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Fábio Grison

Muitas das suas obras e exposições são ligadas ao feminino, o que mais a atrai e motiva em retratar esse universo? Milla: Tem a ver com minha própria história de vida. Fui criada basicamente só pela minha mãe, meus pais se separaram quando eu era muito nova. E minha mãe... não posso falar muito porque já me emociono... Mas ela sempre foi muito guerreira e é um exemplo de vida, se separou aos 28 anos e com três filhos, nos anos 1970. Somos muito amigas, temos uma diferença de 19 anos. Acho maravilhoso o homem, mas a mulher é sensacional. Ela gera, é a base do lar. Tem gente que não concorda com isso porque, infelizmente, acho que não conhece a mulher certa. As mulheres que conheço e convivo nunca estão sob mau tempo. São mães, são trabalhadoras, pegam aqui e ali, arrumam uma cozinha, já fazem uma janta. Tem gente que só dá desculpa. E a desculpa é muito fácil, “hoje não tenho tempo”. E quando eu trabalho com a mulher é homenageando exatamente essa capacidade. Para brindar mulheres que querem se ver como modelo, se ver colocadas como em uma foto de revista. E o resultado tem a ver com o captar aquele momento certo, aquele olhar. Têm mulheres que eram totalmente contra foto e que agora gostam de fazer. O seu projeto Mulheres à Flor da Pele homenageia mulheres que vivem a vida intensamente, independentemente de cor ou credo. Tem um viés de empoderamento feminino nesses trabalhos? Milla: Sim, até porque às vezes estou em casa e vem aquela ideia de valorizar a mulher. Nesse projeto queria ter feito uma tatuagem de hena, algo assim, e acabei fazendo uma decoupage no corpo da mulher. A intenção foi fazer um ensaio sensual, em estúdio, onde a mulher se colocasse realmente à flor da pele, sem ser vulgar. Imprimi a imagem na tela. Nas séries de mães também, a última foi Amanhecer, que traz toda essa ideia do novo dia, do novo recomeço, da mãe e do ser. E essa mistura de foto e pintura, estar entre lentes e pincéis, como se dá? Milla: Misturo muito o preto e branco e o colorido, porque assim também são as pessoas, tem dias que estamos em preto e branco e outros que estamos em colorido, então temos essa mistura. Gosto desse negócio de cada um ter a oportunidade de dar as pinceladas na própria vida. Tem uma frase que acho fantástica, “a vida tem a cor que a gente pinta”, e é verdade, porque temos oportunidades todos os dias. A que você tem mais se dedicado hoje? Em que vem trabalhando atualmente? Milla: Tenho minhas oficinas de arte para diferentes públicos e, em datas como Páscoa e Natal, crio oficinas de artesanato para crianças

desde seis, sete anos de idade, e elas saem tão realizadas com o que fizeram que é lindo de ver. Ensino a fazer enfeites que possam guardar, que durem para sempre e não que sejam descartáveis, só porque são pequenos. Na parte de fotografia estou com muitas famílias e crianças, são pessoas que querem registros de encontros familiares, ao ar livre, em parques, gestantes. E do book faço um filme, coloco uma trilha sonora e entrego em DVD. Acho interessante, pois são momentos únicos, cada gravidez é única, são fases que não voltam mais. Casamento tinha jurado para mim mesma que não faria, porque é muita responsabilidade, mas acabou acontecendo, encarei e deu tudo certo. Por que fotografar? E quais as diferenças e semelhanças entre fotografar e pintar? Milla: Em 1998, quando ganhei minha primeira máquina, quis ter memórias. Considero a fotografia melhor do que filme, porque o filme você tem que parar, colocar no DVD... e a fotografia guarda muito da memória, do tempo. Assim como a foto, a pintura eterniza o momento. E permite criar, como a moldura que reproduz a madeira de demolição que criei e transmiti a técnica para mais de 200 pessoas em um congresso em Porto Alegre. Com a minha arte consigo eternizar o tempo, marcar, contar uma história. E em tudo que faço dou um pouco de mim, se cada dia renasço, posso doar todo dia um pouco de mim, seja para quem precisar. Já fiz foto gratuitamente, doei obras para diferentes causas, não visando só o lucro. E tem gente que diz, “ah, mas tu tens uma base”, não tem nada a ver com base, o André e eu somos casados, mas com os meus custos, desde meu carro, sempre fui eu que arquei, não sou a esposa que tem que ser mantida pelo marido. E está preparando alguma novidade do seu trabalho? Milla: Estou preparando para o ano que vem o Amanhecer 2, pois amei tanto esse nome que vou fazer de novo. Ainda sem data definida. AFRODITE | 35

Afrodite38  
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38ª Edição da Revista Afrodite.

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