tão vermelho, tão quente O próprio sol E o próprio sal que regula a pressão Outono, inverno, primavera e todos verão Que seu sol brilha tanto, Que sua lua alumbra qualquer pranto E transforma lágrimas em crisântemo. Quem quebra paga e fica com os pedaços E já não deve, Não teme, E de grão em grão, a galinha enche o papo E faz de sua vida uma grande ciscada Uma aventura movediça nos grãos desta praia A grande história A grande obra A mais elegante sinfonia A mais autêntica poesia!

Texto: Beli Lessa (Uruguay, 2012) Foto: Ana Acácia (Bolívia, 2013) www.revistabalo.com.br || 27


Revista Balô - 5ª Edição  

Revista de divulgação artistica-cultural do Vale do Itajaí/SC

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