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Ano X II - nº 45

www.artestudiorevista.com.br

arquitetura & estilo de vida

PLANEJAR A

REFORMA: antes ou depois da mudança?

apartamento de

COBERTURA procura refletir os membros da família

LUZ NATURAL Suas vantagens e desvantagens

AS MUDANÇAS

para um novo

jeito de morar

CASA

em condomínio fechado aproveita os muitos cômodos

SHOWROOM DE GRIFE Arquiteto paulista cria projeto para a marca Armani no Brasil

+ A história do teatro, um perfil de Richard Rogers, os desafios da gestão pública no urbanismo


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SUMÁRIO

Ano XII Edição 45

DICAS & IDEIAS 28 A HISTORIA DE...

O teatro começou na rua, mas hoje o tom é o conforto

58 ACÚSTICA

O equilíbrio entre a qualidade do som e não incomodar os vizinhos

CONHEÇA 22 LIVRO

Tendência Rio passeia pelas residências de vários bairros cariocas

24 ARTIGOS

54 GRANDES ARQUITETOS

A nobreza do britânico Richard Rodgers

62 ACERVO

A beleza de uma sede maçônica pessoense

VISÃO PANORÂMICA 14

Amelia Panet mostra a responsabilidade social na obra de Shigeru Ban e Francis Keré

URBANISMO 16

Rossana Honorato aponta os desafios da gestão pública

VIDA PROFISSIONAL 18

Orlando Oda apresenta a importância da comunicação não visual

VÃO LIVRE 20

O mal do conhecimento raso segundo Gisele Meter

ENTREVISTAS ENTREVISTA

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A urbanista Juliana Garrocho fala das vantagens e desvantagens da luz natural

SOCIEDADE REPORTAGEM 74

A decisão de planejar a reforma antes de se mudar ou deixar para depois

ESPECIAL 80

A reconfiguração dos espaços nos novos jeitos de morar

66 VIAGEM DE ARQUITETO

As belezas de Munique, na Alemanha

70 ARQUITETURA E ARTE

Le Corbusier na briga entre dois vizinhos de O Homem ao Lado

76 ARQUITETURA E MODA

Visibilidade sem exageros: Misteriosa e sensual, a transparência sempre brincou com o imaginário da moda

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64

PROJETOS MUITO CÔMODOS

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O MELHOR DE CADA UM

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NOSSA CAPA

44

Projeto de casa de Geórgia Suassuna em condomínio aproveitou bem os espaços

Projeto de cobertura em Santos de Carla Felippi procura refletir os membros da família

Diego Revollo projeta um showroom com a grife Armani

Nossa capa: Foto: Alain Brugier Projeto: Diego Revollo


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arquitetura & estilo de vida ANO XII - Edição 45

EXPEDIENTE Diretora/ Editora geral - Márcia Barreiros Editor responsável - Renato Félix, DRT/PB 1317 Redatores - Alex Lacerda, Débora Cristina,

Lidiane Gonçalves, Renato Félix

Diretora comercial - Márcia Barreiros Arte e diagramação - Welington Costa Fotógrafos desta edição - Diego Carneiro / MB Impressão - Gráfica JB

QUEM SOMOS AE é uma publicação trimestral, com foco em arquitetura, decoração, design, arte e estilo de vida, com tiragem de 8 mil exemplares de distribuição gratuita e dirigida. A reprodução de seus artigos, fotografias e ilustrações requer autorização prévia e só poderá ser feita citando a sua fonte de origem. As colaborações e artigos publicados e fotos de divulgação são de responsabilidade exclusiva de seus autores, não comprometendo a revista, nem seus editores.

ONDE NOS ENCONTRAR Contato: +55 (83) 3021.8308

/ 9957.1617

c o n t a t o @ a r t e s t u d i o r ev i s t a . c o m . b r d i r e t o r i a @ a r t e s t u d i o r ev i s t a . c o m . b r R. Tertuliano de Brito, 348 - Bairro dos Estados, João Pessoa / PB , CEP 58.030-044 revistaae @revARTESTUDIO Artestudio Marcia Barreiros

www. artestudiorevista. com. br As matérias da versão impressa podem ser lidas, também, no nosso site: www.artestudiorevista.com.br com acesso a mais textos, mais fotos e alguns desenhos de projetos 14


LIVRO

UM RETRATO DOS CARIOCAS Obra de Renato Tomasi compila 32 projetos em vários bairros da Cidade Maravilhosa

que elaborou as duas outras obras retratando projetos desenvolvidos em Minas Gerais. No livro o autor consegue apontar diferenças entre cada região abordada nos capítulos, como o tradicionalismo na Zona Sul e a contemporaneidade no bairro da Barra da Tijuca. Através do livro também é possível notar a interferência da estrutura viária da cidade na decoração das casas. O autor aponta que os projetos situados em pontos de trânsito mais intenso recebem mais investimentos, pois as pessoas preferem ficar em casa. Tomasi entra na casa dos cariocas e revela o despojamento que unifica e identifica todos os projetos, sejam eles voltados para o clássico ou direcionados para a contemporaneidade.

Texto: Alex Lacerda | Fotos: Divulgação

Para conhecer o povo que mora em uma cidade, basta conhecer sua casa. Foi com este pensamento que o autor do livro Tendência Rio – Arquitetura e Interiores, Renato Tomasi, preparou um material que compila 32 projetos inéditos dentre os mais talentosos da cidade maravilhosa. O autor, um admirador do Rio de Janeiro, dividiu as 300 páginas do livro em três capítulos, cada um deles abrangendo uma região da cidade. No primeiro capítulo, Renato Tomasi aborda as residências dos bairros Copacabana, Ipanema, Leblon e Jardim Botânico, no segundo, os projetos são dos bairros Santa Teresa, Laranjeiras, Glória e Botafogo, e o terceiro apresenta projetos desenvolvidos nos bairros São Conrado, Barra da Tijuca e Jacarepaguá. Lançado no Casa Cor 2013 pela Editora Tendência, o livro tem edição bilíngue, em português e inglês. A assinatura dos projetos fica por conta de 39 profissionais da área, entre veteranos e novatos. Este é o terceiro livro do autor, mineiro e administrador,

Jovem e muito antenado, o empresário mineiro Renato Tomasi não para. A cidade maravilhosa é também o local onde Renato Tomasi tem passado a maior parte dos últimos meses, alternando seu tempo na ponte aérea RioBH, duas cidades que ele ama. Com apenas 26 anos, essa já é a quarta publicação editorial nesta área organizada por ele. Bastante inquieto, além de inovador e muito criativo, ele afirma estar somente no começo. Para 2014, além de outras publicações temáticas, o empresário promete agitar os setores de arquitetura, decoração e afins com inúmeras ações, entre elas um festival inovador.

Tendência Rio, de Renato Tomasi, Editora Tendência, 2013

Renato Tomasi Autor

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EDITORIAL

UM NOVO TEMPO 2014 começou com a promessa de ser o ano mais agitado em muito tempo. Há a Copa do Mundo e há as eleições para presidente, governadores, senadores e deputados federais – mas tudo isso temperado pelos protestos que sacudiram o país no ano passado. A AE, nesta edição especial, fala da gestão pública do urbanismo, das mudanças que os anos trouxeram aos nossos jeitos de morar, os problemas sonoros das casas de festas, questões envolvendo a luz natural nos ambientes. São questões do nosso dia a dia, práticas e reflexivas, que vão nos acompanhar por muito tempo e às quais voltaremos algumas vezes aqui na AE - porque todas elas sempre têm elementos a discutir. Há também os projetos e seções que você já espera acompanhar em todos os nossos números. Na nossa capa, o projeto de um showroom em São Paulo para uma das mais prestigiadas marcas do mundo: a Giorgio Armani. Seguiremos acompanhando este ano movimentado no Brasil. Um novo tempo... apesar dos perigos.

MÁRCIA BARREIROS

editora geral e diretora executiva Colaboradores desta edição:

Boa leitura!

ARTESTUDIO

WELLINGTON COSTA prod. e diagramador

RENATO FÉLIX editor de jornalismo

AMÉLIA PANET arquiteta

DIEGO CARNEIRO fotógrafo

ROSSANA HONORATO arquiteta

JEAN FECHINE arquiteto

ORLANDO ODA Adm. Empresas

GERMANA GONÇALVES designer interiores

LIDIANE GONÇALVES jornalista

DÉBORA CRISTINA jornalista

ALEX LACERDA jornalista

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Parque Nacional do Mali, em Bamako, Mali

VISÃO PANORÂMICA

ARQUITETURA E

RESPONSABILIDADE

SOCIAL O

anuncio do arquiteto japonês Shigeru Ban como o laureado 2014 do Prêmio Pritzker de Arquitetura, o maior da arquitetura mundial, reforçou a ética e a responsabilidade social da profissão como bandeiras importantes nesse novo século. Além de responder com criatividade as demandas de clientes privados, Ban foi reconhecido pela sua competência no campo da arquitetura social, de emergência e temporária no atendimento às grandes catástrofes ambientais. De acordo com o júri do Pritzker 2014: “Shigeru Ban é um arquiteto cujo trabalho incansável inspira otimismo. Onde outros podem ver desafios insuperáveis, Ban vê um convite à ação. Onde outros podem tomar um caminho seguro, ele vê a oportunidade de inovar. Além disso, ele é um professor comprometido que não é apenas um modelo para a geração mais jovem, mas também uma fonte de inspiração.”

Centro de Saúde e de Promoção Social de Laongo, Burkina Faso

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Nesse sentido, Pérez-Gómez em Architecture, Èthique et Technologie afirma que, se o arquiteto contemporâneo pretende representar um papel nesse mundo complexo, consciente das imposições ambientais e das diferenças culturais, um mundo onde a tecnologia continuará avançando na escala do planeta, esse profissional deve refletir sobre as estratégias próprias para que possa revelar a capacidade que a disciplina “arquitetura” tem para concretizar uma intencionalidade ética. Nesse sentido, a correta estratégia de sua arquitetura junto às catástrofes ambientais, fez com que Shigeru Ban valorizasse o papel do arquiteto e da arquitetura em contextos de calamidade pública, como por exemplo, na ocasião do terremoto de Sichuan em 2008, do terremoto no Haiti, em 2010 e, do terremoto no leste do Japão em 2011. Projetando abrigos temporários de alta qualidade, escolas e igrejas, a arquitetura de Ban chega na hora necessária dando abrigo àqueles em sofrimento.


Estimulando essa prática, Pérez-Gómez instiga os arquitetos a encerrarem suas lástimas existenciais e celebrar os “trunfos” da ambiguidade inerente à arquitetura concebida como um universo poético, permeada por discursos endereçados diretamente à concepção perceptiva e imaginativa da humanidade, como se isso fosse o limite. Para o autor, os arquitetos podem ultrapassar esse relativismo puramente formal, estilístico e o profissionalismo pragmático, tirando proveito dos elementos positivos de cada momento para redefinir o seu papel na sociedade, hoje representada por interesses culturais mais vastos, pela universalização tecnológica e espacial e pelos desequilíbrios ambientais. Nesse caminho, assim como a obra de Shigeru Ban, destacamos o trabalho social do arquiteto Diébédo Francis Kéré, nascido em 1965 na aldeia africana de Gando. Pouco conhecido entre os brasileiros, Kéré estudou arquitetura na Universidade Técnica de Berlim. Hoje, ainda em Berlim, coordena seu escritório Kéré Architecture com obras em diversos países, mas especialmente, no continente africano, de onde destacamos algumas singulares como: a Escola Primária e Biblioteca de Gando, em Burkina Faso; o Parque Nacional do Mali, em Bamako, Mali; e, o Centro de Saúde e de Promoção Social de Laongo, Burkina Faso. Com um traço elegante, a obra de Kéré parece ser uma resposta às preocupações de PérezGómez. O arquiteto não abre mão da tecnologia do mundo industrializado, mas realiza sua adaptação às possibilidades locais, com o uso de materiais tradicionais e mão de obra acessível. Sua grande preocupação percebe-se estar no conforto climático que sua arquitetura de baixo custo pode proporcionar. Grandes cobertas e ambientes vazados onde o olhar não se interrompe entre a natureza livre e o abrigo acolhedor. Além de exercer a prática projetual, Kéré exerce o difícil e prazeroso exercício da docência, lecionando na Universidade Técnica de Berlim, na Universidade de Wisconsin, na Universidade de Harvard e na Academia de Arquitetura de Mendrisio, sempre preocupado com questões relacionadas à concepção de edifícios ecologicamente adequados ao seu ambiente. Tanto Diébédo Francis Kéré quanto Shigeru Ban são arquitetos que exercem seu ofício com responsabilidade social, mantendo sua arquitetura como expressão cultural legítima.

Escola Primária de Gando, em Burkina Faso

Parque Nacional do Mali, em Bamako, Mali

Parque Nacional do Mali, em Bamako, Mali

Centro de Saúde e de Promoção Social de Laongo, Burkina Faso

Amélia Panet

Arquiteta e urbanista Mestre em arquitetura e urbanismo Doutora em arquitetura e urbanismo pela UFRN Professora do curso de arquitetura e urbanismo pela UFPB

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URBANISMO

A GESTÃO URBANA, O APARATO INSTITUCIONAL E A CIDADE DESEJADA Fotos: Rossana Honorato

Av. Norte Zona Noroeste, João Pessoa/PB

M

Falésia viva, orla do Cabo Branco, João Pessoa/PB

uitos movimentos sociais urbanos se articulam em busca da cidade desejada. Há tempos que se vê ao longe! Bravejam pública e devidamente. Entre eles, favorecidos pela consciência ou exauridos pela injustiça, os mais carentes representantes de demandas públicas por moradia, saúde, educação e pelo direito de ir e vir no espaço urbano. Outros segmentos sociais privilegiados pelo acesso que desfrutam da assistência dos serviços básicos, ainda que privados, reclamam a gestão democrática da cidade, a plenitude da circulação urbana, transportes de qualidade, habitação para todos, espaços públicos dignos, a sua memória integrada à paisagem de reconhecimento e identificação de pertença a seu lugar; dentre outras demandas fundamentais que resultariam em qualidade do habitat da vida urbana. Em meio ao segmento profissional da arquitetura, e sobretudo do urbanismo em sua pluralidade inter e multidisciplinar, insatisfações semelhantes requisitam o direito à participação social no processo da gestão pública e de opinar sobre as prioridades de investimento oficial em ações que qualifiquem funcional e formalmente os espaços abertos e fechados e em plena acessibilidade ao usufruto básico da população até o seu lazer, à identidade paisagística de seu cotidiano. O que parece não constituir razão de reconhecimento e validação entre os profissionais que lutam pela espacialidade digna dos serviços públicos e acesso popular à arquitetura, é que por trás do atendimento a essas demandas há um aparato público que precisa funcionar, que não pode ser menosprezado, e que detenha um caráter pedagógico para a cidadania. O que se materializa por meio de vontade política e decisão governamental institucionalizada legalmente através do protocolo de uma lei que consolide a ideia

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Bares da orla, Cabedelo/PB

Fábrica Matarazzo, Varadouro, João Pessoa/PB

da demanda em investimento na estruturação de um modelo de gestão, de um espaço físico funcional, de pessoas para gerenciar a criação de um novo serviço e de uma equipe de assessoramento para coloborar com a implantação e a inclusão do novo serviço à ordem do dia. O que é objeto desta reflexão é que, decerto, a grande maioria de gestores públicos tenha tido acesso ao ofício a eles delegados com o conforto de um aparato funcional preexistente e apto a ser comandado. Certamente, à sociedade em geral também vigora essa impressão. A maioria dos agentes da rede de prestação de serviços públicos, na alta escala da hierarquia de comando, recebe um convite e uma delegação da autoridade competente sem a demanda de conceber e materializar um novo organismo institucional. Tarefa que pode iniciar-se com a colaboração para redigir uma minuta de projeto de lei ate a sua consequente materialização em lei, aprovada pelo poder legislativo, criando e estabelecendo em linhas gerais os parâmetros de implantação na rotina administrativa. O que parte de profissionais de quaisquer áreas de ação, reconhecida como pessoas esclarecidas, pode deixar de perceber é que a materialização do atendimento a uma clamorosa demanda reside na constituição desse aparato institucional. Decisão política, destinação de recursos financeiros para o planejamento da concepção do novo organismo, aí inclusos: a configuração de um organograma para a estrutura administrativa em respeito à hierarquia institucional, um cronograma de consolidação do fluxo da rotina de atendimento público e o abrigo de um layout físico, apto em organização espacial e conforto ambiental para o desempenho das atividades, seus respectivos postos de trabalho,


mobiliário e equipamentos necessários à realização das tarefas, material permanente e de consumo mensal, a concepção qualitativa e quantitativa dos perfis pessoais ocupacionais, sobretudo, a sua seleção e contínua capacitação profissional, custos de implantação e de operação em prol da transparência social. Ou seja, planejamento responsivo focado no objetivo geral da demanda delegada. O novo órgão precisa estar regimentado por uma missão, uma visão de futuro, por linhas de ação e por periódicas rotinas de avaliação e de revisão do planejamento primário para a sua concretude. Imagine agora que uma demanda, como a de criação de um novo órgão público, uma secretaria municipal de habitação por exemplo, lhe seja colocada nas mãos através de um documento legal, uma lei aprovada pelo poder legislativo de um município. À sua convocação, um dirigente público, em qualquer esfera do poder federativo, lhe entrega uma ou duas folhas de papel em que se lê a idealização sumária do novo órgão público, ponto final, pra começo de sua tarefa. Você passa a ter uma lei em suas mãos, minguados recursos financeiros destinados ao início da realização de sua tarefa, em parte senão na maioria das vezes, e só. E vezes outras, e não raras, baixa autonomia gerencial. A você podem não ser apresentados sequer um espaço físico para o trabalho a desenvolver, uma mesa ou uma cadeira para sentar, equipamentos para a sua comunicação à distância, e muito menos uma equipe de assessoramento... e você se depara diante de uma sociedade atenta e ávida por resultados profícuos e para atirar pedras ao menor deslize administrativo que cometam, você e a equipe de colaboradores por que você responde. Imagine a tensão diária em corresponder a essa demanda reprimida e imagine também a hora em que se libera para o descanso da labuta. Imagine a qualidade das imagens que lhe permeiam os sonhos. Esta é a realidade da criação de muitos novos serviços públicos de municípios em desenvolvimento no Brasil que buscam atender a demandas sociais promotoras de qualidade de vida para a população, que pode começar assim, por você e um papel. Um folha de papel e você e, no máximo, um colaborador, ambulante como você, para iniciar a tarefa de conduzir a materialização funcional da nova instituição pública. Imagine-se agora delegado para a instalação e o funcionamento de um serviço administrativo em

uma área específica, como os muitos desejados pela profissão da arquitetura e do urbanismo. Quantas leituras, quantas consultas a especialistas em organização e métodos, quantas reflexões e quantas horas de trabalho diário você terá que integrar à sua tarefa... Exercício que pode ultrapassar as oito horas diárias regulamentadas pela legislação trabalhista brasileira, como se sabe, de 40 horas semanais. Estime-se algo como 12 horas por dia ou três turnos de trabalho, sem hora certa para bater o ponto de saída. E diante de tais desafios a superar, habilidade para enfrentar os micropoderes que emergem das relações interpessoais, de que tão bem falou, e a repercussão ainda ressoa, o grande pensador francês Michel Foucault (1926-1984). Um dos exemplos de uma gestão municipal em João Pessoa, nos últimos anos, consumiu 42 meses de atividades ou 11.088 horas de trabalho até dizer ao seu superior: já tem asa, pode voar. Com essa realidade, os últimos mandatos do poder executivo municipal de João Pessoa, capital do estado da Paraíba, deram materialidade a diversos novos serviços públicos, antes do ano de 2005 inexistentes. Tarefa árdua de pessoas dedicadas, equipes laboriosas que não representam a reputação que lamentavelmente macula o imaginário social predominante acerca do desempenho dos servidores públicos no país. Parte desses serviços executados dignamente por profissionais que militam há anos pelo direito à cidadania, por gestão democrática e participação popular, por justiça e inclusão social que configurem um modelo de cidade desejável e o cumprimento da função social da arquitetura e do urbanismo assentados na atividade de planejamento e de prestação de contas à população. Tarefas honrosas se encontram saldadas na história da cidade de João Pessoa. Mais de uma delas realizadas não perfeitamente face à ideologia presente, creditaram ao Departamento de Arquitetura do Centro de Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba, assim como à profissão da arquitetura e do urbanismo paraibanos, suas colaborações para o desenvolvimento local. E desse poder exercido, baixíssimo espaço ocupou quem teve acesso e reclama avidamente por participação popular na gestão urbana de João Pessoa em busca da cidade desejada.

Rossana Honorato

Arquiteta e urbanista Mestre em Ciências Socias Professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPB

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VIDA PROFISSIONAL

Apple Store

A COMUNICAÇÃO NÃO VISUAL Fotos: Divulgação

O

fundador da Panasonic, Konosuke Matsushita afirma que: “Se a sociedade, a comunidade perceber que numa empresa existe vontade de servir ao público ela prosperará”. Isso significa que além de produzir produtos e serviços com qualidade, a empresa precisa “ser percebida”, que possui algo que pode ajudar, facilitar a vida das pessoas para prosperar. A única forma de ser percebida é mostrando os atributos positivos da empresa através de uma comunicação, seja ela escrita, falada ou desenhada. Lembrando que necessita de uma base sólida: a verdade. Essa verdade precisa estar impregnada na comunicação. Fazer isso, não é uma tarefa fácil. Como expressar para que os outros entendam o que estou dizendo? 

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O fundamental no processo de comunicação não é o que você está falando, mostrando. O mais importante é saber se a pessoa do outro lado “percebe” o que você está dizendo. A questão é saber como acontece o mecanismo da percepção (atração) para ter sucesso na comunicação.   Meu objetivo não é invalidar a apresentação visual e o design. Sem dúvida é muito importante ter um bom visual para ser “percebido”, mas antes precisa ser “visto”. Para ser “visto” o receptor precisa vir ao lugar onde o objeto da comunicação possa ser “visto” e “percebido”.   Outra questão é que a comunicação visual bem elaborada pode chamar muito a atenção, mas as pessoas também percebem que o visual não combina com a atmosfera do local. Isto é facilmente perceptível se atentar a pequenos detalhes de arranjo físico,


Apple Store, Fifth Avenue

haja uma atração recíproca devido a semelhanças de pensamentos. É fácil perceber que existe a lei da atração dos semelhantes. Cachorro anda com cachorro, gato com gato, bêbado com bêbado, ladrão com ladrão, pobre com pobre e rico anda com rico. Como acontece esta reunião? Ninguém escreve na testa “sou ladrão”, mas invariavelmente pessoas com a semelhança de vibração mental são atraídas, se identificam e se relacionam.   Vamos tomar como objeto deste estudo um restaurante com marca e nome totalmente desconhecidos pelo público. Vamos desconsiderar marcas amplamente conhecidas no mercado como Mc Donald e Apple. O que faz com que uma pessoa sinta confiança em entrar em um restaurante que não conhece, que viu pela primeira vez em uma cidade desconhecida? O que faz com que dê um “click” em um restaurante totalmente desconhecido?  Na pesquisa Web pode ter ainda uma segunda chance. Se o cardápio chamar muito a atenção pode influir na decisão.  De qualquer forma depende de vir até o site e do “click” para abrir a página do cardápio. Assim, temos duas etapas a considerar: a) o que atrai a pessoa a vir até a rua ou site; b) o que determina se entra ou não entra na loja ou dê um “click”.  Alguma coisa atrai a pessoa, faz sentir confiança para entrar naquela loja ou no site da empresa. Creio que seja atração mental que se traduz em confiança que pode ser sentida no estabelecimento por meio da visão. A primeira coisa que visualizamos é o painel da fachada de uma loja e no site é a logomarca e nome da empresa. O renomado chef Edu Guedes fala da importância do painel de fachada das lojas da sua rede de franquia, a Stuppendo. “Stuppendo significa causar encanto, admiração. O painel da fachada deve transmitir algo que as pessoas sintam o encanto pelo nosso desejo de oferecer o melhor sorvete, concebido segundo a tradição e arte de fazer o admirado gelato italiano”, destaca Guedes. Dizem que o olho é a janela da alma. Se olhar no olho consegue fazer a leitura do verdadeiro pensamento. A fachada e o painel de fachada ou logo do site é o olho da loja. A identidade visual representa o olho do dono do estabelecimento. Está impregnado de vibração mental, por isso sentimos e imediatamente tomamos a decisão de entrar ou clicar. Ou não.  

Orlando Oda

Administrador de empresas, mestrado em administração financeira pela FGV e presidente do Grupo AfixCode

Foto: Divulgação

organização e limpeza. Tudo faz parte do processo de comunicação. Um ambiente sujo e desorganizado diz tudo. Pessoas sensíveis sentem a atmosfera do local e se afastam ou se reúnem naturalmente comandadas por um instinto interno. Muitas vezes alguns espaços estão sempre lotados e não temos uma explicação lógica. É uma seleção natural realizada mentalmente, uma atração natural e as pessoas se reúnem sem combinar.   Todo relacionamento comercial envolve ao menos duas pessoas. O relacionamento entre um homem e uma mulher é somente devido à atração visual causada pelos hormônios? Com uma análise minuciosa percebemos: há o mecanismo da atração de semelhança que induz a uma atração visual. A forma de pensar, conceituar, agir, planejar faz com que

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VÃO LIVRE

CONHECIMENTO RASO

E A FALTA DE REFERÊNCIA:

O NOVO MAL ESTAR DA SOCIEDADE Texto: Gisele Meter

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de referência, transformando o conhecimento em algo torpe e sem fundamento. É preciso que entendamos que a internet está a nossa disposição para ser utilizada como um meio e não como dogma. Acreditar em tudo que se vê na rede é como colocar um véu sobre os olhos, não permitindo a si próprio a obtenção do verdadeiro conhecimento, aquele construído através do questionamento da verdade e da crítica da informação. Há que se voltar o pensamento para a busca de fundamentos concretos e legítimos para, somente então, fortalecer nossos argumentos e contribuir para a disseminação de informações verdadeiramente embasadas, crescendo intelectualmente e atingindo, assim, o verdadeiro propósito do conhecimento: a expansão da compreensão do mundo e de si mesmo.

Fotos: Divulgação

V

ivemos em um mundo repleto de meios para conseguir informações rápidas, independente do tema a ser investigado. Temos ao nosso alcance uma ferramenta poderosa chamada internet, que facilita tarefas e nos aproxima de conhecimentos que em outros tempos poderíamos levar horas ou até mesmo dias para conseguir. Com o advento tecnológico podemos enriquecer práticas pessoais e coletivas, como também alimentar a grande rede com nosso conhecimento e “know how”, sendo este fenômeno considerado de fato algo verdadeiramente positivo. Assim como acontece em diversas temáticas, se um contexto for observado de forma mais acurada, podemos visualizar suas diversas faces. Se pensarmos desta forma, a internet também pode ser utilizada de várias maneiras como, por exemplo, ao invés de fornecer informação, deturpar a realidade e inculcar dogmas com bases frágeis, fundamentados em dados falsos, ou seja, em “pseudo referências”. A cada dia podemos perceber um crescente movimento de conhecimentos embasados em sites de busca, algo preocupante, pois sem ao menos verificar se a informação é de fato verídica, as pessoas levam adiante o conteúdo, considerando essas informações como a mais cristalina das verdades. Assim, acabam disseminando um conhecimento raso e com falta de referências sólidas, o que acaba por desenvolver um encurtamento intelectual, tolhendo a crítica do próprio pensamento e da informação apresentada. Promovese também, por vezes, uma alienação pessoal, impactando diretamente em vários outros contextos. Parafraseando Freud, dizemos que se tem então, o “novo mal estar da sociedade”. A era do conhecimento tem sido inegavelmente uma grande ferramenta para a transformação social, pois chegamos a um patamar nunca antes imaginado, no entanto, a informação sem pesquisa e validação torna-se uma armadilha se utilizada como única fonte


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ENTREVISTA

JULIANA GARROCHO A urbanista fala sobre o uso da luz natural nos projetos de arquitetura, mas alerta também para as desvantagens Texto: Lidiane Gonçalves | Fotos: Divulgação

“L

ugares pouco iluminados causam sensações de angústia e tristeza, enquanto que ambientes coloridos e bem iluminados provocam sensações de alegria e prazer. A luz natural (usada de forma moderada) é considerada como um importante fator para promover não só a boa saúde como a sensação de bem-estar e conforto ao ser humano. A luz natural oferece enormes vantagens, e pode ser utilizada como estratégia para obter maior qualidade ambiental e eficiência energética em edifícios”. É o que pensa a arquiteta e urbanista Juliana Garrocho, de Brasília, que é autora do trabalho Luz Natural e Projeto de Arquitetura: Estratégias para Iluminação Zenital em Centros de Compras e professora do IPOG. Nesta entrevista à ARTESTUDIO, Juliana explica as vantagens e desvantagens da iluminação natural. Ela diz ainda que o planejamento para usar a luz natural em um projeto tem que o envolvimento de vários especialistas.

ARTESTUDIO – O que é a iluminação natural nos ambientes? Juliana Garrocho – A luz natural é uma das fontes de energia mais importantes para o homem desenvolver suas atividades, pois é ela que proporciona a visão nítida do mundo. Além disso, todo ser vivo depende da exposição à luz natural para ativar o ciclo de funções fisiológicas. No entanto, para se projetar com a luz natural garantindo uma iluminação eficiente na realização de qualquer tarefa, proporcionando um ambiente visual agradável, torna-se necessário conhecer suas vantagens e desvantagens. Dentre os aspectos positivos da luz natural pode-se dizer que a

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qualidade da iluminação obtida é melhor, pois a visão humana desenvolveu-se com a luz natural e a constante mudança da quantidade de luz natural no tempo e espaço é favorável, pois proporciona efeitos estimulantes no ambiente. Todavia, é necessário também, conhecer seus inconvenientes, como direção e altíssima intensidade, pois a maior desvantagem da luz natural é sua imprevisibilidade. AE – Porque ela está tão em voga? É apenas por causa da questão de economia de energia? JG - A luz natural sempre teve um papel importante na arquitetura, do ponto de vista estético e simbólico, e em relação ao conforto e a iluminação funcional.


Pois, a iluminação natural pode proporcionar efeitos singulares em um determinado espaço, dando-lhe identidade própria, criando aspectos cenográficos e características relevantes marcantes. A partir do surgimento do estilo internacional, desenvolveu-se um modo de projetar cada vez mais desvinculado das especificidades climáticas do sítio e das necessidades de conforto do homem. O surgimento das “cortinas de vidro” criou um verdadeiro ícone de edifícios de escritório. O consequente “edifício estufa” foi assim exportado como um símbolo de poder, sem sofrer readaptações às características culturais e climáticas do local de destino. Essa situação tornou-se insustentável com a crise energética da década de 1970, quando a partir daí, nasceram preocupações que norteiam pesquisadores até hoje. AE – O que esse quadro mudou com a crise? JG - Pode-se dizer que nesse período aumentaram as atenções para os benefícios da iluminação natural. Mas somente em meados da década de 1970, com a crise energética mundial, a luz solar direta começou a ser levada em consideração como uma técnica potencial para a iluminação e economia de energia. Uma das características da arquitetura atual é a utilização de grandes fachadas envidraçadas (ou translúcidas) independente das condições climáticas locais. Esse uso indiscriminado muitas vezes causa um sobreaquecimento das edificações devido ao ganho excessivo de calor (carga térmica) decorrente da incidência da radiação solar. AE – O que pode acontecer a partir daí? JG - Desse sobreaquecimento, duas consequências são imediatas: o desconforto dos usuários e a intensificação no consumo de energia elétrica para o condicionamento artificial do ambiente. A identificação de tais problemas gerou a necessidade de desenvolvimento de novas tecnologias de produção de componentes translúcidos (vidros, policarbonatos, sistemas avançados, etc) que, basicamente, buscam o componente perfeito: alta transmissão luminosa; baixa transmissão de calor (infravermelho); e baixa transmissão de ultravioleta. AE – O que vem a ser eficiência energética? JG - A preocupação com o consumo de energia elétrica e com o meio ambiente natural é, atualmente, uma questão relevante. Não é raro observar diversos países com suas legislações reformuladas, com uma preocupação notória com as questões energéticoambientais, incluindo a busca pelo conforto nos ambientes construídos. Estudado em diversos níveis, o conforto ambiental é considerado como um dos principais objetivos da arquitetura: busca parâmetros adequados para o projeto e avaliação do desempenho do espaço construído, visando ao máximo o bem estar do usuário.

AE – Como isso mudou com a crise energética? JG - Um novo paradigma surgiu na década de 1970, obrigando a uma reavaliação, em todos os níveis, das estratégias energéticas de produção e consumo de energias utilizadas até então. O uso indiscriminado e predatório das fontes convencionais e a disseminação das instalações nucleares colocaram de forma enfática o problema do impacto ambiental e da limitação das fontes energéticas exploradas inadequadamente há tempos. AE – E hoje? JG - O desafio no cenário atual é mudar e substituir o comportamento convencional dos consumidores, característico do padrão produtivo e de consumo massivo, visando racionalizar o uso da energia e apontar medidas de utilização mais responsável, considerando não só o presente momento, mas seu impacto global no futuro. O uso contínuo de energia é possivelmente o maior impacto ambiental característico de um edifício, e por isso o projeto energeticamente eficiente deve ser a prioridade máxima. Isto está relacionado com diversos aspectos, dentre eles, a utilização de fontes renováveis de energia, a minimização das cargas de resfriamento e a otimização da luz natural. AE – Como aplicar iluminação natural e eficiência energética em apartamentos e casas? JG - Do ponto de vista ambiental, a edificação deve proporcionar ao usuário, acima de tudo, uma condição mínima de habitação seguida de uma sensação contínua de bem estar. Vale ressaltar que, com relação aos aspectos de iluminação (luz e calor), no projeto arquitetônico eles devem ser considerados conjuntamente. Esta visão integrada torna possível também, o bom desempenho energético da arquitetura que, sendo adequada às necessidades do usuário, resulta, sobretudo, em ambientes mais confortáveis e eficientes energeticamente. Nesse sentido, é importante frisar que, para se obter a eficiência energética em uma edificação, a iluminação natural deve ser projetada em conjunto com o sistema de iluminação artificial. Pois, através do uso otimizado da luz natural, consegue-se a redução do uso da luz artificial. De forma que, quando a luz natural é suficiente em um determinado ambiente, a luz artificial pode ser desligada ou diminuída. AE – No Brasil, é preciso ter bastante esse cuidado, não? JG - No contexto brasileiro, principalmente, a utilização da iluminação natural reflete-se diretamente na energia gasta em ar condicionado e iluminação artificial. Em grande parte das cidades brasileiras, a luminosidade do céu é intensa, o que permite reduzir bastante o uso da luz artificial na maioria dos edifícios. Podem-se reduzir também

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os custos com ar condicionado, pois a luz natural produz menos calor por unidade de iluminação do que a maioria das luzes artificiais, reduzindo, portanto, também a carga do ar condicionado. AE – O Nordeste seria uma região propícia para projetos com a iluminação natural? JG - As regiões tropicais, por sua localização em uma faixa próxima do equador, caracterizam-se pela ausência de variações anuais. Nesse caso, adequar o projeto arquitetônico às condições climáticas do lugar torna-se uma tarefa mais simples. A disponibilidade da luz natural na região Nordeste é grande, e seus valores de iluminâncias são muito altos. Por um lado este aspecto é muito positivo, pois se pode empregar e utilizar a iluminação natural como recurso de projeto em grande parte do ano, diminuindo assim, o uso da energia elétrica com o sistema de iluminação artificial. Por outro lado, esse excesso de luminosidade traz também ganhos térmicos (superaquecimento) para a edificação. AE – Os projetos são baseados no Regulamento Técnico da Qualidade do Nível de Eficiência Energética de Edifícios Residenciais (RTQ-R)? JG - Na região Nordeste existe quatro laboratórios – na UFAL, UFRN, UFC e UFBA – que integram convênios com a Eletrobrás e possuem consultores especialistas em etiquetagem de edificações. Diversos edifícios já foram edificados e certificados, o Procel Edica disponibiliza listagem dos edifícios etiquetados em seu site. A maioria desses edifícios está localizada nas regiões Sudeste e Sul do país. AE – A iluminação natural ajuda a dar mais conforto aos projetos? JG - A iluminação natural não é apenas uma questão de eficiência energética e tecnologia, mas de concepção arquitetônica, e fator importante

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na percepção e aceitação dos espaços por seus ocupantes. Lugares pouco iluminados causam sensações de angústia e tristeza, enquanto que ambientes coloridos e bem iluminados provocam sensações de alegria e prazer. A luz natural – usada de forma moderada – é considerada como um importante fator para promover não só a boa saúde como a sensação de bem-estar e conforto ao ser humano. É importante salientar que as pessoas que vivem diariamente em ambientes climatizados e iluminados artificialmente sentem, em algum nível, mudanças sazonais no seu humor ou comportamento. Entretanto, a luz natural pode fornecer os estímulos suficientes para evitar estas alterações fisiológicas devido, principalmente, a variação da iluminação no tempo e espaço, que está diretamente relacionada com as sensações de conforto interpretadas pelo usuário da edificação. AE - A iluminação natural pode ser usada em todos os ambientes? JG - O projeto deve considerar a orientação e disposição dos ambientes e das atividades de longa permanência e de permanência transitória agrupando-os por afinidades. As atividades podem ser agrupadas, orientadas e dispostas horizontalmente e verticalmente por afinidades nas necessidades de luz; a prioridade no atendimento recai nas funções de longa permanência. AE – Em quais ambientes ela fica melhor? JG - Os espaços a receberem luz natural são aqueles fundamentais para a realização das atividades a que um edifício se propõe. A necessidade de mais luz acontece nos espaços servidos e que são também aqueles classificados como de permanência prolongada. Os espaços servidores são aqueles que servem de meios acessórios às funções principais de uma arquitetura, espaços secundários. Nestes últimos espaços, a permanência é transitória. AE – O que se pode usar para fazer a iluminação natural? Paredes de vidro? Tijolos de vidro? Janelas? O que fica mais adequado para cada ambiente? JG - A essência de um bom projeto de iluminação natural consiste na colocação de aberturas de tal modo que a luz penetre onde ela é desejada, isto é, sobre o plano de trabalho ou tarefa, e de tal maneira que proporcione uma boa distribuição de luminância em todos os planos do interior. A iluminação interior, tanto em quantidade como em qualidade, é em função, não apenas do tamanho, formato, e colocação das aberturas, mas também das propriedades refletoras das superfícies interiores, representando todos estes elementos uma significativa contribuição para a iluminação total do ambiente.


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A HISTÓRIA DE...

Anfitreatro Grego

DAS RUAS AOS PALCOS A evolução do teatro buscou o conforto e a qualidade técnica para ressaltar seu conteúdo Milet Amphitheater

Texto: Alex Lacerda | Fotos: Divulgação

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teatro surgiu da necessidade do ser humano de se expressar. Inicialmente ligado às manifestações religiosas, aos poucos os espetáculos, que tinham como casa inicial as estradas e os centros de aglomerações urbanas, evoluíram de apresentações em palcos improvisados nas ruas para as elaboradas encenações nas monumentais casas de teatro como conhecemos hoje. A história conta que todos os povos exprimiam sua concepção própria de como foi criado o universo. No entanto, foi com os gregos, por volta do século VI a.C.,

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que a semente do teatro moderno foi concebida. Os Ditirambos, as festas religiosas homenageando o deus Dionísio, eram realizadas nas ruas e um coro seguia as procissões com intuito de propagar o texto falado para o público. Do grego, Theatron, local onde se viam as representações, a primeira estrutura real do teatro era encravada em uma colina, ao ar livre. A plateia se acomodava em um barranco e o palco tinha ao fundo três portas. Entre a platéia e o palco ficava o coro, onde atualmente encontramos o proscênio ou a orquestra. Em Roma, o teatro alcançou um significativo sucesso em razão dos imperadores, mas nada similar ao êxito da Grécia na área. Os primeiros teatros romanos eram construídos em madeira e desmontados logo em seguida. Já na Idade Média as igrejas catedrais serviam de palco para as representações, com intuito de promover a representação de cenas litúrgicas e da vida dos santos. Ao mesmo tempo, nos palácios dos grandes reis e senhores, eram representados episódios cotidianos de caráter cômico para entreter o público presente nos serões. O teatro clássico da antiguidade foi retomado num período conhecido como o Renascimento. As peças voltaram a ser apresentadas nos pátios, onde todas as classes sociais podiam ter acesso à apresentação. Nos séculos seguintes o teatro passou a ser apresentado em um palco e um tablado, com

Teatro Garcia Resende

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companhias ambulantes que percorriam várias regiões. Esta estrutura perdurou durante muito tempo e apenas no século XVII, quando foram concebidas evoluções cênicas que dariam um vislumbre de como o teatro é atualmente. O teatro foi aperfeiçoado até o requinte, com a melhora do som, luz, cenários, guarda-roupa, adereços e climatização. No século XIX, marcado pela preocupação intensa com a autenticidade de cenários, o desenvolvimento tecnológico modificou todo o aparato técnico que cercava o espetáculo, como luzes, cenários, som e efeitos especiais diversos. Era possível que até mesmo cavalos subissem no palco para colaborar com a autenticidade. Hoje os elementos essenciais de um teatro moderno são: a boca de cena, a frente do palco; o camarim, para os artistas se prepararem antes da apresentação; o proscênio, o espaço que separa a platéia do palco; e o palco propriamente dito. Em

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nossos dias, os palcos são construídos com três tipos básicos: o italiano (com a plateia de frente), o de semiarena (avançando pela plateia, que fica também de lado) e o palco de arena (com a plateia em volta).

Teatro oriental O teatro oriental, que também é originário de cerimônias religiosas, surgiu por volta do ano 2000 a.C. O teatro chinês era apresentado ao ar livre, na porta dos templos. O teatro japonês, o mais conhecido no ocidente, surgiu sob duas formas, o refinado nô e o popular kabuki. O palco do kabuki apresenta uma extensão chamada de hanamichi, uma seção extra usada no palco que consiste numa plataforma comprida e elevada, à esquerda do tablado que se estende desde o fundo do teatro, pelo meio da plateia, até ao palco principal, através do qual as entradas e saídas dramáticas são realizadas. No restante da Ásia ainda é notável a importância do teatro de títeres, caracterizado por uma forma artística popular, notadamente na Indonésia, com o wayang golek, modalidade em que se utilizam, sobre um palco elevado, enormes bonecos para contar histórias. Mas, no geral, a estrutura que nasceu nas ruas, ganhou requinte e funcionabilidade com o decorrer dos séculos, fornecendo conforto tanto para os atores quanto para os espectadores, com climatização, cadeiras confortáveis, acústica trabalhada e um conjunto de iluminação e cenário destinado a ressaltar o conteúdo da peça.


Refletir o futuro em cada projeto

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ARQUITETURA

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ESPAÇOSA E DELINEADA Projeto gerou casa grande em um condomínio, com cômodos bem planejados Texto: Débora Cristina | Fotos: Diego Carneiro

Uma casa grande, com vários cômodos, planejados de forma a dar total conforto a uma família que gosta de morar bem. Foi esse o projeto da arquiteta Geórgia Suassuna construído em um condomínio, no bairro Altiplano, na capital da Paraíba. Por ser localizado num só lote, o projeto que ficou pronto em agosto deste ano, teve que superar as dificuldades em atender todo o programa de exigências e volumetria. “O casal e os três filhos precisavam de espaços bem delineados, por isso fizemos 4 suítes, além de uma suíte de hóspede e outra de serviço. Também colocamos um living mais amplo, super iluminado pelos panos de vidro e também bastante arejado”, explicou Geórgia. Além disso, a cozinha foi integrada ao espaço gourmet, o que, juntamente com o terraço com piscina, criou um espaço ideal para reuniões animadas com a família e amigos. Em toda a casa foram usadas cores claras que vão do branco ao bege, presente em alguns revestimentos. Para dar a sensação de total conforto aos moradores, a arquiteta pincelou alguns detalhes com madeira e tons na cor bronze, dando um toque de sofisticação.

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Ventilação natural Um ponto comum em todos os projetos elaborados pelo escritório da arquiteta Geórgia Suassuna é a valorização da iluminação e ventilação natural, como também a criação de ambientes amplos e integrados. “Fazer uma casa em um só lote não é tarefa das mais fáceis, por causa da restrição da volumetria, mas isso enfrentamos com prazer e dedicação porque simplesmente sou apaixonada pelo universo da arquitetura e o meu maior prazer é ver o resultado final dos nossos projetos. Vivemos em eterna pesquisa em busca de elementos que ativem nossa criatividade. Tudo ao meu redor me inspira... Filmes, viagens, momentos! Amo o que faço!”, disse ela. Ainda seguindo o conceito de sustentabilidade, no projeto foi utilizado o aquecimento solar da água e a iluminação foi praticamente em LEDs. Além disso, a arquiteta também valorizou revestimentos permeáveis e áreas verdes. “Os clientes chegaram no nosso escritório porque conheceram o meu trabalho através de publicações e logo chegamos a um denominador comum sobre esse projeto. Eles sempre tiveram total confiança e sempre escolhemos tudo referente a casa juntos. Assim se constrói um projeto que atenda aos anseios do cliente e deixe o profissional com a doce sensação de dever cumprido!”, finalizou Geórgia. 36

Foto: Vilmar Costa

Arquiteta: Geórgia Suassuna Projeto: Arquitetura residêncial Madeira: Fecimal • Modulados: Todeschini Revestimentos/fachada: Portobello Revestimentos/Internos: Espaço Revestt + imagens do projeto no site: www.artestudiorevista.com.br


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INTERIORES

ARQUITETURA DA FELICIDADE Cobertura em Santos possui ambientes pensados para refletir o melhor de cada membro da família Texto: Débora Cristina | Fotos: Divulgação

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orar numa cobertura, de frente para o mar de Santos, em São Paulo, com todo o conforto que uma família merece. É isso que proporciona o projeto da arquiteta Carla Felippi, em conjunto com a Guido Iluminação e Design. Pensando em criar ambientes que reflitam o melhor de cada membro da família, ela trabalhou no processo de alcançar as expectativas de conforto e bem estar de cada um, colocando em prática o tempero principal da “arquitetura da felicidade”. E nada mais precioso para a felicidade e o bem estar de uma família do que um ambiente em que todos compartilhem momentos inesquecíveis. E cada vez o espaço gourmet é o sinônimo de integração nos lares brasileiros. Neste projeto, o ambiente tem uma grande bancada central, ideal para que o “chef” da família possa

preparar os pratos em conjunto com os demais. Já os pendentes remetem a peças industriais do século XX, fabricados na cor cobre, especialmente para o projeto. Além disso, Carla Felippi manteve a preocupação com sustentabilidade: o mobiliário do espaço foi produzido, predominantemente, com madeira de demolição, e a iluminação é predominantemente em LED (utilizado em todos os ambientes), que consome até 80% menos energia que uma lâmpada comum. Para a cozinha, a arquiteta priorizou os tons escuros nas paredes revestidas por tijoletas cerâmicas. O ambiente também recebeu toques em madeira de demolição, criando um delicioso ar intimista. O toque contemporâneo chega com modernas cadeiras Kartell do designer Philippe Starck e o pendente da italiana Diesel.

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Amplitude e funcionalidade No living, o principal ponto trabalhado pela arquiteta foi a integração com a natureza, graças aos grandes vãos que possibilitam a comunicação visual com a área externa, proporcionando uma vista maravilhosa para os moradores e inesquecível para os visitantes. No piso, foram usadas madeira natural e tapete em seda. O mobiliário, em tons suaves, dá o toque delicado ao projeto que foi brindado com uma mesa de centro rústica, em madeira de demolição. A iluminação segue o conceito de total conforto visual, proporcionando conforto ao ambiente. Um imponente pano de espelho traz amplitude para o espaço, sensação compartilhada pelo home theater, o que fez com que a arquiteta

tivesse cuidados especiais com a acústica e com a luz. Para isso, foram usados revestimentos com relevo, que absorvem os ruídos, transformando-os em um som puro e perfeito, em um resultado bonito e funcional. Nas paredes, papel de parede em linho bastante sofisticado. As arandelas com lentes ópticas foram escolhidas para trazer o clima de cinema para o ambiente, quando tudo apagado, além do efeito cênico criado na parede. O lavabo ganhou um toque ousado graças à bancada em madeira natural: um tronco sinuoso que contrastou perfeitamente com o papel de parede em tons de prata. A iluminação suave e focada destacou os pontos principais do projeto. O LED linear, estrategicamente instalado, “descolou” o teto trazendo a sensação de estar flutuando no lavabo.

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Na área íntima do apartamento, a suíte master que uniu o aconchego da madeira, a elegância do vidro e a modernidade do LED. A iluminação é pontuada e delicada, ressaltando os detalhes da decoração monocromática. Para dar amplitude, um grande plano de espelho nos armários. Integrado ao quarto, o banheiro foi trabalhado nos tons branco e bege. Destaque para o conjunto de seixos relaxantes no boxe. No quarto do rapaz, os tons claros dão lugar ao intimismo das cores escuras e amadeiradas, com iluminação pontuada e bem marcadas. O conceito é reforçado pelo mobiliário em acabamento preto, bem arrojado. Para dormir, um futon apoiado sobre deck em madeira de demolição fez a diferença na composição.

Já no quarto da moça, o destaque é a delicadeza dos tons de rosa e amarelo. O mobiliário é predominantemente branco e espelhado, ampliando bastante o ambiente. O pendente Bloom, assinado por Ferrucio Laviani para a Kartell, lembra um enorme buquê de flores. As arandelas em LED no painel de madeira formam desenhos de estrelas e, em toda a volta do teto, LEDs lineares deixam o quarto suave e aconchegante. O lado externo é apropriado pela natureza. A iluminação é predominantemente azul, toda em LED. O piso, em revestimento cimentício branco, ajuda a refletir a cor durante a noite, que também está presente na mescla de pastilhas da piscina.

Arquiteta: Carla Felippi Colaborador: Guido Iluminação e Design Projeto: Ambientação de apartamento

+ imagens do projeto no site: www.artestudiorevista.com.br

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CAPA

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ELEGÂNCIA DE GRIFE Arquiteto paulista desenvolve projeto do primeiro showroom para a marca Armani no Brasil Texto: Débora Cristina | Fotos: Alain Brugier

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grife italiana Giorgio Armani é uma das mais reconhecidas do mundo da moda,mas o selo também tem produtos e mantém a mesma qualidade quando o assunto é mobiliários e acessórios para casa. O arquiteto paulista Diego Revollo teve o privilégio de ser escolhido para fazer o projeto do primeiro showroom da marca no Brasil.

O projeto da Loja Armani Casa foi concebido a partir da estrutura de uma construção existente na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, principal corredor comercial do segmento de decoração em São Paulo. “Aprendi muito com o nível de exigência dos italianos em relação à técnica e a qualidade. Associar meu nome a uma marca consolidada internacionalmente e que

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carrega luxo e qualidade em seu DNA, como Armani, foi um dos pontos mais altos até então na minha carreira”, afirmou ele. Por ser uma franquia italiana, desde o início da concepção era sabido que tudo passaria pelo crivo da matriz naquele país. Dessa maneira, todo o conceito, soluções de projeto e materiais utilizados foram constantemente apresentados e submetidos à aprovação de fora e esse foi o grande desafio da equipe de Diego Revollo. A configuração original do espaço da “caixa” estreita e com diversos níveis foi mantida e usada como partido do conceito da loja. Ao invés de uma solução de espaço integrado ou um grande showroom, os desníveis e as limitações

do espaço fizeram com que se concebessem pequenos espaços ambientados com o mobiliário da marca, o que iria de encontro ao conceito de butique de luxo e exclusividade. A característica mais marcante do projeto e que confere identidade à loja são os painéis de policarbonato bronze com iluminação indireta encaixilhados por perfispretos de alumínio polido. Essa solução está presente em quase que todas as paredes do espaço e confere um clima intimista e uma iluminação suave e ao mesmo tempo dramática. A identidade da marca é reforçada com poucos elementos e materiais imponentes, tais como ACM preto brilhante, policarbonato bronze, mármore

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presente em quase todas as paredes do espaço e confere um clima intimista e uma iluminação suave e ao mesmo tempo dramática. Honrando a elegância que a marca ostenta.

Arquiteto: Diego Revollo Projeto: Arquitetura e ambientação de loja

Foto: Alain Brugier

bronze Armani e o carpete vinílico com trama em preto e prata. “ACM preto brilhante são painéis de alumínio com pintura preta polida e foram aplicados revestindo algumas paredes internas da loja. Policarbonato bronze foi utilizado nos painéis de iluminação indireta que revestem a maioria das paredes. O material tem 1cm de espessura, é alveolare translúcido na tonalidade bronze. E essa é, justamente, a característica mais marcante do projeto, com iluminação indireta encaixilhados por perfis pretos de alumínio polido”, explicou, acrescentando que essa solução está

Painel para fachada: Studio Barreto • Portas Internas: Marcenaria Inovart Escada: NPK Mármores / Pedra de Esquina Marmores e Granitos Móveis e Objetos de Decoração: Giorgio Armani Painéis/Estante: Art Stillo Estruturas e Comunicação Visual + imagens do projeto no site: www.artestudiorevista.com.br 52


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GRANDES ARQUITETOS

UM LORDE ARQUITETO Sir Richard Rodgers conquistou seu lugar de nobreza e ocupa uma cadeira na Câmara dos Lordes Texto: Wendell Lima | Fotos: Divulgação

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recebimento dos prêmios Stirling pelo complexo do Aeroporto Madrid-Barajas, em 2006; do Leão de Ouro, no mesmo ano, na Bienal de Veneza; do Prêmio Pritzker, o “Oscar” da arquitetura, em 2007; e o reconhecimento de seus pares como um dos mais influentes arquitetos do século XX já seria o bastante para elevar Richard Rodgers à posição de “membro da realeza” do mundo da arquitetura. Não obstante, este britânico naturalizado – nascido em Florença – e filho de plebeus, cujo pai esperava que se tornasse dentista um dia, veio a sagrar-se um nobre inglês legítimo ao ser feito cavaleiro em 1981 pela Rainha Elizabeth II. E posteriormente recebeu o título de Barão Rodgers de Riverside, ocupando atualmente uma das cadeiras da Câmara dos Lordes, do Parlamento da Inglaterra.

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Um dos principais representantes do chamado movimento britânico high-tech de arquitetura – caracterizado pela incorporação de elementos da indústria e tecnologia no design de prédios e também conhecido como modernismo tardio, ou ainda expressionismo industrial –, Richard Rodgers foi responsável por projetos inovadores. Como o Centro Georges Pompidou, em Paris, no qual componentes estruturais tipicamente internos de um prédio – como os dutos de ventilação, de água, aquecimento e escadas – , podem ser visualizados do exterior do edifício, criando uma estética moderna e radical. Essa mesma estética também pode ser observada no prédio do Banco Lloyd, de Londres, outro de seus projetos mais famosos. A obra de Rodgers foi, desde o começo de sua carreira, influenciada não apenas por sua fascinação pelos avanços tecnológicos, mas também por questões sociais, éticas e políticas, bem como por uma marcante preocupação com o urbanismo auto-sustentável. Em 1995, ele foi o primeiro arquiteto a ser convidado para apresentar na rede BBC de televisão uma série de palestras intitulada Cities for a Small Planet, que visava mostrar como o crescimento das cidades pode acontecer respeitando tanto as pessoas quanto o meio ambiente através de planejamento urbano. Em uma dessas palestras, ele afirma que “outras sociedades já enfrentaram a extinção. Algumas, como os habitantes das ilhas do leste do Pacífico, a civilização Harappa

Aeropuerto dede Madrid, Barajas, España Aeropuerto Madrid, Barajas, España

Millenium Dome

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Centre Pompidou

do vale do Indo e os Teotihuacan da América précolombiana devido a desastres ecológicos causados por eles próprios. Historicamente, sociedades incapazes de resolver suas crises ambientais ou migraram ou foram extintas. A diferença vital hoje em dia é que a escala de nossa crise não é mais regional, mas global. Ela envolve toda a humanidade e todo o planeta”. O foco do trabalho de Rodgers nos problemas causados pelo crescimento contínuo das cidades o levou a ser apontado pelo vice-primeiro-ministro da Inglaterra, em 1998, para chefiar o UK Government’s Urban Task Force on the State of Our Cities, órgão responsável pelo desenvolvimento urbano sustentável

das grandes cidades inglesas. Ele foi feito ainda Conselheiro Chefe de Arquitetura e Urbanismo do prefeito de Londres, e membro do Conselho para Estratégias Urbanas da Prefeitura de Barcelona. Sua visão única, centrada no planejamento em larga escala dos grandes centros urbanos sem perder de vista a qualidade de vida de seus habitantes e sua crença no potencial das cidades como catalisadoras de mudança social fizeram dele um dos mais destacados representantes de seu campo na história moderna, uma distinção muito superior a qualquer “sangue azul”.

One Hyde Park

Arquiteto: Richard Rodgers

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ACÚSTICA

NOSSAS CASAS DE FESTA Como garantir um som de qualidade sem incomodar a vizinhança

Texto: Jean Fechine | Fotos: Divulgação

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omo anda a qualidade acústica dos ambientes projetados para a realização de eventos? Tal questão estende-se aos mais variados tipos de espaços destinados a realização de eventos, sejam eles de grande ou de pequeno porte. Estes ambientes enfrentam sempre dois desafios, sendo um deles o compromisso a quando em atividade, não perturbar a vizinhança e o outro, e tão importante quanto, garantir a qualidade do som propagado internamente. Ao se lançar mão de materiais de vedação que atendam às exigências pertinentes ao enfraquecimento sonoro resolve-se, por um lado, o problema relativo ao isolamento e, por outro, é gerado um problema referente à qualidade acústica no interior do ambiente, pois à medida que o som produzido no interior não consegue transpor as vedações surge a chamada intensidade

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de som reverberante, resultante da parcela de som refletido pelos materiais empregados no isolamento. Este som reverberante passa a atrapalhar a qualidade acústica do ambiente, diminuindo a inteligibilidade, uma vez que o som reverberado tarda um instante para se dissipar. Tal instante é definido como tempo de reverberação. A propagação do som reverberante persiste um certo tempo após a interrupção da sua fonte. Caso este tempo tarde de forma considerável, provavelmente prejudicará a clareza na percepção sonora; já, se o tempo for demasiadamente pequeno também acarretará dificuldades na percepção sonora, sobretudo em locais mais afastados da fonte. Notase então, que em cada situação que envolva o tema qualidade acústica, será requerido, portanto, um tempo ótimo de reverberação. Ai cabe um retorno à questão que abriu este pensamento: em relação ao


tempo de reverberação como andam nossas casas de festa? Para uma boa formulação da resposta é necessário aprofundar o conhecimento sobre este tema. O tempo ótimo de reverberação é determinado experimentalmente em função do volume de ar do local e da atividade nele desenvolvida, dependendo ainda das características relacionadas à dependência entre a absorção sonora dos materiais e as diversas frequências sonoras produzidas em um conjunto de sons. A figura abaixo traz alguns locais e seus respectivos tempos ótimos de reverberação.

É aconselhável estudar o tempo ótimo de reverberação no mínimo em três frequências, sendo as mais usadas as de 125, 250, 500, 1000, 2000 e 4000 Hz. De posse de tal informação e conhecendo as características dos materiais de acabamento, em especial o coeficiente de absorção sonora dos mesmos - dados que devem ser fornecidos pelos fabricantes - é possível que o arquiteto especifique uma combinação de materiais de acabamento, de modo que o tempo de reverberação resultante seja equivalente ao tempo ótimo, com uma diferença não superior a 0,1 segundo que representa o limite aceitável. Para o dimensionamento do tempo de reverberação (TRev) são encontradas diversas equações que consideram a relação entre tempo de reverberação e características dos materiais aplicados no ambiente construído. Entre elas, podem ser destacas as de Wallace Clement Sabine. TRev = 0,161V/A

(segundos)

Onde “V” é o volume de ar do local e “A” é a absorção sonora dos materiais que deve ser conseguida para garantir uma boa qualidade acústica. Para se calcular a absorção global (Ag) é necessário conhecer a área de cada material de acabamento especificado, seus coeficientes de absorção sonora, em várias frequências, o coeficiente de absorção do ar e o volume de ar do local. Tais variáveis foram distribuídas na seguinte equação: Gráfico com os tempos ótimos de reverberação - NBR 12179: Tratamento Acústico em Recintos fechados

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Onde Si é a superfície de cada material em m2, o ni representa o coeficiente de absorção sonora de cada material, o ni é a quantidade de objetos (ou pessoas) contidas no local, o aar representa o coeficiente de absorção sonora do ar e V o volume de ar do local em m3. Segue um pouco sobre o autor de tais equações: Wallace Clement Sabine foi um físico norte-americano que viveu entre 1868 a 1919. Foi graduado pela Universidade de Ohio e pós-graduado pela universidade de Harvard, onde permaneceu como membro da faculdade. É considerado por alguns autores o fundador do campo da acústica arquitetônica. Atuou como consultor na área de acústica em relevantes projetos, a exemplo do espaço que abriga o Symphony Hall em Boston, considerada uma das três melhores salas de música do mundo. Admirada pela sua acústica, desde o dia de sua inauguração em 1900, ela vem sendo considerada uma das melhores acústicas para concertos clássicos no mundo. Em 1999 foi considerada um patrimônio histórico dos Estados Unidos. Voltando a análise das equações anteriores nota-se a importância do conhecimento relacionado a diversos aspectos técnicos que envolve uma

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boa qualidade acústica no ambiente construído, destacando-se a forma e o volume do espaço e os seus materiais de acabamento. Neste sentido fica claro que, em João Pessoa, a maioria dos espaços destinados a eventos, seja de maior porte, onde são feitos shows e outras festividades, ou os de pequeno porte, salões de festas, particulares, em condomínios, em shoppings entre outros, não apresentam soluções técnicas, relativas à forma e aos materiais especificados, que apontem para a qualidade necessária no tocante às questões que envolvem a qualidade acústica no ambiente construído. O que se tem são problemas, tanto no âmbito do isolamento (tais ambientes incomodando a vizinhança), quanto no que se refere à questão da inteligibilidade, com ambientes onde não se consegue compreender com clareza a atividade artística desenvolvida em seu interior, ou seja, é considerável a carência de ambientes para abrigar eventos artísticos com qualidade acústica, sejam estes destinados a uma simples festa de aniversário, em um salão de festas de um condomínio, bem como alguns espaços hoje destinados a eventos de maior porte na cidade, ficando esta sem referência neste importante segmento comercial.


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ACERVO

SEM

SEGREDOS Sempre associada a mitos e mistérios, a maçonaria possui uma bela sede em João Pessoa Texto: Renato Félix | Fotos: Divulgação

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or séculos cercado de mistério, o universo da maçonaria já não é secreto há muito tempo. A Loja Maçônica Branca Dias, no centro de João Pessoa, não é avessa a receber visitantes e divulgar os preceitos da sociedade, pautados por ideais de democracia, liberdade e fraternidade – tem até um site oficial. Antes da existência de partidos políticos, era na maçonaria que muitos notáveis se reuniam para discussões políticas que, às vezes, alteravam o rumo do Ocidente – a independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa (“liberdade, igualdade e fraternidade” é um lema maçom) e mesmo a independência do Brasil. “Loja” é como são chamadas as sedes da maçonaria pelo mundo (podem também ser conhecidas como ateliês ou oficinas). A Branca Dias é a mais conhecida de João Pessoa, instalada na Avenida General Osório, em um palacete construído a partir de julho de 1925 e concluído em maio de 1927. “Cabe a firma Cunha e Di Láscio a elaboração do projeto e sua execução”, conta Anibal Moura Neto, diretor executivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico da Paraíba (Iphaep). Hermenegildo di Lascio foi maçom – não só isso, mas foi duas vezes o venerável irmão da loja, segundo o site da Branca Dias. A obra começou na gestão de Augusto Simões e terminou na de José Eugênio de Albuquerque. O custo total da obra, na época, foi de 113 contos de réis (hoje, cerca de R$ 557 mil). “O

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edifício conserva, ainda, suas linhas arquitetônicas originais e pode ser classificado como eclético, por reunir elementos decorativos de diversas linguagens”, analisa Moura Neto. “No entanto, tem especificidades no tratamento de sua fachada que apresenta símbolos característicos dos templos mações, obedecendo a uma composição que está relacionada ao seu ritual. Desta forma, contém colunas egípcias, esfinges apostas na porta de entrada, no tímpano o triângulo com o olho que representa Deus – ʻsupremo arquiteto do universo’ –, o compasso e o esquadro símbolo da maçonaria”. O assoalho é em madeira, com duas cores. Um material que veio de Manaus, no Amazonas, na mesma época em que material semelhante chegava para ser usado no piso do Palácio da Redenção, a sede do governo estadual paraibano. O nome da loja é uma homenagem a uma paraibana que nasceu em 1734, descendente de hebreus e que foi acusada de heresia, presa e enviada a Lisboa. Ela morreu em Portugal em 1761, na fogueira da Inquisição. Com a homenagem – a Loja Maçônica Branca Dias foi instalada em 1918 – ela passou a ser lembrada e associada com a bela edificação que é uma parte bastante simbólica do Centro Histórico de João Pessoa. “A Loja Maçônica Branca Dias, segundo consta, é a única no mundo que recebe o nome de uma mulher”, conta Aníbal Moura Neto. A Loja está tombada pelo Iphaep desde 1980, pelo decreto estadual 8.631.


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VIAGEM DE ARQUITETO

JOIA ALEMÃ Munique encanta com seus museus e restaurantes

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ifícil dizer qual a minha cidade preferida na Alemanha. Cada região do país oferece uma experiência tão diferente, que é sempre válido fazer um giro e assim vivenciar o que cada uma tem a oferecer. Recentemente estive em Munique, capital da Bavária. Tudo sempre começa pela escolha do hotel. Desta vez optei pelo Louis que fica bem no Viktuaienmarkt, o mais conhecido mercado de comidas da cidade. O hotel é bem contemporâneo, moderno e elegante, com a sobriedade tão característica dos alemães. No verão eles abrem um terraço na

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cobertura e você pode tomar um drinque ao jantar. O Louis tem um hotel irmão que se chama Cortiina, bem perto do centro histórico. A recepção é muito bonita, simples. Durante a noite eles acendem a lareira - vale tomar um drinque ou um café no final da tarde. Ambos são uma excelente pedida para quem busca algo diferente. No bairro Maxvorstadt, que fica próximo ao centro, é possível encontrar um lugar para quem gosta de arte. Reunidos em poucos quarteirões estão os três principais museus de arte da cidade: o Alte Pinakothek, Neuen Pinakothek e o nosso preferido, o Pinakothek der Moderne.


O Pinakothek der Moderne tem o projeto do arquiteto alemão Stephan Braunfels. Vale a visita só pelo prédio - todo em concreto e vidro - ele é um exemplo impressionante da arquitetura contemporânea da Alemanha. Neste museu você poderá ver exposições de design, mobiliário, automóveis, joias, enfim, uma infinidade de assuntos todos ligados à cultura urbana. Do lado de fora do Neuen Pinakothek existe um restaurante chamado Hunsinger, muito charmoso, e que utilizou um recurso arquitetônico que merece destaque. Ele é rebaixado em relação à rua, desta forma todo o barulho é isolado e você fica num jardim interno, com espelhos d’agua e pássaros. Vale um almoço com vinho rosê bem gelado. Recomendo também conhecer o Brandhorst Museum, que fica bem ao lado dos outros museus. Sua fachada é composta de painéis cerâmicos vitrificados e aço colorido, formando um edifício único no mundo. Sua coleção fazia parte do acervo particular de Anette Brandhorst e foi doada ao estado da Bavaria em 1999. Para encerrar minhas dicas de museu, vamos falar do museu de arte contemporânea Lehnbachhaus. Trata-se de uma vila florentina da época de 1870 que recentemente recebeu um bloco de brises dourados e foi projetado pelo escritorio inglês Foster+partners um dos mais importantes da atualidade. No verão este novo bloco parece um “cubo de ouro” refletindo o sol da tarde. Em termos de arquitetura, três lugares são roteiro certo em Munique: o parque olímpico, impressionantemente, mesmo tendo sido projetado para as olimpíadas de 1972, continua atual e extremamente arrojado. Para os amantes do

futebol e também da boa arquitetura, não deixe de visitar a Alianz Arena, o estádio mais famoso da cidade recoberto em placas de acrílico e iluminação em led colorido, você pode ate ter visto pela TV, mas a sensação ao vivo é impressionante. Por último, reserve uma tarde para a BMW Welt que abriga o museu e o show-room da marca. O prédio tem arquitetura pós-

moderna, assinada pelo professor Wolf d. Prix, associado ao escritório austríaco Coop Himmelblau. A construção é uma dais mais impressionantes e instigantes em termos de arquitetura que já vi: sua cobertura em vidro foi inspirada no formato das nuvens, sustentado por 11 pilares laterais e um pilar central, visita obrigatória para quem gosta de arquitetura. A gastronomia é um ponto que vale ser explorado em Munique. Minha primeira dica fica na Maximilianstrasse, a rua das grandes marcas internacionais, e por isso um lugar super badalado. No interior de um prédio antigo que passou por um retrofit fica o Brenner Grill. Bem no meio do salão que tem as colunatas de pedra originais do edifício, fica um super grill e você pode acompanhar o movimento dos chefs preparando o seu prato. A comida é imperdível! Imperdível também é o bar que fica na entrada principal do restaurante, se você quiser ver gente bonita e badalar este é o lugar. Outro lugar que acho sensacional é o Theresa, na Thererienstrasse. O lugar é tão bacana que dá para

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BrandHorst

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confundir o restaurante com uma loja de design. Você vai encontrar diversos ambientes: bar, restaurante e lounge. Os espaços são aconchegantes e muito bem planejados. As luminárias são impressionantes: vão desde simples lâmpadas penduradas pelo bulbo até arandelas de papel machê, desenvolvidas pela Diesel para a Foscarini italiana, realmente uma aula de design. Claro que a comida não fica atrás, esta no mesmo patamar que o projeto e torna o lugar visita obrigatória. Para quem é fã de carne, indico um restaurante que será o paraíso para você. O ZUM (Goldenen Kalb), na Blumenstrasse, é uma experiência muito bacana, porque no fundo do restaurante ao invés da tradicional adega de vinhos, você encontra uma “adega” de carnes. O maitre acompanha você até lá e explica tudo sobre o que você nem sabia que poderia existir sobre carne, safras, maturação, origem etc. Bem diferente a experiência. Se você gostou do filme Austin Powers, vai gostar do famoso restaurante Tantris. Para mim a noite foi uma experiência única. Você tem a real sensação que esta nos anos 1960: o mobiliário, as luminárias, o

carpete laranja que forra o piso, as paredes e o teto muito diferente de tudo que já havia conhecido. O melhor de tudo é que pelas fotos, achei que seria um lugar descolado e moderno, mas ao chegar entendi que, na verdade, o restaurante foi todo projetado nos anos 1960 e se mantém extremamente bem conservado e original até hoje. O lugar se revelou bastante tradicional, inclusive na maneira como o serviço acontece. É quase um balé entre maitres, sommeliers, garçons e cumins que transformam toda a experiência num grande circo. A carta de vinhos mais parece a Bíblia, deveria conter mais de mil páginas! Confesso que fiquei até com preguiça e escolhi um vinho logo nas primeiras dez páginas. A grande surpresa da noite ficou para o final, quando já estávamos saindo, o maitre veio nos cumprimentar, saber como havia sido a experiência. Perguntou para onde iríamos, e, após informarmos o local, ele imediatamente chamou um motorista uniformizado, com uma super BMW, que nos levou até nosso destino como cortesia da casa. Alguém já tinha visto isso antes? Para encerrar o dia ou começar bem a noite, nada melhor que o bar mais tradicional e concorrido de Munique: o Schumann’s. Com mais de trinta anos de existência, continua sendo um dos melhores lugares para beber na cidade. O ambiente é bem tradicional e bastante agradável. Se você der sorte poderá encontrar o próprio Charles Schumann para recebê-lo.

Texto e fotos: Luciano Dalla Marta + fotos no site: www.artestudiorevista.com.br


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ARQUITETURA E ARTE

O INFERNO SÃO OS OUTROS O filme argentino O Homem ao Lado une arquitetura e classes sociais a partir de uma briga entre vizinhos Texto: Renato Félix | Fotos: Divulgação | Arquiteto convidado: João Ricardo Machado

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ó há uma obra do arquiteto suíço Le Corbusier na América: é a casa 320 do boulevard 53, cidade de La Plata, na Argentina. Erguida em 1954 e com 345 m², é o cenário principal de O Homem ao Lado (2009), filme argentino que conta uma briga entre vizinhos e é dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat (às vezes chamado O Homem do Lado). Não é, claro, por acaso: a casa diz bastante sobre o personagem que mora lá, o requintado arquiteto Leonardo (Rafael Spregelburd). “A casa Curutchet traduz cheios e vazios, concreto e natureza, um grande

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exemplo dos princípios do modernismo, incorporando pilotis, janelas em fita, terraços-jardim, plantas e fachadas livres”, explica o arquiteto João Ricardo Machado. “A residência é dividida em dois volumes: um para o consultório e outro para a residência propriamente dita, orientada ao pátio ao fundo numa área mais reservada. Ambos os volumes articulam-se ao redor do pátio central e da rampa de acesso, e atuam como um só volume virtual. Um verdadeiro manifesto modernista”. A história começa quando Leonardo acorda e descobre que há uma obra na casa ao lado: o vizinho Victor (Daniel Aráoz) abre um buraco em uma parede para fazer uma janela. Ele quer mais sol para sua casa, mas o problema, para Leonardo, é que a nova janela dá para uma parede de vidro em sua casa – e o arquiteto considera isso um atentado à sua privacidade. “O filme aborda os dois lados da moeda de uma forma bastante estereotipada”, opina Machado. “De um lado, Leonardo, o sofisticado designer premiado, que mora em uma casa manifesto e desfrutando uma vida de fama e sucesso, vivendo um estilo de vida onde o belo é a sua parte pujante. Enquanto o outro lado, Victor, é retratado como um sujeito casca grossa, suburbano, cujo mundo pode ser o negativo da vida do outro”. Com humor, o filme coloca essas duas visões em conflito – uma versão da velha história de briga de vizinhos que cresce a dimensões muito maiores

que o razoável. Os embates entre Donald e Silva, nos quadrinhos Disney, ou muitas histórias nas séries de TV americanas e nos filmes de Hollywood. Em O Homem ao Lado, no entanto, o elemento da arquitetura é um adicional. “O estilo de vida superficial e belo do designer é ameaçado, através da metáfora da janela, por um mundo feio e em estado bruto. A possível falta de instrução do vizinho – ou mesmo má-fé –, cria esta situação que se desdobra em tantas outras situações constrangedoras durante o filme. O clash cultural

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e social dificulta bastante o entendimento entre as partes”, diz o arquiteto. Para ele, a situação, no Brasil, poderia ser resolvida. “Na condição de arquiteto, eu procuraria resolver a situação baseado no Código Civil e código de obras, segundo o qual aquela janela do filme seria completamente ilegal”, explica. “A possibilidade de abrir janelas voltadas ao terreno vizinho é regulada

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pelo Código Civil e, cumulativamente, pela legislação municipal, prevalecendo a mais exigente. A maior exigência do Código Civil é de afastamento de um metro e meio do terreno vizinho”. O filme aproveita para reforçar o arquétipo dos personagens através do ambiente em que vivem. “Leonardo tem um estilo de vida bastante sofisticado, mora em uma casa-design que está sempre sendo


observada e cobiçada por estudantes e curiosos”, conta Machado. “Designer famoso, ele possui um gosto muito requintado e tudo a sua volta parece ser escolhido a dedo. Com senso estético tão apurado, a sua residência reflete este profissional de sucesso. O modernismo ainda hoje é usado quando se busca um resultado estético mais vanguardista, com sua fachada e planta livre, assim como o uso dos brise-soleils e teto jardim, o qual hoje se chama solarium”. No caso de Victor, naturalmente, tudo é o oposto. “Ele é estereotipado com um troglodita, suburbano, sem nenhum senso estético ou refinamento”, explica Machado. “A sua casa fica subentendida como um exemplo da arquitetura vernacular, cuja tipologia geralmente apresenta problemas técnicos de ventilação e iluminação, assim como a má distribuição espacial dos cômodos. Pertencente a uma classe à margem dos serviços de um arquiteto, Victor vive provavelmente em uma casa escura e úmida”. Aqui, João Machado faz uma reflexão interessante. “Neste ponto, onde contrastam mundos

tão diferentes e tão bem representados pelas suas devidas residências, eu me pergunto, se Victor tivesse a oportunidade de morar na casa de Leonardo e viceversa, se haveria uma mudança interior em cada um deles”, imagina. “Digo, se Victor, ao começar a morar na casa-símbolo, desenvolveria o seu senso estético?”. Bom, mas aí já seria um outro filme.

O Homem ao Lado, 2009 (El Hombre de al Lado, Argentina), de Mariano Cohn e Gastón Duprat. Elenco: Rafael Spregelburd, Daniel Aráoz, Eugenia Alonso. Distribuição: Imovision

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Layout: Katiana Guimarães

REPORTAGEM

PROJETANDO A

MUDANÇA Planejar as reformas necessárias para o novo lar antes ou depois de ocupá-lo? O ideal é se antecipar, mas, às vezes, a realidade não permite

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omprar o primeiro imóvel para morar ou mesmo a alegria da mudança para um novo apartamento podem esconder desafios que muitas pessoas não esperam. O novo ambiente deve e tem que se adequar ao estilo de vida da família que ali vai ficar. E pode ser nesse momento que surjam as dúvidas: reformar e projetar mesmo antes de morar ou fazer apenas o estritamente necessário e esperar ver as reais necessidades de quem habita este lar? Para nos ajudar a refletir sobre isso, a arquiteta Larissa Vinagre nos dá algumas dicas. Para Larissa, o ideal é contratar o arquiteto no início da obra, pois é mais fácil fazer a reforma na planta. “Principalmente quando a alvenaria ainda não está feita, pois o cliente evita o gasto com demolições”, lembrou. Sobre o projeto dos móveis, ela diz que eles

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Texto: Lidiane Gonçalves | Imagens: Divulgação

tanto podem ser tanto projetados logo no início da obra, pois são determinantes na planta de reforma, quanto quando a obra já está pronta. “A diferença é que quando isso é pensado logo no início, conseguimos ajustar os pontos elétricos, hidráulicos e iluminação de acordo com o mobiliário projetado. Ou seja, quanto antes se contratar um arquiteto, melhor”, assegurou. Sobre projetar os móveis aos poucos, depois que o morador já está adaptado com o ambiente, a arquiteta diz que isso depende mesmo da pessoa. Aqueles que são detalhistas participam ativamente da elaboração do projeto, interferem, listam tudo o que têm, opinam. “Isso ajuda muito no resultado final. Entretanto, quando se faz um apartamento inteiro de uma vez, e o tempo é curto, algumas coisas podem passar despercebidas, mesmo o cliente sendo muito


participativo. Na verdade, acredito que o fundamental é a participação do cliente, pois a partir dele, das suas necessidades, é que projetaremos da melhor maneira”, garantiu. Ela lembra que contratar um profissional para a reforma e/ou projeto de móveis e ambientação fará toda a diferença. “Será esse profissional que indicará e lidará com a equipe da reforma, organizará o cronograma, fará pesquisas e orçamentos para o cliente desde o início até os detalhes de finalização do projeto. A experiência em obra conta muito e evita muitas dores de cabeça ao cliente”, comentou. Sobre os apartamentos, cada dia menores, Larissa comentou que o que mais os clientes prezam é o aproveitamento máximo de espaço, fator que é primordial ao projetar apartamentos pequenos. “Devemos ter em mente as necessidades do cliente e tirar o melhor proveito do espaço ao projetar o mobiliário. Temos que projetar de acordo com as necessidades e o gosto dos clientes, assim teremos sempre ambientes com a cara do dono. Em relação à funcionalidade, o arquiteto tem que ter essa questão sempre em mente na hora de projetar”. Geralmente as preocupações para quem vai projetar os móveis da casa própria são que os profissionais consigam unir beleza à funcionalidade, móveis que caibam todos os objetos que o cliente tem. “Na verdade, acho isso o mais importante, pois só teremos uma casa organizada se tivermos espaço para guardar tudo o que temos. Quando não pensamos nos mínimos detalhes e falta espaço, geralmente a casa fica bagunçada”, comentou Suellen Montenegro, sócia de Larissa. Suellen disse ainda que geralmente as pessoas se preocupam mais com as áreas sociais (sala, varanda gourmet e lavabo), que recebem os convidados; e com a cozinha e área de serviço, onde a questão funcionalidade impera. São muitos os fatores que definem em quanto tempo a obra de reforma e os móveis estão prontos para serem usados, transformando a casa em um lar. “Isso vai depender de quando o arquiteto foi contratado. Se o apartamento já estiver pronto, vai depender do tamanho. Se for pequeno e envolver pequenas reformas, em quatro meses dá para ficar pronto. Se for maior, sete meses”, opinou Suellen. Como no vestuário, a arquitetura também trabalha com tendência. Larissa comentou que a tendência do momento é o uso da cor na decoração. “No entanto, acredito que em arquitetura de interiores, o que vale é o gosto do cliente. Nós, como arquitetos, devemos tentar transformar isso e aplicar no projeto, seguindo o nosso estilo e criando um ambiente único”. Virginia Nascimento, que é funcionária pública, casada há um ano e meio, disse que o objetivo inicial era projetar todo o apartamento. “Pegamos as plantas, levamos para um escritório de design e arquitetura e, mesmo antes da obra ser entregue, já sabíamos tudo que queríamos fazer. Não poderíamos fazer reforma, pois o prédio é de alvenaria estrutural, que não permite a derrubada de paredes”, disse.

No entanto, alguns detalhes dos móveis da cozinha e da sala tiveram que ficar para depois. “Por questões financeiras mesmo, optamos por fazer todo o quarto do casal, os banheiros e a cozinha, ficando a sala e a área de serviço para depois. Com o tempo, descobri que precisava de mais armários na cozinha e que queria mudar a mesa da sala. Mudei algumas coisas, mas sempre combinando com os profissionais que eu havia contratado, para que nada destoasse do restante do projeto”, comentou. A analista de sistemas Barbara Xavier tomou a decisão de projetar todo o apartamento de uma única vez. “A primeira coisa que nós pensamos quando resolvemos projetar o nosso apartamento todo de uma vez foi na economia. Porque sempre tivemos em mente que quanto antes fizéssemos as coisas estaríamos pagando pelo valor do dia, e como as coisas tendem a aumentar o preço, pagaríamos por um valor menor se fizéssemos antes. Quanto à economia ainda, como o montante a ser pago pelo projeto do apartamento inteiro é maior do que fazer apenas um cômodo ou parte dele, o desconto que conseguimos na negociação também foi maior”, disse. A moça, que é recém-casada, disse ainda que ela e o esposo consideraram o conselho dos amigos, que diziam que, para montar os móveis, haveria muita bagunça e poeira. “Já que íamos passar por isso, que fosse logo tudo de uma vez”, comentou. Barbara explicou ainda que projetar antes de se mudar foi importante em vários pontos principalmente na organização. “Quando montamos os móveis antes de mudar já tínhamos o lugar de cada coisa, então ficou mais fácil a adaptação de tudo. Outra coisa que foi importante é que, durante a montagem dos móveis, algumas paredes do apartamento sujaram ou foram arranhadas. Então retocar esses pontos quando não estávamos dentro do apartamento ficou bem mais fácil”. Apesar de recomendar projetar e reformar o apartamento antes da mudança, ela disse que o diaa-dia mostra necessidades que não se imaginava naquele momento. “No começo achei que teria espaço suficiente para guardar tudo, e realmente tinha. Mas, no dia-a-dia fui sentindo a necessidade de acrescentar ou adaptar uma coisa aqui ou outra ali. Tive muito prazer em idealizar cada cantinho do meu apartamento, e por esse motivo acho que vou sempre sentir a vontade e a satisfação de deixá-lo do meu jeito”, disse.

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ARQUITETURA E MODA

Casa Rietela

VISIBILIDADE SEM EXAGEROS Texto: Germana Gonçalves | Fotos: Divulgação

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isteriosa e sensual, a transparência sempre brincou com o imaginário da moda, e está presente muito antes da época em que se permitia mostrar o corpo. Revelando sem mostrar, insinuando sem entregar, a tendência propõe mostrar a pele através de tecidos translúcidos sem exageros, possibilitando produções refinadas e elegantes, além de ultra femininas. A forma de compor uma produção com transparência depende 100% do estilo pessoal, porém é importante lembrar que existem intensidades na translucidez das peças dependendo do corte, tecido e do contraste entre cor e tom de pele. Portanto é necessário um pouco de cautela ao escolher um look transparente, que de lindo e elegante, pode tornar-se muito revelador e vulgar. Durante o dia, ela deve ser utilizada

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Desfile Fashion Rio-2014

apenas em detalhes, como barras de saias, mangas e decotes, porém a noite é possível ousar um pouco mais e combinar com materiais brilhosos como o paetê por exemplo. A tendência mais atualizada da transparência posiciona-se com o objetivo de criar ilusões para os cortes das roupas, como em laterais de vestidos para que eles pareçam recortados, compondo criações mais ousadas e divertidas, mas sem deixar de lado as sobreposições que são completamente atemporais. A opinião masculina é unânime ao dizer que a transparência dá a sensação de brincar com a imaginação sem que se perca de imediato a surpresa... E como não poderia ser diferente, a “visibilidade sem exageros” também caiu na graça dos arquitetos e Designers de interiores. Tudo começou nos anos 50 e começo da década de 60 com a criação da cadeira Champanhe dos Designers Erwine e Estelle Laverne, e em 1968 com a cadeira Contour de David Colwell, que viraram queridinhas. Na década de 70 as composições de acrílico, Laca branca e aço escovado revolucionaram a decoração.

Desfile Nina Ricci

Os materiais translúcidos como o vidro, acrílico, cristal, policarbonato, metacrilato entre outros, são matéria prima de objetos de designers como cadeiras, bancos e mesas laterais, Que proporcionam leveza, luminosidade e requinte em seus diversos formatos e composições. A tendência ganha força em 2014, através dos pequenos ambientes. Os apartamentos estão cada vez mais reduzidos, e os materiais translúcidos dão a sensação de amplitude, além de serem fáceis de combinar com cores e objetos, tornando o ambiente leve e clean, além disso, o vidro, cristal e acrílico são contemporâneos e permitem que a luz atravesse a matéria, criando um efeito harmônico e original. Algumas obras arquitetônicas também se destacam com a beleza da transparência. Um belo exemplo é a casa translúcida do arquiteto Hans Van Heesswijk que erguida em 2011, contendo 275m² em folhas de vidro, proporciona um visual incrível, aliada a iluminação que a noite torna-se um espetáculo. O que Hans diz sobre sua casa? “Enxergo apenas a água, o céu e o pôr do sol.” Essas palavras me bastam!

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ESPECIAL

RECONFIGURANDO

OS ESPAÇOS As mudanças na sociedade e nas famílias levam ao surgimento de um novo jeito de morar

Texto: Débora Cristina | Imagens: Divulgação

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casa é uma máquina de morar”, disse sabiamente Le Cobursier. E apesar da distância temporal do que foi dito, hoje, mais do que nunca, a casa é um elemento funcional, onde cada lugar é usado para o que foi proposto. As casas e os apartamentos de antes eram grandes e espaçosos, fazendo com que fossem criados inúmeros espaços ociosos, salas onde as pessoas nunca iam e cozinhas que mais pareciam salões de festa. Hoje, tudo isso mudou bastante.

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“Com a exiguidade de espaço, lotes cada vez menores e mais caros, apartamentos com áreas minúsculas prometendo oferecer um falso conforto às famílias, que sempre acreditam num layout ilusório feito de má-fé por muitas construtoras – tudo isso aliado à violência que vivenciamos nos centros urbanos, a dificuldade de mão-de-obra para atividades domésticas e os congestionamentos – , as pessoas mudaram esse conceito”, afirma a arquiteta e urbanista Suellen Montenegro. Segundo ela, mesmo assim as pessoas atualmente buscam em casa o conforto e a qualidade necessários para o dia-a-dia e para receber bem, mesmo dentro dessas limitações. “Elas valorizam e aproveitam cada metro quadrado de suas moradias. As mudanças na estrutura familiar também provocaram uma série de modificações na estrutura física residencial: aumentou o número de casais separados, de

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Projeto Bethania Trisoto | Foto: Diego Carneiro

filhos que decidem morar sós, os casais homossexuais, e todos possuem necessidades específicas. Nesse atual conceito de morar, os arquitetos são peças fundamentais para o rearranjo dos espaços e para a melhor definição

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do mobiliário, pois cada morador quer impor ao local a sua essência, características e necessidades”, explicou Suellen. Com o passar dos anos, os espaços da casa foram mudando de cara e de importância. As cozinhas voltam a ser privilegiadas e muitas vezes integradas às áreas sociais, pois elas vêm recuperando sua importância nas residências. Outro espaço que vem ganhando força é o home theater, muitas vezes ocupando o lugar do quarto de hóspedes, hoje mais discreto e sem tanta importância. As pessoas buscam cada vez mais se sentirem bem em casa. “O lado positivo disso é que as pessoas estão trazendo alguns hábitos saudáveis de volta como a promoção de reuniões em família, encontros entre os amigos, as brincadeiras entre as crianças voltou a ser mais interativa, quer pela criação de espaços como salas de jogos ou de brinquedos, quer seja pelo aumento da quantidade de condomínios fechados, cujas área de lazer são verdadeiros oásis de brincadeiras e entretenimento”, finalizou a arquiteta. Os tempos mudam e com ele mudam as formas de usar o espaço. Não seria diferente com as residências.


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CARTA DO LEITOR

ENDEREÇOS

A Revista AE quer ouvir você. É com prazer que aceitamos a sua opinião, críticas, sugestões e elogios. Entre em contato conosco:

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Sou bibliotecária da Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Ubá, uma instituição de ensino superior. A unidade de Ubá oferece o curso de bacharel em Design de Produto. Recebemos através de uma doação dois exemplares da ARTESTUDIO. Venho por meio deste solicitar a doação desse periódico com o objetivo de enriquecer o nosso acervo. Gabriela Xavier da Silva Bibliotecária | Ubá, MG

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DIEGO REVOLLO

Acabo de receber a AE. Belo trabalho dos arquitetos e editores. Já repassei para minha filha. Um abraço.

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PONTO FINAL

A ALMA DA CASA E A FELICIDADE COTIDIANA Para pensarmos no que seria uma casa com alma é fundamental, antes de tudo, tentarmos entender o significado da palavra “Alma”. “Ânima” é o termo do latim que dá origem à palavra portuguesa “alma”, e refere-se ao princípio que dá movimento ao que é vivo. Logo, “Alma” é aquilo que é animado, ou o que confere movimento, que faz mover. Dito isso, entendo que uma casa com alma se caracteriza pelo fato de que nela os moradores sentem que podem se mover livremente. Não falo apenas do movimento físico, mas também da fluidez de emoções e pensamentos. Uma casa com alma, portanto, é o espaço no qual os moradores exercem sem restrições os movimentos que lhes são confortáveis, no qual se sentem confortáveis para expressar suas características mais íntimas e particulares. A casa com alma é feita da mesma substância da qual são feitos seus habitantes, ela não somente reflete a personalidade dos moradores, mas nutre o universo mental deles. A casa com alma abriga e oportuniza momentos que fortalecem a identidade de quem nela vive. Como uma caixa de som, ela reverbera as ideias, os sentimentos e as ações dos moradores. Como um espelho, ela reproduz os movimentos dos habitantes. Como um jardim, a casa com alma oferece um solo fértil para germinar e florescer o que faz seus habitantes felizes. Como um diário, ela registra as alternâncias vividas pelos moradores em todas as áreas da vida… Ela se ilumina, se abre ou se fecha no ritmo das vivências dos habitantes. A casa com alma é uma casa viva. Se a casa com alma é uma casa viva, como isso pode ser realizado efetivamente? Uma casa habitada por pessoas que gostam de cinema, por exemplo, pode oferecer condições para que seus habitantes possam assistir filmes confortavelmente, para que se sintam à vontade para vivenciar no lar essa experiência que para eles é tão importante. Assim, talvez, para o cinéfilo a casa com um home theater, com sofás aconchegantes e iluminação adequada, ofereça mais vida do que uma com churrasqueira. Mesmo que a grana seja curta e que não dê para montar o espaço ideal para a cinefilia, criar oportunidades para ver filmes em casa, na companhia de pessoas queridas, é o suficiente para animar (dar alma) a casa. O morador que adora cozinhar, que ama receber os amigos para comer, alimentará a alma da casa exercitando seus interesses, ou seja, cozinhando e recebendo. Se for possível ter uma maravilhosa cozinha gourmet, é quase como se um templo fosse erigido à alma da casa. Mas, de novo, há templos de todos os tamanhos e valores e, ainda assim, todos servem igualmente para celebrar a vida. Um amante da culinária que em sua habitação exercite o seu amor nutrirá a alma da casa, não importa se o ambiente no qual cozinha tem a simplicidade de uma choupana de roça ou a ostentação de uma mansão árabe. Assim, a alma de uma casa é cultivada pelo uso que os moradores fazem dos ambientes nos quais habitam. Se ao usarem a casa os moradores fazem o que gostam, da forma que desejam e no tempo que lhes é necessário, a casa estará em movimento, será animada, terá alma. Se o uso cotidiano da casa, contudo, é destituído do envolvimento afetivo e cognitivo de seus moradores o espaço doméstico não terá vida, será um corpo sem alma. Atualmente, muitas casas tornaram-se meros dormitórios, espaços nos quais as pessoas apenas dormem e fazem sua higiene pessoal. Para os habitantes dessas casas, o lazer, a alegria, a diversão, o prazer, a busca de conhecimento, as relações pessoais, os sonhos, o relaxamento, tudo é vivido fora da casa. Até mesmo a tristeza, a dor, o sofrimento, a solidão, são

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expressos em outros espaços que não o doméstico. Para essas pessoas, a vivência de tudo o que nos faz humanos, emoções, pensamentos e sentimentos, sejam positivos ou negativos, é priorizada fora da casa em que se habita. Há pessoas que quando estão alegres saem de casa para encontrar os amigos e celebrar, e quando estão tristes vão para casa, tomam um sonífero e dormem. Há pessoas que quando adoecem levemente, uma febre passageira ou um mal estar digestivo, buscam a casa de outros, seja a da mãe ou a de um amigo, porque na própria não se sentem acolhidos. Há aqueles que passam dias, semanas, sem ir a um determinado cômodo, sem sentar-se numa cadeira ou sofá, sem ir à varanda, sem fazer uma refeição sequer na casa que habitam. Há os que nunca compartilham o ambiente doméstico com outros de quem apreciam a companhia, que nunca param em casa para ler um livro, ouvir música, fazer uma refeição ou simplesmente olhar o tempo passar. Há casas com crianças nas quais não se vê um único brinquedo ou desenho alterando displicentemente a ordem do mundo adulto, outras em que habita um cão ou gato e na qual nunca se ouve latido ou miado. Nessas casas imóveis quase nunca é possível ouvir-se o barulho agitado das ações vivazes das crianças ou dos bichos. Há casas que nunca se abrem para o mundo, que em nome da limpeza nunca escancaram as janelas, impedindo que o vento, os barulhos da rua, a luz solar ou a da lua lhe dê novas cores e sonoridades. Há casas em que o receio dos custos, ou a sovinice, impede seus moradores de acenderem as luzes devidas para tornar o ambiente visível e plenamente desfrutável, ou o ar condicionado para torná-lo agradável. Há casas feitas para as visitas, nas quais a mobília, o design e cada detalhe funcionam como uma vitrine onde o morador exibe sua prosperidade, mas nas quais os habitantes não sabem se mover sem poses ensaiadas ou uma persistente sensação de deslocamento e inadequação. Todas essas casas são hospedarias, mas não lares. As casas que apenas hospedam seus moradores são ambientes sem alma e, mesmo que não percebam, ao deixar de utilizá-las como lares seus moradores perdem uma grande chance de fortalecer a própria identidade, de repor as energias gastas com as obrigações sociais diárias e de delimitar seu território físico e imaginário no mundo. Com isso, essas pessoas restringem os limites do próprio movimento como indivíduos, deixando-se amalgamar com as demandas da vida coletiva que despersonalizam a especificidade de cada um de nós. Se a organização de uma casa sacrifica a autenticidade e a espontaneidade de quem nela habita, ela será uma casa sem alma. Uma casa não terá alma se a relação dos moradores com o espaço doméstico for mecânica, utilitarista, vazia de conteúdos afetivos e cognitivos. A alma de uma casa será perdida se o uso do espaço doméstico for restritivo, não viabilizando a expressão dos interesses, gostos e desejos dos moradores. Uma casa sem alma, enfim, é aquela na qual os moradores não se sentem consistentes com a própria natureza. Para que a casa tenha alma, seus habitantes precisam poder e querer moverse por ela em acordo com o que sentem e pensam. A vida de uma casa, sua alma, portanto, é criada e cultivada pelas ações daqueles que a habitam.

ANGELITA CORRÊA SCARDUA Psicóloga e professora, Mestre em Psicologia Social pela USP/SP.


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Revista ae45  

Arquitetura, decoração, design, arte e viagem

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