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A despeito de todo aquele clima festivo, não havia como fugir: o Umarizal era um reduto pelo qual a pobreza insistia em soar bem alto. Ainda muito jovem, Tó se vê acuado por essa árdua realidade. A necessidade de trabalhar lhe é imposta bastante cedo. Mas o condão da oportunidade o levaria a travar contato com o ofício que, ao lado da musica, o acompanharia até o fim: a atividade de encadernador. Surge-lhe a chance de trabalhar numa oficina de tipografia e brochura de livros. Uma das muitas que começavam a se instalar na cidade a fim de atender o gosto da aristocracia por leitura com bom conteúdo e irretocável acabamento. Ali, como que numa conspiração da arte, ele conhece um amigo para todo o sempre: um adolescente, como ele, que mais tarde simplesmente se tornaria o grande poeta Bruno de Menezes. O exaustivo turno na oficina, porém, jamais o afastaria do namoro já firme com a música. No final da jornada, mesmo exaurido, era para as melodias e cadências que Tó voltava. O violão lhe caia nos braços e virava um companheiro cordato e generoso. Em pouco tempo, a especial habilidade daquele garoto magro e introspectivo começou a saltar aos olhos da família, dos vizinhos, do bairro. Sempre agitando o Umarizal e seus entornos, o pai de Tó decide reunir os filhos e sobrinhos – todos instrumentistas – e cria uma orquestra familiar, da qual se torna o regente. O grupo passa a levar mais brilho e diversão às noites do lugarejo. À luz das lamparinas e das estrelas, a harmonia rara da cadência popular, dos sons mais do que tudo nascidos no espírito. Inventivo por natureza, o velho Antônio Teixeira da Costa funda o Clube Recreativo dos Velhinhos de Belém, que congregava somente pessoas com mais de 40 anos para conversar e dançar. E, obviamente, era a orquestra familiar dos Teixeira que dava o tom daqueles bailes. Festas demasiado concorridas que eram realizadas todo final de semana. As senhoras recebiam um cartão e os cavalheiros ali marcavam as danças. Caso a dama já estivesse comprometida a valsar esta ou aquela música com alguém, e um outro pretendente a abordasse, bastava mostrar o cartão que o cavalheiro se desculpava e dirigia-se no rumo de outra companhia. Era um tempo de galanteios e suavidades. Mesmo a boêmia era diferente naquela época. A lua de quinta a domingo velava seresteiros que se embriagavam com flautas, cavaquinho e violão. Tó Teixeira amava aquilo. Já dono de um estilo próprio no dedilhar,

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Orgulho de ser paraense - Tó Teixeira.indd 35

ia-se pelas madrugadas, pelas ruas tranqüilas daquela Belém. Nunca movido pelo álcool, mas pela volatilidade dos sons engendrados por seu dom. Tocava, tocava, deleitava e deleitava-se. Ao seu lado, o amigo Bruno de Menezes que ia se descobrindo um versificador excepcional e os O violão, companheiro cordato e generoso… amigos que Bruno lhe apresentava, como o magistral Dalcídio Jurandir. Unindo-se a Mocinho (flauta) e a Passarinho (cavaquinho), Tó empunha seu violão e dá inicio ao trio “Os Desejados”. É mais um e especial veículo para que o músico continue levando seu trabalho estradas afora, avivando comemorações em praças ou quintais de casas de família. À essa altura, Tó Teixeira já havia percebido que, muito mais que executar obras de outrem, ele podia compor. Era possível criar suas próprias harmonias, fazer com que as doze cordas de seu instrumento avivassem tudo que seus sentimentos gritavam e a timidez impedia de chegar à voz. Sua voz seria a do violão. Desta forma, começam a nascer os seus chorinhos, valsas, modinhas... A fama de competente violonista corre pela capital e faz com que Tó mais e mais se apresente em diversos logradouros públicos, como no complexo de São Braz. Ali, suas inebriantes apresentações eram sempre assistidas por um jovem estudante de música, ainda anônimo. Era por volta de 1923. O adolescente Waldemar Henrique vinha da então distante 16 de Novembro para acompanhar o encontro dos seresteiros e poetas. Perdia a noção das horas, varava a madrugada embevecido com os acordes sentimentais que somente Tó sabia extrair. O futuro maestro mais tarde diria: “parecia que até o silêncio parava para ouvir Tó Teixeira”.

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Terruá Pará

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