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Tó Teixeira Um Tó que está na alma da música paraense

s cordas do violão bamboleiam em acordes de ré. Murmuram quando atingem um fá, sorriem ao compor um sol. No mormaço de Belém, há o toque morno de um gênio popular. Um aprendiz de si mesmo na arte, um eterno professor de talentos, que nas rodas de boêmia respondia com um sorriso tímido quando lhe cantavam o nome: “Tó Teixeira”. Poucos são os artistas que, ao lado de uma obra vasta e rica, trazem em seu encalço elementos capazes de elucidar traços históricos e sociais de sua terra natal. A trajetória de Tó Teixeira, contudo, pode nos permitir essa análise. Sua vida bordada, determinada e musicada pelo cenário que sempre o cercou leva-nos a uma viagem elucidativa, difícil e, ainda assim, poética pelos meandros de um Pará de ontem O látex, a borracha. Houve um tempo em que tais palavras valiam mais do que ouro para os paraenses. Das seringueiras, escorria a seiva valiosa que fez erguer o fausto nessa região. Produto único que trouxe para as bandas de cá o que de mais especial da cultura européia. Criou uma poderosa e refinada elite que consumia o melhor de Verdi e Vitor Hugo. Importação artística, entretanto, que se restringia aos bairros centrais daquela Belém de Paris. Nas periferias apartadas daquele eixo nobre, a cultura popular pulsava e explodia com outras tonalidades. Nunca obedecendo a limitações – muito menos às territoriais – , a arte se inventa, reinventa-se. A dura realidade do subúrbio transforma-se em argamassa para criação de manifestações artísticas originais e intuitivas. Violinos e violões ali também chegam, deixando-se tocar de um modo próprio e não menos sofisticado. Era uma época em que a Amazônia se encontrava repartida entre as fortes elites sustentadas pela borracha e as classes desfavorecidas. O desenho da capital paraense, naquele período, espelhava essa distinção. Ao longo

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Ao longo da Estrada de Nazaré, erguiam-se belos ranchos de arquitetura art nouveau

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Orgulho de ser paraense - Tó Teixeira.indd 34

da Estrada de Nazaré, erguiamse belos ranchos de arquitetura art nouveau. Eram as casas de campo onde, cansados do “tumulto” do centro (atual cidade velha), as famílias de boa estirpe consultavam os libretos da próxima temporada de óperas no Theatro da Paz. Em torno dali, uma cidade toda cortada por igapós. Para se chegar a Pedreira era preciso seguir por um caminho estreito, cheio de mato e estivas. Passando pelo intenso comércio junto ao igarapé das Almas, à embocadura da 28 de Setembro, tomava-se algumas trilhas estreitas e se atingia aquele bairro apinhado de árvores de umari, onde o luxo da energia elétrica era completamente desconhecido. Tratava-se do Umarizal, localidade em que se reunia a comunidade negra. Foi naquela área da Belém daquele tempo, numa casa na Domingos Marreiros que, no dia 13 de junho de 1893 (dia de Santo Antônio), nasceu o insuperável Antônio Teixeira do Nascimento. Ou, simplesmente, Tó. Assim, monossilábico e simples como o nome de uma nota musical com a qual tanta beleza se faz. Caçula dos quatro filhos de Antônio Teixeira do Nascimento Costa e de Maria Vitorina Teixeira da Conceição, aquele negro menino iniciava uma longa e bela seresta vida afora. Vinha viver num perímetro segregado, sim. Porém efervescente. Lugar em que as ruas cheiravam à manga recém caída, a açaí batido há pouco, a tucupi extraído diariamente, a maniva moída na hora. Onde por qualquer ou nenhum motivo se dava um jeito de arranjar festejos. Eram folguedos por isso ou aquilo, ladainhas nos dias santos. Era o berço de toda uma cultura musical. Como não podia deixar de ser, tudo aquilo invadia a casa dos Teixeira. O chefe da família era natural de Santarém. Numa das muitas viagens a capital, fixou-se no Umarizal e passou a trabalhar como mestre ferreiro na Amazon River Steam Navigation (posterior Enasa). Mas era o gosto pela musicalidade – obtido em sua tão artística terra natal – sua verdadeira chama. Era como flautista e regente de “pau-e-corda” que aquele homem simples filtrava gosto pela vida. O nascimento do menino Tó significava a vinda de mais um filho ao qual delegar a paixão pela sonoridade. Raiava o ano de 1905 quando, aos doze anos, Tó Teixeira foi iniciado pelo pai nos instrumentos de corda e sopro. Décadas depois, ele afirmaria que, no início, desinteressava-se por aprender música. Não por ela em si, mas por preguiça de estudar. Os ventos do talento, todavia, logo soprariam aquela preguiça para bem longe. Os ensinamentos paternos seriam a base daquele futuro virtuose. Ele prosseguiria nos estudos com o músico Aluísio Santos. A genialidade começaria a dedilhar sua alma. Era preciso buscar dicas com um tocador aqui, um vizinho ali. Tudo podia servir como fonte de aprimoramento. www.paramais.com.br

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Terruá Pará

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