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ANO 01 . VII EDIÇÃO OUTUBRO/NOVEMBRO/2014 R$ 9,00

EDUCAÇÃO AMBIENTAL Pg. 06

Foto: Gaia Village, Garopaba/SC

Cooperativismo, Agricultura familiar e Produtos orgânicos Pg. 21


Todos os dias, centenas de ideias e novos projetos nascem para promover a sustentabilidade. Porém, a maioria da população não toma conhecimento de

Assine a revista Meio Sustentável e colabore com essa ideia.

tais ações devido à falta de divulgação. A meta da revista Meio Sustentável é divulgar e debater qualquer ação que contribua com o meio ambiente, seja ela uma iniciativa governamental, de entidades de classe, indústria, comércio, meio urbano ou rural. A preservação do meio ambiente é responsabilidade de todos nós e, através da revista Meio Sustentável, estamos cumprindo com a nossa obrigação. Porém, precisamos que você também regue esta ideia, participando e contribuindo para um mundo mais digno. Assine a Revista Meio Sustentável e colabore você também com essa ideia. A semente já está plantada, ajude-nos a regar!

Para nos ajudar envie um e-mail para atendimento@meiosustentavel.com escrevendo em assunto "Eu quero regar", com seu nome completo, endereço, CPF e e-mail para que possamos encaminhar um boleto para pagamento. São 06 edições programadas e mais as extras por apenas R$ 54,00. Participe!

Editora Meio Sustentável Av. Padre Cacique, 320 – Térreo – Bloco A Bairro Menino Deus 90810-240 – Porto Alegre – RS


EDITORIAL

Estudos realizados em 94 países apontam que, por meio do desenvolvimento de práticas cooperativistas, é possível alcançar-se a sustentabilidade. Os resultados obtidos na produção de alimentos pelo sistema de cooperativas demonstram que 70% destas, em 94 países pesquisados, já se apresentam como vitais para o abastecimento da população. Esta edição da Revista Meio Sustentável aborda a tendência de ser priorizado o binômio formado por cooperativas e agricultura familiar versus produção de produtos orgânicos. O crescimento do cooperativismo tem como força motriz o princípio de que, na prática, cooperar para superar as dificuldades de um grupo de pessoas em benefício coletivo tem se mostrado eficiente nos países onde o cooperativismo predomina no setor de alimentação, no setor de energia renovável e em outros em que são realizadas práticas sustentáveis. Observa-se que as comunidades que, de alguma forma, convivem com práticas sustentáveis e que desenvolvem um comportamento cooperativista valorizam as soluções coletivas e priorizam o relacionamento entre as pessoas, como matéria-prima para atingir o entendimento e a realização do bem comum. Esse processo confronta-se, a cada dia, com os princípios da competitividade exagerada, que prescrevem o atendimento de interesses pessoais, em que se segue a lógica de que “se está bom para mim, não importa que esteja ruim para os outros.” Infelizmente, há ainda muitas pessoas que pautam sua conduta em tais princípios, basta observar o comportamento daquelas em relação a ações do cotidiano como as que envolvem o descarte do lixo. Quem já não flagrou um “distinto” morador de seu bairro escondendo seu lixo no terreno do outro vizinho ou, sorrateiramente, descartando-o em local inapropriado, sem se responsabilizar pelas consequências desse ato? Há ainda outras que pautam suas ações unicamente nos princípios do capitalismo. Recentemente nos confrontamos com o problema da adulteração do leite (tratado em edições anteriores da revista), exemplo aviltante de práticas que envolvem o pensamento individualista de que, para alcançar determinados fins – o lucro -, não importam os meios utilizados. No Brasil, ainda desfrutamos de uma natureza pródiga que nos preserva de grandes catástrofes como as que assolam determinadas regiões do mundo (furacões, tsunamis, terremotos), mas já podemos sentir os efeitos de uma má gestão dos recursos naturais: a água, considerada como um bem inesgotável da natureza, começa a faltar – também aqui -, fato que comprova as previsões sombrias lançadas, há décadas, por ambientalistas. Isso nos convoca a assumir uma atitude mais cooperativa. Enquanto víamos o mundo ser assolado por calamidades das quais nos sentíamos resguardados, nos mantínhamos em nossa zona de conforto. Quando começamos a sentir os efeitos das ações deletérias do homem sobre a natureza – deslizamentos de terra, alagamentos de córregos e rios, falta de água - , quando contabilizamos vítimas dessas catástrofes, culpamos o clima, as forças da natureza, mas esquecemos do que realmente importa: somos também responsáveis por isso. Tornam-se necessárias, portanto, medidas urgentes para recuperar a mãe-natureza, afetada por danos causados pela forma desrespeitosa com que são estabelecidas as práticas de consumo dos recursos naturais, sob pena de condenarmos as futuras gerações a terem diminuídas suas chances de sobrevivência. A direção

A Revista Meio Sustentável é uma publicação da Editora Meio Sustentável Ltda. Av. Padre Cacique, 320 – Térreo Bloco A, Bairro Menino Deus, Porto Alegre, CEP 90.810.240 Site: www.meiosustentavel.com Direção Geral Silvana Bergamo Diretoria de Inovação e Relacionamento Ronei Orsini Presidente do Conselho do Leitor Leopoldo Justino Girardi Colaboração nos textos: Aline Rodrigues, Caroline Schio, Elaine Wames Nedel, Everton Mateus Gabi, Ronei Orsini, Sabrina Basso, Sandra Severo, Silvana Bergamo, Simone Polleto e Vilsio Sehnen Revisão Tania Maria Merker Candotti Projeto Gráfico e Design Bárbara Gurgel 3 Gráfica: Editora Pallotti Cartas, redação e assinaturas atendimento@meiosustentavel.com Publicidade comercial@meiosustentavel.com Revista on line www.meiosustentavel.com Foto de capa Gaia Village

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ano 01 . 7ª edição


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ED. 07

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ÍNDICE CAPA

EDUCAÇÃO AMBIENTAL

PROJETOS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

PROJETO AMA NA PRAIA (GAROPABA/SC) PROJETO GAIA NAS ESCOLAS (GAROPABA/SC) PROJETO “ TURMINHA DA RECICLAGEM” – AURORA PROGRAMA “A UNIÃO FAZ A VIDA” – SICREDI

21 27 30 34 meio sustentável

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Rio Grande do Sul

COOPERATIVISMO, AGRICULTURA FAMILIAR E PRODUTOS ORGÂNICOS

AGRICULTURA FAMILIAR

PRODUTOS ORGÂNICOS

SICREDI E PROJETO CER


ESPAÇO DO LEITOR

Envie cartas para o Espaço do Leitor através do e.mail: redação@meiosustentavel.com, com seu nome, profissão, cidade em que reside e fone para contato. A RMS reserva-se no direito de selecioná-las e resumi-las para publicação.

“Gosto muito das matérias e da forma como são abordadas, e principalmente porque as levo para minha filha de 11 anos, que está no 6º ano, e ela leva para a escola e compartilha com os colegas e professoras.” Rogério Caldasso Barbosa Engenheiro – Porto Alegre/RS

“Na última edição da Revista Meio Sustentável, me chamou a atenção o seu Editorial, em que está expressa a preocupação dos seus editores com a integração do idoso na sociedade. Como parte disso, entendo que, em Garopaba/SC, todos podem, cada um na sua praia, inclusive os idosos! Brincam por aí que ‘Garopaba é a praia mais longe de Porto Alegre’. Mas Garopaba, que na verdade fica em Santa Catarina, pode ser considerada a região contemplada com as praias mais acessíveis para quem tem algum tipo de deficiência, ou qualquer limitação física. Afirmo isso, não por experiência própria, ainda, mas porque tive a oportunidade de ter comigo aqui em Garopaba, por alguns dias, duas tias idosas (90 e 92 anos) que puderam aproveitar muito do que a Cidade oferece naturalmente. Não apenas um belo visual, porque também tiveram o prazer de andar em várias praias, molharam os pés nas águas do mar, tiveram a sensação de se desequilibrarem com algumas ondas inesperadas, coisas que há muito não viviam. Foi uma experiência incrível, emocionante, indescritível! Garopaba não pode ser considerada apenas como uma praia de Porto Alegre e redondeza, mesmo que por brincadeira, mas também é uma oportunidade para provar pra pessoas sem condições de uma mobilidade razoável que elas podem, que elas são capazes. A natureza já fez sua significativa parte, agora falta um projeto bem elaborado, boa vontade empresarial e força popular para fazer com que essa região se torne “a praia mais próxima de várias partes do Brasil”, e quem sabe de outros países, em condições de receber pessoas que já não têm mais a mesma habilidade de antes ou mesmo para aquelas que nunca puderam ter a sensação maravilhosa de pisar na areia, colocar os pés na água do mar, ou se desequilibrar com as ondas. Garopaba foi descoberta pelos surfistas na década de 1970, mas o lugar oferece muito para quem nunca tentou, ou nunca poderá tentar, se equilibrar numa prancha, mesmo que das mais amadoras. Isso também é desenvolvimento sustentável.” Nádia Rios Vellasco Relações Públicas – Garopaba/SC ano 01 . 7ª edição

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A educação ambiental sempre esteve presente na vida dos seres humanos. De acordo com Donella Meadows, cientista ambiental americana (1996), “ desde o primeiro momento em que em que os seres humanos começaram a interagir com o mundo ao seu redor e ensinaram seus filhos a fazerem o mesmo, estava havendo educação e educação ambiental.” A educação ambiental desempenha um importante papel ao promover a integração do ser humano com o meio ambiente. A escola, sozinha, não pode responsabilizar-se pela gestão de valores como educação, cidadania e respeito ao meio ambiente: é fundamental que a família – em cujo seio devem ser lançados os alicerces para a fundamentação de tais valores – assuma seu papel na construção de um entendimento melhor sobre sustentabilidade, orientando seus filhos a respeito de práticas não só de consumo de água e energia como também de descarte de embalagens (lixo) cujos efeitos sejam menos deletérios ao meio ambiente do que os que se constatam atualmente. A escola deve ser um complemento da educação ambiental desenvolvida dentro de casa. Os pais podem ensinar a seus filhos algumas formas de descarte de resíduos e do aproveitamento destes no processo de reciclagem, a exemplo do descarte de produtos de plástico como os vasilhames de refrigerantes que depois de reciclados podem se tornar uma série de outros produtos, tais como cadeiras, lixeiras, baldes entre outros. Orientar sobre o controle do desperdício de alimentos e o consumo destes de forma mais saudável é estar ensinando hábitos sustentáveis. Essas e outras práticas de educação colaboram com o crescimento da consciência ecológica na família. As iniciativas dos pais voltadas à educação ambiental no núcleo familiar motivam novos hábitos de consumo e promovem uma visão da natureza como um bem de todos, que pode ser preservada por cada individuo. Ao transmitir esse entendimento sobre as questões ambientais aos filhos, os pais passam a meio sustentável

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Educação Ambiental

ser motivadores do comportamento sustentável que venha a ser assumido por eles. Concluindo podemos afirmar que a educação praticada no lar tem uma função complementar, de fundamental importância, na fundamentação das bases que serão edificadas na escola e na sociedade. As crianças, ao receberem ensinamentos de educação ambiental em suas casas, passam a absorver hábitos diários que serão determinantes no fortalecimento de sua consciência ecológica e que, se exercidos fora de casa, poderão ser multiplicados para outros como uma herança cultural. A educação familiar pode ser exercida de maneira descontraída e de preferência exemplificada: não precisa se tornar uma pura obrigação e virar estresse familiar, mas pode ser realizada como um bom passatempo, um momento de descontração. Questões que envolvem o naturalismo despertam o interesse de todas as faixas etárias, o que permite que temas como a importância das árvores, vida animal, belezas da natureza (mares, rios, entre outros) possam ser abordados no cotidiano do convívio familiar. O crescimento urbano e a industrialização são os principais fatores responsáveis pela transformação de nossas cidades, que passaram a viver um desenvolvimento insustentável a partir do surgimento de todo o tipo de lixo – principalmente o químico. Agora, precisamos encontrar soluções sustentáveis (e repassá-las a nossos filhos), que visem ao respeito á natureza, ao entendimento de interesses coletivos – os quais são incompatíveis com os de natureza individual, que, de forma geral, vão de encontro aos princípios da sustentabilidade. Segundo Gadotti (2000), a civilização tecnológica trouxe vários benefícios, conhecimentos e comodidades, mas, em contrapartida, o homem se viu obrigado a conviver com a destruição do planeta. O entendimento de que a educação ambiental é um saber interdisciplinar nos leva a crer que não são só as escolas e os professores que têm a obrigação de promover o ensino ambiental: todos nós somos responsáveis pela transmissão de tal saber nos mais diversos ambientes que frequentamos no dia a dia, dentro de nossas casas ou no convívio social.


EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL EDUCAÇÃO AMBIENTAL – RIO - 92 A Rio-92 propiciou uma abertura para a Educação Ambiental. A partir da realização da Rio-92, que ficou conhecida como a mais importante conferência sobre o meio ambiente da história, iniciase uma busca por maneiras de vida ecologicamente corretas. 1º documento: Agenda 21, contém o conjunto de propostas ratificadas pelos governantes de mais 170 países que participaram da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e DesenvolAvimento Sustentável.

FONTES: http://www.unievangelica.edu.br / Blog: vidaorganizada.com http://www.ambito-juridico.com.br

Crédito: IBGE

3º documento: Tratado de Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global contém princípios e um plano de ação para educadores ambientais. ano 01 . 7ª edição

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2º documento: A Carta Brasileira para a Educação Ambiental, afirma a necessidade dos poderes públicos federal, estadual e municipal para o cumprimento da legislação brasileira e a introdução da Educação Ambiental em todos os níveis do ensino.


Leopoldo Justino Girardi Advogado

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POR QUE EDUCAÇÃO AMBIENTAL?

Afinal, um assunto sendo abordado com especial preferência na atualidade, o meio ambiente, o que é? Para entender essa questão com um pouco de profundidade e abrangência, é preciso entender algo a respeito do ser humano. Um ente existente no mundo como tantos outros, o ser humano é difícil de ser definido, a despeito das tentativas dos filósofos, desde os gregos, na antiguidade, até os existencialistas. Ante tais dificuldades, vamos entendê-lo a partir de sua existência e analisar uma das suas características mais notáveis: o homem é um ser de relações. O ser humano não existe fora de uma rede de relações em três dimensões: uma relação com o absoluto, um campo de relações com os outros seres humanos e uma relação com o mundo.” Nessa relação com o mundo é que se situa o que se costuma chamar de “meio ambiente”. Qual é a razão? Por que “meio”? O que traz a ideia de “meio” ? No conceito de meio está inserida a ideia de através, de permeio, de insuficiência, de dependência. Por quê? Porque homem, aqui entendido como ser humano, não vive por si, não tem autonomia absoluta, pois necessita radicalmente de um meio para viabilizar a sua existência: é o meio ambiente, ou seja, um lugar no espaço inserido na dinâmica do tempo. Fora do espaço e do tempo, o homem não vive, o ser humano não pode existir. Pois bem! Essa realidade existencial cronotópica é o que costumamos denominar “mundo”, termo que, em sua origem, significa “limpo”. Imundo é sujo. Mundo é limpo. Sem o mundo não há existência humana. Daí, então, a necessidade de se compreender a importância do meio ambiente, que, em última análise se reduz ao espaço e ao tempo de cada pessoa. É nessa dimensão espaço-temporal que o ser humano vive, desenvolve suas potencialidades, satisfaz suas necessidades e alcança a plenitude do seu ser. Prejudicar o meio ambiente tem como vítima o próprio ser humano. Tornar o ambiente imundo é prejudicar o mundo e todos os seres cuja vida depende de tudo aquilo que o mundo pode oferecer. Em síntese: cuidar do mundo é zelar pela meio sustentável

casa do homem que foi colocada à sua disposição para que desenvolvesse sua vida e pudesse alcançar a relação pessoal, a plenitude do ser, a felicidade. Na casa desordenada, machucada, desprezada, suja, sem encantos, o homem não pode tornar-se feliz e plenificado. Daí, então, a necessidade de se despertar a consciência de todos para os cuidados com a casa de todos, com o meio ambiente, onde se encontra o de que a vida humana precisa, a começar pelo oxigênio do ar. Nós vivemos no meio da atmosfera, onde está o ar que respiramos. Sem ele, o ser humano morre porque deixa de respirar. Daí, então, a preocupação primordial de todos: a qualidade do ar que respiramos. Toda contaminação do ar é uma agressão ao meio ambiente. Mas as agressões ao meio ambiente não param nas queimadas e na degradação. O ser humano não vive sem comer, sem beber e sem morar. Onde não há água e onde não há comida, o ser humano não sobrevive. A alimentação depende da terra, que também fornece a água. Tudo que se fizer degradando a terra é, em ultima análise, agressão ao meio ambiente. Lançar em mares, rios , córregos e sangas os resíduos que não servem mais ao homem também representa uma agressão ao meio ambiente. Na “casa do homem”, o mar não é lixeira, mas a casa dos peixes, alimentos do homem. De agressão em agressão, o ser humano vai tornando sua “casa” cada vez mais difícil de ser habitada. Destruindo pela poluição a sua casa, o homem vai tornando cada vez mais complicada a sua própria existência. Por isso, é preciso reagir, tomar consciência da gravidade do problema e agir. Não bastam discursos, conferências, acordos internacionais, mesmo que necessários para um despertar universal de todos os povos. É preciso agir, atuar, tomar iniciativas dos mais variados matizes visando limpar o meio ambiente e evitar o agravamento do problema. Cada ser humano tem que fazer sua parte: limpar, recolher, dar destino correto a tudo o que é espécie de resíduo, desde os restos de lápis ao apontá-los até os mais diversos tipos de embalagem de produtos, restos de alimentos e tudo quanto envolva sujar o “mundo” que recebemos. Poluir, não. Proteger, sim. Com a consciência dessa realidade, começa a educação ambiental, desde o raiar da razão até o ocaso da vida. Toda a humanidade está convocada para a guerra contra tudo o que mancha a beleza e a limpeza da “casa do homem”. Viver no meio ambiente limpo é direito de todo ser humano, vinculado a sua própria


SUSTENTABILIDADE. O QUE SUSTENTA O SUJEITO QUE CRESCE? Fernanda Dornelles Hoff Psicóloga e Psicanalista

Desde o início da vida, nossos filhos precisam da nossa sustentação para que sobrevivam e cresçam. Estamos falando da sustentação quanto às necessidades orgânicas, como fome, sono, higiene, e também quanto as de caráter psíquico. Mediante o suprimento desses bens essenciais e dos cuidados básicos dispensados a seus filhos, os pais certificam seu amor por eles. O amor próprio surge justamente da energia vital e do valor que outra pessoa promove na criança. A partir disso, o pequeno ser constrói o amor sobre si mesmo, o qual que, num primeiro momento, é egoísta, deixa o sujeito com a ilusão de ser o centro do mundo. É só a partir desse primeiro tempo que a criança começa a

dar valor aos outros e ao meio à sua volta. Freud nos aponta que, como humanos, sofremos algumas ameaças provindas do nosso corpo, do mundo externo e das relações com outras pessoas. Para crescer com maturidade, é preciso desenvolver habilidades ao interagir com tudo isso. Aquilo que ameaça faz o humano amadurecer, complexizar-se. É a partir do domínio e conhecimento do seu corpo que a criança pode relacionar-se com o mundo externo e com os outros. Somente conhecendo seus limites e possibilidades, ao sair de uma posição egoísta, o sujeito que cresce pode interagir de modo mais significativo com as pessoas e com a natureza. Busca-se a posição madura desde a construção da tolerância à frustração que se inicia na infância, quando a criança descobre não ter a mãe e o pai só para si, indo conquistar um lugar de valor frente ao mundo. Aquilo que uma criança vive desde o nascimento com os que cuidam dela tem significado primordial e é imprescindível para a construção de sua personalidade. Ela precisa que o adulto envolvido com seu crescimento dedique tempo a ela e lhe ofereça um espaço reconhecido de infância. Só assim a criança poderá construir uma sustentação para lidar com o

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natureza. Trata-se, então, de um direito natural.


PROJETOS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL PROJETO AMA NA PRAIA GAROPABA/SC

Fundada em 1998, em Garopaba (Santa Catarina), a AMA tem como foco principal não só conciliar as atividades humanas com a proteção e a preservação do meio ambiente como também atuar nas perspectivas educativa, cultural, técnico-científica e filantrópica, abrangendo prioritariamente a Zona Costeira de Santa Catarina. Para “plantar essa ideia”, são defendidas as premissas ético-normativas do conceito de Ecodesenvolvimento: a prudência ecológica, a equidade social, a valorização do saber tradicional e uma economia mais inclusiva.

As atividades do projeto, que foi financiado pela Fundação Banco do Brasil, iniciaram-se no segundo do ano letivo de 2012. Desde então, o projeto já beneficiou cerca de 600 alunos com idades entre 9 e 13 anos, dos 4º e 5º anos de nove escolas municipais de ensino fundamental de Garopaba (correspondendo a 75% da rede de ensino básico municipal), além de seus professores e colegas de outras turmas. O projeto monitora sete das oito praias do município: Garopaba, Siriú, Gamboa, Silveira, Ferrugem, Barra e Ouvidor. No total, até o primeiro semestre de 2014, o projeto realizou 36 aulas teórico-práticas sobre o ecossistema costeiro e 56 saídas a campo para o monitoramento de resíduos sólidos existentes nas areias das praias de Garopaba. Vinte e uma placas do projeto com os gráficos dos resultados bimestrais obtidos no monitoramento foram fixadas nas principais vias de acesso às sete praias monitoradas, informando e sensibilizando os diversos públicos (turistas e moradores) que por ali passam. Durante essas atividades, os alunos foram instruídos sobre a origem dos oceanos, sua importância ambiental, social e econômica e sobre os diversos fatores que atualmente contribuem para a degradação desse importante ecossistema. Nas saídas a campo, os alunos tiveram a oportunidade de investigar a praia com uma série de ferramentas – bússola, inclinômetro, lupas, pás, peneiras, rastelos, réguas, trenas, estacas e mangueira de nível, dentre outras, muitas das quais nunca haviam sido utilizadas antes pelos alunos. Essas ferramentas possibilitaram uma análise minuciosa do ambiente costeiro, das características da areia e dos objetos encontrados nela, como os principais tipos de lixo deixados pelos frequentadores das praias e os que são transportados pelas correntes e marés até estas. Associação amigos do meio ambiente para a ecologia, o desenvolvimento e o turismo sustentáveis – AMA. Você pode ver as atividades dos monitores mirins de Garopaba, nos seguintes endereços eletrônicos: http://monitoramento-costeiro-garopaba.webnode.com Página facebook - monitoramento mirim costeiro Garopaba

PROJETO MONITORAMENTO MIRIM COSTEIRO DE GAROPABA meio sustentável AMA

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que a cerca podendo aprender o mundo e, no futuro, trabalhar, amar e procriar. Tanto na relação com os outros como na relação com a natureza, recebemos e oferecemos coisas. É na troca que o sujeito se constrói e desfruta a vida. O adulto envolvido com o pequeno ser precisa posicionar-se, considerando sua história, tendo um olhar no presente e outro no futuro. No entanto, vivemos a cultura do narcisismo, em que o adulto está centrado em si, no consumismo e no presente, impedindo que o futuro seja visto e que a sustentabilidade seja mostrada como exemplo a seus filhos. As ações movidas pelo egoísmo dão poucas condições ao sujeito adulto de olhar para a possibilidade de um futuro melhor. O adulto está preocupado com o tempo atual, com manterse jovem e com seu trabalho, na ânsia de adquirir cada vez mais bens de consumo. Tem dificuldades quanto ao tempo e à tranquilidade necessários para organizar o que não usa mais(seu lixo) e seus excessos(uso da água e eletricidade, por exemplo). Se o adulto possui a ilusão de que seu filho será mais feliz ao ter um vídeogame, não conseguirá proporcionar-lhe o necessário contato com o meio em que está inserido, o que, consequentemente, irá impedir que este o valorize. Nossa cultura precisa rever valores, o que só ocorrerá a partir de nós mesmos, ao deixarmos de lado a posição infantil egoísta. Do contrário criaremos as próximas gerações com importantes falhas na sustentabilidade, do meio ambiente e do seu eu.


PROJETO GAIA NAS ESCOLAS GAROPABA/SC

Arquivo Gaia - Garopaba

O Programa de Educação Ambiental José Lutzenberger, que acontece, desde 2001, na cidade de Garopaba, litoral de Santa Catarina, oferece elementos para construirmos uma visão sobre o alcance dessa ferramenta de educação e sensibilização ambiental continuada, que se renova, a cada instante para atender às demandas de uma cidade. A convivência diária com as belezas naturais de cidades como Garopaba, situada no litoral do Brasil, favorecem a manutenção de vínculos afetivos com

a Mãe Natureza. Isso possibilita a incorporação de práticas sustentáveis, que permitirão que tais belezas sejam herdadas pelas próximas gerações. Estamos publicando com detalhes o programa porque os editorialistas da Revista Meio Sustentável entendem que devemos valorizar as iniciativas construídas de maneira planejada e com uma visão real de promoção da educação dentro do ambiente escolar, mediante a prática de uma educação ambiental realizada por meio de jogos, brincadeiras, gincanas, criação e manutenção de hortas escolares, apresentação de trabalhos, enfim, de atividades cujo objetivo seja o de aprender o que é melhor para todos.

Mostra Lutz - Garopaba

“Há treze anos ajudando a construir a sustentabilidade ambiental nos espaços escolares do município de Garopaba/SC através de uma rede de 25 Escolas, 2.280 estudantes e 180 professores empenhados em transformar a comunidade num ambiente mais saudável e socialmente justo, onde todos aprendem e ensinam ao mesmo tempo, com base em soluções simples e criativas que estimulam mudanças de atitudes e colaboram com a conservação do meio ambiente e melhoria da qualidade de vida da comunidade escolar”. A semente da Mostra Lutz teve início em julho de 2000, ano em que a parceria entre a Fundação Gaia, a Secretaria Municipal de Educação, o Projeto Ambiental Gaia Village e a ONG AMA oportunizou cursos de capacitação em educação ambiental a todos

os professores da rede municipal. Ainda naquele ano, criarem-se condições para a vinda da neozelandesa, educadora e mobilizadora comunitária, Robina McCurdy. Autora da metodologia “SEED” (School Environmental Education & Development), que preconiza a educação *PERMACULTURAL continuada no pátio escolar, Robina propiciou atividades e dinâmicas que incentivavam a ação participativa. Durante sete dias, 69 professores e agentes de ONGs foram envolvidos na criação, execução e manutenção de um design ecológico para o pátio da escola, transformando-o em instrumento de aprendizagem, integração e disseminação de práticas ambientais.

Arquivo Gaia - Garopaba

Projeto Escola Amiga do Ambiente – Mostra Prof. José Lutenberger

Robina Mckurdy - o inicio


Arquivo Gaia - Garopaba

Mostra Lutz - Garopaba

PERMACULTURA

Arquivo Gaia - Garopaba

Permacultura é um sistema de design para a criação de ambientes humanos sustentáveis e produtivos em equilíbrio e harmonia com a natureza.– Bill Molliso

2002 - I SEMANA DO MEIO AMBIENTE EM GAROPA.

TEMAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL ABORDADOS Ao longo dos treze anos em que a Mostra Lutz é desenvolvida, as escolas participantes abordaram diversos temas em seus projetos anuais: lixo/reciclagem; água; tratamento de efluentes e tecnologias amigáveis; horta; arborização urbana; mata ciliar; alimentação saudável; ervas medicinais e aromáticas; energias limpas; mudanças climáticas; consumo consciente; fauna; preservação; ambiente costeiro; cultura açoriana. Hoje também se discutem temas mais atuais como aquecimento global, efeito estufa, escassez de água, poluição, consumismo, ocupação urbana desordenada, entre outros problemas ambientais de extrema relevância nas últimas décadas.

GAROPABA

240 HORAS DE CAPACITAÇÃO

Paralela à orientação dada pelos consultores aos projetos escolares, a equipe coordenadora da Mostra facilita processos de Capacitação para a Educação e Sensibilização Ambiental junto ao corpo docente desde 2004. Os cursos, seminários e oficinas contam com profissionais que atuam como focalizadores e incluem atividades teórico-práticas, compondo um mosaico de informações, autoconhecimento, dinâmicas e intervenções que propiciam reflexões com vistas à transformação do saber ambiental em atitudes positivas e ambientalmente responsáveis, somando 240 horas de capacitação.

Arquivo Gaia - Garopaba

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Essa e outras ações culminaram com a organização da I Semana do Meio Ambiente de Garopaba em junho de 2002, com a participação das escolas e de vários segmentos da sociedade. No encerramento da I Semana do Meio Ambiente, foi lançado o 1º Prêmio José Lutzenberger – Programa de Educação Ambiental. No nome, a homenagem ao ecologista José Lutzenberger e suas ideias. Lutz, como carinhosamente era chamado o mestre ambientalista, pontuava a responsabilidade de todos pela continuidade e desdobramentos “dessa fantástica sinfonia da evolução orgânica que nos deu origem, junto com milhões de outras espécies – o misterioso processo que caracteriza Gaia, nosso planeta vivo”.

meio sustentável Mostra Lutz - Garopaba


Em 2007, a Mostra Lutz novamente introduziu inovações que qualificaram o processo educativo, amplificando questões de transdiciplinaridade, gestão, capacitação e participação comunitária. Foi criado o “Empório” da Mostra Lutz. Trata-se de um canal de aporte direto de doações, sem intermediações e desperdícios. A participação de indivíduos, organizações e empresas na cobertura dos custos do programa foi ampliada sensivelmente, facilitando a expressão de responsabilidade socioambiental do empresariado. De outro lado, tal participação revelou-se instrumento de valorização da cultura do voluntariado, pois permite a doação de horas de trabalho, por meio de palestras e oficinas, por pessoas físicas e bens necessários à realização dos projetos escolares. Incorporado desde então à metodologia, o Empório Virtual recebe contribuições crescentes.

APRESENTAÇÃO DO DOS PROJETOS

Além do envolvimento direto com o Empório, em que a comunidade torna-se protagonista, doando seus serviços, produtos e saberes, temos o Evento Final da Mostra Lutz: no final do ano, todas as escolas participantes da Mostra apresentam seus projetos e

resultados numa grande mostra didático-festiva. As escolas contam suas experiências para a comunidade em geral, nesse evento, utilizando os mais variados recursos: estandes, maquetes, música e teatro. Ao observar-se o caminho percorrido até o momento, verifica-se que a sensibilização de um indivíduo é a base da mobilização coletiva. Professores e estudantes, incentivados pela Mostra, demonstram, de forma conceitual e especialmente na prática, que o processo criativo deve ser uma constante em busca de soluções. Dessa forma, as escolas de Garopaba abrem novas possibilidades na construção de saberes e valores e geram espaços para a formação de cidadãos mais comprometidos com sua comunidade.

SOBRE METODOLOGIA SEED - Oportuniza o desenvolvimento da educação ambiental de forma prática, participativa e criativa, resgatando a cultura local e reunindo toda a comunidade escolar em um objetivo comum: melhorias concretas da situação ambiental e social da escola, baseada nos princípios e técnicas da permacultura.

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- O processo envolve a visualização dos sonhos de cada um para a Escola, a análise ambiental do pátio escolar, o planejamento coletivo das transformações e a sua implantação. Em meio a essa jornada, são trabalhados os conteúdos curriculares, tendo como base a ética e o meio ambiente, junto a dinâmicas que envolvem relações sociais, organização e integração do grupo, resolução de conflitos, arte e cultura. - Os resultados desse trabalho têm sido, entre outros, um pátio escolar mais vivo, mais saudável e mais rico em situações de aprendizagem, alegria e entusiasmo de todos os envolvidos, desenvolvimento de habilidades, melhoria da qualidade da merenda escolar, cooperação e afeto nas relações sociais, difusão de atitudes e valores em prol da sustentabilidade para toda a comunidade. FONTE: http://earthcare-education.org/wp_earthcare

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO BASE PARA DESENVOLVIMENTO DO CURRÍCULO ESCOLAR, DE ACORDO COM ROBINA MCKURDY:

ARTES

Arquivo Gaia - Garopaba

- Pré Escola: confecção de um livro, com técnica de colagem, enfocando a higiene e a importância da água. - Primeiro ao quinto ano: Elaboração de um painel com recortes de gravuras de ambientes contaminados e de outro com sugestões de soluções; composição de músicas e poemas sobre as águas. - Sexto ao nono ano: Pintura do muro da escola abordando cuidados com a água; confecção de folder ilustrado para sensibilização da comunidade sobre usos da água. - Ensino Médio: Maquetes sobre a bacia hidrográfica da região e usos mais comuns das águas.

Mostra Lutz - Garopaba Arquivo Gaia - Garopaba

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Os valores e atitudes que representam uma relação mais harmônica com as pessoas e com todos os elementos naturais, podem estar presentes na aprendizagem de todos os conteúdos do currículo formal, de todas as disciplinas e de todas as séries. A seguir, são apresentados alguns exemplos de atividades para desenvolver o tema “Água”, em várias disciplinas e em todos os níveis de ensino. O mesmo pode ser feito com qualquer tema, por meio de uma dinâmica envolvendo todos os professores.

- Primeiro ao quinto ano: Produção textual individual e coletiva; história em quadrinhos; pesquisa na comunidade sobre situação das águas e produção de relatório. - Sexto ao nono ano: Elaboração de projeto para identificar consumo e gasto de água na escola com geração semanal de relatórios; produção de notícias sobre o projeto escolar - Ensino Médio: Elaboração de um jornal da escola, em que serão apresentados resultados e sugestões de soluções para problemas encontrados, o qual será distribuído na comunidade.

Mostra Lutz - Garopaba

PORTUGUÊS

- Pré Escola: Apresentação teatral com fantoches relatando uma experiência ligada à situação das águas da região; contação de histórias. meio sustentável

CIÊNCIAS

- Pré Escola: Observação das plantas e animais da comunidade para compreender que todos necessitam de água; dinâmicas sobre o ciclo da água com observação de atividades cotidianas. - Primeiro ao quinto ano: Levantamento das doenças causadas por águas não tratadas; coleta e análise da qualidade das águas de diversos pontos (rios, arroios, cachoeiras) e mapeamento da situação de cada local. - Sexto ao nono ano: Levantamento dos produtos


químicos usados na escola e em casa e sugestão de soluções para preservar as águas; estudo com as plantas para observar processo da evapotranspiração. - Ensino Médio: Trilhas ecológicas para coleta e posteior catalogação de resíduos junto a cursos d´água e catalogação dos mesmos; plantio de espécies nativas junto a córregos e rios.

HISTÓRIA:

- Pré Escola: As formas de uso das águas em diversas épocas. - Primeiro ao quinto ano: Entrevista com avós para saber como lavavam a roupa e de onde tiravam água para o consumo; estudo sobre origem da água que abastece o município e visitas a esses locais; estudo da bacia hidrográfica e levantamento das reservas existentes. - Sexto ao nono ano: A água na pré história, idade média e atual. Relação do homem primitivo com os recursos naturais X atual relação. - Ensino Médio: Levantamento quanto à situação da rede hidráulica da escola (tempo, oxidação; conservação dos canos e torneiras); pesquisa sobre aquedutos construídos por povos da antiguidade.

MATEMÁTICA

- Pré Escola: Consumo da água nos hábitos de higiene: registro de cada ato das crianças (escovar os dentes, lavar as mãos) e quantificação dos usos da água. - Primeiro ao quinto ano: Ideia de quantidade e comparação; volumes (por meio da utilização de embalagens); estados físicos da água e suas relações. - Sexto ao nono ano: Utilização de pesos e medidas para estudar equações e proporções. - Ensino Médio: O caminho das águas, dos rios até a caixa d´água; observação geométrica dos recipientes e cálculos de volume.

EDUCAÇÃO FÍSICA

Em todos os níveis, podem ser trabalhados os seguintes conteúdos: necessidade orgânica da água para nutrição e limpeza - interna e externado corpo; prevenção de doenças; explicações sobre suor, lágrima e urina. A comunicação entre escolas e sociedade se dá também na rede virtual de internet www.gaianarede. blogspot.com. Trata-se de um blog criado em 2008, onde são publicadas as principais ações e resultados do programa, que funciona também como âncora de todos os blogs escolares.

PROJETO “TURMINHA DA RECICLAGEM” AURORA Há seis anos, a Fundação Aury Luiz Bodanese, mantida pela Cooperativa Central Aurora Alimentos, acredita no poder da educação na transformação da sociedade por meio de ações que envolvem a comunidade, e que as mudanças ocorrem a partir de um trabalho coletivo. Na área ambiental, o Programa “A Turminha da Reciclagem” vem plantando sementes de conscientização desde 2008, com participação de mais de 152 mil crianças e adolescentes, até agosto de 2014, nos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (SESCOOP/RS) apoia o programa desde o ano de 2010, fato que se refletiu como um fator de crescimento do programa no Estado Gaúcho, onde se registrou o aumento no número de atendimentos. O resultado é percebido na mudança cultural que o programa traz às regiões por onde passa. Diversas escolas têm implantando programas de educação ambiental, oficinas de reciclagem e diversas atividades voltadas à preservação dos recursos naturais. Para a educadora Ambiental da Turminha da Reciclagem, Samara Arsego Guaragni, precisamos parar de enxergar o “lixo” como uma coisa inútil, pois a inutilidade do resíduo vai depender da forma com que é feito o seu descarte.

“A melhoria das nossas cidades depende da ação de cada um. As atividades da Turminha da Reciclagem buscam atingir principalmente as crianças e os adolescentes, pois acreditamos que, nessa fase da vida, ainda podemos inserir, nos seus hábitos e costumes, bons exemplos que ficarão para a vida inteira. Além disso, acreditamos que essas mesmas crianças serão nossas multiplicadoras e nos ajudarão a educar a família e outras pessoas para que, num futuro próximo, nossa realidade seja mais sustentável.” ano 01 . 7ª edição

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O programa conta com uma equipe preparada para trabalhar a questão ambiental com crianças e adolescentes e também tem foco na preparação dos professores, cujo objetivo é proporcionar aos professores conteúdo e embasamento em sala de aula, promovendo o compartilhamento e disseminação de informações.

PRÊMIO ESCOLA CIDADÃ Para valorizar e premiar os projetos socioambientais desenvolvidos pelas instituições de ensino visitadas pelo programa, a Fundação criou o Prêmio Escola Cidadã. Em 2013, foram premiadas as três escolas que apresentaram os melhores projetos nos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e as duas melhores pelas escolas dos demais estados. Acesse: www.aturminhadareciclagem.com.br e facebook.com/turminha.dareciclagem

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conquista coletiva, da qual todos se beneficiam, traz mais satisfação do que uma vitória individual. Essa é a base do Programa A União Faz a Vida, que completou 9 anos em 2014, e se prepara para ampliar sua abrangência. Ao longo desses anos, as iniciativas cresceram em proporção e em qualidade, assim como aumentou o envolvimento de professores, pais e alunos e o nível de aperfeiçoamento da metodologia. Todo esse trabalho, segue o objetivo de dar continuidade à implementação do programa pelas escolas para que as crianças e os jovens continuem sendo protagonistas de sua formação. A iniciativa acredita em um futuro com cidadãos mais justos, solidários e empreendedores, que respeitem a diversidade e que dialoguem para tomar decisões. O programa promove o envolvimento das crianças e adolescentes no processo cooperativo. Os participantes sugerem e executam os projetos de forma coletiva dentro da comunidade. A metodologia foi pensada para disseminar a cultura e envolver estudantes em projetos colaborativos. Parte fundamental do processo são as redes de compromisso, formadas por gestores, educadores e parceiros do Sicredi, que, por sua participação direta nesse processo, transformam-se em elementos de fortalecimento desses valores em seus próprios espaços de atuação. Desde 2009, foram constituídas mais de 250 parcerias estratégicas.

Crianças durante atividades da Turminha da Reciclagem

PROGRAMA “A UNIÃO FAZ A VIDA” O Programa A União Faz a Vida é a principal iniciativa de responsabilidade social do Sistema Sicredi, que tem como propósito disseminar os valores de cooperação e cidadania, levando crianças e adolescentes a vivenciarem experiências de protagonismo. O programa incentiva a prática cooperativa e, mais do que isso, demonstra que a

Arquivo Sidicredi

SICREDI

meio sustentável Programa UFV


Arquivo Sidicredi

EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A SUSTENTABILIDADE NA VISÃO DE PROFESSORES E ALUNOS

A EXPERIÊNCIA DE MARIANNE NO PROGRAMA “A UNIÃO FAZ A VIDA:”

Marianne Oliveira, de Ponta Grossa, no Paraná, em julho de 2013, junto com 35 alunos e os professores do Colégio Sesi, participaram de um projeto especial de aprendizagem, concebido dentro dos princípios do programa promovido pelo Sicredi. “Precisávamos escolher um tema na nossa cidade para conhecer a fundo. Decidimos estudar as condições de um bairro que fica perto do colégio e vive uma situação precária em termos de renda e saneamento”, conta ela. A primeira decisão do grupo foi realizar uma expedição investigativa ao local, onde vivem cerca de 30 famílias. “Havia lixo por toda parte, especialmente dentro do riozinho que passa no meio do bairro”, lembra Marianne. “Segundo os moradores, o caminhão de lixo não descia até lá, e não havia um sistema de coleta para recolhê-lo.” No segundo momento, os alunos e professores após anotarem as reclamações dos moradores, passaram a dedicar-se a pesquisas sobre o tema saneamento e espaço urbano, que passou a ser olhado sob os ângulos pertinentes a cada disciplina, explica o professor Aureo Sato, coordenador do projeto. Em Biologia, por exemplo, os trabalhos concentraramse em ecologia, reciclagem e cuidados com a higiene e a saúde. Como terceiro passo, os alunos, além de realizarem um estudo conceitual, os alunos decidiram testar uma intervenção na realidade, sensibilizados pela situação daquelas pessoas tão próximas deles. Propuseram aos moradores fazer um mutirão para livrar a comunidade do lixo, como forma de mostrar na prática que era possível manter o local em boas condições. Durante um dia inteiro, o grupo dedicou-se a recolher todo o lixo das ruas e do riacho e a pintar a ponte sobre o riacho. Para Marianne, a experiência representou uma oportunidade “de entender o outro e de ver que as ações precisam ter uma continuidade”. A experiência vivida por Marianne também teve um peso na decisão de seguir carreira ligada ao meio ambiente: atualmente, ela cursa a faculdade de Geografia.

Arquivo pessoal

Mariane

Paulo Renato Gomes Bandeira – Professor Substituto do Instituto Federal Sul Rio Grandense (IFSul) – Campus Camaquã ae do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC RS) – Unidade Camaquã. Formado em Gestão Ambiental pela Universidade Leonardo Da Vinci – UNIASSELVI.

EDUCAÇÃO E SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL Atualmente, vivemos uma época de acontecimentos diferenciados dos que já foram vividos, em que se manifestam extremidades em relação ao clima e ao aparecimento de grandes problemas nas áreas produtivas de alimento do planeta. Tais problemas devem-se à devem a ação antrópica, que promove uma grande pilhagem dos recursos naturais que nosso mundo tem a oferecer, transformando-o em um grande parque de retirada de matéria-prima e, ao mesmo tempo, em um gigantesco depósito de resíduos. Somos sabedores de que, aplicando-se uma política que promova a importância da educação ambiental voltada principalmente para a sustentabilidade já nas escolas primárias, criaremos, nas novas gerações, a devida mentalidade conservacionista e será muito mais fácil implementar políticas que visem à utilização sustentável dos recursos. Porém não podemos esperar resultados imediatos, mas, sim, reflexos para daqui a seis ou sete gerações. Muito mais que para simples causa do meio ambiente, a educação ambiental está voltada para a sustentabilidade, para a análise de um amplo aspecto de fatores, os quais levam em consideração também os indivíduos afetados ano 01 . 7ª edição

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pelas atividades e ameaças a comunidades sujeitas às consequências danosas das práticas predatórias. Assim, deve-se também ter em mente que a educação ambiental voltada para a sustentabilidade tem que prever a redução da vulnerabilidade dessas pessoas. No entanto, é necessário que, além da educação ambiental ou sustentabilidade ambiental, às práticas contrárias sejam combatidas e punidas rigorosamente já nos dias de hoje. Com a inserção desse tema de forma interdisciplinar nas escolas, podemos atingir diretamente o problema, pois o maior mal está impregnado de forma cultural. Sendo assim, no momento em que a educação e a sustentabilidade ambiental forem um fator cultural, aí, sim, teremos uma mudança drástica nas ações e comportamentos da sociedade. A sociedade em questão torna-se, assim, uma grande aliada na defesa e preservação do meio ambiente, pois desta será retirado apenas aquilo de que se necessita realmente para a sobrevivência da espécie. No entanto, tenho presenciado em sala de aula, uma grande motivação por parte do corpo estudantil. Os alunos debatem sobre o tema, cobram e se prontificam para a realização de conscientização e mudança em prol da preservação do meio ambiente. Trata-se de alunos que, em seus municípios, cobram da sociedade uma postura mais correta, que apontam as falhas e ensinam que é errado fazer as coisas daquela forma, e que o correto seria daquela outra maneira. Outra coisa que me chamou a atenção foi a iniciativa de alguns estudantes, que, por sua vez, enfatizaram a importância do descarte correto de resíduos de pilhas e baterias, tomando a iniciativa de construir coletores, divulgar a forma correta do descarte e a sua importância, cobrando, dos órgãos competentes, o cumprimento da legislação. Isso levou o município a incentivar tal prática. Encerro deixando a seguinte mensagem de Leonardo Da Vinci: “não basta saber é preciso saber fazer.” Fedra Krüger Eng. Agrônoma - Profa. do Curso Técnico em Controle Ambiental do IFSul – Camaquã

EDUCAÇÃO AMBIENTAL: VERDADEIRA EDUCAÇÃO PARA A SUSTENTABILIDADE

Se considerarmos que a essência da vida em comunidade consiste na possibilidade de elucidar e integrar as melhores características e particularidades meio sustentável

dos indivíduos que a constituem; então, é necessário que a educação - como instrumento de socialização e de atitude crítica - adote respostas válidas para os novos desafios que têm cercado a humanidade. Vivemos uma crise ambiental comprovada, muito grave, que não se refere apenas ao aquecimento global, destruição de florestas, poluição ou extinção de espécies, mas também ao aumento da quantidade de miseráveis e da violência no mundo, entre outros. Contudo, dentro desta crise, encontra-se a oportunidade de fazer uma curva, uma mudança em nossas ações, no nosso comportamento; assim, devemos consolidar um sistema de educação voltado para a educação transversal, realista, que considere a necessidade de viver em um mundo equilibrado, em harmonia com a natureza, e com um futuro que garanta as condições de vida em nosso planeta. A Educação ganhou a adjetivação de Ambiental por causa da característica cartesiana de ensino, de divisão dos saberes em contrapartida ao pensamento holístico. Mas a Educação Ambiental não é um campo de estudo como a biologia, a química ou a física; é um processo dinâmico e eminentemente participativo, que visa desenvolver consciência, atitudes, opiniões, sentimentos e crenças para que a população adote comportamentos mais sustentáveis: no cultivo, na fabricação, no consumo de bens, no desenvolvimento de tecnologias, entre outros; para que a população se identifique e comprometa com a problemática ambiental local, regional e global. E, para alcançar esse objetivo, torna-se necessário elevar o nível de conhecimento e de informação, de conscientização e de sensibilização dos cidadãos, cientistas, pesquisadores, governos, sociedade civil, instituições e organizações. A Educação Ambiental deve ser entendida como sendo inerente à própria educação, sem separação, tentando interligar saberes, como explica Morin*: “A inteligência parcelada, compartimentada, mecanicista, disjuntiva e reducionista rompe o complexo do mundo em fragmentos disjuntos, fraciona os problemas, separa o que está unido, torna unidimensional o multidimensional”. Portanto, a população em geral é responsável por promover uma Educação Ambiental que possibilite o respeito à diversidade biológica, cultural, étnica, juntamente com o fortalecimento de um modelo de desenvolvimento que harmonize as relações dos seres humanos entre si e destes com o ambiente. FONTE: *MORIN, Edgar. Os sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. 3ª ed. São Paulo: Editora Cortez, 2001. 118 p.


Arquivo pessoal

Rúbia Gorziza – Aluna do 3º ano do curso Técnico em Controle Ambiental do Instituto Federal Sul Rio Grandense – IFSul – Câmpus Camaquã.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL: A PERCEPÇÃO COMO ALUNO A Educação Ambiental consiste em processos pelos quais os indivíduos, coletivamente, constroem valores sociais, conhecimentos e atitudes voltadas para a conservação do meio ambiente em busca de um mundo viável para esta e as próximas gerações. Apesar de ter-se começado a falar em Educação Ambiental desde 1984, até hoje são encontradas muitas barreiras para a inserção dessa prática na vida da população. De acordo com pesquisas, o número de escolas que utilizam a Educação Ambiental como ferramenta de ensino por meio de projetos e aulas vêm crescendo cada vez mais, mas, em contrapartida, o número de escolas que ainda dá ao lixo destinação final incorreta é apavorante; o mesmo resultado se dá ao número de escolas que proporcionam atividades simples aos alunos, como, por exemplo, as de manutenção de hortas e jardins. A Educação Ambiental ainda tem um longo caminho pela frente e, para isso, não basta só que algumas escolas proporcionem poucas vivências sobre esse assunto aos alunos, como acontece atualmente. Nossa realidade vem mostrando uma urgente necessidade de mudar a situação atual. Vivemos em uma crise ambiental com diversos fatores que atingem a vida das pessoas, espécies e até mesmo gerações; e o pior: muitas vezes somos nós que os produzimos e não nos damos conta disso. Portanto, para que a Educação Ambiental comece a trazer resultados notáveis, não é suficiente somente algumas escolas trabalharem de

forma rápida esse assunto; pelo contrário, é necessária uma mudança total de costumes. Para que as próximas gerações consigam ter uma vida sustentável, é necessário que os pais, desde o nascimento, passem aos filhos os conhecimentos e valores referentes a essa prática e cobrem, desde pequenos, os cumpram; cabe também aos professores e instituições de ensino o papel de auxiliar e transpor as ideias sobre a Educação Ambiental desde as séries iniciais e até mesmo ao ensino superior. De acordo com uma rápida entrevista com algumas estudantes de um curso técnico em Controle Ambiental, em que se perguntava sobre o que elas haviam passado a esperar do futuro a partir do momento em que haviam começado a estudar o meio ambiente e a sustentabilidade e sobre o que desejavam fazer para que um futuro sustentável se concretizasse, a resposta obtida foi a seguinte: “Quando começamos a estudar o meio ambiente e nos mostram toda essa poluição, todos os problemas ambientais atuais e toda a destruição que isso está causando, é impossível pensar em um futuro sustentável, é difícil até imaginar um futuro. Acho que, para que seja possível pensar nisso, é preciso que, desde agora, os pais eduquem os filhos com base na Educação Ambiental, é preciso que as escolas trabalhem mais sobre isso, porque agora, quando entramos no curso, nos deparamos com uma situação sobre cuja gravidade tínhamos um mínimo conhecimento. É necessário que esse tema seja mais bem abordado desde o início da vida das pessoas até o final da formação, para que elas consigam usar essa prática em toda a sua vida; e talvez isso só seja possível daqui a duas, ou mais, gerações”. O verdadeiro desastre começou com aquilo que hoje designamos “progresso” e “desenvolvimento”. O pensamento básico deste novo contexto cultural faz que queiramos sempre atingir eficiência máxima em todos os nossos empreendimentos, eficiência esta medida em termos de fluxo de dinheiro apenas, e quase nunca em termos de harmonia, sustentabilidade, integração, beleza, riqueza de vida, etc. (LUTZENBERGER, José A. 1988). Com base nisso, é possível perceber que o processo de Educação Ambiental e sustentabilidade é lento e contínuo, coletivo, mas também pessoal.

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Arquivo pessoal

Sthefany Lacerda – Aluna de 2º ano do curso

Técnico em Controle Ambiental do Instituto Sul Rio-Grandense (IFSul) – Campus Camaquã.

O LIXO: RELATOS DE UMA ADOLESCENTE

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“Quando chegamos lá, estávamos tímidas. Não sabíamos que comportamento adotar, como agir, e não sabíamos sequer o que dizer. Havíamos elaborado, na manhã anterior, um pequeno questionário. Acabamos entrevistando somente mulheres. A primeira delas que cruzou o pequeno espaço que nos foi fornecido para realizar as entrevistas, já conseguiu me tocar - de uma maneira curiosa e única. As que se seguiram me fizeram sentir culpada e hipócrita. As conversas que tivemos, o local todo, tudo o que vi lá, desde a grande quantidade de cães, que nos recepcionaram, até a esteira transbordante no setor de segregação, me fizeram pensar e repensar e “tripensar” minhas atitudes. Alimentaram um sentimento de reflexão profunda. Estudar disciplinas relacionadas ao meio ambiente é ter um embasamento teórico extremamente importante para ser um bom profissional e para crescer como ser humano, não podemos negar. No ano passado, principalmente, em algumas aulas de disciplinas técnicas, assisti a muitos documentários, filmes e depoimentos relacionados ao consumismo, ao ritmo de vida que assola a sociedade contemporânea e ao aumento alarmante na produção de resíduos sólidos, desde a Revolução Industrial. Todos me emocionaram e me tocaram. Todos me fizeram voltar para casa pensando que várias das minhas atitudes contribuem para a decadência do meio no qual vivemos. Mas eu pensava em todos os problemas ambientais de uma maneira deveras generalizada. Não me ocorrera, até então, pelo menos não com tanto impacto, a questão social envolvida. Com o tempo, entretanto, ela gritou sua existência, e meus ouvidos, metidos, ouviram. Comecei a pensar que, toda vez que quebro um recipiente de vidro e que encaminho esse resíduo aparentemente inútil ao lixo comum, estou, quase que automaticamente, ferindo as mãos de um trabalhador honesto e digno. Que devo recusar a sacola plástica e que devo conversar com as pessoas na fila do supermercado sobre o quanto o excesso de meio sustentável

embalagem é prejudicial, seja de forma direta ou não, a todos os seres que residem neste planeta. Conheci os aterros sanitários, os aterros controlados e os lixões, teoricamente. Mas, naquele dia, conheci o funcionamento de um aterro sanitário pessoalmente. E conversei com a questão social, tête-àtête. E foi diferente. E foi emocionante. Deparar-se com uma pilha de resíduos, com cães famintos rasgando sacolas plásticas cheias de materiais à procura de comida, com pessoas trabalhando incansavelmente e sem receio de contrair doenças, sem receio de tocar em acúmulos assustadores de papel higiênico ou em cascas de banana quase plenamente decompostas: foi chocante! A questão social precisa, urgentemente, ser percebida. Conheci um pouco mais da rotina, dos hábitos e, portanto, da vida dos catadores de material reciclável. Nitidamente são mães e pais. São pessoas que não tiveram oportunidades ou que perderam muito tempo, por um motivo ou outro. São mulheres que fazem pré-câncer todo ano, e mulheres que nunca foram ao ginecologista. São a senhora sorridente, que, durante a segregação de materiais, feriu a mão com uma seringa e que, como resultado, quase teve que amputá-la. São gente que ri diante das adversidades, gente que quer ser feliz, como todos nós. Gente condicionada a viver como vive, gente que pensa estar bem, e que diz gostar do emprego que possui. Gente que, apesar de muitas vezes não perceber, contribui mais do que nós, muitas vezes, para que as gerações futuras possuam alguma qualidade de vida. Para que os pulmões dos nossos netos possam respirar o ar fresco do outono sem se sentirem incomodados. Para que o lixo, como as pessoas costumam chamar, não seja o causador do fim dos tempos, junto com a escassez dos recursos que exploramos predatoriamente. Na verdade, as visitas a uma realidade tão diferente da minha, a fundamentação teórica, os dados alarmantes, a crueldade nos olhos de tantos, os noticiários, as pesquisas, as palestras e todo o resto me fizeram compreender que o lixo não causa coisa alguma. Que a culpa é inteiramente nossa, da ganância e do instinto que o ser humano possui de possuir, dominar e destruir o que o cerca. Essas mulheres me ajudaram a perceber o quanto é importante sair da nossa zona de conforto vez ou outra. E o quanto não sair compromete nossas vidas, nossos dias, nosso tempo. E que, de tanto vivermos a nossa realidade, acreditamos que ela é a única que existe. E assim vivemos. Mas haverá sempre algo novo esperando para ser visto. Encaremos os problemas, em vez de vivermos na ilusão de que eles não existem. Haverá sempre uma pessoa precisando de atendimento médico porque feriu a mão com uma seringa. Pensemos nisso. Mudemos isso.”


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As cooperativas agrícolas são entidades formadas por agricultores ou microempresários agrícolas, ou por um conjunto de famílias da agricultura familiar, as quais entregam os seus produtos à cooperativa para a venda. Cada unidade da agricultura familiar, ao entregar a sua produção para a cooperativa, proporciona uma maior competividade no mercado e, de certa forma, obtém resultados mais satisfatórios do que os que seriam alcançados se cada uma dessas unidades vendesse isoladamente sua produção. Além da venda da produção de todos os associados, a cooperativa também realiza a compra dos insumos para o plantio e, com isso, as cooperativas compram por valores mais competitivos, pois valem-se dos descontos por conta do volume comprado, os quais seriam menos compensadores no caso de cada produtor comprar seu próprio insumo, fator que viabiliza o progresso produtivo das famílias envolvidas. As entidades que reúnem um conjunto de cooperativas, ou até mesmo a cooperativa individualmente, têm oferecido cursos técnicos, e até mesmo universidades que promovem o conhecimento aos pais e jovens visando mantê-los no campo, com a finalidade de evitar o êxodo dos jovens, principalmente para cidades de maior concentração urbana. As cooperativas agrícolas estão em ritmo acelerado, aperfeiçoando-se e, com isso, ocupando um lugar de destaque no novo cenário brasileiro, quanto ao desenvolvimento sustentável no setor da agricultura e, em particular, na agricultura familiar. Esse processo evolutivo do cooperativismo contempla seguir os caminhos rumo ao profissionalismo de gestão por meio da formação de pessoas capazes e comprometidas, uma exigência primordial para as instituições se capacitarem e competirem em iguais condições com as grandes empresas predominantes na cadeia de produção e comercialização de alimentos. Outro desafio é a necessidade de capital, pois a cooperativa depende de recursos de seus associados e, se estes forem buscar financiamento, terão de conviver com os juros, que fazem aumentar os preços de venda dos produtos e com isso diminuir a competividade no mercado. Já no presente e no futuro próximo, as expectativas são promissoras para as cooperativas que passam por um processo de investimentos. Se procederem com eficiência, conforme a maioria dos exemplos existentes no Brasil, principalmente nas regiões sul e sudeste,

haverá uma consolidação de um processo de produção sustentável, com destaque para as que se dedicam na produção de produtos orgânicos. O setor que une a agricultura familiar aos produtos orgânicos, conforme relato de produtores de Garibaldi no RS, (COOPEG) – “tem obtido um crescimento anual da produção de seus produtos orgânicos, em torno de 10% a 15%, e ainda não conseguem atender toda a demanda anual de seus clientes”. Outro fator importante que favorece a sinergia entre cooperativismo, agricultura familiar e produtos orgânicos são os princípios compartilhados, que têm plena identificação com o princípio da sustentabilidade, que preconiza a valorização dos resultados para o coletivo. Além disso, segundo Vianna Lopes, as cooperativas de trabalhadores aprofundam a emancipação do trabalho que, voluntariamente associado, “propicia aos associados maior controle de sua destinação e de seus frutos efetivos.” Uma cooperativa é a associação de trabalhadores: a decisão coletiva orienta o alcance e o sentido de seus empreendimentos, conferindo-lhes uma face mais humana. A inovação e o crescimento dos países que pensam na sustentabilidade como instrumento para melhorar a qualidade de vida dos seus contribuintes e da preservação do meio ambiente para as próximas gerações exigem uma incansável e dedicada ação para buscar resultados para o coletivo da população e, com isso, diminuir o prevalecimento do individualismo existente na atual sociedade. E ainda, segundo Vianna Lopes, “as práticas cooperativistas trazem a sustentabilidade.” “A natureza humana, segundo Polany (2000), não está associada ao individualismo, como a economia clássica nos faz crer, nem tampouco está inclinada à barganha e à permuta, e sim as suas relações sociais.”

FONTES: www.ufsc.br – XI Colóquio Internacional sobre Gestão Universitária na América do Sul (Dez/2011) “Cooperativismo Contemporâneo: Caminho para Sustentabilidade”, Júlio Aurélio Vianna Lopes. COOPEG – Cooperativa de Produtores Ecologistas de Garibaldi.

COOPERATIVISMO, AGRICULTURA FAMILIAR E PRODUTOS ORGÂNICOS


CRESOL CENTRAL SC/RS AGRICULTURA FAMILIAR E SOLUÇÕES SUSTENTÁVEIS

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O Sistema CRESOL Central SC/RS foi constituído em 1° de novembro de 2004 e, desde lá, atua em sistema, com formato de rede, para oferecer, além do crédito e desenvolvimento, inclusão social aos associados. Possui atuação nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Ceará e Bahia. Articula 43 Cooperativas de Crédito (Singulares), entre elas 11 no Estado do RS e 24, no Estado de SC, 03 na Bahia, 01 no Ceará e 04 em Pernambuco, totalizando mais de 91 mil associados. No Estado do Rio Grande do Sul, a CRESOL Central atende a mais de 180 municípios, por meio de cooperativas singulares e postos de atendimento, com mais de 43 mil associados. Possui um patrimônio superior a 160 milhões de reais e um ativo total de mais de 1,1 bilhão de reais. Concebido pelas próprias organizações da agricultura familiar, a CRESOL nasceu para viabilizar o acesso ao sistema de microfinanças para fomentar a produção, principalmente àqueles excluídos do sistema financeiro, potencializando o desenvolvimento da agricultura familiar. A partir da criatividade e da atuação dos próprios agricultores, reúne potencialidades significativas para o fortalecimento da produção e para a viabilização da agricultura familiar abrindo alternativas para qualificar a produção e implementar modos sustentáveis de vida no campo.

DESAFIOS DA CRESOL CENTRAL SC/RS a) Qualificação da organização da produção da agricultura familiar, por meio do avanço e aprimoramento dos serviços de assistência técnica, e seu fortalecimento com o incremento de alternativas econômica e ambientalmente sustentáveis, junto com a qualificação das condições de vida na agricultura familiar. b) Fortalecimento da auto-organização dos agricultores familiares e de seus próprios sujeitos políticos, com ênfase nas diferentes formas de economia solidária. c) Elevação do nível de qualificação dos agricultores familiares, com foco na juventude rural, nos processos de gestão e administração rural, a fim de que permaneçam e fortaleçam sua atuação na própria agricultura familiar. d) Ampliação de investimentos bem-sucedidos, mediante orientação sobre crédito e produção de novos conhecimentos e de tecnologias adequados e adaptados às necessidades da agricultura familiar, de forma a meio sustentável promover seu desenvolvimento sustentável.

INICIATIVAS DA CRESOL COM VISÃO NO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

CRESOL

BIOCONSTRUÇÃO E TECNOLOGIAS SUSTENTÁVEIS A revista Meio Sustentável entrevistou Vilceo Sehnen, que forneceu as informações sustentáveis da CRESOL.

Vilceo Sehnem, Auxiliar Técnico em Tecnologia Sustentável da CRESOL Central

CASAS SUSTENTÁVEIS

O projeto de casas sustentáveis iniciou em 2009, e já foram construídas 14 habitações, em caráter experimental, em que foram utilizados diferentes métodos e materiais bio- construtivos visando a avaliar o desempenho de cada um. Da mesma forma, optou-se por edificar casas de diferentes metragens entre 70 e 200 m2. O desenvolvimento do projeto valeu-se das


experiências considerando os seguintes itens, segundo informações de Vilceo Sehnen, que acompanha o desenvolvimentos dos projetos sustentáveis da CRESOL: 1) O TELHADO VERDE mantém umidade e favorece o conforto térmico dentro da casa. 2) SUPERADOBE é a técnica da terra ensacada, como também é chamada, é um processo construtivo, no qual sacos de polipropileno são preenchidos com solo argiloso e moldados no próprio local por meio de apibamento destes por processo artesanal ou semiindustrial, por meio de pistões. 3) PAU A PIQUE é também conhecida como taipa de mão, taipa de sopapo ou taipa de sebe, é uma técnica construtiva antiga que consiste no entrelaçamento de madeiras verticais fixadas no solo, com vigas horizontais, geralmente de bambu, amarradas entre si por cipós, que dá origem a um grande painel. 4) Paredes de roletes de madeira, a qual substitui o tijolo. 5) Desenho bioclimático que aproveita melhor a luz solar e a circulação natural do ar tornando o ambiente mais saudável e confortável. Os custos reduzidos com a manutenção e energia somam-se aos ganhos ambientais obtidos com o aproveitamento de materiais alternativos de menor impacto na natureza.

SISTEMA DE AQUECIMENTO SOLAR DE BAIXO CUSTO (ASBC) -construído com produtos de baixo custo tais como forros de PVC - utilizado para aquecer a água do banho ou para limpeza (a temperatura da água pode chegar até 60 graus). -o sistema pode promover economia de 20% a 30% de energia.

FERROCIMENTO

O Ferrocimento é uma experiência técnica rápida, econômica: serve para a construção de reservatórios de água e armazenamento da água da chuva. Outras soluções são oferecidas com diversas técnicas para tratamento do esgoto, como a da BACIA DE EVAPOTRANSPIRAÇÃO, desenvolvida para tratar a água do vaso sanitário, sem contaminar o meio ambiente, e ainda pode servir para ser usada na produção de alimentos. Finalizando, a CRESOL orienta a formação de um CÍRCULO DE BANANEIRAS como excelente filtro biológico que garante o tratamento da água e a produção de frutos, e o TRATAMENTO com PLANTAS associadas a micro organismos que formam um eficiente sistema de tratamento de água. Esse modelo fica incorporado ao paisagismo e a água pode ser utilizada para a irrigação. 23

BIO DIGESTOR Entrevista com Rivaldo Ferron Diretor de Desenvolvimento e Educação da Cresol Central RS/C

Sergio Schneider, Assessor Executivo da CRESOL CENTRAL

A CRESOL também está desenvolvendo biodigestores que possibilitam o aproveitamento de dejetos de animais – gado, porcos, galinhas – para a geração de gás, em volume equivalente ao de dois botijões. Esse volume de gás pode ser utilizado na cozinha e no aquecimento, por exemplo. O principal resultado do biodigestor é que ele produz uma energia limpa.

MS: QUAL A IMPORTÂNCIA DO SISTEMA DE COOPERATIVA E DE AGRICULTURA FAMILIAR VISANDO O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL? RF: O Sistema de Cooperativas da Cresol Central SC/RS e a agricultura familiar reúnem iniciativas que favorecem o desenvolvimento sustentável. Esse sistema atende basicamente trabalhadores da Agricultura Familiar que seguem um conceito da preservação do meio ambiente, do plantio e da preservação de culturas, sementes e suas espécies, apropriadas ao pequeno produtor, as quais servem não só para sua própria subsistência, mas também  para a venda do excedente, processo que se dá pela ocupação de pequenos lotes de terra. ano 01 . 7ª edição


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Outro fator importante do processo existente nessa relação é o caráter educativo mais solidário, que ocorre de forma a valorizar mais as pessoas; portanto,  não se trata de uma visão de caráter individualista, mas de uma ação que valoriza as pessoas. As famílias da agricultura familiar acessam, por meio da cooperativa, entre outros créditos, o microcrédito. Trata-se de pequenos valores disponibilizados pelo sistema de cooperativas com a finalidade de propiciar a inclusão financeira e os investimentos de porte pequeno e médio, os quais oportunizam a distribuição de renda e geram pouco impacto ambiental. Isso é uma característica do cooperativismo solidário. Portanto,  a união do sistema  cooperativista com foco no pequeno produtor propicia desenvolver um conjunto de famílias trabalhando e se mantendo de maneira digna no campo. Tais agricultores, que preservam espécies de sementes, são os responsáveis pelas práticas de agroecologia, pelas feiras de produtos orgânicos, de cuja parceria surge a produção de uma grande diversidade de alimentos que vai à mesa do povo Brasileiro, representando 70% dos alimentos produzidos no país. Além do crédito,  o agricultor recebe conhecimentos por meio da  educação financeira. Agentes de Desenvolvimento Cooperativo, desenvolvem não só atividades de assistência a campo, o que favorece as atividades ligadas ao plantio, como também iniciativas de caráter alternativo , como é o caso da Bioconstrução, Aquecimento Solar e Biodigestores. Na  nossa opinião,  o Sistema Cresol Central SC/RS tem um trabalho desenvolvido de forma solidária que vem ao encontro das premissas do desenvolvimento sustentável,  pois valoriza o desenvolvimento e o resultado para todos. 

meio sustentável

CREHNOR 18 ANOS CONSTRUINDO CASAS NO MEIO RURAL E URBANO

Crehnor Noroeste entrega 35 unidades habitacionais do PNHR investimento de mais de R$ 1 milhão

EVOLUÇÃO DA CREHNOR

Em agosto de 1996 , nasce, no município de Sarandi, RS, a Cooperativa de Crédito Rural Horizontes Novos de Novo Sarandi Ltda – Crehnor Sarandi, idealizada por 34 agricultores do assentamento Novo Sarandi. Em março de 1997, ocorre o início das atividades da cooperativa, que passa a facilitar o acesso dos agricultores aos recursos necessários para o

Waldemar Stein à frente de sua antiga moradia ao lado, as obras da futura residência. (Assentamento 22 de Dezembro – Candiota/RS)


desenvolvimento de suas propriedades, a fortalecer a organização dos trabalhadores e, com isso, contribui para o seu desenvolvimento econômico sustentável. Com o êxito deste modelo, surgem, a partir de 2000, outras cooperativas com a mesma função social. Em 2002, constata-se que o Sistema Crehnor de Cooperativas de Crédito Rural cumpre o seu papel ao representar ganhos diretos às famílias, reduzindo a exclusão e transformando o sistema de produção da agricultura familiar, que serve de ferramenta para o crescimento econômico do País, pois 10% do PIB — Produto Interno Bruto — brasileiro vem da agricultura familiar, o que significa uma riqueza gerada de 156 bilhões de reais, segundo estudos do próprio governo. O Sistema Crehnor viabiliza o acesso a linhas de crédito e a realização de transações financeiras. As cooperativas também desenvolvem projetos de capacitação e qualificação de seus associados, potencializando a aplicação dos recursos conquistados. Em 2014, fazem parte do Crehnor uma Cooperativa Central e 5 Cooperativas de Crédito Singulares e uma Cooperativa filiada, às quais se somam 53 postos de atendimento que atuam em 310 municípios nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná financiando projetos que visam à melhoria nas propriedades rurais.

RESULTADOS ATINGIDOS

A Crenhor, desde 2002, já construiu 36.000 moradias no RS e tem apoiado o desenvolvimento de várias atividades e projetos direcionados ao desenvolvimento da agricultura familiar.

ENTREVISTA

Segundo Ailton Martins Croda, o grande debate sobre a questão da sustentabilidade no meio rural depara-se com a existência de dois conceitos antagônicos: um deles oferece aos agricultores a importância da sustentabilidade, do cuidado com o meio ambiente, já outro apresenta o pacote dos agrotóxicos, que proporciona um maior rendimento e rapidez na sua produção, mas que não prioriza as práticas de sustentabilidade. Os técnicos são graduados nas Universidades para colocarem no mercado esse pacote tecnológico(agrotóxicos). No sistema Crehnor, o agricultor é estimulado a participar do desenvolvimento com respeito ao meio ambiente, em que o econômico não deve prevalecer como único pensamento ou conceito em qualquer atividade. O que deve prevalecer é a dignidade das famílias da agricultura, o respeito ao meio-ambiente.

AILTON MARTINS CRODA , Diretor Administrativo do Sistema Crehnor - Presidente da Crehnor Ijuí Presidente da CONFESOL

Ailton comenta que os recursos oferecidos ao agricultor devem promover a dignidade, o conforto, a saúde da família , assim como a aquisição da casa própria. Já os financiamentos que estimulam as técnicas da monocultura, do uso de equipamentos, da aquisição de agrotóxicos e insumos de alto custo, não vão provocar a mudança na vida do campo em prol da sustentabilidade a partir da agricultura familiar. Os recursos públicos devem estimular o crescimento da família com dignidade, com qualidade de vida, caso contrário tudo fica como já vem acontecendo, o agricultor fica refém das regras de mercado, tendo que produzir para o consumo de alimentos industrializados. Hoje, muitos agricultores começaram a diversificar seus cultivos, um entendimento que a cada dia avança, por conta de que a monocultura, não resolve as despesas mensais e nem garante os recursos para o sustento das obrigações com a família: o entrevistado cita como exemplo o plantio da soja, cujo rendimento se dá após seis meses a partir do plantio. Entre as mudanças percebidas concretamente pelas famílias que obtiveram suas casas por meio da CREHNOR, cita-se a da diminuição do êxodo rural: os filhos, ao verem que seus pais, já têm uma casa melhor, estão mais organizados, com apoio técnico da cooperativa, passam a retornar aos seus lares, principalmente se trabalham em cidades próximas à zona rural. O mercado atual de casas para o meio rural apresenta uma realidade em que a oferta é maior que a demanda: existe muito crédito, mas os tomadores ainda são poucos: “ O ideal seria que houvesse mais tomadores”, afirma Ailton. Os tomadores têm que seguir determinadas regras para obter o financiamento, às quais estes ainda não conseguem atender. Para obter um financiamento para construção das moradias, o agricultor precisa estar cadastrado no DAPE e deve comprovar renda anual de até, no máximo R$ 15.000,00, além de possuir uma escritura de terra de até 150 hectares. ano 01 . 7ª edição

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COOHAF A COOHAF é uma cooperativa que também atua com o objetivo de viabilizar a aquisição da casa própria, proporcionando a seus cooperativados acesso aos programas destinados a Entidades, para que, assim, possam realizar o sonho da casa própria. A Cooperativa está preocupada com a continuidade das atividades rurais e com o êxodo rural, visando a melhor qualidade de vida para o agricultor familiar e acesso aos programas disponíveis. A COOHAF, visando atender à demanda de habitação no meio rural, uniu-se com os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais filiados à FETAG-RS, oferecendo aos seus associados construção de casas e ou melhorias(reformas) nas habitações dos agricultores familiares do RS. A nova moradia configura-se como instrumento para o aumento da qualidade de vida dos agricultores. A casa, construída ou reformada, transforma-se na realização de um sonho, uma nova perspectiva de vida e uma nova vida no campo.

ESTÁGIOS E RESULTADOS - Em 27 de março de 2002, ocorre o início das atividades para atuar juntamente com os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais filiados à FETAG/RS, atendendo à demanda da habitação rural com construções, - Até 2009, a COOHAF levou o sonho da casa nova ou reformada a mais de 10 mil famílias, entre programas estaduais e federais. - Em 2010, com o Programa Minha Casa Minha Vida, a COOHAF levou esse sonho a outras 6500 famílias. - Em 2014, com 12 anos de atuação no mercado, são mais de dezesseis mil contratos, entre programas estaduais e federais.

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de reuniões do projeto social, em que são tratados assuntos como autoestima da família, preparação para morar na casa nova, tratamento do esgoto e destinação adequada do lixo, saúde e ainda temas como plantio de hortas, pomares e geração de trabalho e renda.

CARACTERÍSTICAS DAS CASAS CONSTRUÍDAS

A casa que é ofertada ao agricultor familiar é uma casa de alvenaria, de 2 ou 3 quartos, rebocada, pintada, com revestimento cerâmico, forro, telhado cerâmico, além de toda instalação elétrica e hidráulica. O sistema de tratamento de esgoto se faz por meio de fossa e sumidouro.

MÚLTIPLAS DIMENSÕES E SUSTENTABILIDADE

O trabalho da COOHAF, de seus sindicatos e parceiros tem como referência a sustentabilidade – entendida em suas múltiplas dimensões – e a busca da melhoria da qualidade de vida das famílias rurais. Nossa atuação vai muito além da orientação técnica: buscamos soluções que resultem no aumento do bemestar social e ambiental das famílias que vivem no meio rural. Contribuímos ainda para um adequado tratamento e destino dos esgotos domésticos no meio rural, tornando-o um lugar para se viver em condições dignas e com qualidade de vida, numa perspectiva de desenvolvimento rural sustentável.

ALGUMAS DAS CASAS OFERTADAS PELO TRABALHO DA COOHAF

DO PROGRAMA

O agricultor familiar enquadra-se no programa mediante a regularidade de sua propriedade e adequação à renda prevista no programa, por meio da comprovação dos valores de venda de seus produtos (DAP). As famílias entram com uma contrapartida de 4%, que volta ao governo federal, e com a mão de obra, que, muitas vezes, é familiar. Além disso, participam

ANTES

meio sustentável DEPOIS


AGRICULTURA FAMILIAR

A agricultura familiar é uma forma de produção por meio da qual ocorre o predomínio da integração entre gestão e trabalho: são os agricultores familiares que dirigem o processo produtivo, dando ênfase à diversificação e utilizando o trabalho familiar, eventualmente complementado pelo trabalho assalariado (MDS, 2013). Fica evidente, na definição acima, que o objetivo dessas famílias voltadas para a agricultura familiar é o de produzirem alimentos para serem vendidos, a fim de gerarem recursos para todos os componentes da família viverem com dignidade. As soluções encontradas e os resultados promovem o autosustento das famílias e evitam êxodo rural, mantendo o homem no campo, na sua comunidade junto com seus filhos, parentes e amigos, inclusive preservando os laços culturais e sociais das comunidades. O binômio formado pelas cooperativas e por agricultura familiar dos produtos orgânicos está alinhado às práticas e aos resultados esperados de um sistema exitoso pró-sustentabilidade.

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ENTREVISTAS MS: QUAL A IMPORTÂNCIA DO SISTEMA DE COOPERATIVA E DE AGRICULTURA FAMILIAR VISANDO UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL?

Salete T. Arruda da Silva, Presidente da COOPEG Cooperativa de Produtores Ecologistas de Garibaldi (RS)

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A COOPEG, localizada na região da serra gaúcha, Garibaldi, foi fundada oficialmente em 2001, “crescendo timidamente até 2008, daí em frente o crescimento vem se acelerando, batendo as metas estabelecidas a cada ano” relata, Salete T. Arruda, presidente da cooperativa. Atualmente, a COOPEG reúne 100 associados, diretos e indiretos. Os sócios diretos são os Cooperados aprovados em assembleia com direito a voto e a ser votado. Os indiretos fazem parte das famílias associadas e estão nas mesmas unidades produtivas certificadas, como, por exemplo, irmãos (ãs) ou filhos que casaram e têm família, sogros ou cunhados.

Salete: O sistema cooperativo consegue promover o desenvolvimento planejado e sustentável das pequenas propriedades rurais, preservando o meio ambiente, pois na agroecologia, a redução do impacto ambiental é fundamental. Essas ações garantem geração de renda para as famílias , proporcionando inclusive o desenvolvimento dos lugares onde essas famílias estão inseridas contribuindo para a permanência no campo e diminuindo o êxodo rural. MS: QUAIS OS BENEFÍCIOS DA COOPEG PARA SEUS ASSOCIADOS? Salete: Certificação orgânica, diluição dos custos na compra de insumos e na logística de comercialização e na manutenção dos custos da empresa; capacitações, visitas técnicas; garantia de venda da produção orgânica das famílias cooperadas.

MS: QUAIS OS PRODUTOS ORGÂNICOS MAIS PRODUZIDOS? Salete: Sucos, vinhos, espumantes, verduras, legumes, temperos e frutas. MS: O MERCADO DE PRODUTOS ORGÂNICOS TEM CRESCIDO? QUANTO TEM CRESCIDO ANUALMENTE? A PRODUÇÃO ATUAL DÁ CONTA DA DEMANDA OU FALTA PRODUTO PARA ENTREGAR? Salete: O mercado de orgânicos é um dos segmentos que mais tem crescido no Brasil. Neste ano, as estimativas da Organics Brasil indicam que o mercado de produtos orgânicos deve crescer em torno de 33,3%. Nossa produção ainda não dá conta da demanda, pois faltam produtos como sucos e vinhos para pronta entrega e, em menor escala, os in natura. Nosso principal gargalo é capital de giro, pesquisa em novas tecnologias de produção orgânica, mão de obra e condições climáticas instáveis. meio sustentável

Adriana Arlete Mossmann Stessen – APROBOM Associação de Produtores de Cana-de-açúcar e derivados de Bom Princípio (RS)

O grupo de agricultores familiares de Bom Princípio, organizados informalmente, está ligado à APROBOM, à cooperativa ECOMORANGO e à Associação de Empreendedores de Turismo Rural do Vale do Caí, a Rota Sabores e Saberes. A produção orgânica, para esse grupo, iniciouse em 1998, a partir de um curso de agricultura ecológica promovido no município de Bom Princípio. Atualmente, a APROBOM conta com 18 associados provenientes da agricultura familiar, que


utilizam a estrutura da agroindústria beneficiando sua produção e consequentemente incrementando sua renda. MS: QUAIS OS PRODUTOS ORGÂNICOS MAIS PRODUZIDOS? Adriana: Hoje produzimos açúcar mascavo, melados, schmier colonial, rapaduras e achocolatado (cacau e açúcar mascavo). O mais produzido é a rapadura de melado com amendoim e, em seguida, o açúcar mascavo, que é fornecido para a alimentação escolar no município. Além dos derivados da cana-de-açúcar, na agroindústria da APROBOM, beneficiamos doces e geleias, em parceria com a Ecomorango, sendo que é muito procurada a geleia de morangos orgânicos. MS: O MERCADO DE PRODUTOS ORGÂNICOS TEM CRESCIDO? QUANTO TEM CRESCIDO ANUALMENTE? A PRODUÇÃO ATUAL DA CONTA DA DEMANDA OU FALTA PRODUTO PARA ENTREGAR? Adriana: O mercado tem crescido bastante nos últimos anos, acredito que muito em função da busca do consumidor por qualidade de vida e em função do apoio do governo, no reconhecimento do trabalho realizado ao longo de muitos anos por pessoas que acreditaram que era possível produzir alimentos limpos. No início, era muito mais complicado do que hoje; às vezes, até os consumidores não acreditavam. Hoje temos feiras bem estruturadas, selos de identificação dos produtos orgânicos, apoio e divulgação, pesquisa e assistência técnica sobre a produção orgânica, recursos para custeio e investimento com juros mais acessíveis, priorização nas compras institucionais (PAA e PNAE), entre outras ações. A nossa produção tem crescido a cada ano e, neste ano de 2014, além das feiras regulares, participamos de outros eventos, como AFUBRA, EXPODIRETO, EXPOLEITE e EXPOINTER, e, em virtude disso, tivemos um volume de comercialização maior nesses meses com eventos. Podemos considerar que temos conseguido dar conta da demanda, porém não temos como ampliar a produção e, consequentemente, a venda. Nestes períodos, chegamos ao limite da capacidade da mão de obra e estrutura disponível. MS: QUAIS AS VANTAGENS DO PRODUTO ORGÂNICO EM RELAÇÃO AOS NÃO ORGÂNICOS? Adriana: Os produtos orgânicos que nós produzimos não contêm conservantes ou aditivos que possam prolongar a durabilidade, portanto são mais perecíveis

do que os similares não orgânicos. Em alguns casos, como as geleias, o processo de elaboração e embalagem proporciona a durabilidade de até 1 ano. Este também é o caso do açúcar mascavo, que tem prazo de validade de 01 ano, após ser embalado em pacote fechado. As rapaduras tem duração de até 6 meses e a schmier colonial e os melados, por 3 meses. No caso da schmier colonial e melados, eles podem ser congelados para o consumo posterior, mas quem faz esse processo é o consumidor. A maior vantagem é o fato de não prejudicarem a saúde das pessoas. MS: QUAL A IMPORTÂNCIA DO SISTEMA DE COOPERATIVA E DE AGRICULTURA FAMILIAR VISANDO UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL? Adriana: Acreditamos que a organização das pessoas em torno de uma causa faz a diferença na vida de cada um dos envolvidos no processo.Com a participação nas Associações e Cooperativas conseguimos aprender o sentido da vida em grupo, em que o coletivo é que faz a diferença (como numa grande família). E é através desse sentido que conseguimos acessar mais mercados e mais recursos. A valorização da agricultura familiar tem contribuído não só para a manutenção do homem no campo, como também para a valorização da profissão de agricultor e da autoestima de ser agricultor. Acredito que este seja um dos pilares para que possamos ter um desenvolvimento sustentável em todos os sentidos da palavra. MS: QUAIS OS BENEFÍCIOS DA COOPERATIVA PARA SEUS ASSOCIADOS? Adriana: Hoje o benefício mais direto é na questão da valorização da matéria prima, que, antes de ser consumida pela agroindústria, estava sem consumo, a não ser para o trato de animais. Desde a instalação da Agroindústria de derivados da cana, o valor dela triplicou: hoje, o produtor na região do Vale do Caí recebe em torno R$180,00 por tonelada. Também destacamos a possibilidade de produzir os doces e geleias aproveitando os excessos nos períodos da safra, evitando o desperdício e agregando renda em períodos de entressafra. Outros benefícios, além do incremento na renda, são a questão do envolvimento com a causa associativista e a participação nas atividades realizadas pela associação, como as visitas, trocas de experiências e, principalmente, o orgulho de fazer parte de uma associação que vem sendo reconhecida pelo seu trabalho. Nos eventos mais próximos, os associados comercializam seus produtos e têm contato direto com o consumidor. ano 01 . 7ª edição

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PRODUTOS ORGÂNICOS

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Os produtos orgânicos vêm ocupando espaço considerável entre os consumidores, tanto é que hoje supermercados de grandes redes, e até de menor porte, já oferecem um espaço específico para a exposição desses produtos. Além de serem comercializados nas redes de supermercados, esses produtos também estão presentes em minimercados (ou armazéns) e outros estabelecimentos especializados na venda de tais produtos. De acordo com o Projeto Organics Brasil, em levantamento realizado em abril deste ano, o setor cresce no Brasil de 30% a 40%, em média, por ano. Esses produtos são consumidos por pessoas que se preocupam com a saúde, qualidade de vida e respeito ao meio ambiente. Segundo o empresário Thomas Brieu, sócio do Mercado Apanã, “ O cliente quer, cada dia mais, uma alimentação saudável. Ele está preocupado com seu impacto ambiental.” Esses consumidores consomem frutas, verduras, hortaliças,carnes e cereais, todos produzidos de forma sustentável. A sustentabilidade dos produtos orgânicos está presente em toda a cadeia produtiva, desde o plantio sem o agrotóxico até a comercialização, fator que contribui para que sejam evitados danos aos produtos e ao meio ambiente. As regras para considerar um produto orgânico são aquelas por meio de cuja aplicação o cultivo seja realizado em ambiente que considere a sustentabilidade social, ambiental , econômica e cultural, itens que compõem os quatros pilares do conceito da sustentabilidade.

meio sustentável

CERTIFICAÇÃO DE PRODUTOS ORGÂNICOS: A certificação de produtos orgânicos é o procedimento pelo qual uma certificadora, devidamente credenciada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e “acreditada” (credenciada) pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), assegura por escrito que determinado produto, processo ou serviço obedece às normas e práticas da produção orgânica. A certificação apresenta-se sob forma de um selo afixado ou impresso no rótulo ou na embalagem do produto. Fiscalização dos produtores: O ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento já tem oito certificadoras credenciadoras para efetuarem a fiscalização das propriedades produtoras de orgânicos. Além das oito certificadoras, o Ministério certifica grupos de produtores, consumidores, técnicos e pesquisadores que se autocertificam, mediante o comprometimento com as normas estabelecidas. Esses grupos certificadores de produtos orgânicos são chamados de SPG ( Sistema Participativos de Garantia ). O sistema da produção de alimentos orgânicos busca o equilíbrio do ecossistema para gerar plantas mais resistentes às pragas e doenças.. PRÁTICAS QUE FAZEM PARTE DA PRODUÇÃO DOS PRODUTOS ORGÂNICOS (DENTRO DO PRÓPRIO CANTEIRO) - Uso das chamadas plantas daninhas (plantas que atraem para si as pragas); - Rodízio de culturas; - Diversificação de espécies;

DEFESAS NAS LAVOURAS: - cordões de contorno com plantas diversas para proteção contra pragas e doenças, os quais servem de quebra-vento e protegem o solo da erosão.


CUIDADOS NO PLANTIO: - o plantio direto realizado sobre os resíduos da cultura anterior; - uso do adubo verde; A observação de tais práticas contribui para o enriquecimento do solo, uma vez que possibilita a manutenção e desenvolvimento da vida que o habita (minhocas, bactérias e fundos) . Tais procedimentos, além dos benefícios que propiciam, são considerados fundamentais para a manutenção do equilíbrio do sistema. Apesar de terem sido iniciados estudos científicos com vistas à descoberta de novas tecnologias para a produção de alimentos orgânicos ainda na década de 70, esta tem sido operada em pequena escala. Em contrapartida, técnicas de produção em grande escala estão sendo aplicadas na produção de café, cana-de-açúcar e morando. PRODUTOS ORGÂNICOS PODEM SER ENCONTRADOS PELO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO. Os produtos orgânicos industrializados devem seguir as seguintes regras: - De ser evitada qualquer contaminação com qualquer substância indesejada; - Os ingredientes que os compõe devem ser inofensivos ao consumidor; - Devem ser mantidos na composição de tais produtos 95% até o limite de 70% de ingredientes orgânicos.

IMPORTÂNCIA DOS ALIMENTOS ORGÂNICOS: 1. Evitam problemas de saúde causados pela ingestão de substâncias químicas tóxicas; 2. Alimentos orgânicos são mais nutritivos. Solos ricos e balanceados com adubos naturais produzem alimentos com maior valor nutritivo. 3. Alimentos orgânicos são mais saborosos. Sabor e aroma são mais intensos – em sua produção não há agrotóxicos ou produtos químicos que possam alterá-los. 4. Protegem futuras gerações de contaminação química. A intensa utilização de produtos químicos na produção de alimentos afeta o ar, o solo, a água, os animais e as pessoas. A agricultura orgânica exclui o uso de fertilizantes, agrotóxicos ou qualquer produto químico e tem como base de seu trabalho a preservação dos recursos naturais. 5. Evitam a erosão do solo. Por meio do emprego de técnicas orgânicas, tais como rotação de culturas, plantio consorciado, compostagem, etc., o solo se mantém fértil e permanece produtivo ano após ano. 6. Protegem a qualidade da água. Os agrotóxicos utilizados nas plantações atravessam o solo, alcançam os lençóis d’água e poluem rios e lagos. 7. Restauram a biodiversidade, protegendo a vida animal e vegetal. A agricultura orgânica respeita o equilíbrio da natureza, criando ecossistemas saudáveis. A vida silvestre, parte essencial do estabelecimento agrícola, é preservada e áreas naturais são conservadas. 8. Ajudam os pequenos agricultores. Em sua maioria, a produção orgânica provém de pequenos núcleos familiares que têm na terra a sua única forma de sustento. Mantendo o solo fértil por muitos anos, o cultivo orgânico prende o homem à terra e revitaliza as comunidades rurais. 9. Economizam energia. O cultivo orgânico dispensa os agrotóxicos e adubos químicos, utilizando intensamente a cobertura morta, a incorporação de matéria orgânica ao solo e o trato manual dos canteiros. É o procedimento contrário ao da agricultura convencional, que se apoia no petróleo como insumo de agrotóxicos e fertilizantes e é a base para a intensa mecanização que a caracteriza. 10. O produto orgânico é certificado. A qualidade do produto orgânico é assegurada por um Selo de Certificação.

FONTE: Mercado Ético Organicsnet Ministério de Agricultura (MAPA) Fonte: COOPEG – Cooperativa de Produtores Ecologistas de Garibaldi


ENTREVISTAS ingerindo alimentos saudáveis de origem orgânica, estou cuidando da minha saúde e, ao mesmo tempo, colaborando com o meio ambiente em que vivo.  MS: OS PRODUTOS ORGÂNICOS SÃO FÁCEIS DE SEREM ENCONTRADOS? Mônica: Sim, há várias feiras ecológicas, tele-entregas desses produtos e inclusive lojas especializadas em Porto Alegre, onde eu moro. Arquivo pessoal

MS: ONDE COSTUMA COMPRÁ-LOS? Mônica: Na Seleção Natural e na feira ecológica da Redenção.

Mônica Girardi, estudante

MS: QUAL O MOTIVO QUE A LEVOU A COMEÇAR A CONSUMIR PRODUTOS ORGÂNICOS?

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Mônica: A preocupação com a saúde me fez buscar produtos orgânicos, frutas, verduras, grãos, carnes,   dentre outros. O uso excessivo  de agrotóxicos, hormônios e medicamentos na produção dos alimentos atinge a saúde. Entendo que a melhor forma de cuidarmos de nossa saúde é por meio de uma boa alimentação Além disso, tem a questão do meio ambiente, e nós pagamos um preço muito alto pelo mau uso de agrotóxicos. MS: HÁ QUANTO TEMPO CONSOME OS PRODUTOS ORGÂNICOS? Mônica: Uso alimentos orgânicos há mais de dez anos. MS: QUAIS OS PRODUTOS QUE MAIS CONSOME? Mônica: Frutas, verduras, grãos, ovos e carnes. MS: QUAIS OS BENEFÍCIOS PERCEBIDOS NO CONSUMO DE PRODUTOS ORGÂNICOS? Mônica: Sabor, aroma e, principalmente, gosto diferente dos alimentos produzidos de forma não orgânica, afora a felicidade de estar colaborando com um meio ambiente mais equilibrado. Acredito que o fator mais importante ligado ao consumo de alimentos orgânicos está na consciência de que a qualidade do que se come determina a saúde da gente. Muitas pessoas têm enfermidades que estão ligadas diretamente à qualidade do que ingerem e não se dão conta. Não basta comer bem: precisamos nos nutrir com alimentos que não irão prejudicar o nosso organismo, bem como o meio ambiente em que vivemos. Quando pequena, tive um distúrbio hormonal e ninguém  percebeu que era pelo  consumo excessivo de frango e ovos de origem não orgânica. Acredito que, meio sustentável

Vera Lima Schuster, professora aposentada, consumidora de produtos orgânicos, conta para a Revista Meio Sustentável sua experiência com o consumo de produtos orgânicos

MS: QUAL O MOTIVO QUE A LEVOU A COMEÇAR A CONSUMIR PRODUTOS ORGÂNICOS? Vera: No meu caso, posso dizer que foi influência do curso de graduação em Biologia, que fiz na Unisinos. A partir dali, iniciei uma nova prática de consumo, aproveitando os conhecimentos adquiridos na Universidade. Também as relações de amizade foram importantes, pois amigos e colegas que também buscavam o consumo de produtos naturais acabaram influenciando meu dia-dia. Nessa época (década de 80), já se falava muito em defesa do meio ambiente  e, nessa mesma esteira de debates, a respeito da importância do consumo de produtos sem agrotóxicos. Hoje já se nota uma evolução nessa pauta, pois se discute muito sobre produtos orgânicos, agroecológicos, que passam a ser uma preocupação mais completa e geral do que a simples crítica aos agrotóxicos. Hoje, essa prática está incorporada ao cotidiano: busca-se, cada vez mais, o consumo de alimentos naturais, limpos de agroquímicos, o que deixa nossa alimentação mais natural, integral e harmônica com nosso organismo. MS: HÁ QUANTO TEMPO CONSOME PRODUTOS


ORGÂNICOS? Vera: À medida que o tempo foi passando, a consciência de que deveríamos consumir mais os produtos orgânicos foi se consolidando. Passei, então, a consumi-los cada vez mais e com maior frequência. Com o aparecimento da minha incompatibilidade com o glúten, no início dos anos 2000, tornei-me celíaca.  Os produtos industrializados ficaram mais escassos na minha alimentação. Tive que selecionar ainda mais meus alimentos, e, com isso, cresceu minha preocupação com a qualidade do que consumia. Busquei ainda mais o consumo de produtos in natura, sempre dando preferência aos que eram cultivados sem uso de agroquímicos. MS: QUAIS OS PRODUTOS QUE MAIS CONSOME? Vera: Hortaliças, verduras e frutas. 

Marcos Roberto Gonçalves, da Ecorede

Entre os expositores, encontramos a ECOREDE, que surgiu a partir da ideia de aproveitar materiais descartados dando-lhes uma nova utilidade e aproveitamento. Por meio desse processo, os produtos confeccionados, como bolsas, blocos de anotações, bijuterias, embalagens para presente, entre outros, possibilitam a geração de renda aos envolvidos na rede. Esse grupo, formado por 25 pessoas, organiza oficinas nas comunidades em que ele está inserido e recebe assessoramento e acompanhamento da incubadora da PUC/RS. Entre os materiais reutilizados, estão os banners (upcycling), papel, tecidos, plásticos, caixas de leite.

MS: QUAIS OS BENEFÍCIOS PERCEBIDOS NO CONSUMO DOS PRODUTOS ORGÂNICOS? Vera: Um organismo mais saudável, equilibrado e sadio faz nosso corpo funcionar de forma mais harmônica e melhor de um modo geral. As moléculas, as células, os tecidos e órgãos, como um todo, funcionam de forma integral e com mais eficiência. Tais produtos deixam-nos com mais disposição e mais energia para suportar o dia a dia corrido da cidade.  MS: OS PRODUTOS SÃO FÁCEIS DE SEREM ENCONTRADOS? Vera: Hoje em dia, isso está ficando cada vez mais fácil. Há prateleiras inteiras nos supermercados com produtos orgânicos. As feiras com venda direta dos produtores também são mais frequentes de serem encontradas nas cidades. Mas ainda é muito pouco. É preciso que se aumente a quantidade e a variedade. Também os preços precisam baixar, pois os orgânicos são mais caros.  MS: ONDE COSTUMA COMPRÁ-LOS? Vera: Sou frequentadora diária de um restaurante que privilegia produtos naturais e orgânicos no buffet na minha cidade. Além da comida do buffet, há produtos orgânicos para compra. Também os compro nos supermercados que tem produtos orgânicos e em feiras.

23O FEIRA LATINO AMERICANA DE ARTESANATO

Ocorreu durante os dias 10 a 19 de outubro, a 23O Feira Latino Americana de Artesanato em Porto Alegre.

Mery Rosana Cristaldo e Marilia Rocha, da Justa Trama

JUSTA TRAMA, outro grupo presente, reúne cinco cooperativas e duas associações que se envolvem em todas as etapas do processo produtivo do algodão agroecológico – do plantio à confecção de roupas, brinquedos e bolsas. O objetivo da marca é promover economia solidária, sustentabilidade, agroecologia, comércio justo, consumo consciente, preservação do meio ambiente e distribuição de renda para seus associados. Participaram também na 23ª Feira o Centro de Capacitação e Produção em Economia Solidária (CCPES), que possui duas sedes em Canoas/RS, as quais oferecem oficinas de artesanato para capacitação de futuros artesãos.

Sérgio de Freitas Silva, do Sindicato dos Artesãos do RS

Segundo Sérgio de Freitas Silva, Presidente do Sindicato dos Artesãos do Rio Grande do Sul e organizador da feira, “esta feira é especial por ser a única feira no Brasil, organizada pelos próprios artesãos.” A feira este ano, reuniu 35 grupos de artesãos, de diferentes lugares da América Latina.


Arão João Da silva Neto, Laline Dorneles do Amaral e José Domingos de Andrade

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REVISTA MEIO SUSTENTÁVEL – PROJETO CER – SICREDI VALE LITORAL SC resíduos orgânicos e sólidos e esgoto domiciliar, e, Estiveram reunidos, em Itapema, Santa no final, apresentou o vídeo do Projeto CER (cidade Catarina, na sede da Superintendência Regional da de energia renovável), que visa orientar empresas Cooperativa SICREDI Vale Litoral SC, o Presidente privadas e públicas para o planejamento e execução da Cooperativa, José Domingos de Andrade, a de ações que promovam o desenvolvimento Assessora de Programas Sociais, Laline Dorneles sustentável nos municípios do litoral. do Amaral e o Superintendente Regional da Cooperativa, Arão João da Silva Neto, o Diretor O Sicredi, em seu planejamento, contempla da IP&M Projetos de Energias Renováveis e de atividades que visam a estimular os municípios Relacionamento da Revista Meio Sustentável, Ronei e seus associados a buscarem em conjunto práticas Orsini e o Presidente do Conselho do Leitor da sustentáveis. Revista Meio Sustentável, Leopoldo Justino Girardi”. A partir dessa data, o Sicredi Regional Vale do Na oportunidade , Ronei Orsini apresentou Litoral SC, juntamente com a IPM e Revista Meio um conjunto de soluções que podem ser realizadas Sustentável, vão planejar ações que atendam, no para promover a educação ambiental, construção primeiro momento, aos municípios de Itapema, civil sustentável, geração de energia a partir dos Bombinhas e Porto Belo.

EVENTOS

Crianças durante atividades da Turminha da Reciclagem (Fundação Aury Luiz Bodanese – Cooperativa meio sustentável Central Aurora Alimentos)

Gustavo e Rosana Veronezzi, os novos proprietários da Espaço Mais – Produtos Naturais, em Garopaba


DIA MUNDIAL DE LIMPEZA DAS PRAIAS EM GAROPABA ONG Associação Amigos do Meio Ambiente – AMA, com a parceria da Prefeitura Municipal, Escolas Municipais, Associações Ambientais, de Surf e dos Condutores Ambientais de Garopaba além do grupo de Escoteiros Ilha Terceira.

DIA MUNDIAL DE LIMPEZA DAS PRAIAS 20 DE SETEMBRO DE 2014

DIA MUNDIAL DE LIMPEZA DAS PRAIAS 20 DE SETEMBRO DE 2014

Familia Mossmann da APROBOM – Associação de Produtores de Cana-de-açúcar e Derivados de Bom Proncípio – Cooperativa ECOMORANGO e Associação de empreendedores de Turismo Rural do Vale do Caí, a Rota SABORES E SABERES DO VALE DO CAÍ

ano 01 . 7ª edição Mostra LUTZ em Garopaba/SC

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Nós plantamos a semente. Ajude-nos a regar. Todos os dias, centenas de ideias e novos projetos nascem para promover a sustentabilidade. Porém, a maioria da população não toma conhecimento de tais ações devido à falta de divulgação. A meta da revista Meio Sustentável é divulgar e debater qualquer ação que contribua com o meio ambiente, seja ela uma iniciativa governamental, de entidades de classe, indústria, comércio, meio urbano ou rural. A preservação do meio ambiente é

Anuncie na Meio Sustentável e colabore com essa ideia.

responsabilidade de todos nós e, através da revista Meio Sustentável, estamos cumprindo com a nossa obrigação. Porém, precisamos que você também regue esta ideia, participando e contribuindo para um mundo mais digno. Anuncie na Revista Meio Sustentável e colabore você também com essa ideia A semente já está plantada, ajude-nos a regar!

Fale com a Silvana Bergamo: (51) 8413.4138 ou comercial@meiosustentavel.com Editora Meio Sustentável Av. Padre Cacique, 320 – Térreo – Bloco A Bairro Menino Deus 90810-240 – Porto Alegre – RS

Meio Sustentável  

Edição 07

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