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Infectologia Texto: Celso Arnaldo Araujo fotos: divulgação

Aids

Nos 30 anos, um teste instantâneo N

o dia 5 de junho de 1981, o Centro de Controle de Doenças de Atlanta, nos Estados Unidos, descobriu em cinco jovens homossexuais uma forma de pneumonia que até então só afetava pessoas com o sistema imunológico muito debilitado. No ano seguinte, já com milhares de casos, a doença foi batizada com o nome de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, Aids em inglês. Nesses 30 anos, a Aids ainda não encontrou cura – mas a introdução de novos medicamentos retrovirais mudou a face da doença, que deixou de ser inexoravelmente fatal, para se transformar em crônica. Nos 30 anos, uma boa notícia: um teste desenvolvido pelo Instituto Bio-Manguinhos Fiocruz, no Rio, permitirá o diagnóstico da infecção em 20 minutos, eliminando a ansiedade dos pacientes. Mas também uma má notícia: a Aids ainda mata cerca de 11 mil brasileiros por ano, porque, como observa o Dr. David Uip, diretor do Instituto Emílio Ribas, o tratamento avançou muito, mas a prevenção ainda não Cerca de 40% das pessoas que fazem teste de HIV não voltam para buscar o resultado final do exame. Para contornar o problema, o Ministério da Saúde quer que todos os pacientes que queiram fazer o teste saiam dos centros de saúde sabendo se

Dr. David Uip,

diretor do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, e um dos pioneiros brasileiros no estudo da Aids 18 | Revista ABCFARMA | AGOSTO/2011

são soropositivos ou não. Essa meta fica mais próxima de ser alcançada com o lançamento do novo teste rápido confirmatório, o Imunoblot, produzido pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (BioManguinhos/Fiocruz). Atualmente, o teste de HIV é feito pelo método Elisa. Se der positivo, o paciente volta ao serviço de saúde, recebe orientação e faz o exame confirmatório, pelo método Western Blot (o mais usado) ou imunofluorescência. O resultado final leva dias ou semanas para sair – o que aumenta dramaticamente a ansiedade do paciente que, muitas vezes, por receio do resultado, não volta para buscar o exame. Um acordo entre Biomanguinhos e o laboratório americano Chembio permitiu o desenvolvimento conjunto, no Brasil, de dois kits de testes rápidos – o de triagem, lançado em fevereiro pelo ministro Alexandre Padilha, e o confirmatório, chamado de Imunoblot e que foi divulgado em junho,


geração banalizou a doença, porque não teve contato com a geração anterior, que morreu. A epidemia, depois de um período de sensível redução nos anos 1990, parece viver agora um recrudescimento”. Além dos jovens que não têm memória dos primeiros e terríveis tempos da doença, um novo tipo de paciente se incorpora à estatística dos infectados: a terceira idade. Segundo o Dr. Uip, em geral são homens que retomaram sua atividade sexual após o surgimento das drogas contra disfunção erétil e não utilizam nenhuma forma de proteção. “Eles não foram educados, em sua época, a usar proteção e não se adaptaram aos preservativos”. Só em 2009, cerca de 1400 infectados com mais de 60 anos foram registrados no Brasil. Um dos grandes avanços na luta contra a Aids no Brasil nesses 30 anos foi o controle da qualidade do sangue nos bancos privados e públicos

durante o 2º Simpósio Internacional de Imunobiológicos, organizado pelo Bio-Manguinhos. Para fazer o teste, o paciente recebe uma picada no dedo. O resultado sai em 20 minutos. “O kit é sensível e eficaz já a partir do 25º dia de infecção”, afirma o gerente do programa de Desenvolvimento de Reativos, Antonio Ferreira. Inicialmente, os kits rápidos serão usados em grupos vulneráveis – moradores de rua, prostitutas, garotos de programa, populações indígenas e ribeirinhas, grávidas que não completaram o pré-natal. E em campanhas específicas do ministério, como as que ocorrem em grandes eventos, como Carnaval e Festa do Peão Boiadeiro. Ainda será avaliada a capacidade de produção dos testes e os custos, mas a estimativa é de que em dois anos tenha sido completada a substituição dos métodos Elisa/Western Blot pelos kits rápidos. A expectativa é que o novo teste ajude a reduzir a mortalidade pela doença no Brasil. Segundo os especialistas, 40% da mortalidade por Aids no Brasil está relacionada à demora para o início

do tratamento. “Temos que diminuir o diagnóstico tardio. Muitas pessoas não se beneficiam do tratamento disponível no SUS porque hoje chegam doentes aos serviços de saúde”, diz o doutor em medicina preventiva Mario Scheffer, presidente do Grupo Pela Vidda-SP. O Ministério da Saúde pretende utilizar entre 150 mil a 200 mil testes por ano para atender a demanda do SUS.

Brasil, programa modelar – mas prevenção ineficaz

Ainda um dos raros países do mundo que disponibiliza o coquetel de medicamentos contra o HIV a toda a população, através do Sistema Público de Saúde, o Brasil vive uma fase paradoxal da doença, 30 anos após sua identificação – como observa o Dr. David Uip, um dos pioneiros no estudo da Aids. Apesar dos avanços, o número de mortes ainda é alto, por alguns motivos. “A história do tratamento mudou radicalmente, com o coquetel. Mas a prevenção não mudou. Jovens continuam se infectando por absoluta falta de proteção. Parece que a nova

Temos que diminuir o diagnóstico tardio. Muitas pessoas não se beneficiam do tratamento disponível no SUS porque hoje chegam doentes aos serviços de saúde Além desse novo fenômeno, o médico observa que a oferta do coquetel de medicamentos dá às pessoas uma sensação de falsa segurança. E os remédios não são isentos de efeitos colaterais importantes – o principal deles é a mudança no perfil de gorduras no organismo. Com o uso do coquetel, elas tendem a se acumular na barriga ou nas costas. Além disso, aumentam o colesterol e os índices de glicemia. “O resultado é que o paciente tem mais infarto, derrames e insuficiência renal”. Trinta anos depois dos primeiros casos, e com 30 milhões de mortes em todo o mundo, a Aids ainda é uma doença terrível – que deve ser prevenida a qualquer custo. n

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