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Vida virtual Texto: Cintia oliveira fotos: divulgação

Internet Como sair

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esquisa entre jovens de 17 a 23 anos realizada este ano pela Universidade de Maryland, nos EUA, concluiu que a dependência de celulares, computadores e tudo que esteja relacionado à tecnologia pode ser considerada um vício. O estudo avaliou 1.000 alunos com idades entre 17 e 23 anos, em 10 países, que ficaram durante 24 horas sem celulares, redes sociais, internet e TV. Segundo a pesquisa, 79% dos estudantes avaliados apresentaram desde desconforto até confusão e isolamento com a restrição ao uso de eletrônicos. Outro sintoma relatado foi o de coceira, uma sensação parecida com a de dependentes de drogas que lutam contra o vício. Se hoje é impossível viver sem computador, os excessos podem cobrar um alto tributo dos usuários. O Dr. Cristiano Nabuco de Abreu, psicólogo coordenador do Amiti (Programa de Dependentes de Internet do Ambulatório dos Transtornos do Impulso) do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, diz aqui o que é possível fazer para evitar essa perigosa dependência, sobretudo em adolescentes

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da dependência digital

O quadro da dependência digital é bastate típico. Conferir os e-mails enquanto se está na cama, pelo smartphone. Procurar um endereço através de mapas online em vez de perguntar ao colega ao lado. Abdicar do horário de almoço para conferir recados em sites de relacionamento. Tornar-se escravo do leitor de RSS. Atualizar o webmail a cada três minutos para ver se há novas mensagens. Ou seja: manter-se permanentemente conectado. Isso é um vício? Seja que nome tenha, a dependência digital cresce assustadoramente, quase como um problema de saúde pública. O estudo americano, talvez o primeiro do gênero, concluiu que a tecnologia vem tomando conta da vida das pessoas de forma descontrolada. ”Fico no

trabalho cerca de 9 horas por dia conectado, e quando chego em casa, não consigo me desconectar. Ou estou na internet ou estou jogando videogame”, disse Felipe Affonso, de 22 anos, um bom exemplo desse comportamento compulsivo. “Não consigo imaginar a minha vida sem a internet. Se fico sem acesso ao e-mail ou às redes sociais, fico de mau humor”, afirmou. Jovens como Felipe podem apresentar vários problemas comportamentais, como explica o Dr. Cristiano: “Alterações no humor, comportamento depressivo e reações impulsivas quando restringidos no uso do computador, videogames ou celular, são os principais sinais de que a pessoa está usando essas tecnologias de forma excessiva”. Mas, tecni-

camente, o uso da internet só se torna efetivamente dependência quando a pessoa deixa de realizar suas tarefas profissionais ou de lazer e opta por ter relacionamentos com pessoas somente online. Apesar de a maior parte das pessoas desconhecerem o problema ou não reconhecerem sua dependência, já existe tratamento especializado. O Hospital das Clinicas de São Paulo, por exemplo, tem um setor específico que oferece ajuda e tratamento para adolescentes e adultos. O Dr. Cristiano, coordenador do programa de dependência de internet, explica: “Inicialmente é feita uma pré-triagem para averiguar o quadro de sintomas. Depois, fazemos uma consulta para avaliação e só então é oferecido ao paciente um

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plano terapêutico em grupo e/ou individual com acompanhamento médico”. O tratamento dura 18 semanas e utiliza recursos audiovisuais, materiais bibliográficos e dinâmicas de grupo para facilitar a comunicação e reflexão entre os participantes. No caso dos adolescentes, além do tratamento com os pacientes, o programa também é feito com os pais. “Os encontros com os jovens consistem basicamente em analisar os possíveis motivos e interesses dos jovens em relação à internet, além de detectar formas de comportamento e identificar novas habilidades e práticas educativas que substituam o uso excessivo da rede. Também são analisadas formas ideais para dar suporte familiar à manutenção das mudanças realizadas”. Segundo o psicólogo, algumas medidas podem evitar que o adolescente ou o adulto dependente tenha recaídas. Investir em programas familiares ao ar livre e realizar atividades que levem a pessoa a usar o mínimo possível dessas tecnologias é o primeiro passo para que o paciente ou até a pessoa que está prestes a virar dependente da internet tenha uma vida normal.

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erceber que o acesso à internet se tornou uma dependência é fundamental para que a pessoa procure ajuda para se libertar

Um bate-papo digital com o

Dr. Cristiano Nabuco de Abreu O que caracteriza o viciado em internet? É um vício no meio popriamente dito ou em assuntos, como pornografia e jogos, que poderiam ser explorados fora da web?

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coordenador do Amiti (Programa de Dependentes de Internet do Ambulatório dos Transtornos do Impulso) do HC da FMUSP, acha que não é correto comparar a dependência da internet ao vício de álcool ou drogas, por exemplo – mas o problema, em muitos casos, também exige tratamento

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É uma pergunta em aberto. O vício em internet é psiquiátrico ou seria um abstrato de problemas anteriores? Quando os estudos foram iniciados, em 1996, o primeiro critério para definir o vício foi o mesmo que define se alguém é viciado em álcool ou drogas. Kimberly Young, a primeira pesquisadora do assunto, montou este conceito, mas o abandonou depois de dois anos, pois percebeu que a dependência pela internet não é semelhante ao vício por álcool e drogas. Hoje sabemos que a dependência não é uma adição e sim um transtorno de controle dos impulsos. O vício em internet está na mesma esteira das adições como cleptomania,

compulsões, etc. É difícil resistir ao impulso e o uso da web se torna tão patológico que acaba em perda progressiva de controle e aumento do desconforto emocional.

Como nasceu um ambulatório especializado em São Paulo?

Há quatro anos, num congresso mundial de psicoterapia na Suécia, assisti a uma pesquisadora americana que falava do vício e lembrei de alguns pacientes que eu tinha no Brasil, que já haviam se queixado desse descontrole. Voltei ao país disposto a pesquisar a possível manifestação da dependência tecnológica na realidade brasileira. Nossa equipe montou um bloco de atendimento. Em seguida, já eram dois blocos. O atendimento consistia de terapia cognitiva cuja função principal é devolver aos pacientes a perspectiva


Como o leitor pode identificar se está ou não viciado em Internet? É preciso procurar ajuda médica para diagnosticar? No site http://www.dependenciadeinternet.com.br/article/ archive/7/ é possível fazer um teste para saber o grau de dependência. Mas, para identificar rapidamente, a pessoa deve apresentar, pelo menos, 5 dos 8 critérios abaixo descritos: Preocupação excessiva com a internet Necessidade de aumentar o tempo conectado para ter a mesma satisfação do controle e da autorregulação do uso da Web. De uma maneira geral, nossas impressões são de que cada vez mais pessoas buscam ajuda para o tratamento das dependências tecnológicas (internet e vídeogame), devido a vários aspectos psicológicos, como baixa autoestima, depressão, fobias sociais, dentre tantos outros, e sociais, como solidão e isolamento. Tal panorama se dá em função do crescimento acelerado do acesso à internet pela população em geral e porque o Brasil lidera sistematicamente a lista dos países que apresentam as maiores taxas de conexão doméstica no mundo. Ao contrário do que pensávamos e do que sugeriam os estudos norte-americanos, aqui o vício não era só entre adolescentes. Tínhamos pacientes a partir de 9 anos e em todas as faixas etárias.

O número de horas diante do computador mede a dependência?

O número de horas não pode ser levado em conta como o único critério para diagnosticar o vício. As pessoas trabalham, pesquisam e estudam pela internet e por isso precisam passar uma grande carga de horário conectados. O que determina se uma pessoa é dependente é quando ela acaba preferindo desenvolver atividades na vida virtual em vez de atividades na vida real. Os chamados heavy users, ou usuários graves de internet são os que podem vir a sofrer de dependência de internet. São pessoas inteligentes e mentalmente muito ágeis, que passam o dia todo conectadas, sofrem de depressão e/ou ansiedade, e preferem as interações virtuais às reais. Estas pessoas têm maior risco de se tornarem viciadas em internet.

Esforços mal sucedidos para diminuir o tempo de uso da Internet Irritabilidade e/ou depressão Quando o uso da Internet é restringido, apresenta labilidade emocional (Internet como forma de regulação emocional) Permanece mais conectado do que o programado Trabalho e as relações sociais ficam em risco pelo uso excessivo Mente aos outros a respeito da quantidade de horas conectadas

Existem listas de discussão e sites de apoio a viciados em Internet. Não é um paradoxo? É um paradoxo. Mesmo em nosso consultório, procuramos prestar consultoria através de e-mail, pois é preferível fazer algo a não fazer nada. E, hoje, a socialização passa pela Internet. Cada vez mais pessoas estão online e por um número cada vez maior de horas. O Brasil é onde as pessoas passam mais tempo conectadas. Na minha opinião, este quadro vai se agravar e se tornará um problema grave. Podemos dizer que já é um problema de saúde pública.

Qual o tratamento para o viciado? Já é possível tratar deste transtorno no país?

Infelizmente, não há tratamento especializado fora de São Paulo. Nosso programa consiste de atendimento ambulatorial que inclui tratamento semanal de psicoterapia de grupo por 18 semanas, mais tratamento psiquiátrico e psicoterapia individual, quando necessário. Mesmo que não haja especialização no assunto nos outros estados, é necessário procurar ajuda imediatamente de um psicólogo e de um psiquiatra, que vão avaliar o caso,

medicar se necessário, pois geralmente a pessoa sofre de depressão, e tratar com psicoterapia.

Quais as consequências do vício não tratado? Além de todos os problemas pessoais que um vício traz, como piora no desempenho escolar e no trabalho, brigas com pais, amigos e namorados, um outro problema é que a pessoa acaba perdendo a noção do que é real e do que é virtual. Fora isso, isolamento social, privação de sono, perda de interesse em atividades sociais, produtividade reduzida no trabalho e até problemas físicos, como dores de cabeça, problemas de visão, colunas, etc. E o que a dependência pode acarretar na vida dessas pessoas? Estudando neurociência se descobre que as vias neurais que são ativadas quando a gente vivencia algo, e quando a gente pensa sobre isso, são muito semelhantes. Então o cérebro não tem como diferenciar o que é imaginado o que é vivido. Por isso ocorre essa confusão entre o que acontece na web e o que acontece na vida real. n

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