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Verão Texto: CELSO ARNALDO ARAUJO fotos: divulgação

Disenteria Segurando a onda

O

verão está chegando. E a temporada de sol, praia, mar e chuvas produz a combinação perfeita para proliferação de doenças comuns em dias quentes. A disseminação do vírus causador da diarreia é um dos efeitos colaterais do calor – sobretudo através de alimentos contaminados e contatos corporais. Nesta matéria, especialistas dão dicas de como evitar o desarranjo intestinal – e, se ele vier, como detê-lo

A diarreia – aumento do número de evacuações associado à perda da consistência das fezes – é um problema que mata 15 pessoas por dia no Brasil. Segundo o médico João Gomes Netinho, cirurgião geral, médico especialista em doenças do aparelho digestivo e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, a diarreia tanto pode ser causada por uma infecção como por alergias. É claro que, na maior parte dos casos, é uma condição passageira, que, além de contratempos, não traz maiores consequências. Complicações

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ocorrem quando a diarreia se agrava ou se prolonga, causando desidratação pela perda de água e de minerais importantes, como sódio e potássio. Crianças e idosos fazem parte do grupo que mais corre risco de vida, por conta da desidratação produzida pelas diarreias. Segundo dados fornecidos pelo SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade), o Brasil teve 49.573 mortes por diarreia e gastroenterite de origem infecciosa presumível entre os anos de 2000 e 2009. Isso representa 5,5 mil óbitos por ano. A região nordeste é a que tem o maior número de mortes causadas por diarreia. Mas por que ocorre a diarreia? O Dr. Netinho explica que o intestino funciona, basicamente, absorvendo e eliminando líquidos e substâncias. Quando sua função sofre alteração, pela ação de uma infecção, por exemplo, desenvolve-se um desequilíbrio entre eliminação e absorção, podendo gerar um quadro da diarreia. “O médico precisa saber há quanto tempo a diarreia está presente. E descobrir o provável local do distúrbio, se intestino delgado ou grosso, pode auxiliar no diagnóstico médico”, explica. O Dr. Netinho lembra ainda que existem dois tipo de diarreia:

a aguda, que geralmente dura de uma a três semanas e na maioria dos casos não necessita de intervenção médica. E a diarreia crônica, que dura mais que três semanas e é dividida em dois grupos: o primeiro é o da diarreia que pode ser controlada com a realização de um jejum; o segundo é o que não responde a dietas e as fezes podem apresentar muco ou sangue. Explica o médico: “Quando as fezes apresentam sangue ou muco, o paciente deve procurar um especialista para que possa ser feito um diagnóstico diferenciado, pelo qual podem ser identificadas doenças inflamatórias no intestino, tumores ou alguma outra infecção”, conclui o Dr. Netinho. O médico avisa que beber bastante água é muito importante – mas apenas isso não vai recompor a perda de sódio e potássio causada pela diarreia. Por isso, deve-se também tomar soro caseiro e alguns isotônicos que existem no mercado. “Mantenha sua alimentação quando você estiver com diarreia. Muitas pessoas associam de forma errada a diarreia com alimentação e deixam de comer”. Medicamentos? Alguns medicamentos podem até causar uma sensação de alívio aos sintomas da diarreia, mas estes não devem ser consumidos,


pois a diarreia é uma manifestação de defesa natural do nosso organismo – não é à toa que muitos antiparasitários que “seguravam” o fluxo foram retirados de mercado. E por último, mas não menos importante, dr. Netinho ressalta a necessidade de uma boa higiene para evitar a infecção ou contaminação pela diarreia. “Lave sempre muito bem as mãos e, sempre que for ao banheiro, dê a descarga com a tampa do vaso sanitário fechada”, finaliza o médico.

Higiene:

a chave da prevenção

Esse é um ponto-chave no controle da diarreia. De acordo com a pediatra Wylma Mariko Hossaka, da Beneficência Portuguesa de São Paulo, no verão as pessoas devem aprimorar os cuidados de higiene rotineiros, principalmente a lavagem das mãos, e sobretudo ao manusear alimentos. “Na praia, por exemplo, antes de ingerir qualquer alimento, é importante lavarmos as mãos com água potável e sabão. Crianças são

Areia da praia: um risco, sobretudo para crianças. Lavar as mãos, depois de brincar na areia, é uma medida essencial na prevenção da diarreia de verão as maiores vítimas dos surtos de diarreia porque comem salgadinhos, sorvetes ou lanches com as mãos cheias de areia, muitas vezes contaminadas por resquícios de esgotos”, afirma a Dra. Wylma. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a higienização cor-

Hidratação Crianças e idosos, como já se disse, são as maiores vitimas de desidratação provocada por surtos de diarreia e vômitos. Por isso, manter o corpo hidratado é fundamental. A médica da Beneficência Portuguesa de São Paulo recomenda que os líquidos perdidos em virtude de diarreia e vômitos sejam repostos com o consumo de água mineral ou fervida, sucos, refrigerantes e água de coco. Leite e bebidas lácteas devem ser evitados. Frutas como maçã, caju e goiaba podem ajudar a conter a diarreia. Soluções de soro de reidratação vendidas em farmácias ou fornecidas pelos órgãos públicos de saúde também contribuem para evitar a desidratação. Na falta do produto, as pessoas podem utilizar o soro caseiro (veja receita abaixo).

Como preparar o soro caseiro Diluir em um copo d’água filtrada e fervida uma pitada de sal e três pitadas de açúcar. Misture bem. O consumo deve ser diretamente proporcional ao número de evacuações.

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reta das mãos ainda é a melhor forma de evitar o contágio e disseminação de algumas doenças. Outra medida importante é a escolha da praia onde a família passará as férias. “Muita gente não atenta para as condições de balneabilidade da praia escolhida. Praias impróprias para banho têm de ser evitadas. O contato com água contaminada deixa a população vulnerável”, afirma a especialista. Nos primeiros dias de 2011, o número de pessoas atendidas com diarreia e vômito no Pronto Atendimento da Beneficência Portuguesa o aumentou 80% em relação à primeira semana de dezembro de 2010. Grande parte desses pacientes havia passado as festas de final de ano em cidades litorâneas. Este ano não deve ser diferente. A validade e o acondicionamento de alimentos ingeridos no litoral também merecem atenção. “Opte sempre por produtos menos perecíveis. Latas de refrigerantes e sucos devem ser lavadas com água potável antes de serem abertas. Evite queijos e outros produtos vendidos por ambulantes sem as condições ideais de armazenamento e refrigeração. O manuseio adequado dos alimentos e bebidas reduz sensivelmente os riscos de diarreia e vômitos”, afirma a médica. n


Disenteria: Segurando a onda  

Matéria da Revista ABCFARMA sobre Disenteria: Segurando a onda

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