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Quentin

Extrato da cultura pop

Dezembro/2011 Ano I - Ed. 01

Millenium

* O novo filme de David Fincher * As mulheres de Larsson * A trilogia de sucesso

fant谩sticas hist贸rias dos escritores brasileiros + Conto de Raphael Draccon


Vou-me Embora pr Vou-me embora pro Cinema Lá sou amigo do lanterninha Lá tenho o filme que eu quero Na sala que escolherei Vou-me embora pro Cinema Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que Don Vito Corleone Mafioso e poderoso chefão Vem a ser contraparente Do padrinho que nunca tive E como farei ginástica! Correrei de robôs gigantes Montarei em X-wings Subirei nas árvores dos Na’Vi Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito em pedras irreais da Matrix Mando chamar o Oráculo Pra me contar as histórias Que no tempo de outro escolhido O Arquiteto vinha me contar Vou-me embora pro Cinema


ro Cinema

Adaptado de Manuel Bandeira

No Cinema tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente admirar

E quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar — Lá sou amigo do lanterninha — Terei o filme que eu quero Na sala que escolherei Vou-me embora pro Cinema.


na sala de justiça...

Enquanto isso Carta ao Leitor

B

em vindos à primeira edição de Quentin Extrato da cultura Pop, feita pra você que ama o assunto e não quer saber somente quando será o próximo show, mas exercitar o cerébro com reflexões. O objetivo primordial era divertir você! Tudo com muita informação, claro. Nosso nome vem do diretor Quentin Tarantino, filho pródigo da cultura pop, com filmes recheados de referências e subversão do próprio gênero. Tudo o que admiramos no diretor e as mais recorrentes características de sua filmografia foram utilizadas como inspiração para a HQ que fecha a revista. Nesta edição você poderá viajar para as terras da literatura fantástica brasileira, passando pela Suécia com as adaptações da Trilogia Millenium, indo até Bruxelas para se aventurar com Tintin e voltando ao passado da década musical de 80.

Mais próximo à nossa realidade, mostraremos pessoas comuns que se vestem de heróis e uma história de amor, entre muitas outras matérias. Você irá notar que as fotos produzidas por nós são diferentes das convencionais, com uma ou outra granulação, cor saturada e desfoque. Isso porque utilizamos a lomografia, um estilo livre de fotografar. Os símbolos que vocês encontram em várias páginas (inclusive em nosso perfil, abaixo) são Códigos QR, que podem ser lidos com seu smartphone. É só baixar o aplicativo (é de graça!) e ver trailers, clipes e muito mais. Esperamos que se divirtam e tenham uma ótima leitura!

Da Redação

Clube das Cinco

Aline

Fátima

Expediente: A revista Quentin é o projeto experimental das alunas Aline Guevara, Fátima Leite, Janaína do Amaral, Natália Lins e Thaís Colacino, da Faculdade de Jornalismo da Pontíficia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), orientado pelo professor Dr. Celso Bodstein. Reportagem e Edição: Aline Guevara (lineguevara31@hotmail.com), Fátima Leite (fatima_ftm@yahoo.com.br) ,

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Janaína

Natália

Janaína do Amaral (janaina037@gmail. com), Natália Lins (natalya_mbl@hotmail. com) e Thaís Colacino (thaiscolacino@ gmail.com Diagramação: Janaína Amaral e Thaís Colacino Fotografia: Aline Guevara, Fátima Leite, Janaína Amaral, Natália Lins e Thaís Colacino Ilustrações: Domenica Gamboa (memo_ nalle18@hotmail.com); Kamila Dalmédico (k.soutodal@gmail.com); Guilherme Nako

Thaís

(gun07_4@hotmail.com); Marilia Sucena (mahhhh09@gmail.com) Capa: Jésus Maia (jesus.c.maia@gmail.com) HQ: Rafael Ghiraldelli (ghiralds@gmail.com) Cor: Letícia Xavier (letiicia.sx@hotmail.com) Periodicidade: Mensal Tiragem: 15 exemplares Gráfica: RG Print


Achados & Perdidos As aventuras de Hergé 13 O mal com o mal será combatido 28

Ela era de Capricórnio e Ela tinha 26 71

A legião de titãs dos anos 80 54

A estrada de tijolos amarelos 76

Super Heróis da vida real 62

+

Artigos

As pessoas não mudam 18

60 No limite do Pop

Não leve tão a sério 25

42 A moda à la Gaga

Jogo de aprender 68

36 Donnie, Frank e as viagens no tempo

Moda Surreal 38

34 Das cinzas

Um conflito que começa com Y 66

Seções 7

88 QuentinDica

Uma mente brilhante 6

86 Cool Cool Cool

Kaleidoscópica

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A outra face

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Pulp

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Uma mente brilhante

por

“O mundo real é igual a tv, só que é menos colorido e as pessoas são mais feias”

“Ninguém paga um centavo pelos meus pensamentos”

“Faça o que tem que fazer e deixe os outros discutirem se é certo ou não”

“Eu já não sei mais do que eu quero! Eu gostava mais das coisas quando eu não as entendia”

“Meus pais fazem as regras, e eu os faço se arrependerem de ter feito um filho”

“Tenho a impressão que a sociedade tenta nos deixar desconfortáveis com o que temos e inseguros quanto quem somos. Assim movimenta a economia” ”A vida é curta demais pra eu tentar agradar cada idiota que pensa que sabe como eu deveria agir” “Acho um desperdício ter que estudar em dias belos e ensolarados” “Dizem que o mundo é um palco, mas obviamente a peça não foi ensaiada e todo mundo está esquecendo suas falas”

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A outra face

artista multifacetado Confira a entrevista com o ilustrador Marcelo Matere

Texto: Natália Lins Fotos: Aline Guevara, Fátima Leite, Janaína Amaral, Natália Lins e Thaís Colacino

“N

ossa, adorei, está aprovado!” Essa é a frase que mais agrada aos ouvidos do paulistano Marcelo Matere. Ilustrador desde os 20 anos, aquele que na escola tinha fama de nerd e hoje é um dos mais importantes ilustradores do país. Entre suas várias produções encontra-se a febre: Transformers. Uma paixão que surgiu antes mesmo de saber o que os traços significavam, seus primeiros desenhos foram feitos com palitos de sorvete na areia aos quatro anos. Sua inspiração era o personagem Popeye, de quem era fã na época. A partir disso nunca mais parou. Mas seu mundo não se resumia apenas em desenhar. Na adolescência entre seus esportes favoritos estavam o basquete, o futebol e, é claro, o videogame (esse ele sempre praticou). Com a chegada dos gêmeos Théo e Catarina há um ano e oito meses, ele precisou distribuir melhor as horas do seu dia. Hoje ele voltou a jogar futebol, porém só com o filho. Além disso, ainda encontra tempo para ver desenhos e filmes. Aos 33 anos prova da fama internacional como ilustrador da fabricante de brinquedos norte-americana Hasbro, e garante que apesar da satisfação com o resultado do seu trabalho, ainda almeja realizar muito mais, como você vai descobrir no decorrer da nossa entrevista!

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Quentin: Quais suas preferências musicais? Marcelo Matere: Eu sempre fui um cara meio eclético. Eu peguei a fase da década de 1990, dance-music, essas coisas. Um pouco de rock agora. Ultimamente eu gosto de escutar bastante jazz e música clássica pra desenhar, ajuda na concentração. Eu curto bastante The Killers, mas eu vario bastante, pagode às vezes, depende do momento. Q: Na TV, o que você gostava? MM: Popeye, mas também era muito fã de He-Man, Comando em Ação, Transformers, ThunderCats. Esses desenhos da década de 80, tudo era referência. Eu tinha muitos álbuns desses desenhos, comprava papel carbono e copiava. Q: Tem um estilo de filme que você gosta mais? MM: Eu gosto bastante de filme de ação e um pouco de romance. Eu uso muito como referência pra desenhar histórias em quadrinhos. Quando a Hasbro pede o desenho eles falam: é uma coisa assim com uma pegada meio Matrix, misturada com Homem de Ferro. Outro dia eu fui fazer uma história em quadrinhos que a referência era Blade

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Runner. Assisti quando eu era moleque o filme, então comprei o DVD para ver de novo e pegar o espírito. Eu fui ver Thor, porque eu tive que fazer um trabalho de brinquedos para Marvel pela Hasbro, então tive que pegar a referência. Q: Tem algum filme que te marcou? MM: Como fã, eu diria que foi o primeiro Transformers. Ele é meio simbólico por vários motivos. Eu participei da primeira reunião que fizeram pra vender o filme. Eu fiz um desenho e depois, fui convidado para ver a pré-estreia numa convenção nos Estados Unidos. Então, profissionalmente, foi um filme legal. Outro filme que eu gosto é O Senhor dos Anéis. Eu li o livro e quando vi o filme eu fiquei louco. Quero comprar o Blu-ray agora, porque é muito bom. A carga dramática e de ação é uma combinação legal, transcreveram muito bem o livro. Q: Uma coisa que te deixa irritado? MM: Quando eu perco alguma coisa. Por exemplo, às vezes preciso usar uma caneta e não a encontro no meio da bagunça, isso me deixa irritado. E pressão do editor. E quando o cliente volta muito desenho. O cliente não sabe o que quer logo de cara, não me


pede, então vai refazendo, volta três, quatro vezes. Teve até alguns que cheguei a falar: Ah, então deixa vai, eu te devolvo o dinheiro. Porque eu faço desenhos pra fãs e eles querem que a gente desenhe o personagem deles. Só quando olham o desenho que falam: Ah, não era isso que eu queria... Q: Você leu Guerra dos Tronos? MM: Não, poxa, eu estou vendo todo mundo falando. Estou querendo ler esse. É o próximo da lista... Assim que eu retomar as atividades normais de ser humano (risos). Quando eu fui lá pra fora os designers com quem eu trabalho perguntaram se eu havia lido. Q: O que é concept art? MM: Concerp art é um desenho, seja ele em 2D ou 3D, que possa ser reproduzido fora do papel, algo que vai ser viável fora dele, não são simples desenhos. Então é um guia visual para as mais diversas criações, como brinquedos, personagens, cenários, videogames, entres outros. Q: Como é seu processo de criação? MM: Vem de vários lugares diferentes, de filme, de revista, de livros. Geralmente, quando o pessoal (da Hasbro) me manda o trabalho, eles já me mandam a referência fotográfica.

Então eu faço o personagem numa pose de ação para a embalagem. Mando pra aprovação e quando eles aprovam o rascunho, eu passo para o lápis. Geralmente quem tem que aprovar é o marketing. Com página de quadrinhos é basicamente a mesma coisa. Quando querem criar brinquedo eles falam: Ah, a gente quer criar uma linha nova, e estamos querendo um primeiro visual dele, aí me passam várias imagens e falam: vê o que você consegue fazer com isso. Q: Você teve apoio da família quando optou por essa profissão? MM: No começo era um hobby. Teve uma época em que não incentivavam muito, naquela fase em que você está terminando o colegial... Vai fazer faculdade do quê? Vai trabalhar com o quê? Fui tentar ser vendedor de loja, a mulher viu o meu perfil e falou: O quê você está fazendo aqui? (risos). Daí coincidentemente um amigo meu da faculdade me indicou para trabalhar na grife da 89 Rock, trabalhei lá dois anos fazendo estampa de camiseta. Naquela época era diferente, hoje a profissão de ilustrador, trabalhar com desenhos está mais reconhecida. Uma cena muito marcante no

Fui tentar ser vendedor de loja, a mulher viu o meu perfil e falou: O quê você está fazendo aqui? (risos) 9


começo foi quando meu pai viu meu primeiro desenho impresso e começou a chorar. Tinha entendido. Hoje ele não está mais aqui, mas naquele momento eu percebi que eles não me apoiavam porque não entendiam. Eu cheguei a desenhar bordado! Para costureiras da Barra Funda. Eu ficava desenhando flor no CorelDraw.

Desenhei o Bumblebee em uma pose de ação, porque na época ele era um saco de pancadas, derrotado, hoje ele é um cara que bate em todo mundo.

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Q: Quais artistas você admira? MM: Ah, tem vários. Tem um que chama Zheng He, ele é o concept artist que trabalhou com Star Wars, nos últimos três filmes. Ele tem um concept muito legal. Tem o Ben Procter, que fez os primeiros concepts para os filmes dos Transformers. Tem também o Andy Park, que desenhava história em quadrinhos de Tomb Raider. Tinha um estilo muito quadrinhos e mudou para concept art. Ele está fazendo algo mais realista, meio pintura clássica. Estou querendo mudar um pouco também, pra tentar coisas novas. Eu trabalho com Transformers há quase dez anos. Q: E o trabalho que você desenvolve para o público infantil? MM: Começou com Transformers. O editor do livro perguntou se eu não queria fazer um teste para o filme Bee Movie, que sairia logo depois. Eles iriam precisar de alguém que fizesse o desenho a lápis. Esse daí foi complicado, porque os artistas da DreamWorks

que estavam aprovando, então foi e voltou umas quatros, cinco vezes. Uma coisa legal é que se tratava de uma crítica construtiva. Então, depois de aprovado, o mesmo editor perguntou se eu não queria fazer Kung Fu Panda. Fiz outro teste e também aprovaram. Depois fiz o Homem de Ferro, 1 e 2, e assim eu descobri essa parte mais infantil. Q: Como você entrou para a Hasbro? MM: Na época, 2002, com 24 anos, eu trabalhava em um site infantil que se chama Turma do Chiquinho, que hoje chama Turma do Saber. Eu era diretor de arte e fazia animações flash. Era um site infantil que falava sobre ciência, natureza, tecnologia. Comprei alguns quadrinhos e o box da primeira temporada de Transformers, que assisti inteiro no final de semana. Naquela época eu tinha tempo (risos). Desenhei o Bumblebee em uma pose de ação, porque na época ele era um saco de pancadas, derrotado. Hoje ele é um cara que bate em todo mundo. Postei num fórum de fan arts, em um dos maiores sites de fãs dos Transformers dos EUA e foi o desenho que mais teve views na semana. Tinham pessoas comentando tudo, fiquei empolgado e desenhei outro personagem. Eu só pegava os personagens secundários e desenhava no estilo que estava sendo usado na época


e depois descobri que era o estilo das embalagens dos brinquedos. Isso chamou a atenção de um designer da Hasbro Works que me mandou uma mensagem privada, pelo fórum, perguntando se não gostaria de fazer um teste para um desenho que seria usado no site. Eles já tinham os desenhos dos robôs grandes, mas dos pequenos não, e sempre atrasavam porque eram dos mesmos artistas que desenhavam as histórias em quadrinhos. Desenhei, mandei o rascunho e depois de aprovado disseram que me pagariam pelo desenho. Aí, toda semana eu perguntava se tinha trabalho, se queriam alguma coisa. E assim começou. Q: E como você se sente realizando projetos internacionais? MM: Eu me sinto muito feliz e até abençoado, porque às vezes eu acho que é uma coisa divina. Só caiu a ficha que eu estava trabalhando para fora (exterior) quando recebi o pagamento e a caixa de brinquedos! (risos) Mas me sinto bem realizado, porque descobri outro ramo que eu posso utilizar a arte, videogame, livro infantil... E é tão prazeroso quanto trabalhar com quadrinhos. Abriu um leque, dá para fazer várias coisas. Estou até voltando a fazer estampa de camiseta para o site Jovem Nerd. E com a Hasbro eu consigo trabalhar com a Marvel também. Outro dia apareceram coisas de

Homem-aranha para fazer, coisas de Os Vingadores... O legal é que eu vejo tudo antes (risos). Seis meses antes eu já estou vendo tudo. Q: Você tem carinho especial por um personagem ou uma linha? MM: Ah, a Robot Heroes é muito simbólica pra mim, eu desenhei 99% da linha. Peguei uma série de personagens clássicos, também toda a linha do G.I. Joe. Poxa, G.I. Joe eu colecionava quando era criança, então vinha um personagem e eles falavam para fazê-los na versão infantil, eu pensava: Poutz, que animal! (risos). É uma piração você trabalhar com coisas que você brincava quando era criança, então é a parte legal do trabalho. É legal também você ver a reação das crianças. Fico perto das lojas vendo eles empolgados falando com seus pais sobre os brinquedos! Q: E tem algum novo projeto vindo por ai? MM: Tem sim, coisas que estou trabalhando agora, mas provavelmente será para o ano que vem. Para a Hasbro estou fazendo algumas coisas para Os Vingadores, Homem de Ferro, Homem-Aranha... Tem coisas que eles mesmos falam: Pode sair ou pode não sair, mas vamos fazer. Agora estou tentando trabalhar um pouco com o mercado interno, tentando abrir contatos com agências nacio-

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nais para diversificar um pouco. Eu quero voltar um pouco, estou muito lá fora (exterior). As pessoas começam a achar que eu só desenho Transformers, mas eu desenho outras coisas também. Há muitas coisas que são feitas aqui, por exemplo, o concept do Toddynho é todo feito aqui, por brasileiros.

Estou reparando que a Catarina curte mais desenho, quando passa desenho ela pira. [...] Ela gosta de desenhar também, acho que estou visualizando uma herdeira aí (risos).

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Q: Quais cursos são indicados para essa área de atuação? MM: Eu me formei em Desenho Industrial pela FAAP com especialização em projeto de produto. Tinha tudo a ver com criar brinquedos. Eu indico Desenho Industrial, acho bacana para quem quer trabalhar com concept. Tem alguns cursos no SENAC de videogame e algumas faculdades também estão com alguns cursos nessa linha. Eu acho que faculdade é legal fazer, mas paralelo a isso é bom fazer cursos, escolas de arte, academias em que você tem um contato com profissionais. Uma coisa complementa a outra. Na faculdade você faz uma rede muito legal de contatos, meus trabalhos todos foram frutos da faculdade. Quando sai abri um estúdio com uns amigos... Acabamos nos separando. Mas você cresce bastante na faculdade, e esses cursos te permitem ter contato com artistas que já estão no mercado. Q: Quantos idiomas você fala? Tem algumas coisas em japonês aqui... MM: Ah, isso é só referência. Eu leio alguma coisa, mas não falo nada, só o português e o inglês mesmo. Mas eu curto muito o Japão. Como Transformers sai muito no Japão e muitas coisas minhas são consumidas lá, eu comecei a pegar algumas coisas. Q: Tem alguma história engraçada? MM: Tem uma história legal do Bumblebee... Eu tinha vendido o desenho original em uma convenção e estava naquela fase de ser artista. Aí um fã da Austrália, que se tornou meu amigo, olhou pra mim e falou: Cara esse daqui não é aquele primeiro desenho

que você fez? Eu disse: É, esse mesmo! E ele: E você está VENDENDO esse desenho? E eu já arrependido disse: É... Tinha acabado de vender. Mandei um email para o comprador dizendo que aquele desenho tinha um valor simbólico pra mim e perguntei se ele poderia mandar o desenho de volta. Ele era da Irlanda e devolveu o desenho. Mandei enquadrar e mandei dois desenhos para ele depois. Q: Um sonho que ainda não foi realizado? MM: Acho que trabalhar com filme. Fazer concept de filme, de videogame. Eu queria evoluir o meu trabalho para isso, acho que esse é meu próximo objetivo. Eu queria fazer história em quadrinhos mensalmente, mas é uma coisa que eu não levo jeito, não tenho essa velocidade. Q: E a sua esposa, ela gosta dos seus trabalhos? MM: Ela gosta, mas às vezes ela não entende (risos). Ela fala que é muito robô, é muito igual, mas gosta. E as crianças agora estão gostando. Quando veem eles falam: robô, robô (risos). Estou reparando que a Catarina curte mais desenho... Quando passa desenho ela pira. O Théo não, ele gosta mais de futebol, bola, essas coisas. Ela gosta de desenhar também, acho que estou visualizando uma herdeira aí (risos). Q: Qual a dica para os iniciantes? MM: Hoje em dia o que eu tenho visto é o pessoal iniciante achando que já sabe bastante, pelo fato de muito parente elogiar. É preciso ter humildade e saber reconhecer que sempre pode melhorar. Meu desenho foi melhorando ao longo de 10 anos. Quanto mais você desenha melhor você fica, mas você evolui. Então os iniciantes devem colocar na cabeça que sempre podem aprender mais, ter contato com profissionais, ver outros desenhos e, acima de tudo, ter humildade e vontade de evoluir.


vs. The World

As aventuras de Hergé Desenhista belga garantiu entretenimento e discussão para gerações Foto: Reprodução

O belga criou Tintim em 1929, e o desenhou até sua morte em 1983

Texto: Janaína Amaral

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eorges Remi. Ao ouvir esse nome poucas pessoas irão associá-lo ao personagem Tintim, já que o autor da obra ficou conhecido por Hergé, a transcrição literal de suas iniciais, R e G. Para criar o rapaz, o desenhista buscou inspiração num personagem que já utilizava, o escoteiro Totor. Hergé mudou o nome, deu-lhe a profissão de repórter, um topete característico e um cãozinho, o Milou. E assim nasceu o jornalista aventureiro que virou febre em toda Europa e no mundo. Desde o seu início, Tintim caracterizou-se como um ser inquieto e talvez aí resida boa parcela de seu sucesso. Apesar de ter sido criado há mais de oitenta anos, Tintim é ícone até hoje. Foram 23 álbuns que vendem cerca de 10 milhões de cópias por ano, em 45 línguas. Além dos quadrinhos, o personagem conquistou fãs brasileiros nos anos 1990, quando foi exibida a adaptação para as telinhas, famosa como As Aventuras de Tintim. Hergé também ficou conhecido como o precursor da Escola Bruxelas de quadrinhos marcada pelo uso de traços simples e de espessura regular, quase sem sombras, nos personagens e objetos, que distinguiu a identidade europeia nos quadrinhos. Estão entre

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Foto: reprodução

Hergé(esq.)e Warhol (dir.). Os artistas que influenciaram gerações. E o famoso retrato de Marilyn Monroe

Andy Warhol, 1928-1987 Ícone da cultura pop, ficou conhecido por pintar produtos americanos famosos, como garrafas de Coca-Cola e as latas de sopa Campbell’s, além de ícones de popularidade como Marilyn Moroe, musa do retrato mais famoso de Warhol.

os representantes dessa classe as obras: Les Schtroumpfs (1957), conhecidos como os Smurfs, do belga Peyo; Gaston Lagaffe (1957) de André Frasquin; Lucky Luke, sátira dos westerns americanos, de Moris e René Gosciny e o famoso guerreiro gaulês Asterix, uma colaboração de Goscinny com o desenhista Albert Uderzo.

Traços de Hergé

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inda mais marcante no trabalho do autor é a linguagem praticamente cinematográfica: determinadas sequências parecem mais storyboards, o que concede às gags um aspecto de movimento e agilidade difícil de encontrar em qualquer HQ. No caso do roteiro, na maioria dos álbuns há certa preocupação com o realismo, tanto que até hoje são encontradas referências de personagens e situações em personalidades e fatos históricos. A obra do belga não se caracterizou apenas pelo seu estilo de desenho, os textos tiveram grande relevância. O ícone pop Andy Warhol reconheceu a importância do artista belga, de acordo com o site Musée Hergé. “Hergé foi mais que um desenhista de histórias em quadrinhos. Ele tinha uma forte dimensão política e satírica” disse o americano. Nascido no início do século XX, o desenhista retratou nas Aventuras de Tintim, entre 1930 e 1976, quase cinquenta anos de história política. Suas narrativas eram ambientadas em paisagens reais e tratavam de situações políticas contemporâneas. “Pode-se estudar a história do século XX através de Tintim” afirma o documentário Tintim et Moi (2003) de Anders Østergaard. É o que tem feito Lúcio Reis Filho, historiador e mestrando em comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFMG).

As polêmicas

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interesse surgiu na graduação, numa disciplina de História da África, para uma de suas atividades decidiu reler Tintim na África. “Então, comecei a estudar Congo Belga, a atual República Democrática do Congo, e fui associando o imperialismo e os estereótipos raciais na revista de Hergé ao eurocentrismo e à propaganda colonialista. E não foi só o historiador que fez essa ligação, para muitos que tiveram contato com o trabalho do desenhista a visão política do autor se limitava a um posicionamento colonialista e de extrema-direita. Interpretação justificável

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Fotos: reprodução

Os Smurfs e Astérix são os mais conhecidos expoentes da Escola de Desenho Belga

uma vez que o desenhista iniciou sua carreira, em 1925, num jornal belga conservador editado por um fã assumido de Benito Mussolini. Recentemente a discussão em torno de Hergé foi reacesa, em outubro desse ano começou o julgamento de Tintim no Congo (1931), o segundo volume da série, até o fechamento desta edição não houve um veredicto. O processo teve início em 2007, quando a obra foi acusada pelo congolês Bienvenu Mbutu Mondondo de racismo e de promover estereótipos em relação aos africanos. Ele tenta retirar o livro das prateleiras das sessões infanto-juvenis, enquanto os representantes de Moulinsart, detentora dos direitos do autor, e da editora Casterman apresentam sua defesa. De acordo com Lúcio Reis Filho, historiador e estudioso da obra de Hergé, as acusações de racismo como essa vêm surgindo ao longo das últimas décadas. Já nos anos 1940 o álbum foi relançado em cores, com retificações no que se refere ao colonialismo e a violência contra os animais. “De maneira geral, Hergé não se preocupou em fazer uma pesquisa cuidadosa, em suas primeiras revistas. Por exemplo, em Tintim no país dos Sovietes (1930), os russos foram retratados como comunistas maldosos e em Tintim na América (1932), os indígenas norte americanos foram retratados como selvagens” explica. Em Tintim na África o personagem assume a figura paternalista e os congoleses de seres primitivos. Segundo Reis, estão presentes nas aventuras do jornalista na África, a infantilização, que consiste na representação dos colonizados em um estágio primitivo do progresso humano e de desenvolvimento cultural; e a animalização, a redução do elemento cultural ao biológico, ou seja, associação do colonizado a fatores vegetativos e instintivos em lugares de aspectos culturais e intelectuais. “Proibir a circulação do livro seria pior do que deixar as coisas como estão”. Esta é opinião do baiano Pedro Britto, estudante de Recursos Humanos e blogueiro responsável pelo site tintimportintim.com, que se dedica à obra de Hergé. “Tintim no Congo, assim como outras obras da época das colonizações e da escravatura, incluindo boa parte da literatura brasileira, servem como retrato da sociedade antiga, testemunhando que pouco ou muito, o homem evoluiu. Não vejo porque apagar o passado”, finaliza. “Banir essas obras não é a solução, é varrer para debaixo do tapete. As obras literárias de outras épocas devem

Pode-se estudar a história do século XX através de Tintim Tintim et Moi (2003), de Anders Østergaard.

O álbum Tintim no Congo foi relançado ainda nos anos 1940 com retificações sobre colonialismo

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Tintim por tim tim Fotos: Reprodução ser compreendidas como produto de seu tempo” concorda o historiador. Britto faz uma ressalva. Na opinião dele, o repórter criado por Hergé foi se atualizando, acompanhando os momentos políticos e históricos mundiais. “Por esse motivo podemos vê-lo chegando à frente dos russos e norte-americanos na corrida espacial, apoiando movimentos de esquerda na América do Sul e até ajudando a libertar negros escravizados, como que compensando suas ações passadas”, justifica.

Ainda que as tramas sejam padronizadas – consistem em mistério a ser resolvido pelo repórter - elas possuem um senso de humor característico e personagens encantadores.

Redenção

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ergé se ressentiu com seu próprio trabalho. Anos mais tarde, ele chegou a admitir que as suas primeiras revistas fossem produto da mentalidade burguesa da época. “Isso nos leva a pensar que o racismo e todos os estereótipos presentes em suas obras iniciais não eram ataques deliberados aos povos por ele representados, e sim um reflexo da sociedade a qual o autor estava inserido, a Bélgica industrial da primeira metade do século XX, que precisava justificar a política colonialista” afirma Reis. A transformação da obra do belga devese ao encontro entre Hergé e Zhang ChongChen, um estudante chinês que o aconselhou a se informar sobre os países e sociedades temas de seus álbuns. A partir daí, o belga passou a se interessar pelos países visitados por Tintim e a desenvolver arquivos sobre as diversas culturas e se esforçou para criar um retrato cuidadoso da China, demonstrando senso de responsabilidade com os seus leitores. Mais tarde o asiático se tornou personagem dos quadrinhos de Hergé. A tentativa de redenção veio com O Lótus Azul (1936), o mais engajado dos álbuns de Tintim, e considerado por muitos como a obra prima do autor, representando a mudança de estação.

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Tintim

Um jovem engenhoso e inteligente, sem família conhecida, que trabalha como repórter e viaja o mundo em busca de aventuras enfrentando perigos e desvendando mistérios. Na verdade, podemos considerá-lo mais um aventureiro ou detetive... A maioria de suas aventuras mostram suas investigações jornalísticas.

Milou

O fox terrier branco, companheiro de Tintim. Ele frequentamente “fala” com o leitor por meio de seus pensamentos, tido como mais racional do que Tintim, eles frequentemente se salvam se situações perigosas. Assim como capitão Haddock, Milou adora o uísque Loch Lomond e suas ocasionais "bebedeiras" tendem a colocá-lo em problemas, assim como sua intensa aracnofobia.


Capitão Haddock

Capitão Archibald Haddock é o melhor amigo de Tintim. A natureza rude do capitão e seu sarcasmo representam uma contradição ao frequente e improvável heroísmo de Tintim; ele sempre rompe com um comentário seco ou satírico quando o repórter parece idealista demais.

Dupond e Dupont Trifólio Girassol

É um cientista muito distraído, quase surdo, sentimental ao extremo e apaixonado por horticultura e jardinagem.

Dupla de detetives atrapalhados que embora sejam muito parecidos, não são gêmeos. A expressão preferida dos Dupondt é: "Eu diria mais...", um indício cômico involuntário. Com eles as gafes são sempre no plural!

Chang

Personagem da vida real, um amigo chinês, Chang Chong Chen, foi inspiração a Hergé para a criação do Lotus Azul. Nos quadrinhos Chang é o fiel amigo de Tintim em sua visita à China e parceiro na luta contra os mafiosos de Xangai.

Desvendando o Segredo de Licorne

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A obra adaptada será Tintim e o segredo do Licorne, e quem dá vida ao personagem título é Jamie Bell (de Billy Elliot) na trama o herói encontra uma réplica do navio Unicorn e, com isso, é levado a enfrentar perigos e desafios em busca de um tesouro. No decorrer de sua jornada, ele ainda terá que enfrentar Red Rachman (Daniel Craig, de 007 Cassino Royale). Com o filme é possível que a obra de Hergé se torne ainda mais popular “Muita gente mais nova só tem tomado conhecimento da obra de Hergé agora, com o início da divulgação do filme”, afirma Pedro Britto, blogueiro do tintimportintim.com. “É uma forma de “modernizar” o conceito que as pessoas têm de Tintim, Assista o hoje bem mais ‘pop’ do que há dois trailer da anos, por exemplo” completa Britto. adaptação Sobre as expectativas, Britto afirma dirigida por estar ansioso, mas apreensivo. “Não Spielberg sou daqueles fãs ‘xiitas’, mas prezo pelo respeito à obra original. Por tudo o que saiu até agora, sei que o filme não vai seguir os álbuns ao pé da letra,

pesar de polêmico, Hergé conquistou milhares de fãs, e eles serão presenteados. Uma adaptação dirigida por Steven Spielberg chega às telonas do Brasil em janeiro de 2012. A produção utiliza a rotoscopia, uma técnica de animação que usa como referência a filmagem de um modelo vivo, e a partir de cada frame do filme desenha-se o movimento do que se deseja animar. Foi a mesma tecnologia usada em Avatar, o que ajuda a chamar atenção do público, caso o filme se saia bem nas bilheterias já está prevista uma trilogia, sendo o segundo filme dirigido por Peter Jackson (de O Senhor dos Anéis).

mas já me acostumei com a ideia, e fico mais tranquilo por saber que o próprio Hergé confiou em Spielberg para levar sua obra às telas”, afirma. Entre os detalhes que incomodam está a possível ausência do cachimbo do Capitão Haddock (uma das marcas registradas do personagem), além da mudança do dublador brasileiro, que na série o capitão foi dublado por Isaac Bardavid, e nas telonas quem dará a voz é Mauro Ramos, responsável pela voz do Pumba em O Rei Leão. “Hoje eu diria que Tintim é cult, mas quem conhece suas aventuras sabe que há muitos elementos pop nas páginas desenhadas por Hergé, desde ficção científica até sátira política e social. Tintim é um herói que não precisa de máscara” conclui o blogueiro.

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Perdidos no espaço da tv

Troca de canal

Ligando a televisão...

Phoebe se desespera enquanto tenta, em vão, ensinar Joey a falar francês. P: Esta é bem simples. Vai dizer meu nome é Claude. Repita depois de mim: Je m'apelle Claude. J: Je te clu clau. P: Hum... Vamos tentar de novo... Je m’apelle Claude. J: Je de plim blu. P: Ahn.. não é bem o que eu estou dizendo. J: Sério, parece exatamente a mesma coisa pra mim. P: Sério? Vamos tentar mais uma vez. Je m’apelle Claude. J: Je de flup fle.

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Os sobreviventes receosos fazem um círculo em volta da mulher misteriosa que apareceu na praia e a quem Sayid chama de Danielle. D: Eles estão vindo novamente. Estão vindo para pegar todos vocês. Diante do grupo assustado, o médico Jack dá uma passo a frente. J: Quem está vindo? D: Os outros. Vocês só tem três opções. Correr. Se enconder. Ou morrer


Troca de canal

O Sr. Shuester pede para que Rachel e Finn exemplifiquem a tarefa da semana para os outros alunos. Ambos se levantam e trocam olhares.

R: Something in the way you love me won't let me be I don't want to be your prisoner so baby won't you set me free Stop playin' with my heart Finish what you start When you make my love come down If you want me let me know Baby, let it show Honey, don't you fool around F: Don't try to resist me Open your heart to me, baby I hold the lock and you hold the key Open your heart to me, darlin' I'll give you love if you, you turn the key

Troca de canal...

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“As pessoas não mudam” House, M.D.

Rotina, escolhas, relacionamentos, como as séries interferem na vida real Texto:Aline Guevara Fotos: Aline Guevara e Thaís Colacino

O

s seriados norte-americanos fazem muito sucesso em países do mundo todo e o Brasil não é exceção nesse cenário. São comédias, tramas investigativas, histórias sobrenaturais, musicais, dramas, épicos. Os estilos são tantos e tão diferentes que são capazes de agradar aos mais variados públicos. E a relação entre o telespectador e a série pode acabar se tornando mais profunda do que um simples entretenimento. Seja conquistando o público com a aparência e personalidade dos personagens ou estabelecendo uma identificação com sua trama, os seriados têm uma forte influência em seus espectadores. Às vezes a similaridade é tanta que estranha. E às vezes a estranheza é mostrada com tanta frequência, que se torna similar. Atualmente no universo da televisão, e quase por consequência no resto do mundo, os perdedores estão no topo, é a vez dos nerds, assassinos em série podem ser legais e vampiros estão sempre estão na moda. E facilmente percebemos o quão presente essas tramas estão no nosso dia a dia.

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Cara de um... que acharia se encontrasse o Dr. House, aquele médico tão inteligente quanto malhumorado, nas ruas? Talvez, se andar pelas vias de São Bernardo do

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Campo (SP) ou Diadema (SP), alguém possa se surpreender vendo o famoso personagem das telas de televisão. Hugh Laurie, o ator que dá vida ao personagem nunca pisou em terras brasileiras, mas Osvalmir Negrello é

Osvalmir Negrello não se acha parecido com o famoso Dr. House


parecido o suficiente com o ranzinza infectologista para ser conhecido por seus amigos por “Doutor House”. A cara rabugenta Osvalmir já está acostumado a fazer, ainda que esta faceta do personagem pouco tenha a ver com a personalidade do microempresário. Pelo contrário, sociável e atencioso, o sósia de Hugh Laurie está sempre no meio de pessoas e confessa que adora isso. Gosta de ajudar e é por isso que trabalha há quatro anos como voluntário em um grupo de escoteiros. Mas não foi ele que se descobriu parecido com o médico da TV. Aliás, até hoje, diz que não se vê muito parecido com o astro. Foi preciso que uma amiga lhe cutucasse “Nossa, sabia que você é muito parecido com o House da série?”. A partir de então várias outras cutucadas ocorreram. Ele decidiu conferir e se surpreendeu com o que viu. Olhos parecidos, rosto, altura, idades próximas. De fato, o ator Hugh Laurie e ele poderiam ser parentes. Decidiu abraçar a causa e começar a se vestir parecido com o personagem. Desde então, a fama de Dr. House só aumentou. Como é recorrente no seriado, Gregory House tem sempre uma resposta para tudo na ponta da língua e forma uma opinião muito rapidamente sobre qualquer situação e que dificilmente será alterada. E aí que reside a maior similaridade entre as personalidades do médico original e de seu sósia. Pelo menos é o que garante Osvalmir. “Sou bastante teimoso, quando coloco alguma coisa na cabeça, é difícil mudar de ideia”. Famoso por gostar de música (nisso o personagem se aproxima de seu “eu real”, já que Hugh Laurie é músico), House é muitas vezes visto na série tocando piano, guitarra ou simplesmente jogado no sofá ouvindo rock clássico, blues, soul, música erudita. Osvalmir compartilha o gosto pelo soul e enfatiza que gosta bastante de black music. O “House brasileiro” costuma se apresentar em locais que reúnem cosplays pelo prazer em encontrar fãs

Diferente de House, Negrello é sociável e atencioso. da série. Ele também guarda o sonho de conhecer o ator Hugh Laurie. Até email para o norte-americano (com ajuda de amigos para traduzir as palavras para o inglês) já mandou. Não deu resultado, mas garante que não vai desistir de se encontrar com o ídolo. Atraídos pelo Crime uem conversa com a meiga Mayara Souza dificilmente imagina a carreira que a menina planeja para o seu futuro. Delicada e tímida, a jovem estudante do último ano do ensino fundamental ganha firmeza quando começa a falar de si mesma e das razões pelas quais sonha com uma carreira trabalhando entre cadáveres e crimes. Indecisa entre as profissões de médica legista e perita criminal, ela sabe bem o que a fez pender pela área forense: o seriado CSI – Crime Scene Investigation (CSI: Investigação Criminal, em tradução). Uma das séries de maior sucesso nos EUA e no Brasil, a trama traz um grupo de cientistas forenses que trabalham em investigações de crimes no departamento de criminalística da polícia de Las Vegas. Quem acompanha a trama sabe, eles utilizam de todas as provas possíveis para resolver um crime. De digitais a fio de cabelo, vestígios de sangue e análise do cadáver, tudo isso

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é utilizado pelos investigadores para chegarem à solução. Tanto foi o sucesso da série que seus produtores decidiram que a famosa cidade dos cassinos não seria o limite para os CSIs e criaram versões do grupo de investigadores também em Nova York e em Miami. E é com este último que Mayara se identifica e acompanha fielmente. Como era de se esperar, o líder Horatio Caine (David Caruso) é um dos seus personagens preferidos, assim como a analista de DNA, Natalia (Eva LaRue). Com 14 anos, Mayara sabe que ainda tem bastante tempo pela frente antes de entrar para uma faculdade, mas está decidida. “Já pesquisei muito sobre as profissões, li várias matérias, e estou bem certa que vou escolher entre uma dessas duas áreas”. Ela explica logo o que a fascina: a resolução dos casos. Ainda que seja a sua série preferida, CSI não é a única trama de investigação que a garota acompanha, ela assiste também NCIS e Bones. A decisão de Mayara desperta curiosidade nos colegas de escola e na família. Até mesmo apreensão. “Muitos não entendem. Perguntam o porquê da minha escolha, dizem para escolher outra opção (...). Uma das minhas amigas quer seguir a carreira de moda. Outra quer ser advogada.

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Holmes. No momento, o rapaz de 22 anos se encontra no último ano da faculdade de Química da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. Paulistano, ele deixou a cidade natal para seguir aquela que ele acreditava ser a profissão de sua vida. “Meu sonho era ser perito forense. Essa palavra (‘forense’) simplesmente me fascinava. Se tivesse matemática forense, física forense, qualquer coisa forense, eu faria”. Também assim como Mayara, o que sempre motivou Luís a assistir CSI era a questão de solução do crime. “E todo aquele processo, como as pistas Aos 14 anos, Mayara Souza sonha em seguir carreira como investigadora levavam à resolução do mistério e a prisão do suspeito, era incrível Eu quero trabalhar com investigação espera conseguir pasar. pra mim”, relata. Nascida e criada em Paulínia, de crimes”, brinca. Mas foi decepção e não realização Apesar da pouca idade, a jovem Mayara almeja novos horizontes. que ele encontrou ao fim do sonhado frisa saber que o mundo cheio de Sabe que a carreira de uma médica curso. Ao estudar disciplinas da área glamour e alta tecnologia passado na legista ou perita criminal deve levá-la forense nos últimos semestres de televisão pode estar bem distante da para longe da cidade natal. “Longe da faculdade, Luís começou a perceber realidade. Imagina que a carreira não minha cidade e talvez até do meu país”, que muito do que ele via na série e deve ser fácil, mas não está disposta a pondera. Isso não a assusta. Ela sabe imaginava na carreira não condizia desistir. Para isso, ela já traça planos. que pode ser inevitável para seguir o com aquilo que lhe era apresentado Decidiu prestar o curso técnico de seu sonho, mas ela conta com o suporte em sala de aula. Ele explica que química para ir conhecendo melhor da família. “Eles podem não entender alguns departamentos de investigação a área. Boa aluna na sala de aula, ela muito bem porque eu quero seguir criminal, como o da Polícia Federal, essa área, mas sabem o oferecem boas condições de trabalho quanto eu desejo isso e Foto: divulgação aos profissionais da área por serem bem me apoiam em minhas equipados. No entanto, são poucas e decisões”. concorridas as vagas oferecidas por Enquanto Mayara esse órgão. Muitos dos empregos sonha com o futuro direcionados à maioria dos formandos na área forense, Luís ao terminar a universidade sofrem Salomão a enfrenta no por serem deficitários, possuírem presente. Assim como poucos recursos, bem longe do ideal a garota, ele cresceu de trabalho. vendo CSI e decidiu Porém, na universidade Luís que era exatamente descobriu gostar de uma área que aquilo que ele queria nunca havia considerado: a carreira fazer. acadêmica. “Provavelmente é essa Encantado desde área que devo seguir ao final do curso. pequeno com as histórias Talvez na pesquisa”, completa. A de detetive, devorava decepção com a profissão de perito livros de investigação e as forense, no entanto, não fez com que histórias de Sherlock deixasse de acompanhar a série. Pelo contrário. “A série é um excelente CSI: Las Vegas estrou entretenimento, portanto continuo em 2000 e até hoje é assistindo e me divertindo com ela”. referência entre os fãs

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de séries


O casal, Reberson e Fabiana, acha que Mad About You os representa bem. (Na foto, com a filha Nina.) Identificação e influência ara a psicóloga Rita Khater, a identificação do telespectador é primordial para que a série de televisão se estabeleça como um programa de sucesso. “Ao mesmo tempo que o seriado imita a vida real, ele legitima um padrão”, explica a psicóloga enquanto conta que os seriados ajudam a lidar com temas como a homossexualidade. Com a veiculação de assuntos como esses nas tramas, sendo tratados de forma natural, eles podem começar a ser tratados com a mesma naturalidade na vida real. “Se em Brothers & Sisters existe um casal gay, qual é o problema dos meus vizinhos serem gays também?”. A especialista diz que todo o ambiente em que o homem está inserido de alguma forma o auxilia a formar sua consciência crítica, seja entre a família, os amigos, a escola, a igreja e também aquilo que ele acompanha na televisão. Séries

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influenciam no modo de pensar, mas a psicóloga avisa que isso depende muito do receptor das informações “A intensidade varia de acordo com a abertura que a pessoa dá, do quanto permite que essa informação chegue a ela sem pensar criticamente”.

Séries legitimam padrões,

segundo a psicóloga, Rita Kather Unidos pelas séries a vida do casal Reberson e Fabiana Ius, os seriados têm papel importante. Logo que se casaram, em 1994, eles descobriram a primeira série que os uniria de vez na frente da televisão: Anos Incríveis (The Wonder Years). A trama que dava voltas na vida da família Arnold, especialmente do adolescente Kevin,

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sendo introduzida ao som de With a Little Help From My Friends na voz rouca de Joe Cocker, os conquistou. Gravavam os episódios em fita cassete e depois assistiam juntos. Reberson e Fabiana se conheceram na faculdade de jornalismo em 1987. Com gostos em comum, os dois participavam do mesmo grupo de amigos. Com o fim do curso e a separação dos colegas que migraram para diferentes cidades, a dupla de Campinas se uniu cada vez mais. E a dupla se tornou um casal. Eles logo começaram a namorar. Depois de adentrar o mundo das séries com Anos Incríveis, o casal passou a procurar mais outras tramas e foi aí que descobriram o seriado que veio surpreendê-los. A sitcom de comédia Mad About You (que ganhou a tradução de Louco por Você no Brasil) parece bem comum a princípio: um homem e uma mulher se encontram, se apaixonam, se casam e vivem juntos em Nova York.

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Foto: divulgação

fielmente outras tantas séries, como Friends, Arquivo X, Felicity, Seinfeld. Todas elas, de alguma forma, provocavam a identificação e a curiosidade deles. Mas chegou o momento em que os dois foram trilhar caminhos separados. Não. O casamento vai muito bem, obrigada. Mas Fabiana não conseguiu mais acompanhar o marido nas tramas saídas da telinha, então Reberson partiu para os primeiros seriados sem a companhia da esposa. Então veio 24 Horas. “Essa série foi pioneira. Hoje, olhando pra ela, o que a produção traz já não é mais inovador, todos passaram a usar os mesmos artifícios. Mas na época em que ela foi lançada, foi muita coisa”. Com um formato inédito de contar uma história, o seriado mostra um dia na vida do agente da Unidade Contra Terrorista nos EUA, Jack Bauer (Keifer Sutherland), narrado em tempo real. Cada um dos 24 episódios das temporadas retrata uma hora na vida de Bauer. Lançada no mesmo ano dos atentados terroristas às torres do World Trade Center em Nova York, a história levava à discussão de temas polêmicos O seriado é simbólico para o casal como tortura. Em seguida, vieram séries aclamadas do canal HBO. The Mas para os jornalistas, ele era especial. “A gente assistia Sopranos (como bom fã de O Poderoso Chefão, a série de a série e se olhava. E pensávamos: não é possível, estão mafiosos não ficou de fora dos seus interesses na telinha), se baseando na nossa vida”, conta Reberson. Por diversas Mad Men, Boardwalk Empire, Game of Thrones, Mildred vezes, a identificação com o que Jamie (Helen Hunt) e Paul Pierce, são alguns dos títulos das novas preferências do (Paul Reiser) viviam no seriado era inacreditável. “Além da jornalista. “Os seriados produzidos pelo canal tem uma história parecida com a nossa, eles viviam situações comuns qualidade bem alta, são histórias complexas, assim como a nós, como problemas com a família quando nós mesmos seus personagens”, explica. enfrentávamos as mesmas dificuldades”, explicam. “Nossa Já crescida, hoje com 9 anos de idade, é a vez de Nina vida era muito parecida com a deles, só não tínhamos o ir conferir suas séries preferidas. Reberson avisa, quer saber cachorro”. tudo o que a filha acompanha. “Já Como se as assisti ICarly muitas vezes, os mesmos coincidências não episódios inclusive”. Mas não faz fossem o bastante, o tipo companheiro calado. Dá o casal da série teve pitacos, tira sarro dos personagens, uma filha, a quem recrimina suas ações, tudo para que chamaram de Mabel. a menina não fique passivamente na Por sua vez, o casal frente da televisão. Tem horas que a da vida real também pequena se irrita e pede para o pai se teve uma menina. calar. Outras vezes, acaba entrando No entanto, diferente preocupado com a na discussão. dos pais na ficção, ICarly, Isa TKM, Zoey 101, influência das séries na vida da filha Reberson e Fabiana Sunny Entre as Estrelas, Manual não tiveram muitas de Sobrevivência Escolar do Ned... dificuldades para escolher o nome da filha. Queriam algum percebe-se que Nina segue os passos dos pais. O jornalista que fosse bonito e pudesse ser pronunciado de forma igual, se preocupa com a forma como os seriados podem não importando o idioma. Um nome globalizado. E Nina influenciar a filha. “A maior parte desses programas mostra os serviu perfeitamente ao propósito. jovens protagonistas totalmente independentes dos pais. Eles E até hoje a série continua acertando com a família Ius. decidem tudo sozinhos”. E não é só Reberson que acompanha Recentemente, o trio visitou a Disney e Reberson pensou as séries da menina, Fabiana sabe tudo dos programas juvenis. em usar cupons de desconto na viagem, mas, ao chegar “Hoje não tenho tempo de acompanhar as séries junto com o lá, percebeu que os havia esquecido em casa. Ao voltar ao Rebs, acabo assistindo as da Nina mesmo”. Brasil decidiu assistir novamente o seriado e ficou surpreso Os seriados dependem de audiência para sobreviverem. É ao assistir um episódio em que um dos personagens se o público que dita se haverá mais um temporada ou se a série envolvia com problemas justamente por causa de cupons chegou ao seu fim. Se somos influenciados todos os dias por de desconto em viagem. elas, nós também influenciamos a sua produção. É um círculo Depois de Mad About You, o casal acompanhou vicioso e viciante.

“Os jovens protagonistas são totalmente independentes dos pais. Eles decidem tudo sozinhos”,

Reberson,

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Click

Não leve tão a sério A lomografia resgata a paixão pelos filmes de maneira divertida e cheia de efeitos

Texto: Fátima Leite

S

abe aquela foto que você achou que não ficou boa porque saiu com cores estranhas, avermelhada ou amarelada, cortando as pessoas ou até mesmo desfocada? Já viu aquelas câmeras de plástico, coloridas que mais parecem brinquedo de criança? Aliás, já ouviu falar na história da mulher que foi assaltada e o bandido levou todos os seus pertences, menos a sua câmera porque achava que não passava de um simples brinquedo infantil? Então você já tem uma ideia do que é lomografia. Esse brinquedo para adultos é um jogo de relaxamento e descontração, onde não há porque se preocupar de que forma a foto vai sair, a surpresa é sempre a busca por algo novo e diferente, que você pode criar a todo instante com sua câmera, além de poder levá-la em qualquer lugar. Esse movimento fotográfico ganhou espaço no ano de 1982, em meio à Guerra Fria. Talvez seja mesmo nos momentos de conflitos que surgem as grandes ideias. Sim,

Fotos: Renato Andrade

foi nessa condição que a lomografia surgiu, para suprir a dificuldade de acesso às câmeras, combinada a uma vontade que é a base da fotografia, de registrar o momento. A lomografia hoje é uma brincadeira levada a sério. Registrar fotos sem regras de enquadramento, sem se preocupar com ângulos. Se a foto saiu desfocada ou se apresentou uma coloração diferenciada são apenas algumas alternativas que a câmera proporciona. A regra desse jogo é não seguir regras e tem conquistado cada vez mais seguidores que buscam o desprendimento da fotografia tradicional. Experimentar é algo constante para os adeptos da lomo. Muitos fazem orifícios na câmera para aumentar a entrada de luz, outros deixam a ponta do filme já fotografado saindo da câmera, de forma a queimar as laterais. E esses são apenas alguns testes possíveis, basta usar a criatividade. Os resultados das fotos são inusitados e criam a expectativa no fotógrafo. 25


Para comprovar o quanto a lomo te desliga da resistência de quebrar as leis da fotografia, basta aderir. É incrível, mas estas pequenas são capazes de alvoroçar a imaginação. Bruno Siqueira, gerente da Lomography, comunidade internacional de fotógrafos lomográficos, com sede em vários países, inclusive no Brasil, diz que o que mais chama atenção é a liberdade que se tem na hora de fotografar, a irresponsabilidade saudável: “Me parece muito interessante você não se preocupar muito com o que vai acontecer na hora de revelar o filme, porque isso de certa forma te libera de uma prisão que é a fotografia convencional, que com o intuito de criar a fotografia perfeita cria amarras, você tem que encontrar a luz perfeita, a abertura perfeita. E na lomografia a proposta é completamente outra, é você não se preocupar com nada, é fotografar muito mais emocionalmente do que de forma racional”. O fotógrafo Gabriel Fruchi teve seu primeiro contato com a lomografia em uma loja onde trabalhou que começou a vender as câmeras. A primeira câmera que teve foi a Diana,

e acrescenta que atualmente fotografa todos os dias. O interesse por este tipo de fotografia foi tanto que o levou a trabalhar na Lomography. Fruchi comenta as principais diferenças entre a analógica tradicional e a lomografia, como “a existência de câmeras multilentes que captam o movimento, elas têm 4 lentes, algo que não existe no tradicional analógico. Existem vários outros experimentos, como a sobreposição, há também a questão do acesso, já que as câmeras são bem mais baratas”. Siqueira explica que o público que frequenta as lojas tem em média 15 a 35 anos, um público curioso atraído por experiências novas. As câmeras ideais para iniciantes são Fisheye, Diana mini, ActionSampler e SuperSampler, que custam entre R$100 a R$250. Já para pessoas com mais experiência, a câmera mais significativa é a LCA, que é a câmera clássica da fotografia, considerada a “câmera sagrada”, que é simples, porém versátil, e custa aproximadamente R$ 800.

As fotos e o fundo que ilustram essa matéria são de Renato Andrade, 20 anos, e podem ser vistas no site http:// www.flickr.com/photos/_orangebooth/

“Desde de que eu começei a me interessar por fotografia, em 2007/2008, e iniciei meu fotolog, sempre adorei os efeitos vintage das fotos. Perdia horas no photoshop transformando minhas fotos no tal efeito e em 2009 descobri a lomo. Foi paixão à primeira vista, amei as cores e principalmente o fato dela ser usada através de filme. Desde então não parei. Já possuo cinco câmeras. Três são lomos. Acho a lomografia importante porque você captura o momento e a emoção da pessoa no instante, e você não tem o privilégio de apagar esse momento que nunca terá novamente”. 26


Action sampler Possui quatro lentes que dividem o clique em quatro mini-fotos consecutivas

Super sampler Efeito semelhante ao da Action Sampler, também tem quatro lentes, porém sao lineares

Colorsplash Esta câmera faz fotos com tonalidades diferentes, graças a seu flash que muda de cor

Holga É supersensível à luz e faz fotos incríveis, com atmosfera “dreamy” e outros efeitos, de acordo com o filme utilizado

Confira as regras da lomo: 1 - Leve a sua câmera onde quer que você vá. 2 - Use a todo momento - dia e noite. 3 - A Lomografia não é uma interferência na sua vida, é parte dela. 4 - Tente fotografar de todas as maneiras 5 - Aproxime-se dos objetos que movem o seu desejo Lomográfico o mais perto possível. 6 - Não pense. (William Firebrace) 7 - Seja rápido! 8 - Você não precisa saber o que foi capturado no filme. 9 - E depois também. 10 - Não leve à sério nenhuma regra.

Diana mini Tem efeitos parecidos com os da Holga, é uma versão menor da Diana F

Fisheye Possui lente com formato angular, que dá à foto o efeito conhecido como “olho de peixe”, algumas permitem a múltipla exposição do filme

LCA É praticamente uma das câmeras que iniciou toda a Lomografia. Produz maravilhosas cores saturadas e vibrantes que marcam a Lomografia. Capaz de fazer múltiplas exposições 27


o poderoso ~ telao

O mal com o mal sera´ combatido A visão de David Fincher sobre Os homens que não amavam as mulheres chega aos cinemas em janeiro. O que esperar do filme e da trilha

“Então é melhor você parar E reconstruir suas ruínas Por paz e confiança pode-se ganhar o dia Apesar de todas suas perdas”

Texto: Aline Guevara Janaína Amaral Thaís Colacino Fotos: Divulgação

Immigrant Song – Led Zeppelin 28


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R

eerguer-se não é fácil. Seja de uma tentativa a atenção e o clímax é clichê, com vilões bem caricafracassada, seja porque algo te jogou ao chão tos. A história de Mikael às vezes é chata de acomou por qualquer outro motivo. Às vezes, mespanhar, mas Lisbeth vale a pena”, conta Pablo Villaça, mo algo bom pode ser melhor. A Trilogia Millenium crítico do site Cinema em Cena. é um exemplo disso: os livros foram adaptados para “Os filmes, apesar de bem feitos, são feitos nos meso cinema sueco e agora para o americano, que muito mos moldes dos hollywoodianos, cheios de clichê”, afirpromete. Além disso, a história que os livros contêm ma Ricardo Pereira, jornalista especializado em cinema. trata muito do tema: reerguer-se. Hollywood, por sua vez, não contente com um Em junho, fomos agraciados com a primeira best-seller sendo adaptado fora dos EUA, e por amostra do novo filme do diretor David Fincher: obrigar o público a ler a legenda, resolveu fazer Os homens que não amavam uma versão americana. as mulheres, que estreia ano Villaça recrimina a tendência que vem no Brasil. Com do cinema americano de fazer reum minuto e meio, uma makes, a não ser que os originais frase de efeito (“O mal com sejam ruins, como ele acredita o mal será combatido”) e que é o caso. “Americanos têm com uma trilha muito boa preguiça de ler legendas. Quando (a regravação de Immigrant descobri que iam fazer remake de Song, do Led Zeppelin, na Oldboy, fiquei revoltado, afinal, o voz de Karen O, vocalista coreano (original) é sensacional. do Yeah Yeah Yeahs e proNo entanto, talvez a adaptação de duzida por Trent Reznor), Millenium possa ser uma oportuo teaser chamou atenção do nidade de melhorar o filme”. mundo para a nova versão A esperança – e a pressão – da história que já havia conrecai sobre o renomado diretor quistado milhões de leitores. David Fincher, que já dirigiu A Trilogia Millenium, filmes como Clube da Luta, Assista ao trailer! escrita pelo jornalista sueco Se7en, Zodíaco e A Rede Social. Stieg Larsson, já havia sido adaptada para o cinema Além disso, ele dirigiu Express Yourself e Vogue, em seu país de origem em 2009 e, como de praxe clipes icônicos da Madonna. Uma das principais com a maioria dos filmes europeus, não foi muito marcas do americano são a racionalidade e a lógica, divulgado, apesar de ter sido sucesso com parte da tanto na trama quanto nos personagens, ou seja, crítica especializada. Mas não com todos. mais frios do que dramáticos; e a estética, elaborada “O primeiro filme, adaptado por Niels Arden e geralmente sombria, que combina perfeitamente Oplev, é fraco. Tem uma trama que não me chamou com o tema da trilogia.

As duas faces de Lisbeth: à esquerda Rooney Mara, e à direita, a sueca Noomi Rapace

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A trilogia vendeu 60 milhões de cópias em 26 países, sendo 10 milhões somente em 2011. O que pode justificar o sucesso do livro são os personagens. “O autor gosta de criar personagens complexos. Geralmente são pessoas que você poderia identificar com qualquer um na rua. É uma forma de fazê-los mais humanos e menos ‘estrelas’”, diz Felipe Crispi crítico literário do site Instante Literário. “O diferencial da trilogia é a Lisbeth. O Mikael ainda é um herói como todos os outros, tem ética, valores morais bem definidos, é bem próximo ao que temos do herói na literatura e no cinema. Bom e ético, vai atrás e tenta melhorar o mundo. É o herói jornalista que quer investigar grandes corporações e como elas estão ligadas à corrupção do país”, diz Crispi. Lisbeth representa um anti-herói que segue seu próprio código de moral. Isso não significa que é a vilã do livro, pelo contrário, ela segue o que acredita ser o certo e faz justiça com as próprias mãos. Ela não confia em ninguém, muito menos em autoridades e instituições que possam exercer poder sobre as pessoas comuns, como a polícia, o Governo, médicos, advogados, etc. “Em Millennium temos um jornalista muito bom de serviço, investigando um crime de décadas atrás e uma ‘heroína’, uma jovem hacker cheia de complexos e atitude. Os dois disputam a atenção o tempo todo do leitor, cada um com suas próprias qualidades e defeitos”, conta Crispi. “O questionamento moral está presente em toda a trilogia e nem sempre os ‘heróis’ estão certos. O certo e o errado não estão evidentes, cabe ao leitor julgar. Os personagens têm seus próprios interesses”, completa. Larsson deixa os leitores cada vez mais ansiosos com o livro recheado de suspense: não sabemos qual a história de Mikael para ser julgado, não sabemos nada de Lisbeth, nem quando eles irão se encontrar e resolver o maior mistério, e, claro, quem é o assassino. A maioria dos mistérios acaba no primeiro, mas Lisbeth precisa de mais dois livros: um para entendermos seu passado e um para saber como ela vai conseguir por um ponto final nele.

Stieg Larsson e suas obras

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• 1 bilhão de

Violência contra a mulher

O

utro ponto muito forte na literatura de Larsson é como ele aborda a questão da mulher. “As personagens femininas são fortes e frágeis ao mesmo tempo. O que o autor tenta passar é como as pessoas são feitas do mesmo material, sofrem da mesma forma e como elas lidam com isso. Uns encaram, outros se escondem, uns se tornam fortes outros caem, mas todos possuem cicatrizes”, diz Crispi. Uma das cicatrizes mais fortes que podemos presenciar nas mulheres de Larsson são as marcas provocadas pela violência, seja ela física ou psicológica. A ideia não é gratuita. Em 1969, Larsson presenciou o estupro coletivo de uma garota de 15 anos (chamada Lisbeth!) e não interveio. É possível dizer que Mikael é seu alter-ego: um jornalista que tenta incessantemente salvar Lisbeth e denunciar seus agressores. Assim, seus livros seriam tanto uma retratação com a garota, quanto uma denúncia. De acordo com a socióloga e integrante do Núcleo de Pesquisa sobre a Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP, Adriana Gragnani, a violência é uma característica da sociedade ocidental. Tão presente enquanto particularidade dessa civilização, isso acaba refletindo e se propagando nas relações familiares. A dificuldade é encontrar parâmetros para quantificar as atitudes violentas, uma vez que muitas ficam restritas ao ambiente doméstico, onde há relativa intimidade. A situação não é diferente no norte europeu, onde a história se passa. De acordo com as estatísticas do Brå (Conselho Nacional Sueco de Prevenção do Crime), desde 1990 aumentaram as denúncias de crimes violentos, como ameaças, estupros e abusos, enquanto as denúncias de roubos e assaltos diminuíram.

20% das mulheres são alvo de estupro

• De cada cinco mulheres no mundo, uma será vítima ou sofrerá uma tentativa de estupro até o fim de sua vida

mulheres, ou uma em cada três do planeta, já foram espancadas, forçadas a ter relações sexuais ou submetidas a algum outro tipo de abuso

• Nos Estados

Unidos, uma mulher é agredida por seu marido ou parceiro a cada

15 segundos. Na França, 25 mil mulheres são

estupradas por ano No Brasil

A

Pesquisa Ibope / Instituto Avon - Percepções sobre a violência doméstica contra a mulher no Brasil, de 2011, aponta que seis em cada dez entrevistados conhecem alguma mulher que foi vítima de violência doméstica. Entre as razões consideradas estímulo da violência, 46% dos entrevistados afirmaram que “É uma questão cultural, muito homem se acha “dono” da mulher” e que “O homem brasileiro é muito violento”. A maior parte das agressões, de acordo com o estudo, foram as físicas (47%) e as humilhações (44%). A violência sexual figura em 15%, mas 29% preferiram não responder a pergunta. Como motivos que as vítimas acreditam ter levado à violência, o ciúmes figura em primeiro lugar, com 48%, enquanto problemas com bebida e alcoolismo ficam em segundo lugar, com 43%. Dos entrevistados, 54% não confiam na proteção jurídica e policial no caso de violência doméstica e 43% acreditam que as leis não são suficientes para garantir a proteção. Para Adriana, a lei Maria da Penha é um sinal de que a sociedade está ciente do problema, assim como é uma reafirmação dos direitos básicos do ser humano. Mas seria desnecessária, já que a Constituição garante igualdade e dignidade para todos. Ela afirma também que, em uma situação ideal, a construção ética do cidadão deve passar por vários ambientes sociais (família, escola, amigos, trabalho, etc.) e que a lei penal deveria ser a última instância a que o cidadão deveria recorrer. “O isolamento social é que gera violência. Falta diálogo. As pessoas estão ausentes da sociedade, não enxergam os problemas como seus. Sabem que o problema existe, mas não se reconhecem nele”, afirma a socióloga. Lisbeth sofre e reproduz violência, tanto pela falta de diálogo que tiveram com ela, quanto que ela tem com outros. Com isso, acaba por não procurar as autoridades que com ela já haviam falhado, resolvendo sozinha o problema – da forma mais violenta possível.

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Trilha sombria

O - Na Suécia, 50% das agressões foram surras aplicadas por parceiros - 4 em cada 10 suecas já foram agredidas por homens, o dobro da média europeia, e número encontrado em países subdesenvolvidos, como o Brasil - 50% das portuguesas já foram surradas pelo menos uma vez na vida (Fontes dos dados: Relatório da Anistia Internacional)

responsável pela trilhasonora de Os homens que não amavam as mulheres é ninguém menos que Trent Reznor, da banda Nine Inch Nails e que já trabalhou com David Fincher na trilha de A rede social, que premiou o músico com o Oscar em 2010. Para o crítico musical Marcel Scognamiglio, do site Artilharia Cultural, Reznor “foi o que hoje é clichê para um artista polêmico: criticando crenças, cuspindo contra os dogmas e provocando o comodismo do ouvinte. Nos anos 80, quem falava nesse tom não tinha os holofotes virados para si, exceto o próprio Reznor e outros poucos artistas. Foi assim que ele criou uma identidade sombria e agressiva, mas revestida por muito talento”. Sobre a carreira do músico, Marcel comenta: “sempre foi um tanto irregular, com verdadeiros altos e baixos. Ele começou a produzir e compor o que viria ser o NIN dentro de um estúdio onde trabalhava como ajudante. Mas antes disso teve que dar muito a própria cara ao tapa de alguns projetos que digamos... não tinha muito sua vibe. Quando o Nine Inch Nails começou, com seu rock industrial, gênero pouquíssimo estimulado nos últimos anos, tudo ficou mais fácil. Ainda quando se trata dos dois primeiros discos da banca, que foram muito bem, e abriram as portas para o gêneros e para o gênio. Desde então, Trent precisou cuidar de si mesmo para não ser soterrado por novidades, então se meteria como produtor de Marilyn Manson ou reafirmou sua agenda forte uma parceria afinada com David Bowie”. “A entrada de Reznor no meio

cinematográfico aconteceu de forma admirável. Ele vinha compondo trilhas muito boas nos intervalos de alguns álbuns oficiais do NIN. Teve o projeto totalmente instrumental, Ghosts I-IV, criado em 10 semanas com parcerias de Atticus Ross, Alan Moulder, Alessandro Cortini, Adrian Belew, e Brian Viglione. Ele descreveu a coleção de 36 faixas como uma ‘trilhasonora para sonhar acordado’ que é ‘o resultado de trabalhar a partir de uma perspectiva muito visual — cobrindo locações e cenários imaginados com som e textura’. Fazendo os amigos certos e mostrando uma satisfação pessoal em cobrir ambientes com som e textura com muita identidade e maestria, a tendência era naturalmente vê-lo cada vez mais envolvido”, afirma o crítico. Marcel também fala sobre a escolha de Reznor como compositor para a trilha. “Ele tem feito trilhas carregadas com muita percussão eletrônica e baixos com textura, o que cria um ambiente ainda mais inventivo para o longa-metragem. Trent Reznor veio para ficar, ele tem a fama e talento para suprir uma área do cinema que nunca foi comentada de maneira devida à sua importância”.

O músico Trent Reznor

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Ensaio sobre a Trilogia Millenium

Das cinzas

Texto: Thaís Colacino

N

a trilogia Millenium, nada é o que parece. Pra começar, nem é uma trilogia, mas sim uma decatologia. O protagonista não é o protagonista; o assassino é, como sempre, o menos suspeito; o crime não é o que imaginamos; e, principalmente, a Suécia não é o que esperamos. Acostumados a pensar que um país de primeiro mundo seria civilizado e que a luta de gêneros daria uma trégua, o autor Stieg Larsson joga em nossa cara, através de dados dentro do livro e das situações brutais dentro da história, que estamos novamente enganados. Larsson era jornalista sueco, que infelizmente morreu aos 50 anos, vítima de um ataque cardíaco, antes de ver sua obra ser lançada. Escreveu três livros completos, mais dois rascunhos, e pretendia estender a série para dez episódios. Criou a revista Expo, que denunciou organizações racistas e neofacistas e escreveu um livro sobre a extrema direita do país. Qualquer semelhança com o suposto protagonista, Mikael Blomkvist, também jornalista e também criador de uma revista (a Millenium, que denuncia corporações fraudulentas ), não é coincidência. A história do primeiro livro, Os homens que não amavam as mulheres, começa com Blomkvist sendo processado por difamação e convidado por um empresário, Henrik Vanger, para solucionar um mistério na família: há 40 anos ele recebe uma flor e moldura, presente que a sobrinha dava de aniversário. Mas ela está desaparecida ao longo dessas quatro décadas e ele acredita que a garota foi morta por alguém da família, que continua a mandar os presentes para enlouquecê-lo. Se conseguir solucionar o mistério, Vanger promete fornecer provas que podem livrar o jornalista e assim pode salvar a sua revista da falência. Enquanto pede para investigar os próprios parentes, o advogado de Vanger pede a uma companhia de segurança que investigue Blomkvist,

para saber se ele é confiável. Eis que o trabalho recai nas mãos de Lisbeth Salander, jovem de 25 anos, com uma personalidade intratável, muitos problemas de relacionamento e que é, como descobrimos depois, uma hacker extremamente talentosa, além de ser a verdadeira protagonista. Ela por fim se junta ao jornalista na investigação. Poderia estender uma crítica inteira falando apenas de Lisbeth, mas é melhor que o leitor descubra por si só, uma vez que o mistério da vida dela vai até o terceiro livro. O que posso falar é que é impossível não se identificar com ela. Nós sabemos que não podemos contar totalmente – ou nem um pouco – com o governo do país, até mesmo com as autoridades. Sabemos que se você se vestir de modo tachado de agressivo (usando preto, moicano, piercings, tatuagens, roupas com rebite, tachinhas e tudo mais que os metaleiros, punks e góticos vestem), mesmo sendo a vítima de uma situação, será considerado culpado. Não importa se você sofreu violência, assédio no metrô ou o governo ferrou toda a sua vida porque era preciso. É exatamente assim que alguns veem as mulheres, ou assim Larsson descreve. Lisbeth é considerada por um abusador como a vítima perfeita, pois além de arredia está sob seu controle. Mas os leitores sabem que não é assim, porque sabem do que ela é capaz. Todas as mulheres da trilogia parecem, inicialmente, frágeis, e todas, sem exceção, se revelam incrivelmente fortes. Algumas até fisicamente. O estilo de escrita de Larsson é fácil de digerir, sem necessidade de um dicionário ao lado (o que é preciso, na verdade, é autocontrole para conseguir parar de ler). O suspense permeia todo o primeiro livro, e cada nova descoberta de Blomkvist e Lisbeth mostram o horror da família Vanger, que, a cada página, parece mais com uma família de monstros. Mas nada é tão assustador quanto os dados que Larsson utiliza para separar as três partes

Todas as mulheres da trilogia parecem, inicialmente, frágeis, e todas, sem exceção, se revelam incrivelmente fortes

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dos livros: no primeiro, afirma que mais de 70% (leia de novo: setenta por cento) das mulheres suecas são vítimas de violência, e a maioria não denuncia nada às autoridades. Isso em um país em que todas as casas têm código de segurança para entrar. Lembrando que a maioria das mulheres sofre violência dentro de casa, a situação não poderia ser mais irônica – e triste. A dubiedade da natureza de Lisbeth é explorada nos outros dois livros. O segundo, A menina que brincava com fogo, começa de uma maneira um pouco desnecessária. São pouco mais de 100 páginas falando das férias da garota em outro país e mostrando quão ela é genial. Uma situação que pode virar algo, não vira, e nada acrescenta na história. Depois, na Suécia, ela é acusada de triplo homicídio. Cabe a Blomkvist tentar encontrar a moça antes das autoridades e ajudá-la. Com isso, ele investiga seu chocante passado. Nesse livro, Larsson discorre não somente sobre homicídios de mulheres, mas sobre tráfico internacional de pessoas e prostituição forçada. O livro não tem um fim propriamente dito, e continua no terceiro, A rainha do Castelo de ar. Este também tem partes dispensáveis e muitas descrições de roupas, que não existiam nos anteriores, mas não fazem mal à trama. Em todos os livros, somos brindados com diferentes tipos de personagens misóginos: os que matam por acharem que mulheres não fazem falta a ninguém e se consideram superiores; os que traficam porque acham que elas são objetos; os que passam informações errôneas porque acham o comportamento homossexual, ainda mais entre duas garotas, inaceitável; os que estupram porque acham que elas são frágeis, não podem se defender e acham ter o direito de se satisfazer, mesmo que elas não queiram; aqueles que abusam e batem porque a mulher não reclama; aqueles que chantageiam porque foram rejeitados; e aqueles que acreditam em tudo o que leem simplesmente porque o senso comum autoriza a julgar alguém pela aparência. Não podemos deixar de fora a

mídia, que cede a pressão das vendas e publica cada vez mais difamações contra nossa pobre anti-heroína, que não se defende (seria uma estratégia, ou seria parte da atitude “dane-se o mundo”?). Esse foi um modo de Larsson criticar a própria classe, algo que ele sempre fez na realidade, e que toma vazão literária na forma de Blomkvist, claro. Nesse caso, a garota da tatuagem de dragão, nome do livro nos EUA, poderia muito bem trocar o símbolo. O dragão é forte, sábio, amedrontador e causa dano com fogo, como Lisbeth. Essa é a imagem que ela passa. Mas de fato, deveria ter uma fênix tatuada: bela, forte, rara e, o mais importante, capaz de nascer novamente das próprias cinzas. Assim como muitas mulheres.

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Ensaio

Donnie, Frank e as viagens no tempo Texto: Aline Guevara Ilustrações: Marília Sucena

ing are the best I’ve ever had I find it hard to teel you I find it hard to take When people run in circles its a very very Mad World

A

credito que a primeira reação da maior parte das pessoas ao terminar de assistir Donnie Darko é ficar olhando atônito para a tela até o final dos créditos. Imagino que a segunda reação dessas pessoas é ir para o Google e digitar “donnie darko explicação”. Intrigante, misterioso, repleto de símbolos e interpretações, o filme do até então estreante cineasta Richard Kelly provocou uma interessante reação no público. Inicialmente, sua recepção foi bem fraca, mas com o passar do tempo o longa foi conquistando o público. Atualmente, registra o status de “cult”. No Brasil, a produção nem chegou a passar no cinema, sendo lançada diretamente em vídeo. Apesar de sua trama passar em 1988, o filme foi realizado em 2001, por um jovem Jake Gyllenhaal interpretando o complicado protagonista. Inteligente e sarcástico, Donnie Darko sofre de esquizofrenia. Mas apesar da doença, a identificação com o personagem ocorre de maneira bem intensa, afinal, o garoto é a personificação do ideal de transgressão e inconformismo do espírito adolescente. Ao mesmo tempo, ele se amargura por não ser compreendido. E como todo jovem crítico ele tem questionamentos, como as dúvidas em relação à existência de Deus. Donnie está acostumado a ter visões e lidar com amigos imaginários, mas uma dessas aparições salva sua vida.

Frank, o macabro coelho gigante, o faz sair de casa justamente quando uma turbina de avião cai sobre o seu quarto. Mas o misterioso Frank faz um alerta, o mundo acabará em 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos. Uma curiosidade: a produção realmente foi filmada em 28 dias. O coelho voltará a aparecer durante a trama dando “missões” estranhas para o garoto cumprir, como destruir o encanamento da escola. Ninguém sabe como a turbina de avião foi cair sobre a casa de Donnie, mas é interessante ver como os pais parecem aceitar a falta de informações dadas pelas autoridades e aceitar suas instruções, sendo o filho o único a questionar o mistério. Além de ser sugestivo que seja a pequena Samantha Darko a fazer a pergunta que estava na mente de todos: “Se a turbina caiu de um avião, então o que houve com o avião?”. Os pais de Donnie não representam o moralismo e fanatismo religioso que o garoto enfrenta na escola, mas se mostram conservadores, como quando estranham a escolha da filha (Maggie Gyllenhaal, irmã de Jake na vida real) para votar em um político que diverge de suas próprias opiniões. O patriarca da família inclusive liga a televisão para ver o debate dos candidatos só para recriminar o homem defensor de que os EUA não mais negociem com países traficantes de drogas, aparentemente sem

no where Going no where T h eir tears are filling up their glasses No expression No expression Hide my head I waana drown my so

All around me are familiar faces Worn out places Worn out faces Bright and early for their daily races Going

rrow No tomorrow No tomorrow And I find it kind of funny I find it kind of sad T h e dreams in which I’m dy

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prestar qualquer atenção no que estão falando. Última Tentação de Cristo, produção de Martin Scorsese Beth Grant faz um excelente trabalho como a professobre Jesus Cristo que idealiza como seria sua vida se fosse sora fanática religiosa que tenta inserir nos alunos seu um homem comum. Há ainda a cômica discussão sobre moralismo deturpado. E, para isso, utiliza os ensinamena personagem de desenho animado Smurfette. O próprio tos do autor de livros de auto-ajuda Jim Cunningham Frank dificilmente não é visto como uma referência ao (Patrick Swayze). Nenhum dos jovens alunos parece coelho branco da escatológica trama de Alice no País prestar a mínima atenção na “mensagem de amor” que das Maravilhas, uma vez que ambos os protagonistas se tenta passar a partir do vídeo picareta de Cunningham, sentem impulsionados a segui-los. mostrando-se apáticos e entediados. Mais uma vez, A trilha sonora do Donnie Darko é fabulosa. Repleta parece que só Donnie está disposto a questionar a lógica de canções dos anos 1980, ela evoca uma sensação de de um mundo bipolar. Obviamente, qualquer aluno que nostalgia e sonho ao mesmo tempo. Músicas como Under discordar receberá a maior penalidade que a fundamende Milky Waye e Head Over Heels criam atmosferas talista pode fornecer: um zero impressionantes como quando “Porque usa essa estúpida e talvez uma suspensão. Donnie e Gretchen descem Na escola Donnie conhece fantasia de coelho?” -Donnie os degraus da escada em Gretchen (Jena Malone), por direção à festa ou a bela cena quem se apaixona e que acaba no corredor da escola que “Por que está usando essa guiando sua jornada. “Que apresenta os personagens. A estúpida fantasia de homem?” letra de Mad World é a alma tipo de nome é esse? Donnie - Frank Darko? É algum tipo de superdo filme (e talvez evoque sua herói?”. A jovem tem vários maior cena). Original do grupo comentários acerca do garoto que são sugestivos para enTears for Fears, ela possui uma tristeza e beleza imensa e tender a história. Não parece coincidência (não creio que foi brilhantemente interpretada por Gary Jules, em ritmo nada no filme seja) que toda vez, ao cumprir uma “missão” mais suave que acentuou ainda mais sua dramaticidade. dada por Frank, ele vista o capuz da sua blusa. Realidades alternativas, wormholes (ou buracos O longa retrata ideias do cientista metafísico Stephen de minhoca), variações no tempo e espaço, “Cellar Hawking, que afirma em suas teorias a possibilidade de Door”, o alerta de Frank nas cenas finais ao buzium salto no tempo e espaço. Inclusive, um trecho do livro nar desesperadamente... O filme possibilita grandes fictício A Filosofia da Viagem no Tempo, utilizado no filme discussões sobre sua trama e os mistérios abordapara assegurar as teorias, foi escrito pelo diretor Richard dos. Donnie Darko foi pensado não só como uma Kelly e está espalhado pela internet. história de ficção científica, mas sua trama é reAs referências e homenagens são várias. Nas primeiras pleta de simbolismos, referências, homenagens e cenas vemos que a mãe de Donnie está lendo um livro de também faz um retrato sensível da juventude. E o Stephen King, popular escritor de suspense sobrenatural. melhor, independente de como for vista, a produção Ao sair do cinema há um letreiro com a propaganda de A sempre originará debates.

and listen Sit and listen Went to school and I was very nervous No one knew me No one knew me Hello teacher tell me what’

ich I’m dying are the best I’ve ever had I find it hard to teel you I find it hard to take When people run in circles its a very

Children waiting for the day they feel good Happy Birthday Happy Birthday And I feel the way that every child should Sit

s my lesson Look right through me Look right through me And I find it kind of funny I find it kind of sad T h e dreams in w

Ficha técnica Título original: Donnie Darko Duração: 113 minutos Ano de lançamento: 2001 Site oficial: http://www.donniedarko.com/ Direção e Roteiro: Richard Kelly Produção: Adam Fields, Nancy Juvonen e Sean McKittrick Música: Michael Andrews Fotografia: Steven B. Poster Figurino: April Ferry Edição: Sam Bauer e Eric Strand Efeitos especiais: Amalgamated Pixels Estúdio: Gaylord Films / Flower Films / Adam Fields Productions / Pandora Cinema Distribuidora: Newmarket Film Group / Flashstar

Elenco Jake Gyllenhaal (Donnie Darko) Maggie Gyllenhaal (Elizabeth Darko) James Duval (Frank) Patrick Swayze (Jim Cunnigham) Jena Malone (Gretchen Ross) Drew Barrymore (Karen Pomeroy) Noah Wyle (Kenneth Monnitoff) Katherine Ross (Dra. Liliam Thurman) Holmes Osborne (Eddie Darko) Mary McDonnell (Rose Darko) Daveigh Chase (Samantha Darko) Beth Grant (Kitty Farmer) David Moreland (Diretor Cole)

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STRIKE A POSE!

Foto: Nina Franco

Sur

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REAL

Estilo que vai além do que seus olhos podem ver

O

domínio da arte de transmitir emoções e ideias através de uma peça de roupa é para poucos. Está nas mãos de quem a produz inúmeras possibilidades de representar identidades. A moda é capaz de transformar comportamentos, opiniões e interesses de uma sociedade. Com a pós-modernidade, mudanças significativas foram provocadas pelo homem, por sua sede de respostas e de vontades não supridas até então. A desconstrução de conceitos e sistemas alimentados pela modernidade fez com que alguns a classifiquem como a época das incertezas, da troca de valores, do imediatismo, da efemeridade e da valorização da estética. A moda, por sua vez, se viu recheada de inovações, criações e novos conceitos que permeiam até hoje. A liberdade no design é total, o artista pode criar peças até então inimagináveis, com texturas diferentes, cores

Texto e Fotos: Natália Lins exuberantes, materiais sintéticos, cortes assimétricos e desenhos surrealistas. Nesse universo surrealista, o carioca Fernando Cozendey é craque. Recém formado em Design de Moda, já produz peças exclusivas, com um estilo original, corte preciso, formas lúdicas e criatividade aguçada. Na infância adorava animais. Moda nunca havia sido sua paixão, mas quando se viu ‘obrigado’ escolher uma universidade federal, optou pelos cursos que ele considerava mais fáceis, passou em Turismo e Artes Cênicas (Indumentária), na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Escolheu a segunda opção, pois envolvia execução de figurinos e técnicas de modelagem. Paralelo a isso fazia um curso de Moda no SENAI, porém, teve que optar por um dos dois. Sendo assim, trancou a universidade e terminou o curso de Moda. Lá os alunos recebiam convites frequentes para participar de concursos. Foi em

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Fernando Cozendey descobriu a moda praia num concurso

um deles que Fernando descobriu seu verdadeiro talento. No concurso Lycra Swimwear Future Designers, a obrigatoriedade era criar maiôs. “Eu não gosto de ir para a praia. Fiz um maiô porque era mandatório, mal sabia que dali encontraria meu caminho”, diz. Ao todo foram 1154 inscritos de todo o Brasil, e ele conquistou o terceiro lugar com seu desfile inovador com o desenho, inspirado na Família Adams. “Isso me deixou entusiasmado e decidi investir nesse trabalho”, conta. A ocasião faz o artista uando surgiu a oportunidade de participar do Prêmio Rio Sul 2010, o rapaz não pestanejou e levou às passarelas sua moda-praia cheia de humor. Ficou empatado em segundo lugar com Carolina Pinton, mas no desempate a moça teve mais sucesso. Lívia Mello conquistou o prêmio principal. Com um estilo pessoal discreto, Fernando se caracteriza como uma pessoa tranquila e simples. Essa é a distância entre a obra e o criador. “Pode ser que minhas peças sejam espalhafatosas justamente por eu ser discreto. Elas

Q 40

Produção feita para o concurso Lycra

Swimwear Future Designers

demonstram o que eu não sou”, afirma. Ele acredita que o estilo de suas obras é algo direcionado para uma mulher jovem e também fruto da cultura pop. “Os maiores consumidores do meu trabalho são pessoas ligadas à moda, pessoas desencanadas que curtem o diferente, gostam de usar uma peça exclusiva e que gostam de marcar o corpo”, define. O gosto pelas formas que se modelam ao corpo é proveniente de sua experiência com a moda-praia. Outro design muito presente em suas criações é o trompe-l’oeil, uma técnica que cria uma ilusão de ótica, o surrealismo, termo vindo do francês que significa engana olho. Ao olhar suas peças em uma foto você imagina que são pintadas à mão, quando, na verdade, é tudo costurado, com detalhes e precisão de artista. A definição para esse público, feita por Elisabete Monteiro, psicóloga, com doutorado em Psicanálise na Educação pela Universidade de São Paulo (USP), mostra que, quando alguém produz algo que poucos consomem,


para um grupo restrito, isso gera uma ressonância, pois te faz querer ser exclusivo, diferente, e atrair para si o olhar do outro. De acordo com Jorge Marcelo Oliveira, consultor e produtor de moda e jornalista, é preciso passar por processos conceituais, mostrando o potencial do artista, já que o pós-modernismo trouxe novas chances de inovar, fazer produções ousadas e irreverentes. “Tem que existir estilistas que compreendam esse conceito e o transformem em roupas usuais. O conceito existe para exercer sua criatividade”, diz Oliveira. O conceito existe, porém sua comercialização é mais difícil. Fernando Cozendey também tem que trabalhar com outros estilos. “A coisas conceituais não têm giro comercial; elas servem para mostrar seu potencial criativo. É lindo, mas você precisa ter algo paralelo a isso, assim como essa coleção de vestidos que estou fazendo. O design é mais ‘básico’, conta Fernando. Ele afirma que é impossível viver de moda conceitual, pois a quantidade de consumidores não é grande o suficiente. “Tem que unir o prestígio, que é a exibição do seu potencial, e o capital, que será a comercialização do seu trabalho”, declara o estilista.

Foto: Nina Franco

As criações do estilista são peças conceituais que agradam a um público específico

Moda Irracional

P

ara a estilista Carolina Pinton, que ficou em segundo lugar no Prêmio Rio Sul, é preciso vestir aquilo que te agrada, aquilo que mexe com você. Segundo ela, a moda sempre será Escolher um estilo não é algo racional, diz Elizabete Monteiro a mais autêntica forma de expressão pessoal, porque afinal, mesmo vestindo algo tentando ser outra coisa, também estará expressando um pouco do que realmente é. Segundo Elisabete Monteiro, psicóloga com doutorado em Psicanálise na Educação pela Universidade de São Paulo (USP), a psicologia explica algumas dessas afirmações. A identificação de uma pessoa com o outro provem de um laço afetivo e isso acontece a partir das relações primordiais, como pais e familiares, pois são pessoas com quem a criança se identifica e aquilo basta para ela. Mas isso não se sustenta, quando cresce percebe falhas naqueles adultos que até então eram perfeitos e assim começa a buscar outros padrões, outras identificações. A partir disso ela se encaixa nos grupos de identificação. “Escolher um estilo de roupa não é algo racional, a pessoa não faz uma análise comparativa e adere, essa adesão é emocional, infinitos elementos internos, registro da história pessoal o dirige para um determinado estilo. O estilo é uma configuração objetiva de um estado subjetivo. É uma escolha afetiva, a realidade externa que a moda oferece é um despejo daquilo que está colocado internamente”, explica a psicóloga. A preocupação com o que o outro vai pensar, ou se ele vai gostar ou não do está vestindo não deve existir, não há certo ou errado. O certo é se sentir bem com o que te cobre o corpo, independente da cor, do estilo ou do tamanho. Aliás, como a própria psicologia diz é uma escolha involuntária, ela simplesmente acontece. Sendo assim, aquela garota que você não suporta o modo como se veste, saiba que a culpa não é dela, de certa forma nem ela sabe o porquê está usando aquilo.

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A moda à la Gaga

Artigo

Texto: Thaís Colacino Ilustrações: Marília Sucena

M

uitos artistas musicais têm uma relação amorosa com a moda. Alguns ficam apenas no flerte, utilizando aqui e ali uma peça de algum estilista famoso, como, por exemplo, Taylor Swift. Outros mantêm um relacionamento estável com algum estilo, como é o caso de Katy Perry e a versão por ela utilizada da moda pin-up que cabe bem ao estilo pop açucarado da cantora. Outros artistas têm uma relação amorosa duradoura, como é o caso de Kanye West e Madonna: os dois artistas lançaram a própria marca de roupas, e sempre utilizaram a moda como linguagem. E há alguns artistas que têm aquele tipo de relacionamento em que não se pode distinguir um do outro, como é o caso de Lady Gaga. Antes mesmo de consolidar-se no meio musical, Gaga já tinha um relacionamento intrínseco com a moda. Sempre vestida como seu personagem, Stefani Germanotta, nome real da cantora, montou com amigos artistas o Haus of GaGa, que é a uma equipe criativa por trás de Gaga. O nome vem inspirado em Bauhaus, escola vanguardista alemã de design, artes plásticas e arquitetura, que existiu de 1919 a 1933. Além disso, tem a sonoridade de house. A equipe é responsável por tudo que a cantora veste, desde roupas e acessórios até cenários de seus shows, que incluem

Fotos: reprodução

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um monstro gigante em forma de peixe. Entre as criações do grupo, destacam-se um óculos com telas de LCD, usado em PokerFace; o disco stick, usado em LoveGame, que é um bastão com ponta iluminada; a órbita que gira ao redor dela em Bad Romance; o chapéu-telefone de Telephone, entre muitas outras. A ideia de ter uma equipe criativa veio de um ídolo da cantora: Andy Warhol, que possuía um estúdio, o Factory, onde artistas se encontravam para festas, drogas e para inspirar o pai da pop-art. Porém, o Haus of GaGa limita-se na produção, com artistas fixos e convidados. Mas Gaga confunde-se com a moda só por ter uma equipe criativa? Claro que não. É porque ela a utiliza como um meio, como a moda conceitual é usada: como arte. No começo da carreira, Gaga utilizava a moda para promover a si mesma e o disco, The Fame, recheado de letras sobre desilusões amorosas e a busca pela fama. Por esse motivo, pode-se dizer também que a moda era utilizada para compor a imagem e o personagem, e não só para tornar-se conhecida, sem claro, negar o fato que foi uma “coincidência” muito feliz. Os figurinos eram futuristas, com látex, maiôs, tecnologia, luzes e brilhos, como se a cantora fosse uma discoteca ambulante e repleta de novidades nunca antes vistas. Em premiações, utilizou vários figurinos em uma mesma noite, um com uma


coroa vermelha e um tecido rendado da mesma cor que cobria seu rosto, ou apliques de cabelo em forma de laços gigantes na cabeça. Não demorou muito para que os estilistas a adotassem como queridinha, alguém sem medo de utilizar as criações mais excêntricas. No talk-show americano The Ellen Degeneres Show, foi vestida com uma roupa de plástico, o que fez a apresentadora questionar se era confortável, ao que ela simplesmente respondeu que estava na moda. Depois disso, começou a aparecer com roupas de Dior, Louis Vuitton e principalmente, do falecido amigo Alexander McQueen. Deste último usava vestidos, sapatos e até um chapéu em forma de lagosta gigante e cheia de pedras. O Haus of GaGa partiu então para realizar criações mais “fashionistas” do que futurísticas. Com o sucesso, os itens utilizados foram alçados à outros ícones da cultura pop, tal como a luva brilhante de Michael Jackson e o sutiã cônico de Madonna (ao qual ela fez uma homenagem, utilizando um sutiã pirotécnico em Bad Romance). O show da cantora, Monster Ball, também segue uma história, que consiste em chegar à festa título, e tudo que ela percorre no caminho. Entre figurinos e objetos artítiscos, podemos contar um vestido “vivo”, que parece respirar, um piano de acrílico cheio de bolas plásticas, que lembram bolhas e sabão, e um vestido do mesmo material. Após aparecer na mídia com exaustão, Gaga teve que achar outro meio para não ficar repetitiva. Enveredou-se pelo campo do ativismo em prol dos direitos gays, que constituem grande parte de sua base de fãs. O segundo disco da cantora, Born This Way, reflete bem o clima adotado e o amadurecimento musical. Recheado de músicas que cantam sobre a autoaceitação, amor-próprio e dificuldades acarretadas na vida, vestiu-se como um alien, utilizando até prótese de silicone sob a pele no rosto e ombros para mostrar que mesmo os mais

diferentes podem e devem viver e serem aceitos como são pela sociedade. Há também vestimentas em forma de ossos, sutiãs com metralhadoras e claro, de imagens religiosas, como Maria Madalena. Não podemos esquecer também o famoso vestido de carne, utilizado pela cantora como forma de protesto aos que a viam somente como...um pedaço de carne. As apresentações, que normalmente contavam uma história e por isso mesmo se estendiam, passaram a ser ainda mais artísticas, com direito à um nascimento de dentro de uma incubação (que foi apelidada pelo mundo de “ovo”) na música Born This Way. Em Paparazzi, ela simula um enforcamento de um artista constantemente perseguido pelos flashes. Os fãs parecem seguir o exemplo da cantora de mostrar quem são através das roupas. Em uma entrevista aberta a um público limitado na sede do Google, muitos foram fantasiados de coisas, no mínimo bizarras (um parecia ter pego um chuveiro, outra copiou o vestido da cantora que tinha vários sapos Caco, mas utilizou diversas Hello Kittys). Nos shows não é diferente: muitos vão fantasiados como a cantora, mas muitos sentem-se livres para serem quem realmente são, sem medo de serem julgados. Apesar de criar, ela não vende e nem pensa em começar uma própria linha. Ela transforma a própria vida em um espetáculo, no qual está constantemente caracterizada, mesmo fora dos palcos, fazendo outros questionarem sua beleza, mesmo após quatro anos de exposição excessiva. Nos faz acreditar que Gaga é quem ela realmente é, e que Stefani na verdade é um personagem, distante, que nunca viu a luz do dia. Suas aparições e movimentos podem sim, ser calculados, mas a intenção não é a fama pela fama, mas a imagem que passa, o choque, o pensamento, a reflexão e, principalmente, a libertação do ser. É, portanto, a Arte.

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Kaleidoscópica

Lente Pop O divertido ensaio fotográfico deste mês traz referências à nossa querida cultura pop (a começar por essa legenda)


NANANANA BATMAN!!


Cobras! Por que tinham que ser cobras? Indiana Jones, em Os caรงadores da arca perdida.


Você não vai passar! Senhor dos Anéis


Eu vou matar Bill

Kill Bill


O inverno estรก chegando

Guerra dos Tronos


Luzes! C창mera! Kong! KING KONG


ela ela treme treme com com o o vento vento como como ´ a tima a ul ul tima folha folha de de uma uma arvore arvore morrendo morrendo

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eu eu deixo deixo ela ela ouvir ouvir meus meus passos passos

´

ela ela so so enrijece enrijece por por um um momento momento

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y y t i t C Ci


Radio Gaga A legião de titãs dos anos 80 Explosão do Rock Brasil Texto e fotos: Fátima Leite

D

écada de grandes acontecimentos mundiais como a descoberta do vírus da Aids, a Guerra das Malvinas, o desenvolvimento do Macintosh e efervescência na música pop internacional com o aparecimento de ícones como Madonna e Michael Jackson, com seu álbum Thriller, os anos 1980 foram também um marco para a música brasileira, em especial o rock, que mudava sua forma para se tornar a cara de uma juventude

que precisava e encontrou nele uma identidade. O rótulo que adquiriu de “década perdida” por ter sido um período de estagnação na economia em toda América Latina, em que o consumo exacerbado fez com que a inflação aumentasse assustadoramente e a dívida externa seguisse o mesmo caminho devido a queda do PIB, não influenciou negativamente a música no Brasil. Ao contrário, pode ter sido uma das alavancas que deram início a um novo estilo. A música começava a ganhar uma nova trajetória.

O sociólogo José Roberto Zan

O estilo

I

nfluenciado pelo pós-punk, movimento internacional que teve seu auge no ano 1977, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, o rock predominante no Brasil na década seguinte ganhou o nome de Rock Brasil, ou também, como denominado por Nelson Motta, BRock. O sociólogo José Roberto Zan explica que as características principais do pós-punk são poucas modulações e poucos acordes. Já o BR Rock não é homogêneo, cada banda segue uma linhagem, faz adaptações e misturas, definindo um estilo próprio. Essa heterogeneidade existe tanto nas letras quanto na parte instrumental. As letras 54 dos Paralamas do Sucesso, por exemplo,

diferem das letras dos Titãs, que diferem das letras do Legião Urbana. Eduardo Visconti, doutor em música e professor de guitarra na Universidade Estadual de Campinas, comenta que o estilo mais usual na década de 1980 segue um padrão de sonoridade baseado em riffs de guitarra, centrados em versos com apenas três ou quatro acordes, sem grande sofisticação musical, e conta que foi o estilo que seguiu Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Arnaldo Antunes, o que é evidente, por exemplo, na música Jesus não tem dentes no país dos banguelas. Visconti acrescenta que nos anos 1980 o punk, antecessor do estilo pós-punk, ainda era possível de ser visto em bandas como os Inocentes,

Plebe Rude e Ratos de Porão, apesar da predominância do pós-punk. O músico Leoni comenta a imersão do punk no Brasil: “A mudança do rock internacional, de uma coisa que tava ficando meio chata que era o rock progressivo, para punk, veio destruir aquela coisa sinfônica e pomposa, que tornava difícil o acesso das pessoas a serem artistas, tinha que ter uma formação quase erudita para fazer rock. Os punks vieram com essa coisa doit-yourself. Foi essa postura que possibilitou que tanta gente tivesse voz, não interessa se você sabe tocar bem seu instrumento, se você é um bom cantor” e complementa dizendo que o importante na época era ter algo a dizer.


O momento

referenciam o contexto político pós-ditadura, acompanham utra característica que pode ser apontada é a relação o final da ditadura e as eleições diretas, os presidentes que das letras com o contexto social. As letras refletiam foram eleitos posteriormente. “Há uma referência à corrupção que começa a ficar aspectos políticos nos costumes, sendo que algumas mais explícita, porque após a ditadura o Congresso passa delas eram mais explícitas, como Inútil, do Ultraje a Rigor, que é lançada paralelamente com a votação no Congresso a ficar mais visível. Na ditadura não existiam imagens na Nacional das Diretas Já. A música com sua crítica ao sistema televisão de cenas dos bastidores do Congresso Nacional, político encaixou perfeitamente ao contexto social da época. nem a Imprensa tinha acesso. Depois que ocorre o final Jesus não tem dente no país dos banguelas faz referência direta do regime Militar, o governo Sarney, o Congresso se abre ao subdesenvolvimento, ao atraso, à pobreza, à periferia; e a imprensa começa a circular por lá, então vem à tona Alagados; Que País é Esse; Brasil, do Cazuza; Nós Vamos as mazelas das corrupções e a imprensa começa a divulgar Invadir sua Praia também criticam socialmente. Essas músicas isso”, afirma Zan.

O

Os points de encontro: Circo Voador – RJ Lira Paulistana – SP Madame Satã – SP Paulicéia Desvairada - SP A identidade... e a explosão

D

o momento social que se passava, é possível extrair um dos motivos que explicam a carência do público jovem por uma identidade musical, que ia bem mais longe do que uma simples identificação com o estilo, os jovens precisavam dizer algo e precisavam de porta-vozes. Essa necessidade existia não apenas para falar do social, mas também do aspecto pessoal. Leoni conta que na época a música brasileira não tinha espaço dentro da música pop, a música era bastante envelhecida, faltava alguém para dar voz à juventude. “Como exemplos mesmo a gente só tinha Rita Lee e Raul Seixas, o resto era muito underground”. O músico afirma que a identidade foi o fator que aproximou o público dos músicos: “Foi isso que nós conseguimos como geração, dar voz à juventude urbana, falar de assuntos que as pessoas não falavam, com certa leveza no relacionamento, diferente da MPB. Demos outra abordagem, até porque nós éramos jovens, estávamos vivendo isso, aprendendo a nos relacionar, não é à toa que um dos discos do Kid Abelha chama-se Educação Sentimental. Acho que a gente inventou um idioma pra juventude na música; era uma coisa que não tinha, a música era algo mais adulto e com uma geração

de compositores muito forte. A geração de Bossa Nova foi muito boa, eu tenho meus maiores ídolos ali, Tom Jobim, Carlos Lyra, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, mas não era uma quantidade de grandes autores maravilhosos, eram algumas grandes estrelas. Já nos anos 1980, aparecia numa mesma geração: Renato Russo, Cazuza, Herbert Vianna, Nando Reis, Arnaldo Antunes, Leo Jaime”. O cantor, DJ e radialista Kid Vinil concorda que a década de 1980 foi uma época importante para o rock brasileiro porque antes de estourar, existia um vazio em termos de música e pouco se tocava de música brasileira nas rádios: “Foi um momento em que todo mundo prestou atenção no que tava se fazendo em termos de rock no Brasil. Principalmente quando a grande mídia abraça um movimento desses, a tendência é que acabe dando certo como aconteceu na época”. E acrescenta dizendo que apesar das décadas de 1950 e 1960 também terem sido significantes para o rock brasileiro, não são relembradas com o mesmo destaque e que uma possível explicação pode ser a presença de muitos músicos que viveram o auge de sua carreira nos anos 1980 e que ainda hoje continuam a tocar e cantar, criando uma “continuidade”, diferente das outras

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décadas. Zan explica que houve ainda um movimento geracional, pois a idade dos músicos brasileiros do BRock era a mesma do público, todos foram influenciados pelo que ouviam: punk e pós-punk inglês, como The Police. Além da falta de entusiasmo do público jovem da década de 1980 com a música nacional predominante da década de 1970, os novos músicos criavam um vínculo maior com a nova geração porque assim como eles, se identificavam mais com a música inglesa pop dos anos 1970, especialmente com a música punk, um rock simples, basicamente composta por uma guitarra ou duas, contrabaixo elétrico, bateria e poucos acordes. Então, para esses jovens estudantes de colégios era mais fácil montar uma banda de garagem, diferente dos Mutantes que lembrava Yes, banda inglesa sinfônica. Outros aspectos também impulsionaram o sucesso das bandas de rock no Brasil dos anos 1980. Os produtores das gravadoras começaram a reconhecer um número grande de público frequentando um circuito marginal em que essas bandas de classe média de boa formação cultural tocavam, então, começaram a incorporar esses grupos, que se reuniam para tocar em diversos pontos de encontro como o Circo Voador; no RJ, Madame Satã, em SP e outros pontos em Brasília. Constituise um circuito em várias cidades com apresentações informais dessas bandas. O sociólogo cita o produtor Pena Schimidt como um pioneiro a perceber o espaço que as bandas de rock nacional estavam conquistando, quando leu em um jornal 40 shows anunciados só para aquela semana, divulgados em uma página inteira. A partir dali, admitia-se a existência de um público que as gravadoras antes não reconheciam, elas procuravam as novidades, que estavam ali. Quando elas perceberam, começam a contratar essas bandas. A crise econômica também

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facilitou, de certa forma, a entrada dessas bandas no mercado, pois o mercado fonográfico também estava em crise, era mais barato contratar as bandas de BRock que entravam no estúdio direto para gravar suas próprias músicas do que artistas consagrados que exigiam contratações de orquestra, músicos, arranjadores, custava caro gravar um disco. Nos anos 1970 e 1980 a música internacional circulou com maior intensidade no Brasil e a música brasileira também começou a sair. É o fenômeno de modernização da cultura, em que muitas bandas entram no circuito internacional. Há um desenvolvimento de recursos tecnológicos, da maneira de organizar o mercado musical. É com o Rock in Rio que o Brasil entra em pé de igualdade, pois trata-se de um mega evento que se iguala a grandes festivais internacionais. Em relação a influência da música para as décadas posteriores, Leoni acredita que o diferencial das bandas de rock dos anos 1980 está na forma como faziam rock: “A gente criou um jeito de fazer rock em português, que é bastante diferente do rock em inglês. As melodias nos EUA e na Inglaterra podem ser muito menores porque as palavras são menores, aqui qualquer coisa que você vai falar você gasta mais sílabas, então você tem que inventar melodias pra essa nossa língua e uma linguagem mesmo, que palavras usar, que caminhos seguir, acho que a gente conseguiu criar isso, e isso foi muito usado depois, por todas as bandas. Algumas bandas podem até não ter o que dizer, mas sabem como dizer, a fórmula tá lá”.

A música La isla bonita, gravada por Madonna, foi composta para Michael Jackson, que não gostou da música e decidiu não incluir em seu álbum Bad

Rock in Rio 85

E

sse megafestival foi um marco na história da música brasileira. Teve sua primeira edição realizada em 1985 e foi porta de entrada para artistas internacionais em solos brasileiros, antes raro de ver no país. Dessa forma, o público foi à loucura e pode assistir apresentação de vários ídolos internacionais do rock e do pop, como Rod Stewart, Scorpions, AC/DC, Ozzy Osbourne, Yes, Queen, Go-go´s, Whitesnake, B-52´s. Entre os artistas brasileiros, alguns dos nomes que marcaram presença foram Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Rita Lee, Eduardo Dusek, Lulu Santos, Blitz, Paralamas do Sucesso. Cid Castro, criador da marca do Rock in Rio, conta que trabalhava na Artplan quando a marca foi encomendada ao departamento de criação como “o logo para o maior festival de rock da América Latina”, pelo presidente da empresa Roberto Medina, nada menos que o idealizador do Rock in Rio. Castro diz que roubou o briefing, fez uma cópia e começou a trabalhar em casa por conta própria em silêncio e criou o logo utilizado até hoje nas edições dos festivais, inclusive os internacionais, onde o corpo da guitarra é o mapa da América Latina. Cid Castro trabalhou nos bastidores e acompanhou aquela super-produção: “Aquilo foi algo revolucionário. O primeiro presidente civil foi eleito durante o festival, aquilo foi uma comoção total. Nós tínhamos um grande festival, que não havia no Brasil naquela época, tínhamos uma economia desgastada, o milagre brasileiro tinha acabado, as pessoas estavam frustradas e havia também a perspectiva de mudança política e ainda havia clima de pressão militar, por isso foi muito difícil o Rock in Rio acontecer, mas quando aconteceu foi realmente uma catarse


nacional. As pessoas quando entravam no festival entravam chorando, algumas se ajoelhavam, a dimensão do festival foi muito grande, nunca ninguém tinha visto uma cidade do rock com aquelas

dimensões e a mídia nunca tinha feito uma divulgação de um festival como aquele, um momento único na cultura brasileira”.

Logo atual do Rock in Rio e o processo de criação de Cid Castro, na foto, com óculos. Abaixo, ingresso do primeiro festival

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Rumo ao sucesso Leoni descreve os momentos que marcaram o início da carreira Como aconteceu... Leoni: A gente tava no lugar certo, na hora certa, porque já tinha muita gente bacana de rock antes que nunca tinha “acontecido”. Alguns pontos coincidiram para dar esse empurrão pra gente: a existência do Circo Voador, que era um local onde qualquer banda podia se apresentar, a Rádio Fluminense, onde tinha gente que levava até fita k7 e eles tocavam e apresentavam as bandas novas, e o fato da Blitz ter estourado. Ou seja, a gente podia apresentar o nosso trabalho e tinha onde se apresentar, isso permitiu que o rock estourasse primeiro no RJ.

Como foi o Rock in Rio 85? L: Foi o maior aprendizado que a gente teve, o problema foi que a gente aprendeu em público porque nunca tínhamos lidado com equipamentos daquele tipo, tão bons, com a pressão dos artistas internacionais. A gente foi meio humilhado pela produção do Rock in Rio que tratavam os artistas nacionais a toque de caixa e toda a glória era para os artistas internacionais, porque nunca tinha tido aquilo, era um endeusamento desses artistas. E a gente aprendeu ali que tínhamos muito a dar. Eu lembro, em um dia que o Kid Abelha tocou, junto com o The B-52´s e The Go-Go´s, e o público conhecia muito mais a gente do que Drogas na década 80 eles, o que foi uma grande surpresa, As manias: L: Existia uma repressão grande, porque eles eram nossos ídolos. Foi mas também certo glamour em se ai que entendemos que poderíamos Muitas pessoas mostrar rebelde, marginal. Eu ter uma postura diferente nessa me lembro que eu adorava ver história, mas só percebemos cantavam o hit dos as coisas de rock, Led Zeppelin, isso durante o vôo. Isso foi Paralamas assim: aí aparecia o Robert Plant que muito importante pra gente, no “Alagados, Flinstones, era antes da gente, fumando outro Rock in Rio as coisas já favela amarela / A maconha na saída do palco, então mudaram e no Hollywood Rock, esperança não vem ficava aquela imagem de que ele Os Paralamas, junto com os era rebelde. É claro que não se Titãs, fizeram questão de fechar a do mar / Nem das poderia fazer isso escancaradamente noite, e era isso que tava faltando, antenas de TV” por causa da polícia, não podia fazer perceber a força da nossa música pro isso na televisão. Eu não via isso como nosso público. Para nosso público a gente um problema, chegou a se usar muita droga até era muito mais do que diversas bandas que vieram se descobrir que isso era careta, principalmente porque de fora, mas isso a gente foi descobrindo aos poucos. a droga que explodiu na década de 80 foi a cocaína, a maconha continuou, mas a cocaína é que virou um Qual a marca dos anos 80? acoqueluche. Eu acho uma droga esquisita, era a mesma L: O fim da ditadura. A gente tinha que construir droga que o pessoal de All Street usava para continuar uma democracia. Era um país em construção, uma trabalhando, produzindo. Não era uma coisa recreativa garotada nova aparecendo. Então apareceu geração feito a maconha, de ficar olhando pro céu, não, tinha anos 80 nas artes plásticas, no cinema. Essa excitação uma coisa de poder, eu posso, eu sou poderoso, eu sou foi muito legal. Não acredito que foi a década perdida, a bacana. E realmente depois entrou em desuso. A galera gente criou a base aos trancos e barrancos, mas é assim da minha geração, quem não parou, usa muito pouco que se aprende, fazendo, acertando e errando, então porque perde o encanto, chega uma hora que você paga criou a base para um país que hoje é muito mais legal. o preço por usar.

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No limite do Pop Artigo

Por Bruno Dias

E

ntre a Europa e o Pólo Norte, está a Islândia; entre o pop e o alternativo, está Björk. Exótica como a ilha vulcânica e vanguardista como o velho continente, Björk Guðmundsdóttir começou a carreira aos 11 anos de idade cantando covers de Beatles e Steve Wonder em islandês, idioma compreendido por menos de 300 mil pessoas. Acontece com a Islândia e com Björk: todo mundo já ouviu falar, mas poucos sabem do que se trata. Seu fenótipo esquimó apareceu para mais de três bilhões de telespectadores na abertura das Olimpíadas de Atenas em 2004, interpretando a música Oceania, que tem nos versos uma mensagem de união mundial. Um tipo de We are the World björkiano. Aparentemente, metade de quem compra seus oito discos (contabilizado só os de canções inéditas da carreira solo) são críticos e jurados das incontáveis premiações e reportagens elogiosas. Afinal, até Adocica de Beto Barbosa teve mais sucesso comercial. É nessa toada de esnobar o mercado fonográfico que a cantoraatriz-produtora segue até hoje, prestes a completar 46 anos de vida inquieta. A origem da atitude anarquista remete à família de sindicalistas e ativistas políticos, além do movimento punk que a fisgou na adolescência. O peixão Björk ficou grande demais para a pequenina ilha e conseguiu excursionar na Europa com sua banda punk Kukl. Um

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pequeno passo para uma carreira, mas um grande passo para um islandês. Sem grana até para comida, se mantinham na estrada furtando cubos de açúcar dos postos de gasolina. Depois das desventuras e o fim do Kukl na primeira metade dos anos 80, os cubos de açúcar ficam mais docinhos para o novo projeto: The Sugar Cubes. Com um rock mais digerível, emplacou clipe na MTV e alcançou razoável sucesso até começo dos anos 90, com o fim da banda. A diva pop que lota shows começa a valer depois do primeiro disco solo, Debut, de 1993. É neste período que a raridade vocal é devidamente explorada. Além de atuar em todo o processo musical, das letras aos arranjos, mostra um talento fundamental como produtora e realizadora de uma proposta de arte autêntica, refratária à tradicional pergunta: “parece com o que?”. O disco seguinte, Post, segue a mesma linha, amadurecida no terceiro trabalho e maior gerador de hits: Homogenic. Então, em 2000, pausa para fazer um filme. O diretor Lars Von Trier (o mesmo de Melancolia) conhecido por filmes impróprios para a Sessão da Tarde, encomenda a trilha sonora do musical Dançando no Escuro para Björk. Surpreendido com o resultado e consciente da inexperiência da cantora em atuar, propõe que ela seja a protagonista. As notícias dos bastidores das filmagens estavam menos para caderno de celebridades e mais para páginas policiais. Depois de vários “pitis”, atriz principal desaparecida

por dias e acusações de tortura psicológica, o filme é laureado com a Palma de Ouro e Björk vence como melhor atriz. Ainda no campo audiovisual, com a ousadia punk que nunca deixou de fluir nas veias, atraiu os artistas da vanguarda para colaborar na proposta visual. Cada videoclipe reflete bem a autenticidade e os devaneios. Spike Jonze (de Adapatação e Quero ser John Malkovich) e Michel Gondry (de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças) são habitués na direção. Clipes tão descompromissados com o Top 10 que Cocoon, do disco Verpertine, foi censurado pela MTV. Os figurinos excêntricos na linha de Alexander MacQueen e, às vezes, até do próprio, acompanham da capa de discos à cerimônias de premiações. No Oscar 2001, que concorreu pela melhor música, vestiu tão bem o figurino de cisne que botou um ovo no famoso tapete vermelho, acredite. Perdeu para Bob Dylan. Meses antes, apareceu no Festival de Cannes vestida de luminária japonesa. Armani pra quê? No disco Vespertine, é notório como os sentimentos femininos estavam aflorados. Estava grávida de Isadora, filha do delirante artista contemporâneo Matthew Barney (com exposição no Pavilhão da Bienal até dezembro). Seu primogênito, Sindri, é resultado


Ouça crystalline, primeiro single do novo disco Biophilia, de 2011

de “quando dois corpos ardentes se encontram” (sim, é este o significado do nome na mitologia nórdica) com um colega de banda dos tempos do Sugar Cubes, já estava crescidinho. Após Isadora, a nova cria é o disco Medúlla, visceral como a maternidade. São experimentações vocais, sem instrumentos, apenas uns sons incidentais eletrônicos. Arrancou elogios de Caetano Veloso: “Tem as características da vanguarda. Mas me lembro de um trabalho que fiz em 1972, Araçá

Azul, com canções vocais. Não era tão bom, mas a intenção era a mesma: voz abstrata, poucas palavras, algumas notas de piano”. O disco seguinte é a trilha do filme Drawing Restrant 9, do marido Barney. Björk também atua, mas, não é uma obra para concorrer em festivais. No penúltimo trabalho, Volta, apareceu em turnê pelo Brasil em 2007. A proposta foi unir instrumentos de alta tecnologia e música ancestral. Uma “volta” e tanto depois de um disco basicamente de cordas vocais.

Este ano, lançou o disco Biophilia, lançado primeiramente para Ipads, pois pode ter os arranjos alterados sem que isso interfira na experiência musical. A artista que saiu em turnê empolgada com a energia punk ficou maior que a ilha natal. No começo do ano, aquele vulcão de nome impronunciável que fechou o espaço aéreo não ficava na Islândia. Ficava na terra da Björk (seja lá quem for essa doida).

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Born This Way

Heróis da Vida Real

Pessoas normais (e sem poderes) se fantasiam para combater o crime ou simplesmente ajudar os que precisam

Texto: Thaís Colacino Fotos: Peter Tangen

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chou um cartão que havia distribuído. Outro. O inverno no Canadá era severo, chegando a vinte e cinco graus negativos, mas o coração de muitas pessoas às vezes era mais frio. Levou o cartão para junto dos outros dez que já pegara de volta. O dono não reclamou, e nem podia: já não tinha voz. Assim como não tinha mais vida. Refletiu por um momento e pensou que estava realmente agindo com as pessoas que mais precisavam de ajuda. Muitos foram os corpos que chegaram até seu trabalho vindos das ruas, aqueles mesmos com quem ele falara, ouvira e tentara ajudar. Tanto que ouvira de um policial que a única coisa boa que eles poderiam esperar era a morte. Desde então, tornarase Thanatos, a encarnação da morte, mas para levar

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um pouco de esperança àqueles que necessitavam nas ruas de Vancouver. E foi assim que se tornou um superherói da vida real. Thanatos é um homem como todos os outros. Acorda, vai para o trabalho, paga as contas, sai com amigos. Tudo bem que ele trabalha em um necrotério, o que pode ser considerado incomum, mas não tanto quanto o hábito que mantém à noite: vestir uma máscara verde e roupas negras e ajudar quem puder pela rua. E os mendigos estão lá, prontos para aceitar o que ele oferecer, sejam meias, capas de chuva ou comida. O objetivo do herói de fazer com que alguns consigam ter mais um dia de vida chamou atenção da imprensa, e pelo boca-a-boca a informação chegou à Peter Tangen, fotógrafo estado-unidense que trabalha na indústria de


cinema hollywoodiana justamente com pôsteres de heróis como Batman e Homem-Aranha. Tangen, ao saber da história, tentou de todas as formas contatar o herói, mas era continuamente recusado pelo tratamento que a mídia dispensava às pessoas fantasiadas. “Eles (os heróis) eram ridicularizados para entretenimento do público, colocavam as vinhetas da série do Batman dos anos 60, com a música Crazy ao fundo, não eram levados a sério. A mídia não olhava o trabalho deles, mas sim alguém que resolveu se fantasiar e por isso era taxado de louco” conta Tangen. Mas o fotógrafo tinha a vontade de dar a esses heróis o mesmo tratamento que os ficcionais recebiam. Depois de muita insistência e de explicar a ideia do projeto Real Life Super Heroes (vide box), conseguiu um encontro com Thanatos que, por ser um dos mais velhos heróis na ativa e, portanto com muitos contatos, o indicou a outros heróis. Com uma tradição de HQs, os Estados Unidos figuram como maior antro de super-heróis reais. “Existem entre 80 a 300 no mundo, dependendo a quem você pergunta, mas é preciso saber quais ações eles fazem antes de chamálos por esse título”, afirma Tangen. Muitos heróis se preocupam com os sem-teto, como Thanatos, no Canadá, a garota Nyx em Nova York e Nova Jersey, e Life, que lembra o herói Spirit, em Manhattan. Outros tomam parte do ativismo ou da caridade, como Geist e os irmãos Soundwave e Jetstorm, que ainda são crianças. Há aqueles que confrontam mal-feitores, como Death’s Head Moth, que também atua enquanto civil, sem máscara, levantando fundos para hospitais infantis. Entomo, herói italiano, tenta evitar o vandalismo nas ruas de Nápoles. Lion Heart é um herói africano, e suas ações consistem em educar o povo de seu país a respeito da água e dos riscos de contágio que ela oferece, além de levantar fundos para a construção de poços em vilarejos. Já Dark Guardian atua também em Nova York, mas administra um site (www. reallifesuperheroes.org) que ajuda novos heróis em questões de como coletar evidências para a polícia, como

fazer um uniforme e como proceder ao fazer uma prisão.

Heróis devidamente registrados

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esde 2001 há um aumento no número de heróis no mundo, principalmente nos EUA. Alguns acreditam que se isso aconteça devido ao sentimento solidário que atingiu o país após o ataque às Torres Gêmeas e também após a crise mundial em 2009, que fez com que muitos passassem ou conhecessem alguém que passou por dificuldades. Mas, apesar do aparente boom de super-heróis, os primeiros apareceram há alguns anos. O mais antigo conhecido é Superbarrio Gómez, do México, na ativa desde os anos 80. Ele veste uma máscara de luta livre e um uniforme vermelho e amarelo que lembra o do Chapolin Colorado, utilizava a imagem para organizar comícios e abaixo-assinados contra a corrupção e hoje está aposentado. Porém, como é tradição entre os heróis, alguém assumiu seu manto e continua o trabalho. O site World Super Hero Registry (www.worldsuperheroregistry.com) mantém, como o próprio nome indica, um registro dos heróis pelo mundo, com uma ficha de cada um, informando local onde atua; se continua ativo e quais ações o tornam digno da alcunha. Tanto que aqueles que desejam se registrar no site passam por aprovação: se o aspirante a herói não fizer nenhuma boa ação ou se a fizer sob patrocínio, mesmo que a empresa que o financie seja “do bem”, ele não consegue inserir o nome no site. Afinal, heróis devem ser altruístas, sem transformar o que fazem em profissão. Uma curiosidade do site é o campo “inimigos”. Assim como existem heróis, existem os vilões da vida real, mas são poucos e ainda não fizeram nenhuma ação fora montar um grupo, o Círculo Negro, e se declararem vilões.

A grande maioria dos heróis mantém a identidade verdadeira em segredo, alguns por medo de represália de algum bandido, outros porque simplesmente não vêem motivo para mostrar o rosto, mantendo assim a mitologia que cada um cria para si, o que nos leva a perguntar: por que se fantasiar? “A simbologia do personagem faz com que ele se torne conhecido. Thanatos ajudava as pessoas há anos, e elas nunca se lembravam dele, pois era um rosto comum. Quando ele fez uma fantasia, elas começaram a associar a ação a um rosto, a um nome”, afirma Tangen. Cada herói real cria sua própria mitologia para fazer seu personagem. Lion Heart decidiu por esse nome devido ao fato de morar no continente africano, local onde há maior concentração de leões no mundo e porque no país em que mora, a Libéria, há maior quantidade desses animais por região. Ele acredita que assim representa a cultura do país.

Vigilantismo e valsa com a morte

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eróis sem poderes no mundo dos quadrinhos não são comuns, mas existem. Kick Ass, de Mark Millar, conta a história de um garoto comum que se veste de herói e combate o crime usando dois cassetetes e encontra outros como ele, além de vilões. Outros quadrinhos, que misturam algumas ideias fantasiosas, são Watchmen, de Alan Moore, que conta sobre um grupo de vigilantes em uma realidade alternativa, e o famoso Batman, de Bill Finger e Bob Kane. Na vida real, os heróis não podem utilizar armas ou podem ser presos por vigilantismo. Em São Diego, na Califórnia, lar da Comic Con mais famosa, os policiais orientam a quantidade crescente de heróis que não utilizem de violência nas patrulhas, e limitem-se a serem testemunhas e denunciantes de crimes. E diferente do que acontece com os heróis ficcionais, o público em sua maioria não apóia a ideia dos heróis. O herói Life já foi atingido na cabeça por um morador de um prédio que jogou nele um pedaço de carne crua.

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Ao lado, pôster de Thanatos. Acima, somente o retrato do herói.

Real Life Super Heroes Project

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É interessante pensar que esse mesmo público que faz troça dos heróis é o mesmo que faz os filmes do Batman ultrapassarem um bilhão de dólares nas bilheterias, o que mostra certa incongruência. Quem demonstra empolgação com os heróis é justamente o criador de personagens como Homem-Aranha e Xmen, Stan Lee. Em entrevista à CNN, o autor declarou: “Se alguém está cometendo um crime, se alguém está machucando outra pessoa, é quando um super-herói entra em cena. É bom que haja pessoas ansiosas para ajudar as próprias comunidades”. Para os beneficiados pelos heróis, pouco importa se quem os ajuda utiliza ou não uma máscara. “Os mendigos não julgam o cara fantasiado, eles entendem o propósito”, afirma Tangen. Imagine a cena: você está passean-

do pela cidade, quando uma sem-teto pede algo a você, mas não é dinheiro, é uma dança. Você concederia? Rose, uma moradora de rua idosa, tinha como último desejo valsar com a morte, pedido que Thanatos atendeu de bom grado. Duas semanas depois, a Morte tomou-a nos braços. Com a crescente violência no mundo e ineficácia das autoridades em manter a segurança, alguns resolvem que não serão apáticos, enquanto outros se escondem atrás da tecnologia, que utilizam mais para reclamar, e não participando de nenhuma ação para melhorar a realidade. E lá eles continuam, andando nas sombras ou a vista, denunciando e lutando, ridicularizados ou celebrados, vivendo a vida que tantos celebram nos cinemas, esperando ajudar quem puderem.

O encontro entre Peter Tangen e Thanatos acabou por criar o projeto Real Life Super Heroes, que visa reunir alguns heróis e, principalmente, inspirar outras pessoas, não necessariamente a fazer o mesmo, mas a ajudar os outros. Com uma equipe de cerca de 30 pessoas e ajuda de mais cinco diretores de arte, Tangen passou um fim de semana com 20 heróis escolhidos tanto por focos diferentes das ações que faziam quanto pelos uniformes e mitologia criada e, claro, pela disponibilidade de viajar até Los Angeles. “A maioria dos heróis que combatem o crime vestem-se de preto e muitos outros têm fantasia rudimentar, por isso não foram chamados” conta. Há também fotosretrato, para que o público veja o que eles fazem sem o glamour proporcionado pela edição de imagens. “Foi meu melhor dia como fotógrafo”, relembra Tangen, emocionado. “Os heróis entravam e saiam toda hora, e os que estavam trabalhando comigo se sentiram inspirados pelo trabalho daquelas pessoas, de fazer a diferença mesmo com gestos pequenos”, afirma. O resultado do trabalho pode ser conferido no site RealLifeSuperHeroes.com


Crônica

Super Herói no Divã Texto: Janaína Amaral Ilustração: Marília Sucena

Mais um aniversário se aproximava e ele já havia feito o pedido: -Mãe, quero uma fantasia do Homem-Aranha! Antônio já havia sido Batman, Homem de Ferro, Superman... É comum. Os meninos sempre cismam que querem ser um dos seus super-heróis preferidos, vestem o uniforme e pronto, já estão prontos para combater o mal. Na visão de uma criança a vida de um herói é bem simples. Com suas roupas coloridas e capas esvoaçantes, os heróis entram em ação. Depois de cumprir a missão de salvar o mundo, voltam para suas identidades secretas e à vida normal. - Mas filho, se você for ser o Homem Aranha vai ter que fazer que nem ele. E se você estiver salvando o mundo bem na hora em que seu amiguinho vier te chamar pra jogar bola?

Ele fez uma careta e não respondeu. A maioria das pessoas já passou pela fase de se identificar com um personagem. E os heróis têm uma vantagem, eles são a personificação dos desejos e anseios do público. Qualidades e defeitos todos têm, mas os poderes são um plus. E é isso que faz com que eles tenham sucesso, se os atributos positivos os elevam a um nível acima, as falhas dão a identificação. Qualquer fã poderia, algum dia, ser igual a eles. Se a decisão entre jogar bola ou salvar o mundo parece um problema sério para Antônio, imagine-se no lugar de qualquer um desses super-heróis que sacrifica a vida pessoal. Sua missão é proteger e servir ao povo, ser o responsável pelas esperanças de toda uma sociedade. Definitivamente é uma situação que pode levar a pessoa à loucura, ser depósito das expectativas não é uma situação agradável. Diante disso pode-se dizer que o herói tem

a reponsabilidade e o direito de transformar o mundo. Outra questão que se deve levar em conta é o peso das decisões que envolvem os heróis, em termos éticos. Como em Watchmen quando o personagem principal, para fazer com que os Estados Unidos e a Rússia abandonem a Guerra Fria, decide simular um ataque alienígena e para tanto é preciso sacrificar toda uma cidade. Uma decisão maquiavélica – os fins justificam os meios- não muito louvável, mas foi a forma que ele encontrou para evitar um mal maior, e até uma possível Terceira Guerra Mundial. De fato é cada vez mais presente nos quadrinhos temas que abordam questões que fazem pensar sobre a sociedade que os origina. O herói deixa de ser um modelo ideológico para ser foco de crítica. Eles estão cada vez mais humanos e ligados a questões cotidianas.

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Born This Way Um conflito que começa com

Y

Um raio x da geração que está mudando a forma de se relacionar Texto e fotos: Fátima Leite e você teve que aprender a mexer no seu vídeo-game antes de começar a se divertir, provavelmente você não pertence a geração Y. Mas, se você se viu obrigado a ler o manual, cuidado, você pode ser um baby boomer. Não se assuste, baby boomer é a geração que não cresceu ambientada à tecnologia, aprendendo aos poucos, já que não puderam resistir ao advento da eletrônica. Refere-se a uma geração que teve como característica a explosão populacional pós-Segunda Guerra. Possuem algumas peculiaridades comportamentais como preferência por produtos de qualidade, são pouco influenciados por marcas, tomam decisões com forte embasamento e bem amadurecidas. Essa geração é considerada pais da geração X, principalmente pelo fator cronológico. AgeraçãoX,porsuavez,jánasceuemum ambiente desenvolvido tecnologicamente, porém com recursos analógicos. Por isso, o valor dado à família já não é mais o mesmo se comparado as gerações anteriores, talvez porque começam a valorizar mais os bens materiais. Em teoria, a geração Y, também chamada geração do milênio, compreende os nascidos no período de

S

Baby Boomer

Geração nascida após a Segunda Guerra que gerou uma explosão populacional nos Estados Unidos, daí adoção do termo Baby Boom, explosão de bebês. Caracterizamse por ser uma geração mais apegada a valores sólidos que lhe dêem segurança. 66

dia-a-dia. Na geração X a ditadura militar foi um aspecto que influenciou pessoas a se unirem e brigarem por uma grande causa. Com o fim da ditadura, as pessoas priorizam seus objetivos individuais, não há mais um grande motivo que os unifique, por isso, o individualismo é uma característica bastante comum na geração Y.

Melissa Miranda faz parte da geração “aqui e agora”

1978 a 1990, aproximadamente. Essa geração nasceu na era digital, globalizada e democratizada. São pessoas que não precisaram aprender a usar a internet, cresceram junto à esse meio multimídia e simplesmente foram acompanhando seu desenvolvimento. Diferente de seus antecessores, que cresceram num mundo onde notícias demoravam horas para se espalhar pelo planeta, sem as redes sociais, sem blogs, enfrentando conflitos sociais nas ruas e preocupados em fazer o jornalzinho do bairro para expressar seus desejos ou os acontecimentos do

Geração X

Geração nascida após o Baby Boom, acompanharam a chegada da televisão nos lares, enfrentaram a recessão econômica e, por isso, tendem a oferecer aos filhos o que não tiveram. Preferem se estabelecer profissionalmente à se aventurar em busca de desafios. Contribuíram para a evolução da internet.

A

Realidade superficial

autora do livro Inércia – A Geração Y no limite do tédio, Melissa Miranda, de 24 anos, explica o que lhe chamou a atenção para que escrevesse sobre o assunto: “a geração Y é a minha geração. Eu sempre fui muito intrigada pelo comportamento humano. Você tem toda uma geração se movendo para um mesmo lado, fazendo as mesmas coisas, sentindo as mesmas coisas e sempre tem uma pausa, alguma coisa como o contexto que a geração está inserida. Por exemplo, você tem a geração que era jovem na época da ditadura, era uma geração muito engajada porque eles viviam um momento que demandava engajamento político. A minha geração, os meus amigos, tinham sentimentos parecidos de imediatismo, tudo tem que

Geração Y

Primeira geração que acompanhou o desenvolvimento e a disseminação da internet. Não se sujeitam a atividades que não têm sentido a longo prazo, não aceitam o autoritarismo, são imediatistas. Desempenham muitas atividades ao mesmo tempo. Operam as ferramentas digitais com grande facilidade.


ser agora, parece que não dura, você vai numa festa incrível e no dia seguinte parece que nem aconteceu. Eram sentimentos fortes que eu tinha e compartilhava com amigos meus e eu queria entender de onde que eles vinham, não estavam tão claros para mim. O livro foi uma oportunidade de investigar isso junto com os jovens, de dar possibilidade deles falarem abertamente para outra jovem, então é outro tipo de relação, e sem nenhum julgamento”. Em seu livro, Miranda aborda a questão do imediatismo: “Nada dura, é uma geração que não tem essa coisa de ter apenas um trabalho, um objetivo na vida. A longo prazo não é assim que funciona, é tudo agora, agora, agora, e passou, acabou, essa rapidez vem do mundo que a gente vive desde pequeno”. Segundo a autora, a internet conduz à dispersão, porque você abre várias janelas, transita de uma para outra, absorvendo um pouco de cada uma. É possível ter acesso a todo tipo de música, livros; você conhece, ouve e lê diversos deles; é uma formação perdida, com multiplicidade de diferenças. Essa dispersão causa imediatismo, as pessoas andam em vários caminhos o tempo inteiro, é uma geração multitarefa.

Apesar de sentimentos e atitudes passageiras, a geração Y tem uma grande diferencial; é referência em instantaneidade e criatividade, pesquisam tudo a qualquer momento na internet, além de serem críticos e questionadores aos moldes da geração anterior: “Pela primeira vez você nasce com a possibilidade de interação, de dar sua opinião, de questionar, porque você tem outras referências de mundo”, conta Melissa. A autora acrescenta que é uma geração que está mudando o mercado de trabalho, porque consegue executar várias funções ao mesmo tempo com uma visão ampla. A marca mais forte das gerações não é o ano em que nasceram, mas o comportamento com o qual mais se identificam. A geração do milênio está sempre conectada e procura informações em tempo real. As redes sociais são indispensáveis, afinal seus relacionamentos se concentram lá; valorizam mais o relacionamento digital em detrimento do relacionamento familiar e não se prendem a valores religiosos. Quebram tabus em relação ao sexo. Seus consumos fidelizam marcas, principalmente para evidenciar status. No ambiente de trabalho não aceitam ordens sem antes discuti-las ou com-

Geração X Ana Soares, 42 anos, cabeleireira:

“A geração jovem tem pouca responsabilidade. Eu criei meus filhos pensando neles, eles não pensam nos deles, querem viver sua própria vida. Não sei o que vai ser da nova geração.”

Luiz Augusto de Carvalho, 45 anos, empresário:

“Como eu contrato pessoas, percebo que diminuiu muito a preocupação e a responsabilidade, os jovens têm acesso a muito mais informações, tem muito mais conteúdo do que as pessoas antigas, mas essa facilidade tira o raciocínio, o poder de pensar e a criatividade dessas gerações mais novas. A gente vê o reflexo disso até no trabalho, as pessoas hoje querem tudo muito mastigado para fazer as coisas.”

preendê-las. Querem tratar os assuntos diretamente com as pessoas que estão no nível mais alto da hierarquia. Buscam uma ascensão rápida e valorizam mais a satisfação do trabalho e o salário. Por fim, estudam e pesquisam o tempo todo, por isso muitas vezes assumem cargos em que chefiam pessoas mais velhas, causando conflitos entre as gerações. Diante dessa situação, há certo orgulho em um jovem quando o classificamos como sendo da geração Y. Entretanto, em algumas situações ele não está ciente das desvantagens dessa vida frenética. Esses jovens quase não leem livros, não ouvem músicas melódicas (as quais nos levam a viver sonhos), não valorizam a simples roda de conversa. O “querer saber tudo” também é uma característica Y, porém a busca por conhecimento em áreas diversas, além da necessidade, sempre torna esse conhecimento superficial, vivem o niilismo. É comum ouvir desta geração a frase: “Quero ganhar dinheiro, não importa o que eu vou fazer”. Se o ambiente é o grande definidor de personalidades, este também pode ser o que determina a qual geração você pertence. Desta forma, independente de saber ou não manusear games uma hora você pode se sentir um Baby Boomer.

Geração Y Adriana Alves, 28 anos, projetista de software:

“Eu acho que a minha geração é privilegiada porque teve a chance de acompanhar a difusão da tecnologia. Há vinte anos ter um computador em casa era utopia, hoje em dia é necessidade básica. Uma criança não vai mais à biblioteca para fazer um trabalho, ela simplesmente tem um computador em casa e usa.”

Elton Simões, 25 anos, tecnólogo em automação:

“Acho que a nova geração de pessoas só quer saber de internet e de jogo, a maioria é alienado, não tem aquela coisa de brincar na rua. Na minha infância eu tinha internet em casa, mas usava só para algumas pesquisas. As mulheres dessa geração também não são respeitosas, elas querem mais é sair e ter alguém que as leve pra algum lugar.”

Aline Eleotério, 21 anos, estagiária:

“Por eu ter nascido nessa geração já com a tecnologia eu me enquadrei muito mais fácil no mercado de trabalho e antes de pessoas mais velhas do que eu, que não tiveram tanto acesso à informática.”

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Head Shot!

Jogo de Aprender Como o RPG é utilizado na sala de aula

O

sistema educacional está falido. Em um mundo globalizado que muda a todo instante, continuam separando temas e utilizando a multidisciplinaridade em raros momentos. O desenvolvimento das inteligências múltiplas é raramente visto, o que prejudica muitos alunos, que são excluídos ou sofrem bullying. Devan sabe bem disso. Ele consegue imaginar coisas fantásticas e põe tudo em papel em forma de desenhos, algumas vezes arriscando colocar em palavras. Mas não compreende bem os números, muito menos o espaço e, por isso, não consegue prestar atenção. Toda a criatividade dele não tem lugar na sala de aula, onde um fala e muitos escutam. A situação de Devan se espalha pelo Brasil, atualmente na 88ª colocação no ranking da Unesco, entre 127 países, em 2011. A classificação é uma forma de monitorar o cumprimento das seis metas educacionais globais para 2015, estabelecidas em 2000 na Conferência Mundial de Educação, sob chancela da Unesco:ampliação da educação e da assistência à primeira infância; acesso de todas as crianças ao ensino primário gratuito, obrigatório e de boa qualidade; garantia de acesso de todos os jovens e adultos a programas de aprendizagem e treinamento para a vida; melhoria de 50% nos níveis de alfabetização de adultos; eliminação das disparidades de gênero no acesso ao ensino primário e secundário; e garantia de qualidade no ensino para todos, especialmente em alfabetização e matemática e na capacitação essencial para a vida. Enquanto muito se debate sobre os gastos com a educação e com professores e o modo como os alunos comportam-se em sala, alguns professores e até escolas inteiras resolvem mudar por iniciativa própria, adotando métodos novos e que dão resultados.

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Texto: Thaís Colacino

Um deles é utilizar o RPG nas salas de aulas. O jogo, que já teve seu bocado de má fama no país (e ainda sofre com isso), consegue a atenção dos alunos justamente por ser lúdico, mas tem benefícios para os professores, que conseguem passar a matéria integrando o grupo que participa, já que para resolver as situações é necessário cooperação. Marco Randi, professor de biologia celular na Universidade Federal do Paraná, tomou contato com o método em 2002. “Quatro alunos estavam desenvolvendo um projeto para usar o RPG didático no ensino médio. Em 2003 comecei a jogar e em 2004 passei a utilizar o projeto na universidade, tanto em aulas como na capacitação de professores”, relembra. Uma das situações elaboradas por Randi é a realização de síntese de ATP (que produz energia para as células) no corpo de uma pesquisadora. Na história, a humanidade está sendo dizimada por uma bactéria e uma cientista conseguiu resultados promissores, que vazaram antes de concluídos, o que a coloca sob estresse e pressão. Cabe aos jogadores manter a pesquisadora viva para que ela conclua os estudos. Podem participar da aula um grupo de quatro a cinco jogadores, que podem se revezar, ou mais de um aluno jogar com o mesmo “personagem” (que nesse caso, podem ser Ciclo do Ácido Cítrico ou até Cadeia Transportadora de Elétrons). Cada um possui uma gama de até cinco habilidades que podem usar para cumprir o objetivo.


Mecânica do jogo

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sistema (conjunto de regras que define o cenário de RPG) utilizado por Randi é uma adaptação de GURPS (um sistema facilmente adaptável para qualquer aventura), utilizando dois dados de seis lados, para ser o mais simples possível e para focar mais no conteúdo do que nas regras. O importante é que o projeto não é imposto aos alunos. “A participação é voluntária, e tem aqueles que, com medo por não conhecerem, preferem a aula tradicional. Os que já jogam RPG são mais entusiastas e convidam os outros”, conta. Para aplicar em salas de aulas com maior número de alunos e por não encontrar entre os títulos comerciais um adequado para a escola, Alessandro Reis, analista de User eXperience na Fundação CERTI, criou a FLER - Ferramenta Lúdica de Ensino por Representação. “A ideia da FLER era criar regras e cenários específicos para uso em sala de aula, com uma turma inteira de 20-30 alunos e professor”. A ferramenta por ele criada é para ser utilizada por vários grupos pequenos de estudantes, que contam, além do narrador, com um consultor (normalmente o professor) e auxiliar, que ajudam os alunos, às vezes até soprando dicas. Há também a possibilidade de haver até cinco jogadores em uma sala cheia. Porém, os outros alunos devem ficar atentos, já que a qualquer momento os papéis podem ser trocados, dinamizando assim a experiência. No jogo de Reis, os personagens não faziam fichas propriamente ditas. “Os alunos faziam fichas que representa-

vam os personagens, mas um desenho ou fotografia com dizeres como: “Ele é forte e grande, mas não sabe nadar” e era aceito”. As situações também eram planejadas, mas com finais abertos. “O importante é ter em mente o objetivo do que precisa ser ensinado e incentivado naquela partida”, conta. Entre os benefícios do método, Randi já observou “a cooperação e a participação e aprendizado mais ativo, mas isso depende também da formação do narrador”, explica. Reis acrescenta que o principal benefício por ele observado foi no campo motivacional. “Os alunos passavam a ter uma atitude mais favorável a estudar alguns temas. Quando fizemos uma aventura sobre sobrevivência na floresta, cujo objetivo era o ensino de Geografia Física, os alunos foram atrás depois para saber o significado de palavras do vocabulário utilizado que desconheciam, como “planalto”, “transumância”, “cordilheira” etc”, conta. Porém, Reis também aponta que pode haver malefícios se o método for mal aplicado. “Se a turma não levar a sério e resolver tirar sarro e o professor não estiver presente, o caos é certo. Há também o risco dos alunos não enxergarem vínculo algum da partida de RPG com os conteúdos das aulas convencionais’, relata. Essa situação realmente ocorreu, e a solução adotada foi “no final da partida, fazer uma recapitulação da história e ir pincelando sentido para o que os alunos fizeram nela, a partir do que os livros didáticos explicavam”.

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Implosão

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a primeira década de 2000, parecia haver um boom do método nas escolas. O sucesso era tanto que a organização Ludus Culturalis, junto com a editora Devir, organizaram simpósios anuais sobre o tema, reunindo diversos professores e alunos para trocar experiências. O movimento rpgístico esfriou depois de 2008, e Randi atribui isso ao fato que a Ludus, que era maior organizadora e centralizadora de ideias e pessoas, findou-se. “A organização tinha dois líderes importantes, que tiveram que se afastar por problemas pessoais”, conta. Isso e a falta de títulos lançados pela Devir. Randi está atualmente produzindo um livro que será sobre RPG e ensino de biologia celular para o ensino médio. Já Reis parou de trabalhar com o método após se formar. Sobre o futuro da didática na escola, ele acredita que seja digital. “Presumo que hoje se fale mais em games digitais e redes sociais para o fim didático. No caso, é possível fazer RPGs por esses meios virtuais, mas em certas condições não dispensaria o bom e velho lápis, borracha, ficha e jogadores na mesa”, finaliza.  E Devan? Devan é um personagem fictício, mas diga a verdade, apesar de não saber como e nem quem ele é, você o conhece. Talvez até bem demais.

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Born This Way

ELA era de Capricórnio, E ELA tinha 26 As mulheres que amavam as mulheres: paixões; desencontros e aceitação Texto e Fotos: Natália Lins

“F

icou muito bom amor!”, com essa frase se inicia o jantar. Uma casa aconchegante e espaçosa, rodeada por cães carinhosos, abriga um casal bem-humorado, simpático, elegante e que demonstra amor o tempo todo: Aline Soares e Joyce Salotti. A decisão de morar juntas aconteceu há um ano. Em uma noite, enquanto apreciavam as estrelas e saboreavam um vinho uma frase interrompeu o silêncio: “Quer casar comigo?”. Era Joyce que fazia a proposta. Sem pensar duas vezes Aline respondeu com o tão esperado “Sim”. Com essa resposta, sua vida tomou um novo rumo. Aline, uma empresária do ramo de tecnologias audiovisuais, se descobriu homossexual aos 20 anos. Até então havia se relacionado apenas com homens e nunca passou por sua mente que isso deixaria de acontecer algum dia. Aos 26 anos, havia acabado de sair de um relacionamento de três anos, e estava a fim de “curtir”, porém, o destino interrompeu seus planos e lhe apresentou Joyce, que em três meses a fez tomar a decisão que mudaria sua vida e seu “estado civil”. Faltando apenas uma semana para o casamento, Aline ainda não havia contado para sua mãe sobre sua homossexualidade! A empresária sabia que não seria fácil, afinal, aos 27 anos nunca saíra de casa, nem ao menos para morar sozinha, e agora estava saindo para viver com outra mulher, por quem estava apaixonada. Assim como ela, Rosineide Herk também saiu cedo de casa. Nascida em Bandeirantes (PR), com cerca de 40 mil

habitantes, aos quatro anos veio para São Paulo com seus pais e, aos nove chegou a Campinas, onde mora até hoje. Com seus trejeitos e olhar de menina, é difícil acreditar que está no auge de seus 37 anos. Já na oitava série Nê, como é conhecida, notou que sentimentos profundos começaram a aflorar em si. Sentia ciúmes por uma amiga, gostava de estar perto dela, seu coração acelerava quando se aproximava, mas não entendia suas sensações. Para ela isso significava que tinha algum problema, que algo estava errado. “Eu não aceitava aquilo em mim, não entendia porque aquilo estava acontecendo, naquela época não se ouvia falar em gay, e se não me engano as novelas eram até censuradas”, afirma. Passados três anos conheceu uma tecladista e essa foi sua primeira visão gay de uma mulher. Até então nunca tinha visto nada parecido, já que foi criada em um ambiente católico. “Às vezes achava até que era uma aberração, como uma mulher podia querer ser um homem?”, se perguntava. Com o decorrer do tempo surgiu uma aproximação de ambas as partes até que o dia, de certa forma temido, chegou. Nê ficou com a tecladista. Em meio ao turbilhão de coisas que passavam por sua mente, era um misto de constrangimento prazeroso e a sensação estar pecando, mas ao mesmo tempo ela gostava daquilo. Essa falta de aceitação se fez presente quando Aline revelou seus planos de que estava prestes a se casar com uma mulher para sua mãe. “Na hora ela ficou branca, com olhos assustados, mas eu achava que ela já desconfiava,

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O casal, Aline e Joyce, passou por várias dificuldades, mas hoje se considera feliz e realizado

pelas minhas conversas no celular, pelas amigas e a falta da presença masculina na minha vida”, conta. Católica a vida toda, foi com água nos olhos que sua mãe afirmou que ela estava afastada da igreja, que aquilo não estava certo, que a mulher foi feita para casar com homem e ter filhos. E esse foi o começo da luta de Aline para conquistar a aceitação dela. “Eu tive toda a paciência de ouvir o lado dela, mas ela não conseguia ouvir o meu sentimento, a preocupação era de como nos portaríamos perante a sociedade. Compreendo as indagações dela, por não conhecer como é a sociedade com relação a isso, existem gays em toda parte, em todas as profissões”, diz a empresária. Antes da saída definitiva de sua casa, Aline teve a última conversa com a mãe, onde seu irmão, psicólogo, serviu de mediador para tornar um diálogo possível e compreensível para ambas às partes. “Quando ‘resolveu’ o assunto a posição dela foi: Sempre vou te aceitar como filha, mas não quero participar dessa sua vida, nem ter contato com a Joyce”, lembra. O caminho das pedras ara Joyce as coisas foram mais turbulentas. Assumiu sua homossexualidade aos 16 anos, em uma fase em que o preconceito era ainda mais escancarado. Dos 14 aos 16 namorou um rapaz por quem era apaixonada e até fazia planos para o casamento. Porém, como nem tudo são flores, seu pai não concordava com seus planos, dizia que ela só deveria namorar quando estivesse na faculdade, para não atrapalhar os estudos. O pai a trancava dentro de casa, achando que assim evitaria que ela conhecesse os prazeres da rua. Joyce notou que sair com as amigas não causava tanto desconforto em seu pai, e foi assim que conheceu o universo homossexual. “Foi quando descobri que mulher era muito melhor do que homem. A liberdade que ele havia tirado de mim foi um tiro no pé que ele deu”, conta. Sua identidade sexual foi revelada aos seus pais da pior forma, uma terceira pessoa, uma garota que, descontente

P

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erk Rosineide H

afirma que no

início não se

aceitava


Joyce e Aline são apaixonadas por animais. Em casa, cuidam de mais de quatro cachorros que dormem na cama com elas

com uma atitude de Joyce resolveu “dar o troco” contando não consegue sustentar um sentimento, não consegue para seus pais. “Levei um murro do meu pai, quando ele foi se apaixonar de verdade, diferente do que acontece com dar o segundo eu falei: Para, porque eu não moro mais aqui relação às mulheres. E isso não acontece só com ela, com a partir de agora. Ele falou que eu ia passar fome, e que ia Nê isso também aconteceu. Ela, que morava em Campinas voltar comendo na mão dele, era tudo que ele não podia ter desde os nove anos, com 18 voltou para sua cidade natal. dito”, desabafa. Lá conheceu uma morena, Suzana, por quem se Aos 18 anos resolveu que sua liberdade não tinha preço apaixonou já no primeiro dia de aula. Ela foi sua primeira e resolveu sair de casa, deixando para trás carro zero, roupa identidade gay feminina. “Até hoje se eu a vir, eu sinto de marca e todo o conforto que tinha. Foi embora levando coisas”, conta Nê. Como não se pode entender as coisas do apenas um colchão embaixo coração, Nê conheceu a do braço, sem ter para onde ir. ex-namorada de Suzana, “Dormi na rua, cheguei a morar Bel, e de repente no Centro de Convivência, começaram a namorar. em Campinas”, revela. Após Após dois anos o alguns anos voltaram a se falar, relacionamento com diz , mas há dois anos perdeu o Bel chegou ao fim, e ela para a companheira contato com a família. correu para os braços de Hoje, aos 44 anos, Joyce Suzana, seu antigo amor. está realizada, com uma carreira de sucesso, advogada e “Logo fomos morar junto, nós entendíamos muito bem, e assessora do Tribunal de Ética e Disciplina de Campinas, e nos amávamos. Mas, não sei por que eu a traí. E isso não num casamento feliz, repleto de amor. “Qualquer um que ficou encoberto, ela descobriu, nunca tínhamos brigado, e me pergunte se sou casada eu não escondo, eu falo sim e, se eu sempre tive certeza de que ela me amava”, conta. me perguntam com quem, eu falo com a Aline, sou casada Apesar da crise, o relacionamento não terminou e com uma mulher, porque não me envergonho do que eu Suzana a perdoou, porém, há coisas que o ser humano não sou e nem da pessoa com quem eu estou”, afirma. Uma de consegue esquecer, no fundo sempre resta ressentimentos. suas frases preferidas é dizer para Aline: “Não te escolheria “Ela me traiu com um homem, terminamos, eu a vi namorar uma vez só, te escolheria mil vezes”. ele, e vim embora muito doente”, lembra. Ela revela que não tem aversão à homens, mesmo após Já em Campinas, Nê tentou namorar homens, mas assumir sua homossexualidade já ficou com alguns, porém também não conseguia se envolver por completo. Passado

Não te escolheria uma vez só, te escolheria mil vezes, Joyce

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Rosineide, a Nê, teve a benção da mãe só aos 30 anos.

um ano ela conheceu a Camila, com quem dividiu sua vida e sua casa por nove anos. “A primeira pessoa para quem contei foi a minha irmã, morrendo de medo dela não gostar mais de mim. E ela falou que agora ela me amava mais ainda, porque a gente não tinha mais segredo”, conta. A mãe de Camila começou a desconfiar, até que um dia a expulsou de casa e a moça foi morar junto com Nê. Com 24 anos, ainda morando com a mãe, disse que era uma amiga que havia sido expulsa de casa, em um mês foram morar sozinhas com o pretexto de ficarem mais próximas do trabalho.

Após seis anos de relação ela descobriu várias traições de Camila e já não aguentava a situação. Foi quando voltou a morar com mãe. “Na época minha mãe era faxineira na casa dela, e me via definhando de um lado e ela de outro”, recorda. Na intenção de registrar a história vivida ao longo de seis anos, ela fez uma tatuagem com o nome das duas no ombro direito. “Não me arrependo, vivi com ela dos 24 aos 33 anos, não adianta querer apagar a tatuagem, ela não vai sair da minha vida”, afirma. No final de 2007, reataram o relacionamento. Véspera de réveillon, família reunida, as duas muito felizes, não esperavam pelo que estava por vir. “Com o guardanapo na mão, minha mãe veio em minha direção, e olhando dentro dos meus olhos disse: Dessa vez eu desejo que você seja feliz. Fiquei sem saber o que fazer, com os olhos marejando, ela olha pra nós e fala: E não é porque agora vocês sabem que eu sei, porque eu sei há muito tempo, que vocês irão mudar, quero que continuem como sempre foram, discretas, respeitando os demais”, conta. A sensação era de ter tirado um peso enorme das costas, pois, durante muitos anos ela havia convivido com aquele sentimento reprimido, escondendo do mundo o que era realmente, e somente aos 30 anos teve a benção de sua mãe. O relacionamento durou mais três anos, tentaram continuar de onde haviam parado, mas algumas coisas por mais que tentamos reacender não são mais possíveis, e assim terminou a história de nove anos, de intensidade, de entregas e de amor. Nê ainda afirma que o grande amor de sua vida foi a Suzana, aquela morena que ela deixou lá em Bandeirantes, com quem ela aprendeu a amar, a chorar por amor, a dividir sua vida e seu espaço.

Eu “as” declaro...

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alar em sexualidade há 20 anos era algo restrito e escasso, imagine fazer parte da cultura homossexual numa época cheia de revoltas e revoluções, mais difícil ainda. A homossexualidade sempre se fez presente na história, porém com registros de períodos de aceitação maior ou menor dessas relações afetivas. Até meados dos anos 70, as expressões entre pessoas do mesmo sexo chegaram a ser consideradas doenças, isso só acabou quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) a excluiu de sua lista de enfermidades. A pesquisa do Datafolha realizada em 2007 repetiu questões feitas há quase dez anos, apresentou uma mudança significativa nas atitudes dos brasileiros com relação à sexualidade. Os números de rejeição à homessexualidade caíram de forma

O grupo de amigas comemora a aprovação da união homoafetiva


considerável. A pergunta era a seguinte: ''Se você soubesse que um filho homem está namorando um homem, você consideraria um problema muito grave, mais ou menos grave, pouco grave ou não consideraria um problema?''. Há nove anos, 77% dos entrevistados achavam que essa situação seria ''muito grave''. O índice caiu 20 pontos percentuais, em 2007 só 57% teriam essa reação. No início desse ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável entre casais do mesmo sexo como entidade familiar. A partir dessa decisão qualquer casal homoafetivo pode fazer um contrato de união estável em cartório e ter a certeza de que este direito será reconhecido pela justiça, mas isso não é o suficiente para eles, já que dessa forma não se pode alterar o sobrenome, ou o estado civil, isso é permitido apenas no casamento civil. Sendo assim, o casamento homossexual continua não sendo possível, e essa será mais uma das lutas que terão de travar. Aline e Joyce ainda não fizeram o contrato de união estável. “Casaremos no papel apenas quando for possível desfrutarmos de nossa lua de mel, na tão encantadora Paris”, diz Joyce. Um elemento chave para essas mudanças na humanidade é a comunicação, seja ela feita pessoalmente ou através de um veículo de comunicação de massa. Esses veículos se

transformam em catalisadores que transmitem ao receptor conteúdo talvez nunca antes visto ou não com tamanha naturalidade. Filmes, novelas, séries, estão levando para os lares cada dia mais informações diversas, que abrangem todos os questionamentos da sociedade, tudo aquilo que muitas vezes não é dito abertamente, e a homossexualidade está presente nessas indagações, dúvidas e falta de conhecimento. As mídias expõem os dramas que são enfrentados, as alegrias, as conquistas que essas pessoas realizam, mostrando para as famílias que suas vidas são iguais os de qualquer outro ser humano. E isso contribui para o entendimento e a aceitação, que há um tempo não era possível. Aline e Nê contam que, um dos fatores que mais colaboraram para a aceitação de seus pais foi a inserção do tema em novelas, porque ali eles tinham a oportunidade de enxergar o cotidiano dessas pessoas, de ter acesso a outros mundos, que fogem de seus padrões, daquilo que lhe foi imposto a vida toda. “Você é o investimento mais lucrativo que existe para si e para os outros. Conheça a ti mesmo, esta é a melhor contribuição direta e positiva que você pode dar a toda humanidade”, finaliza a psicoterapeuta Érika Leoni. (leia a entrevista no Box).

Liberdade, igualdade e DIVERSIDADE A psicoterapeuta Dra. Érika Leoni, morou durante 12 anos nos Estados Unidos com a finalidade de aperfeiçoar e aprimorar seus estudos nas áreas de Psicologia, Medicina Alternativa e Metafísica. “Quando cursava o Doutorado em Psicologia (Counseling Psychology), minha colega de classe era ativista no processo de legalização do casamento homossexual nos Estados Unidos. Suas maiores frustrações eram por não poderem casar legalmente no civil e alguns problemas familiares ligados à falta de aceitação à homossexualidade. No exterior ou no Brasil as buscas deste grupo são as mesmas: igualdade”, conta. De acordo com a psicoterapeuta, independente de como a homossexualidade é manifestada, cada um passará por desafios ou desconfortos. “Estes podem ser de identidade, com seus familiares ou de seus grupos sociais: amigos, escola, trabalho, etc.”, conta. “A curiosidade, os grupos sociais, colegas, modismo e a rebeldia podem influenciar a mente flexível de um jovem a experimentar a homossexualidade. Geralmente esta fase de curiosidade e inseguranças passa sem muitos transtornos quando o ser humano é capaz de expressar sua natureza verdadeira”, explica. Para Érika, o conservadorismo ainda existe na sociedade brasileira, onde as trocas de papeis não acontecem naturalmente, pois o ego humano e seus aliados são fortes e resistentes. “Existe um interesse obscuro em que a sociedade funcione dentro de um padrão estabelecido, é muito mais fácil ser controlada e manipulada por poucos”, afirma. Apesar de todas as dificuldades que ainda existem, pequenos progressos estão acontecendo, pequenas conquistas, etapas cumpridas que servem como estímulo para continuar lutando. “Estamos caminhando verdadeiramente para uma harmonia e tolerância maior em relação às sexualidades. Estamos aqui para viver, experimentar, expressar, amar e aprender. A sexualidade é apenas uma forma das expressões pessoais”, afirma a psicoterapeuta.

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Era uma vez...

A estrada

de tijolos amarelos A saga dos autores brasileiros de literatura fantástica que se consagraram com o público Texto: Aline Guevara Fotos: Aline Guevara, Fátima Leite e Thais Colacino

O garoto que queria ser Bruce Lee

E

ra uma vez um garoto que aos seis anos de idade descobriu tudo o que gostaria de ser quando crescesse: lutador de artes marciais, roteirista de cinema e escritor. As ideias fabulosas não surgiram do nada, mas foram resultado do encontro do menino com Bruce Lee. Daquele momento em diante, o sonhador prometeu a si mesmo que faria tudo o que o ídolo fazia. O carioca Rafael Albuquerque podia ser sonhador, mas se tinha um pé na lua tinha outro na terra. Sabia que se queria escritor, ser Silva, Pires ou mesmo Albuquerque não iria atrair o público. Nem ser Rafael ajudava muito. Ainda havia (e ainda há?!) um preconceito muito grande dos leitores em relação a autores brasileiros e percebeu que teria alterar seu nome (para desespero da avó). Símbolo das artes marciais, representação do sobrenatural e da fantasia, o dragão parecia a escolha óbvia pra ele. Procurou o termo em latim, estilizou a escrita e virou Draccon. Raphael Draccon. Sempre leu muita coisa, de Monteiro Lobato a contos de fada, mas o estalo que queria ser escritor veio após a leitura de Capitães de Areia. Prefere não lê-lo novamente para não perder o encanto que sentiu da primeira vez e garante que

Raphael Draccon faz sucesso como escritor de livros de fantasia

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mesmo que encontre um livro melhor que este, continuará mentindo sem culpa que a obra de Jorge Amado é a melhor história já criada. Fascinado pelo desenho Caverna do Dragão (que homenageia até mesmo em sua coluna no blog Sedentários e Hiperativos), queria resgatar um pouco da emoção de quando assistia. Bom, tinha certeza de que para sua obra funcionar, ela tinha que possuir um ethos, ou seja, ele tinha que acreditar no mundo em que estava criando. A ideia de sua primeira trama, Dragões de Éter – Caçadores de Bruxas, lançada em 2007, já se formava em sua cabeça. Para publicar o primeiro livro Raphael trilhou o caminho inusitado dos roteiros cinematográficos. Formado na faculdade de cinema, decidiu adaptar o livro de Augusto Cury O Futuro da Humanidade. Após um minuto de conversa rápida com o escritor em uma de suas noites de autógrafos, ele conseguiu autorização para escrever. Se por bom senso do senhor ou por medo daquele garoto esquisito de ideias mirabolantes, Raphael não soube identificar. Concluído o roteiro, procurou o cineasta Claudio Torres na produtora Conspiração Filmes e entregou seu roteiro juntamente com um exemplar do livro, comprado com sacrifício de quem recolhia as notas de comprar de ofertas jogadas fora no McDonalds para ter minutos gratuitos na internet do local. O diretor não gostou muito do livro, mas se interessou pelo roteiro e quis fazer o filme. Entretanto, depois de dois meses de discussão, foi decidido que uma comédia teria mais apelo junto ao público no país. Quatro anos depois surgiu o filme A Mulher-Invisível. Mas o esforço de Raphael foi recompensado. John Maclean, agente de Cury, decidiu representá-lo também. Ele apresentou Dragões de Éter – Caçadores de Bruxas aos editores da Planeta Brasil e, aos 25 anos de idade, ele se tornou o mais jovem escritor a assinar uma publicação pela editora. Mas mesmo com uma editora não foi fácil. Ao chegar à Bienal do Livro de São Paulo 2010 ele sabia que aquela não deveria ser só uma noite de autógrafos, tinha que ser especial. Seria o lançamento do terceiro volume de Dragões de Éter e o autor estava disposto a surpreender o público que iria ao evento aquele ano. E como surpreendeu. Enquanto os fãs se preparavam para ter os livros autografados por Raphael, atores fantasiados de seus personagens circulavam entre eles, como a bruxa queimada Babau e o príncipe galã Axel. Tudo com direito a performance, batalhas e lascas de madeira voando. Ninguém, nem mesmo o autor, esperava que a brincadeira fosse fazer tanto sucesso. No entanto, a sua passagem pela terceira maior mostra literária do mundo resultaria em um aumento impressionante na venda de seus livros. Sempre gostou de ser confundido com autor estrangeiro e dividir o mesmo espaço nas estantes com Neil Gaiman e Bernard Cornwell, já que colocar o livro na área reservada a literatura nacional minava as chances de ele ser encontrado por seu público-alvo. Quando o assunto é processo criativo, gosta de pensar na história do romancista britânico William Somerset (em entrevista teria declarado que só escreve quando a musa o inspira, o que felizmente acontecia toda manhã, a partir das 10h). Acredita piamente que o bloqueio só ocorre em quem não tem conta para pagar. Ao ler um escritor norte-americano em 2009, um tal de George R. R. Martin, pensou que sua obra poderia fazer sucesso no Brasil e sugeriu a nova editora que

A publicação no Brasil da série de sucesso “As Crônicas de Gelo e Fogo” foi sugestão de Draccon

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comprasse os direitos e publicasse a série As Crônicas de Gelo e Fogo no Brasil. Os editores se mostravam inseguros, mas ele insistia que os livros eram muito bons e que fariam muitos sucesso nas terras tupiniquins. (Dados de outubro de 2011: Guerra dos Tronos, A Fúria dos Reis e A Tormenta de Espadas lançados, respectivamente os três primeiros volumes da série, figuram nos três primeiros lugares da lista dos mais vendidos da revista Veja). Desde então, a Leya só ri para Raphael. Nas artes marciais desde muito novo, aos 12 anos era instrutor de Taekwondo, aos 18, dava aulas. Passou as turmas para outro faixa-preta quando não conseguia pensar em mais nada a não ser escrever. E foi assim que o garoto de 30 anos (com aparência de 25) alcançou seu objetivo imposto aos 6 anos de idade.

O nerd com espírito de anjo

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ilho de piloto e comissária, Eduardo Spohr parecia destinado a voar. Nascido nos anos 1980, a imagem apocalíptica de fim do mundo e destruição por meio de bombas cresceu em sua mente. Influenciado pelas viagens na infância ao redor do mundo, com uma imaginação repleta de discussões religiosas de quem cresceu em colégio católico, mas é ateu, Eduardo sempre gostou da temática dos anjos. Depois de assistir ao filme Anjos Rebeldes (1995), filme com Christopher Walken que explora a história de celestiais que se revoltam contra a raça humana por Deus ter lhe concedido a dádiva da alma, ele bate o martelo: vai escrever um livro sobre o tema. Ficar desempregado em 2007 não foi nada agradável, mas estava disposto a transformar esse período em algo produtivo. Algum tempo depois surgia o robusto A Batalha do Apocalipse. Passava por momentos delicados financeiramente, mas se forçou a imprimir trinta exemplares a R$ 40 cada para distribuir em editoras. Quando saiu da gráfica reparou em uma placa que anunciava um concurso: Deixe 3 exemplares do seu livro. Se ele for premiado você ganha impressão de mais cem unidades. A insegurança de deixar no local R$ 120 foi grande, mas acabou apostando. Os amigos do site Jovem Nerd, antenados em seu público sugeriram a Eduardo que vendesse seu livro pelo portal. Público nerd geralmente é bom leitor então poderia dar certo. No entanto, desconsolado, a única resposta que ele podia dar era que a empreitada seria impossível uma vez que em suas mãos só possuía mais três exemplares. As editoras, que não haviam dado respostas, haviam recebido a maior parte das impressões que havia feito. Mas a sorte estava ao seu favor. Ao abrir a caixa de emails percebeu um remetente estranho. Qual não foi sua surpresa ao constatar que a aposta insegura em no concurso de livros tinha dado resultado. Ele era o ganhador e conseguiu mais cem livros. Dessa vez ia dar certo e combinou com os amigos a venda pelo site. Em cinco horas, todos os exemplares estavam vendidos. O dinheiro recebido foi gasto com mais quinhentos

Eduardo Spohr conta sua saga para chegar ao sucesso

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exemplares. Em sua cabeça, Eduardo imaginava que agora as editoras responderiam e aceitariam publicar seu livro. Mas enquanto A Batalha do Apocalipse era um sucesso com o público na internet, as editoras ainda não se interessavam. Dois anos e nada de editoras. Em uma conversa descontraída com os amigos Eduardo comenta do livro e recebe a sugestão de averiguar em quantos estão os pedidos do exemplar pela internet. Eram mais de oito mil. Não dava para resistir. Tirou do próprio bolso o dinheiro para bancar os quatro mil primeiros livros, esperando que com a venda conseguisse imprimir a outra metade. Eduardo já não esperava uma resposta de editoras quando ela apareceu. O selo Verus da editora Record se interessou pela publicação e Ele utiliza referências de jogos, cinema e quadrinhos em seus livros abraçou a causa. Desde então, até setembro de 2011, o autor contabiliza 180 mil exemplares vendidos. A situação fez Eduardo perceber que o mais importante para o autor é o seu público, independente de qualquer editora, afinal foi o primeiro que o levou ao sucesso e não o contrário. E a internet possibilitou isso para ele. Ironicamente, o menino Eduardo não foi um bom leitor. Talvez pela falta de incentivo certo da escola, que empurrava livros muito longe de serem aprazíveis às crianças. O que o levou a se voltar ao mundo literário foi adentrar o universo do RPG (Role Playing Game) durante a adolescência. Para conhecer mais sobre o jogo, as histórias, as criaturas, ele próprio decidiu ir atrás da informação. Uma vez dentro da literatura, ele se tornou fã da escrita de Stephen King, Ken Follet, José Louveiro. Mas como bom nerd suas influências retiradas de quadrinhos, jogos e cinema são fortes. Ao citar a paixão por Star Wars o sorriso brota do rosto normalmente sério. O grande herói de A Batalha do Apocalipse, o general celestial Ablon, partiu das partidas de RPG. Afixionado pelo jogo, Eduardo reuniu todas as qualidades e valores que ele projetava em seus personagens. De certa forma, o anjo que criou é tudo aquilo que gostaria de ser. O autor é adepto a transformar também os companheiros de RPG em personagens, como Orion, Apollyon, Amael, todos criados por seus amigos. Preferindo observar o comportamento das pessoas na criação do livro, Eduardo também levou a família para os livros. Em Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida, primeiro de uma série que está escrevendo, os irmãos emprestaram seus personagens e personalidades no RPG para dar vida à celestial Kaira e ao querubim exilado Denyel. Organizado e dedicado, para não se perder entre tantos dados e detalhes que insere em sua obra, Eduardo efetua um cronograma antes de escrever a história. Por isso para ele não existe bloqueio criativo. Quando senta na frente do computador para escrever apenas destrincha a trama que idealizou.

De certa forma, o anjo Ablon (personagem do livro de Spohr) é tudo o que Eduardo gostaria de ser

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A garota que ouvia as fadas

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ara Carolina Munhoz não passava de uma aposta, mas ela não estava disposta a perder para a amiga. Não estava acostumada a ler, mas daria um jeito de vencer as 267 páginas daquele livro em uma semana. Por fim, ao final dos sete dias os quatro primeiros livros da saga de fantasia haviam sido devidamente devorados pela nova leitora. Aquele bruxinho havia roubado seu coração. Aos 11 anos de idade havia se descoberto fã inveterada, e por vezes quase histérica, de Harry Potter. Aos 12, descobriu o que significava fanfic e, se a febre por livros representou uma nova definição do que de sua vida, ela nem imaginava até onde a escrita das primeiras histórias iriam levá-la. A internet ajudava a veicular suas tramas escritas a partir do universo concebido por J. K. Rowling e elas não passavam despercebidas. Carolina percebeu que o retorno dos seus leitores era muito positivo e dentro da sua mente começou a surgir uma semente que a instigava a escrever mais. Talvez, só talvez, aquilo desse certo. Dezesseis anos. Um período mágico para muitas meninas que se tornou ainda mais encantado para aquela garota loira, esbelta e de traços delicados. Foi quando ela teve o primeiro sonho que a transportou para um mundo etéreo. A experiência onírica lhe deu o primeiro vislumbre do que viria se tornar o seu romance. Ao acordar foi como se alguém (alguma fada?) sussurrasse em seu ouvido a história a ser contada. De início, ela não sabia que estava escrevendo um livro, mas ao se deparar com o terceiro capítulo veio a compreensão. Aquele rascunho que ela começou a escrever a mão (o que a levaria ao arrependimento profundo no momento em que precisou transcrever para o computador) era o início de A Fada. E a história não parava de voltar a sua cabeça, fosse em seus momentos de lazer ou mesmo na escola. Com agenda e caneta a postos, a garota sacava seus instrumentos e passava as aulas criando o mundo do seu alter ego, a fada Melanie. Até o dia em que o professor decidiu averiguar o que tanto Carolina escrevia, pois obviamente que não poderia ser boa coisa. Uma leitura rápida nos escritos da garota, uma olhada no estilo o-que-raios-é-isso e a agenda devolvida em segurança. Livro completo em mãos, agora era só procurar uma editora que o publicasse. Fácil. Certo? E foi aí que Carolina descobriu a triste verdade sobre o mercado editorial brasileiro que os futuros colegas haviam presenciado: “Não publicamos literatura fantástica brasileira”. Claro, não sem antes um “mas muito obrigado por escolher nossa editora” no fim. Durante quatro anos a garota-fada persistiu, recebendo muitos “nãos”. Mas o “sim” apareceu pela editora Arte Escrita e ela finalmente conseguiu publicar A Fada. Entre esse período, veio a escolha da faculdade, o jornalismo. Mas ela não deixou de lado o objetivo de ser escritora para se tornar jornalista. Ao invés disso, percebeu que poderia usar o jornalismo para alcançar seu sonho. Com contatos dentro da imprensa, decidiu promover seu livro na mídia. Em pouco tempo, percebeu que sua empreitada dava frutos e seguiu-se uma maratona de entrevistas e palestras. Tão ativa quanto atenciosa, Carolina conseguia dar conta de tudo e ainda de viajar por várias partes dos EUA e Europa. Conseguiu conhecer sua amada Londres, cidade de Harry Potter e de sua fada Melanie. Os eventos literários também eram assiduamente frequentados, inclusive a Bienal do Livro de SP que a fez despertar a curiosidade em relação a uma certa série chamada Dragões de Éter... Carolina tomou uma decisão que viria mudar completamente a sua vida. Largou

A história lhe veio no sonho e ao acordar foi como se alguém (alguma fada?) lhe sussurrasse no ouvido

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o bom emprego na empresa IBM, do qual estava para ser promovida, e com a plena certeza de possuir mais audácia do que juízo resolveu se dedicar inteiramente a carreira de escritora. Deixou Campinas (SP) e foi de mala e cuia para o Rio de Janeiro, já no dia seguinte a sua formatura na faculdade de jornalismo. Assim, a garota iniciou mais uma etapa em sua vida. Reescreveu e relançou A Fada (dessa vez com uma capa muito mais bonita) na Bienal do Rio de Janeiro, esgotando seus livros no evento, escreveu um livro infantil e está prestes a lançar mais uma obra sobre o mundo das fadas, ganhou o Prêmio Jovem Brasileiro de melhor escritora jovem de 2011... E fez 23 anos. Carolina Munhoz começou escrevendo fanfics de Harry Potter

O mestre dos vampiros

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o terminar O Senhor da Chuva, André ficou satisfeito. Depois de escrever histórias desde os 12 anos, dessa vez havia terminado uma obra que valeria a pena ser publicada. Estava certo de que as editoras iriam se estapear pelo livro. Claro, afinal quase não havia escritores brasileiros de fantasia para rivalizar com as obras dos estrangeiros nas livrarias. Era 1999. Algumas das respostas de editores foram educadas, outras nem tanto, mas de qualquer forma e temido monossílabo ecoava em todas. Não. Mas não iria desistir então tratou de pensar em outro livro. Seduzido pelo mito do vampiro criado na televisão e no cinema, André percebeu que esse deveria ser o personagem principal da sua próxima narrativa. A ideia de Os Sete começava a surgir em sua mente, pois além da trama clássica ele adicionaria seu próprio ingrediente: poderes especiais. Vampiros com poderes são muito mais legais do que vampiros comuns. E é claro que um romance sobre as criaturas faria um sucesso estrondoso e seria aceito rapidamente pelas editoras... Mas não foi. De novo. Não era possível. André sabia que a história era boa demais pra ser jogada na gaveta. Foi então que ele teve uma ideia brilhante: iria trabalhar, juntar dinheiro, pagar a própria impressão dos livros e leválos nas livrarias, que, aí sim, iriam vender até esgotar seus estoques. Começou então a trabalhar em uma empresa de cartões de crédito,

Vianco lançou O Sete com recursos próprios

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com foco no seu objetivo. Três meses depois veio a demissão. A depressão o atingiu forte e profundamente por duas horas. Passado o período, preferiu levantar a cabeça e pensar na próxima opção. Lembrou-se que tinha aproximadamente R$ 8,2 mil da indenização trabalhista do FGTS. Sem pensar muito foi ao banco, sacou a preciosa quantia, passou pela gráfica, pediu as primeiras mil impressões do seu livro e voltou para casa dos fundos onde vivia com a esposa e a filha de dois anos com R$ 200 no bolso. Elaborou uma fabulosa estratégia. Pediu ao amigo de infância designer que elaborasse a capa e a outro que fosse o modelo. Para que Trailer do os leitores não pensassem que era um escritor de primeira viagem, episódio decidiu escrever na contracapa: Do mesmo autor de O Senhor da piloto Chuva (posteriormente teria que dizer aos que procuravam pelo da série título que a obra estava esgotada). Nome de autor André Silva não adaptado iria servir, mas ele adotava o sobrenome Vianco em homenagem à do livro uma travessa de Osasco (SP). Livro pronto, ele foi de livraria em “O Turno da Noite”, livraria entregando seus preciosos livros para que fossem postos à de André venda. Vianco Passaram-se uma, duas semanas. No começo da terceira, sem qualquer telefonema das livrarias pedindo reposição, ele já pensava de qual ponte iria pular. Mas o telefone finalmente tocou, e várias vezes. Chegou a repor cinquenta livros em um mês. Até que, com o sucesso de vendas, a editora Novo Século se interessou por publicar Os Sete e começou a parceria com o autor que dura até hoje. Esta história seria repetida a exaustão em todas as suas entrevistas posteriores ao sucesso dos livros (e O Senhor da Chuva finalmente foi publicado!). Também seria repetida intensamente por outros escritores maravilhados com a narrativa. Após dez anos de sua primeira publicação e doze livros depois, muita coisa mudou para André. Ele continua com aparência grave e forte que costuma assustar quem não o conhece direito (percepção errônea imediatamente quebrada assim que ele começa a falar e contar piadas). Ele ainda precisa explicar para os fãs que não, ele não é um vampiro. Continua explicando, inclusive, que esse tipo de criatura não existe, por mais gosto que tenha em escrever sobre ela. Ele ganhou mais duas filhas que, juntamente com a primogênita, insistem em frustrá-lo não demonstrando medo diante dos vários filmes de terror que assistem juntos. Neste período, também surgiram mais vampiros na literatura mundial, belos e sedutores como os clássicos, mas que ainda por cima brilham e não matam para se alimentar. Distantes das suas próprias criações, André costuma pensar neles como vampiros-carinhosos. As influências na escrita foram se acumulando ao longo de anos e são tantas que a cada entrevista ele cita autores diferentes. Desde os brasileiros Monteiro Lobato, Mauricio de Sousa e André Carneiro aos estrangeiros Victor Hugo e Thomas Mann. Quadrinhos, cinema e games (jogava muito Mario Bros), também estão em suas referências na hora de compor uma história, que invariavelmente será passada no Brasil, especialmente em Osasco, sua cidade. Sem ver muito sentido em porque um autor brasileiro escreveria sobre criaturas que destruíssem Manhattan pela septuagésima vez, prefere dar vida a Gregório e Carlos ao invés de Brian ou James. Fascinado por cinema, adoraria que suas obras fossem adaptadas. Em Leitor assíduo, Vianco cita Monteiro Lobato 2010 produziu, roteirizou e dirigiu o piloto de uma série para a televisão nos e Victor Hugo entre suas influências moldes cinematográficos, no qual gastou em torno de R$ 80 mil tirado dos próprios recursos. A obra escolhida foi O Turno da Noite, mas se perguntado, André gostaria de adaptar muitos outros livros. Ele tenta vender a ideia para alguma emissora e se conseguir quer continuar no projeto, ao mesmo tempo que não pensa em deixar de escrever seus títulos.


A sociedade do livro

As afinidades do grupo de autores proporcionou a formação de um casal

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eja por causa do destino, intervenções divinas, ou talvez porque o mercado literário fantástico brasileiro seja realmente restrito, todos esses escritores que tiveram um pedaço de suas histórias contadas têm laços entre si. Raphael e Eduardo se conheceram em um podcast (arquivos de áudio transmitidos via internet) de literatura. No final, perceberam que a gravação havia sido perdida. Coisas do destino. Mas a ocasião serviu para os dois se conhecerem. Pouco tempo e muita conversa os levou a criar uma grande amizade. André conheceu os amigos durante as andanças em eventos literários e logo formaram um grupo. Por causa de Paulo Coelho, por quem Carolina tem uma grande admiração, ela ouviu falar de Eduardo, amigo do “mago”. Ela aproveitou que o autor vinha para sua cidade de Campinas e entrou em contato para conseguir um encontro. Conseguiu. Contou um pouco de sua história e suas dificuldades para publicar A Fada. Fazendo jus as asas de seu conhecido personagem, Eduardo decidiu dar uma de cupido (“Sabe, eu tenho um amigo que é muito parecido com você... Deviam se conhecer”). Passado o contato de Raphael, o carioca e a campineira começaram a conversar. O garoto conhece a garota. E todos sabem onde isso vai parar. Atualmente noivos/casados, ambos se apoiam na carreira e estão sempre juntos nos eventos literários. E então Raphael, Eduardo, Carolina e André de repente eram Rapha, Dudu (alguns o conhecem por Tijolão), Carol e... André permaneceu André mesmo. Juntos formam um grupo unido pela paixão por livros, por histórias fantásticas, o mundo nerd e pela certeza de que somente a persistência, o trabalho árduo e a fé inabalável de que iriam conseguir, os levou a serem escritores. Eles sabem que dificilmente serão convidados para a Flip, ainda que Neil Gaiman tenha causado o maior alvoroço no evento em 2008. Mas estão contentes com a Bienal e sua legião de fãs que surgem carregados de livros nos braços para serem autografados. Estão muito satisfeitos com o retorno de seus leitores por todos meios possíveis, Twitter, Facebook, o bom e velho email. Até Orkut (vejam só!), que Raphael mantém só para não deixar órfã sua comunidade repleta de pessoas que querem discutir sua obra. A simpática sociedade, que na realidade é formada por mais membros espalhados pelo Brasil, tem o intuito de mostrar que país é possível a produção de literatura fantástica para competir com os gigantes estrangeiros. Basta acreditar. Fim (ou só o começo...)

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O QUEBRA-CABEÇA —-—————————————————————

junte as peças... um conto de

Raphael Draccon*

Presente diário. Hoje, minha mulher me fez a pergunta mais difícil da minha vida... [em uma sala de classe média, um menino de três anos está sentado sozinho no chão, montando um quebra-cabeça. Seu nome é Gabriel.]. — Querido, você sempre me parece tão seguro de si. Me fala a verdade, vai: do que é que você realmente tem medo? — Medo? Do que eu tenho realmente medo? A expressão ainda naquele momento continua indecisa. Ela pertence a Felipe, e é ele o pai do menino Gabriel. Nas mãos, uma xícara de café cada vez menos quente. Na mente, um raciocínio cada vez mais longe. Sabe, acredito que o medo faz parte da essência humana. E que sem ele, a raça humana não teria se desenvolvido da mesma maneira. E também sei que vencer o medo é relativamente fácil. A chave é apenas o conhecimento. Entretanto, a questão que Ana levantou ainda me deixa intrigado. Pois você sabe qual foi a minha resposta? [no mesmo tapete, o pequeno Gabriel tem dificuldades de encaixar determinadas peças do quebra-cabeça]. Tenho medo da morte. Felipe para de digitar no teclado do computador. Bebe o último gole de café de sua xícara sem pensar nele. E volta a digitar em um pensamento tão fragmentado, que a geração de seus pais teria dificuldade em acompanhar. Sabe, me tornei antropólogo porque acredito que o mundo e o homem dão medo, e exatamente por isso nós devemos conhecê-los muito bem.

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[em algum lugar da África do Sul, uma imagem ganha contornos de luz. Um choro de um ser vivo a acompanha, e tudo o que pulsa no mundo, pulsa ali]. Quando a gente nasce, não é muito diferente da saída de um trem-fantasma. Você vê a luz e isso te alivia. Mas você ainda sabe que ao menos lá naquele escuro nada poderia te ferir... [no casebre de uma vila indiana, uma criança pequena tenta andar. Como a cabeça é pesada demais, ela anda alguns passos e cai]. Depois a gente aprende a andar e a falar, e aí já é como andar de bicicleta. Quanto mais se perde o medo, mais fácil se aprende. Só que o tempo não pára, e com ele a vida nos promove mais sustos que o trem-fantasma... [em uma escola da cidade do Porto, um menino uniformizado é levado pela mãe. É o primeiro dia de aula. Ele segura na barra da saia dela, e chora por não querer que ela vá]. O primeiro dia na escola é assustador. Mas o interessante é que é só o primeiro dia. [na cidade de Benfica, outro menino uniformizado entra na própria escola ao lado dos colegas da mesma idade. Há um sorriso em seus lábios, e no de todos eles. Naquela escola, aquele é o terceiro dia de aula.] Tudo muda quando se percebe que na verdade todos estão no mesmo barco. E que o medo é universal. [no Rio de Janeiro, em um salão alugado por uma família de classe média, uma adolescente dança com seu príncipe sua valsa de aniversário de quinze anos]. A gente aprende a amar. A perder. A adorar e ser rejeitado. Aprende que a gente pode aprender de tudo. [em Tóquio, é notável o contraste de jovens de


idades aproximadas diante de um mural. Os nomes nele impresso separam naquele grupo os que seguirão ou não para a faculdade escolhida. Muitos expressavam a felicidade de honrar o nome da própria família. Outros choravam suas próprias desgraças; e pensavam em um suicídio de tradições samurais]. E aprende que no fundo, no fundo, a gente pode tudo, mas nem sempre. Porém, ainda assim a gente perde o medo, porque sabe que pode sempre tentar de novo. [em uma TV digital, em segundos explodem as imagens de um World Trade Center sendo destruído... de uma cena de amor em novela...] E a gente aprende que o mundo é menor do que a gente pensa. E descobre a dúvida, o sexo, o consumo e a comunicação de massa. [... de um comercial de refrigerante... de uma partida esportiva... de uma venda por canal de TV... de cena de efeito especial em filme americano]. A tecnologia humana supera as expectativas, e invade todos os cantos da nossa casa e da nossa mente. [em Hong Kong, um chinês de meia-idade assiste seu programa preferido na tela de seu celular. Ele nem mesmo sabe o número daquele aparelho]. E a cada dia que passa, tudo é como no primeiro dia de nascimento: ao mesmo tempo em que excita... assusta. Felipe observa a telado computador. Leva a xícara de café à boca, mas não há mais nada lá. Seu inconsciente registra o fato, mas o mais curioso é que o consciente ainda não. Mas não a morte. Ela não. No fim, os anos passam, a tecnologia avança, mas sobre ela a gente não conhece nada. [Gabriel está enfim terminando seu quebra-cabeça]. Será que não vou ver o meu filho crescer? Ou será ele quem não vai me ver morrer? Afinal de contas, quem é o maldito senhor do tempo? [a imagem do quebra-cabeça está quase acabada.

Trata-se de uma foto de Felipe e a mulher, Ana, abraçados, com Gabriel no centro. Gabriel completa os rostos dos pais, faltando apenas o corpo de ambos e seu próprio rosto na foto]. Quem, na realidade, tem as peças desse maldito quebra-cabeça? O consciente de Felipe percebe que a xícara está vazia. Ele levanta-se e caminha na direção de onde está uma mesa com a garrafa de café, próxima a Gabriel. Seus pensamentos, porém, continuam mais velozes do que um processador de silício. No fim, em um mundo de conhecimento e medo, como se duela com a morte? [no quebra-cabeça, Gabriel monta o corpo dos pais, faltando apenas o seu próprio rosto na foto]. Como se enfrenta a morte? Felipe enche o copo de café. Bebe observando o filho. Como se vence a morte? [Gabriel satisfeito com a última peça do quebracabeça na mão. Ele olha pro homem que o observa e abre um largo sorriso, capaz de estremecer as pernas de um pai]. E, acredite, a resposta é tão simples e expressiva quanto o olhar de uma criança. No final das contas, a vida também apresenta suas armas... Felipe ainda observa o filho, com a última peça do quebra-cabeça nas mãos. A emoção em seus olhos é completamente consciente. E como ganhar da morte? É fácil: com a peça-chave do quebra-cabeça da vida. [a mão infantil completa a foto com o rosto de Gabriel]. Assim...

*Premiado no XVI Concurso de Contos José Cândido de Carvalho

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L L O L O O C CO COO Nossa lista de desejos (da última semana...)

De volta para o presente

Em uma galáxia muito, muito próxima Sempre quis ter seu planetário portátil em casa? E se ele vier com o mundo de Star Wars, melhor ainda? O planetário em forma de estrela da morte resolve tudo. O dispositivo tem duas camadas, uma com o céu noturno terrestre e outra com os planetas de Star Wars. Assim, quando ligado, ele projeta todo o universo de George Lucas, com direito a nomes e mapas. US$ 29.95 Da Neatoshop

Biscoito das galáxias Quando falaram que o lado negro da força tinha cookies, devem ter pensado no pote de cerâmica em fomato do Darth Vader. Também há um do Spock, só que menor. Quer se juntar ao lado negro e aproveitar as bolachinhas? Custa US$99.95. Os que preferem o vulcaniano pagam US$ 49.95. Da Neatoshop

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A Nike realizou o sonho de muitos ao lançar o Air Mag, tênis que Marty McFly usa em De volta para o futuro 2. Mas a quantidade é limitada, e o preço, variável, já que só são vendidos em um leilão do Ebay. Se quiser um, prepare o bolso: os lances passam e US$4 mil! Do Ebay


A moto mais legal de todos os tempos Desde que o primeiro Tron foi lançado, as motos tornaram-se objeto de desejo de todo o mundo. Em 2011, com o segundo filme, a Suzuki contruiu uma réplica com assento de couro, rodas de caminhão, fibra de vidro e armação de aço. Sim, ele acende as luzes. Não, não cria um rastro de luz. Quem sabe em breve? US$ 55 mil (construídas por encomenda)

Amigos não deixam amigos beberem amigos Sempre quis sentir o sabor do sangue artificial que os vampiros bebem em True Blood? A HBO resolveu sanar essa questão. com sete sabores diferentes, a bebida (alcóolica) vem em pacotes de quatro ou seis unidades. PS: não é sangue de verdade! 4 und - US$16.00 / 6 und - US$15.99 Da HBO Store

Troca de canallus! Um verdadeiro presente para os fãs de Harry Potter, a varinha que é um controle remoto tem 13 funções, que você tem que aprender. Você também pode ensinar a varinha, e quando concluído seu aprendizado, pode utilizar em outros aparelhos eletrônicos. US$ 89.99 Da Think Geek

Tonight is the night Sinta-se o próprio Dexter com a roupa do mais querido serial killer de televisão. Atenção: use somente para cosplays! US$ 24.99 Da Think Geek

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QuentinDica: Foto: reprodução Fim de ano, férias, ócio, clima perfeito para conhecer uma série. Bom, conhecer é modo de dizer, já que Community já está em sua terceira temporada. Aclamada pela crítica, a série não consegue altos índices de audiência, se comparada às outras do gênero como The Big Bang Theory e Modern Family. O fato é que Community é que melhor faz comédia na atualidade, a exibida pela NBC (no Brasil pela SONY), a série é sensacional, divertida e inovadora. A séria se passa numa universidade comunitária, recanto de personalidades excêntricas. O foco é um grupo de estudantes muito diferentes entre si. Se você ainda não segue Community, não sabe o que está perdendo. As chances de se tornar sua série preferida são grandes. A QuentinDica te dá cinco motivos para acompanhar a série:

5. Ousadia Já dizia o grande nome da TV brasileira, Chacrinha, "Na televisão, nada se cria, tudo se copia". Paródias fazem sucesso, e Community sabe como fazê-las, sem medo de fazer experimentações. Que outra sitcom teria coragem de fazer um episódio todo um ambientado no clima faroeste, com direito a duelo de paintball? Ou um todo em stop motion? Sem falar do épico espacial. Enfim, se algo é referência, em termos de cultura pop, Community faz.

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da esq. p/ dir.: Sr. Chang, Abed, Britta. Jeff, Shirley, Annie, Troy e Pierce

A referência ao pop é um ponto forte da série; ela tenta sempre encontrar uma maneira de alfinetar algum filme, celebridade, enfim.

4.Créditos finais Mais uma vez a série soube usar algo já batido para fazer sucesso. Piadas nos créditos finais não é nenhuma inovação, mas o modo como eles fazem é impagável. Quase sempre protagonizados por Troy (Donald Glover) e Abed (Danni Pudi) , a dupla se mostra genial na hora de fazer o público rir. Qualquer fã da série conhece o clássico rap da biblioteca ou fica ansioso por mais um episódio de Troy e Abed in the morning.

3. Elenco

O grupo de alunos da Universidade Greendale é liderado pelo cínico, mas adorável, ex-advogado Jeff Winger, que é interpretado pelo carismático Joel McHale. Ainda no elenco encontramos vários talentos das comédias, como o veterano Chevy Chase (de Férias Frustradas), como o velho Pierce; Yvette Nicole Brown (de DreamGirls), como a mãezona Shirley; Gillian Jacobs (de A Caixa), como a revoltada Britta; Allison Brie (de Mad Men) como a doce Annie; além dos hilários Donald Glover (de 3rd Rock) como o ex-atleta Troy e Danny Pudi (de Deu a Louca na Chapeuzinho) como o nerd Abed. Além deles não podemos deixar de


+ dicas A Tormenta das Espadas Terceiro livro das Crônicas de Fogo e Gelo, da série Guerra dos Tronos, adaptada pela HBO para TV. R$ 42,70

2NE1

Girl band sulcoreana que mistura diversos estilos

Scott Pilgrim vs The World falar do Señor Chang, interpretado por Ken Jeong (de Se Beber Não Case) , que consegue roubar a cena toda vez que aparece. O antagonista que perturba os alunos, enquanto professor de espanhol, na primeira temporada e faz de tudo para se juntar ao grupo, desta vez como aluno (na segunda). O elenco é incrivelmente versátil, levando em conta a experimentações que a série faz.

2. Abed

É talvez o grande destaque de Community. Sua fixação pela cultura pop abre várias deixas para o humor. Ele é

Abed (Danny Pudi)

1. Humor

O que importa é que Community cumpre o que se propõe, a série sabe fazer rir como poucas. De nada adiantaria a ousadia, o elenco, os personagens, as referências à cultura pop, se ela não fizesse rir. E é com isso que a série passa na frente das concorrentes, com um humor característico e inteligente. Em Community qualquer situação vira piada, desde um surto zumbi à uma aula de cerâmica.

DVD - 1ª Temporada cerca de R$ 79,90 e na TV, na SONY aos finais de semana

Foto: reprodução Scott tem que lutar contra os sete exnamorados do mal para sair com a garota de seus sonhos. R$ 34,90

89


Pulp

Por que

Quentin?

Há uma passagem que eu memorizei, me parece apropriada para esta situação: Ezequiel 25:17. “O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Abençoado é aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, pois ele é verdadeiramente o protetor de seu irmão e aquele que encontra as crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá: chamo-me o Senhor quando minha vingança cair sobre você”.

Suas marcas

Suas paixões

Isso é Quentin! 90


Revista Quentin  

Revista sobre Cultura Pop

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