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DIVÃ

A violência nossa de cada dia Sexta-feira, dia 4 de novembro, nossa cidade amanheceu triste e sem flores com a falta de Fernando Weber, que dedicou a sua vida a florir a vida dos outros. Cada vez mais, de forma reiterada, deparamo-nos com atos de violência, atos sem sentido e causas aparentes. A desvalorização da vida humana e a supervalorização dos objetos se tornam cada vez mais presentes na contemporaneidade. “O Homem é o lobo do homem”... Hobbes tinha razão, o homem motivado por suas paixões e demandas pode destruir seus semelhantes. Seguindo Hobbes, Freud aponta para a necessidade de um interdito (lei) que possa dar garantias ao homem contra si mesmo. Quando os laços sociais que tecem a lei estão enfraquecidos, uma saída possível seria voltar às origens, mas na contemporaneidade isso é impossível: ela pressupõe um estilo de vida em que a colocação em ordem depende sempre do desmantelamento da ordem tradicional, herdada e recebida. Quando o presente dá as costas ao passado e recusa-se a considerar o futuro, como objeto de preocupação, a tradição desmorona e, com ela, as noções de valor que conhecemos. O bom, o justo e o verdadeiro passam a ser descritos como instrumentos de utilidades ou interesse de indivíduos e corporações, que não estão engajados com o todo. No modelo social contemporâneo, o ser humano representa-se por meio de objetos e de bens materiais. Para ser alguém com sucesso, basta que tenha condições de adquirir os bens de consumo que escolher. Através da aquisição do objeto, o ser humano tem a falsa ideia de felicidade, de

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Margareth Martta

psicóloga, psicanalista, doutora em educação

preencher o vazio, a inquietude, a solidão e a angústia. A fragilidade e a efemeridade da sua identidade, advindas da perda de um sentimento de pertença e de continuidade histórica, não lhe asseguram um lugar simbólico, sendo necessário, muitas vezes, buscar através da violência a garantia de um lugar subjetivado. Outro risco, consequente da obtenção do sucesso individual através do objeto é o de que ocorra cada vez mais um desinvestimento no outro, com uma suposta completude em si próprio. Essa cultura narcísica de apologia ao individual, de exclusão da alteridade, de desconsideração ao outro favorece a violência e a desvalorização à vida humana.

A desvalorização da vida humana e a supervalorização dos objetos se tornam cada vez mais presentes na contemporaneidade. O resultado são atos de violência sem sentido ou causa aparente

Afrodite38  
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38ª Edição da Revista Afrodite.

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