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ATHEOS

ENTREVISTA Falamos com Josテゥ Roberto Torero

SOCIEDADE Porque todos procuram um Deus?

OPINIテグ O que os religiosos pensam dos ateus?

MIDIA O ateismo em pauta


editorial

Entendendo o mundo dos ateus

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esde o início da convergência do homem no meio onde vive, houve o questionamento sobre tudo que o cerca. Ir além do senso comum e buscar respostas sem se prender a uma entidade divina fazem parte do pensamento ateísta.Os ateus negam a existência de Deus. Caracterizado pela ausência de fé, o ateísmo é espontâneo, pois, o homem, com sede de conhecimento, contesta a existência de Deus, assim como contesta as religiões. Também rejeita o criacionismo e seu princípio de que a natureza e os seres humanos são perfeitos a partir da criação de Deus, insistindo na exclusão do sobrenatural. Ateus não são pessoas indecisas quanto a qualquer crença religiosa, eles simplesmente não as possuem. Mas são freqüentes os discursos de religiosos em que são considerados como ateus todos aqueles que não partilhem as mesmas crenças religiosas. O termo “ateu” é formado pelo prefixo grego “a”, significando “ausência” e o radical “teu”, derivado do grego theós, significando “Deus”. O significado literal do termo é “sem Deus”, daí o nome da revista. O Brasil é um país religiosamente diverso, com a tendência de mobilidade entre as religiões. A população brasileira é majoritariamente cristã, mas houve uma redução no número de católicos nos últimos 30 anos, o que coincidiu com o aumento da porcentagem de brasileiros que se declaram ateus, que subiu de 5% em 2003 para 6 % em 2009. Segundo pesquisas, em países da Europa e da Ásia o número de ateus só aumenta. Nos Estados Unidos, o ateísmo dobrou em um período de 18 anos, o que representa cerca de 1,5% da população. Trata-se de um grande avanço levando-se em conta a forte tradição religiosa dos norte-americanos. Em nossa sociedade, que ainda engatinha na questão do respeito entre as diferenças, o ateu sofre discriminação, já encarada por homossexuais e outras minorias, por causa da falta de conhecimento da população. De uma forma leve, a revista Atheós pretende desvendar os mitos que cercam o tema e mostrar a verdadeira cara dos ateus, incluindo o estudo de pensadores que os inspiram e a visão de mundo deles. O intuito desta publicação é fazer uma análise do indivíduo ateu e aprofundar a reflexão sobre um assunto tão complexo e intrincado que atravessa gerações de pesquisas e perguntas de todas as civilizações que já passaram pelo nosso planeta. Boa leitura!


INDICE

EXPEDIENTE História

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Entrevista Perfil

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Preconceito Neo-ateísmo

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E se.. Sociedade

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Filosofia Evolução

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Revista ATHEOS Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo Universidade Santa Cecília - FaAC Orientação: Prof. Robson Bastos Edição Gráfica: Fernanda Barreto Diagramação: Fernanda Barreto Reportagens: Julia Magalhães, Fernanda Barreto e Maurílio Carvalho Textos: Julia Magalhães, Fernanda Barreto e Maurílio Carvalho

Ao orientador, professor e coordenador do curso de Jornalismo, Robson Bastos, pela atenção e dedicação prestada nas diversas fases do trabalho. Ao professor Márcio Calafiori do curso de Jornalismo que transmitiu seu conhecimento valioso, que nos presenteou com um livro e com diversas informações sobre o tema. Às nossas famílias, por estarem ao nosso lado sempre que precisamos e por terem paciência conosco durante a feitura deste trabalho.

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Opinião Mídia

Agradecimentos

Aos profissionais entrevistados, pela concessão de informações fundamentais e valiosas para a realização do trabalho. A todos que diretamente ou indiretamente ajudaram na realização e conclusão deste estudo.

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HISToria

Como se definem os ateus Por Julia MagalhAes

”O primeiro pecado da humanidade foi a fé; a primeira virtude foi a dúvida” Carl Sagan

A expansão do cristianismo e do islamismo no último milênio fez com que o Deus de Abraão vencesse a batalha com os outros deuses, mas ganhou um poderoso inimigo: o mundo científico contemporâneo. Afinal, o que é o ateísmo?

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tualmente, a narrativa da criação está mais para a explosão do Big Bang do que para o relato do Gênesis e, ser ateu continua tão impopular que, como diz o cientista e biólogo britânico Richard Dawkins, autor do livro “Deus, um delírio”, os homossexuais parecem ter bem mais facilidade para “sair do armário” do que os ateus. O fato de os ateus discordarem das idéias de pessoas religiosas não significa que defendam a perseguição a elas. Em discursos contra o ateísmo são freqüentes algumas acusações infundadas e que entrariam em contradição com a própria definição do termo. Por exemplo, os ateus não defendem a adoração de Satã, já que a crença em forças demoníacas só faz sentido aceitando-se a existência de deuses.

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Para um ateu, portanto, não há prejuízo algum em ignorar a existência dos deuses nos fatos históricos. A afirmação de que crer em deuses é a condição natural do ser humano cai por terra à luz de uma mínima análise do milenar pensamento indiano. O indivíduo cresce acreditando em doutrinas e crenças absorvidas da família e do meio social em que vive e não tem a oportunidade de escolher ou recusar a religião em que foi criado. Assim, dificilmente essa pessoa terá uma base de análise e argumentação que lhe permita discutir livre e conscientemente sobre um assunto que conteste a religião dele. É comum até mesmo os políticos usarem o nome de Deus em seus discursos. Segundo a Constituição Federal brasileira, “o Estado é democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desen-

volvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, o que quer dizer que nosso país é laico. Ser ateu é parte de um processo de ceticismo, de rejeição de valores provenientes das religiões, particularmente das religiões monoteístas. Entre esses valores rejeitados estão: a homofobia, o anti-semitismo, a aversão ao sexo e a misoginia (ódio ao feminino). O ateísmo acabaria se surgisse uma prova irrefutável da existência de entidades divinas. A descrença dos ateus não é equivalente a uma crença, uma vez que o ateísmo só existe como conseqüência da falta de provas e indícios favoráveis à existência de deuses. A lógica é usada tanto para tentar negar, quanto para tentar provar


Para ler “Deus, um delírio” de Richard Dawkins O biólogo Richard Dawkins usa seu conceito de memes (idéias que agem como os genes) e o darwinismo para propor explicações à tendência da humanidade de acreditar num ser superior. E desmonta um a um, com base na teoria das probabilidades, os argumentos que defendem a existência de Deus (ou Alá, ou qualquer tipo de ente sobrenatural), dedicando especial atenção ao design inteligente, tentativa criacionista de harmonizar ciência e religião. No livro, o autor mostra como a religião alimenta a guerra, fomenta o fanatismo e doutrina as crianças.

“O mundo assombrado pelos demônios” de Carl Sagan Professor de astronomia e ciências espaciais na Cornell University e autor de dezenas de livros e artigos, o norteamericano Carl Sagan dedicou a vida ao desenvolvimento e divulgação da ciência, recebendo diversos prêmios e medalhas por essa contribuição. Preocupado com o vírus do analfabetismo científico, que faz com que hoje muitos acreditem em explicações místicas e ficções, Sagan reafirma o poder positivo e benéfico da ciência e da tecnologia, revidando com informações surpreendentes, transmitidas de forma clara e irreverente.

a existência de um criador.

Para assistir Documentário “Escravos da superstição” em 5 partes, de Richard Dawkins - legendado:

O neo-ateísmo, ou novo ateísmo, é uma corrente ateísta e cética, que tem em Dawkins seu principal divulgador. Os neo-ateus se diferenciam dos ateus por serem mais radicalmente anti-religiosos e acreditam em um mundo melhor sem crenças.

http://www.youtube.com/watch?v=X0mk5Q0fxmk http://www.youtube.com/watch?v=4OW_ NWzYjKY&feature=fvwrel

Em termos gerais, o ateu é visto como alguém que aspira à objetividade e que recusa qualquer dogma religioso e recusam-se a acreditar em algo por meio da fé. Alguns dos que poderiam ser chamados de ateus não se identificam com o termo, preferindo ser chamados de agnósticos, ou seja, não afirmam e nem negam a existência de qualquer entidade divina, de modo que não orientam a sua vida ou suas escolhas com base no pressuposto na existência de potências sobrenaturais. Esse tema envolve muitas discussões, como a própria definição de termos como fé e crença. O ateísmo tem raízes fundas na história do pensamento, desde o materialismo e o existencialismo.

http://www.youtube.com/watch?v=z29qmgs8q4I&featur e=related http://www.youtube.com/watch?v=a58tBTc0XzM&featu re=related http://www.youtube.com/watch?v=mg5ElEVNQc&feature=related

Entrevista de Richard Dawkins ao canal CNN – legendada:

http://www.youtube.com/watch?v=vsWTqvWdu7s

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entrevista

Eu sou ateu! POR Fernanda Barreto entrevistas por Julia Magalhaes e Maurilio Carvalho

Duas facetas diferentes, mas com uma coisa em comum: o constante exercício do ateísmo, e de como vivem suas vidas sem crer em Deus. A Bíblia diz que “se eu sou cristão e prego o bem, logo se você não é cristão, então deve pregar o mal, pois Jesus disse: ‘Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha’” (Mateus 12:30). Mas estes escritores retratados nesta entrevista, mostram que são pessoas comuns, que não espalham o mal e que não acreditam em Deus por pura e livre opção. O escrevente Fernando Thomazi, de 35 anos, trabalha no Tribunal de Justiça de São Paulo da sua cidade, Serra Negra. Mas além disso, o rapaz escreveu o livro “Deus, Uma Piada ou O Evangelho Segundo Fernando”, um livro que satiriza alguns versos da Bíblia Sagrada e explica as suas passagens do ponto de vista dos ateus. Para tomar essa decisão de se tornar ateu, Thomazi demorou muitos anos. Antes mesmo de se tornar ateu, ele fazia parte das Testemunhas de Jeová dos 10 aos 15 anos. “Tive estudo bíblico domiciliar, participava dos cultos três vezes por semana, fiz sete discursos de 5 minutos na Escola Teocrática, fazia a pregação de casa em casa, mas nunca me batizei. Foi lá que tomei o gosto pela leitura, especialmente da Bíblia”, relembrou. Porém, algumas coisas que envolviam a religiosidade o incomodavam profundamente. Ele chegou a questionar sua existência pela primeira vez aos oito anos, quando estava no sítio de seu avô: “Fui ao bar comprar cigarros para meu tio, mas errei o caminho. Acabei me perdendo no meio do mato chegando numa clareira. Havia um pequeno córrego e um pequeno barracão de madeira do outro lado da cerca. De volta à clareira eu resolvi rezar para Deus me ajudar a sair dali. Encarei esta uma ótima oportunidade de perceber o quanto Deus se importava comigo. Então, eu andava um pouco para fora da clareira e, como estranhava ao caminho, voltava ao mesmo lugar, mantendo a clareira como ponto de referência. Fiz isso várias vezes, comecei a chorar e, de repente, passei a ter uma sensação nova. Eu

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senti pela primeira vez a “indiferença de Deus””. Outro episódio que o fez refletir sobre a suposta inexistência de um ser superior foi perto de sua antiga residência, que ficava perto da rodovia, quando tinha 11 anos. Havia um acostamento de terra com uma poça d’água cheia de girinos, onde o sol estava secando o local e os pequenos girinos morriam com o sol. Mesmo com o esforço de Thomazi, retirando a água com um balde e levando os bichinhos no córrego perto de sua casa, pedindo à Deus que conseguisse salvar todos os filhotinhos, não conseguiu efetuar a tarefa com sucesso e viu os filhotinhos de sapo morrendo um a um na frente dele. Assim, ele questionou a existência divina: “Afinal, para que serve Deus deter tanto poder se Ele não usa esses superpoderes para aliviar a dor dos animais, humanos ou não. Se Ele realmente existe e se importa conosco e com os animais, então por que demonstra tanta indiferença em situações como essa?”.

para ver Filme “A vida de Brian”, 1979 Dirigido por Terry Jones. Com John Cleese.

O filme da série Monty Python mostra uma sátira sobre a visão de Hollywood em relação a todos os filmes relacionados a religião. Brian Cohen, um candidato a messias, se torna muito importante devido a uma série de situações absurdas e cômicas.


Fernando Thomazi também costuma direcionar suas críticas ao principal pilar de toda religião: A Fé. “Quando digo fé, não me refiro à fé ou esperança de recuperação de um doente desenganado pelos médicos, por exemplo. Refiro-me à fé, no sentido de crença sólida, sem duvidar, sem evidências, sem profunda reflexão e que evita o questionamento e a revisão dos conceitos”, explicou. Para Thomazi, dizer coisas do tipo “você deve fazer isso porque é isso que Deus quer que você faça”, ou “acredito porque está na Bíblia, ou no Alcorão”, ou “o homossexualismo é abominável aos olhos de Deus” são formas peri-

gosas de fé, que refletem, na verdade, a opinião do escritor bíblico e não a de Deus propriamente dito. “Mas o problema é que não temos controle sobre o que a pessoa irá acreditar pelo mecanismo da fé”, citou. Na visão de Richard Dawkins, considerado o “aiatolá” dos ateus, a fé, na definição que Thomazi expôs, é a pior coisa que a religião pode ensinar a uma pessoa, pois a simples idéia de acreditar sem duvidar, deveria, em sua opinião, causar repulsa: “A dúvida é um elemento essencial da vida e faz parte da atitude de qualquer cientista honesto. Dizer coisas do tipo “você deve fazer isso porque é isso que Deus quer que você faça”, ou “acredito porque está na Bíblia, ou no Alcorão”, ou “o homossexualismo é abominável aos olhos de Deus” são formas perigosas de fé, que refletem, na verdade, a opinião do escritor bíblico e não a de Deus propriamente dito”. Mas e se os ateus fossem maioria? Para Thomazi, o ateísmo sozinho não significa nada. Nas palavras do ateu Sam Harris, corroboradas pelas do ateu brasileiro André Díspore Cancian, dono do site ateus.net, ateísmo não é uma religião, não é uma filosofia, nem mesmo uma visão do mundo. Apenas é tão somente uma mera opinião sobre um determinado assunto, qual seja, a suposta existência de Deus ou deuses, opinião esta justificada pela ausência de evidências. ”O ateísmo não nos diz nada a respeito de ética, moral ou de comportamento. A rigor o termo ateísmo nem deveria existir. Mas, de um modo geral, eu defendo a idéia de que tomar decisões racionais em detrimento das fundamentadas na fé, é uma atitude muito mais segura, e isto os ateus, a meu ver, baseado no que tenho observado, têm feito razoavelmente bem”, disse.

percebo pessoas, internautas em sua maioria, que acham que sou um fanático que prega o ateísmo com uma fé cega comparada a de fundamentalistas”, comentou. Porém, Thomazi critica a visão superficial que a maioria dos religiosos, que seguem alguma doutrina principalmente, tem sobre o ateísmo. “Eles possuem uma visão superficial do que seja o ateísmo, baseada em seus próprios conceitos, ou no que a Bíblia diz, ou no que o pastor falou”, criticou. E completa: “Alguns talvez achem que ser ateu é ser contra a moral, a ética ou contra os valores cristãos”. Thomazi comenta que, apesar de ser visto algumas vezes como um mau exemplo para as pessoas, ele respeita os que acreditam em Deus e no cristianismo. ”Eu acredito que seria hipocrisia e desonesto da minha parte ser batizado, ou comungar na igreja, e induzir as pessoas a achar que acredito no mesmo que elas. Mas, não me incomoda que elas façam isso. Desde que elas respeitem as pessoas que não querem fazer”, disse.

“Alguns talvez achem que ser ateu é ser contra a moral, a ética ou contra os valores cristãos”

Minimizar esse tipo de preconceito faz parte da militância ateísta. Thomazi completa: “Quando eu digo militância eu me refiro à atitude do ateu que se interessa em debater o assunto, fazer críticas construtivas à alguns aspectos da religião, mas sempre com ética, respeito, uma vez que tais atributos são grandes facilitadores na eficiência do debate”, finaliza.

Sobre Deus Uma Piada Para escrever “Deus Uma Piada Ou o Evangelho Segundo Fernando”, Thomazi se inspirou principalmente no site de humor “Jesus, Me Chicoteia”. “Eu foquei em histórias bíblicas que permitem a sátira e a reflexão humorística. Nem tudo o que está na Bíblia rende histórias engraçadas. Quis dar mais liberdade à elaboração das histórias adicionando elementos atuais à vontade”, comenta. Para ele, sua obra tem vários objetivos, além de entreter. “Quero fazer uma crítica positiva à religião, especialmente ao cristianismo, através do humor, mas com respeito e ética. Derrubar o paradigma de que não se deve criticar a religião, muito menos através do humor. Estimular o senso crítico no leitor, fazendo-o perceber algumas incoerências, principalmente morais e éticas”, relembra.

Fernando Thomazi

Deus, uma piada livro de Fernando Thomazi

Respeitando os cristãos O escrevente diz que não sofre preconceito do tipo que termina com relacionamentos ou amizades em geral. Ele até serve de inspiração para algumas pessoas: “Tem gente que adora minhas opiniões e atitudes, e que vêem em mim um exemplo para fazerem o mesmo. Raras vezes Revista ATHEOS

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Por exemplo, ele cita a história de Sodoma e Gomorra, contada na Bíblia. “Foi moralmente correto Deus ter queimado vivas todas as crianças em Sodoma e Gomorra para castigar os pais pecadores delas? Eu sei para você, assim como para mim, esse é um assunto óbvio”, se exaltou. Mas muitos não criticam esses eventos por serem fiéis à Bíblia, a Deus e aceitarem tudo que está escrito nela: “Quem defende esse Deus bíblico, mesmo nessa história de Sodoma e Gomorra, acredita pelo mecanismo da fé, que Deus foi justo e perfeito, embora sua justiça seja tamanha que nosso cérebro não consiga entender!” Entre os jornalistas ateus, um dos mais conhecidos é multifacetado José Roberto Torero, de 48 anos. Nascido em Santos, trabalha atualmente no portal da internet Universo On-Line (UOL), com o Blog do Torero e o Blog do Lelê, além de ter textos publicados na revista Placar e no jornal Folha de S. Paulo. Além de ser cineasta, roteirista, escritor e blogueiro, o santista ainda tem tempo para se dedicar ao exercício do racionalismo ateu. Suas dúvidas sobre a existência de uma força maior regendo tudo começaram logo cedo, no início da adolescência. “Quando eu tinha 12 anos, meu avô morreu e comecei me questionar sobre algumas coisas. Percebi que uma metade do mundo acreditava em ressurreição e a outra em reencarnação. Vi que alguma delas estava errada ou as duas.” Quando fez 15 anos, Torero iniciou um maior aprofundamento de suas pesquisas e se tornou ateu convicto em seus vinte e dois anos. Ele diz que não há nenhuma vantagem em ser ateu, pois a busca pelo conhecimento trás uma única convicção: “Não é nada confortante ser ateu, pois tenho como o certo que a morte é o fim. Todos os dias nós morremos aos poucos.” Apesar de ateu, sua família respeitou sua decisão. Nem seu pai, que era um mineiro católico, nem a mãe, que é astróloga e acredita em muitas coisas, ficaram contra. Na verdade, nem deram muita importância: “Minha mãe já fez parte de várias religiões e o meu pai é católico. Minha casa sempre foi um lugar democrático, onde a fé e a ausência dela foram respeitadas“. Na rua, Torero nunca sofreu represálias pelo fato de ser um jornalista ateu e conhecido por muitas pessoas. No seu blog, já aconteceu uma ou outra vez. Ele comenta que houveram mais protestos quando ele fez um vídeo com Jesus e Maria Magdalena comentando seu livro “O Evangelho de Barrabás”. ”No UOL foram umas 25 mil visitas e uns 20 xingamentos feios”, disse. O jornalista comenta que os ateus sofrem muito preconceito ainda com a grande liberdade de expressão. “Somos menos aceitos do que gays”, lamenta. No seu meio de trabalho ele sempre trabalhou

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Trecho DO LIVRO “O evangelho de BarrabAs” A última ceia, página 187 ...Nos dias seguintes, do cantar do galo ao piar da coruja, todos prepararam roupas e objetos, e ensaiaram graciosos movimentos. Quando, por fim, o que tinham que preparar preparado estava, Barrabás reuniu seus homens e disse: “Façamos uma ceia” Sentaram no chão formando uma meia-lua e Barrabás ficou a o centro. Ele lhes serviu vinho em cubas de barro e distribuiu pães feitos com trigo de Hafaraim. Conversavam com alegria até que, de repente, Barrabás assumiu um ar grave: “Rogo que fecheis vossos olhos e escuteis as palavras da minha boca”. (...) Logo principiou-se uma grande folia, com todos jogando pães uns nos outros e abaixando-se para escapar dos pedaços que voavam. Depois apanharam também as cubas de vinho e (...) molharam-se com alegria. com ateus ou agnósticos. Mas ele se lamenta pelo fato de alguns leitores ficarem indignados. “Eles não entendem como eu posso ser boa pessoa e ser ateu ao mesmo tempo, como se a moralidade fosse algo intrinsecamente ligado à religião”, comentou. Ele acredita que a tendência daqui pra frente é a diminuição das religiões, se fixando em pequenos guetos, transformando os que nelas estão em verdadeiros fanáticos. Torero acredita que as pessoas acreditam muito em Deus pelo desejo das pessoas de quererem vencer a morte. “Vejo como algo cândido e não é muito bom termos muitas pessoas com esse pensamento”, disse. O santista ainda brinca com o fato da existência entre céu e inferno: “Se realmente existir céu e inferno eu queria ficar no purgatório. Só de pensar que as pessoas antes de Jesus não foram batizadas estão lá, ficaria feliz em encontrar com os pensadores gregos”.

tando mais de Barrabás, que, afinal de contas, foi o homem que venceu Jesus, que era mais amado que Jesus, por foi escolhido pelo povo de Jerusalém para ser salvo”. E quem poderia ser mais amado que um profeta? Um profeta ainda maior, com mais milagres! O livro conta a história de Barrabás, o profeta que viveu uma história paralela a de Jesus Cristo, mas acabou se livrando da cruz. Ele conta suas aventuras com seus onze amigos e Maria Magdalena, o grande amor de sua vida. Duas pessoas distintas, com rotinas distintas e uma mesma mentalidade: que seguir o ateísmo não significa que você não tenha moral nem integridade no meio de uma sociedade, muito pelo contrário: são pessoas que apenas não se fixam em seres superiores.

Para o jornalista, o mundo seria melhor se houvessem mais ateus: “Primeiramente porque não haveria mais guerras religiosas, e em segundo lugar porque procuraríamos respostas no conhecimento científico, e não em lendas”. A moral seria baseada nas relações humanas e não no medo do inferno, nos outros homens, não num Deus.

O Evangelho de Barrabás de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta

Sobre O Evangelho de Barrabás O autor tinha em mente a idéia de recontar a história de Jesus por meio de um personagem secundário: “Primeiro pensei em Judas, claro, depois fui para Maria Madalena, mas acabei gos-

na internet Torero

http://blogdotorero.blogosfera.uol.com.br/

Thomazi

http://fernandothomazi.blogspot.com http://www.youtube.com/fernandoerthomazi


perfil

o ateu vloger

D

aniel Fraga, analista de sistemas de São Paulo, é ateu e tem 35 anos e, há três, posta vídeos que fazem pensar em seu canal no Youtube. Os temas são variados: educação, política e sociedade, por exemplo. Todos eles levam à mesma idéia: a defesa do ateísmo. No total, o material enviado por Daniel já soma mais de três milhões de exibições. Com quase 14 mil inscritos, o canal dele causa polêmica e não pára de angariar admiradores. Estes últimos não perdem quando o ateu disponibiliza um novo vídeo.

Athéos: Como se tornou ateu?

Athéos: Quais resultados já obteve através de

Daniel: Quando passei a frequentar o fórum de

seus vídeos?

Ciência do UOL (grupo de discussão) no anos 90

Daniel: Resultados? Algumas pessoas disseram que se tornaram ateus

Athéos: Como acha que as pessoas vêem a você e ao ateísmo?

Athéos: Sua família aceita seu ateísmo?

Daniel: A maioria discrimina, não aceita

Daniel: Sim

Athéos: Por que você resolveu gravar os vídeos

Athéos: O que mais te incomoda nas religiões?

que grava e postá-los na Internet?

Daniel: A lavagem cerebral. Usar de conceitos

Daniel: Gravo os vídeos para divulgar o que pen-

fictícios para manipular as pessoas. E quando en-

Daniel: Quanto a isso não há a menor possibili-

so. Mostrar a cara

volve dinheiro, pior ainda. Não passam de empre-

dade

sas disfarçadas, com a vantagem de não pagaAthéos: Que mensagem quer passar com seus

rem imposto

Athéos: E se você estiver errado?

Athéos: Você já sofreu alguma forma de discriminação?

vídeos? Daniel: Quero passar a mensagem de que a re-

Athéos: Quais são bons motivos para expandir o

Daniel: Sim, várias. Ouço xingamentos e frases

ligião não é necessária para ninguém. Pelo con-

ateísmo?

do tipo ‘a mão de Deus é pesada’, ‘no dia do

trário, só prejudica a razão

Daniel: Fazer com que as pessoas assumam suas

juízo final seus joelhos vão se dobrar’, e mais um

responsabilidades e não atribuam as conse-

monte de ‘blá, blá, blá’

Athéos: Que público deseja atingir? Como as

quências de seus atos a alguma divindade... Que

pessoas avaliam seus vídeos e suas declara-

passem a usar a razão

ções? Daniel: Desejo atingir a todos, mas principalmente

Athéos: Religião cria moralidade? Uma pessoa

os mais jovens... que são mais abertos ao ateísmo.

sem religião pode ser moralista?

Os ateus avaliam bem... alguns religiosos toleram,

Daniel: Claro que pode. Moral não depende

mas muitos não aceitam ainda

de religião. É arrogância pensar que a moral é

Confira o canal de Daniel Fraga no Youtube http://www.youtube.com/user/DanielFragaBR

Acompanhe as novidades no blog dele http://politicanoticias.blogspot.com/

monopólio da religião Revista ATHEOS

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filosofia

A historia passada a limpo

Texto por Julia Magalhaes

Ao redor de uma fogueira, milhares de anos atrás, no tempo livre que separava o fim das tarefas do dia da hora de dormir, os homens primitivos começaram a contar histórias. Com elas, tentavam encontrar respostas para o que não conseguiam compreender. Quem comandava os raios e as tempestades? O que acontece depois que morremos? Como tudo isso que nos rodeia apareceu? Por que estou aqui?

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euses e heróis convivem a humanidade desde sempre. E histórias maravilhosas passaram de geração para geração, dando explicações para fenômenos físicos. A origem da existência é uma das questões que movem a humanidade. Se há algo inevitável no pensamento humano, é a pura busca de respostas, e não uma convergência universal para o teísmo como resposta absoluta.

étnico na Terra que não associe a origem do mundo, dos seres humanos, das plantas, dos animais e dos acidentes geográficos a uma força superior, sobre-humana. O homem primitivo observava comportamentos e fenômenos naturais, então ele criou uma supra-realidade para explicar esses fenômenos, que vieram a ser os deuses. Na África, estatuetas de mulheres de físicos fartos simbolizavam a fertilidade em uma época em que a agricultura estava se desenvolvendo.

Apesar de ninguém saber ao certo o momento em que os homens passaram a cultuar deuses, a maioria dos arqueólogos e antropólogos concorda que esse é um traço comum de todas as civilizações. Não há nenhum grupo cultural ou

Na Grécia antiga, dezenas de deuses eram cultuados pelos cidadãos. Criados à imagem e semelhança humana, eles são seres superiores que ajudam os homens, lhe dão a luz do Sol, conhecimento e sabedoria. Mas também têm uma

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cólera divina. Imagens de dilúvios e inundações aparecem na história da África, do Oriente Médio, nas Américas, no sul e no leste da Ásia e da Europa. Punições aos seres humanos são freqüentes, e muitas delas projetam o fim dos tempos, das narrações astecas às indianas. Mas nenhudesses deuses, incluindo Zeus, era tão gigante, distante e sobrenatural como o Deus da Bíblia. Nessa mesma época, na Grécia, nasceu o ce-

Para saber mais Site da UNA

Site da UNA: http://unabrasil.org/


ticismo, corrente que nega a existência de uma certeza ou de uma verdade absoluta. A palavra grega sképtomai significa observar, investigar, por isso, os céticos recusam dogmas, aquilo que se acredita ser verdadeiro sem provas. As primeiras imagens de deuses esculpidas empedras há mais de 10 mil anos na Europa, no Oriente Médio e na Índia em nada se parecem com o velho barbudo e musculoso dos afrescos que Michelangelo pintou na Renascença. Yawé, ou Javé, é um Deus justiceiro, presente no Antigo Testamento, e é o mesmo Deus Eloim, que é o Deus de amor e bondade conhecido no Novo Testamento. A passagem do politeísmo para o monoteísmo foi uma evolução na transição das sociedades mais primitivas para outras mais avançadas. Há aproximadamente quatro mil anos, a idéia de um Deus único e poderoso mudou a história do mundo.

Durante essa fase, Javé parecia mais preocupado em ameaçar a raça humana para que ela não se desviasse de suas instruções. Talvez seja por isso que o pacto de Abraão precisou ser reforçado por outros patriarcas. Caso de Moisés, para quem Deus preferiu escrever diretamente seus mandamentos nas tábuas do profeta, não deixando dúvidas sobre suas intenções.

antiguidade, já dizia que o homem, a exemplo dos animais, busca afastar-se da dor e aproximarse do prazer. Outro exemplo foi o filósofo alemão Barão de Holbach, na modernidade. Segundo ele, somos parte da natureza e as nossas escolhas e desejos são tão determinadas por leis de causa e efeito como o movimento dos planetas.”, continua a historiadora Clotilde.

O Deus que aparecera para Abraão é comple-tamente diferente dos deuses gregos e romanos. Ele não compartilhava da condição humana e se colocava na posição onipotente de poder fazer qualquer exigência que quisesse.

Não existe data de nascimento do ateísmo prático. Atualmente, um dos principais difusores do ateísmo no Ocidente é Michel Onfray, filósofo francês e escritor do livro “Tratado de Ateologia”.

Qualquer uma mesmo. Mas, se no passado foi Deus que pediu a Abraão que sacrificasse seu filho, o cristianismo inverteu essa lógica: o próprio Javé teve o filho sacrificado como prova de amor.

Um Deus único

Seja humano, seja racional

Então, de onde surgiu a imagem de um único Deus como um homem solteiro, idoso e barbudo, e poderoso? Tudo começou no Antigo Testamento. Javé, o Deus bíblico criador do céu e da Terra, segundo Gênesis, continua reinando absoluto para mais de três bilhões de judeus, cristãos e muçulmanos, ainda que estes últimos o chamem de Alá. Por isso mesmo, quem lê o Antigo Testamento sabe que Javé não guarda semelhanças com o pai dócil ou amoroso que mais tarde o cristianismo iria propagar. O termo misoginia vem do fato de Javé ser uma figura masculina de um Deus tribal, sendo assim, elevado ao status de único Deus. Desse modo, deusas da fertilidade foram extintas e mulheres, consideradas espécie de segunda classe e fracas.

No século VI a.C., Pitágoras substituiu o Deus do vinho, Dionísio, pela ciência, que se torna responsável pelo processo de purificação e salvação dos homens. “Ao longo do tempo, ateu é aquele que não participa das crenças oficiais do seu tempo. Por exemplo, Sócrates, em Atenas, foi condenado de corromper a juventude com idéias ímpias porque se opunha a religiosidade da ética em nome de outra religiosidade que fazia da alma o seu fundamento e defendia a autonomia do ‘conhece-te a ti mesmo’”, diz Clotilde Paul, professora titular do Departamento de História da Universidade Católica de Santos.

Prova disso seriam as passagens da Bíblia como a que Javé manda pragas aos egípcios. Em outras, Javé se mostra até arrependido de sua criação, como quando ordenou a morte por afogamento de toda a humanidade por meio do dilúvio do qual só escapou a família de Noé e os animais que ele pôs em sua arca. Tudo isso antes ainda da aliança feita com Abraão, na qual ele deveria sacrificar seu próprio filho, Isaac, como prova de fé a Javé. Mas tudo não passara de um teste.

Segundo o presidente da União Nacional dos Ateus, a UNA (que conta com 5.260 membros atualmente), Marcelo Ronconi, “ateu não é aquele que garante que deus não existe... é aquele que acredita que Deus não existe”, diz. “Ateísmo é a atitude ou doutrina que nega a existência de Deus. Sob o ponto de vista filosófico, só pode ser difundido verbalmente, já que o conteúdo da idéia de ateísmo varia de acordo com a idéia de Deus e de seus modos de existência. Na história da filosofia, o ateísmo está ligado à concepção materialista da realidade. Um exemplo foi o filósofo grego Epicuro (341 a.C. – 323 a.C.) que, na

Segundo ele, o ateísmo aparece nas primeiras décadas do século XVII, com o texto “Testamento” do padre Jean Meslier (1664-1729), considerado um mártir da causa atéia. Segundo Onfray, a fé que tranqüiliza é mais utilizada em vez da razão, que preocupa. Ateísmo já foi um termo pejorativo, mas ganhou força a partir do século XVIII, no qual a existência de Deus é questionada.

A crise existencial Os gregos rejeitaram a religiosidade, não a essência de Deus. Para eles, a religião já funcionava como coerção social desde aquela época, e o logus (razão) organiza o cosmos (realidade). O livro “Tratado de Ateologia” já citava que a religião tornou-se a prática da alienação por excelência, pois supõe a separação do homem de si mesmo e a criação de um mundo imaginário no qual a verdade se encontra ficticiamente investida. A almejada liberdade é sinônima de existencialismo, e esse conceito vem desde o século IV e V, proposto por Santo Agostinho (354-430), que reconheceu a importância do conhecimento, mas que também entendia que a fé em Cristo vinha restaurar a condição decaída da razão humana. A partir do século XVIII e XIV, o filósofo e teólogo alemão, Kierkegaard (1813-1855), inspirado em Sócrates, criticava fortemente o que ele via como as formalidades vazias da Igreja da Dinamarca. As obras dele falam sobre como cada pessoa deve viver, dando ênfase à importância da escolha e do compromisso pessoal. “O homem é livre (ou quer ser livre), pois ele tem consciência de si

Leia ouvindo Judas- Lady Gaga

Highway to hell - AC/DC

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mesmo. Ele busca a compreensão de quem ele é e o que ele faz aqui”, completa, o professor de filosofia da Universidade Católica de Santos, Ricardo Galvanese. Segundo Galvanese, o existencialismo cristão é diferente do existencialismo ateu. “Os cristãos carregam o peso da resposta que eles dão a Deus, como dizia o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980). Já os ateus vivem o presente, pois, para eles, não há um após a morte. A existência traz responsabilidades e escolhas, ou seja, não podemos escolher não escolher. O existencialismo é a angústia da escolha. O que limita a ação do homem na sociedade é o que ele não pode mudar”. Para o pessimista Sartre, as circunstâncias e as escolhas limitam a liberdade dos indivíduos. Michel Onfray também escreveu que, para conjurar a morte, o homo sapiens a exclui, e que ter que morrer diz respeito apenas aos mortais, pois o crente, ingênuo e tolo, sabe que é imortal. “O ateísmo filosófico coloca a idéia de um criador para o universo como algo mítico. Sem Deus, não há bem e mal absolutos, não há certo e errado absolutos, tudo depende da imaginação e dos sentimentos humanos”, diz Ronconi. Os ateus costumam atribuir o conhecimento adquirido através de estudos da filosofia à sua escolha. Frases como “sou ateu graças a Nietzsche” são comuns de serem ouvidas.

Penso, logus existo Nem todo dogma é religioso. Dogma é algo inquestionável. O filósofo francês René Descartes (1596-1650) dizia que, duvidar de tudo é do ser humano. Onde há dúvida, há o que ser duvidado. Fé é diferente de dogma. A fé se expressa de muitas formas para quem busca entender o significado da vida. Por isso, existe o caos, que é a desconexão com o Criador. O ateu afirma que a realidade não tem sentido. O filósofo alemão Feuerbach (1804-1872) e o filósofo e revolucionário alemão, Karl Marx (1918-1883), também concordavam que a religião é a alienação da sociedade. “Essa alienação é uma transferência, onde o ser humano não se assume como próprio autor. Então, para os ateus, negar Deus é existir”, ressalta Galvenese. No século XVIII, a religião funciona como uma consciência para as pessoas. Surge, então, o Iluminismo, movimento que foi contra qualquer religião revelada e negou o deus cristão. “O Iluminismo é um modo anticlerical. Seus seguidores acreditavam no racionalismo, medido pelo progresso da humanidade. O Iluminismo foi preparado no século XVII pela filosofia racionalista de Descartes, na qual os conhecimentos têm de vir de experiências pessoais, elaborados somente pela razão. Outro exemplo de iluminista foi o filósofo francês Voltáire (1964-1778), que foi contra a Igreja católica, mas

também foi um deísta, pois acreditava em um Deus criador do mundo e autor das leis da natureza”, afirma a historiadora Clotilde Paul. O final do século XIX marcou o firmamento dos questionamentos existencialistas e ateus na cultura ocidental. A brecha foi aberta e consolidada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (18441900). A questão: “o que limita a ação de um indivíduo?” apareceu novamente no livro de Nietzche, “O Anticristo”, de 1888, onde ele analisou e criticou a ética e os valores morais da Igreja Católica, apesar de não ter negado totalmente Jesus Cristo. Nessa mesma época, os cientistas acreditavam estar muito próximos de uma descrição definitiva do Universo. No século XX, Nietzsche, Karl Marx e Jean-Paul Sartre chegaram a apostar na “morte” de Deus e no início de uma “era da razão”. Porém, foi na pós-modernidade em que se deu a explicação dos fenômenos naturais e sociais. Na filosofia positivista do francês Auguste Comte (1798-1857), estes provinham de um só princípio: a ciência. Comte era técnico industrial e achava que a ciência é quem determinava tudo ao seu redor, inclusive a moral, substituta da religião. As apostas de seus companheiros filósofos não estavam erradas. O século XX deu início à “era da razão”.

Para ler “Tratado de Ateologia” de Michel Onfray “Em nenhum lugar desprezei aquele que acredita nos espíritos, na alma imortal, no sopro dos deuses, na presença dos anjos, nos efeitos da prece, na eficácia do ritual, na legitimidade das encantações, nono contato com os loas, nos milagres com hemoglobina, nas lágrimas da Virgem, na ressurreição de um homem crucificado, nas virtudes dos cauris, nas forças xamânicas, no valor do sacrifício animal, no efeito transcendental do nitro egípcio, nas moinhas de preces, no chacal ontológico. Em nenhum lugar. Mas em toda parte constatei o quanto os homens fabulam para evitar olhar o real de frente. A criação de além-mundos não seria muito grave se seu preço não fosse tão alto: o esquecimento do real, portanto a condenável negligência do único mundo que existe. Enquanto a crença indispõe com a imanência, portanto com o eu, o ateísmo reconcilia com a terra, outro nome da vida”.

“O Anticristo” de Friedrich Nietzsche No prólogo desse avassalador e polêmico livro, escrito em 1888, Nietzsche, o filósofo que pregava a “transmutação de todos os valores”, escreveu a seguinte afirmação: “Este livro destina-se aos homens mais raros. Talvez nem possa encontrar um único sequer... Só o futuro me pertence. Há homens que nascem póstumos”.

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evolucao

Procura-se Deus Texto por Julia Magalhaes

Em pleno século XXI, a humanidade continua tentando conciliar fé e razão. Mas será que algum dia a ciência terá condições de provar que foi mesmo Deus quem criou o Universo e determinou os rumos da evolução

D

urante muitos séculos, Deus foi apresentado como o principal responsável pelo sucesso da aventura humana sobre o planeta – nas artes, nos livros, nas escolas, e com as igrejas. Até que a ciência começou a mostrar que isso não era necessariamente verdade. Em 1859, a teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, lançou as primeiras dúvidas consistentes acerca da influência divina sobre a ordem da vida na Terra. Se existe uma ordem universal, o ser humano só poderia estar no centro dela. Era assim que pensavam os homens no século XVI, portanto, a humanidade era vista como o exemplo máximo da perfeição da vida sobre a Terra. Mas a idéia de que Deus era o responsável por tudo o que vemos foi colocada em questão após a publicação do livro “A origem das espécies”, de Darwin. Por causa dessa obra, ele foi acusado de cravar o último prego no âmago da criação, ao provar que o homem é fruto de uma evolução natural, e não de Adão, como prega a Bíblia. A teoria da evolução refuta o criacionismo bíblico, mas não diz que Deus não existe. Até o cientista Richard Dawkins deixa isso claro em seu livro, “O gene egoísta”. Mas nem todos os evolucionistas são ateus. O próprio Darwin era agnóstico teísta, mas antes, quase se tornou padre. Ele mudou sua visão a partir de seus estudos científicos.

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A explicação da criação no Gênesis é a base para todo o criacionismo cristão, ao passo que há, na verdade, muitos tipos diferentes de criacionistas. Um criacionista moderno aceita as visões da astronomia moderna e os métodos de datar geologicamente que determinam que a Terra possui bilhões de anos, mas não aceita as descobertas da biologia moderna. A teoria da evolução de Darwin foi reconhecida pelo Vaticano em 2008, por ser considerada compatível com a Bíblia. Entre os evolucionistas, uma das concepções erradas mais comuns é a de que evolução é progressiva e que os seres se tornam mais com-

plexos e perfeitos de alguma maneira. Na realidade, esta idéia é atribuída mais às atitudes sociais e religiosas da cultura européia do século XVIII e século XIX do que a qualquer evidência. A ciência evolucionária moderna não pensa que o caminho da evolução é uma escada, embora o naturalista francês Lamarck (1744 – 1899) já pensasse. A idéia atual é mais bem resumida pela frase do paleontólogo Stephen Jay Gould (19402002): “Evolução é um arbusto, não uma árvore”. Historicamente, aqueles organismos que não sobreviveram foi porque não se adaptaram, ou seja, não evoluíram.

Para ler “O gene egoísta” de Richard Dawkins O gene egoísta foi publicado em 1976. Um dos livros mais aclamados da história da divulgação científica, ele não só apresenta a biologia evolutiva de forma acessível, mas acrescenta uma interpretação metafórica que inspirou gerações de biólogos e simpatizantes: somos máquinas de sobrevivência a serviço dos genes. Desde a sua publicação, foi traduzido para mais de 25 idiomas e sucesso de vendas pelo mundo todo. É ainda um livro atual, que continuará a ser referência obrigatória para quem se interessa pela evolução da vida.


Tudo é relativo Não fosse pela descoberta da teoria do Big Bang, segundo a qual o Universo surgiu após uma grande explosão, nem sequer haveria a necessidade de provar que houve uma “hora zero”, afinal o tempo e o espaço são mesmo relativos, não é mesmo? O físico Albert Einstein (1879 – 1955) propôs isso há 106 anos. Curiosamente, o Big Bang passou a ser considerado, por muitos fiéis, a evidência científica de que a Bíblia está certa ao descrever o início de tudo. E se a ciência conseguisse achar essa tal ordem no Universo, será que isso seria a prova da existência de Deus? Ou será que a busca pelo divino não passa de uma necessidade inventada pelo homem para colocar um sentido em tudo? Afinal, até onde se sabe, somos os únicos animais que tentam entender por que existe a morte. Nas últimas décadas, o que se tem visto é um acirramento das diferenças entre aqueles que acreditam que a complexidade da vida só pode ser explicada por uma inteligência superior e aqueles que defendem que a inclinação para acreditar em Deus é apenas um traço biológico da nossa espécie. O pastor, e vereador de Guarujá, Luiz Carlos de Paula Coutinho acredita que a prova da existência do divino já existe. “Inúmeros casos da medicina não possuem explicação científica e estão relacionados com a fé em Deus”, diz.

Para assistir

Filme “A criação” Charles Darwin (Paul Bettany) tem em torno de 40 anos e leva uma vida pacata em uma vila inglesa. Darwin é devotado à sua família, mas ao mesmo tempo é bastante distante deles. A causa principal é o vazio existente com sua esposa Emma (Jennifer Connelly). Darwin apenas se sente bem quando escapa para seu escritório, onde discute o dia com sua filha Annie (Martha West), de apenas 10 anos. Só que há um problema: Emma está morta, há muitos anos. Darwin conversa, ou acredita conversar, com seu fantasma. É o jeito que ele encontra para amenizar a dor que sente e o conflito que possui, ao perceber que a existência de Deus não se encaixa no mundo real.

Opiniao: A ciencia desvendara a existencia de Deus? “Sim. Acho que ela caminha para isso, na medida em que descobre a origem da humanidade, do mundo e do Universo” Denise Kassama atéia e economista do Amazonas

“Como se prova algo que não existe? O que se quer achar quando se procura na matéria, pelas estrelas ou no microscópio, algo como Deus? Se descobrirmos que essa carência existencial é pelo fato de termos consciência de nossa finitude, então isso é Deus? Um beijo na boca bem lascado então é o suficiente para que esse deus, de repente, morra de novo” Marcelo Ronconi presidente da UNA “Acredito que isto nunca acontecerá, pois não existe nenhuma forma natural para se provar a existência de Deus, somente por meios sobrenaturais, e isso já não é mais ciência. Pode ser que a ciência desvende a origem do Universo, mas a origem da vida já está desvendada, graças a Charles Darwin” Marcelo Rodrigues ateu e instalador de TV a cabo, de Santos - SP “Um ser metafísico não pode ser estudado pela metodologia científica. A ciência busca o entendimento do universo natural, real e tangente, a religião lida com o sobrenatural, imaginativo” Renata Freitas atéia e estudante do ensino médio no Paraná

“Já desvendou há séculos” Daniel Sottomaior presidente da ATEA – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos

“Jamais comprovarão a existência ou a inexistência” Ranieri Marques ateu e estudante do ensino médio no Rio de Janeiro

“Não, Deus é um mito, um mito fabuloso, mas um mito” Rafael de Oliveira ateu e estudante universitário de Minas Gerais

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e se...

existissem mais ateus do que religiosos? Texto por Maurilio Carvalho A crença em algo superior está arraigada desde os primórdios da civilização e transpassou diversas civilizações até chegar a nosso tempo. Sociedades foram criadas com base nos ensinamentos religiosos pregados desde os tempos mais remotos da humanidade.

É

possível que o mundo se torne ateu? Imaginar isso não é difícil, graças a países como a Suécia e o Japão, que já contam com uma maioria de descrentes de qualquer religião, segundo o instituto de pesquisas, Global Peace Index. Esses países também figuram como duas das nações mais pacíficas do mundo.

Humanismo secular e livre pensamento seriam palavras de ordem em um mundo majoritariamente ateu, buscando um entendimento melhor das diferenças e nuances dos seres humanos. Fizemos algumas suposições de como seria esse mundo e quais seriam as mudanças mais latentes.

Dia de “Santo” Carl Sagan Em um mundo com a maioria da população descrente não existiriam feriados de celebração de santos. Ao contrário disso, existiriam datas festivas para lembrar ateus famosos, como o astrônomo Carl Sagan e o cientista Richard Dawkins. Para agradar a minoria religiosa, o Governo institucionalizaria o Dia do Orgulho Deísta.

Um novo profeta

Guetos extremistas

Os estudos do pai do evolucionismo, Charles Darwin, se tornaram o marco divisório entre ciência e religião. O aniversário dele era em 12 de fevereiro, então, nesse dia seria comemorado o novo Natal e os anos começariam a ser contados a partir de 1809, ano de seu nascimento.

Em uma sociedade composta por ateus em sua maioria, grupos religiosos que não se encontrassem nesse contexto social acabariam se isolando, como acontece em algumas seitas americanas, onde qualquer contato externo com a civilização são evitados.

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Morte ao ateísmo! Como todo o pensamento dominante, o ateísmo sofre com a crítica das correntes contrárias, sendo hostilizado e execrado fortemente pelos religiosos. Mas estes buscariam espaço nas artes e na música para se expressarem, onde conseguiriam um relativo sucesso. Veríamos o surgimento de bandas com o nome Bad Atheism, ao invés de Bad Religion.

Só no civil Casamento na igreja? Esqueça! Uniões matrimoniais seriam realizadas apenas civilmente e, igrejas católicas e evangélicas viveriam vazias, sobrevivendo apenas do aluguel de seus espaços para festas.

Intolerância é crime As bancadas religiosas na Câmara Federal seriam bem menores, e leis como a criminalização da homofobia seriam aprovadas. Uma mudança nesse sentido poderia trazer mais entendimento e mais tolerância em diversos outros temas sociais, como a questão do ensino religioso obrigatório em escolas públicas e particulares, a exemplo do Estado do Rio de Janeiro.

O show da razão

Super Jesus A Bíblia ainda seria um dos livros mais lidos do mundo, mas apenas para uso literário. Suas passagens instigariam o surgimento de diversos filmes, onde Jesus seria um super-herói e combateria o mal com seus poderes. Com isso, uma convergência com outras religiões surgiria e conquistaria grande sucesso nas bilheterias dos cinemas.

Programas de televisão contariam com programas que difundissem pensamentos filosóficos, e ganhariam grande audiência. Assistiríamos a um programa que se chamaria “Show da Razão” ao invés de “Show da Fé”. Discussões com bases filosóficas e científicas, como a origem da vida e de que forma poderemos conviver melhor em sociedade, seriam pontos altos da atração.

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sociedade

Programados para crer

Texto por Julia Magalhaes

Nascemos programados para acreditar em algo, mas não necessariamente em um tipo de Deus. A crença está embutida na natureza humana. E está longe de ser uma opção: a crença é essencial para a nossa vida. Saiba de onde vem esse fenômeno cultural e social.

O

militante ateu, Richard Dawkins, escreveu em seu livro, “Deus, um delírio”: “Quando era criança, minha mulher odiava a escola em que estudava e sonhava poder sair de lá. Tempos depois, quando tinha seus vinte e poucos anos, ela revelou sua infelicidade para os pais, e a mãe ficou horrorizada: ‘Mas, querida, por que você não nos contou?’. A resposta de Lallah é minha leitura do dia: ‘Mas eu não sabia que podia’. Eu não sabia que podia. Suspeito – quer dizer, tenho certeza – que há muita gente por aí que foi criada dentro de uma ou outra religião e ou está infeliz com ela, ou não acredita nela, ou está preocupada com tudo de mau que tem sido feito em seu nome; as pessoas sentem um vago desejo de abandonar a religião de seus pais e que gostariam de poder fazê-lo, mas simplesmente não percebem que deixar a religião é uma opção”. (DAWKINS, Richard, 2007, pág. 23)

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O numero de ateus não está aumentando por causa do número de pessoas que começam a se questionar, mas sim, pelo número de pessoas sem opinião formada. O homem é produto do meio cultural em que cresceu e foi educado. “Cada cultura tem um Deus, uma mitologia. Os homens constroem histórias, legados, fazem descobertas, por isso, preocupam-se com a morte, criando seus mitos. Cristo é um mito, mas faz parte da cultura. O que nos torna humanos são os rituais. Mesmo sem religião, as tribos indígenas têm crenças e rituais, isso é religiosidade. As religiões e suas instituições surgem por necessidade do homem. Todos têm crença, mas ela não precisa ser religiosa. O ateu pode crer na ciência”, diz a antropóloga Edna Gobetti.

consciência do indivíduo. Não existe nascer bom ou ruim, pois os seres humanos refletem o meio cultural em que foram criados. As famílias têm valores éticos e morais, e passam isso para os filhos. A partir dos sete anos de idade, quando começa a maturação do cérebro e do sistema de cognição, acreditamos que somos aquilo que fizeram de nós e continuamos a crer no que foi nos passado. Tudo na vida é aprendizagem”, afirma a psicóloga Maria Fernanda Marcondes de Moura Neves.

A crença é inerente ao ser humano. “Não existe ninguém sem crença, seja ela qual for, até a crença de que nós existimos. Tudo a tem a ver com a

O psicólogo Emílio Plata acredita que a crença sempre será utilizada para explicarmos o que não entendemos. “É mais fácil aceitar do que

Porém, ao crescer, o ser humano passa a questionar sua existência, e essa dúvida é o que o move. “Jogar a explicação para o campo religioso é cômodo, é fácil”, completa Edna.


entender as religiões. A maioria das pessoas se acomoda. Elas não sabem pensar por si só, portanto, a fé é aprendida. As pessoas precisam acreditar que há algo além da vida, pois elas têm medo do castigo. Deus significa limite, o ‘não pode’. Toda lei religiosa é uma forma de controle”, diz. Emílio teve vocação religiosa aos nove anos de idade e estudou dos 12 aos 15 anos para ser padre. Ele largou tudo e hoje é agnóstico teísta.

Nas entrelinhas das leis As leis existem pra que haja ordem no mundo e para que a justiça seja feita, certo? E se não houvesse leis? O que diferenciaria a humanidade dos demais animais, além da racionalidade? Na vida em sociedade, existem regras de conduta, regras éticas e regras religiosas. Para a psicóloga Maria Fernanda, a sociedade sem religião seria um caos. Já para a socióloga Tereza Ayub, as pessoas buscam o prazer momentâneo em substituição à religião. “O Brasil tem baixa autoestima. Vivemos em uma sociedade capitalista e trocamos a crença pela crença de consumo como aprovação social. Vivemos o materialismo ao invés do espiritualismo”, diz. O materialismo sustenta que a única coisa da qual se pode afirmar a existência é a matéria. Fundamentalmente, todas as coisas são compostas de matéria e todos os fenômenos são o resultado de interações materiais. “Hoje em dia, as igrejas evangélicas pentecostais têm mais seguidores do que a igreja católica, pois a pentecostal trabalha valores materialistas”, diz Tereza. Se Deus promete a você uma mansão no paraíso, os pentecostais acreditam que ele pode, pelo menos, te dar um apartamento de dois quartos hoje. “Mas o ser humano tem necessidade de ser ouvido, apoiado e valorizado. A igreja traz esse conforto, serve como uma terapia de grupo. A sociedade brasileira precisa trabalhar com as diferenças desde a infância, através da educação, para tornar a convivência entre religiosos e ateus, mais fácil”, completa ela. Para o teórico político e filósofo inglês, Thomas Hobbes (1588-1679), “um ato de vontade que

dá origem à ordem social e é um ato de vontade renovado perpetuamente que a sustenta”. Hobbes defendia a idéia de que os homens só podem viver em paz se concordarem em submeter-se a um poder absoluto e centralizado. Para ele, a igreja cristã e o Estado cristão formavam um mesmo corpo, encabeçado pelo monarca, que teria o direito de interpretar as escrituras, decidir questões religiosas e presidir o culto. Para Émile Durkheim (1858-1917), considerado um dos pais da sociologia moderna, existia um ponto fundamental: o de que o ser humano necessita se sentir seguro, protegido e respaldado. Uma sociedade sem regras claras (num conceito do próprio Durkheim, “em estado de anomia”), sem valores e sem limites leva o ser humano ao desespero. A partir da leitura do livro “O mal que ronda a Terra”, de Tony Judt, entendemos que vivemos em uma era de inseguranças (econômica, física e política). Essa insegurança alimenta o medo – da mudança, do declínio, dos desconhecidos e de um mundo estranho – e está corroendo a confiança e a interdependência nas quais se apóiam as sociedades civis. É o ter versus ser. “Por isso eu digo que os ateus são anarquistas, pois não precisam de Estado. Eles são conscientes de seu papel na sociedade”, afirma a socióloga Tereza.

Anarquismo já! No século IV e V, o imperador romano Constantino fundou o cristianismo e ajudou a amarrar o poder político com o poder da igreja. Àquela época, as verdades eram impostas, e não, propostas. Muito tempo depois, vieram o anarquismo e o comunismo, movimento sociais que substituíram a religião por uma ideologia. São encontrados, com certa freqüência, diversos argumentos supostamente ligando o ateísmo ao anarquismo e ao comunismo. O ateísmo de Estado, pregado na maioria dos regimes comunistas, visa eliminar o poder político das religiões. Ambos defendiam o fim de qualquer forma de autoridade e queriam uma sociedade igualitária, ou seja, sem divisão de classes sociais. O comunismo veio do pensamento marxista, do filósofo alemão Karl

para ler O mal que ronda a Terra de Tony Judt.

A obra tem por objetivo oferecer ao leitor uma linguagem que a sociedade precise, talvez, para lidar com as necessidades comuns, rejeitando o individualismo e o socialismo do passado.

Marx (1818 – 1883), e visava eliminar o poder político da igreja católica. Até o século XIX, ou até a primeira metade do século XX, a igreja sempre esteve aliada às classes dominantes da sociedade e exercia o papel de amansar a população, para que esta aceitasse seu destino de servidão. É, portanto, natural que o marxismo elenque a religião como uma das formas de manutenção da alienação, do povo, dos meios de produção. E é esperado, também, que Estados que afirmam basear seu sistema político nos ideais marxistas, se declarem Estados ateus. O que não implica que ateu tem que ser comunista. Marx já valorizava a libertação dos oprimidos através desse movimento. Seria uma ponta do mandamento “amar ao próximo”, muito ensinado por um socialista chamado Jesus Cristo? Os movimentos anárquicos rejeitam qualquer forma de submissão e a submissão a uma instituição religiosa, ou a um deus. Existem alguns movimentos de esquerda que conciliam o cristianismo com o comunismo, afinal, Jesus é considerado um grande socialista por muitos. Tudo bem que o comunismo tenha sido um processo posterior ao socialismo, mas tem a mesma base. “Se você perguntar a um conservador, ele lhe dirá que o comunismo é o braço político do ateísmo. Se analisarmos isso de perto, encontraremos, hoje mesmo, pessoas de esquerda que são religiosas, como até padres e teólogos. Marx via a religião como alienação - assim como Feuerbach – e, se alguém precisar de um exemplo disso, basta participar da próxima ‘Marcha para Cristo’. É contra essas explorações que os comunistas reagiram. Hoje a roda da história girou e naturalmente não vemos comunistas tão ortodoxos assim, daí tantos grupos dissidentes, países que moldaram os ideais comunistas de acordo com seus costumes. Você pode ser ateu e não ser comunista, e hoje ainda podemos dizer que pode ser comunista sem ser ateu, mesmo que isso soe paradoxal”, diz Marcelo Ronconi, presidente da União Nacional dos Ateus, a UNA, sobre a relação entre o comunismo e o ateísmo.

“A produção da crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos” de Pierre Bourdieu

Este livro reúne artigos do final da década de 1970 sobre o poder simbólico e seus modos de distinção social. Esta obra insere-se de forma determinante na construção de uma teoria interpretativa da cultura.

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Ao falar desse tema, Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira de Ateus, a ATEA, respondeu: “É simples: o ateísmo faz parte da doutrina marxista, significando que abraçar o marxismo em tudo que ele provê implica ser ateu também. Mas ser ateu não implica ser marxista. Conheço pouquíssimos marxistas”. Para a antropóloga Edna Gobetti, o mito do comunismo é que ele colocava a política contra a religião. “A alienação total impede o questionamento, portanto, a unanimidade é burra. Hoje, shoppings centers são templos de consumo, criados para desviar a atenção da população dos templos religiosos. Isso é o capitalismo, mas ele não é imortal. Eu acredito que o comunismo sairá de dentro do próprio capitalismo, mas virá com outro nome. Isso é processo histórico”, diz.

O que dizem os estudos O Brasil é um país religiosamente diverso, com a tendência de mobilidade entre as religiões. A população brasileira é majoritariamente cristã (89%), sendo sua maior parte católica (73%). Herança da colonização portuguesa, o catolicismo foi a religião oficial do Estado até a Constituição Republicana de 1891, que instituiu o Estado laico. No entanto, existem muitas outras denominações religiosas no Brasil. Algumas dessas igrejas são: protestantes, pentecostais, episcopais, metodistas, luteranas e batistas. Há mais de um milhão e meio de espíritas ou kardecistas que seguem a doutrina de Allan Kardec. Existem também seguidores da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, uma minoria de judeus, muçulmanos, budistas, neo-pagãos e seguidores do candomblé e da umbanda. Cerca de 5% da população declarouse sem religião no último censo, podendo ser agnósticos ou ateus. Nas últimas décadas, tem havido um grande aumento de igrejas neo-pentecostais, o que diminuiu o número de membros tanto da igreja católica quanto das religiões afro-brasileiras. Cerca de 90% dos brasileiros declararam algum tipo de afiliação religiosa no último censo realizado. O censo demográfico realizado em 2000, pelo IBGE, apontou a seguinte composição religiosa no Brasil: - 73,8% dos brasileiros (cerca de 125 milhões) declaram-se católicos; - 15,4% (cerca de 26,2 milhões) declaram-se evangélicos (evangélicos tradicionais, pentecostais e neo-pentecostais); - 5% declaram-se sem religião, podendo ser agnósticos, ateus ou deístas; - 1,3% (cerca de 2,3 milhões) declaram-se espíritas; - 0,3% declaram-se seguidores de religiões tradicionais africanas tais como o candomblé e a umbanda;

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- 1,8% declaram-se seguidores de outras religiões, tais como: as testemunhas de Jeová (1,1 milhão), os budistas (215 mil), os santos dos Últimos Dias ou mórmons (200 mil), os messiânicos (109 mil), os judeus (87 mil), os esotéricos (58 mil), os muçulmanos (27 mil) e os espiritualistas (26 mil).

O papa não é mais tão pop O número de católicos continua caindo no Brasil, país que tem mais fiéis desta religião no mundo, e onde a porcentagem da população que se declara desta doutrina caiu de 73, em 2003 para 68 em 2009, segundo o estudo “Mapa das Religiões no Brasil”, que a FGV – RJ (Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro) divulgou em agosto deste ano, quanto à diversidade religiosa no Brasil, segundo uma pesquisa de orçamentos familiares feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas, o IBGE, também neste ano. A porcentagem da quantidade de católicos medida em 2009 foi a menor desde 1872, quando uma pesquisa similar mostrou que 99,72% da população brasileira era católica, ainda segundo o estudo da FGV - RJ. A redução do número de católicos no Brasil se acentuou nos últimos 30 anos, enquanto 88,96% dos brasileiros se declarou católico em 1980, essa porcentagem caiu para 83,34% em 1991 e para 73,89% em 2000. Segundo a FGV - RJ, a redução da porcentagem de católicos no Brasil coincidiu com o aumento da porcentagem de brasileiros que se declaram ateus, que subiu de 5,13% em 2003 até 6,72% em 2009. Até o ano 2000, a redução dos católicos no País era atribuída diretamente ao crescimento dos grupos evangélicos, mas estes não registraram

um crescimento de fiéis nos últimos seis anos tão elevado como o que registravam anteriormente. Os seguidores do espiritismo se mantiveram praticamente estáveis (de 1,5% em 2003 para 1,75% em 2009), assim como os praticantes das religiões afro-brasileiras (de 0,23% para 0,35%) e das igrejas orientais ou asiáticas (de 0,30% para 0,31%). Metade dos brasileiros que se declaram religiosos não freqüentam o culto com freqüência. O Piauí é o Estado mais católico. De 100 pessoas, 88 vão à igreja. Cuiabá tem maior número de freqüentadores de religiões espiritualistas e umbandistas. 89% da população brasileira acredita que ter religião é importante, independentemente do credo. Precisamente no Estado do Rio de Janeiro, segundo o estudo, a porcentagem de católicos caiu para menos da metade da população (49,83%) e as pessoas que se declaram sem religião subiu para 15,95%.

Brasil no escuro Vivemos em um Estado laico, ou seja, em um País onde o Estado é independente da religião, e a religião é independente do governo. Na prática, no entanto, não é o que realmente acontece. “O divórcio só se tornou legal no Brasil em 1978. Demorou por causa da pressão da igreja católica. A história diz que, tudo começou quando o monarca Henrique VIII, da Inglaterra queria se separar de sua esposa, Catarina de Aragão, para ficar com sua amante, Ana Bolena, mas não podia, pois a igreja não permitia. Para aprovar a lei do divórcio, o rei cortou relações com Roma”, conta a historiadora Clotilde Paul. Atualmente, vemos o exemplo das bancadas evangélicas tentando impedir a aprovação da lei


que criminaliza a homofobia, e eles se baseiam em suas crenças religiosas. Algumas pessoas alegam que, já que a maioria da população é cristã, é correto que a lei seja feita de acordo com a vontade dessa maioria. Muitos temem que um Estado laico seja sinônimo de Estado ateu, por pura desinformação. Além de garantir que uma religião específica não possa se impor, o Estado laico também garante a liberdade religiosa em seu sentido mais amplo. Qualquer pessoa está livre para ter a religião que desejar, ou não ter nenhuma, como é o caso dos ateus. Isso significa que ninguém pode ser discriminado por causa de sua postura em termos de religião. Infelizmente, é uma característica forte de muitos ateus acharem que laico e anti-religioso são a mesma coisa. Alguns países não são laicos, entre eles a maioria dos países da região árabe. Nestes países os preceitos religiosos devem ser seguidos por lei, deixar de cumpri-los resulta em punição, como se um crime tivesse sido cometido. Existem também países onde há uma religião oficial, mas ela não é imposta à população. O não cumprimento não implica em punição e há liberdade para seguir qualquer outra religião, ou nenhuma. Este é o caso dos países escandinavos, como a Suécia e a Finlândia. O paradoxo é que, nesses países, o número de ateus é muito grande. Na opinião do pastor e vereador de Guarujá, Luiz Carlos de Paula Coutinho, nosso País é plenamente laico. “A Constituição Federal de 1988 estabeleceu o Estado laico, ou seja, sem uma religião oficial, justamente pela igualdade entre as pessoas e a liberdade de culto que constam no princípio fundamental da Carta Magna brasileira. É comum entre os presidentes e demais políticos dos Estados Unidos, por exemplo, utilizarem a frase ‘Deus salve a América’. Também foi comum que, infelizmente, o homem, ao longo de sua história, tenha promovido inúmeras guerras utilizando-se do nome de Deus, como aconteceu nas Cruzadas”, diz. As Cruzadas foram tropas ocidentais enviadas à Palestina para recuperarem a liberdade de acesso dos cristãos à Jerusalém. A guerra pela Terra Santa, que durou do século XI ao XIV, foi iniciada logo após o domínio dos turcos sobre esta região considerada sagrada para os cristãos. Após o domínio da região, os turcos passaram a impedir ferozmente a peregrinação dos europeus, através da captura e do assassinato de muitos peregrinos que visitavam o local unicamente pela fé.

Opiniao: O Brasil realmente e um pais laico? “Temos exemplos práticos de que o Brasil não é laico. Tente retirar um crucifixo de um ambiente público e você terá... problemas. Mas como um País laico, o Brasil, nossa terra, deixa muito a desejar. Todo o ocidente é quase um berço cristão. Valores que costumamos zelar se devem em muito ao mito de Jesus. Professores, orientadores e adultos, diariamente, falam para as crianças que ‘homossexuais devem ser curados’, que “as músicas que não são de louvor a Deus, são de incentivo ao Diabo”, coisas que são faíscas perto de dinamites. Como esses exemplos reais que expus promovem a sociedade de amanhã? Vemos professores de filosofia, ao ensinarem Platão para alunos de segundo grau, terem que encarar pais evangélicos que o ‘acusam’ de ensinar paganismo, espiritismo, para seus filhos... Onde estes pais, décadas antes, estudaram? É uma ilusão hedionda acreditar em uma sociedade menos sufocante quando a religião se faz presente nas escolas, na televisão, no rádio, nos lares...” Marcelo Ronconi presidente da UNA “Infelizmente, eu acho que os governos têm muita influência das religiões, principalmente em casos sobre leis de aborto, e pesquisas com células-tronco” Marcelo Rodrigues ateu e instalador de TV a cabo, de Santos - SP “Escolas, por lei, são lugares onde não pode existir o proselitismo religioso, portanto não há relação com o cristianismo. Aprender que o cristianismo existe nada mais é do que aprender sobre um movimento de tradição, igual o islamismo, boi bumbá, vodu, carnaval, e entre outros. Isso não interfere nos valores da educação de uma criança. Atualmente, no ensino médio, aqui no Paraná, é ensinada a disciplina filosofia, que fala de filósofos ateus e sobre as teorias deles. Tudo de maneira imparcial, como tem de ser. Na praticidade, o Estado não é laico, não mesmo. Estamos longe disso, sempre influenciados na hora de votar a legalização do aborto, da união homoafetiva e nas experiências com células de embriões. As novelas sempre mostram o bonzinho como religioso, malvado é o que não tem religião, ou seja, quem tem opinião própria, quem acredita no que se pode provar. O imposto recolhido de judeus, agnósticos, ateus, budistas, hindus e outros, é gasto para manter um crucifixo no Supremo Tribunal Federal. Isso é laicismo?” Renata Freitas atéia e estudante do ensino médio no Paraná “O Brasil é laico, mas há de separar a nação do governo. Não faz sentido colocar ‘Deus seja louvado’ numa cédula de Real, uma vez que o dinheiro é acessível a todos, até aos não cristãos. Além disso, por que perguntar a bispos e padres se eles concordam ou não com pesquisas de células tronco? O Brasil é laico, mas os líderes governamentais colocam suas realidades individuais acima das realidades coletivas” Bernardo Tomaz ateu e professor de matemática do Espírito Santo

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“Eu lembro quando me obrigavam a rezar o Pai Nosso na escola. E se eu fosse um budista ou um muçulmano? Acho que um átomo desenhado nas notas de dinheiro ficaria muito melhor” Matheus Toledo Vieira ateu e estudante universitário. Concedeu a entrevista de Dublin – Irlanda “O laicismo é teórico. Recentemente, o STF, legalizou a união civil entre os homossexuais e foi notório o descontentamento dos evangélicos envolvidos na política. As crianças são criadas segundo a tradição da família, os pais são seus pedagogos, mas o primeiro ensinamento bíblico que deveriam decorar é o ‘Não Julgarás’ Rafael de Oliveira ateu e estudante universitário em Minas Gerais

Para assistir

Vídeo: “A teoria social de Karl Marx” http://www.youtube.com/watch?v=nWq5O0fHN8Q

Vídeo: Reportagem do Jornal da Justiça (CNJ) sobre Estado laico http://www.youtube.com/watch?v=dbeQ9hwQKPo

Richard Dawkins fala sobre seu livro “Deus, um delírio”

http://www.youtube.com/watch?v=Desb4TwzkTg&featur e=related

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A t e u s F a m o s o s


Grandes nomes da música, da literatura, esportes e a mídia em geral que assumem a falta de crença em Deus sem ter medo Por Fernanda Barreto

N

a Bíblia, o trecho de um dos salmos diz que “O tolo diz em seu coração: ‘Não há Deus”. Eles são corruptos, eles dizem coisas abomináveis, não há nenhum deles que faça o bem” (Salmos, 14:1). Estes ateus provam justamente o contrário – são pessoas admiradas pelo resto do mundo por seu talento. O doutor Dráuzio Varella nasceu em 1 de janeiro de 1943. Ele é um oncologista conhecido por popularizar a medicina através de programas de rádio e TV, e também autor dos livros “Por Um Fio” e “Estação Carandiru”, que rendeu um filme dirigido por Hector Babenco. Varella respeita todas as crenças, mas comenta que os religiosos não têm nenhum respeito pelas pessoas sem fé. “Quando digo que não tenho religião, acham que sou imoral. É como se eu tivesse parte com o diabo”, comentou. No esporte, o tenista espanhol Rafael Nadal, atual número 2 do mundo no ranking da ATP, pode ser considerado um caso raro de atleta ateu. Campeão de vários torneios como Roland Garros e medalhista olímpico em Pequim, o jovem tenista

de 25 anos fez uma declaração polêmica numa entrevista à revista Magazine: “Para mim, a religião é a maior causa de mortalidade da história”. Na mídia, existem muitos atores e atrizes nacionais e internacionais que não acreditam em Deus, mas são mais discretos quando tocam no assunto. Camila Pitanga, Edson Celulari, Angelina Jolie, Jack Nicholson e Sir Ian McKellen são alguns exemplos de astros nacionais e internacionais ateus. No meio musical os representantes da bandeira do ateísmo são Noel Gallagher (ex-vocalista do Oasis), Bob Geldof, Bjork, David Gilmore (guitarrista e vocalista do Pink Floyd), David Bowie, Cássia Eller, entre muitos outros. Grandes gênios ateus Pessoas consideradas grandes gênios do nosso planeta também fazem parte desta galeria de ateus. Bill Gates e Steve Jobs, fundadores da Microsoft e da Apple, respectivamente também não acreditam em Deus. Augusto Comte, Albert Camus, Confúcio, Karl Marx, Michel Foucault, Sartre, Nietzche e Sócrates são considerados gênios da filosofia, todos tem algo em comum – a descrença

“Se pelo menos deus me desse um sinal! Algo como fazer um depósito gigantesco em meu nome num banco suíço.” Woody Allen, cineasta

“Eu sou atéia, e é tudo. Eu creio que não há nada que sabemos, exceto que devemos ser gentis uns com os outros e fazer o que pudermos pelas pessoas. Não, eu não acredito em Deus e, depois de viver, pretendo ter um longo e feliz descanso debaixo da terra.” Katharine Hepburn, atriz

“Na teoria da evolução não há Deus e Bíblias não foram usadas. Eles não procuram forças superiores, ETs ou qualquer outra coisa que pode ser encontrada na seção de ficção cientifica...” Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam

em algo superior. O escritor português José Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922 e faleceu em 18 de junho de 2010. Além de autor de romances como “A Jangada de Pedra” e “Ensaio Sobre a Cegueira”, ele já foi gratificado com um prêmio Nobel de Literatura em 1998. Ele também é autor do polêmico livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, que conta uma história mais humanizada de Jesus, e alude uma eventual relação com Maria Madalena. Até o fim de seus dias, ele foi fiel a sua falta de crença. Ele disse até a seguinte frase: “Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro”. Isaac Asimov, falecido em 6 de abril de 1992, foi autor do livro Eu Robô, que inspirou o filme de mesmo nome, lançado em 2004. Ele tinha a opinião de que, se lida propriamente, a Bíblia é a força mais potente para o ateísmo jamais concebida. “Render-se à ignorância e chamá-la de Deus sempre foi algo prematuro, e continua sendo hoje” é uma das suas mais famosas declarações.

“A Islândia se destacou em uma coisa. Quando nos perguntaram em que acreditávamos, 90% disseram: ‘em nós mesmos’. Eu acho que me encaixo nesse grupo. Se me meto em algum problema, não há deus ou alá que vai me salvar. Eu tenho que me virar sozinha.” Björk, cantora

“Quando o primeiro espertalhão encontrou o primeiro imbecil, nasceu o primeiro deus.” Millor Fernandes, escritor e cartunista

“Por simples bom senso, não acredito em Deus. Em nenhum.” Charles Chaplin, ator

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preconceito

As aparencias enganam

Texto por Julia Magalhaes

O ponto de partida de qualquer preconceito é uma generalização superficial chamada estereótipo. Traduzido por atitudes de alienação a tudo aquilo que foge dos padrões da sociedade, o preconceito leva à discriminação, à marginalização e à violência, pois é baseado na empatia e em um julgamento das aparências.

O

desconhecimento que leva ao preconceito faz parte do domínio da crença, escapando, assim, de qualquer questionamento fundamentado em raciocínio. Os sentimentos negativos em relação a um grupo fundamentam a questão afetiva do preconceito, e as ações, o fator comportamental. Segundo o sociólogo alemão, Max Weber (18641920), o indivíduo é responsável pelas ações que toma. Uma atitude hostil, negativa ou agressiva em relação a um determinado grupo, pode ser classificada como preconceito. Condições como juventude ou velhice, saúde ou doença, lucidez ou embriaguez influenciam o julgamento e, consequentemente, o conhecimento. Para um dos principais opositores de Roma, o rei da Macedônia, Pirro (318 – 272 a.C.), a melhor postura a ser adotada diante da realidade é a neutra. Ele já recomendava que o ideal do sábio é a indiferença. O sociólogo e ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, indagado quanto a ser

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ateu, falou sobre o tema em uma entrevista recente à revista Alfa: “Fui acusado de ser ateu, mas não fui presidente da República duas vezes? Então o efeito é relativo. Você não pode chegar em uma campanha e pregar contra a religião. Você tem que respeitar a religião e mesmo a questão de Deus. Você não tem de perguntar se eu acredito, você tem que perguntar se eu respeito. Acreditar é de foro íntimo. Agora, seria muita soberba dizer que não acredito, porque tem o mistério. De onde viemos, qual o sentido da vida? Não sei. Se alguém acha que o sentido é Deus, é Deus. Ser absolutamente materialista é tão equivocado como ser fundamentalista religioso”, diz.

A união faz a força No passado, o ateísmo esteve restrito a apenas alguns pensadores que, em virtude da censura que sofriam, resolveram manter suas dúvidas em segredo. Atualmente, a Internet tornou o ateísmo um assunto debatido com mais naturalidade entre

os usuários. Esse meio de comunicação pode ser entendido como um encurtador de distância entre pessoas que possuem uma mesma opinião, por mais rara que esta seja. Existem três associações de ateus pelo Brasil, dentre elas, a UNA (União Nacional dos Ateus) e a ATEA (Associação Brasileira de Ateus). A primeira foi criada em janeiro de 2009 em comunidades virtuais e já conta com mais de cinco mil membros. “A UNA surgiu para representar os ateus do Brasil. Tivemos inúmeras discussões, atritos, entre os membros, e hoje, finalmente, estamos começando os trâmites legais para sua oficialização”, diz Marcelo Ronconi, presidente da entidade. A ATEA foi criada em 2008 e também reside no domínio virtual, mas já está registrada na Receita Federal e conta com Cadastro de Pessoa Jurídica (CNPJ). “O fato de ser legalmente constituída lhe permite


Para ver

abrir contas em bancos, participar de licitações públicas, contratar bens e serviços e propor ações judiciais, por exemplo. Mas essa formalização não significa, necessariamente, que haverá uma sede ou encontros entre os ateus associados. A associação conta hoje com quase três mil membros, e surgiu de um grupo de ativistas que sentiam uma enorme necessidade de se organizar”, diz um dos fundadores, Daniel Sottomaior. Em seu estatuto, a ATEA tem como objetivos principais congregar ateus e agnósticos e defender o laicismo, tudo isso, mantendo a diplomacia. A iniciativa que mais chamou a atenção da sociedade foi a primeira campanha publicitária ateísta que rodou em ônibus das principais capitais do País, como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre. “O propósito da campanha foi aproximar o ateísmo do dia a dia da sociedade e assim ajudar a diminuir o preconceito que existe contra ateus”, diz Sottomaior, presidente da entidade. As peças da campanha são polêmicas e falam sobre fé, moralidade e ateísmo. Uma delas exibe as fotos de Charles Chaplin, que era ateu, e Adolf Hitler, que não era ateu, com os dizeres “religião não define caráter”. Outra afirma “Somos todos ateus com os deuses dos outros”, e traz imagens de uma divindade hindu, uma divindade egípcia e de Jesus de Nazaré, com as legendas “mito hidu”, “mito egípcio” e “mito palestino”, respectivamente. Uma terceira diz que “A fé não dá respostas, só impede perguntas”. Os cartazes foram exibidos ao longo de um mês, no início de 2011, até serem retirados através de decisão do governo dos Estados em questão, por ferirem a liberdade de expressão. Marcelo Ronconi acha que a iniciativa é válida e serve de incentivo para outras associações, como a que preside, e para os ateus em geral. “A intenção era que os ateus criassem vídeos e postassem no Youtube, para que outros ateus também ‘saíssem do armário’, por assim dizer. Deste modo, muitas pessoas tirariam de seu imaginário o ateu como ‘criminoso’”, diz ele.

Bernardo Tomaz participa da campanha “Ateu, mostre sua cara”

O vloger Yuri Greco na campanha “Ateu, mostre sua cara”

http://www.youtube.com/ watch?v=KTVslM_4C8Q

http://www.youtube.com/ watch?v=juChPSmeuXE

“Minha família não é religiosa, somente minha mãe, que é evangélica. Na minha infância, eu fui à escola dominical, mais por um apelo social do que por minha vontade, mas abandonei ainda criança. Nunca sofri nenhuma forma de discriminação porque ninguém costuma perguntar minha religião” Rafael de Oliveira, 22 anos ateu e estudante universitário de Belo Horizonte – MG “Quando eu freqüentava a igreja evangélica, questionava o pastor e os demais evangélicos sobre várias partes da bíblia. Foi quando eu percebi que cada um falava uma coisa, então descobri que o cristianismo é complicado e controverso. Quanto mais eu perguntava, menos entendia. Então eu cansei de apenas ouvir os outros, peguei a minha bíblia e comecei a ler tudo sem parar até terminar. Visitei comunidades religiosas no Orkut, e percebi que a teologia é uma pseudo-ciência. Isso ainda me incomoda muito. Penso que se eu tivesse prestado mais atenção nas aulas de biologia e de ciências, teria abandonado essa fantasia religiosa mais cedo. As pessoas me vêem como um monstro que deve queimar na danação infinita do inferno, mesmo que eu não mate nem formigas. Foi esse tipo de mensagens que mandaram para o meu Orkut, e que ouvi dos cristãos que conhecia, que me dizem que eu estou ‘com o capeta no corpo’. Minha família ainda não sabe que eu sou ateu. Logo vou sair da casa dos meus pais e vou contar. Sei que são super preconceituosos, por isso, prefiro não contar agora para não ter confusão” Everton Lima Alves ateu e estudante universitário de São Paulo “Sempre tive minhas dúvidas, mas como fui criada no meio de duas religiões achava que questionar era pecado, mas, com 14 ou 15 anos, isso ficou muito forte com as aulas de filosofia e através de pesquisas. A partir daí, já me definia atéia, mesmo assim, não fico esfregando a minha opinião na cara de ninguém, só quando perguntam, por isso poucas pessoas sabem. Mas as que sabem, acham ridículo, não concordam, tentam me provar a existência de Deus de todas as maneiras possíveis. No geral, as pessoas vêem o ateísmo como uma maldição eterna. Acho importante frisar que ateísmo não muda caráter” Renata Freitas atéia e estudante do ensino médio no Paraná Revista ATHEOS

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“A maioria das pessoas, assim como a minha família, não sabe. Quem sabe, respeita minha opinião” Renery Carvalho ateu e estudante do ensino médio em Minas Gerais

“Tornei-me ateu quando percebi que buscar a verdade em crenças não nos responde nada. Então, optei pela ciência. Algumas pessoas me ignoram, outras me respeitam. Acho que isso varia de acordo com a mente de quem me julga. Minha família aceita que eu seja ateu, o que não quer dizer que me apóiam” Ranieri Marques ateu e estudante do ensino médio no Rio de Janeiro

“Fui criado em uma família cristã, batizado no cristianismo, mas sempre me questionava sobre as tradições cristãs. Aos 20 ou 21 anos cheguei à conclusão de que a existência de Deus não fazia sentido. Acho que as pessoas me vêem com um pouco de insegurança, por não saberem direito o que significa ser ateu. Muitos confundem ateísmo com satanismo, e alguns pensam que sou um anti-Cristo” Marcelo Rodrigues ateu e instalador de TV a cabo de Santos-SP

“Quase ninguém da minha família sabe que eu sou ateu, mas ele acham que isso é coisa do demônio” Kelvin Silva ateu e estudante do ensino médio em São Paulo

“Me tornei ateu com um simples momento de insight. Percebi que aquilo que eu acreditava não era muito diferente de outros mitos. Lamentavelmente as pessoas costumam me ver com maus olhos” Bernardo Tomaz ateu e professor de matemática do Espírito Santo

“Quando criança, todas as noites, eu pedia perdão para Deus pelos meus erros do dia, e não via a hora de Ele realizar meus sonhos. Minha família é dividida entre católicos e evangélicos, por isso, desde muito pequeno, frequentei escolinha dominical. Eu não gostava e, com uns 9 ou 10 anos, saí de lá. Desde então, fui parando de rezar, e não ligava muito para deuses, embora ainda tivesse um pouco de medo. A dúvida foi crescendo, mas só cheguei ao ponto de dizer ‘eu sou ateu’ quando assumi ser gay para meus pais há uns três anos. Meus pais são ultra conservadores e a coisa mais dolorosa que me disseram foi que ‘ser homossexual não é coisa de Deus’. Aquilo me fez deixar de acreditar completamente em Deus. Não queria crer num Ser que me julga imoral por isso, e nem participar de alguma doutrina que pregasse isso ou me ensinasse como eu deveria agir. Quanto ao preconceito, algumas poucas pessoas levam na boa. Já a maioria acha que sou imoral e que vou arder eternamente num lago de fogo e enxofre” Roger Lima ateu e estudante do ensino médio de Salvador, BA

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“Minha mãe me respeita por isso. Eu acho que ela tem é uma queda pelo ateísmo!” Sillas Fernandes ateu e estudante do ensino médio em Teresina, PI

“Me tornei atéia há uns 25 anos, quando percebi que a religião não me trazia benefício algum e que eu gostava mais da convivência com os colegas do que os ensinamentos. Meus amigos me respeitam bastante, embora ainda tenha que aturar algumas brincadeiras do tipo ‘vou rezar por você’ em prol da convivência social. Faço muitos trabalhos voluntários aqui na minha cidade, então as pessoas me respeitam pelo que sou e não pelo que acredito” Denise Kassama atéia e economista do Amazonas

“Minha família acha um absurdo eu ser ateu, mas eles não falam sobre isso comigo” Wallison Diniz ateu e estudante do ensino médio em Goiás

“As pessoas dizem que eu preciso de Deus no meu coração e que só Ele salva” Maria Eduarda Murad atéia e estudante universitária de São Paulo

“Me chamam de herege quando digo que sou ateu. Na minha família, só eu sou ateu. Alguns parentes dizem que quando eu ficar doente, eu chamarei por Deus, mas contraí dengue no ano passado e não mudei de idéia. Posso ser considerado um idealista, um neo-ateu” Ícaro Rodolfo ateu e estudante universitário de Maceió, AL

“Sempre fui questionador, e isso em relação a qualquer ‘autoridade’. Provavelmente, foi esse traço na minha personalidade que me levou a ser cientista. Mas ainda muito novo, já não era católico, mas estava lendo as obras de Kardec (o tom cientificista me atraía). Mas com o tempo, as incongruências internas da maioria das religiões, e o meu conhecimento a cerca dos fenômenos da natureza sendo cada vez maior, acabou sendo um passo natural virar ateu. Já no início do curso de biologia me dizia agnóstico (acho que mantinha essa postura até em respeito a amigos que eram religiosos), mas com o tempo, o ateísmo acabou sendo a opção mais coerente. Minha posição sempre foi respeitada, por mais que nem sempre compreendida. E a maioria dos meus amigos são ou ateu ou agnóstico. Mesmo com religiosos, nunca tive problemas. Conseguimos conversar sobre religião sem nenhum atrito. Então, não vejo o ateísmo como algo que me define para as pessoas. É só mais uma das minhas características. Da mesma forma que eu não utilizo religião para definir ninguém. Nunca sofri discriminação. Uma cara feia de alguma avó, mas nem sem sobremesa fiquei” Guilherme Roesler ateu, biólogo e estudante universitário de Porto Alegre - RS

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neo - ateismo

A historia passada a limpo

Texto por Julia Magalhaes

Nem todo ateu é um neo-ateu. Mais radicalmente anti-religiosos, os novos ateus não se destacam por argumentos novos, mas pela militância extrema

H

á 30 anos, as críticas aos ensinamentos religiosos já figuravam nos bastidores acadêmicos em livros e periódicos, material publicado que era chamado, genericamente, de movimento racionalista. Atualmente, esse cenário mudou, com autores como Christopher Hitchens, Richard Dawkins e Sam Harris, publicando livros com ataques diretos à veracidade de doutrinas religiosas e pretensões morais de igrejas, a partir do ano de 2004. Desde então, o novo ateísmo adquiriu força e, com ela, há um público maior se organizando sob a bandeira do ateísmo. É o caso de Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira de Ateus (ATEA), que se define um fã de Dawkins: “Richard Dawkins é uma grande inspiração. Seu trabalho sacudiu o mundo e terá efeitos por muitas décadas ainda”, diz. Para Everton Lima Alves, ateu e estudante universitário de São Paulo, o trabalho de Dawkins o ajudou na escolha pelo ateísmo: “O livro ‘Deus, um delírio’ foi o primeiro que li ao deixar a religião e só reforçou meu ateísmo. De lá para cá, venho lendo outros livros dele e de outros autores. Quando eu ainda estava na religião, diziam que os filósofos, cientistas e esse tipo de literatura eram coisas do demônio. O que eu vi foi ignorância por parte deles e pastores defendendo o seu emprego, o de ‘profissional da fé’”, conta. Assim como Daniel e Everton, a jovem atéia e estudante do ensino médio no Paraná, Renata Freitas, de apenas 16 anos, vê efeitos positivos na expansão do conhecimento do ateísmo feita pelo biólogo e cientista: “Vivemos em uma sociedade em que os cristãos podem pregar na casa dos outros no domingo de madrugada. Mas se um ateu fala os motivos pelos quais é ateu, muita gente cai em cima dele. Richard Dawkins tornou o ateísmo mais acessível e, assim como ele, eu.

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acredito em um mundo melhor sem crenças” Bernardo Tomaz, ateu e professor de matemática do Espírito Santo, apóia a divulgação do ateísmo feita pelos neo-ateus: “Acho a postura dos neo-ateus válida e aprovo iniciativas como a campanha ‘Ateu, mostre sua cara’, pois, por muito tempo fomos vistos como imorais e cruéis”, diz. Alguns ateus reagem de forma negativa ao neoateísmo por causa da maneira agressiva como os membros do movimento impõem seus pontos de vista, a fim de declarar sua não-crença em Deus e de livrar o mundo de crenças e práticas religiosas. Com a opinião dividida, Guilherme Roesler, ateu, biólogo e estudante universitário de Porto Alegre, critica a opinião radical do cientista em certos aspectos: “Richard Dawkins, como biólogo, é excepcional e tem uma carreira invejável. Como divulgador da ciência, é muito bom. Entretanto, sua postura radical (que eu vejo como um contraponto aos religiosos radicais) mancha esse trabalho. Isso torna cientistas mais ponderados, como Carl Sagan, melhores divulgadores da ciência. Mesmo assim, vejo como algo positivo na postura de Dawkins. Ele força um diálogo que nem sempre existiu. Espero que isso abra caminho para mais discussão, e uma postura mais ponderada no futuro”, explica. Já o presidente da União Nacional dos Ateus, a UNA, Marcelo Ronconi, defende que a pretensão de Dawkins em ensinar o ateísmo, não é a melhor saída para a conscientização da sociedade quanto ao tema. “Combater o preconceito, o obscurantismo religioso e a intolerância? Eis uma luta legítima. Mas tentar ensinar o ateísmo? Como se fosse uma cura de alguma coisa? Acho que esse não é o caminho. O ateísmo sempre incomodará, e isso não transparece na face de muitos neoateus justamente porque eles consideram-se felizes ao pregar uma verdade; em suma, é a

alegria doente do fanático”, diz.

Sem fronteiras: os jovens e o ateísmo O maior indicativo de que a quantidade de jovens ateus cresce em todo mundo, e também no Brasil, é a Internet. Através de redes sociais e blogs, esses meninos e meninas encontram um lugar para trocar pensamentos. Em uma pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, a FGV-RJ, o número de jovens católicos apresentou uma queda expressiva. Na faixa etária de 15 a 19 anos, eles passaram de 75% em 2003 para 67% em 2009. Em 2003, a pesquisa nacional Perfil da Juventude Brasileira foi realizada pelo Projeto Juventude em parceria com o Instituto Cidadania. Os resultados desse estudo já abordavam as mesmas tendências.

Leia ouvindo Caubói fora da Lei Raul Seixas http://www.youtube.com/ watch?v=23EO7sDO9Lw

Jovens Ateus Muzak http://www.youtube.com/ watch?v=DmeruL4HW3c


Diferenciando-se das outras, essa pesquisa não indagou sobre religião através de uma pergunta aberta. A pergunta oferecia opções separadas como: agnósticos, ateus e quem acredita em Deus mas não tem religião. Enquanto 65% dos jovens entrevistados nesta pesquisa em todo o país se declaram católicos, 20% se declaram evangélicos (sendo 15% pentecostais e 5% não pentecostais). E foram 10% os jovens sem religião, sendo que 9% declararam acreditar em Deus mas não ter religião, enquanto apenas 1% identificaram-se como ateus e agnósticos. Entre os quais, 69% são homens, e 31% são mulheres, no âmbito dos 3.500 entrevistados. Os ateus e agnósticos, nesta mesma pesquisa, não estão predominantemente nem entre os jovens mais jovens (de catorze a dezessete anos), e nem entre os jovens mais velhos (de 21 a 24 anos); 50% deles estão na faixa etária intermediária (de dezoito a vinte anos). Mais recentemente, segundo uma pesquisa do Instituto Datafolha, de 2008, os jovens ateus brasileiros correspondem a ainda correspondem 1%, mas de quem tem de 16 a 25 anos. Em países como os Estados Unidos, o número de ateus dobrou em um período de 18 anos, chegando a 2,35 milhões atualmente. A partir da pesquisa feita pela Trinity College, que fica em Hartford, no Estado de Connecticut, constatou-se que, nesse tempo, houve o mesmo fenômeno com os agnósticos. No total, as duas categorias representam 4,7 milhões ou cerca de 1,5% da população. Trata-se de um grande avanço levando-se em conta a forte tradição religiosa dos Estados Unidos. Outra mudança notável foi o rápido crescimento da Aliança de Estudantes Secularistas (SSA – Secular Student Alliance) prova que hoje os jovens consideram o secularismo como um aspecto importante e fundamental de sua identidade. O grupo de proteção para o ateísmo e humanismo, que é organizado em campus universitários dos Estados Unidos, agora também está presente em escolas de ensino médio. Pensando nisso, a americana Samantha Stein criou há 15 anos, nos Estados Unidos, um acampamento de férias para crianças e adolescentes ateus de até 17 anos. Depois de mais de 20 edições do evento, o Camp Quest ganhou, há dois anos, uma filial na Grã-Betanha. O projeto tem o apoio de Richard Dawkins e o objetivo de incentivar os jovens a desenvolver um pensamento crítico, sem doutrinação. Tudo isso aliado à diversão com atividades de lazer. No acampamento, eles realizam também uma gincana chamada “desafio do unicórnio”. Os jovens são informados de que no local vivem dois unicórnios, que não deixam rastros nem podem ser vistos, ouvidos, tocados ou cheirados. Vence o desafio quem conseguir provar que os tais animais não existem. É um exercício inspirado na dificuldade que a ciência tem de provar que uma coisa não existe. Segundo os

ateus, essa “coisa” é Deus. O prêmio é uma raríssima nota de 10 libras, que traz a efígie de Charles Darwin e que foi autografada por Dawkins. Mas até hoje ninguém conseguiu levar o prêmio para casa.

ateus deve acabar. Na experiência de transição para o ateísmo, ele diz estar cansado de ser discriminado: “Chegou uma hora em que tudo o que eu lia sobre religiões parecia apenas fábula. Eu tinha dúvidas que me levaram a pensar que tudo não passa de criação do homem. As pessoas religiosas têm a péssima mania de achar que se você não tem religião, você não pode ser feliz, você é incompleto, e uma pessoa ruim. Ao revelar meu ateísmo, passei por diversas situações onde amigos começaram a ficar com medo de mim. Outras pessoas, como minha mãe, acham que é apenas uma fase, e meu pai já ficou muito bravo algumas vezes achando que eu era satanista. Eles acabaram aceitando, mas tem pessoas na minha família que, se souberem da minha escolha, provavelmente não falarão mais comigo”, conta.

Para ler

Livro: “Deus não é grande”, de Christopher Hitchens

Chega de intolerância Para o ateu e instalador de TV a cabo de 30 anos que mora em Santos, Marcelo Rodrigues Coelho, a intolerância entre as religiões e em relação aos

Como a religião envenena tudo. Baseado nos mais importantes textos sagrados, este livro documenta como o conceito de Deus é um reflexo do nosso medo da morte. Um conjunto de dogmas responsáveis por uma severa repressão sexual e distorções sobre a evolução do homem e do cosmos.

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O silêncio é quebrado pelo alerta de mensagem online. Em um primeiro olhar, parece uma conversa casual entre dois jovens, mas limitar a situação desse modo chega a ser injustiça. O interesse vai além: Alberto Cezar Júnior é o escolhido para compor o perfil de um jovem ateu brasileiro. A surpresa pareceu não abalar o garoto de 20 anos que mora em João Pessoa e, apesar da distância que os separa, ele topou conceder a entrevista. Estudante de engenharia mecânica na Universidade Federal da Paraíba, Alberto (ou Beto, como prefere ser chamado) é um exemplo de novo ateu. Ele já passou por fases de descobertas: foi católico, protestante e deísta, assim como Albert Einstein foi certa vez, mas seus questionamentos o levaram a pensar diferente e fizeram com que se apaixonasse pela ciência.

“ Ausência de evidência não é evidência de ausência” Athéos: Como se tornou ateu?

Athéos: Sua família aprova seu ateísmo?

Beto: “Comecei a estudar as idéias principais por trás das religiões e ainda faço isso até hoje. Então, eu larguei a religião e passei a acreditar unicamente em um Deus, porém, em um Deus que intervém. Nunca questionei a possível inexistência de Deus, apenas questionava no que acreditar acerca desse Deus, procurava uma personalidade divina. Porém, depois de estudar Voltaire e começar a estudar ciência na Universidade, eu percebi que não precisava ser um Deus criador, com tantas personalidades como os das religiões. Foi Spinoza que me fez apreciar o universo como único e divino ao mesmo tempo. Eu não precisava mais imaginar algo além da ciência, apenas acredito em um universo autoconsciente. Essas idéias permanecem até hoje comigo. Acredito que a consciência é fruto da complexidade, afinal, somos parte de toda a matéria contida no universo e nos julgamos seres conscientes. Hoje sou ateu, mas levei alguns anos pra amadurecer isso”.

Beto: “Grande parte da minha família desconhece meu ateísmo, e prefiro que continue assim, por eles serem muito religiosos, não vejo motivos para criar caso mostrando meu ateísmo. Não que eu o nego, mas acho que quem fala demais quer aparecer. Não tenho motivos para propagar minha descrença, até porque não vivo a cultuar nada. Para os mais próximos, eu sou conhecido como cético, como a pessoa sem religião, e sou aceito. Porém, as insistências para eu procurar uma religião são constantes. Como gosto de estudar religiões, eu estou constantemente freqüentando uma igreja católica e um centro espírita, mas só pra fins de conhecimento, vou com muitas perguntas e costumo sair sem nenhuma resposta, costumo sair mais ateu do que quando entrei, mas respeito as religiões”.

O estudante percebeu que o preconceito contra ateus afeta muitas pessoas, e que há uma confusão por parte da população entre os conceitos de satanista, umbandista e ateu, por exemplo. “As pessoas não estão prontas para ouvir a palavra ateísmo. Lembro bem das últimas eleições para governador no meu Estado, em 2010, quando, no segundo turno, o candidato que vinha perdendo nas pesquisas apelou para a intolerância

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Athéos: O que mais te incomoda nas religiões? Beto: “Alguns rituais, tradições, a suscetibilidade para charlatanismo e a propagação de intolerância e ignorância. Rituais que causam dor física ou podem trazer transtornos psicológicos também. As tradições a que me refiro são as que limitam as pessoas a uma obrigatoriedade cíclica dentro da religião dela, seja com quem elas têm que casar ou com quem elas têm que conviver no dia a dia. As religiões se tornaram uma boa maneira para fazer dinheiro fácil na mão de charlatões que enganam milhares de pessoas. Formadores de

opiniões que, muitas vezes, não precisam nem sequer de uma escolaridade para interpretar um livro tão divergente como a bíblia, por exemplo, muitas vezes disseminando o ódio e a ignorância cientifica”. Athéos: Como avalia o trabalho de Richard Dawkins e a postura dos neo-ateus? Beto: “A palavra neo-ateísmo está muito impregnada com preconceito. Eu não sou fã de Richard Dawkins e não concordo com tudo o que ele afirma em seu livro “Deus, um delírio”, mas o que as pessoas têm que perceber é que o ateísmo não é uma religião, não tem doutrinação ou ensinamento, nem tem pregações de moralidade; o ateísmo apenas se resume na descrença em divindades. Os motivos que levaram alguém a ser ateu, divergem de um ateu para o outro. Eu vejo o Dawkins como um ‘publicitário do ateísmo’, e isso é bom no aspecto de luta contra o preconceito, para os ateus saírem do armário, para mostrarem que não têm medo de se assumirem como ateus, que a Inquisição é passado, e que vivemos verdadeiramente num estado laico de liberdade, apesar de que na prática não é bem assim. Então costumo ver os neo-ateus como pessoas que lutam para mostrarem seus direitos de liberdade e que querem quebrar o paradigma de que é errado ser ateu. Existem alguns que se declaram neo-ateus e acabam disseminando a intolerância quanto às religiões. Eu sou contra esse tipo de intolerância propagada em nome do neo-ateísmo, mas


sou a favor das campanhas para mostrar que somos boas pessoas como pode ser qualquer religioso”. Athéos: Religião cria moralidade? Uma pessoa sem religião pode ser moralista? Beto: “Religião pode ser formadora, sim, de moralidade, mas não é a única fonte de moralidade. O ateísmo não é fonte de moralidade, por que ser ateu não define caráter, não define ética, não define moral. Ser religioso, na prática, também não, mas eles possuem ensinamentos que nem todos seguirem à risca, enquanto o ateísmo não possui ensinamentos. Os ateus são livres pensadores, pois buscamos formar nosso caráter moral dentro de nossas próprias filosofias de vida, independente de qualquer que seja a fonte: seja pelo comportamento natural, lógico, de tradições, cientifico, ou outros. Então, uma pessoa sem religião é perfeitamente livre para formar seu próprio caráter moral, diferente de um religioso que costuma se limitar dentro de um caráter pré-estabelecido”. Athéos: E se você estiver errado? Beto: “Se um cristão está certo, então um muçulmano está errado. Eu duvido da existência de um Criador, da mesma forma que duvido da existência de divindades por falta de evidências para crer nelas. Afinal, ausência de evidência não é evidência de ausência”.

Para ver

Vídeo: A moralidade cristã é psicótica e psicopática? Sam Harris, Legendado http://www.youtube.com/watch?v=5q5ARceWgJY

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opiniao

A visao religiosa do ateismo

Texto por Maurilio Carvalho

As religiões atravessaram gerações, se adaptaram ao apelo social e conseguiram chegar aos dias de hoje. Nos últimos anos, pesquisas apontam que o número de pessoas que se consideram sem religião aumentou em todo o mundo. Uma parcela relevante de ateus entre a população mostra uma nova realidade também no Brasil.

A

través de uma leitura atenta da bíblia é possível encontrar a palavra ímpio, que é designada para os que são contrários à religião (para os ateus, incrédulos e irreligiosos), em passagens bem amedrontadoras, como no livro do Antigo Testamento Naum 1:15: “Eis sobre os montes os pés do que traz as boas novas, do que anuncia a paz! Celebra as tuas festas, ó Judá, cumpre os teus votos, porque o ímpio não tornará mais a passar por ti; ele é inteiramente exterminado.” Ou em Provérbios 3:33 “A maldição do Senhor habita na casa do ímpio, mas a habitação dos justos abençoará”. Para o jornalista, teólogo e responsável pelo departamento de comunicação da Cúria Diocesana de Santos, Francisco Surian, a bíblia não é um livro para ser lido ao pé da letra. “Não é possível ler um texto bíblico como se lê um texto jornalístico, ou um romance, ou achando que estamos diante de um relato histórico. O texto bíblico, por vezes, fala de situações de forma figurada. É preciso entendê-las antes de condená-las”, diz.

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Existem religiosos que buscam o enfrentamento através da diversidade de pensamentos, ou seja, pensamentos que diferem dos seus e que fujam do “lugar comum”. Olavo de Carvalho possui essa visão de mundo. O jornalista detém um programa de rádio na Internet e também um canal no site Youtube, onde comenta sobre assuntos polêmicos e em evidência na sociedade, com suas opiniões ácidas. Em um vídeo, intitulado “O ateísmo é uma ideologia imoral e assassina”, Carvalho explica o motivo de ser contra a não-crença. “Os movimentos ateísticos em duas ou três décadas mataram mais gente que todas as guerras de religião haviam matado em toda a Terra desde o início dos tempos. O ateísmo militante surge como ideologia assassina, sim! Isto é um fato que ninguém pode negar”, declara. O jornalista também afirma não existir nenhuma lei que evite que as pessoas tenham preconceito contra ateus, e que o ateísmo militante é uma filosofia assassina que degradou a moral humana. O também filósofo, assumidamente da extrema direita, coloca o ateísmo e o comunismo na mesma frente, esquecendo das suas diferenças: o comunismo se caracteriza por

um programa de gestão de Estado e o ateísmo se caracteriza pela não-crença em uma entidade superior. Indo contra a corrente de pensamento de Olavo de Carvalho, o jornalista teísta Carlos Alberto Di Franco, representante de universidade espanhola de Navarra no Brasil e membro da Opus Dei, não é contra o ateísmo, mas é firme em suas convicções sobre a existência de um ser superior. “Estou convencido de que mundo e a vida só podem ser explicados - com seus dramas e tragédias, com suas grandezas e misérias - a partir de uma inteligência criadora”, afirma. Di Franco acredita que uma opinião não descaracteriza ou diminui a corrente contrária. “Creio que o verdadeiro sentido da vida, a terceira dimensão, só é dada por Deus. Mas minha opção não implica em qualquer julgamento aos ateus. Tenho amigos, bons amigos, que são ateus”, conta. O fato de as leis do País oferecerem respaldo aos seus cidadãos através do princípio da igualdade, não livra os ateus de passaram por situações dis


fazem oferendas com seres humanos e animais. A religião criou moral neles? É assim também nos cursos de direito, de jornalismo, de medicina ou em qualquer outro segmento da sociedade. Tudo depende do indivíduo. A religião cria moral assim como uma boa universidade, o exército, um bom emprego, e um bom esporte. Também acredito que uma pessoa sem religião pode ser moralista, é claro! Tudo depende do ser humano, de sua formação sócio-cultural. Eu posso ser moralista, honesto e multiplicador de boas ações, mesmo sem ter uma religião específica”, declara.

Para ver

Stigmata

Joana D´arc

1999. Dirigido por Rupert Wainwright, com Patricia Arquette.

1999. Dirigido por Luc Besson, com Milla Jovovich, Dustin Hoffman, Faye Dunaway e John Malkovich.

O filme conta a história do padre cientista Andrew Kiernan, que é mandado pelo Vaticano a uma cidade fictícia no Brasil para investigar uma santa que chorava lágrimas de sangue na igreja da cidade após a morte do padre responsável pela igreja. Um terço roubado do padre morto por um garoto gera uma sucessão de fatos em que uma cabeleireira americana descrente começa a ter estigmas que, normalmente, são evidências que surgem em pessoas bastante religiosas.

Em 1420, Henrique V e Carlos VI assinam o Tratado de Troyes, declarando que após a morte de seu rei, a França pertencerá a Inglaterra, devido a uma intensa guerra entre os dois países. Porém, ambos os reis morrem e Henrique VI é o novo rei dos dois países, mas tem poucos meses de idade e Carlos (John Malkovich), o herdeiro do trono francês, não deseja entregar seu reino e força uma invasão inglesa. Joana surge e diz que está em uma missão divina para libertar a França dos ingleses. Carlos resolve lhe dar um exército, ela recupera Reims e o herdeiro é coroado Carlos VII, mas o futuro reserva um triste fim a Joana.

criminatórias na vida em sociedade. Em 2008, a Fundação Perseu Abramo realizou uma pesquisa em que entrevistou mais de duas mil pessoas para saber por quais grupos sociais os brasileiros sentiam mais aversão. Foi constatado que a antipatia aos ateus (25%) é maior do que aos usuários de drogas (24%). “Pessoas, individualmente, costumam adotar o preconceito por algumas religiões. Mas estas mesmas pessoas possuem o direito de ter sua própria religião. Então, é possível dizer que o Brasil é laico na prática”, expressa o jornalista cristão Marcelino Silva. Em entrevista concedida este ano para a revista Playboy, o músico Nando Reis assumiu ser ateu e recebeu inúmeras críticas na Internet de pessoas que têm um credo definido. Para o padre Antônio Castilho, da Paróquia Maria Imaculada, localizada em Santos, existe um movimento de enfraquecimento da religião. “Vejo que existe uma propaganda maciça contra a religião da mesma forma que vejo uma exploração da crendice da população”, observa.

Moralidade e (falta de) religião Muito se discute entre religiosos e ateus se a religião é formadora de moral na sociedade e se a

ausência dela acarretaria em uma falta de referência das pessoas, que buscam construir uma identidade. Para a cristã e psicóloga que atua em Santos, Maria Fernanda Marcondes de Moura Neves, a religião não define caráter. “Na sociedade ideal, a pseudo-sociedade, somos um País de maioria cristã. Mas cristãos praticam barbaridades e maldades. Existem os mandamentos da bíblia, mas o cristão também pode matar”, diz. O pastor da igreja universal e vereador de Guarujá pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB), Luiz Carlos de Paula Coutinho, acredita na construção moral do indivíduo por várias condições, com a devida estima. “Cada um na sua fé, respeitando as diferenças e a liberdade de cada cidadão. Acredito que a moral de um povo está relacionada a inúmeros fatores, sendo apenas um deles a religião. Afinal, um ateu pode ser alicerçado em outros princípios, como costumes, leis e educação”, argumenta. Já o jornalista teísta Marcelino Silva acredita que não é só por meio da religião que pode existir moralidade. “A religião cria moral sim, mas tudo depende do ser humano, da índole do indivíduo. Veja os exemplos dos padres pedófilos, dos pastores que roubam os fiéis, dos espíritas que

Religião e Saúde O que os esquizofrênicos têm a ver com religião? Aparentemente, nada. Mas a causa de muitas doenças psicológicas pode estar ligada ao fanatismo religioso ou à pressão sofrida pelo indivíduo que freqüenta cultos para que este se adéqüe à realidade social e cultural infringida por determinadas religiões. Em um estudo realizado pelo Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) publicado em 2007 na Revista de Psiquiatria Clínica da Universidade de São Paulo (USP), intitulado “Estudos sobre religião e saúde mental realizados no Brasil: histórico e perspectivas atuais”, uma pesquisa foi feita no Estado de São Paulo, em 2000, na qual, durante um ano, 21 jovens que tiveram surto psicótico, do tipo esquizofrênico foram avaliados. O cotidiano deles foi acompanhado por meio de visitas periódicas às suas casas e também às instituições religiosas que freqüentavam. A maior parte desses jovens buscou auxílio em igrejas pentecostais e, em algumas situações, tal busca religiosa, em vez de aliviar o sofrimento, piorou o convívio social e psíquico do indivíduo. Segundo a psicóloga Maria Fernanda Marcondes a fé é muito importante, mas com é preciso que um certo cuidado seja tomado para que esta não se torne maléfica. “A espiritualidade é importante, tanto quanto cuidar do corpo. É importante ter fé, mas acho que depende muito de pessoa para pessoa, pois o fanatismo não pode existir em nada. As pessoas têm que ter a medida de até onde elas devem acreditar”, diz. Partindo do contexto social, Maria destaca o desenvolvimento humano a partir da criação na religiosidade. “Se ele nasce em uma família que embora acredite em Deus, mas não use a fé como ponto essencial para a solução dos problemas, a criança vai crescer e não vai achar a religião tão importante. Não existe nascer bom ou nascer ruim, seres humanos são produtos do meio cultural e de famílias com valores morais e éticos, como a bondade”, avalia.

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Em uma sociedade pluralista em todos os sentidos, como a brasileira, os jovens convivem com diferentes tipos de crenças e não crenças. Buscar modelos no bem comum e no respeito mútuo pode ser a saída para um bom convívio em grupo.

Para ler ouvindo

“Sempre há religiosos que tentam converter os que não são, e sempre há ateus que ficam debochando dos religiosos por acreditarem em coisas que eles não acreditam, ou seja, ambos os lados são intolerantes. Se houvesse respeito poderia haver harmonia” Lucas Lincoln espírita e estudante universitário de Londrina – PR

Hotel California - Eagles http://www.youtube.com/watch?v=OcGWCE_ECOg

“Não prego a religião, por isso não critico os ateus. As atitudes é que condizem com o condicionamento moral do ser humano e que demonstram quem as pessoas realmente são. Independente de crença ou não, são as atitudes que valem” Manuela Fernandes Costa espírita e estudante universitária de Santos

Para ler

“Eles não têm religião, não acreditam em nada, ou seja, vivem sem fé. Quando o mundo acabar, eu acredito que os ateus vão se deparar com uma verdade e muitos vão se arrepender de não ter acreditado em Deus” Jéssica Santos evangélica e estudante universitária de Santos

Por um fio “Todos nós somos livres em nossas escolhas e acreditar ou não acreditar em um Deus é por conta de cada um. Considerando que sou crente, do meu ponto de vista, cedo ou tarde um ateu buscará acreditar em uma força superior, ou pelo amor ou pela dor. Sou santista e estou morando na Malásia atualmente, e é muito diferente manter a religião aqui, pois convivo com indianos budistas e muçulmanos, e eles não são muito tolerantes. O islamismo impera e eu sou obrigada a ouvir as rezas deles todos os dias em megafones espalhados pela cidade. Eu não sou discriminada por ser católica, mas se você for malaio ou muçulmano tem benefícios, como descontos na compra de mercadorias”

de Dráuzio Varella Em mais de 30 anos de experiência com doenças graves, o médico Dráuzio Varella, autor de Estação Carandiru, buscou mostrar histórias importantes que conseguem mostrar as nuances do comportamento dos pacientes e seus familiares com a proximidade da morte.

Janaina Santos católica e analista contábil de Kuala Lumpur (Malásia)

“É um absurdo não se ter religião, pois é sempre bom ter uma crença, rezar e acreditar que Deus existe. Isso melhora o espírito das pessoas que precisam acreditar em algo. Se você está passando por uma situação difícil o que vai fazer? Rezar e pedir ajuda. Quem não tem crença faz o quê? Acredito que os ateus sejam reservados, desiludidos e isso pode fazer eles se fecharem” Caroline Trevisan católica e estudante universitária de Santos

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Revista Planeta Editora Três http://www.terra.com.br/revistaplaneta/


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midia

O ateismo em pauta

Texto por Maurilio Carvalho

Para difundir seu pensamento e agregar outras pessoas com visão semelhante, alguns ateus criaram blogs, comunidades em redes sociais e canais no site de hospedagem de vídeos Youtube para expressar suas idéias. Às iniciativas, também se incluem a criação de revistas digitais.

M

ário nunca gostou de religião, mas não sabia o porquê exatamente. Quando tinha por volta de cinco anos de idade, sua avó fez uma promessa que ele teria que pagar: o garoto se vestiria de anjo para realizar uma romaria pela cidade de Aparecida, no interior de São Paulo. Desconfortável com a situação, a criança se recusou até o último momento a vestir a roupa até ser convencido sob ameaça de levar umas boas palmadas. A partir deste episódio, Mário cresceu e seus questionamentos também, de forma a buscar respostas coerentes sobre as crenças e o que as envolve. Hoje, Mário Cesar Araújo é ateu e se tornou presidente da organização “Livre Pensadores” e bacharelado em Ciências da Computação. Ele produz a revista digital Livre Pensamento, que é totalmente gratuita e tem os intuitos de informar e diminuir a intolerância: “Tentar espalhar conhecimento de qualidade, com teor científico, enfim, tentar conscientizar um pouco as pessoas da realidade”, diz Araújo, que espera gerar lucro à

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revista no futuro através de anunciantes.

Os ateus na mídia

Outra revista disponível na web é a do site Ateus. net, na qual o conteúdo é alimentado pelo formato wiki, ou seja, que conta com a colaboração dos internautas. Os textos têm como temática principal o ateísmo e são primeiramente analisados pelos responsáveis do domínio virtual antes de serem publicados na revista digital.

Os grandes veículos de comunicação realizam constantemente reportagens especiais sobre o ateísmo. Um exemplo disso foi a revista Veja que, em 2007, publicou uma matéria sobre uma cidade com apenas 7.000 habitantes no interior da Bahia. Segundo o censo demográfico do IBGE, realizado em 2000, 59,85% da população de


Nova Ibiá se declarava sem religião. Herdando a fama de cidade mais atéia do Brasil, os habitantes do local tentavam se livrar do rótulo. A reportagem também destacou o preconceito sofrido pelos ateus no Brasil, considerado um dos países mais religiosos do mundo. Em pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Transporte (CNT/ Sensus) em 2007, encomendada pela própria revista, apenas 13% dos brasileiros entrevistados votariam em um candidato à presidência descrente. Em outras suposições foi perguntado se os entrevistados votariam em um negro para a presidência e 84% disseram que sim. Quando a pergunta foi se votariam em uma mulher, 57% foram a favor. No caso de um candidato homossexual, 32% das pessoas pesquisadas votariam sem problemas. Em uma matéria da revista IstoÉ de janeiro de 2009, foram mostradas as campanhas em prol dos ateus no Reino Unido. A atéia britânica Ariane Sherine leu em um site evangélico que “quem rejeita o nome de Jesus passará toda a eternidade em tormento no inferno” e resolveu criar a propaganda: “Deus provavelmente não existe. Agora, pare de se preocupar e aproveite a vida”. Uma organização filosófica humanista de Londres comprou a idéia e arrecadou fundos para promover a frase em locais públicos. A campanha teve grande repercussão e foi copiada em outros países. A reportagem também cita a Associação Brasileira de Ateus (ATEA), o crescimento do número de ateus, o preconceito sofrido por eles, e os movimentos nas redes sociais pelo diálogo aberto sobre o tema na sociedade.

poderia ter sido obra de um ateu: “Um ser humano crente em Deus não pode ter sido o executor de tal barbárie”, disse. Após esse comentário, o jornalista lançou ao vivo, em rede nacional, uma enquete em que perguntava aos telespectadores se eles acreditavam ou não em Deus. Quando o número de pessoas que se declaravam descrentes passou de mil, Datena soltou mais declarações preconceituosas: “Como nós temos mais de mil ateus? Aposto que muitos deles estão ligando da cadeia, só pode ser! Quem é ateu pode desligar a televisão e mudar de canal, pois eu não faço questão que nenhum deles assista ao meu programa”, afirmou. Em setembro do mesmo ano, a ATEA entrou com um processo judicial contra Bandeirantes e contra o apresentador pelas ofensas aos ateus e, na época, instruiu seus associados a usarem a ferramenta de microblog Twitter para fazerem campanha contra Datena, escrevendo mensagens com a hashtag #CalaBocaDatena. O acontecimento foi noticiado, na época, pelo site Portal Imprensa e pelo jornal Agora Sao Paulo. Em resposta ao apresentador, muitos vlogers, como Daniel Fraga

e Arnaldo Taveira, criaram vídeos nos quais manifestaram sua indignação. Um caso mais recente aconteceu no dia 18 de agosto deste ano. O Ministério Público Federal (MPF) moveu um processo contra a emissora Rede TV! e contra a Igreja da Graça de Deus, devido ao programa religioso “O profeta da Nação”. O MPF acusou o pastor João Batista por incitamento à intolerância religiosa ao atacar os ateus. “Quem não acredita em Deus pode ir para bem longe de mim, porque a pessoa que chega para esse lado, que não acredita em Deus, é perigosa. Ela mata, rouba e destrói. O ser humano que não acredita em Deus atrapalha qualquer um”, disse o pastor durante o programa exibido no dia 10 de março de 2010. Colunistas como Cristina Padiglione, do jornal Estadao, e Lauro Jardim, da revista Veja, repercutiram o acontecido, que também foi o assunto de diversos vídeos na Internet, postados por alguns vlogers, dentre eles, Yuri Grecco, responsável pelo canal do Youtube “Eu, ateu”. Todos os vídeos se referiam a críticas ao pastor em questão.

No mesmo ano, a revista Época, em edição do mês de dezembro, chamou em sua capa uma matéria com o título: “Sete mitos sobre Deus: um novo livro desvenda a persistência da fé e expõe a fragilidade dos ataques recentes à religião”, em que eram questionadas as idéias dos neo-ateus sobre Deus. No mesmo mês, a ATEA enviou carta aberta à redação da revista em reposta, criticando a forma como a reportagem foi feita, sem proporcionar direito de resposta aos ateus e sem sequer ter entrevistado algum.

Organização mostrando força Além de utilizarem a Internet para expor seus pensamentos, os ateus também encontram nesse meio de comunicação uma maneira de se manifestarem quanto ao preconceito que sofrem. Existe um limite entre a liberdade de expressão e o preconceito. Alguns casos alcançaram grande repercussão na mídia, como o das declarações feitas pelo jornalista e apresentador da emissora de TV Bandeirantes, José Luiz Datena, em julho de 2010. Datena noticiava em seu programa, o “Brasil Urgente”, quanto a um crime em que um idoso foi enterrado vivo, e declarou que tal ato só

Para ler ouvindo

Los Angeles is burning Bad Religion

Falsos Valores Fitacola

http://www.youtube.com/ watch?v=BxoD9zWY9Rg

http://www.youtube.com/ watch?v=fZOX_Rc9GMw

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Da Internet para a TV...

... E da TV para a Internet!

Com a ajuda da Internet, ateus convictos se tornaram ícones pop e alcançaram o estrelato, chegando ao grande público da TV. Felipe Neto, criador do canal do Youtube “Não faz sentido”, alcançou notoriedade na grande rede por suas opiniões e conquistou, em 2010, o troféu de Web Star (que significa, em tradução livre, estrela da Internet) no Video Music Brasil, premiação da emissora MTV brasileira. No final do mesmo ano, Neto estreou um programa no canal Multishow chamado “Até que faz sentido”, em que ele vai às ruas questionar a população sobre situações do cotidiano. Outro ateu que se utilizou da Internet para expor suas idéias, foi o jovem PC Siqueira. Através dos vídeos que posta em seu canal, também no Youtube, chamado “Mas poxa vida”, ele conquistou o público com seus comentários e opiniões peculiares sobre a sua vida e sobre notícias diversas. O resultado disso foi que Siqueira ganhou um programa semanal no canal MTV, chamado “PC na TV”, onde comenta de forma bem humorada as notícias em destaque na mídia.

Na cidade de Austin, no Texas (EUA), mora o ateu Matt Dillahunty, educado em uma família evangélica batista, e criador e apresentador de um programa da TV a cabo que vem chamando a atenção pelo barulho que faz: “The Atheist Experience”. Em uma primeira passada de olho, o telespectador desatento pode achar que se trata de mais uma atração onde as pessoas ligam para obter uma palavra de conforto proveniente da bíblia. Mas o equívoco será percebido no primeiro minuto em que assistirem a atração. “The Atheist Experience” foi criado em 1997 pela Comunidade Ateísta de Austin, entidade educacional sem fins lucrativos e presidida por Matt, e é um programa semanal de debate quanto ao ateísmo e quanto a diversos temas relacionados à religião. Devido ao grande sucesso, o programa foi compartilhado em vídeo através do Youtube, e ganhou bastante audiência, principalmente entre os ateus brasileiros.

Ateismo na blogosfera Paulopes.com.br

É o blog do jornalista Paulo Roberto Lopes, onde são publicadas notícias sobre o ateísmo e fatos curiosos quanto às religiões. Lopes, que é ateu, usa como fontes notícias veiculadas em outros meios de comunicação, desde o rádio e o jornal impresso até a televisão, para publicar seu conteúdo, como vídeos produzidos por ele relacionados às matérias. O jornalista posta as atualizações do seu blog no grupo “Livre Pensamento”, que está disponível na rede social Facebook. Onde encontrar: http://www.paulopes.com.br/

Tropas dos Lanternas Verdes

Os ateus Bernardo Lopes (o Professor Be), Lucas Gaspar e Yuri Grecco iniciaram o projeto do blog, com clara inspiração no super herói da editora DC Comics. Além de falar sobre ateísmo por meio de vídeos, textos e tirinhas, o domínio virtual também faz críticas sociais, aborda teorias diversas, e fala de conteúdo geek, como jogos de vídeo game e de RPG. Onde encontrar: http://tropalanternaverde. blogspot.com/

Bule Voador

Blog oficial da Liga Humanista Secular do Bra-

sil trata, além de questões ligadas ao ateísmo, sobre ciência, filosofia, humanismo secular e religião. Onde encontrar: http://bulevoador.haaan.com/

Banners que foram colocados em Porto Alegre e publicadas no jornal SUL21 em 5/7/2011

Voce precisa ver

Parte do programa da TV americana “The Atheist Experience” – legendado http://www.youtube.com/watch?v=nMlnht2OTH0&fe ature=player_embedded

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Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo da Universidade Santa Cecília

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