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Garibaldi PARENTE

O Cemitério Brasileiro

A

cidade de Pistóia abriga em alta consideração o mais belo, respeitoso e emocionante monumento votivo aos heróis brasileiros, bravos soldados, defensores da liberdade dos povos na segunda guerra mundial. O cemitério situado na Via Sei Arcole em frente a igreja de San Rocco distante cerca de 5km do centro, abrigou os corpos dos valorosos soldados da Força Expedicionária Brasileira mortos nas acirradas batalhas contra o nazismo de Hitler, grave ameaça à soberania dos povos, da justiça e da igualdade racial. No adro foram sepultados 443 soldados. Quinze anos depois do fim da guerra, em 1960, realizou-se o repatriamento dos mortos para o Brasil sob os cuidados providenciais do Ex-comandante da FEB Gal. Mascarenhas de Morais: “Eu os levei para o sacrifício, cabia-me trazê-los de volta para receberem as honras de todo o povo brasileiro”. Consagrado á memória e ao respeito, o cemitério foi solenemente inaugurado em 1966. Seis meses depois um padre italiano encontrou os restos mortais de um soldado brasileiro através da farda e das insígnias da FEB, prova contundente de reconhecimento. Somente a liberdade sabe seu nome. O que restou de um homem serviu para cumprir a última exigência do governo Italiano em assegurar ao Brasil a posse perpétua do campo santo. Nele o soldado desconhecido descansa em paz, nós o conhecemos pela bravura e pelo sacrifício. Ele vive em duas pátrias longe do Brasil, mas em terra brasileira. Exemplo de honra e dignidade, sustentáculos da grande amizade entre brasileiros e italianos. No monumento, cinco símbolos aglutinantes imortalizam aqueles que morreram para libertar o povo da insanidade mental, da crueldade nazi-fascista: o Pavilhão da Bandeira Brasileira, a terra do campo sagrado, a pedra tenaz, a água e a cruz. A Bandeira do Brasil traça nos céus da Toscana, em movimentos ondulantes, a passagem do tempo eterno emoldurado pelos ventos vindos de todos os quadrantes universais. Magno sinal de proteção e de congraçamento cívico. A bandeira tremula em oração para estender sua proteção á memória dos mortos, vivos em nós pelo exemplo inconteste de abnegação ao bem e de amor à pátria. A terra sagrada dos sepulcros recebe firmemente a cruz. Os braços abertos apontam para a cadeia dos Montes Apeninos, cenário idêntico ao das batalhas travadas em Fornovo,Collechio, Monte Prano, Zocca, Montese, CastelNuovo, Monte Castello, Camaiore. Entre silhuetas e perfis da eternidade nas imagens verdes da esperança, o chão não se consome. Intocáveis nomes em lápides de concreto fixam na amplitude memorial a integridade da pátria e o amor nunca ultrajado. Monumento Votivo Militar Brasileiro em Pistóia

O Cemitério Militar Votivo em Pistoia

A pedra tem vida, é testemunha e mensageira do céu. Nasce depois do próprio amadurecimento, do equilíbrio de suas forças fundamentais para exercer sua estabilidade existencial. Aparentemente estática e estéril, a pedra evolui tombando-se em si mesma por dentro, com tenacidade resistência e sabedoria. Regenera-se sinalizando-se misticamente entre os deuses celestes. No dizer de Olavo Redig de Campos, arquiteto do cemitério: ´´Para ascender à glória dos Parte dos valorosos soldados da Força Expedicionária Brasileira que participaram das batalhas travadas na Itália

mortos, um longo caminho em meio às pedras (... ) revivem a longa caminhada dos nossos irmãos. A água ao pé do muro de pedras, nele estão gravados os nomes dos soldados. A água regenera, purifica, reconforta e espelha com sinceridade para o céu o que é justo e ordeiro. A verdade revelada aviva-se entre as estrelas Espiga, Procium, Sirius, Canopus, Delta, Gama, Epsilon, Seta, Alfa, Antares, Lambda, Mu, Teta, Sigma, Capa, Iota, Beta e tantas outras. Entre elas fertiliza-se a virtude soberana de amar com magnificência a paz, a ordem e a partilha amorosa da vida, na vida e na morte. Assim , o espelho d´aguare- ilumina cosmogonicamente o passado no presente e se irradia adiante do futuro incutindo em nossas consciências a certeza de que a vitória depende de muita luta, denodo, abnegação e sacrifício. A Cruz, dela emerge interseções e relações dinâmicas com quase todos os elementos simbólicos da linguagem universal. A Cruz, ela aponta para todos os quadrantes da terra e do céu. Orienta-nos a nós objetiva, a nós subjetiva, a nós o Sol, a Lua, Marte, Júpiter, Vênus... Cardinalmente em nós sonoriza o sentido da imanência terrestre e a transcendência celestial. A Cruz a nós entrecruza os espaços sagrados reordenando os misteriosamente na envergadura anímica dos braços abertos a vitória da vida sobre a morte. O sangue dos heróis, seu nomes impulsionam os ventos nos ares de diferentes rumos. A esplanada em epopéia acende o fogo eterno da pira simbólica diante do nicho tumular, o corpo do morto recebe todas as honras da anunciação ressuscitando em nós continuadamente a grandeza do amor sublimado. (*)

* Escritor 48

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