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Revista Islâmica

Jamadi Thania/Ramadã - 1432 A.H - Maio a Agosto de 2011 A.D - Ano 4 / Número 15

R$

Saudade

Vida e obra de Sayyed Fadhlallah

Personalidade

Sayyed Fadhlallah: O homem e seu legado

9,90

Entendimento

O Sayyed e a ponte com o cristianismo


Em nome de Deus, o Clementíssimo, o Misericordiosíssimo Revista Islâmica

Prezado (a) Leitor (a),

“Em Nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso” “Enviamos os Nossos mensageiros com as evidências e enviamos, com eles, o Livro e a balança, para que os humanos observem a justiça.” Alcorão Sagrado (57:25)

Revista Islâmica Evidências

é uma publicação da Associação Beneficente Islâmica do Brasil CNPJ 43.759.802/0001-92

Rua Eliza Witacker, 17 – Brás - São Paulo - SP - CEP 03009-030

Telefones: (11) 3315-0569 e 3329-9200

Publicação

Jamadi Thania/Ramadã - 1432 A.H Maio a Agosto de 2011 A.D Ano 4 / Número 15

Diretor-Presidente:

Assayyed Charif Sayyed (Teólogo e Pesquisador em Pensamento Islâmico) sayyed@revistaevidencias.org

Vice-presidente:

Abdallah R. Hammoud

MTB: 53199/SP abdallah@revistaevidencias.org

Tradução:

Samir El Hayek (Matemático e Físico pela UNISA)

Jornalista responsável:

Omar Nasser Filho - MTB - 26164 Bacharel em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Mestre em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Departamento Jurídico

Ricardo Trovilho (OAB/SP n° 119.760)

Projeto gráfico / Diagramação: Marcos Faccio Ferreira - (11) 9911-2513 Fale conosco:

faleconosco@revistaevidencias.org abib@mesquitadobras.org.br evidencias_islamicas@hotmail.com Assinaturas:

assinaturas@revistaevidencias.org

Preparar esta edição de Evidências foi uma tarefa árdua, por nos trazer a lembrança de uma daquelas pessoas que Allah, o Majestoso, envia à humanidade apenas de tempos em tempos, para que nos recordemos da bondade, justiça, espiritualidade, piedade, cortesia e sabedoria, todos estes elementos em seu mais alto grau. Esta edição de Evidências nós dedicamos ao Ayatollah Al-Uzmah Sayyed Muhammad Hussein Fadhlallah (r.a.), um sábio jurisconsulto que serviu e, mesmo após seu falecimento, continua servindo a milhões de muçulmanos no mundo inteiro, com suas orientações. Sua Eminência faleceu há quase um ano, no dia 22 de Rajab de 1431 A.H. – ou 4 de julho de 2010, segundo o calendário gregoriano. Mas, sua imensa obra em jurisprudência, filosofia e teologia, enfim, seu infindável saber em Ciências Islâmicas, certamente, por muitas e muitas gerações continuará a guiar milhões de homens e mulheres seguidores do Islã, em todo o planeta. Personalidades eminentes como o Sayyed Fadhlallah têm o condão de iluminar os seres humanos, mesmo que não o tenham conhecido pessoalmente. Suas palavras inspiram os corações e seu semblante sereno tranqüiliza as almas de todas as pessoas piedosas, independentemente de sua crença. Rogamos a Allah que nos dê forças e sabedoria para seguir o caminho que foi trilhado e indicado por Sua Eminência e que toda a Ummah Islamiyah (Nação Islâmica) se fortaleça continuamente com seu imenso saber, mesmo com sua ausência física. Boa leitura a todos! E que a paz esteja convosco! Editor

Os artigos publicados na “Revista Islâmica Evidências” não refletem, necessariamente, a opinião da revista. NOTA EXPLICATIVA: Ao longo dos textos de “Revista Islâmica Evidências”, o leitor encontrará algumas siglas e sinais particulares, os quais explicamos a seguir: Após a menção ao nome do Profeta Muhammad, segue-se uma letra “S” entre parênteses. Esta é a abreviatura da expressão arábe: “Salla allahu aleihi wa álihi wa sallam”, ou, traduzindo: “Deus o abençoe e lhe dê paz, bem como à sua Família”. Quando é citado o nome de um outro Profeta ou de um Ma’assum (isto é, pessoa imaculada), segue-se a sigla (A.S.), que significa: “aleihi salam” (A paz esteja com ele); “aleiha salam” (A paz esteja com ela); ou “aleihem salam” (A paz esteja com eles). Outra sigla utilizada é (R.A.), que significa “radi’allah an-hu (an-ha)”, ou “Deus esteja satisfeito com ele (ela)”.

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Revista Islâmica Evidências - Ano 2 - número 15

Alcorão Sagrado (57:25)

Por que o uso do véu no Islã?

•Sexualidade

O desejo e a satisfação sexual

•Saudade

Por Wajih Kansou

•Diálogo Interreligioso Por Bispo Salim Ghazal

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•Despedida •Infatigável Líder

Por Hani Abdullah

•Personalidade

Por Franklin Lamb

•Lendo as Escrituras

Como o Alcorão deseja que lidemos com ele

•Comportamento

A posição do muçulmano na sociedade

•Parábola

Para aprendermos com a abelha

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Por Fatem Qubeisi

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•Boa Guia

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•Diálogo Espiritual

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•Mulher

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Por Francis Guy

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A Prece do Ramadã

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•Artigo

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•Preces Diárias

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Exegese do Alcorão Sagrado

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•Interpretando o Alcorão

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Declaração de condolência pelo passamento de Sayyed Mohammad Hussein Fadlallah

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•Liderança

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•Cartas

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•Caro Leitor

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SUMÁRIO

Em Nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso” “Enviamos os Nossos mensageiros com as evidências e enviamos, com eles, o Livro e a balança, para que os humanos observem a justiça.

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Cartas

Envie-nos sua opinião através de carta para: Revista Islâmica Evidências Rua Eliza Witacker, 17 - Brás São Paulo - SP - CEP 03009-030, ou pelo e-mail cartas@revistaevidencias.org

Deus, o Altíssimo, diz:“Em suas histórias há um exemplo para os sensatos” (12:111). Foi dito: “O sensato é quem aproveita a advertência dos outros, quem consulta as pessoas e participa de suas idéias.” Leitor, esta página é dedicada à sua participação: opiniões, pensamentos, críticas e sugestões. Basta enviar sua mensagem pela internet ou carta, citando sempre o seu nome, número do RG e endereço. Devido ao espaço disponível, algumas mensagens podem ser editadas. Desde já, agradecemos por sua contribuição.

Presente

Mulher

Gostei muito de ler a revista islâmica Evidências. Seus artigos e matérias trazem informações muito importantes para quem quer saber mais sobre esta cultura tão rica, que tanto influenciou o Ocidente. Achei muito interessante os últimos números, que trazem informações sobre sábios muçulmanos como Arrazi, que mostram que a ciência islâmica trouxe muitos benefícios à humanidade. Que Deus os abençoe e que vocês continuem a nos brindar, sempre, com este presente.

Eu não tinha ideia de quanto o Islã prestigia as mulheres, até ler Evidências. Pelo que eu assistia na televisão e pelo que os jornais e as revistas, de uma forma geral, dizem, os muçulmanos oprimiam as mulheres. Comecei a ler mais sobre a condição feminina sob o Islã e a procurar números sobre a violência contra a mulher no Brasil e vi que, em nossa sociedade, somos muito mais desrespeitadas.

Altair Viçosa São Paulo (SP)

Assalam aleikum! Sandra “Latifa” de Souza Cascavel (PR)

Islamofobia I

Islamofobia II

Sou assinante de Evidências e me revolto contra o teor preconceituoso de algumas revistas, que se consideram “líderes de mercado”. Recentemente, as matérias publicadas por uma delas, que fala em rede de terrorismo islâmico no Brasil, me fez pensar em por que os muçulmanos não criam uma liga anti-difamação no país? Seria uma maneira de combater a disseminação da islamofobia, propagada por revistas como esta.

Que bom que existe no Brasil uma revista como Evidências. A tentativa da mídia de atrelar o Islamismo e os muçulmanos brasileiros ao terrorismo – como fez uma determinada revista conhecida por ser preconceituosa e ligada a certos interesses – deixa-me trise e preocupado. O que poderá ser de nossos filhos e netos se esta campanha difamatória da mídia contra os muçulmanos continuar no Brasil?

Alessandro Almeiria Gonçalves Curitiba (PR)

Hassan Awada Porto Alegre (RS)

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“Somos de Allah e a Ele retornaremos.” (Al Bácara, 156) “Entre os homens há também aquele que se sacrifica para obter a complacência de Allah, porque Allah é Compassivo para com os servos.” (Al Bácara, 207) “Se o sábio morrer, uma brecha se abrirá no Islã e nada a fechará.” No momento de maior necessidade dele, Deixou-nos esse grande homem, abrindo no coração dos seus admiradores uma tristeza que reúne todas as tristezas da história... O pai, o líder, o jurisconsulto, o guia de referência renovador, o orientador e o ser humano... Partiu com as preces entre os lábios, a recordação de Deus na língua e as preocupações da nação no coração. Finalmente, a pulsação de seu coração parou, aos 75 anos de idade... que ele passou na Jihad(1), na diligência, na inovação, na abertura e no comprometimento com a nação, enfrentado todas as forças da arrogância e da tirania. (1) Isto é, empenhando-se no caminho de Deus (NE).

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Liderança

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso

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dlallah

eclaração de condolência pelo passamento da Autoridade Religiosa, Sayyed Mohammad Hussein Fa-

O Sayyed se foi, tendo como principal preocupação o Islã, seu movimento, método e compromisso, em todas as áreas da vida, repetindo sempre: “Estes são todos os meus desejos; não tenho desejos pessoais, o meu único desejo, pelo qual vivi e trabalhei, é que eu seja um servo de Deus, de Seu Profeta (S), de sua Família (A.S.), do Islã e dos muçulmanos...”

no plano ideológico, prático e na metodologia de seu trabalho... Com base na sua originalidade, representou a escola islâmica de diálogo com os outros, baseando-se no fato de que a verdade é a filha do diálogo. Por isso, abriu-se a todo o ser humano e incorporou o diálogo em sua biografia e mente, longe dos símbolos desprovidos de qualquer substância real.

E por que ele viveu o Islã na linha da responsabilidade e da justiça, foi a razão e o mentor da resistência. Em suas idéias, o espírito de confronto contra a Deixou-nos esse grande mentira, a abordagem A sua vontade e a relutância contra a fundamental foi prohomem, abrindo no coração opressão se espelhateger o Islã, proteger dos seus admiradores uma ram e marcharam na a nação e sua unidadireção das grandes de. Ele acreditou que tristeza que reúne todas conquistas e vitórias, a arrogância só será as tristezas da história tanto no Líbano quanquebrada com a unito na Palestina, e em dade e a solidariedade todo país em que a dos muçulmanos. Jihad é efetiva. SemCom a sua mente pre, os problemas dos árabes e dos muçulmailuminada e espírito brilhante, foi pai, refenos foram suas grandes prioridades e interesrência, guia e conselheiro para todos os movises. A Palestina representou a principal preomentos islâmicos, no mundo árabe e no muncupação de seu movimento, desde o auge de do muçulmano, orientando o seu movimento 6 - Revista Islâmica Evidências


sua juventude até o último suspiro, dizendo: “Vamos descansar somente quando o regime sionista for destruído”.

ria, seu ativismo em jurisprudência e na ideologia foram lançados a partir do Alcorão... Ele entendeu o Alcorão Sagrado como o Livro da Vida, algo que só entendem os ativistas iluminados...

O Sayyed Fadhlallah representou um sinal diferenciado no marco da autoridade religiosa, sensibilizou os membros da população Ele se destacou pela sua humildade e em suas dores e esperanças. Ele desenhou elevada conduta missionária. Seu coração para o público a linha da conscientização expandiu-se tanto para os simpáticos quanto para enfrentar o subdesenvolvimento e levou para os antipáticos, dirigindo a todos: “Amaicom ele a responsabilidade de construir o -vos uns aos outros, pois o amor é criativo, futuro, enfrentando o relaciona e produz... excesso, a superstição Vinde para o amor, e a blasfêmia, guialonge do personaA vontade fundamental do pela biografia do lismo e do regionade Sayyed Fadhlallah Mensageiro de Allah lismo, partidário e (S) e sua Nobre Famísectário... Vamos nos foi proteger o Islã, lia (A.S.). encontrar em Deus, proteger a nação e sua unidade em vez de discordar O Sayyed enfrenem nome de Deus...” tou, com toda devoção Com isso, esvaziou o e piedade, a discórdia coração de todo ódio entre os muçulmanos, e exagero em relação a qualquer pessoa, rerecusando a presença do partidarismo sectápetindo sempre: “A vida não suporta o ódio. rio e estreito, pedindo aos sábios conscientes Ó ódio é morte e o amor é vida...” do país que temam a Deus no que diz respeito ao sangue das pessoas, considerando que todo aquele que causa discórdia entre os muçulmanos para dilacerar a sua unidade e dividir as suas palavras é um traidor de Deus e de Seu Mensageiro, mesmo que jejua e ore.

Ele estimulou manutenção de boas relações entre cristãos e muçulmanos no Líbano e no mundo, baseadas na palavra de concordância e na compreensão dos problemas comuns. Assim, defendeu o desenvolvimento das relações entre ambos os grupos, com base nos conceitos da moral e do humanitarismo, que colaboram na elevação do nível do ser humano em todos os sentidos e com base no valor da justiça em face da injustiça. A sua metodologia dinâmica e missioná-

Por ter convicção no trabalho institucional, acreditou que a existência das instituições é o curso cultural e essencial para o desenvolvimento de cada nação e cada sociedade... Construiu edifícios e faróis de conhecimento e de assistência, que se constituíram em paraíso para os órfãos e os necessitados. Neles, o deficiente encontrou um lar para as suas aspirações e expectativas, os alunos encontraram o caminho para o horizonte aberto em extensão maior e o paciente e os idosos encontraram um oásis de segurança e saúde... O seu lar foi e continuará a ser o destino de cada líder do pensamento, dos necessitados e desempregados; a sua língua sempre proferiu palavras de amor pelas pessoas. Revista Islâmica Evidências - 7


Os pobres e os vulneráveis estavam mais perto de seu coração. Ele encontrou nos jovens a esperança promissora, advogando que eles se armem com a cultura e o pensamento... O seu coração, que encheu o mundo com o Islã ativo e humanista, aquietou-se, transbordando de amor e benevolência até o último suspiro... O corpo do Sayyed descansou enquanto ansioso em alcançar muitas esperanças e aspirações na construção do presente e do futuro da nação. Deixou-nos, e se quebraram aos seus pés todas as conspirações, ameaças, campanhas

O Sayyed enfrentou, com toda devoção e piedade, a discórdia entre os muçulmanos, recusando a presença do partidarismo sectário e estreito de difamação, as tentativas de assassinato físico e moral. Ele se manteve puro de coração, mente e espírito, como a luz do Sol. O “Abu Ali” partiu, mas o seu nome ficará gravado na consciência da nação, continuará presente com sua mente e seu método na vida das gerações presentes e futuras. O corpo do Sayyed partiu, mas permanecerá o seu espírito, o pensamento e a linha da nação que ele amou e por quem se esforçou. Ele continuará a sua marcha de sensibilização, cumprindo o projeto que traçou com o suor de sua vida. Caros irmãos, quando prestamos condolências a toda nação pela partida da ciência, da grande referência, da estrutura científica, ideológica, missionária e pioneira, prometemos a Deus e a Sua Eminência que continuaremos a marcha da conscientização, da renovação, cujas bases e regras ele estabeleceu; conservaremos o seu caro conselho, para trabalhar em prol do Islã, da unidade da nação e do humanismo da Mensagem. “E tu, ó alma tranquila, retorna ao teu Senhor, satisfeita (com Ele) e Ele satisfeito (contigo)! Entra no número dos Meus servos! E entra no Meu Paraíso!” (Al Fajr, 27-30).


Interpretando o Alcorão

Assayed Charif Sayyed Al ‘Ámili

Exegese do Alcorão Sagrado Parte 16

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eterminamos: ‘Ó Adão, habita o Paraíso com a tua esposa e desfrutai (ambos) da sua abundância, como vos aprouver; porém, não vos aproximeis desta árvore, porque vos contareis entre os injustos’. Todavia, Satã os seduziu, fazendo com que saíssem do estado (de felicidade) em que se encontravam. Então dissemos: ‘Descei! Sereis inimigos uns dos outros, e, na terra, tereis residência e gozo por um determinado tempo’. Adão obteve do seu Senhor algumas palavras de inspiração e Ele o perdoou, porque é o Remissório, o Misericordiosíssimo. E ordenamos: ‘Descei todos daqui! Quando vos chegar de Mim a orientação, aqueles que seguirem a Minha orientação não serão presas do temor, nem se angustiarão. Aqueles que descrerem e desmentirem os Nossos versículos serão os condenados ao inferno, onde permanecerão eternamente’.” (Alcorão Sagrado, 2:35-39) Revista Islâmica Evidências - 9


“Determinamos: Ó Adão, habita o Paraíso com a tua esposa.” Primeiro: “O Paraíso” prometido na ressurreição é uma graça eterna. O Alcorão cita repetidamente a sua eternidade; portanto, não se pode sair dele. Segundo: O amaldiçoado demônio não tem caminho para o Paraíso. Os seus sussurros não têm lugar lá. Terceiro: Há narrativas da Família do Profeta (A.S.) explicando isso. Entre elas o que narrou o Imam Assádiq (A.S.). Ao ser questionado sobre o Paraíso de Adão, disse o Imam: “Era um jardim do mundo, onde o sol e a lua nasciam e se punham. Se fosse um dos jardins da Outra Vida, não haveria saída dele, nunca”. A partir disso, fica claro que a descida e a queda de Adão até a terra não significa uma queda espacial, de lugar, mas de posição. Ou seja, ele decaiu da sublime posição na qual se encontrava naquele jardim adornado.

nem um local proibido para vocês. “Porém, não vos aproximeis desta árvore”, ou seja, não devem comer dela, como uma metáfora, levando-se em conta que a aproximação é o comer de seus frutos, da mesma forma como comerm do resto das árvores do jardim, como se se dissesse: “comem com abundância desta árvore”. A expressão “comer perto dela” é exagero no aviso. Nós não queremos entrar em detalhes sobre a identificação desta árvore; se é a macieira, ou uma espiga, ou uma árvore alegórica; alguns gostam de dizer que é a árvore do conhecimento do bem e do mal. Este debate não afeta a natureza do tema e não nos diz nada. “Porque vos contareis entre os injustos.” com vós mesmos, porque vocês se afastaram do local da felicidade e do domínio da imortalidade. “Todavia, Satã os seduziu”, ou seja, o Demônio afastou os homens do Paraíso incutindo-lhes a culpa, no sentido do pecado que afasta o ser humano da estabilidade, por meio dos seus sussurros, tentação e engano. A palavra “Satanás” se aplica ao que é mau e degradante. Satanás é o pecador rebelde, quer seja ser humano ou não. Significa, também, o espírito maligno, distante da verdade. Entre todos esses significados há algo em comum. O nome “Satanás” é nome geral de uma espécie; “Diabo” também é um nome especial. Em outras palavras, o “Diabo” está em cada criatura maléfica, rebelde, sedutora, quer seja homem ou não. “Demônio” é o nome de Satanás, que seduziu Adão e persegue – ele e seus seguidores – os filhos de Adão, para sempre.

O amaldiçoado demônio não tem caminho para o Paraíso. Os seus sussurros não têm lugar lá

Também é possível que esse seja um jardim perene em um dos planetas celestiais. Há indícios disso em alguns relatos islâmicos. Mas pode significar o céu dos romances, o “lugar alto” e não o “local elevado”. De qualquer forma, há ampla evidência de que o jardim aí não é o prometido, porque o paraíso de Adão (A.S.) é o início da trajetória do ser humano, cujo objetivo final é o Paraíso da Eternidade. Este constitui na introdução aos atos do ser humano e às etapas de sua vida e é o resultado de seus atos e de sua marcha. “Desfrutai (ambos) da sua abundância, como vos aprouver”, levando uma vida agradável, prazerosa e farta, que nunca acaba, nem requer esforço. Não há árvore proibida em todas as árvores do Paraíso, 10 - Revista Islâmica Evidências

“Fazendo com que saíssem do estado (de felicidade) em que se encontravam”, ou seja, de um paraíso eterno, do viver bem, do descansar e da quietude, tranquilidade e alegria espiritual, que se aplica aos prazeres e a beleza do Paraíso. Completou-se, então, a experiência: Adão esqueceu a sua promessa, enfraqueceu perante a sedução. E, em seguida, mereceu a Palavra de Deus:


“Então dissemos: Descei!” para a terra, tanto vocês como o Diabo, por desobedecerem a Deus, pela sua falha em permanecer acatando Suas ordens e proibições. “Sereis inimigos uns dos outros,” pela guerra aberta entre vocês e suas descendências, entre o Demônio e seus seguidores, porque aquele visa afastar estes da misericórdia de Deus e de Seu jardim. Enquanto se rebelam contra Ele, afastam-se de Sua Autoridade, procurando ingressar no Inferno e afastando-se do Paraíso. “E, na terra, tereis residência” ou local fixo, pois Deus a tornou uma residência. “E gozo”, para desfrutar suas necessidades existenciais públicas e privadas. “Por um determinado tempo.” Até o termo que Deus determinou, na idade especificada para vocês neste mundo. “Adão obteve do seu Senhor algumas palavras de inspiração.” Há diferentes opiniões a respeito da interpretação do termo “palavras”, recebidas do Senhor por Adão (A.S.). Uma destas opiniões aponta às palavras mencionadas no versículo 23 da Surat al A’raf: “Disseram: Ó Senhor nosso, nós mesmos nos condenamos e, se não nos perdoares e Te apiedares de nós, seremos desventurados!” Outra interpreteção sugere: “Não há outra divindade além de Ti Glorificado e Louvado Sejas. Cometi erros e fui injusto comigo mesmo. Perdoa-me, pois Tu és o Melhor dos perdoadores. Não há outra divindade além de Ti, Glorificado e Louvado Sejas. Cometi erros e fui injusto comigo mesmo. Tenha piedade de mim, pois Tu és o Melhor dos piedosos. Não há outra divindade além de Ti Glorificado e Louvado Sejas. Cometi erros e fui injusto comigo mesmo. Indulta-me de mim, pois Tu és o Melhor dos indulgentes”.

Deus trata da bondade para com Adão, a quem orientou para o arrependimento, facilitando a aproximação d’Ele, para demonstrar-lhe a dignidade, ao contrário de Satanás, do qual afastou a misericórdia e o manteve distante d’Ele. Devemos nos ater ao que Deus estabeleceu e aos detalhes constantes de seu texto, porque a interpretação das Palavras de Deus é uma das grandes questões. Ela não dá lugar à complacência de confiar em um só parecer. “Ele o perdoou”. O arrependimento é de duas formas: perante Deus, que constitui o retorno da misericórdia para o servo, e o arrependimento da pessoa, que constitui o retorno do servo, pedindo perdão a Deus e o abandono do pecado. Deus o perdoou porque sabe que o seu arrependimento foi verdadeiro, com sinceridade de intenção e consciência da situação. Adão (A.S.) não violou o comando do seu Senhor como rebelião, mas como fraqueza de consciência e de experiência nova, pela qual nunca havia passado. Desconhcia a sua natureza e consequência. O seu pensamento se movia na direção da veracidade de seu interlocutor (isto é, o Demônio), que lhe jurou que era bom conselheiro. Adão (A.S.) abriu-lhe o seu bom e puro coração e a sua vontade enfraqueceu. Pareceu-lhe que a questão não era de desobediência, o que implicaria na ira de Deus, mas uma questão de simples conselho, com o qual Deus não Se importaria. Afinal, a questão do cumprimento das obrigações legais de legitimidade não tinha sido exposta no estágio em que viveu. Por isso, Adão (A.S.) não viveu o processo mental de compromisso quanto ao cumprimento dos ensinamentos. Ele logo esqueceu a promessa e perdeu a determinação do cumprimento por causa da fraqueza humana, além da fragilidade da experiência na vida. Assim, Deus o introduziu na experiência que o rebaixou, para colocá-lo, em seguida, na linha da experiência mais di-

O paraíso de Adão (A.S.) é o início da trajetória do ser humano, cujo objetivo final é a Eternidade

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Sua Eminência, o sábio Ayatollah Al-Uzmah Sayyed Mohammad Hussein Fadhlallah (r.a.)

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fícil na responsabilidade na vida, depois que seus sentimentos se abalaram após o primeiro choque. Allah o elegeu e o escolheu para ser o primeiro profeta na terra. Talvez, o problema estivesse se movendo na sua natureza naquela direção educacional em que o ser humano novo fica exposto ao erro em sua primeira experiência, para, na sequência, saber como atuar com acerto. Assim, o arrependimento foi o fim de uma etapa e o início de outra.

afastarem da linha das mensagens, desemntindo “os Nossos versículos” evidentes, que não possuem espaço para o mal, “Serão os condenados ao inferno, onde permanecerão eternamente”, porque Deus aplicou o argumento na Sua Unicidade e Soberania; tomou-lhes a promessa de seguirem a servidão absoluta que emana de Sua criação. Eles negaram tudo isso e, então, mereceram a sentença de punição no fogo do Inferno (E que péssimo destino...).

A tentação foi uma fase preparatória, porque Adão não estava acostumado com a vida na terra e as dificuldades do mundo

“porque é o Remissório, o Misericordiosíssimo.” Porque Ele é Quem cria em Seus servos pontos fracos, que podem fazê-los cair no pecado. Quis que se voltassem a Ele, aderindo à linha correta de conduta, aceitando-os novamente no campo de Sua obediência, cumulando-os com Sua misericórdia e Sua satisfação. “E ordenamos: Descei todos daqui!” A ordem é para Adão e Eva, aparentemente, ainda que inclua a queda de Satanás, também. “Quando vos chegar de Mim a orientação” do que os inspiro por meio de Meus mensageiros, em todos os assuntos, gerais e particulares. “Aqueles que seguirem a Minha orientação” e crerem em Mim, em Meus mensageiros, em Minha Mensagem e no Último Dia e praticarem o bem, terão o mais alto grau Comigo, Salvar-se-ão na Outra Vida e terão a felicidade eterna no Paraíso. “Não serão presas do temor, nem se angustiarão.” Quem vive na segurança de Deus, de quem têm medo? E de quê têm medo? Quem se abre para a alegria de satisfazê-Lo, como fica triste e por que fica triste? “Aqueles que descrerem” e desmentirem as verdades da fé “e desmentirem” os mensageiros e se

Lições Tiradas da História de Adão: Depois de tudo isso, temos de voltar para o início da história, a primeira história da humanidade. Deus, o Altíssimo, disse aos anjos: “(Recorda-te, ó Profeta) de quando teu Senhor disse aos anjos: Vou instituir um legatário na terra!” (Alcorão Sagrado, 2:30) ... Adão é criado para esta terra, desde o primeiro instante. Então, por que a árvore proibida? E em que consistiu o flagelo de Adão? E por que houve a ordem de descida para a terra, sendo Adão criado para a terra desde o primeiro momento? Vejo que esta experiência foi uma educação e preparação para o legatário de Allah. Foi um despertar das forças latentes em seu ser. Foi treino para receber a sedução, provar a consequência e engolir o pesar, tomar conhecimento do inimigo e suas artimanhas, conquistando, depois disso, por seu arrependimento, o prazer seguro. Foi uma fase preparatória, porque Adão não estava acostumado com a vida na terra e com as dificuldades do mundo, não tinha uma experiência anterior. Foi, também, para reabilitar Adão, para que ele assumisse as responsabilidades e os encargos divinos na realização de sua felicidade, para lhe dar um quadro da tristeza que amargaria caso abandonasse seus Revista Islâmica Evidências - 13


encargos, instruindo-lhe quanto aos cuidados a serem tomados na face da terra. Era também necessário que Adão (A.S.) soubesse da possibilidade de retorno a Deus, depois do pecado. A desobediência a Deus não bloqueia para sempre as portas da felicidade diante do pecador. Ele pode voltar e fazer a promessa a Deus de não voltar a ela. Assim, retorna às graças divinas.

significativa em relação a qualquer outro ser humano. “Cada ser humano passa pela etapa da infância, sendo cuidado até alcançar a puberdade. Esta fase não permite que a pessoa tenha independência, enfrente os problemas da vida e alcance os objetivos da sucessão. Nesta fase, deve ser cuidado até que cresça e seja educado, até atingir a puberdade.

A palavra “Satanás” se aplica ao que é mau e degradante, significando, também, o espírito maligno, distante da verdade

Adão (A.S.) deveria, naquele ambiente, amadurecer e conhecer seus amigos e seus inimigos. Devia aprender a viver na Terra. Sim, essas introduções eram necessidades preparatórias para Adão e seus filhos, em sua nova vida.

A história da árvore proibida e os sussurros de Satanás induzindo ao prazer material, ao esquecimento da promessa de não desobediência, ao despertar após após o êxtase, levou, por fim, ao remorso e ao pedido de perdão ... É a experiência humana renovável! Foi da Vontade da misericórdia de Deus com essa criatura fazer com que ela descesse para assumir a sede da Sua sucessão, acrescida de experiência, para enfrentar, por longo tempo, uma batalha perpétua. Foi, ao mesmo tempo, uma advertência e um aviso...

O Paraíso é o local de cuidados excepcionais: Na sua importante investigação “A Sucessão do Ser Humano e o Testemunho dos Profetas”, o jurisconsulto e mártir Sayyed Mohammad Baqir al-Sadr destacou o papel principal da “Marcha da Sucessão Divina na Terra”, sob o título “Introdução Para o Papel da Sucessão”. Ele considerou Adão (A.S.) como um ser caracterizado por uma diferença

Cada criança encontra, normalmente, nos pais e no ambiente familiar, o cuidado necessário. Porém, o primeiro homem, Adão, que não cresceu em um ambiente familiar deste tipo, precisava de um lar excepcional, onde pudesse encontrar o desenvolvimento e a educação que o qualificariam para exercer o papel de sucessão na terra, no que diz respeito à compreensão da vida, dos problemas materiais e quanto às responsabilidades morais e espirituais. O Alcorão estabeleceu-lhe o berçário especial, preparando o primeiro homem no jardim. Deus preparou nesse jardim terreno, para Adão e Eva, todos os meios de estabilidade e lhes garantiu o atendimento a todas as suas necessidades.

A primeira atribuição a ser enfrentada era evitar certa árvore naquele jardim particular. Esta proibição era como um exercício para o ser humano na sucessão, para que ele controlasse os seus impulsos e simplesmente desfrutasse das coisas agradáveis do mundo, respeitando limites mínimos de satisfação, razoáveis, sem que fosse influenciado pelo demasiado embelezamento e prazer exagerado da vida terrena, pois essa diligência é o fundamento de tudo o que é testemunhado no palco da vida, quanto à exploração do homem pelo homem. A desobediência cometida por Adão ao comer da árvore proibida causou uma grande agitação espiritual em si, fazendo explodir nas suas profundezas um senso de responsabilidade por meio do sentimento de remorso.


Imediatamente, ele começou a cobrir o corpo com folhas do paraíso, para esconder o seu erro e buscar o perdão de Deus por seu pecado. Com isso, completou a sua consciência, no momento em que amadureceram nele as dife-

rentes experiências de vida, aprendendo ele todos os nomes de todas as coisas. Era hora de sair do jardim para a terra, que lhe foi legada para que ele seguisse a sua marcha na direção de Deus, aceitando e exercendo seu papel na sucessão. (O Islã Conduz à Vida, pg. 151-153).

O Jardim de Adão (A.S.) e as Dez Etapas: Segundo Abdel A’lá Sabzawári (que Deus tenha misericórdia dele,) na interpretação de valores “As Dádivas do Clemente”, conclui-se do total dos versículos sobre a criação de Adão (A.S.) que ele passou por dez etapas, juntamente com seus descendentes, a saber: Primeira – Antes do sopro do espírito. É o caso do feto em todos os seres humanos; Segunda – Sopro do espírito. É a fase da homenagem ao recém-nascido, a condição segundo a qual Deus cuida de Adão (A.S.) e o engrandece, ao ordenar que os anjos prostrem perante ele; Terceira – Educação: o ensino de todos os nomes a Adão, por Deus. É como a fase em que os pais educam e ensinam os filhos; Quarta – A evidência da preferência: a etapa na qual os anjos se prostram diante de Adão (AS); Quinta – Usufruto e gozo: a fase da habitação de Adão (A.S.) no Jardim do Éden; Sexta – Concorrência dos desejos, das esperanças e ideias: a fase de orientação de Adão (A.S.) de se abster de comer da árvore... É a etapa de distinção do ser humano; Sétima – É a fase das tendências sexuais e da produção do exemplo. É a etapa do aparecimento das vergonhas: “e suas vergonhas foram-lhes manifestadas” (Alcorão Sagrado, 20:121). É um dos fenômenos individuais do ser humano; Oitava – Viver e ficar permanentemente na terra: a lição de um comentário diz: “Em verdade, nele não sofrerás fome, nem estarás afeito à nudez.” (Alcorão Sagrado, 20:118) Ao deixar comer da árvore, viver e permanecer indefinidamente deixou de ser uma atribuição ao ser humano, como é entendido das palavras do Altíssimo: “e, na terra, tereis residência e gozo por um determinado tempo.” (Alcorão Sagrado, 2:36); Nona – Encargo e trabalho, no caminho da orientação e da fé ou da descrença e da perda; Décima – Resultados (consequências): recompensa ou punição.

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Estas foram as etapas passadas por Adão (A.S.) e pelas quais todos os seres humanos, dali por diante, teriam de passar. É claro que Sabzawári diz que o Jardim de Adão representava uma etapa preparatória e um curso introdutório ao qual Adão (A.S.) se integrou, até tornar-se elegível para a atribuição e a responsabilidade, que são a nona e a décima etapas. (As Dádivas do Clemente, V. 1 / 207-08).

Etapa preliminar, as proibições orientadoras e o pecado espontâneo

A visão de sua Eminência Sayyed Mohammad Hussein Fadlallah, em sua interpretação ao Alcorão intitulada “Da Inspiração do Alcorão”, não está longe das visões desses sábios. Não há muita diferença, exceto na expressão e no desempenho do estilo. Ela pode ser assim resumida: Primeira etapa: a primeira experiência humana do Paraíso: A experiência de Adão e Eva (A.S.) foi a primeira experiência humana na existência. Foi uma “experiência introdutória”, para exercerem depois o papel de sucessão na terra;

“um local de ódio, de inveja e hostilidade”. Caminhou até eles sob a forma de anjo conselheiro, para dizer-lhes: “A proibição de se comer da árvore não é necessária para habilitá-los, mas irão sentir, ao fazê-lo, a sensação de imortalidade e seguir no meio dos anjos”. Por isso, “entregaram-se às palavras, selados no invólucro da inocência e do bom conselho, sem sentirem que aquilo representava rebelião contra Deus e desobediência à Sua vontade”; Quarta etapa: Prevenção indicativa, não de senhorio; a proibição contida no versículo: “porém, não vos aproximeis desta árvore, porque vos contareis entre os injustos” (Alcorão Sagrado, 2:35) foi indicativa e não de senhorio, “levando-se em conta que o seu resultado é a perda do paraíso, e não a exposição ao castigo de Deus”. Por isso, “não há inconsistência com a ideia de imunidade”. Quinta etapa: Pecado indicativo, não de senhorio; isso não é incompatível com o fenômeno dos versículos corânicos que atribuem o pecado, a sedução e a injustiça a Adão (A.S.), como nas palavras de Deus, Altíssimo: “Adão desobedeceu ao seu Senhor, e deixou-se seduzir.” (Alcorão Sagrado, 20:121). “Disseram: Ó Senhor nosso, nós mesmos nos condenamos e, se não nos perdoares e Te apiedares de nós, seremos desventurados!” (Alcorão Sagrado, 7:23) e Suas palavras: “porém, não vos aproximeis desta árvore, porque vos contareis entre os injustos.” (Alcorão Sagrado, 2:35).

Adão (A.S.) logo esqueceu a promessa e perdeu a determinação do cumprimento por causa da fraqueza humana, além da fragilidade da experiência na vida

Segunda etapa: Inexistência de uma experiência anterior com a fraude e a mentira: “Essas duas criaturas não tinham qualquer experiência anterior com a fraude e a mentira, o engano, a dissimulação... A verdade e a simplicidade em face das coisas e a espontaniedade em aceitar as palavras (eram suas características)”. Por isso, “não imaginaram que houvesse fraude nas intenções e enganos (escondidos) nos métodos (do Demônio). Tudo que possuiam era serenidade e pureza, o olhar para a vida de uma só forma, que é a própria verdade”; Terceira etapa: Render-se às aspirações satânicas: Satanás estava à espreita, à procura de

Quanto às várias dimensões do que ocorreu com Adão (A.S.) no Paraíso, devemos dizer, ainda: 1. “A palavra desobediência não é específica à desobediência legal, seguida de castigo. Seria válido, por exemplo, denominarmos a

(1) Isto é, o Sayyed Mohammad Hussein Fadhlallah (NE). Revista Islâmica Evidências - 17


rebelião contra a ordem do médico de ‘desobediência’. Assim, dizemos: ‘Desobedecemos a ordem do médico’.” 2. “A palavra ‘sedução’ contra a orientação. A orientação pode ser, em parte, o autointeresse mundano ou pessoal, que pode ser direcionado à Outra Vida.” 3. “O mesmo se aplica à palavra ‘arrependimento’, que reflete o retratar-se do erro cometido, seja em relação às questões temporais ou escatológicas. É dito: ‘Fulano arrependeu-se por si do ato prejudicial, sem que seja proibido (formalmente)’.” 4. “Quanto à ‘injustiça’, o ser humano pode ser injusto consigo mesmo, se impedido das boas oportunidades que traz a sua própria conveniência. Pode ser chamado de ‘injusto’, sujeitando-se, assim, à punição escatológica”.

ência ao comando do Senhorio, enquanto o pecado de Adão (A.S.), uma proibição indicativa. Por isso, não implicou em morte na Outra Vida e expulsão da misericórdia de Deus, como é o caso da desobediência de Satanás, que o levou à perda do Paraíso: “E então dissemos: ‘Ó Adão, em verdade, este é tanto teu inimigo como de tua companheira! Que não cause a vossa expulsão do Paraíso, porque serás desventurado’.” (Alcorão Sagrado, 20:117). Foi narrado de Abu Abdullah (A.S.) disse: “Quando Adão saiu do Jardim, Gabriel foi ter com ele e lhe disse: ‘Ó, Adão, Deus não o criou com Sua Mão e soprou-lhe da Sua alma e fez os anjos prostrarem perante ti, não lhe concedeu Eva como esposa e fê-los habitar o Jardim, proibindo expressamente, por outro lado, que não comesses da árvore, sendo que tu o fizeste e desobedeceste Sua ordem?’ Adão disse: ‘Ó, Gabriel, Satanás jurou por Deus que era meu conselheiro. Não pensei que alguma das criaturas de Deus jurassem por Deus, falsamente.”

Qual é a necessidade, então, do Salvador, além do Próprio Deus, que determina o castigo para cobrar o Seu direito e a Sua justiça?

5. “O pedido de perdão e misericórdia pode se manifestar a partir de um sentimento de abuso à dignidade de Deus, deixando de seguir o Seu conselho. Isso contraria o direito de servidão ao Criador”. 6. O papel do arrependimento e retratar-se do erro: “Deus não deixou para Satanás a deferência de colher os frutos de sua vitória. Ele revelou a Adão a melhor maneira pela qual poderia se retratar do erro, para que isso se tornasse uma base firme em seu relacionamento com Deus, Exaltado Seja.”. 7. A queda é planejamento para um novo universo, não castigo: “O processo da queda não constitui castigo pelo desvio dos mandamentos de Deus, mas planejamento para um novo universo, no qual os seres humanos se movimentariam com base na orientação de Deus, conforme indicado em Sua mensagem”. A desobediência de Satanás foi desobedi(2) Isto é, o Satanás (NE).

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Sua Eminência, Sayyed Mohammad Hussein FadhlallahA cautela de se entregar à “ingenuidade e a palavras melífluas” é uma grande lição prática da história de Adão (A.S.), em especial na nossa realidade contemporânea. Por isso, “A nossa colheita destes versículos, em linhas práticas para as nossas vidas”, é “aproveitar o foco de Deus quanto à inimizade de Satanás em relação a Adão, para levantar o mais profundo sentimento de hostilidade em nossas vidas contra Satanás e seus soldados, o que nos faz viver cautelosos em nossos pensamentos, palavras e atos”. E descreve o Allamah (1) na interpretação do Alcorão, a inocência e a pureza de Adão, como inocência e pureza de criança, dizendo: “Parece-nos - e Deus tem melhor conhecimento - que a inocência e a pureza de Adão é semelhante à inocência e pureza de uma criança, em-


bora fosse homem, porque ele não passou por qualquer experiência. Ele pensou, por analogia a si mesmo, que ninguém se atreve a jurar falsamente por Deus. Por isso, comeu.” Ele diz que na interpretação reveladora: “A sabedoria da entrada de Adão (A.S.) no jardim é passar por uma experiência da qual irá se beneficiar, ele e seus filhos depois dele. Que retornaria a esta terra provido com esta experiência útil, ou seja, que o homem nunca pode viver em uma confusão, e como ele quer, sem normas, critérios, e quem a leva em conta é o dono de sua vontade, não é impulsivo, com os seus gostos, vive em alegria e felicidade, sem limitações e sem fim. Quem subestimar os valores, e se enfraquecer perante o seu desejo, lhe acontecerá o que aconteceu com Adão do sofrimento e remorso e será atormentado por privações e dificuldades.”

Adão? Será que o homem carrega o fardo do pecado, que se tornou uma obsessão em sua existência? Isso é o que parece agora, com a ideologia cristalizada no Ocidente pelo cristianismo, que estende o pecado de Adão aos seus filhos, aos filhos de seus filhos e assim por diante, até nós. Uma vez que o pecado exige punição, há a necessidade de um puro e sincero Salvador, que salve a humanidade do pecado e suporte a dor e o sofrimento por ela. A respeito disso, Sua Eminência, Sayyed Mohammad Hussein Fadhlallah, escreve que “Assim, Deus mostrou a Sua misericórdia com a encarnação do Verbo eterno. Daí a encarnação. Era necessário que esse Redentor fosse puro, sagrado, sem defeitos, para cumprir com a Justiça Divina e salvar os pecadores. Jesus Cristo (A.S.), segundo a doutrina cristã, cumpriu essa função, sacrificando-se por nós. A Justiça Divina, segundo esta concepção, exige o nosso castigo. O Redentor, porém, morreu por nós e pagou o direito da Justiça Divina”.

O pecado de Adão foi um pecado pessoal e a salvação dele implicou em arrepender-se diretamente, com simplicidade e facilidade

Na célebre obra do Imam Ali (A.S.), intitulada “Nahjul Balágha” – ou, em português, “O Método da Eloquência”, há uma bela e precisa descrição do início da criação. Disse o Imam: “(...) Depois, Deus acomodou Adão (A.S.) numa moradia, em que lhe tornou a vida prazenteira e a sua estadia segura, sendo que o precaveu quanto a Iblis (2) e a sua inimizade. Então o seu inimigo (Iblis) passou a lhe invejar a moradia no Paraíso e os contatos com os Virtuosos. De modo que fez com que Adão trocasse a convicção por vacilação e a determinação por titubeio.” (Nahjul Balágha, pág. 6).

O pecado de Adão perante a doutrina da redenção Qual é a nossa relação com o pecado de

Como muçulmanos, não reconhecemos essa idéia: primeiro, porque não vemos qualquer ligação entre o pecado de Adão (A.S.) e os nossos próprios pecados, por um lado subjetivo. O caso todo é que a composição da natureza humana abre o caminho para a realização dos desejos pecaminosos, que, dependendo da pessoa, destaca-se em sua personalidade e se expressa em rebelião. Adão (A.S.) tem seus motivos naturais, derivados de sua experiência. Nós temos as nossas razões naturais, expressas naquilo que fazemos e no que vamos fazer. Nada temos a ver com o chamado “pecado original”, nem de perto ou de longe. Em segundo lugar, o pensamento islâmico considera que o pecado é uma situação de emergência na vida humana. Segundo a doutrina islâmica, é possível que o pecado seja extermina-

(3) Aqui entra o verdadeiro conceito islâmico de “Jihad” (NE). (4) Isto é, Al-Khiláfah ou seja, o califado, que é a condição humana na Terra, segundo o Islã: o homem é o sucessor de Allah (SWT) na administração do mundo material (NE). Revista Islâmica Evidências - 19


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do pelo empenho pessoal (3), pelo sofrimento e pela expiação, mas do próprio pecador, do indivíduo que cometeu a falta, não de outrem. Com remorso, arrependimento e o retorno sincero a Deus podem ser eliminadas suas implicações e conseqüências escatológicas quanto à punição e a ira divina. É isso que o Alcorão diz: “Dize: ‘Ó servos Meus, que se excederam contra si próprios, não desespereis da misericórdia de Allah; certamente, Ele perdoa todos os pecados, porque Ele é o Indulgente, o Misericordiosíssimo’.” (Alcorão Sagrado, 39:53).

Jesus (A.S.) (ou, “Filho de Deus”, como eles alegam), que ele foi crucificado para redimir os filhos de Adão do pecado cometido por Adão não é aceito pela doutrina islâmica. Não! O pecado de Adão foi um pecado pessoal e a salvação dele implicou em arrepender-se diretamente, com simplicidade e facilidade. Os pecados de todos os seus filhos e demais descendentes, bem como o seu pecado, são pessoais e o caminho está aberto para o arrependimento, de uma maneira fácil e simples... Uma concepção explicitamente confortável! Cada um leva a sua culpa e deve expiá-la com esforço, tentativa sincera, sem desesperar e sem deixar de ter esperança... pois Deus é Indulgente, Misericordioso!

Cada criança encontra nos pais e no ambiente familiar o cuidado necessário. Porém, o primeiro homem, Adão, não cresceu em um ambiente deste tipo

Assim, segundo a conepção islâmica, o ser humano se transforma em página branca, brilhante, sem manchas. Qual é a necessidade, então, do Salvador, além do Próprio Deus, que determina o castigo para cobrar o Seu direito e a Sua justiça? São palavras que não entendemos! Elas não têm base razoável para a nossa consciência quanto à grandeza do Ser Divino e à impossibilidade da encarnação, de um lado, pela consideração do perdão depender de encontrar Deus em Si Mesmo, de forma material, apesar de Ele ser generosíssimo, transbordar em bondade e generosidade para com toda a Sua criação, de outro lado.

Terceiro: Nada significa que uma pessoa suporte o sofrimento e a dor para redimir os muitos ou poucos pecados da humanidade, pois não conhecemos o significado da cobrança do direito por meio deste método. A ideia natural e razoável é o ser humano assumir a responsabilidade pelo seu próprio erro, pagando por si mesmo. Isso é focado pelo Alcorão, no versículo: “Nenhum pecador arcará com culpas alheias.” (Alcorão Sagrado, 6:164). O pecado é individual e o arrependimento é individual. Numa percepção clara e simples, sem complexidade nem mistério... De acordo com o Islã, não há pecado imposto ao homem antes do nascimento e não há expiação teológica. O que a Igreja diz de

Esta é uma parte da história de Adão (A.S.). Apresenta, sozinha, uma riqueza de fatos, percepções de crenças e uma riqueza de implicações e orientações, uma riqueza de fundamentos da percepção social e das condições sociais, regida pela moral, pela bondade e pela virtude. Desta forma, podemos reconhecer a importância das histórias do Alcorão, como paradigmas das regras da percepção islâmica, clarificando os valores que lhes estão subjacentes. São valores dignos de um mundo provindo de Deus, orientado para Deus, dirigindo-se a Deus, no final das coisas... A promessa de sucessão (4) está válida pela orientação recebida de Deus, desde que o ser humano atenha-se ao Seu método na vida. A bifurcação do caminho é determinada pelo uso do livre-arbítrio: ou o ser humano ouve e obedece ao que é recebido de Deus, ou ouve e obedece aos ditames de Satanás. Não há terceira via... Ou Deus ,ou o Diabo. Ou a orientação, ou o desvio. Ou o certo, ou o errado. Ou o sucesso, ou o fracasso... Este fato é expresso no Alcorão inteiro, como fato, sobre o qual todas as demais percepções se baseiam, bem como todas as situações que o homem encontra no mundo. Revista Islâmica Evidências - 21


Preces diárias

A prece de Ramadã

(1)

O Profeta (Deus o abençoe e dê paz a ele e sua Purificada Decendência) disse: “Quem fizer esta súplica no Ramadã após cada oração obrigatória, Deus vai perdoar seus pecados até o Dia da Ressurreição”:

Ó, Deus, introduz alegria aos habitantes dos túmulos! Ó, Deus, ajuda a todos os pobres! Ó, Deus alimenta todo faminto! Ó, Deus cobre todos os desnudos! Ó, Deus, salda a dívida de todo devedor! Ó, Deus, alivia todo aflito! Ó, Deus, devolve todo ausente! Ó, Deus, liberta todo prisioneiro!

Ó, Deus, corrige tudo que é corrupto nos assuntos dos muçulmanos! Ó, Deus, cura todo enfermo! Ó, Deus, preenche nossa pobreza com a Tua riqueza! Ó, Deus, transforma a nossa situação ruim em boa situação! Ó, Deus, salda as nossas dívidas!

Ó, Deus, livra-nos da pobreza, pois Tu tens poder sobre todas as coisas.

(1) Ramadã é o 9º. mês do calendário islâmico, durante o qual os muçulmanos fazem jejum entre o alvorecer e o pôr-do-sol (NE). Revista Islâmica Evidências - 23


Mulher

Assayed Charif Sayyed Al ‘Ámili

Falamos, nas edições anteriores, sobre alguns equívocos levantados sobre o véu. Vamos completar o assunto, respondendo a mais algumas opiniões erradas sobre o seu uso.

Por Que o Véu no Islã?

A

Sexto Equívoco: “o subdesenvolvimento”

lguns ocidentais vinculam o véu ao subdesenvolvimento vivido por algumas sociedades orientais, considerando a nudez, por outro lado, como um indicativo de desenvolvimento de uma nação. Resposta: Os que advogam este tipo de raciocínio não querem nem civilização, nem progresso, nem civilidade, nem desenvolvimento. Eles querem as mulheres perto deles. Eles a querem na sua totalidade, livre para satisfazer os seus desejos. Eles a querem como mercadoria descoberta para satisfazer seus ímpetos... Eles a querem à sua disposição, sempre que quiserem. Querem comercializá-la nos mercados e no vício. Querem uma mulher sem pudor ou castidade. Querem uma mulher sem pensamento, sem percepção, sem objetivo e propósito. Querem uma

mulher que conheça a arte de dançar, cantar e representar. Querem uma mulher livre da fé e da crença na moral, de sua pureza e castidade. Eu não entendo como o hijab possa levar ao subdesenvolvimento de uma sociedade. Os homens cobrem todo o corpo, exceto a cabeça. Será que o fato de o homem cobrir-se completamente leva, também, ao subdesenvolvimento? Não há, realmente, nenhuma relação entre o subdesenvolvimento e o fato de a mulher cobrir o corpo, ou entre o progresso e a falta de cobertura corporal, porque o subdesenvolvimento está ligado a práticas ofensivas à consciência e à dignidade humanas, à relação de uns com os outros, às atividades econômicas. Será que cobrir as mulheres tem alguma influência sobre isso?

Os que defendem a nudez feminina querem a mulher, na sua totalidade, livre para satisfazer seus desejos

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Certamente, nenhuma pessoa racional pode


dizer: “Sim!”. Mas, o contrário é o correto. Quando a pessoa se abre a um clima de instintos frenéticos, passa a consumir uma grande quantidade de suas energias em questões que não desenvolvem a mente, nem satisfazem, no seu íntimo, a beleza da paixão e o senso elevado da ajuda humanitária. Sua preocupação principal passa a ser o aspecto material da vida e ela dorme pensando no que consumir amanhã e acorda pensando nisso. Se ela não pensar e não for criativa, não vai ultrapassar os limites do mundo do consumo. Do outro lado, a cultura contemporânea considera o ser humano livre para fazer o que quiser. No entanto, as mulheres com véu acreditam que ele é parte de seu compromisso com a moral e o social. Por que considerar isso subdesenvolvimento? Se as mulheres muçulmanas estão satisfeitas com seus trajes – o que em absoluto as coloca no grupo das mulheres subdesenvolvidas e retrógradas – que mal há nisso? Se elas usam o hijab e não o rejeitam, o que perturba os chamados “progressistas” num caso de caráter individual como esse? É estranho ouvi-los convocar as pessoas para a causa da liberdade pessoal e consagrá-la, não permitindo que alguém a macule. Então, ficam interferindo na liberdade dos outros, por vestirem o que querem. O subedesenvolvimento tem as suas causas e a intrusão na lei da ética, moral e do pudor é um truque manifesto, que induz, aí sim, ao subdesenvolvimento do pensamento e da consideração. Desde quando o progresso e a civilização estão vinculados à falta de roupas do ser humano? A civilização, o progresso e o desenvolvimento são o resultado das investigações da mente humana, são alcançados pelo uso da razão e pelo trabalho, não pela falta de roupas e pela aparência.

véu. Assim como não está relacionado ao movimento das mulheres que queiram participar da construção da civilização. Certamente, o progresso tecnológico acompanhou o véu também na nossa história. Isso significa, acaso, que o compromisso de usá-lo é uma condição para a criação do desenvolvimento também? A realidade do subdesenvolvimento experimentado pela realidade árabe ou muçulmana está ligada à estagnação científica, por um lado, e às condições políticas que impuseram o subdesenvolvimento, inflamando toda a região com guerras, disputas e conflitos. Além disso, levou a governos que não respeitam a liberdade do povo. Isso mostra que a ligação entre o uso do véu, seu não uso e o desenvolvimento das sociedades ou a falta dele é um vínculo arbitrário e ingênuo, porque as razões fundamentais do desenvolvimento são profundas e variadas, incluindo causas polí-

Sim... O desenvolvimento tecnológico do Ocidente não resultou da rejeição ao véu, porque o desenvolvimento é uma das questões causadas pelas mudanças de pensamento no entendimento do universo, da vida e dos segredos da natureza, criando oportunidades para os especialistas ou para os indivíduos que têm experiência nestas áreas, especificamente. Isso nada tem a ver com o fato de a mulher usar o Revista Islâmica Evidências - 25


ticas, culturais, educacionais, sociais, econômicas e até mesmo doutrinárias. Tem-se falado muito sobre o véu e não apenas por não-muçulmanos, apenas, mas por homens e mulheres que se dizem muçulmanos e foram enganados pelo “brilhantismo” da civilização ocidental. Os dois grupos começaram, então, a levantar suspeitas e a diseminar rumores alarmantes, forjando mentiras a nosso respeito, alegando que o Islã tem injustiçado as mulheres, impondo-lhes o uso do véu.

sidades ou para seu trabalho, desempenhando o seu papel nesta ou em qualquer sociedade, é injustiça? Ou será que querem que ela tire o véu e mostre seus atrativos para satisfazer os seus instintos? Certamente que a sua exigência de liberdade não é para protegê-la, mas por má intenção!

Não há, realmente, nenhuma relação entre o subdesenvolvimento e o fato de a mulher cobrir o corpo

Eu não sei que tipo de injustiça representa a orientação quanto ao uso do véu? Será que as mulheres que saem com hijab e vão para os institutos de ciência e educação, para as univer-

Será que o Islã tem um átomo de injustiça em sua constituição? Será que a Religião Muçulmana praticou injustiça com alguma criatura de Deus para ser injusto, também, para com as mulheres? Isso não passa de equívocos dos colonialistas e dos inimigos da religião! O poeta Rusafi em resposta a estes que alegam que o Islã é a origem do subdesenvolvimento, disse:

Dizem que no Islã há injustiça, Bloqueia o caminho do progresso de seus filhos. Se isso é verdade, como se desenvolveu, No início, nos seus primórdios? Não é certo que o estudo, no Islã, é uma obrigação? Será que a nação domina sem ensino? Não é certo que o Islã despertou para a glória e sublimidade No meio de povos que negligenciaram a glória? Minou as fortalezas da ignorância com orientação E destruiu o exagero do extravio prevalecente? Diz isso àqueles que foram tiranos com seus governos, Que lentamente perpetraram, contra nós, seus crimes! Não disfarçai o sol da verdade, pois ele É mais patente do que vossas conversas suspeitas!

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O Sétimo Equívoco: “o véu é costume pré-islâmico” Disseram: “O véu é um dos hábitos dos árabes pré-islâmicos, porque estes tinham, por natureza, a proteção da honra, e enterravam as meninas vivas por medo da desonra. Obrigavam as mulheres a usar o hijab como extremismo dos seus hábitos tribais, algo que o Islã revogou, abolindo o véu. Portanto, o uso do hijab é um uso reacionário e deixou para trás a civilização e o progresso”. Resposta: O véu, determinado pelo Islã às mulheres, não era conhecido entre os árabes antes do advento da Mensagem. Deus revogou a ostentação das mulheres pré-islâmicas. Ele orientou as mulheres muçulmanas para não

imitar as mulheres da época pré-islâmica. Disse, Exaltado Seja: “E permanecei tranquilas em vossos lares, e não façais exibições de vossos corpos, como as da época da idolatria.” (al Ahzab, 23). É verdade que o Islã revogou hábitos condenáveis dos árabes. Mas, ao mesmo tempo, os árabes tinham belos hábito que o Islã adotou e não invalidou, como honrar o convidado, a generosidade, a coragem e assim por diante. Entre os hábitos condenáveis deles estava o fato de as mulheres saírem descobertas, mostrando rostos e pescoços e exibindo seus encantos. Deus instituiu o véu entre as mulheres após a ascensão do Islã para salvaguardar a sua dignidade e evitar danos à sua moral pelos mal intencionados.

O Oitavo Equívoco: “A castidade de uma mulher está em si e não no hijab” Alguns dizem: “A castidade da moça é inerente a ela e não está numa capa colocada sobre seu corpo. Quantas moças usam o véu perante os homens, porém são imorais no seu comportamento, e quantas moças com a cabeça descoberta, mostrando os seus encantos, não conhecem o mal nem têm mau comportamento.” Resposta: Isso é verdade: nenhuma roupa tece a castidade de alguém que a perdeu, nem proporciona integridade inexistente. Quanta mulher imoral oculta o seu comportamento com boa aparência! Mas, quem alegou que Deus prescreveu o véu para o corpo da mulher para criar nela pureza e castidade na sua moral? Quem afirmou que o “hijab” foi prescrito por Deus para ser a declaração de que todas que não o usam são imorais e degeneradas, introduzindo-as no vale de deboche com os homens?

Deus, Exaltado seja, prescreveu o véu para as mulheres para proteger a castidade dos homens, cujos olhares recaem sobre elas, e não para preservar a castidade dela dos olhares que as veem. No entanto, o seu benefício é maior e mais sensível. Será que algum sábio diria, sob a autoridade do argumento invertido: “Se não tiver dúvida sobre a sua força moral e a sinceridade de sua retidão, o papel de uma moça é ficar nua na frente de todos os homens”? O flagelo dos homens está no fato de que seus olhos recaem sobre as tentações das mulheres e seus encantos, o que se constituiu em problema e tornou necessário que a sociedade procurasse uma solução. Daí a Lei de Deus, que garante o melhor. O flagelo dos homens, se não se encontrasse essa solução divina, sem dúvida seria exceder o mal para as mulheres, também.

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Nada pode acontecer se a mulher descoberta se ativer à retidão em seu comportamento ou à castidade em si, dizem. No entanto, as teias que assolam os corações dos homens superarão

toda integridade e castidade feminina, caso as mulheres exponham perante eles seus estímulos e encantos.

O Nono Equívoco: “A nudez é algo normal e não chama a atenção” Os inimigos do véu alegam que as mulheres sem ele, que aparecem nuas, não chamam a atenção dos homens, que é atraída por uma mulher usando o hijab e vestimentas que cobrem todo o seu corpo. Então, eles querem conhecê-la e acompanhá-la, porque tudo que é proibido é desejado.

de feminilidade nas mulheres, na composição do corpo, na sua forma e até mesmo na moral, idéias e tendências, também apresentam características de masculinidade no corpo de um homem e de um modo geral, influenciam a sua voz, trabalho e inclinações. Este princípio é inato, desde que Deus criou o homem, e não vai mudar até o acontecimento da Hora.

Resposta: 1. Uma vez que a mostra dos encantos é normal ela não chama a atenção e não impressiona os corações? Para quem a mulher está mostrando os encantos? Por que suportou as despesas dos cosméticos, o pagamento dos cabeleireiros e seguir a moda?

2. Como o mostrar o encanto é assunto normal se vemos entre os casais, por exemplo, aumentar o desejo do homem pelas esposas quando elas se enfeitam, assim como aumenta o desejo por alimentos quando eles são diversos, enfeitados, mesmo que não sejam deliciosos?

4. Deus depositou o instinto sexual na psique humana, sendo este um de Seus segredos, uma sabedoria das Suas obras-primas, Exaltado Seja. Ele tornou a relação sexual a maior tendência para a mente, a alma e o espírito. É uma exigência espiritual, física e sensorial. Se uma mulher bela e atraente passar por um homem, revelando beleza fascinante, que gere atração profunda e ele não prestar nenhuma atenção, será julgado pela Medicina como alguém anormal, que sofre de diminuição do desejo sexual - uma doença que requer tratamento.

3. A atração entre homens e mulheres são naturais, não mudam ao longo da vida. Isso é algo que corre em suas veias e mostra em ambos os gênerosa cada uma das suas inclinações e instintos naturais. O sangue transporta secreções hormonais das diferentes glândulas endócrinas, afetando o cérebro e os nervos, além de outros órgãos. Cada parte de cada corpo é caracterizada pelo que se parece com ele no sexo oposto. Assim como apresentam características

5. Os altos índices de imoralidade, pornografia, homossexualidade, perda de honra e promiscuidade acompanharam a saída das mulheres do lar, usando maquiagem e pouca roupa. Essa relação é diretamente proporcional. A maior taxa de doenças sexualmente transmissíveis, como AIDS e outras DST, acontece nos países onde há permissividade, onde cresce a liberdade exagerada dos homens e das mulheres, ampliando-se a barbárie e a anarquia, além das

As mulheres que usam o véu acreditam que ele é parte de seu compromisso com a moral e o aspecto social da vida

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doenças e dos traumas psicológicos que levam jovens – homens e mulheres – a recorrer ao suicídio, uma triste realidade que alcança altos índices, na maior parte dos países onde viceja a degeneração moral.

acontece com a mulher velada. Os olhares que são dirigidos à sua luz voltarão confusos e fatigados, sem conseguir o mínimo que seja. Quanto àquela que mostra os seus encantos, parece um livro aberto, folhado por várias mãos, examinado linha por linha, página por página, sendo as mentes afetadas pelo seu conteúdo, não sendo ele abandonado até que perca o brilho de suas folhas, sendo algumas rasgadas e outras arrancandas. Torna-se ele, então, rapidamente, um livro velho, que não merece ser colocado nem mesmo nas prateleiras da frente da biblioteca de uma casa modesta. Que dirá à vista de uma grande biblioteca?

Deus instituiu o véu entre as mulheres após a ascensão do Islã para salvaguardar a sua dignidade e evitar danos à sua moral

6. O fato de os olhos seguirem a moça velada e não a que mostra os seus encantos, porque a mulher velada pareceria um livro fechado, cujo conteúdo é desconhecido, bem como o número de suas páginas e o que abrange em termos de ideias, não diminui a importância do uso do hijab. Afinal, por mais que olhemos para a capa do livro, com precisão, não entenderemos o seu conteúdo, não o conheceremos, nem seremos afetados por ele, inclusive em relação às nossas ideias. O mesmo

O Décimo Equívoco: “Andar desvelada é direito das mulheres e o véu é opressão” Alegam alguns que andar desvelada é um direito da mulher que a sociedade lhe tirou, ou os homens egoístas e empedernidos. Para os defensores destas ideias, o véu é injustiça e roubo ao seu direito. Resposta: 1. Não foi o homem quem prescreveu o véu para as mulheres, para que ela se queixe contra ele, para livrar-se das injustiças praticadas contra ela, como foi a situação na Europa, entre homens e mulheres. Quem prescreveu o véu para as mulheres foi o seu Senhor e Criador. Poranto, ninguém tem direito, se for crente, de discutir com Ele o que determinou. Não há opção neste caso: “Não é dado ao crente, nem à crente, agir conforme seu arbítrio, quando é Allah e Seu Mensageiro que decidem o assunto.

Sabei que quem desobedecer a Allah e ao Seu Mensageiro desviar-se-á evidentemente.” (Al-Ahzab, 33:36). 2. O véu, em si, não é um problema. Ele foi prescrito na época do Mensageiro de Deus (S), um mandamento que foi cumprido no seu tempo e que continua por catorze séculos. Não há um muçulmano que creia em Deus e em Seu Mensageiro que diga: “A mulher, no tempo do Mensageiro de Deus (S), era injustiçada.” Se a injustiça recaiu sobre ela depois disso, quando os muçulmanos negligenciaram a sua verdadeira fé e os seus mandamentos, não foi o véu, obviamente, a fonte da injustiça. A determinação do uso do véu foi acompanhada pela purificação espiritual e moral, pelo estímulo à sublimidade humana, incomparável na história da humanidade.

Revista Islâmica Evidências - 29


O Décimo Primeiro Equívoco: “O hijab é um símbolo do fanatismo, do sectarismo e do extremismo religioso” Os inimigos do véu alegam que ele é um símbolo do extremismo e do fanatismo, um sinal de inflexibilidade, causando dissonância na sociedade e confronto entre grupos, levando à perturbação da segurança e à estabilidade.

a declaração da identidade. O véu, porém, tem a função de uma disposição conhecida e nobre, que é a cobertura, a modéstia, a pureza e a castidade. Não passa na imaginação das mulheres muçulmanas que usam o véu declarar a sua religião, elas se cobrem em obedeciência aos comandos do seu Senhor. É um rito religioso, não um símbolo de extremismo.

O véu tem a função de uma disposição conhecida e nobre, que é a cobertura, a modéstia, a pureza e a castidade

Resposta: 1 Esta alegaçã é rejeitada desde o início. O véu não é um símbolo dessas coisas, nem é um dos símbolos sob quaisquer circunstâncias, porque o símbolo não tem nenhuma função, exceto para expressar a filiação religiosa do proprietário, como a cruz no peito de um cristão ou de uma cristã, o pequeno solidéu na parte superior da cabeça do judeu. Não possuem nenhuma função a não ser

Além disso, por que não proferem essa mentira que aplicam ao véu das mulheres muçulmanas, também ao véu das freiras? Por que não dizem que o véu da mulher cristã ou judia é um símbolo de intolerância religiosa e discriminação sectária? Por que não dizem: “O uso da cruz é um dos símbolos de extremismo religioso, que arrastou a humanidade para o flagelo das Cruzadas?” Por que não dizem que o uso do kipá pelos judeus é um símbolo de extremismo religioso levando, como resultado, aos os massacres e ao terrorismo israelense praticado na Palestina ocupada? Esta falsidade é desmentida pela história e pela realidade: onde está a corrupção, quando o véu é usado pelas mulheres muçulmanas por mais de quatroze séculos? 2. O uso do véu pela mulher nasce de sua convicção espiritual. O Islã não impõe o véu com força de ferro e fogo, não convoca as mulheres a usarem o véu, a não ser com sabedoria e argumentos legítimos, racionais. O oposto, contudo, é verdadeiro. A prova disso é o obrigar a mulher a tirar o véu, tornando isso uma lei, o que é símbolo de intolerância e extremismo ateu, como ocorre na França. Tal atitude está causando a colisão entre grupos humanos e reações negativas, porque é um ataque à liberdade religiosa e pessoal.


Sexualidade

Xeique Mohsen Atawi

O Sexo na Concepção Islâmica, No campo da legislação

O desejo e a satisfação sexual A

relação do casamento com o ato sexual é antigo. Às vezes, depende de acordo, associação e convivência entre homens e mulheres. O pagamento de uma determinada quantia pelo homem à mulher é chamado de “dote”.

O Islã adotou o sistema e o regulamentou de modo a coincidir com as regras de uma sociedade saudável. Se o objetivo final do casamento é a continuidade da reprodução e a sobrevivência da nossa espécie, duas atividades que o Islã tanto incentiva, o alvo mais próximo é satisfazer os

desejos sexuais e contentar o lado emocional do homem e da mulher. É evidente, em virtude do fato de que o casamento é uma relação com objetivos sociais e de criação, que o matrimônio não alcançará os seus objetivos se não permitir a satisfação de um com o outro. O Islã não permite o casamento com uma mulher sem a sua aprovação; somente depois que o homem concorda com a religião dela ou obtém dela o consentimento em relação à religião dele. Para que haja harmonia emocional entre o Revista Islâmica Evidências - 31


casal (amor), expressa na relação sexual, o que resulta em covivência e conforto psicológico, a relação sexual não deve acontecer sem o consentimento e o desejo da mulher, ou seja, sem um consenso no pensamento e nos hábitos que parta dela, também. O desejo, simplesmente, não é suficiente para a satisfação das mulheres de maneira oculta, em seu coração, mas deve ser ressaltado com o consentimento verbal e a celebração de contratos, atos sobre os quais o Alcorão aprofundou o entendimento, advogando o estabelecimento de um acordo de vontades expresso, firme e efetivo entre o casal. O desejo deve ser acompamhado do uso do véu, caso contrário não se considera válida a convicção de ambos. O Islã permite que o homem pretendente veja a mulher pessoalmente, sem véu, momento em que ela mostrará suas belezas ao futuro marido, para que haja a convicção de ambos, com o consentimento pleno dela e dele. O casamento, então, é uma forma de organizar, condicionar e orientar o relacionamento sexual entre homens e mulheres. Quem ingressa nele cumpre a natureza da relação jurídica; quem não o faz age ilegalmente, tendo em vista que a relação sexual baseada no amor e na compaixão não pode ter lugar, nem mesmo fisiologicamente, sem o consentimento, que é representado pelo contrato e honrado pelo dote.

coincida com a satisfação e o consentimento de ser o tutor da mulher, enquanto adulto. Teria sido permitido a ele que se casasse com quatro esposas, ao mesmo tempo, com contrato permanente, e com quantas desejar com base em contratos temporários, dando-lhe a liberdade de trocar de esposa todos os dias. Teria sido dado a ele, também, o direito de usufruir, a qualquer momento, da sua esposa. Segundo os críticos, a mulher, porém, não teria direito de casar com quem quisesse, a não ser após o consentimento do pai. Não poderia ter companheiros múltiplos e estaria sujeita ao divórcio a qualquer momento, devendo cumprir o prazo de espera caso se divorciasse de seu marido ou ficasse viúva, estendendo-se este período de aguardo até nove meses (o tempo da gravidez), no máximo, ou no mínimo de três meses – em alguns casos, cerca de um mês e meio.

O Islã adotou o sistema do ‘dote’ e o regulamentou de modo a coincidir com as regras de uma sociedade saudável

2 - O sistema do casamento e a preferência dos homens Uma das críticas mais importantes contra a organização das relações sexuais no Islã é que ele daria direitos sexuais amplos aos homens, enquanto só concederia muito pouco às mulheres. Quanto ao homem, seria permitido casar-se sem necessidade, contanto que a sua satisfação 32 - Revista Islâmica Evidências

Além de tudo isso, um marido poderia fazer o juramento de abandonar as suas relações sexuais com a esposa, sendo obrigado, durante quatro meses, a pagar penitência ou divorciar-se dela. Se o marido se ausentasse e ficasse sem dar notícias a ela, ela ficaria privada de sexo por quatro anos. Somente então, a autoridade legítima lhe concederia o divórcio, permitindo-lhe casar depois que ela cumprisse o prazo de espera. Se o marido adoecesse e perdesse o seu poder sexual, ela não teria o direito de se divorciar para casar com outro. O mesmo aconteceria no caso de o marido ser condenado à prisão perpétua. Esta confusão, na verdade, abrange vários problemas quanto ao casamento, ao divórcio e ao direito de privação. Começa com o primeiro tópico – a questão da poligamia, do direito de desfrutar e as proibições sexuais – até o segundo tópico – o divórcio, a negação dos direitos sexuais e o cumprimento do prazo de espera – e o terceiro: a ausência do marido, o juramento


de abstenção sexual e de zihar (sistema que o marido aplica à esposa considerando-a como sua mãe). Vamos abordar estsa questões a seguir:

A - Preferência no casamento É interessante iniciar este tópico para explicar o raciocínio sugerido por Nawal El Saadawi, em um de seus livros, cuja síntese é: “Deus, no pensamento religioso, é masculino. Em vista disso, o masculino lutou com o feminino, triunfou sobre ele e empregou todos os direitos sexuais na Sharia a seu favor”. É claro que transcrevemos aqui esta idéia por uma questão de familiarização, não para discuti-la. Podemos afirmar, contudo, que ela incorpora um alto grau de estupidez e insipidez.

No caso do sistema de casamento, deve-se levar em conta a sua necessidade sexual. Está cientificamente provado que os homens estão sempre dispostos à relação sexual, sendo que as oportunidades lícitas de alívio para eles são poucos. Adicione-se a isso a libido selvagem, que é mais frequente entre os homens do que entre as mulheres. O que se diz, que o desejo é maior entre as mulheres do que entre os homens, não possui nenhuma prova . Mas a recíproca é verdadeira. Quando o homem tem um desejo sexual muito exacerbado, pode aliviá-lo por meio do casamento. Assim, o assunto é resolvido com uma segunda ou terceira esposa.

O casamento, então, é uma forma de organizar, condicionar e orientar o relacionamento sexual entre homens e mulheres

Na realidade, a liberdade dada ao homem não deriva da preferência de Deus por eles e ódio às mulheres. O que é fixo ideologicamente pelo Islã é que o indivíduuo mais amado por Deus é o crente mais sincero e piedoso, quer seja homem ou mulher. Deus não dá preferência a ninguém, pois toda a criação é constituída por Suas criaturas. Já dissemos que a legislação, originariamente, é para o benefício da humanidade e foi criada a seu serviço. Baseados nisso, vamos observar o resultado da abolição da instituição do casamento para entender a base da teoria sexual do Islã. É evidente que o resultado de tal fato seria a falência da família, que é a base emocional e educacional da sociedade. Sem o casamento, teríamos a prevalência do espírito material e animalesco bruto. O abandono do casamento instituiria uma forma de anarquia, o que resultaria na multiplicação de graves complicações psicológicas,com consequências até mesmo de ordem penal.

Por sua vez, o casamento temporário pode ser uma saída para o solteiro incapaz de contrair um casamento permanente, preenchendo, desta maneira, a sua necessidade. Os beneficiários do regime de casamento temporário são os homens e as mulheres juntos. Ela pode lavrar o contrato por um período breve e após o término do prazo, torna-se livre de seu casamento. Se ela não estiver impressionada com o marido e nem for compatível com ele, terá a oportunidade de conhecer outro parceiro. Da mesma forma, em uma união estável, a mulher pode tomar a sua liberdade em suas mãos. Quando não está confortável com o marido, é capaz de se separar com o divórcio. Portanto, percebemos que o objetivo do casamento e suas consequências e regulamentos legais satisfazem os desejos de homens e mulheres. No que respeita à permissão da poligamia aos homens e à proibição da poliandria às mulheres, isso não significa que haja preferência dos homens sobre as mulheres, mas leva em conta o que é adequado para ambos. As mulheres tendem para a estabilidade e a associação com um só homem, enquanto o homem é inclinado ao pluralismo, não mostrando entusiasmo e satisfação com uma só esposa. Isso é devido à Revista Islâmica Evidências - 33


situação emocional particular de cada um deles. A relação emocional do homem com a mulher é, muitas vezes, de ordem material, sexual. O apego emocional do homem é, em geral, muio pequeno. Essa tendência no homem existe até em sociedades onde a poligamia é proibida. É encontrada também nas sociedades primitivas. É uma orientação natural, respeitada pela Sharia, que a permite. Dá-se o contrário com as mulheres. Elas são inclinadas à estabilidade com um só homem, habitualmente, porque a sua relação com o homem tem um forte componente emocional, sendo sua orientação sexual uma situação de emergência e acidental. Isso explica porque as viúvas ficam sempre se lembrando do marido e lamentam a sua perda. Fique claro que a prática da prostituição entre as mulheres não é a manifestação de uma poliandria instintiva, mas é praticada por questões econômicas. Raramente a prostituta tem um grande desejo, praticando seu ato com voluptosidade sexual. Muitas praticam o ato com revolta e nojo. Por isso, muitas vezes a prostituta tem um homem a quem dedica carinho e se entrega, fora da “profissão” exercida nas ruas. No sistema de casamento islâmico, o controle da natalidade é exercido para se determinar a paternidade da criança. É verdade que o esperma do homem e o óvulo da mulher determinam a paternidade e a maternidade do filho.

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Ambos se associam na composição de um futuro indivíduo e se relacionam com ele. Mas a atenção da Sharia e das pessoas relacionadas ao casal em saber quem é o pai resulta da filiação do menino a ele. O objetivo é determinar que a paternidade não seja objeto de dúvida por seu desaparecimento, pertencendo a criança à mãe. Acrescente-se que o papel do espermatozóide é maior na formação do embrião, uma vez que a função do óvulo é quase exclusivamente servir de “casa” para ele, mais do que se constituir em causa para a sua existência. Por isso, é necessário identificar cientificamente o pai, o que garante, também, o atendimento a necessidades legais e consuetudinárias. Por isso tudo, a poliandria – ou seja, o casamento e a relação sexual da mulher com vários homens – coloca dúvidas quanto à paternidade, enquanto a poligamia não. Não se pode subestimar a importância desta ascendência, psicológica e realisticamente. É necessário que o pai conheça o filho, que é uma parte dele, como é necessário para a mãe. Juntos, pai e mãe irão proporcionar-lhe carinho, educá-lo, conceder-lhe herança. Esse tipo de sentimento é essencial para a felicidade e desenvolvimento das crianças, como é essencial para a estabilidade e regularidade social. Não é válido, contudo, com a abolição do casamento ou da poliandria. Foi confirmado por estudos médicos que o risco de contrair câncer no endométrio aumenta


quandoa a mulher tem um grande número de parceiros sexuais.

B – Preferência no divórcio

É claro que, na prática, uma possível liberdade sexual proporcionada pela poligamia não seria a regra. A maioria dos casamentos é monógana. Se a poligamia ocorrer, na maioria dos casos acontece com o acréscimo de uma só esposa. O número de esposas não excede a duas, a não ser raramente. O potencial da poligamia de gerar problemas psicológicos e sentimentais às crianças é de fácil solução, especialmente se o casal desfrutar de um bom nível de consciência, moralidade e piedade. Destacamos que a mulher pode exigir que o marido seja monógamo. O marido fica vinculado, neste caso, ao conteúdo da cláusula estipulatória do contrato de casamento, ao aceitá-la.

Não nos prolongaremos na questão do divórcio, exceto quanto à relação sexual, por que o divórcio representa uma ameaça para a relação sexual das mulheres, quando a vida conjugal é boa, livre dos problemas, em curso com a maior harmonia. Não há homem pronto para minar a instituição da família e substituir a esposa sem motivo, tanto em termos psicológicos quanto econômicos e de legitimidade. Se ela estipulou algo sobre o seu destino no divórcio, ou quando a sua vida conjugal é péssima, a sua privacidade, com o divórcio, não é pior do que a privação, que provém dos maus tratos inflingido por um ou por ambos.

Deus não dá preferência a ninguém, pois toda a criação é constituída por Suas criaturas

Portanto, não se pode substituir o sistema da poligamia pela poliandria ou pela abolição do casamento. Vemos, também, que a permissão ao primeiro e a proibição ao segundo está de acordo com a necessidade e o papel do homem e da mulher, sem que haja a menor preferência. Quanto ao casamento do homem com uma mulher virgem, nem todos os jurisprudentes consideram isso necessário. Em segundo lugar: Pretende-se com esta orientação que haja uma boa escolha, não por restrições ou para a exploração da mulher virgem. Se isso acontecer, infelizmente, o contrato, em caso de compulsoriedade, será anulado. Concluindo, podemos dizer que o pensamento de algumas pessoas de curta visão e de alguns falsos intelectuais quanto à preferência e à liberdade dada ao homem, no Islã, não é real, mas tem abrangência e visão perspicaz, o que torna a legislação islâmica muito justa.

Quanto ao prazo de espera em caso de divórcio, que é equivalente a três períodos menstruais, o raciocínio lógico é o receio da mistura de linhagens, cujas justificativas citamos acima. O divórcio não põe termo à obrigação conjugal neste aspecto, a não ser após a confirmação da ausência da gravidez. No entanto, se for confirmado que ela está grávida, o período de espera – ou seja, no qual o divórcio não pode ser consumado – deve continuar, até que ela dê à luz. Se ela descobrir a gravidez, a não ser após o término do período de espera de três ciclos menstruais consecutivos, o período de espera revogável mantem as obrigações conjugais da parte do marido, com todas as suas condições e conseqüências, a fim de que seja conferida uma oportunidade para rever o erro absoluto e até mesmo se arrepender e voltar para a esposa. Ele pode, se quiser, satisfazer-se sexualmente com ela, mesmo que tal consideração seja de desejo, para que a mulher volte a ser sua esposa novamente. Ele pode fazer isso com palavras. Mas se o divórcio for de afastamento, por desgosto ou por mau comportamento, se ela se arrepender do Revista Islâmica Evidências - 35


mau comportamento e se afastar disso, volta a ser esposa como antes.

legislação extremamente benéfica, que leva em conta a justiça a todas as partes envolvidas.

Pode-se dizer que não há necessidade de período de espera com a identificação da gravidez, ou após a constatação da sua ausência. Esta afirmação é verdadeira quando nos limitamos a justificar o período de espera por causa do desejo do pai de reconhecer o filho. Mas, é preciso prestar atenção ao estado psicológico das mulheres, em particular, e dos homens, em alguns casos, quando cada um deles ainda é prisioneiro do relacionamento anterior, com todo o seu calor e poder. O relacionamento tem um impacto na esposa por um longo tempo e quando ela se divorcia, pode vir a ter uma vida triste, de desconsolo, ou conviver com o pesar do que perdeu, caso seu matrmônio tenha sido bom. A mulher, neste caso, não está pronta para o casamento imediato com outro homem e a ter com ele outro relacionamento. Esta ideia é confirmada se observarmos que o período de espera não é confirmado, a não ser após o ingresso numa relação sexual completa. Isso significa que a relação eleva o grau de tensão do estado psicológico da mulher, por estar ela em extrema necessidade, após o divórcio e antes do casamento com outro, o que seria uma oportunidade de se recuperar e esquecer o relacionamento anterior.

Quanto ao período de espera por morte, deve ser maior que o período por divórcio em quarenta dias, tendo em conta a situação do luto da mulher. Esta é uma questão humana, emocional, de respeito à fidelidade e uma expressão de pesar da mulher pelo desaparecimento de uma bela relação que a ligava àquele homem.

C - Tipos de privação Nesta momento, introduzimos o tema da privação sexual por causa da ausência do marido e de notícias a seu respeito, bem como de disfunções sexuais entre os homens. Primeiro: Se o marido se ausentar e ninguém souber o seu paradeiro, se está vivo ou morto, se as despesas de sobrevivência forem constantes e obtidas a partir de qualquer fonte, a esposa não pode se separar do marido, até que ela saiba da sua morte. Se não encontrar ninguém que a sustente, é permitido submeter o assunto à apreciação da autoridade legítima, que irá procurar o marido durante quatro anos. Se nada for descoberto, o divórcio é permitido, com cumprimento do período de espera e um novo casamento.

O abandono do casamento instituiria uma forma de anarquia, o que resultaria na multiplicação de graves complicações psicológicas

Há, também, um benefício quanto à saúde gerado pelo período de espera: a necessidade de passagem de um período após o contato sexual ocorrido com o primeiro homem. Se o período de espera for interrompido e a mulher tiver um relacionamento sexual, isso aumenta o risco de câncer de ovário. Por isso, o período de espera é necessário para o rendimento das mulheres, tendo em conta o estado psicológico seguido ao divórcio, e tendo em conta o estado de saúde, bem como, o impacto no desenvolvimento do feto antes do nascimento. Esta, realmente, é uma 36 - Revista Islâmica Evidências

Segundo: Se um dos cônjuges descobrir, após o casamento, um mal que cause impotência, caso fique provado isso antes da relação sexual, é permitido ao membro são do casal dissolver o matrimônio sem divórcio e sem recorrer à autoridade legítima – a não ser em alguns casos, os quais não mencionaremos nesta oportunidade. Mas, após a relação sexual, a impotência não é motivo para anular um relacionamento, da parte da mulher. (Nossos estudos continuarão na próxima edição, se Deus quiser).


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Saudade

Wajih Kansou (*)

Algo profundo dentro de nós partiu com o

Sayyed Fadlallah

C

om a partida do Sayyed Muhammad Hussein Fadlallah, você fica ciente de que algo mudou em sua vida para sempre, que a sua existência perdeu um gosto ou sabor especial em relação ao significado da verdade; você sentia isso e pensava que emanava de você. Então, descobre, depois da morte do Sayyed, que esse sentimento foi plantado no seu interior, por intermédio de suas palavras, que permeiam os ímpetos de sua mente, e de suas expressões, que entram em seu coração sem permissão. Ouvir suas notícias, de perto ou de longe, fazia você se sentir sempre seguro. Era-lhe suficiente estar lá, conversando e recebendo pessoas, anunciando uma posição ou emitindo um parecer consultivo, o que fazia você se tranqualizar, pois seu direito estava protegido com a simples presença dele. Tinha-se a certeza de que o espaço de sua existência estava em expansão com cada ato e cada pensar dele, os quais ele compartilhava e dos quais você tinha a sua cota, fosse quem fosse, de tudo o que ele dizia e declarava. Na sua visão havia um mundo amplo, um horizonte acolhedor repleto de cores, convidando-nos a estar nele, como somos, sem a necessidade de alterar o nosso local, ou transferir-nos

do círculo de uma fé particular para o círculo de outra fé. O mundo do Sayyed vinha até nós e nós não precisávamos viajar até ele. O seu toque humanitário - pelo qual ele pagou caro - estava, em qualquer lugar e tempo, nele. Com o Sayyed, terminaram as guerras de crenças, o choque das religiões quanto à soberania suprema. Deixou de haver ateu no mundo, ou qualquer significado em dizer que alguém é impuro. A sua condição humana, com a qual Deus o criou à Sua imagem, era a pureza que nada torna impura.A sua humanidade era o milagre que fazia de qualquer um, em casos extremos de ateísmo expresso, um crente. A teologia cristã tornou-se para ele uma diligência na crença, pertencente ao conhecimento especial de Deus, o que tornava a sua divergência com o cristianismo sobre a idéia de Deus algo não distinto de sua divergência com qualquer outra doutrina islâmica. Aos olhos do Sayyed e do ponto de vista histórico, Deus está permanentemente presente por trás de todos esses sistemas que procuram a Sua existência, desde que seus defensores vivessem e sentissem a Sua presença na boa palavra em direção aos outros. O cristianismo penetrou, por intermédio do Sayyed, no recinto da fé dos muçulmanos, a

Era-lhe suficiente que estivesse lá, conversando e recebendo pessoas, anunciando uma posição ou emitindo um parecer consultivo

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partir de uma ampla porta aberta, em parceria de fé, cuja missão é aliviar a dor do mundo e dar sentido à sua vida, fazendo-a digna de ser vivida, mantendo a porta aberta, sem fechá-la em face de todas as religiões do mundo e seus seguidores. Ele nos deixou uma regra: “Viva sua humanidade e chegará a ver Deus”. O Sayyed tinha todas as habilidades de persuasão, não falava sem ter precisão do argumento e, ao mesmo tempo, manejo quanto às provas. Ele não queria que você se submetesse a ele, mas o incentivava a discordar dele, a explorar as lacunas na idéia ou no ponto de vista defendido por ele. Não lhe era confortável receber elogios frequentes, e o agradava o desafio, que aumentava o nível de debate e de reflexão. Disse-nos na lógica do “Diálogo no Alcorão”: “O Alcorão foi revelado, na sua composição, em forma de diálogo e a base do diálogo constitui em diferenças, que podem alcançar o grau de contradição.”

preocupar com o cheiro do animal morto, pois a beleza da brancura de seus dentes permanece. Se estivesse de acordo ou discordasse do Sayyed, você continuava sob o seu manto e caminhava sob a sua proteção, sem precisar de um passaporte ou uma senha para entrar. Concordar com ele numa certa opinião é ingressar na linha na qual ele se antecipou em relação a nós. O não concordar com ele constituía-se em virtude para ele, porque passou a vida buscando proteger o nosso direito de emitir a nossa opinião livremente. Era o homem através do qual você acha que a sua opinião tem valor quando encontra uma testemunha ou um apoio, em palavras e ideias. Você daria a sua opinião um valor, vangloriando-se abertamente de que era diferente da opinião do Sayyed e, em ambos os casos, permaneceria cativo e em débito para com ele, porque era um berço em terra sólida a nos sustentar. Ele removia de nossas cabeças os sótãos que dobram e vergam a nossa mente e impedem que nossa visão atinja a borda do céu.

Na sua visão havia um mundo amplo, um horizonte acolhedor repleto de cores, convidando-nos a estar nele, como somos, sem a necessidade de alteração

Ele nos mostrou como o Alcorão transferiu, com fidelidade, o diálogo entre Deus e Satanás e a controvérsia entre os profetas e seus adversários, o diálogo do Profeta (1) com seus seguidores, sem preconceito de qualquer das partes. A disputa não significa a ausência dos participantes. É possível que, se for levada com lógica de discussão, como a lógica do Alcorão, torne-se uma fonte de fertilidade e criatividade. O humanismo de cada um é refletido, aos olhos do Sayyed, nos outros mais do que na sua simetria e identificação. A vida é enriquecida pela diferença, não pela congruência e semelhança. Ele sempre repetia as palavras: “Não encurralem os pecadores no canto, pois, dessa forma, irão incentivá-los a cometer mais pecados; mexam com a bondade inerente a eles”. Não devemos nos

Ele foi acusado, uma única vez, “na sua religiosidade e no seu caráter”. Muitos hesitaram e se acovardaram em defendê-lo; muitos correram para atacá-lo, para unir-se à corrente montada contra ele e beneficiar-se da liquidação de contas privadas com ele. Mas, não foi necessário, então, alguém defender a credibilidade, a integridade e a fé do Sayyed. Ele se distanciou da controvérsia, que sempre termina onde começa. Seus adversários queriam nos devolver ao tempo da Saquifa (2) e lá permanecer; queriam que nos preparássemos e nos armássemos de novo para as batalhas de Jamal e de Siffin (3), enquanto o Sayyed queria que olhássemos à frente, nos preparássemos para o futuro com o rigor da ciência, da mente e a sabedoria da fé. Sua resposta foi fazer uma prece

(1) I.é, o Profeta Muhammad (S) (NE). (2) Edificação coberta sob o qual alguns muçulmanos prestaram juramento a Abu Bakr como sucessor do Profeta Muhammad (S), quando este faleceu, revogando a nomeação do Imam Ali (a.s.), feita pelo próprio Profeta quando ainda em vida (NE).

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por eles, para que Deus os perdoasse, pois ele os perdoava. O Sayyed os derrotou com o seu silêncio e os silenciou pelo seu perdão. Ele os deixou sentados no fundo do poço da história e seguiu, deixando-os ressentidos. Ele seguiu, deixando-os com seu discurso vazio e completou o seu caminho...

o papel dos demais. O Sayyed cancelou o dualismo da religião e da mente e aterrou o fosso entre a religião e a ciência. A ciência é a autoridade final em todos os acontecimentos e manifestações do universo. Ela é a prova da religião, de modo regular. Da mesma forma, a religião é a dona da última palavra em iluminar a escuridão da alma e a guia e o mentor da ciência na formulação de metas e objetivos. O Sayyed recusou definitivamente fornecer qualquer texto religioso sobre as conquistas da ciência. O mês do Ramadã (4) para ele era uma atividade astronômica, da mesma forma que é uma estação para os alimentos e uma sublimidade para o espírito. A dedução para ele

O cristianismo penetrou, por intermédio do Sayyed, no recinto da fé dos muçulmanos, a partir de uma ampla porta aberta, em parceria

Ele queria a renovação, mas teve o cuidado quanto ao impedimento e o conflito. Ele agiu para desmantelá-lo por dentro e passou a consolidar, com tranquilidade, uma nova ordem prevalecente. Manter um equilíbrio entre os componentes da consciência foi para ele o desafio mais difícil, porque lhe garantiu toda a capacidade de comunicação, com todos os segmentos, influenciando-os, preservando a presença e o papel de cada um sem anular a presença e

(3) Refere-se o autor a batalhas nos primórdios do Islã, que opuseram os seguidores do Imam Ali (a.s.) e dos demais califas (NE). (4) O 9º mês do calendário lunar islâmico, durante o qual, por 30 dias, os muçulmanos fazem jejum entre o nascer e o pôr do sol (NE).

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era uma forma de descobrimento do milagre da Criação e não a negação do Criador ou a manipulação de Suas regras. O Sayyed saiu do discurso de comparação entre o Islã e o Ocidente e trabalhou para que o Ocidente fosse um espaço propício para divulgar o Islã, que este fosse absorvido no sistema ocidental, assim como quis que os muçulmanos digerissem o Ocidente e se realcionassem com as suas conquistas positivas. Em nenhum momento falou sobre a invasão cultural do Ocidente, porque incluiria o reconhecimento da derrota, da fraqueza e da vulnerabilidade, mas falou sobre o relacionamento baseado na força de vontade, sem amplificação ou diminuição do seu potencial. Procurou um relacionamento transparente, com a troca de experiências com o Ocidente: “Tragam o que vocês têm que terão surpresa com o que temos”.

O Sayyed destinguiu entre o que conhecemos de leis e significados religiosos, de um lado, e o que o texto religioso quer dizer e o que “Deus e Seu Mensageiro” realmente desejam, do outro. Ele trabalhou para retirar os acréscimos, individuais e coletivos, que são acrescidos ao texto e são aplicados a ele, por vários pretextos, tais como fama, unanimidade e costumes idiossincráticos, tornando-os elementos pertencentes ao texto. Assim, modifica, em seguida, sem visão, os efeitos do texto e o recebimento das suas utilidades originais. Por isso, o Sayyed causou espécie com algumas de suas inúmeras sentenças. Se não fossem as agressivas e maldosas campanhas contra a sua pessoa, teríamos ouvido muito dele e teríamos visto o que nos surpreenderia ainda mais.

Se estivesse de acordo ou discordasse do Sayyed, você continuava sob o seu manto e caminhava sob a sua proteção, sem precisar de um passaporte ou uma senha para entrar

O que mais perturbava o Sayyed e aos outros é que o ijtihad (a diligência) (5) religioso se transformasse em imitações estáticas, com as quais se obtivessem sempre os mesmos resultados. O ijtihad, para ele, é um retorno à pesquisa e ao debate desde o início, sem reconciliações, concorrência, busca de fama ou consenso. Ele empreendeu o seu extremo esforço para redirecionar o sentido do Texto Sagrado, entender o seu significado e descobrir o seu propósito. Trata-se de alguma forma de comportamento de protesto, com tendência científica de se rebelar contra o que é prevalecente e familiar, bem como eficácia presente e liberdade de pensamento. Em consideração aos caprichos dos antecessores, a diligência é uma tendência a ser relatada e uma perspecção sobre apreensões de sutis projeções dissimuladas de santidade.

O Sayyed quis que a ideia de pertencer à Escola Xiita fosse afastada da falsa imagem do fanatismo. Era-lhe penoso tornar o Xiismo como as outras seitas, uma configuração fechada, dominada pelas relações tribais, controlada por uma minoria de mente concebida pelo regionalismo. O Xiismo não é uma identidade que aw herda dos pais; é uma convicção aliada ao comprometimento de atitudes, de disciplinas morais e de sublime senso humano. O Xiismo tem uma maneira de viver e de pensar e uma linha de liberdade só usufruída por quem o aceita voluntariamente e resolve seguir as suas exigências. O Sayyed não precisou recorrer às listas de certificados com a sua diligência e elegibilidade para ser referência. Não agiu a fim de auferir o reconhecimento de sua referência. Ela foi uma sequência natural de sua base científica, de seu particular bom gosto de jurisprudente. A referência foi ter com o Sayyed, e encontrou-se com ele,

(5) I.é, o “raciocínio independente” usado por um jurista ao aplicar a Shari’a (ou legislação islâmica) a circunstâncias contemporâneas (NE).

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porque ele lhe deu o que a afastou da monotonia, da estagnação e do personalismo. Ele lhe proporcionou um discurso que liberou a sua esfera de influência humanitária e global e acrescentou-lhe de seu particular sabor, fazendo-a vibrar novamente com tudo o que é corajoso, tornando o seu processo jurídico prático uma fonte fácil, que fez com que as pessoas gostassem de adorar a Deus. O Sayyed indicou em seus primeiros escritos, especialmente no seu livro: “O Método da Convocação no Alcorão”, que o Estado Islâmico é fundamental não porque visa para si, mas pelo que proporciona realmente, pelos progressos na divulgação e na defesa dos valores da religião. O Estado Islâmico não se constitui de estruturas e sistemas de autoridade e disposições; é algo que tem de viver em nossos corações e experimentamos em nossa vida, é algo refletido em nosso comportamento.

tude de alguém. O apoio do Sayyed à Revolução concentrou-se no aconselhamento e no aviso quanto aos perigos que a rondavam. Ele estava assustado com a corrida irracional à idéia da Revolução, que começou a produzir imagens de lealdade enorme, obediência absoluta e subordinação completa, mesmo no pensamento e na cultura, e a promover a realização de “culto cultural”, o que significa a abolição da mente sob o pretexto de adoração a Deus. O Sayyed, nos anos oitenta do século passado, publicou “Reflexões Sobre o Processo de Trabalho e os Trabalhadores”, repleto de alertas para corrigir o passo da Revolução e advertiu fortemente quanto à transição da “anulação da linha”, ou seja, a obediência incondicional ao comando, por representar efetivamente os valores da religião, para a “linha de anulação”, ou seja, a personificação da lealdade ao comandante e sua transformação em um ponto central independente, que compete com a base em que foi estabelecido o estado da Revolução.

A ciência é a autoridade final em todos os acontecimentos e manifestações do universo. Ela é a prova da religião, de modo regular

Assim, ele alertou quanto ao perigo da transformação do meio no fim e de sermos reféns das autoridades que atuam de forma invisível e sem a nossa vontade ou consciência. Que devemos seguir os valores da religião para organizarmos os interesses que se formam com cada nova autoridade, transformando os princípios da religião em regras ao seu redor de quem domina o governo. O Sayyed confirmou que o Islã não precisa de uma autoridade em particular que o proteja ou de arranjo político para ser aplicado. Ele está apto a ser vivido inteiramente em qualquer lugar, porque possui a flexibilidade doutrinária e alta capacidade de absorver e de se adaptar a qualquer circunstância ou situação. O Sayyed viveu como opositor e revolucionário, que aspira estabelecer um estado de justiça, sem esquecer as complexidades da realidade ou transcendê-las. Ele acompanhou a Revolução Islâmica no Irã e deu seu apoio para defendê-la, sem preocupar-se em agradecimento ou a grati-

Em tempo de proliferação de atitudes de entusiasmo para transformar o mandato do jurista em princípio da transcendência ideológica acima da investigação e da análise, depois de ter sido, basicamente, uma questão de apreciação, o Sayyed via que a importância não está na capacidade ou incapacidade do jurista, mas depende do bom gosto de jurista, das circunstâncias do tempo e do local do processo de ijtihad. A importância está na continuidade da diligência, sua persistência e proteção, como uma estrutura fixa para a produção de todas as declarações de jurisprudência. Orgulhar-se de qualquer idéia, emocionalmente, e trabalhar para santificá-la são atitudes que se impõem ao resto das idéias e nos levam, gradualmente, a fechar a porta do ijtihad, transformando a atividade de reflexão, análise, comprovação e crítica em atividade de controle sobre uma lista de disposições quanto à incredulidade ou ao disciplinamento do opositor. Revista Islâmica Evidências - 43


Diálogo interreligioso

Bispo Salim Ghazal (*)

Um homem Religioso e um Homem de Fé

A

distinção dos homens notáveis se manifesta quando se ausentam fisicamente, enquanto desfilam para a morte, regressando pela memória dos que se mantêm na vida. Eles ficam presentes no pensamento, na consciência e no resplendor inesquecível. A vida não é medida pelo número de anos, mas pelos feitos e atos, em que se estreitam o tempo e o espaço. Os homens notáveis tornam-se, então, parte da marcha da história e da sustentabilidade do mundo.

Hussein Fadlallah (que Deus faça descansar a sua alma), através de sua equilibrada sabedoria, sua preponderante mente e seu tolerante amor, que se manifestou a serviço do povo e da sociedade. Ele passou a vida em constante diligência e investigação ímpar, pesquisando de forma séria e útil, buscando facilitar a vida das pessoas nos assuntos da religião e do mundo.

A distinção dos homens notáveis se manifesta quando se ausentam fisicamente, regressando pela memória dos que se mantêm na vida

Com este calendário padrão, que não se enquadra no bojo das mudanças circunstanciais, temos de olhar para a vida do personagem, do Grão-Ayatollah Mohammad

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Conheci Sua Eminência pessoalmente no início dos anos 1990, quando o visitei, acompanhado por emissários do Vaticano. Também mantivemos contatos quando da visita de delegações estrangeiras da Europa, por intermédio de seus escritos e suas palestra, que tratavam de aspectos da vida nas dimensões espirituais e seculares, bem


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como por meio do nosso trabalho conjunto nas áreas de diálogo e convergência, para confirmar nosso ponto de vista um ao outro e aceitarmo-nos mutuamente, apesar das divergências políticas e ideológicas. Estas questões foram e ainda são o problema do ser humano, desde o início da criação, onde vimos Caim e Abel em uma crise que se originou da incapacidade de um irmão aceitar o outro, por causa da inveja, do egoísmo e os desejos do mal. Nesse padrão, as pessoas viveram na longa caminhada da história sem poder olhar um para o outro, a não ser através de uma dimensão relacionada ao ego, o que os fez mais tarde, devido à diversidade, à pluralidade e à diferença em todos os níveis, se afastarem, beligerantes entre si, envolvendo-se em guerras e conflitos devastadores que produziram muita dor e horror. O egoísmo e o ódio em relação ao outro tornaram-se auto-destrutivos.

precisão, aqueles fatores subjetivos que são sagrados, que desenhamos na nossa imaginação e que impedem o entendimento e o debate livre, porque ficamos com medo de abalar a imagem das coisas sagradas, embora o ser humano tenha herdado comportamentos e crenças que nada têm a ver com a realidade da fé. Por isso, Sua Eminência lançou a ideia: “sem tabus no diálogo”. Disse ele: “Podemos entrar em diálogo a respeito de tudo. Se ficar claro aos interlocutores que não há um senso de agressão, de um para o outro, fica a certeza de procederem de forma a permitir o diálogo sobre tudo.”

A essência do problema está no falar uns com os outros por intermédio do que nós queremos, não daquilo que o outro quer dizer

1. Muhammad Hussein Fadlallah e as questões do diálogo Quando Sua Eminência assumiu o diálogo entre as religiões e os grupos étnicos, sentiu que era necessário remover os obstáculos que impediam a sua realização efetiva. Com

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A essência do problema, caros irmãos, está no falar uns com os outros por intermédio do que nós queremos, não daquilo que o outro quer dizer. Por isso, o diálogo se transforma em um diálogo subjetivo e unilateral. É o que chamamos de monólogo. O ponto de vista do diálogo e da convergência de idéias iluminadas a respeito dos quais Sua Eminência falou está de acordo, em muitos aspectos, com o ponto de vista da Igreja emitido pelo Concílio Vaticano II, que estabeleceu em suas decisões: “A Igreja procura, de acordo com a sua missão, apoiar a unidade e o amor entre os seres humanos no que é comum entre as pessoas. Assim, a Igreja não rejeita o que é sagrado para outras religiões, mesmo


que seja de método ou modo de expressão diferentes. A existência do bem e da verdade nessas religiões é devido ao ato do Deus Onipotente. Por isso, os cristãos devem reconhecer esses elementos e ajudar na manutenção desses valores espirituais e morais”.

te. Queremos, também, que as instituições islâmicas melhorem o seu desempenho em matéria de direitos humanos, com base nos valores islâmicos, no desejo de cooperação e convergência, na rejeição à injustiça social, política e religiosa em todo o mundo”.

Podemos considerar a dimensão da sabedoria deste mundo fabuloso e das sóbrias autoridades religiosas e teológicas, bem como sua longa visão em vários campos, ao nível da Conferência Islâmica, onde surgiram a abertura e o desenvolvimento efetivo, em muitas circunstâncias e opiniões que refletem o espírito de expectativa que ultrapassam os limites de interesses sectários e de facções estreitas para convergir para o ser humano num escopo mais amplo, proporcionando-lhe um novo padrão de vida que não está em contradição com a essência da fé, nem cai na armadilha da ignorância e das tradições restritas.

Na sua abordagem do tema da prudência, Sua Eminência disse que a sabedoria é o título da missão dos profetas. Eles a viveram no seu método de convocação e a ensinaram às pessoas, facilitando-lhes a sua compreensão, convocando-as a andar no caminho indicado. Esta é uma questão difícil e complexa, sem dúvida, que necessita de esforços intelectuais, amplos estudos, profundos pensamentos. Daí nasce a dialética entre a sabedoria e a bela exortação. É imperativo que o ser humano se solte, que o espírito se tranquilize, que a mente pense com cuidado. Da mesma forma que o Alcorão trata da realidade com sabedoria, vemos que é necessário que a sabedoria se coadune com a flexibilidade e a flexibilidade com a bela exortação e os bons métodos.

2. Muhammad Hussein Fadlallah e as relações com o Ocidente Sua Eminência considerava que não há Oriente nem Ocidente, mas um mundo todo, que se tornou uma só aldeia global, uma só unidade geográfica. Não há mais barreiras de restrição, mesmo em questões culturais. Isso é o que ele disse expressamente: “Nós, e da nossa posição muçulmana, convidamos para um amplo diálogo islâmico-europeu, envolvendo personalidades, partidos e centros de estudo, para esclarecer o verdadeiro ponto de vista do Islã a respeito do Ociden-

O Islã deseja que o ser humano enriqueça a sua cultura científica com os segredos do universo e considera o pensar uma obrigação – pois ele prefere uma hora de pensamento a um ano de culto. O Islã move-se sempre na lógica do pensamento e da ciência, tornando-se o movimento perpétuo na direção do descoberimento dos segredos do universo e da vida humana. Se algumas autoridades comprometidas com um pensamento em particular ou uma opinião em especial perseguem quem as contraria pela força injusta,

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o Islã em si não carrega o peso desses atos e comportamentos. A arrogância autoritária é a única maneira de pensar e agir que assume a responsabilidade de santificar e proibir as indagações intelectuais, científicas, políticas e outras. O Sayyed Muhammad Hussein Fadhlallah teve uma rica vida de piedade, de experiência e conhecimento, de dedicação e fé intelectual. A área de sua vida constituia em círculo repleto de desafios para enfrentar a realidade, livrando-se dos impasses que cercam a mente e o espírito, vedando o homem de alçar vôo na atmosfera da liberdade e da verdadeira fé, que ele se comprometeu a pregar. Liberdade que abre o pensamento humano na sua totalidade, fazendo-o assentar-se em base inabalável perante as emoções e o comportamento instintivo, muito distante da fé correta.

intelectual, de comunicação constante entre os seres humanos – todos os seres humanos – ao longo dos caminhos da vida. Em suma, este grande viajante, cuja falta iremos sentir por todo o tempo, em respeito à sua memória, é mais do que um homem religioso... É um homem de fé, um ser eminente, mergulhado na graça, puro por dentro, de invejável eloquência e de coração tolerante. Sim, era um homem de fé viva, um educador no sentido correto da fé, com mentalidade serena, que procurava a verdade sem a presunção do confisco ou do monopólio.

Nossas preces ao Senhor. Que acolha Sua Eminência na sua santa paz e que nos guie para a reflexão, para o conhecimento do caminho da verdade

Neste espaço imenso, rico em conhecimento e fé, Sua Eminência, o Sayyed Fadhlallah, passou toda a sua vida, para continuar, na sua ausência, como na sua presença, o argumento religioso, a referência científica e de jurisprudência, em tudo que possui este campo do conhecimento em termos de valores espirituais e meios de convergência

Mohammad Hussein Fadhlallah, com suas ideias e sua ética, era um amante de Deus no homem. Sua principal preocupação era que o homem soubesse que Deus o ama e que ele, que é amado por Deus, é capaz de amar ao outro, qualquer um, considerando-o irmão. Nossas preces ao Senhor. Que acolha Sua Eminência na sua santa paz e que nos guie a todos para a reflexão, para o conhecimento do caminho da verdade e da salvação, a agirmos com a inspiração da fé e do amor. E como precisamos, hoje, do calor da fé e da luz do amor!

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Artigo

Francis Guy(*)

Francys Guy, embaixadora da Inglaterra no Líbano

O Passamento dos Homens Respeitáveis

U

m dos privilégios de ser um que mais admiro. É uma pergunta indiplomata é a oporjusta, obviamente, e muitos bustunidade de se cam dar uma resposta política Um dos privilégios encontrar com própria. Eu costumo evitar de ser um diplomata é a muitas pessoas, grandes oportunidade de se encontrar responder, referindo-me e pequenas, apaixonadas com muitas pessoas, grandes e àqueles que eu gosto de e furiosas. As pessoas no conhecer mais e àqueles pequenas, apaixonadas Líbano gostam sempre de que me impressionam mais. e furiosas me perguntar sobre o político Até ontem (1), a minha res-

1 - O Sayyed Mohammad Hussein Fadhlallah faleceu no dia 4 de julho de 2010 A.D. (NE).

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posta preferida era o Sayyed Mohammad HusEu me lembro bem quando fui nomeada sein Fadlallah, chefe do clero xiita no Líbano embaixadora em Beirute. Um conhecido mue o dirigente que muitos muçulçulmano me procurou para me dizer como eu estava com sorte, pois manos xiitas admiram em Um conhecido teria a chance de conhecer o todo o mundo. Ao visitámuçulmano me procurou -lo, você pode ter cerSayyed Mohammad Huspara me dizer como eu estava teza de um verdadeiro sein Fadlallah. Realmente, com sorte, pois teria a chance de ele estava certo. debate, uma discussão respeitosa e ao deixar conhecer o Sayyed Mohammad Se eu estou triste por sua companhia, irá se Hussein Fadlallah ouvir a notícia de seu falecisentir uma pessoa melhor. mento, sei que a vida de outras Para mim, foi o efeito real de pessoas serão verdadeiramente muito um verdadeiro homem de religião, que tristes. O mundo precisa de mais homens como deixa um impacto em todos que o encontram, ele, dispostos a se abrir às diferentes crenças, não importa qual é a sua religião. reconhecendo a realidade do mundo moderno e

Ontem o Sayyed Fadlallah faleceu. O Líbano de hoje não será como o Líbano de ontem. A sua ausência será sentida muito além do litoral do país.

dispostos a enfrentar as restrições – os antigos limites. Que ele descanse em paz.


Diálogo espiritual

O Eminente Sayyed Fadlallah (R) conversa com a Senhora Azzahrá (a.s.) 52 - Revista Islâmica Evidências


Em uma entrevista com Sua Eminência, a autoridade religiosa Sayyed Mohammmad Hussein Fadlallah (r.a.) alguns anos atrás, um jornalista colocou algumas questões sobre o que diria se fosse convidado a beatificar-se, e perguntou o que diria quando se encontrasse com a sua avó pura (1), a Senhora das Mulheres do Universo, a Senhora Fátima Azzahrá (a.s.). No que se segue, apresentamos a resposta de Sua Eminência, que está sendo publicada pela primeira vez.

Pergunta: Quando se encontrar, se Deus quiser, com a sua avó, Azzahrá (a.s.), o que imagina dizer-lhe? Resposta: Eu creio que direi a ela: Vivi contigo durante toda a minha vida, com toda pureza, que representa o ser humano imaculado em todos os campos da pureza. Vivi contigo em cada aspecto da consciência, que refletiu tua imagem como a primeira mulher que viveu na consciência dinâmica do Islã, a partir de uma posição de responsabilidade, de uma posição de infalibilidade. Vivi contigo em todos os seus agravos, que eram os agravos do direito pela perseguição imposta pelo mal.

nhora das Mulheres do Universo, de forma a que o mundo humano a respeitasse, em todo tempo e lugar, e se curvasse perante ela, pelas perspectivas de grandeza de sua personalidade, manifestas em inúmeras dimensões. Pergunta: Isso não seria mera queixa transmitida a ela (a.s.)? Resposta: Eu acho que estaremos lá (2), se vivermos com a misericórdia e a bondade de Deus; não iremos viver o clima de preocupação e de queixa, porque lá há um mundo todo novo que nos faz esquecer o que vivemos aqui

Vivi contigo pela condição do ser humano que conseguiu elevar a mulher à posição de infalibilidade, ascender as mulheres ao nível da consciência, ao grau da pureza, ao nível da desafiante responsabilidade, calorosa e sólida, ao nível da ciência aberta a todas as verdades do Islã. Vivi contigo e falei sobre ti além do que os outros falam, quer dos que exageram a seu respeito, ou dos que se afastam. Vivi contigo para mostrar às pessoas a Se1) Na escola de pensamento islâmico Jaafarita (também chamada Xiita) o título “Sayyed” é dado aos descendentes do Profeta Muhammad, pelo casamento de sua filha Fátima (a.s.) com o Imam Ali (a.s.). Por isso, diz-se, no texto, que ela é a “avó” do Sayyed Fadhlallah (r.a.) (NE) 2) Refere-se Sua Eminência, em sua resposta, à Outra vida (NE). Revista Islâmica Evidências - 53


Boa Guia

D

Faten Qubeisi

eus te abençõe, você é uma das minhas filhas. Você é fruto da minha educação.”

Assim, o grande homem me tratava cada vez que eu o procurava. Primeiro, eu pensava que essas suas palavras eram proferidas por cortesia e civilidade. Mas, rapidamente desco54 - Revista Islâmica Evidências

bri que ele não falava com a língua, mas do fundo de seu coração. Aquela vibração que verte o amor e a abundância de compaixão por todos os servos de Deus. Hoje, o Sayyed Muhammad Hussein Fadlallah, o pai de todos, o pai que me deu a honra da minha educação, foi precedido por meu


cisava de uma rápida publicação. pai para a acolhida do Criador, em três meses. Foi uma espécie de cumplicidade de fatalismo O Sayyed tinha uma grande virtude ... Eu de paternidade na minha vida. Na minha última me lembro quando fiquei na frente dele, pela entrevista com ele, para explorar a visão reliprimeira vez, com toda minha confusão e migiosa sobre o fenômeno da bancarrota dos exenha boca seca, porcutivos, a gravidade da que consegui a entredoença que o acometeu vista. Eu era ainda esnão lhe tirou o sorriso, Rapidamente eu descobri tudante universitária, as boas-vindas e as calode graduação, que aquele homem não falava àe beira rosas palavras aos hósjornalista estagiária pedes. Fiquei surpresa no jornal “Assafir”. com a língua, mas do fundo pelo seu interesse em faSendo eu uma “foca” lar sobre o lado pessoal de seu coração (1), não me tratou, da minha vida, no tempo naquele dia, como de extrema importância inexperiente, mas para a sua saúde. Comeencheu-me com comentários e boas-vindas, çou a me dizer: “Gosto de lhe perguntar sobre como alguém que pega à minha mão a camisua vida”, e acrescentou: “Espero que suas prenho da carreira. E assim foi. Aquela entrevista ocupações tenham terminado.” me levou a falar, apesar de ser eu apenas uma E como uma graça de caindo do céu, ele estava fazendo a prece que diz: “Que Deus lhe abra as portas de uma vida feliz e produtiva”. O espírito caudaloso me enchia de temor, mas fazia-me aproximar mais dele do que temê-lo, levando a ele os meus problemas, à margem da capacidade profissiona. As chaves pareciam não abrir as portas, a não ser por meio de sua mágica: “paciência”.

Que homem fabuloso era ele, que, apesar das ocupações com o pensamento, a política, literatura, religião e os problemas que se estendem ao longo do mundo árabe e islâmico, roubava o tempo e pregava a bênção da abertura do espírito, a fim de agradar a todos. Ele dizia ao seu conselheiro, Hani Abdullah: “Não deixe nenhum jornalista triste”. Nunca deixou de me atender. Estava sempre disposto a responder às minhas perguntas por telefone, quando eu pre1) 2) 3) 4)

aprendiz, sobre todas as questões controversas a respeito da Shari’a (2).

O Sayyed tinha um vasto horizonte. Eu ficava cada vez mais admirada ao descobrir algo mais a seu respeito. Eu avaliei a magnitude de sua resistência - efetivamente e não por meras palavras - quando ele insistiu em cumprir a oração de sexta-feira, enquanto os aviões israelenses bombardeavam Bir al-Abed com mísseis, durante a guerra de abril de 1996. Apesar das advertências naquele dia, ele subiu ao púlpito da mesquita “Imam Al-Redha” (a.s.) para expressar sua mensagem com o entusiasmo da juventude e a insistência dos mujahidin, injetando sangue nas veias do povo, por meio da solução: “Al-Dhahie (3) em troca de Kiryat Shmona (4)”. Ele sublinhou que o bombardeio a Al-Dhahie não era um piquenique e não podia causar rendição. Apelou para a resistência:

“Foca é a expressão usada nas Redações de jornal para designar os jornalistas que estão começando na profissão (NE). Código legal islâmico de conduta (NE). Bairro ao Sul de Beirute, capital do Líbano (NE). Cidade situada ao Norte da Palestina (NE).

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bombardear as colônias e os assentamentos do inimigo, com base no princípio de “guerra por guerra”.

“Que Deus o cure”. Não conhece o ódio quem conhece a Deus. Com simplicidade, esta era a sua convicção.

Como espetáculo que volta à memória, a O Sayyed construiu uma longa história na Mesquita “Imamein Hassanein” faz lembrar o luta contra a injustiça e a corrupção. Ele era codia de sua inauguranhecido por sua rejeição ção, em 18 de Maio a uma soma enorme em de 1996. O local dinheiro, oferecida por Fiquei surpresa pelo seu acolheu milhares de um rico político do Líinteresse em falar sobre o lado pessoas de diferenbano, colocando que netes, correntes e tennhum dinheiro poderia pessoal da minha vida, dências, para cumcomprá-lo e que ele não no tempo de extrema prir suas orações de estava a serviço de um sexta-feira, liderados importância para a sua saúde projeto materialista, que por Sayyed Hassan aceitasse suborno. Nasrallah (5). Hoje, o perdemos. O Sayyed Fadhlallah sempre foi criticado por emitir fatawa (sentenças jurídicas) que elevavam as pessoas de uma situação de capitulação e rendição frente à imitação a um lugar digno de humanidade. Talvez, a entrevista ao “Assafir”, na qual ele criticou, durante uma cerimônia, pela primeira vez, alguns procedimentos adotados durante as cerimônias de Ashurá (6), em 27 de Maio de 1996, tenha aberto uma porta de infinitas críticas contra ele. No entanto, com paciência e a compreensão de alguns, esforçou-se mais de uma vez em fazer chegar a sua voz equilibrada a uma atmosfera livre de hostilidade. O Sayyed tinha grandeza e sublimidade. Recordo-me naquele dia de entrevista, quando lhe transmiti a minha rejeição ao que foi dito sobre ele por um clérigo no Líbano. Ele respondeu com um sorriso puro e comentário firme:

As preocupações da pátria crescem com a sua ausência. Precisamos da sua sabedoria e de seu entusiasmo, daquele apoio para sobrepujarmos o assédio do tempo. Não nos renderemos depois de sua partida, pois ele não está ausente. A sua sombra não desapareceu e sua voz não desvaneceu. Eu o procuro hoje no Sayyed Ali e no Sayyed Jaafar (7), para vê-lo por intermédio deles. Procuro me tanquilizar de que continuará vivo, me inspirando. Minha tristeza está diferida, não vou chorar a sua morte, minhas lágrimas se congelaram por atordoamento. Ontem foi o seu venerável féretro, para o destino final ... Vai começar hoje a viagem da dor? Sou sua “filha”; quem irá me dar condolências pela sua morte? Você é meu “pai”, minha referência idiossincrática ... O que irá compensar a sua perda?

5) Secretário-geral do Partido de Deus, no Líbano (NE). 6) O Sayyed Fadhlallah, assim como outros eminentes jurisconsultos, era um crítico da prática de auto-flagelação, que alguns muçulmanos mal orientados adotam durante a lembrança do Martírio do Imam Hussein (a.s.), um período sagrado chamado de “Ashurá” (NE). 7) Filhos do Sayyed Fadhlallah (NE).

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Despedida Momentos Finais do Ayatollah Sayyed Fadlallah (que Deus esteja satisfeito com ele) no hospital

A

autoridade religiosa, Sayyed Mohammad Hussein Fadlallah (R), foi internado no hospital domingo, dia 8 de Rajab de 1431 A.H. (20 de junho de 2010), urgentemente, após a deterioração de sua saúde. Ele permaneceu (que Allah esteja satisfeito com ele) no Hospital Bahman, na Unidade de Terapia Intensiva, durante um

período de 12 dias. Os médicos conseguiram diagnosticar o problema emergente e tratá-lo. Estava programado dar alta a Sua Eminência na manhã de sexta-feira, 20 de Rajab de 1431 A.H. (2 de julho de 2010). Porém, uma dor aguda e uma hemorragia interna surpreenderam a todos, criando complicações e colaborando para a deterioração da sua saúde muito rapidamente, o Revista Islâmica Evidências - 57


que o levou à morte dois dias depois.

O que aconteceu na noite de sexta-feira? Um dos filhos do Sayyed (R) respondeu que nunca havia visto Sua Eminência com tal esplendor e vitalidade, durante o longo período de sua doença. Pensamos que Sua Eminência iria retomar as orações da sexta-feira e os seus sermões depois de muito tempo paralisados devido a sua saúde debilitada e às complicações de fraqueza e dor. Sua Eminência (R) disse-nos com grande interesse: “Trabalhei para a unidade islâmica durante mais de cinquenta anos”.

Ele conversou demoradamente com os seus dois filhos a respeito de sua nova antologia poética, “Nos Caminhos dos Setenta”, sobre alguns de seus poemas, suas recordações de Najaf Al Ashraf (importante cidade sagrada do Iraque) e da homenagem ao Sr. Mohsen Amin. Ele acrescentou: “Sua Eminência pediu para falar com a mamãe ao telefone. Durante sua conversa com ela, eu sugeri a ele por duas vezes que dissesse a ela que ele teria alta do hospital na manhã seguinte. Ele não me atendeu. Quando terminou a chamada, dirigiu-se a mim, erguendo o dedo e dizendo: “Jamais digas: Deixai, que farei isto amanhã, a menos que adiciones: Se Allah quiser!” (Al Cahf, 23-24). Depois, permaneceu em silêncio por um pouco tempo e me disse: “Diga a seus irmãos para dar continuidade ao tema da mesquita”, referindo-se a sua intenção de ser enterrado na mesquita de Imamein Hassanein (A.S.). Então, pronunciou três vezes “Allahu Ákbar” e murmurou baixinho algumas preces entre as três takbirát. Em seguida, deu um sorriso brilhante e apareceu o regozijo em seu rosto. Olhou para a porta e disse: “Quero dormir, quero dormir.” Depois disso, começou a piorar rápida e perigosamente a saúde de Sua Eminência. Ele acordou após as três da manhã e disse: “Quero orar.” disse-lhe que não era ainda a hora da oração da manhã. Cumpriu uma oração de duas unidades e esta foi a última coisa que fez em sua nobre vida. O estado de saúde de Sua Eminência piorou rapidamente e de forma grave, vindo ele a falecer, com sua nobre alma subindo para o Criador, na manhã de domingo, 22 de Rajab 1431 A.H. (4 de julho de 2010), às 9h15min, horário de Beirute. Um dos enfermeiros que tinha atendido o Sayyed (R), pediu que descançasse, ao que ele respondeu: “Não vou descansar enquanto existir Israel.” Somos de Deus e a Ele retornaremos. Que a paz esteja contigo, ó, Sayyed, no dia em que nasceu, no dia em que morreu e no dia em que for ressucitado!

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Infatigável líder

Hani Abdullah

Meu Sayyed, inimigo do descanso

D

e onde posso, senhor, fazer voltar a fita da lembrança? Do “Método da Pregação” formulado com o sangue da biografia perfumada e com a tinta do sofrimento, antes de formulá-lo com a tinta, propriamente dita. Ou de “Passos no Caminho do Islã”, que percorreu efetiva, dinâmica e diligentemente antes de tecê-lo com o sangue dos lápis, pelos extratos das experiências e pelas advertências dos dias...

sangue de sua raça e seu currículo, antes de espalhá-los como livros nas mãos dos leitores e nos jornais, que se acumularam na geada dos dias e no gelo das doutrinas? Como podemos, ó pai de todos, vislumbrar a sua vasta herança, e todo mundo testemunhar que é sua produção? Todos sabem o que está por trás de cada palavra falada, de cada idéia que orienta e de cada inspiração que revela, ou de cada método “criado” espírtual e advertidamente na primavera de sucessivas gerações?

As suas palavras continuam povoando a minha mente e emoção, e você responde às multidões de simpatizantes que procuram a sua casa

Ou de “Diálogo no Alcorão”, cujas letras foram iluminadas à luz da vela, lá na “Nab’a”, na noite do mergulho na guerra do Líbano, e apresentar aos libaneses e à humanidade outro modelo na personalidade que não seja a filha do seu ambiente, mas cria o seu próprio ambiente, formulando a todos um novo mundo “agitado” pelo diálogo, ao invés de atrair mísseis de guerra e litígios de assassinato e violência? Onde posso consegui-lo, senhor? Nos duzentos livros de sua autoria, elaborados pelo

Senhor, eu testemunho que você é o segredo dos segredos... No seu esforço, sendo que não há na sua vida lugar para a fadiga, na sua atividade, em que não há espaço para o conforto, na sua dedicação, que não reconhece fronteiras... Limites das horas, dos dias, dos anos... E das eras... Eu juro, senhor, que você é o inimigo número um do descanço. Assim como é o perfeito inimigo de todos aqueles que se atreveram contra a o seu dom e tentaram minar o seu nome e o Revista Islâmica Evidências - 59


“A minha idade depende de meu Espírito, Amanhã irei zombar dos noventa. Minha idade corre célere para os noventa, Enquanto o Espírito permanece nos vinte.”


seu corpo, não ouviram os acordes da conscientização em suas palavras e não conseguiram auferir delas o líquido puro e cristalino, para saberem que “a vida não tolera o ódio.” Eu ainda ouço o senhor. As suas palavras continuam povoando a minha mente e emoção, e você responde às multidões de simpatizantes que procuram a sua casa aberta, pedindo-lhe reiteradamente: “Por que você não descansa?” E responde-lhes: “O conforto é haram a nós e aos como nós.” O eco daquela voz continua em meus ouvidos a respeito do segredo daquela energia no corpo com mais de sessenta anos, a caminho dos setenta, fatigando os próximos e os distantes. O Imam As-Sádiq (a paz esteja com ele) disse: “O corpo cuja consciência é forte não enfraquece”, para alguns repetirem em reconhecimento: “Se a alma for arrogante, o corpo se cansará nos seus desejos.” Essas palavras ainda estão prospectando posições em minha mente e você se lembra de um poema de Ahmad As-Safi An-Najafi, quando perguntado sobre o segredo desta vitória sobre a idade avançada: “A minha idade depende de meu Espírito, Amanhã irei zombar dos noventa. Minha idade corre célere para os noventa, Enquanto o Espírito permanece nos vinte.” Presto testemunho, Senhor, desde que me coloquei ao seu serviço, há cerca de um quarto de século, que você nunca descansou um só dia, não teve o descanso procurado por todos... Presto testemunho, senhor, depois de todos esses anos dourados, que tenho a honra de pertencer à sua escola. Nós o fizemos ler o erro no livro; sempre tentamos entendê-lo por meio do que era possível aos nossos corpos suportar, em termos de dificuldades e esforços. Não sabíamos que estávamos diante de outro tipo de corpo, na frente de um corpo que possui algo

da natureza do Mensageiro de Deus (S), do movimento de Ali (AS) e do espírito dos Imames Puros, da Família de Mohammad (S)... Senhor, eu continuo ouvindo-o, ditando-me e a outros como eu, as palavras e as admoestações do “extrato da vida”. É o extrato do resumo dos dias de experiências sem limite, nem restrição, e na autenticidade do movimento em relação ao qual não encontrei nada similar nas experiências dos outros... Eis-me tentando recuperar suas palavras, quando conversou comigo há aproximadamente quarenta dias, sobre pensamentos que lhe ocorreram à noite e que teceu em poesia: “Aguardo que a escuridão me cubra, Na escuridão da noite os gemidos das minhas feridas. Os vislumbres da minha vida são uma ideia, Que permanecerá um sonho sobre minha solidão.” Senhor, você é o mistério de toda essa variada concessão e essa honestidade sem limites na política e em outras coisas. Muitos perguntam: “Como pode manter suas obrigações e escolhas, persistindo na construção de todas as pontes de diálogo com os outros?” Você é o mistério deste toque de carinho em todas as pessoas, em momento de fraqueza e força, neste grande amor pelos pobres, ao lado dos quais escolheu permanecer, na fortaleza da mesquita, mesmo após a partida. Você é o mistério dessa paz espiritual, que transborda misericórdia até mesmo pelos agressores. Mistério em todos esses monólogos carinhosos que elaborou em poesia missionária, literatura perceptiva, repletos de preces e orações. Mistério em muito do que foi dito e do que não foi dito. Continuamos a girar ao redor deste mistério, lendo no livro de sua vida e fatigada idade, para compreender e então, cientes, trabalharmos. Já é tempo disso! “Altivez na vida e na morte, Certamente,você é um dos milagres.” Revista Islâmica Evidências - 61


Personalidade

Franklin Lamb

Mohammad Hussein Fadlallah O Homem Para Todas as Estações

O

repórter e ativista dos Direitos Civis estadunidense Franklin Lamb escreveu um artigo sob o título: “Sua Eminência, Mohammad Hussein Fadlallah, um homem para todas as estações”, no qual aborda o clima do passamento e o funeral de Sua Eminência. Segundo Lamb, profundo conhecedor dos assuntos do Oriente Médio, o fato é uma perda irreparável, citando as sua conduta e seu papel de liderança no Mundo Islâmico, suas posições pioneiras no enfrentamento da ocupação e das políticas americanas. Lamb considera Sua Eminência “um homem extraordinário, com inteligência e conduta como a dos anjos”. A seguir, publicamos o artigo: O Senhor Mohammad Hussein Fadlallah, em diálogo com o Conselho para o Interesse Nacional de Washington – DC, duas semanas

antes de seu passamento, declarou: “Ao longo da minha vida, sempre apoiei o ser humano em sua natureza e apoiei os oprimidos. Eu acho que é direito da pessoa viver em liberdade e ter o direito de enfrentar a injustiça imposta e se revoltar contra ela, para acabar com a injustiça, quer o oprimido seja um indivíduo, uma comunidade, uma nação ou um estado, homem ou uma mulher.” Hoje, a família e centenas de milhares de pessoas de sua comunidade enterraram este eminente senhor libanês, Mohammad Hussein Fadlallah, no sul de Beirute. Que Deus tenha misericórdia de sua alma e que ele descanse em paz, para sempre. Dezenas de milhares de pessoas da região participaram do funeral do clérigo. Seu falecimento chocou e entresteceu a região. Isso devido à perda incalculável repre-

Dezenas de milhares de pessoas da região participaram do funeral do clérigo. Seu falecimento chocou e entresteceu a região

*Franklin Lamb é diretor da organização Americanos Preocupados com a Paz no Oriente Médio (Washington-DC), membro do conselho da Fundação Sabra Shatila e voluntário da Campanha pelos Direitos Civis dos Palestinos, do Líbano. É autor de “O preço que nós pagamos: Um quarto de século do uso de armas americanas por Israel contra civis no Líbano”.

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sentada pela morte do homem de diálogo, de respeito e união entre todas as religiões. A perda de seu apoio à campanha em curso para a obtenção dos direitos civis para os refugiados palestinos do Líbano vai tornar a luta mais difícil. A justiça para a Palestina e o fim da ocupação sionista foi parte de seu trabalho firme ao longo da vida. Alguns meios de comunicação informaram que pouco antes de morrer, e ao ser perguntado por um assistente médico há alguns dias, se ele precisava de alguma coisa, ele respondeu: “Apenas o fim da ocupação sionista da Palestina”.

Observações e Impressões Na manhã de 4 de julho, Zeinab, a enfermeira de plantão na clínica de doação de sangue do Hospital Bahman, pediu-me para permanecer sentado por cinco minutos e beber o suco que ela me deu, antes que eu voltasse para o sol escaldante de Beirute. Uma companheira e eu tinhamos doado sangue, atendendo a um apelo dos amigos que trabalhavam no gabinete de tradução do muito

amado religioso libanês, o Sayyed Mohammad Hussein Fadlallah. Ele havia sido hospitalizado nos últimos 12 dias, mas na sexta-feira o seu sangramento do estômago aumentou substancialmente, relacionado a complicações de um problema no fígado, em tratamento ao longo dos últimos anos. O Sayyed Fadallah também sofria de diabetes e pressão alta. Enquanto esperávamos, Zeinab retornou, com lágrimas nos olhos, e simplesmente disse: “O Sayyed faleceu.” Então, desapareceu, como desapareceu a minha companheira com véu e, com ela, como parecia, todos que estavam naquele andar. Decidi descer as escadas para o piso inferior e pude ouvir os soluços de funcionários do hospital aumentando em cada andar, enquanto descia. Quando saí da entrada principal do hospital, um pouco entorpecido, estava pensando em algumas das mais de uma dezena de reuniões das quais tive a honra de participar com o Grande Ayatollah Fadlallah e alguns de seus funcionários, nos últimos três anos. Pensava também nas visitas que eu lhe fazia regularmente com Revista Islâmica Evidências - 63


os membros do Conselho de Washington – DC para o Interesse Nacional, ou no encontro que eu tinha arranjado entre ele e o ex-presidente Jimmy Carter. De repente, percebi um movimento nas ruas laterais ao lado de Bahman, um hospital construído de acordo com os mais modernos padrões da ciência e tecnologia, operado por instituições de caridade. Este hospital estava entre as centenas de construções civis em Haret Hreik e no sul de Beirute, que Israel tinha bombardeado em julho de 2006. “Como é que aquelas pessoas chegaram aqui tão rápido?”, eu me perguntei, “porque passaram apenas alguns minutos desde que o guia religioso de milhões de pessoas no Oriente Médio e em outras partes do mundo tinha morrido. Algumas unidades de segurança, vestidas com camisetas, bonés e calças pretas, com walkie talkies na mão, outros à paisana, colocaram rapidamente barreiras de tráfego na área do hospital. Eles educadamente pediam que todos os veículos, incluindo motos, permanecessem pelo menos a dois quarteirões de distância do hospital. Alguns tinham a aparência de combatentes de guerra, porém, choravam e consolavam homens e mulheres, que começaram a chegar ao hospi-

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tal, em primeiro lugar individualmente e, em seguida, em grupos.

O Passamento Trágico Os alto-falantes da mesquita Hassanayn, onde a cada sexta-feira, nos últimos quase 20 anos, o Sayyed Fadlallah fazia os sermões para dezenas de milhares de fiéis muçulmanos e cristãos, começaram a emitir músicas religiosas e versículos do Alcorão para o bairro chocado e enlutado. “O pai, o líder, a referência, o guia, o ser humano, não existe mais. O Sayyed Fadlallah morreu esta manhã”, o assessor sênior do Ayatollah, Abdullah Ghurayfi, disse em entrevista coletiva convocada às pressas, no hospital, pelos dois filhos do religioso, Sayyed Ali e Sayyed Jaafar Fadlallah que, como quase todos os outros presentes, não puderam conter as lágrimas. Na noite escaldante de 5 de julho, uma delegação americana, autorizada pela família do falecido e pela segurança do Hezbollah, teve a rara honra de ver o corpo do religioso libanês xiita dentro de sua mesquita, perto de onde ele seria enterrado, às 13:30 da tarde do dia seguinte. O grupo reuniu-se com um amplo espectro de lideranças políticas e da resistência do Líbano. Porém, nenhuma pessoa da embaixada dos EUA os acompanhou, porque o seu governo iria boicotar o dia de luto nacional do Líbano e o funeral daquele que Washington taxou como “terrorista”. A delegação americana era constituída de respeitados moradores de Nova York, Massachusetts, Nova Jersey, Califórnia, Havaí e do Oregon, um padre católico e duas freiras, alguns dos quais estavam em Beirute como participantes da


flotilha libanesa para ajudar a romper o cerco a Gaza. Eles achavam que eram os verdadeiros representantes do seu país, não a sua Embaixada, considerada por alguns como representante dos interesses de Israel e não dos interesses americanos.

Os Meios de Comunicação Enganosos Ocidentais Sempre enganando o público em relação ao Oriente Médio, a corrente principal da mídia ocidental publicou mais de mil relatórios com as seguintes palavras: “Um crítico ardente anti-americano morreu.” É um absurdo, é claro. Fadallah foi muito pró-americano no sentido de muitas vezes ter exaltado os princípios dos fundadores americanos. A sua relação com o povo americano era de respeito. Quase duas semanas antes de sua morte, ele, contrariando o conselho de seus médicos, deixou seu leito para se reunir com um grupo de americanos de Washington – DC. Ele os exortou a trabalhar para preservar os princípios fundamentais sobre os quais seu país foi fundado e a incentivar o diálogo entre muçulmanos, cristãos e judeus, acabando com as ocupações na região. Como o número crescente de críticos da política dos EUA no Oriente Médio, o Sayyed Fadlallah, na maior parte de seus sermões de sexta-feira, denunciava a armação dos Estados Unidos e Israel e o apoio estadunidense à série de agressões israelenses.

dernização” da Shari’a, para torná-la acessível às necessidades, aspirações e temores da juventude dos dias modernos, em um mundo em rápida mudança. Ele foi realmente o mufti (o jurisconsulto) da juventude e das mulheres, seu guia, que nunca desiludiu os seus sonhos e sempre simplificou as suas decisões. Ele estava sempre disponível para tirar dúvidas sobre os tabus sociais e políticos. Ele também foi o inimigo da estagnação e o refutador da tradição inflexível. Ele insistiu em submeter todas as idéias a discussões, debates e reavaliações e estava muito mais interessado nos seres humanos do que nas doutrinas. O diário libanês “An-Nahar” escreveu em seu editorial esta manhã: “O Sayyed Fadlallah é um guia exclusivo, do qual o Líbano e os mundos árabe e islâmico sentirão falta. Muito tempo passará antes do surgimento de alguém tão tolerante e de espírito aberto, com tanta fé na humanidade e um desejo de cooperar com todas as tentativas e esforços desenvolvidos durante os dias de atrito, com todas as forças e as elites.” Seus seguidores reverenciavam a sua visão social moderada, aberta e pragmática. Fadlallah emitiu decretos religiosos proibindo a excisão feminina, condenou a violência doméstica contra as mulheres, frisando que é direito da mulher defender-se dos abusos dos seus maridos. Ele apoiou fortemente a igualdade entre homens e mulheres, rejeitou o derramamento de sangue em eventos como alguns fazem na Ashura e encorajou seus seguidores a doar sangue para a Sociedade do Crescente Vermelho, em vez de cortar-se. Ele também se opôs à invocação para a “Jihad”, ou guerra santa, feita por Ossama bin Laden, e condenou os talibãs afegãos, considerando-os como uma seita fora do Islã.

A justiça para a Palestina e o fim da ocupação sionista foi parte de seu trabalho firme ao longo da vida

Inimigo da Estagnação Por mais de 50 anos, ele trabalhou na “mo-

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Sayyed Fadhlallah foi o jurisconsulto da juventude e das mulheres, seu guia, que nunca desiludiu os seus sonhos e sempre simplificou as suas decisões Um Missionário que Pregava o Diálogo Foi um dos primeiros a condenar os ataques de 9 de setembro. Opos-se também aos “ataques suicidas”, mas apoiou o direito do indivíduo de se sacrificar como uma arma durante a guerra assimétrica dos agressores. Fadallah apoiou a revolução islâmica no Irã, e defendeu a resistência armada contra Israel. Em 2009, mais uma vez, durante uma reunião com os americanos, incluindo judeus, Fadlallah, cuja família veio da aldeia libanesa de Ainata do sul do líbano, reiterou o seu apelo a um diálogo entre muçulmanos e judeus como parte dos esforços inter-religiosos que visam preencher a lacuna existente entre os religiosos diversos, rejeitando qualquer crime contra os judeus ou cristãos, em qualquer país árabe ou muçulmano. Mas ele enfatizou à delegação a importância de um diálogo entre muçulmanos e judeus longe da influência sionista, salientando que os judeus devem se libertar do sionismo mundial e Israel deveria ser confrontado por causa de sua ocupação às terras árabes. Ele saudou a eleição de Barack Obama os EUA. Declarou ao jornal Wall Street Journal em 2009, que “algumas das declarações de Obama mostram que ele acredita no método do diálogo”. Ele acrescentou: “Nós não temos nenhum problema com qualquer presidente americano. O nosso problema é com a sua política que possa afetar o nosso interesse estratégico.” Ele informou mais tarde aos visitantes quanto à sua decepção com a política do presidente Oba66 - Revista Islâmica Evidências

ma para o Oriente Médio, acusando-o de estar sob a pressão dos apoiandores de Israel e não é um homem que tem um plano para a paz”.

Inteligência e Conduta de Anjos Mohammad Hussein Fadlallah tinha uma ampla fama de jurisconsulto, com um oceano de conhecimentos religiosos e um dos grandes piedosos por intermédio de mais de 40 livros e tratados, escreveu ele. Ele estabeleceu escolas religiosas, fundações, clínicas e bibliotecas como parte da instituição de caridade Al Mabarrat Foundation, aberta a todos os libaneses e estrangeiros, na diversidadede de suas seitas e fazem parte do seu legado vivo.Mohammad Hussein Fadallah era um homem de rara sagacidade de um anjo, alegria e aprendizado singular. Um homem maravilhoso de humildade, mansidão e afabilidade. Às vezes, quando falava da defesa dos direitos dos muçulmanos, cristãos, judeus e de todas as pessoas de fé ou sem religião de boa vontade, seu rosto se modificava por uma gravidade triste e seus olhos sorridentes se escureciam. Era um homem que acreditava no direito e na responsabilidade de resistir à injustiça e à ocupação. Ele era um homem para todas as estações, cuja consciência e piedade não lhe permitiam estar ocioso, enquanto os pobres e oprimidos eram perseguidos e sem voz, ou enquanto o seu amado Líbano e a Palestina contiuassem ocupados. Por isso, e não por outro motivo ele foi colocado e mantido pelos EUA na lista dos terroristas. Mas, a exemplo de Thomas Moore, Fadlallah rejeitou propostas de subornos, incluindo a remoção da lista de Washington, se ele seguisse os desejos dos “reis” e parasse de apoiar a resistência nacional libanesa. O Sayyed pendurou o apelido absurdo de “terrorista” no peito como um distintivo de honra, escarnecendo, com suas obras de caridade, a lista de detentores de vergonha e covardia e a sua traição aos princípios americanos, financiando, armando e fornecendo cobertura diplomática ao projeto colonialista sionista que usurpou a Palestina.


Lendo as Escrituras

Como o Alcorão deseja que lidemos com ele

A

bondade de Deus e Sua misericórdia para com os muçulmanos são demonstradas pelo ensinamento que Ele (SWT) nos legou para lidar com o Seu Livro. Há uma série de versículos que falam disso: 1. A meditação: Deus, o Altíssimo, diz: “Não meditam, acaso, no Alcorão, ou é que seus corações são insensíveis?” (Alcorão, 47:24). corações insensíveis... Tais como casas, lojas ou caixas fechadas... Portas e janelas cerradas, cortinas extendidas... É possível entrar luz, ar puro ou qualquer outra coisa nestes ambientes? Os corações fechados, que não re-

cebem o esplendor de luz, nem uma lufada de ar, são como um túmulo de solidão, habitado por vermes. O coração em que não entra a luz do Alcorão, que não é movido pela brisa do Livro Lúcido, é como um coração que corrompe o ar no seu interior e inunda-o de escuridão, até que se torne abandonado, um lugar deserto. A luz do Alcorão, que se infiltra nos ouvidos que possuem o conhecimento da Escritura e nos corações dos que meditam nele, é como a alma de um vale profundo que recebe a chuva do Alcorão. 2. A admoestação: Eis o versículo: “Em verdade, facilitamos o Alcorão, para a adRevista Islâmica Evidências - 67


moestação. Haverá, porventura, algum que receberá a admoestação?” (57:17). O Alcorão é claro, evidente e fácil de entender, com suas parábolas, conceitos e ensinamentos. Todas as instruções divinas para quebrar o ciclo da ignorância e indiferença e estabelecer a presença da consciência, da memória e da atenção, estão nele contidas. O que nos ajuda a ler o Alcorão Sagrado são os seguintes itens: • Ler o que se pode, ou o que for permitido pelas circunstâncias e pelo tempo disponível. Conforme está contido no versículo: “Recitai, pois, o que puderdes do Alcorão!” (73:20). Ou seja, não há obrigatoriedade em recitar determinado número de versículos. O campo está aberto para o que pudermos ler. O importante não é um número grande de leitura, mas o tipo de leitura que se faz: atenta, criteriosa, reflexiva. Então, se lermos as palavras sem refletir sobre os seus significados, sem nada guardarmos delas, a leitura transforma-se em ato mecânico e inócuo, sem nenhum interesse ou benefício. • Ler devagar, conforme Ele diz: “É um Alcorão que dividimos em partes, para que o recites paulatinamente aos humanos.” (17:106). Para que os muçulmanos aprendam o Alcorão pouco a pouco. A biografia do Profeta (S) afirma ele costumava ensinar aos muçulmanos dez versículos de cada vez. Quando os aprendiam, ensinava outros dez. O ensino não significava, apenas, aprender as palavras e os seus significados, mas também agir conforme elas. •Buscar refúgio antes da leitura. Ele, Exaltado seja, diz: “Quando leres o Alcorão, ampara-te em Deus contra Satanás, o maldito,” (16:98). O papel do Satanás é nos desviar de todo bom ato e evitar que nos aproximemos de Deus, Glorificado e Exaltado seja, dizendo em voz alta: “desviá-los-ei da Tua senda reta”. (7:16). Para ingressarmos no mundo do Alcorão Sagrado, sem nenhuma barreira, temos de buscar refúgio em Deus contra o Satanás, o 68 - Revista Islâmica Evidências

amaldiçoado. Deus é o melhor Protetor, Que nos defende do Demônio: “Dize: Amparo-me no Senhor dos humanos, o Rei dos humanos, o Deus dos humanos, contra o mal do sussurro do malfeitor, que sussurra aos corações dos humanos, entre gênios e humanos!” (114:1-6). •Ouvir e escutar. Eis o versículo: “E quando for lido o Alcorão, escutai-o e calai, para que sejais compadecidos.” (7:204). Quem ouve o Alcorão e o recebe nos momentos de serenidade e atenção, conquista algo diferente do que é recebido desatenciosamente. Há versículos que lemos repetidamente, mas deixam em nós o efeito desejado, como deixa uma leitura melodiosa triste, que encarna os versículos devidamente. É a mesa coisa quando nos deparamos com a descrição de cenas graves e assustadoras, como as da Ressurreição, do Paraíso e do Inferno. Da mesma forma, nos atraem os atos de bondade e caridade e nos causam repugância e geram nosso afastamento os atos do pecado, o mal, o politeísmo e a agressão.


Um grupo de gênios escutou o Alcorão ... e o seguiu. E um grupo de politeístas coraixitas o ouviu... e o seguiu. E um grupo de não-muçulmanos o ouviu ... e o seguiu. Quantos versículos mudaram o curso da vida de alguém! •Buscar um ritmo melodioso: uma forma de melhorar a leitura do Texto Sagrado e fazer com que ela produza um impacto na alma é usar a melodia. Allah ordena: “e recita fervorosamente o Alcorão.” (73:4). A forma de recitá-lo é lenta, adotando um belo ritmo da recitação. Por isso, o Profeta (S) disse: “Cada coisa tem o seu ornamento e o ornamento do Alcorão é uma bela voz.” •Recorrer aos “Adeptos da Mensagem”. Estes são os estudiosos do Alcorão. Recorrer a eles para conhecer o significado dos versículos e seus indicativos é uma excelente maneira de extrair o máximo conhecimento e espiritualidade dos ver-

sículos corânicos. Daí as palavras de Deus, Altíssimo: “Perguntai-o, pois, aos Adeptos da Mensagem, se o ignorais!” (16:43), e as palavras: “Porém, ninguém senão Deus conhece a sua verdadeira interpretação.” (3:7). Os comentadores diferem quanto a quem são os “Adeptos da Mensagem”. Os mais próximos desta acepção seriam os Imames da Casa do Profeta (S), que adquiriram o conhecimento do Livro da própria fonte, o Mensageiro de Deus (S). Podem, contudo, os muçulmanos, beneficiar-se, hoje em dia, dos sábios da comunidade que receberam o entendimento do Alcorão de forma verdadeira, cujas interpretações e explicações estejam desprovidas de debilidade ou exagero.


Comportamento

A posição do muçulmano na sociedade

C

ada pessoa é responsável pelo seu trabalho, mas a posição do ser humano na sociedade tem uma sensibilidade particular, que vai além de sua função produtiva. Podemos dizer que o muçulmano ou a personalidade islâmica não são 70 - Revista Islâmica Evidências

donos de si mesmos, mas são propriedade do Islã, que monitora suas boas e más ações. Se as ações e as palavras do indivíduo são boas, bem como suas posições e relações, diz-se: “Esta é a educação do Islã!”. Se estas ações


e palavras são abusadas, extraviadas, desviadas ou causarem dano individual ou coletivo, diz-se: “Assim são os muçulmanos!”. Será que é culpa do Islã? Claro que não! O Islã educa seus seguidores a fazer o bem e ter amor pelas pessoas, promover a paz para todos, e recomenda a cooperação na aplicação da justiça e da piedade. Se o muçulmano não se preocupa em fazê-lo e age ao contrário disso, a culpa é dele, porque agiu de acordo com sua vontade e gostos e não como a sua religião exige.

Por que, então, as pessoas dizem isso?

A posição do muçulmano e a personalidade Islâmica são realmente sensíveis, como dissemos. As pessoas olham para o pensamento e as emoções da personalidade islâmica, observam o seu comportamento (como exemplo) e julgam. Se o muçulmano frustrar suas esperanças ou seus pontos de vista, as pessoas ficam chocadas. Se respeitarem suas posições e títulos, contribuem para reforçar a imagem dos muçulmanos como um exemplo na sociedade.

outros grupos humanos pessoas corruptas, entre as pessoas religiosas há, também, os corruptos e os desviados. Porém, se o dono da mercearia agir de maneira incorreta, as pessoas comentarão que apenas o fulano é corrupto. Se o farmacêutico for desviado, as pessoas dirão que o farmacêutico ‘fulano’ está errado. No entanto, quando um religioso pratica más ações, dizem que ‘os religiosos são maus’.” Em outras palavras, as pessoas olham para a posição do crente, do agente ou do sábio como pessoas responsáveis por apresentarem uma conduta pessoal viva, expressiva a respeito do que é verdadeiro ou não em termos de Islã. Isto é expresso pelo Alcorão Sagrado, em sua abordagem a respeito das esposas do Profeta (S) como “Mães dos Crentes”: “Ó esposas do Profeta, vós não sois como as outras mulheres; se sois tementes, não sejais insinuantes na conversação, para evitardes a cobiça daquele que possui enfermidade no coração, e falai o que é justo. E permanecei tranquilas em vossos lares, e não façais exibições, como as da época da idolatria; observai a oração, pagai o zakat, obedecei a Allah e ao seu Mensageiro, porque Allah só deseja afastar de vós a abominação, ó membros da Casa, bem como purificar-vos integralmente. E lembrai-vos do que é recitado em vosso lar, dos versículos de Allah e da sabedoria, porque Allah é Onisciente, Sutilíssimo” (33:32-34).

O Islã educa seus seguidores a fazer o bem e ter amor pelas pessoas, promover a paz para todos, e recomenda a cooperação

Um sábio atuante prestou atenção neste ponto. Ele advertia seus discípulos quanto a cair na no erro do comportamento corrupto. Dizia-lhes: “As pessoas, ao verem o mau comportamento do estudante de ciência religiosa, ficam com má impressão de todos os estudantes de ciências religiosas, e não apenas da pessoa. Deveriam satisfazer-se em ter má impressão apenas do faltoso, não de todo o grupo.” Ele acrescentava, comentando a sensibilidade da posição do crente atuante e que serve à comunidade: “As pessoas não analisam as coisas logicamente quando vêem a ação inadequada de um religioso. De mesma forma que há entre os

Pressupõe-se que as esposas do Profeta (S) sejam o modelo e o exemplo para as mulheres muçulmanas. Na medida em que a esposa do Profeta (S) seja excelente e comprometida com os ensinamentos de seu marido, o Mensageiro de Allah, a respeito de Deus, Exaltado e Bendito seja, acontece proporcionalmente o impacto nas outras mulheres, por serem consideradas modelos. Por isso, o Alcorão determina o casRevista Islâmica Evidências - 71


tigo em dobro pelo adultério cometido por uma delas. Da mesma forma, considera a recompensa em dobro pelo bom ato praticado por elas. Se não, vejamos: “Ó esposas do Profeta, se alguma de vós for culpada de uma má conduta evidente, ser-lhe-á duplicado o castigo, porque isso é fácil a Allah. Por outra, àquela que se consagrar a Allah e ao Seu Mensageiro, e praticar o bem, duplicaremos a recompensa e lhe destinaremos um generoso sustento.” (33:30-31).

dos versículos citados anteriormente: “Quanto aos muçulmanos e às muçulmanas, aos crentes e às crentes, aos consagrados e às consagradas, aos verazes e às verazes, aos perseverantes e às perseverantes, aos humildes e às humildes, aos caritativos e às caritativas, aos jejuadores e às jejuadoras, aos recatados e às recatadas, aos que se recordam muito de Allah e às que se recordam d’Ele, saibam que Allah lhes tem destinado a indulgência e uma magnífica recompensa.” (33:35).

Os que têm excelentes aspectos servem de modelo para os outros. Portanto, a sua recompensa é excelente, também

O mesmo pode ser dito de cada crente, homem ou mulher, porque eles estão na posição de exemplo para o resto dos homens e das mulheres muçulmanos. Certamente, podem ser um exemplo, mesmo para os não-muçulmanos. Por isso, o Alcorão vincula a tradição a respeito das esposas do Profeta (S) e os muçulmanos, homens e mulheres, de forma direta, na sequência

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Ou seja, os que têm esses excelentes aspectos servem de modelo para os outros. Portanto, a sua recompensa é excelente, como a recompensa das esposas do Profeta (S), que respeitam sua posição perante a comunidade e tornam-se “Mães dos Crentes”.


Parábola

Para Aprendermos Com a Abelha

O

homem edifica a sua presença e constrói a sua vida seguindo os modelos do mundo natural e o movimento da existência. Depois disso, prescruta a si mesmo e à sua personalidade e mede-se pelo que produz e o que faz, efetiva-

mente. Seu impacto é o indicador. O homem, com seus atos diretos, ou com o que produz, incluindo o que gera de resultados e efeitos econômicos, é a medida da vida: se for o bem, o bem será; se for o mal, o mal será.

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O homem, como ser social, vive em grupos. A consequência de seu ato social reflete-se em seu caráter, direta ou indiretamente, seja negativa ou positivamente. A existência, de um modo geral, é positiva e construtiva. O ser humano, com sua vontade e caráter pessoal, foi formado por experiências e conhecimentos distintos. Ele se relaciona consigo próprio e com o que está ao seu redor, mediante formas e métodos diferentes. Este relacionamento classifica a pessoa como um ser humano positivo e construtivo ou negativo e destrutivo. A construção e a demolição são dois fenômenos opostos na vida do indivíduo e da sociedade, em luta e conflito contínuo, o que pode acabar em resultados construtivos ou destrutivos. A natureza inata do ser humano faz parte do mundo natural bom, que é a base de sua vida e seu comportamento. Se continuar de acordo com o instinto, será um indivíduo positivo e construtivo. Porém, muitos fatores desviam o ser humano de sua tendência natural de fazer bem, tornando-o destrutivo, estimulando nele o viés agressivo, o vandalismo, a destruição e a agressão. Daí a importância do direito e da inculcação de valores, protegendo-o e sua natureza divina do desvio, que o torna um agente do mal, que tende para a destruição e a agressão. A função da lei e dos valores divinos é proteger a natureza humana da degradação e do desvio, que induzem o ser humano à desagregação e à corrupção. O comportamento destrutivo é um comportamento doente e a situação de agressividade necessita de tratamento. A pessoa destrutiva é um ser humano que sofre de uma doença no fundo de si mesmo, que expressa com atos destrutivos. A destruição negativa é a direção oposta ao bem do indivíduo e do grupo, agindo de forma a anular os outros.

cação orientadora do Nobre Profeta Mohammad (S), para que o crente seja como a abelha, aprenda com ela, imite a vida dela na pureza de sua essência, da caridade inata, de comportamento positivo. Ele descreveu o crente, dizendo: “O crente é como a abelha: quando come, o faz com o intuito de gerar um benefício e quando pousa num ramo, não o quebra.” Que maravilhosa comparação e descrição que o Nobre Mensageiro de Allah (S) faz do crente sincero, que segue a orientação da Mensagem e se satisfaz com a educação profética, inscrevendo-se no esquadrão que marcha para Deus, Glorificado seja! Ele compara o crente à abelha, no que toma e no que dá, deixando um impacto na existência. A metáfora profética nos convida a nos voltarmos para o Livro de Deus e olhar para o mundo das abelhas, como é descrito no Alcorão, para juntarmos orientação a orientação, declaração a outra declaração. Assim, os significados combinam, o quadro se completa e o conhecimento se aprofunda; novas perspectivas se abrem, os dois mundos convergem – o mundo do crente e o mundo das abelhas – no dar e receber, nas definições e na ordem, no movimento e na atividade. Deus, o Altíssimo, diz: “E teu Senhor inspirou as abelhas, (dizendo): Construí as vossas colmeias nas montanhas, nas árvores e nas habitações (dos homens). Alimentai-vos de toda a classe de frutos e segui, humildemente, pelas sendas traçadas por vosso Senhor! Do abdômen delas sai um líquido de variegadas cores que constitui cura para os humanos. Nisto há sinal para os que refletem.” (Alcorão Sagrado, 16:68-69).

O homem, como ser social, vive dentro de grupos humanos. A consequência de seu ato social reflete em seu caráter

Na orientação profética, lemos a convo74 - Revista Islâmica Evidências

A vida das abelhas, neste versículo, constitui em movimento e atividade perseverante, um sistema de mudança do bem para o bem, de um


benefício para outro. Na aplicação da descrição profética, encontramos o gráfico da comparação maravilhosa; encontramos sinais de agregação na vida do ser humano crente, comparada à vida das abelhas. A parábola descreve o crente no que dá e toma, assim como as abelhas são retratadas no Alcorão: não oprimem ninguém, enquanto comem e consomem. Assim é o crente: ele só come o que é lícito e bom, não rouba, não consome o ilícito. O crente é como a abelha em sua dieta alimentar. Ela toma o néctar das flores, o açúcar das frutas e fornece o mel como cura e alimento para as pessoas. Ela segue caminhos que o Senhor torna mais fácil. Não se afasta do instinto e de sua formação inata.

secrete venenos, como a cobra vomita o seu veneno no leite, contaminando-o. Ninguém teme que a abelha faça isso, mas espera ter mel puro, alimento e cura, um desfrute para o corpo e a alma. Assim é o crente em Deus Altíssimo: só espera o bem e só aguarda o bom sentimento; não espera o mal e a agressão, como não espera que a abelha secrete veneno, ou que dela provenha a amargura do fel. Na orientação do Profeta, o crente é como a abelha: Se pousar num ramo furado, não o quebra, não constitui em elemento de demolição e destruição. Tem um custo leve, de fácil suprimento, não sobrecarrega a ninguém, não interferir no mundo natural. As pessoas estão tranquilas em relação a ele e têm nele esperança. Da mesma forma que se espera dele o bem, que não faça o mal.

A metáfora profética nos convida a nos voltarmos para o Livro de Deus e olharmos para o mundo das abelhas, como é descrito no Alcorão

A descrição e afirmação proféticas constituem em bondade e bênção, que as pessoas desejam receber, como esperam receber os benefícios da abelha. Ninguém espera que a abelha

76 - Revista Islâmica Evidências

Quanta diferença há entre a descrição da


abelha e do rato! Quando a abelha pousa num ramo furado, não o quebra. Quando o rato entra numa casa ou construção, faz buracos e danifica o local, podendo fazê-lo ruir sobre seus moradores. O Alcorão fala sobre a destruição dos vândalos, que destróem sua construção com suas próprias mãos, com seus atos, maus pensamentos e maquinações. Convida-os a considerar e refletir sobre os seus atos. O Alcorão toma os judeus da tribo dos Bani Nadhir (1) como exemplo da destruição e da demolição, da má conduta e da maquinação. Deus, o Altíssimo, diz: “Supunham que as suas fortalezas os preservariam de Allah; porém, Allah os açoitou, por onde menos esperavam, e infundiu o terror em seus corações; destruíram as suas casas com suas próprias mãos, e com as mãos dos crentes. Aprendei a lição, ó sensatos!” (Alcorão Sagrado, 59:2). É um quadro nas profundezas da história que o Alcorão capta, registrando-o como exemplo para as gerações dos crentes, para não cometerem erro de cálculo e destruírem suas casas com suas próprias mãos, demolindo suas construções, sua cultura e política, como fez o grupo de judeus naquela situação. Ele termina dizendo: “Aprendei a lição, ó sensatos!” Ele dirige as palavras aos sensatos, para que prestem atenção à experiência histórica, às mentes iluminadas. Que considerem esse caso histórico para não cometer o mesmo erro. A sociedade humana, a vida social, com todas as suas atividades científicas, financeiras, políticas e comunitárias muitas vezes carrega elementos que possuem espírito de destruição, mesmo que na aparência denotem desejo de promover o interesse público. Isso

decorre de contas e interesses egoístas. E quando os dissimulados percebem que o interesse pessoal não pode ser alcançado, não hesitam em sabotar e destruir os projetos de caráter coletivo. Eles veem apenas seu próprio interesse, impedindo que os projetos culturais, políticos ou de beneficência prosperem. Para isso, impõe obstáculos e limitações, e trabalhar para impedir o sucesso dos demais. Ele se envolve numa batalha (nem sempre declarada) para derrotar e disputar com os que trabalham ao seu redor. Quantas perdas a comunidade teve ao longo de sua história, a partir de atitudes e projetos que poderiam ter desempenhado um papel importante para a comunidade, não fosse a ação desagregadora e a sabotagem egoísta, que visam ao interesse pessoal cego, não ao mundo, a não ser por seu próprio ego, que age para confiscar a prosperidade dos outros, abolindo toda existência que não se mova por meio de percepções e conceitos desencorajadores.

A função da lei e dos valores divinos é proteger a natureza humana da degradação e do desvio, da desagregação e da corrupção

(1)Refere-se o autor à tribo judaica que vivia no oásis de Yathrib – posteriormente chamado de Medina – e jurou fidelidade ao Profeta (S) e aos muçulmanos que ali se instalaram, vindos de Meca. Contudo, durante as campanhas militares dos mequenses contra os muçulmanos, traíram o juramento e aliaram-se aos inimigos do Islã (NE).

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Palavras Cruzadas

Chadia Kobeissi 1 2 3 4

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EclipseCrossword.com HORIZONTAL 2. Os anjos disseram: “Ó, Maria! Deus te anunciou um Verbo, emanado d’Ele, cujo nome é o Messias, Jesus, filho de Maria; será ilustre nesta vida e na outra, e contará entre os diletos de Deus. Ele falará aos homens no berço, assim como na maturidade, e estará entre os virtuosos”. (AAL’IMRAN – 3ª Surata - 45, 46). Todos os muçulmanos creem em ________(a.s) como Profeta e Mensageiro de DEUS. 4. Um dos pilares do Islã. 6. Bilal al-Habashi, grande amigo e companheiro do Profeta Muhammad (s.a.a.s),era originário de qual país? 8. A ____________ perante o Criador do Universo é um belo ato de adoração. 15. Nem todos os _______ do Islã, entendem o que é esta religião, pois sem dúvida, é a religião mais aberta e a que mais incentiva a busca da verdade e do conhecimento. 16. A comunidade islâmica. 17. Ahlul Mellah é um nome dado ao povo ________________. 18. No calendário islâmico, agora estamos no mês Sagrado de _______________. 22. O Profeta Muhammad (s.a.a.s) nasceu em________ e faleceu em Medina. 23. Irmã do Imam Ali Reda (a.s) chamava-se ________ Ma’asumah. 24. Em que país está enterrado o Imam Ali Reda (a.s)? 25. Dito do Profeta Muhammad (s.a.a.s): “Não entrareis no paraíso senão pela fé e não tereis fé senão _________ uns aos outros.” 26. Qual o país que possui a maior comunidade libanesa do mundo? 27. Quantos anos tinha o Profeta Muhamma (s.a.a.s) quando lhe desceu a Revelação?

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VERTICAL 1. Em que cidade nasceu o Imam Ali Reda (a.s)? 3. O Profeta Mohammad (s.a.a.s.) disse: “O melhor da vida terrena e da eterna é adquirido com o ______________”. 5. O Alcorão possui toda uma Surata sobre_________(a.s). 7. Toda carne que o muçulmano consome deve provir de um abate_______. 9. O Islamismo ensina a ____________ com todas as demais religiões. 10. Relata-se no “Al-Hadith Asharif”, ou seja, na Nobre Tradição: “Aquele que conheceu a si ________ conheceu a Deus.” 11. Dito do Profeta Muhammad (s.a.a.s): “Deus o escolheu para que os justos e beneméritos Imames sejam da sua semente!”. A qual Imam o Profeta (s.a.a.s) se referia? 12. Quem escreveu o livro “Orientalismo”? Seu segundo nome é “Said”. 13. Título atribuído ao Imam Ali ibn abi Taleb (a.s.), que em árabe é “Amir Al-Mo’menin” – “Príncipe dos__________. 14. “Ahlul Kitab” é o nome referente aos seguidores dos livros ____________. Sejam eles cristãos, judeus ou muçulmanos. 19. Disse o Imam al-Baqir (A.S.): “Buscai obter conhecimento, pois o aprendizado é uma boa ação e o estudo é por si só uma____________”. 20. Batalha travada entre as forças comandadas pelo Imam Ali ibn abi Taleb (a.s.) e os homens de Moawiya ibn Abi Sufian. Foi a Batalha de _________. 21. “Supõe, ó meu Deus, Amo e Senhor, que eu possa suportar pacientemente a Tua tortura. Mas, como poderei suportar a Tua separação?” Essa sentença sobre a outra vida – isto é, a vida pós-morte – é parte de qual suplica (du’a)? 25. Como os árabes - sejam muçulmanos ou cristãos - se referem a DEUS?


Palavras Cruzadas

1.

Chadia Kobeissi - Respostas edição 14

HORIZONTAL

VERTICAL

MONOTEISTA—O islam, e a ultima revelacao de DEUS o Altissimo, o

2. EXEMPLO—Para os muculmanos, Maria foi a mae de Jesus, e um _________ de mulher. 4. ABRAAO—Profeta, que foi lancado ao fogo, no qual o fogo pelo poder de Deus, se tranformou em frescor. 5. ARREPENDA—Deus e o Perdoador, desde que o crente, realmente se ________. 6. ACHURA—Representam os dez dias do Martirio do Imam Hussein(a.s). 7. PROSTRACAO—Ato na oracao de adoracao a DEUS, ate mesmo antes do islamismo. 9. SUPLICAS—Imam Zain Al Abedin, filho do Imam Hussein(a.s) era conhecido pelas suas inumeras prostracoes e __________. 10. MESQUITA—Zacarias (a.s), o pai de Joao Batistia,esta enterrado na Siria em uma ________. 11. CASAMENTO—Realizacao muito recomendada no Islamismo. 12. CAABA—Primeiro templo construido para a adoracao ao DEUS UNICO. 16. ISMAEL—O Profeta Muhammad (s.a.a.s) tambem e descendente de Abraao, pela linhagem de __________. 18. JUIZ—Um dos atributo de DEUS. 20. VEU—Conhecido e utilizado entre varios povos antes do islam pelas mulheres.

islamismo, e uma religiao ___________. 3.

PALESTINA—A mesquita Al-Aqsa, esta situada na _________, lugar que certamente sera livre.

6.

ALEPO—Cidade da Siria, que possui antiga igreja, hoje mesquita, onde um padre se reverteu ao Islam, apos presenciar milagres que ocorreram com a cabeca do Imam Hussein(a.s), neto do Profeta.

8.

VERSO—Disse o Profeta Muhammad(S.A.A.S): “ Transmita de mim, mesmo que seja um único________ .”

11. CARIDADE—O Profeta Muhammad disse: “A boa palavra equivale uma ”. 13. KHADIJA—Primeira mulher a crer no Islam. 14. ABEL—Os filhos de Adao e Eva, eram Caim e _______. 15. JIHAD—Nome dada a luta contra o nosso proprio ego, e desejos. 17. CONFIA—Aquele que _______ em DEUS, estara tranquilo e satisfeito. 19. BILAL—Grande companheiro do Profeta Muhammad(s.a.a.s), que tambem se destacou muito foi o ________ Al-Habashi. 21. BIBLIA—E quanto a Ismael, também te tenho ouvido; eis aqui o tenho abençoado, e fá-lo-ei frutificar, e fá-lo-ei multiplicar grandissimamente; doze príncipes gerará, e dele farei uma grande nação. Onde esta escrito isso? 22. PERSA—Salman o ________, se destacou como um dos grandes companheiros do Profeta Muhammad (s.a.a.s).

Revista Islâmica Evidências - 79


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Você conhece a História e a Cultura Islâmica? Sabe quem são os muçulmanos e no que acreditam? A partir de agora, você poderá ter acesso a estes temas, tão importantes para compreender o mundo em que vivemos. Afinal, a Religião Islâmica é considerada a que mais cresce no mundo, contando com 1,5 bilhão de seguidores em todo o planeta. A Revista Islâmica Evidências traz a você o conhecimento sobre o Alcorão Sagrado, a vida do Profeta Muhammad (S), práticas e costumes dos muçulmanos.

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