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Páginas Azuis Texto: Celso Arnaldo fotos: divulgação

Câncer de pele O lado escuro do sol

Sociedade Brasileira de Dermatologia acaba de promover sua campanha anual de prevenção do câncer de pele – de longe, o tumor maligno mais comum no Brasil, com estimativa de 134.170 casos novos no país, do tipo não-melanoma, em 2012. Já o melanoma, uma forma muito mais agressiva da doença, terá 6.230 casos novos este ano – mas com uma alta taxa de mortalidade. A SBD escolhe a véspera do verão para essa jornada, em que milhares de pessoas são examinadas e orientadas para o autoexame, justamente porque o sol é o grande vilão dessa forma de câncer – que portanto pode ser prevenido com proteção solar. Em 2010, entre as 913 pessoas avaliadas no Hospital das Clínicas de São Paulo, foram detectados 105 novos casos. Nesta entrevista, a Dra. Maria Cristina Messina, médica assistente da Divisão de Cirurgia Dermatológica do Hospital das Clínicas e coordenadora, nesse hospital, da Campanha da SBD, ensina a prevenir e autodetectar um tumor de pele.

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Os 140 mil casos novos de câncer de pele em 2012 são um numero tipicamente brasileiro? Não, no mundo todo a incidência é próxima disso. A Austrália é o país com maior número de casos, não só pela maior incidência de radiação ultravioleta como pelo grande fluxo de imigração europeia no país. São os dois fatores de risco: radiação e o tipo de pele predisposto ao câncer.

Os raios Ultra Violetas B incidem o dia todo e causam queimaduras

Os raios do tipo A, mais intensos entre 10 e 16 horas, penetram mais

Epiderme

Entre os tumores de pele, qual é o tipo mais comum? O carcinoma basocelular responde por 70 a 75% dos casos, enquanto o espinocelular vai de 10 a 15% e o melanoma, de 2 a 4% – este, porém, mata muito mais do que os outros. O problema dos carcinomas é o dano local causado pelo câncer. O basocelular é um tumor de crescimento lento e não dá metástases, mas, negligenciado, cresce e pode invadir, por exemplo, o globo ocular, a boca, o nariz. Embora esse tipo de tumor não seja mortal, tem alto impacto social e econômico pela grande prevalência da doença. Todos os dias, no HC de São Paulo, são atendidos cerca de 10 casos novos de câncer de pele por dia e alguns já em estágio avançado. Gasta-se muito mais em tratamento do que em prevenção.

O câncer de pele é o mais visível de todos os tumores. Por que algumas pessoas só buscam tratamento depois que a doença já fez estragos?

O erro começa às vezes por falha do próprio atendimento inicial. A pessoa procura ajuda por causa de uma lesão e recebe a indicação de passar uma pomadinha no local, sem que o diagnóstico seja feito. Em outros casos, o paciente vive numa área com pouco acesso a serviços médicos e vai adiando até a coisa ficar feia. E há lesões em

Células basais Células escamosas

As três caras do câncer de pele Se detectados precocementes, cerca de 95% dos tipos mais comuns são curáveis

O basocelular é o tumor de pele mais comum. Não dá metástases, mas, sem tratamento, faz estragos

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O tumor de células escamosas é o segundo mais comum. É um pouco mais agressivo que o basocelular

O melanoma maligno é o grande temor dos dermatologistas, por seu grande poder de metastização


locais que não são visíveis, como as costas, o couro cabeludo e a sola do pé – aliás, melanomas de pés e mãos são os mais agressivos.

Pacientes com maior nível social e cultural descobrem o câncer com mais rapidez?

Sim, mas nessa faixa ocorre o inverso: há os que procuram o médico ao menor sinal. A maior parte das vezes não é nada. Tenho pacientes em nível de neurose. Por isso, o principal objetivo de nossas campanhas é orientar as pessoas para os sinais que devem gerar preocupação: feridas que não cicatrizam, que sangram e formam casquinha, sangram e formam casquinha de novo.

As pessoas acham que só pintas escuras podem ser câncer...

Aí estamos falando mais do melanoma. Uma pinta escura, marrom ou preta, que surge de repente ou que já existia, sangra, cresce ou muda de formato. Em relação ao melanoma, há uma regrinha que chamamos de ABCD. Assimetria do formato da pinta; Bordas irregulares; Cor – é mais sugestivo de melanoma quando a pinta tem múltiplas cores; e Diâmetro – o mais suspeito é quando a pinta tem acima de 6 milímetros. Qualquer pinta acima de 6 milímetros é suspeita? Não, é preciso haver a associação desses quatro critérios.

Há pessoas que sempre tiveram pintas escuras no corpo, sobretudo nas costas. Essa pigmentação “de nascença” pode virar melanoma? Há uma estatística a respeito dos nevos congênitos – o nome dessas pintas. Quem tem mais de 50 nevos pelo corpo está

A atriz Paola Oliveira é uma das estrelas da campanha de prevenção da Sociedade Brasileira de Dermatologia

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mais predisposto a ter um melanoma. Hoje, para não se tirar todas as pintas de todo mundo, a gente dispõe de um mapeamento para acompanhar mais de perto pessoas que têm muitas pintas, história familiar ou pessoal de melanoma. Fazemos uma espécie de fotografia de todas as regiões do corpo onde as pintas estão localizadas, com um aparelho chamado dermatoscópio. Tudo isso é registrado em computador e, de acordo com os critérios do ABCD, cada pinta ganha uma nota de risco. Algumas são retiradas imediatamente e outras, eventualmente, nos próximos mapeamentos, com intervalos entre três meses a um ano.

Por que o melanoma é tão assustador? É um tumor muito agressivo, que ataca células da pele chamadas melanócitos e tem alta capacidade de metastização. E é muito pouco sensível a tratamentos sistêmicos, como a quimioterapia.

Você diria que, num país tropical como o Brasil, o sol é a causa direta do câncer de pele?

Sim, mas não se pode falar em causa absoluta, porque há também a predisposição genética. Há pessoas que tomam sol a vida inteira e nunca terão um câncer de pele, porque têm uma genética favorável.

O que os dermatologistas acham da pele bronzeada?

O bronzeamento da pele é uma reação de proteção contra a ação do sol. E, do ponto de vista estético, é um elemento cultural. Na Itália, por exemplo, o bronzeado é sinal de status. Se você sai de férias e volta branco, é porque não pôde ir à praia ou à montanha. Já em São Paulo, não estar bronzeado é status – indicando que você vai ao dermatologista, usa os melhores protetores, se cuida. No Rio, você precisa estar bronzeado. Do ponto de vista físico, estar bronzeado significa que você recebeu radiação ultravioleta que danificou sua pele – que, com excesso de sol, também fica mais predisposta ao envelhecimento precoce. Quando a radiação UV é mais forte?

No clássico horário das 10 às 16h, quando a exposição ao sol deve ser evitada ou maximamente protegida. Nesse período, o sol atravessa uma camada de ozônio mais fina.


Escolher o FPS, número do fator de proteção contra UVB, depende do tipo de pele. Uma pessoa de cor parda estará bem protegida com FPS 15. Outra muito branca e de olho azul deve usar FPS 70

Nas campanhas de prevenção, o exame apurado de lesões de pele Mas não é inviável recomendar a alguém de férias numa praia do nordeste ou num resort evitar o sol nesse período? Sim, na prática isso se torna quase inviável. Aliás, se você for seguir à risca as recomendações para fugir de todas as formas de câncer, você acaba não vivendo. Sendo bastante práticos, e

ao mesmo tempo usando o bom senso, você pode continuar na praia ou na piscina – mas tome algumas providências básicas: use boné, passe protetor solar com alta proteção, use uma camiseta com proteção solar. Meu filho de quatro anos vai para a praia, nesse período de maior incidência de radiação ultravioleta, de camiseta com protetor solar.

Você mencionou o protetor solar: qual é a melhor proteção?

O produto ideal tem fator de proteção contra as duas formas de radiação Ultra Violeta: a UVB (que deixa a pele vermelha e é mais intensa entre 10 e 4 horas) e a UVA (incide o dia todo e é a causa do envelhecimento precoce da pele). É preciso consultar o rótulo do protetor. Escolher o FPS, número do fator de proteção contra UVB, depende do tipo de pele. Uma pessoa de cor parda estará bem protegida com FPS 15. Outra muito branca e de olho azul deve usar FPS 70. Alguns trabalhos sugerem que acima de 30 não há diferença na proteção. Na verdade, só não há diferença se você passar 2 miligramas de protetor solar por centímetro quadrado de pele. Isso raramente acontece. Na média, as pessoas passam 0,5 ml. Nessa quantidade, um FPS 30 protege menos que um de 50, e este menos do que 70. Quanto à radiação UVA, o fator de proteção é medido em PPDs, que vai de 0 a 25, ou cruzes, de 1 a 4. O ideal é PPD 18 e 4 cruzes. Isso também está no rótulo. Além desses números, há diversos veículos para os protetores: loção, gel, creme, spray. O melhor para cada pessoa depende do tipo de pele. É bom consultar um dermatologista antes de sair de férias. Outra coisa: entrou na água, fez esporte? Tem de reaplicar. Ou renovar a cada duas horas se não fizer nada disso.

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Você recomenda que as pessoas passem protetor até quando saem para trabalhar? Se o trabalho for externo, sim. Se você anda 10 minutos no sol para ir almoçar, também. Nesse caso, passe no rosto e, se for uma pessoa muito branca ou com maior risco para câncer de pele, também nas mãos e partes expostas.

O câncer de pele não-melanoma é mais frequente após os 50 anos. Isso significa redobrar cuidados na terceira idade?

Em termos. Para uma pessoa com 80 anos, o que ela já tomou de sol ao longo da vida é muito mais determinante para um câncer de pele do que o sol que vier a tomar. O efeito da radiação é cumulativo. Eu diria, portanto, que deve se cuidar, sem neurose. Já para o melanoma, o fator de desencadeamento de maior risco é a queimadura solar intermitente e aguda. É o caso da pessoa que passou 360 dias trancada no escritório e, no fim de ano, durante cinco dias, se expõe ao sol até virar um camarão. n


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