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A tradição do Natal nas Ilhas da Madeira e dos Açores

O

por Anete Costa Ferreira

povo português mantém-se fiel às suas tradições natalinas, comemorando-as de acordo com os costumes seculares. Na ilha da Madeira antes da missa da meia-noite nas igrejas apagam-se as luzes, ficando apenas um foco sobre o anjo vestido de branco, com asas resplandecentes que ergue as mãos para os céus e entoa: “Em vim do céu à terra/ De mandado do Senhor/ Para vos anunciar o Menino de Deus Pai…” É a forma de a Igreja mostrar ao público o Menino Jesus. A seguir um grupo de pastores chega ao templo e entre alas vai cantando acompanhado de instrumentos regionais. Ajoelha-se junto a manjedoura levando suas oferendas às costas, à cabeça e nas mãos para ofertar ao Menino Jesus. São produtos da terra, animais vivos, frutas, ovos, géneros alimentícios e algum dinheiro que entregam ao pároco. As ruas são decoradas com árvores, arcos e arranjos típicos da época. As lojas arrumadas com motivos natalinos, expõem artigos alusivos ao espírito do Natal. O destaque especial é a “Missa do Parto”, uma das principais tradições da terra que comemora os 9 meses de gravidez de Nossa Senhora começando às 6 horas da manhã do dia 16 de dezembro e terminando ao nascer do sol do dia 24 acompanhada de canções tradicionais. No dia 23 de dezembro inicia a Noite do Mercado. É uma celebração tradicional que dura a noite toda. As ruas a sua volta ficam repletas de gente cantando, dançando e saboreando bebidas tradicionais. Os vendedores expõem suas mercadorias da

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Missa no dia Natal na gruta Angra do Heroísmo, ilha Terceira, Açores

época onde o povo pode adquirir, sem constrangimento até alta hora da noite naquela que é já considerada a Festa da Noite do Mercado. Paralelo são apresentados espetáculos concertos, exposições que se estendematéaomêsdeJaneiro. Em seguida os católicos vão para a Missa do Galo. Ao término retiram-se às suas casas para saborearem a canja, uma vez que a tradicional Consoada não é usada pelos madeirenses. Na sobremesa o destaque vai para o Bolo de Mel e o Bolo Família. No Arquipélago dos Açores as famílias armam presépio em lugar destacado da casa. Usam pedras vermelhas das zonas vulcânicas e o musgo. É o recanto preferido para o convívio familiar, hábito que se estende até 2 de Fevereiro, dia da apresentação do menino Jesus ao Templo. Paralelo, ainda prevalece o presépio vivo, quando uma criança é batizada como forma da presença do Deus Menino. Segundo o historiador Mota Amaral na década de 40 do século XX, começaram as apresentações de presépios monumentais naAngra do Heroismo. Para a Consoada os preparativos começam cedo com a confecção caseira de receitas antigas que vão passando entre gerações. Por exemplo os licores de anis, maracujá e de leite, tendo todos nome genérico de “mijinha do Menino Jesus”, fato comum na Ribeira Grande. Na tradição gastronómica os doces conventuais, queijinhos de amendôas, toucinho do céu, bolo de Natal, arroz doce e a massa cevada compõem as delícias da mesa natalina dos açorianos.

Em muitas casas as paredes são enfeitadas com ramos de laranjeiras com frutos amarelos próprios da época. Vestem o Menino com uma saia rodada e um corpete de seda branco bordado com lantejolas. Deitam-no na cômoda ou mesa encostada à parede, envolta num paramento de côr viva. Espalham pela casa velas, jarros de flores e bonecos de barro de fabricação popular. Também colocam o prato de triguinho do Menino, de molho no dia 13 de dezembro, que no dia 25 estará germinando para alegria de todos. Os lares permanecem enfeitados até o dia 6 de Janeiro, na festa dos Santos Reis. Após a Missa do Galo, os fiéis beijam o Menino Jesus e rumam às suas casas para ceiarem o típico caldo de couves, peixe e pão com queijo. No dia 25 na grande festa familiar é servido o caldo de galinha com arroz e feijão, galinha cozida, pão de trigo, figo e nozes, regados com vinhos. Na Ilha de São Jorge, o dia do nascimento do Menino Jesus é especial para as moças que neste dia tem liberdade especial para sair à noite. Pelas tradições que são celebradas o Natal é sempre um encontro de familiares e amigos em qualquer parte onde se encontre alguém que crê na Divindade Suprema. P (*) Correspondente da Pará+ em Portugal

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