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Ano X nº 38 Jun/ Jul/ Ago2012

arquitetura, decoração, design, arte e estilo de vida

www.artestudiorevista.com.br

EQUILÍBRIO NADA DISTANTE ESPAÇO ABERTO

Restaurante aproveita relação direta com a rua e luz natural nesse projeto de Arthur Casas

Projeto de um apartamento buscou a integração perfeita entre os ambientes, no projeto de Caroline Andrusko & Eliza Schuchovski

ELEMENTO PRINCIPAL

A madeira e a pedra dão o tom numa casa projetada por Gilvane Bittencourt

REDUÇÃO DE CONSUMO

Consumo consciente de água e luz de um projeto em um condomínio leva a assinatura de Sandra Moura

AMPLITUDE VERDE

Projeto de Tharsiana e Silvana Freitas para uma casa privilegiou o espaço para receber parentes

E mais: Lelé, Zaha Hadid, a história do elevador e o melhor do estilo clássico e dos cristais

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Sumário

Jun/ Jul/ Agosto 2012

58

NOSSA CAPA

ARTIGOS VISÃO PANORÂMICA 12

Amélia Panet comenta o sonho da sustentabilidade

VIDA PROFISSIONAL 14

Eduardo Cop fala sobre marketing composto - mercadológico

VÃO LIVRE

16

ENTREVISTA

20

OPINIÃO PROFISSIONAL

94

Ligia Fascioni nos diz porque só o diploma não basta

ENTREVISTAS Elza Costeira fala sobre a arquitetura de centros culturais

3 profissionais comentam sobre a requalificação dos centros históricos no Brasil

CONVERSA FRANCA 98

Diretor do Iphaep, Marco Coutinho fala sobre o passado e o futuro

36

PROJETOS NACIONAL

28

CONSUMO CONSCIENTE

36

COM SOTAQUE

40

LAR, DOCE LAR

45

A FORÇA DOS MATERIAIS

50

NOSSA CAPA

58

ILUMINAÇÃO COMERCIAL

68

O centro cultural da UnB que guarda a obra de Darcy Ribeiro

24

Preocupação com o aproveitamento da água e da energia marca projeto de residência

Restaurante paulistano foi projetado para lembrar a Espanha

Arquiteta mostra o projeto da própria residência

O ponto de equilíbrio em uma casa cercada pelo verde

Apartamento em Curitiba buscou interação entre ambientes

Projeto para áreas comuns de um edifício pensou nos detalhes

50

40


Jun/ Jul/ Agosto 2012

DICAS & IDEIAS 32 AMBIENTAÇÃO

Como usar bem os cristais na decoração

45

80 A HISTORIA DE...

Como o elevador possibilitou o surgimento dos arranha-céus

CONHEÇA 18 LIVRO

Sete Plantas da Capital Paraibana – 1858 a 1940 recria quase um século de João Pessoa

78

24 GRANDES ARQUITETOS

Zaha Hadid, a angloiraquiana que é uma starchitect

32

74 ESTILOS

O clássico nunca sai de moda

78 ACERVO

A Casa do Artista Popular é uma bela residência da primeira metade do Século XX que virou um museu

84 EXPEDIENTE Diretora executiva - Márcia Barreiros Editor de redação- Renato Félix , DRT/PB 1317 Redatores da edição - Alex Lacerda, Débora Cristina,

Neide Donato, Larissa Claro, Renato Félix e Thamara Duarte

Diretor de criação - George Diniz Diretora comercial - Márcia Barreiros Arte e Diagramação - George Diniz / Welington Costa Fotógrafos desta edição - Diego Carneiro, MB, Tuca Reines e Cácio Murilo Assist. Produção - Túlio Madruga Impressão - Gráfica JB

A revista ARTESTUDIO é uma publicação trimestral, com tiragem de 8 mil exemplares de distribuição gratuita e dirigida. A reprodução de seus artigos, fotografias e ilustrações requer autorização prévia e só poderá ser feita citando a sua fonte de origem. As colaborações e artigos publicados e fotos de divulgação são de responsabilidade exclusiva de seus autores, não comprometendo a revista, nem seus editores. Contato : +55 (83)

3021.8308 / 9921.9231

c o n t a t o a r t e s t u d i o @ y a h o o. c o m . b r R. Tertuliano de Brito, 338 B - 13 de Maio, João Pessoa / PB , CEP 58.025-000

@revARTESTUDIO

Artestudio Márcia Barreiros

www. artestudiorevista. com. br

82 ARQUITETURA E ARTE

Em Batman, uma cidade construída em estúdio sob medida para o super-herói

84 VIAGEM DE ARQUITETO

Os prazeres e o exagero de Las Vegas

SOCIEDADE 88 EXPRESSÃO NACIONAL

O bom humor na carreira de Genival Lacerda

92 ESTILO DE VIDA

Zorilda de Medeiros Roque, cidadã do mundo.

As matérias da revista impressa podem ser lidas, também, no nosso site www.artestudiorevista.com.br com acesso a mais textos, mais fotos e desenhos de projetos


Editorial

Cada vez mais brasileira

Márcia Barreiros

Diretora executiva e arquiteta

George Diniz Diretor de criação

Wellington Costa Produção e diagram.

Diego Carneiro Fotógrafo

Túlio Madruga Assist. produção

O projeto da nossa capa é de Curitiba, capital do Paraná, na região Sul. Há outro, de um restaurante paulistano. Abordamos um, também, de Brasília: o já famoso Beijódromo. E há aqueles que são de João Pessoa, claro, sede da revista. Paraibana a ponto de levar a bandeira do estado na capa, a ARTESTUDIO também é cada vez mais brasileira. A cada edição procuramos trazer um pouco do que é a arquitetura em outros pontos do país – às vezes em obras já famosas, outras em projetos do dia a dia dos profissionais, as que não nasceram para serem pontos turísticos, mas para funções de igual importância: serem os nossos lares ou os locais onde trabalhamos. Por isso, a bandeira nacional também está em nossa capa (e se você nunca reparou nisso, pode procurar: elas estão lá). Mas esta edição traz até uma cidade inventada, que nasceu da imaginação de autores de histórias em quadrinhos. Inúmeros deles, ao longo de mais de 70 anos, contribuíram com suas visões para dar forma a Gotham City, lar de um dos super-heróis mais famosos do mundo da aventura. E ela ganhou mais vida ainda no filme Batman, de 1989, foco da seção Arquitetura e Arte desta edição. No que se refere ao estado, damos, como sempre, atenção tanto a projetos novos quanto àqueles que talvez mereçam novos olhares dos habitantes. É o caso da Casa do Artista Popular, um antigo casarão restaurado que fica na Praça da Independência. Marco do centro de João Pessoa, pelos quais diariamente milhares de pessoas passam – e muitas delas sem dar uma olhadinha para contemplar a beleza de suas linhas e imaginar a história que elas guardam. Mas a gente ajuda você, caro leitor, a buscar esse novo olhar. Boa leitura!

ARTESTUDIO

Colaboradores desta edição

Renato Félix Editor e Jornalista

Alex Lacerda Jornalista Débora Cristina Jornalista

Larissa Claro Jornalista Neide Donato Jornalista

Thamara Duarte Jornalista Amélia Panet Arquiteta

Edu Cop Publicitário Glaucus Cianciardi Arquiteto


Visão Panorâmica

Amélia Panet

arquiteta

Q

O sonho justo da sustentabilidade

uando me sentei para escrever este pequeno texto, num dia chuvoso da nossa ensolarada cidade, pensei no quanto sou feliz por ter uma casa confortável e um ambiente adequado para refletir e desenvolver as atividades que me interessam. Morar bem deveria ser efetivamente um direito de todos, mas parece ser apenas privilégio de alguns, representados por pouco mais da metade da população mundial. Logo me veio a lembrança de que “possivelmente” os mais sábios homens e mulheres da terra estivessem decidindo o destino do nosso “futuro sustentável” na Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. O conceito de desenvolvimento sustentável procura preservar o equilíbrio entre os objetivos do desenvolvimento econômico, da proteção ambiental, e da promoção do bem-estar social. A conferência, portanto, deverá estabelecer a nova agenda internacional para o desenvolvimento sustentável previsto para os próximos anos. Será que poderemos acreditar nisso? Será que teremos cidades mais justas num futuro próximo? Não existem cidades justas, sem homens justos. A justeza possui relação direta com a justiça, e a justiça depende dos homens. E como diz Marsilio Ficino, citado pelo arquiteto Giulio Carlo Argan, “a cidade não é feita de pedras, mas de homens”. Uma cidade

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é muito mais que suas ruas, edifícios, árvores, praças e monumentos. Ela é o resultado das relações sociais, dos fatos vividos, das experiências individuais, coletivas e, principalmente, das decisões políticas e da valorização humana atribuída nesse espaço e em seu tempo. A cidade é um sistema complexo formado por coisas visíveis e não visíveis, mas que possuem grande importância no sentir, ou nas sensações que podem provocar. Não se conhece uma cidade apenas pela visão, mas por todos os sentidos: pelo tato, pela audição, pelo olfato e pelo paladar. Os cheiros que emanam das ruas, dos parques, dos rios, as texturas das suas superfícies e volumes, a sensação do seu clima, a luminosidade das suas cores, os sabores da sua culinária, os ruídos e sons ao percorrê-la e o acolhimento do seu povo. São conjuntos valiosos que conferem identidade, significado e possibilitam o desenvolvimento das condições existenciais da vida humana. Mas não quero tratar aqui de uma cidade ideal, pois o ideal é relativo e depende da visão de mundo de cada um, não é um conceito coletivo. Quero tratar de questões relacionadas à justeza das cidades, direitos e deveres que dependem dos homens, que elaboram suas leis e que as colocam em prática. Justiça que confere equidade social, que possibilita a participação de todos nas decisões urbanas, que


persegue as metas construídas coletivamente e que aspiram futuros conciliadores. Esses podem ser desejados, planejados e construídos, pois uma cidade também é feita de sonhos e de ideias. Uma cidade mais justa, por sua própria natureza, é uma cidade sustentável, onde os pilares do desenvolvimento estão alicerçados em bases relacionadas à economia verde, à proteção ambiental e à equidade social. O Brasil ainda precisa avançar muito para tornar-se um país sustentável e consequentemente mais justo. Para apresentar apenas um aspecto que deve ser evitado se desejamos uma cidade mais justa, citamos a tomada de decisões contraditórias. Pouco se falou sobre as consequências na mudança de regras dos impostos para aquisição de carros individuais. As montadoras e concessionárias de carros comemoram o aumento das vendas dos automóveis que estavam encalhados nos pátios de todo o Brasil. A indústria brasileira depende tanto da indústria de automóvel que, sem esse aquecimento nas vendas, a economia corria perigo de colapso. Antes, porém, em 3 de janeiro deste mesmo ano, a presidente Dilma instituiu através da Lei no 12.587, as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana. Os municípios passaram a ter a obrigação de elaborarem seus planos de mobilidade urbana promovendo a integração entre os diferentes modos de transporte. Como diretrizes esses planos devem

estimular a eficácia e a eficiência dos serviços de transporte público coletivo, priorizando-os, assim como os modos de transporte não-motorizados. Com a decisão de baixar os impostos na compra de carros, teremos mais carros nas ruas e, consequentemente, mais ruas. Talvez seja fácil para alguém que tem um automóvel na garagem está falando sobre isso, mas essa não é a questão. A questão é que as cidades precisam, cada vez mais, oferecer o máximo de opções possíveis para que as pessoas possam escolher os seus meios de locomoção. Devemos ter a opção de pegar um transporte coletivo de qualidade e chegar ao nosso trabalho na hora certa, ou mesmo, sairmos de bicicleta com os nossos filhos sem correr o risco de sermos atropelados. Para que possamos ter opções, as decisões não podem ser contraditórias, a geração de empregos não pode depender apenas de uma categoria industrial e, principalmente, a ideia de cidade que desejamos deve estar clara e ser partilhada em todas as esferas de poder e no ideal de todo cidadão. O que seria uma cidade mais justa para nós? Eis a questão. Fotos: Divulgação e Amélia Panet

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Vida Profissional

Marketing composto -

Eduardo Cop

Profissional de marketing

A

pós apresentarmos a análise de cenários, vamos agora à apresentação do composto mercadológico. Mas, antes, um breve resumo sobre o material já apresentado até agora. Trabalhamos basicamente com três cenários: primeiro, o macro ambiente com os fatores que influenciam nossa atividade profissional, ou nossa empresa, sobre os quais não temos nenhum controle; segundo, o ambiente competitivo, no qual interagimos forças e usamos a estratégia para melhor alcançarmos os resultados pretendidos; terceiro, o ambiente interno, sobre o qual teoricamente temos total controle e conseguimos monitorar custos, processos e resultados. O composto mercadológico já assumiu várias nomenclaturas, siglas e demais denominações. Apresentamos a seguir algumas mais comentadas. A mais conhecida refere-se aos 4 Ps, que já viraram 7 Ps para a área de serviço e 9 Ps para o turismo, de acordo com alguns autores (e tenho a certeza que novos Ps surgirão em breve). Vamos inicialmente aos 4 Ps que foram formulados no início da década de 1960 pelo professor Jerome McCarthy: 4 Ps: produto, praça, preço e promoção. Produto: refere-se a variedade do produto, qualidade, características, nome da marca, design, embalagem, tamanhos, serviços, garantias, devoluções etc.; Preço: é composto pelo preço básico, descontos, prazos de pagamento, condições de crédito etc.; Praça ou ponto de venda : diz respeito aos canais de distribuição (localizações), distribuição física (estoque), transporte, armazenagem etc; Promoção (ou comunicação): venda pessoal, propaganda, promoção de vendas, publicidade, relações públicas, marketing direto (mala direta, telemarketing) etc. Nos 4 Ps o mercado é visto do lado do vendedor (empresa), com uma visão orientada para o produto e menos para o cliente (consumidor). Para minimizar esta deficiência utilizamos o conceito dos 4 Cs criado por Robert Lauterbom, por volta de 1990, que tem como visão orientar o

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Mercadológico composto para o cliente. 4 Cs: cliente, conveniência, comunicação e custo segundo Robert Lauterbom, mais importante do que ter um produto ou serviço para ofertar é ter um cliente para satisfazer. Para reter um cliente, é preciso proporcionar diversas conveniências com o objetivo de tornar esse cliente fiel. Uma vez satisfeito, é, ao menos teoricamente, um cliente fiel. O difícil é desenvolver um elenco de atividades que mantenha esse cliente satisfeito, pois há uma regra que diz que um cliente nunca está totalmente satisfeito. A expectativa do cliente é sempre receber todas as conveniências possíveis e ser atendido com cortesia e magia. A comunicação é o momento da sedução que visa empolgar o cliente a comprar o serviço ou produto. Ela precisa ser objetiva e clara para informar os principais pontos e dar oportunidade para que o consumidor fantasie a oferta, sentindo-se envolvido e comprometido com ela. E, por último, o custo não pode estar acima das possibilidades e expectativas do comprador. Viabilizar um projeto pode depender de um controle perfeito de custos. Como poderemos observar no quadro abaixo os 4 Ps e 4 Cs, complementam-se mostrando duas perspectivas de visão para os profissionais de markerting, a da empresa e a do cliente. 4 Ps Produto Preço Praça Promoção

= = = =

4 Cs Consumidor (Necessidades e Desejos) Custo para o Consumidor Conveniência Comunicação

Para finalizarmos, vamos ver os 4 As, conceito criado pelo professor Raimar Richers, em cujo escritório tive a oportunidade de estagiar. Para que os 4 As do composto de m a r k e t i n g t e n h a m lugar, eles precisam estar coordenados com as atividades de outras áreas funcionais da empresa e seguir os objetivos e as metas estabelecidos no planejamento de marketing. 4 As: análise, adaptação, ativação e avaliação.


A Análise

Adaptação

A

C Cliente

C Custo

Produto

P

P

A

A

C

C

P

P

Ativação

Avaliação

Conveniência

A análise consiste basicamente em buscar e processar as informações importantes e úteis ao processo decisório da empresa, permitindo a identificação de oportunidades, ameaças, mudanças e tendências do mercado. Os profissionais de marketing precisam saber escolher as melhores formas de pesquisa de marketing, que oferecerão os melhores resultados, considerando recursos e opções metodológicas disponíveis. A adaptação visa ao ajuste das características e à oferta de produtos e serviços às forças vigentes no mercado para que o produto seja voltado às necessidades e aos desejos dos clientes. Além da mudança de hábitos e desejos dos consumidores ao longo do tempo, a adaptação é necessária devido ao próprio ciclo de vida do produto. Os instrumentos utilizados nesta fase formam o composto de apresentação: design, marca, embalagem, preço e assistência aos clientes. Após reavaliação dos produtos com base nas informações obtidas via pesquisa de marketing (análise) e reformulação da linha de produtos para adequá-la melhor às mudanças do mercado (adaptação), ocorre a ativação. Na ativação, os meios de comunicação da empresa também serão reavaliados e, se necessário, reestruturados para que o produto chegue de forma adequada ao consumidor em potencial e, por meio da comunicação, seja visto como atraente. A área de vendas, assim como a de produto, publicidade e distribuição ou logística são as grandes responsáveis pela ativação do produto. Esta função é exercida por meio de um instrumento denominado composto de comunicação e faz parte de um conceito mais amplo de composto de marketing. A avaliação pode ser explicada como a preocupação contínua do profissional de marketing em melhorar a relação custo/benefício das atividades sob seu controle. Significa construir vários subsistemas para a área de controle mercadológico, aumentando a produtividade do composto de marketing como um todo. Nesta fase ocorrem a determinação de padrões de controle; o

Comunicação

Praça

Preço

Promoção

acompanhamento sistemático dos desvios entre os resultados das ações mercadológicas e os padrões estipulados; a recomendação de ações corretivas visando melhorias no desempenho de marketing. A avaliação é exercida por meio da auditoria de marketing: um exame periódico, formal e imparcial de todas as operações de marketing, a partir dos objetivos e padrões de desempenho da empresa, e que abrange todos os processos e métodos, bem como pessoas e estruturas envolvidas na implantação das diretrizes de marketing. Finalmente, usando um conceito ou outro, ou todos em conjunto, temos a convicção que o principal fator de convergência chama-se equilíbrio. Parece que também na arquitetura é um conceito que merece destaque tanto na forma quanto na estética. Podemos exemplificar com os 4 Ps de um refrigerante à sua escolha. Como características gerais, o produto é um líquido açucarado, gasoso, com algum sabor artificial ou natural, oferecido em vários tipos de embalagem, preço acessível a todas a classes sócioeconômicas, encontrados com abundância de oferta em postos de fácil acesso e próximos ao consumidor e amplamente divulgado. É um mercado que movimenta bilhões no mundo todo. Vamos tentar desequilibrar esse composto. Na mesma situação acima, alteraremos somente uma característica de cada vez, como segue: o produto passa a ser salgado e amargo; ou então oferecido a mil dólares o copo; ou ainda somente estar disponível para venda no deserto do Saara, a milhares de quilômetros de qualquer localidade habitada e, finalmente, o produto ter todas as características acima e ninguém souber da sua existência. Em qualquer das simulações acima, certamente o produto não mais existiria. Dos 4 Ps, todos devem estar presentes, simultaneamente e bem resolvidos. Essa é a fórmula básica do pré-requisito para o sucesso, após uma bem elaborada análise de cenários.

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Vão Livre

Esse espaço é para você, leitor. Os e-mails enviados para essa seção devem ser encaminhados com o nome e profissão do remetente para :

contatoartestudio@yahoo.com.br contato@artestudiorevista.com.br

Diploma pra quê?

E

stava na semana passada ministrando aulas em um MBA quando um funcionário da instituição, bem desanimado, comentou que um primo dele tinha até doutorado e estava ganhando uma miséria fazendo bicos. Aguardava uma bolsa para estudar mais um pouco. Injustiça, né? Mas será mesmo? Sinceramente, acho que não. Pela descrição do perfil, parece que o rapaz é estudante profissional. Não há nada de mal nisso, mas que ninguém espere ganhar fortunas dependendo apenas de bolsas de estudo. O problema é que algumas pessoas costumam levar ao pé da letra aquelas manchetes escandalosas publicadas nas capas de revistas de negócios dizendo que um curso de MBA pode aumentar seu salário em muitos por cento. Vejo gente fazendo as contas do investimento, computando a diferença entre a mensalidade e o incremento no contracheque que espera obter. O problema é que isso não acontece automaticamente, como muitas reportagens querem fazer crer; então, o que se vê por aí é uma legião de pós-graduados subempregados e reclamando da vida. A questão é que, diferente do que possa parecer, o mercado não faz concursos nem paga mais para quem tem mais diplomas. O mercado remunera melhor quem consegue gerar mais valor, tendo ou não uma pilha de certificados. E é pior contratar uma pessoa sem noção, mas com diploma, pois essa pessoa não vai querer tirar xerox ou fazer serviços “menores”. O diploma nada mais é do que um comprovante que você teve acesso a um conjunto específico de informações que lhe foram apresentadas de maneira estruturada e com orientação de outros profissionais, supostamente experientes e conhecedores da matéria. Você ganha esse pedaço de papel quando consegue provar para a instituição que o emitiu que conseguiu assimilar essas informações de maneira satisfatória. E só. Lá não tem nada dizendo que agora você é melhor que os outros, que ficou mais inteligente ou que merece um aumento. Pode procurar, garanto que não tem. Então, como é que o diploma pode ter a

ver com aumento de salário? As revistas estariam mentindo? Não estão. É que, teoricamente, se você tem vários diplomas, teve acesso a vários conjuntos de informações específicas. Isso aumenta muito as suas chances de recombiná-las e criar algo que, de fato, tenha valor para o mercado. Que faça diferença na vida das pessoas. Que seja desejável a ponto de alguém poder pagar mais por isso. Quanto mais cursos, mais combustível e mais matéria prima para converter em excelência. Quem sabe aproveitar isso, ganha mais, claro. Se, ao contrário, o sujeito pega o papel, emoldura ou então guarda na gaveta e esquece as tais informações, sem fazer nada de útil com isso, então, sinto informar, valeria mais a pena ter ficado em casa vendo novela. Seria mais barato e menos frustrante. Há alunos que estão claramente perdendo o seu tempo: pagando as prestações de um diploma que não servirá absolutamente para nada, uma vez que não estão interessados em gerar valor, mas em aumentar o salário. Vejo um montão de gente por aí que apenas coleciona certificados; não aplica o que aprendeu (se é que aprendeu alguma coisa), não se interessa em fazer coisas novas e interessantes, não transforma o conhecimento em algo útil, e, pior, ainda sai por aí cheio de razão reclamando direitos. Diploma, sem um profissional que o converta em valor que faça uso do que ele representa, é só um pedaço de papel. Igual àquele que embrulhava o pão antigamente, só que muito menos útil.

Lígia Fascioni

Especialista em marketing Eswww.ligiafascioni.com.br 18


Livro

Viagem ao passado ‘Sete Plantas da Capital Paraibana – 1858 a 1940’ faz um retrato de quase 100 anos da história de João Pessoa

U

ma possibilidade de mergulhar na historiografia urbanística de João Pessoa de um dos períodos determinantes para a formação da cidade como a conhecemos hoje. Esta é a experiência repassada pelos arquitetos Alberto Sousa e Wylnna Vidal em Sete Plantas da Capital Paraibana – 1858 a 1940. O livro, através da avaliação de um apanhado de plantas do município, consegue fazer um retrato de quase 100 anos de história da arquitetura da capital. O livro, publicado em 2010 pela Editora da UFPB, mostra ao leitor a evolução do traçado da cidade. As plantas são apresentadas ao leitor em couché fosco e em imagens coloridas, decorrentes de reconstituições feitas pelos autores, bem como fruto de pesquisas e registros fotográficos dos materiais originais. Nas plantas, o leitor poderá observar os principais logradouros em cada período abrangido pelo livro, bem como a localização de todos os prédios públicos.

O texto surpreende com a acuidade das informações e proporciona a possibilidade de observar o traçado da produção de plantas, pontuadas por comentários sobre as características cartográficas daquele período da cidade. O livro é uma oportunidade dada ao leitor de ter acesso a um material pouco conhecido e o texto técnico produzido por dois mestres em engenharia ressalta o trabalho esmerado e o cuidado na exatidão das informações, ressaltando as escalas exatas em que as plantas originariamente foram concebidas, motivações dos autores e tipo de papel utilizado para confecção. As imagens são acompanhadas de textos apresentando uma história das plantas, as principais características destas e imagens de suas versões originais ou de cópias subsequentes. Como o autor ressalta no livro, as plantas variam em um intervalo entre 7 a 31 anos entre as datas a que se referem, fornecendo uma visão de evolução do traçado da capital paraibana entre 1858 e 1940. Texto: Alex Lacerda Fotos: Divulgação

Alberto Sousa

Wylnna Vidal

1889 - o traçado mostra a distribuição espacial das três tipologias construtivas que formavam a quase mtotalidade das edificações da cidade: os sobrados, as casas térreas em alvenaria e as casas de palha.

Cruz das Armas, assentamento que em 1923 era visto como um arrabalde, já era considerado área urbana em 1940. 20

Sete Plantas da Capital Paraibana, de Alberto Sousa e Wylnna Vidal Editora da UFPB, 104 páginas


ADROALDO

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Entrevista

Irradiando cultura A professora de arquitetura de centros culturais conta o que é necessário em edificações construídas para ser um lar para a cultura

E

ntrar em um lugar e se encantar não apenas com o que os olhos podem ver, mas também com a sensação de fazer parte daquele contexto. É assim que deve se sentir um visitante em um centro cultural. Nesses espaços desenhados especificamente para esse fim, ou adaptados para tal, a arquitetura é tão importante quanto as obras expostas e para obter esse resultado é preciso, acima de tudo, sensibilidade. Apesar de serem relativamente novos no Brasil, os centros culturais começaram a se espalhar pelo país na década de 1980, embora já houvesse interesse desde os anos 1960. Para a arquiteta e professora da disciplina Arquitetura de Centros Culturais do IPOG, Elza Costeira, uma casa de cultura reflete sempre a realidade cultural de uma população e do momento histórico vivenciado por ela. Na entrevista a seguir, a professora que foi uma das responsáveis pela ampliação e reforma do Museu de Imagens do Inconsciente fundado pela Dra. Nise da Silveira, em 1952, no Rio de Janeiro, fala sobre as peculiaridades desse filão. ARTESTUDIO – Qual a importância da arquitetura na atração de visitantes para os centros culturais? Elza Costeira – A arquitetura é de fundamental importância para estabelecer relações de pertencimento de um centro cultural com a cidade ou o bairro onde ele se insere. Podemos afirmar que uma casa de cultura reflete sempre a realidade cultural de uma população e do momento histórico vivenciado por ela. A diversidade de atividades artísticas presentes nestes espaços configuram o dinamismo da sociedade atual e refletem a possibilidade de reunir numa só estrutura espacial e administrativa uma série de manifestações culturais e o implemento da sua produção e preservação.

ELZA COSTEIRA

Espaço Cultural - João Pessoa-PB

AE – Se os centros culturais são reflexos da sociedade, como deve ser a arquitetura atual? EC – Neste sentido a arquitetura dos centros Estação Ciência - João Pessoa-PB

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culturais deve exprimir a democratização espacial e a liberdade de expressão e de linguagem das diversas manifestações que ali acontecem, estimulando a inclusão e a participação de todo o tipo de usuário na fruição dos seus espaços. Podemos ainda fazer uma relação destas instituições, no sentido etimológico, onde o centro cultural deve representar a ideia de um “centro” irradiador de arte e de cultura em relação à sua periferia, representada pela área de influência de sua implantação. Por outro lado, de modo dialético, podemos nos referir à imagem de uma convergência de ações e de participações em direção ao um verdadeiro “centro”, consolidando as ações culturais desta sociedade, atingida pelo seu raio de influência. AE – Que benefícios a instalação dos centros trazem para determinada área? EC – A implantação dos centros de cultura tem a capacidade de exercer uma ação de requalificação dos espaços urbanos contíguos à sua localização, o que remete a um benefício das áreas que o circundam. E a morfologia e a forma de sua arquitetura podem influir na quebra de paradigmas conservadores da arquitetura local e implementar a reinvenção no uso dos seus espaços e da sua forma, atraindo novos usuários e incitando à reflexão da própria vivência da arte e da cultura. AE – Você poderia citar alguns exemplos de edificações que cumprem os papeis de forma e função que existem aqui na Paraíba? EC – Gostaria de ressaltar a existência de duas estruturas exemplares, de arquitetura de centros culturais, em João Pessoa. O primeiro é o Espaço Cultural José Lins do Rego, com projeto do renomado arquiteto Sérgio Bernardes, inaugurado em 1982. Sua arquitetura reflete a intenção de criar uma grande “praça pública” com uma cobertura apoiada em estrutura metálica treliçada e pontuada pela presença de grandes apoios, conjuntos de cinco tubos de alumínio unidos que conduzem a água do telhado para os espelhos d’água que imprimem dinamismo e arrojo ao ambiente construído. O próprio arquiteto definia seu projeto como “apenas uma cobertura – a asa branca do Nordeste brasileiro protegendo o seu povo”. AE – E qual é o segundo exemplo? EC – É o da Estação Cabo Branco, com projeto de Oscar Niemeyer, inaugurada em 2008. O complexo com o harmonioso diálogo entre seus quatro edifícios mais a torre espelhada, apoiada em um grande volume central, sobre um espelho d’água, é a síntese do diálogo entre a vivencia de arte, ciência e cultura com um marcante ponto de referência turística e belo mirante de pontos

chave da capital paraibana. Segundo o arquiteto, a arquitetura civil serve para seus fins, mas deve causar admiração e procurar originalidade na sua concepção, como se pode observar ao visitar o centro cultural. Mesmo com grande polemica na sua construção – sobre uma falésia em erosão e movimento constante nos limites mais orientais do país –, acredito que o arquiteto nos dá uma demonstração expressiva de como se pode agregar uma diversidade de blocos, permeados por passeios e jardins cuidadosamente traçados, configurando um importante marco na arte, ciência e cultura da Paraíba. Os prédios que citei são importantes exemplos de feliz casamento entre forma e função para a concepção de instituições de fomento à arte e cultura. Em qualquer deles se evidencia a importância da arquitetura como balizadora de ações ligadas à arte, à cultura e, mesmo, ao turismo, com a criação de espaços marcantes e de grande adequação para as ações culturais da cidade. Acredito que estas instituições são um orgulho e um verdadeiro tesouro para os paraibanos e os brasileiros. AE – A arquitetura de um centro deve respeitar que aspectos? EC – Como eu já mencionei, é preciso dotar os espaços de um sentido de universalidade e de acesso indiscriminado, com conceitos de acolhimento. A arquitetura deve refletir democracia na fruição e produção da arte. Acredito, também, que os centros culturais devem contemplar um certo arrojo e criatividade marcante na sua arquitetura como se estivessem convidando os usuários a empreender uma nova viagem em dire��ão à vanguarda e à criatividade, reforçando, ainda, o sentido de informação nova e constante que estas instituições devem espelhar. AE – Áreas verdes são importantes? EC – Sim. A presença de grandes áreas verdes no seu entorno, disponibilizando jardins, espelhos d’água, caminhos e áreas de estar externas devem estar presentes em todos os centros culturais, estimulando a presença de grupos para o desfrute da natureza, complementando a vivência da arte nos seus espaços interiores. A presença de atelieres, salas de cursos, oficinas e salas de convivência devem ser estimuladas para que se possa ter sempre a produção de arte e cultura nestes centros. O centro cultural deve respeitar os aspectos de segurança do usuário e das obras de arte expostas ou de acervo, correta iluminação incluindo a natural, percursos facilitados e acessíveis, adequada flexibilidade na concepção construtiva para que se possa agregar a mesma flexibilidade nas diversas atividades que se possam exercer nos seus ambientes.

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AE – E quanto ao conforto de quem frequenta o centro? EC – O uso de cores devem ser pontuados por espaços de reflexão e de descanso para os usuários além de adequado apoio de refeições leves, toaletes, guarda volumes, não esquecendo a estrutura de apoio aos funcionários, administração, curadoria e direção. A climatização deve ser um item de significativa importância na implantação de um centro cultural, pois diversas condicionantes de temperatura e de umidade podem ter grandes interferências nas obras a serem expostas. Por fim os trajetos confortáveis, otimizados e, sempre que possível, previstos e dimensionados desde o começo das visitas, são bem-vindos e enfatizados nestas estruturas. AE – Na era do ecologicamente correto, que aspectos devem ser levados em consideração na elaboração de um projeto para um centro cultural? EC – Acredito que, hoje, os arquitetos não podem, não devem elaborar qualquer projeto sem que se tenha em mente a busca e a inclusão de itens de sustentabilidade, pois, estamos preparando a contemporaneidade para as gerações futuras, filhos, netos, que queremos que possam desfrutar de um meio ambiente adequado, saudável e equilibrado. Portanto preconiza-se os itens já largamente discutidos e recomendados em outras estruturas, para que se façam presentes nos projetos de centros culturais. Acredito também em soluções de aplicação mais simples em qualquer porte de projeto, seja ele novo ou em uma estrutura adaptada. Neste sentido, o uso de telhados verdes, o reuso de águas pluviais, o aquecimento solar para a água quente, o uso de

“ A arquitetura é de fundamental importância para estabelecer relações de pertencimento de um centro cultural com a cidade ou o bairro onde ele se insere..”

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materiais locais e de baixo impacto no canteiro de obras, madeiras certificadas, materiais inovadores e a constante pesquisa com a coleta e destinação de resíduos me parece se tratar de itens imprescindíveis no projeto de centros culturais. Podem e devem fazer parte dos aspectos culturais e de educação ambiental que caem muito bem nas casas de arte e cultura. O estímulo ao uso de bicicletas, transporte coletivo e carona solidária podem ser estabelecidas na conformação dos estacionamentos, com a oferta de vagas grandes para vans e micro-ônibus e a instalação de bicicletários junto às entradas. Finalmente o emprego de solos e pavimentações semipermeáveis, facilitando o escoamento das chuvas e muita iluminação natural, adequadamente filtrada sempre que for necessário à proteção de obras de arte. Alguns destes procedimentos projetuais têm baixo custo e são simples de agregar aos projetos, não causando nenhum impacto à sua implantação, mas agregando grandes economias de energia e de recursos de manutenção, propiciando um meio ambiente mais justo e equilibrado. AE – Qual o item obrigatório em um projeto deste? EC – A presença de itens obrigatórios é duvidosa, afinal seu programa de necessidades vai estar baseado na oferta de espaço, muitas vezes usando casas tombadas ou deterioradas pelo tempo, ou pelo perfil do centro de cultura desejado pelo cliente. Os diversos perfis demandados pelas casas de cultura geram os mais variados itens na elaboração de uma lista de ambientes obrigatórios, para cada caso. Prefiro citar alguns itens de importância capital a serem considerados: segurança das obras de arte e dos usuários; luz natural permeada com iluminação técnica; flexibilidade dos espaços; a presença de salas que permitam teatros, projeções de cinema e de áudio visual, palestras e apresentações musicais; espaços para acervo, mesmo que apenas digital; um café ou pequeno refeitório; áreas verdes externas, jardins e espelhos d’água, se possível; acessibilidade universal; oferta de redes de luz e força e de paredes e divisórias removíveis; adequados sanitários com instalações seguras e acessíveis; espaços de convivência e de discussão de arte e de cultura; atelieres e oficinas, sempre, para produção de arte. Quanto mais flexíveis e adaptáveis forem os espaços mais poderão agregar as diversas tipologias de manifestação de arte e de cultura. E um desejado arrojo e contemporaneidade na concepção da sua morfologia e implantação, para se destacar na paisagem e se transformar em obra de referência e marco de pertencimento da população usuária, que poderá se orgulhar de se ver espelhada nas manifestações culturais do espaço a ser projetado. Texto: Neide Donato Fotos: Divulgação e MB


Grandes Arquitetos

Perfil de uma “starchitect” A surpreendente arquitetura de Zaha Hadid

A

lista de conquistas da arquiteta angloiraquiana Zaha Hadid já é, por si só, evidência de seu grande talento. Dentre muitas outras premiações ela recebeu, em 2004, o prêmio Pritzer de Arquitetura, espécie de prêmio Nobel da profissão, sendo a primeira mulher e primeira muçulmana a conseguir este feito. Antes disso, foi condecorada com a distinção de Ordem do Império Britânico, título de cavalaria concedido pela excelência de seus serviços no campo da arquitetura. Foi ainda vencedora por dois anos consecutivos do importante prêmio britânico Stirling, em 2010 pelo projeto do museu Maxxi, em Roma, e em 2011 pelo projeto da escola Evelyn Grace Academy, em Brixton. Em 2004, Zaha foi eleita pela revista Forbes como a nº 69 das “100 Mulheres mais Importantes do Mundo”. Também foi indicada pela revista Time, em 2010, como “pensadora influente”, e apontada pela The British como a “42ª das 150 pessoas mais influentes do mundo” no mesmo ano. Mas o que mais impressiona sobre Zaha Hadid são as qualidades únicas de seu trabalho. Dona de um estilo elegante marcado pela ousadia nas formas e no movimento, ela é uma das principais expoentes na atualidade da chamada corrente desconstrutivista de arquitetura, caracterizada pela não-linearidade dos projetos, pela funcionalidade e pela fragmentação de elementos e estruturas, se contrapondo por completo a diversos princípios da arquitetura clássica. O arrojo da arquitetura de Zaha, entretanto, levou vários de seus projetos, embora premiados, a serem considerados “difíceis demais” e não serem construídos. Foi o caso do Peak Club de Hong Kong, em 1984, e da Cardiff Bay Opera

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Ópera House


Centro Aquรกtico - Londres 2012

Ponte Expo Zaragoza - 2009

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House, no País de Gales, em 1994. Muito da obra da arquiteta é apenas conceitual, não destinada a sair do papel, o que não a impede de exercer grande influência sobre acadêmicos e profissionais do ramo no mundo inteiro. Já os projetos de Zaha que foram efetivamente desenvolvidos e construídos são nada menos do que notáveis. Dentre estes, se destacam: a Puente Pabellón, em Zaragoza, cuja planta tem a forma de um gladíolo; a pista de esqui Bergisel, em Imnsbruck, uma descida vigorosa, porém suave que é considerada o projeto mais moderno do mundo deste gênero; o Centro de Arte Contemporânea, em Ohio, uma estrutura cujas galerias aparentam ter sido esculpidas em um único bloco de concreto e que, ao mesmo tempo, dão a impressão de “flutuar” sobre o hall de entrada; e a Vitra Fire Station, em Wheil Am Rheim, um complexo formado por uma série linear e estratificada de paredes que parecem deslizar umas sobre as outras. O design arrojado das criações da arquiteta, a propósito, não está presente apenas nas edificações por ela projetadas. Ela também já desenvolveu projetos em uma escala muito menor, como móveis, torneiras, luminárias e até mesmo sandálias! Zaha contou em entrevistas que várias dessas curiosas criações foram produto de tempos anteriores ao sucesso, no início dos anos 1980, quando a quantidade de trabalho em seu escritório era escassa e ela lutava para fazer seu nome participando de concursos e exposições. “Não podíamos negar trabalho. É difícil ser mulher no campo da arquitetura”, explicou. Sobre essa dificuldade, Zaha contou que atingir o sucesso como uma mulher arquiteta foi um grande desafio ao longo de sua carreira e, mesmo hoje, as barreiras ainda não foram totalmente superadas. “Você vê mais mulheres respeitadas e estabelecidas como arquitetas o tempo todo, mas isso não significa que seja fácil”, disse. “Algumas vezes as dificuldades são incompreensíveis. Nos

Lançamento da Melissa

últimos 15 anos, entretanto, tem havido uma tremenda mudança. Agora é visto como normal haver mulheres nessa profissão”. Zaha, entretanto, se recusa a ser estigmatizada como “uma arquiteta que venceu apesar de ser mulher”. Ela se vê como uma arquiteta que venceu, e isso basta. Seu sucesso, diz, se deve à perseverança, determinação e foco. Atualmente, a arquiteta nascida em Bagdá comanda um prestigiado escritório em Londres com mais de 350 funcionários, e é requisitada para trabalhos em todo o mundo. Tendo alcançado status de celebridade, Zaha Hadid, que há tempos vem sendo apelidada pelo público de starchitect, não tem qualquer intenção de descansar sobre seus louros. Ela acaba de completar o projeto do centro aquático para as olimpíadas de 2012, e já se prepara para o que virá a seguir. Texto: Wendell Lima Fotos: Divulgação

Heydar Aliyev Cultural Centre

Arquiteta: Zaha Hadid 28


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Nacional

O disco voador de Darcy Ribeiro Novo centro cultural na UnB guarda a obra do antropólogo e é centro de convivência, como ele queria

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e há um homem e uma universidade identificados um com o outro no Brasil, este homem é Darcy Ribeiro e esta universidade é a UnB. O antropólogo concebeu a Universidade de Brasília e participou de sua fundação na década de 1960 e um memorial que recebe seu nome é um moderno centro cultural desde 2010.

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O local possui salas de aula, a biblioteca do antropólogo (com 30 mil volumes), salas para exposições, um anfiteatro/ auditório com 200 lugares e entrada independente (que o próprio Darcy apelidou de Beijódromo) e um cineclube – um projeto do arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, construído pelo Instituto Habitat. A idealização foi


também de Darcy Ribeiro em 1996: ele quis que todo o material que ele acumulou em anos de pesquisa e estudo ficassem na UnB e em um local que fosse também um espaço de convivência. Envolto por um lago e com um acesso através de uma ponte coberta por uma marquise metálica pintada em vermelho, o edifício é circular – o antropólogo havia pedido uma forma de “disco voador” – e possui dois pavimentos. O diâmetro é de 31,6 metros, com um espaço ajardinado também circular no centro, com 13 metros de diâmetro e, integrando os dois pavimentos, um pé-direito de 13 metros. No total, a construção soma 2.544m² de área coberta, mais os 1.030m² do lago circundante.

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O térreo é marcado, além da marquise que dá acesso à entrada principal, pela área para exposição e salas de aula. Pilares com vigas radiais acompanham a circunferência do local – são 32 no total. No pavimento superior, em um vão livre, estão a biblioteca, um ambiente de leitura, gabinetes de pesquisa e uma área para exposição. Os cuidados ambientais também fazem parte do projeto, indo além do jardim central. As telhas metálicas são claras, para refletir o calor. E há um sistema de vaporização, a partir da passagem de ar

pelo edifício de um sistema de nebulização mecânica que aproveita a água do lago. O som não reverbera graças ao teto forrado em chapa plissada. Quanto à iluminação natural, a cobertura em policarbonato possui, no interior, lâminas de aço pré-pintado que funcionam como brise.

Texto: Renato Félix Fotos e desenhos: Divulgação

Arquiteto: João FilgueirasDarcy Lima,Ribeiro o Lelé 32


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Ambientação

Ambiente do decorador Alain Moszkowicz

Brilho eterno

Usados desde a antiguidade, os cristais são um coringa na decoração

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ifícil imaginar um ambiente elegante, requintado, sem a utilização de belas peças de cristal. Únicas, elas mostram muito brilho e transparência, que encantam os visitantes. Como evoca majestade e romantismo, se transforma no chamariz do ambiente e transforma a decoração, seja ela clássica ou moderna. Os lustres, por exemplo, decoram todos os cantos da casa: quartos, salas, livings e até banheiros e lavabos, que ganham sofisticação com o uso do acessório. Para o decorador Alain Moszkowicz, este é mesmo um elemento ímpar. “Esta é uma peça sempre atemporal. Pode ser bruta como um bom murano (região que se apresentou com ótima qualidade) que são peças sem tantas lapidações, ou até um delicadíssimo trabalho Saint Louise, que vem a ser de um bordado lapidado que dá até medo de pegar, tamanha a sua delicadeza”, afirmou.

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E não tem erro, não, viu? Alain explica que o encantamento e o fascínio do uso de cristais transcendem qualquer regra. “Uso cristais como peças decorativas ou utilitárias sempre. São peças de tanto bom gosto que ate o over fica bonito!”, comentou em tom de bom humor, acrescentando “Como decorador, uso e preconizo boas peças para finalização de meus trabalhos e os cristais estão sempre presentes, seja como uma pequena coleção de castiçais em alturas diferentes num bom aparador perto da mesa de jantar, seja como um pendente de braços e pingentes em cristal para a mesa de jantar”. Alain dá outras dicas interessantes: para o uso na parte do estar, fica bem uma coleção de ovos de cristal coloridos para a mesa de centro, sem necessidade de nenhum complemento, mas, se assim quiser, o cristal sempre se harmonizará bem com objetos em louça ou caixas de madrepérola. Mas é bom ficar atento à altura do pé direito, pois ele tem influência no tamanho do lustre a ser instalado. Além disso, é preciso optar entre um ambiente clássico, totalmente em harmonia com a peça, ou um ambiente neutro, que não entre em discordância com a mesma. Nunca é demais lembrar que é preciso muito cuidado na hora de comprar uma peça de cristal. Isso porque muitas peças de materiais diferentes, como vidro, são vendidos como se fossem de cristal – porém, é fácil perceber que uma peça não é de cristal só pelo preço, afinal, estas peças não são baratas. Casa Cor Goias 2011

Casa Cor SC - Arquitetos Alexandre Voigt e Rafael Santos

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CURIOSIDADES SOBRE OS CRISTAIS

* Tão comentados e tão utilizados nos dias de hoje, tanto na tecnologia de ponta, em instrumentos cirúrgicos e até em remédios – além, é claro, de jóias e artefatos de decoração –, os cristais já eram utilizados desde a antiguidade, inclusive em diversas civilizações – dos egípcios aos xamãs americanos – para a cura, para se obter visões, proteção, beleza e até na cosmética. * A palavra “cristal” deriva de krystallos (que, em grego, significa gelo). Na antiguidade acreditava-se que o cristal de rocha era um gelo eterno. * Desde tempos remotos há notícias do uso dos cristais e das pedras preciosas no Egito, na América do Sul e no Tibete. * São utilizados em práticas médicas como talismãs ou amuletos e para a proteção de pessoas e ambientes. Os índios americanos e os maias usavam os cristais no diagnóstico e no tratamento das doenças. Os xamãs de várias regiões do planeta utilizam os cristais em seus rituais com diversas finalidades. * O quartzo vibra em todas as frequências de cores – do preto ao branco – facilitando o seu uso para diversos fins e no feng shui.

Ambiente da arquiteta Márcia Barreiros

“Sou realmente um grande apaixonado pelo cristal. Adoro o barulho de ‘tim-tim’, adoro o arco-íris de uma boa peça e recomendo o uso dos antigos para quem gosta de garimpar e conseguir peças menos presentes num mercado ou ainda as novas, que estão de excelente qualidade e que na decoração se juntam bem”, disse. Então, escolha a peça de cristal que mais agrada e compre sem medo de errar na decoração. “Enfim, o cristal sempre se fará diferenciado e quem não quer ser admirado como algo único, não é mesmo?”, finalizou Alain. Texto: Débora Cristina Fotos: Divulgação e Diego Carneiro

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TOP DESIGN

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Arquitetura

Consumo consciente Projeto prioriza o uso sustentável de água e energia

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oi dentro de um condomínio horizontal, em João Pessoa, que o escritório da arquiteta e urbanista Sandra Moura executou esse projeto com características contemporâneas e com um resultado que superou todas as expectativas. Um casal e dois filhos adultos vivem nesta residência, onde a consciência das implicações ambientais futuras a colocam dentro de uma perspectiva sustentável. O projeto prioriza a redução do consumo de água e energia e ainda explora uma rica área verde.

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A escolha de materiais como o vidro e a madeira, além da opção pelo pé direito duplo e uma área de lazer voltada para a área social da casa não foram escolhidos à toa. Sandra Moura explica que a soma de todas essas características não podia ter outro resultado, a não ser uma residência com ares contemporâneos, bem ao estilo do que desejavam os clientes. A fachada marcante da residência conta com um pé direito duplo, responsável pela captação de luz natural durante todo o dia. Também chama atenção a porta de entrada taliscada em madeira


ipê. “Além de integrar a residência a conceitos sustentáveis, reduzindo o consumo de energia, ainda cria efeitos estimulantes nos moradores, produzindo níveis de iluminação superior a artificial. O cálculo de entrada de luz na casa aponta para a utilização de luz artificial somente a partir das 17h30”, comenta Sandra. Levando em consideração as questões ambientais, a arquiteta ainda faz uso de placas solares, que retém o calor que será utilizado mais tarde no aquecimento da água. “O projeto foi idealizado com a consciência das implicações ambientais futuras, aproveitando de maneira eficaz o consumo de energia através da utilização das placas de energia solar e do consumo de água, recurso que necessita do seu uso consciente”, explica. Neste quesito, a arquiteta fez uso de equipamentos economizadores de água, como vasos sanitários com caixa acoplada e duplo acionamento e registro com sensor de presença. Há, ainda, um sistema automático de irrigação dos jardins. No projeto, a piscina ganhou uma área de lazer que é um verdadeiro convite para os dias de folga. Integrada a área social da casa, o ambiente está em completa harmonia com a fachada. Inclusive, a madeira ipê taliscada presente na porta também é encontrada no balcão e painel do bar. Outro destaque é o mobiliário em tons escuros em contraste com as delicadas luminárias.

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Verde que te quero De acordo com a arquiteta, a área verde no entorno da residência tem uma importante função técnica e estética. Ela utiliza as palavras do arquiteto paisagista Roberto Burle Max para explicar como isso se dá: “Um jardim deve ser organizado de maneira a criar e transformar um ambiente em que as pessoas se sintam bem numa arquitetura de viver, num lugar onde possam observar a floração das espécies, as estruturas e dimensões das arvores e estabelecer relação de comparação entre plantas e as gerações tonais das cores”, citou. A área verde ainda é valorizada pelo orquidário em eucalipto de reflorestamento instalado na lateral esquerda da casa. A espécie escolhida foi o Lyptus - uma madeira nobre, totalmente extraída de florestas renováveis a partir de árvores plantadas, o que assegura um suprimento confiável e ambientalmente sustentável. “Possui grande resistência e bom acabamento”, completou a arquiteta. O acabamento final ficou por conta do muro feito de tronco e cabos de aço, que entra em harmonia com a estética da casa e causa uma barreira verde delimitando o lote. Além de muito eficiente, o resultado final do projeto é de encher os olhos, sem esquecer os fatores sustentáveis, imprescindível nos dias atuais.

Texto: Larissa Claro Fotos: Diego Carneiro

Foto: Giordano Germoglio

Arquiteta: Sandra Moura Projeto: Arquitetura unifamiliar

Madeira: Fecimal

+ fotos do projeto no site: www.artestudiorevista.com.br 40


Interiores

Espaço aberto Restaurante aproveita a relação direta com a rua e a luz natural

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m restaurante de 395 m² localizado na Avenida Oscar Freire, a mais importante localização comercial da cidade de São Paulo, no bairro dos Jardins, com a proposta de ser um lugar aberto, com relação direta com a rua e calçamento para pedestres e muita luz natural. Essa foi a proposta do projeto feito pela equipe do escritório do arquiteto paulista Arthur Casas. O proprietário do restaurante espanhol Alma María deixou Arthur à vontade para decidir o que seria feito no ambiente. Por isso, o arquiteto resolveu viajar à Espanha e conhecer mais de perto restaurantes de “tapas” de várias regiões. O conceito de bar de tapas busca trazer ao Brasil a irreverência, informalidade das tradicionais barras espanholas. “Há um elemento onipresente: o balcão de bebidas e tapas localizado na entrada de todos os lugares que visitei. Me inspirei também em armazéns ou mercearias que vi por lá, ‘pequenas cidades‘ para a grande estante de produtos. A pedra no subsolo e o mezanino de madeira remetem a construções europeias seculares. Já as cores, o laranja em especial, reproduzem o sol, a luz e alegria que vi na Catalunha”, explicou Arthur.

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As portas ficam completamente abertas quando o restaurante está em funcionamento, e são percebidas de uma forma totalmente diferente quando o restaurante está fechado: a perfuração permite ver através, gera curiosidade ao pedestre

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A inserção da área na cidade foi essencial para o partido projetual: o restaurante precisava estar integrado de alguma forma à rua, seu movimento precisava ser notado. Um dos principais elementos do restaurante é a fachada. O pórtico de concreto é fechado por 6 portas automáticas de madeira maciça perfurada conforme design do Studio. No projeto, foram usadas muita madeira e pedra, mas outros materiais também foram inseridos e com certa liberdade como o alumínio sob os balcões, concreto aparente e rústico na fachada e escada e também o vidro. Os principais materiais utilizados no restaurante são: piso e mezanino de madeira de demolição, pedras e pintura cimentícia. O vidro utilizado em todos os guarda-corpos e fechamento das cozinhas garante uma maior integração entre os ambientes. Foi dada uma atenção especial para a iluminação em cada um dos ambientes. Mas é possível perceber que todos eles se privilegiam pela luz natural. “Tenho certeza que um restaurante bonito e agradável durante o dia, será ainda mais à noite. Além disso, durante o almoço, quero poder proporcionar uma experiência similar a que temos quando almoçamos num jardim. Por isso, a luz natural é fundamental”, disse o arquiteto. Arthur também teve um cuidado especial para fazer a concepção da parede lateral que se alonga por todo o pé-direito. Para isso, ele fotografou vários armazéns no Brasil e na Espanha para tentar reproduzir esse conceito. O detalhe é

Na cartela de cores, predominam o verde e laranja. O verde é mais neutro e o laranja imprime personalidade, estimula o paladar e é uma cor, alegre e positiva

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que a preocupação não foi só visual, pois há uma função prática para ela: os produtos que estão lá, via de regra, são consumidos pelo restaurante. O conforto foi o fator determinante para a escolha do mobiliário. Os dois elementos mais fortes são as cadeiras, cada uma com o seu material, característica e cores próprias. “Nenhum design é espanhol e nem precisaria ser, pois temos muito talento aqui mesmo no Brasil”, enfatizou Arthur.

Divisão de espaços O restaurante é dividido em quatro áreas que a partir da diferença de 1,50m em cada nível, gera um melhor aproveitamento do espaço. Esta diferença de níveis gera ao mesmo tempo integração visual, mas proporciona também a cada nível uma atmosfera única, permitindo uma experiência única em cada ambiente. O acesso ao restaurante acontece a partir do mesmo nível da rua (0,00m), nesta área existe o terraço que aproveita a calçada como um prolongamento do espaço, e na área interior dá continuidade ao bar de tapas. Seguindo no nível 0,00 (nível da rua), o cliente desce um metro e meio e encontra um ambiente mais íntimo e reservado, com uma cozinha própria desta área. Ao fundo do espaço, na área entre o salão e a cozinha, existe uma adega com quase 8m de altura, iniciando no nível -1,50m e seguindo até a cobertura. É um elemento estético e também funcional, recebendo cerca de mil garrafas. Nesta área, os materiais naturais, o pédireito mais baixo gera um ambiente mais íntimo e acolhedor. A área de banheiros é um corredor inteiro de pedra e iluminação indireta. Voltando para o nível 0,00m, o cliente tem também a oportunidade de subir até o nível +1,50m. É um ambiente mais central, que, por ser um mezanino, se integra ao nível inferior por seu pé-direito de quase 8m. Deste ambiente temos a oportunidade de ter uma percepção geral do restaurante, principalmente da estante de madeira. Aqui, existe uma segunda cozinha, que também é fechada por vidro, deixando aparente o incrível movimento do trabalho dos cozinheiros. Chegando ao último nível – +3,00m –, temos um salão menor, com uma grande área de bar. É inteiramente aberto no fundo para o salão principal integrado ao restaurante. Na área da frente também é aberto, o que faz com que o movimento do restaurante seja visto desde a rua e vice-versa. Texto: Débora Cristina Fotos: Tuca Reines

Arquiteto: Arthur Casas Projeto: Arquitetura e ambientação de restaurante Colaboradores: Maria Magalhães

(coordenadora de projeto), Marcela Muniz,

Milena Chieco, Cristiane Trolesi (colaboradoras de projeto), Renata Adoni (coordenadora de decoração) e Bruna Rizzi

(colaboradora de decoração)

Marcenaria: Clamom • Piso e estrutura de madeira: Casulo • Pedra: Pagliotto • Pintura: NS Brazil • Toldo: Solar System • Cozinha: Mf Cozinhas • Vidros e espelhos: Primo Vidros • Iluminação: Ventana Luminosos Ltda • Adega: Joshua Adegas • Mesas, cadeiras e banquetas: Herança Cultural • Abajures: Casas Edições • Cadeiras: Casual • Futons e almofadas: Empório Cortinas • Tecidos: Tutto A Bordo • Visual Merchandising: Estudio Xingu • Rolôs: Arthur Decor • Luminária: Montenapoleone

+ fotos do projeto no site: www.artestudiorevista.com.br

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Arquitetura

Construindo o próprio ninho Casa foi construída para ser a residência da própria arquiteta e receber com conforto a numerosa família

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ão há lugar como o nosso lar”, já dizia Dorothy Gale no clássico O Mágico de Oz. E também é o que pode dizer a arquiteta Silvana Freitas, que comandou, junto com Tharsiana Freitas, o projeto de arquitetura, construção e ambientação da própria residência em João Pessoa, onde vive com o marido e os pais dela. “Como gostamos muito de receber os familiares e da natureza, procuramos integrar tudo isso com amplas portas de correr voltadas para o terraço e a área verde, que também é vista da sala de jantar”, diz a arquiteta. Para atender um pedido especial do marido, ela acrescentou um canaril à sala de estar. “Ele faz parte da Associação dos Criadores de Canários Belgas de Cor”, diz ela. “O viveiro precisava estar voltado para as salas para que pudéssemos apreciá-los de

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todos os ângulos”. Ela, claro, também imprimiu seus toques particulares. “A casa precisava ser acolhedora e ter um espaço onde pudesse receber minha familia, que é bem numerosa, e meus amigos. Por isso a integração da cozinha, terraço gourmet, pergolado e jardim”. Silvana afirma que não se preocupa muito em seguir um estilo exclusivamente. “Não me apego muito a um purismo de estilo, costumo dizer que minha casa é eclética, com toques neoclássicos”, afirma. “Tem referências de lugares do mundo por onde andei: uma fonte com inspiração romana, um solarium com inspiração toscana, etc. O principal para mim é conforto e funcionalidade. A fonte é, sem dúvida, um dos elementos que mais se destacam na ambientação. “Ela tem o efeito relaxante que o som característico de água corrente


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proporciona. É o canto de sentar e recarregar as energias”, diz Silvana. No jardim, há também uma simpática pracinha e canteiros demarcados. “Com suas flores ainda em formação, eles também me remetem aos jardins europeus, sempre bem coloridos”, conta. “É o que pretendo que aconteça com o meu, mas com plantas adequadas ao nosso clima”. E, claro, o solarium.“Que para mim é mais um ‘luarium’”, brinca ela. “É o local de degustar um bom vinho – e namorar, é claro”. Mas o elemento que ela destaca como principal é a escada. “A escada como elemento de destaque no hall de entrada, com o espelho do degrau em angulo que proporciona um grande conforto ao usuário, bem como seu efeito visual. E acrescida de uma iluminação de destaque”, diz. A iluminação dos degraus, amarelada, contrasta com a do jardim que fica embaixo da escada, com LED branca. “O jardim da escada foi pensado para ser prático, com bromélias de grande efeito visual e que exigem pouco cuidado com o ato de aguá-las”. O jardim também se benficia da luz natural, que banha a casa em diversos pontos, através de grandes e pequenas entradas. “Além da questão Texto: Renato Félix Fotos: Diego Carneiro 50

econômica e ecológica, uma casa com iluminação natural se torna mais viva, mais alegre. Também pensando no fator ecologia, 80% da casa possui iluminação com lâmpadas de LED”, conta a arquiteta, para quem, realmente, não há lugar como o próprio lar.

Arquitetas: Silvana Freitas e Tharsiana Freitas Projeto: Arquitetura e ambientação residência unifamiliar

Marmores e granitos: Oficina do Granito • Marcenaria: nmóveis Pisos e revestimentos: Vivento Revestimentos • Luminárias: Trianon Esquadrias de pvc: Tecnofecho • Esquadrias de madeira: Fecimal Tapetes: Adroaldo Tapetes do Mundo • Redário: Redes Santa Luzia Objetos de decoração: A Sempre Viva Decorações Mobiliário área externa: Loja Vime + fotos do projeto no site: www.artestudiorevista.com.br


PLENO

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Arquitetura

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adeira, mármore e granito são os destaques no projeto de arquitetura de Gilvane Bittencourt para uma casa que nasceu junto com o crescimento da família que a habita. “No inicio do projeto era apenas o casal muito jovem, mais uma filha e, ao fim da

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construção, temos uma família de três filhos”, conta a arquiteta. Os clientes havia pedido uma casa confortável, ampla e segura para verem os filhos crescerem. “Pediram também uma área de lazer integrada à casa, para receberem os amigos nos


O peso da madeira e da pedra Os materiais foram usados como ponto de equilíbrio em uma casa cercada pelo verde

fins de semana, com todos os espaços inteiramente disponíveis para o uso sem restrições”. A coberta é um elemento essencial no projeto e é apontada pela arquiteta como o que mais se destaca. “A coberta é um determinante de peso na plástica da casa – o elemento

madeira foi de forte peso no resultado final do projeto”, explica Gilvane. “A leitura do partido arquitetônico fica muito claro na composição da casa: uma grande coberta de madeira criando grandes sombras rodeadas de muito verde”.

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Outro destaque ĂŠ a escada que dĂĄ acesso ao segundo andar da casa. Ela segue a leitura da casa: muita madeira

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Foto: Divulgação

Na cozinha, banheiros e piscina, o granito predominou. “Em toda a área molhada foi o elemento-chave, escolhido com dedicação e trabalhado com perfeição, agregando valor a um material já tão nobre. A mão de obra esmerada é fundamental. O granito é elemento essencial numa finalização perfeita do acabamento dos ambientes”. A área verde também chama a atenção, e foi uma contribuição dos próprios moradores. “Todo o paisagismo da casa foi realizado pelo próprio cliente, que curte jardinagem”, conta a arquiteta. “Ele, inclusive, divide o trabalho com os filhos”. Assim, profissionais e clientes trabalharam juntos para tornar essa moradia ainda mais bonita e confortável.

Texto: Renato Félix Fotos: Diego Carneiro

Arquiteta: Gilvane Bittencourt Projeto: Arquitetura de residência unifamiliar

Madeira: FECIMAL • Iluminação: Emporium da Luz | Ligth & Design Granitos e mármores: Oficina do Granito • Vidros e espelhos: República dos Vidros Revestimento de piso e parede: Porcelanato Elizabeth + fotos do projeto no site: www.artestudiorevista.com.br

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VOCÊ NÃO É MAIS A MESMA PESSOA QUE ERA UMA HORA ATRÁS. A VIDA É UMA CONSTANTE TRANSFORMAÇÃO, E O LUGAR ONDE VOCÊ VIVE DEVE ACOMPANHAR O SEU RITMO.

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Capa

Equilíbrio completo Apartamento em Curitiba possui ambientes que se prolongam entre espaços sociais e área funcionais

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m apartamento contemporâneo, acolhedor e ao mesmo tempo sofisticado para uma família de quatro pessoas – um casal de jovens empresários com um casal de filhos adolescentes. Foi daí que partiu a ideia de criação desse projeto premiado, feito pelas arquitetas Caroline Andrusko & Eliza Schuchovski. Localizado no bairro Ecoville, uma região privilegiada de Curitiba, no Paraná, o edifício Reserva Juglair proporciona vistas desimpedidas sobre bosques e parques.

Num equilíbrio de contrastes e integração perfeita, as arquitetas produziram uma composição linear, desenvolvida numa série de ambientes que se prolongam entre os espaços sociais e áreas funcionais. As salas constituem o coração da casa. As amplas janelas permitem desfrutar a impressionante paisagem e ainda trazem o calor do sol e a luz natural, dois elementos essenciais numa cidade onde o clima muda constantemente. Os ambientes sociais, em cores neutras e linhas modernas, são

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intencionalmente generosos em móveis peças e objetos, que acentuam a sensação de elegância e conforto. A perfeita ambientação do espaço é alcançada através da composição de tons neutros variando suas nuances e diferentes texturas através da mescla de materiais. A base do projeto utiliza-se desta gama de sobretons para proporcionar harmonia sem os elementos competirem entre si, a fim de não haver um destaque intenso, mas, sim, valorizando uma composição do todo, criando uma atmosfera suave e iluminada. A mescla dos elementos naturais retrata a ideia de integração ao espaço externo, trazendo um pouco da leveza e do puro do orgânico ao projeto, em contraponto com as linhas retas contemporâneas do mobiliário. Além disso, o uso de cor primária pura

apenas na utilização do verde (cor fria) através dos elementos naturais – com a presença de plantas que se contrapõem com a utilização da madeira em alguns elementos chaves do projeto, refletindo tons terrosos (cor quente) para proporcionar um aquecimento ao espaço. E a presença da totalidade da cor através do branco, em alguns elementos específicos da ambientação, serve para contrapor de forma sutil junto às cores neutras. Uma leveza proposital aos elementos, a ser demonstrada em cada espaço da residência. A composição dos espaços conta ainda com uma harmonização visual através das texturas e movimentos alcançados pelo uso de tecidos e papeis lisos neutros e extremamente claros apenas com tramas-linho. Mas para contrapor com os tons


claros e contribuir na diferenciação de texturas, é possível perceber no projeto a presença da madeira natural apresentando veios sutis, em tom castanho, trazendo um movimento natural. A fim de valorizar esta integração entre os tecidos, papeis e madeira, é importante citar que o brilho do espelho prata

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e do aço inox utilizado em algumas peças forma uma composição fundamental para a criação de amplitude e leveza em todo o ambiente. Nesta linha, o uso do vidro incolor também traz, através da sua transparência, presença e ausência simultâneas, valorizando os elementos próximos.


Iluminação e escolha dos móveis O conceito do projeto luminotécnico baseia-se em um jogo de luz e sombra valorizando nuances dos tons neutros entre o cru e os terrosos e proporcionando uma composição aconchegante ao espaço. O uso de peças soltas como abajur, coluna de pé, além de arandelas, alcançou uma perfeita harmonia do ambiente, mas sem deixar de trazer claridade e amplitude. A escolha dos móveis foi feita priorizando a presença da madeira natural e de outros elementos que remetem a estes aspectos, além do uso do espelho, do vidro, do aço e das texturas de tecidos. O mobiliário buscou a mescla entre esses materiais para trazer leveza e ao mesmo tempo imponência. As peças de maior tamanho foram definidas em tons claros para trazer leveza, como o sofá, as poltronas a mesa de jantar e as cadeiras. Todos em linhas retas com um ar contemporâneo, mas proporcionando conforto e identidade. A presença do couro marrom através da poltrona das alças dos puffs de apoio e dos detalhes da cristaleira traz um aspecto sóbrio e ao mesmo tempo despojado.

Espaços que se completam A disposição do mobiliário da área social contempla uma área de hall, com a presença de um aparador e um espelho, além de um espaço de jantar para 8 pessoas com uma ampla cristaleira revestida em tecido e couro. O living conta com tecidos claros e aconchegantes e também um homebar com a presença de uma estante de apoio para livros, adornos e uma poltrona de leitura, além da área de gourmet junto à churrasqueira trazendo um dinamismo que integra todos esses usos e espaços integrados que unem a família. Conforme o conceito do projeto como um todo, a área social contempla diversidade de texturas em sobretons suaves contrapondo com a presença de elementos naturais. O uso da madeira natural, do espelho, do linho, do vidro, do aço se complementam e proporcionam os aspectos de uma perfeita composição de luxo contemporâneo. Na cozinha, materiais lisos como a pastilha de vidro fendi, a laca alto brilho, o caesarstone (tampo em quartzo de resina) cru, o vidro espelhado refletente bronze, os eletros em inox e os tecidos em couro branco das cadeiras trazem a leveza e deixam o espaço mais limpo, valorizando cada elemento com o seu devido papel funcional que uma cozinha precisa. O uso de materiais práticos e fáceis de manusear direcionou o projeto, mas sem esquecer de trazer um toque diferenciado ao ambiente através do tom das paredes, que complementam a presença do branco dos armários e do tampo, trazendo um aspecto de limpeza.

O quarto da menina, inspirado na dança, tem tons de rosa bebê e uva claro envelhecidos, cru e detalhes em tons de verde claro. Remetendo aos tons dos acessórios da dança, também ganhou texturas com desenho, trazendo brilho e destaque sutil.

O espaço do menino ganhou aplicações com ausência de cor de ícones da internet em relevo (uso do acrílico) para alcançar um destaque suave com fundo em cor neutra

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A cozinha proporciona uma área de trabalho ideal, com amplos armários, além de uma mesa de apoio para uso diário da família e a presença de uma televisão para proporcionar melhor um dinamismo e a integração. O uso da madeira com veios e texturas em movimento aquece o espaço e faz um contraponto com vários materiais em tons neutros e extremamente claros proporcionando um equilíbrio, sem exageros

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Os quartos dos filhos têm a presença de cor nos elementos mais pesados que compõem a marcenaria junto ao uso do espelho que ora intensifica esta leveza e claridade e ao mesmo tempo reflete outros elementos com cores que trazem movimento. Isso é muito importante para dar a amplitude, em função do tamanho dos quartos. A suíte do casal segue o mesmo conceito da área social, buscando um ar mais contemporâneo e acolhedor com alguns detalhes que proporcionam amplitude e sofisticação: o uso de cores muito

neutras, buscando uma composição lisa; a presença dos tecidos: fendi e cru, sem estampas, apenas um detalhe em lista para contribuir na ampliação dos elementos. É importante citar que a madeira continua presente, mas devido ao tamanho do quarto, utilizou-se em menor escala em relação à área social – trazendo elementos muito claros enfatizados novamente pela estratégia do uso dos espelhos. A cor aparece apenas no desenho das telas para quebrar a monotonia.

Resultado perfeito “O grande diferencial deste projeto foi justamente alcançar uma composição que trouxesse conforto, muita amplitude, mas sem comprometer e carregar o ambiente. Por isso, o retorno que tivemos dos clientes foi extremamente satisfatório, uma vez que os pedidos feitos por eles foram mais do que atendidos, trazendo um layout e uma composição volumétrica nos devidos tons sem exageros, mas obtendo o ar contemporâneo desejado e com muita personalidade”, afirmou Eliza. Para Caroline, este projeto foi muito interessante porque conseguiu utilizar a mescla de materiais naturais de texturas em nuances de tons neutros, além da composição ideal de layout com a presença dos espelhos e devidos materiais na proporção exata. “O uso da perfeita composição de materiais naturais proporcionaram ao projeto uma atmosfera intimista e sofisticada retratando um ambiente harmônico”, finalizou a arquiteta. Texto: Débora Cristina Fotos: Michelle Brodeschi

Arquitetas: Caroline Andrusko & Eliza Schuchovski Projeto: Ambientação de apartamento + fotos do projeto no site: www.artestudiorevista.com.br

Mobiliário Solto: Vila Sierra • Iluminação: Interpam • Tecidos e papéis de parede: Goya Revestimentos Cortinas, almofadas: Marili Decor • Tapetes: Marili Decor • Mobiliário sob medida área social: Marcenaria Kaesart Mobiliário planejado: Originali • Vidraçaria: Projevidros • Revestimentos: G Baraldi • Adornos: Maison Object e Vila Sierra Arte painel quarto menina: Artista Marilene Ropelato • Mármores: Stone Gallery • Lâminas: Laminort 67


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Iluminação

Luz em harmonia com a vida Projeto de iluminação arrojado para um edifício residencial

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m projeto que reúne a beleza de uma iluminação arrojada com a funcionalidade da economia de energia. Este é o princípio do projeto luminotécnico feito pelo empresário e lighting designer Daniel Muniz, já que se trata de áreas comuns de um edifício residencial onde se sabe que

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sempre é importante o consumo e a vida útil dos equipamentos. A idéia é promover uma sensação de aconchego aos moradores do condomínio quando estiverem desfrutando das áreas comuns do edifício já que é uma área grande e os moradores vão aproveitar bastante no conceito de clube privado.


E o passo a passo para a execução do projeto foi bem interessante. Através da coordenação e interação das equipes de trabalho e da arquiteta responsável pela ambientação, Perla Felinto, foram realizadas várias reuniões para discussão dos pontos importantes e que deveriam ser iluminados. Reuniões inclusive com o escritório responsável pelo

projeto de arquitetura, Paulo Macedo, paisagismo de Patricia Lago e Lucas Figueiredo, o educador físico responsável pela montagem da academia. No projeto, foram utilizados equipamentos de baixa manutenção e alta eficiência, como os LEDs na iluminação das escadarias, balizamento do elevador, a fibra ótica na iluminação da piscina

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tipo raia e na piscina infantil, que é um dos grandes diferenciais deste projeto, e também os sensores de presença nos corredores de circulação. E a interação das equipes, para que tudo ficasse pronto de forma tão exemplar, foi realmente fundamental. “Cada um dando o seu melhor, se esforçando, pensando junto para executarmos junto esse projeto de iluminação que teve um resultado fantástico, feito em total harmonia com os projetos de arquitetura, ambientação e paisagismo”, afirmou Daniel Muniz. Por isso mesmo, tanto a construtora e quanto os condôminos, estão todos muito felizes com o resultado. “Essa sensação foi notória, pois se criou um sentimento de satisfação muito bom entre os clientes da empresa, revertendo um positivismo para os próximos empreendimentos”, concluiu o empresário. Detalhes importantes em cada espaço: na iluminação das jardineiras foram utilizados espetos de jardim com efeito Up light e lâmpadas alógenas reproduzindo uma clima muito agradável para os frequentadores da

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piscina, que está iluminada com fibra ótica e mudança de tonalidade de cor nas cores (lilás, azul, verde e branco). Nas palmeiras também foi usado o mesmo efeito Up light em ambos os lados da planta para que a visão da iluminação seja dos dois lados, tanto de quem está saindo da edificação quanto quem está indo em direção a ela. Já no Espaço Kids foram utilizadas luminárias redondas de tamanhos diferentes e de forma “aleatória” para dar uma sensação de descontração já que o espaço requer uma flexibilidade de layout devido às mudanças, dependendo da necessidade. Em todos os equipamentos foram utilizadas lâmpadas com tonalidade de cor de 2700-3000 K (luz amarela) para dar uma grande sensação de conforto em toda edificação, com exceção da academia que foram utilizadas lâmpadas T8 de 32 W 4000K, já que este é um espaço que requer uma atividade mais intensa e estimulante.

Texto: Débora Cristina Fotos: Diego Carneiro

+ fotos do projeto no site: www.artestudiorevista.com.br

Light designing: Daniel Muniz

Arquiteta: Perla Felinto

Projeto: Iluminação

Projeto: Ambientação Luminárias: Emporium da Luz e Light Design

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Estilos

Estilo clássico

O clássico é sempre clássico, por isto nunca sai de moda

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s estilos surgem em consequência dos grandes momentos históricos da humanidade, de forma a materializar e perenizar o sentimento, os anseios e as expectativas que estes impingiram na sociedade que os produziram. No século XVIII a sociedade aristocrática europeia já se mostrava exaurida dos excessos do estilo rococó

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com suas extravagâncias ornamentais, de forma que se encontrava pronta para uma mudança. Faltava-lhe somente um marco, uma motivação que possibilitasse a renovação dos valores estilísticos; esta motivação surge em meados do mesmo século com as descobertas arqueológicas das cidades de Herculano e Pompéia, assim como das ruínas


Opera Garnier

arquitetônicas dos templos gregos de Atenas e Pesto; que revelaram à luz, de forma muito mais explicita, toda a beleza da arquitetura e das artes decorativas da Grécia e da Roma antigas; sendo difundidas pelas exímias gravuras da Roma Imperial, que se incumbiram de difundir a estética greco-romana pelo continente europeu e consequentemente por grande parte do mundo civilizado oitocentista. A denominação de estilos clássicos, ou melhor, dos estilos neoclássicos, advém justamente destes originarem-se dos estilos clássicos greco-

romanos, na França é denominado de Luís XVI. Na Inglaterra pode-se encontrá-los com diversas nomenclaturas como, por exemplo: o estilo Adam, o estilo Sheraton e o estilo Hepplewhite. Na Suécia, temos o Gustaviano. Na Alemanha e na Áustria temos o Biedermeir. Os estilos neoclássicos de decoração, também conhecidos como “estilo à grega”, são estilos consagrados, que foram se perpetuando ao longo dos séculos por suas qualidades estilísticas, por serem verdadeiros, por refletirem o seu tempo

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de forma inquestionável. Quando usados na contemporaneidade de forma comedida, podem transmitir um ar de refinamento e sofisticação; revelam sapienza e pretensão. Para que possamos utilizá-los, faz-se necessário conhecê-los, saber quais são as características que os diferenciam, as suas linhas de construção, as cores predominantes do período, e demais elementos compositivos que os distinguem. Desta forma vamos de modo bastante prático elencar as principais características dos diversos estilos denominados neoclássicos. O estilo neoclássico inicia-se na França no século XVIII, e espalha-se rapidamente pelo resto da Europa e pela América. O móvel do período tornase mais sóbrio, com pernas em caneluras de seção quadrada ou redonda, que se afunilam em direção dos pés, por vezes encontramos cubos com rosetas.

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Os motivos gregos como a grega, os óvulos, e as faixas de ondas, ganham destaques na decoração dos móveis, papéis de parede, tecidos e demais revestimentos. Os lustres Versalhes e o veneziano predominam nos salões, que iluminando belíssimos tapetes como os Savonnerie e Aubusson, assim como fazem resplandecer as sedas, os veludos e os linhos - tecidos característicos do período, assim como o Gobelin e o Toile de Jouy. A peça chave é a cadeira medalhão, com o característico espaldar que a nomeia. O neoclassicismo fora da França teve grande força na Inglaterra, com um design mais sóbrio, mais elegante e versátil. Vários foram os designers de interiores e arquitetos ingleses que o adotaram, mas certamente foi Robert Adam (1728 – 1790) que o introduziu na Inglaterra, conseguindo a unicidade entre arte, design de interiores e arquitetura. A madeira mais utilizada para a construção do mobiliário era o mogno, que podia ficar com o acabamento natural, algumas vezes os móveis eram pintados, outras recebiam douração. O mobiliário possui uma estrutura elegante, bem equilibrada, ornamentada com festões, entalhes, colunas estriadas e caneladas. O estilo Adam na Inglaterra acabou por influenciar os estilos neoclássicos ingleses Heppewhite e Sheraton. Por sua vez, na Suécia desenvolveu-se um estilo neoclássico denominado de Gustaviano, que possui influência do estilo Luís XVI e dos neoclássicos ingleses. Para alinhar-se a este estilo apostem nas pátinas brancas, azuladas e esverdeadas, nos tecidos xadrezes (Vichy) e florais e elementos decorativos clássicos delicados: medalhões, guirlandas de flores e fitas. O estilo Gustaviano é mais informal, com uma atmosfera mais campestre, a simplicidade é a tônica deste estilo. O estilo Biedermeier é um estilo mais austero, como assim os são os germânicos e os austríacos, povos que o utilizaram em um momento difícil no território europeu devido as guerras napoleônicas. Os móveis bicromáticos o caracterizam pela utilização da cerejeira e do ébano, a lira era um forte elemento de composição, assim como outros motivos clássicos; a beleza destes está justamente na simplicidade. Tragam à luz novamente os móveis clássicos para que a elegância destes possa de alguma forma reforçar valores como requinte e elegância em seus ambientes; para que estes possam ser a peça masstige da composição, levando um certo ar racé as suas vidas.

Texto: Glaucus Cianciardi Fotos: Divulgação

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Acervo

O casarão que virou museu A Casa do Artista Popular mostra também o que foi uma grande residência na João Pessoa da primeira metade do Século XX

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m casarão da primeira metade do Século XX, cuja vista principal é a Praça da Independência, no Centro de João Pessoa, abriga atualmente o Museu Casa do Artista Popular. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep), o imóvel de número 56 é o espaço onde o visitante pode se encontrar com a arte mais singela do povo. Revitalizado em 2005, o imóvel sofreu algumas intervenções para abrigar o Museu. No projeto de interiores da arquiteta Janete Costa, algumas janelas e portas foram inutilizadas, porém permanecem na fachada da antiga residência, preservando a identidade visual. Uma rampa também foi instalada atendendo os requisitos de acessibilidade. As edificações secundárias foram transformadas em salas com fachadas que lembram um vilarejo. 80

Preservada, a arquitetura do imóvel revela a origem nobre do primeiro proprietário. Um banqueiro chamado Avelino Cunha foi o ilustre morador do casarão que ainda conserva na sua parte interna o piso original, fazendo com que os visitantes pisem o mesmo solo histórico da residência. A localização em direção ao oceano indica uma característica da época na capital paraibana: a expansão urbana rumo à orla. A imagem do imóvel é peculiar aos cidadãos da classe alta da primeira metade do Século XX, que começavam a adotar em seus imóveis o uso de venezianas, uma das novidades da época em termos de modelos de esquadrias. Marcada por um considerável volume de traços pertencentes a várias correntes estilísticas, ele pode ser considerado eclético, a implantação no lote e a volumetria reforçam essa característica.


O recuo em relação a todos os limites revela um acentuado grau de busca da privacidade para as residências, diferente do modelo de implantação colonial quando os imóveis eram construídos conjugados. A volumetria é marcada pela relação entre a horizontalidade da área principal e a verticalidade da torre presente na arquitetura do imóvel. As relações de convivência dos espaços internos com o corpo curvo da varanda do alpendre principal reforçam essa característica. A tipologia do imóvel se destaca no cenário urbano pelo modo aprimorado do caimento das águas dos telhados e suas aberturas bem dimensionadas. Apesar de se tratar de um imóvel construído em um período de forte efervescência de urbanização, guarda um ar rural, das antigas chácaras com seus palacetes alpendrados, remetendo a influência do inconsciente coletivo patriarcalista diretamente ligado às bases econômicas ainda conservadoras levadas para o cenário urbano que se construía.

O Museu Instalado no casarão, o Museu Casa do Artista Popular foi inaugurado em 2006 e reúne o que há de mais representativo do artesanato e da arte popular paraibana, preservando atividades artesanais desde sua história, crenças e costumes presentes nesta arte. No local, existe um acervo de mais de mil peças representativas de todas as tendências do universo criativo do artesanato local. As visitas podem ser feitas de terça a sexta, das 9h às 17h, e sábado, domingo e feriados, das 10h às 18h e o acesso é gratuito. Porém, o próprio local é um museu em si mesmo do modo de vida de uma parcela da população da cidade. Texto: Neide Donato Fotos: MB

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A História de...

Subindo! O elevador foi fundamental para possibilitar e mudar o panorama das cidades

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esde o antigo Egito o homem tem utilizado ferramentas para deslocar verticalmente pessoas e cargas. Mais de 3.500 anos depois, um dos mais versáteis recursos de construção da engenharia, o elevador, transcendeu as funções de conforto e praticidade para influenciar diretamente na forma como está concebida a malha urbana em todo o mundo. Nos dias atuais é possível pensar em construções funcionais com alturas superiores a 10 andares, chegando aos 160 do Burj Khalifa, em Dubai, apenas graças ao uso dos elevadores. O conceito que inspirou o elevador surgiu no Egito antigo. Para auxiliar na elevação das águas do rio Nilo os egípcios utilizavam a tração animal e humana. Séculos depois, a energia a vapor passou a ser utilizada com o intuito de transportar cargas. A criação de mecanismos de segurança possibilitou que estes mesmos equipamentos de tração fossem utilizados para transportar passageiros. No entanto, foi apenas em 1852 que o americano Elisha Graves Otis desenvolveu o elevador para transporte de pessoas.

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Elevador de Santa Justa - Lisboa, Portugal Elevador Lacerda - Salvador, Brasil


Elevador Centro Georges Pompidou - Paris, França

O que o americano Graves Otis fez foi desenvolver um mecanismo de içamento com recursos diferenciados, dentre eles a presença de um dispositivo automático para manter a plataforma no lugar, caso a corda do guindaste se rompesse. Esse foi o elemento principal da invenção e fez com que Otis registrasse, em 1854, o elevador de segurança, e, em 1857, na cidade de Nova York, projetasse e instalasse o primeiro elevador fechado para transportar pessoas e cargas, movido por correias. A partir deste ponto os projetos de construção passaram conceber edifícios cada vez mais altos em todo mundo e, antes mesmo do final do século XIX, a invenção dos elevadores já amparava o recémcriado conceito de metrópole. No Brasil os elevadores começaram a ser construídos em 1918, movidos por um cabineiro que, ao girar uma manivela, fazia com que o elevador subisse e descesse. As portas, pantográficas, eram abertas e fechadas manualmente.

O surgimento dos arranha-céus fez com que o sistema de manivela se tornasse impraticável nos modelos de construção e sistemas elétricos complexos. A tecnologia foi aperfeiçoada e o uso de relés e circuitos elétricos que atendessem ao chamado de um apertar de botão deu lugar ao comando automático seletivo, permitindo que os elevadores trabalhassem sozinhos. Paralelamente, a qualidade das peças e a facilidade de manutenção possibilitou que os elevadores pudessem servir como uma ferramenta para valorizar ainda mais as construções, variando em formatos desde aqueles com linhas arrojadas, que se adéquam à edificação, até os elevadores panorâmicos. Atualmente, a melhoria do design dos elevadores fez com que os elevadores passassem não apenas a transportar com praticidade e segurança, mas a transportar o usuário com satisfação e sofisticação. Texto: Alex Lacerda Fotos: Divulgação

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Arquitetura e arte

Reflexos íntimos A Gotham City de Batman foi criada em estúdio para expressar o que se passava no interior do super-herói

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identificação de um personagem com uma cidade é um recurso até comum no cinema. Mas quantas cidades nasceram para um personagem? Este é o caso da Gotham City de Batman (1989), de Tim Burton, o primeiro filme a levar seriamente o HomemMorcego aos cinemas. Foi um reflexo das histórias em quadrinhos, em uma época em que o super-herói estava sendo retratado de uma maneira mais sombria do que nas décadas anteriores – e, para isso, a ambientação foi fundamental. Construída através de sets gigantescos nos estúdios Pinewood, em Londres, a Gotham City de Batman segue essa ideia. “Concordo com a ideia de que, como boa parte do filme foi feita em estúdio, tornou-se mais fácil para a produção criar um clima sombrio mais favorável aos personagens”, conta o arquiteto Fernando Galvão. “Isso fica claro desde o início e ao longo do filme, quando Gotham City se mostra uma cidade caótica visual e socialmente, com uma ‘vida selvagem’. Na arquitetura, predominam tons de cinza e uma névoa/fumaça sempre presente nas cenas de planos mais abertos ou fechados”. Não por acaso, a concepção visual do filme se inspira muito no design de Metrópolis, o clássico de Fritz Lang de 1926. O britânico Anton Furst não só foi beber na fonte de Metrópolis – e aí percebese semelhanças também com outros filmes que foram à mesma fonte, como Blade Runner, o Caçador de Andróides (1982) –, mas em uma série de outras inspirações, inclusive as obras de Gaudí em Barcelona. Nos filmes de Fritz Lang, a arquitetura expressiva era mais um caminho para se dizer o que se passava no interior de cada personagem e, numa escala maior, de toda uma sociedade. Não era uma decoração gratuita. “Pelos elementos arquitetônicos que constroem a identidade de Gotham City, eu diria que há uma pluralidade de elementos característicos de vários períodos na arquitetura”, analisa o arquiteto. “As edificações são sempre muito verticalizadas e

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isso é explorado à exaustão nos enquadramentos de cenas, principalmente no sentido de baixo para cima. Podemos ver prédios com arcos plenos romanos com rosáceas/vitrais, peitoris típicos de castelos medievais em coberturas, muitos adornos, torres industriais sempre em funcionamento, minaretes islâmicos, gárgulas góticas, colunas gregas com capitéis coríntios, releitura de frontões clássicos, simetrias... Muitos prédios mesclam pilares, vigas e passarelas metálicas com alvenarias em tijolos cerâmicos”. Esses vários lados ajudam a compor a complexa psicologia do personagem – um homem que usa sua fortuna para se fantasiar de morcego e combater o crime com as próprias mãos, como forma de lidar com o trauma de ter visto os pais assassinados a tiros na sua frente quando era criança – é refletida na cidade criada pelo quadrinista Bob Kane para hospedá-lo. Na versão do filme, inspirada nas versões das minisséries em quadrinhos Batman, o Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller, e Batman – Ano Um (1987), de Frank Miller e David Mazzuchelli, ela é urbana, caótica e a noite parece sempre bem mais longa que o dia. “Psicologicamente, o clima sombrio, escuro e caótico que permeia todas as cenas ajuda a enfatizar a pertubação mental e preocupação constante de Batman não só com o inimigo, mas com a população que, ao mesmo tempo em que o idolatra, ignora-o quando ele não está na ‘pele de homem-morcego’”, continua Fernando Galvão. “É nítido nos momentos mais isolados de Bruce Wayne, no convívio social, na dúvida de um relacionamento amoroso, na prepotência do Coringa, na grandiosidade frágil do prefeito em sua sala sendo vigiado constantemente por estátuas públicas, no desrespeito e vandalismo de obras públicas, no caos de festividades urbanas”. Esse expressionismo está presente tanto na arquitetura produzida em estúdio quanto nos ambientes interiores. “Em alguns, os espaços abertos são os pontos-chave na construção da cena e, consequentemente, na personalidade de um personagem”, explica Galvão. “Um exemplo: uma sala de jantar vista de cima diagonalmente expressando um layout simétrico em relação às

luminárias, lareira, mesa enorme, cadeiras com altos encostos, colunas retangulares salientes nas alvenarias. Em praticamente todos os ambientes de interiores predominam uma luz fraca e pontual que se contrapõe à iluminação geral difusa e embaçada nos planos de fundo. Além disso, quadros e esculturas estão presentes em muitas cenas e de alguma maneira remetem à ação do enquadramento, seja pelo ar jocoso ou pelas dimensões exageradas”. Esse ar “natural” sombrio de Gotham é quebrado drasticamente pelas intervenções do Coringa, o palhaço do crime, que chega a jogar luz em alguns ambientes. Seu comercial de televisão, extremamente colorido e com um cenário de verão, é um corpo estranho proposital no filme, contrastando com a escuridão da Batcaverna, onde Batman o assiste. Na TV, o Coringa gargalhando. Na caverna, Batman e seu olhar sempre tenso. Julho é o mês da estreia de um novo filme do Homem-Morcego nos cinemas. Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, dirigido por Christopher Nolan, encerra a trilogia atual do personagem – Batman abriu uma série de filmes de 1989 a 1997. É interessante comparar o visual dos dois filmes, já que a série de Nolan contou bem mais com locações reais, onde Chicago fez as vezes de Gotham City em muitas cenas. Mas mesmo uma cidade real acabou sendo adaptada de alguma forma a mostrar o que se passa no interior de um dos maiores e mais complexos super-heróis já criados. Texto: Renato Félix Arquiteto convidado: Fernando Galvão Fotos: Divulgação

Batman (1989) De Tim Burton. Com Michael Keaton, Jack Nicholson, Kim Basinger. Distribuição: Warner


Viagem de Arquiteto

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A verdadeira cidade-luz

Com muito neon, Las Vegas é voltada para satisfazer o visitante

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as Vegas é um exagero em tudo. Nasceu no meio do deserto de Nevada nos EUA, esbanja entretenimento, extravagância, shows e muito glamour. Vale a pena ser conhecida e desfrutada, de preferência, com um grupo de grandes amigos. Ficamos cinco dias em Vegas, o suficiente para curtir todo este exagero. Na chegada, nos aguardava uma limusine para levar o grupo ao hotel em grande estilo - lógico, regado a champagne e muita animação. Nos hospedamos em dois hotéis, absolutamente diferentes: o Aria, super moderno e hightech, e o Caesars Palace, o mais clássico e tradicional da cidade. O coração desta metrópole de dois milhões de habitantes é a chamada “Strip”, apelido dado à Las Vegas Boulevard, avenida onde fica a maioria dos gigantescos hotéis e cassinos. A “Strip” é a avenida da diversão graças à arquitetura grandiosa de seus cassinos: são quilômetros de neons, luzes e letreiros. Há um pouco de cada lugar do mundo de Veneza, a Paris. Autenticas “cópias” porém não deixa de impressionar. Caminhamos pela cidade, do Mandalay Bay Resort ao Stratosphere, visitamos quase todos os hotéis, cada um com seu estilo: tudo “fake” e com proporções faraônicas. São os cinco quilômetros mais coloridos e vistosos da América. A caminhada demanda muitas paradas. Devem ser reservados pelo menos três dias para aproveitar realmente este recanto de diversão e lazer. Os shows que a cidade reserva aos visitantes não seriam diferentes: de primeira grandeza, como Elton John, Celine Dion e outros grandes nomes. Fomos ver dois shows “O” e “Love” do Cirque du Soleil. Altamente

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tecnológicos, são de impressionar pela técnica, visual e figurino. Vale a pena fazer as comprinhas básicas tanto pelo preço como pelos produtos que não encontramos no Brasil. Passamos um dia inteiro no outlets Premium North, em meio às grandes marcas internacionais. A noite é luminosa em Vegas: burburinho e badalação. Uma cidade totalmente voltada para satisfazer ao seu visitante. Tudo que passamos e vivemos em Vegas fica em Vegas, mas as sensações e aventuras vividas com os amigos do peito ficaram para sempre no meu coração.

Texto e fotos : Henrique Santiago + fotos no site: www.artestudiorevista.com.br

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Express達o Nacional

Majestade da munganga Genival Lacerda conquistou o Brasil com muito humor e picardia

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uem não conhece Severina Xique-Xique? A personagem da canção ganhou o Brasil em 1975 e se tornou possivelmente o maior sucesso de Genival Lacerda, paraibano de Campina Grande que completou 80 anos em 2011. Uma carreira que começou nos anos 1950 e prosseguiu pelas duas primeiras décadas gravando cocos e rojões de autoria própria, de Antônio Barros e de Rosil Cavancanti entre outros, sob a influência de Jackson do Padeiro. Foi Jackson que o incentivou a ir para o Rio, nos anos 1960, trabalhar nas casas de forró. Quando começou a gravar discos, “o senador do rojão” e “o rei da munganga” eram seu epítetos. “Severina Xique-Xique”, uma composição sua e de João Gonçalves, surgiu no disco Aqui Tem Catimberê. Um primor de duplo sentido: Severina comprava uma butique para a vida melhorar, mas não demorava a aparecer alguém interessado na moça. “Ele tá de olho é na butique dela”, cantava Genival, balançando sua mitológica pança. Vendeu 800 mil cópias e tornou Genival Lacerda conhecido de vez nacionalmente. O bom humor continuou sendo a sua marca registrada, nas capas dos LPs, nas músicas e na performance. “O homem que tinha três pontinhos”, sua e de Luiz Santa Fé, batizou o disco de 1977. A Fubica Dela é de 1987 (título tirado da canção de abertura “Carro velho é fubica”, de Graça Góis e Osmar Navarro) e teve arranjos

e regência de ninguém menos que Sivuca, além das participações do próprio Sivuca e Dominguinhos. Outro clássico de Genival é “Radinho de pilha”, de Namd e Graça Góes, com aquele refrão antológico: “Ela deu o rádio e não me disse nada”. A música foi citada até no filme Lisbela e o Prisioneiro (2003), na cena em que Sélton Mello se esconde do marido de sua amante e imita um rádio para disfarçar. E foi regravada como rock pelo Camisa de Vênus nos anos 1990! Já “Mate o veio, mate”, de novo de Genival e João Gonçalves, foi a principal do disco Troque as Pilhas, Só Não Mate o Veio, de 1984. A essa altura, não se sabe bem se pegava carona no bordão de um dos personagens de Renato Aragão em Os Trapalhões ou se inspirou o personagem. “Galeguim dos zói azu”, de Genival com João Gonçalves, outro grande sucesso, batizou o disco de 1988. “De quem é esse jegue? ” é outra que todo mundo conhece. Em 2008, Genival Lacerda fez uma turnê por várias capitais, acompanhado por uma equipe de filmagem dirigida por Carolina Paiva, que gravou o documentário È Tudo Verdade – O Rei da Munganga. Na apresentação em João Pessoa, ele foi acompanhado pela Orquestra Sinfônica Jovem, dando ares eruditos ao deboche do cantor. Está em alta nosso Genival. Em 2010, ele gravou um dueto com Ivete Sangalo na música “O chevette da menina”. E Genival Lacerda foi um dos homenageados/ imitados por Rodrigo Faro no programa O Melhor do Brasil. Hoje, Genival Lacerda mora em Campina Grande e contabiliza mais de 70 discos lançados. Vem mais um por aí. E, enquanto isso, Severina Xique-Xique está por aí: Renato Aragão até cantou a música em uma das edições de A Turma do Didi. Texto: Renato Félix Fotos: Divulgação

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Estilo de vida

Zorilda de Medeiros Roque

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olitizada e antenada com tudo o que acontece ao seu redor, escolheu a sua profissão influenciada pela beleza, pelas formas e pelas funções das coisas que a arquitetura exige. Essa arquiteta de vocação e coração é paraibana, nascida da cidade de Pombal, mas que desde os dezoito anos se considera uma cidadã do mundo. Define-se como boa mãe, boa avó, cristã, boa profissional, boa amiga e se sente realizada por ter encontrado esse equilíbrio na vida. “Tenho duas filhas, dois genros, quatro netos e uma profissão que amo. O que mais posso querer? Pergunta. Outro ponto que acha importante frisar é que as pessoas devem ver a vida como um grande aprendizado. “Temos que aprender todos os dias para ensinarmos aos outros, assim faço o meu dia a dia. Por isso, o nascimento de minhas filhas e a minha volta às origens são tão marcantes em minha vida: pois elas me trouxeram um grande aprendizado”, finaliza.

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1 ÉTICA:

‘’Que os nossos esforços desafiem as impossibilidades. Lembrai-vos de que as grandes proezas da história foram conquista do que parecia impossível.’’ Charlie Chaplin

“Pois ela mostra o caráter das pessoas”.

2 HUMILDADE:

“Ela mostra o lado bom do indivíduo”.

3 CORAGEM:

“Foi com ela que eu cresci em todos os sentidos”.

4 CONFIANÇA:

“Sem ela você não chega a lugar nenhum”.

6 VAIDADE:

“É o tempero da vida”.

5 ALEGRIA:

“O mundo necessita de fluidos positivos, e a alegria é um deles”.

7 SOLIDARIEDADE:

“Afinal somos todos irmãos”.

8 EDUCAÇÃO:

“Dizer por favor, obrigada, com licença. Isso mostra o respeito que se tem pelo outro”.

9 LIVROS:

“É importante o hábito da leitura. Com eles viajamos pelo mundo”.

Fotos: Divulgação e acervo pessoal 95


Opinião profissional Várias cidades do Brasil estão requalificando os seus CENTROS HISTÓRICOS nesses últimos anos .

Pergunta: Como você vê essa requalificação dos centros históricos no Brasil e em especial em João Pessoa ?

ROSSANA HONORATO

Arquiteta e urbanista, professora do curso de AU na UFPB. Esse cenário de busca mundial da conservação dos centros históricos já remonta a mais de um século e se consolidou com as grandes reformas urbanas pós-revolução industrial. Conservação, restauração, reabilitação, requalificação, enfim... Diversas são as abordagens sobre o quê, como e para quê proteger o patrimônio das cidades do passado. No Brasil, há episódios dispersos de conservação que são praticamente dessa mesma época; mas o interesse propriamente dito, as primeiras intervenções em sítios inteiros, pode dizer-se coisa recente, terceiro quartel do Século XX para cá. Isto, sem desmerecer iniciativas que ajudaram o país a consolidar organismos oficiais que deram início a processos de conservação de sítios urbanos cujas marcas relatam a história de suas fundações desde praticamente a colonização. Esse apreço pelo passado que toma conta do presente - inclusive de parte da população brasileira habitante de cidades já marcadas pela modernidade -, passa a constituir valores sociais. Sejam simbólicos; sejam de troca, face à atração que as cidades antigas passaram a exercer sobre o deslocamento de pessoas com o intuito de conhecer como eram os lugares distintos dos seus, firmando

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um elo potencialmente poderoso (e controverso) para a economia urbana com o viés da promoção turística, que carrega consigo um risco de perda da identidade paisagística de cada região do país mediante os usos que se vão agregando às necessidades desse circuito. O fato é que essa é uma questão complexa para uma opinião em tão poucas linhas, mas vários têm sido também os dividendos sociais para a cultura dos lugares no caso de experiências ditas exitosas. Embora a questão da insustentabilidade das políticas públicas no Brasil seja da maior gravidade para a prosperidade de iniciativas em processo de consolidação. O caso de João Pessoa, cidade nascida oficialmente pelas mãos da Coroa Portuguesa ainda no século XVI, apresenta uma característica peculiar mediante o paradoxo entre o tanto tempo de vida: o baixo investimento oficial na conservação do patrimônio antigo edificado e uma alegada situação de refém do desenvolvimento de Recife, capital do vizinho Pernambuco, distante apenas 120 km, cuja dinâmica econômica salta à décima potência sobre a local. E é em Recife também, junto a Salvador, na Bahia, em cidades da região das Minas Gerais, em São Luiz, no Maranhão, dentre outras, que se encontram referências relevantes. Olhos paraibanos antenados nasceram dentre os historiadores urbanos e os primeiros arquitetos egressos do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPB que, desde a década de 1980 no caso destes últimos, passaram a chamar à atenção pública o significado da história do passado residente no tecido urbano do centro fundador de João Pessoa, com seu arruamento original ainda legível, seu casario e diversos monumentos edificados de grandeza singular. Essas circunstâncias motivaram o tombamento da cidade, pelo Iphan em 2007, como bem cultural de interesse nacional. Uma conquista suada que reuniu a conjugação de várias forças sociais.

Esse reconhecimento gerou para a municipalidade o compromisso de prover um órgão oficial para proteger e promover o uso socioeconômico equilibrado do Centro Histórico através do incremento de sua dinâmica urbana, do investimento em habitação, qualificação dos espaços públicos, reabilitação do patrimônio edificado tombado e a revitalização de todo o conjunto que conjuga ainda um complexo singular de águas fluviais e matas nativas a ele associado. Um esforço que começou tarde, mas institucionalmente muito bem, em 2008, com o reconhecimento das representações sociais interessadas na conservação do Centro Histórico, que, reunidas pela PMJP através da então Probech, hoje Copac (Coordenadoria do Patrimônio Cultural), elaborou por meio de metodologia participativa um Plano de Gestão Compartilhada e Sustentável dos Bens Culturais de João Pessoa. Este plano demarcou uma missão, delimitou eixos estruturantes de ação e metas a atingir com a vigência essencial de um conselho gestor, paritário e com função deliberativa, para monitorar o processo de conservação e revitalização do sítio tombado em sua plenitude, que estabeleceu uma visão de futuro cujos olhos se estendem ao ano de 2016. Muitas intervenções oficiais foram feitas, outras iniciadas e até hoje não concluídas e outras fundamentais sequer encaradas. O que nos salva é que há grupos sociais interessados naquele cenário de memórias e que se empenha como pode no processo de revitalização, através de invenções autônomas salutares de usos mistos promotores de um caldo de cultura que ajuda a assegurar ao tempo a expectativa do tratamento e da atenção ainda necessários à asseguração da identidade cultural e à promoção da autoestima pessoense por meio de marcas urbanas peculiares que somente João Pessoa tem.


atualizações sobre as diversas e variadas técnicas de preservação e catalogação digital destes acervos. Uma das comissões especiais do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) trata exatamente dessa matéria, patrimônio cultural, e nesse sentido nos colocamos à disposição para colaborar através do trabalho de nossos conselheiros nas parcerias que se julgarem pertinentes.

CRISTINA EVELISE

Arquiteta e urbanista, presidente do CAU-PB e conselheira representante do IAB-PB no Conpec/Iphaep. Já há alguns anos o poder público vem investindo nos centros históricos. Os gestores começaram a perceber o valor patrimonial e cultural desses sítios por vezes protegidos pelo tombamento seja no âmbito federal, estadual e/ou municipal, entendendo que promover e valorizar esses ambientes além de significar a salvaguarda da memória da ocupação de seu território, seja histórica ou socialmente, significava também perpetuar a memória de seu povo. Aqui na Paraíba, há que se reconhecer os esforços empreendidos pelo Ipham, pelo Iphaep e pela prefeitura municipal de João Pessoa, que unem esforços no sentido de proteger, divulgar e melhor qualificar os imóveis e o casario cadastrados ou tombados, seja através da conscientização de seus proprietários e da população sobre a importância dessa preservação, seja através da orientação nas possíveis soluções para a adequação de novos usos a essas edificações antigas. Atualmente eu diria que muito já se avançou nestas questões, mas é necessário ainda que os gestores públicos invistam mais na ampliação de seus quadros técnicos para que as demandas nessa área sejam atendidas com mais celeridade, e também na educação continuada desses quadros, incentivando especializações e

CLAUDIO NOGUEIRA

Arquiteto e Urbanista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional na Paraíba (IPHAEP). Creio que a requalificação dos centros históricos no Brasil pode ser entendida como uma das formas de recuperar o papel identitário que nossa cultura precisa ter no atual processo de desenvolvimento do país, ao mesmo tempo em que contribui para repensar a cidade e o seu papel na atualidade, na medida

em que estes centros históricos carregam um grande potencial econômico – infraestruturas instaladas, área construída aproveitável, possibilidades de geração de emprego e renda a partir da cultura local, etc. - e simbólico – como referenciais da identidade, da memória, afetividade, et. – cujo processo de requalificação põem em evidencia e que pode ser utilizado como referência n um desenvolvimento urbano mais sustentável. No caso de João Pessoa, temos um processo de revitalização iniciado na década de 1980, a partir entre o IPHAN, o Governo do Estado da Paraíba, a Prefeitura Municipal de João Pessoa e a Cooperação Espanhola (AECID), e que construiu uma base sólida para as ações postas em prática nos últimos 25 anos, possibilitando que importantes testemunhos de nossa história, bem como parcelas importantes do nosso centro histórico fossem requalificados. Hoje, acredito, temos que avançar num aprimoramento das formas de gestão pública e participação da sociedade civil neste processo de requalificação de forma que possamos garantir a permanência e o avanço do mesmo no sentido de contribuir para uma maior vitalidade da área, uma maior participação desta no desenvolvimento econômico da cidade e um maior estreitamento dos laços de identidade e afetividade da população com o Centro Histórico de João Pessoa. Fotos: Vista áerea do Centro histórico de João Pessoa/PB


Conversa franca

Passado e futuro Entre os dois transita o roteiro arquitetônico de Marco Coutinho, primeiro arquiteto a dirigir o Iphaep

E

le se volta para o passado e defende a preservação dos centros históricos, como forma de manter a singularidade e a identidade de um povo. Se preocupa com o futuro das grandes cidades, destacando que a arquitetura, o urbanismo e o paisagismo têm a missão de elaborar bons projetos, que estejam inseridos dentro de ações governamentais que garantam a verdadeira cidadania. Perfeccionista, atento aos mínimos detalhes de um projeto, o paraibano Marco Antonio Coutinho foi o primeiro arquiteto escolhido para dirigir o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep). Aos 47 anos, também professor da UFPB, ele traça um roteiro de vida em que o pensar do cidadão está intrinsecamente ligado ao fazer arquitetônico. E revela: tudo começou aos 12 anos, quando viu o pai desenhar a casa do avô. ARTESTUDIO - A arquitetura era um sonho de criança? A partir de quando,ela se tornou o caminho que iria seguir profissionalmente? Marco Coutinho - Aos 12 anos, vi meu pai desenhar a casa do meu avô. Vi e entendi a planta esboçada. Gostei desta “brincadeira” e passei a desenhar a planta da casa onde morava. Em seguida, comecei a comprar as primeiras edições de Casa Cláudia, que, nos anos 1970, era muito melhor, com casas de vários profissionais respeitados e com grande qualidade arquitetônica. Desenhar casas para clientes inexistentes, na minha adolescência, me fez ver que eu só poderia me dedicar à arquitetura. AE- Na década de 1980, aluno da UFPB, o senhor participou dos primeiros projetos de revitalização do Centro Histórico de João Pessoa. O que, de mais significativo, guardou dessa experiência? MC - Fui o primeiro estagiário da Comissão do Centro Histórico em 1987. Foi determinante para minha carreira a convivência com aquele grupo que montou o Convênio Brasil/Espanha. O contato com um edifício a ser revitalizado: o levantamento arquitetônico, todas as etapas projetuais até surgir

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a solução final. Depois a definição das instalações, para chegar à obra em si. Enfim, tudo que é a função precípua do arquiteto eu pude vivenciar e forjou o profissional que sou hoje. AE - Depois, já como profissional, esteve na equipe que recuperou o Mercado Central. Como foi trabalhar com um patrimônio que, apesar de não ser tombado, faz parte da memória afetiva da população de João Pessoa? MC - Esse projeto de extensão da UFPB com a PMJP começou com uma pesquisa histórica que mostrou esse paradoxo: um prédio tão importante, como o principal mercado público da capital, não ter, sobre si, uma proteção patrimonial. Entendi que deveria conversar com o Iphaep que, na época, tinha o colega Raglan Gondim como coordenador de arquitetura. Foram definidos e respeitados parâmetros de gabarito e o respeito à arquitetura dos galpões originais. As novas edificações mantiveram a lógica do conjunto inicial: peças pré-moldadas para agilizar e baratear a obra. Entretanto, elas foram concebidas em aço, para diferenciar os dois momentos históricos. Foram inseridas nos espaços anteriormente ocupados desordenadamente pelos inúmeros comerciantes, que ao longo do tempo foram se alojando lá. A ideia foi dar total acessibilidade e adequação às normas da Vigilância Sanitária, há muito esquecidas pelos comerciantes. O resultado final – ainda deverá levar mais uns dois anos para a conclusão – me agrada bastante, pois prova que é possível fazer uma obra pública com qualidade arquitetônica e com acabamentos dignos. AE - Hoje, como professor do curso de Arquitetura da UFPB, acredita que somente a academia forma um bom profissional? Ou é a experiência do dia a dia quem, realmente, lapida um talento que já existe? MC - Os dois. Sem base não se ergue um edifício. Acredito que a Academia deva se aproximar mais do fazer arquitetura. Dessa forma poderemos equilibrar com o pensar que atualmente é dominante. O dia


a dia em um escritório de projetos e execução de obras é o colocar em prática toda a metodologia que nos foi passada durante a graduação. Corremos o risco de nos envolvermos tanto com essa rotina e perder a capacidade de reflexão sobre o que produzimos, gerando repetições e produtos estandardizados. Somente a mistura dessas duas partes é que garantirá uma retroalimentação do ofício de arquiteto: pensar e fazer, refletir e melhorar. AE - O senhor vai passar à história como o primeiro arquiteto a dirigir o Iphaep. Quais os traços administrativos que pretende deixar, como legado, para as futuras gerações que possam estudar o instituto? MC - A atualização da estrutura do Iphaep é uma das minhas maiores bandeiras. A ampliação do quadro funcional é fundamental para garantir o bom atendimento das demandas geradas pela população. A revisão dos perímetros definidos para os 14 centros históricos tombados também deverá acontecer. A intenção é registrar claramente as áreas de preservação rigorosa, se concentrar nelas e flexibilizar as demais áreas já descaracterizadas. Os imóveis de valor que estiverem isolados deverão permanecer com a proteção atual. Esse trabalho nos levará a uma legislação específica para cada conjunto, intimamente ligada à dinâmica de cada cidade, protegendo o que é realmente importante e promovendo a renovação urbana de maneira a garantir a preservação da paisagem e a identidade de cada lugar. AE - O Iphaep atua como guardião da memória patrimonial das cidades paraibanas. Como pretende conseguir que os proprietários - particulares e do poder público – se tornem mais cuidadosos com o resgate da história e da arquitetura dos bens móveis e, principalmente, dos imóveis dos seus municípios? MC - Através de um programa de educação patrimonial. Precisamos nos aproximar das comunidades, explicar a singularidade dos conjuntos arquitetônicos, dos bens móveis que possuem. A preservação pode gerar renda para todos, isso não é novidade. A Europa recebe milhões de turistas, inclusive paraibanos, que se deleitam com museus, parques, jardins etc. Quando chegam na Paraíba, acham que não há nada de interessante a se preservar: tudo deve ser demolido. É importante educar as pessoas e elevar a autoestima dos paraibanos, pois temos conjuntos belíssimos e que fazem sucesso ao olhar dos turistas brasileiros e estrangeiros. Ou seja, precisamos educar as pessoas para se reconhecerem no patrimônio paraibano e brasileiro. AE - Entre as cidades paraibanas, João Pessoa chama atenção, em particular, por possuir uma área considerada “de risco”. São quase 80 casarões, nas Ruas das Trincheiras e João Suassuna, que estão

abandonados e, até mesmo, com possibilidade de ruir. Que solução pode reverter este quadro, que é desolador? MC - O sistema viário atual deixou ambas as ruas como corredores de transporte coletivo, gerando um fluxo intenso de veículos que produz poluição sonora e atmosférica, desestimulando a permanência. No caso da João Suassuna, a PMJP tem cerca de 9 imóveis e pode instalar parte da administração pública, tendo amplo sucesso dentro do grande projeto de requalificação do Varadouro. Para a Rua das Trincheiras é necessário dividir o fluxo atual com uma via paralela, a Rua Saturnino de Britto, que margeia a parte inferior da Balaustrada – atualmente ocupada pela Comunidade Saturnino de Britto que está sendo removida para uma ampla área bem próxima, ao lado do Distrito Mecânico. Dessa forma, poderíamos humanizar todo o entorno investindo numa renovação dos usos do casario das Trincheiras – prestadores de serviços, instituições públicas ou privadas, escolas, restaurante. Até mesmo habitações unifamiliares poderiam se instalar nos vários imóveis atualmente abandonados. AE - Num plano geral, quais são as maiores problemáticas que identifica nas grandes metrópoles do Brasil e do mundo? Que soluções poderiam melhorar, em curto prazo, a vida dos seus habitantes? MC - Vamos ficar só no Brasil, que já é muito. Nosso maior problema é a desigualdade social. Enquanto prevalecer essa concentração de renda excessiva, continuaremos com uma bomba relógio prestes a explodir. Educação e saúde de qualidade para a população nos levarão ao patamar de desenvolvimento real que necessitamos. Projetos de mobilidade urbana sustentáveis, para as cidades médias e grandes, possibilitarão a democratização dos demais meios de transportes e reduzirão o congestionamento atual promovido pelos transportes individuais movidos a combustíveis fósseis. A arquitetura, o urbanismo e o paisagismo não trarão solução para esses problemas conjunturais. Podemos, no máximo, elaborar bons projetos que estejam inseridos dentro de ações governamentais que garantam a verdadeira cidadania. Texto: Thamara Duarte Fotos: Divulgação


Carta do Leitor A Artestudio quer ouvir você. É com prazer que aceitamos a sua opinião, críticas, sugestões e elogios. Entre em contato conosco:

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Gostaria de parabenizar a ARTESTUDIO pela variedade de temas abordados na revista e pela riqueza de conteúdo. Gosto demais e admiro o trabalho de toda a equipe. Parabéns!

Simone, ficamos satisfeitos quando apresentamos algo novo e que surpreende o nosso leitor. Mas o mérito maior é dos profissionais, autores desses projetos que apresentamos.

Ana Lúcia João Pessoa, PB

Obrigado Ana Lúcia. Estamos sempre aperfeiçoando e agradecemos o seu elogio.

nos

Gostei muito dessa matéria nova, Estilos. Mas acho que poderia ter abordado mais detalhes sobre cada um para poder ajudar as pessoas, que como eu, não sei com que estilo realmente me identifico. Aline Cordeiro Campina Grande, PB

João Costa São Paulo, SP

Quero assinar a Artestudio, como faço?

Concordamos, Aline, por isso informamos que não foi apenas uma matéria, mas uma seção nova. Será uma série de matérias e já nesta edição nos aprofundamos no estilo clássico. Confira as outras que virão na sequência e encontre aquele com que você mais se identifica!

Sou de João Pessoa e fiquei encantada por aquele restaurante em Campina Grande. A iluminação ficou um espetáculo. Quero viajar apenas para conhecer esse lugar. Bom demais vocês apresentarem esses lugares que a gente não conheceria sem a revista. Parabéns. Simone Dias João Pessoa, PB

Tenho usado a revista ARTESTUDIO como ajuda em minhas aulas, pois sou de outro estado e é bom que meus alunos conheçam melhor o que é produzido Brasil afora. Parabéns pelo excelente conteúdo produzido.

José Carlos João Pessoa, PB

Ainda não temos assinatura, José Carlos, mas estamos providenciando. Enquanto isso, acesse o nosso site (www.artestudiorevista.com.br) e veja a edição digital. Nela estão todos os nossos parceiros anunciantes, que recebem vários exemplares que podem ceder para você. Ou então venha nos fazer uma visita e pegue o seu exemplar.

A ARTESTUDIO agradece a todos os e-mails recebidos. Não podemos publicar todos eles, mas saibam que nenhum ficará sem resposta. Um grande abraço a todos vocês leitores e colaboradores da ARTESTUDIO. Obrigado! A editoria

Errata A foto do Museu Oscar Niemeyer que está no sumário da edição 37, deveria ter sido anexada no lugar da ponte JK do arquiteto Alexandre Chan na matéria grandes arquitetos, pag. 24. 100


Endereços dos profissionais dessa edição

Arthur Casas Rua Itápolis, 818, Pacaembu, São Paulo - SP Tel: 11 2182.7500 casas@arthurcasas.com www.arthurcasas.com Carolina Andrusko/ Eliza Schuchovski Av. Batel, 1230 - Cj. 906-BTC, Batel Curitiba - PR Tel: 41 3023.4996 arquitetura@perffectta.com.br Daniel Muniz Av. Jacinto Dantas, 160 / loja C, Manaíra, João Pessoa-PB Tel: (83) 3226.2622 Gilvane Bittencourt Av Sen Ruy Carneiro, 300 s 104 João Pessoa - PB Tel: 83 3225.8262 | 3031.3259 | 9302.3133 gilvanebit@gmail.com

Perla Felinto Nogueira Luksys Av. João Maurício, 1675, Sala 303 - Manaíra João Pessoa - PB Tel: 83 8787.4095 perla.felinto@gmail.com Sandra Moura Rua Corálio Soares de Oliveira, 433, Edf. Atrium - Sl 603/604, Centro João Pessoa - PB Tels: 83 3221.7032 | 3241.6999 sandramoura_arquitetura@yahoo.com.br Silvana Freitas / Tharsiana Freitas Rua Aderbal Maia Paiva, s/ nº, lote 22, quadra 256, Condomínio Boungainville, Portal do Sol. Tels: 83 8802.6869 | 3247.2708 | 9819.9000 freitasarquitetura@gmail.com

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