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ENTREVISTA: ODAYR OLIVETTI — Fundamentalistas e modernistas

“BUSQUEM O SENHOR ENQUANTO É POSSÍVEL ACHÁ-LO”

www.ultimato.com.br

FECHAMENTO AUTORIZADO. Pode ser aberto pelos Correios.

SETEMBRO-OUTUBRO 2010 • ANO XLIII • Nº 326

Coração, Juventude

e

Quem são, o que pensam e o que fazem os jovens evangélicos

PAUL FRESTON AÇÃO SOCIAL CRISTÃ: REALISMO E ESPIRITUALIDADE

LEONARDO BOFF ONDE ESTÁ A VERDADEIRA CRISE DA IGREJA

RUBEM AMORESE O LIVRO DE ELI

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A bertura

Judas

e a sacolinha

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udas, o único dos doze apóstolos que não era galileu, pois havia nascido em Queriote, no sul da Judeia, “era quem tomava conta da bolsa de dinheiro”. João registra essa informação duas vezes (Jo 12.6; 13.29). Poderia ser uma pequena e bonita caixa de madeira ou uma modesta sacolinha de pano de saco ou de linho. Nela colocavam-se as contribuições em dinheiro ofertadas pelas piedosas e agradecidas mulheres da Galileia (Lc 8.1-3) e outras eventuais receitas. Essas ofertas ajudavam Jesus e os apóstolos em seu ministério itinerante. Por causa da fraqueza pelo dinheiro, Judas era a pessoa menos indicada para exercer tal função. Não se deve pensar que o primeiro assalto à sacolinha seria o furto de alguns ou de todos os trezentos denários do perfume de Maria. João diz que Judas “costumava tirar o que nela [na sacolinha] era colocado” (Jo 12.6, NVI). A paráfrase da Bíblia Viva é mais contundente: “[Ele] muitas vezes furtava dinheiro de lá”. Jesus sabia que Judas era ladrão, mas nunca revelou isso a qualquer pessoa. Poucas horas antes de ser traído, Jesus mostrou quem o haveria de trair, dando a Judas um pedaço de pão passado no molho (Jo 13.26). João e os demais discípulos só ficaram sabendo que o Iscariotes retirava o dinheiro sagrado da sacolinha sagrada algum tempo depois de um vexame que ele causou em Betânia. Em menos de uma semana, Judas participou de dois jantares na companhia de Jesus e de outras pessoas. Não se comportou bem em nenhum dos dois. Escondeu a verdadeira identidade tanto na casa acolhedora de Maria, Marta e Lázaro, como na grande sala mobiliada no andar de cima de uma casa em Jerusalém. Na primeira ocasião, escondeu que era ladrão e se apresentou como alguém preocupado com o sofrimento humano. Na segunda, escondeu o acordo já feito com os chefes dos sacerdotes

e perguntou cinicamente a Jesus: “Mestre, serei eu [o traidor]?” (Mt 26.25). Ele foi descendo de graça em graça e escancarando as portas para o mal de tal modo que ficou endiabrado. João faz duas declarações sérias a esse respeito. Primeiro, diz que “o Diabo já havia posto na cabeça de Judas, filho de Simão Iscariotes, a ideia de trair Jesus” (Jo 13.2, NTLH). Pouco depois, registra que, “assim que Judas recebeu o pão [não o da Santa Ceia, mas o que havia sido passado no molho], Satanás entrou nele” (Jo 13.27, NTLH). Anteriormente, o tentador pôs a ideia dentro de Judas; agora, ele mesmo se põe dentro do apóstolo traidor. O ex-discípulo, ex-apóstolo e extesoureiro não tem mais controle de nada. Desde quando a ideia macabra, o projeto ou o plano macabro estava na cabeça de Judas? Desde quando ele ficou sabendo que os chefes dos sacerdotes estavam fazendo planos para matar Jesus logo após a ressurreição de Lázaro (Jo 11.53)? Desde o fracasso de sua proposta de vender o perfume de trezentos denários? Antes de Judas se retirar da sala espaçosa e aconchegante para se encontrar com os guardas do Sinédrio e levá-los a Jesus no Getsêmani, o Senhor declarou: “Vocês todos estão limpos”, e em seguida completou: “Todos menos um” (Jo 13.10, NTLH). Judas ouviu isso. Não era preciso explicar nada, mas João achou por bem acrescentar: “Jesus sabia quem era o traidor. Foi por isso que disse: ‘Todos menos um’” (Jo 13.11, NTLH). No dia seguinte, o homem com a sacolinha vazia estava dependurado à beira de um precipício numa corda amarrada pelo pescoço. Uma corda tão ordinária que não aguentou o peso do suicida e se partiu. É melhor tomar todo cuidado com a tentação do dinheiro, sobretudo com a sacolinha sagrada na qual se lança dinheiro sagrado!

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C arta

fundada em 1968 ISSN 1415-3165 Revista Ultimato – Ano XLIII – Nº 326 Setembro-Outubro 2010 www.ultimato.com.br Publicação evangélica destinada à evangelização e edificação, não denominacional, Ultimato relaciona Escritura com Escritura e acontecimentos com Escrituras. Visa contribuir para criar uma mentalidade bíblica e estimular a arte de encarar os acontecimentos sob uma perspectiva cristã. Pretende associar a teoria com a prática, a fé com as obras, a evangelização com a ação social, a oração com a ação, a conversão com santidade de vida, o suor de hoje com a glória por vir. Circula em meses ímpares Diretor de redação e jornalista responsável: Elben M. Lenz César – MTb 13.162 MG Arte: Liz Valente Impressão: Plural Tiragem: 35.000 exemplares Colunistas: Alderi Matos • Bráulia Ribeiro Carlinhos Veiga • Marcos Bontempo Paul Freston • René Padilla Ricardo Barbosa de Sousa • Ricardo Gondim Robinson Cavalcanti • Rubem Amorese Valdir Steuernagel Notícias: Lissânder Dias Participam desta edição: Edleia Rodrigues Jan Greenwood • Reinaldo Percinoto Jr. Publicidade: anuncio@ultimato.com.br Assinaturas e edições anteriores: atendimento@ultimato.com.br Reprodução permitida: Favor mencionar a fonte. Os artigos não assinados são de autoria da redação. Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro da Associação de Editores Cristãos (AsEC) Editora Ultimato Telefone: (31) 3611-8500 Caixa Postal 43 36570-000 — Viçosa, MG Administração: Klênia Fassoni • Daniela Cabral Ivny Monteiro • Lucas Rolim Menezes Luci Maria da Silva Editorial e Produção: Marcos Bontempo Bernadete Ribeiro • Djanira Momesso César Fernanda Brandão Lobato • Gláucia Siqueira Paula Mendes • Paulo Alexandre Lobato Finanças/Circulação: Emmanuel Bastos Aline Melo • Ana Paula Fernandes • Cristina Pereira Daniel César • Edson Ramos • Luís Carlos Gonçalves Rodrigo Duarte • Solange dos Santos Vendas: Lúcia Viana • Lucinéa Campos Romilda Oliveira • Sabrina Machado Tatiana Alves • Vanilda Costa Estagiários: Ariane Santos • Euniciléa Ferreira Juliani Lenz • Thales Moura Lima 4

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ao leitor

Tênis no pé e fé na cabeça!

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ogo depois da ascensão de Jesus e da descida do Espírito Santo, Pedro e João passaram uma noite atrás das grades. Quando foram soltos na manhã seguinte, houve alegria da parte da igreja e todos juntos adoraram a Deus, dizendo: “Senhor, tu és o Criador do céu, da terra, do mar e de tudo o que existe neles!” (At 4.24, NTLH). Trata-se de uma confissão de fé básica e natural, espontânea e sincera, ardente e cristalina, pessoal e coletiva, antiga e atual. Por causa de alguns cientistas céticos, da teoria da evolução, de alguns escândalos religiosos de ontem e de hoje, parte da juventude não consegue fazer com honestidade a mesma confissão de que Deus é o criador e o sustentador do universo. Porém não devemos cair nem na generalização nem no pessimismo. A pesquisa “Juventude Evangélica: crenças, valores, atitudes e sonhos”,* realizada pela Editora Ultimato, em julho deste ano, com 1960 jovens de idade entre 13 e 34 anos, mostra que 97% deles têm condições de repetir a confissão de dois mil anos atrás: “Senhor, tu és o Criador do céu, da terra, do mar e de tudo o que existe neles!” Deve-se ressaltar que a maior parte é formada por universitários expostos continuamente ao secularismo e à negação de Deus. O retrato da juventude evangélica fruto da citada pesquisa é o tema da matéria de capa desta edição. Muitas e curiosas perguntas foram feitas a esses 1960 jovens brasileiros. As respostas foram também curiosas. Por exemplo, 64% nunca mudaram de denominação, 73% estão satisfeitos com seus pastores e com as mensagens que eles pregam, 86% concordam que a conduta cristã não apoia o sexo antes do casamento e menos de 1% se deixa influenciar pelo ocultismo. O resultado da pesquisa sugere um esforço no sentido de mesclar o tradicional com o pentecostal (não com o neopentecostal). As respostas são também criativas: “quero ser tradicional com toque pentecostal”; “busco o equilíbrio entre a tradição e o avivamento”; “abraço a doutrina reformada e a liturgia renovada”; “sou meio a meio, não estou nem apegado à tradição nem pegando fogo”; “quero ser sensível ao Espírito e usar a mente que Deus nos deu”; “sou calvinista com dons do Espírito”. Que a matéria Coração, juventude e fé (a partir da pág. 20) corrija alguns mal-entendidos e encoraje os jovens a dar vários outros passos para a frente. Os menos de 120 jovens (6%) que afirmaram não acreditar ou não saber que Jesus é 100% Deus e 100% homem precisam se convencer desta verdade! Elben César Nota * Fruto de um esforço conjunto que durou quase um ano. Clemir Fernandes, Flávio Conrado e Patrick Timmer apoiaram na metodologia e análise dos dados.


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O resultado final

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resultado parcial de alguma doença não é a última palavra. Muitas coisas podem ainda acontecer, para aliviar ou agravar o problema. Coisas previsíveis ou não. Nem sempre é fácil esperar o resultado final de uma situação difícil. Não adianta esperar o melhor ou o pior. Sempre há surpresas a caminho, boas ou más. Ao receber o recado de Maria e Marta de que seu amigo Lázaro estava doente, Jesus simplesmente disse: “O resultado final dessa doença não será a morte de Lázaro. Isso está acontecendo para que Deus revele o seu poder glorioso; e assim, por causa dessa doença, a natureza divina do Filho de Deus será revelada” (Jo 11.4, NTLH). Jesus estava muito longe de Betânia, onde Lázaro ficava cada vez pior. Porém, ele não teve pressa. Ao chegar à pequena vila a apenas três quilômetros de Jerusalém, o amigo já havia morrido e sido sepultado e já cheirava mal. De acordo com o pronunciamento de Jesus, o resultado final da doença de Lázaro não poderia ser o túmulo nem a decomposição do corpo. Qual seria? Valeria a pena esperar mais um pouco? O resultado final não era aquela tragédia. O fôlego de vida voltaria ao defunto e a decomposição do corpo seria revertida. No entanto, isso não era tudo nem o principal. Jesus havia deixado claro que aquele processo de doença e morte desembocaria na glória de Deus e também na revelação inequívoca da natureza divina dele mesmo.

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A história da formidável ressurreição de Lázaro precisa ser lida dentro do contexto. No capítulo anterior, os opositores de Jesus tiveram o atrevimento de lhe dizer: “Você, que é apenas um ser humano, está se fazendo de Deus (Jo 10.33, NTLH). Eles ainda não acreditavam nas duas naturezas de Cristo — a humana e a divina. Jesus se proclamava tanto Filho do Homem como Filho de Deus. Ele era e é completamente homem e completamente Deus. Ser cristão é abraçar ambas as verdades — a divindade e a humanidade de Jesus. Ao chorar com Maria e Marta, o Senhor mostrou que o Verbo tinha se feito carne. Ao parar diante do túmulo de seu amigo e ao gritar para o morto: “Lázaro, venha para fora!”, o Senhor mostrou que ele e o Pai são uma só pessoa (Jo 14.9). O que aconteceu em Betânia foi uma impossível marcha à ré: a morte somatopsíquica, o sepultamento e o processo da decomposição voltaram atrás. E a natureza divina de Jesus veio à tona com tanta força que os opositores de sempre tomaram a decisão de acabar com a vida de Jesus e também com a de Lázaro, testemunha viva do poder de Deus e da divindade de Jesus (Jo 11.53; 12.10). Em caso de doença e em qualquer outro quadro de confusão, provação, tentação e medo, devemos aguardar não o resultado em processo, mas o resultado final. Nesta vida ou na vida futura, lembrando sempre que “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8.28)!


S umário

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Especial Onde está a verdadeira crise da igreja, Leonardo Boff Líderes evangélicos comentam artigo de Leonardo Boff

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Da linha de frente O povo sou eu, Bráulia Ribeiro

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Missão integral Como fazer discípulos de Cristo? René Padilla

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Ética Ação social cristã: realismo e espiritualidade, Paul Freston

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O caminho do coração Participando do mundo de Deus por meio da oração Ricardo Barbosa de Sousa Reflexão PT: o partido que nunca foi governo Robinson Cavalcanti Ufanismos, messianismos e outras mentiras, Ricardo Gondim Redescobrindo a Palavra de Deus O abraço de Deus: testemunho em vida, palavra, ação e sinal Valdir Steuernagel História Creio na comunhão dos santos: a relevância primordial da igreja Alderi Souza de Matos

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Entrevista Odayr Olivetti: Fundamentalistas e modernistas

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Ponto final O livro de Eli, Rubem Amorese

Leia mais

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CAPA 20

Coração, juventude e fé: quem são, o que pensam e o que fazem os jovens evangélicos

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Um retrato da juventude evangélica: crenças, valores, atitudes e sonhos

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De gerações e emblemas Reinaldo Percinoto Jr.

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Para não virar a cabeça

SEÇÕES 3 4 6 8 12 14 16 19 19 32 38 40 43 44 58

Abertura Carta ao leitor Pastorais Cartas Frases Mais do que notícias Notícias Números Nomes Altos papos De hoje em diante... Deixem que elas mesmas falem Caminhos da missão Novos acordes Vamos ler!

ABREVIAÇÕES:

AS21 – Almeida Século 21; BH – Bíblia Hebraica; BJ – A Bíblia de Jerusalém; BP – A Bíblia do Peregrino; BV – A Bíblia Viva; CNBB – Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; CT – Novo Testamento (Comunidade de Taizé); EP – Edição Pastoral; EPC – Edição Pastoral-Catequética; HR – Tradução de Huberto Rohden; KJ – King James (Nova Tradução Atualizada dos Quatro Evangelhos); NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia. As referências bíblicas não seguidas de indicação foram retiradas da Edição Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil, ou da Nova Versão Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional.

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C artas Parabéns pelo excelente conteúdo da edição de julho/agosto de 2010. A questão da sexualidade foi bem abordada e de maneira bíblica. Reproduziremos alguns textos na revista Novas de Alegria (órgão oficial da Convenção das Assembleias de Deus de Portugal). Ana Ramalho, Lisboa, Portugal

Abraçando e reabraçando a santidade do corpo e da mente Excelente o texto do teólogo alemão Wolfhart Pannenberg (“Capa”, julho/agosto de 2010). As igrejas não pregam mais sobre a união indissolúvel do casamento, de acordo com o ensino de Jesus. Certo pastor mencionou a emenda constitucional que facilita o divórcio como uma vitória! Minha denominação (Assembleia de Deus) é antiga e os nossos antepassados não eram assim. Onde vamos parar? Estão afrouxando mesmo. Ainda bem que há algumas exceções — tenho 48 anos e já comemorei as bodas de prata. José Duarte, Sorocaba, SP

Como resguardar a criança do sexo precoce, da pornografia e da homossexualidade se na televisão, em pleno dia, enquanto meu filho de 12 anos assiste a desenhos, aparecem nas propagandas mulheres fazendo gestos sensuais? Como, se a melhor amiga de minha filha conta para ela que gosta de meninas, e minha filha me conta isso como se fosse a coisa mais natural? Como, se um pai aprisiona a filha, abusa dela, vive com ela e a torna mãe de sete filhos-netos? Como, se, por ser órfã, você é levada para um orfanato e, ao receber a visita do tio, ele a leva para um lugar à parte, a aperta e tenta beijá-la à força (aconteceu comigo, mas, graças a Deus, não passou disso)? Como, se o pai ou a mãe resolve se separar do cônjuge por descobrir que gosta mesmo é de uma pessoa do mesmo sexo?

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Como, se meu filho de 17 anos é chamado de gay por ainda não ter namorada? J. S. (brasileira, casada, quatro filhos), Holanda

John Stott e o inferno Ao ler a edição de março/abril de 2010 encontrei uma afirmação de John Stott que me pareceu incompleta. Ele afirma que acredita no inferno, mas como ele acredita? Até onde sei, ele é aniquilacionista. Humberto Ramos, Cuiabá, MT — A resposta está no livro A Missão Cristã no Mundo Moderno, de John Stott: “Podemos, e penso que devemos, preservar certo agnosticismo reverente e humilde acerca da exata natureza do inferno, assim como da exata natureza do céu. Ambos estão além da nossa compreensão. Porém, devemos saber de forma evidente e clara que o inferno é uma realidade terrível e eterna. Não é dogmatismo ver certa inconveniência em falar a respeito da realidade do inferno; é volubilidade e frivolidade. Como podemos pensar no inferno sem lágrimas?” (p. 135).


De hoje em diante Parabéns pela seção “De hoje em diante”. O assunto é sempre interessante e é abordado de forma simples, o que nos leva a mudar de postura diante de situações cotidianas da vida. Vale a pena, de hoje em diante, não deixar de ler! Patrícia Victor, Rio de Janeiro, RJ

disso, talvez avultem as cartas com críticas (nem sempre justas), que podem passar a falsa ideia de que há uma rejeição, se não unânime (os omissos não são contados), pelo menos significativa. Eu, que apoio a linha editorial da revista e amo seus articulistas, tentarei não ser mais omisso. Ernesto Muzzi, Brasília, DF

Deus só fala inglês?

Prazer intelectual e espiritual

É verdade que Deus não está calado (“Capa”, março/abril de 2010). Mas será que ele só fala em inglês? Será que não há no Brasil quatro homens ou mulheres cristãos da estirpe do quarteto inglês (Stott, Wright, Lewis e Packer)? Sugiro uma matéria semelhante, mas com líderes nacionais. Seria uma radiografia do evangelicalismo brasileiro. Pedro da Silva, Fortaleza, CE — Algumas das vozes brasileiras escrevem há muitos anos na revista Ultimato: Alderi Matos, Rubem Amorese, Bráulia Ribeiro, Carlinhos Veiga, Ricardo Gondim, Ricardo Barbosa, Robinson Cavalcanti, Valdir Stuernagel. O leitor encontrará nesta edição outras vozes em Líderes evangélicos comentam artigo de Leonardo Boff (pág. 36).

Os riscos da omissão Geralmente começo a leitura de Ultimato pelas “Cartas”. Elas fornecem informações sobre a revista, os articulistas e as reflexões dos leitores sobre os assuntos abordados. Tento perceber o perfil geral do conteúdo da revista e da cultura média dos leitores. Não me sinto entre os que só enviam críticas, mas raramente escrevo com uma palavra de estímulo e gratidão por Ultimato estar cumprindo o dever de cativarme como assinante por tantos anos. Em razão

Tendo por propósito o crescimento espiritual do leitor, Ultimato prima pela excelência em todos os aspectos. Tornou-se, para mim, leitura obrigatória, que me proporciona prazer intelectual e alimento espiritual. Maria Antonieta da Silva, Rio de Janeiro, RJ

Inquisição protestante Sou assinante de Ultimato há muitos anos. Nasci na Igreja Metodista e tenho 75 anos. Acabei de chegar da Espanha, onde ouvi uma conferência sobre a Inquisição calvinista. Afirmaram que ela foi mais cruel que a Inquisição católica. Achei muitos artigos sobre o assunto na internet e, como nunca tinha ouvido nada a respeito, gostaria de saber um pouco mais. Umberto de Almeida, Campinas, SP — A chamada Inquisição calvinista ou Inquisição protestante é uma ficção que não tem fundamento histórico. Os pesquisadores sérios, sejam eles protestantes ou católicos, nada dizem a esse respeito. Certamente houve atos de intolerância de protestantes contra católicos durante o período da Reforma, geralmente de forma pontual, circunstancial, e não-sistemática. Nunca houve no âmbito protestante nada parecido com a Inquisição ou Santo Ofício, formalmente instituída pelo papa Gregório IX na década de 1230 para julgar

e condenar pessoas suspeitas de heresia, a começar dos cátaros e dos valdenses. Ao longo dos séculos, até sua extinção no século 19, a Inquisição perseguiu também um grande número de judeus, protestantes e pessoas acusadas de bruxaria. É irônico que a conferência aludida pelo leitor tenha sido proferida na Espanha, onde existiu a mais violenta sucursal da Inquisição, autorizada pelo papa Sisto IV em 1478 e liderada inicialmente pelo célebre inquisidor Tomás de Torquemada. Nos procedimentos inquisitoriais presumia-se a culpa dos acusados, não havia ampla oportunidade de defesa e as confissões podiam ser obtidas mediante tortura. Uma vez condenado à morte, o réu era entregue às autoridades civis para ser executado. Na cidade de Genebra pode ter havido o uso ocasional de procedimentos inquisitoriais, mas somente se conhece um caso de execução por motivo religioso, o de Miguel Serveto, que curiosamente havia sido condenado anteriormente pela Inquisição. Outros indivíduos executados na época o foram por crimes diversos contra o Estado, sem participação da igreja reformada. Resposta do historiador Alderi Souza de Matos

Amém

Tornei-me leitor da revista de forma inusitada. Certo dia, ouvi uma missionária falar durante uma oração que Deus me enviaria algo e que não era pra eu entender — apenas aceitar, pois certamente faria diferença em minha vida. Não sou convertido, porém, como vejo outros fazendo, eu disse “amém”! No dia seguinte, percebi que em minha mesa havia uma correspondência (sou responsável pela segurança em um presídio e uma de minhas atribuições é verificá-las) que tinha apenas o remetente. Abri e vi que era a revista Ultimato. Recebi-a como uma grande benção e me tornei

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C artas assinante. Ela é uma dádiva proveniente da graça do nosso Senhor e sua leitura está sendo como um estudo bíblico, uma orientação espiritual em direção a Deus. Fábio Lopes, Campo Grande, MS

Sugestões e mais sugestões

Cansei de mandar sugestões de reportagem, mas ninguém da revista dá atenção. Entretanto, segue mais uma: Paulo Roland lançou o livro Os Nazistas e o Ocultismo, acusando Hitler de ter feito um pacto com poderes sobrenaturais durante a juventude. Se não prestarem atenção desta vez, direi ao mundo que vocês não estão nem aí para os leitores... Túllio Carvalho, Belo Horizonte, MG — Muitas sugestões de leitores são boas, mas, se todas fossem aproveitadas, “nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para [as páginas a mais] que seriam escritas” (Jo 21.25).

Cartas da prisão

Nasci em lar evangélico e desde criança aprendi o que é certo e o que é errado. Éramos

oito irmãos. Uma de minhas irmãs foi morta a facadas pelo marido por causa de ciúmes. A certa altura da vida, me desviei do evangelho, pratiquei muitos crimes e tive muitas mulheres e filhos. Cumpro pena de 23 anos de cadeia na penitenciária de Álvaro de Carvalho. A edição de março/abril de 2010 publicou minha carta na qual escrevi que estava sozinho no mundo e adoraria receber cartas. Mesmo com o CEP errado, as cartas não param de chegar. Até meu pai voltou a me escrever! Moisés de Carvalho (Rodovia Mameli Barreto, Km 36 R3, Cela 319. CEP 17410-000, Álvaro de Carvalho, SP) Nasci em maio de 1976 e renasci em Cristo em abril de 2008 — 34 anos de vida e dois de cristão. Estou pagando por muitos erros que cometi quando estava no engano. Porém, o Senhor me resgatou e me libertou. Antes de minha conversão, estava tão cansado e oprimido que pensei em tirar minha vida. Então Deus me alcançou e arrancou de dentro de mim o rancor, o ódio e a depressão. Ajoelhei-me diante dele e chorei muito. Foi uma transformação incrível. O fardo que eu

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carregava desde os 15 anos, quando fui preso pela primeira vez, desapareceu. Abandonei a vida pregressa e fui atrás de Jesus. Foi um preso quem me falou de Cristo. Hoje estou na Penitenciária de Balbinos e prego a Palavra de Deus aos meus colegas. Quero que me enviem Ultimato, pois ela me ajuda a entender a Bíblia. Outras revistas e livros também são bem-vindos. Cristian Rocha (Penitenciária de Balbinos, Raio 6, Cela 8, Caixa Postal 01. CEP 16640-000, Balbinos, SP) Somos uma igreja interdenominacional que se reúne no Presídio Evaristo de Morais. Contamos com dez celas evangélicas, totalizando seiscentos membros. Temos uma minibiblioteca, onde exercitamos a leitura. Gostaríamos de solicitar mais Bíblias, revistas, livros e folhetos, para nosso uso e para evangelizar outros detentos. Pastor Rogério Caldeira (Congregação Evangélica Evaristo de Morais — Rua Bartolomeu de Gusmão, 1.100, São Cristóvão. CEP 20941-160, Rio de Janeiro, RJ)


O inimigo tirou tudo de mim: liberdade, caráter, família, sonhos e até a vontade de viver. Hoje, porém, sou lavado e liberto pelo poder do Espírito Santo. Jesus Cristo mudou minha vida e “a vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2.20). Já passei doze anos de minha vida cumprindo pena. Alex Sander da Silva (Penitenciária de Casa Branca, Raio 2, Cela 112, Caixa Postal 19. CEP 13700-970, Casa Branca, SP) Quando me casei, estava com 21 anos e tinha sonhos como qualquer outro jovem. Dois anos depois, me tornei motorista de caminhão. Trabalhei algum tempo sem habilitação, à noite, carregando cana. Ganhava bem e tinha uma vida estável com minha esposa e meu filho. Porém, comecei a me envolver com usuários de cocaína e me tornei dependente. O dinheiro já não era suficiente e fiquei cheio de dívidas. Caí no fundo do abismo e parti para o crime. Entrei numa padaria, dei voz de assalto e consegui 70 reais — o suficiente para acabar nas mãos da polícia. Depois de outras complicações, fui parar na penitenciária. Porém, graças a Deus, conheci alguns presos cristãos no mesmo raio em que eu estava e comecei a frequentar os cultos. Conheci o amor de Deus e converti-me. Devo ser solto em breve e quero voltar para o meu caminhão, minha esposa e meu filho, mas agora com um diferencial: estar na presença do Senhor. Tenho 26 anos. Luiz Fernando Germano, Guareí, SP

Edimburgo 2010

Participei do Congresso Edimburgo 2010 como representante da Fraternidade Teológica, celebrando 100 anos desde o famoso congresso missionário. Por ser um congresso ecumênico, não sabia bem o que esperar. Porém, fiquei

favoravelmente impressionada. A maioria é gente que crê em Jesus e nas Escrituras e que dá valor à obra missionária. E gente de toda a parte! Fizemos novas amizades e o mais gostoso era o louvor multicultural. Antonia Leonora van der Meer, Viçosa, MG

Maria e José

Os pontos de vista de Edilson Cunha (que supõe o papel soteriológico de Maria) e de Wigbert Weber (que nega a José o direito de ser pai e de ter uma vida conjugal plena), colocados na seção “Cartas” (julho/agosto de 2010), são, em minha opinião, efeitos de fenômenos psicológicos e sociológicos que se multiplicaram nas multidões e se solidificaram em indivíduos no decorrer da história da igreja. Busco explicar isso em minha monografia intitulada “Um Deus em quatro pessoas: a força popular do Marianismo”. Marcos Antonio Ferreira, Campos dos Goytacazes, RJ

Preconceito é crime

Existe preconceito religioso no país e preconceito é crime. Nosso país é laico, tem liberdade de expressão e de religião. Por isso, certos fatos me incomodam: até hoje não sei qual é a religião do goleiro Bruno ou de Suzane von Richthofen, mas digo com toda certeza: se fossem evangélicos, eu teria sabido na hora em que a notícia saiu na mídia. Por que só os transgressores que se dizem evangélicos têm sua religião publicada? Para macular o evangelho? Nunca vi notícias assim: “católico mata pai”; “espírita estupra e mata”; “macumbeiro rouba carro”; “ateu arromba loja”. Isso mostra a mente pequena de alguns jornalistas que, de certo modo, colocam os evangélicos como pessoas santas, já que não lhes permite o erro. Vamos lutar contra o preconceito religioso! Maria Aliete Paiva, Natal, RN

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onsumir-se na paixão pode ser rápido, mas reinventar o mundo a dois é uma tarefa de fôlego. Contardo Calligaris, psicanalista

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beleza da morte é que ela nos desnuda completamente. A morte obriga a pessoa a ser ela mesma, a se aceitar como é. Já vi muitos religiosos aflitos diante da morte porque a espiritualidade deles era pregada, mas não era vivida. Franklin Santana Santos, geriatra

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natureza é o templo de Deus. A motivação para cuidar dela é muito mais do que garantir a vida para as futuras gerações. É um ato de adoração. Rikk Watts, assembleiano, professor do Regent College, no Canadá

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Bíblia tem autoridade formativa e normativa em relação à Igreja. A Igreja elege o seu cânon, mas não o forma. A Bíblia é a Palavra de Deus e não a Palavra da Igreja. É por esta e outras razões que a Bíblia corrige as superstições e os erros da própria Igreja. Guilhermino Cunha, pastor da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro

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Arquivo pessoal

o lado de fora das igrejas tradicionais existe um contingente imenso de pessoas que, com a mesma intensidade com que busca a Deus, rejeita a incoerência, a hipocrisia e os desmandos das estruturas do poder eclesiástico. Ed René Kivitz, pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo

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Adriana Franciosi

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á muita gente que não sabe o que quer da vida porque não presta atenção ao que o Senhor Deus lhe diz. Vive a esmo, embora Deus lhe tenha dado uma direção. Israel Belo de Azevedo, pastor da Igreja Batista Itacuruçá, no Rio de Janeiro

omar sua cruz significa empenhar-se em vencer o pecado que obstaculiza o caminho em direção a Deus, acolher diariamente a vontade do Senhor, intensificar sua fé, especialmente diante dos problemas, das dificuldades, do sofrimento. Papa Bento XVI


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+ DO QUE NOTí C IAS

Labirintite evangélica A

longa reportagem de capa da revista Época intitulada “Os novos evangélicos” (9 de agosto de 2010) passa a impressão de que a igreja evangélica brasileira está com labirintite. Ela está tonta há algum tempo, quase caindo para os lados. Não está bêbada nem de álcool nem do Espírito Santo. A igreja está confusa, aturdida, sem saber com certeza o que abraçar e o que desabraçar, o que manter e o que descartar. A confusão aumenta porque os impacientes querem mudar tudo e os tímidos, nada. De uma coisa, não todos, mas alguns estão absolutamente certos — aquilo que nos últimos anos foi entrando pelas frestas da igreja precisa sair. A dificuldade é fazer o inventário das “raposinhas” que entraram na vinha do Senhor e fizeram os estragos que todos devem estar enxergando (Ct 2.15). Todavia, não podemos usar

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Setembro-Outubro, 2010

isso como desculpa, pois algumas dessas “raposinhas” são bem visíveis. Daí o subtítulo da matéria de capa da Época: “Um movimento de fiéis critica o consumismo, a corrupção e os dogmas das igrejas — e propõe uma nova reforma protestante”. Parece que o tumor está sendo espremido. Ricardo Agreste, presbiteriano, um dos entrevistados da Época, explica que “o grande problema dos evangélicos brasileiros não é de inteligência; é de ética e honestidade”. Ed René Kivitz, batista, outro entrevistado, diz que “as pessoas não querem dogmas, elas querem honestidade”. Pelo que se vê, as “raposinhas” não são tão pequenas quanto se pensa. Soberba, profanação, desonestidade, hipocrisia, ciúme, inveja, ambição (tanto pelo poder eclesiástico como pelo vil metal) — nunca foram raposas de pequeno porte! Com problemas de tontura, certo homem pro-

curou o médico e recebeu o diagnóstico de labirintite. Ele saiu do consultório com duas receitas. Na primeira, havia uma lista de remédios de uso contínuo. Na segunda, o médico escreveu: “Na crise: Vertix e Betaserc”. Sem dúvida, a igreja evangélica brasileira precisa de um remédio de uso contínuo para curar sua labirintite. Porém, enquanto a cura não ocorre, ela precisa de outros medicamentos para se livrar da horrível zonzeira do momento. Uma onda de humildade, de convicção do pecado, de arrependimento, de confissão, de conversão talvez seja de uso contínuo. O mesmo se pode dizer de outras providências. O que os evangélicos e outros cristãos podem fazer para aliviar a tontura presente? Há uma resposta nãosofisticada, não-acadêmica, não-complexa, não-duvidosa diante da igreja. Ela não está distante, não é difícil e não mexe com os dogmas

denominacionais nem pessoais. A resposta que se impõe vale-se da herança comum de todo aquele que professa o cristianismo, ou seja, evangélicos e católicos, tanto no Brasil como em outra cultura. Se a maioria dos protestantes brasileiros, históricos e pentecostais, e ainda os neopentecostais (chamados também de pseudopentecostais), se deixarem impressionar outra vez (ou pela primeira vez, caso não tenha havido a primeira) pela pessoa, pelo ensino, pela morte vicária, pela ressurreição, pela soberania e pela consumação da vitória de Jesus sobre tudo e sobre todos — a crise de tontura acabará. E os remédios de uso contínuo produzirão a cura da labirintite evangélica! O bispo anglicano Kenneth Cragg gosta de lembrar: “Onde estiver encoberta a beleza da cruz, ela deve ser desvendada”.


+ DO QUE NOTí CIAS

uper-homem, mas incapaz

O

“super-homem” inventado na Alemanha no início do século 20 é de fato formidável. Ele é capaz de gastar mais de um trilhão de dólares com operações militares e outro trilhão com o combate ao consumo e tráfico de drogas (os números dizem respeito a um só país). Esses dois trilhões de dólares (o equivalente a 3,6 trilhões de reais) foram gastos pelos Esta-

dos Unidos na “Guerra ao terror” (desde setembro de 2001) e na “Guerra às drogas” (desde 1970). E os dois problemas ainda não foram resolvidos. Nem serão. Porque por trás de tudo há um conjunto enorme e complexo de interesses escusos. A única esperança está na promessa de novos céus e nova terra — a revolução escatológica que transformará espadas em arados e lanças em foices (Is 2.4).

Mais uma estátua cai

N

a manhã de 25 de junho de 2010, os funcionários da prefeitura de Gori, na Geórgia, uma das repúblicas que faziam parte da antiga União Soviética, derrubaram, sem aviso prévio, uma das últimas estátuas de Joseph Stalin, localizada na principal praça da cidade onde ele nasceu, em 1879. A estátua de Stalin era quatro vezes e meia menor que a colossal estátua que Nabucodonosor mandou

construir na Babilônia na época do profeta Daniel, na primeira metade do século 6 antes de Cristo (27 metros de altura e 2,7 de largura). A lista de torres e estátuas abandonadas (como a torre de Babel) ou derrubadas depois de um efêmero período de glória é enorme. E faz pensar! A estátua de Stalin em Gori foi erguida um ano antes de sua morte, aos 74 anos, e ficou de pé por 58 anos.

O inventor do pós-cristianismo

A

qui está uma constatação, de um dos editoriais da Folha de São Paulo (22 de julho de 2010), que merece atenção: “A grande maioria dos ocidentais não chegou ao ponto de negar a existência de Deus — e dificilmente chegará —, mas relegou o sagrado a uma espécie de limbo”. Para enfrentar o desafio da crescente secularização, os cristãos inventaram a reevangelização (nome mais usado pelos missiólogos protestantes) ou a nova evangelização (nome mais usado no meio católico). Volta-se à estaca zero. É preciso falar outra vez sobre Jesus Cristo com aqueles que foram evangelizados primeiramente pelo apóstolo Paulo e seus companheiros, a partir da Ásia Menor, Grécia e Itália, nos primórdios do cristianismo. O continente europeu, centro de missões mundiais por muitos séculos, agora é o alvo de missões. Parece que a matéria da Folha de São Paulo foi menos alarmante que a carta que o papa enviou aos bispos de todo o

mundo em março de 2009. No documento, Bento 16 fala sobre o risco de desaparecimento de Deus no mundo. A secularização teria começado com o filósofo alemão Friedrich Nietzsche em meados do século 19. O francês Michel Onfray, autor de uma obra sobre Nietzsche, diz que ele é o “inventor do póscristianismo [por ter sido] o primeiro a propor um pensamento vivo e concreto para viver e agir em um mundo sem Deus”. Apesar de Nietzsche (1844-1900) e dos ateus radicais de hoje (Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris), que dizem que a religião é uma ilusão que precisa ser erradicada, não há muito a temer, porque a Igreja é de Jesus Cristo e nada pode prevalecer contra ela (Mt 16.18). Além do mais, qualquer movimento coletivo ou não, organizado ou não, tem sido e sempre será insignificante para derrubar a fé em Deus e a soberania dele sobre tudo e todos. O Salmo Segundo precisa ser lido mais vezes e com mais atenção! Setembro-Outubro, 2010

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N OTíCIAS

Dimitri Castrique

Por Lissânder Dias

Pesquisa revela luta de missionários contra pecados sexuais “Sinto-me derrotado na tentativa de viver uma vida sexualmente pura.” “Eu luto contra a pornografia, fantasia e/ou masturbação.” Estas são algumas das oitenta questões sobre pureza sexual apresentadas pelo pastor Paul Sinclair a 617 missionários evangélicos norteamericanos e canadenses, do sexo masculino, obreiros de cinco agências missionárias transculturais. A pesquisa revelou que mais de 35% dos entrevistados admitem ou tendem a admitir que sofrem derrotas na área de pureza sexual; 56% afirmaram que foram expostos a pornografia ainda crianças; 36% fazem uso de comportamentos sexuais impuros para aliviar o estresse. O questionário fez parte da tese de doutorado em ministério de Paul Sinclair pela Columbia Biblical Seminary and School of Missions da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Ele, que foi missionário em Mali, na África, durante nove anos, afirma que os pecados sexuais são um problema real entre os missionários que saíram de seus países de origem. “Muitos vivem uma vida sexual desconectada dos outros papéis que assumem em seus ministérios e famílias. Com isso, o pecado sexual se torna uma válvula de escape para sentimentos negativos como solidão e situações de forte estresse”. Para Sinclair, o caminho da restauração passa pela construção de uma intimidade verdadeira e integrada. Para isso, é preciso confiar na graça de Deus, ser honesto consigo mesmo, ter companheiros de cura e colocar em prática disciplinas espirituais como oração, leitura e meditação bíblicas, jejum, solitude e silêncio. 16

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Sociólogo desvenda início das Assembleias de Deus Com um olhar sociológico, mas, ao mesmo tempo, com a experiência de quem integra há décadas uma comunidade pentecostal, Gedeon Alencar, doutorando em ciências da religião pela PUC, lança o livro Assembleia de Deus — origem, implantação e militância (1911-1946), pela Arte Editorial. Comparando registros históricos e conceitos sociológicos, Alencar resgata os primórdios da maior denominação evangélica brasileira (32%, PUC/2003), com suas fortes ações evangelísticas, mas também com seus naturais conflitos de liderança, que moldaram o rosto atual da denominação. No capítulo 3, o livro trata da institucionalização da igreja, revelando o embate ocorrido entre a Assembleia de Deus norte-americana e a brasileira (de origem sueca). A Assembleia de Deus no Brasil teve início em Belém do Pará, no dia 11 de junho de 1911. Para comemorar os cem anos, a igreja planeja para 2011 uma série de eventos e projetos na cidade, entre eles um culto no estádio de futebol Mangueirão e a inauguração do Centro Histórico Nacional da Assembleia de Deus no Brasil.


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Jocum Brasil

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Jocum completa 50 anos e traz fundadores ao Brasil

Comitê de Evangelização abre diálogo global pela internet

A missão internacional e interdenominacional Jovens com uma Missão (Jocum) está completando 50 anos de existência. Com uma forte ênfase em evangelismo e treinamento missionário de jovens, a Jocum ficou conhecida por sua disposição em abrir frentes de trabalho ao redor do mundo. O trabalho começou em 1960 com o jovem casal norte-americano Loren e Darlene Cunningham, em um hotel desativado nos Alpes Suíços. Hoje, a missão está presente em mais de 175 países, com mil bases de trabalho e quase 17 mil obreiros em tempo integral. No Brasil, a Jocum começou em 1975 e conta com o segundo maior número de obreiros no mundo (1.300), conhecidos aqui como jocumeiros. Entre as áreas de atuação, estão evangelismo, saúde, educação, tradução da Bíblia e cuidado de crianças em situação de risco. O casal fundador da Jocum esteve no Brasil em agosto e participou das comemorações do Jubileu de Ouro em Curitiba, PR, e Recife, PE.

O Comitê Lausanne para Evangelização Mundial abriu um espaço na internet para diálogos sobre os principais desafios da missão cristã contemporânea. Todos podem participar. Chama-se Conversa Global Lausanne (CGL), e o site é www.conversation.lausanne.org. A ferramenta, com tecnologia semelhante à das redes socais, enfatiza reflexões sobre as questões atuais e o papel da Igreja no mundo. Já é possível iniciar conversas em, pelo menos, oito idiomas, inclusive o português. O diálogo global está sendo considerado um importante recurso para o 3º Congresso Lausanne sobre Evangelização Mundial Cape Town 2010 (Lausanne III), na África do Sul. Durante o congresso, vídeos de cada sessão serão divulgados dentro da CGL, permitindo que cristãos de todo o mundo comentem ou respondam, o que, consequentemente, irá influenciar o evento. O congresso, que será realizado em colaboração com a Aliança Evangélica Mundial, reunirá 4 mil líderes de mais de duzentos países, de 16 a 25 de outubro de 2010. Cerca de noventa brasileiros estarão presentes.


Nomes

N ÚMEROS

Jander Magalhães de Castro em Cuba (esquerda)

Arquivo pessoal

178 Estados têm relações diplomáticas

Jander Magalhães de Castro e o Projeto Cuba

E

m janeiro de 2005, sem falar espanhol e sem conhecer ninguém, um brasileiro de Ipanema, MG, desembarcou em Havana. No dia seguinte, pegou outro avião para Holguín, capital da província de mesmo nome, a 780 quilômetros do outro lado da ilha, onde ficou por treze dias. Em abril de 2010, ele voltou a Cuba pela oitava vez. Jander Magalhães de Castro, 47 anos, é casado e tem três filhos. Mora em Viçosa, MG, e não é empresário nem turista. Também não é missionário. Porém, tem ardor missionário e, por isso, tem favorecido o anúncio do evangelho na ilha descoberta por Cristóvão Colombo há mais de quinhentos anos (em 1492). Graças a essas viagens e aos muitos contatos no Brasil, Jander tem realizado um trabalho discreto e abençoado. O Projeto Cuba,¹ fundado por ele logo após a primeira viagem, reforça o salário de 350 pastores e obreiros cubanos, ajuda 62 idosos e apoia três ministérios de evangelização de crianças. Como se não bastasse, o projeto já comprou e doou cinquenta bicicletas e vinte cavalos para facilitar a locomoção dos obreiros nativos tanto na zona urbana como na zona rural. De vez em quando, provê recursos para construções de templos. Tudo com dinheiro brasileiro, doado

por igrejas e parceiros, principalmente das Assembleias de Deus. Jander, coordenador do Projeto Cuba, foi batizado aos 13 anos e ordenado ao ministério aos 21. Foi aluno da Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus (EETAD) por quatro anos e bacharelou-se em teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana, em Londrina, PR. A esposa, Eunice Teodoro de Almeida, secretária do Projeto Cuba, é também formada pela EETAD. Durante dez anos, Jander foi pastor auxiliar da Assembleia de Deus de Ipanema, MG, e, desde que se mudou para Viçosa, é coordenador e monitor do Núcleo Teológico nº 1122 da EETAD, pregador itinerante e palestrante na área de missões. Além disso, ajuda projetos semelhantes aos de Cuba em outros dois países (Paraguai e Guiné Bissau). O casal tem três filhos: o advogado Raphael Felipe, a farmacêutica Fernanda Gabriela e o estudante de medicina Gustavo Henrique. Jander Magalhães de Castro é um dos milhões de brasileiros que apoiam e desejam o fim do bloqueio econômico imposto a Cuba pelos Estados Unidos. Nota 1. Um dos ministérios da Visão de Evangelização Mundial (VEM-Brasil).

plenas com o Vaticano.

80 anos é a expectativa de vida dos

países desenvolvidos. Em alguns casos, a expectativa sobe para 85 anos.

470.000 pessoas acusadas de algum crime

estão atrás das grades no Brasil. Quase metade desse total são presos provisórios, muitos aguardando julgamento há anos.

650.000 judeus seguem a vertente mais

conservadora do judaísmo e rejeitam vários hábitos da vida moderna. Esses judeus ultraortodoxos representam 10% da população de Israel.

250.000.000 de nascimentos foram evitados na

China entre 1979 e 2000, graças à política chinesa do filho único.

1.200.000 pessoas são estupradas a cada ano

na África do Sul (um estupro a cada 30 segundos). O país é recordista em crimes sexuais, com 75,6 estupros por grupo de 100 mil habitantes.

4.000.000 de brasileiros têm uma relação

patológica com o jogo. São jogadores compulsivos que perdem quase tudo, mas não reconhecem o vício.

536.000

mulheres morrem a cada ano por causa de problemas relacionados à gravidez. Setembro-Outubro, 2010

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Capa

Coração, Juventude

e

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Setembro-Outubro, 2010

Quem são, o que pensam e o que fazem os jovens evangélicos


“Juventudes”

é um termo cunhado para expressar que as pessoas entre 15 e 24 anos (critério da ONU), ou entre 14 e 30 anos, faixa etária usada pelo Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE), apesar de fazerem parte do grupo “juventude”, não apresentam muitas características comuns a todos. Elas vivem realidades diferentes e se apresentam em subgrupos. O mesmo acontece com os evangélicos: as juventudes são muitas e diversas! No início do Ano Internacional da Juventude (agosto de 2010 a agosto de 2011) lançado pela ONU, e um ano depois do Ano das Juventudes na Ultimato, dedicamos a matéria de capa desta edição aos jovens. Os textos e as análises da pesquisa “Juventude Evangélica: crenças, valores, atitudes e sonhos” são da autoria de Daniela Cabral (25), Paula Mendes (28), Lucas Rolim (23) e Klênia Fassoni (49), exceto quando o nome do autor é mencionado.

Bios a a zon sítio n u até m u o estud ora em os e, 23C, âmndido, MGe, eos sete irmãão a g n a l v So l de Paula la, os pais e Deus e rabalha rura a série. E embleia d u a pé. T o v a oita ntam a Ass e charrete ração, no a d freque os cultos, d írculo de o de hinos es da c o todos cidade, no ministraçã os costum te na mo elismo e na ue fielmen ina. g evang Cristã. Se fazer medic Harpa Sonha em . igreja

dança

ante de Márcia, 22, é estud rra da Tijuca,

na Ba sse na UFRJ e mora . De família de cla no Rio de Janeiro Assembleia de Deus a ta média, frequen grafia. nistério de coreo e participa do mi , frequenta bailes na Nos fins de sema a igreja promove Su funks de Cristo. lto de domingo cu festas depois do os de luz, hinos à noite, com jog remixados e DJs.

Heide, 24, cursa engenharia civil na Universidade Federal de Viçosa. Mora em alojamento estudantil e parte de seu sustento vem da bolsa de atividades para alunos carentes. Participa das atividades da mocidade da sua igreja.

Marlene, 24, mora em

Riacho Fundo, região satélite de Brasília. Engravidou aos 19 anos e parou de estudar. Trabalha como doméstica, gosta de ajudar no louvor e dar aulas na escola dominical.

Bernardo, 17, mora

em Brasília e é candidato à universidade. Há quatro anos dirige uma célula de adolescentes da Comunidade Sara Nossa Terra e participa da equipe de louvor.

ado cas . o, é de S8 r g , ne nida stá o, 3n2a Comuneiro e eRENAS la s l i o RonongregaRio de J.aAtua nae na escando c l z a i o e a no gad loca rbal bols Mor empre igreja nas Ve r uma . des em, na s urba ganha a PUC Jov issõe ba de logia n de m to. Aca ar teo Cris estud a par

Moysés, 17, é negro e mora Franqueline, 29,

é assistente social e mora em Maceió, AL. Além do seu trabalho, é articuladora da Rede Fale em Alagoas e envolvida na igreja Batista onde congrega.

Lucas

presb , 28, it procu eriano, é rador interio federa e líde r de São P l no au r em ig local. reja lo

casado, tem um filho e mora no Rio de Janeiro. Formado em publicidade, é diretor executivo da Base, missão formada por nove casais jovens que auxiliam outras missões.

ni, é

casado com uco tempo e assumiu há po Indígena co bli Bí rio ná mi o Se ção ligada à Kaiwá, organiza Dourados, MS. Missão Kaiwá, em

France

Eude, 32, formada em ciências da religião e psicologia, é paraense, mas mora no Amapá. É muito envolvida com a igreja local e com missões.

M

Rodrigo, 32, é

Jaison, índumioaGumoaraça Kaiwá

numa república. Natural de Bom Jesus do Itabapoana, RJ, sonha com uma vaga no curso de direito em uma universidade federal. Violinista nato e sempre de bom humor, é membro ativo da Mocidade Presbiteriana de Viçosa.

em Flori lise, 28, mora a É enferm nópolis, SC. e num hos ira e trabalha pital infa ntil. Formada integral em missão pelo Cen tro Evangélic frequenta o de Missões, a ig reja Bati e é volun sta tá ONG cri ria numa stã que trabalha com des e comunitá nvolvimento rio.

ateus, 23, é formado em comunicação e saiu para morar em Alt de Belo Horizonte o com outros amigo Paraíso, GO, onde, s da Igreja Caverna e com a orientação de Adulão, evan geliza hippies.

Igreja a, enta a eu , frequ de Ananind 8 2 , y a a d d c i n li Le tã Evangé e mestra nia, Cris grônoma da Amazô a PA, é eral Rural á. Desde a ida d r da Fe lém do Pa uito envolv a em Be cência, é missionário e s adole trabalho m com o local. igreja

Setembro-Outubro, 2010

Eric (ou Peruca), 26, casado, de origem metodista wesleyana, nunca se desviou do evangelho. É um dos líderes da Missão Avalanche em Vitória, ES. É missionário biocupacional: trabalha como tatuador e evangeliza jovens underground.

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Capa

Um retrato da juventude evangélica atitudes crenças, valores, e sonhos m 1968, o então jornal Ultimato, noticiando o aniversário de 17 anos da Mocidade Para Cristo, divulgou alguns dados da entrevista feita pela revista Manchete com estudantes universitários para reforçar “o já conhecido declínio da religião entre os jovens: três em cinco universitários reconhecem que são menos religiosos que seus pais, 40% declaram pertencer à religião apenas por tradição e 69% deles julgam que a humanidade se afasta cada vez mais das ideias de Cristo”.

13-15

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anos 16-20

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O questionário foi preenchido por 1960 jovens entre 13 e 34 anos. Todos os estados foram representados, sendo que os de maior representatividade foram São Paulo (20%), Rio de Janeiro (19%) e Minas Gerais (13%). Os gráficos destas páginas descrevem o perfil desses jovens. Ao todo, 61% deles moram com os pais — quase a mesma porcentagem de jovens solteiros (68%). Dos motivos para a permanência na casa dos pais, 22% alegam não ter dinheiro para se sustentar sozinhos e 17% alegam ter um bom relacionamento com os pais e gostar da companhia deles. Entre os outros motivos alegados, alguns disseram não sair de casa porque ainda não casaram e alguns disseram que não podem sair porque apoiam a família financeira ou emocionalmente. Parece que eles estão cumprindo à risca a ordem: Deixará o homem a sua família...

34%

escolaridade

A pesquisa

Classe média (6-10 salários-mínimos) Classe média alta (11-20 salários-mínimos) 37% Classe média baixa 13% (3-5 salários-mínimos)

ação

históricas (apenas 19% são de igrejas pentecostais). Para exemplificar os contrastes entre essa amostra e a juventude em geral: entre os que responderam a pesquisa, a quantidade de jovens que estão cursando ou que já concluíram algum curso superior é de mais de 80% — uma taxa inversa a da população brasileira total. (veja o quadro Passando a perna nas estatísticas.) Com isso em mente, é possível obter muitas informações e conclusões interessantes e surpreendentes!

d e n o m in

Uma recente reportagem da revista Época (Jovens redescobrem a fé) cita dados da Fundação Getúlio Vargas para mostrar o atual fervor religioso dos jovens. Mais de 90% dos jovens brasileiros entre 20 e 24 anos declaram ter alguma crença. Em comparação com as outras faixas etárias pesquisadas, o número é o mais alto de todos. Dos jovens entre 20 e 24 anos, 14,16% se declararam evangélicos, 73,5% afirmaram que são católicos, 2,96% creem em outras religiões e 9,38% se definem como sem-religião. Os dados obtidos pelo Instituto alemão Berelsmann Stifung, a partir de pesquisa feita em 21 países, coloca o jovem brasileiro como o terceiro mais religioso do mundo, perdendo para os nigerianos e guatemaltecos. Entre os jovens brasileiros, 95% se dizem religiosos e 65% afirmam que são profundamente religiosos. Mas quem são, o que pensam e o que fazem esses jovens religiosos? E os jovens evangélicos? A pesquisa “Juventude Evangélica: crenças, valores, atitudes e sonhos”,* feita pela Editora Ultimato em julho de 2010, responde parcialmente a essas perguntas. Os resultados não podem ser generalizados. O que se tem é o retrato parcial de uma das juventudes evangélicas: jovens direta ou indiretamente ligados à editora. A esse viés se juntam a metodologia usada para a pesquisa (internet) e — derivado de sua ligação com Ultimato — o fato de se concentrarem nas igrejas

54%

9%

Setembro-Outubro, 2010

1% não resp ond eu

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Capa

Sobre ser jovem As respostas às perguntas sobre a melhor e a pior coisa em ser jovem têm forte ênfase no futuro, como era de se esperar. A maioria respondeu que a melhor coisa em ser jovem é ter um futuro cheio de diversas possibilidades (65%). Quanto à pior coisa, 35% concordam que é a preocupação com o futuro e 32% acham que é a insegurança ou medo de tomar decisões. Apenas 2% acham que é não ter emprego e 3% que é o controle dos pais. Entre as três atividades que mais ocupam os jovens nos fins de semana estão: ir à igreja (85%), navegar na internet (48%) e sair com os amigos (47%). As três atividades de um fim de semana ideal são: ir à igreja (91%), sair com os amigos (63%) e sair com o namorado (44%). As atividades de lazer estão mais restritas à televisão e à internet. A comparação entre o que é considerado ideal e o que eles de fato fizeram no último fim de semana

militância Grupo ou movimento jovem na igreja Movimento estudantil Trabalho comunitário Voluntário em ONG Movimento ambientalista Partido político

Philippe Ramakers

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Sobre militâncias O gráfico abaixo resume a participação dos jovens em diversas instâncias. A maior participação se dá em grupos e movimentos jovens vinculados a igrejas: cerca de 79% dos jovens participam, 14% não participam, mas gostariam de participar, e apenas 4% não gostariam de participar. A maior rejeição se dá com relação à

participação em partidos políticos: 72% dos jovens não participam e não gostariam de participar. Os dados sobre a participação em movimentos ambientalistas, voluntários em ONGs e em trabalhos comunitários colocam em evidência o potencial mobilizador das organizações sociais para tantos jovens com predisposição de serem voluntários. Estranha-se a porcentagem de 29% para os que não participam e não desejam participar de movimentos ambientalistas, já que esta é uma opção tão em voga atualmente. A participação (32%) somada à predisposição para participar em movimentos estudantis (28%) é um dado surpreendentemente alto. Segundo os jovens, os três principais problemas do Brasil são a distância de Deus (44%), a desigualdade social (13%) e a má administração pública (12%). Houve grande concentração em uma resposta religiosa, enquanto problemas mais estruturantes tiveram um índice relativamente baixo.

Sobre personalidades Participa Não, mas gostaria Não e não gostaria NR 79 32 25 23 9 4 20

Sem botox nem lipo

24

revela um pouco de suas ambiguidades. Nem todas as atividades consideradas ideais estão entre as atividades realizadas. As maiores discrepâncias são: apenas 9% acham que navegar na internet é uma atividade ideal, mas quase 40% fizeram isso no fim de semana; apenas 4% acham que assistir televisão é uma atividade ideal, mas 28% disseram ter feito isso no fim semana; e 44% disseram que sair com o/a namorado/a é uma atividade ideal, mas apenas 19% disseram ter feito isso no fim de semana.

28 49 57 57

14 4 3 37 3 20 6 16 4 29 4 72 4

%

2009 Editora Ultimato. Por meio f oi o Ano das Juventudes na

do oferecimento de assinaturas a 9 reais e 90 centavos, em menos de um ano quase 3 mil jovens se tornaram leitores da revista Ultimato. Hoje, são cerca de 2 mil assinantes com até 29 anos. A biografia de Simonton — Mochila nas Costas e Diário na Mão —, lançada no 150º aniversário de sua chegada ao Brasil, teve o título e linguagem definidos por jovens. A Arte e a Bíblia, de Francis Schaeffer, lançado em 2010, também tem o objetivo de se aproximar desse público. A editora apoiou vários eventos destinados às juventudes e a revista Ultimato ganhou a seção “Altos papos”, feita para jovens e por jovens. Muitos artigos escritos por jovens foram publicados no site e no blog da editora, além de ingressarmos em espaços bastante procurados pelos jovens, como twitter, orkut e youtube.

Os entrevistados foram solicitados a citar o nome de uma pessoa, conhecida do público geral, brasileira ou não, que eles admirassem. As respostas citam principalmente personalidades ligadas à política, esporte, artes e literatura.

A partir de agora, há um site dedicado aos jovens (www.ultimato. com.br/sites/jovem). Nele há espaço para compartilharem trabalhos artísticos e textos que produzem, como o do historiador recém-formado Flávio Amaral, de Natal, RN, abeuense, presbiteriano, que estudou o franciscanismo, e o das estudantes de comunicação Pabline Félix e Ana Cláudia, de Belo Horizonte, da Caverna de Adulão e da Batista Getsêmani, respectivamente, que fizeram um “álbum de família” com fotos e versículos bíblicos de cristãos de todos os “tipos”. Certa jovem, leitora de Ultimato há muitos anos por meio da assinatura dos pais, escreveu a propósito das ações voltadas para os jovens: “Que Ultimato continue rejuvenescendo naturalmente, sem botox nem lipo!”.


Apenas quatro pessoas foram lembradas por mais de oitenta jovens (equivalente a 5% dos entrevistados), o que mostra grande diversidade de opiniões. O nome mais citado foi o de Marina Silva, admirada por 140 pessoas. Kaká foi citado por 119, Lula por 114 e Nelson Mandela por 81 pessoas. Jesus foi lembrado por 58 e Bono Vox por 45. Martin Luther King Jr. foi citado por quarenta e Angelina Jolie, por 22. Foram lembrados também os nomes de Cristovam Buarque (19), José Alencar (18), Silvio Santos (17), C. S. Lewis (17), Obama (17), Luciano Huck (13), Steve Jobs, Madre Tereza e Ayrton Senna (12), Bernardinho (11) e Lutero (10). Dez pessoas disseram admirar o próprio pai. Ao todo foram citados 240 nomes. Entre as pessoas mais admiradas, conhecidas no meio evangélico, foram citados 340 nomes, e a dispersão de votos foi ainda maior, o que demonstra

mais uma vez a falta de unanimidade. O mais citado é Silas Malafaia (105), seguido por Ana Paula Valadão (75), Kaká (56), Ariovaldo Ramos (53), Jesus (45), Ed René Kivitz (45) e Caio Fábio (43). Algumas pessoas dizem admirar Ricardo Gondim (38), C. S. Lewis (29), Ronaldo Lidório (27), Fernanda Brum (27), Russel Shedd (25), Marina Silva (25), Billy Graham (24) e John Piper (23). Dez pessoas disseram admirar o próprio pastor.

Sobre a vida Entre os fatores considerados importantes para se melhorar de vida, os mais votados foram: ter a benção de Deus (96%), ter estudo (96%), trabalhar duro e ser dedicado (91%), falar bem (86%) e ter metas específicas (81%). Muitos concordam que é ser inteligente e talentoso (75%) e ter experiência (70%). Os resultados para as opções ter boa aparência (43%), ter

O que é preciso para melhorar de vida Nada Import.

A bênção de Deus Estudos Trabalho duro, dedicação Eloquência Metas específicas Inteligência e talento Experiência Boa aparência Parentes e amigos influentes Sorte

11 2 6 1 1 1

4 14 43

11 15 22 27

Pouco import. Muito import. NR

51 53 37

96 96 91 86 81 75 70 43 30 17

2 2 2 2 3 2 2 3 2 3

%

A chance de um brasileiro, entre os 20% mais pobres, de mãe com menos de 25 anos atingir o último ano do Ensino Superior é menor do que as chances de um brasileiro morrer por conta de um raio (1,3 em 10 mil e 1,9 pessoas em 10 mil, respectivamente).”

do Pasasapnerna nasstatísticas e

Ainda que não tão drásticos, os dados recentemente divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral de que um em cada cinco brasileiros (27 milhões) não foi à escola ou é analfabeto, e de que o país tem ainda mais eleitores analfabetos do que formados numa faculdade têm que nos chocar. Dos jovens que responderam à pesquisa “Juventude Evangélica”, realizada pela editora Ultimato, mais de 80% são universitários ou já concluíram seus cursos. Um retrato inverso ao da sociedade brasileira. No entanto, é tremendamente inspirador tomar conhecimento de resultados que passam a perna nas estatísticas. Contra todas as probabilidades, coisas incríveis podem acontecer. Este é o caso do Programa de Educação

amigos e parentes influentes (30%) ou sorte (17%) para melhorar de vida chamam atenção. Ainda que não sejam a maioria, esses dados apontam respostas pouco vinculadas à ética protestante. Seria uma influência do senso comum brasileiro? Em relação às coisas importantes para a vida pessoal, ter fé (94%), ser honesto (89%), ser amigo e leal (87%) e ter uma boa relação familiar (86%) foram as mais votadas. Ser trabalhador e responsável (77%), viver numa sociedade mais justa (59%), ter um trabalho que traga realização (58%) e ser estudioso (58%) também são coisas importantes. Alguns concordam que é sentir-se útil para a sociedade (49%), aproveitar a vida (39%) e ter um diploma (32%). Poucos acham que é muito importante ter uma ideologia (18%), ter um corpo bonito e saudável (9%) e ter muito dinheiro (4%). Menos de 1% dos jovens acha que ser uma pessoa famosa é algo importante. Porém, para a resposta “ter um corpo bonito e saudável”, quando se soma o que é considerado muito importante ao que é considerado importante, a análise é outra: a concordância sobe para 63%. Tal porcentagem confirma a exigência dos processos seletivos atuais e mostra que a aparência física tem

em Células Cooperativas (www.prece.ufc. br), em Fortaleza, CE, que organizou Escolas Populares Cooperativas (EPC’s) em oito municípios cearenses. Em 16 anos de atuação, 412 estudantes já puderam ingressar no ensino superior através desse programa, a maioria deles na Universidade Federal do Ceará. Mais de sessenta já estão graduados, incluindo os doze que cursam mestrado ou doutorado. Nas EPC’s, os estudantes se organizam em células de aprendizagem, se ajudam para ingressarem no ensino superior e, após o ingresso, retornam para as comunidades de origem para ajudarem outros a fazerem o mesmo e para promoverem desenvolvimento local. Que os jovens com curso superior sejam gratos por este privilégio. Que não se intimidem com estatísticas e probabilidades e sejam promotores de justiça e misericórdia com os menos privilegiados. Setembro-Outubro, 2010

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sido considerada pelos jovens como um critério levado em conta nos processos de recrutamento de pessoal. A revista Superinteressante (janeiro de 2010) traz na reportagem A arte de se vender um desastroso conselho: “Largue os livros e vá agora mesmo para a academia de ginástica: pode ser bom para a sua carreira”. Para endossar, cita dados de pesquisas: cada ano de estudo aumenta em 15% o salário de um profissional, mas pessoas consideradas bonitas ganham, em média, 18% a mais do que as feias. E ainda: segundo um estudo da Universidade de Flórida, cada centímetro a mais de altura rende 600 reais de salário adicional por ano.

Sobre os medos A maioria dos jovens (83%) diz se sentir feliz a maior parte do tempo. Cerca de 44% sofrem continuamente com a ansiedade, 22% sofrem continuamente com a instabilidade emocional, 5% sofrem com depressão e 5% com alguma fobia. Apenas 27% dos jovens dizem não ter medo de nada. Entre os 69% que assumem ter medo de algo, o medo de fracassar, de não conseguir alcançar as metas estabelecidas, de decepcionar as pessoas, de não ser bem-sucedido, de fazer escolhas erradas e falhar na vida é percebido em cerca de 270 respostas. Medos relacionados com não ouvir a voz de Deus, não obedecer, sair dos

caminhos de Deus, decepcionar Deus, aparecem em cerca de 180 respostas. Cerca de 115 pessoas mencionam o medo de perder alguém querido, cerca de 109 pessoas têm medo de ficar sozinhas, cerca de 92 pessoas têm medo da violência (incluindo estupro, assalto e sequestro) e cerca de 84 pessoas têm medos relacionados ao futuro. Cerca de 76 pessoas citam o medo de ficar velho, doente, pobre, inválido ou desempregado. O medo da morte aparece em cerca de 39 respostas. Medos relacionados com a família (não casar, ter um mau casamento, se divorciar, criar filhos etc.) aparecem em 32 respostas. Algumas pessoas citaram medos físicos: trinta pessoas dizem ter medo de insetos e 26 dizem ter medo de altura e lugares fechados. A pesquisa incluiu também uma pergunta sobre sonhos. (Veja a seção “Altos papos”, pág. 32-33.)

Sobre a conversão Quanto ao perfil religioso dos pais, 61% dos jovens têm pai evangélico e 81% têm mãe evangélica. 19% têm pai católico e 11% têm mãe católica. Menos de 2% têm pais espíritas ou de religiões afrobrasileiras. Sobre os fatores que influenciaram muito a conversão dos jovens, os mais citados são uma formação familiar cristã (48%), a leitura da Bíblia (47%),

Mães de joelhos, or mais que os filhos cresçam, filhos P para as mães eles serão sempre em pé!

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da MP

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1968

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“seus filhos”. Por isso, ninguém ora por eles como a mãe. Muitos jovens evangélicos brasileiros não imaginam que há um batalhão de pais e mães espalhados em todos os estados do Brasil e em muitos países orando por eles de forma específica. Como fruto do trabalho da Mocidade para Cristo, o movimento Desperta Débora (www. despertadeboras.com.br) começou em 1995 com a visão de levantar uma geração de jovens comprometidos em levar o evangelho de Jesus aos quatro cantos da terra. Todos os dias, mais de 70 mil mães e pais investem pelo menos

conversas e convívio com amigos, conhecidos ou familiares (42%), nascer num lar evangélico (41%) e a pregação (40%). Alguns citam acampamentos (37%), ministérios voltados para a juventude (34%) e alguma expressão artística (25%). Poucos consideram como fator de influência para a sua conversão o contato com pessoa até então desconhecida (12%) e algum material evangelístico impresso ou programas de televisão ou rádio (9%). Quando a estes são adicionados os percentuais dos jovens que responderam sobre os fatores que influenciaram a sua conversão, a leitura da Bíblia sobe para 81%, a pregação para 71% e a conversa com amigos e familiares para 70%. Ministérios voltados para juventude, opção que estava em 7º lugar (com 34%), sobe para 4º lugar (com 60%).

Sobre a igreja Dos jovens entrevistados, 60% são provenientes de igrejas tradicionais e 19% de igrejas pentecostais. Cerca de 21% são de outras linhas. Caso não fossem de igrejas pentecostais nem tradicionais, os jovens poderiam descrever como é sua igreja. É nítida a tentativa de mesclar tradicional com pentecostal e pelo menos 52 expressões usadas denotam tal esforço. Eis alguns exemplos: Tradicional com toque pentecostal /Acredita nos dons e no

15 minutos do seu tempo em oração pelos filhos — naturais e espirituais. Ao longo dos anos, o movimento tem se expandido e hoje está presente em presídios, escolas, associações de bairro etc. E ele conta ainda com o Disque-mãe: voluntárias dispostas a oferecer, a qualquer hora, apoio, ânimo, encorajamento, companheirismo e aconselhamento para jovens. O Desperta Débora não é o único — há outros grandes círculos de oração pelos filhos. Em Recife existe um movimento com características opostas: filhos que oram pelos pais. Porque há um grande número de jovens convertidos cujos pais não são crentes, eles oram por sua conversão.


estudo da palavra / Busca o equilíbrio entre a tradição e o avivamento / Doutrinariamente tradicional, renovada nas práticas religiosas / Evangélica, carismática e histórica / Meio a meio / Nem apegada a tradição nem pegando fogo / Neo-ortodoxa de pentecostalismo tradicional / Calvinistas que têm vários dons do Espírito Santo / Um pouco de tudo, vive missão integral. Dois jovens desabafaram: “Essa divisão é um pouco simplista, não?” e “Não suporto essas definições, não têm sentido”. Quando perguntados se já mudaram de denominação, cerca de 64% responderam que nunca mudaram, 23% que mudaram uma vez e 4% que mudaram três vezes ou mais. É um número considerável, ainda que, entre os que já mudaram, cerca de 21% o fizeram por questões geográficas (mudança de bairro, de cidade, de país) — o que nada tem a ver com a insatisfação com a igreja. Entre os outros motivos, 21% mudaram porque a denominação não correspondia às necessidades espirituais, cerca de 20% porque discordavam das questões doutrinárias, 17% por falta de coerência entre o que a igreja/denominação pregava e as atitudes das pessoas, 16% por influência de familiares e amigos, 10% porque a denominação não correspondia às expectativas sociais, emocionais ou relacionais, 7% porque não se sentiam acolhidas, e 4% porque não concordavam com a forma dos cultos (liturgia). A despeito disso, os jovens parecem satisfeitos com a igreja na qual congregam: 73% acham que os pastores têm uma vida coerente, 73% acham que as pregações são ricas em conteúdo bíblico, 71% acham que as pregações são cristocêntricas, 65% acham que as pregações são relevantes e pertinentes ao contexto do mundo atual e da comunidade local, 64% acham que a linguagem é acessível aos jovens, 60% acham que as pregações são voltadas às necessidades espirituais e 51% acham que os visitantes são bem recebidos. Metade (50%) acha que a igreja se envolve com missões transculturais, 48% acham que a igreja se envolve

socialmente com a comunidade em que está inserida, 47% acham que a liturgia/ordem do culto é aberta/flexível à participação de todos, 46% acham que a igreja se preocupa com a saúde emocional dos participantes, 43% acham que a igreja se envolve com ações de misericórdia e na busca por justiça e 42% acham que os membros acolhem uns aos outros. As piores avaliações estão em sua maioria relacionadas à missão da igreja com os de fora. Um dado importante! Os jovens foram perguntados sobre suas funções na igreja. Era possível marcar mais de uma opção e constatou-se que vários exercem funções simultâneas. Dos 1960 jovens que responderam à pesquisa, 873 estão envolvidos com a área de música (louvor, coral, conjunto ou instrumentista), cerca de 611 são líderes de grupo de jovens, adolescentes ou casais e cerca de 578 são professores na escola dominical. Cerca de 233 são líderes de célula ou grupo nos lares, cerca de 159 são líderes ou membros de conselho missionário e cerca de 148 são líderes ou membros de conselho de ação social. Chama atenção o alto número de jovens líderes e formadores de opinião.

Sobre crenças Constatou-se que 97% dos jovens acreditam no Deus trino (menos de 1% não acredita ou não soube responder), 91% acreditam em Jesus 100% Deus e 100% homem (2% não acredita e 4% não soube responder), 95% acreditam no nascimento virginal de Jesus (1% não acredita e 1% não soube responder), 97% acreditam na atuação do Espírito Santo (menos de 1% não acredita ou não soube responder), 96% acreditam na Bíblia como regra de fé e prática (1% não acredita e 1% não soube responder), 94% acreditam na existência do Diabo e dos demônios (2% não acreditam e 1% não soube responder), 96% acreditam em curas milagrosas (3% não sabem e 2% não acreditam). Até aqui, o grau de concordância supera os 90% e o nível de descrença é menor do que 3%. Constatou-se ainda que 90% acreditam na imortalidade da alma

(4% não sabem e 3% não acreditam), 84% acreditam na ressurreição do corpo (6% não acreditam e 6% não sabem responder). A soma dos dados não é desprezível e confirma a tese de N.T. Wright de que a resposta cristã clássica à questão da mortalidade e do além é mais desconhecida do que rejeitada. Constatou-se ainda que 84% acreditam na atualidade de todos os dons do Espírito Santo (7% não sabem e 6% não acreditam). Esses resultados revelam jovens com convicções firmes e conservadoras do ponto de vista da doutrina. E eles têm também convicções bem ortodoxas com relação ao sincretismo religioso. Ao serem perguntados sobre a influência que outras crenças têm em sua vida (energias, aura e astral, duendes e gnomos, encarnação/vidas passadas, astrologia, espiritismo, contato com os mortos, parapsicologia e ocultismo), menos de 1% dos jovens respondeu que tais crenças têm influência em sua vida. A exceção é a astrologia, que parece influenciar 3% dos jovens.

Sobre disciplinas espirituais Os jovens foram solicitados a indicar a frequência com que praticam certas disciplinas espirituais. Surpreende o fato de que o número dos que fazem suas orações a sós, sempre e quase sempre (62%), seja menor do que o número dos que contribuem financeiramente, sempre e quase sempre (69%). O nível de leitura da Bíblia (sempre: 28%, quase sempre: 34%) não está satisfatório, ainda mais quando 8% responderam não lê-la nunca ou quase nunca. Parece que, pelo menos nesse caso, o vaticínio “como nossos pais” infelizmente não se cumpre... As disciplinas mais frequentes são: orar antes das refeições (81%) e fazer orações intercessórias (76%). A frequência à escola dominical pode ser considerada alta (62%) quando se ouve que muitas igrejas têm sofrido com a pequena frequência e outras têm até extinguindo tal programação. A evangelização de parentes e amigos é a disciplina devocional colocada entre as últimas (os que a praticam sempre e quase sempre somam 39%). Setembro-Outubro, 2010

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Foi pedido que os jovens marcassem o nível de concordância com algumas afirmativas relacionadas à sexualidade e, em seguida, respondessem sobre sua conduta pessoal. Entre os que responderam, 86% concordam que a conduta cristã não apoia o sexo antes do casamento, 76% dos jovens dizem estar pessoalmente comprometidos com essa conduta e 8% não se comprometem. Quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, 94% concordam que a conduta cristã não apoia tal comportamento, 90% dizem estar comprometidos com a conduta e 3% não se comprometem. Quanto à afirmação de que a conduta cristã ensina o não envolvimento com a pornografia, 94% concordam. Com relação à conduta pessoal, a porcentagem cai mais do que nas outras questões: 75% dizem estar comprometidos e 10% não se comprometem. Com relação à prostituição e ao adultério, 96% concordam que a conduta cristã reprova essas práticas, 81% dizem estar comprometidos com essa conduta e 2% não se comprometem. Com relação ao casamento entre pessoas da mesma fé, 85% concordam que a conduta cristã recomenda isso (porcentagem surpreendentemente alta, praticamente igual à afirmativa de que a conduta

Marcadojuventude na e pela juventude

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arlos René Padilla, 78, conta que no ensino médio sua fé cristã foi pela primeira vez colocada à prova por professores ateus e marxistas, que perguntavam: “O que vocês, cristãos, propõem a fim de eliminar a injustiça? Seu Deus se preocupa com as vítimas da injustiça?”. René não tinha como desconsiderar a relevância destas perguntas tanto por sua história familiar, de luta pela sobrevivência, como pela de seu país. Depois de ter estudado filosofia e teologia nos Estados Unidos e de ter-se casado aos 31 anos, em 1963, assumiu o trabalho com a Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos 28

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cristã não aprova o sexo antes do casamento) e 77% disseram estar comprometidos com esta conduta. Esses dados mostram uma juventude conservadora, com valores muito diferentes da juventude em geral. Basta citar a recente reportagem da revista Veja (A geração tolerância), segundo a qual hoje 60% dos brasileiros declaram achar a homossexualidade natural. Também apontam para uma direção diferente de algumas pesquisas feitas entre evangélicos, como a que foi feita com jovens de 22 diferentes denominações, frequentadores regulares de igreja, a maioria solteira. De acordo com ela, 52% deles já haviam feito sexo. Destes, cerca da metade mantinha uma vida sexual ativa com um ou mais parceiros. A idade média com que perderam a virgindade era de 14 anos para os rapazes e 16 para as moças.

Sobre o aborto Quando perguntados sobre os motivos que justificam um aborto, 46% disseram que nada justifica — porcentagem bem mais alta do que a média nacional (segundo pesquisa do Ibope sobre o aborto, realizada em 2003, apenas 31% da população acha que ele deveria ser proibido em qualquer caso). Cerca de 40% acham

(CIEE) na América Latina. Agora, eram os estudantes cristãos que lhe faziam perguntas. Entrevistado pelo Conselho Editorial Jovem de Ultimato, em outubro de 2009 (entrevista disponível em www. videolog.uol.com.br/video?496511), René conta que o nascimento da missão integral na América Latina se deu aí. Juntamente com os jovens amigos Samuel Escobar e Pedro Arana, começou um processo de reflexão que os levou à certeza de que Deus se interessa pela totalidade da vida humana e da pessoa em comunidade. René Padilla acha que os jovens estão na posição privilegiada de construir coisas novas sobre o que é positivo da

que o aborto é justificável quando a vida da mãe corre perigo, 12% acham que é justificável quando o bebê pode nascer com defeito ou doença, 2% acham que a falta de condições financeiras justifica um aborto e 1% acha que qualquer motivo justifica um aborto. Cerca de 11% não quiseram ou não souberam responder. O aborto em caso de estupro, já previsto na lei brasileira como algo legal, não estava entre as opções.

Sobre bebidas e drogas Sobre o consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens, 32% bebem esporadicamente, 27% apenas experimentaram, 19% nunca experimentaram, 14% não bebem mais e 5% bebem nos fins de semana. Sobre o cigarro, 69% nunca fumaram, 21% apenas experimentaram, 6% não fumam mais e menos de 1% fuma todos os dias, esporadicamente ou nos fins de semana. Quanto ao uso de remédios de tarja preta sem prescrição médica, 90% dizem nunca ter experimentado, 3% apenas experimentaram, 3% não usam mais e menos de 1% usa esporadicamente ou todos os dias. Quanto ao uso de drogas ilícitas, 88% dos jovens nunca experimentaram,

Arquivo pessoal

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Sobre a conduta pessoal

René e Catharine Padilla

geração anterior e que cabe a eles “o papel de conscientizar o povo de Deus sobre os problemas que afetam a humanidade, não somente a igreja”. E conclui: “Tenho muita esperança na nova geração”.


6% apenas experimentaram, 3% não usam mais e menos de 1% usa esporadicamente ou nos fins de semana.

Sobre o futuro Igrejas, ministérios, organizações e denominações têm se voltado para a juventude evangélica. A necessidade de uma linguagem específica para este público, a renovação das lideranças, o potencial conflito entre gerações, o desejo de resguardar os jovens dos apelos mundanos são alguns dos motivos para tal olhar. Como ficou evidente nos resultados da pesquisa, os jovens vêm de fato ocupando espaços importantes como promotores do reino de Deus. Muitos se sentem chamados e desejosos de servir a Deus em ministérios específicos, em missões e em suas profissões. Outros, talvez mais convencidos do que a geração anterior sobre as consequências do mandato cultural, sentem-se vocacionados a servir a Deus na arte, política, ciências sociais, música, literatura etc. Estes precisam de oração, “envio” e acompanhamento tanto quanto aqueles. Alguns jovens naturalmente desejam introduzir novidades na Igreja: na forma de se relacionarem, nas noções de autoridade e hierarquia, na liturgia etc. Eles precisam ser escutados e, algumas vezes, confrontados. Os jovens que estão titubeantes na fé devem ser, primordialmente, acolhidos. Eles precisam de espaço para questionar sem ser rechaçados, buscando assim respostas em campo seguro. Os que vivenciam conflitos por causa de sua conduta moral precisam de abertura para conversas francas. Os que buscam a igreja principalmente como espaço de apoio emocional precisam ser desafiados a uma fé mais profunda. Em todos os casos, a Igreja precisa fazer questão de estar com os jovens. E os jovens precisam fazer questão de estar com a Igreja, com toda a sua diversidade. Jesus planejou uma Igreja intergeracional, em que velhos, adultos, jovens e crianças compartilhem entre si suas experiências únicas e adorem a Deus juntos com a humanidade e a

grandeza próprias de cada fase da vida. O tempo não para; os jovens, sempre os teremos conosco. Cada geração levantará questões à geração seguinte. A respeito dos jovens e adolescentes de hoje, poderíamos perguntar: Serão profundos conhecedores da Palavra de Deus? Serão corajosos o suficiente para assumir uma fé exclusiva, num ambiente cada vez mais plural? Deixarão que as marcas de uma sociedade que se guia pelo mercado pautem as suas prioridades e suas agendas? Conseguirão não se deixar levar pela força de um evangelho adocicado, que faz bem apenas às emoções? Anunciarão o evangelho? Serão melhores promotores da justiça do reino? Estarão dispostos a sofrer por Cristo? Serão menos sectários? Caminharão um pouco mais na direção da unidade da igreja? Permanecerão firmes na moral cristã? Não se divorciarão — ou se divorciarão menos do que seus pais? Criarão seus filhos e suas filhas no caminho do Senhor? O que farão com a história das gerações que os precederam? Essas perguntas podem contribuir para a pauta a ser elaborada pelas igrejas e ministérios com e para os jovens. Abrir-se para os jovens é abrir-se para o novo. E mesmo que o novo pareça ameaçador, ele é fonte de rejuvenescimento para a Igreja. Nota * A pesquisa foi enviada em 22 de julho de 2010 por e-mail a assinantes de Ultimato de até 34 anos e a outros assinantes, convidando-os a encaminharem aos parentes e amigos jovens da igreja em que congregam, e a líderes de ministérios jovens. Não era preciso se identificar e nenhuma questão era obrigatória. A pesquisa foi encerrada em 29 de julho de 2010.

NA INTERNET No site www.ultimato.com.br/ sites/jovem você encontra outros artigos e análises comparativas da pesquisa “Juventude Evangélica: crenças, valores, atitudes e sonhos”.

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De gerações e emblemas Reinaldo Percinoto Jr.

o participar de uma mesa redonda sobre juventude e participação política, fizeram-me a seguinte pergunta: a juventude atual é alienada, descomprometida ou mal informada? Responder de maneira simplista ou automática pode nos levar a um reducionismo. Precisamos ter em mente aquilo que é “emblemático”, de acordo com a orientação do antropólogo Gilberto Velho, pois o que caracteriza um grupo, aquilo que é seu “emblema”, nem sempre é compartilhado pelo conjunto. Velho argumenta que talvez nem 10% dos jovens dos anos 60 tenham participado do movimento estudantil, assim como nem todo adolescente urbano de hoje frequenta raves ou consome ecstasy. A socióloga Maria Isabel Mendes de Almeida, que publicou um estudo em que compara a época da contracultura dos anos 60 e a de hoje, diz que o roteiro do jovem de agora está “bem distante de questionamentos políticos ou culturais. Não quer a ruptura, o pai dele já fez isso; quer a continuidade”. O jornalista e escritor Zuenir Ventura afirma que aquela geração, marcada pelo ano de 1968, “queria tudo a que não tinha direito; a atual tem tudo que precisa, e por isso se apresenta cheia de ambiguidades e paradoxos. [...] Desapegada ideologicamente, essa turma bem 30

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de vida e de poder aquisitivo não se interessa pela política, não tem preocupações sociais e não protesta nem contesta, pelo menos não da forma como faziam os seus antepassados quarentões ou sessentões, anárquicos ou rebeldes”.¹ Em 2007, no jornal O Globo, em caderno especial (e esclarecedor) sobre os jovens nascidos a partir de 1983, a editora Nívia Carvalho explicou que essa é uma turma que “vive conectada e gosta de dar publicidade aos seus atos em redes sociais, fotologs e álbuns na web. São jovens que elegem o bemestar como valor maior e buscam dinheiro e fama”. Até que ponto a juventude cristã está sendo influenciada e conformada por essa mesma cosmovisão? Nossas igrejas e movimentos de juventude têm oferecido um modelo opcional ao que é “emblemático” nessa geração? Ao tomar como marco para os próximos 10 anos da ABUB a tríade “Uma só vida, uma só verdade, um só Senhor”, queremos propor uma agenda de intenções; algo que queremos primeiramente viver, para depois compartilhar com nossa geração. Temos a responsabilidade (e o privilégio!) de expressar, com nossas palavras e nossa vida, uma nova realidade que já se faz presente entre nós, por meio da vida e da obra de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. Conscientes de que nosso comprometimento

com a singularidade, a supremacia e a suficiência “de um sujeito mortalmente pregado à cruz e inteiramente despregado das prioridades usuais deste mundo é para o observador isento escândalo, insensatez e vergonha”.² Insensatez, para uma geração ávida pela prosperidade material, porque esse Jesus sustenta que “a vida é sólida e a ganância é rala, e logo não faz sentido adquirirmos o mundo inteiro e ver a vida escorrer, sem consistência, na peneira final”. Uma só vida tem algo a ensinar a esta geração? Escândalo, para uma geração ávida pelo êxito e dependente da competição, porque esse Jesus, por meio da sua doutrina e da sua vida (e morte!), ensina que “o sucesso se obtém no mais inequívoco fracasso e a grandeza na mais abjeta humilhação”. Uma só verdade tem algo a apresentar a esta geração? Vergonha, para uma geração ávida pela satisfação pessoal e pela permissividade, porque Jesus exige humilde submissão, e para participar desta nova realidade a pessoa “tem de pagar o mico de reconhecer-se não melhor que ninguém”. Um só Senhor tem algo a esperar desta geração? Notas 1. Zuenir Ventura. 1968: o que fizemos de nós. São Paulo: Planeta do Brasil, 2008. 2. Paulo Brabo. A bacia das almas: confissões de um ex-dependente de igreja. São Paulo: Mundo Cristão, 2009.

Reinaldo Percinoto Jr., casado com Maria e pai de João Marcos e Daniel, é secretário-geral da ABUB.


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Para não virar a cabeça o que parece, o alerta de nossos avós sobre os perigos de ingressar na faculdade não eram tão ingênuos assim. “Cuidado, meu filho, pra não virar a cabeça” — diziam eles. Recentemente, o Barna Group, organização americana especializada em pesquisas, constatou que apenas 20% dos estudantes que foram discipulados durante a adolescência permaneceram espiritualmente ativos quando chegaram aos 29 anos. Certo missionário, ao relatar sua experiência com a igreja na Inglaterra, descreveu a congregação como um “campo de algodão”, referindo-se à quantidade de cabeças brancas presentes — lá, a igreja já é majoritariamente frequentada pela terceira idade. Embora a estatística seja americana e a tão falada “era pós-cristã” pareça estar longe de um Brasil avivado e missionário, podemos encarar os dados como um alerta. Afinal, não seria a primeira vez que uma tendência surgida além-mar respingaria por aqui. Só que em vez de deixar que a possibilidade de sermos influenciados sirva de combustível para um patriotismo desmedido, podemos encarar o fato como algo positivo: é possível observar as tendências e tomar precauções. Em um artigo para a revista Mission Frontiers, Chuck Edwards e John Stonestreet, do Summit Ministeries, organização que lida especialmente com jovens universitários e suas crises, apontam algumas razões para o afastamento dos jovens: o aumento de professores liberais (que passam sua aversão ao cristianismo para os alunos, que se tornam “presas da retórica anticristã”), a ausência de fundamentação adequada (muitos estudantes se dizem cristãos, mas são incapazes de explicar por que acreditam no que acreditam) e uma visão errada do cristianismo (enquanto uns se opõem a ele, outros simplesmente não o entendem). 32

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Mas como ajudá-los? Stonestreet faz um alerta: em vez de tentar fazer com que o cristianismo pareça atraente e divertido para os jovens, devemos nos preocupar em garantir que isso que estamos transmitindo seja de fato cristianismo. Devemos desafiálos em vez de mimá-los — os estudantes não precisam de mais entretenimento. O ipod, a internet e os amigos já são suficientes. “Nunca os prepararemos efetivamente para encarar essa cultura movida a entretenimento se simplesmente a substituirmos por entretenimento cristão.” Os estudantes precisam ser desafiados com perguntas difíceis e dilemas culturais. Devemos oferecer a eles uma educação completa sobre apologética e visão de mundo. “Os estudantes cristãos frequentemente têm a impressão de que somos salvos de, e não para.” Muitos conhecem a Bíblia, mas não pensam biblicamente. Eles precisam saber no que creem e também no que os outros creem. Devemos mostrar não somente a que nos opomos, mas também o que defendemos. Muitos estudantes são vítimas de escolhas imorais porque lhes falta uma visão maior de suas vidas. Muitos sabem mais sobre o que é proibido do que sobre o propósito para o qual Deus os chama. Finalmente, devemos confrontá-los com as grandes batalhas culturais dos nossos dias, e não isolá-los. O cristianismo não é uma religião ascética ou uma filosofia dualística. Seus seguidores são chamados a mergulhar no significado histórico e cultural da humanidade. A oração de Jesus é reveladora: “Não tire-os do mundo, mas proteja-os do mal” (Jo 17.15). Apesar das estatísticas, John Stonestreet tem boas expectativas: “Eles [os jovens de hoje] serão melhores do que a minha geração. Eles vão amar mais a Deus, servir melhor, se preocupar de forma mais profunda e pensar de forma mais clara. Eles querem ler bons livros e querem viver por algo maior do que eles mesmos”. Esperamos que ele esteja certo e as tendências, erradas.


Conselho Editorial Jovem Ultimato

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uando se fala em sonhos, a ideia do que fazer com o futuro, uma boa ilustração é a conversa entre Alice (a do País das Maravilhas) e o Gato Risonho. Perdida, ela pediu ajuda ao Gato, que respondeu: “Ora, se você está perdida, qualquer caminho serve”. Quando não se tem um sonho, um norte, uma saída possível é escolher qualquer caminho. Outra possibilidade é trilhar o maior número de caminhos, nos enfurnar em um ativismo maluco e ver onde a vida nos leva. Mas isso pode gerar canseira e vontade de desistir. Sonhar com intensidade pode também não ser a solução completa. Assim, precisamos rever a importância dos sonhos em nossa vida e a diferença que faz o sentido de esperança que associamos a eles. Deus fez o homem e a mulher com a brilhante capacidade de criar e modificar as coisas ao seu redor. Isso é uma benção — se feito com a consciência de que nossos atos criativos devem refletir a imagem de Deus, que é bela, verdadeira e repleta de significado. Viver essa imagem nos dá sentido, nos faz desfrutar de Deus e mostrar sua glória a todas as criaturas. Essa capacidade criativa inspira de forma maravilhosa nossa imaginação e isso nos leva a sonhar. Quando falamos em “sonhos”, referimo-nos ao desejo por algo diferente, que nasce

no ser humano a partir do momento em que ele constata que sua realidade poderia ser melhor. E quando surge um sonho, nasce com ele a esperança, que significa esperar por algo que se deseja. No entanto, precisamos entender o real sentido de esperança, para que ela nos ajude a sonhar. Um integrante do Centro de Estudos L’abri Brasil afirmou em recente palestra que a esperança é uma virtude cristã, desenvolvida por meio de dois exercícios também cristãos: lamentação e experiência com Deus. O Salmo 13 mostra como os dois exercícios (mesmo parecendo antagônicos) se completam, pois lamentar não é o mesmo que murmurar. Lamentar é enxergar a realidade como ela é, perceber que não deveria ser assim e clamar para que algo seja diferente. Por meio do nosso relacionamento com Deus, é possível experimentar de forma real, mesmo que singela, sua graça e misericórdia sendo derramadas sobre nossa vida, aliviando-nos do peso da aflição que o pecado nos causa. Como o autor do salmo experimenta a graça do Senhor e o seu livramento, ele louva e aguarda pela intervenção divina. Isso tem um efeito fantástico no que esperamos para o porvir. Se sonhamos com uma realidade diferente para nós e para o mundo, e já podemos experimentar parte desse sonho nos dias atuais, a certeza de que esse sonho é real e está para chegar aumenta —

e isso intensifica nossa fé e nossa perseverança. Como a nossa vida cotidiana não se dissocia da realidade espiritual, essa “fórmula” se aplica a todo tipo de sonho. Lembrar que nossa esperança maior está no dia em que Cristo se tornará Senhor de todas as coisas de forma plena e que, por causa da sua graça, já é possível experimentar esse senhorio hoje, nos inspira a sonhar. Na pesquisa “Juventude Evangélica: crenças, valores, atitudes e sonhos”, feita pela Editora Ultimato em agosto de 2010 com 1.960 jovens, 1.415 relataram qual é o seu maior sonho. Muitas respostas se enquadram em quatro grupos: constituir família (30%), relacionamento com Deus — buscar a vontade dele, responder ao seu chamado (17%), realização pessoal — profissão, estabilidade, conclusão de curso (17,7%), e salvação — conversão de amigos e familiares e ir para o céu (7,2%). Olhar para o resultado dessa pesquisa é como ouvir um bando de jovens dizendo: “Realmente, Deus, seus sonhos são muito bons e queremos não só sonhar com eles, mas vivê-los também”. Viver a humanidade que Deus planejou para nós é um sonho que deve ser preservado. Que escolhamos nossos caminhos sob a orientação do Pai, para que não precisemos, como Alice, em algum momento acordar de um sonho (ou de uma vida inteira) ruim.

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E SPECIAL

Onde está a verd da

crise igre Leonardo Boff

Fonte: Adital Notícias (www.adital.com.br)

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www.leonardoboff.com

crise da pedofilia na igreja romanocatólica não é nada em comparação à verdadeira crise — essa sim, estrutural — que concerne à sua institucionalidade histórico-social. Não me refiro à igreja como comunidade de fiéis. Esta continua viva apesar da crise, se organizando de forma comunitária e não piramidal como a Igreja da Tradição. A questão é: que tipo de instituição representa essa comunidade de fé? Como se organiza? Atualmente, ela comparece como defasada da cultura contemporânea e em forte contradição com o sonho de Jesus, percebida pelas comunidades que se acostumaram a ler os Evangelhos em grupos e então fazer suas análises. Dito de forma breve, mas não caricata: a instituição-igreja se sustenta sobre duas formas de poder: um secular, organizativo, jurídico e hierárquico, herdado do Império Romano, e outro espiritual, assentado sobre a teologia política de Santo Agostinho acerca da Cidade de Deus, que ele identifica com a instituiçãoigreja. Em sua montagem concreta, não é tanto o evangelho ou a fé cristã que contam, mas esses poderes, considerados como um único “poder sagrado” (potestas sacra) também na forma de sua plenitude (plenitudo potestatis) no estilo imperial romano da monarquia absolutista. César detinha todo o poder: político, militar, jurídico e religioso. O Papa, semelhantemente, detém igual poder: “ordinário, supremo, pleno, imediato e universal” (Cânon 331), atributos só

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dadeira

eja

A fé cristã possui força intrínseca de, nesta fase planetária, encontrar uma forma institucional mais adequada ao sonho de seu fundador e mais consentânea ao nosso tempo”

cabíveis a Deus. Institucionalmente, o e por isso senhor universal da Terra que Papa é um César batizado. podia distribuir porções dela a quem Esse poder que estrutura a quisesse, como depois foi feito aos reis instituição-igreja foi se constituindo de Espanha e Portugal no século 16. Só a partir do ano 325 com o Imperador faltava proclamar o Papa infalível, o que Constantino e oficialmente instaurado ocorreu sob Pio IX em 1870. O círculo em 392, quando Teodósio, o Grande se fechou. (+395), impôs o cristianismo como a Ora, este tipo de instituição única religião de Estado. A instituiçãoencontra-se hoje num profundo igreja assumiu esse poder com todos os processo de erosão. Depois de mais títulos, honrarias de 40 anos de e hábitos continuado estudo palacianos que e meditação sobre a As pessoas de hoje não perduram até os (meu campo aceitam mais uma igreja igreja dias de hoje no de especialização), autoritária e triste, como suspeito que estilo de vida dos bispos, cardeais e chegue o momento se fosse ao próprio papas. crucial para ela: enterro. Mas estão Esse poder ou corajosamente ganhou, com o abertas à saga de Jesus, muda e assim tempo, formas encontra seu lugar ao seu sonho e aos cada vez mais no mundo moderno valores evangélicos totalitárias e e metaboliza o até tirânicas, processo acelerado de especialmente a globalização e aí terá partir do Papa Gregório VII, que em muito a dizer, ou se condena a ser uma 1075 se autoproclamou senhor absoluto seita ocidental, cada vez mais irrelevante da igreja e do mundo. Radicalizando, e esvaziada de fiéis. O projeto atual Inocêncio III (+1216) se apresentou de Bento XVI de reconquista da não apenas como sucessor de Pedro, visibilidade da Igreja contra o mundo mas também como representante secular é fadado ao fracasso se não de Cristo. Seu sucessor, Inocêncio proceder a uma mudança institucional. IV (+1254), deu o último passo e se As pessoas de hoje não aceitam mais anunciou como representante de Deus uma igreja autoritária e triste, como

se fosse ao próprio enterro. Mas estão abertas à saga de Jesus, ao seu sonho e aos valores evangélicos. Esse crescendo na vontade de poder, imaginado ilusoriamente vindo diretamente de Cristo, impede qualquer reforma da instituição-igreja, pois tudo nela seria divino e intocável. Realiza-se plenamente a lógica do poder, descrita por Hobbes em seu Leviatã: “O poder quer sempre mais poder, porque não se pode garantir o poder senão buscando mais e mais poder”. Uma instituição-igreja que busca assim um poder absoluto fecha as portas ao amor e se distancia dos sempoder, dos pobres. A instituição perde o rosto humano e se faz insensível aos problemas existenciais, como da família e da sexualidade. O Concílio Vaticano II (1965) procurou curar esse desvio pelos conceitos de Povo de Deus, de comunhão e de governo colegial. Mas o intento foi abortado por João Paulo II e Bento XVI, que voltaram a insistir no centralismo romano, agravando a crise. O que um dia foi construído pode ser num outro, desconstruído. A fé cristã possui força intrínseca de, nesta fase planetária, encontrar uma forma institucional mais adequada ao sonho de seu fundador e mais consentânea ao nosso tempo. Setembro-Outubro, 2010

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E SPECIAL

Líderes evangélicos artigo de Leonardo B

Como sempre, Boff escreve muito bem, tem grande facilidade de argumentação e um estilo cativante. Essencialmente, desde uma perspectiva protestante, ele está correto. Existe uma diferença entre a igreja instituição, a estrutura hierárquica, e a igreja como povo de Deus, o conjunto dos fiéis. No entanto, não ficam claras quais deveriam ser, na prática, essas mudanças que ele preconiza para a igreja institucional. Quanto à igreja-povo, também há uma certa indefinição, por causa do compromisso de Boff com a teologia da libertação. As ênfases mais recentes desse teólogo têm se tornado um tanto sincretistas, misturando a fé

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cristã com preocupações ecológicas e com a ideologia da Nova Era. Mesmo assim, as críticas que ele faz ao modelo monárquico e centralizador da Cúria Romana me parecem válidas.” Alderi Souza de Matos, historiador, autor de A Caminhada Cristã na História

O artigo é fundamentado primorosamente tanto na questão histórica quanto no posicionamento atual do Vaticano e no ministério do romano pontífice. Boff sabe das coisas e sabe muito bem. Caso fosse mais alinhado com as Escrituras, poderia ter sido um Lutero do século 21.” Luiz Fernando, pastor da Igreja Presbiteriana Central de Itapira e presidente do Presbitério de São João da Boa Vista, SP

As palavras de Boff confirmam aquilo que os Evangelhos e a história revelam: a presença da igreja não indica, sempre, a presença de Jesus.” Sérgio Andrade, deão da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade e coordenador da ONG Diaconia, em Recife, PE

Minha impressão sobre o artigo: surpreendente! Extraordinário!” Key Yuasa, pastor da Igreja Evangélica Holiness, SP

O texto, embora dirigido à denominação secular conhecida como Igreja Católica Apostólica Romana, é um alerta em relação à organização institucional e estrutural da igreja cristã em todas as suas ramificações denominacionais. O autor não nega a necessidade organizacional da instituição. Porém, questiona a sua fundamentação histórica e teológica (nos moldes existentes), assim como a principal razão de existir da igreja — sua relevância na vida das pessoas e para o reino de Deus, nesse modelo que enfrenta crises de toda ordem... Esse questionamento de Boff, além de apropriado, é oportuno e deve ser a preocupação permanente das lideranças de todas as denominações cristãs. Pois todas elas correm os mesmos riscos de criar estruturas (de forma consciente ou não) para promover outros interesses, que não os do reino de Deus. Parabéns pela coragem, pela clareza e contextualidade.” Nilo Wachholz, pastor luterano (IELB), jornalista e editor do Mensageiro Luterano Arquivo pessoal

Leonardo Boff tem a coragem de dizer aquilo que todo mundo já sabe, mas ninguém ousa falar: o papado é uma instituição humana — tem mais a ver com César do que com Jesus de Nazaré. Quando um poder institucional se torna infalível, absoluto e sagrado, passa a se considerar acima da lei e viabiliza toda sorte de abuso espiritual, emocional, sexual e financeiro. Mas não sejamos tão rápidos em nossas críticas: entre nós, evangélicos, existem muitos pequenos papas e Vaticanos.” Osmar Ludovico da Silva, diretor de cursos de espiritualidade cristã e revisão de vida e autor de Meditatio


comentam Boff bom e fiel? Não posso olhar para as mazelas dos outros e lamber os beiços de felicidade, como se eu fosse realmente diferente.” Israel Belo de Azevedo, pastor da Igreja Batista Itacuruçá, no Rio de Janeiro

Esquecendo alguns exageros de Boff (principalmente dos que pretendiam interpretá-lo e usá-lo) no que concerne à Teologia da Libertação, dou graças a Deus pelo testemunho que moveu Boff a dar em seu artigo intitulado “Onde está a verdadeira crise da igreja”. Em meu entendimento, ele assimilou, consciente ou subsconscientemente, o que os pregadores calvinistas fiéis, de maior projeção, têm propugnado. Ocasionalmente Deus levanta nas fileiras da Igreja Romana vultos assim. Louvado seja Deus!” Odayr Olivetti, responsável pela seção “Consultório bíblico”, do jornal Brasil Presbiteriano

A ideia de uma igreja mais simples, mais fraterna, mais ministerial, com o rosto mais humano, está intimamente ligada ao propósito inicial de Jesus. Os acertos, dentre outros, destacados por Leonardo Boff, merecem nossa consideração, se levarmos em conta a situação do cristianismo em nosso continente, enfraquecido

pela presença dos novos “césares” (apóstolos, bispos, sacerdotes, pastores e líderes mercantilistas) que desfiguram a igreja do Senhor pelo barateamento que patrocinam do conteúdo do evangelho e pela ânsia do poder-privilégio. De fato, a maior crise da igreja-instituicão está relacionada à ausência de incidência profética e relevância para o atual momento histórico.” Marco Antonio de Oliveira, pastor da Catedral Metodista do Rio de Janeiro Arquivo pessoal

A síntese boffeana, desde Igreja: Carisma e Poder, é perfeita. Penso, no entanto, que ela idiliza os fiéis. Quando vejo certas manifestações de fé na perspectiva católica, tanto em Roma quanto nas comunidades locais por aqui, eu me pergunto: o que foi feito do cristianismo? Porém, sinto o mesmo em relação aos estelionatários da cura, com suas 24 horas de exposição mediática para trocar salvação por dinheiro. Precisamos de mais coragem para denunciar os falsários ditos evangélicos. Boff faz a denúncia lá. Devemos fazer também o nosso dever de casa cá. Fui uma vez a um desses cultos pseudopentecostais. Em nenhum momento se falou de Jesus, mas apenas se pediu às pessoas que gritassem para si mesmas: “Eu vou conseguir!”. Voltei horrorizado, mas fui aconselhado a, por razões éticas, nada comentar. Lamento por mim mesmo ter feito isso. Preciso parar de conter a minha indignação. Mais: preciso olhar para a minha denominação e para a minha congregação e me perguntar honestamente se são realmente cristãs. Eu mesmo preciso me perguntar se, como homem e pastor, sou mesmo cristão. Será que Jesus me vê como servo

Uma “instituição cristã” é uma contradição de termos; é como uma bola quadrada, uma paralela que se cruza. Instituição, por natureza, presume hierarquia, controle e conservação. Os cristãos institucionais, institucionalizados ou institucionalizantes — sejam católicos, evangélicos etc. — deveriam mudar de religião, pois a mensagem do reino é anárquica, na plena concepção do termo de negação do poder. Institucional, inclusive.” Gedeon Freire de Alencar, diretor pedagógico do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos Setembro-Outubro, 2010

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HOJE EM DIANTE...

Não quero ser misericordioso só comigo!

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Liz Valente

partir de hoje, com a ajuda de Deus, vou ser tão misericordioso com os outros como tenho sido comigo mesmo. Todos temos a mesma natureza pecaminosa. Todos carregamos a mesma bagagem pecaminosa. Deixarei de condenar os outros e perdoar a mim mesmo. Porei um fim nessa tendência de buscar atenuantes para o meu pecado e agravantes para o pecado alheio. Farei isso não para diminuir o peso do meu pecado ou o peso do pecado do outro. Colocarei o dedo em riste para ele e para mim. Enaltecerei a graça de Deus para mim e para ele. Afinal, os dois salmos

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exatamente iguais (Salmos 14 e 53) dizem: “Todos se extraviaram e juntamente se corromperam”. Devo essa mudança não só à Palavra e não só ao Espírito. Tenho lido alguns depoimentos que me abriram os olhos. Sêneca, contemporâneo de Jesus e conselheiro de Nero, dizia que todos somos perversos: “O que um reprova no outro, ele o achará em seu próprio peito, [pois] vivemos entre perversos, sendo nós mesmos perversos”. O moralista inglês Samuel Johnson, autor de A Vaidade dos Desejos Humanos (1749), explicou que “cada qual sabe de si mesmo o que ele não ousa contar ao seu mais íntimo amigo”.

Uma das declarações mais enfáticas sobre o assunto é da lavra do escritor americano William Saroyan: “O homem mau deve ser perdoado todos os dias. Deve ser amado porque alguma coisa de cada um de nós está no pior homem do mundo e alguma coisa dele está em cada um de nós. Ele e nós somos ele. Nenhum de nós é separado de qualquer outro. A prece do camponês é minha prece; o crime do assassino é o meu crime”. O médico francês Maurice Fleury confessa: “Depois de percorrer todos os escaninhos da alma humana, cheguei a uma conclusão: tenhamos piedade uns dos outros”. Já o escritor sérvio Vidosav Stevanovic faz bem em lembrar que “o mal, como o bem, faz parte da condição humana. [Portanto], antes de combater o mal nos demais, cada um deve combatêlo no interior de si mesmo”. O esforço que estou resolvido a fazer de hoje em diante é uma consequência natural daquele conselho de Jesus de remover primeiro a viga que está em meu próprio olho para, depois, remover o pequeno cisco que está no olho dos outros (Mt 7.1-5). Já que preciso de mais misericórdia do que quem tem o cisco, por que perder a paciência com o próximo? Por que cobrar mais dele do que de mim? Por que não perdoar, se eu fui perdoado? Que o Senhor me ajude!


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d eixem

que elas mesmas falem

Edleia Rodrigues

Soňa Psotová

Tempo de Deus

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emos a Bíblia, admiramos suas tramas perfeitas e nos maravilhamos com a presença inconfundível do Deus Eu Sou agindo sempre de maneira extraordinária. Sua pontualidade inequívoca causa-nos perplexidade. Abriu o mar na hora exata, quando o povo de Israel já enxergava o inimigo com dimensões gigantescas. A pedra que atingiu Golias o abateu no momento exato em que partia furioso em direção ao pequeno pastor de ovelhas. E se Davi errasse o alvo? Haveria tempo para um segundo arremesso? O fogo desceu dos céus de forma pontual, na hora exata em que o profeta Elias o invocava. Mais tarde, o profeta suplicou por chuva e,

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no momento certo, Deus abriu as comportas do céu. No tempo de Deus o profeta Eliseu chegou à casa da viúva e lhe multiplicou o azeite, na hora em que ela se via afligida por uma angustiante necessidade. Somente na sétima vez que mergulhou no Jordão foi que Naamã se viu livre e limpo do seu mal. As muralhas de Jericó só vieram abaixo no sétimo dia, na sétima volta, no chronos intrigante de Deus. E esse mesmo Deus, em questão de segundos, não permitiu que Abraão imolasse o próprio filho. Tempo de Deus. Quantas dúvidas invadem nosso coração quando o assunto é esse. E como é difícil nos submetermos a ele! Nossas pernas insistem em correr, nossos braços teimam em lutar, nossa mente se recusa a descansar, nosso coração se debate e convulsiona em crises profundas, solitárias e confusas. Deus! Aquieta-nos! Mais que isso, Senhor, transforma-nos. Dá-nos pernas que se movimentem em passos ligeiros ao encontro do Senhor e da tua doce presença. Controla nossa mente e inunda-a com tuas promessas, teus feitos, teu caráter irrepreensível. Dá-nos coração sensível e confiante, moldado pelo fogo ardente do teu amor sacrifical, amor que já ardia por nós quando nem ao menos existíamos. Refrigera nossa alma com teu descanso incomparável. Socorre-nos em nossa fragilidade e ajuda-nos a esperar pela tua provisão, que, como o maná, vem sempre no tempo apropriado. Ajuda-nos a crer que continuas o mesmo, agindo sempre no tempo certo,

sem nunca se atrasar, mesmo quando nossos olhos enxergam uma realidade que parece contradizer essa verdade. Quatro dias! Todos já achavam que cheirava mal. Porém esse era o teu tempo para exaltar teu próprio nome por meio da ressurreição de Lázaro e, assim, realizar obra infinitamente maior. Quantas vezes achamos que existem coisas que já estão apodrecendo por descuido de tua parte, Pai! Por um atraso imperdoável dos céus! Que vergonha! Ajuda-nos a crer e, assim, veremos a glória de Deus! Como nosso coração impetuoso precisa de ti! Aquieta-nos no tempo da incerteza. Leva todo medo. Ensinanos a descansar na paz da tua vontade perfeita. Aviva nossa alma. Renova nossa esperança. Conduze-nos, ou melhor, carrega-nos amorosamente pelo caminho desafiante da dependência incondicional. Assim, em meio a lutas, nossos lábios declararão: “Quanto a nós, nossos olhos estão fitos em ti. Nossas vidas em tuas mãos”. Confiados nessa inquestionável certeza, podemos dizer que tudo vai bem — excedendo todo entendimento, misteriosamente bem. Pois o teu relógio continua pontual e teus planos de amor caminham exatamente dentro do cronograma arquitetado para o louvor de tua glória e para nosso crescimento. Dessa forma, nossa alma não se abaterá, nem se perturbará, mas tãosomente esperará em ti. Edleia M. Lopes Rodrigues, casada, três filhos, é mestre em linguística e graduada pelo Instituto Haggai Internacional. É professora e palestrante.


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Jan Greenwood

C AMINHOS

DA MISSã O

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penas três versículos nos falam de uma menina — a empregada da esposa de Naamã (2Rs 5.1-3). Uma menina cujo nome não sabemos, mas cujo exemplo muito nos ensina. Como não era chamada de jovem, provavelmente tinha menos de doze anos; era “apenas” uma criança. Como essa menina poderia ser útil à esposa do comandante do exército do rei da Síria? Ela parecia muito próxima da dona da casa, pois conversava com ela. Supomos que se ocupava com o atendimento pessoal da senhora, arrumando sua roupa, escovando seu cabelo, cuidando de suas unhas e mãos. Era próxima o suficiente para perceber a tristeza e a preocupação daquela mulher com a terrível doença do marido. Como teria sido para a nossa garotinha ser violentamente arrancada de sua casa e de sua terra e arrastada para um país estrangeiro? Como teria sido para uma menina de uns 9 anos ficar longe dos pais de repente? Ou, quem sabe, guardar no coração a dor de seus gritos quando foram mortos pelos invasores? Será que ela guardava rancor, mágoa, desejo de vingança? Tudo indica que não. Com a simples frase “se o meu senhor procurasse o profeta que está em Samaria, ele o curaria da lepra”, ela mostra um coração puro, incrivelmente vazio de amargura, hostilidade ou ódio. Também nos surpreende o insight dessa menina, seu discernimento em perceber a tristeza da senhora e a crença pessoal de que um profeta de Israel poderia ajudar. Ela mostra

uma confiança absoluta em Deus. Mesmo numa cultura adversa, em que a religião falava de outros deuses, e não do único e verdadeiro Deus, ela guardava no coração tudo o que tinha aprendido sobre o Senhor da aliança. A nossa menina não fez seminário nem curso de missões, mas aqui está ela fazendo missões! Ela serve a uma senhora, mas acima de tudo ao Rei dos reis, cumprindo o propósito que sempre foi explícito para o seu povo — fazer o nome de Deus conhecido por todos os povos. Dessa história podemos tirar algumas lições: 1. Devemos aprender com as crianças: “A criança pode nos ajudar a resgatar e preservar virtudes dadas por Deus que ainda estão presentes nela, como a capacidade do perdão, o amor sincero, a amizade fácil, a espontaneidade, a dependência e a humildade”.¹ 2. As crianças têm lugar na missão de Deus: “Na história das missões, outras visões moldaram, de forma inconsciente, a vida e a proclamação do reino de Deus. De certo modo, poder e status foram mais valorizados do que o dom do amor e do servir”.² O que essa história nos mostra é exatamente isso — na missão, o amar e o servir levam à salvação. 3. É importante ensinar as crianças sobre Deus, instruí-las em suas leis, ajudando-as a entender o seu amor não somente por suas famílias, mas também por todas as famílias da terra. 4. Não devemos desprezar a capacidade das crianças de levar outros à fé e à salvação. Devemos dar-lhes oportunidade para falar, testemunhar

Rodolfo Clix

A criança na missão de Deus

A criança pode nos ajudar a resgatar e preservar virtudes dadas por Deus que ainda estão presentes nela

e até pregar. Por isso devemos orar por elas e com elas, reconhecendo o seu papel no reino dos céus. Deus já fez um compromisso de ensinar as crianças: “Todos me conhecerão, desde o menor até o maior” (Jr 31.33-34). E nós? Seremos seus cooperadores? Notas 1. FASSONI, Klênia, DIAS, Lissânder, PEREIRA, Wellington, org. Uma criança os guiará. Viçosa: Ultimato, 2010. p. 17. 2. Idem, ibidem, p. 37.

Jan Greenwood é coordenadora de pessoal da Interserve Brasil-CEM (Centro Evangélico de Missões), em Viçosa, MG.

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N OVOS

ACORdES

Carlinhos Veiga

Para Ouvir e Pensar...

Verdade & Vida

Onde o Céu é o Limite

A Beleza do Rei

Walley Bonfim (baixo) e André Costa (guitarra): esta é a formação atual da Período Letivo. Os caminhos desses rapazes se cruzaram numa universidade em Juiz de Fora, onde estudavam e atuavam na Aliança Bíblica Universitária (ABU). Logo descobriram suas “divergências e convergências musicais” e decidiram formar essa banda que tem um som bem próprio. Com letras inspiradas em textos bíblicos, C. S. Lewis e Frank Turek, suas canções tratam sobre temas muito próprios para a moçada. O som é pop da melhor qualidade. São oito músicas no total, com destaque para “Nem sei dizer”, “Se contasse” e “Contra o amor não há argumentos”. A produção musical é de Matheus Barbosa e André Costa. Conheça mais sobre a banda no www.myspace.com/ periodoletivo.

“Um CD com canções evangelísticas, com cara brasileira, para o povo brasileiro.” Essa foi a proposta de Itamar, que, juntamente com a Comissão Nacional de Evangelização da Igreja Presbiteriana do Brasil, idealizou esse álbum. A produção musical e arregimentação ficaram ao encargo de João Alexandre. O resultado foi um belo trabalho com canções diversificadas para agradar aos mais variados públicos. Passeia por ritmos bem brasileiros, como o chorinho (“Fim da melancolia”), samba (“O dinheiro”) e baiões modernos (“Verdade e vida” e “Uma certa história”), além de estilos mais convencionais. As letras desafiam o ouvinte à fé. Há muito não se ouvia um trabalho com essa temática em dias em que o estilo “adoração” predomina. A produção executiva é da Luz para o Caminho. Pedidos pelo site www.lpc.org.br.

Conheci o pastor Lu numa entrevista. Ele veio a Brasília para colher informações sobre a vida de Janires Manso, um dos ícones da música cristã contemporânea, já falecido. Só depois fui saber que, além de pesquisador, Lu era também músico e fazia um puro reggae (se bem que o seu visual dread já antecipava). Conheci a banda num evento recente e gostei muito da performance e do som genuíno e responsável. O CD Onde o Céu é o Limite traz dez faixas e é o seu segundo trabalho. A capa modesta não revela o que está escondido no seu interior. Inspirado em grandes mestres do reggae, tem a banda Christafari como maior influência e admiração, não só pela musicalidade, mas, sobretudo, pelo ministério entre os “malucos”. Para conhecer mais sobre a banda, acesse www.myspace.com/ ludreadzion.

Na década de 80, as canções de Stênio se tornaram conhecidas através do Atos, um grupo musical adiante de seu tempo e que reunia músicos excepcionais, como Vavá Rodrigues e Harrison Lima, entre outros. Depois o Stênio sumiu por uns tempos. Porém, desde que voltou, seu trabalho musical conquista cada vez mais espaço. A Beleza do Rei é o mais novo trabalho desse compositor genial e traz doze canções inéditas. Música leve para a alma e o coração. Suas canções inspiram a caminhada cristã. É só ouvir “Confissões de uma figueira” e o xote escatológico “Na glória do poder”, e a alma treme. Os arranjos e a produção são de Silvestre Kuhlmann, exceto a faixa “É nele”, assinada por Diego Venâncio. A arte gráfica é de Anderson Monteiro, recheada de suas fantásticas ilustrações. Para adquirir, sdeoliveiranogueira@ hotmail.com.

Período Letivo

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Itamar Bezerra Lu & Dread Zion

Stênio Marcius


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LI N HA DE F R E N T E

Bráulia Ribeiro

O povo sou eu

A luta entre a dignidade e a folclorização do ser humano

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m dos vícios irritantes do discurso político atual são as generalizações sobre o povo. As massas, a “zelite”, os pobres, os desfavorecidos, as oligarquias do lucro, e por aí vai. Cada político tem seu jargão e usa a favor de sua ideologia generalizações que idiotizam seu discurso. Quem fez isso com maestria foi o PT. Estamos praticamente viciados nos lugarescomuns que reduzem o povo brasileiro a noções folclorizadas. A massa, já disse o sociólogo, é manobrada, o povo é uma mera vítima da zelite e os pobres nunca ditam seu destino. A pobreza, segundo o PT, não é uma circunstância econômica, mas uma condição moral. O ser pobre justifica meus atos e me coloca acima do bem e do mal. A cantilena hipnótica dos males do capital, apesar de anacrônica, é ouvida nos morros do Rio, na boca dos traficantes, nos túneis e nas ruas. Por ser pobre posso tudo. Mato, roubo, torturo e estupro. Não sou eu, é a luta de “crasse”. Vale tudo nessa visão de mundo bolchevique. Porém, o povo só é aliado enquanto ignorante. Quando sabe, quando protesta, quando exige não é mais povo — é massa de manobra da zelite, porque pobre não pensa. Um caso recente é o do garoto que filmou o desdém do presidente e os acintes do governador Sérgio Cabral quando pediu pra jogar tênis (tênis não pode — é esporte de burguês) e nadar na piscina pública, sempre fechada ao público. Ele não é mais um pobre-símbolo, virou um “otário”, nas palavras do governador.

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Nossa luta contra o infanticídio indígena esbarrou no mesmo problema: a folclorização conceitual do índio. Índio não é gente. Sua nobreza selvagem paira além do bem e do mal. Por ser diferente da minha, sua cultura é impermeável a julgamentos de qualquer espécie. Não há terreno em comum para a moral. Os índios que falam a favor da vida se tornam traidores de si mesmos, não são mais índios. São “evangélicos” e “pastores”...

A noção de que seres humanos têm dignidade intrínseca é a maior contribuição do cristianismo à cultura ocidental Não me surpreende ouvir tais clichês na boca de Dilma. Porém, me supreende ver cristãos comprando o mesmo pacote semântico. A cosmovisão bíblica pede que questionemos o pobrismo que hoje no Brasil é senso comum. O milagre da imago Dei atribui o mesmo valor a todos. A noção de que seres humanos têm dignidade intrínseca é a maior contribuição do cristianismo à cultura ocidental. Por causa do Criador, as criaturas nascem com valor, não importam a posição social, a capacidade econômica, a perfeição física ou a inteligência. Temos valor por causa dele, não por causa de nós mesmos. A verdadeira

noção de igualdade humana tem de necessariamente admitir uma origem e um valor comum para todos. Foi esse valor cristão que permitiu ao Ocidente construir uma civilização na qual o indivíduo não existe para o Estado, para sua casta ou tribo, mas o Estado, a tribo e a sociedade existem para o indivíduo. O conceito de direitos humanos inerentes e não delegados pelo Estado só poderia vir a existir a partir da ideia do valor intrínseco do ser humano. Porque tenho valor, tenho direitos e deveres básicos para com outros seres humanos. Porque tenho valor, tenho direito à escolha de vida, de trabalho, de voto. E tenho o dever de preservar a vida do outro, o dever da construção social. A Bíblia nos manda “não seguir a multidão para fazer o mal” e não exime ninguém de sua responsabilidade moral. Pobres e ricos, doentes e sãos, índios e nãoíndios, todos pisamos o mesmo chão debaixo do mesmo céu. Deus não faz opção preferencial pelo pobre nem nos desculpa por ignorância. A construção de um grupo social que só tem direitos e não tem deveres, de uma cultura assistencialista de dependência do Estado e que não valoriza o trabalho, pode ser boa para fins eleitoreiros, mas não é boa para o país. Pode nos tornar mais iguais ao Haiti. Mas, como diz Caetano, o Haiti já é aqui...

Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical. braulia.ribeiro@uol.com.br


René Padilla

M ISS ãO

INTEGRAL

Como fazer discípulos de Cristo?

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e o propósito central da missão cristã é fazer discípulos, segundo a Grande Comissão que Jesus Cristo deu a seus discípulos (Mt 28.16-20), cabe a pergunta: Como fazer discípulos de Cristo? Para começar, precisamos levar em conta que um discípulo é primordialmente um aprendiz, alguém que está em processo de formação, cuja finalidade é que o aprendiz chegue a ser como seu mestre. Sob esta perspectiva, o mandamento de “fazer discípulos” é um mandamento para formar pessoas que cheguem a ser como Jesus Cristo. Por certo, esta afirmação não coincide com um ensino que esteve presente em círculos evangélicos há alguns anos, segundo o qual a tarefa de discipular é formar discípulos à imagem e semelhança do discipulador. Não creio que esta tenha sido a intenção do mandamento. O Mestre por excelência a quem todos os cristãos somos chamados a seguir é Jesus Cristo. O apóstolo Paulo reconhece isto quando, escrevendo aos crentes na Galácia, lhes diz: “Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4.19). Isto não nega, no entanto, que só quem leva a sério seu próprio discipulado cristão está em condições de formar discípulos de Cristo. É por isso que o mesmo apóstolo exorta aos crentes em Corinto: “Sede meus imitadores, como também eu, de Cristo” (1Co 11.1). Tanto na tarefa de fazer discípulos como na de criar filhos,

a pedagogia mais efetiva é a que depende muito mais do exemplo do que das palavras. Voltemos à nossa pergunta inicial: Como fazer discípulos de Cristo? Já observamos na edição anterior que em nosso texto o verbo matheteúsate (“fazei discípulos”, no modo imperativo) é acompanhado por três formas verbais (gerúndios, no grego), duas das quais respondem diretamente a esta pergunta: “batizando-os” e “ensinando-os”. O batismo é o rito de iniciação no discipulado. Este não é o momento para nos aprofundar na tradicional controvérsia entre quem pratica o batismo de crianças como sinal do pacto e quem pratica apenas o batismo de pessoas que creem, por entendê-lo como um ato consciente de identificação com Cristo. Para nosso propósito, basta destacar que na Grande Comissão se considera que o discipulado inicia com o batismo e que este é feito “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (v. 19). Com o batismo começa todo esse processo ao qual nos referimos anteriormente: o processo de formação do aprendiz para que chegue a ser como Jesus Cristo. Se não se leva isto em conta, corre-se o risco de fazer do batismo a única coisa que importa. Não foi isto que aconteceu com a conquista ibérica de nosso continente? Os conquistadores chegaram com um profundo sentido de missão, com a convicção de terem sido enviados por Deus. A cruz chegou acompanhada pela espada, os soldados chegaram seguidos pelos frades missionários.

Só quem leva a sério seu próprio discipulado cristão está em condições de formar discípulos de Cristo

E, para “converter” os aborígenes ao cristianismo, se esforçaram para batizar milhares e milhares deles. Batizaram, mas não fizeram discípulos. E assim nasceram os nossos países: com massas batizadas, mas não evangelizadas. A pergunta é se hoje nós, os evangélicos, não corremos o risco de fazer o mesmo, impulsionados pelo desejo de aumentar o número de membros de nossas igrejas, mas sem a devida ênfase na missão de fazer discípulos. E permanece a pergunta: Como fazer discípulos de Cristo? A forma verbal “batizando-os” é apenas parte da resposta e é inseparável da que se segue: “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”. Traduzido por Wagner Guimarães

C. René Padilla é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de O Que É Missão Integral?.

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Paul Freston

É TICA

Ação social cristã

realismo e espiritualidade*

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urante anos, a Coreia do Sul foi tida como modelo de crescimento da igreja. Porém, em meados de 1990, as igrejas coreanas pararam de crescer e até encolheram, pelo menos como porcentagem da população. Hoje, se quisermos um exemplo de igreja que cresce na Coreia do Sul, devemos olhar para a Igreja Católica. E essa situação provocou reflexões: por que as igrejas evangélicas cresceram tanto entre os anos 60 e 80 e depois estagnaram? E por que, por outro lado, a Igreja Católica vem se expandindo? Uma das razões aventadas é a relativa falta de preocupação social genuína no meio evangélico coreano. As megaigrejas ficaram conhecidas por muitas coisas, mas não pela preocupação social. A construção de impérios eclesiásticos lhes parecia mais importante do que a seriedade no trato das questões sociais. Espero que não sigamos o mesmo caminho. No Brasil, a Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS — www.renas.org.br) é uma das entidades mais significativas da atualidade, tanto para a igreja quanto para a sociedade. Organizações como esta são vitais para a igreja, para manter a atratividade evangélica, para alongar a curva de crescimento numérico e, acima de

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tudo, para o “crescimento integral” da comunidade cristã (pensando a igreja como, na famosa frase de Bonhoeffer, um clube que existe principalmente para os que não são sócios). Entretanto, essas entidades são importantes também para a sociedade brasileira, apesar dos avanços inegáveis que têm havido. Porque tenho dividido meu tempo entre o Brasil e o Canadá, tenho podido olhar o país de dentro e de fora. Por menos que percebamos isso dentro do país, por mais que o ceticismo sobre o futuro continue, a realidade é que no exterior o Brasil não é visto como o era há vinte anos. Porém não quer dizer que uma entidade como a Renas seja menos importante. Ainda há (e haverá por muitos anos) graves necessidades sociais e, mesmo nos países mais avançados, elas não deixam de existir. O aspecto estritamente material das necessidades pode diminuir, mas os aspectos não-materiais continuam existindo. E por mais que os governos se esforcem, não conseguem atender muito bem às dimensões não-materiais das necessidades sociais. Além disso, tem havido uma retração no papel social do Estado na maioria dos países avançados. Há, no entanto, o perigo da frustração com a igreja evangélica latu sensu. Por mais que a RENAS cresça (e tem crescido), representa uma pequena

porcentagem dos evangélicos. E essa frustração pode levar a um sentimento de superioridade. Podemos pensar que somos vanguarda, que somos os mais esclarecidos e os mais atuantes. E isso é perigoso. Para não deixarmos que esse perigo mine a base do nosso próprio trabalho, precisamos dos seguintes elementos: realismo teológico, realismo sociológico e algo que chamo de humildade amorosa. O realismo teológico é a variedade de dons que Deus dá à igreja. A carta constitucional da igreja é a maneira como Deus distribui os dons do Espírito Santo. Isso deveria ser o princípio estruturante da comunidade cristã, conforme percebemos quando olhamos as duas principais listas de dons do Espírito Santo no Novo Testamento (Rm 12.3-8; 1Co 12.1-11). Há uma variedade de dons e essas duas listas são quase totalmente diferentes, exceto por um único dom repetido, que é a profecia. Elas parecem se referir a duas igrejas bem diferentes: a igreja de Corinto como uma igreja “carismática”, e a igreja de Roma como uma igreja “prosaica”. Além disso, o entorno de cada lista também é diferente. No texto de Romanos, enfatiza-se o exercício fiel dos dons e a humildade que deve acompanhá-lo, ou seja, a fidelidade e a humildade. Por outro lado, em 1


Há vocações diversificadas que devem ser apreciadas e valorizadas, mas não necessariamente imitadas por todos, pois nem todos recebem o mesmo chamado de Deus

Coríntios enfatiza-se a diversidade e a universalidade dos dons, ou seja, nem todos têm os mesmos dons e todos recebem algum dom. Poderíamos imaginar que Deus fizesse as coisas de forma diferente. Ele poderia ter constituído a igreja com dons para alguns e não para outros. Ou que quem tivesse certos dons fosse considerado superior a quem tivesse outros. Ou que, em vez de distribuir os dons, desse todos eles a cada um de nós. Em todos os casos, o princípio estruturante da comunidade cristã seria diferente. Porém, a realidade é que Deus criou uma comunidade cristã em que todos têm algum dom, ninguém é superior por ter um dom específico e ninguém possui todos os dons. Isso estrutura a noção de comunidade cristã e é o modelo pelo qual devemos medir e avaliar as comunidades cristãs existentes. Tal realismo teológico serve para moderarmos um pouco a crítica com relação ao fato de Renas não abarcar toda a igreja. Há vocações diversificadas que devem ser apreciadas e valorizadas pelos outros, mas não necessariamente imitadas por todos, pois nem todos recebem o mesmo chamado de Deus. O realismo teológico deve sempre adoçar a nossa crítica ao contexto eclesiástico maior. O realismo sociológico é a ideia de que nem todo mundo é capacitado

religiosamente da mesma forma. Nas palavras do sociólogo Max Weber, existem os “virtuoses” religiosos, ou seja, pessoas excepcionalmente capacitadas. (Note que a palavra é “virtuoses” e não “virtuosos”, que são pessoas cheias de virtudes, algo que todos os cristãos devem se tornar ao longo dos anos.) Os virtuoses são especialmente capacitados para certas experiências e certas habilidades religiosas (captar elementos místicos, por exemplo). E isso não tem a ver com a questão da salvação. Existem os virtuoses religiosos e a “massa” religiosa — pessoas que não têm uma capacitação excepcional nesse campo. Por mais que a proposta evangélica seja transformar todos os membros da igreja em virtuoses (todo mundo deve ser “muito crente”, ter experiências espirituais fortes e se envolver em tudo), o fato é que isso nunca acontece. E sempre que a igreja cresce mais numericamente, isso acontece menos. É o que constatamos hoje no Brasil. A igreja evangélica virou fenômeno de massas e a distinção entre a massa evangélica e os virtuoses evangélicos ficou mais evidente. E é sociologicamente irrealista esperar que seja diferente. Podemos esperar que seja melhor do que hoje, mas nunca haverá 100% no patamar mais alto. Sempre haverá uma parcela considerável

de pessoas que estão na comunidade cristã, mas que “vão levando”. A história mostra que isso sempre acontece. Nesse sentido também é preciso adoçar nossa crítica. Como o processo de crescimento numérico gerou perdas em outros sentidos, houve uma perda considerável do valor da identidade evangélica na sociedade brasileira. Na medida em que a igreja cresce numericamente, podemos nos pautar cada vez menos pela média da igreja. Temos de ser cada vez mais contraculturais na própria igreja. Digo isso não para que nos desanimemos, mas para que saibamos não mergulhar no desânimo. De vez em quando, inevitavelmente, vem uma onda de depressão por causa da realidade evangélica mais ampla. Porém não devemos ceder a ela. O realismo teológico e o realismo sociológico nos ajudam a não “chutar o balde”. Na próxima edição, abordaremos o terceiro elemento, a humildade amorosa. Nota * Palestra apresentada no 5º Encontro Nacional Renas, em Recife, em agosto de 2010.

Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá. Setembro-Outubro, 2010

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CAMINHO DO CORA çãO

Ricardo Barbosa

Participando do mundo de Deus por meio da oração

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oração é o retrato da alma. É nossa identidade espiritual, a impressão digital do cristão. A maneira como oramos e o conteúdo de nossas orações revelam o que pensamos sobre Deus e o que pensamos sobre nós. A melhor forma de conhecer a teologia e o caráter de uma pessoa ou de uma igreja é observar sua oração. É por isso que gosto de meditar nas orações na Bíblia. Gosto também de observar a forma como oramos. As orações do apóstolo Paulo em sua Carta aos Efésios nos ajudam a perceber sua teologia e seu caráter. Meditando nelas, percebemos que existem duas formas de orar: a primeira é quando apresentamos nosso mundo a Deus. A segunda é quando participamos do mundo dele. Na primeira forma de oração, que é mais comum entre nós, oramos por nossa família, trabalho, saúde, projetos e outras necessidades pessoais. Deus quase sempre é

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invocado para atender a essas necessidades e emergências. Elas constituem o centro das orações. São orações que dizem respeito mais a nós do que a Deus. Outra forma de orar é quando participamos do mundo de Deus. Oramos a partir daquilo que ele tem feito, das grandes realizações de sua graça em nosso favor. É o mundo de Deus, não o meu, que constitui o centro da oração. É assim que Paulo ora. Ele começa agradecendo as bênçãos com que Deus nos tem abençoado nas regiões celestiais em Cristo. Ele é grato pelo fato de que Deus nos escolheu em Cristo, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis. Louva a Deus por nos ter adotado como filhos e filhas, por sua eterna bondade. Agradece pela redenção e libertação do pecado e reconhece a riqueza da graça de Jesus Cristo. É grato a Deus pela revelação de sua vontade e pela dádiva do seu Espírito, que sustenta nossa salvação.


humana e ser tomados de toda a Ele segue orando e suplicando para plenitude de Deus. São esses os motivos que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo de gratidão e as súplicas de Paulo. conceda à igreja espírito de sabedoria e É uma oração na qual podemos revelação para o pleno conhecimento de perceber a teologia e também o caráter Jesus Cristo. Para que Deus abra os olhos do apóstolo. Antes do seu povo para de apresentar seu que compreendam mundo a Deus, ele a esperança da vida A melhor forma de busca participar do em Cristo, o poder conhecer a teologia e o mundo de Deus. da ressurreição pelo Sua preocupação caráter de uma pessoa qual agora vivemos não se limita e a exaltação e glória ou de uma igreja é às necessidades de Cristo. Mais do observar sua oração pessoais. Não são que ser liberto da suas prisões ou prisão, seu grande reputação que têm desejo é ver seus irmãos e irmãs tendo prioridade em suas súplicas. Sua atenção um conhecimento verdadeiro de Cristo e crescer em direção à sua real humanidade. não está em sua saúde ou bem-estar. O que ele revela em sua oração é a paixão Ele coloca-se de joelhos diante do pela obra de Cristo, o desejo de ver o Pai e suplica para que Cristo habite nos corações do povo de Deus, transformando povo de Deus crescendo em direção a Cristo. seu interior, para que possam, juntos, Podemos e devemos apresentar nosso compreender a riqueza do amor de Cristo mundo a Deus por meio da oração. que transcende toda a compreensão

Interceder pela família, trabalho, saúde e outras necessidades pessoais e comunitárias é parte de nossa resposta ao chamado de Cristo. No entanto, se permanecemos apenas conosco, atrofiamos a alma. Concebemos a oração a partir do nosso mundo e não do mundo de Deus. Das nossas necessidades e não das gloriosas riquezas de Cristo. Nossa compreensão de Deus torna-se confusa e a experiência de oração, frustrante. A oração sempre começa com Deus e não conosco. O que Deus fez por nós em Cristo precede o que ele faz por nós em nossas necessidades diárias. Participar do mundo de Deus nos ajuda a entender a forma como Deus participa do nosso mundo. Se permanecemos com aquilo que Deus fez e segue fazendo em Cristo, crescemos na medida da estatura de Cristo. Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho do Coração.

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R EFLEXÃO

Robinson Cavalcanti

PT

o partido que nunca foi governo

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firmativa inexata é a referência “a esse governo do PT”. Embora o presidente da República seja filiado ao partido, ele nem governa com seu programa, nem com seus quadros. O “lulismo” não é igual ao petismo, assim como o “getulismo” não foi igual ao trabalhismo. Durante os oito anos da gestão lulista, houve uma redução dos quadros dirigentes petistas e uma ampliação dos oriundos da denominada “base aliada”. Ela vai do fisiológico PMDB, da esquerda à direita históricas, de ex-marxistas a ex-sustentáculos do regime militar, de ex-guerrilheiros a herdeiros das capitanias hereditárias, de sindicalistas à fina flor do empresariado, em um bem costurado “pacto das elites”, cooptando como coadjuvantes (índios em filme de cowboy) alguns trabalhadores e alguns representantes das classes médias, e incluindo os “companheiros” Collor, Renan e Sarney. A maioria da “base aliada” apoiou o governo FHC e apoiará qualquer governo. O programa do PT foi para o espaço há muito tempo e não passa de uma 52

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peça ornamental, com a garantia de que não será levado a sério. Antes das eleições presidenciais de 2002, o PT soltou a Carta de Olinda, reafirmando sua ideologia e seu programa. Pouco depois, na calada da noite, saiu a Carta ao Povo Brasileiro (chamada de Carta aos Banqueiros), quando, pelo alto, abjurando de sua história e dos seus princípios, o partido contra o sistema optou por ser um partido no e do sistema. Um dirigente foi enviado à capital do império para acalmar os donos do poder mundial. Outros conversaram com o capital nacional. O que o Partido Social-Democrata alemão fez no Congresso de BadGodesberg, em 1952, depois de um amplo debate, a cúpula do PT o fez com um ato de força. O partido que ouvia as bases passou a enquadrá-las. Ao contrário da maioria dos partidos brasileiros, desde os aristocratas no Império, e os oligarcas nos primórdios da República, o Partido dos Trabalhadores teve uma origem e uma trajetória únicas em nossa história política, nascendo de baixo para cima, incluindo os excluídos, mobilizando, debatendo, democratizando as decisões. Em sua origem estavam


marxistas críticos do modelo soviético, intelectuais progressistas, religiosos de linha profética, novos sindicalistas independentes e movimentos sociais organizados. Nela havia algumas certezas: o compromisso com a preservação e aperfeiçoamento do regime democrático, das liberdades públicas e dos direitos civis, uma rejeição ao modo de produção capitalista e ao modelo totalitário soviético, a busca da justiça social em um processo participativo, tendo

O “lulismo” não é igual ao petismo, assim como o “getulismo” não foi igual ao trabalhismo no horizonte a construção de um socialismo democrático fincado em nossas raízes. Esse sonho embalou muitos e despertou o voluntariado de uma militância idealista. Porém, esse sonho acabou há muito tempo. Os idealistas caíram fora. O realismo pragmático centralista, em torno do líder, a cooptação em cargos no aparelho do Estado, os arranhões à ética, o abandono da ideologia e do programa, as alianças com qualquer um e a qualquer preço, atestam que a estrela se apagou — hoje há apenas um nome, sem vínculos com um passado perdido. O lulismo permitiu aos banqueiros os maiores lucros do mundo, atendeu ao empresariado em quase tudo que ele pediu e, apesar da retórica e de gestos simbólicos independentes, se manteve dentro dos parâmetros permitidos pelo império. As classes médias foram agraciadas com alguns mimos, se

estatizou o clientelismo paternalista para com os pobres e se decretou que quem ganha dois salários-mínimos é membro honorário da classe média. Como autêntico partido da ordem, o lulismo recebe críticas do sistema apenas por alguns tópicos ou ênfases, ou por razões estéticas: o presidente não é “um dos nossos”, mas um caboclo retirante nordestino sem curso universitário. Enquanto isso, o Congresso Nacional continua a ser uma pirâmide social invertida, com a maioria das minorias de cima e a minoria das maiorias de baixo. O sistema eleitoral permite que parlamentares menos votados sejam eleitos, mais votados sejam derrotados e suplentes que você nem sabe quem são — que nunca tiveram um voto — lhe representem no Senado da República. Para os cargos majoritários, sem consultas ou primárias, a escolha é feita pelas cúpulas e o eleitorado é chamado a escolher dentre aqueles que escolheram para ele escolher. Não há um projeto nacional. A segurança pública, a educação, a saúde, o saneamento básico e a qualificação de mão-de-obra vivem o faz-de-conta. A desigualdade social e regional é um escândalo, com Alagoas registrando 35% de miseráveis (vivendo com até um terço de salário-mínimo). Muita propaganda. A imprensa controlada por poucos manipulando muitos. Uma eleição presidencial sem oposição ou alternativas, mas uma disputa entre o retrocesso ou quem melhor “aperfeiçoa” o continuísmo. Os cristãos continuam sem afinar os valores do reino, fazendo diferença, mas, em sua maioria, estão alheios, desiludidos, cooptados ou perdidos como cachorros em caminhão de mudança. Orar, discernir, intervir.

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Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política — teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo— desafios a uma fé engajada. www.dar.org.br Setembro-Outubro, 2010

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R EFLEXÃO

Ricardo Gondim

Ufanismos, messianismos e outras mentiras

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Blas Lamagni

tempo tudo destrói. O vento da história cobre todas as coisas de poeira. Impérios, outrora avassaladores, hoje entediam alunos secundaristas, que só precisam conhecê-los para passar de ano. Napoleão, o temido imperador francês, virou nome de cachorro. Na mitologia, Kronos, o deus do tempo, inclemente, devorava seus filhos. O escritor português Vergílio Ferreira percebeu que muitos tratados são escritos sobre a infância, juventude e idade adulta. E em todos se “fala de ir” — ir para o futuro. Desejos, sonhos e ambições impulsionam a vida. Mas para qual futuro? Vergílio Ferreira conclui que esse tal “ir” é rumar para a velhice; “velhice é estar”. De fato, velhice é a idade em que passamos o restante da vida. E, existencialmente, não há muita opção: ou se morre cedo, como um Camelot, ou se enfrenta a decrepitude dos senis. Embora não seja oficialmente idoso — ainda faltam alguns anos —, eu começo a me preparar para os derradeiros anos. Não quero

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viver os próximos anos de minha vida como meros sobejos dos bons tempos que já vivi. Reafirmo que ninguém é velho enquanto estiver disposto a aprender. Eu quero me manter flexível na madureza. Sei que nada sei. Sobretudo, quero aprender a despojar-me de falsas onipotências. Já confiei em minha capacidade de ordenar a vida. Imaginava que verdades e princípios me blindariam contra decepções, tristezas e contrapés existenciais. Porém, como disse Chico Buarque, veio a Roda Viva e carregou o destino pra lá. Padeci desnecessariamente porque superestimei a minha capacidade de anular contingências existenciais. Acreditei na mensagem religiosa que prometia engrenar o cotidiano, garantindo vitória sobre vitória. Esforcei-me o quanto pude para tornar a obediência capaz de livrarme de tribulações. Eu buscava a excelência como chave para o dia-a-dia encapsulado na mais pura felicidade. Depois de vários tombos, inúmeras bobagens, enormes desapontamentos e grandes decepções, acordei. A vida não se deixa encabrestar. Vi que nunca havia conseguido adequar-me ao superego exigente que carregava


dentro de mim. Eu me contemplava em espelhos distorcidos. A imagem que enxergava sempre foi maior do que eu mesmo. A juventude engana, mas a meia-idade esvazia os delirantes de seus devaneios. Devido à minha onipotência, idealizei auditórios. Acreditei que a minha oratória seria capaz de arrebatar multidões. As longas horas em que preparei sermões representavam uma

A juventude engana, mas a meia-idade esvazia os delirantes de seus devaneios capacitação especial para ser uma extensão concreta e real do poder de Deus. Eu não admitia a minha ineficácia em converter, transformar, santificar. Confundi talentos naturais com “eleição”; minha habilidade com a oratória me inebriava. Mas, enquanto meus cabelos pratearam, dei-me conta que muitos meninos e meninas de nossa comunidade haviam desistido da fé. Minha eloquência não se mostrara tão infalível quanto eu supunha. Muitas culpas nascem da falsa onipotência. Por me sentir com a responsabilidade de carregar o mundo nas costas, raramente me permitia vivenciar atividades que não redundassem no avanço da missão. Lazer, só para recompor, manter o vigor, e voltar a trabalhar. Poesia, nem pensar; poesia não ajuda a argumentar. Contente, acostumei-me a encaixar passeios em viagens missionárias. Considerava o convite para falar em uma conferência uma boa ocasião para tirar férias.

O simples correr dos anos bastou para minar tantos ufanismos juvenis. Aprendi a cantar com Almir Sater: “Ando devagar porque já tive pressa/ E levo esse sorriso/porque já chorei demais/ Hoje me sinto mais forte,/ mais feliz quem sabe/ Eu só levo a certeza de que/ muito pouco eu sei, eu nada sei”. Pretendo seguir o restante da jornada, despretensiosamente. Sem arroubos, oferecer minhas frágeis intuições. Espero aprender como “mais me gloriar nas fraquezas” e poder repetir o apóstolo Paulo: “Porque, quando sou fraco, então é que sou forte” (2Co 12.10). Começo a reconhecer limites e a dar de ombros ao imperativo religioso de superar a humanidade. Não sou angelical. Já não me considero um conquistador de utopias. Mantenho as utopias, mas as tenho como meras alavancas de minhas iniciativas. Não me considero apto a concretizá-las. As minhas despedidas foram trágicas, meus lutos, inconsoláveis e minhas decepções, amargas. Aceito que a vida é frágil. Sei que não sou autossuficiente. No reconhecimento de minha debilidade, reaprendo a ser grato; gratidão nasce de uma memória que não é soberba. Sou agradecido por todos os que já me ajudaram; todos encarnaram o amor de Deus e eu quero mantê-los na lista das bênçãos recebidas. O tempo que tudo desgasta, paradoxalmente, aviva a pergunta do profeta Miqueias, a que eu me antecipo a responder sim: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom, e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq 6.8). Soli Deo Gloria.

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Ricardo Gondim é pastor da Assembleia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas. www.ricardogondim.com.br Setembro-Outubro, 2010

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A PALAVRA DE DEUS

Valdir Steuernagel

Koushik Ghosh

R EDESCOBRINDO

O abraço de Deus Testemunho em vida, palavra, ação e sinal

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mundo é cheio de cantos e recantos diferentes e belos. Em meu trabalho com a Visão Mundial, tenho oportunidade de andar por lugares de costumes diversos, comidas típicas e línguas muitas vezes únicas. A geografia é peculiar e as pessoas, singulares. Uns são altos e outros, baixos; uns são expansivos e outros, quietos; uns são claros e outros, escuros... Cada um tem sua peculiaridade, sua beleza e seu jeito de ser gente, ser família e viver em comunidade. A diversidade do nosso mundo é fantástica e profundamente enriquecedora. Quanto mais ando por aí, mais percebo que somos iguais e carregamos a marca da nossa humanidade criada por Deus e à imagem dele. Atuamos em lugares da América Latina, Ásia, África, Oceania e Oriente Médio, sempre com crianças, no contexto de suas famílias e comunidades. Aí é que se percebe o quanto somos simultaneamente diferentes e iguais. Todo pai quer o bem dos filhos. Toda mãe quer filhos sadios e bem alimentados. Toda comunidade, se real, quer que os filhos se enturmem,

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brinquem juntos, sejam protegidos e cresçam em conhecimento e graça. Embora a pobreza seja um fenômeno complexo, as questões são simples e básicas. A criança tem uma família que lhe dê sentido de espaço, acolhimento e proteção? Há sobre a mesa comida suficiente para que ela cresça saudável? A comunidade provê, para todas as crianças, um espaço de aprendizado escolar e um espaço para brincadeiras e o exercício da vida comunitária? Há lugar na sociedade para que a criança cresça e exerça o seu dom, trabalhe para sua sobrevivência, constitua família e exerça a cidadania? A espiritualidade vivida é saudável? Tais observações podem parecer simples. A verdade, no entanto, é que responder a cada uma delas em particular e considerá-las em conjunto é complexo e difícil — como atesta a realidade. O mundo está cheio de crianças abandonadas, desnutridas e doentes. Crianças sem escola ou que deixam a escola cedo e caem no abandono da rua. Quantas comunidades desencontradas e cheias de conflitos gerados pelo consumo e tráfico da drogas, exploração econômica, luta de poder, violência e conflitos religiosos que dividem e

separam as comunidades e as próprias crianças!

A nota humana do evangelho Uma das marcas mais profundas, significativas e belas do evangelho é que ele detecta essa difícil realidade com sensibilidade e vai ao seu encontro com graça, compaixão e sentido de resgate. Quantas situações doloridas, carentes e desencontradas são manifestas nos Evangelhos! Basta Jesus chegar a um lugar ou decidir passar ao “outro lado do lago” para que uma multidão se forme; e ele próprio faz uma leitura dessa realidade: são “como ovelhas sem pastor”. Pessoas soltas, sozinhas, machucadas, oprimidas e doentes. E com elas Jesus passa boa parte do seu tempo, orientando-as, libertando-as, restaurando-as. Na linguagem bíblica, ele lhes leva o shalom — a bonita, completa e integrada salvação que só Deus pode produzir. Nesta seção, temos revisitado o chamado dos discípulos, reafirmando a nossa vocação para a relação com Deus (chamados para estar com Jesus), para pregar o evangelho (testemunhar sobre a palavra que dá sentido à vida), curar os enfermos (afirmar a restauração


que Deus opera em nossa vida) e expulsar os demônios (anunciando uma libertação que só Deus pode proporcionar e que restaura a nossa humanidade).¹ Quanto mais procuro vivenciar e entender essa vocação, mais me surpreende o quanto Deus vem ao nosso encontro nas áreas mais essenciais e carentes da vida: significado, pertencimento, saúde, liberdade e comunidade. É que Deus — que é um Deus de amor e, consequente-mente, de salvação — não nos traz aquilo de que não precisamos, mas vem ao nosso encontro nas áreas mais necessitadas da existência humana e comunitária. Hoje falamos em “missão integral” como um esforço por seguir o modelo de presença e intervenção de Jesus sem separar o testemunho cristão em pedaços que, juntos, não formem o quadro da profunda e completa

restauração humana que Deus dá. Não somos chamados a separar o que Deus juntou; e o que ele juntou se vê na própria criação do ser humano à

Nosso testemunho passa pelo desenvolvimento de uma relação que aponte para a intimidade com Deus e se estenda para o anúncio de um evangelho que dá significado à vida e esperança para o futuro

intimidade com Deus e se estenda para o anúncio de um evangelho que dá significado à vida e esperança para o futuro. Porém, ele acontece também pela intervenção restauradora e curadora na sociedade e na experiência de uma libertação que só Deus proporciona. Nosso testemunho se dá por meio da vida, do anúncio da Palavra, da experiência da cura restauradora e do sinal da libertação que ocorre no nome de Jesus. O testemunho se dá no seguimento a Jesus, que diz ao paralítico: “Levantese! Pegue a sua maca e ande”, mas também adverte: “Olhe, você está curado. Não volte a pecar, para que algo pior não lhe aconteça”(Jo 5.8, 14). Nota 1. Ver Marcos 3.13 e Mateus 10.1, entre outros textos.

sua imagem. Assim, nosso testemunho começa e termina com a nossa própria vida. Ele passa pelo desenvolvimento de uma relação que aponte para a

Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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V AMOS LER!

Do mais relutante ao mais

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incredulidade já ameaçou sua fé a ponto de quase torná-lo um cético? As promessas da luxúria já lhe acenaram com o convite para uma vida desregrada? Você já se sentiu quase prisioneiro da melancolia ou da depressão? O materialismo ou o racionalismo já ameaçaram sua firmeza na fé? O orgulho e o pedantismo já lhe pareceram naturais e apropriados? O escritor e crítico literário irlandês C. S. Lewis, citado por vários jovens que responderam à pesquisa “Juventude Evangélica: crenças, valores, atitudes e sonhos” como personalidade que apreciam (veja pág. 22), foi experimentado em todas essas coisas. Diferentemente da maioria dos biógrafos de Lewis, que falam de sua infância e logo pulam para sua conversão, David Downing, autor de O mais Relutante dos Convertidos, se detém em sua adolescência e juventude. Muitos jovens se identificam com Jack — apelido que ele mesmo se deu aos 4 anos de idade e como gostava de ser chamado. Os conflitos espirituais de Jack frente às diversas visões de mundo e às suas angústias pessoais lançam uma nova luz sobre os caminhos que muitos 58

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peregrinos trilham hoje. Sua jornada até a conversão e depois dela pode edificar os jovens que querem permanecer firmes na fé. Porém, Lewis não esconde as dificuldades. No dia que considerou ser o mais importante de sua vida (28 de setembro de 1931), ele se rendeu a Cristo e expressou tal decisão declarando-se “o mais relutante dos convertidos”. Após ter sido “vítima de uma doença espiritual prolongada”, ele encontrou a verdade na “antiga” fé de seus pais. Do seu incômodo “tagarela interno” (um auto-observador), que poderia tê-lo levado à insanidade, ele fez um aliado. Sua declaração sobre o livro Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz testemunha isso: “Alguns me elogiaram indevidamente supondo que minhas Cartas eram o fruto maduro de muitos anos de teologia moral e ascética. Eles se esqueceram de que há uma forma igualmente confiável de aprender como funciona a tentação. Meu coração — não preciso de outros — mostra-me a maldade dos ímpios”. A imaginação de Lewis, que o levava à fantasia e à curiosidade pelo oculto, foi combustível para seus livros de ficção. De sua tendência ao pedantismo e ao orgulho — até certo ponto compreensíveis para um jovem que foi um dos poucos a receber três notas


convicto dos convertidos máximas em Oxford — ele extraiu humildade e abnegação, tornando-se um dos mais ardorosos atacantes do pecado do orgulho. Sua tendência à melancolia e à introspecção foram autocensuradas. Ele passou a dedicar-se a uma vida que lhe impunha deveres e disciplina e a cultivar amizades sinceras. Mergulhar nas obras de Lewis é mais do que uma simples leitura. A sugestão é começar com Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz (best-seller internacional publicado em 1942 e que o levou a ser capa da revista Time) e a biografia O Mais Relutante dos Convertidos. Em seguida, o singelo Cartas a Uma Senhora Americana, que mostra um pouco da intimidade de Lewis (ele sofria de insônia, por exemplo). As Crônicas de Nárnia, a despeito de (ou justamente por) terem sido escritas para crianças, têm muito a dizer aos jovens e aos velhos, já que as escolhas das personagens são semelhantes àquelas que temos de fazer na vida. Cristianismo Puro e Simples, que originalmente eram palestras radiofônicas transmitidas pela BBC, dirigidas a jovens combatentes na

Segunda Guerra Mundial, é considerado uma introdução clássica à fé e prática cristãs. Surpreendido pela Alegria é o relato pessoal de sua conversão. O Grande Abismo, A Abolição do Homem, Milagres, Os Quatro Amores, O Peso de Glória e O Problema do Sofrimento também são livros importantes. Para quem prefere ter o melhor de Lewis em um único volume, a sugestão é o devocionário Um Ano com C. S. Lewis, que traz para cada dia um trecho selecionado de um de seus clássicos. Fala-se de Lewis como alguém que conseguiu mesclar bondade e grandeza, perspicácia de mente e sinceridade de coração. Sua passagem pelo ateísmo e por outras crenças e seu encontro com Deus lhe deram argumentos e esperança que fizeram dele o mais convicto dos convertidos. O teólogo Russell Shedd o considera “o maior apologista de todos os tempos”, e o papa João Paulo II o aclamou “como um defensor habilidoso da fé”. (No site www.ultimato.com.br/sites/ jovem você encontra a relação completa das obras de Lewis disponíveis em português.)

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H ISTÓRIA

Alderi Souza de Matos

Creio na comunhão dos santos A relevância primordial da igreja

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Jana Kollarova

ara um bom número de cristãos da atualidade, a igreja vem se tornando um conceito sem sentido. Muitos acreditam que é perfeitamente possível ser um cristão autêntico sem estar formalmente ligado a uma comunidade de fé, sem ter um compromisso de lealdade a um grupo específico de fiéis. A proliferação de cultos pela televisão contribui para isso. Uma pessoa ou uma família assiste ao evento eletrônico e acha que isso é suficiente, que já satisfez suas necessidades espirituais. Outros, por terem um entendimento igualmente pobre acerca da igreja, pululam de um grupo para outro, sempre em busca de novidades, sem estabelecerem laços estáveis e significativos com nenhum deles. No entanto, quando se olha para a história do cristianismo, verifica-se que durante muitos séculos os cristãos valorizaram imensamente a igreja. De fato, essa atitude de apreciação surge

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com os primeiros seguidores de Cristo, nos dias apostólicos. O Novo Testamento está repleto de alusões à “igreja”, muitas delas reveladoras do alto conceito que os primeiros crentes tinham sobre essa realidade fundamental, ainda que nem sempre fácil de definir. Em épocas mais recentes, todavia, tem se perdido esse consenso que existiu por tanto tempo sobre a importância primordial da igreja. Parte disso se deve à confusão reinante sobre a natureza e os propósitos desse valioso elemento da herança cristã.

Visível e invisível

Se historicamente tem predominado um consenso sobre a relevância da igreja, isso não significa que haja concordância quanto ao seu significado. Tradicionalmente, a teologia cristã tem entendido que a igreja pode ser apreciada desde duas

perspectivas distintas: uma exterior, palpável e visível; outra interior, espiritual e invisível. As tradições católica romana e ortodoxa grega têm dado maior ênfase ao primeiro aspecto; as confissões protestantes, ao segundo. No entanto, corretamente entendidas e relacionadas, as duas dimensões são importantes e necessárias. O primeiro aspecto diz respeito à natureza essencial da igreja, que é espiritual, apontando para o relacionamento concreto, porém misterioso e transcendente, entre o Salvador e os que a ele estão unidos pela fé. Cristo, em sua graciosa obra de reconciliação, é a pedra fundamental da igreja. A segunda perspectiva nos fala dos elementos estruturais e organizacionais da igreja, com seus líderes, cerimônias e locais de culto. O Novo Testamento dá clara prioridade ao primeiro aspecto, em especial por meio do riquíssimo conceito do “corpo de Cristo”. No entanto, fica claro que a igreja não poderia existir concretamente no mundo, na sociedade humana, sem elementos externos que dessem expressão às realidades internas. A questão é como se estabelece o adequado equilíbrio entre as duas dimensões.


Ministros e fiéis

Uma discussão paralela que atravessa os séculos é sobre onde está localizada primariamente a igreja: no clero, a classe ministerial, ou nos fiéis, o povo cristão. Novamente, o peso da evidência do cristianismo apostólico pende para a comunidade de fé como a principal definidora da igreja. Como afirma Roger Olson, um historiador da teologia, “a igreja é o povo de Deus, fundada pelo próprio Cristo para ser a comunidade do Espírito e a antecipação do seu reino futuro”. É óbvio que o ministério ordenado é importante: o próprio Senhor concedeu à sua igreja “apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres”. No entanto, esses líderes não são em si mesmos a igreja — eles fazem parte da igreja ao lado dos demais fiéis, devendo exercer os seus ofícios para a edificação do corpo de Cristo. O Credo Apostólico é um testemunho valioso sobre o sentido mais profundo dessa realidade quando, após referirse ao Espírito e à Igreja, menciona a “comunhão dos santos” como um

As formas e expressões exteriores da igreja somente são legítimas na medida em que manifestam com fidelidade a natureza espiritual da comunidade cristã artigo fundamental da fé. A communio sanctorum — o vínculo de convicções compartilhadas, solidariedade e amor que caracteriza os verdadeiros cristãos — só pode ser produzida pelo Espírito Santo e se constitui na expressão mais sublime e profunda do que é a igreja. Apontam nessa direção as principais metáforas aplicadas pelo Novo Testamento à comunidade cristã, tais como família, rebanho e edifício de Deus.

Marcas distintivas

O Credo “Niceno”, formulado pelo Concílio de Constantinopla no ano 381, atribuiu à igreja quatro famosos qualificativos: una, santa, católica e apostólica. Em seu sentido mais pleno, ou seja, espiritual, há somente uma verdadeira igreja, o corpo místico de Cristo, a comunhão de todos os que nele creem em todo o mundo. Essa comunhão, embora se expresse em formas exteriores, ao mesmo tempo as transcende. A igreja é santa, isto é, separada para Deus a fim de ser o lugar de sua habitação na terra. Essa santidade se expressa não somente na conduta ética, mas também por seu foco espiritual em Deus e unicamente nele. A catolicidade da igreja significa que ela existe acima das barreiras de etnia, nacionalidade e cultura. Confissões particulares, organizações e congregações locais são manifestações da igreja universal, mas nunca a própria igreja. Seu valor está no serviço a Cristo como parcelas do seu corpo mais amplo. Por fim, a igreja é apostólica, ou seja, está em continuidade com a fé e a experiência dos apóstolos de Jesus Cristo, e só se faz presente quando o evangelho proclamado pelos apóstolos é preservado e pregado com integridade. Seguindo o pensamento de João Calvino, a tradição reformada fala das “marcas” pelas quais a igreja visível pode ser reconhecida como verdadeira. Elas não simplesmente descrevem a igreja ou apontam para ela, mas possuem um caráter mais dinâmico, constitutivo. A verdadeira igreja está presente quando nela, em primeiro lugar, ocorre a legítima pregação da Palavra. A fidelidade e submissão à Escritura é uma característica essencial da igreja. A outra marca distintiva e fundamental é a correta administração dos sacramentos claramente instituídos por Cristo, que são o batismo e a Ceia do Senhor, testemunhos valiosos da sua salvação.

Conclusão

A despeito de toda a ênfase dada aos aspectos espirituais e interiores da igreja, não se deve desprezar ou subestimar a sua dimensão visível e estrutural, indispensável na vida em sociedade. Extremamente informal nos seus primeiros tempos (como era

A igreja não poderia existir concretamente no mundo, na sociedade humana, sem elementos externos que dessem expressão às realidades internas de se esperar), o cristianismo assumiu crescente complexidade institucional ao longo dos séculos. Existe um lugar legítimo para o desenvolvimento histórico na vida da igreja, visto que a história humana não é estática, mas dinâmica. Sem um ministério qualificado e reconhecido, sem atividades formais de culto e formação cristã, sem o exercício legítimo da autoridade e da disciplina, entre outros fatores, a igreja simplesmente não poderia existir neste mundo. Todavia, tendo dito isto, é imprescindível acrescentar que as formas e expressões exteriores da igreja, quaisquer que sejam, somente são legítimas na medida em que manifestam com fidelidade a natureza espiritual da comunidade cristã, o seu compromisso primordial com Cristo e sua palavra, a comunhão de fé e amor entre os discípulos do Senhor. Que os cristãos aprendam a valorizar a igreja, aquela que, no dizer dos reformadores do século 16, é nossa “mãe e mestra”, pois nos gera espiritualmente pelo anúncio do evangelho e nos alimenta e conduz pelos caminhos de Deus ao longo da vida, até a consumação. Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil. asdm@mackenzie.com.br Setembro-Outubro, 2010

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E N TRE V IST A

Odayr Olivetti

Fundamentalistas e modernistas Os rótulos podem refletir conceitos subjetivos do rotulador — e não os conceitos das pessoas, das igrejas e dos movimentos rotulados

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exercido um longo ministério como missionário no Brasil e no Chile, professor de seminário, pastor e fundador de igrejas e escritor. Fundamentalismo é sinônimo de conservadorismo?

Popularmente sim; tecnicamente não. Por definição, o fundamentalismo resultou de esforços para defender e sustentar as verdades fundamentais da fé cristã. Por fim veio a identificar-se com um movimento agressivo na defesa da sua posição. Conservadorismo é termo pejorativo para designar os que, na defesa da sua posição, opõem-se a posturas inovadoras. Como acontece em todos os movimentos, existem os extremistas entre os fundamentalistas e os conservadores. Para evitar que me

Arquivo pessoal

O

reformador francês João Calvino tem uma dívida de gratidão com o pastor brasileiro Odayr Olivetti, pois foi este quem traduziu para o português, da edição original francesa de 1541, os quatro volumes de As Institutas de Calvino. Além deste, Olivetti já traduziu mais de 130 livros, de autores como Charles Spurgeon, Martyn Lloyd Jones, John Stott, J. R. Beeke, entre outros. É presidente da Comissão de Tradução da Bíblia na Nova Versão Internacional (NVI). Nascido em Rio Claro, SP, casado com Azená Valim Olivetti, pai de três filhos e avô de seis netos, Odayr Olivetti, 82 anos, tem

identificassem com extremistas, adotei a partir da década de 1960 a expressão moderação dinâmica — que evita os extremos e a pecha de estagnação. Qual é o antônimo de fundamentalismo?

O antônimo de fundamentalismo é modernismo, em suas variantes decorrentes de circunstâncias variantes.


Não uso os termos liberalismo, liberais (senão entre aspas), porque o termo liberal é altamente positivo e salienta largueza de visão e liberdade de pesquisa. Sobre isso tive experiência igual, em ocasiões diferentes, com dois líderes cristãos, um americano e um alemão. O que digo de um vale para ambos: Quando eu disse que tinha a impressão de que os modernistas eram mais fechados que os presbiterianos, sendo que na biblioteca do Seminário Presbiteriano do Sul havia obras de todos os naipes doutrinários e teológicos à disposição de quem os quisesse utilizar, ouvi isto: “Você tem razão. No seminário em que estudei não havia essa liberdade. Só fui conhecer posições não ‘liberais’ depois que saí do seminário”. O americano tinha estudado no Union, de Nova York; o alemão, num seminário da Alemanha.

Entre o fundamentalismo exagerado e o modernismo extremo, considero este mais desastroso Os reformados que fizeram em pedaços as imagens sacras em Zurique, na época de Zuínglio (1523), podem ser chamados fundamentalistas?

Não acredito que esse qualificativo seja próprio nesse caso. Eles eram

adeptos de um movimento de reforma. Saíam de um ambiente inquisitorial e não tinham aprendido ainda, nem o espírito do cristianismo maduro, por um lado, nem a arte de fazer média, por outro. Parece que algumas denominações protestantes brasileiras (Igreja Presbiteriana Fundamentalista, Igreja Batista Fundamentalista) se orgulham do nome fundamentalista. O que acha?

Entendo que se orgulham (os que de fato se orgulham) porque se consideram defensores das verdades fundamentais do cristianismo, sempre atacadas por falsos mestres e por cristãos superficiais. O que é grave é que, muitas vezes, tanto o conservador como o fundamentalista defendem pontos que consideram bíblicos, mas que são matéria de interpretação, nem sempre válida. Há algo positivo no modernismo, impropriamente chamado liberalismo?

Modernistas eruditos têm feito, por exemplo, contribuições válidas nas áreas da metodologia epistemológica e da hermenêutica. É possível aproveitar elementos de suas investigações e teses, sem adotar plenamente a posição modernista. Há algo positivo no fundamentalismo? Seu apego fervoroso à Escritura

Sagrada como a Palavra de Deus é inspirador e desafiador.

Ortodoxia sem ortopraxia cristã não é ortodoxia cristã; ortopraxia sem ortodoxia cristã não é ortopraxia cristã O liberalismo ético e teológico seria uma reação ao fundamentalismo, e este, por sua vez, seria uma reação ao liberalismo?

Num sentido amplo, o espírito modernista sempre reagiu e reage contra posturas doutrinárias e eticamente firmes e rigorosas; e o genuíno espírito fundamentalista sempre reagiu e reage contra posturas que refletem conceituação doutrinária e ética de duvidosa fundamentação bíblica. Em 1950, para evitar uma cisão, a Igreja Presbiteriana do Brasil, frente às correntes liberal e fundamentalista, assumiu oficialmente a posição de equidistância de ambos os movimentos. A equidistância seria uma covardia, uma fuga do problema?

Consideremos alguns pontos: (1) A equidistância pode ser motivada por diferentes perspectivas ou

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ênfases. Exemplos: (a) covardia; (b) neutralidade; (c) valorização de aspectos dos diferentes movimentos, sem plena aceitação de todos os aspectos desses movimentos. Sempre entendi a posição da Igreja Presbiteriana do Brasil no sentido do item ‘c’. (Reconheço que nem todos os líderes tinham o mesmo nível de compreensão daqueles a quem atribuo a referida posição).

Pessoas se distanciam das igrejas na proporção em que estas se distanciam da Palavra. A superficialidade do conhecimento da Bíblia gera superficialidade e irrelevância nos crentes e nas igrejas (2) Em Porto Alegre, em 1957, quando propus ao Conselho de Pastores uma campanha simultânea de evangelização com troca de púlpitos, os representantes das denominações mais “liberais”, fortes portavozes do Concílio Mundial de Igrejas, disseram que teriam que receber autorização das

autoridades eclesiásticas superiores para tal realização. E não se dispuseram a buscar essa autorização. O ecumenismo de cúpula não soube aproveitar uma expressa concretização do verdadeiro espírito ecumênico — e sufocou algo que, sem dúvida, teria tido forte impacto na capital gaúcha. Muitas pessoas perdem a fé por causa do liberalismo teológico e muitas outras nunca aceitam o evangelho, escandalizadas com atitudes extremas em sentido contrário. Qual das duas posições é mais desastrosa para o reino de Deus?

Todo extravio da Palavra de Deus, por indivíduos e por igrejas, é desastroso. Judeus havia que corriam Seca e Meca para fazer um prosélito, e depois o faziam mais profundamente filho do inferno; os sacerdotes saduceus, racionalistas ou materialistas, tiveram grande influência sobre a condenação de Jesus; os fariseus, que queriam ser vistos como zelosos da lei, invalidaram a lei de Deus com as suas tradições — às quais na prática davam mais importância do que à lei de Deus. Em meus 82 anos de vida e 56 de ministério, tenho visto pessoas recusarem a igreja, e crentes fugirem de suas igrejas por

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vários motivos alegados, como, por exemplo, estes: (a) ranzinzice, em nome de zelo pela doutrina e/ ou pelos costumes; (b) relaxamento doutrinário e ético, em nome da liberdade cristã e de conceitos chamados “liberais”; (c) escândalos. Entre o fundamentalismo exagerado, rigorista, e o modernismo extremo, considero este mais desastroso. Cito resumidamente três casos ilustrativos: A esposa de um missionário que foi professor no Seminário Presbiteriano do Sul disse à minha esposa, então jovem: “Não diga a ninguém, mas eu não creio na divindade de Cristo”; A Igreja Presbiteriana do Chile, que até o fim de 1963 era um presbitério de um sínodo do norte dos Estados Unidos (reconhecidamente “liberal”), sofreu tremenda divisão, perdendo a maior parte dos membros mais ativos e mais consagrados. Fato publicado por uma revista teológica de Portugal da época: Paul Tillich, mente luminosa, certa noite foi convidado para uma recepção em sua homenagem. Em certo momento, um dos líderes do “ateísmo cristão” discursou e, a certa altura, disse a Tillich: “Nós, cristãos ateus, somos seus filhos espirituais”. O choque sobre Tillich foi tão forte que ele se sentiu mal, sua esposa o levou para casa e ele morreu naquela mesma


não representando a generalidade. Segundo: A igreja deve empenhar-se em não refletir nem momentos nem movimentos, quer teológicos quer ético-político-sociológicos. É preciso Ortodoxia pode caminhar sem um consciente e constante empenho ortopraxia e vice-versa? em promover o retorno à preciosa Ortodoxia sem ortopraxia cristã não fonte da verdade — a Palavra de Deus. Esta, não é ortodoxia cristã; vista pelo prisma ortopraxia sem do pensamento ortodoxia cristã O desafio que as humano. Este não é ortopraxia igrejas devem encarar é que deve ser cristã. A fé sem visto pelo prisma obras é morta; com seriedade e da Escritura as obras sem a com profundidade é: Sagrada. De fé genuína, no Onde está a igreja de modo geral, mínimo, não Cristo? pessoas se são cristãs. As distanciam que o mereçam, das igrejas na podem ser proporção em avaliadas dentro que estas se distanciam da Palavra. da perspectiva da graça comum ou A superficialidade do conhecimento geral. da Bíblia gera superficialidade e A tentação da prepotência e da irrelevância nos crentes e nas igrejas. soberba teológica é mais frequente Cristo disse que sua igreja não no fundamentalismo ou no será derrubada por Satanás. Mas o liberalismo? desafio que as igrejas devem encarar Primeiro: No ambiente brasileiro, com seriedade e com profundidade dentro do meu campo de é: onde está a Igreja de Cristo? experiência, não vejo diferença entre ambos no referido aspecto. Há Que perigos há na colocação simplista de rótulos em pessoas, casos de prepotência e de soberba igrejas e movimentos? teológica nos dois movimentos. Alguns dos perigos que vejo são os Mas, quanto posso julgar, são casos seguintes: (1) Injustiça: Geralmente, isolados nos dois movimentos, noite. Certamente ele não esperava que as suas ideias levassem ao triste resultado de produzir esdrúxulos “cristãos ateus”!

os rótulos expressam ou realçam aspectos, não a realidade integral. (2) Erro: Os rótulos podem refletir conceitos subjetivos do rotulador — e não os conceitos das pessoas, das igrejas e dos movimentos rotulados. (3) Generalização: Características particulares podem ser indevidamente estendidas ao todo. Frente ao fundamentalismo e ao liberalismo, que rumo a igreja brasileira deve tomar?

Graças a Deus, ainda vejo irmãos e irmãs em Cristo que longe estão de merecerem as críticas que em geral os crentes e as igrejas recebem. Eles reconhecem que são pó, acolhemse à infinita misericórdia de Deus e procuram crescer na graça e no conhecimento do Senhor Jesus Cristo, olhando com fé e amor para ele, o autor e consumador da fé. Liberal e fundamentalmente, a Igreja, o corpo de Cristo, precisa dar menos atenção aos críticos e mais atenção aos pregadores e mestres que clamam contra o pecado corruptor que assola o mundo e proclamam a “graça maravilhosa”, as “doutrinas da graça”, o bendito evangelho da graça. É pelo evangelho que o Espírito Santo, não apenas cria religiosos, mas transforma inimigos de Deus em seus amigos e coloca “a vida de Deus na alma do homem”.

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P ONTO

FINAL

Rubem Amorese

O Livro de Eli T

alvez ele não esteja entre os melhores filmes que assisti nos últimos meses. Porém, fui atraído pelo clima pós-apocalíptico mostrado no trailer. Sou fã dessas histórias que imaginam a vida após um hipotético holocausto nuclear. O exterminador do futuro é um bom exemplo. Acabou virando uma trilogia. Talvez O livro de Eli não tenha fôlego para tanto. Mas traz, quase escondida, uma mensagem interessante: o poder “civilizador” de certo livro. Eli (Denzel Washington) é um guerreiro andarilho que cruza a paisagem devastada da América do Norte, percorrendo estradas dominadas por gangues que matam as pessoas por um copo d’água ou por sapatos. Cenas de barbárie e selvageria: hordas de seres moribundos ou mutantes que pilham tudo o que encontram de valor e lutam entre si para sobreviver. Impera a lei do mais forte. Em seu obstinado percurso, nosso herói esconde um livro que carrega consigo. O livro é tido, ao longo do enredo, como a esperança de um futuro para a humanidade; Eli o lê, diariamente, há trinta anos. Movido por seu compromisso e guiado pela crença em algo maior do que ele, Eli faz o que é preciso para sobreviver e seguir adiante. Sabe-se que o próprio Denzel desempenhou as façanhas físicas de seu personagem, dispensando dublês. A fotografia é muito boa; meio escurecida para combinar com a história. Nesse ambiente, o vilão maior, Carnegie (Gary Oldman), chefe de uma cidadela de ladrões e pistoleiros, surge como alguém que compreende o poder do livro que Eli carrega e que fará de tudo para se apoderar dele. Eis um bom comentário que encontrei na internet: “No começo, o roteiro atrai pela excentricidade desse

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futuro pós-apocalíptico; depois, o espectador é agarrado pela rivalidade criada entre o protagonista e o vilão. Mais para o final, há uma grande surpresa que fará alguns quererem assistir novamente ao filme”. Vou parar por aqui, para não ser estraga-festa. Não é preciso fazer uma leitura teológica da história. Ela mesma se apresenta escatológica. Só o fato de o personagem principal se chamar Eli e transportar o que, no final do filme, se confirmará como sendo o último exemplar da Bíblia, já diz tudo. É interessante, no entanto, a percepção do vilão de que o livro conteria uma mensagem capaz de reerguer a humanidade aos níveis civilizatórios perdidos. Nele estariam escritas as palavras necessárias para tirar os homens da obscuridade moral e do caos social em que foram lançados. Carnegie pretende usar as palavras mágicas para tornar-se inaugurador de uma nova raça humana e reorganizar — em seu proveito — os sobreviventes da catástrofe mundial. Detalhes finais: lendo o livro todos os dias, por trinta anos, Eli conseguiu decorá-lo. Será que o autor está pontuando sobre o valor da memorização bíblica? O filme termina com a recriação das circunstâncias em que Gutenberg imprime seu primeiro livro. Claro, o livro de Eli. Saí do cinema com um versículo na cabeça: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho” (Sl 119.105). Amém. Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia e Fábrica de Missionários — nem leigos, nem santos. ruben@amorese.com.br


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