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Volume 1 - NĂşmero 1 - 2Âş Semestre 2008


Expediente Publicação semestral - Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo Reitor Oriovisto Guimarães Vice-Reitor José Pio Martins Pró-Reitor de Graduação e Pró-Reitor de Planejamento e Avaliação Institucional Renato Casagrande Pró-Reitora de Extensão Fani Schiffer Durães Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa João Batista Machado Pró-Reitor Administrativo Arno Antonio Gnoatto Diretor de Núcleo de Ciências Humanas, Exatas e Tecnológicas Marcos José Tozzi Coordenador do Curso de Comunicação Social - Jornalismo Alexandre Castro Coordenador do Curso de Comunicação Social - Publicidade e Propaganda André Tezza Consentino Coordenador Adjunto do Curso de Comunicação Social - Publicidade e Propaganda Ricardo Pedrosa Macedo

Conselho Editorial Integrantes externos Adolpho Queiroz João Carrascoza Jorge Pedro Souza José Marques de Mello Maria José Baldassar Mônica Cristine Fort Integrantes da UP Alexandre Bastos Alexsandro Eugenio Ferreira André Tezza Consentino Celso Rogério Klammer Dario Luiz Paixão Eduardo Túlio Baggio Fábio de Paula Xavier Marchioro Gilmar Andrade Hilton A. Marques Castelo Ipojucan Calixto Fraiz Marcelo Fernando de Lima Marcos Araújo

Coordenação Editorial Alexandre Castro André Tezza Consentino Ricardo Pedrosa Macedo www.up.edu.br/comunicacao Projeto Gráfico e Diagramação Cristiane Pedrosa Macedo Ricardo Pedrosa Macedo

www.ricardomacedo.com.br

Dados internacionais de catalogação na Publicição (CIP) - Biblioteca da Universidade Positivo COMUNICAÇÃO reflexões, experiências, ensino / Universidade Positivo. Revista dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. v. 1 - n. 1 - 2° Semestre 2008 - Curitiba: Universidade Positivo, 2008 Periodicidade semestral ISSN 0000-0000 1.Ciência e comunicação - Periódicos. I. Universidade Positivo. Revista dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. CDU 00 Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Sumário AMIGO PARA O QUE DER E VIER Breve percurso histórico e características temáticas de O Amigo da Onça.

7

Hilton Castelo

O telejornalismo e os exageros do gênero

39

Maria Zaclis Veiga Ferreira

O JORNALISMO NO RÁDIO CURITIBANO

49

Luiz Witiuk

Jornalismo estrábico: Veja e CartaCapital na cobertura do “escândalo do mensalão”

65

Tomás Eon Barreiros Danilo Amoroso

AGÊNCIAS DE COMUNICAÇÃO: FORNECEDORAS DE SERVIÇOS OU PARCEIRAS NO CRESCIMENTO DAS MARCAS?

81

Christiane Monteiro Machado

Jornalismo Digital e pós-modernidade: uma análise do jornal Último Segundo

97

Cleide Luciane Antoniutti Vanessa Fernandes Santana

Claro Jansson: Esboço de Interpretação Sobre a Trajetória de um Indivíduo e de sua Conversão à Profissão de Fotógrafo

115

Rafael Ginane Bezerra

CINEMA LATINO NA SALA DE AULA Solange Straube Stecz

129


Capitu incompleta: indeterminação na construção do feminino em Dom Casmurro

141

Marcelo Lima

MOTIVAÇÃO E RELACIONAMENTO HUMANO DE UM PROFESSOR, UMA LEITURA PSICANALÍTICA

153

Leonardo Ferrari

A Universidade e a Formação do Intelectual Pedro Elói Rech

167

IDEOLOGIA NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS: UMA INVESTIGAÇÃO LITERÁRIA

183

Christian L. M. Schwartz

Aculturação norte-americana no Brasil: marco contextual Patrícia Helena Rubens Pallu

199

VISÃO DE EMPRESA BASEADA EM RECURSOS (VBR): CONCEITOS, ANÁLISE E ESTUDO DE CASO DO GRUPO POSITIVO

215

Alexandre Castro


Apresentação É com enorme satisfação que os cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo apresentam este primeiro volume da sua nova coleção Comunicação – Reflexões, Experiências, Ensino. Trata-se do início de uma série de obras que, com periodicidade semestral, oferecerá aos meios acadêmicos e profissionais da área de Comunicação Social uma amostra da produção científica dos professores dos dois cursos da Universidade Positivo e de convidados externos. A missão mais nobre de uma instituição de ensino superior é a produção de conhecimento, que se sobrepõe à função inicial – evidentemente essencial, mas nem por isso menos óbvia – de reprodução do conhecimento. Essa missão torna-se ainda mais nobre e mais completa quando a produção de conhecimento ocorre por meio do trabalho conjunto de professores e alunos. E é isso que se verifica neste volume: a par das reflexões e pesquisas isoladas desenvolvidas pelos professores, vários outros artigos originaram-se de parcerias entre mestres e estudantes. São os casos, por exemplo, de Jornalismo estrábico: Veja e Carta Capital na cobertura do “escândalo do mensalão”, do professor Tomás Eon Barreiros e do recémformado Danilo Amoroso; e de Jornalismo digital e pós-modernidade: uma análise do jornal Último Segundo, da professora Cleide Luciane Antoniutti e da recém-formada Vanessa Fernandes Santana. Ambos originaram-se de monografias produzidas como Trabalhos de Conclusão de Curso e transformadas em artigos científicos. A ampla abrangência deste volume evidencia uma notável riqueza de temas. Nele encontram-se reflexões sobre momentos históricos da profissão, críticas a práticas equivocadas, análises sobre as funções do professor, o papel das universidades, a ideologia nas sociedades contemporâneas e a aculturação de que o Brasil é vítima, estudos literários e até reflexões administrativas. A coleção que ora se inicia representa também o crescimento da integração entre os cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo, numa trajetória de inter e transdisciplinaridade estimulada pela filosofia da instituição. Os organizadores desta obra e seus autores almejam que, por meio deste trabalho, ampliem-se os debates sobre a responsabilidade social dos veículos de comunicação e de seus profissionais, das instituições universitárias na formação dos novos jornalistas e publicitários, e sobre os direitos e deveres da própria sociedade – que é, simultaneamente, beneficiária dos acertos e vítima dos desvios desse processo. Alexandre Castro, André Tezza, Ricardo Macedo Organizadores Curitiba, dezembro de 2008.


AMIGO PARA O QUE DER E VIER Breve percurso histórico e características temáticas de O Amigo da Onça.

Hilton Castelo 1 Universidade Positivo Resumo Este artigo traz um breve perfil histórico do personagem humorístico em quadrinhos O Amigo da Onça, de seu primeiro autor, o cartunista Péricles Maranhão, e da revista em que foi publicado, O Cruzeiro. E mostra também as características e os temas predominantes nas histórias, com foco de pesquisa no período compreendido entre os anos 1943 e 1961. Palavras-chave: O Amigo da Onça, O Cruzeiro, Péricles, Carlos Estevão, quadrinhos brasileiros.

ABSTRACT This article brings a brief historical profile of the humoristic comic character O Amigo Da Onça, of its first author, the cartoon writer Péricles Maranhão, and the magazine in which it was published, “O Cruzeiro”. It also shows the characteristics and the main themes in the stories, focusing in the years of 1943 and 1961. Keywords: O Amigo da Onça, O Cruzeiro, Péricles, Carlos Estevão, brazilian comics.

1 Hilton Castelo, mestrando em Comunicação e Linguagens, especialista em Leituras de Múltiplas Linguagens e graduado em Publicidade e Propaganda, é professor da Universidade Positivo. Contato: hiltoncastelo@gmail. com.


AMIGO PARA O QUE DER E VIER Breve percurso histórico e características temáticas de O Amigo da Onça, o principal personagem em quadrinhos da revista O Cruzeiro

INTRODUÇÃO Em 2002, passei alguns dos dias mais prazerosos da idade adulta. Na época, aproveitava as férias do trabalho para concluir a pesquisa documental que daria suporte à monografia final do curso de especialização em Leituras de Múltiplas Linguagens da PUC do Paraná. O objeto de pesquisa era um velho conhecido de infância: O Amigo da Onça, personagem em quadrinhos publicado na revista semanal O Cruzeiro, de 1943 a 1973. Durante três semanas, folhei quarenta anos de exemplares de O Cruzeiro disponíveis na Biblioteca Pública do Paraná e fotografei oitocentas e cinqüenta e três páginas de O Amigo da Onça, principalmente os dezoito anos compreendidos entre 1943 e 1961, fase em que o personagem foi desenhado pelo cartunista pernambucano Péricles Maranhão. A sensação daqueles dias foi de reencontro carinhoso com as memórias de infância. Se o leitor já encontrou inesperadamente o retrato de um grande amigo de infância perdido em uma gaveta, de um sorriso encantador que nem lembrava mais, então sabe perfeitamente o que estou dizendo. Nas páginas seguintes proponho-me a compartilhar com você, caro leitor, um pouco de minhas memórias afetivas. Para tanto, traço um breve percurso histórico que procura explicar os motivos que levaram à criação de O Amigo da Onça na revista O Cruzeiro e de sua consolidação no mercado editorial brasileiro. Comento também sobre a história profissional e pessoal do primeiro autor do personagem, Péricles Maranhão, destacando a relação conflituosa que se estabelece entre a direção da revista e o Péricles e entre este e o próprio personagem Amigo da Onça. Tento também, ao longo do artigo, apresentar a temática e as características que percebi nas histórias publicadas em O Cruzeiro. Fiz o recorte de pesquisa entre os anos 1943 e 1961 por ser o auge do personagem e trazer todas as particularidades que o acompanharam em trinta anos de publicação em página inteira da revista O Cruzeiro.

1 NASCIDO EM BERÇO DE OURO O Amigo da Onça – ou o Onça, como será também aqui chamado – nasceu, em 1943, dentro do maior império de comunicação jamais visto na América Latina, os Diários e Emissoras Associados do jornalista Assis Chateaubriand, conglomerado de noventa empresas, composto por jornais, estações de televisão e rádio, revistas para o público adulto e infantil, agências de notícias e agências de propaganda (MORAES, 1994, p. 16). E foi publicado no carro-chefe do grupo, a revista semanal ilustrada O Cruzeiro. Apesar de surgir na fase final do Estado Novo de Getúlio Vargas, O Onça teve seu auge nos anos 50, durante o governo Juscelino Kubitschek, e refletiu o contexto comportamental dos anos JK: liberdade de expressão, porém, comparado com valores vigentes nos dias atuais, uma sociedade excessivamente machista, preconceituosa e ainda sem o pudor daquilo que, décadas depois, viria a chamar-se de “o politicamente correto”. 8 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 7-38 | 2° Semestre 2008


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O fato determinante, dentro de O Cruzeiro, para o criação do personagem foi o processo de modernização do projeto gráfico da revista. Accioly Netto, diretor de redação da revista por quarenta e seis anos, explica bem a situação da revista naquele período: Em sua fase inicial, caracterizada por um luxo editorial jamais visto no Brasil, O Cruzeiro era impresso em cores sobre papel couchê de primeira classe (...) Também no conteúdo trazia trabalhos de colaboradores do porte de (...) Menotti Del Pichia (...) Manuel Bandeira (...) Guilherme de Almeida e Mário de Andrade. As ilustrações a cores e as excelentes reproduções tinham as assinaturas de (...) Emiliano Di Cavalcanti (...) Anita Malfatti (...) e outros de igual valor (...) Jamais houvera em toda a América do Sul uma publicação com tal apuro gráfico. (NETTO, 1998, p. 37).

Ilustração 1 2 2 Capa da edição número 30, de junho de 1929. Até a edição acima, O Cruzeiro chamava apenas Cruzeiro.

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Apesar da qualidade, a revista enfrentava sérios problemas, e ao entrar para a redação, em 1931, Accioly Netto, espantou-se com a falta de recursos financeiros e ineficiência da área administrativa: Resumindo a situação, a revista encontrava-se à beira da insolvência (...) Analisando rapidamente a situação, compreendi que a linha editorial anterior, do ponto de vista literário e artístico, estava francamente superada. Em verdade, os velhos colaboradores, desenhistas, pintores e autores dos antigos textos, com seus pagamentos atrasados, pouco apareciam na redação. E o público já não se mostrava tão deslumbrado com a reprodução de belas pinturas passadistas e textos descritivos ou simplesmente poéticos (...) Por isso, a tiragem da revista (...) estava em cerca de dez mil exemplares e, mesmo assim, apresentando assustadores encalhes. (NETTO, 1998, p. 47-48).

Accioly Netto trouxe então para O Cruzeiro novidades que faziam sucesso em revistas norte-americanas e francesas: chamada de capa, texto breve, exploração de atualidades fotográficas, fotos de estrelas e galãs fornecidas gratuitamente por agências de publicidade de Hollywood, histórias colhidas do cotidiano político, social e artístico. E muitas páginas de humor. Não significa, é claro, que o humor não existisse nas revistas brasileiras. Os caricaturistas são encontrados em publicações nacionais desde 1837, quando Manoel de Araújo Porto Alegre e Rafael Mendes de Carvalho publicaram as primeiras charges políticas no periódico “A Lanterna”. Também não quer dizer que o humor não existisse em O Cruzeiro; já em sua primeira edição, em 10 de novembro de 1928, a revista trazia caricaturas originalmente publicadas em revistas estrangeiras. A novidade proposta de reforma editorial e conceitual de Netto era a criação de um personagem humorístico fixo que ocupasse uma página inteira e representasse fatos, problemas e críticas do cotidiano carioca. Apesar da intenção de uma brasilidade explícita, a inspiração veio, no entanto, de um personagem já existente. O tipo humorístico foi baseado em El Enemigo del Hombre, do cartunista argentino Guillhermo Divito, da revista “Patoruzu”, que, por sua vez, tinha sido cópia de “The enemies of man”, da revista americana Esquire. Procuravam a representação de um “cavalheiro de ar ingênuo que causava as maiores confusões, muitas vezes até tragédias, por causa de sua mania de dizer certas verdades impróprias” (NETTO, 1998, p. 126).

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Ilustração 2 3

O nome “Amigo da Onça” antecedeu ao próprio desenho. Já tinham até o nome, adaptado de uma anedota que fazia muito sucesso. Dois caçadores conversam em seu acampamento. - O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente? - Ora, dava um tiro nela. - Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo? - Bom, então matava ela com meu facão. - E se você estivesse sem facão? - Apanhava um pedaço de pau! - E se não tivesse nenhum pedaço de pau? - Subiria na árvore mais próxima! - E se não tivesse nenhuma árvore? - Saía correndo! - E se você estivesse paralisado pelo medo? Então o outro, já irritado, retruca finalmente: - Mas afinal você é meu amigo ou amigo da onça? (JOTA, 1988, p. 6). 3 Charge de Guillhermo Divito, criador de El enemigo del hombre, desenho que serviu de referência para a criação de O Amigo da Onça. Fonte: disponível na internet. http://lambiek.net/artists/d/divito_guillermo.htm. Acesso em: 5 jan de 2008.

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Definidos as características desejadas e o nome, faltava agora apenas um autor. Em belo texto sobre Péricles Maranhão, Millôr Fernandes (apud JOTA, 1988, p. 2) afirma que o Amigo foi inicialmente oferecido ao caricaturista Augusto Rodrigues, primo do teatrólogo Nelson Rodrigues e desenhista de muito sucesso na época, mas que seu desenho demasiado solto, apesar da reconhecida qualidade, não serviu ao objetivo, e que, além disso, Rodrigues mostrou resistência em tocar um projeto de características delineadas. A mando de Assis Chateaubriand, veio à redação de O Cruzeiro, como candidato a autor, um rapaz de 19 anos incompletos, de nome Péricles, recém-chegado da cidade de Recife: O rapaz ouviu tudo atentamente e depois, sem hesitar, resumiu o que tinha ouvido, sem saber que naquele momento criava uma realidade imortal (...) Em seguida, pedindo lápis e papel, traçou com movimentos nervosos, diante de todos, o desenho daquele que seria em pouco tempo famoso em todo o Brasil. Foi assim que surgiu “O amigo da onça”, publicado já na semana seguinte em O Cruzeiro. (NETTO, 1998, p. 126).

O desenho foi aprovado pela direção de O Cruzeiro. E surgia ali, em outubro de 1943, um personagem destinado a fazer história na imprensa brasileira. Aliás, bastante parecido com o autor, que na época andava sempre, como se dizia na época, “nos trinques”, sempre bem vestido com seu paletó de linho branco e bigode bem tratado.

Ilustração 3 4 4 Texto: “– Foi esse aí, seu Trocador, botou só um tostão”. Primeira história do personagem. Fonte: O Cruzeiro, 23 de outubro de 1943. 12 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 7-38 | 2° Semestre 2008


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2 O CRIADOR E A CRIATURA

Ilustração 4 5

Péricles de Andrade Maranhão nasceu em Recife, Pernambuco, em 14 de agosto de 1924. Os primeiros desenhos de Péricles foram publicados na revista do Colégio Marista, onde ele estudava. A partir de então se tornou habitual colaborador de jornais recifenses. Graças a esta atividade, virou notícia pela primeira vez em artigo publicado, no dia 5 de novembro de 1940, no Diário de Pernambuco, também de propriedade dos Diários Associados, escrita pelo jornalista e diretor do jornal Aníbal Fernandes. Nas linhas de encerramento, Fernandes mostra toda a sua crença no talento de Péricles: “Guardem bem esse nome. Péricles Maranhão. Quem viver verá se ali não está um artista, sobretudo se tiver ambiente para estudar e produzir.” (apud JOTA, p. 2). A simpatia de Aníbal Fernandes rendeu a Péricles uma carta de apresentação e um emprego na matriz dos Diários Associados, no Rio de Janeiro, em 1942. Os primeiros trabalhos do jovem artista pernambucano – Cenas Cariocas; Miriato, o Gostosão; e Oliveira, o Trapalhão – foram publicados nas revistas Guri, Detective e A Cigarra, e percebem-se neles figuras pitorescas que, mais tarde, seriam a marca registrada do estilo Péricles, em especial nas histórias do Onça. 5 Semelhança física entre Péricles e O Amigo da Onça. Fonte: O Cruzeiro, 20 de janeiro de 1962.

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Ilustração 5 6

O Amigo da Onça, com sua cara ovóide, grandes olhos arregalados, fino bigodinho, piteira entre os dedos, terno branco e cabelos penteados com brilhantina, procurava captar e simbolizar o estado de espírito do brasileiro urbano, porém com o humor carioca. A aparência do Amigo da Onça lembrava o chamado “almofadinha” dos anos 1920, o homem urbano com cabelos engomados, terno impecável e semblante da imagem estereotipada do amante latino, viril, mas ao mesmo tempo delicado como um Rodolfo Valentino cinematográfico. Nas mãos de Péricles, O Amigo da Onça transformou-se em contundente crítico da classe média. As histórias, no estilo de comédias de costumes, retratavam a então capital federal Rio de Janeiro como espaço permanente de luta entre opressores e oprimidos, de falso moralismo, de homens e mulheres interesseiros, de gente esnobe, de maridos e mulheres adúlteros, de bêbados; de indivíduos tolos, simplórios e fáceis de serem enganados; de pobres coitados à beira da aniquilação física ou moral. E, para isto, estava ali o Onça, sempre alerta e pronto para dar o empurrãozinho derradeiro em direção ao abismo, como sujeito múltiplo e ator de inúmeros papéis: adulto e criança; médico, dentista, advogado, juiz de direito, barbeiro, enfermeiro, motorista de táxi; funcionário público, empresário, bilheteiro de cinema, toureiro, lixeiro, 6 Cenas Cariocas (fonte: revista A CIGARRA, setembro de 1952) e trecho de uma história de Oliveira, O Trapalhão (fonte: JOTA, 1988, p. 7).

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faquir, maestro, vendedor; funcionário de funerária, farmacêutico, ascensorista, bancário, banqueiro, fotógrafo, jornalista, soldado, marinheiro, aviador, bandido, policial, prisioneiro; trapezista de circo, mágico, bombeiro, coveiro, alfaiate, garçom, comerciante, jurado de programa de auditório; pobre e rico; bêbado e sóbrio. Em áreas rurais e urbanas; no trabalho e lazer; na rua, em casa, na escola, na festa, no bar, na estrada, na lua-de-mel, no manicômio. Na noite, na madrugada e de dia. No presente, no passado e futuro. Ser humano, bicho e extraterreno. Vivo e morto. Um e vários. O grupo de sujeitos risíveis ampliouse em O Amigo da Onça, passando da situação de estar – bêbado, gordo, pobre – para a condição de ser – negro, mulher, portador de necessidades especiais, idoso, nordestino. Ele ridicularizava a todos sem piedade e com igual eficiência.

Ilustração 6 1 1 Fontes dos anúncios da Coca-Cola e Sabão Platino: O Cruzeiro, respectivamente, de 30 de maio de 1953 e de 21 de janeiro de 1950.

Porém, não me parece exato classificar Péricles e O Amigo da Onça como preconceituosos. A noção de politicamente correto, no sentido proposto pelo movimento surgido entre intelectuais americanos em defesa de minorias, com seus eufemismos e expressões asseadas, a caminho de tornar-se um dogma dos tempos atuais, não era visto como valor simbólico na comunicação social. Assim, causava pouca estranheza rir da condição ou da desgraça alheia. Tudo se resumia apenas a ser ou não engraçado. Digamos assim: um ato maldosamente puro. Próprio, por exemplo, da criança pré-escolar que ri sem freio e piedade do amiguinho que levou um tombo ou que fez xixi nas calças. O ser humano inocentemente calhorda. Entretanto, parece-me correto afirmar que O Amigo da Onça foi um produto ideológico do seu tempo, apenas refletindo uma realidade que lhe era exterior, presente

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na forma de pensar e de agir dos leitores de O Cruzeiro, brasileiros urbanos e de classe média em meados do século passado. Aliás, conduta que extrapolava os quadrinhos e estava presente também em anúncios publicitários veiculados na época, como se observa na ilustração 6. Os anúncios acima, ambos publicados em O Cruzeiro, de produtos bastante respeitados no mercado, mostram uma temática comunicacional inaceitável atualmente na mensagem publicitária: o preconceito de gênero, raça e condição social. Mas que não causavam nenhum tipo de estranheza nos anos 50 do século XX, época em que foram veiculados. No primeiro, o homem, levado confortavelmente no cesto da bicicleta por uma mulher, alheio ao esforço feminino, troca um olhar de cumplicidade com leitor; e pela expressão da garota, é provável que ela não compartilhe da opinião da Coca-Cola de que isto faça bem. No segundo, a patroa branca e esbelta utiliza uma britadeira para abrir a “cabeça dura” da empregada negra e gorda para que esta tenha a “sapiência” de usar o sabão Platino. Outra característica marcante das páginas do Onça era a proximidade com a realidade política do país. O Brasil, seus generais, seus políticos e sua violência policial entram nas históricas de Péricles para serem criticados e ridicularizados. Esse estilo, sem freios ideológicos, fará a fama de O Amigo da Onça. Mas, ao mesmo tempo, transformar-se-ia em um grande problema para o artista Péricles.

3 A CRIATURA CONTRA O CRIADOR Nos anos 1950, O Cruzeiro transformou-se no maior veículo de comunicação existente até então na impressa brasileira. A tiragem, que na década de 30 não passava de 10 mil exemplares semanais, saltou, conforme Carvalho (2001, p. 7), para 720 mil exemplares, na edição de cobertura do suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. No entanto, Millôr (apud JOTA, 1988, p. 6) testemunha os problemas que Péricles passa a enfrentar: Péricles começou a lutar contra o mundo (...) A empresa O Cruzeiro, da qual eu já me afastara, tinha se transformado no que equivale à TV Globo de hoje, faturava bilhões (...) e se transformava para Péricles exatamente no cerne desse mundo hostil – nunca teve mesmo para com ele qualquer sentimento de compreensão ou solidariedade. Ao contrário, ajudou a esmagá-lo, até mesmo lhe negando a possibilidade de explorar comercialmente a sua criação.

De fato, as possibilidades de utilização comercial do personagem eram enormes. A imagem de O Amigo da Onça virou mania nacional e figura recorrente em brinquedos, logomarcas, máscara de carnaval, bonecos para geladeira, anúncios de Fiado Só Amanhã, camisetas, chocolate de natal. E sem que o autor responsável primeiro pelo sucesso tivesse qualquer ganho material.

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Ilustração 8 7

Ainda de acordo com Millôr (apud JOTA, 1988, p. 6), sentindo-se alienado recolheu-se “a um mundo mais simples, mais popular”, formado de donos de bares, barbeiros e choferes de táxi, no qual, completa Millôr, “se sentia mais compreendido e onde, possivelmente, ainda recebia seus melhores estímulos”. Não se deve, porém, creditar os problemas de natureza pessoal de Péricles aos conflitos profissionais com O Cruzeiro. Excessivamente tímido e solitário, na verdade Péricles era um homem atormentado pela dependência do álcool e pelo complexo de culpa em relação à morte de um irmão, a quem demorou a prestar ajuda financeira para tratamento médico e que acabou morrendo de um tumor no cérebro. O cartunista e escritor Ziraldo declarou (apud CARVALHO, 2001, p. 391.) que Péricles, alcoolizado, “tornava-se depressivo e, às vezes, agressivo e desagradável, completamente diferente de quando estava sóbrio”. Durante três vezes, entre 1950 e 1960, Péricles esteve internado para tentar curar-se do alcoolismo. Mas a dependência sempre o vencia. Em meados dos anos 50, tentou o suicídio cortando os pulsos no banheiro, mas foi levado ao hospital a tempo de salvar-se (CARVALHO, 2001, p. 390). 7 Máscara de carnaval utilizando a imagem de O Amigo da Onça. Personagem sai das páginas de O Cruzeiro e entra no cotidiano dos brasileiros. Fonte: O Cruzeiro, 28 de fevereiro de 1953.

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O temperamento instável de Péricles também afetou sua vida amorosa e o relacionamento com o filho. Em 1949, casou-se com Maria Angélica Braga Guimarães. Em 1955, Maria Angélica, não agüentando o alcoolismo e a vida boêmia do marido, pediu a separação. Da união dos dois nasceu o hoje médico Péricles de Andrade Maranhão Júnior, a quem o cartunista chamava de Pequinho. Após a separação, Péricles via o filho com freqüência e insistia com a ex-mulher para retomar o casamento. “Angélica fechou questão – sem deixar de ajudá-lo nos problemas do cotidiano, como roupas e perda de documentos. Péricles tocou a vida com outras mulheres, em relacionamentos sempre tumultuados” (CARVALHO, 2001, p. 391).

Ilustração 9 8

Sem um estudo apropriado, é difícil determinar o nível de influência dos problemas de natureza pessoal nas histórias criadas por Péricles. Houve influência, é claro. Na minha pesquisa, observei, por exemplo, aumento significativo de histórias sobre alcoolismo e suicídio nas histórias publicadas entre 1946 e 1960.

8 Texto: “– Eu não lhe disse que ele não estava no escritório?”. Fonte: O Cruzeiro, 10 de maio de 1947.

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Essa percepção é corroborada por Almeida (2002): Reza a lenda (ou fofocas, como bem entenderem) que o criador do personagem de cartum mais popular do Brasil, O Amigo da Onça, era na verdade um alterego de seu criador, instável de nascença, boêmio de experiência. Segundo as pessoas que acompanharam sua carreira e sua vida pessoal, Péricles o exemplo do homem correto e paciente quando estava sóbrio. Com o passar dos anos, no entanto, foram ficando raros esses momentos de lucidez e ele começava progressivamente a entrar em um estado de agressividade espontânea. Agressividade essa que, em linhas muito sutis, era notada no perfil de sua criação: preconceito e falta de pudor pontuavam algumas vezes as piadas publicadas pelo O Cruzeiro.

E surgem histórias metalingüísticas, expondo o próprio autor às críticas e observações do personagem.

Ilustração 10 9

Há também em histórias de O Amigo da Onça um dado marcante, que me chamou bastante atenção, ainda não aprofundado em nenhuma bibliografia disponível sobre o assunto: situações produzidas no campo da ficção que reproduzem fatos reais observados no suicídio de Péricles, em 1961.

9 Texto da primeira história: “– A página hoje saiu em preto e branco porque este ‘cara’ fez uma piada tão ruim que não mereceu nem colorir”. Fonte: O Cruzeiro, 27 de agosto de 1955. Segunda história: “– Desculpe”. Fonte: O Cruzeiro, 4 de julho de 1953.

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4 A MORTE DE PÉRICLES Em dezembro de 1961, Péricles ficou sozinho no Rio de Janeiro para as festas de fim de ano. A mãe dele, que morava no Nordeste e estava doente, não pôde visitá-lo, e a ex-esposa levou o menino Pequinho para passar o réveillon em Recife. Sem amigos e longe da família, no dia 31 de dezembro de 1961, Vestiu o melhor terno branco, calçou sapatos de verniz, caprichou no laço da gravata cinza-escuro, vedou com fita durex todas as fendas do apartamento. Estendeu um lençol no chão da cozinha e pôs nele um travesseiro. Abriu o gás do forno, deitou-se e morreu. (CARVALHO, 2001, p. 392).

E deixou duas cartas e um aviso na porta da cozinha. A primeira carta não era endereçada a ninguém em particular: A quem interessar possa: São precisamente 14h30 do dia 31 de dezembro de 1961. Estou completamente sóbrio e não desejo culpar ninguém pelo meu gesto. Apenas estou me sentindo profundamente só. Os amigos, se assim posso chamá-los, estão em suas casas, junto a suas famílias, o que não acontece comigo, pois a única família que possuo - minha querida mãe e irmã - está em Recife. Aqui, no Rio, não possuo um único parente, a não ser meu filho que se encontra com a mãe, pois sou desquitado e a mesma falou-me que iria passar o ano-novo com a família dela, em Recife, pois são também pernambucanos. Conclusão: sou profundamente sentimental e nunca passei essa época sem palavra de carinho. Apenas a solidão me levou a este gesto extremo. Talvez assim as coisas melhorem para todos. [E ASSINAVA] Péricles Maranhão. (apud CARVALHO, 2001, p. 392)

Na carta endereçada à mãe, falava da angústia daqueles dias e de uma decepção amorosa. E, escrito num papel de embrulho, um recado a lápis, cuidadosamente colado do lado de fora da porta da cozinha: “Cuidado. Não risquem fósforo. É gás”. Entre 1956 e 1960, Péricles criou quatro charges que, talvez, possam representar a preparação inconsciente do suicídio.

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Ilustração 11 10

Na primeira história, publicada em 1956, um homem está pronto para saltar de um edifício, mas é detido pelo Amigo da Onça. Não que o personagem quisesse evitar a morte, ao contrário, apenas para oferecer outra maneira de se matar: “– Não, Jorginho, não! Vamos lá em casa que eu tenho gás!” Péricles se matou por ingestão de gás de cozinha. 10 Fonte: O Cruzeiro. História 1: 9 de agosto de 1956. História 2: 25 de outubro de 1958. História 3: 7 de maio de 1960. História 4: 17 de dezembro de 1960. COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 7-38 | 2° Semestre 2008 | 21


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Na segunda história, de 1958, O Amigo da Onça está diante de um suicida, auscultando o coração e escolhendo o lugar certo para o tiro: “– Aqui!”, diz o personagem. Próximo ao suicida, dois bilhetes: um para a mamãe e outro à polícia. Antes de morrer, Péricles escreveu dois bilhetes: um dirigido à mãe e outro “a quem interessar possa”. Na terceira história, do primeiro semestre de 1960, o personagem está deitado na cama com uma máscara de oxigênio. Ao lado dele, uma mulher, conforme nos mostra o desenho, tonta por causa do gás supostamente esquecido aberto: “– Querido, não esqueceste o gás do banheiro aberto??” Péricles morreria deitado sobre um lençol e com a cabeça sobre um travesseiro. E, ironicamente, por decisão da diretoria de O Cruzeiro, O Amigo da Onça sobreviveria à morte de Péricles. A quarta história é de um ano antes do suicídio, dezembro de 1960. Representa uma reversão na expectativa dos leitores do Amigo da Onça. Em 17 anos, era a primeira vez em que o personagem corria risco de morte. O Onça aparece pulando de cima de um prédio, com um bilhete nas mãos. Ele está gritando para um espectador assustado: “– Escuta, só de brincadeira eu escrevi, neste bilhete, que você foi o único culpado deste meu gesto.” Na carta do suicídio, Péricles repetiria quase as mesmas palavras: “– Não desejo culpar ninguém pelo meu gesto”.

Ilustração 12 11

Na edição de 20 de janeiro de 1962, na seção Conversa Com O Leitor, a direção de O Cruzeiro escreveu: 11 Reportagem sobre a morte de Péricles. Fonte: O Cruzeiro, 20 de janeiro de 1962.

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A família de “O Cruzeiro” está de luto. Péricles morreu (...) A figura do homenzinho das falsetas, símbolo do que temos de mais malicioso e mordaz, de toda a verve brasileira e especialmente carioca, havia-se tornado conhecida em todos os quadrantes do nosso território, nas grandes cidades como nos mais longínquos lugarejos. Havia quem fizesse coleção das suas piadas. Pára-choques de caminhões levavam o seu nome ao longo do pó das estradas. Chaveiros e bibelôs o reproduziam. O seu desenho emoldurava avisos de “fiado só amanhã” e outros que tais. A denominação de “amigo da onça” entrara definitivamente para a língua brasileira, na conversa diária de todas as classes. Há dezoito anos que, semanalmente, Péricles desenhava uma nova “charge”. O seu traço fez escola. E ele se identificara totalmente com o tipo que “O Cruzeiro” lhe incumbira de criar. Artista de talento, boêmio e angustiado, à velha moda, desorganizado e insatisfeito, o rapaz que viera ainda menino do Recife, entretanto, nunca faltara com a entrega pontual do desenho. Aos poucos, foi formando uma equipe de colaboradores, que sugeriam piadas, que lhe seguiam os passos. E isso é o que salvará o “Amigo da Onça” de desaparecer com o seu criador (...) A grande maioria de nossos leitores o conhecia apenas pela assinatura, ou através da criação que o tornou famoso: o “Amigo da Onça”. Poucas vezes foi publicada a sua fotografia e, freqüentemente, quando os nossos repórteres viajavam pelo Brasil, ouviam a pergunta: - Como é esse Péricles? É parecido com o “Amigo da Onça” que desenha?

5 UMA PÁGINA EMBLEMÁTICA

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Ilustração 13 12

Quero, para finalizar a fase do período de O Amigo da Onça desenhado por Péricles, mostrar uma página emblemática do estilo e características do personagem. Na história mostrada, a ação acontece dentro de um auditório, possivelmente 12 Fonte: O Cruzeiro, 14 de novembro de 1953.

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numa solenidade envolvendo funcionários e diretores uma mesma empresa. Os trabalhadores e os diretores estão separados. Estes, em cima de um tablado; aqueles, lotando a platéia. Os empregados estão todos uniformizados com macacão azul e camiseta branca. Os dois senhores, elegantes, vestem paletó preto, colete branco e usam gravatas borboleta também da cor preta. Os diretores estão sentados atrás de uma mesa coberta com uma toalha branca, de frente para a platéia. A mesa está devidamente decorada para uma solenidade formal: plantas ornamentais, fita e laço decorativos. O Amigo da Onça está em pé, ao lado dos diretores, apontando para os homens e falando algo sobre eles. Ao lado de O Amigo, um balão com a palavra “censurado”, em letras pesadas, riscada com um “X” em vermelho. A platéia de trabalhadores está em delírio, expressando alegria, vibração e muita satisfação pela fala do Amigo da Onça. Os diretores, ao contrário, estão surpresos, bravos e envergonhados. A forma como Péricles elaborou o desenho, colocando a platéia em primeiríssimo plano, conduz o olhar do leitor diretamente para o Amigo da Onça, dando dinamismo à história. Não há ninguém imóvel na charge. Todos – os trabalhadores, o Onça e os diretores - estão, de alguma forma, com o corpo em movimento, o que estabelece uma qualidade ímpar à história. Além disso, a sobreposição de figuras maiores e menores dá profundidade à cena. Mas afinal o que o Amigo da Onça está dizendo? Ele poderia estar dizendo que todos terão um aumento significativo no final do mês ou que aqueles senhores tiveram uma falha de caráter ou que a esposa de um deles é amante do outro. Situações que estiveram presentes, de forma direta ou indireta, em outras charges de O Amigo da Onça. Porém, em nenhuma das charges houve a necessidade de esconder a fala do personagem atrás da palavra “censurado”. Devemos lembrar que se trata de um desenho veiculado no início dos anos 50. Uma época de consolidação de leis trabalhistas, de rígida educação familiar, de tabus sexuais. Devemos lembrar também que O Cruzeiro era uma revista conservadora e voltada à família de classe média. Diante disso, o que justificaria não explicitar a palavra do Onça? A explicitação da mensagem,a meu ver, está no comportamento da platéia, cujas atitudes refletem e retiram a palavra “CENSURADO” do balão, desvendando a fala do Onça. O único operário que está em pé comporta-se como uma bailarina: braços levantados, dançando na ponta dos pés, com os pulsos dobrados, os olhos COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 7-38 | 2° Semestre 2008 | 25


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virados para o céu e com expressão meiga. Agindo dessa maneira e estando onde está, seria lógico que todos estivessem olhando para ele e rindo da sua atitude – o que não acontece. Ou seja, seus gestos não causam estranhamento e apenas reforçam o que foi dito pelo Amigo da Onça. É importante destacar também o comportamento de quatro outras pessoas.

As quatro se abraçam, como se formassem dois casais. Porém em explícito tom de brincadeira e com a atenção voltada ao palco. Dessa maneira, fica claro que há uma óbvia referência à homossexualidade entre os dois senhores. De que lado está o Amigo da Onça? Da platéia ou dos senhores? De quem a Onça está sendo amiga?

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A resposta imediata seria, provavelmente, que ele estaria do lado da platéia. Ele teria, por exemplo, entrado no auditório, subido ao palco e, para alegria dos trabalhadores e desgraça dos senhores, afirmado que os dois têm um caso de amor. Nas entrelinhas há, no entanto, um confronto de classes acirrado pela fala de O Amigo da Onça que leva a leitura para outro viés. Obviamente os dois senhores não eram pessoas benquistas pelos trabalhadores. Se fossem simpáticos à platéia, haveria uma reação contra o Onça. Não rimos de amigos em contexto de humilhação. Além disso, a atitude da platéia, por sua vez, causará uma reação futura. Se aqueles senhores, de alguma forma, detêm o poder (tudo sugere que sim), esta força será usada em toda sua plenitude para punir a reação dos trabalhadores e, de algum modo, compensar a humilhação da elite. Há uma total imparcialidade do Onça. Não está a favor de nenhum dos lados. Seu poder, sua palavra, está a serviço de si mesmo, de sua satisfação e do prazer do leitor em rir da desgraça alheia. Não é por acaso que, na história, todos têm nariz de palhaço. “Sua função é intimidar humilhando” (SILVA, 1989, p. 147).

Em sentido horário, a partir da história no canto superior esquerdo: 13 Fala da história 1: “– Por que você não usa um de pulso?” Fala da história 2: “– Pronto! Tirei a minha máscara. Agora tire a sua...”

13 Fonte: O Cruzeiro (história 1: 14 de outubro de 1950; história 2: 12 de março de 1960; história 3: 8 de fevereiro de 1958; história 4: 10 de abril de 1954)

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História 3: Sem fala. Fala da história 4: “– Queimadinha, heim?!”

Em sentido horário, a partir da história no canto superior esquerdo: 14 Fala da história 5: “– Carlinhos, enquanto tu namoras, posso mandar engraxar tua perninha mecânica?” 14 Fonte: O Cruzeiro (história 5: 2 de abril de 1955; história 6: 18 de novembro de 1961; história 7: 11 de fevereiro de 1961; história 8: 3 de janeiro de 1953)

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Fala da história 6: “– E agora, pra encerrar o programa com chave de ouro, o rei da sanfona tocará a ‘Suíte Quebra-Nozes’, de Tchaikovsky.”

Fala da história 7: “Francamente, Plácido! “Eu achava que um palhaço te caía melhor...” Fala da história 8: “– Enfim... sós!...”

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Em sentido horário, a partir da história no canto superior esquerdo: 15 Fala da história 9: “– Pela gravidade da tua falta, serás deportado para o Brasil”. História 10: sem fala. Fala da história 11: “– Doutor, veja se esta voltagem já está boa pra ele confessar o delito!” 15 Fonte: O Cruzeiro. História 9: 2 de maio de 1959.; história 10: 7 de janeiro de 1961; história 11: 30 de julho de 1960; história 12: 29 de junho de 1947.

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Fala da história 12: “–David Nasser e Jean Manzon querem falar contigo”. Fonte: O Cruzeiro. Em 1947, em reportagem de dez páginas, David Nasser e o fotógrafo Jean Mazon mostraram o deputado constituinte Edmundo Barreto Pinto de cueca samba-canção e fraque, tomando champanhe. A matéria foi um escândalo e motivou a primeira cassação de um deputado na história do País.

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Em sentido horário, a partir da história no canto superior esquerdo: 16 Fala da história 13: “– Desculpe!” História 14: fem fala. Fala da história 15: “Isso vai também?” História 16: fem fala. A última charge feita por Péricles de Andrade Maranhão foi publicada em O Cruzeiro, na página 35 da edição do dia 3 de fevereiro de 1962. O Amigo da Onça e um banhista estão numa ilhota.

Ilustração 14 17 16 Fonte: O Cruzeiro. História 13: 3 de abril de 1948; história 14: 30 de agosto de 1952; história 15: 17 de setembro de 1955; história 16: 3 de julho de 1954. 17 Fonte: O Cruzeiro, 3 de fevereiro de 1962.

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O Onça está com um binóculo, supostamente observando tubarões, e aconselhando o outro homem: “Se quiser atravessar, aproveite agora que eu já o perdi de vista”. O leitor “toma conhecimento da mentira dita e de suas conseqüências para quem acreditou nela, transformando-se em cúmplice da ação que determina a virtual morte de quem dependeu daquele aconselhamento e seguiu alegremente para o banho”.

6 O AMIGO DA ONÇA APÓS A MORTE DE PÉRICLES Uma reportagem de quatro páginas na edição de 20 de janeiro de 1962, de tom sensacionalista, adequada à linha editorial da revista, traz a despedida pública entre o criador e a criatura: “Péricles disse adeus ao ‘Amigo da Onça’: o criador do tipo humorístico mais famoso do Brasil não sabia rir da própria vida”. O texto faz um resumo da biografia de Péricles, enaltece o talento do cartunista e comenta o sucesso e o forte apelo popular do Onça. A separação definitiva acontecerá, no entanto, a partir das edições de abril de 1962. Até 3 de fevereiro de 1962, O Cruzeiro veiculou originais inéditos entregues antecipadamente por Péricles. Nas outras edições de fevereiro e durante o mês de março, foram republicadas histórias criadas por Péricles na década de 1940. A continuação do personagem era idéia consumada entre os diretores da revista. A lógica empresarial dos Diários Associados não abria espaço para o fim prematuro do principal personagem em quadrinhos criado até aquele momento na imprensa brasileira. A questão, apenas, era definir o novo responsável pelas histórias do Onça. E um chargista, ilustrador e cartunista – pelo talento, estilo de desenho e de temática abordada – surgia como sucessor natural de Péricles Maranhão: o também recifense Carlos Estevão. Carlos Estevão de Souza, nascido em Recife, Pernambuco, em 16 de setembro de 1921, estava em O Cruzeiro desde 1947. No mesmo nível dos outros grandes nomes do humor impresso da revista, Péricles, Millôr Fernandes, Alceu Penna, Borjalo e Apple, Estevão já havia criado, antes de assumir o Onça, personagens e séries inesquecíveis: Dr. Macarra, um tipo sempre a contar vantagens; As aparências enganam, nas quais as cenas em silhuetas sugerem situações terríveis que são logo desmentidas no quadro seguinte; Ser Mulher, que apresentava de modo caricatural o papel feminino na relação conjugal. O estilo marcante de Estevão preferia os desenhos de traços firmes, grossos e com muitas sombras. Durante três anos, de 1962 a 1965, Estevão trabalhou principalmente como coordenador da página do Onça, sendo as histórias e os desenhos elaborados por uma equipe de cartunistas de O Cruzeiro. Nessa época, as páginas passaram a ser creditadas da seguinte forma: “O Amigo da Onça, criação imortal de Péricles – original da equipe de O Cruzeiro”. A partir 26 de julho de 1965, Estevão assumiu definitivamente o personagem e passou a desenhá-lo sozinho. Melhor desenhista, Estevão conseguiu dar ao Onça, em minha opinião, COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 7-38 | 2° Semestre 2008 | 33


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acabamento gráfico muito superior ao trabalho feito por Péricles. Mas infelizmente sem novidades significativas de conteúdo. O melhor de Estevão continuaria nas outras seções assinadas por ele em O Cruzeiro. Vitimado por ataque cardíaco, Carlos Estevão faleceu em 1972. Nessa época, o império jornalístico criado por Assis Chateaubriand, os Diários Associados, já vivia seu ocaso. A crise, que se instalara mesmo antes da morte de Chateaubriand em 1968, aumentava rápida e drasticamente. Afundada em dívidas com a Previdência Social, pessimamente administrada, com poucas falta verbas publicitárias e muitas ações trabalhistas, só a revista O Cruzeiro acumulava a cada ano um prejuízo perto de um milhão de dólares em moeda atual. Depois de Estevão, o Amigo da Onça continuou uma sobrevida no trabalho do cartunista mineiro Fritz Granado. Mas os traços do personagem, totalmente modificados, não agradaram os fãs e, em 1973, a página deixou de ser publicada. Um pouco antes do fim de O Cruzeiro, em julho de 1975, o Onça voltaria a ser publicado pelos cartunistas Willy e Joarez Odilon, em cópias medíocres dos traços e das histórias de Péricles. O Onça é publicado hoje em tiras de jornais no interior do País e boletins de sindicatos pelo cartunista Jota, que detém o direito de publicação do personagem. Final de amigo da onça para um dos mais importantes personagens do humor brasileiro.

Ilustração 14 18 18 Fala do personagem: “– Nada disso, dona... Essa carona agora é aqui do nosso chapa que está esperando há mais tempo!”. Primeira história assinada por Carlos Estevão.

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Ilustração 15 19

CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo de quase três décadas, o Amigo da Onça refletiu o imaginário popular. Um estilo de humor que ridicularizava, sem piedade, quem cruzasse seu caminho, mas que refletia e dialogava com o cotidiano direta ou metaforicamente. No período em que Péricles Maranhão publicou as páginas do Onça, de 1943 a 1961, a tiragem da revista aumentou quarenta vezes. Creditar tal sucesso apenas ao personagem Amigo da Onça seria obviamente equivocado. Ao lado de Péricles e seu Amigo estavam as reportagens e entrevistas de David Nasser, os ensaios fotográficos de Jean Manzon, as garotas ilustradas de Alceu Penna, a última página de Rachel de Queiroz, o humor corrosivo de Millôr Fernandes e Carlos Estevão, editores que compreendiam o desejo de seus leitores e, principalmente, leitoras. Mas que o Onça teve muitos méritos na popularização de O Cruzeiro, lá isso teve! No plano ficcional, o Onça era mestre em criar um estado de permanente tensão com seus oponentes. E ganhava todas. Eram sempre dele os louros da vitória no desmantelamento psicológico, moral ou físico do opositor. Conforme Silva, “Definir o outro do Amigo da Onça, portanto, passa por uma relação fortemente contida 19 Fala da mulher: “ – É, mas foi pescando esse peixe esquisito que eu te conheci, não foi, meu bem?” . Fonte: O Cruzeiro, junho de 1972.

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em regras, como que num jogo – que também é beco sem saída –, cujo desfecho é previamente estabelecido: o personagem vencerá”. No plano real, Péricles foi quem estabeleceu o confronto entre o que ele era e o que desejava ser. Perderam ambos, o homem e os seus sonhos. Péricles criou um tipo tão engraçado e carismático que acabou sendo engolido pela popularidade do próprio personagem. Ironicamente foi graças a um dos últimos atos em vida que Péricles conseguiu distanciar-se totalmente do Onça diante dos olhos do público (JOTA, 1988). Preocupado com a segurança de quem o encontraria morto, fez questão de deixar o aviso colado na porta: “Cuidado. Não risquem fósforo. É gás”. O Amigo da Onça diria outra coisa. Seria o gran finale se o personagem tivesse acabado naquele momento. Mas a lógica comercial do empresário falou mais alto. E os fãs foram vítimas de um outro tipo de amigo-da-onça, o substantivo masculino do dicionário, “o amigo-urso, o amigo falso, o infiel”. De qualquer maneira, e acima de tudo, ficou a satisfação de visitar um personagem que conheci na infância, tão caro à minha memória afetiva, o Onça feito Carlos Estevão, e de ser apresentado a outro, o Onça de Péricles Maranhão, de quem me tornei fã incondicional. A quem agradeço pelas boas gargalhadas e pelo retorno de ótimas lembranças do tempo em que morava em uma cidade pequena do interior do Paraná. De voltar no tempo, ser criança novamente e ter o prazer de sair de mãos dadas com o pai, à procura de uma banca de revista para ler um personagem muito engraçado. No final das contas, acho que esse cara não é tão amigo-da-onça como dizem ser.

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REFERÊNCIAS CARVALHO, Luiz Maklouf Carvalho. Cobras Criadas: David Nasser e O Cruzeiro. São Paulo: Editora SENAC, 2001. JOTA. O Amigo da Onça: a obra imortal de Péricles. 3 ed. São Paulo: Editora Busca Vida, 1988. MORAIS, Fernando. Chatô, o rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. NETTO, Accioly. O império de papel: os bastidores de O Cruzeiro. Porto Alegre: Sulinas, 1998. RIBEIRO, Darcy. Aos trancos e barrancos: como o Brasil deu no que deu. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Dois, 1985 SILVA, Marcos Antonio da. Prazer e poder do Amigo da Onça. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

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O telejornalismo e os exageros do gênero Maria Zaclis Veiga Ferreira1

Universidade Positivo

Resumo As condições que atrelam o telejornalismo, no Brasil, ao poder instituído e ao uso de regras que o colocam como gênero, fazem com que o caráter de verdade da notícia se dilua no espetáculo televisivo. O objetivo deste trabalho é discorrer sobre o uso exagerado dos elementos estéticos, técnicos e ideológicos no telejornalismo que acabam por resultar em uma deformação na intenção do jornalismo e na redução das possibilidades de participação política da população. Palavras-chave: telejornalismo, espetáculo, participação

Abstract The conditions that harness the television journalism, in Brazil, to the set up power and to the use of rules that put it like type, do so that the real character of the piece of news is diluted in the television show. The objective of this work is to talk about the exaggerated use of the aesthetic, technical and ideological elements in the television journalism that turn again in a deformation in the intention of the journalism and in the reduction of the means of political participation of the population.

Keywords: Television Journalism, political participation, television show

1 Maria Zaclis Veiga Ferreira é jornalista, fotógrafa e professora da Universidade Positivo. É mestre em Multimeios pela UNICAMP e doutoranda em Comunicação pela Universidade Trás-os-Montes e Alto D’ouro, Portugal. É autora dos livros Telejornalismo e Violência Social e Visões de Ponta Grossa - Mosteiro da Ressurreição e organizadora do livro Entrevista Coletiva 3 - Jornalistas Portugueses, todos editados pela Pós-Escrito.


O TELEJORNALISMO E OS EXAGEROS DO GÊNERO

A televisão foi implantada no Brasil em 1950 e se firmou em uma hegemonia empresarial com características familiares. Presente em 37 milhões de residências no país, a televisão, devido à menor penetração da cultura impressa, expressa e reflete a cultura brasileira por meio de uma rede que compartilha notícias e entretenimento em todo o território. Com mais de 350 emissoras nacionais em 8 redes de televisão aberta (Globo, Bandeirantes, SBT, Record, Cultura, CNT, Educativa e Rede TV!), a indústria está ativa e rende lucros crescentes. O telespectador, por sua vez, fica à mercê das técnicas de construção de uma informação cada vez mais veloz, superficial e padronizada. “Feita para todos e, portanto, para ninguém em particular, a programação da TV é construída sem levar em consideração os valores culturais específicos de cada região que atende, e é consumida sem que se perceba essa desvalorização.” (VEIGA, 2002, p.48). O espaço cotidiano passa a absorver as regras de comportamento ditadas pela TV. As tendências são retroalimentadas diariamente e a televisão passa a legitimar aquilo que construiu como padrão social. O telejornalismo faz parte dessa cadeia de construção e repetição de padrões por meio de regras estabelecidas que reduzem os fatos por conta da superficialidade com que eles são tratados. Dentro dessas regras estão as técnicas, as estéticas e as ideológicas. Essas três, quando tomadas como fragmento e isoladas do contexto em que a notícia se insere, moldam a informação e quando são articuladas de forma exagerada, deformam o fato. Na busca pela perfeição técnica o tempo é determinante na estrutura da notícia televisiva. Nem sempre é dado o tempo necessário para transmitir a informação, mas, sim, o estabelecido pela grade de programação. O tempo curto exige do repórter a capacidade de condensar e ser objetivo. Na maioria das vezes notícias importantes e repletas de desdobramentos são apresentadas em aproximadamente 2 minutos. A fala do entrevistado é condensada em média entre 20 e 40 segundos. À voz do ator social se sobrepõem a voz ou o discurso textual construído pelo jornalista. Nessa construção há uma importante aliada: a imagem. A imagem, inclusive, credita ao telejornal um caráter de verdade. No imaginário comum o acontecimento que “passou na televisão” ressoa socialmente e é absorvido como realidade. O universo passa a ficar reduzido aos acontecimentos que a imprensa cobre. E a sociedade começa a fazer a leitura das estruturas sociais a partir das falas dos repórteres contratados pelas empresas jornalísticas. E como empresas, os conglomerados de comunicação seguem a lógica de mercado, com estruturas complexas, buscando ou tentando manter o poder conquistado. Essas estruturas fazem com que em um zapping pelos telejornais tudo seja muito parecido

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e padronizado. Os gestos, comportamentos, modo de falar, segurar o microfone, caminhar em frente à câmera, etc. e todo o conjunto de regras que conduzem o enunciado televisivo são um conjunto de expressões convenientes padronizadas que vão atingir o telespectador. O telejornal, ao utilizar esses modelos, tem como argumento um produto agradável para o telespectador. Mas o exagero, sob os rótulos de cuidado e capricho, transforma os telejornais em belos depositários de uma realidade construída. André Parente cita Jean Baudrillard, que, ao analisar a transmissão da guerra da Romênia em dezembro de 1989, diz: “o cinema pode ser definido como a encenação da ficção como realidade enquanto a televisão, que pretende encenar a realidade como realidade, é de fato a encenação da ficção como ficção”. (PARENTE, 1993, p.147). A informação nessa televisão reducionista se perde pelo tom emocional, usado em benefício do espetáculo. Alguns elementos contribuem para que o telespectador compreenda o telejornal como um depositário da realidade. A data, a hora, as entradas ao vivo, o tempo real caracterizam ou oferecem características de realidade. O “está acontecendo agora” coloca o telespectador diante de uma “caixa da verdade”. Porém as regras da construção da informação deixam, muitas vezes, as matérias isoladas, como se nada as sustentasse antes, ou não houvesse repercussões provocadas por sua apresentação. Na notícia construída, o controle do discurso nega ao agente a veracidade da informação que não interessa, que possa apresentar discursos destoantes com o da empresa, que não tem contornos próprios para a televisão, que não permite imagens interessantes, que extrapola do tempo determinado – mas que muitas vezes é essencial para a construção da história, para a contextualização, para que a informação não seja somente um punhado de fragmentos que contam parte dos acontecimentos como se fossem o todo. O telejornal não só produz e veicula informação em forma de discurso, mas, ao interferir no discurso do sujeito entrevistado, tira-lhe a essência, transformando-o em uma espécie de mímica do relato. A construção da informação passa a ter um papel mais importante do que a própria realidade. Essa inversão de valores compromete a intenção do telejornalismo de divulgar, informar e servir, pois a deforma e molda conforme os objetivos da empresa, do editor, do repórter, do cinegrafista. A encenação passa a fazer parte da realidade, onde se reproduz a entrega de uma carta, a fila de sopa, o trabalho do entrevistado. Existe um autor que determina o ângulo, o melhor momento, a melhor fala, a cena, a construção da informação e a melhor seqüência, independente da linearidade temporal, não respeitando a construção lógica do entrevistado. Em meio a essa construção da notícia, existem as preocupações estéticas. Na busca pelo conjunto estético perfeito, o telejornalismo vai enfatizar o encontro entre o apresentador e o espectador, ao invés de repórter e tema. Esse encontro, que no primeiro momento parece representar a busca de uma afinidade visual, COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 39-48 | 2° Semestre 2008 | 41


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reduz-se a um jogo de cena, no qual o texto, a colocação de voz, o uso de recursos gráficos, a roupa e a aparência dos apresentadores, e o cenário são as formas de representação que reduzem a informação. (VEIGA, 2000, p.47).

O repórter deve se preocupar com sua aparência. Cabelos despenteados, dentes manchados de batom, gravatas tortas, camisas manchadas de suor são elementos discordantes, não aceitos na tela do veículo que reproduz a moda. Os olhos penetrantes do apresentador que fita o telespectador ora sério, ora alegre, dependendo do assunto; a voz modulada que faz uso de tons claros para notícias alegres, ou escuros para as tristes; a padronização do sotaque; os gestos; o movimento durante a troca de câmera, etc., são efeitos procurados pelo apresentador, e treinados até que se atinja a técnica perfeita. Como na apresentação teatral, onde o narrador dá o tom do sentimento que irá inundar a platéia, o apresentador é elemento importante na apresentação da notícia e na reação do público a ela. No livro Introdução à Análise do Teatro, Jean-Pierre Ryngaert afirma que “é preciso organizar a história de tal modo que, mesmo sem os ver, aquele que pretende narrar os atos que se realizam estremeça e seja tomado de piedade diante dos acontecimentos que sobrevêm”. (1995, p.15) Esse efeito, segundo o autor, produzido através do espetáculo, requer apenas os meios de encenação. Diante da câmera, o apresentador encontra esse meio. À fala dos entrevistados, outros elementos se somam: imagens, trilhas sonoras e recursos gráficos. O cenário é outro ponto importante na identificação do receptor com a informação transmitida. Ao permitir que o telespectador “entre” na redação que fica aparente atrás dos apresentadores, é-lhe dado o referencial de que muitos trabalham para que ele, telespectador, seja bem informado. Conforme o horário em que o telejornal vai ao ar o cenário, assim como a roupa utilizada pelo apresentador, se relaciona com o tipo de telespectador para quem se faz aquele telejornal. Por isso, nos telejornais matutinos os cenários são mais claros e informais e as roupas usadas pelos apresentadores podem ser casuais – dentro dos conceitos de moda –, enquanto os telejornais de esporte descartam o uso da gravata e permitem que o apresentador que, geralmente está em pé, use camisas ou camisetas mais esportivas. Já jornais da noite são mais formais, com cenários mais escuros e os apresentadores mostram em seu figurino roupas mais clássicas, com direito a brinco de pérolas e ternos escuros; assim o personagem/apresentador se caracteriza conforme as notícias, que são adaptadas a cada horário, intenção e público. E, finalmente, a técnica de organização dos blocos dentro do telejornal e das notícias dentro dos blocos segue uma regra de marketing que tem como objetivo “segurar” o telespectador diante da televisão e da programação do canal. A estrutura de apresentação é semelhante em todos os telejornais. As chamadas das matérias mais importantes se fazem no primeiro bloco, mas estas somente aparecerão no último bloco de notícias. O segundo e o terceiro blocos têm como função “prender” o telespectador com notícias agradáveis, engraçadas, leves. A partir desse ponto, com o

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telespectador acomodado diante do aparelho, são apresentadas as principais notícias do dia, encerrando com uma matéria positiva, como regra. A televisão apresenta o mundo às pessoas, e o telejornalismo dá crédito a essa apresentação por meio de seus recursos técnicos, estéticos e ideológicos. O repórter faz a sua leitura dos fatos, o cinegrafista mostra o acontecimento por meio das suas interpretações do mundo, o editor constrói a notícia como um quebracabeças, no qual as informações são dispostas dando prioridade, muitas vezes, à melhor seqüência estética, em detrimento da exposição da realidade. A informação é selecionada e toda forma de seleção é excludente. Ao selecionar uma notícia para a TV, levam-se em conta conteúdos de informação estratégicos ligados à intenção da emissora e/ou à sua (in)adequação técnica. A cada um dos que trabalham a notícia é dado o direito de recolher impressões sobre os acontecimentos vistos através de uma ótica particular. O discurso pode colocar em risco o depoimento, quando a busca da melhor maneira de informar é priorizada em detrimento do esclarecimento e do relato objetivo e linear. O repórter, como um indicador do melhor caminho para o entrevistado desavisado, pode conduzir as respostas, buscando aquelas que eram previsíveis através da pauta. Repórteres e editores que não têm como prioridade a ética (por má-formação ou deformação de caráter) podem induzir, conduzir, construir ou destruir respostas. A reportagem construída engana pela verossimilhança e que geralmente leva à unanimidade e esta não permite que haja debate porque homogeneiza a informação. Nilson Lage afirma que “a unanimidade como sistema tende a eliminar a crítica, e o livre debate passa a obedecer a restrições mais rígidas do que as regras de uma luta japonesa de sumô”. (LAGE, 1998, p.377). A unanimidade é alimentada por um jogo de interesses por trás das notícias e esse jogo permite, entre outras coisas, que os repórteres estejam nos locais certos nas horas certas. O texto não pode ser separado da impressão pessoal de quem o produz. Porém, a decorrência dessa impressão e a intencionalidade do texto produzido – interesses pessoais ou da empresa em detrimento do interesse público, preconceito, poder político ou econômico, necessidade de compreender e discutir questões sociais, intenção de enganar – vão fazer a diferença. E, em alguns casos, o uso das palavras e das analogias possíveis permite que seja transformado o sentido coletivo de algumas informações. No Brasil, pequena parte da população possui casa própria, ganha mais que um salário mínimo, tem assistência médica eficaz, desfruta de sistema de saneamento, tem vida confortável. Pode-se colocar em pauta a discussão sobre mudanças sociais que transformem essas situações, mas o que ocorre é que essa parcela da sociedade perdeu espaço e poder civil. São atores sociais que não conseguem adquirir o status de fonte porque não têm acesso aos produtores da notícia. É dada preferência às fontes oficiais que ditam o padrão da informação. Outra influencia que o telejornalismo sofre é a do hiper-realismo, quando parte da realidade é “pinçada” dela e tratada como um todo ou a realidade em si. O COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 39-48 | 2° Semestre 2008 | 43


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momento separado do contexto real passa a ser notícia e o drama, o conflito entre os opostos, a luta entre o bem e o mal passam a ser usados. A linguagem usada nessas matérias é repleta de evocações emocionais e analógicas que podem alterar o sentido da informação construída. Lage (1998) observa que é comum a mídia construir textos convenientes a partir de fatos verdadeiros. Esses textos convenientes (para adequar à empresa; para fechar o tempo; para ganhar audiência; etc.) utilizam como base alguns elementos já aceitos pela sociedade, como, por exemplo: qualquer suspeita divulgada pela mídia se transforma em verdade no inconsciente coletivo; a vida pública e privada se misturam em um mesmo contexto; o uso de fontes oficiais se transforma em verdade única. Buscando interessar o telespectador, todo conjunto de matérias é distribuído de maneira a alcançar um ponto de tensão, ao qual o telespectador ficará atento. Geralmente, o ponto de tensão no telejornalismo fica em torno dos 50 segundos, desde o início da matéria. Distribuídos de maneira alternada, com espaço de tempo para a compreensão das referências, os pontos de tensão garantem um telespectador atento. Ao se discutir a influência do drama, das políticas de poder vigentes, do controle de opinião e da interferência do jornalista na construção da informação, busca-se compreender maneiras de permitir que o observador/receptor possa construir uma crítica, por meio da informação sobre o mundo, e das possibilidades que ele mesmo tem para transformá-lo, se quiser, livrando-o das conclusões que tomam o todo pelo particular. Mas, como pode esse observador ser conduzido a isso, se a informação, mesmo quando comprometida com a realidade, ainda é uma fabricação? Considerando que, para obter êxito em suas ações e pensamentos, o homem, baseado em conhecimentos anteriores, precisa selecionar, discernir, comparar, analisar e sintetizar, a qualidade das informações transmitidas pela mídia deve permitir que o observador saia de sua posição passiva para a de um agente ativo e reflita – ou num primeiro momento ou mais tarde, quando a imagem gravada em seu subconsciente poderá remetê-lo a considerações sobre o assunto. Ciro Marcondes Filho (1988, p.52) fala sobre um segundo momento da notícia, no qual há uma elaboração pessoal de resultados, que poderá levar à mobilização através dos multiplicadores de opinião. A notícia passa a ser reelaborada na hora do cafezinho, no ponto de ônibus, etc. a partir de referenciais particulares de cada interlocutor. O exercício da cidadania passa pela compreensão de quem o homem é e do que pode fazer. Para uma compreensão plena, é preciso que ele tenha uma experimentação reiterada, isto é, aprenda e, posteriormente, tenha convicção da necessidade e passe para a ação. Dessa forma, o homem informado é capaz de tecer argumentos que legitimem a tomada de atitudes em busca de soluções para os problemas que o atingem. A informação, matéria-prima do telejornalismo, apresenta o mundo aos receptores. A partir dessa apresentação, o receptor tece uma cadeia de comparações 44 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 39-48 | 2° Semestre 2008


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que permitem estruturar a nova informação, compondo-a com outras já adquiridas e, depois, produzir modelos, simplificá-los, adequá-los e compartilhá-los. Quando compara, o homem reitera experiências, apóia-se em valores e gera novas informações. Dessa maneira, os dados transmitidos pelos noticiários ingressam nesse sistema, no qual há ampliação das informações. Desse modo, atitudes nas quais os jornalistas se coloquem como mediadores sociais, ajudando na construção do conhecimento coletivo a partir de informações do cotidiano, podem abrir espaço para um saber dinâmico e participativo. Jesús MartínBarbero diz que Comunicar foi e continuará sendo algo muito mais difícil e amplo que informar, pois comunicar é tornar possível que homens reconheçam outros homens em um duplo sentido: reconheçam seu direito a viver e a pensar diferente, e reconheçam a si mesmos nessa diferença, ou seja, que estejam dispostos a lutar a todo momento pela defesa dos direitos dos outros, já que nesses mesmos direitos estão contidos os próprios. (2003, p.57-86).

O poder conscientizador e mobilizador da imagem permite que o telejornalismo seja elemento importante na transformação das rotinas marginalizantes existentes e no processo de desenvolvimento da sociedade. Como meio de informação imprescindível, a notícia veiculada deve ser clara, honesta e objetiva. O telespectador, ao se colocar diante da TV, deve ter condições de compreender o mundo por meio de elaborações pessoais baseadas em sua história de vida. Porém, as informações, quando colocadas na fôrma do telejornalismo brasileiro (que foi construído a partir das experiências norte-americanas), geram uma notícia tecnicamente correta, mas que desperdiça um espaço valioso para a construção de um saber participativo, por parte do receptor. A construção que busca atender aos caprichos das questões ideológicas, técnicas e estéticas em detrimento da informação contextualizada e profunda, é excludente. O receptor, por sua vez, ágil quando encontra elementos para construir o saber, sucumbe quando é excluído da roda de conhecimento e somente informado. Armado com informações soltas sobre o cotidiano, não encontra maneiras de reagir, ou de compreender a necessidade de uma mobilização, ou de seu valor enquanto agente transformador. Nesse universo, os sistemas de dominação continuam a existir com nova aparência, pois continuam submetidos aos princípios de mercado e ideológicos. Da mesma forma, há duas tendências de atuação por parte do telespectador quando ele experimenta um sentimento de inquietação: a de acomodação, ou constrangimento; e a de desafio, ou mobilização. A imprensa pode contribuir para a ampliação da reflexão, o que levaria a atitudes novas, diferentes, em termos mais fraternos e mais justos, exterminando o pessimismo e a passividade, retomando a confiança da humanidade em si COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 39-48 | 2° Semestre 2008 | 45


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mesma e instaurando novos sistemas de valoração. Porém, ela não faz uso amplo e completo dessa possibilidade. Por questões técnicas, estéticas, políticas ou econômicas, o jornalismo, travestido de espetáculo, exime-se. (VEIGA, 2002, p. 86)

Cabe ao jornalista valorizar pautas que possibilitem a construção de um saber participativo por parte do telespectador, e não deixar-se influenciar pelo espetáculo dos fatos intensos, pela facilidade que as informações superficiais oferecem, pelos clichês que favorecem a construção da narrativa, pelas facilidades técnicas que impõem seu ritmo. A valorização de pautas que geram a reflexão estimula no receptor a sua capacidade de fazer, de ser e transformar a realidade. Podem direcionar o olhar do receptor de televisão para os traços pertinentes que a percepção distraída e desarmada deixa escapar. Cabe também a esse profissional jornalista assumir como estratégias, dentre outras, debater sobre questões sociais; posicionar-se e cobrar ação das autoridades; tornar-se um canal de expressão da população; desenvolver uma ação institucional que o coloque em contato com outros profissionais, para debater o papel da imprensa e o seu relacionamento com outros atores sociais. Michael Kunczik (2001, p.360) afirma que o jornalista “tem uma obrigação extremamente importante com a sociedade em geral: exercer a crítica com base nos valores humanos fundamentais, no ideal da humanidade”. O homem informado tem condições de compreender o mundo e se tornar mais participativo (ou imaginar que o é), Joan Ferres diz que: “na democracia os sistemas mais eficazes para condicionar as decisões das pessoas consiste em darlhes informações que tenham incidência sobre os seus conhecimentos e desejos” (FERRÉS, 1998, p.157). Tendo acesso a informações que permitam uma elaboração e retomada de postura o indivíduo passa para a fase de tomada de decisões. A tomada de decisões é baseada nas imagens mentais que o homem possui sobre a realidade “os meios, principalmente a televisão, são os verdadeiros construtores das imagens mentais” (FERRÉS, 1998, p. 157). A alternativa do telejornalismo, portanto, não é deixar de lado a estética ou as regras, e a renúncia de informações leves e que aparentemente servem somente para preencher a grade. Ele pode conquistar espaços e utilizar plenamente as margens deixadas para a liberdade criadora que construa informações que sirvam como ponto de partida para a reflexão do espectador quanto às condições da sociedade contemporânea, permitindo uma ampliação das noções de interesse coletivo, de solidariedade, de dignidade, de cidadania. Finalmente, esse movimento exige uma transformação das mentalidades, na qual a solidariedade seja complementada por um forte sentido pessoal.

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O JORNALISMO NO RÁDIO CURITIBANO Luiz Witiuk1

Universidade Positivo

Resumo O Paraná figura entre os estados pioneiros no surgimento da radiodifusão brasileira e Curitiba é uma cidade que se destaca nesse pioneirismo. Valorizando o rádio e sua história, pretende-se analisar o radiojornalismo praticado em Curitiba no período recente. Para tanto, a pesquisa de campo aponta as emissoras com programas jornalísticos, identifica a qualidade da inserção do jornalismo no rádio curitibano, sua estrutura, formatos de programas informativos, formas de produção, linguagem e seus conteúdos.A base bibliográfica para discutir as teorias do jornalismo, suas estratégias enunciativas e significados, tem como referência Traquina, Pena, Motta, White e outros. O referencial relativo ao radiojornalismo tem como autores principais Balsebre, Meditsch, Brecht, Salomão e Barbosa Filho. Palavras-chave: Rádio; Jornalismo; Linguagem; Curitiba

Abstract Paraná is among the pioneering Brazilian states in broadcasting. Its capital, Curitiba, is the prominence city in this history. This article analyzes the most recent years of radio-journalism in Curitiba. The field research aims the broadcasting stations with journalistic programs, identifies the quality of the journalism practiced in the local stations, its structure, formats, means of production, language and its contents. The article appoints the profile of Curitiba´s radio journalism. To help the analysis of the data collected, the bibliographical survey covered the works of Traquina, Pena, Motta, White and others. Specifically, the radio-journalism referential uses Balsebre, Meditsch, Brecht, Salomão, Barbosa Filho and others. Keywords: Radio; Journalism; Language; Curitiba

1 Mestre na área de Comunicação e professor de Radiojornalismo no curso de Jornalismo da Universidade Positivo


O JORNALISMO NO RÁDIO CURITIBANO

A revolução tecnológica que resultou nas novas tecnologias colocou o ser humano no centro de um sistema complexo de comunicação e informação, a ponto de ditar uma nova ordem mundial. Essa era da digitalização que envolve a sociedade como um todo nesse turbilhão da informação tem preocupado alguns pensadores quanto às conseqüências possíveis nos processos que podem afetar os modos de pensar, de ensinar e tratar a informação. Felipe Pena observa muito bem essa dependência das tecnologias que envolvem diariamente as pessoas fascinadas pelo mundo da informação e do consumo. Trata-se de um mundo novo e envolvente de comunicação e informação. Mercados financeiros estão conectados em tempo real. Fluxos de capital mudam de pátria em frações de segundo e mesmo um simples acesso à internet já nos coloca como ativos integrantes do estratégico banco de dados do mercado global. Não é exagero, é fato. Seu perfil de consumidor é mapeado diariamente por meio das indicações de seus gostos e preferências registrados pelo clique do seu mouse na web. (PENA, 2005, p. 11).

O jornalismo é, portanto, uma das tantas maneiras de se reportar ao mundo da informação que afeta e orienta a vida social como um todo. O jornalismo é a realidade, com acontecimentos e personagens por ela afetados; e a teoria do jornalismo, de certa maneira, com seus múltiplos olhares interpretativos, busca compreender as razões pelas quais a notícia – o relato da realidade – possui um determinado enfoque enquanto produção e quais os efeitos, enquanto notícia, no destinatário final. Na discussão acadêmica sobre a função do jornalismo como produtor de conhecimento existem várias interpretações muito bem resumidas por Meditsch (2002) e que vão desde a visão de que o jornalismo não produz conhecimento válido por não ser ciência e nem possuir o rigor do método científico; passa por Robert Park, que admite no jornalismo aquilo que ele tem de diferente como forma de conhecimento da realidade; e, finalmente, reforça um aspecto seu e que não bate de frente com a ciência: o jornalismo simplesmente revela a realidade de forma diferente e todas as formas em disponibilidade para conhecer e “re-conhecer” o mundo têm o seu valor e, portanto, o jornalismo fica perfeitamente enquadrado nesse novo olhar como modo de conhecimento. O jornalismo é muito peculiar no seu método de produzir conhecimento: não lida com hipótese e nem com sistema teórico como ponto de partida, utiliza apenas a observação da realidade como forma de produção. Não se quer afirmar que o jornalismo seja ciência, pois o seu objetivo não é revelar a essência das coisas. Por outro lado não se pode afirmar definitivamente que o jornalismo não seja uma forma de conhecimento enquanto é capaz de revelar aspectos da realidade que escapam à metodologia das ciências. Esse revelar determinados aspectos da realidade, ou esse dar a conhecer a realidade como função também do jornalismo, envolve uma ampla discussão em torno da notícia e suas formas de produção, ou os critérios que decidem o que é e o que não é notícia. Eles são a chave para se compreender o significado da notícia e o tipo de contribuição para se entender a sociedade.

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Há uma série de variáveis na produção da notícia, teorizadas nas obras de autores, como Mauro Wolf (1987, p.168)2, Nelson Traquina (1993, p. 173)3, Stuart Hall (1993, p. 226)4. Admitem uma intencionalidade por parte do profissional que detém o poder de seleção da notícia, cujo acontecimento, para fazer sentido, precisa ser reconhecido socialmente e culturalmente. Nesse processo é preciso considerar que na construção da notícia os profissionais nem sempre são autônomos e, na busca pelas fontes, incorrem na reprodução da ideologia dominante, considerando também como fator a coerção e o constrangimento, presentes nas instituições que lidam com a informação. Para que o destinatário da notícia possa entender o seu real significado, precisa também conhecer o modo como ela é produzida. É interessante observar também como o fator tempo expõe a transitoriedade e a efemeridade da notícia. Tal observação está diretamente ligada ao seu imediatismo. E aqui, o radiojornalismo, com sua característica primordial de acompanhar os fatos no momento em que estão acontecendo, mostra claramente como o fator tempo age implacavelmente na notícia radiofônica. Schlesinger (1993) lembra que quanto mais imediatas, mais quentes são as notícias, e que para o radiojornalista interessam os acontecimentos do aqui e agora. Amanhã, ou à tarde do mesmo dia, a notícia não mais interessa, torna-se velha. É a efemeridade do rádio presente no momento do fato, para lhe dar significado àquele específico momento. Para explicar os modos de produção da notícia, os autores construíram diversas teorias do jornalismo. Algumas delas serão destacadas no presente artigo e porque se fazem presentes no jornalismo de rádio em Curitiba, embora as teorias como um todo tenham algum reflexo na produção jornalística. A concepção da notícia jornalística como um espelho da realidade está presente enquanto há um grande empenho de se reproduzir o fato com a preocupação da imparcialidade, apesar de contestada, por exemplo, por Felipe Pena (2005, p. 127), que refuta tal teoria por ela não se sustentar na fórmula do absolutamente objetivo. Para ele não há como transmitir o significado direto dos acontecimentos, sem mediação. Traquina afirma que “a teoria do Espelho é uma explicação pobre e insuficiente” (2005, p. 149). Essa teoria está de alguma maneira presente em emissoras como a Rádio Clube Paranaense, Rádio CBN-Curitiba, Rádio Paraná Educativa FM/AM e 2 A noticiabilidade é constituída pelo conjunto de requisitos que se exigem dos acontecimentos (...) para adquirirem a existência pública de notícias. Tudo o que não corresponde a esses requisitos é ‘excluído’, por não ser adequado às rotinas produtivas e aos cânones da cultura profissional (WOLF, 1987, p. 168). 3 A conclusão é que as pessoas com maior autoridade, essas que têm contactos regulares com os profissionais do campo jornalístico, permitindo assim provar a sua credibilidade, são favorecidas no processo de produção de notícias. (TRAQUINA, 1993, p. 173). 4 Este trazer de acontecimentos ao campo dos significados quer dizer, na essência, reportar acontecimentos invulgares e inesperados para os “mapas de significado” que já constituem a base do nosso conhecimento cultural, no qual o mundo social já está “traçado”. (...) Este processo de “tornar um acontecimento inteligível” é um processo social – constituído por um número de práticas jornalísticas específicas, que compreendem suposições cruciais sobre o que é a sociedade e como ela funciona. (HALL et al., 1993, p. 226)..

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O JORNALISMO NO RÁDIO CURITIBANO

Rádio Band News5 – enquanto há também uma preocupação com a imparcialidade e a objetividade. Não é algo absolutamente determinante. Identifica-se também a presença da teoria do gatekeeper na Rádio Clube Paranaense e Rádio Paraná Educativa FM/AM. Esta teoria enfatiza a ação pessoal na seleção de notícias que vão para o ar, examina e disponibiliza as notícias apenas do ponto de vista de quem as produz, com um processo de seleção bastante subjetivo. É uma seleção muito pessoal cujo juízo de valor tem como base a experiência. Na avaliação de White (1993, p. 145), com a teoria do Gatekeeper “começamos a compreender como a comunicação de “notícias” é extremamente subjectiva e dependente de juízos de valor baseados na experiência, atitudes e expectativas do gatekeeper”. A teoria interacionista, presente na Rádio CBN-Curitiba e Band News, está também nas considerações do modo de produção enquanto se constata o fator tempo que pressiona o profissional e obriga a organizar o espaço e o tempo na elaboração do trabalho jornalístico em função das características imprevisíveis dos acontecimentos e a exigência do imediatismo no rádio. Há nessa teoria a interferência predominante dos “definidores primários” na construção da notícia, embora admita a participação, ainda que em desigualdade de oportunidade, de outros agentes sociais, que têm a oportunidade de contestar a situação política vigente e os valores dominantes. Nelson Traquina (2005: 198) deixa claro tal mecanismo do poder e das fontes oficiais (definidores primários) e expõe a dificuldade, por exemplo, dos movimentos sociais em terem acesso aos meios de comunicação quando fala que “os movimentos sociais com poucos recursos têm dificuldades em ver os seus acontecimentos transformados em notícia. Se pretendem jogar no tabuleiro do xadrez jornalístico, precisam ajustar o seu modo de interação organizacional aos modos das organizações estabelecidas”. A produção da notícia quando subordinada a um planejamento tira do jornalista a sua autonomia na busca da notícia, mas o torna participante ativo na construção da notícia. É a teoria construtivista, identificada na Rádio CBN-Curitiba e Band News. Teoria que se ocupa das práticas unificadas de produção. Ela não tem a preocupação primeira de refletir a realidade e, sim, de ajudar a construí-la. Portanto, o jornalismo não é o espelho do real. Como afirma Pena, “é, antes, a construção social de uma suposta realidade. Dessa forma, é no trabalho da enunciação que os jornalistas produzem os discursos, que, submetidos a uma série de operações e pressões sociais, constituem o que o senso comum das redações chama de notícia” (PENA, 2005, p. 128). Nas emissoras analisadas, observa-se que o radiojornalismo em Curitiba não tem, ao menos explicitamente, elementos que liguem a sua produção com a teoria da ação política, ou seja, as notícias a serviço dos interesses políticos. Há o cuidado de se estabelecer o debate político, mas sem a conotação explícita da proteção a interesses nessa área. A exceção fica para a rádio Paraná Educativa FM/AM que, 5 Nesse estudo, fizeram parte do critério de seleção das emissoras citadas, a história da emissora na sua relação com o jornalismo, no caso da rádio Clube Paranaense e CBN Curitiba a tradição jornalística de ambas. A rádio Band News como a novidade recém-instalada, considerada a sua proposta de inovação jornalística. A rádio Paraná Educativa FM pela sua estrutura e seu jornalismo diferenciado com aparente discurso de governo. Ainda foram utilizados os critérios da constatação da existência de departamento de jornalismo, a participação da reportagem ao vivo, o formato jornalístico do programa e sua forma de apresentação, o conteúdo informativo, a linguagem radiojornalística, as formas de produção.

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apesar do esforço em se fazer um jornalismo objetivo e que responda à demanda dos seus ouvintes, contudo não há como deixar de identificar o interesse político governamental, uma certa subordinação na produção da notícia às fontes primárias ligadas ao poder. Admite-se que não há como não divulgar as ações do governo e que seriam do interesse da população, ao mesmo tempo que se busca um jornalismo isento. Se para que o destinatário possa compreender o real significado da notícia é necessário que conheça o modo como ela é produzida, não menos importante se torna o ato de informar que não apenas se submete ao rigor objetivo da descrição dos fatos, ou seja, um jornalismo que apenas transmite. Há que se considerar também a capacidade intelectiva de interpretação dos significados por parte do destinatário da informação. E assim pode-se afirmar que o jornalismo é também uma atividade simbólica, como produtor de sentidos e que implica linguagem que produz significados. Na essência do comunicar-se, o efeito de sentido dos conteúdos noticiosos sugere interpretações e desdobramentos no destinatário. Motta (2004, p. 119) é muito preciso quando examina o ato de informar no meio radiofônico nessa comunicação dinâmica entre o repórter no seu ato de noticiar e o receptor na construção dos significados daquilo que ouve: “Todo ato comunicativo é um processo dinâmico, um jogo dialético de co-criação de sentidos entre um sujeito emissor e um sujeito destinatário”. Portanto, não se trata apenas do ato de informar jornalisticamente; no rádio é fundamental o fato de se estabelecer um ato comunicativo com o destinatário que vai dar significação à informação recebida. Há, portanto, um jogo entre as intenções (do enunciador) e as interpretações do relato informativo por parte do enunciatário. Essa reflexão sobre a produção de sentido do relato jornalístico é significativa por tratar-se aqui do meio rádio, pois mexe com o imaginário e a dimensão dos símbolos que proporcionam ao ouvinte interpretações mais profundas que aquelas da lingüística e da conversação. O rádio, portanto, não é apenas um meio que se presta à transmissão da informação jornalística pura e simples. Ele vai além na sua relação com o público ouvinte. Como queria Brecht (2005, p. 37), o rádio é principalmente um meio de comunicação: “Na minha opinião, vocês deveriam tentar fazer do Rádio uma coisa realmente democrática. (...) Opino, pois, que vocês deveriam aproximar-se mais dos acontecimentos reais com os aparelhos e não se limitar à reprodução ou à informação”. O rádio como meio de comunicação de mão dupla, que fala e que também ouve, ainda não se revelou totalmente democrático como expressão da vida das pessoas, de compartilhar pensamentos e experiências e que permita interferir diretamente naquilo que precisa ser transmitido. Numa análise mais atenta, percebe-se que o rádio em Curitiba e, mais especificamente, o seu radiojornalismo está ainda muito longe da possibilidade de os ouvintes interagirem com o meio como forma de participação direta no rádio informativo. O que se permite é uma interatividade “jornalística” do ouvinte por via indireta, no uso da telefonia e correio eletrônico, como forma de manifestação das suas necessidades de informação.

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O JORNALISMO NO RÁDIO CURITIBANO

Se Brecht lamentava a unidirecionalidade na transmissão radiofônica num prejuízo direto à interatividade do ouvinte, mais recentemente Armand Balsebre, que admite o conceito de rádio como informação e serviço, lamenta o esquecimento e a marginalização a que foi colocado o rádio na sua função cultural e expressiva. Balsebre (2000, p. 13) enfatiza que o uso do rádio com objetivos comerciais desvalorizou a sua função expressiva e estética. Mesmo na sua função de informar, o rádio deveria valorizar uma de suas fortes características que é a sensorialidade, cujo suporte está na voz humana, e que não é apenas a verbalização, mas o conjunto dos diversos sons que compõe a transmissão informativa e que tem a capacidade de realizar o diálogo mental entre o enunciador e enunciatário. Balsebre entra na questão da linguagem radiofônica, reafirmando que ela não se constitui como unicamente verbal, criticando, assim, a importância que se dá ao monólogo verbal no rádio informativo, em detrimento de outras formas expressivas da linguagem radiofônica, como, por exemplo, a música e os efeitos sonoros. Porém, Balsebre reconhece que o imediatismo do rádio informativo ao vivo dificulta a utilização de outros meios expressivos da linguagem radiofônica. O interessante é que Meditsch (1999, p. 121), ao trazer toda essa força expressiva do rádio em Balsebre para o jornalismo, faz uma distinção entre discurso radiofônico e discurso fonográfico. Para Meditsch, no radiojornalismo, a linguagem que se apresenta como uma composição de palavra falada, música, efeitos sonoros e silêncios é um discurso fonográfico. Por sua vez, o discurso radiofônico implica enunciado em tempo real, ou seja, o “ao vivo” que produz um marcante efeito de realidade. Essa característica “ao vivo” do discurso radiofônico no jornalismo, sua simultaneidade com a realidade do fato, para Meditsch não contém elementos da simulação (músicas, efeitos) e nem pode conter. O que se pode buscar, mesmo no radiojornalismo, é um equilíbrio entre os sons verbais (a palavra) e os não-verbais (música e efeitos sonoros) como garantia de um rádio à sua sensorialidade e busca de maior expressividade do meio. Mozahir Salomão (2005) é um dos que defendem essa expressividade dos recursos acústicos também no jornalismo, mantendo o rádio como meio de comunicação e também expressão. “A idéia é que, a partir de um fato noticioso, o jornalista se valeria de distintos recursos sonoros para poder retratar a experiência completa que acompanha a informação. Música, som ambiente e silêncios permitiriam fazer do fato mesmo toda uma experiência para o ouvinte” (SALOMÃO, 2005: 357). Outro autor que defende a utilização de formas expressivas (dramatização, por exemplo) no radiojornalismo sem que se comprometa a verdade do relato é Luiz Alberto Sanz6. Meditsch (2001) mantém sua posição ao dizer que o artista e o jornalista fazem uso diferente do meio rádio. Para o autor, o aspecto expressivo artístico do rádio não se coaduna com um jornalismo que lida com a realidade dos fatos. 6 Luiz Alberto Sanz é jornalista, cineasta e educador. É professor da Universidade Federal Fluminense, membro da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas; autor de livros, dirigiu a Rádio MEC, chefiou a reportagem da Rádio Jornal do Brasil e a redação do Jornal de Brasília. (http://sucuri.cpd.ufsm.br – Acesso em: 03.maio.2007)

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O radiojornalismo e o rádio-arte estão, portanto, para Meditsch em esferas de diferentes atividades, com objetivos específicos e representam diferentes gêneros do discurso radiofônico. Para André Barbosa Filho (2003, p. 89) os diferentes gêneros radiofônicos seriam o jornalístico, de entretenimento, publicitário, de serviço, entre outros. Enquanto no rádio-arte, por exemplo, cabem os gêneros de entretenimento e publicitário em função de uma determinada expressividade sonora, para Meditsch no gênero jornalístico radiofônico, em função do seu compromisso com a realidade tem como possibilidade apenas o som oralizado, ou seja, a palavra, “os outros sons reais utilizados numa transmissão jornalística terão que ter o seu significado semântico claramente sinalizado, sob pena de serem desconsiderados como meros ‘ruídos na comunicação’” (2001, p. 179). Para os diversos formatos que compõem o gênero jornalístico no rádio, certamente se encontra dificuldade na utilização da força expressiva do rádio combinando com a credibilidade informativa. As rádios jornalísticas de Curitiba manifestam certa preocupação no uso da sonoplastia em seus programas informativos, tanto no que diz respeito à plástica do programa no ar, quanto nas reportagens que são editadas. Se bem que, em alguns formatos do radiojornalismo, o uso da expressividade sonora (sonoplastia, efeitos) possa auxiliar na apreensão do significado daquilo que se comunica. Certamente, por exemplo, em nada comprometeria a credibilidade o uso de efeitos e música num documentário ou numa crônica. Ao contrário, o conteúdo seria reforçado no seu significado. O fato é que o rádio, que é comunicação pela sua expressão sonora e informação enquanto a ele são aplicados os processos jornalísticos de noticiar, não vem sendo explorado criativamente naquilo que ele tem de mais forte que é o som, a sua sensorialidade criativa que seduz e prende o ouvinte envolvido pela sua magia sonora. Ao longo de sua história de mais de 80 anos, o rádio curitibano de uma maneira geral sempre acompanhou a evolução do rádio brasileiro como um todo, em nada devendo aos maiores centros de radiodifusão. Esta constatação é muito evidente para aqueles que conhecem a história da radiofonia. Quando se abre a página da história da época de ouro do rádio – nas décadas de 1940 e 1950 – verifica-se que os curitibanos mantinham os mesmos padrões de programação do eixo Rio-São Paulo, com os programas de auditório, radionovelas, humorísticos, esportivos e também jornalísticos. Portanto, Curitiba possuía radiodifusores com ampla visão das potencialidades desse meio de comunicação, incentivando e oferecendo possibilidades para que se formassem profissionais competentes a ponto de se projetarem nacionalmente. Mesmo quando toda aquela estrutura do rádio como espetáculo se desmontou com a chegada da televisão – em Curitiba isso ocorreu mais para o final da década de 1960 – aqueles que entendiam a força do rádio perceberam também que ele poderia se manter como meio informativo, e o radiojornalismo se sustentou mesmo com dificuldades nas duas décadas seguintes, para aos poucos ir se firmando e se profissionalizando, num processo que ainda perdura com avanços significativos.

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O JORNALISMO NO RÁDIO CURITIBANO

Numa breve reflexão sobre o fazer jornalístico e o radiojornalismo praticado nas emissoras de Curitiba alguns aspectos merecem destaque por serem significativos. O primeiro deles diz respeito à produção jornalística. Uma primeira afirmação é quanto ao exíguo número de emissoras de rádio em Curitiba que trabalham efetivamente com o jornalismo informativo. De 17 emissoras7 abordadas em Curitiba, somente nove realizam transmissões voltadas para o jornalismo, considerando-se que possuem algum tipo de produção nessa área. As demais tratam a informação radiofônica apenas como obrigação ligada ao aspecto legal. Esse pequeno número de emissoras com trabalho jornalístico também mostra a pouca oportunidade de trabalho aos profissionais no radiojornalismo e que vai ter seus reflexos no processo de produção da notícia. Fica extremamente difícil um jornalismo radiofônico, como quer Meditsch (2001), ou seja, a cobertura ao vivo dos fatos. Das emissoras abordadas, apenas quatro (Clube, CBN, Band News e Paraná Educativa) possuem um número razoável de profissionais para cobrir as funções de reportagem, produção e apresentação dos programas. Além disso, por questões financeiras, a estrutura dos departamentos de jornalismo está cada vez mais enxuta e com isso sobrecarregando o profissional com diversas funções jornalísticas (pauteiro, repórter, editor, apresentador...). Há, portanto, em função da demanda e expectativa do ouvinte, uma razoável (em função da estrutura), mas também boa (em função do empenho profissional) produção radiojornalística, nas poucas emissoras que trabalham com a informação em Curitiba. Além de identificar as diversas teorias jornalísticas (espelho, gatekeeper, construtivista, interacionista, de ação política) presente nas formas de produção, há algo que se destaca nesse processo de forma positiva. Apesar da razoável estrutura de trabalho nas poucas emissoras de rádio, há uma compreensão muito forte nos seus profissionais do valor do imediatismo do rádio, característica importantíssima quando se trata do jornalismo. Porém, é preciso frisar que esse imediatismo do rádio na reportagem ao vivo fica aquém, se comparada – na extensão do tempo do programa informativo – com o número de reportagens gravadas e editadas, que Meditsch (2001) chama de jornalismo fonográfico, além das notas de agências de notícias. Vale ressaltar o esforço dinâmico e a prioridade que se dá para a cobertura ao vivo dentro do possível. O que se pode afirmar com relação ao radiojornalismo em Curitiba, no que se refere aos protagonistas da área jornalística, é que há uma seriedade ética e profissional muito presente quando se discute o que vai ser notícia em determinado programa e a quem cabe a decisão. O que se constata nessas emissoras jornalísticas é um espírito de equipe que se traduz até num espírito de superação, diante das limitações quanto ao número de profissionais e a necessidade de demanda. Há seriedade jornalística no processo produtivo nessas rádios informativas. Outro aspecto significativo no radiojornalismo é quanto aos formatos adotados pelas emissoras. Uma primeira observação é quanto a certa semelhança nos formatos 7 Quando do estudo realizado existiam 29 emissoras de rádio em Curitiba, segundo a Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná – AERP. Dessas, participaram do estudo 17 emissoras. Constatou-se que, entre as dezessete, nove possuíam departamento de jornalismo.

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com programas específicos de jornalismo (jornal falado, boletins, entrevistas, reportagem, informativo especial...). Um diferencial, novidade no radiojornalismo de Curitiba, é a proposta da Band News com uma programação em fluxo e totalmente voltada para o jornalismo, com 72 jornais diários de 20 minutos cada. Tal formato se presta muito para a proposta jornalística da Band News em atender à demanda urbana, dando uma atenção especial ao jornalismo de utilidade pública numa espécie de boletim de aproximadamente cinco minutos de produção local inseridos nos módulos dos 20 minutos do jornal. Contudo, nas emissoras de Curitiba, o formato jornalístico da reportagem ao vivo, embora priorizada por elas, carece de maior dinamismo pelo reduzido número de profissionais. Em todos os formatos acima citados e que são utilizados nos programas jornalísticos das rádios, há uma preocupação muito grande no sentido de que, ao formatá-los no ar, a linguagem tenha expressividade tal que a clareza da comunicação facilite o entendimento do ouvinte, principalmente pelo uso de uma verbalização mais coloquial e que cria proximidade com o ouvinte. Nos diversos formatos de programas jornalísticos, a tão decantada interatividade defendida por Brecht como oportunidade de democratizar a comunicação radiofônica, pouco, ou quase nada, é permitido. O ouvinte não cabe nos formatos adotados, com a possibilidade de se expressar durante a transmissão. Há um receio ético que não permite a ousadia de abrir o microfone para o destinatário da notícia. O radiojornalismo de Curitiba perde muito quando age timidamente (ou não age) neste sentido. Paradoxalmente, programas jornalísticos na televisão8 já estão abrindo esse espaço para os telespectadores, via telefone, se manifestarem ao vivo. A justificativa muitas vezes apresentada é a de que o formato do programa (somente notícias) não permite a quebra do ritmo. Mas o programa não é produzido em função das necessidades de informação e compreensão dessa informação por parte do ouvinte? Há muito Murray Schafer (1997, p. 31), que defende um rádio mais radical, contesta a ditadura do relógio para o ritmo do rádio ocidental e diz que essa “limitação não é técnica, mas cultural, já que tecnicamente o sinal de rádio é contínuo e pode ser modulado na forma desejada”. Para não quebrar o ritmo do programa, as manifestações dos ouvintes são anotadas pela produção e repassadas ao apresentador que as lê, ou quando muito gravadas e editadas para serem posteriormente colocadas no ar. Por outro lado, é discutível a afirmação de que se promove a interatividade com o ouvinte pelo fato de abrir canal de comunicação dentro da produção para sugestão de pauta, ou oportunidade para fazer reclamações. Isso não é específico do rádio e serve para o sistema de produção jornalística para qualquer tipo de veículo. Interatividade no rádio somente é tal quando o ouvinte pode se manifestar no ar, como ouvinte e participante daquele ato informativo e de comunicação. Na linguagem radiofônica, a expressividade sonora representa um papel 8 O Jornal do SBT abre espaço em blocos definidos durante o programa, para que os telespectadores comentem um assunto importante, colocado pela produção. O interessante é que a interatividade é direta com o âncora, ou seja, há diálogo entre emissor e receptor.

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preponderante também no radiojornalismo. No entanto, o recurso da sonoplastia é muito mais utilizado como elemento de plasticidade estética do programa de jornalismo no ar. Isto significa que há certa restrição na utilização dos recursos sonoros (música, efeitos sonoros) especificamente como elementos da linguagem jornalística de rádio. A objeção colocada na pesquisa é que o jornalismo trabalha com a realidade e que, portanto, ela deve ser “refletida” no relato objetivo e sem “ruídos” que eventualmente possam interferir, principalmente pela garantia de credibilidade. Há, nesse particular, algo que pode ser acrescentado: os diversos autores mencionados nesse trabalho afirmaram que a sensorialidade do rádio é sua característica peculiar. Por essa razão, o som radiofônico produz no receptor sentimentos, antes de qualquer espécie de raciocínio. Aliás, rádio é essencialmente emoção, porque desperta no receptor o imaginário, provocando assim um diálogo mental entre enunciador e enunciatário. É mediante esse diálogo mental que o ouvinte constrói os seus significados para os enunciados e que, num segundo momento, podem levá-lo à reflexão, à compreensão racional dos significantes. Por que o radiojornalismo não pode servir-se da riqueza que é a expressividade sonora, como fator ilustrativo da notícia e de suporte que facilita e torna prazerosa a narrativa dos fatos? Em que ficaria a credibilidade prejudicada? Por que o radiojornalismo não pode ser pensado também esteticamente? Finalmente é interessante ressaltar o uso e a compreensão que se tem no radiojornalismo de Curitiba para os formatos da reportagem e da entrevista. Curiosamente, apesar de se priorizar a reportagem com a cobertura dos fatos em tempo real, nas emissoras pesquisadas, há também a utilização acentuada das reportagens gravadas, como forma de repercutir determinados fatos e também preencher os espaços dos programas. A causa é mais uma vez a falta de número suficiente de profissionais em campo e os grandes espaços destinados na programação à informação e que, por sua vez, de certa maneira, “obrigam” a utilização da entrevista. Não se quer afirmar que a entrevista não tenha valor jornalístico. Os profissionais a valorizam como tal, tanto que a interpretam como importante na complementação e esclarecimento na narrativa do fato. O grande problema que se observa é que ainda a entrevista é utilizada e por telefone, como forma de suprir a falta de profissionais repórteres e conter custos de produção e não deixa de ser uma forma também de se fazer a reportagem a distância, ou seja, artifício quando não se tem a reportagem presente no local do fato. Após essas considerações a respeito de alguns itens significativos constatados no radiojornalismo de Curitiba, e depois de conhecer o panorama geral do jornalismo existente nas emissoras pode-se afirmar que há um bom radiojornalismo que se percebe em processo de crescimento e consciência de sua importância para o universo dos ouvintes que buscam informação. Há um bom radiojornalismo protagonizado por pouquíssimas emissoras, e isso é lamentável num universo de quase três dezenas delas existentes em Curitiba com sinal AM e FM. Cabe aqui uma reflexão propositiva com o objetivo de contribuir para um jornalismo de rádio ainda mais eficiente para a demanda curitibana.

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Na última década o radiojornalismo apresentou um grande avanço em Curitiba, se comparado com décadas anteriores. Há ainda muita preocupação em cobrir espaços com a quantidade. Do ponto de vista qualitativo é preciso evoluir mais para um amadurecimento no tratamento da notícia, com o objetivo de contribuir para a vida da sociedade, ajudando-a na compreensão dos fatos que a cercam. Nos meios radiofônicos que lidam com o jornalismo aposta-se nesse amadurecimento, pelo processo de reprofissionalização que está acontecendo nos últimos anos. O radiojornalismo de Curitiba necessita, por exemplo, de maiores investimentos, principalmente no preparo de profissionais, para atender às necessidades de uma cobertura local dos fatos. Aquele batido conceito de que notícia é o fato inusitado, o impactante, o extraordinário... precisa também admitir que pode ser notícia aquilo que é o dia-a-dia do ouvinte, no local onde ele mora, trabalha e vive em sociedade. Neste sentido o jornalismo radiofônico não atende à demanda das necessidades locais de informação. Portanto, apesar do grande número de emissoras, ainda há espaço para aquelas que queiram se dedicar a um jornalismo que fale das coisas locais. Curitiba precisa e tem espaço para um radiojornalismo mais comunitário, com um foco maior nos fatos que afetam diretamente o ouvinte local. O que existe são tentativas que podem ser mais implementadas. Neste particular a própria história tem pontuado avanços e retrocessos, experiências que não prosperam principalmente pelo peso financeiro, pois o jornalismo está calcado essencialmente no fator humano, no preparo e contingente profissional, e isso tem um custo. É preciso um trabalho junto aos empresários para que percebam que as pessoas buscam informação e querem ouvir boa informação. O dinamismo da reportagem cobrindo os setores institucionais do poder, os acontecimentos das diversas áreas da vida em sociedade, ainda é muito tímido no jornalismo de rádio em Curitiba. O ouvinte tem necessidade e grande interesse nos fatos que acontecem à sua volta e isto precisa ser priorizado. Portanto, uma emissora de rádio que quisesse inovar jornalisticamente em Curitiba, deveria ousar numa programação – e não apenas um ou outro programa – voltada para a comunidade. Curitiba é uma metrópole e o sinal do rádio cobre praticamente toda a Região Metropolitana. Trata-se de um ambiente de proximidade com muitos acontecimentos afetando mais de dois milhões de habitantes. Um outro aspecto a considerar seria a possibilidade de maior ousadia na utilização dos recursos não-verbais na notícia radiojornalística. Uma das preocupações constatadas na rádio Band News é o risco de o radiojornalismo ficar muito calcado no discurso verbal. Por que não utilizar os recursos não-verbais, como a música e os sons ambientes? Apesar dos riscos de incorrer em simulacros que afetariam a credibilidade jornalística, contudo a ética profissional que sempre deve orientar o trabalho profissional confere o devido equilíbrio nessa forma de reportagem e edição jornalística para o rádio. Há ainda a defesa de pesquisadores como Schafer, Prado, Kaplún, o próprio Balsebre entre outros, que acreditam no uso dos recursos expressivos do som radiofônico como elementos de informação. Aliás, o rádio não é só palavra na reportagem informativa. Há outros sons que ajudam o ouvinte a compor a narrativa e

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que, portanto, também podem ser considerados informação. Prado (1989, p. 89), ao incentivar um radiojornalismo sonoramente mais ousado, fala que se “deve procurar incluir ao máximo o som ambiente, que favorece a compreensibilidade, provoca a intervenção da imaginação no ouvinte e, sobretudo, dá credibilidade à informação. Por outro lado, estes elementos dão dinamismo e ritmo à reportagem”. O radiojornalismo curitibano precisa ousar mais, valorizar mais os aspectos sensoriais do rádio e praticar um radiojornalismo que contemple também a estética do som. Afinal a reportagem também é um produto estético, pois passa pelo filtro da sonoridade. Para o ouvinte o som também é uma fonte jornalística. Por que, no rádio, o argumento da credibilidade da notícia tem que passar pelo parâmetro da voz neutra, insípida e com aquele tom sisudo da objetividade narrativa? Nunca é demais lembrar: no rádio, por mais séria e autêntica que seja, a informação chega até o ouvinte por um meio sonoro, que por sua vez vai colocar em ação toda a construção de um cenário mental para apreensão daquilo que ouve, justamente provocado isso tudo pelo primeiro estímulo do som radiofônico que é a emoção. Trata-se de um radiojornalismo mais elaborado, que leva em conta não apenas o aspecto da verbalização e que pode tornar monótona a audiência. A estética também pode ser um elemento favorável à variação rítmica importante num programa jornalístico. Outro elemento a ser valorizado é o fato de o jornalismo no rádio ser também comunicação e que, portanto, não pode desperdiçar a força expressiva do som radiofônico apenas com a comunicação verbal. Em nome da agilidade jornalística e do tempo de produção para fechar os grandes espaços de um programa informativo, perdeu-se no radiojornalismo de Curitiba o formato do documentário jornalístico. Existem fatos significativos, inclusive ligados à história, e assuntos importantes que poderiam ser tratados com maior profundidade e que oferecesse maiores elementos na formação de opinião dos ouvintes. É bem verdade que existe o formato da mesa-redonda que também é uma maneira de agregar valores jornalísticos a um fato ou assunto relevante. Mas é preciso valorizar mais o rádio como um dos grandes meios de se contar história. No documentário é possível utilizar todos os recursos do rádio sonoro de forma a tornar a informação estimuladora da imaginação do ouvinte. Mais uma vez: o rádio é emoção sem deixar de ser um meio de se estimular a formação de opinião. Ao estimular a produção de documentário no rádio, Helmut Kopetzky fala que a subjetividade é uma virtude quando ela se manifesta na defesa de uma idéia de maneira pessoal; e ela vem acompanhada das informações que são fundamentais para que então o ouvinte construa a sua. “É óbvio que devemos dar ao ouvinte todas as informações fundamentais relacionadas com o assunto, de maneira a capacitá-lo a formar a sua própria opinião e compará-la com o nosso ponto de vista” (KOPETZKY, 1997, p. 79) Há espaços na programação das emissoras para que, por meio do documentário, se possa resgatar na linguagem jornalística fatos relevantes da cidade, personalidades, a vida social, como meio de valorizar e perenizar a memória de uma comunidade urbana. Não se trata apenas de memória. O radiodocumentário é também um meio

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informativo que oferece oportunidade reflexiva que auxilia na formação de opinião. O radiojornalismo, portanto, possui uma dupla riqueza que é, primeiro, ter a capacidade de colocar o ouvinte diante do fato, pela agilidade da reportagem, no momento em que está acontecendo; segundo, valorizando os recursos sonoros, reconstruir os fatos para aprofundá-los, contextualizá-los e provocar uma reflexão no ouvinte por meio do documentário. Finalmente, poder-se-ia criar um radiojornalismo tipicamente curitibano, com seu sotaque e jeito de ser. O jornalismo está muito recolhido nos estúdios das emissoras de rádio, apesar das equipes de reportagem circularem pela cidade na cobertura dos fatos. Para inovar é preciso ousar e a ousadia, num primeiro momento, encontra a resistência do status quo do modelo radiofônico vigente. Nesse particular, é muito interessante o radicalismo proposto por Schafer (1997, p. 36) ao defender que os ouvintes possam ter participação direta na escolha dos assuntos a serem discutidos: “Eles não devem ser intimidados e manipulados por locutores escorregadios. Na Holanda, por exemplo, Wilem de Ridder opera um programa de rádio no qual qualquer ouvinte pode trazer uma fita cassete sobre um assunto de sua escolha que ela irá ao ar. A variedade é estonteante e estimulante”. Nesse seu radicalismo de resgate sempre maior da função comunicativa do rádio que deve permitir a participação direta do ouvinte, Schafer desafia os programadores ao provocar: Sempre pensei em colocar microfones em restaurantes, clubes ou qualquer outro lugar onde as pessoas se reúnam para trocar idéias. Os resultados poderiam ser revigorantes. (...) Isto sem um locutor que fique direcionando os pensamentos das pessoas. Estas e outras milhões de situações produziriam um material muito mais interessante do que as opiniões solicitadas aos ouvintes sobre assuntos do dia. Isto também é tecnicamente possível. O único empecilho é a arrogância dos programadores. (SCHAFER, 1997, p. 36)

Sair das quatro paredes do estúdio9 e ganhar as ruas, praças, bairros, Ruas da Cidadania, terminais do transporte coletivo, transformaria o radiojornalismo de Curitiba, tornando-o mais cidadão e comprometido no seu aspecto social e transformador da realidade. Pode ser um programa semanal em que o estúdio com seus profissionais jornalistas abriria espaço para as vozes da comunidade nos seus anseios de vida, de progresso, de cidadania e nas suas expressões de agentes sociais que trabalham e lutam por uma vida melhor. É a oportunidade que a tecnologia e a mobilidade do rádio oferecem para ser um meio de comunicação democratizante que fala, mas que também ouve. Um radiojornalismo assim, participativo e atuante, comprometido e transformador reafirmaria a sua credibilidade junto ao público ouvinte que ainda vê no rádio o meio democrático de fazer valer os seus direitos. Se o radiojornalismo de Curitiba fizer tudo igual a vida inteira, os resultados serão 9 Experiências de estúdio aberto à participação popular já existiram em Curitiba. O exemplo clássico foi a Casa do Povo, em plena Praça Rui Barbosa, na região central. Não havia conotação jornalística e democratizante da informação. A sua função era eminentemente política e que tinha à frente políticos com cargo público.

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iguais a vida inteira. Por isso, é preciso coragem para ousar e apostar na qualidade para sair da mesmice da massificação repetitiva: notícia de política, policial, futebol, economia... No radiojornalismo informar é importante, mas ouvir o som das ruas, das praças, dos terminais de transporte... do público ouvinte, é fundamental.

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Jornalismo estrábico: Veja e CartaCapital na cobertura do “escândalo do mensalão” Tomás Eon Barreiros1 Danilo Amoroso 2 Resumo

O presente artigo analisa a cobertura jornalística do chamado “escândalo do mensalão” feita por duas revistas brasileiras, Veja e CartaCapital. O objetivo deste trabalho é demonstrar a influência do posicionamento político na cobertura jornalística. A análise comparativa entre os dois veículos mostra que Veja explicitou uma tendência contrária ao candidato e depois presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto CartaCapital apoiou abertamente a candidatura de Lula em 2002 – esses posicionamentos influenciaram a cobertura dos fatos relacionados ao “escândalo do mensalão”, conforme se depreende da comparação entre as capas dos periódicos referentes à cobertura analisada e entre matérias publicadas nos dois veículos sobre o mesmo tema. Enquanto Veja procurou sempre atacar o presidente (e também seu partido e seu governo), considerando-o culpado a priori, CartaCapital, ao contrário, buscou isentar o presidente de culpa nos episódios referentes ao escândalo, chegando a omitir informações e preservando ao máximo a imagem de Lula. Palavras-chave: escândalo do mensalão,

Abstract

The present article analyses the coverage of the so called “escândalo do mensalão” done by two Brazilian magazines, Veja and CartaCapital. The aim of this work is to demonstrate the influence of political side-taking in press coverage. The comparative analysis between both means shows that Veja made explicit a tendency contrary to the candidate and then later president Luiz Inácio Lula da Silva, while Carta Capital clearly supported Lula’s nomination in 2002. These side-takings influenced the coverage of the facts related to “escandalo do mensalão”, as it can be inferred from the comparison of both magazine covers referring to the coverage analyzed and of articles published on both magazines on the same topic. While Veja tried to always attack the president (and also its party and government), considering him guilty beforehand, CartaCapital, on the other hand, sought to exempt the president of guilt in the episodes connected to the scandal, coming to a point of omitting information and preserving Lula’s image to the most. Keywords: escândalo do mensalão

1 Possui graduação em Comunicação Social - Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR, 1996), especialização em Língua Portuguesa, também pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1997), e mestrado em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP, 2003). 2 Aluno no curso de Jornalismo da Universidade Positivo - damoroso@terra.com.br


Jornalismo estrábico: Veja e CartaCapital na cobertura do “escândalo do mensalão”

1 INTRODUÇÃO O tema deste trabalho é a influência do posicionamento político na cobertura jornalística. A pesquisa pretende mostrar como a posição editorial previamente assumida por um veículo de comunicação pode prejudicar a divulgação dos fatos. Embora ainda persista em manuais de grandes veículos da imprensa brasileira como valor do bom jornalismo, a “objetividade” – por vezes até alardeada como fator de qualidade jornalística em campanhas publicitárias para atrair leitores – é um mito insustentável que fica evidente na comparação de veículos com diferentes linhas editoriais. É o que se procura demonstrar neste estudo, a partir da análise da cobertura do chamado “escândalo do mensalão” por dois veículos brasileiros de circulação nacional. Foram escolhidas as revistas Veja e CartaCapital como objeto de estudo. Veja foi selecionada por ser a revista de maior circulação no Brasil, considerada referência no jornalismo de revista brasileiro, e por explicitar uma tendência contrária ao candidato e depois presidente Luiz Inácio Lula da Silva. CartaCapital foi escolhida por ter apoiado abertamente a candidatura de Lula em 2002. São comparados textos e capas de edições desses veículos com a mesma data de publicação. A análise de conteúdo é baseada na valoração positiva ou negativa atribuída por esses veículos ao presidente, a seus aliados, a seu governo e ao Partido dos Trabalhadores, evidenciada nas capas e textos das duas revistas. A análise comparativa entre os dois veículos foca-se especialmente em edições do segundo semestre de 2005, período crucial para os desdobramentos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios, que gerou diversas denúncias contra o governo Lula. Nos dias 10 e 17 de agosto, principais datas da análise, Veja apontou em suas capas a possibilidade de impeachment de Lula; por isso, essas edições foram escolhidas. As edições de CartaCapital publicadas nos mesmos dias, por sua vez, não fizeram nenhuma referência a um possível impeachment. Enquanto uma revista toma uma posição quase “golpista”, outra poderia ser considerada “chapa-branca”, conforme o jargão jornalístico define os veículos de sustentação ao governo. Essas posições dos veículos influenciaram suas coberturas jornalísticas de modo a criar diferentes realidades em relação ao “escândalo do mensalão”.

2 OPINIÃO X INFORMAÇÃO Por natureza, o jornalismo é ideológico. Em seu tempo de afirmação, diz José Marques de Melo, “o jornalismo caracterizava-se pela expressão de opiniões. Na medida em que a liberdade de imprensa beneficiava a todos, as diferentes correntes de pensamento ou os distintos grupos sociais se confrontavam através das páginas que editavam” (MELO, 2003, p. 23). Conforme Luiz Amaral, Até a primeira metade do século XIX não havia preocupação, por parte do editor e do leitor, com equilíbrio e imparcialidade. Como a imprensa era sobretudo político-partidária, comprava-se (assinava-se) jornal para saborear

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a versão parcial dos acontecimentos e para se ler as críticas aos adversários, quase sempre pessoais, procedentes ou não, e invariavelmente em termos fortes, quando não afrontosos (AMARAL, 1996, p. 26).

Não era objetivo desse jornalismo publicista oferecer informação objetiva e isenta, mas ganhar adeptos para as idéias defendidas. O principal responsável pela mudança na condução do jornalismo foi o capitalismo (cf. AMARAL, 1996, p. PEREIRA JR., 2001). Nos Estados Unidos, tomou corpo o jornalismo industrial, que vendia a notícia como mercadoria. Ganhava força o jornalismo informativo, que afigura-se como categoria hegemônica, no século XIX, quando a imprensa norte-americana acelera seu ritmo produtivo, assumindo feição industrial e convertendo a informação de atualidade em mercadoria. A edição de jornais e revistas que, nos seus primórdios, possui o caráter de participação política, de influência na vida pública, transforma-se em negócio, em empreendimento rentável (MELO, 2003, p. 24).

Para fazer de um jornal uma empresa rentável, era necessário conquistar mais leitores, atraindo assim o mercado publicitário. Para isso, era necessário transformar a notícia no simples relato desapaixonado do fato. Menos partidarismo, menos preconceito, menos distorções, menos parti pris, mais leitores, mais anúncios, receita maior. (...). O mecanismo da mudança foi simples: ficou decidido que a notícia guardaria isenção e apareceria em sua forma crua, natural, sem interpretação. Os fatos, exclusivamente os fatos (AMARAL, 1996, p. 34).

No Brasil, o jornalismo informativo consolidou-se na década de 1950, como resultado da concorrência dos veículos impressos com a TV, novidade que prometia arrebatar os leitores de jornais. “Os sistemas de difusão foram revolucionados, nas décadas de 40 e 50, com a chegada da TV. O seu crescimento afetou as outras indústrias culturais, entre outras coisas, em termos da competição pelo lucro na publicidade” (PEREIRA JR., 2001, p. 44). Os jornais diários adotaram uma aparente posição de neutralidade para conquistar um maior número de leitores, agradando o mercado publicitário e aumentando a renda dos veículos. A notícia com ar de imparcialidade pode conquistar públicos mais amplos. Foi por essa razão que a limitação das notícias a um suposto relato imparcial dos fatos foi tão cultuada na primeira metade do século XX. Apesar disso, embora a objetividade fosse um autêntico valor profissional do jornalismo, na década de 30, era um valor que, segundo Michael Schudson, parecia desintegrar-se tão logo foi formado. Ela se tornou um ideal exatamente quando a subjetividade passou a ser encarada como inevitável por ser insuperável na apresentação das notícias (AMARAL, 1996, p. 62).

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Clóvis Rossi explica: (...) entre o fato e a versão que dele publica qualquer veículo de comunicação de massa há a mediação de um jornalista (não raro, de vários jornalistas), que carrega consigo toda uma formação cultural, todo um background pessoal, eventualmente opiniões muito firmes a respeito do próprio fato que está testemunhando, o que o leva a ver o fato de maneira distinta de outro companheiro com formação, background e opiniões diversas. É realmente inviável exigir dos jornalistas que deixem em casa todos esses condicionamentos e se comportem, diante da notícia, como profissionais assépticos (ROSSI, 2000, p. 10).

Hoje, muitos grandes veículos impressos brasileiros apresentam-se (inclusive em suas campanhas publicitárias) como veículos informativos isentos, imparciais, objetivos, embora a realidade derrube o mito da objetividade. A suposta objetividade jornalística é ilusória, já que a informação passa pelo filtro de um sujeito, que seleciona a informação e a apresenta sempre a partir de um ponto de vista e de uma angulação determinadas. A “realidade objetiva” transmitida pelo jornal é sempre uma representação da realidade, construída a partir da manipulação dos dados pelo jornalista. Esses dados passam por inúmeros “filtros” subjetivos: a seleção da própria informação considerada relevante, a escolha dos aspectos mais importantes dessa informação e a construção da narrativa, por exemplo, são elementos que carregam necessariamente a subjetividade do jornalista que transmite a notícia. Não obstante procurem apresentar-se aos leitores como neutros, isentos, imparciais, transmissores de uma informação “verdadeira” baseada na reprodução da realidade objetiva, muitos veículos mal escondem sob essa aparente neutralidade suas preferências políticas. Não é condenável, muito menos antijornalístico, que um veículo demonstre sua satisfação ou insatisfação a respeito de alguém ou algo, desde que explicitamente. O problema é esconder as opiniões sob uma aparência de objetividade e imparcialidade. A partir da necessidade de mostrar um jornalismo sem opinião, os veículos impressos criaram espaços delimitados para a expressão aberta de idéias, sem a obrigação de imparcialidade. Separar graficamente e bem distintamente colunas opinativas de reportagens “objetivas” é um recurso para criar a impressão de que a opinião está reservada somente àquelas poucas seções: a existência desses espaços específicos para a manifestação da opinião faz o leitor supor que, nos demais textos da publicação, só vai encontrar informação objetiva e isenta de juízos de valor. Entretanto, não é o que acontece. O processo de produção jornalística, conforme já comentado, é permeado de escolhas subjetivas, de tal modo que não se pode dizer que o que está nas páginas dos veículos é informação objetiva e isenta. Os veículos, não obstante, escondem seu direcionamento editorial sob o véu de uma propalada isenção.

3 AS REVISTAS Os jornais diários, antes da difusão dos meios eletrônicos de comunicação, eram

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os principais veículos de informações novas. Com o avanço dos veículos eletrônicos, os diários encontraram seu espaço oferecendo ao leitor um aprofundamento das reportagens – na impossibilidade de competir com a velocidade e o imediatismo dos meios eletrônicos, os impressos têm caracteristicamente uma profundidade maior no trato das informações. A competição dos impressos com os meios eletrônicos é um problema ainda maior no caso das revistas semanais de informação. As revistas acabaram por criar um modelo mais analítico e interpretativo de cobertura dos fatos. Um jornal diário vai de novidades e notícias quentíssimas a passado de museu em um curto período de 24 horas. No caso da revista, por ela dispor de um tempo maior para informar, analisar e interpretar o fato, a revista semanal de informações não busca extremos de imparcialidade. Além do mais, a imparcialidade é um mito da imprensa diária. Um mesmo texto pode conter informação, análise, interpretação e ponto de vista. Outra característica da revista semanal de informações é assumir mais declaradamente o papel de formadora de opinião (VILAS BOAS, 1996, p. 34).

Entretanto, mesmo que assumam “mais declaradamente” esse papel, as revistas não se apresentam como veículos de jornalismo opinativo – a opinião explícita também é separada graficamente das reportagens informativas, ou, mais propriamente, interpretativas: o jornalismo típico de revista é o jornalismo interpretativo, que busca não apenas informar acerca dos fatos, mas buscar os antecedentes, a contextualização e as conseqüências dos fatos noticiados. Veja-se o que afirma a publicação “A revista no Brasil” sobre a revista Veja, criada em 1968: “nos moldes da americana Time, (...) com a disposição de ir além da mera resenha da semana, servindo ao leitor coberturas exclusivas e, sobretudo, interpretação: o contexto em que o fato se deu, seus possíveis desdobramentos e conseqüências” (2000, p. 60). A revista CartaCapital, por sua vez, teve seu primeiro exemplar datado de 1994. Quem assina o editorial número 1 é Mino Carta, evidenciando o destaque aos assuntos políticos da nova publicação e o desejo de influenciar os detentores do poder: [...] uma CARTA Capital endereçada ao coração do poder. De fato, ela vai falar de e para aqueles que, nos mais diversos níveis, decidem os destinos de comunidade. Aqueles que teriam de dar o exemplo ao escolher as melhores rotas com os olhos voltados para os interesses da sociedade toda (CARTA, 1994).

As duas revistas têm linhas editoriais distintas. Com base na ideologia daqueles que controlam um veículo informativo, estabelece-se sua linha editorial, que condiciona que tipo de informação será divulgado, de que maneira o será e quem terá voz no veículo. Lembra Melo (2003) que escolher os temas que comporão uma edição de jornal ou revista é a primeira maneira de expor a ideologia de uma empresa jornalística. A decisão sobre o que é e o que não é notícia acaba sendo fruto de critérios subjetivos dos responsáveis pela seleção da informação a divulgar. Essa seleção representa a visão que um veículo possui do mundo, e é a principal maneira de o veículo expressar suas idéias. A seleção da informação de um veículo determina sua linha editorial. Os filtros COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 65-80 | 2° Semestre 2008 | 69


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ideológicos estão presentes nas etapas do processo produtivo de uma notícia, desde a escolha do que será ou não divulgado, passando pelo enfoque que será dado (pauta), como será pesquisado (cobertura), quem ganhará voz dentro do veículo (escolha das fontes), até a última filtragem do que foi apurado (edição ou copy desk). A pauta direciona o percurso do repórter e indica o ângulo sob o qual o assunto deverá ser tratado. Esse ângulo é definido por um seleto grupo dentro da redação. São pessoas diretamente ligadas aos interesses ideológicos e comerciais da empresa – editores, pauteiros, chefe de reportagem, editor-chefe, dirigentes. São esses, segundo Melo (2003), os encarregados de orientar a opinião do veículo. O relacionamento e a escolha das fontes também são determinantes para a orientação ideológica de uma empresa jornalística – a consulta a certas fontes e não a outras conduzirá a informação numa determinada linha. Depois de produzido o texto pelo repórter, esse texto, para ser publicado, precisa passar pelo último filtro: a figura do copy desk. Hoje, essa figura, em grande parte dos veículos, foi substituída por profissionais com funções que carregam outras denominações, como editor de página ou simplesmente editor. O termo copy desk está caindo em desuso. É função do editor corrigir eventuais erros, reordenar parágrafos, se preciso, enfim, fazer as correções necessárias. O editor exerce essa função, mas seu trabalho não se limita às características textuais: ele é o microfiltro ideológico, a última peneira da produção jornalística, com função e autonomia para barrar aquilo que não convém à linha editorial da instituição jornalística. O editor é o vigia da empresa. A organização vertical de uma empresa jornalística, que permite a supervisão da redação por parte dos organizadores, e a maneira como é exposta a opinião assinada em um jornal diário, a fim de isentar o veículo que a divulga, atrela a orientação ideológica àqueles que controlam a instituição. A execução dessa orientação é dever dos repórteres e editores. Eventuais impasses e desacordos são inicialmente discutidos. Advertências aos repórteres podem acontecer. Em casos mais graves, pode até ocorrer o desligamento do repórter da instituição. A expressão opinativa por parte de um veículo acaba sendo fruto de um acordo entre todos os integrantes de sua redação e seus superiores. A direção determina um ângulo mais específico da cobertura de um assunto. Editores e repórteres, em provável consenso com o que foi determinado, executam a tarefa. Cada um cumpre seu papel, o que não gera uma batalha pelo controle ideológico. Há um interesse natural de elevação de cargos na empresa, inibindo nos jornalistas atitudes contrárias às orientações da direção. Portanto, em que pese a suposta neutralidade ou imparcialidade que o veículo se atribua (inclusive explicitamente em campanhas publicitárias, como é freqüente acontecer), há uma ideologia que permeia a publicação, definida pela sua linha editorial, que se choca com qualquer idéia de “objetividade”. É o que se pode depreender da cobertura do “escândalo do mensalão” feita por Veja e CartaCapital.

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4 ANÁLISE DAS REVISTAS Feitas essas considerações prévias, cabe agora fazer a análise das edições de Veja e CartaCapital. Antes de analisar matérias de Veja e CartaCapital do dia 10 de agosto de 2005, é interessante estabelecer o posicionamento desses veículos sobre Lula, desde o período eleitoral, em 2002.

4.1 Capas de 2002 a 2005 Para isso, foram escolhidas as capas com fotos, títulos ou manchetes referentes a Lula ou a qualquer de seus assessores ou membros do PT. Para definir se uma capa tem um tom negativo ou positivo, procuraram-se adjetivos ou outros elementos que demonstrassem juízo de valor, implícita ou explicitamente. Montagens de fotos também foram consideradas. De janeiro de 2002 até 10 de agosto de 2005, Veja publicou 184 edições. CartaCapital publicou 178 edições. Essa diferença no número de exemplares se explica pelo fato de a revista CartaCapital ter tido circulação mensal até abril de 2002, quando passou a ser semanal, como Veja. Das 184 edições de Veja, 30 (16,3%) mencionavam diretamente o presidente Lula, o governo dele, o PT (partido dele) e/ ou seus assessores. A revista CartaCapital mencionou mais vezes o presidente: das 178 edições, 39 (21,9%) delas mostravam na capa imagens e/ou títulos referentes ao seu governo. Analisando-se essas capas, chega-se aos seguintes dados: 1) CartaCapital deu mais destaque ao governo Lula no período. 2) Veja apresentou em todos os anos tom desfavorável ao governo (24 capas com tom desfavorável: seis em 2002, cinco em 2003, cinco em 2004 e oito em 2005). 3) CartaCapital mostrou total apoio a Lula em 2002 (18 capas com tom favorável) e 2003 (seis capas com tom favorável). Porém, a partir de 2004, CartaCapital mudou o tom. Foram 11 capas desfavoráveis (cinco em 2004 e seis no primeiro semestre de 2005). 4) Veja fez mais acusações do que apurações em suas capas. CartaCapital suscitou dúvidas e denúncias, mas não acusou nominalmente nenhuma pessoa. A partir de 2005, a revista adotou uma linha mais prudente, ressaltando a necessidade de uma investigação maior sobre as denúncias que rondavam o governo. A partir da análise das capas, pode-se concluir que Veja não poupou críticas a Lula, enquanto CartaCapital demonstrou-se descontente, porém abriu mais espaço para a apuração das denúncias, sem fazer acusações. CartaCapital concedeu ao presidente o benefício da dúvida, poupando sua imagem e nome nas capas. Veja assumiu as denúncias como verdades e as usou como severas críticas.

4.2 Capas de 10 e 17.ago.2005 A seguir, são analisadas quatro capas das edições de 10 e 17 de agosto de 2005.

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4.2.1 Edições de 10.ago.2005 A diferença temática e de cores é muito nítida entre as duas revistas. A capa de Veja tem um fundo preto. A manchete principal é “Lulla”, com os dois “l” pintados, um de verde e outro de amarelo, remetendo aos “caras-pintadas” e ao processo de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. Acima dos dois “l” pintados, há uma foto pequena do presidente Lula, cabisbaixo. Tem-se a impressão de que ele está olhando para os “l” pintados, com um semblante preocupado e tenso. O subtítulo, logo abaixo da manchete, diz: “Sem ação diante do escândalo que devorou seu partido e paralisou seu governo, Lula está em uma situação que já lembra a agonia da era Collor”. Na parte de cima da capa, há outra manchete, sobre um tom cinza-escuro: “O Diário da Crise”. O subtítulo diz: “Os 100 fatos e as mentiras mais absurdas ditas para esconder a corrupção”. A capa de CartaCapital tem temática, fotos e cores diferentes. A manchete principal diz: “Nos bastidores da Conexão Lisboa”. Há três subtítulos: “Valério, Dirceu, o orelhudo e a briga pelo controle da Telemig Celular”; “A lista da lama no Congresso”; “O PT reage e ameaça os fujões”. A capa tem como fundo uma foto cinza do então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, de cabeça baixa, com semblante perturbado. Há outra foto, menor, colorida, do publicitário Marcos Valério, considerado o principal articulador do esquema de corrupção na época. A temática principal desta edição de CartaCapital são as viagens de Marcos Valério a Portugal, que poderiam ser eventos-chaves no esquema de corrupção. O segundo subtítulo, “A lista da lama no Congresso”, é sobre a relação de políticos, tanto do PT quanto de outros partidos, que poderiam estar envolvidos em corrupção. A diferença mais gritante entre as capas são os desdobramentos da situação para Lula. Veja comparou a situação de Lula com a do governo Collor e mencionou a possibilidade de impeachment. CartaCapital sequer cogitou essa possibilidade. Estaria Veja sendo precipitada? Ou CartaCapital omissa? A análise das matérias das revistas esclarecerá essa diferença.

4.2.2 Edições de 17.ago.2005 A capa de Veja deste dia traz novamente Lula e seu provável impeachment. Toda a capa é preenchida com uma foto colorida do presidente durante um discurso. O semblante de Lula não é dos mais tranqüilos. Pelo contrário, é possível perceber uma pessoa preocupada. A manchete diz: “A luta de Lula contra o impeachment”. A palavra impeachment aparece destacada em tamanho maior e cor amarela. O subtítulo: “A defesa do presidente na televisão não convence e ele perde a chance de explicar o escândalo” revela o tom opinativo de Veja. Na parte de cima da capa, sobre um fundo amarelo, mais três manchetes. A primeira, à esquerda, diz: “Duda Mendonça diz que a campanha de 2002 foi paga com dinheiro sujo”. A segunda, ao lado, diz: “Preso, Toninho da Barcelona, doleiro do

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PT, quer contar tudo na CPI”. A terceira, à direita da capa, diz: “Hélio Bicudo: ‘Lula é mestre em esconder a sujeira embaixo do tapete’”. Nesta capa, Veja utilizou discursos alheios para demonstrar opinião, isentando-se do conteúdo acusador das declarações. Entretanto, como é óbvio, a própria escolha dessas declarações aponta um direcionamento negativo na capa. A capa da edição de CartaCapital tem o fundo preto. Na capa, quatro rostos: em primeiro plano, o presidente Lula; em segundo plano, um pouco acima e à esquerda de Lula, José Dirceu, com semblante nada feliz; um pouco acima e à direita de José Dirceu, o publicitário Duda Mendonça, com a mão no rosto, em sinal de descontentamento; acima de Mendonça, ao meio, Delúbio Soares, contador do PT, apontado como um dos articuladores de esquemas de corrupção. A manchete principal pergunta: “Qual é o tamanho da traição?”. Há três destaques na capa. O primeiro: “Diz Lula: ‘Não consigo fazer com que o Dirceu me conte a verdade’”. O segundo, logo abaixo: “Diz Tarso: ‘Não há futuro para o PT sem substituir o núcleo hegemônico do partido’”. A terceira: “A ‘revelação’ de Época foi contada por CartaCapital em 2002”. Aqui, um outro veículo informativo é citado. Raramente isso acontece. A exceção se deve ao desejo de desmerecer ou criticar a concorrente. Considerando a postura predominantemente pró-Lula e a manchete principal, pode-se dizer que Lula aparece como uma pessoa traída que está tentando solucionar a crise, mas encontra dificuldades para isso. Coincidentemente, CartaCapital utilizou os mesmos recursos que Veja. Veja usou declarações entre aspas para mostrar Lula como uma pessoa envolvida com os escândalos do seu partido. Já CartaCapital utilizou esse recurso para mostrar uma outra pessoa, totalmente diferente: alguém traído e de mãos amarradas.

4.3 Matérias de 10.ago.2005 Para a análise que segue, foram selecionados trechos importantes de matérias de Veja e CartaCapital, sejam eles carregados de adjetivos ou fazendo explicitamente juízo de valor. A edição de Veja de 10.ago.2005 dedica 24 páginas à política nacional. São quatro matérias. Três delas foram citadas na capa. Mesmo sem destaque na capa, a matéria “O que Marcos Valério propôs aos portugueses” também será analisada, uma vez que o assunto está na capa de CartaCapital do mesmo dia. A primeira matéria, na página 56, tem o título “As cores da crise”. Lula é apontado como alguém que está deixando a turbulência em seu governo acontecer sem interrompê-la: “Lula a está conduzindo mais ao ritmo de cerveja e samba de seu ídolo Zeca Pagodinho: ‘Confesso que sou de origem pobre / Mas meu coração é nobre, / foi assim que Deus me fez / E deixa a vida me levar / Vida leva eu / E deixa a vida me levar’.” No parágrafo seguinte, Veja publica uma declaração do então senador do PSDB cearense Tasso Jereissati: “O presidente está abusando da paciência ao fingir que não COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 65-80 | 2° Semestre 2008 | 73


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sabia de nada e ao adotar esse discurso de que os fatos são criados por uma oposição ressentida e pela imprensa. Exigimos que ele assuma sua responsabilidade. Assuma o papel de chefe. Chega de fingir que não sabe de nada, presidente! Chega de farsa!” Assim, por meio da reprodução de uma falha alheia em discurso direto, Veja critica Lula. Durante a matéria, o repórter Alexandre Oltramari afirma: “À medida que a CPI avança, os caminhos do dinheiro apontam com mais precisão para o Palácio do Planalto.” Para corroborar tal afirmação, são utilizados depoimentos do então deputado e líder do PTB na Câmara Federal, Roberto Jefferson, e de Duda Mendonça (marketeiro de Lula na campanha de 2002), durante as investigações da CPI do mensalão. Não são utilizadas frases textuais de Jefferson, apenas o contexto de seu depoimento. De Mendonça, são utilizadas duas falas: 1) “Eu trabalhei e recebi. De onde veio o dinheiro eu não sei. O problema é que nego é burro. Precisa roubar, pô? Eu não roubava quando era pobre. Não vai ser agora que eu sou rico que vou fazer isso”; 2) “Eu tô limpo. Nego que se vire para explicar.” Após a publicação da segunda declaração de Mendonça, Veja conclui: “Resumindo a história: uma parte da campanha do presidente foi paga com dinheiro repassado por Marcos Valério, que, é bom lembrar, tem contas de publicidade em várias empresas do governo.” A revista se refere ainda a uma suposta manifestação popular a favor do impeachment. Não mostra imagens dessa manifestação, não informa o número de participantes, nem onde teria ocorrido, apenas diz que aconteceu “na semana passada” (portanto, entre os dias três e nove de agosto). A matéria seguinte, intitulada “O embaixador da corrupção” (p. 60), trata de viagens de Marcos Valério a Portugal. Logo no primeiro parágrafo, o repórter Marcio Aith afirma que “Valério já tinha construído uma reputação além-mar, em Portugal, onde era recebido como um emissário do governo Lula.” Poucas linhas depois, a denúncia vai adiante: “Por ordem de Dirceu, Valério e o ex-tesoureiro informal do PTB, Emerson Palmieri, teriam sido enviados a Portugal para recolher da companhia telefônica 12 milhões de reais ao PT e outros 12 milhões de reais ao PTB, a fim de ‘colocar em dia’ as contas dos dois partidos. A declaração foi baseada também no depoimento de Roberto Jefferson à CPI do mensalão.” No parágrafo seguinte, é utilizada uma frase de Jefferson para indicar que a corrupção estava acontecendo perto do presidente: “Tratei de todos os assuntos com vossa excelência, deputado José Dirceu, os republicanos e os não republicanos. Vossa excelência nos deixava à vontade para qualquer conversa na ante-sala do presidente da República”. Em seguida, Veja afirma que Dirceu negou tal afirmação, porém foi logo desmentido por “novos fatos”, os quais “deram força às acusações de Jefferson”. A revista indica a existência de um documento enviado à CPI que comprovaria encontros de Dirceu com representantes de bancos portugueses. A revista também afirma que “os mensageiros do PTB e do PT viajaram para Portugal. Estiveram em Lisboa entre os dias 24 e 26 de janeiro deste ano, como indicara Jefferson.” 74 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 65-80 | 2° Semestre 2008


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Veja afirma que “se descobriu que Valério também esteve em Portugal em outubro de 2004, ocasião em que se encontrou com o presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa. Logo depois, Valério e Costa foram recebidos em audiência pelo então ministro de Obras Públicas, Transportes e Comunicações de Portugal, António Mexia.” A revista ainda afirma que Mexia disse a um semanário português ter recebido Valério na qualidade de “consultor do presidente do Brasil, a pedido de Miguel Horta e Costa”. Poucas linhas adiante, o repórter conclui o caso: “Ou seja, Valério foi recebido como consultor de Lula. Só não se apresentou como tal.” Na página 70, a matéria de autoria de Juliana Linhares e Julia Dualibi, intitulada “Dirceu, o ex-mestre dos disfarces”, acusa Dirceu de mentir em seus depoimentos. Há uma montagem de uma foto do então deputado com um longo nariz de madeira, numa alusão ao personagem Pinóquio. O segundo parágrafo da matéria começa do seguinte modo: “Dirceu mentiu quando: disse que desconhecia os empréstimos contraídos pelo PT via Marcos Valério, negou ter relação com a Portugal Telecom, declarou jamais ter proposto qualquer coisa ilícita a deputados ou partidos e afirmou estar distante do PT desde 2002. Mentiu também quando disse que ‘não é fato’ que seu assessor informal e fiel escudeiro Roberto Marques, o ‘Bob’, tenha sido autorizado a sacar 50.000 reais de uma conta do empresário Marcos Valério.” Para fortalecer tais afirmações, a revista preparou um quadro intitulado “O Deputado Pinóquio”, no qual aparecem afirmações literais de Dirceu, a situação em que elas teriam sido desmentidas e em quanto tempo o foram. São seis afirmações, das quais aqui se analisam algumas. A primeira: “Não tinha conhecimento desses empréstimos nem que a distribuição era feita pelo Banco Rural”. Segundo as repórteres, essa declaração foi desmentida pelo depoimento de Marcos Valério, no mesmo dia: “Na mesma terça-feira, Marcos Valério afirmou à Procuradoria Geral da República que os empréstimos feitos por ele em benefício do PT tiveram, sim, o aval de Dirceu. Afirmou ainda que o ex-ministro participou de diversas reuniões com os dirigentes dos bancos para tratar do assunto”. Ora, se as duas declarações foram feitas em circunstâncias semelhantes (depoimentos em uma CPI) e para as mesmas pessoas (relatores e responsáveis pelos inquéritos), por que a afirmação de Valério desmente a de Dirceu, e não o contrário? Isso ilustra bem como o veículo utiliza uma declaração com a intenção de desacreditar alguém – que pode ser qualquer um, conforme o valor que a própria revista atribui a cada declaração. Na terceira afirmação – “Jamais propus para qualquer deputado, senador ou líder qualquer proposta que não fosse lícita” –, novamente Veja utiliza uma declaração de terceiro para desmenti-la: “Em entrevista dada ao colunista de VEJA Diogo Mainardi [...] na quinta-feira, o deputado José Janene, líder do PP, confirma que Dirceu negociou o pagamento de 600.000 reais para o PP em troca de apoio da bancada”. Novamente, a afirmação de Dirceu é desmentida pela de Janene, e não o contrário. A revista admite a priori que somente Dirceu mente e exclui a possibilidade de outras fontes estarem mentindo.

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A quarta afirmação de Dirceu também é desmentida, desta vez por um ofício do Ministério da Casa Civil. Disse Dirceu: “Não acompanho mais a vida orgânica do PT desde dezembro de 2002”. A revista afirma que no ofício está escrito que Dirceu “se encontrou 14 vezes com Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, 16 vezes com Silvio Pereira, ex-secretário do partido, e 11 vezes com José Genoíno, ex-presidente”. Há uma contradição entre a fala de Dirceu e o documento, e este, para a revista, tem mais força. No entanto, encontrar-se com tais pessoas não significa necessariamente que Dirceu tenha consciência da “vida orgânica” do partido. A quinta afirmação de Dirceu (“A informação de que Roberto Marques fez um saque de 50.000 reais não é fato. O documento não é reconhecido pelo PT”), segundo Veja, é desmentida pelo fato de outros três veículos de comunicação também desmentirem esta afirmação, por meio de outras fontes. Veja cita os concorrentes, como a dizer: se até outros veículos concordam, então é verdade. A edição de CartaCapital de 10.ago.2005 dedica dez páginas aos assuntos mencionados na capa. A primeira matéria, “A Conexão Lisboa”, é assinada por Sergio Lirio. O tema é exatamente o mesmo da matéria “O embaixador da corrupção”, publicada na página 60 de Veja da mesma data. CartaCapital afirma que o presidente sabia das relações com empresas portuguesas, porém, destaca outro motivo: “Como sempre, as denúncias de Jefferson são costuradas a partir de fatos reais e facilmente checáveis. Em 2004, Lula recebeu no Palácio do Planalto, em duas ocasiões, executivos da Portugal Telecom. Segundo a assessoria da Presidência, as audiências foram solicitadas pela empresa para informar Lula dos novos investimentos no País.” No parágrafo seguinte, CartaCapital afirma: “Em comunicado, a Portugal Telecom ‘nega de forma categórica e veemente que tenha mantido reuniões ou qualquer tipo de contato com os senhores Marcos Valério e Emerson Palmieri’ entre os dias 24 e 26 de janeiro”. CartaCapital levanta dúvidas sobre a representatividade de Valério nessas viagens a Portugal. A legenda de uma foto de Valério diz o seguinte: “ASPONE. Em nome de quem Valério falava?” A palavra “ASPONE” (de: “assessor de porcaria nenhuma”) indica um falso assessor, alguém que não tem o cargo que se supõe ter ou que diz ter. CartaCapital também levanta dúvidas sobre o envolvimento e a relação de Valério com homens fortes do governo: “Valério afirma ter ido a Lisboa, na companhia do petebista Emerson Palmieri, em janeiro último. De acordo com ele, para tratar de assuntos relacionados à venda da Telemig Celular. A informação levanta algumas perguntas: 1) Como Valério, um simples publicitário que mal participava do dia-adia das empresas, sabia da negociação da Telemig Celular, conduzida em sigilo por executivos de São Paulo? 2) Por que ele foi tratar de uma transação que havia sido encerrada, sem sucesso, pelo menos um mês antes? 3) Desde quando investimentos publicitários milionários de uma grande empresa européia, com ações nas bolsas de valores, são definidos em conversas de pé-de-ouvido?” Mesmo com as declarações e investigações, a revista afirma que “O real motivo da visita do publicitário a Portugal está envolto em mistério. Os supostos participantes 76 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 65-80 | 2° Semestre 2008


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dos encontros contam versões distintas”. Segundo CartaCapital, o ex-ministro português António Mexia “nega que o publicitário tenha se apresentado como ‘consultor da Presidência da República’. A informação de que Valério havia se apresentado como consultor de Lula havia ouriçado o ânimo da oposição, que viu a chance de ligar o presidente ao ‘Valerioduto’”. Poucas linhas depois, a revista conclui: “Não há nenhum motivo concreto para acreditar que Lula tenha autorizado Valério a falar em seu nome, mas é preciso investigar se o publicitário se sentia à vontade para citar integrantes do governo nas visitas a empresários e políticos estrangeiros”. Aqui se percebe uma discordância sobre o conteúdo das afirmações de Mexia. Para Veja, ele afirmou que recebia Valério como consultor de Lula. Já CartaCapital afirma que as palavras de Mexia inocentam o presidente da consciência sobre essas viagens. O primeiro parágrafo da matéria seguinte, “Rastros na lama”, assinada por Luiz Alberto Weber e Mauricio Dias, isenta o presidente de responsabilidade: “Dois meses após as denúncias feitas pelo deputado Roberto Jefferson, sem que a oposição conseguisse, como tentou, arrastar o presidente para o centro de uma crise grave, os fatos revelados por depoimentos e documentos obtidos pela Procuradoria-Geral da República, pela Polícia Federal e, também, pela CPI dos Correios comprovam que a política brasileira é regada a lama.” Segundo CartaCapital, poucos parágrafos depois, “Dirceu foi à Comissão de Ética e, na avaliação de especialistas [sic], saiu-se bem no duelo com Roberto Jefferson.” A revista não identifica tais “especialistas”. Algumas diferenças continuam claras: CartaCapital preserva a imagem e o nome de Lula. Veja tenta convencer o leitor de que a crise passava perto de seu gabinete. Na matéria sobre as visitas a Lisboa publicada por Veja, entende-se que Lula e Dirceu tinham conhecimento sobre essas viagens. Já CartaCapital isenta Lula e outros petistas do conhecimento dessas viagens.

5 CONCLUSÃO Embora tenha havido a busca de fontes diretamente envolvidas com os temas tratados e a transcrição de suas idéias nas duas revistas, houve clara parcialidade. A intenção de cada veículo de priorizar certas declarações em relação a outras, que foram desconsideradas, ofereceu aos leitores visões bem diferentes dos fatos. Em diversas matérias, ambas as revistas ouviram predominantemente as mesmas fontes, porém, o peso atribuído a cada discurso e as tentativas de desmentir ou desqualificar depoimentos é uma clara manifestação das visões diferentes dos dois veículos, indicando uma prática direcionada e parcial de jornalismo. O uso excessivo de adjetivos e a carga fortemente opinativa dos textos de Veja evidenciaram uma postura agressiva contra o presidente. A carga opinativa foi além do relato dos fatos, influindo no conteúdo noticioso. Já a revista CartaCapital, buscando

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preservar ao máximo a figura de Lula, cria a impressão prévia de sua inocência, indo até mesmo à omissão de referências a algumas denúncias contra o presidente. Obviamente, não cabe aqui julgar qual das duas publicações estaria sendo “verdadeira” ou mais verdadeira do que a outra. O fato é que a leitura de cada revista indica “verdades” diferentes, por mais que os fatos noticiados tenham acontecido e por mais que as declarações reproduzidas tenham sido efetivamente ditas. Para saber a “verdade”, não basta ao leitor informar-se pelo conteúdo de uma ou outra revista, ou mesmo de ambas. A “verdade” apresentada nos meios de comunicação nada mais é que um discurso construído com aparência de realidade. A isenção, a imparcialidade, a neutralidade e a objetividade, sempre tão evocadas quando se fala na importância do jornalismo numa sociedade democrática, são valores insustentáveis diante de uma análise atenta dos veículos de comunicação. No caso analisado neste artigo, embora as publicações possam aparecer aos olhos do leitor como veículos de jornalismo informativo ou interpretativo, fiel aos fatos, sem “contaminação” de opiniões pré-assumidas, pode-se perceber claramente, com base na análise das revistas, a opinião de cada um dos dois veículos sobre Lula. Uma revista quer que ele seja impedido. A outra alega que não há provas contra o presidente. Essas posições tiveram notável influência na condução do noticiário e na cobertura do “escândalo do mensalão”, construindo duas “verdades” distintas.

REFERÊNCIAS AMARAL, Luiz. A objetividade jornalística. Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1996 A REVISTA NO BRASIL. São Paulo: Editora Abril, 2000. ROSSI, Clóvis. O que é jornalismo. São Paulo: Brasiliense, 2000. MELO, José Marques de. Jornalismo Opinativo. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2003. PEREIRA JR., Alfredo Eurico Vizeu. Decidindo o que é notícia. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001. VILAS BOAS, Sérgio. O estilo magazine. São Paulo, Summus, 1996.

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ANEXOS

Capa de Veja de 10 ago. 05

Capa de CartaCapital de 10 ago. 05

Capa de Veja de 17 ago. 05

Capa de CartaCapital de 17 ago. 05

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AGÊNCIAS DE COMUNICAÇÃO: FORNECEDORAS DE SERVIÇOS OU PARCEIRAS NO CRESCIMENTO DAS MARCAS? Christiane Monteiro Machado1

Universidade Positivo

Resumo Em que medida as agências oferecem serviços de comunicação integrada para seus clientes? Esta pesquisa analisa o mercado de agências de Curitiba a partir da compreensão de seus profissionais, considerando as ferramentas de comunicação e tendências atuais. Os resultados mostram que, na busca por atualização, há uma diversidade de processos de atendimento e criação, com novas estruturas de trabalho e foco nos resultados do cliente – uma possível tentativa de acompanhar mercados externos. Palavras-chave: Comunicação integrada, ferramentas de comunicação, agências de comunicação.

Abstract To what extent do communication agencies offer integrated solutions to their clients? This research assesses the agencies market in Curitiba from the perspective of their professionals, taking into account the communication tools and current trends. The results show that on search for update, there is a diversity of account management and creative processes. There are also new work structures and focus on clients’ results - a possible effort to keep up with external markets. Keywords: Integrated marketing communications, communication tools, communication agencies.

1 Graduada em Comunicação Social - hab. Publicidade e Propaganda pela UFPR (1996) e mestre em Marketing Communications - University of Westminster, Inglaterra (1999), leciona e trabalha nas áreas de Comunicação Integrada e Marketing.


AGÊNCIAS DE COMUNICAÇÃO: FORNECEDORAS DE SERVIÇOS OU PARCEIRAS NO CRESCIMENTO DAS MARCAS?

1 INTRODUÇÃO Agências de comunicação existem nos mais variados formatos. Das tradicionais, que prestam exclusivamente serviços de publicidade, àquelas que prometem oferecer pacotes completos de comunicação a partir de uma compreensão total das marcas de seus clientes; das enxutas, com promessas de custos reduzidos, às com grandes estruturas e recursos – o fato é que não há um consenso sobre quais os modelos mais eficientes. É verdade que cada anunciante tem necessidades únicas. Seria inútil tentar propor um modelo definitivo para o relacionamento deles com agências de comunicação, e até mesmo tentar classificar os vários formatos de prestação de serviços em modelos. Assim, esta pesquisa pretende compreender a abrangência da oferta desses serviços em Curitiba, restringindo o estudo à análise das agências que oferecem trabalhos na área de publicidade – excluindo, portanto, aquelas que realizam serviços de assessoria de imprensa e relações públicas, as especializadas em marketing direto, as de marketing promocional, as especializadas em internet e as de serviços de apoio, como geração de conteúdo e eventos. Para evitar que o foco da pesquisa recaísse sobre agências que atendem apenas a contas pequenas, de clientes de atuação local (com pouca verba, pouca cultura de comunicação e necessidades muito restritas), o interesse é voltado para agências responsáveis pela comunicação de marcas atuantes em nível nacional. A questão que orientou este estudo pode ser assim expressa: em que medida agências sediadas em Curitiba, responsáveis pela comunicação de marcas atuantes em nível nacional, oferecem serviços de comunicação integrada? A resposta para esse problema foi buscada a partir do olhar de profissionais que atuam nas agências, tanto nas áreas de criação como nas de atendimento e planejamento. Com isso, a intenção é compreender, sob esse ponto de vista, de que forma as agências organizam seus serviços para atender às necessidades das marcas para as quais prestam esses serviços. É importante considerar que é limitado o número de autores, especialmente brasileiros, que discutem teoricamente a prestação de serviços de comunicação integrada como alternativa à oferta das ferramentas de comunicação de forma independente. Autores de expressão internacional, como Schultz e Barnes (2001), Belch e Belch (1999), Ogden (2002) e Shimp (2002), bem como os brasileiros Pinheiro e Gullo (2005), apresentam e discutem as ferramentas de comunicação, descrevendo suas principais características, objetivos e limitações; no entanto, apesar de abordarem aspectos da integração entre elas, o foco acaba por ser nos diversos conceitos de forma independente, e não na forma como essas atividades são realizadas na prática. Somente alguns poucos estudos, como os de Gronstedt e Thorson (1996) e de Trevizan (2003) têm como foco principal os aspectos práticos da atividade das agências de comunicação. Numa terceira perspectiva, há as análises de autores como, Palmerston et al. (2004) e Barichello e Grieber (2002), que tratam as ferramentas de comunicação a partir das habilitações dos cursos de graduação nas universidades brasileiras. Todas essas perspectivas se complementam, no entanto, quando se analisa a prática. E é essa a leitura que este estudo pretende fazer. 82 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 81-96 | 2° Semestre 2008


Christiane Monteiro Machado

A pesquisa foi realizada na cidade de Curitiba, de forma a viabilizar o acesso às empresas. A escolha é relevante porque a cidade é hoje um dos principais pólos de comunicação do Brasil – mantém-se atrás de São Paulo (que se caracteriza por concentrar a maior parte da atividade publicitária do país), mas já representa uma parcela importante do que se produz na área no país. Além disso, é grande a presença de anunciantes: a capital do Paraná abriga atualmente 515 empresas de médio porte e 124 empresas de grande porte2, boa parte das quais atuantes em todo o Brasil. Essas empresas fazem uso de ações diversificadas de comunicação, para públicos variados, visando ao aumento do consumo de seus produtos, à conquista e manutenção de clientes e ao incentivo ao comportamento de fidelidade dos consumidores a suas marcas. Para tanto, utilizam-se dos serviços prestados por empresas de comunicação – sediadas em Curitiba ou localizadas em outras cidades (especialmente São Paulo), prestando os serviços a distância. Apesar de Curitiba ser considerada um mercado em crescimento e atualmente bastante aquecido, as empresas de comunicação atuantes na cidade, em muitos casos, são especializadas em apenas uma área da comunicação, ou dependem de acordos operacionais com agências parceiras (ou matrizes) – principalmente em São Paulo. Além disso, é importante considerar que, nos últimos anos, muitos anunciantes com verbas significativas de comunicação migraram suas contas para agências de São Paulo.

2 FERRAMENTAS DE COMUNICAÇÃO INTEGRADA: diferentes definições. Para permitir uma compreensão mais adequada das atividades realizadas pelas agências, é necessário discutir alguns conceitos, especialmente os que dizem respeito a expressões, como comunicação integrada e ferramentas de comunicação. É preciso também contextualizar a comunicação, considerando aspectos que influenciaram tanto a atuação das marcas anunciantes, na busca pela preferência dos consumidores, quanto a oferta de serviços de comunicação, assim como as tendências que vão se delineando. Comunicação integrada não é um conceito novo. No final do século passado, Belch e Belch (1999, p. 9-10) já ressaltavam que o movimento em direção à integração se consolida (nos Estados Unidos, principalmente) na década de 1980. Mas, apesar de boa parte do mercado da comunicação já trabalhar dentro desse conceito há anos, os estudos e discussões teóricas a respeito são limitados, especialmente os que incluem análises da realidade brasileira. Com isso, a prática ainda é tratada como inovadora por diversos autores – um exemplo é Corrêa (2004, p. 77), que afirma ser crescente o interesse e a curiosidade sobre o tema. Por isso, esta pesquisa parte das perspectivas conceituais dos estudos existentes – ainda que elas sejam, nas pesquisas originais, bases para situar as ferramentas que, em seguida, muitas vezes são apresentadas isoladamente. É esse referencial que busca, relacionando as diversas abordagens, compreender a utilização prática das ferramentas num universo mais amplo de ações de comunicação. Essas perspectivas conceituais variam significativamente. Pinheiro e Gullo 2 O Boletim 2007 de Informações Socioeconômicas da Companhia de Desenvolvimento de Curitiba, ligada à Prefeitura Municipal de Curitiba, traz o perfil dos estabelecimentos presentes na cidade, além de dados sobre população, PIB, renda, mercado de trabalho, turismo, meio ambiente e outros. Fonte: www.curitibasa.com.br. Acesso em: 05 de agosto de 2008. COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 81-96 | 2° Semestre 2008 | 83


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(2005, p. 41) defendem a integração da comunicação com o argumento da otimização de investimentos; Belch e Belch (1999, p. 10) apontam o aumento do impacto e consistência das mensagens como principais vantagens da comunicação integrada – idéia compartilhada por Ogden (2002, p. XII), que reforça a importância de se criar sinergia em todas as ações desenvolvidas por uma marca. Schultz, Tannenbaum e Lauterborn (1994, p. XXIV) apontam outras posturas frente ao assunto: em pesquisas dos autores, um grande anunciante refere-se à comunicação integrada de forma simplista, como mera unificação de mensagens; os autores mencionam ainda outras opiniões, como a do publicitário norte-americano David Ogilvy, para quem tudo diz respeito à organização da agência para a oferta do que o cliente possa necessitar – conceito identificado como “one-stop shopping”, mantendo o foco nas vendas. Já para Keith Reinhard, presidente da agência DDB Needham, a integração é uma forma de permitir criatividade a todos os setores da agência, extrapolando a criação. A conclusão dos autores é de que a comunicação integrada tem como principal elemento o cliente ou consumidor, que deve ser compreendido de forma ampla para permitir abordagens estratégicas eficientes: É uma nova maneira de se olhar para o todo, lá onde há algum tempo víamos partes distintas, tais como propaganda, relações públicas, promoções de venda, compras, comunicação de empregados e assim por diante. É o realinhar das comunicações a fim de observá-las do mesmo modo como o cliente as vê – como um fluxo de informações proveniente de fontes indistinguíveis (SCHULTZ, TANNENBAUM e LAUTERBORN, 1994, p. XXIV).

Analisando a comunicação sob o ponto de vista do planejamento nas agências, Harvey (2006, p. 208) alerta: “ainda que na teoria seja muito recomendável o conceito de agências integradas, na prática a agência de propaganda tem probabilidade de continuar sendo a força dominante na organização das comunicações neste novo milênio”. O autor destaca a importância crescente de práticas como o marketing direto, as relações públicas e o design, especialmente quando planejados em sinergia com a publicidade, mas ressalta que “a maioria dos clientes ainda pensa que as desvantagens desse sistema superam as vantagens (HARVEY, 2006, p. 227). Para permitir a análise da atuação das agências em Curitiba, é necessário compreender o escopo das práticas da comunicação. Sabendo-se que não há consenso, entre os autores que estudam o tema, sobre como agrupar as diversas táticas em disciplinas ou ferramentas mais abrangentes, torna-se importante, primeiramente, verificar quais são essas diferentes interpretações. Ogden (2002, p. 3) trata a comunicação integrada como uma condição para a eficiência da comunicação: “Ela é essencialmente o reconhecimento da importância de comunicar a mesma mensagem para os mercados-alvo”. Divide as ferramentas em seis grupos: Propaganda, Relações Públicas, Marketing Direto, Promoção de Vendas, Venda Pessoal e Marketing Digital, que formam um plano para gerar resultados que podem ser avaliados “tanto em volumes de vendas como em valores não relacionados a vendas, como conhecimento de marca, compreensão da mensagem, mudanças de atitude em relação ao produto, percepção da marca, empresa ou serviço e intenções de 84 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 81-96 | 2° Semestre 2008


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compra” (OGDEN, 2002, p. 119). Shimp (2002, p. 39) apresenta a comunicação integrada como “absolutamente imperativa para o sucesso”, mas aponta que anunciantes costumam ser resistentes à idéia de não separar a comunicação em ferramentas independentes. Cita ainda que as agências de propaganda também têm certa dificuldade em expandir suas áreas de atuação. O autor classifica as ferramentas de comunicação em quatro grandes grupos: Propaganda (que inclui a propaganda direta e o marketing de banco de dados), Promoção de Vendas, Relações Públicas (que inclui o marketing de patrocínio) e Venda Pessoal. Para ele, essas ações, se integradas, serão capazes de afetar comportamentos, tendo como ponto de partida o consumidor; geram sinergia e constroem relacionamentos, usando para isso “toda e qualquer forma de contato” (SHIMP, 2002, p. 40-43). Para Belch e Belch (1999, p. 21), a comunicação de uma marca precisa ser gerenciada para que seu resultado seja controlado, integrado e eficiente – sempre dentro de um planejamento de marketing mais abrangente. Os autores apresentam cinco ferramentas promocionais – Propaganda, Marketing Direto, Promoção de Vendas, Relações Públicas e Publicity3, e Venda Pessoal. A classificação adotada por Schultz e Barnes (2001) considera quatro grandes ferramentas: Propaganda, Relações Públicas, Marketing Direto, Promoção de Vendas. Os autores comentam que “historicamente (...) a publicidade foi considerada o elemento principal da campanha da agência” (SCHULTZ e BARNES, 2001, p. 69). O mesmo ocorria com qualquer outra ferramenta que fosse tratada como “o elemento principal” – ou seja, o planejamento da comunicação era feito a partir da perspectiva da agência, e não do consumidor. Do ponto de vista do consumidor, no entanto, essas distinções não existem: toda ação de comunicação é uma mensagem da marca. Dentre as características que justificam a opção pela integração estão a possibilidade de mensurar o retorno do valor investido, uma abordagem mais estratégica, em lugar de ações pontuais e isoladas, e a proximidade com o consumidor. Em resumo, pode-se comparar a abordagem dos autores no Quadro 1, a seguir. Percebe-se que as interpretações sobre a abrangência das ferramentas de comunicação são bastante diferentes. Uma das que gera maiores divergências é o Marketing Direto, que é tratado como ferramenta independente por Ogden, Belch e Belch e por Schultz e Barnes, mas que Shimp inclui como uma forma de propaganda. O Marketing Digital é considerado uma ferramenta por Ogden e por Schultz e Barnes, mas não por Shimp e Belch e Belch. Além disso, Schultz e Barnes não consideram a Venda Pessoal como uma forma de comunicação que mereça tratamento independente, e, sim, como complemento às demais ações. Além disso, há diferenças nos enfoques dados às ferramentas, mesmo nos casos em que as classificações são parecidas. O que se pode perceber, em todos os autores, é a Propaganda sendo tratada como a ferramenta mais importante (historicamente e também nas campanhas atuais), em função de suas características e capacidade de persuadir e gerar impacto para a mensagem. 3 Diversos autores apontam “publicidade” – tradução do inglês publicity – como a ferramenta responsável pela divulgação gratuita nos meios de comunicação; essa função é aqui classificada como parte das atribuições das relações públicas. “Publicidade”, neste texto, é tratada como sinônimo de “propaganda” – mensagens nos meios de comunicação que são pagas por um anunciante claramente identificado.

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O vendedor trabalha com potenciais compradores e tenta influenciar suas necessidades por meio da interação. Forma de comunicação em que o vendedor auxilia ou persuade compradores potenciais. Comunicação direta com os clientes para gerar uma resposta e/ ou uma transação.

Vendas a indivíduos, clientes identificados. Inclui propaganda de resposta direta, vendas diretas e telemarketing.

Incentivo ao comércio ou consumidores ou à equipe de vendas. Estimula ação rápida. Atividades que geram valor extra para vendedores, distribuidores ou consumidores, podendo estimular vendas imediatas. Incentivo de curto prazo para aquisição de algo: muda a relação entre preço e valor. Ações para distribuição e para consumidores.

Promoção de boa vontade entre a empresa e seus vários públicos. Relação com marketing ou não. Inclui marketing de patrocínio. Forma não-pessoal, não-paga e não-identificada (publicity); estabelece e mantém uma imagem positiva entre os públicos. A ferramenta mais abrangente. Diversas atividades e especializações para transmitir mensagem corporativa e de marca.

Informa, persuade, agrega valor e apóia outras ações. Comunicação de massa ou direta (marketing de banco de dados).

Forma paga e não pessoal de comunicação. Anunciante claramente identificado.

Elemento criador e de sustentação da identidade da marca. Guarda-chuva sob qual se desenvolve comunicação para grupos específicos.

Shimp

Belch e Belch

Schultz e Barnes

Comunicação individualizada; envolve diálogo entre empresa e consumidor.

Venda Pessoal

Ogden

Ferramenta mais nova, que permite a comunicação personalizada.

Marketing Direto

Estímulos de curto prazo para induzir compras por pessoas ou organizações.

Promoção de Vendas

Estabelecem bom relacionamento com os públicos. Inclui publicity.

Relações Públicas

Mensagem de lembrança, informativa ou persuasiva, por meios não-pessoais.

Publicidade (ou Propaganda)

Quadro 1 – Classificação das práticas de comunicação em Ferramentas

Venda de massa, compradores identificados como um grande grupo com características comuns.

Usa redes on-line para reforçar ações de comunicação com interatividade.

Marketing Digital

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3 PUBLICIDADE: novo contexto para a comunicação de massa A mais tradicional das ferramentas de comunicação, apesar de vir perdendo importância e das freqüentes reduções nos investimentos dos anunciantes, mantém-se como a forma de comunicação de maior impacto, e vem se reinventando – merece, portanto, atenção especial neste estudo. As mudanças sociais, no mercado e nos próprios meios de comunicação de massa, ocorridas durante o século XX, podem ser apontadas como responsáveis por essa redistribuição das verbas de comunicação: uma nova atitude é exigida das marcas anunciantes. A grande fragmentação das audiências e o elevado número de opções em veículos de comunicação têm como uma das manifestações mais claras a Internet. A esse respeito, Gontijo (2004, p. 444) afirma que “está claro que nenhum meio de comunicação pode mais prescindir da Internet que, por sua vez, pode reunir todas as características dos diferentes meios que a precedem, com a vantagem de fornecer informação sob demanda, sem depender de uma grade de horário, e ter um espaço virtualmente ilimitado”. Ou seja, o universo virtual permite novas relações na transmissão de mensagens de comunicação, que podem ser reforçadas por diversos meios simultaneamente. Sob o ponto de vista da comunicação de marcas, isso significa planejar as campanhas de comunicação de forma a atingir o público com mensagens em novos formatos, mas é possível ir além: significa explorar as oportunidades que a integração dos meios traz para a elaboração das próprias mensagens. Essas mudanças dão origem a indivíduos já habituados ao recebimento de múltiplas mensagens por meio dos veículos de comunicação que se fragmentaram e multiplicaram, que interagem com os emissores das mensagens e tornam-se co-autores dos conteúdos. Assim, aquilo que para Gontijo (2004, p. 447) é um aspecto negativo da presença de tantas informações simultâneas (a autora menciona a impossibilidade de acompanhar esse excesso como a “tirania da informação”) vem sendo tratado como oportunidade por um número crescente de marcas. Ao invés de criar “uma opressão que nos faz diariamente viver a angústia de tanto a saber e tão pouco tempo para processar” (GONTIJO, 2004, p. 447), essas marcas deixam de tratar seus consumidores apenas dentro da concepção tradicional de alvos das mensagens, e passam a dar a eles o poder de selecionar quais mensagens, em quais meios e formatos, receberão. Assim, uma das tendências observadas na publicidade atual é que a geração de conteúdo pelo consumidor, e não mais unilateralmente pelas marcas, vem sendo trazida para outros meios de comunicação. Ainda segundo Gontijo (2004, p. 451): “com o mundo digital, fica evidente a transformação radical das noções de autor e espectador”. Nos meios publicitários tradicionais, a televisão permanece sendo a alternativa principal para grandes anunciantes. Esse papel, que já foi do rádio até meados do século passado, vem enfraquecendo desde que a popularização dos canais por assinatura reduziu a concentração de audiência. Ainda assim, os espaços publicitários classificados como nobres mantêm, no Brasil, altos íncides de audiência. Além disso, a TV digital promete, em alguma medida, trazer mais relevância ao meio – ainda que alterando substancialmente os formatos e a maneira de se pensar a mensagem publicitária. COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 81-96 | 2° Semestre 2008 | 87


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A opção pelas mídias de massa se justifica quando o objetivo é atingir grandes públicos, mas cada vez mais se percebe, nos departamentos de mídia das agências, a busca por opções que fujam do convencional. Percebe-se, também, um movimento em direção à integração de conteúdos de publicidade com os de outras formas de comunicação, inclusive aquelas não tradicionalmente usadas por marcas. Um exemplo é o estudo de Vedrashko (2006) sobre a utilização dos jogos eletrônicos, tanto no computador como nos consoles de vídeogame, como possibilidades de comunicação. O ator cita estudos que apontam que o público desses jogos é muito amplo, fugindo do estereótipo do garoto adolescente e incluindo adultos e mulheres em números significativos. Para o autor, jogos são como televisão, mídia impressa, Internet, música – mas ao mesmo tempo têm características únicas que tornam impossível simplesmente reciclar materiais de outras mídias para inserção neles. Assim, surgem possibilidades como os advergames (projetos de jogos desenvolvidos por marcas anunciantes) e a inclusão de produtos no contexto de um jogo (uma estratégia semelhante à da utilização do merchandising em programas de televisão ou em filmes de cinema, ou seja, a inserção da mensagem comercial faz parte da história, sem interromper o interesse principal do público). Há ainda as analogias com campanhas no mundo real, além de ações promocionais diversas (VEDRASHKO, 2006, p. 36-45). A intenção de agências e anunciantes, ao lançar mão de ações que se distanciam do convencional, é dar à marca o status de inovação e ousadia que, muitas vezes, os próprios consumidores solicitam. A valorização de uma marca passa, em grande parte, pela maneira como ela atinge seus públicos em suas campanhas de comunicação: é somente assim que ela pode melhorar nos dois critérios apontados por Shimp (2002, p. 32-35): consciência (que ocorre em dois níveis: lembrança espontânea e reconhecimento) e imagem (que diz respeito às associações que ocorrem a um indivíduo quando ele pensa na marca). Mais amplamente, é possível apontar como possíveis objetivos de qualquer campanha de comunicação, seja ela feita com ações planejadas de forma tradicional ou com características inovadoras, aqueles citados por Feldwick (2006, p.126-141): efeitos sobre as vendas e efeitos sobre os consumidores. No primeiro caso é preciso compreender todos os elementos influenciadores dos resultados em vendas de uma marca, para evitar que o anunciante tenha expectativas distorcidas; no segundo, é importante entender exatamente que tipo de influência na consciência das pessoas se quer atingir, para poder fazer uma avaliação adequada. Em qualquer dos casos, é importante que anunciantes e agências tenham clareza do que deve ser alcançado com a campanha. Somente assim poderá ser tomada a decisão de qual formato de prestação de serviços de comunicação é mais adequado a cada situação.

4 AGÊNCIAS DE COMUNICAÇÃO EM CURITIBA: a busca por novos formatos Há tempos as estruturas das agências de comunicação são objeto de diversos estudos. Na última década do século passado, Gronstedt e Thorson (1996) identificaram cinco formatos de agências em suas pesquisas nos Estados Unidos. O 88 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 81-96 | 2° Semestre 2008


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primeiro deles é o Consórcio de agências especializadas, em que a agência principal subcontrata outras (mas correndo o risco de perder oportunidades de sinergia entre as ferramentas de comunicação). O segundo é o Consórcio com uma agência dominante, que fica responsável por mais de uma ferramenta (muitas vezes comprando outra agência menor, que é incorporada à estrutura original) e pelo planejamento geral da comunicação. No terceiro modelo – a Corporação com unidades autônomas – todos os especialistas são reunidos como unidades separadas, respondendo a um planejamento único, de responsabilidade do gerente de contas. O quarto modelo é o de Matriz, em que as divisões funcionais são combinadas com equipes multidisciplinares. E, por último, há o modelo completamente integrado, em que a estrutura por departamentos funcionais cede lugar à estrutura por contas de clientes. O estudo apresenta aspectos positivos e negativos de cada modelo, comentando situações e tamanhos de agências em que cada um tende a ser mais eficiente – mas sem apontar um que seja superior aos demais. Já Trevizan (2003), analisando agências no Brasil, identifica diferenças importantes entre o entendimento das agências e o dos anunciantes a respeito do conceito de comunicação integrada. Fica claro, no estudo da autora, que as agências que adotaram a integração tiveram diversas motivações, como os anunciantes (que pediam novas formas de pensar a comunicação), os consumidores (que, atingidos por um número crescente de mensagens, reduziam sua atenção) e o mercado (com o aumento da concorrência). Para os anunciantes, a transição para a integração da comunicação é um processo difícil, porque implica mudanças internas (por exemplo, em direcionar a uma única agência todas as tarefas de comunicação, e abandonar as decisões táticas em nome de um pensamento estratégico para suas marcas). Integrar, segundo esse estudo, significa planejar de forma unificada – ainda que a execução seja terceirizada. Percebe-se, assim, que são várias as interpretações que podem ser feitas a partir de dados coletados junto ao mercado da comunicação. Este estudo busca aprofundar o entendimento da realidade de agências de comunicação em Curitiba, em relação à gestão da comunicação das marcas de seus clientes, sem a pretensão de traçar um panorama definitivo da oferta de serviços de comunicação. Para isso, considera a classificação das ferramentas de comunicação a partir dos conceitos apresentados pelos diversos autores. É preciso, também, situar o estudo no contexto atual da comunicação de marcas, em que as ferramentas, isoladamente, são opções menos eficientes de transmissão das mensagens, e novos formatos são cada vez mais usados. A primeira tarefa para a compreensão da realidade da prática nesse mercado foi realizar um levantamento das agências de comunicação atuantes na cidade. Para isso foi usada, como critério de seleção, a relação de agências presente no site do CCPR – Clube de Criação do Paraná4. As 31 agências identificadas foram classificadas conforme a quantidade total de profissionais que empregam, os tamanhos das equipes 4 O Clube de Criação do Paraná é uma instituição que “tem como objetivo principal cuidar da memória da comunicação paranaense e valorizar a atividade e os profissionais do nosso mercado”. Seu website traz informações sobre as atividades desenvolvidas pela entidade, espaços para que os sócios exponham seus trabalhos, debates, artigos e os contatos dos associados e de empresas da área de comunicação no estado do Paraná. A consulta ao site para coleta de dados das agências na cidade foi realizada em março de 2006.

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de atendimento e de criação e a gama de serviços prestados. Além disso, em contatos por telefone, foi perguntado a profissionais dessas agências que outras agências oferecem, sob o ponto de vista deles, serviços de qualidade e abrangência semelhantes. As agências podem ser assim classificadas: Quadro 2 – classificação das agências de comunicação em Curitiba Tamanho

Total de funcionários

Quantidade identificada

Grupo 1 - pequenas

Até 20

22

Grupo 2 - médias

21 a 50

03

Grupo 3 - grandes

Mais de 50

06

Foi possível perceber que o porte das agências está diretamente relacionado com a percepção que as outras agências (aqui entendidas como “o mercado publicitário”) têm delas. Ou seja, as agências do primeiro grupo, na maior parte das vezes, citaram outras agências desse mesmo grupo como sendo aquelas que oferecem o mesmo tipo de trabalho para os clientes. A divisão das agências em médias e grandes já não trouxe respostas tão claras: algumas agências aqui classificadas como médias citaram as grandes como as que oferecem serviços de mesmo nível. A partir dessa primeira categorização, foram selecionadas as seis agências do terceiro grupo e as duas do segundo grupo, para a realização de entrevistas com profissionais das áreas de atendimento, planejamento e criação. Profissionais de cinco delas já foram ouvidos. A continuação deste estudo prevê entrevistas com representantes das outras três. As entrevistas foram realizadas pessoalmente, entre maio e outubro de 2006, e gravadas em áudio. Após transcritas, foram selecionadas, das falas dos entrevistados, aspectos que demonstrassem elementos referentes à presença de suas agências no mercado, além das expectativas atuais dos anunciantes, sob o olhar do publicitário. Os profissionais ouvidos e principalmente as agências visitadas serão aqui identificados apenas numericamente, uma vez que o interesse desta pesquisa não é analisar isoladamente cada um deles, e, sim, aprofundar a compreensão do mercado publicitário em Curitiba. Elas serão apenas caracterizadas quanto ao porte e à abrangência dos serviços oferecidos, de forma a situar as opiniões dos profissionais entrevistados em relação a suas práticas.

Agência 1 A primeira agência visitada existe há mais de 30 anos, e é uma agência familiar que, na opinião da profissional de criação entrevistada (E.1), está se transformando em uma agência de porte maior. Para essa entrevistada, que trabalha na agência há nove anos, esse processo de transição requer ajustes nas posturas dos profissionais, que precisam se adequar às demandas do mercado. São aproximadamente 30 funcionários, estruturados em um modelo bastante convencional:

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Essa divisão em departamentos na agência é sempre uma coisa muito peculiar: cada agência tenta fazer tudo novo, começar do zero, dar uma divisão em que nunca ninguém pensou. Mas acaba caindo no tradicional, na boa e velha divisão. É um modelo bem básico, mas acho que é o modelo no mundo. Quer dizer, as pessoas tentam trocar as pessoas de lugar, ou dar outros nomes, ou colocar a mídia sentada junto com a criação, ou montar trincas e não duplas, mas o modelo padrão acaba sendo esse. ( E.1). Na distribuição em departamentos, a criação tem destaque: quase metade dos funcionários estão diretamente ligados a ela. Quanto à gama de trabalhos executados, essa agência faz publicidade, materiais gráficos (sempre que possível, em um contexto mais amplo de ações below-the-line5, em vez de materiais isolados) e marketing direto (buscando ações que fujam do formatos convencionais de mala direta, como caixas, CDs e outros materiais diferenciados). Ações promocionais, assessoria de imprensa e eventos são terceirizados, porque a agência entende que demandam conhecimentos mais específicos. O perfil de clientes atendidos por essa agência é variado: há contas de governo, varejo e várias nos segmentos business-to-business.

Agência 2 A segunda agência visitada surgiu de uma fusão entre agências bastante tradicionais na cidade. O entrevistado (E.2) é diretor de criação há 4 anos, tendo passado antes por outras grandes agências de Curitiba e de outros mercados. A estrutura da agência é bastante grande, com mais de 80 funcionários, e a atuação é muito abrangente: como a proposta é oferecer aos clientes serviços realmente integrados de comunicação, a estrutura é montada em departamentos separados por ferramenta: design, promoção, marketing direto, web e propaganda. Para a realização dos trabalhos, são montados grupos de trabalho com as várias especialidades: A tendência natural é que essas unidades funcionem de maneira estanque. É preciso provocar a integração todo o tempo, as equipes não sentam para conversar se não houver esse esforço (E.2). Para viabilizar essa integração, a agência criou um modelo próprio de planejamento, com diagnóstico e ferramentas de pesquisa, a partir da discussão de alguns modelos teóricos e buscando referências de experiências em outras agências para adaptar a prática: Temos especialistas nas diversas áreas, e ter essas cabeças juntas, pensando o planejamento estratégico dos clientes, é um diferencial. Nosso planejamento é multidisciplinar, não é um diretor de planejamento que toma as decisões. (E.2). Essa agência terceiriza a execução de algumas etapas, como promoção e marketing direto – mas após planejamento feito internamente. Segundo o entrevistado, não é possível fazer comunicação realmente integrada sem essa coordenação. 5 As agências costumam dividir seus trabalhos em above-the-line (ações de mídia; publicidade) e below-the-line (ações de não-mídia que envolvem as demais ferramentas de comunicação).

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Agência 3 A terceira agência é parte de um grupo internacional, e foi montada em Curitiba para atender a demandas de um cliente. Conta com uma equipe enxuta, de aproximadamente 40 pessoas, e o profissional entrevistado (E. 3) – diretor de criação – trabalha na função há três anos. Só faz propaganda – tem uma agência below-the-line integrada ao grupo, mas os trabalhos de criação não são realizados em conjunto. A integração das campanhas que usam as duas atividades é coordenada pelo presidente de ambas as agências, e facilitada pela proximidade física: Para o cliente, é quase como se fosse uma agência só (E. 3) Além da sede em Curitiba, a agência tem outras duas unidades, no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde se concentra o Planejamento. Quando há necessidade de planejar uma campanha, a equipe se desloca para Curitiba, faz pesquisas, apresenta o trabalho ao cliente. Dentre os clientes atendidos, destacam-se marcas de serviços financeiros, educacionais e varejo.

Agência 4 A quarta agência foi criada há 15 anos com o propósito de preencher lacunas que as outras agências deixavam, prometendo funcionar como uma equipe de marketing estendida dos clientes: Muitas vezes os clientes não têm essa estrutura, aqui no Paraná é raro. Até mesmo clientes mais robustos têm uma equipe de marketing reduzida. Normalmente são equipes multifuncionais, que fazem muita coisa. Então quem consegue fazer essa extensão tem um diferencial, porque todo mundo quer um parceiro que consiga te desonerar de uma série de funções e te entregar pronta uma série de coisas (E. 4) São 60 funcionários, sendo 14 só no atendimento. Para os padrões locais, a entrevistada (E. 4) – responsável pelo Planejamento da agência – diz que é uma estrutura grande. Na criação, são 16 pessoas, porque o varejo, um dos focos da agência, exige uma quantidade de trabalho muito grande. A agência faz os trabalhos de publicidade e repassa a uma agência irmã as necessidades below-the-line: Eventualmente existe a necessidade, dentro de uma promoção, da aplicação de uma estratégia de mídia. E o contrário também: se nós temos a necessidade de um serviço de webdesign, contratamos a os serviços deles (E. 4). São equipes independentes de profissionais com expertise e talento em cada área, mas a separação completa já começa a ser questionada pela entrevistada: Começou não a haver uma separação tao distinta do ferramental de comunicação, então hoje podemos ser definidos como uma empresa de comunicação. Nem above nem below. Fazemos coisas, por exemplo, como eventos proprietários, ou ações em que toda a mídia é baseada em internet (E. 4).

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Essa agência vem buscando adaptar sua estrutura de profissionais às demandas específicas das contas de varejo que atende, e ao mesmo tempo elaborar com qualidade campanhas para clientes em outros setores, como governo e prestação de serviços.

Agência 5 A quinta agência visitada existe há aproximadamente 17 anos, e tem sedes em outras três cidades. O profissional entrevistado, (E. 5), responsável pelo Planejamento, comenta que essa grande estrutura – com mais de 140 profissionais no total das quatro sedes – existe em função do perfil e volume de trabalhos dos clientes atendidos: algumas contas relacionadas ao Governo, prestadores de serviços (tanto ao consumidor como business-to-business) e produtos. Os trabalhos são feitos para os clientes independentemente da localização: não separam os trabalhos por escritório ou por proximidade com o cliente. São estruturados em quatro unidades de negócios: comunicação de massa, design, web e marketing promocional. Todas as atividades são desenvolvidas internamente, sem que sejam feitas terceirizações. Para tanto, há profissionais com formação específica em cada área. A estrutura de atendimento também é montada por unidade de negócios, exceto trabalhos de web, que são coordenados pelo atendimento de Propaganda: A web não é vista como uma ferramenta, mas como uma linguagem criativa específica, que costuma acontecer em paralelo com a comunicação de massa. Para alinhar as demais áreas, fazemos nossos projetos com equipes multidisciplinares. Temos reuniões estratégicas, em que uma pessoa de web pode trazer uma solução de ação promocional, uma de produção pode sugerir um caminho de design e assim por diante (E. 5). Preferem não formar parcerias com outras empresas e oferecer de forma completa serviços nessas quatro áreas. Para clientes que precisem de outros serviços, a agência indica empresas especializadas, mas não fazem trabalho conjunto com nenhuma delas.

O mercado publicitário em Curitiba, sob o ponto de vista dos entrevistados Há algumas semelhanças na fala dos entrevistados, quando questionados sobre a situação do mercado da comunicação em Curitiba e as tendências no setor. Eles demonstram a preocupação em adequar os serviços das agências em que trabalham a essas novas demandas, com alterações nos formatos da prestação dos serviços, na organização dos profissionais dentro de suas estruturas e buscando agregar novas possibilidades à comunicação feita para seus clientes. Queremos que todas as pessoas que estão no processo se envolvam do princípio ao fim, sabendo como as coisas funcionam e entregando sua parte da melhor maneira possível; são coisas que parecem muito teóricas mas que no final das contas fazem diferença na qualidade dos trabalhos, nos prazos, na redução do desperdício (E. 1). COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 81-96 | 2° Semestre 2008 | 93


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Sobre o mercado, a mesma entrevistada afirma: Hoje nada mais é fixo. Hoje a propaganda está deixando de ser algo em que o dinheiro chega de maneira tão simples. A exigência é maior, o cliente hoje entende de propaganda. Antes você era a autoridade absoluta, hoje a pessoa que está negociando com você é um publicitário também, que está do outro lado da mesa. Então eu preciso ter uma opinião que encontre eco na cabeça dessa outra pessoa (E. 1). Essa exigência por mais profissionalismo, que na opinião da entrevistada da Agência 1 partiu dos clientes, está forçando as agências a uma mudança de postura que ainda não se consolidou: Hoje não oferecemos isso integralmente. Mas acho que hoje, em Curitiba, ninguém oferece (E. 1). Para outros dois profissionais ouvidos, suas agências se destacam das demais, nesse cenário em que a comunicação integrada ainda é um conceito pouco aplicado: Nesse cenário, acho que nós largamos na frente. A ponto de não conseguir fazer um benchmarking aqui, a gente não consegue ver uma agência e querer ser como ela (E. 4). Quem faz comunicação integrada hoje? Aqui no mercado de Curitiba, ninguém. Fomos procurar em São Paulo, e na época ninguém fazia direito. A maioria das agências só coloca “Comunicação Integrada” na fachada, no cartão de visitas (E. 2). A atuação das agências nesse novo cenário também está em transição. Se por um lado os clientes exigem inovações, por outro não sabem – assim como as agências não sabem – como lidar com as novas possibilidades: Tem muitos formatos de campanha que, por serem novos, ninguém sabe como vão ser os resultados, e muitas vezes nem como medir. Por exemplo, na internet é difícil medir resultados. A gente teve uma experiência com um cliente, em que a gente juntou tudo, internet, todas as mídias, e deu super certo. Agora, quanto deu certo por causa da internet, ou dos filmes, ou deu certo porque era tudo integrado? (E. 3). A postura dos clientes é ainda apresentada como um empecilho para a atuação das agências de forma a buscar novas soluções de comunicação: Às vezes o cliente tem medo, às vezes a gente não chega numa idéia por isso (E. 3). Outra característica do mercado muito mencionada pelos entrevistados diz respeito à dificuldade de classificar as ações de comunicação em ferramentas – situação que reproduz, na prática, a divergência de opiniões entre os autores consultados para embasar esta pesquisa. Esta situação evidencia o momento de transição por que o mercado da comunicação vem passando. Como as mídias tradicionais estão chegando num limite, e as pessoas têm cada vez mais informações nas mídias tradicionais, a gente precisa pegar as pessoas em qualquer lugar. E aí a diferença entre above e below-the-line está sumindo (E. 2). Antes a gente via propaganda, promoção, assessoria de imprensa – poucas disciplinas, mas muito concentradas em alguns players do mercado. Aí, com a 94 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 81-96 | 2° Semestre 2008


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pulverização total dessas disciplinas, com a web com uma grande fatia desse mercado, a gente teve que se adaptar novamente, rever todos os conceitos (E. 4). Não temos a ilusão, a visão simplista de que a propaganda vai acabar. A essência não mudou muito quanto ao que os clientes esperam. Com a diversificação dos meios, veículos e ferramentas, existem mais possibilidades combinatórias. As estratégias se multiplicaram. E é preciso entender melhor os riscos e vantagens de cada estratégia sugerida. (E. 5). É possível perceber, também, certa angústia em relação ao momento atual, que é freqüentemente citado como sendo uma fase de transição. Referências de outros mercados, como São Paulo, são usadas na tentativa de situar as práticas locais. As alterações estruturais, de processos de atendimento, planejamento e criação, e as relações de parceria com outras empresas de comunicação são outros indícios de que o mercado publicitário em Curitiba está passando por um momento de grandes mudanças.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O conceito de comunicação integrada surge quase que naturalmente nos discursos de todos os entrevistados deste estudo, mas o entendimento de quais as possibilidades para sua prática não está ainda consolidado, nem entre as agências e nem entre os anunciantes que as contratam. Ainda assim, essa discussão é muito importante, porque confirma a situação de transição por que passa o mercado da publicidade em Curitiba. As novas tendências dentro da ferramenta publicidade também são perceptíveis na fala dos entrevistados, que demonstram que as agências em que trabalham já se preocupam em oferecer aos anunciantes soluções inovadoras dentro dessa ferramenta e, sempre que possível, integrando as demais. Assim, é possível perceber que a relação teoria-prática nesse universo de comunicação de marcas se constrói a partir da prática. Os aspectos teóricos levantados neste estudo mostram que não há um consenso entre os autores que estudam o assunto das ferramentas de comunicação e das possibilidades de integração; da mesma forma, os entrevistados mostram dificuldade em classificar suas próprias atuações profissionais. Essa situação indica a necessidade de amadurecer as discussões teóricas sobre o assunto entre os profissionais da área, partindo da prática para a construção de conhecimentos teóricos que a expliquem.

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Jornalismo Digital e pós-modernidade: uma análise do jornal Último Segundo Cleide Luciane Antoniutti1 Vanessa Fernandes Santana2 Resumo O presente artigo aborda o tema do jornalismo digital no contexto das transformações ocorridas na sociedade pós-moderna. Refletindo sobre a incorporação de novas tecnologias e o surgimento da Internet na sociedade, novos ambientes sociais se criam, alterando de maneira significativa o ritmo e relações da sociedade. A Internet se transforma num importante meio de comunicação e informação para sociedade, absorvendo o jornalismo digital, em que o leitor exerce um papel mais ativo e participativo no processo da informação. A partir de uma discussão teórica sobre pós-modernidade, jornalismo e Internet, observa-se que novos formatos de jornalismo vão sendo incorporados à sociedade. Nesse contexto, pretende-se refletir sobre como o jornalismo digital se desenvolve e se caracteriza como um produto da pósmodernidade. Para se chegar ao resultado dessa pesquisa, utiliza-se o jornal digital Último Segundo como objeto de análise, que busca caracterizá-lo a partir da estrutura e linguagem da Internet. Palavras-chave: pós-Modernidade, Internet, Jornalismo Digital, Último Segundo

Abstrat This abstract addresses the issue of digital journalism in the context of the changes in the post-modernity society. Reflecting about the incorporation of new technologies and the rise of Internet, new social environments have been created, changing in a significant way the rhythm and relation of the society. The Internet became an important means of communication and information for society, consuming the digital journalism, where the reader has a more active and participatory role in the process of information. From a theoretical discussion on post-modernity, journalism and Internet, it is observed that new formats of journalism are being incorporated into the society. In this context, it is intended to reflect on how the digital journalism is developed and is characterized as a product of post-modernity. To reach the result of that search, the digital newspaper used as object of analyses was “Último Segundo”, that search characterize it from the structure and language of the Internet. Keywords: post-modernity, Internet, Digital Journalism, Último Segundo 1 Jornalista, mestre em Sociologia Política (UFPR), especialista em Marketing (FESP), professora de Novas Tecnologias em Jornalismo (UP) e Análise Crítica de Páginas na Web na Pós-Graduação (IBPEX) 2 Jornalista (UP), Editora chefe do portal POP e coordenadora de marketing do Paraná Online


Jornalismo Digital e pós-modernidade: uma análise do jornal Último Segundo

Introdução As diversas mudanças políticas, econômicas e tecnológicas que ocorreram na pós-modernidade criaram novos ambientes sociais e aceleraram o ritmo de vida da sociedade contemporânea. Essas transformações possibilitaram o aparecimento de novas tecnologias, que foram introduzidas nos campos de relacionamento humano, mudando definitivamente o modo de interagir das pessoas. Entre as principais descobertas está a Internet, que se tornou rapidamente num importante instrumento de comunicação e de difusão de informação. Ela teve sua funcionalidade ampliada com a ascensão das tecnologias digitais, como os satélites e as redes sem fio. Com a expansão e inserção dessas novas tecnologias, a Internet tornou-se um importante espaço para o aparecimento de um novo conceito de jornalismo. Novos formatos de jornalismo foram se configurando, eis que surge então o jornalismo digital. A partir de 1995 presencia-se a chegada de vários grupos brasileiros de comunicação na web. Mesmo de forma um tanto experimental, outros meios começaram a ocupar e se formatar no espaço da rede. Esse foi o caso do jornal digital Último Segundo (1999), pertencente ao portal do IG, que foi o primeiro jornal brasileiro feito diretamente para a Internet. Além da sua importância histórica, o jornal, por ser direcionado somente para a web, é um importante objeto de análise para as discussões em torno da linguagem e estrutura. Os dados observados durante a pesquisa apontam que o jornal, apesar de ser voltado somente para a Internet, não apresenta todas as características de linguagem e estrutura de um veículo digital. Para dar sustentação ao resultado da pesquisa, o artigo apresenta uma pequena discussão teórica, abordando os temas como: pós-modernidade, internet e jornalismo.

PÓS-MODERNIDADE A sociedade pós-moderna se solidificou dentro de um acelerado processo de mudanças econômicas, políticas, tecnológicas e sociais. O período que se inicia em 1950 deu continuidade ao turbilhão de transformações que vinham com a modernidade desde o século XV. Na modernidade, importantes fatos ocorreram de maneira simultânea e modificaram por completo o modo como as pessoas viviam em sociedade. Segundo Marshall Berman (1986), um dos exemplos foi a industrialização do sistema de produção que forçou milhões de pessoas a saírem de sua localidade para tentar trabalho nas cidades. A população presenciou a passagem de um quadro social imóvel – no qual se tinha apenas a idéia de cultura local e sociedade estática – para um quadro totalmente contrário, com noções de cultura global e sociedade do progresso. A pós-modernidade deu seqüência a essas transformações e introduziu ao dia-adia das pessoas uma nova leva de artefatos tecnológicos, o que, conseqüentemente, proporcionou mais mudanças sociais, surgindo a partir daí um novo conceito para representar a comunicação entre a sociedade, a chamada Sociedade da Informação.

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JORNALISMO NA PÓS-MODERNIDADE O jornalismo, figura máxima da comunicação social, de acordo com Bernardo Kucinski (2005), segue atualmente com sua linha comercial iniciada no final do século XIX. Para ele, a atual revolução tecnológica, conseqüentemente a Sociedade da Informação também, fragmenta o espaço midiático com grande intensidade. O jornalismo de caráter especializado e personalizado, e até mesmo as próprias editorias básicas, assumiram ideologias da pós-modernidade, focando principalmente no indivíduo, deixando em segundo plano os assuntos que são de interesse coletivo. Isso ocorre devido ao abandono das meta-narrativas e a apropriação dos diversos discursos comunicacionais. Não é mais necessária a utilização de uma linguagem ampla e elaborada, pois o indivíduo tende a se interessar somente pelos assuntos que lhe convêm. Nesse caso, o objetivismo e o pragmatismo se tornam mais relevantes. Na Internet, mais do que em outros meios, se materializa hoje o paradoxo ético criado pela falência de valores surgidos no iluminismo e não preenchidos pela ética da pós-modernidade. (...) Costumes gerados na operação da Internet, tais como sexo virtual, a cópia e apropriação da produção intelectual alheia, sugerem que o hábito Internet seja comparado com uma ética da ausência de padrões dominantes, ou, eventualmente, da celebração individual. A Internet, paradoxalmente, é o espaço em que melhor se manifesta o fenômeno da fragmentação ética de nossos tempos. (KUCINSKI, 2005, p. 86). O jornalismo pós-moderno busca produzir notícias em massa com atualizações constantes; dessa maneira, transforma em descartável tudo o que não estiver “acontecendo agora”. Essa enorme produção de informações acaba por abastecer os princípios fracos da pós-modernidade transferidos aos indivíduos por meio de sua conformidade vazia. Tudo muda muito rápido, não dando tempo de se solidificar na estrutura social. (BAUMAN, 2001, p. 29). Outra importante característica do jornalismo pós-moderno são as freqüentes fusões das empresas de comunicação. Num processo de fusões e aquisições, companhias se tornaram globais e o controle da mídia ficou restrito a uma parcela ínfima de representantes. A concentração do poder de mercado e reinado de grupos familiares na mídia se intensificou no começo dos anos 90. O número de corporações midiáticas está se reduzindo, a tal ponto que é possível contá-las nos dedos das mãos. Se nos meados dos anos 80 do século passado essas transnacionais eram cerca de meia centena, em 1993 tinham-se reduzido a 27 e no final de 2000 eram apenas sete: Disney, Time Warner, Sony, News Corporation, Viacom, Vivendi-Universal e Bertelsmann. Todas elas provém de países ricos: EUA, Europa e Japão. (BURCH; LEON; TAMAYO apud COSTA, 2005, p. 180).

Kucinski (2005) é favorável à idéia de que, na era da informação, as empresas de comunicação, num processo de megafusões, formam conglomerados comandados por capitais financeiros cada vez mais autônomos e extraterritoriais.

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Isso resulta em mais uma particularidade da pós-modernidade dentro do âmbito jornalístico, a chamada perda de autoria. Como atualmente vários veículos pertencem à mesma empresa de comunicação, fica difícil para o indivíduo identificar características exclusivas na notícia ou mídia que está utilizando. Isso ocorre devido ao fenômeno da massificação da informação.

JORNALISMO NA INTERNET O jornalismo se uniu à Internet pela primeira vez no final dos anos 80, mais especificamente nos Estados Unidos. Conforme explica Pollyana Ferrari (2006), a maior parte dos sites jornalísticos surgiu apenas como reprodutores do conteúdo publicado nos meios impressos. E somente na etapa posterior foi que começaram a surgir veículos interativos e personalizados. No Brasil o primeiro site a reproduzir conteúdo jornalístico foi o Jornal do Brasil criado em 1995. Logo em seguida, o jornal O Globo colocou na rede sua versão para web, seguido pela Agência Estado. Uma verdadeira corrida tecnológica. Todos os meios queriam estar conectados com o mundo. Foi o chamado boom da Internet no Brasil. Esse aparecimento dos jornais digitais só se tornou possível após a criação dos navegadores da Internet, os browsers, pois, antes disso, era quase impossível localizar qualquer informação na rede mundial de computadores. Pois o sistema tinha uma visualização ruim e baixa funcionalidade. Cláudia Quadros (2002) ressalta que os jornalistas buscavam uma linguagem apropriada e um esquema adequado para disponibilizar seus conteúdos na web. Já Pinho (2003) divide o período de evolução do conteúdo jornalístico na Internet em três gerações. Na 1ª geração de sites era privilegiado apenas o conteúdo e não a forma, era feita apenas uma reprodução dos jornais impressos. A 2ª geração foi moldada de acordo com a introdução da linguagem HTML (HyperText Markup Language), própria para escrever páginas de documentos na web. Ela permitiu o uso de ícones, imagens de fundo, botões, tabelas e gráficos. Durante a 3ª geração, o conteúdo volta a ter um local de destaque e, de acordo com o autor, a preocupação está tanto na funcionalidade quanto na beleza do site. Surge o chamado jornalismo dentro da Internet. O objeto de análise desta pesquisa, o jornal digital Último Segundo, foi o primeiro no Brasil feito exclusivamente para a Internet. Criado em novembro de 1999, tinha por objetivo servir de página principal para o portal iG. Diversos autores utilizam terminologias diferentes para definir o conceito de jornalismo praticado na web; ciberjornalismo, webjornalismo, jornalismo on-line e jornalismo digital. Para Pollyana Ferrari (2006), todo profissional que trabalha com a transposição das mídias – que traduzem as notícias da linguagem impressa para web – são classificados como jornalistas on-line. Diferente do jornalismo digital que, por sua vez, abriga os noticiários, sites e produtos criados exclusivamente para web. Essa diferenciação não é feita por Kucinski (2005). Ele não levanta tal questão e utiliza

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como padrão o termo jornalismo on-line. Para ele, o jornalismo on-line não se distingue muito do serviço das agências de notícias. Mas a freqüência com que as notícias são atualizadas se transforma em um dos aspectos mais marcantes da nova mídia. “Fatos vão sendo narrados continuamente, em textos curtos e poucos acabados, à medida que vão acontecendo, e não depois que aconteceram”. (KUCINSKI, 2005, p. 77). Pinho (2003) classifica o conteúdo jornalístico dentro dos sites em quatro tipos principais: Estático: É qualquer informação que não está sujeita a mudança, ou pode sofrer uma atualização esporádica e eventual. Dinâmico: Está presente na seção de últimas notícias. Funcional: É dado principalmente por menus e barras de navegação. Interativo: Estimula a interação com os usuários. Já para Kucinski (2005), o jornalismo on-line possui três fortes características gerais. A primeira pode ser definida como o público-alvo. O principal público do jornalismo on-line são especuladores e as instituições financeiras, justamente por causa do capitalismo de acumulação flexível. Fato que condiciona a segunda característica, a velocidade. Informar, contextualizar e interpretar, tudo isso deve ocorrer na web antes dos outros veículos. Dessa maneira, as informações são transmitidas por partes e com atualizações contínuas, o tempo real da notícia narra cada acontecimento no momento em que está ocorrendo. E, por último, a terceira característica exclusiva do jornalismo on-line: a funcionalidade que o veículo tem em relação aos outros meios de comunicação. Enquanto as agências de notícias divulgam seu material como sendo resultado final de um acontecimento, fazendo pequenas alterações durante o tempo de exposição do texto como destaque; a web é utilizada como pauta para os outros veículos, justamente por seu caráter de agilidade e rapidez na divulgação de um fato. No que se refere à linguagem utilizada na Internet é importante ressaltar que as características peculiares ao meio possibilitam a utilização de diversos formatos, assim como o recurso de hipertexto. A mídia digital pode abrigar diferentes meios comunicacionais em um único suporte tecnológico. A prática jornalística na web exige uma nova arquitetura da informação baseada na linguagem hipertextual e multimídia. É importante destacar que, para desempenhar uma função eficaz, a Internet necessita de clareza e facilidade em seu processo de comunicação. Para atingir tal objetivo, foi e ainda é desenvolvida uma linguagem própria e exclusiva para ela. A inserção de conteúdo jornalístico levou para a web uma nova significação, além de ampliar em escala mundial suas funcionalidades. Portanto, a comunicação realizada dentro da mídia digital exige um novo modelo narrativo. A linguagem foi adaptando-se ao meio, para não perder sua funcionalidade. Os termos mais freqüentes para conceituar a linguagem na Internet são: hipertexto e hipermídia ou multimídia.

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Para conceituar e caracterizar a estrutura do jornalismo digital utiliza-se o termo: Arquitetura da Informação. A teorização e conceituação desses termos estão presentes da análise do jornal digital Último Segundo

ANÁLISE: JORNAL DIGITAL ÚLTIMO SEGUNDO O Último Segundo foi o primeiro jornal em português a ser elaborado exclusivamente para a Internet no Brasil. Criado em novembro de 1999, para ser a página principal do portal iG, foi ao ar primeiramente sem divulgação. Sua aparição pública ocorreu no lançamento do provedor iG, em janeiro de 2000. O jornal pertence ao Internet Group, composto pelo portal iG, Ibest e Br Turbo. A equipe que produz o jornal segue uma estrutura hierárquica da mesma maneira que nas redações tradicionais: são aproximadamente 30 pessoas entre diretor de jornalismo, editores, redator-chefe, redatores, chefe de reportagem, repórteres, tradutores, colunistas e free-lancers. Para definir o quadro de matérias diárias, ocorrem reuniões de pautas e os jornalistas recebem uma pré-pauta via e-mail, referente aos assuntos que podem ser destaques na edição daquele dia. As matérias são atualizadas constantemente. A redação trabalha 24 horas e, por esse motivo, não existe um horário de fechamento. Os serviços oferecidos pelo jornal são: Radiojornalismo: Link externo que conecta ao serviço de radiojornalismo do portal iG. US Informa: Consiste no envio direto de notícias para o usuário, no local e formato que ele escolher, podendo ser pacotes customizados com os assuntos por ele selecionados. Boletim de Notícias: É um programa de newsletter, no qual as notícias do site são enviadas por e-mail para o usuário cadastrado. Último Segundo Flash: Um dispositivo localizado na área de trabalho do computador que mostra as manchetes em tempo real. Podcasting: Sistema há anos utilizado na Internet coloca à disposição do usuário trechos de músicas, narrações, sons avulsos, entrevistas, notícias, ou, de acordo com o editor de música do portal uol, Antonio Farinaci (2005), tudo isso junto. A arquitetura da informação das páginas principais de cada editoria é composta por uma manchete, uma foto do lado esquerdo superior, não necessariamente ligada à manchete, e as principais notícias do dia do lado direito. A tela abaixo se divide entre a seção de Opinião e a de Multimídia. Na outra tela, Manchetes do dia, seguida de Mais lidas e Últimas Notícias. No final da página, encontram-se os Links patrocinados. O jornal Último Segundo trabalha em parceria com vários veículos de diferentes editorias, como: Gazeta Esportiva, BBC Brasil, NY Times, Jornal de debates, Clima tempo, Observatório, Portal Exame, Congresso em Foco, etc. Além de parcerias regionais com agências de notícias.

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Os elementos interativos da página são: Busca, Blog, Notícias Relacionadas, Imprimir, Enviar por e-mail, Comentar, Corrigir, Minha Notícia, Fale Conosco, RSS3.

Fonte: Retirado do Jornal Último Segundo do dia 03/09/07

Das características identificadas como pertencentes à pós-modernidade, foram escolhidas como as mais representativas para esta pesquisa: fragmentação, indústrias de serviços, cultura de massa, status e consumo, múltiplas formas de discurso e conglomerados empresariais.

Fragmentação Para o jornalista Bernardo Kucinski (2005), “A Internet, paradoxalmente, é o espaço em que melhor se manifesta o fenômeno da fragmentação ética de nossos tempos”. (2005, p. 86). Com os recursos de interatividade e hipertextualidade, a internet aproxima ainda mais o usuário de seus objetivos. No caso do Último Segundo isso está presente nas 10 editorias oferecidas: Brasil, Mundo, Esporte, Ciência, Mundo Virtual, Cultura, Educação, Economia, OpiniãoBlog e Fale com Políticos4.

3 Really Simple Syndication, centralizador de informação que envia mensagens de assuntos previamente selecionados pelo usuário. 4 O site foi analisado de 30/03/2007 a 19/09/2007

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Fonte: Retirado do Jornal Último Segundo do dia 19/09/07

A diversificação de assuntos e de públicos diversos demonstra a facilidade e a mobilidade que o veículo tem de se adaptar ao meio social. Suas diversas editorias e parcerias deixam clara a tentativa de atender a todos os gostos e públicos diferenciados.

Indústria de serviços Observa-se na análise que o jornalismo digital dedica um importante espaço para a indústria de serviços. Na página de economia do Último Segundo, existe um local específico de serviços ofertados pelo jornal que se subdivide em duas questões relacionadas à economia: bancos e empregos. Na primeira são trabalhadas dúvidas freqüentes com relação a fechamento de conta e compras on-line; já na segunda, é oferecido ao internauta a agenda de concursos e informações básicas sobre o sistema de banco de horas.

Fonte: Retirado do Jornal Último Segundo do dia 19/09/07

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Também na editoria de Ciência do jornal, existe a ferramenta de auxílio na busca por serviços especializados. São elas: Encontre o hospital mais próximo e Encontre seu medicamento. Ambos são serviços de pesquisa on-line. Dentro do Último Segundo, além dos serviços ofertados para ajudar o usuário, como serviços de informações e buscas, existem também aqueles relacionados diretamente à prática jornalística principalmente na forma como as informações são oferecidas ao internauta, como é o caso do Radiojornalismo que leva o usuário à rádio exclusiva do portal iG; US Informa, sistema de envio de notícias em diversos formatos: Boletim de Notícias programa básico de newsletter; Último Segundo Flash, dispositivo instalado no computador que mostra as manchetes do site; e Podcasting, sistema de notícias divulgadas em áudio.

Fonte: Retirado do Jornal Último Segundo do dia 19/09/07

“O jornalista de um veículo digital assume e agrega muitas funções similares a um gerente de produto, que precisa cuidar, planejar, viabilizar financeiramente e até manter vivo o produto em questão”. (FERRARI, 2006, p. 62). Isso é o que ocorre na página do Último Segundo; os serviços são organizados de maneira estratégica dentro do site, além de muito bem identificados. Tudo o que é serviço de publicidade está identificado como tal.

Cultura de mídia Todos os produtos da sociedade pós-moderna são produzidos para terem um curto período de vida útil. Dessa maneira, a circulação no mercado permanece rápida e constante. O mesmo ocorre no jornalismo digital. Devido ao enorme fluxo de informações, as notícias se tornam velhas rapidamente e a mídia acaba por descartar aquilo que não for tido como novo. O próprio nome do objeto de análise desta pesquisa, o jornal digital Último Segundo, já remete à agilidade e instantaneidade, características observadas no site, uma vez que as notícias do jornal são atualizadas constantemente, COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 97-114| 2° Semestre 2008 | 105


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menos de cinco minutos entre uma atualização e outra. Isso faz com que sua redação trabalhe 24 horas por dia5. Com tanta informação disponível na Internet, é preciso ser seletivo. Outra questão importante a ser tratada em relação à cultura de massa é a da referencialização. Nos meios de comunicação, o interesse pelas celebridades e sobre a vida particular das figuras públicas é muito freqüente. Dentro da Internet, existem vários sites especializados em distribuir notícias sobre celebridades. Mesmo nos jornais digitais, esse tipo de informação pode ser encontrado com facilidade. No caso do Último Segundo, na página da editoria de cultura, entre as notícias sobre filmes e estréias da semana, encontram-se notícias relacionadas a famosos e suas vidas particulares. Para Bauman (2001), é comum na pós-modernidade que as pessoas demonstrem um interesse significativo com relação à vida dos outros indivíduos, o que acaba gerando uma inversão entre os conceitos de público e privado. “O ‘público’ é colonizado pelo ‘privado’, o interesse público é reduzido à curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas” (BAUMAN, 2001, p. 46). Dessa maneira, percebe-se que também no jornal Último Segundo essa é uma característica comum, já que todos os dias durante a pesquisa, em sua página de cultura ou até mesmo na página principal, ao menos duas manchetes dizem respeitos a pessoas famosas. Status e Consumo também fazem parte da cultura de mídia, mas tornou-se necessário para esta pesquisa descrevê-los separadamente.

Status e Consumo As produções seriadas do sistema capitalista serviam para abastecer a grande demanda de mercado. De acordo com o filósofo Hebert Marcuse (1989), a sociedade passou a produzir em grande medida para suprir as necessidades materiais e mesmo culturais do homem. (1989, p. 277). Tanto status quanto consumo permanecem até os dias de hoje como valoreschave na sociedade pós-moderna, inclusive no setor de comunicação, tendo em vista que a própria cultura de mídia é difusora árdua desses valores. No objeto de análise desta pesquisa, essa característica pode ser observada em links associativos: Links Patrocinados e Shopping. O primeiro trata-se de empresas anunciantes que fazem sua propaganda na capa e nas editorias Brasil, Blogs – Opinião, Cultura, Educação e Ciência e Saúde. O segundo é publicidade, são ofertas de produtos eletrônicos que aparecem nas editorias: Mundo, Economia, Mundo Virtual e Multimídia. A repetição, característica máxima da cultura de massa, se faz presente também nos anúncios do Último Segundo. Ela ocorre de forma objetiva e direta, não ficando implícita nas manchetes, textos ou fotos. Fica muito claro o que é propaganda e o que não é. Se há uma câmera digital oferecida no link Shopping, fica evidente que aquilo 5 Retirado do site www.ultimosegundo.com.br

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se trata de um produto e nada tem a ver com o conteúdo da página. A própria palavra shopping já remete a compras.

Fonte: Retirado do Jornal Último Segundo do dia 03/09/07

Isso ocorre porque os anúncios atualmente são muito mais direcionados. A sociedade, para o autor, está na fase do consumo personalizado, que tenta a sedução pelo indivíduo. (2005. p. 10). Negroponte (1995) se mostra um visionário, pois, ainda na fase de desenvolvimento da Internet, já previa. “Se você está atrás de um carro novo, poderá assistir a comerciais de carros a semana inteira. Ademais, as fábricas de automóveis podem embutir informações local, regional e nacional”. (1995, p. 172). Se o internauta navega pela editoria Mundo Virtual do Último Segundo, ao menos um dos produtos do item Shopping será direcionado a ele; é o sistema de identificação que faz com que o indivíduo preste atenção ao marketing de determinado produto e efetue a compra.

Múltiplos Discursos Na Internet a fusão de meios comunicacionais, gera diversas formas discursivas e ocorre por meio da multimídia. “Desde o final da década de 1980, vivenciamos a popularização da palavra multimídia, tecnologia que engloba som, imagem e movimento e que ficou conhecida pelos CD-ROMs, capazes de reunir enciclopédias inteiras em um único disco óptico”. (FERRARI, 2006, p. 42). A multimídia aplicada à Internet permite ao usuário ter a mesma informação veiculada de diversas maneiras, texto, áudio, imagem e animação. Pinho (2003) acredita que a Internet reúne características de todas as outras mídias e junto ao jornalismo revolucionou o modo de distribuição das notícias. No Último Segundo são identificados como elementos multimídia o serviço de Podcasting – notícias veiculadas por áudio, US Multimídia, com galeria de fotos e vídeos, e o iG Celular – serviço de envio de notícias via telefonia móvel. Todos esses elementos apresentam a versatilidade da linguagem dentro da Internet e demonstram a variedade discursiva pós-moderna.

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Jornalismo Digital e pós-modernidade: uma análise do jornal Último Segundo

Fonte: Retirado do Jornal Último Segundo dia 03/09/07

Conglomerados Empresariais O Último Segundo faz parte do chamado Internet Group, composto pelo iG, iBest e Br Turbo, grupo pertencente à empresa especialista em telefonia Brasil Telecom. O portal iG apresenta diversas manchetes contendo links externos para o Último Segundo. De acordo com Pollyana Ferrari (2006), esse tipo de situação faz com que o internauta receba e absorva a mesma fonte de informação apenas com roupagem diferente. Por esse motivo, as fusões representam mais uma característica da pósmodernidade, que é a perda de autoria. As notícias não são mais exclusivas, muito pelo contrário, elas são em determinados casos exatamente as mesmas, o que gera uma uniformização do conteúdo jornalístico.

Estrutura e Linguagem Nesta fase da análise do jornal Último Segundo, destacam-se as características da linguagem e da arquitetura da informação, utilizando conceitos de vários autores.

Hipertexto Pierre Lévy define a hipertextualidade como uma tendência à inderterminação, pois abriga uma mistura entre as funções de leitura e escrita. O hipertexto opera a 108 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 97-114| 2° Semestre 2008


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virtualização do texto, ou seja, o texto se torna real a partir do momento em que está sendo utilizado. Para o autor, a função do hipertexto imita o raciocínio humano; uma palavra faz o indivíduo pensar em outra coisa, que lembra uma terceira e assim sucessivamente. “Funcionalmente, um hipertexto é um tipo de programa para a organização de conhecimentos ou dados, a aquisição de informações e a comunicação”. (LÉVY, 1995, p. 33). A hipertextualidade abre muitas possibilidades ao internauta, pois permite a ele fazer seu próprio caminho dentro da página de um site. André Manta (2002) divide o hipertexto em quatro subcritérios que são descritos e analisados no jornal digital. Descentralidade: capacidade de descentralizar a leitura daquela página. Extratextualidade: possibilita a complementação do assunto com textos de outros sites. Intertextualidade: complementa a leitura com textos do próprio site. Intratextualidade: links dentro do próprio texto que contém informações adicionais. No jornal Último Segundo, são utilizados três destes subcritérios: Intertextualidade, Intratextualidade e Extratextualidade. Como elemento de intertextualidade, aparece a seção intitulada Notícias Relacionadas. Nela, são abordadas diferentes matérias do site, que estão interligadas com o tema principal. Outro aspecto de intertextualidade se localiza no final da notícia com o link Leia mais sobre, serviço que busca todas as informações sobre o assunto já publicadas no site. É como uma biblioteca digital, no qual o usuário pode realizar a busca que mais lhe convém, por nome, data, localidade etc. Já a extratextualidade aparece com um link sempre no final da notícia. Esse recurso é ainda pouco utilizado pelo jornal. De 50 notícias avaliadas no dia 16/09/2007 apenas sete apresentavam esse elemento. Algumas das notícias do Último Segundo apresentam links dentro da matéria que complementam a informação do texto, o que caracteriza a intratextualidade.

Hipermídia ou Multimídia A linguagem hipertextual abriu espaço para a inserção de outros tipos de mídia num mesmo espaço. Pollyana Ferrari (2006) chama isso de hipermídia; ela acredita que a junção de vários recursos veio a partir das tecnologias multimídias dos anos 80, esse recurso ficou conhecido pelos CD-ROMs capazes de reunir enciclopédias inteiras em um único disco. No Último Segundo, os elementos multimídia são encontrados nas mais diversas formas em quase todas as notícias. São  galeria de imagens, notícias em áudio, podcasting, gráficos e vídeos.

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Arquitetura da Informação A arquitetura da Informação tem o objetivo de organizar padrões para uma melhor navegação dos usuários. Como a Internet é um emaranhado de informações que são atualizadas constantemente, tornou-se necessária a criação de padrões para facilitar a navegação dentro da interface. No jornalismo a distribuição e organização das informações são determinadas pelas peculiaridades da Internet. Para a análise do objeto usam-se as terminologias de Pinho (2003): interatividade, fisiologia, instantaneidade, dirigibilidade, qualificação, custos de produção e de veiculação, pessoalidade, acessibilidade e receptor ativo.

Interatividade A gama de possibilidades que um usuário encontra na web liga a palavra interatividade direta à tecnologia digital. Para Pierre Lévy (1999), o termo ressalta a participação ativa do beneficiado numa transação de informação. O diferencial da Internet está no fato de sua interatividade ser mais visível, podendo ocorrer nos fóruns de discussão, através do correio eletrônico, chats, blogs, newsletters, enquetes e até mesmo o simples ato de imprimir uma notícia ou recomendar para um amigo já é uma forma de interagir com o meio. Essas medidas proporcionam um caráter personificado, quebrando o padrão e a estrutura tradicional. (PINHO, 2003, p. 59, 78 e 145). O jornal Último Segundo trabalha com algumas formas de interatividade, pois apresenta a possibilidade de o internauta enviar as notícias por e-mail, imprimir e até mesmo comentar as matérias.

Fonte: Retirado do Jornal Último Segundo do dia 18/09/07

Outros elementos interativos que também fazem parte da página: newsletters, blogs, busca, minha notícias – feito exclusivamente por internautas, fale conosco e Fale com Políticos. Esta última é uma das editorias do jornal e permite ao usuário encaminhar perguntas e comentários a representantes públicos; o mesmo serviço possibilita acompanhar o ranking dos políticos que mais receberam perguntas e os que mais responderam, separando por categoria: presidente, governador, senador e deputado federal.

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Fisiologia Recomenda-se que os textos para a Internet sejam escritos em no máximo três blocos de informação (Pinho, 2003). Porém, o que se percebe que os textos das notícias do Último Segundo, como no exemplo da página abaixo, são muitas vezes inadequados, ou são muito curtos, com apenas um bloco ou muito longos, com até 12 blocos.

Fonte: Retirado do Jornal Último Segundo dia 17/09/07

Customização Os diversos sites existentes na rede vivem em constante disputa pela atenção do usuário. Avalia-se que atualmente existam mais de 1175688 endereços de sites, somente no Brasil6. Com o intuito de manter o usuário o máximo de tempo possível em suas páginas, os gerenciadores de conteúdo passaram a estudar cada movimento do internauta e apostaram na customização ou personalização dentro do site. Segundo Pollyana Ferrari (2006), o leitor se torna escritor quando reconfigura a informação de acordo com suas preferências e hábitos de leitura. No site do Último Segundo, é utilizado um recurso chamado RSS – Really Simple Syndication que nada mais é do que um centralizador de informação. O usuário seleciona os assuntos que mais lhe interessam e começa a receber apenas notícias relacionadas a ele. Na página do Portal iG7, a definição é a seguinte: “RSS é receber mensagem direto na tela do seu computador (ou celular) quando um de seus sites preferidos publica novidade. Publicou, tá no seu computador”. Isso mostra como a tendência da Internet é personalizar cada vez mais a forma como as notícias são divulgadas ao usuário. 6 Retirado do site http://www.cetic.br/dominios/index.htm Acesso em: 17 set. 2007 7 Retirado do site http://www.ig.com.br/rss/ Acesso em: 17 set. 2007

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Jornalismo Digital e pós-modernidade: uma análise do jornal Último Segundo

Usabilidade De acordo com Pinho (2003), um site com uma boa arquitetura da informação deverá fornecer ao usuário o que ele está buscando em no máximo três cliques. O conteúdo também deverá ser mais objetivo, seguindo duas regras básicas: 1.ª) Devese colocar a conclusão no começo e 2.ª) escrever apenas 25% do texto em relação ao que é normalmente escrito no papel. (PINHO, 2003, p. 135 e 142). O site do Último Segundo apresenta aspectos positivos e negativos de usabilidade, assim como vários outros produtos da Internet. Não se optou para esta pesquisa por realizar questionários para avaliar o grau de usabilidade do jornal, mas apenas por analisá-lo com base nos autores que escrevem sobre o assunto. Seguindo as regras de usabilidade de Pinho (2003), o site não se classifica bem nessa área. Como são dois os elementos necessários, segundo o autor, pode-se dizer que o jornal só cumpre com 50% sua usabilidade. A primeira das regras diz que a conclusão do texto deve estar no começo. Isso pode ser constatado em todas as notícias do site. Já a segunda regra diz que os textos devem ter apenas 25% do tamanho do que é publicado no jornal impresso. Isso não é verificado na maioria das matérias, como já foi constatado no item Fisiologia do meio: ou as notícias são curtas demasiadamente, ou são extremamente longas.

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Cleide Luciane Antoniutti - Vanessa Fernandes Santana

Conclusões É importante destacar que os avanços na área de comunicação não ocorreram por acaso. Tudo foi, e ainda é, condicionado por fatores externos, como a política e a economia, por exemplo. A pós-modernidade se mostrou um período propício a grandes mudanças, uma delas foi a Revolução Tecnológica que impulsionou avanços incalculáveis nas áreas de comunicação. A Internet é fruto desse período e representa, com suas peculiaridades, as características da sociedade pós-moderna. Por essa razão, o estudo sobre essa mídia é tão importante para o jornalismo, uma vez que o jornalismo digital ocupa cada vez mais espaço entre as mídias de comunicação. O jornalismo digital muda não somente a forma de produção da notícia, mas as relações sociais, porque proporciona ao internauta condições especiais de interações. A análise do jornal digital Último Segundo demonstra que, por mais que o produto seja uma conseqüência da pós-modernidade e tenha sido desenvolvido exclusivamente para a Internet, muitas características desse meio ainda não estão sendo exploradas. Porém, as características principais da Internet, como a hipertextualidade, hipermídia e interatividade, são bem utilizadas pelo jornal. Fazer jornalismo digital sem explorar todos os recursos do hiperlink seria como fazer jornal de papel e remeter o leitor à enciclopédia sempre que precisasse consultar uma base de dados. O acesso amplo e facilitado ao hipertexto ( que inclui links e sites interessantes sobre o assunto tratado) estimulará a interatividade do internauta que poderá emitir constante feedback, enquanto navega, através de e-mails para os jornalistas, para as fontes citadas, para outros usuários, inclusive redirecionando a mensagem ou utilizando chat-room. Dessa forma, conclui-se que o mundo de possibilidades da Internet não está aí para ser ignorado, mas para ser conhecido, aprendido, utilizado, dominado. No caso deste trabalho, buscou-se conhecer o potencial da rede no que se refere ao jornalismo digital. Aprofundar estudos sobre essa nova realidade significa tentar compreender os novos paradigmas presentes no mundo da produção, emissão e recepção do discurso jornalístico.

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Jornalismo Digital e pós-modernidade: uma análise do jornal Último Segundo

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Claro Jansson: Esboço de Interpretação Sobre a Trajetória de um Indivíduo e de sua Conversão à Profissão de Fotógrafo1 Rafael Ginane Bezerra2

Universidade Positivo

Resumo Tendo como referência as noções de projeto, campo de possibilidades e metamorfose, o presente artigo discute a trajetória de Claro Jansson. Fotógrafo de origem sueca que viveu no Brasil entre 1891 e 1954, este personagem é responsável por um extenso trabalho de documentação fotográfica. Registrou, entre outros temas marcantes, episódios relacionados à Guerra do Contestado e às atividades da Southern Brazil Lumber & Colonization Company. A despeito da relevância destes registros, constata-se a predominância do seu uso como mera fonte ilustrativa. A partir da análise de parte de sua atividade epistolar associada a uma sequência de 122 imagens, pretende-se demonstrar que a trajetória do fotógrafo representa condição incontornável para restituir às suas fotografias o efetivo valor de documentos visuais. Palavras-chave: Claro Jansson; Trajetória; Fotografia; Documentos visuais.

Abstract Taking as a background Norbert Elias’ processual sociology, this article discusses the trajectory of Claro Jansson. Swedish photographer who lived in Brazil between 1891 and 1954, this individual was responsible for an extensive work of photographic documentation. Among other important subjects, he registered episodes related to the Contestado War and the activities of the Southern Brazil Lumber & Colonization Company. Despite the great relevance of these records, it is inferred that its use has been predominantly illustrative. Through the analysis of part of his epistolary activity, the author intends to demonstrate that the photographer’s trajectory is conditional upon attributing legibility to his photographs. Keywords: Claro Jansson, Photography, Trajectory, Legibility.

1 Trabalho apresentado ao NP Fotografia: Comunicação e Cultura do VIII Encontro dos Núcleos de Pesquisa em Comunicação, evento componente do XXXI Congresso Brasileiro de Ciência da Comunicação. 2 Possui graduação em Ciências Sociais, mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná. Professor de Sociologia e Antropologia na Universidade Positivo.


Claro Jansson: Esboço de Interpretação Sobre a Trajetória de um Indivíduo e de sua Conversão à Profissão de Fotógrafo

Introdução Realizada na estação ferroviária de Itararé em 1930, a fotografia de Getúlio Vargas entre líderes e soldados do movimento que pôs fim à República Velha é, possivelmente, uma das imagens mais conhecidas da história política brasileira. (Fig. 1). De costume militar, com a mão direita segurando um charuto de encontro aos lábios e ocupando posição central no enquadramento, o então recém-aclamado Presidente da República retarda o início do seu discurso. Consequentemente, cria um momento de expectação. Eis o ensejo para que o fotógrafo dispare o obturador. Este mesmo fotógrafo repetirá o ato pelo menos outras cinqüenta e nove vezes. Assim, comporá um álbum com sessenta fotografias que documentam a movimentação de tropas e a presença de lideranças políticas (tanto legalistas como revolucionárias), personagens que fazem de Itararé, na rota da ferrovia Sorocabana, palco de uma famosa “batalha que não houve”. Mas a propósito, quem é o fotógrafo? De maneira indireta, responde-se que se trata do mesmo fotógrafo que documentou, entre 1906 e 1910, a lida com a erva-mate, o seu beneficiamento e transporte para comercialização, na região de fronteira entre o Brasil e a Argentina.

Fig. 1 – Getúlio Vargas na estação ferroviária de Itararé durante a Revolução de 1930. Negativo de vidro – Estereoscópica / 4x4,5 cm

Documentou também momentos emblemáticos do episódio conhecido como Guerra do Contestado, na divisa dos estados do Paraná e Santa Catarina, entre 1912 e 1916. Nessa mesma região, documentou as atividades da Southern Brazil

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Lumber & Colonization Company, gigantesco empreendimento pertencente ao grupo de capitalistas capitaneados pelo empresário norte-americano Percival Farquhar. Posteriormente, deslocando-se para a divisa dos estados do Paraná e São Paulo, documentou, além dos já citados episódios ligados à Revolução de 1930, outros que dizem respeito à Revolução Constitucionalista de 1932. De maneira direta, responde-se que o fotógrafo é Claro Jansson, profissional responsável por um extenso trabalho de documentação sobre episódios decisivos para a história brasileira das primeiras décadas do século XX. Curiosamente, a extensão e a relevância do seu legado fotográfico são inversamente proporcionais ao reconhecimento de sua autoria. Este descompasso, por sua vez, sugere um precioso tema para pesquisa e reflexão. Por conta disso, este pequeno artigo propõe-se a analisar a trajetória deste personagem, refletindo particularmente sobre a sua conversão à profissão de fotógrafo. Em seguida, propõe-se a analisar as condições sociais que marcaram a produção de duas séries documentais ligadas pontualmente à Guerra do Contestado e ao funcionamento da Southern Brazil Lumber & Colonization Company. A este duplo propósito corresponde um duplo pressuposto. De um lado, pretende-se sustentar que a trajetória de Claro Jansson, justamente por conta daquilo que possui de peculiar, pode ser valiosa para ampliar a nossa compreensão sobre um momento específico da expansão da prática fotográfica no Brasil. De outro, pretende-se demonstrar que esta mesma trajetória é incontornável para restituir às fotografias que originou, para além da mera função ilustrativa, o peso efetivo de documentos visuais. A análise exposta a seguir tem como base empírica dois corpos documentais distintos. De origem sueca, Claro Jansson chegou ao Brasil em 1891. Um ano depois, de acordo com os registros encontrados, deu início a uma atividade epistolar com sua irmã mais velha que havia permanecido na Suécia, Ana Jansson. Esta atividade estendeu-se até 1953 e dela foram preservadas trinta e cinco cartas escritas por ele3. Para este artigo foram selecionadas dez cartas que descrevem os primeiros anos de Claro no Brasil, suas impressões do novo país, suas estratégias para garantir a sobrevivência, sua permanência entre os ervateiros na província argentina de Missiones e o momento em que inicia suas atividades como fotógrafo. Quanto às séries de fotografias, foram selecionadas quarenta e nove imagens relacionadas à Guerra do Contestado e setenta e três relacionadas ao funcionamento da Southern Brazil Lumber & Colonization Company.4 Ainda no que diz respeito a estas notas introdutórias, é importante salientar que a riqueza dos documentos relacionados à trajetória de Claro Jansson, bem como a extensão do seu legado fotográfico, não se esgota nos estreitos limites de um pequeno artigo como este. Portanto, não representa mera figura de retórica o reconhecimento de que os resultados de pesquisa aqui apresentados são necessariamente parciais e provisórios. 3 O acesso à correspondência de Claro Jansson com sua irmã foi gentilmente disponibilizado por sua filha Dorothy Jansson Moretti. 4 Estas imagens foram gentilmente cedidas pelo neto de Claro Jansson, Paulo Moretti.

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Claro Jansson: Esboço de Interpretação Sobre a Trajetória de um Indivíduo e de sua Conversão à Profissão de Fotógrafo

Pequena nota explicativa sobre a noção de trajetória Ao esboçar uma tentativa de interpretação sociológica da vida de Mozart, Norbert Elias (1995) ressalta que o conhecimento dos anseios guardados por um indivíduo constitui o pressuposto para a compreensão de sua trajetória. Esta atitude não significa despir uma experiência singular de sua subjetividade, mergulhando-a na objetividade de dados e categorias relacionados ao contexto social. Ao contrário, ela visa tornar a situação humana deste indivíduo mais legível. Uma vez que estes anseios são submetidos à prova da experiência e que, ao mesmo tempo, são formulados e têm a medida de sua concretização associada ao convívio com outros indivíduos, é legítimo afirmar que a análise de uma trajetória repousa na complexa relação entre o indivíduo e os diferentes espaços sociais por ele ocupados. No caso de Mozart, Elias tenta compreender por que um indivíduo com capacidade criadora genial chegou aos seus últimos dias pauperizado, abandonado pela mulher amada, desprezado pelos seus contemporâneos e guardando a sensação de que havia fracassado. Criticando os ensaios biográficos que enfrentaram este aparente paradoxo separando o homem genial do homem incapaz de manter uma vida social estável, Elias confronta o profundo anseio que Mozart tinha por reconhecimento com as características da sociedade de corte em que vivia. Consciente de sua genialidade ele ansiava por consagração. Por outro lado, seu espaço social, marcado pela hierarquia aristocrática, o enquadrava como um simples artesão. Eis o choque entre os anseios e aquilo que é estabelecido como possível em um determinado contexto. Dito de outra forma, Mozart desejou aquilo que estava fora do seu alcance. Daí resulta a faceta trágica de sua vida. Esta interpretação mobiliza os conceitos de trajetória e configuração. Articulados à leitura mais ampla refletida na produção intelectual de Norbert Elias, eles demonstram a eficácia da explicação sociológica para a análise de uma experiência singular. Não se trata aqui da construção de uma narrativa histórica ou da identificação dos dados fundamentais à constituição de uma biografia. Trata-se, antes disso, da tentativa de se elaborar um modelo teórico no qual a configuração associada a um indivíduo torna-se passível de compreensão. Neste modelo, a configuração evoca os vínculos que um indivíduo forma com o seu espaço social. Estes vínculos, por sua vez, evidenciam os limites e as condições para a concretização de anseios individuais. Assim, torna-se possível verificar o que um sujeito é ou não capaz de fazer, quais os tipos de coerções objetivas voltadas contra ele e a maneira como se comporta em relação a elas. Algo que resta ausente no modelo de Elias, no entanto, diz respeito à possibilidade de alternação, elmento que marca a trajetória individual em meio às sociedades complexas. Esta possibilidade, por sua vez, é particularmente refletida por Gilberto Velho (1981 e 1994). Tendo como eixo central as noções de projeto (equivalente a anseio), campo de possibilidades (equivalente à configuração) e metamorfose, o autor elabora um corpo teórico que permite tornar legível o tema da mudança individual dentro de um quadro sociocultural. 118 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 115-128| 2° Semestre 2008


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Partindo da oposição entre sociedades tradicionais e sociedades complexas, este corpo teórico propõe que estas últimas são caracterizadas por uma progressiva emancipação dos indivíduos em relação à tradição. Isto, por sua vez, resulta num estilo de vida marcado pela maleabilidade e pela fluidez. Dito de outra forma, a experiência dos indivíduos nas sociedades complexas torna instável e dinâmica a lógica de produção das identidades. É por conta disso que a trajetória individual não resulta de um sentido teleológico pré-estabelecido. Ao contrário, ela resulta de uma permanente relação na qual o projeto representa o conjunto de deliberações conscientes que o indivíduo é capaz de estabelecer a partir das circunstâncias contidas no campo de possibilidades em que está inserido. Assim, mudanças no campo de possibilidades implicam a plausibilidade de mudanças no próprio projeto individual. Disso resulta que este projeto acaba por ser dinâmico, objeto de permanentes reelaborações, capaz de conferir novos sentidos e significados à trajetória individual, daí a referência à metamorfose. Estes apontamentos baseados nos trabalhos de Norbert Elias e Gilberto Velho são pertinentes para a abordagem da trajetória de Claro Jansson e para se compreender a sua conversão à profissão de fotógrafo.

Sobre a trajetória de Claro Jansson e sua conversão à profissão de fotógrafo Analisando o movimento migratório de suecos em direção ao Brasil entre 1850 e 1940, Göran Friborg (1998) identifica três períodos com levas associadas a contextos e motivações distintos: o primeiro ocorreu entre 1868 e 1873 e esteve associado aos anos descritos como de grande miséria para uma parcela significativa da população sueca; o segundo ocorreu entre 1886 e 1891 e esteve associado ao aumento do desemprego e a drásticas reduções salariais seguidas por violentas manifestações sindicais; finalmente, o terceiro ocorreu entre 1909 e 1911 e não esteve associado a um contexto de crise aguda (reuniu aproximadamente 700 indivíduos, dos quais 600 receberam ajuda do governo sueco para retornar à pátria de origem). De acordo com o autor, o Brasil representou um destino secundário para os migrantes suecos, que tinham a América do Norte como sua principal opção. Além disso, ele comenta que predominou entre estes migrantes a tentativa de restabelecer no Brasil o mesmo tipo de atividade profissional exercido no país de origem. Assim, muitos chegaram a trabalhar com a terra, mas logo em seguida, garantidas as condições de subsistência, mudavam-se para os locais onde podiam voltar ao seu trabalho de formação, o que resultou num forte movimento de dispersão. Por conta disso, formaram pouquíssimos núcleos de colonização. O mais comum era que os migrantes desta origem se aproximassem dos núcleos formados por migrantes de outras nacionalidades. Deixando a Suécia, Claro Jansson chegou ao Brasil em 1891 quando tinha quatorze anos. Portanto, sua viagem corresponde ao segundo movimento descrito por Friborg. Veio ao lado do pai, da madrasta e de mais quatro irmãos, compartilhando com a família o projeto de reiniciar a vida na América. A princípio, o seu destino era a COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 115-128| 2° Semestre 2008 | 119


Claro Jansson: Esboço de Interpretação Sobre a Trajetória de um Indivíduo e de sua Conversão à Profissão de Fotógrafo

colônia de Oberá, na divisa da Argentina com o Brasil. No entanto, por conta de acertos estabelecidos durante a própria viagem de travessia, seu pai, ceramista de profissão, optou por aceitar o convite de um fazendeiro brasileiro e participar da construção de uma olaria em Jaguariaíva, cidade localizada ao norte do estado do Paraná. Nessa cidade, sua perspectiva inicial de subsistência repousava no trabalho com o pai na produção de tijolos. Como este negócio levou algum tempo para vingar, foi obrigado a separar-se da família, viajando pelo interior do estado em busca de alternativas para ganhar a vida. Acompanhando tropeiros, passou pela Lapa, onde trabalhou como uma espécie de criado particular para o Barão dos Campos Gerais. Dominando apenas rudimentos da língua portuguesa, presenciou o episódio conhecido como Cerco da Lapa e, no contexto da Revolução Federalista, foi compulsoriamente alistado para servir as forças da República. Com uma compreensão limitada do que estava acontecendo ao seu redor, após dois dias de campanha, desertou, regressando à companhia da família em Jaguariaíva. Cogitou mudar-se para os Estados Unidos, mas esta opção não era compatível com o seu campo de possibilidades, visto que não possuía os recursos necessários para uma viagem tão dispendiosa. Desgarrou da família uma segunda vez e fixou-se em Porto União da Vitória, um entreposto comercial às margens do Rio Iguaçu que experimentava vigoroso crescimento econômico. Nessa cidade, associou-se a um rico tropeiro com negócios que se estendiam aos campos de Palmas e à província de Missiones, na Argentina. Embora não fosse um homem ilustrado, o fato de ser alfabetizado e capacitado a aprender rapidamente diferentes ofícios lhe possibilitou experimentar um nítido processo de ascensão social. Coordenou a construção de uma grande olaria, atuou como carpinteiro e trabalhou nas balsas que transportavam mercadorias pelo Iguaçu. Dessa forma, encerrado o ano de 1895, este indivíduo que mal completara dezenove anos, estando há quatro anos no Brasil, havia concretizado através de sua experiência pessoal o projeto de vida estabelecido pela família no momento da migração. Nessa experiência, é legível o fato de que o personagem adaptou-se a um comportamento itinerante. Se a capacidade de ganhar a vida em Porto União da Vitória já estava dada, opções percebidas como ainda mais favoráveis ampliavam o seu campo de possibilidades. É assim que ele ruma para a fronteira entre Brasil e Argentina, onde passa a negociar com o transporte de madeira e erva-mate pelo rio Uruguai. Embora permaneça vinculado a este trabalho durante aproximadamente dez anos, a dinâmica desta atividade o obriga a constantes deslocamentos. Itinerante e repleta de deslocamentos, sua trajetória guarda a característica de mobilidade até que em 1906 ele inicia incipientes tentativas de registrar fotograficamente suas andanças. Aprende os elementos básicos do processo fotográfico de maneira autodidata e, através de um importador localizado em Buenos Aires, adquire um aparelho Voiglander. Nesse momento, esboça os primeiros passos de uma carreira que se estenderá até 1954. Até a sua conversão à profissão de fotógrafo, o conteúdo de sua atividade epistolar pode ser dividido em quatro chaves de leitura bastante recorrentes: a visão 120 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 115-128| 2° Semestre 2008


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de um mundo novo e exótico que precisa ser detalhadamente descrito e materialmente documentado (são fartas as passagens que narram sua preocupação em enviar à irmã sementes, plantas e pequenos objetos que refletem a sua vida cotidiana); a identificação de infinitas possibilidades que fazem do Brasil um país incomparavelmente melhor do que a Suécia, razão pela qual ele insiste para que a irmã venha ao seu encontro (com muita frequência ele solicita o envio de livros relacionados ao ensino de algum tipo de prática, pois na sua percepção, o segredo para fazer a vida no Brasil consiste em dominar uma atividade que reúna um mínimo de destreza manual ou um mínimo de sofisticação artesanal); a preocupação em ser percebido como alguém que conseguiu realizar com êxito o seu projeto de vida, assumindo a auto-imagem de um indivíduo bem-sucedido; e finalmente, o temor de ser esquecido pela irmã, pelos amigos deixados na Suécia e pelo restante da família. Nitidamente, o início de sua prática fotográfica está associado a um duplo objetivo: ele deseja possuir imagens de suas experiências, mas mais importante do que isso, ele deseja poder enviar imagens para os entes queridos que estão distantes. Assim, é possível afirmar que com as fotografias do seu cotidiano, Claro Jansson acrescentará uma dimensão visual à prática epistolar. Em várias passagens ele comenta sobre as fotografias que anexa às correspondências para ilustrar aquilo que está sendo narrado. Portanto, as chaves de leitura indicadas acima são fundamentais para se identificar um certo sentido à sua aproximação da prática fotográfica. Ao iniciar uma minuciosa documentação daquilo que suas palavras tratavam como exótico, por exemplo, a fotografia não desempenhará a função de espelho do real. Ao contrário, tal como propõe Philipe Dubois (1993) ao discutir a natureza indiciária deste meio, ela irá operar com a lógica metonímica, permitindo que a família, mais precisamente a irmã, disponha de um vínculo de proximidade com o mundo vivido por Jansson. Da mesma forma, é curioso observar que suas fotografias pessoais são associadas à possibilidade de atestar sua presença. Reconhecendo sua falta de perícia para confeccionar imagens nítidas ele ressalta que, pelo menos, elas mostram que ele está ali e que as pessoas poderão ter uma idéia, ainda que vaga, de como ele é e onde ele vive. Destacadas desta relação mais direta com a atividade epistolar, por outro lado, observa-se que suas fotografias integram um estimado conjunto de documentos pessoais que contribuem para que este indivíduo componha uma narrativa coerente de sua própria trajetória itinerante. É possível afirmar que no intervalo entre 1906 e 1910 as imagens inicialmente desprovidas da nitidez que desejava cederão lugar a imagens que refletem um domínio técnico mais apurado. Por conta disso, os registros do seu vínculo de trabalho com a economia da erva-mate, na fronteira entre Brasil e Argentina, evidencia uma alteração no seu campo de possibilidades. Manifestando o interesse em voltar a viver no Brasil para ter uma vida mais estável, ele poderá fazê-lo através da conversão da prática fotográfica em atividade que lhe proporciona a subsistência.

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Sobre as fotografias relacionadas à Guerra do Contestado e à Southern Brazil Lumber & Colonization Company Entre 1910 e 1912, Claro Jansson retornará ao Brasil para ganhar a vida como fotógrafo profissional. Fixando-se novamente em Porto União da Vitória, passará a confeccionar retratos e vistas. Será seu o primeiro estúdio fotográfico da região. Escolhe essa cidade por conta da conjugação de dois fatores principais: os vínculos sociais que já havia criado em sua passagem anterior e a iminente conclusão de um trecho da ferrovia São Paulo – Rio Grande. Combinados, estes dois fatores apontavam para a possibilidade de se manter uma clientela que tornaria estável sua nova atividade profissional. Em carta à irmã está o registro de que sua escolha fora acertada. Curiosamente, esta mesma ferrovia que contribuiu para a formação de uma clientela concorrerá para precipitar os episódios que ampliarão o seu campo de atuação como fotógrafo. A respeito desse tema, a historiografia é farta. Sabe-se que a partir de 1906 a ferrovia São Paulo – Rio Grande passou a ser uma concessão da Brazil Railway Company, empresa comandada pelo famoso empresário norte-americano Percival Farquhar. Criando também uma subsidiária para explorar a madeira e promover a colonização nas terras marginais à ferrovia – a Southern Brazil Lumber & Colonization Company – a Brazil Railway foi responsável por um violento processo de expropriação de terras. Eis um dos principais fatores associados à eclosão do episódio conhecido como Guerra do Contestado. A discussão das causas, desdobramentos e interpretações a respeito desse episódio escapa aos limites deste artigo. Dois eventos pontuais, no entanto, demandam atenção para contextualizar a documentação fotográfica produzida por Claro Jansson. Paulo Pinheiro Machado (2001) identifica uma correlação entre as expropriações promovidas pela Brazil Railway e a formação de um grupo de sertanejos ao redor da figura messiânica do monge José Maria. Inicialmente localizado em Santa Catarina, este grupo foi pressionado a deslocar-se e acabou atravessando os limites do Paraná. Ocorre que isso aconteceu justamente num momento em que os limites entre estes dois estados constituíam objeto de acalorado litígio. Assim, ao ser avisado sobre a entrada deste grupo naquilo que considerava seu território, o governo do Paraná enviou à região uma tropa do seu regimento de segurança comandada pelo Coronel João Gualberto Gomes de Sá. Este personagem é o objeto de uma das sequências documentais produzidas por Claro Jansson sobre a Guerra do Contestado. Por conta de suas pretensões políticas, era do interesse do Coronel João Gualberto a produção de um testemunho com o objetivo de enaltecer a sua missão. Ao desembarcar na estação ferroviária de Porto União da Vitória, rumo ao local conhecido como “campos do Irani”, onde deveria dispersar o grupo de “fanáticos”, ele deparouse com o fotógrafo que poderia concretizar este objetivo. Da sequência de quarenta e nove fotografias selecionadas em relação à Guerra do Contestado, oito têm como tema a campanha deste personagem.

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Ao contrário do que o uso corriqueiro destas fotografias insinua, não se trata aqui de fotografia de guerra propriamente dita. Antes disso, trata-se da representação da estética do heroísmo personificado por um militar. Ao invés de instantâneos, as fotos são encomendadas e, portanto, negociadas. Não é a câmera do fotógrafo que se desloca para encontrar o tema. É este último que encena para aquela. (Fig. 2)

Fig. 2 – Coronel João Gualberto com as tropas da Força Pública do Paraná em Porto União da Vitória, 1912. Negativo de vidro / 9x12cm

Sabe-se que o combate ocorrido nos “campos de Irani” foi da ordem da carnificina. Dele restaram mortos tanto João Gualberto como José Maria. Portanto, a fotografia acima representa a última imagem do militar em vida. Da mesma forma, Claro Jansson irá registrar a primeira imagem do esquife que levou seu corpo para Curitiba. (Fig. 3) Nesse caso, as fotografias cumpriram com o papel que delas se esperava. Amplamente divulgadas na capital paranaense, em clima de comoção invulgar, elas concorreram para consagrar este militar pernambucano como um dos primeiros heróis paranaenses. Após a morte de João Gualberto, os conflitos relacionados ao Contestado aumentaram exponencialmente e sucessivas expedições militares foram derrotadas pelos sertanejos. Como uma segunda versão de Canudos o movimento passou a ganhar repercussão na mesma medida em que desmoralizava o exército.

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Claro Jansson: Esboço de Interpretação Sobre a Trajetória de um Indivíduo e de sua Conversão à Profissão de Fotógrafo

Fig. 3 – Esquife do Coronel João Gualberto em vagão na estação ferroviária de Porto União da Vitória, 1912. Negativo de vidro / 9x12cm

Reconhecendo sua incapacidade para restabelecer a ordem, os dois estados oficializaram um pedido de intervenção federal. Como resposta, em agosto de 1914, o então General Fernando Setembrino de Carvalho lançou a idéia de realizar uma efetiva campanha de guerra na região. Aqui se inicia o segundo evento relevante para contextualizar a documentação fotográfica de Claro Jansson. Como argumenta Rogério Rosa Rodrigues (2008), assim que estabeleceu o seu ponto de comando em Porto União da Vitória, Setembrino de Carvalho não apenas reuniu as condições para colocar em prática a estratégia de guerra. Além disso, procurou tomar as medidas necessárias para restituir a credibilidade do exército. Por conta disso, providenciou a elaboração de registros fotográficos para cobrir as operações. Estes registros foram posteriormente organizados num álbum contendo oitenta e sete imagens. Estas foram parcialmente incluídas no relatório final de campanha elaborado por Setembrino de Carvalho. Da mesma forma que as fotografias relacionadas a João Gualberto, as que documentam a campanha de Setembrino de Carvalho têm sido fartamente utilizadas como imagens da Guerra do Contestado. Paradoxalmente, servem tanto a publicações que comportam visões críticas em relação ao episódio como a outras que se alinham ao que poderia ser chamado de discurso oficial. Uma fatalidade do seu uso como mera ilustração: a imagem apenas acompanha de forma muda o sentido que lhe é atribuído através do texto escrito. Novamente depara-se com um caso de imagens negociadas. Sua autoria é de Claro

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Jansson. No entanto, o seu trabalho é encomendado para produzir conscientemente um determinado discurso sobre o conflito. É assim que ao abrir o seu relatório, Setembrino de Carvalho comenta: As fotografias que ilustram o presente relatório não foram aí incluídas para dar maior realce à exposição que ele encerra, senão precisamente com o fim de opor uma contra prova a acusações injustas assacadas contra o comandante das Forças em Operações no Contestado. O modo por que se apresenta a tropa em todos os serviços, perfeitamente fardada, equipada e convenientemente armada, como se verifica facilmente das fotografias, desmente de modo categórico a informação trazida à imprensa do Rio, de que os soldados andavam rotos e sem abrigo contra as intempéries. Elas representam também, juntamente com as instruções que seguem anexadas, documentos inestimáveis da organização dos abastecimentos, hospitais, etc., por onde se vê que o Exército entrou n´esta campanha com um aparelhamento perfeito, sendo tudo previsto e determinado em ordens preestabelecidas, na falta dos regulamentos essenciais a respeito (CARVALHO, 1916, p. 1).

Ou seja, as fotografias deveriam servir de testemunho para o discurso oficial, desautorizando, por conta da sua suposta objetividade, tudo aquilo que era dito em contrário. (Fig. 4). Nesse caso, no entanto, mais do que a estética do heroísmo encarnado pelos militares, encontra-se uma estética que valoriza elementos sintomaticamente caros à modernidade, tais como organização, disciplina e tecnologia.

Fig. 4 – Comboio de mantimentos das forças legais em Porto União da Vitória, 1915. Negativo de vidro / 9x12cm

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Claro Jansson: Esboço de Interpretação Sobre a Trajetória de um Indivíduo e de sua Conversão à Profissão de Fotógrafo

Como deve ter ficado evidente, há um intervalo de aproximadamente três anos entre as duas sequências de documentação. Nesse entremeio, a carreira de fotógrafo de Claro Jansson já estava consolidada. Principalmente porque nesse período ele foi contratado para documentar as atividades da Brazilian Lumber & Colonization Company. Estabelecida no município de Três Barras, Santa Catarina, essa serraria é considerada ainda hoje a maior que já funcionou em toda a América Latina. Mas de onde surge a motivação que origina este trabalho de documentação? Uma pequena digressão é necessária para responder a esta questão. A Lumber representava apenas um dos empreendimentos ligados ao imenso império de Percival Farquhar. Este empresário norte-americano iniciou suas atividades no Brasil em 1906 com o objetivo de construir uma temida ferrovia no complexo fluvial MadeiraMamoré. Tal como afirma Charles Gauld (2006), autor responsável por uma biografia de tipo hagiográfico sobre Farquhar, o empresário ambicionava concretizar uma obra considerada virtualmente impossível que lhe servisse como uma espécie de cartão de visitas. Com isto, ele seria capaz de entrar nos mercados de capital mais afluentes, o que possibilitaria a viabilização de inúmeros outros empreendimentos. Consciente do caráter épico da obra, contratou em Nova York o fotógrafo Dana B. Merrill para documentar o seu andamento. Com os primeiros resultados, percebeu que a um só tempo poderia utilizar as fotografias para documentar a sua ousadia incomparável, para prestar contas aos financiadores que jamais veriam materialmente o próprio investimento e para contradizer as abundantes e generalizadas críticas que recebia. Fez da fotografia um componente de inventário ilustrado para o controle capitalista. Ao mesmo tempo, converteu-a em fiel testemunha de seu ímpeto modernizador. Retomando a trajetória de Claro Jansson, agora é possível identificar a motivação que está na origem do seu trabalho fotográfico sobre a Lumber. Ele documentou os pinheirais expropriados pela empresa, o trabalho de derrubada de árvores, o seu transporte até o ponto de beneficiamento, os pátios para secagem de madeira, o cotidiano dos operários, as instalações físicas e toda a sorte de maquinaria que pôs o colosso em funcionamento. A sequência de imagens sobre este tema é vasta e não pode ser adequadamente trabalhada aqui. Por conta disso, apresenta-se apenas uma imagem singular com o objetivo de indicar a escala do assunto sendo documentado por Claro Jansson. (Fig. 5)

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Fig. 5 – Depósito da serraria Lumber, Três Barras. Negativo de vidro / 13x18cm

Considerações finais É pertinente afirmar que a trajetória de Claro Jansson refletiu o extenso processo de modernização que caracterizou a região sul do Brasil nas primeiras décadas do século XX num duplo sentido. De um lado ela foi marcada pelos dedobramentos desse processo que incidiram sobre o seu próprio campo de possibilidades e interagiram com sua capacidade para formular seu próprios projetos. De outro, ela converteu algumas de suas manifestações, tais como os episódios relacionados ao Contestado e ao funcionamento da Lumber, em imagens fotográficas. Essas imagens têm sido recorrentemente utilizadas com função ilustrativa, oferecendo um simples suporte visual para informações levantadas a partir de outras fontes. Por conta disso, retomar a trajetória que informa as condições de sua autoria representa uma possibilidade de convertê-las em efetivos documentos visuais.

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Claro Jansson: Esboço de Interpretação Sobre a Trajetória de um Indivíduo e de sua Conversão à Profissão de Fotógrafo

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CINEMA LATINO NA SALA DE AULA Solange Straube Stecz1

Universidade Positivo

Resumo Observamos entre os alunos de Jornalismo a falta de informação e de pensamento crítico sobre as cinematografias latino-americanas. Para eles, são cinematografias inexistentes. Preencher esta lacuna, ampliar os conhecimentos gerais dos alunos foram os objetivos da inclusão das temáticas: cinema brasileiro e latino nos conteúdos programáticos da disciplina de Cinema do curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Este artigo traça um rápido painel das principais teorias de cinema na América Latina, nos anos 60/70 desenvolvidas por jovens realizadores que transformaram a forma de fazer cinema em seus países. Palavras-chave: Ensino de Cinema, Cinematografias Latino-Americanas, Processos Criativos

Abstract We did observe that journalist student have a lack of information and critical thinking about the cinema in Latin America. Fill this gap, enlarge the general knowledge of students were the goals of inclusion of themes: Brazilian and Latin cinema on programmatic content in the discipline of cinema of the course of journalism at the University Positive. This article shows quick panel of the main theories of cinema in Latin America, developed by young directors who chosed in the 60/70 years the form of making films on the continent. Keywords: Teaching of Cinema, Cinema in Latin American, Creative Cases

1 Professora da disciplina de Cinema do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Jornalista. Mestre em História Social pela UFPR - solan77@terra.com.br


CINEMA LATINO NA SALA DE AULA

CINEMA LATINO NA SALA DE AULA

Solange Straube Stecz Para vocês, o cinema é um espetáculo Para mim, é quase uma concepção do mundo. O cinema é veículo do movimento. O cinema é renovador da literatura. O cinema é destruidor da estética. O cinema é intrepidez. O cinema é esportivo O cinema é difusor de idéias. Vladimir Maiakovski (Kino-Phot, agosto de 1022)

Primeiro o silêncio, a surpresa diante da pergunta sobre cinema latinoamericano. Aos poucos, alguns se arriscam e citam : Filho da Noiva (Argentina,2001) de Juan José Campanella , Como água para chocolate (México,1993), Morango e Chocolate (Cuba, México, Espanha,1993), de Juan Carlos Tabío, e Tomás Gutiérrez Alea. Os títulos, em geral, param por aí. A realidade é quase a mesma para o cinema brasileiro, também latino-americano é bom que se diga. Aí Tropa de Elite (Brasil,2007) José Padilha e Cidade de Deus(Brasil,2002), Fernando Meirelles, saem na frente em todas as turmas de cinema do curso de Jornalismo. Alguns, mais raros, citam Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, este associado à frase “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”, como sinônimo de um processo de trabalho sem planejamento. Desconhecem o rigor teórico e se espantam ao saber da construção minuciosa de seus roteiros e de seus filmes. Poucos ouviram falar de Limite (Brasil,1930),Mário Peixoto de Ganga Bruta (Brasil, 19 ) Humberto Mauro, da Escola de Santa Fé (Argentina), do Grupo Ukamau (Bolívia), da estética da fome, de um cinema imperfeito ou de um cinema junto ao povo. Poucos vão além do cinema espetáculo para conhecer o cinema que renova, que pensa, que reflete a realidade para transformá-la A inclusão do estudo das cinematografias latino-americanas, portanto, ultrapassa a questão dos conteúdos programáticos. É uma necessidade. Observamos entre os alunos de Jornalismo a falta de informação e de pensamento crítico sobre as cinematografias latino-americanas. Para eles, são cinematografias inexistentes. Preencher esta lacuna, ampliar os conhecimentos gerais dos alunos foram os objetivos da inclusão das temáticas: cinema brasileiro e latino nos conteúdos programáticos da disciplina de Cinema do curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Este artigo traça um rápido painel das principais teorias de cinema na América Latina, nos anos 60/70 desenvolvidas por jovens realizadores que transformaram a forma de fazer cinema em seus países. 130 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 129-140| 2° Semestre 2008


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O discurso cinematográfico produzido pela linguagem da imagem em movimento se transforma em objeto de outros discursos que possibilitam aos alunos de Jornalismo saírem da condição de simples espectadores para vivenciarem experiências culturais além da análise estética. Da afirmação de Paulo Emilio Salles Gomes “Não somos europeus nem americanos -do-norte, mas destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro.” (1996, p.77), tiramos a lição de que educar é abrir os olhos, é mostrar a saída da condição de simples espectador, indicar o universo audiovisual que existe além do cinema entretenimento e que permite a reflexão sobre a realidade que nos cerca. Reflexão é a palavra-chave quando entram em classe as histórias de jovens realizadores do Brasil, Chile, Argentina, México, Bolívia, que no começo dos anos sessenta “ perderam o respeito religioso pelo cinema e sem pedir licença para entrar no sagrado universo, pegaram suas câmeras para pensar a experiência de ver e fazer filmes na América Latina e/ou pensar a América Latina na experiência de fazer filmes” (AVELLAR,1995, p. 1).

PRIMÓRDIOS Primeiro a surpresa: o cinema na América Latina chegou bem cedo. No Rio de Janeiro, uma sala da Rua do Ouvidor exibia em 1896 filmes chegados da Europa. Em 1898, Afonso Segreto, teria filmado a Baía da Guanabara e no mesmo ano outras tomadas de acontecimentos sociais e políticos do Rio de Janeiro. Os estudos de Jorge Capellaro (1996) afirmam que em 1897 o empresário italiano Vittorio di Maio realizou exibições em Petrópolis, no Teatro Cassino-Fluminense da “última maravilha e grande descoberta” conforme anunciado na Gazeta de Petrópolis, que na programação incluía a exibição de “quatro filmetes produzidos no Brasil”, nos quais o público veria uma artista no trapézio do Politeama, um bailado de crianças num colégio do Andaraí, o ponto terminal de bondes de Botafogo – com a subida e descida de passageiros – e a chegada de um trem na estação de Petrópolis. Estava, assim, antecipada a data de nascimento do cinema brasileiro. Até 1907 as filmagens registradas pelo país tratam de acontecimentos oficiais ou da paisagem urbana. O filme de ficção, ou “filme posado”, apareceu em 1908, no Rio de Janeiro, com “Os estranguladores” de Antonio Leal e “Nhô Anastácio chegou de viagem” de Júlio Ferrez. Em Curitiba, as primeiras exibições aconteceram em 1897, nos parques de variedades e teatros da cidades. Trazida por companhias ambulantes a novidade rapidamente se instala e, em 1903, José Fillipi, da Companhia Bioscope Inglês, registra “uma passeata realizada nesta capital, por ocasião das festas do centenário de Duque de Caxias”. Quatro anos mais tarde, Annibal Rocha Requião faz o primeiro filme paranaense “O desfile militar de 15 de novembro”. De 1907 a 1912 o pioneiro do cinema paranaense faria 300 filmes2, dos quais 2 Dados da pesquisa “ Referências sobre exibições e filmagens em Curitiba 1892/1930” COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 129-140| 2° Semestre 2008 | 131


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restam apenas dois ( Panorama de Curitiba e Carnaval em Curitiba, filmados em 1910 e 1912), que integram o acervo da Cinemateca de Curitiba. No Paraná as primeiras experiências de ficção são feitas por Guido Padovani “Rosalinda”(1950) e Arsênio Pabst “O Crime do Vossoroca”(1954), sendo que a visibilidade nacional da ficção paranaense só viria em 1960 com Lance Maior, de Sylvio Back. Na maioria dos países da América latina e Caribe, nos quais foram feitas pesquisas sobre filmagens e exibições no início do cinema, observa-se o padrão: filmes documentais, registros do cotidiano, ou vistas animadas seguidas de experiências de ficção na primeira década do século XX em praticamente todos os países da América Latina e Caribe. Na Argentina a primeira exibição de cinema, também com filmes de Lumière foi em 1896. A importação de equipamentos cinematográficos em 1897 possibilitou a realização do primeiro curta metragem “La bandera argentina”, de Eugênio Py, e primeiro filme de ficção “La revolución de mayo”, en 1910. No Uruguai, em 1898, Félix Olivier registrava “Carrera de bicicletas en el velódromo de Arroyo Seco” e em 1923 “Almas de la costa” de Juan Antonio Borges inaugura o cinema de ficção longa-metragem. No México o marco inaugural foi a exibição no Primeiro Salão Cinematográfico por Salvador Toscano Barragán, em 1896, também com filmes dos irmãos Lumière. Em 1898 Salvador Toscano realizou o primeiro filme de ficção mexicano, Don Juan Tenorio. Mas foi preciso esperar até 1907 para que Felipe Jesús Haro realizasse “El grito de Dolores o La independência de México” . Apesar de pouco estudado o cinema da América Central traz a mesma tendência: Na Guatemala, Nicarágua e Costa Rica há registros de festas religiosas, ritos e festas sociais com as primeiras projeções realizadas em salas de teatro. Em 1912 o curta metragem :“El agente 13”, de Alberto de la Riva e “El hijo del patrón” (1915), filme não-concluído de Adolfo Herbruger y Alfredo Palarea marcam o início dos filmes de ficção. Os filmes “Águilas civilizadas” (1927), dos italianos V. Crisonino, E. Bianchi e A. Massi, realizado em El Salvador e o costarriquense El retorno (1930), de A. F. Bertoni, marcam os primórdios da cinematografia centro-americana. María Lourdes Cortés, especialista em cinema latinoamericano e centroamericano, afirma que o cinema da América Central é talvez um dos mais desconhecidos e invisíveis da cinematografia mundial. (CORTES,2005, p. 1). As produções marcaram a era de ouro, ou a bela época, que duraria muito pouco, sufocada pela invasão dos filmes estrangeiros, em especial os norteamericanos que davam os primeiros passos rumo à ocupação completa dos mercados cinematográficos. No Brasil, até 1911, período denominado “A Bela época do cinema brasileiro”, o cinema se desenvolveu rapidamente. Entre 1908 e 1911, além de temas tirados da crônica policial como Os estranguladores, exibido mais de oitocentas vezes no Rio de Janeiro, há registros de melodramas, como A Cabana do Pai Tomás e O Remorso, dramas históricos, como Dona Inês de Castro, patrióticos, como A vida do Barão do Rio Branco carnavalescos, como Pela Vitória dos Clubes e O cordão, e comédias, como Zé Bolas. A maior parte dos filmes citados realizados por Antônio Leal e José Labanca. (GOMES,1996, p. 44). 132 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 129-140| 2° Semestre 2008


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No México, a época de ouro se localiza entre os anos de 1917 a 1920. Em 1917 é fundada a primeira empresa de cinema totalmente mexicana, a Companhia Asteca de Filmes, pela atriz Mimi Derba e por Enrique Rosas. Os filmes de episódios (seriados) norte-americanos, muito populares no país, inspiram “O automóvel cinza” de 1919, de Enrique Rosas, considerado o mais famoso filme do período mudo do cinema mexicano. Concebido como um seriado, o filme tinha doze episódios que contavam a história de um bando de ladrões de jóias, famosa na cidade do México em 1915. Estava inaugurada a produção em série do cinema mexicano com argumento que se inspirava em fatos atuais e personagens facilmente identificados pelo público. Nos anos 60 as cinematografias latino-americanas vão se ligar pela busca de uma estética própria, pela tentativa de inserção da realidade latino-americana nas telas, pelo cinema político e militante. Tire Die(1958) e Los inundados(1961), de Fernando Birri, na Argentina, dialoga com Los olvidados(1950), de Luiz Buñuel, no México, e se conecta ao cinema novo brasileiro de Glauber Rocha, Barravento(1960), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1962), e Vidas Secas (1962) de Nelson Pereira dos Santos , ao cinema junto ao povo do Grupo Ukamau, na Bolívia, ao cine imperfeito proposto pelo cubano Julio Garcia Spinoza. Cine imperfeito, vale lembrar, não é um cinema feito de qualquer maneira, mas a busca de um novo conceito de qualidade, com rigor estético e de conteúdo se contrapondo ao padrão imposto pela indústria cinematográfica.

EXPERIÊNCIAS LATINAS Segunda surpresa : Um novo cinema é possível. Fundado pelo cineasta Argentino Fernando Birri, no dia 19 de dezembro de 1956, o Instituto de Cinematografia de Santa Fé, (conhecido como Escola Documental de Santa Fé ou simplesmente Escola de Santa Fé) trazia a preocupação com a consciência da realidade social e um método de ensino que incluía a comunidade de Santa Fé. O subdesenvolvimento é um dado de fato para a América Latina, Argentina incluída. É um dado econômico, estatístico. Palavra não inventada pela esquerda, organizações oficiais internacionais(ONU) e da América Latina (OEA,CEPAL,ALALC) a usam habitualmente em seus planos e informativos. Não há como não usá-la.Suas causas são também conhecidas:colonialismo, de fora para dentro.O cinema de outros países participa das características gerais dessa superestrutura, dessa sociedade e a expressa, com todas suas deformações. De uma imagem falsa dessa sociedade, desse povo, escamoteia o povo:não dá uma imagem a esse povo. Dá-la deve ser o primeiro passo:função do documentário. E qual é esta imagem a do cinema documentário ? A de como é a realidade e não pode ser de outra maneira. (Esta é a função revolucionária do documentário social na América Latina)... ... Conseqüência e motivação do documentário social:conhecimento, consciência, tomada de consciênca da realidade. Problematização. Mudança: de subvida em vida.

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Conclusão: colocar-se à frente da realidade com uma cãmara edocumentala, documentar o subdesenvolvimento. O cinema que se faz cunplrice do subdesenvolvimento é subcine. (AVELLAR, 1996, p.41)

A Escola traz para o cinema latino-americano novidade do neo-realismo italiano e o rigor dos documentaristas ingleses dos anos 40. John Grierson e Zavattini inspiraram Fernando Birri: Nos apoyamos declaradamente en principios hoy todavía tan válidos como los enunciados, por ejemplo, por Grierson y Zavattini, cada uno a su tiempo. Grierson – fundamentador teórico del concepto documentalístico, conductor práctico de las filmaciones del rigoroso Group 3 en Inglaterra – ya en el año 30define así al cinematógrafo documental: elaboración creativa de la realidad,sosteniendo su vigencia autónoma porque: 1) Creemos que de la capacidad que el cinematógrafo tiene de mirar alrededor suyo, de observar y seleccionar los acontecimientos de la vida verdadera, se puede obtener una nueva y vital forma de arte. 2) Creemos que el actor natural (o auténtico) y el escenario natural (o auténtico), constituyen la guía mejor para interpretar cinematográficamente el mundo moderno. 3) Creemos que el material y los temas encontrados en el lugar son más bellos (más reales en sentido filosófico) que todo lo que nace de larepresentación. El documental puede profundizar la realidad y obtener de ella resultados que ni la maquinosidad de los sets ni la exquisita reclamación de los actores prefabricados se sueña. ( (In: CORTES, Maria de Lourdes, 200, p. 4)

A educação popular a partir da Universidade, a utilização do cinema a serviço da Universidade e “la Universidad al servicio de la educación popular, de una toma de conciencia cada vez más responsable” (AVELLAR, 1995, p.47) era uma atitude inédita na América Latina. Birri e os integrantes da Escola de Santa Fé buscavam um método oposto ao “ao hermetismo do cinema experimental”(CORTES, 2006, p. 2) e ao cinema comercial, mas que chegasse ao público. A tomada de consciência da realidade latino-americana era sua base teórica. Tire Die (1959), primeiro filme da Escola de Santa Fé se propõe a mostrar um dos tantos aspectos da exclusão social: o cotidiano de crianças que pedem moedas aos passageiros do trem que segue para Buenos Aires, arriscando a vida na ferrovia. Tire die no dá solución, no quiere darla, porque entiende que cualquiera que diera seria parcial excluyente, limitada: quiere en cambio que el público la dé, cada uno de los espectadores, ustedes, buscando y encontrando dentro de ustedes mismos, a prática, conmovidos pero lúcidos... (Birri, Fernando apud: AVELLAR,1995, p.48)

Na Argentina nos anos 60/70 se desenvolveu uma das mais importantes experiências da história do cinema latino-americano: a busca por um terceiro cinema

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que nasce do Grupo Cine Liberación, de Octavio Getino e Fernando(Pino) Solanas, com a realização do filme manifesto: La hora de los hornos(1966/1968) .Também o grupo Cine de la Base de Raymundo Gleyzer, realizador de Los Traidores,(1973), lutava pela integração da América Latina e pela independência cultural e econômica. A tomada de consciência frente ao neocolonialismo é o eixo que une os cineastas latino-americanos. O manifesto de Solanas e Getino, conhecido como Hacia um tercer cine, se opõe não só ao modelo narrativo e produtivo de de Hollywood, mas também ao cinema de autor europeu. A proposta apontava para um cinema antiimperialista e revolucionário que resgatasse as expressões das culturas nacionais, um cinema realizado coletivamente e com poucos recursos, lançando mão de modelos vanguardistas de expressão dentro de contextos mais artesanais do que industriais. En oposición al tercer cine encontramos el primer y el segundo cine. El primer cine son todas las producciones de Hollywood, para las cuales el ser humano no es más que un mero consumidor de ideas, no un creador de ellas. El segundo cine es el llamado “cine independiente” o “de autor”, que según el director francés Jean-Luc Godard está atrapado dentro de una fortaleza, la formada por la narrativa y los modos de distribución que provienen de Hollywood. El Tercer Cine, sin embargo, es un cine de liberación, nace explícitamente con el propósito de combatir el sistema.Pero si se quiere combatir el sistema imperante, no se puede utilizar su misma narrativa. (SEBASTIAN, 2007, p. 1)

Também a forma de exibição dos filmes era debatida pelo Grupo Cine Liberación En 1969 un documento interno elaborado por el Grupo Cine Liberación daba cuenta de la forma en que se tenía que exhibir la película “La Hora de los Hornos” en función de que, inscripta en el llamado “tercer cine” o “cine militante”, cumplía una misión política. La difusión del film se hacía fuera del circuito de cines comerciales; por un lado oponiéndose a la bien aceitada maquinaria cinematográfica norteamericana y, por otro, debido a las persecuciones, censuras y prohibiciones de las cuales eran objeto. Es interesante ver cómo en ese informe se promueve el Acto, o sea una propuesta en la cual el film o su exhibición no es el objetivo final, sino una herramienta para el debate y la reflexión crítica, tanto es así que se sugiere la intervención de grupos musicales que amenicen las reuniones sin faltar la posibilidad del mate o el vino. (STRACCIA, 2007, p. 1)

Na Bolívia, Jorge Sanjínes fundou em 1966 o Grupo Ukamau com Antonio Eguino,Oscar Soria, Ricardo Rada e Hugo Roncal. Fizeram Ukamau, primero filme falado em aimara e em seguida Yawar Mallku, falado em quechua, O grupo buscava um cinema popular e revolucionário que fosse ferramenta de luta política, tendo como tema de seus filmes a miséria e a pobreza. Era o primeiro passo na busca de um cinema de identidade nacional e de um “cine junto al pueblo”. O cinema proposto pelo Grupo era essencialmente antiimperialista: “um cine considerado como revolucionário que sea ajeno a la lucha antiimperialista es uma contradicción” (SANJINÉS,1987, pag.56) e devia buscar a qualidade técnica como meio e não como objetivo, propondo uma COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 129-140| 2° Semestre 2008 | 135


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relação dialética entre beleza e propósitos. La carência de uma forma creativa,coherente reduce su eficacia,aniquila la dinámica ideológica de contenido y solo nos enseña los contornos y la superficialidad sin entregarnos ninguna esencia, nínguna humanidad, ninguún amor, categorias que solo poden surgir por vias de expresión sensible, capaz de penetrar en la verdade. (SANJINÉS, 1987, p.56)

Do altiplano boliviano estava surgindo um novo cinema, de conteúdo transformador e que formulava novas linhas estéticas e conceituais para o cinema no continente. Exibido no Festival de Cannes, de 1967, Ukamau impressionou pela fotografia e pelo tratamento do tema: o confronto entre a cultura branca e a indígena. A beleza da paisagem, a integração do homem com a natureza abrem o filme e só é rompida pela chegada da cultura do branco. Produzido por um organismo estatal, o Instituto Cinematográfico Boliviano, o filme foi exibido simultaneamente em várias cidades da Bolívia. Ao conhecer seu conteúdo, as autoridades expulsaram o Grupo do Instituto Cinematográfico Boliviano e fecharam o órgão, não sem antes destruir as cópias existentes do filme. No entanto, mais de trezentas mil pessoas já haviam visto Ukamau. Os negativos de Ukamau quase foram queimados pelo laboratório argentino onde estavam, pois com a extinção do Instituto Cinematográfico o governo da Bolívia se recusou a pagar uma dívida que estava pendente.(SANJÍNES, 1987, p.19). Por um cine imperfecto, manifesto do cubano Julio García Espinosa, viria propor um novo conceito de qualidade, a partir da premissa de que o cinema perfeito técnica e artisticamente é quase sempre um cinema reacionário, que quase sempre chega ao público impondo valores culturais disfarçados na comédia e no melodrama. Referindo-se ao cinema industrial norte-americano, Espinosa critica o star system e a dominação cultural sobre o público. O documento, escrito em dezembro de 1969, foi publicado pela primeira vez em Hablemos de Cine nº55/56, em Lima, Peru, em 1970. Nele Espinosa afirma que: … Una nueva poética para el cine será, ante todo y sobre todo, una poética «interesada», un arte «interesado», un cine consciente y resueltamente «interesado», es decir, un cine imperfecto… … El cine imperfecto halla un nuevo destinatario en los que luchan. Y, en los problemas de éstos, encuentra su temática. .. … El cine imperfecto entendemos que exige, sobre todo, mostrar el proceso de los problemas. Es decir, lo contrario a un cine que se dedique fundamentalmente a celebrar los resultados. Lo contrario a un cine autosuficiente y contemplativo. Lo contrario a un cine que «ilustra bellamente» las ideas o conceptos que ya posee­mos… …El cine imperfecto es una respuesta. Pero también es una pregunta que irá encontrando sus respuestas en el propio desarrollo. El cine imperfecto puede utilizar el documental o la ficción o ambos. Puede utilizar un género u otro o todos. Puede utilizar el cine como arte pluralista o como expresión específica. Le es igual. No son éstas sus alternati­vas ni sus problemas, ni mucho menos sus objetivos. No son éstas las batallas ni las polémicas que le interesa librar… (ESPINOSA, 1970, p. 10) 136 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 129-140| 2° Semestre 2008


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O cinema imperfeito vai buscar no real, nos grandes temas sociais sua inspiração. Vai também usar o cinema como instrumento de reflexão e de mudança social. Para Espinosa qualquer cinema popular pode ser cinema de arte: Lo cierto es que a mí me interesa descubrir los grandes temas, por muy filosóficos que éstos sean, en la vida de los personajes populares. Partiendo del criterio que, en lo que respecta a la narración, transgredir, sin vulnerar las reglas del juego, no es suficiente. Ni en la vida ni en el arte. Siempre he tratado de desdramatizar más que de conmover, de expresar más que de impresionar, de dialogar más que de sermonear. (ESPINOSA, 2007, p. 7)

Em Cuba, outro nome fundamental para o cinema latino-americano é o de Santiago Alvarez, que com Julio Garcia Espinosa e Tomás Gutierrez Alea em 1959, funda o ICAIC – Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica. O Instituto responsável pela “mais importante das artes” (LABAKI,1992 p.7) adota o neorealismo como modelo e traz como conselheiro técnico Cesare Zavattini. No Brasil, Glauber Rocha, em a Estética da Fome, compara o colonialismo do século 16 com o do século 20 afirmando que a diferença está apenas na forma mais sofisticada, sutil de impor sua presença e sua cultura. Para ele a expressão das artes na América Latina está condicionada econômica e politicamente pela cultura do colonizador , o Cinema Novo é uma forma de insurgência contra a influência estrangeira e como novo cinema ganhou espaço internacional graças a seu “compromisso com a verdade” . Mostrar a verdade é falar da fome, e opor-se ao cinema digestivo3 . Em a Revolução do Cinema Novo, escrito nos anos oitenta, Glauber reúne reflexões e notas sobre a vida cultural do período e retoma este compromisso: “No Brasil, o Cinema Novo é uma questão de verdade e não de fotografismo. Para nós, a câmera é um olho sobre o mundo, o travelling é um instrumento de conhecimento, a montagem não é demagogia mas a pontuação do nosso ambicioso discurso sobre a realidade humana e social do Brasil!”(ROCHA, 2004, p. 232) O ponto de partida do Cinema Novo é ideológico e o período 1960/1968, no qual são produzidos Barravento (Glauber Rocha, 1960), Deus e o Diabo na terra do Sol (Glauber Rocha, 1962), Vidas Secas ( Nelson Pereira dos Santos, 1962), Os Fuzis ( Ruy Guerra, 1964) , Terra em Transe (Glauber Rocha, 1968), vai se relacionar com os demais movimentos, que se desenvolvem pela América Latina e Caribe, na busca da construção de identidade nacional e de uma estética própria. Identificado pelos seus próprios criadores, os Irmãos Lumiére, como uma invenção sem futuro, o cinema na América Latina vai construir pontes entre a realidade e a arte, vai possibilitar ao público olhares sobre a história e a cultura latino-americana vai produzir o cinema como uma ponte entre o espectador e a realidade. 3 Conforme Estétika da Fome. Para Glauber o cinema digestivo é definido como o cinema defendido “pelo crítico-mor da Guanabara, Carlos Lacerda: filmes de gente rica, em casas bonitas, andando em carros de luxo: filmes alegres, cômicos, rápidos, sem mensagens, de objetivos puramente industriais. Estes são os filmes que se opõem à fome, como se, na estufa e nos apartamentos de luxo, os cineastas pudessem esconder a miséria moral de uma burguesia indefinida e frágil ou se mesmo os próprios materiais técnicos e cenográficos pudessem esconder a fome que está enraizada na própria incivilização.”

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CINEMA LATINO NA SALA DE AULA

Os artistas são engenheiros, lembra Cortázar, os cineastas constroem pontes, acrescenta Glauber: Los artistas son ingenieros de um afectivo puente mental, são engenheiros voltados para o cálculo do arco das pontes, cada vez mais imprescindíveis entre o produto intelectual e seus destinatários. (AVELLAR, 1995, p. 312)

Julio Garcia Espinosa, Fernando Solanas e Octavio Getino, Jorge Sanjinés e Glauber Rocha com suas pontes, construídas de teorias e filmes representam as bases do novo cinema latino-americano. Sua obra chama atenção para o fato de que a linguagem cinematográfica não é acabada, e que no subtexto do conceito de perfeição, ditado pelo cinema hegemônico está a imposição cultural. Trazê-los para a sala de aula é inserir o cinema nos debates da responsabilidade social do jornalista e lembrar seu papel de “construtor de pontes” entre uma pauta e os leitores de sua matéria. Mostrar, para os alunos de hoje, que jovens como eles foram capazes de encontrar novas formas de expressão artística a partir de realidades nacionais é também construir novas pontes, é contribuir para o pensamento crítico, para a descolonização do olhar. Mostrar que nos anos 60, com equipamentos leves e acessíveis (câmeras de 16 mm, 8 mm, super 8), um conjunto de cineastas latino-americanos, com um pouco mais de vinte anos de idade, buscava uma aproximação maior com a realidade é, parece-nos, incentivar os jovens que têm a seu dispor um aparato tecnológico ainda mais acessível a olhar sobre o mundo que os cerca como co-participantes da realidade e não apenas espectadores passivos.

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Capitu incompleta: indeterminação na construção do feminino em Dom Casmurro Marcelo Lima1

Universidade Positivo

Resumo O romance Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, apresenta um dos retratos femininos mais importantes da literatura brasileira. Por meio de um narrador que joga o tempo todo com elementos de indeterminação a seu favor, o leitor tem acesso ao esboço de Capitu e, em meio às lacunas, ajuda a desenhar seu rosto. A fortuna crítica do livro aponta para a construção de um narrador autoritário, legítimo representante da classe dominante brasileira no século XIX e a sua cordialidade. O objetivo do trabalho é mostrar a representação de um ideal de mulher do século XIX, que, na visão do narrador, não é preenchido por Capitu. Para realizar esta análise, faz-se um estudo das convenções formais do texto machadiano e seu diálogo com elementos sociais. Palavras-chave: Literatura brasileira, narrador, feminismo

Abstract Machado de Assis’ Dom Casmurro is known as one of the most important feminine portraits of Brazilian Literature. Throughout the book, the author, by using a narrator that plays with evasive elements, shows some hints on Capitu’s life. Captivating some information, the reader would have some idea on Capitu’s features. The book critics show an authoritative narrator through the book’s structure, which brings back to Brazilian’s elite at the end of the 19th century. The main idea of this piece of work is to show that Bentinhos’ ideal of woman is not measured up by Capitu’s character. This analysis is based on the novel formal structure and its dialogue with some social elements. Keywords: Brazilian literature, narrator, feminism

1 Marcelo Lima, jornalista, mestre e doutorando em Letras (UFPR), é professor no curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Publicou “Sobre galhos, esqueletos” (1999) e “Nas trilhas de Saint-Hilaire” (2002).


Capitu incompleta: indeterminação na construção do feminino em Dom Casmurro

Dom Casmurro foi publicado em 1899 e compõe a fase mais importante da produção em prosa de Machado de Assis, à qual ainda integram Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891). É nesses livros que o autor toma uma posição inovadora no percurso de sua obra e na história da literatura brasileira: assume elementos modernos da narrativa e dialoga de maneira criativa com grandes obras da literatura ocidental — principalmente a francesa e a inglesa —, além de criticar de maneira incisiva a sociedade patriarcal brasileira. Nessa fase, enfileiram-se nos romances de Machado de Assis os principais atores sociais do patriarcado local — registrado pelo escritor num período de declínio e de transição, em que a elite rural migra para as cidades, embora não abandone suas práticas culturais; a moral que regia, até meados do século XIX, as casas-grandes é a que impera nos sobrados das cidades, apesar dos ares de modernização do período da Abolição e do regime republicano. Em Dom Casmurro, Machado de Assis narra a relação amorosa entre Bento Santiago, filho da classe abastada do Rio de Janeiro do século XIX, e de sua vizinha e amiga de infância Capitolina Pádua, cuja família está alguns degraus abaixo na escala social. O romance — uma espécie de educação sentimental do homem brasileiro — é escrito em primeira pessoa, em forma de memórias, por um narrador socialmente qualificado na época: homem branco, maduro, bacharel em direito, ex-seminarista e pertencente ao andar de cima da sociedade. É um narrador insuspeito que será posto à prova na história da recepção do romance. Bento Santiago, que aceita a alcunha de Dom Casmurro que lhe foi dada no primeiro capítulo do romance, busca passar a limpo sua vida e aproveita de seu prestígio social, de sua posição como falante qualificado, para apresentar a sua verdade ao leitor: seu amor puro de seminarista que lutou contra a batina foi traído pelas dissimulações da mulher e do amigo de escola, Ezequiel Escobar. O fruto dessa relação furtiva fora o menino Ezequiel Santiago, que, à medida que crescia, ficava cada vez mais parecido com Escobar. Como solução para o impasse — a traição ganha forte significado na sociedade brasileira do século XIX e incomoda a honra masculina —, Bentinho tenta os caminhos clássicos da época: o suicídio, o assassinato do filho ou, se Escobar estivesse vivo, um duelo. Mas sua solução foi mais simples e discreta: decidiu mandar Capitu e Ezequiel à Europa, onde este pudesse estudar e manter-se longe do Rio de Janeiro, para que a sociedade local não desconfiasse da suposta traição. Em sua narrativa, Bentinho — nome que, assim como sua posição social, reforça o caráter acima de qualquer suspeita — desenha um narrador parcial, autoritário, que esconde as informações do leitor e se nega a fazer retratos completos das personagens e do ambiente em que as ações se desenvolvem. O romance assume, logo no início, uma feição memorialista, parcial e subjetiva, quando o narrador anuncia sua intenção de passar a limpo sua juventude e a idade madura. Diz ele: “O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente” (ASSIS, 2008, p. 8). Valendo-se 142 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 141-152| 2° Semestre 2008


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do discurso memorialista e do prestígio de que sua fala é investida, o narrador tenta a todo custo justificar os seus atos, fixando, na superfície, uma leitura que conduz à condenação de Capitu, mas que, pela abertura possível com a forte carga subjetiva do texto, é passível de questionamento. Uma leitura menos favorável a Bentinho, no entanto, é prevista na estrutura do romance e/ou no diálogo que o leitor mantém com outras obras de Machado de Assis. O que, à primeira vista, parece ser um elogio — o uso da autoridade do narrador bem posto na sociedade patriarcal brasileira — é o principal ardil que mostra os defeitos desse grupo social. E é nesse momento, ao mimetizar a autoridade do discurso masculino na voz de Bento Santiago, que o autor faz com que o elemento externo, historicamente determinado, torne-se interno, colado à forma como o romance foi estruturado (CANDIDO, 1985, p. 7). Uma das principais características dos contos e romances da última fase de Machado de Assis é que a autoridade do narrador será posta à prova. Esta foi uma maneira de o autor evidenciar as contradições da sociedade brasileira então em mudança. O Brasil de Machado é aquele que aderia, em teoria, à modernidade ocidental e aos ideais da Ilustração. Sob influência do modelo francês, o Brasil “civilizava-se”, sob o lema “ordem e progresso” da bandeira republicana positivista e sob o estado laico, embora permanecesse com a maioria de seu povo analfabeto, com uma política perversa de distribuição da riqueza e com a manutenção dos processos de exclusão. Uma das estratégias do narrador é mostrar a pureza do amor que sente por Capitu e a luta dos namorados contra o poder castrador da mãe e da religião. Dona Glória, a mãe autoritária de Bentinho, queria-o no seminário para que pudesse pagar uma promessa que havia feito quando o filho nasceu. Nessa altura do livro, a posição do narrador é insuspeita, apesar de alguns deslizes que revelam um caráter frouxo e descompromissado com as pessoas de classe social inferior. Nas palavras de Roberto Schwarz, neste segmento do romance ocorre a luta entre as idéias da Ilustração, com o desejo de liberdade inflado no casal — em destaque o caráter irrequieto de Capitu — contra a moral do ancien régime local, representado pela autoridade de Dona Glória (SCHWARZ, 2006, p. 16). O primeiro tento é vencido pelos pensamentos arejados da Ilustração. O narrador arma a estratégia para conquistar a confiança do leitor, que torce pelo happy ending e pela felicidade do par romântico. A expectativa, no entanto, é desfeita no segundo tempo do romance, quando Bento Santiago, com o ânimo tomado pela suposta traição de Capitu, condena-a. Nesse ponto, o ancien régime patriarcal brasileiro alcança vários pontos de vantagem sobre a Ilustração. Como a expectativa de final feliz não se completa, a estratégia do narrador é culpar Capitu de sua infelicidade — com grande possibilidade de adesão do leitor. A posição assumida por Bento Santiago expressa bem as contradições da classe dominante brasileira do final do século XIX: educada segundo os padrões da Ilustração, conserva o seu lugar de custódia de práticas autoritárias, transformando o saber em mero adereço. A educação da elite não resulta no esclarecimento e na COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 141-152| 2° Semestre 2008 | 143


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busca de melhores condições para toda a sociedade — como um desdobramento de liberdade, igualdade e fraternidade; sua principal função é delimitar o espaço da elite, muitas vezes funcionando como mero adorno. A principal estratégia da segunda parte do romance é a omissão narrativa. Os fatos apresentados por Bentinho não são suficientes para provar a culpa de Capitu. No entanto, esta parte do romance, somada à primeira, conduz o leitor a uma interpretação simpática ao narrador. Em alguns momentos, Bentinho chega a assumir as lacunas do livro e o trabalho de cooperação do leitor: Nada se emenda bem nos livros confusos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não achei nele. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora como as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista. É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas (ASSIS, 2008, p. 145).

A leitura que condena Capitu, hegemônica até a década de 1960, foi quebrada pela crítica norte-americana Helen Caldwell, que fez um paralelo entre Bentinho e Otelo, de Shakespeare, mostrando a astúcia do narrador ao eximir-se de qualquer culpa. A leitura destaca a força do discurso do patriarcado brasileiro. Já na leitura de John Gledson, Dom Casmurro evidencia a crise da sociedade patriarcal brasileira. Roberto Schwarz afirma que o romance engendra uma armadilha ao leitor ao franquear uma interpretação que falsamente reforça o prestígio do narrador, e outra que põe Bentinho no banco dos réus ao identificar nele o autoritarismo da classe patriarcal brasileira e o ranço do escravismo presente na fase de transição entre o Brasil dos últimos anos da Monarquia e do início da República. Assim, a indeterminação do narrador é elemento central do romance, que pode ser lida tanto do ponto de vista formal, quanto a partir das relações sociais que reflete. A fortuna crítica desse romance aponta, em muitos casos, a polêmica do adultério. Teria Capitu traído Bentinho? — pergunta que fez as delícias de diversas gerações que conheceram a história em júris simulados nas aulas de literatura do ensino médio. Mas a questão mais relevante é exatamente o que causa a dúvida: o caráter autoritário e dissimulado de Bentinho, capaz de antepor à imagem angelical da Capitu menina o esboço de uma mulher mentirosa, mesquinha, que precisava ser varrida da sociedade. Independentemente se houve ou não traição — o que é impossível afirmar, devido ao relativismo imposto pelo narrador, sua visão cheia das omissões do ciúme —, o romance reflete a constituição do discurso de autoridade do homem brasileiro do

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século XIX, o seu habitus de classe, as suas instituições, a sua educação, e seu discurso misógino. A personagem combate exatamente a sociedade patriarcal contra que lutava o primeiro discurso feminista, na voz, por exemplo, de uma Mary Wollstonecraft, no final do século XVIII. Em A Vindication of the Rights of Woman (1792), ao referir-se à Europa do final do século XVIII, Wollstonecraft argumenta as mulheres têm um espaço secundário na sociedade. A elas é destinado apenas o lugar de coadjuvante, e esses valores são inculcados pela educação. Às mulheres cabia a formação sentimental, amorosa, enquanto que ao homem deveria ser dada uma educação voltada para o desenvolvimento racional e técnico (WOLLSTONECRAFT apud ABRAMS, 1979). Com base na idéia de que todas as pessoas têm direitos na sociedade, Wollstonecraft negava o pensamento comum na época que colocava a mulher como um ser inferior ao homem e incapaz de grandes empreendimentos intelectuais. Para ela, o que relegava à mulher um lugar secundário na sociedade era uma série de fatores desfavoráveis — dentre os quais a educação ocupava um dos papéis mais importantes. Ela escreve: I have turned over various books written on the subject of education, and patiently observed the conduct of parents and the management of schools; but what was the result? — a profound conviction that the neglected education of my fellow-creatures is the grand source of the misery I deplore; and that women, in particular, are rendered weak and wretched by a variety of concurring causes, originating from one hasty conclusion (WOLLSTONECRAFT apud ABRAMS, 1979, p. 112).

Restrita ao espaço da casa e a atividades consideradas secundárias, a mulher deveria ser tutelada, como uma criança. Assim, o argumento central de A Vindication of the Rights of Woman é que a mulher deve ter direito a uma educação racional capaz de dar a ela a oportunidade de contribuir de maneira produtiva com a sociedade. Apesar de Wollstonecraft ter apontado de maneira incisiva para o problema ainda no final do século XVIII, as mudanças que iriam favorecer a mulher só começariam a acontecer pelo menos 100 anos depois. O século XIX, época da expansão colonial européia e da ascensão do pensamento positivista, é ainda essencialmente masculino. No Brasil, periferia da Europa, a formação rural da sociedade pouco aberta às idéias liberais reforçou ainda mais as características patriarcais européias — com o agravante de que a herança colonial portuguesa era fortemente marcada pelas práticas autoritárias do Absolutismo ainda remanescente na época da Ilustração e do poder da Igreja Católica, vinculada ao Estado. A submissão da mulher brasileira era tida, então, como um dado natural nos trópicos: O homem nascera para mandar, conquistar, realizar. O despotismo, antes privilégio dos monarcas, passa a ser do marido, dentro de casa. A mulher, por sua vez, nascera para agradar, ser mãe e desenvolver certo pudor natural. [...] Bem diferente das heroínas de romances, as mulheres viviam displicentemente vestidas, ocupadas com afazeres domésticos e dando pouca atenção à instrução (PRIORE, 2005, p. 122). COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 141-152| 2° Semestre 2008 | 145


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A escritora inglesa Virginia Woolf, em A room of one’s own (1929), mostra que educação voltada para os afazeres considerados menos importantes afastou a mulher do mundo intelectual. Enquanto os homens se dedicavam às ciências, às grandes descobertas e às guerras, as mulheres ficavam em casa cuidando dos filhos e lendo romances. Mantidas nos limites da casa, as mulheres não tinham autonomia financeira para poder desenvolver suas potencialidades. A escritora chama a atenção para o fato de que as mulheres não possuíam sequer autoridade sobre elas mesmas. A maior parte dos livros sobre as mulheres até o século XIX era escrita por homens, quase sempre com uma visão depreciativa. Para Virginia Woolf, o caráter misógino da sociedade patriarcal, mostrando sempre a mulher de maneira depreciativa — imagem que é reforçada pela religião, no caso do catolicismo —, servia à estratégia masculina de dominação. A mulher é um espelho que reflete a imagem do homem duas vezes maior: That is why Napoleon and Mussolini both insist so emphatically upon the inferiority of women, for it they were not inferior, they would cease to enlarge. That serves to explain in part the necessity that women so often are to men. And it serves to explain how restless they are under her criticism; how impossible it is for her to say to them this book is bad, this picture is feeble, or whatever it may be, without giving far more pain and rousing far more anger than a man would do who gave the same criticism. For if she begins to tell the truth, the figure in the looking-glass shrinks; his fitness for life is diminished (WOOLF, 1929, p. 25).

Filho da sociedade patriarcal brasileira, Bentinho é um homem de seu tempo; ele expõe as ideologias e estereótipos sobre a mulher no século XIX. Capitu é o espelho no qual quer ver sua imagem aumentada duas vezes. Assim, a representação de Capitu é feita muito em função da imagem masculina que o narrador quer construir. Capitu, prisioneira da voz do narrador, é uma musa interrompida: o que sabemos dela são os silêncios do narrador, suas neblinas. E sua incompletude é a forma mesma de o narrador apresentar o Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX: uma sociedade que goza, sob seu pince-nez, de ordem e progresso, guardando espaços bem determinados para seus atores sociais: os fidalgos, as mulheres, os pobres, os escravos, as santas e as prostitutas. Como já foi dito antes, na fase de produção romanesca mais importante de Machado de Assis, o narrador tem lugar central. Em vez de contar a história a partir do ponto de vista onisciente, em terceira pessoa, Machado opta, em grande parte, pela escrita em primeira pessoa. Com isso, evita as limitações do realismo de escola: a forma linear de ordenar os fatos, a busca pela objetividade, o movimento exaustivo (para os tempos das máquinas de reprodutibilidade técnica) da construção da verossimilhança — como nas páginas iniciais de Ilusões perdidas, de Balzac, em que o narrador faz a descrição da maquinaria de impressão, para, entre cilindros e rotativas, introduzir as personagens. O uso da primeira pessoa permitiu a Machado explorar não só a dimensão subjetiva da realidade, mas as digressões e idiossincrasias comuns a um narrador que 146 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 141-152| 2° Semestre 2008


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se assume parcial aos olhos do leitor. A opção de Machado abre o texto à incorporação de diversos gêneros textuais e níveis de narração praticamente inexistentes no romance realista, além do jogo intenso que calibra a interpelação com o leitor, sem a necessidade de realizar todas as etapas do edifício da ficção — daí os capítulos curtos e a distribuição desigual da matéria narrada. Em comum, os romances desta fase têm a criação de um determinado tipo de narrador que representa o poder masculino da classe dominante brasileira. Brás Cubas e Bentinho expressam a complexa ideologia da fidalguia nacional num momento de transição no país: da escravidão para o período de libertação dos escravos; da Monarquia para a República; do pacato século XIX para o frenético século XX. Nada melhor, para exprimir os desejos dessa classe, do que um fidalgo adiantado na idade ou um aristocrata falando do além-túmulo. Na voz de Cubas-Bentinho pode-se perceber o que Roberto Schwarz chamou de “desfaçatez da classe” (SCHWARZ, 2000), ao ler os romances da última fase de Machado como uma crítica contundente às contradições de uma classe social que era seduzida pelo discurso liberal e pelos ares tardo-humanistas do século XIX, mas que era ainda marcada pelas relações de opressão das famílias patriarcais. Nas palavras do crítico, as “conquistas liberais da Independência alteravam o processo político de cúpula e redefiniam as relações estrangeiras, mas não chegavam ao complexo socioeconômico gerado pela exploração colonial, que ficava intacto, como que devendo uma revolução” (SCHWARZ, 2006, p. 36). Além da opressão de classe, há uma forte dominação de gênero. No seu nuançado jogo de ambigüidades, Machado de Assis põe em cena o discurso como um elemento masculino. Bentinho, que se julgava menos homem do que Capitu era mulher, supera a sua fragilidade à medida que constrói suas personagens com palavras, ao mesmo tempo deixando marcas dessa fragilidade na linguagem — e uma delas é a omissão e a ambigüidade, condenáveis num século marcado pela infalibilidade do poder masculino. Ao estilo claro e “masculino” do romance realista de escola do século XIX, com sua estrutura relativamente previsível como um experimento científico, Machado de Assis opõe um universo misterioso, que só é possível se lido no espelho do texto. Dessa maneira, se na primeira leitura Dom Casmurro se arvora no discurso masculino do século XIX; na segunda, ele faz sentido se for lido numa perspectiva da construção do feminino, que examina não o conteúdo do que foi dito, mas a relação do que é dito com as estruturas de dominação social. As contradições sociais fora do texto são incorporadas na forma literária. Bentinho é um narrador entre dois mundos. As personagens são marcadas, ao mesmo tempo, por um desejo liberal, e pelo ferro quente da vingança, com a crueldade e a omissão do narrador. As personagens, para o narrador machadiano, devem ser descritas com meias-palavras. Capitu é composta por camadas que vão sendo apresentadas e sonegadas ao leitor. Como num afresco corroído, o leitor não pode observar a composição de cenas completas. Para tomar ciência do contexto, tem que espiar outros quadros que, por ventura, possam compor o mesmo sítio da

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Capitu incompleta: indeterminação na construção do feminino em Dom Casmurro

memória do narrador. Assim como Bentinho, ela apresenta pelo menos dois estados bastante diversos, ambos fragmentados: a infância/ adolescência e a idade adulta. A personagem se constrói pelo olhar voyerístico do narrador, em suas impressões quase sempre parciais, ora focalizando uma característica física, ora explorando de soslaio o comportamento da musa. Outra forma de caracterização é o jogo de espelhos feito pelo narrador. Ao conduzir o leitor pelos labirintos de sua infância/adolescência e idade adulta, Bentinho é um observador obsessivo, que compara, com grande insistência, os velhos retratos às personagens que fazem parte do seu círculo. A imagem dos pais, em tradicional quadro de casamento, joga sua sombra sobre as personagens. Seminarista por promessa da mãe, Bentinho quer uma posição semelhante à ocupada pelo pai, longe da Igreja. A conclusão que tira quando olha o retrato de ambos é evidente quanto a isso: “O que se lê na cara de ambos é que, se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade” (ASSIS, 2008, p. 21). A imagem da mãe, feliz e fiel ao lado do marido, que aos poucos vai ser canonizada pelo narrador — sobre a lápide dela, o filho manda gravar a inscrição: “Santa” —, rivaliza com a de Capitu. Esta, sem nunca substituir a imagem da sogra, é silenciada justamente por ter traçado caminho inverso. Capitu é a imagem oposta à da sogra. Esta última é a personagem que garante a manutenção do patriarcado, assumindo o lugar do marido falecido e controlando a família com mão de ferro; aquela questiona, em vários momentos, os estatutos da sociedade patriarcal — reforçada pela educação católica conservadora — e busca, com a razão, construir sua própria felicidade ao lado do marido. Numa época em que a mulher não participava integralmente da esfera pública, sendo apenas um adorno a ocupar o espaço da casa, Capitu se apresenta inclinada a fazeres e a comportamentos considerados masculinos: agia pela razão e não pela emoção; era capaz de questionar a autoridade e a ordem estabelecida; tinha inclinação para os estudos, por exemplo, em relação à matemática, o que resultou, de certa forma, na disciplina financeira do casal. Num mundo dominado pelo discurso masculino, Capitu ganha relevo pela independência. Nisso ela difere das outras personagens do livro, que se sujeitam à lógica do patriarcado, inclusive as mulheres — cuja existência é comparável à dos escravos. Como relata Simone de Beauvoir, na metade do século XX, “(...) a mulher sempre foi, senão a escrava do homem, ao menos sua vassala; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade de condições; e ainda hoje, embora sua condição esteja evoluindo, a mulher arca um pesado handicap” (BEAUVOIR, 1970, p. 14). A diligência de Capitu com o orçamento do casal causou admiração a Bentinho, acostumado à opulência e à despreocupação de uma família que vivia da renda de aluguel de imóveis e de escravos. Tais características são citadas pelo narrador, que as observa já na adolescência de Capitu: Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se

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hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos (ASSIS, 2008, p. 48).

Essa imagem é confirmada em outros trechos, em que Bento expõe, de forma positiva, as idéias ousadas de Capitu, que na segunda fase do romance serão usadas como argumento de condenação da personagem — devido ao seu espaço restrito na sociedade da época: Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem [...] Era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Eram de vária espécie, explicáveis e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas; gostava de saber tudo. No colégio onde, desde os sete anos, aprendera a ler, escrever e contar, francês, doutrina e obras de agulha, não aprendeu, por exemplo, a fazer renda; por isso mesmo, quis que prima Justina lho ensinasse. Se não estudou latim com o padre Cabral foi porque o padre, depois de lho propor gracejando, acabou dizendo que latim não era língua de meninas. Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber [...] (ASSIS, 2008, p. 77).

Note-se nesse trecho que a curiosidade de Capitu ultrapassava as limitações impostas às mulheres. Ela desejava dominar habilidades supostamente femininas (renda) e masculinas (latim). Enquanto a curiosidade de Capitu não tem grandes conseqüências, ela é louvada por Bentinho. Na primeira parte do romance, ela é conveniente ao narrador. A astúcia de Capitu foi fundamental para que os dois pudessem ficar juntos. Por exemplo, num momento bastante importante da narrativa, Capitu dá provas de sua insubordinação ao questionar a decisão autoritária da sogra quanto ao destino do pacato Bentinho: Capitu, a princípio, não disse nada. Recolheu os olhos, meteu-os em si e deixouse estar com as pupilas vagas e surdas, a boca entreaberta, toda parada. Então eu, para dar força às afirmações, comecei a jurar que não seria padre. Naquele tempo jurava muito e rijo, pela vida e pela morte. Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na hora da morte se fosse para o seminário. Capitu não parecia crer nem descrer, não parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. Quis chamá-la, sacudi-la, mas faltou-me animo. Essa criatura que brincara comigo, que pulara, dançara, creio até que dormira comigo, deixava-me agora com os braços atados e medrosos. Enfim, tornou a si, mas tinha a cara lívida, e rompeu nestas palavras furiosas: - Beata! carola! papa-missas! (ASSIS, 2008, p. 47).

A ousadia de Capitu tem duplo sentido. Se por um lado ela serviu para ajudar

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Bentinho a livrar-se do domínio da mãe autoritária, por outro foi considerada maléfica pelo próprio narrador na segunda parte do romance, por considerar suas idéias atrevidas demais. A condenação de Capitu — pelo fato de ser uma mulher ousada e inteligente — acontece na segunda fase do romance, onde está evidente que o modelo feminino que Bentinho procurava era aquele típico do Brasil de meados do século XIX, em que a mulher está sob a tutela do homem e não tem autonomia. Assim, a imagem de Capitu não consegue superar, no imaginário de Bento, o retrato da mãe ao lado do pai. Da mesma forma, a fotografia do amigo Escobar, morto ao desafiar o mar em dia de ressaca, é como um objeto de mau agouro sobre os umbrais de Bentinho: ele infesta a imagem do jovem Ezequiel, que, como um Dorian Gray, vai se transformando na fotografia. No passeio a que o narrador conduz o leitor, Capitu deveria figurar como uma musa típica do Brasil da segunda metade do século XIX. Numa sociedade que entra na ordem capitalista mundial com nostalgia do feudalismo agrário, a morena de Matacavalos — que encontra no casamento uma forma de ascensão social — deveria estar circunscrita aos limites do lar burguês. Na primeira fase de definição da personagem, Bentinho descreve Capitu como o objeto de desejo na adolescência, com o seu comportamento vivo e angelical, mas com a destruição que se anuncia no espelho dos outros. O agregado José Dias vê a ameaça nos olhos “de ressaca”, de “cigana dissimulada” da menina — imagem que se prolonga por toda a família. José Dias olha Pádua, o pai de Capitu, com desprezo. Bentinho mantém uma relação indiferente ao futuro sogro. O caráter do agregado José Dias se contrapõe ao de Capitu, como observa Roberto Schwarz. Enquanto a marca de distinção desta é a insurgência e a liberdade, José Dias faz parte de um conjunto de pessoas que vivem em torno da cordialidade da família patriarcal brasileira. Ele é, ao mesmo tempo, conselheiro e criado sem salário, sob a proteção de Dona Glória. Para sobreviver como protegido da família, José Dias mantém-se diante dela de maneira servil, e comporta-se de forma arrogante em relação aos pobres e a outros criados — que, no fundo, são seus iguais —, como é possível observar em seus comentários em relação à família de Capitu: (...) A gente Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu...Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação. Oh! A adulação! Dona Fortunata merece estima, e ele não nego que seja honesto, tem um bom emprego, possui a casa em que mora, mas honestidade e estima não bastam, e as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda. Pádua tem uma tendência para gente reles. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele [...] (ASSIS, 2008, p. 63-3).

À representação psicológica de Capitu pelas palavras de José Dias, que ganham força na narrativa de Bentinho, se soma a curiosidade do narrador em relação ao corpo 150 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1 | n.1|p. 141-152| 2° Semestre 2008


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da personagem. A curiosidade visual do seminarista traça a beleza bem ao gosto do patriarcado brasileiro: a menina de pele morena — de uma morenice que passa longe da negritude, esta mantida à distância —, cabelo liso e negro, as ancas largas a encher os olhos do leitor. Depois, vêm os braços, os quais Bentinho procura manter livres de curiosos. Na segunda fase do romance, Capitu aparece como uma mulher compreensiva e comprometida com a vida do casal. Aos poucos, quando Bentinho é picado pelo inseto do ciúme, parte para a mutilação de Capitu, movimento sempre protegido aos olhos da sociedade, já que, “em briga de homem e mulher, ninguém bota a colher”. Bentinho sequer dá ao leitor a oportunidade de saber o que teria acontecido com os outros 2/3 da vida de Capitu que ele escondeu. Nesta fase, a obra torna-se lacunar. Bentinho concentra seus esforços em empreender a difamação de Capitu. O romance ganha outro ritmo. O tom idílico da primeira fase, com uma narrativa cheia de detalhes, desaparece; Bentinho acelera a velocidade dos fatos e do tempo – causando uma sensação de desproporção ao leitor. Sucede à primeira centena de páginas de conquista do amor um texto ligeiro, que pontua a infelicidade e a vingança asséptica do narrador. As descrições detalhadas da beleza da morena de Matacavalos e seus olhos de ressaca, seus cabelos, suas ancas e braços são substituídas pela incompletude: o que teria acontecido àquela mulher logo depois de ter sido expulsa do Paraíso? Teria permanecido bela e astuta como no frescor da juventude? O amargor do Casmurro não lhe permite tais pensamentos — ou talvez tenha preferido escondê-los do leitor. A personagem feminina mais importante da literatura brasileira é também uma das mais incompletas: seu corpo é enfunado pelo sopro do olhar liberal de um narrador voyeur, mas é escondido pela voz masculina que fala do meio da família patriarcal brasileira.

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Capitu incompleta: indeterminação na construção do feminino em Dom Casmurro

Referências ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 1. ed. Rio de Janeiro: Mediafashion, 2008. BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 4. ed. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo: 1970, p. 14. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 7. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1985. PRIORE, Mary Del. História do amor no Brasil. São Paulo: Contexto, 2005. SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. 4. ed. São Paulo: Duas Cidades/ Editora 34. São Paulo: 2000. ______. Duas meninas. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. WOLLSTONECRAFT, Mary. A vindication of rights of women. In: ABRAMS, M.H. Norton Anthology of English Literature, v.2. New York: Norton, 1979. WOOLF, Virginia. A room of one’s owe. Disponível em: http://etext.library.adelaide.edu.au/w/ woolf/virginia/w91r/complete.html. Acesso em: 2 set. 2008.

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MOTIVAÇÃO E RELACIONAMENTO HUMANO DE UM PROFESSOR, UMA LEITURA PSICANALÍTICA Leonardo Ferrari1

Universidade Positivo

Resumo Dois problemas que o professor enfrenta, o da motivação e o do relacionamento humano, são discutidos a partir do conceito de discurso de Jacques Lacan e da análise de um personagem do livro “A Marca Humana”, de Philip Roth, demonstrando o modo como o inconsciente influencia o trabalho de quem ensina. Palavras-chave: psicanálise, motivação, desejo, discurso e inconsciente.

ABSTRACT Two problems faced by teachers, the motivation and that of human relationships, are discussed here from the concept of Jacques Lacan speach and from the analysis of a character from the book “The Human Stain” of Philip Roth, showing how unconscious influences the work of the one who teaches. Keywords: Psychoanalysis, Motivation, Desire, Discourse, Unconscious

1 Leonardo Ferrari é psicanalista, graduado em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná e Máster en Dirección y Administracción de Empresas pela Escuela Superior de Administracción y Dirección de Empresas - ESADE/Barcelona, Espanha. Trabalha como psicanalista em consultório desde 1991 e é professor da Universidade Positivo desde 1999, tanto na graduação como na pós-graduação.


MOTIVAÇÃO E RELACIONAMENTO HUMANO DE UM PROFESSOR, UMA LEITURA PSICANALÍTICA

Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo? E porque não tenho uma palavra a dizer. Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez. E se estou adiando começar é também porque não tenho guia. O relato de outros viajantes poucos fatos me oferecem a respeito da viagem: todas as informações são terrivelmente incompletas Clarice Lispector2

Quando Clarice Lispector se refere a um guia, pode-se pensar no professor. Mas, um guia guiado pelo quê? Por um saber? Por uma fantasia? Por um ideal? Esse é o problema da motivação: o que leva alguém a ocupar o lugar de professor? E, quando um professor se coloca na posição de guia, para quem ele dirige seu trabalho? Para o aluno em geral, universal ou para um aluno específico, singular? Esse é o problema do relacionamento humano: com quem nos relacionamos quando falamos? Lacan simplificou esses dois problemas através do conceito de discurso. Em seu Seminário 17 - O Avesso da Psicanálise, ele apresenta o discurso como um conjunto de quatro lugares distintos:

Através desses quatro lugares há uma “organização da comunicação, sobretudo da linguagem, específica das relações do sujeito com os significantes e com o objeto, que são determinantes, para o indivíduo, e que regulam as formas do vínculo social” (CHEMAMA, 1995, p. 47). No discurso existe um agente que, sustentado por uma verdade, agirá sobre alguém visando obter um trabalho que resulte numa produção. A partir desses quatro lugares, Lacan vai fazer girar quatro letras: “S1”, o significante-mestre, “S2”, o saber, “$”, o sujeito e “a”, o objeto causa do desejo (LACAN, 1996, p. 86). Ele formaliza então quatro tipos de discursos: o discurso universitário (onde o saber está no lugar de agente), o discurso do mestre (significante-mestre como agente), o discurso da histérica (sujeito como agente) e o discurso do analista (objeto causa do desejo como agente):

2 LISPECTOR, Clarice. A Paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998a, p. 20.

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Os dois discursos mais antigos na história são o discurso do mestre e o discurso da histérica. O discurso do mestre trata do governar e também produzir. Ele leva esse nome não só em função de ele ser o modelo de relação entre governante e governado (política), patrão e empregado (capitalismo), entre senhor e escravo (antiguidade), senhor e servo (feudalismo) mas também por ser o modo de funcionamento do inconsciente. No caso do capitalismo, o “a” assume neste discurso a produção de mais-valia pelo trabalhador, os seja, “consumou-se finalmente o truque: o dinheiro se transformou em capital” (MARX, 2003, p. 227). Ele é também o discurso do inconsciente porque é nessa cadeia de significantes (S1, S2) que teremos diversas formações do inconsciente, como, por exemplo, os atos falhos, os sonhos, os ditos espirituosos (piadas, chistes) e também os sintomas. O produto disso, o “a”, adquire aqui o significado de “mais de gozo”, que pode ser o excesso de uma risada súbita, o espanto da produção de um ato falho inesperado, a inquietação de um mal-estar inexplicável. No discurso da histérica, é esse “a”, esse objeto causa do desejo e também “mais de gozo” que vai incomodar o sujeito ($) levando-o até um “doutor”, aquele que supostamente “sabe” o que fazer, para que ele responda com seu saber sobre como resolver o sintoma, por exemplo. Como nesse discurso a produção visada é a de um saber, esse também é o discurso da ciência. O discurso universitário surgiu no século XII com o aparecimento das primeiras universidades, na Itália e na França. É o discurso do educar, em que o agente, o professor, se dirige a um aluno para que ele se transforme em um sujeito “formado” segundo um ordenamento de saberes que constitui o título universitário. O discurso mais recente na história é o discurso do analista. Ele surge com Sigmund Freud no início do século XX, através de sua obra “A Interpretação dos Sonhos” (FREUD, 1989a). É o discurso que trata do analisar, ou seja, diferente do governar e do educar, o analista se posiciona perante o outro não com o saber (universitário), não com a lei do governo ou da produção (mestre), nem tampouco com o sofrimento ou insatisfação (histérica), mas, sim, através de uma escuta muito particular, a escuta da livre associação – o analista pede ao outro que fale sem saber, ou seja, o avesso do discurso universitário. Não existe aqui uma hierarquia que supostamente se dirigiria do pior para o melhor discurso. Onde estaria situado o professor nesses discursos? Ora, isso vai depender do lugar que ele ocupe como agente do discurso. Às vezes o professor pode estar agindo como mestre fazendo o aluno trabalhar na fabricação de determinados objetos (esse é o modo próprio de funcionamento da ciência), às vezes como histérico, fazendo o aluno produzir um saber sobre a sua – do professor – questão subjetiva, às vezes como analista, possibilitando um lugar para que o aluno produza uma elaboração sobre o desejo dele – do aluno – e ,na maior parte das vezes, como universitário, falando de um lugar de saber para produzir um sujeito graduado, formado. A flecha (→) indica que o discurso ocorre através da linguagem, porém de um modo muito peculiar: A linguagem humana constituiria, então, uma comunicação em que o emissor recebe do receptor sua própria mensagem sob forma invertida (...) a fala sempre inclui subjetivamente sua resposta (LACAN, 1998a, p. 299).

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Freud pensou o problema da relação entre professor e aluno através da metáfora desconcertante de uma viagem: Que se oculte ao jovem o papel que a sexualidade cumprirá em sua vida não é a única reclamação que se pode dirigir à educação de hoje. Ela erra também por não saber preparar o jovem para a agressão cujo objeto ele está destinado a ser. Quando lança os jovens em direção à vida com uma orientação psicológica tão incorreta, a educação se comporta como se dotasse aos membros de uma expedição ao pólo com roupas de verão e mapas dos lagos italianos, (FREUD, 1989c, p. 130).

Freud adverte contra um erro que esse professor-guia pode cometer. O erro de ignorar a sexualidade e a agressividade. Nesse sentido, parece que o professor estaria motivado a, em nome de uma viagem “tranqüila”, evitar falar sobre isso. A lógica do discurso universitário opera da seguinte maneira: falando em nome de um saber (conferido por um título de mestria, S1), esse professor se dirige ao aluno situado como objeto. Esse “aluno-objeto” poderia ser comparado à crítica que faz Sócrates contra a visão da educação como um processo que escorresse do mais cheio ao mais vazio: “Seria bom, Agatão, se de tal natureza fosse a sabedoria que do mais cheio escorresse ao mais vazio” (PLATÃO, 1987, p. 10). Essa idéia que Sócrates refuta se apresenta de forma metafórica na produção do discurso universitário: o aluno formado ($), diplomado, cheio. Porém, a barra da divisão do sujeito permanece – o que dá ensejo à idéia de sempre fazer mais um curso visando à abolição da divisão do sujeito – é o sonho da razão: A astúcia da razão significa que o sujeito, desde a origem e até o fim, sabe o que quer. É aí que Freud reabre, na mobilidade de onde saem as revoluções, a junção entre verdade e saber, (LACAN, 1998b, p. 817).

Um exemplo dessa astúcia é dado por Clarice Lispector através de uma aluna chamada Sofia: Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão, e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo o que sabíamos dele. O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez do nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição com piadinhas, até que ele dizia vermelho: - Cale-se ou expulso a senhora da sala. Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. (LISPECTOR, 1998b, p. 98).

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Sofia é uma aluna de nove anos às voltas com o jogo da sexualidade e da agressão. Ela lança um desafio a esse mestre do saber, aliás, um desafio bem histérico: “mande!”. A histérica se dirige a um mestre (S1) para que ele produza um saber (S2) sobre sua inquietação ($). É que, por mais que o mestre tente, ele nunca conseguirá caber exatamente no tamanho da barra do sujeito, no tamanho de sua falta, de sua divisão. É claro que o resultado disso será a insatisfação e o pedido de mais saber e... mais insatisfação. Para Lacan, “no tocante à histérica, é a impotência do saber que seu discurso provoca, animando-se no desejo – que revela em que o educar fracassa” (LACAN, 2003, p. 445). Com isso ela demonstra o quanto a fantasia está presente ordenando os relacionamentos humanos – fantasia esta impossível de ser prevista e controlada através de um plano de ensino: O jogo, como sempre, me fascinava. Sem saber que eu obedecia a velhas tradições, mas com uma sabedoria com que os ruins já nascem – aqueles ruins que roem as unhas de espanto –, sem saber que obedecia a uma das coisas que mais acontecem no mundo, eu estava sendo a prostituta e ele o santo. Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. (LISPECTOR, 1998b, p. 99).

Como pode uma coisa ser dita sem que o eu as tenha dito? Sofia demonstra que há algo (o “a” dos discursos) que escapa ao mestre, escapa ao saber e que acaba por ultrapassar o sujeito. Essas palavras que não se deixam governar pela vontade consciente de dizer o certo, dizer o correto, seriam somente uma característica dessa aluna? A um certo tipo de coisa dita sem que o eu as tenha dito, Freud denominou ato falho. É quando alguém, sem querer, se atrapalha, fala algo que não queria, esquece alguma coisa, perde algum objeto ou age de modo errado. Para Freud, os atos falhos têm um sentido que pode ser descoberto através de análise e eles surgem pela ação conjunta de dois propósitos diferentes – um deles consciente e o outro sem que o sujeito nada saiba dele no momento do lapso, inconsciente (FREUD, 1989b). O ato falho demonstra uma outra complexidade presente na comunicação e na relação entre duas pessoas: No esquema triangular da lingüística clássica temos um emissor, um receptor e uma mensagem que aquele transmite para este. Podemos definir o inconsciente freudiano como a subversão desse esquema; como a descoberta de que o emissor só sabe qual foi realmente a sua mensagem pelo modo como o receptor a devolve a ele (...). Quem se dirige a mim o faz decerto para comunicar-me algo, mas também, e fundamentalmente, para mandar uma carta a si mesmo (...). Eu não passo do carteiro. Inversamente, eu só sei o que queria mesmo dizer pelo que o interlocutor entendeu do que eu disse. Apesar das aparências, então , o inconsciente não é do foro íntimo. Lacan diz que é o discurso do Outro. (GOLDENBERG, 2006, p. 35).

Um exemplo do que significa em um ato falho receber sua própria mensagem de maneira invertida pode ser identificado na obra “A Marca Humana”, de Philip Roth. A história se passa em 1998 nos Estados Unidos. Trata-se de um renomado professor COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 153-166| 2° Semestre 2008 | 157


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e sua relação com os alunos da Faculdade Athena. Após vinte anos lecionando letras clássicas e mais dezesseis anos como decano, o professor Coleman Silk decide se aposentar saindo do cargo de decano e retornando pelo último ano à sala de aula: Foi mais ou menos no meio do segundo semestre após sua volta às salas de aula que Coleman pronunciou a palavra auto-incriminatória que o faria desvincular-se, voluntária e completamente, da faculdade – a única palavra auto-incriminatória dos muitos milhões de outras palavras que ele pronunciara durante tantos anos de atuação na Athena como professor e administrador(...). Havia catorze alunos na turma. Coleman fizera a chamada nas primeiras aulas, para aprender os nomes. Como ainda houvesse, na quinta semana de aula, dois nomes que jamais correspondiam a nenhum dos presentes, Coleman, na sexta semana, começou sua aula com a pergunta: “Alguém conhece essas pessoas? Elas existem mesmo ou será que são “ spooks”? (ROTH, 2002, p. 15).

A palavra “spook” em inglês possui quarto acepções principais conforme o Webster’s: primeira, a de “fantasma”, “espectro” e “aparição”; a segunda, “estranho”, “excêntrico”, a terceira, “ghost-writer”, “escritor-fantasma ”, e a quarta acepção, pejorativa, “negro” (WEBSTER’S, 2002). Pela milésima vez: eu disse “spooks” querendo dizer “fantasmas”. Meu pai era dono de botequim, porém insistia que era preciso escolher as palavras com precisão, e nisso sou como ele. As palavras têm significados – meu pai só estudou até a sétima série, mas até ele sabia disso. Atrás do balcão ele guardava duas coisas para resolver discussões entre seus clientes: um porrete e um dicionário. Meu melhor amigo, ele me dizia, é o dicionário – e é verdade, pra mim também, hoje. Porque, se a gente procura no dicionário, qual é a primeira definição de “spook”? A acepção básica. “1. Aparição; espectro”. “Mas, senhor Silk, não foi assim que ela foi entendida. Vou ler a segunda definição do dicionário. “2. Pejorativo. Um negro.” Foi assim que a palavra foi entendida – e o senhor pode perceber a lógica dessa leitura também: “Alguém aqui os conhece, ou serão negros que vocês não conhecem?”. “Meu senhor, se minha intenção fosse dizer: “Alguém aqui os conhece, ou vocês não os conhecem porque são dois alunos negros?”, era exatamente isso que eu teria dito.(...) Se fosse isso que eu quisesse dizer, eu teria dito exatamente isso. Mas como eu poderia saber que eles eram negros se nunca os tinha visto e se, fora os nomes deles no diário de classe, eu nem sabia da existência dos dois. (ROTH, 2002, p. 113).

De fato, o professor não está mentindo. Como bom professor, ele preparou exatamente o que queria dizer a seus alunos. Mas, sem querer dizer “negros”, o professor Coleman Silk disse “negros”. Resultado: os dois alunos ausentes, que são negros, iniciam um processo acusando o professor Coleman Silk de racismo. É o início da queda deste professor. Tropeçando na palavra “spooks”, o professor foi ao chão. Mas o que teria motivado o professor a se relacionar desse modo com esses alunos ausentes? A resposta de Philip Roth permite pensar sobre o que é o inconsciente e como ele opera: o professor Coleman Silk disse “negros”, sem querer, porque ele é/ foi negro. Ele tinha a pele clara mas era filho de negros. Assim, a quem ele realmente se dirige no momento da chamada? Quem ele chama aí? Não são apenas os alunos 158 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 153-166| 2° Semestre 2008


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que não vieram à aula. Além disso, parece que o relacionamento humano aqui não é apenas com ele mesmo – com quem ele foi mas não é mais – mas também com o “fantasma” do pai morto, também negro. Tal qual Hamlet às voltas com a aparição do pai, Coleman Silk transformou em sua fantasia o espaço da sala de aula no castelo de Elsinore (SHAKESPEARE, 1988). Ou, nas palavras de Freud, Coleman Silk sem querer está falando de mapas de lagos italianos para quem não tem nada a ver com isso - pois se trata da subjetividade em questão. Essa confusão entre aquilo que se queria dizer e aquilo que de fato disse levou Lacan a pensar que “está claro que todo ato falho é um discurso bem-sucedido” (LACAN, 1998a, p. 269). Um discurso bemsucedido do inconsciente. É aqui que se apresenta um sério limite ao professor em sala de aula: seu inconsciente, seu desejo. Isso não está no mapa e ao mesmo tempo é disso que o professor fala o tempo todo sem se dar conta. Nesta cartografia, não é de letras clássicas que se trata, mas, sim, da letra do desejo. O professor é também o emissor de uma mensagem que se dirige para ele mesmo – daí o pressuposto de toda fala conter subjetivamente sua resposta. Porém, ele só pode saber disso através do outro. Para entender melhor de que modo o inconsciente motiva o relacionamento humano, podese continuar a investigar a história desse personagem. Quem era Coleman Silk antes desse tropeço acontecer? Coleman era branco, judeu, casado, pai de três filhos. Ou ao menos é assim que ele se apresentava já há trinta e seis anos nessa Faculdade. Acontece que Philip Roth havia preparado uma surpresa para o leitor. Coleman Silk não é branco, mas negro. Não é judeu tampouco. Coleman Silk inventou uma nova identidade. A construção desta nova identidade começou aos dezessete anos quando ele terminou a Escola Secundária como o aluno negro mais bem colocado (ROTH, 2002, p. 116). Vem de seu treinador de boxe, seu guia, o judeu Doc Chizner, com vistas a uma bolsa de estudos para a Universidade de Pittsburgh, a instrução de não tocar no assunto sobre a cor da pele, uma vez que Coleman Silk não tem a pele escura: “mesmo sua cor, que por vezes o tornava difícil de classificar” (ROTH, 2002, p. 138), “com aura ambígua dos mulatos claros que às vezes passam por brancos” (ROTH, 2002, p. 27): Não que no caminho, Doc o instruísse a dizer ao treinador de Pittsburgh que ele era branco. Disse-lhe apenas que não mencionasse que era negro. “Se ninguém tocar no assunto”, disse Doc, “não vai ser você quem vai puxar. Você não é nem uma coisa nem outra. Você é o Silky Silk. Basta isso. (ROTH, 2002, p. 130).

Nem uma coisa nem outra. Mas esse não era o desejo de seu pai. O pai que nunca perdia a calma. O pai que sabia se impor de outra maneira. Com palavras. Com a fala. Com o que ele chamava de “a língua de Chaucer, Shakespeare e Dickens”. Com a língua inglesa, que ninguém lhe podia tirar, e que o sr. Silk fazia ressoar, sempre num tom encorpado, claro e desafiador, como se mesmo numa conversa cotidiana estivesse recitando a fala de Marco Antônio diante do cadáver de César. Cada um de seus três filhos recebera um segundo nome extraído da peça que ele melhor conhecia de cor, a peça que, na sua opinião, era o ponto culminante da literatura inglesa e o mais instrutivo estudo sobre a traição já escrito: o filho mais velho chamava-se Walter Antony;

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o segundo, Coleman Brutus; e a filha menor, Ernestine Calpurnia, recebera o nome da leal esposa de César. (ROTH, 2002, p. 123).

Foi esse pai “imenso” que “apenas com o poder de sua fala despertara em Coleman, sem ter essa intenção, o desejo de ser magnífico” (ROTH, 2002, p. 141) . Como se transformar em “magnífico”? A mudança de seu sobrenome indica o modo como Coleman imaginou fazer isso. O professor Coleman Silberzweig da Faculdade Athena tem outro nome de batismo: Coleman Brutus Silk. Ele acredita ter ido de encontro ao desejo paterno: “depois que realizei o sonho do meu pai e me tornei um professor universitário super-respeitável, pensei, tal como meu pai, que a vida séria não terminaria nunca mais” (ROTH, 2002, p. 36). A questão é que não é como filho de seu pai que ele foi ocupar esse lugar de professor. Não como Coleman Brutus Silk, mas como Coleman Silberzweig. Logo, não é o sonho do pai que ele realizou. Ao contrário, pois para ser esse “super-respeitável” professor, ele realizou uma negação do pai, um apagamento daquilo que em sua fantasia não seria “respeitável”. Negação e mentira sobre seu passado, sobre seu nome. Tampouco seu pai foi dono de botequim. Optometrista até falir durante a Grande Depressão (ROTH, 2002, p. 115), o Sr. Silk morre trabalhando como garçom de um vagão-restaurante da Estrada de Ferro Pennsylvania (ROTH, 2002, p. 139). Na invenção de uma nova identidade, Coleman Silk trai o desejo de seu pai – como Brutus fez com César. Como se transformar em “nem uma coisa nem outra”? O segundo passo da construção dessa nova identidade ocorre quando Coleman Brutus segue o desejo de seu pai e ingressa na Howard University, em Washington, para estudar medicina, “uma instituição só para negros” (ROTH, 2002, p. 135). Na primeira semana nesta universidade, ao sair para passear na avenida Woolsworth’s (no centro da cidade), ao solicitar um cachorro-quente, ele foi chamado de “crioulo” e não teve servido seu cachorro-quente. Mas porque alguém, só agora, havia chamado Coleman de crioulo, afinal ele se dava conta da formidável barreira que seu pai sempre fora para ele, protegendolhe do grande perigo americano. (ROTH, 2002, p. 139).

É após a morte de seu pai, ocorrida nesse mesmo ano em que ele ingressara na Howard – a morte dessa “formidável barreira” de proteção – que Coleman decide abandonar esta universidade. Na Howard, Coleman não descobriu apenas que era um crioulo em Washington, D.C. – como se esse choque não bastasse, descobriu também que era negro. Não só isso, mas também que era um negro da Howard. Da noite para o dia, o eu nu e cru fazia parte de um nós com toda a solidez arrogante do nós, e Coleman não queria nenhuma relação com aquele nós, nem com nenhum outro nós opressor que viesse a aparecer. (ROTH, 2002, p: 141-142).

É a partir da morte do pai que ele decide “ser livre”: Livre agora não apenas de seu pai mas de tudo aquilo que seu pai teve de suportar. As imposições. As humilhações. Os obstáculos. A mágoa, a dor, o fingimento, a vergonha – todas as agonias interiores do fracasso e da derrota.

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Em vez disso, livre no palco maior. Livre para seguir adiante e ser magnífico. Livre para representar o drama ilimitado e autodefinidor dos pronomes nós ,eles e eu. (ROTH, 2002, p. 143).

Para ser “livre” e “magnífico”, Coleman descobre que, faltando um mês para ele completar dezoito anos, ele poderia mentir sobre a idade e se alistar antes na segunda guerra que se desenvolvia na Europa (outubro, 1944). Ora, se podia mentir sobre a idade, podia mentir também sobre sua raça, “podia ter a cor que quisesse, dependendo de seu interesse” (ROTH, 2002 : 143). Essa “liberdade” encontra seu primeiro obstáculo em uma prostituta. Até mesmo naquela noite no puteiro em Norfolk, em que a mulher que o observava da cama enquanto ele tirava o uniforme peça por peça (...) sorriu um sorriso azedo e disse: “Você é crioulo, não é garoto?”, e dois brutamontes foram chamados para expulsá-lo” (ROTH, 2002, p. 150).

Mas é uma outra mulher quem vai modificar para sempre o rumo dessa “liberdade”. Coleman dá baixa em 1946 e, através de um auxílio aos ex-combatentes, ele ingressa na Universidade de Nova Iorque: “bastou começar a assistir às aulas para que ele passasse a tirar as melhores notas e se interessar, e no final do segundo ano já estava bem colocado para se tornar membro da sociedade honorária Phi Beta Kappa e formar-se em letras clássicas com o grau summa cum laude” (ROTH, 2002, p. 144). É nesse período que ele conhece e se apaixona por Steena Palsson, “filha americana de sangue irlandês e dinamarquês, que remontava ao rei Canuto, no mínimo” (ROTH, 2002, p. 161), branca - “o poder da alvura de Steena era visível, claro como a luz do dia. Aquela coisa branca e imensa” (ROTH, 2002, p. 151). Do pai negro imenso à mulher branca imensa. Há uma imensidão que se repete na história de Coleman. Não por acaso seu ato falho também será imenso. Dois anos após conhecêla, ele decide que é chegada a hora de apresentá-la à sua família, “porém ele não conseguia dizer-lhe que era um homem de cor. Quando se imaginava pronunciando as palavras necessárias, sentia que ao dizê-las estaria fazendo as coisas parecerem piores do que eram – ele próprio pareceria pior do que era” (ROTH, 2002, p. 155), afinal de contas “tudo o que ele sempre quisera, desde pequeno, era ser livre: não negro, nem mesmo branco – simplesmente independente e livre” (ROTH, 2002, p. 157). Após Steena conhecer a mãe e a irmã de Coleman, após o almoço com a família, no retorno a Nova Iorque, Steena diz a Coleman: “Não consigo!” (ROTH, 2002, p. 163). É o final do relacionamento. “Se Steena tivesse topado, ele teria vivido uma outra vida” (ROTH, 2002, p. 165). Steena não topou. Ela não o chamou de crioulo dessa vez. Ela fez pior. Ela o abandonou para sempre. Coleman se viu às voltas de novo com um desamparo fundamental. O primeiro se deu no início da vida, aonde a ajuda do outro é essencial para o sujeito crescer (FREUD, 1995). E aí, nesse estado de desamparo, ele foi procurar ajuda em uma anti-Steena, a judia Iris Gittelman, com tudo em comum, “menos a paixão erótica” (ROTH, 2002, p. 24). No entanto, com Iris, Coleman almeja a “ambição”, “um patamar mais alto” (ROTH, 2002 : 176-177). Um patamar imenso? Não seria a tentativa de abolir o desamparo? E é por isso que ele diz a Iris que ele, Coleman Brutus, é judeu. Que Silk era uma forma atenuada de COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 153-166| 2° Semestre 2008 | 161


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“Silberzweig” (ROTH, 2002, p. 170). É para atingir esse “patamar mais alto” que Coleman abandona o dístico “eu sou o que você quiser que eu seja” (ROTH, 2002, p. 173) e decide andar para sempre de armadura – a roupa do herói (ROTH, 2002, p. 176). Só que a armadura agora se chama essa identidade judaica, essa identidade branca. Coleman opera aqui uma substituição: a barreira de proteção paterna pela nova identidade.Há um preço ainda a pagar por essa troca definitiva de identidade. É o momento em que ele decide assassinar simbolicamente sua mãe – ele já havia feito isso com seu pai, tentando evitar com isso o que aconteceu com Steena. Para não perder Iris, para não perder o “patamar mais alto”, Coleman mata simbolicamente sua família, “assassinando sua mãe em nome de sua inebriante idéia de liberdade!” (ROTH, 2002, p. 180). É um crime que Coleman comete. Não é precisamente essa a acusação que lhe retorna dos alunos ausentes em sala de aula, a partir do ato falho, ou seja, “racista”? O crime de jamais apresentar sua esposa e seus futuros filhos à sua mãe e à sua família. O crime de arrancar suas raízes, negar sua ascendência. É como se, numa fantasia neurótica, Coleman se transformasse nesse gesto em pai e mãe de si mesmo – o perfeito self-made man. Nas palavras de Lacan, “o neurótico é, no fundo, um Sem-Nome” (LACAN, 1998b, p. 841). Esse Édipo da modernidade não é o mesmo da antiguidade. O Édipo grego não sabia o que estava fazendo (FERRARI, 2005). Coleman pensa que sabe. Como homem da modernidade, autocentrado no eu e na consciência, um indivíduo (BIRMAN, 2006), Coleman é o legítimo representante de uma nova era: a era da individualidade substituiu a da subjetividade: dando a si mesmo a ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma independência sem desejo e de uma historicidade sem história, o homem de hoje transformou-se no contrário de um sujeito” (ROUDINESCO, 2000, p. 14).

E é como um paladino dessa liberdade sem limites que esse homem irá se transformar em um professor. Irá se tornar “super-respeitável”. Só respeitável não basta. Uma liberdade que encontra nas palavras de sua mãe o epitáfio: Sempre houve alguma coisa na nossa família, e não estou falando na cor, não - havia alguma coisa em nós que era um obstáculo para você. Você raciocina como um prisioneiro. É verdade, Coleman Brutus. Você é branco como a neve e pensa como um escravo. (ROTH, 2002, p. 181-182).

Essa resposta da mãe de Coleman possibilita pensar a diferença entre o discurso universitário e o discurso do analista. A resposta da mãe-analista, nesse instante, não consola, não educa, não completa o sujeito – o analista não fala do lugar de mestre (S1), nem do lugar de saber (S2), muito menos no de sujeito ($). Ao contrário, é uma resposta que descompleta, opera uma separação entre aquilo que o sujeito acredita ser – o saber - e aquilo que ele faz de fato – a verdade. A crença em ser um educador diante do fato de agir como criminoso. Escravo. Eis aí uma metáfora inusitada para ilustrar esse professor. Aquele que se acreditava senhor, mestre absoluto (deus?) foi confrontado com um ato falho devastador. É como se o ato falho viesse como a fatura de uma dívida que esse sujeito 162 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 153-166| 2° Semestre 2008


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passou a vida se negando a pagar – a dívida de ter um nome de família, de pertencer a uma história da qual ele é passageiro, e não só guia. É por isso que, sem querer, sem perceber, quando ele pensa estar como emissor (professor) dirigindo uma mensagem (a chamada) para o receptor (alunos que não vieram à aula), eis que a mensagem ultrapassa completamente sua vontade consciente, dirigindo-se para “fantasmas” e vindo do outro (“racista”) algo que faz parte da história recalcada, da história encoberta (espectros?) do próprio Coleman. É a sua fala incluindo subjetivamente sua resposta. Esse retorno do inconsciente sobre a razão implica uma advertência. O inconsciente não pode ser dominado pela razão. No entanto, a relação do sujeito com o inconsciente pode ser modificada através de uma análise – o que não pode ser feito em sala de aula nem por mais um curso universitário, pela obtenção de mais um grau de saber. Estar advertido pelo inconsciente não significa paralisia: Freud, em duas oportunidades – “Prefácio” ao livro de Aichorn e “Análise Terminável e Interminável” (1937) –, afirmou ser a educação uma profissão impossível. Mais ainda, assinalou que não seria a única, pois a ela devemos somar ainda a política e a própria psicanálise. Impossível significa que não adianta fazer nada? Não. O leitor deve lembrar que a psicanálise não é justificativa para o cinismo. A impossibilidade faz com que, na psicanálise, na política e na educação, os resultados sempre deixem a desejar, porque sempre estão aquém ou além do pretendido. Por sinal, o português mostra sua sabedoria na expressão “deixa a desejar”, que é, justamente, fazer desejar! São profissões da falta, em que sempre algo falta no seu lugar. São profissões da fala. (LAJONQUIÈRE, 2006, p. 24).

Ora, o exemplo do ato falho de Coleman Silk indica que o domínio sobre a própria palavra é impossível. Quanto mais sobre a palavra do outro: Aí está o paradoxo. A palavra, ensina a Psicanálise, é ao mesmo tempo lugar de poder e submissão; de força e de fraqueza; de controle e de descontrole. Como então construir um edifício educacional sobre uma base paradoxal, incoerente? Impossível não é sinônimo de irrealizável, mas indica principalmente a idéia de algo que não pode ser jamais integralmente alcançado: o domínio, a direção e o controle que estão na base de qualquer sistema pedagógico. (KUPFER, 2001, p. 59).

Nesse sentido, este é um limite ao discurso universitário. A idéia de que a pedagogia é uma questão de teoria, de doutrina, de que pode haver uma ciência da educação, se baseia na ilusão da possibilidade de domínio sobre os efeitos da relação do adulto com a criança. Quando o pedagogo imagina estar se dirigindo ao Eu da criança, o que está atingindo, sem sabê-lo, é seu Inconsciente; e isto não ocorre pelo que crê comunicar-lhe, mas pelo que passa do seu próprio Inconsciente através de suas palavras. Não há outro domínio que o do Eu, mas trata-se de um domínio ilusório. O que há propriamente eficaz na influência exercida por uma pessoa em outra pertence ao registro dos respectivos Inconscientes. Na relação pedagógica, o Inconsciente do educador demonstra possuir um peso muito maior que todas as suas intenções conscientes.

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(MILLOT, 2001, p. 150).

Estar advertido pelo inconsciente não significa impotência. Quando Freud se refere ao erro da educação em ocultar e em não preparar o sujeito, Freud não está pensando em desistir da educação. Tampouco Lacan está indicando que o discurso analítico seria superior ou inferior ao discurso universitário. São diferentes. O que se trata é constatar de que modo é possível pensar uma educação que leve em conta o inconsciente. E levar em conta o inconsciente significa estar aberto para o imprevisível, para o inusitado, para o anormal, para o desequilibrado, para o novo. Nas palavras de Hannah Arendt: A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum. (ARENDT, 2003, p. 247).

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Leonardo Ferrari

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A UNIVERSIDADE E A FORMAÇÃO DO INTELECTUAL Pedro Elói Rech1

Universidade Positivo

Resumo A partir das frases em epígrafe procuramos fazer um estudo sobre os intelectuais: quem são; como se formam; qual é a sua origem histórica; do que se ocupam e quais são os seus dilemas. O nosso objetivo foi o de refletir sobre a sua função e as suas responsabilidades, especialmente num mundo em que cada vez mais perdem importância para os especialistas, acompanhando o presente momento histórico em que os interesses coletivos e universais são preteridos em nome dos interesses particulares e privados. Palavras-chave: Intelectuais, especialistas, formação, público e privado

ABSTRACT From these epigraphs we try to do a study about the intellectuals: who they are; how they do form; what is their historical origin; what they do and what are their dilemmas. Our objective was to reflect about their function and responsibilities, specially in a world where more and more they lose importance for the specialists, following the current historical moment where the collective and universal interests are neglected over the private and particular interests. Keywords: Intellectuals, specialists, private and particular interests

1 Possui graduação em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição (1968) , especialização em Desenvolvimento econômico e social brasileiro pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Umuarama (1976) , especialização em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Estadual de Londrina (1981) e mestrado em Mestrado em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1999) . Atualmente é Professor horista da Universidade Positivo. Tem experiência na área de Educação , com ênfase em HISTÓRIA E FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO.


A UNIVERSIDADE E A FORMAÇÃO DO INTELECTUAL

“Os jornalistas são trabalhadores intelectuais.” Eugênio Bucci “Os intelectuais têm a responsabilidade de dizer a verdade e denunciar mentiras.” Noam Chomsky

Uma proposta de trabalho Este texto tem como finalidade relatar experiências de sala de aula e imbuí-las com a luz da reflexão. Tivemos uma experiência muito significativa quando trabalhamos, dentro da disciplina de Filosofia, no curso de Jornalismo, o livro de Eugênio Bucci Sobre Ética e Imprensa. Deste livro pinçamos uma frase, já assinalada na epígrafe, para uma reflexão maior. “Os jornalistas são trabalhadores intelectuais” (BUCCI, 2000, p. 75). Posteriormente, na disciplina de Teoria Política, trabalhamos partes do livro de Noam Chomsky, O poder americano e os novos mandarins. Deste livro mereceu especial destaque o capítulo A responsabilidade dos intelectuais, onde encontramos a outra frase, também assinalada em epígrafe. “Os intelectuais têm a responsabilidade de dizer a verdade e denunciar mentiras” (CHOMSKY, 2006, p. 373). A partir dessas frases ou desses conceitos partimos, para o revestimento da ação docente, com algumas reflexões mais aprofundadas sobre o significado da palavra intelectual, de sua formação de suas funções e posturas, os temas com os quais se envolve e a relevância que ele adquire nos tempos presentes. Para tanto, ocupamonos com a releitura dos livros já nominados, e buscamos o aprofundamento no livro organizado por Eduardo Novaes O Silêncio dos Intelectuais (NOVAES, 2006), especialmente em um de seus ensaios, o de Fausto Wolff, Dilemas dos Intelectuais, entremeado também de outras reflexões contidas neste livro, além de algumas evocações de leituras anteriores sobre o tema. A tarefa foi muito mais difícil do que prevíamos no início, em função da densidade intelectual dos ensaios contidos no livro de Chomsky e, especialmente, nos daqueles que compõem o livro organizado por Novaes. As dificuldades maiores foram no sentido de dar um ordenamento ao texto, em vista da profundidade e amplitude do tema e com as delimitações necessárias, próprias a um texto desta natureza. O objetivo deste trabalho é o de embeber as atividades do cotidiano com a reflexão teórica, concretizando o nosso trabalho como práxis, característica fundamental do trabalho humano, e possibilitar a tomada de atitudes profundamente comprometidas com os valores efetivamente humanos e que permitam, a nós e aos alunos, vislumbrar o futuro, como uma utopia a ser construída e para que não nos aprisionemos no tempo, eternizado na imobilidade do presente, como muitos pretendem.

O TRABALHO E A RESPONSABILIDADE DOS INTELECTUAIS Este texto não tem a pretensão de fazer uma análise do livro de Bucci. Nele buscamos apenas o mote para esta reflexão, de que o jornalista exerce o trabalho de um intelectual. Buscamos apenas o entorno em que o autor faz esta afirmação. À característica do trabalho intelectual, o autor acrescenta ainda outra, assalariado. O próprio Bucci sintetiza assim este seu pensamento: “Repetindo: o jornalista vive de

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vender seu trabalho intelectual e seu talento no mercado. A sua ética tem muito a ver com esta condição” (BUCCI, 2000, p. 76). Competência e valores éticos seriam as duas grandes questões deste trabalhador intelectual, em que a sua integridade pessoal é, simultaneamente, o começo e o fim dos valores que o acompanham.Estes temas são trabalhados nos diferentes capítulos do livro, leitura obrigatória para estudantes de jornalismo. Uma importante observação se faz necessária para chamar a atenção, em torno da estruturação dos chamados eixos pedagógicos dos cursos de Comunicação da Universidade Positivo. Eles estão fundamentados na práxis e visam à formação integral de seus futuros profissionais, cuidando simultaneamente de sua formação técnica, teórica e ética, sintetizada em seus eixos pela distribuição das disciplinas nos campos do saber fazer, do saber pensar e do saber agir ético. O texto referência de Chomsky é mais provocativo e polêmico. É centrado nas funções e compromissos que necessariamente o intelectual deve assumir para com os destinos da humanidade. O palco que serve de cenário para as suas reflexões é o da guerra do Vietnã (1965 – envio de tropas – 1973 – retirada e 1975 – reunificação do Vietnã). Chomsky participou ativamente dos movimentos de resistência a esta guerra por meio de palestras e algumas delas foram reunidas em livro, publicado em 1969. Este livro chegou ao Brasil apenas em 2006. O principal motivo de sua publicação apenas agora é o da nova guerra em que os americanos estão envolvidos, a guerra do Iraque. O livro é dedicado “aos bravos jovens que se recusam a prestar serviço numa guerra criminosa” e é prefaciado por outro intelectual e companheiro de lutas, Howard Zinn. Zinn nos apresenta o autor e o editor do livro, André Schiffrin, dizendo que ambos tinham em comum o apego aos princípios igualitários, a vontade de denunciar ao mundo a crueldade imperial americana e fazer a crítica aos intelectuais americanos, apresentados como os “novos mandarins”2 e a sua subserviência, aberta ou sutil, aos governantes. Chomsky é apresentado como filósofo da linguagem, comparável em seu campo à grandeza de intelectuais, como Einstein na Física e Freud na Psicologia, mas que transcende ao seu campo específico, ao assumir a posição de que os intelectuais têm a responsabilidade de dizer a verdade e denunciar mentiras. O intelectual deve representar um forte chamamento à consciência e ao sentido de responsabilidade, nos afirma Zinn, para depois mostrar as origens da formação deste intelectual. Aos 10 anos já acompanhou a Guerra Civil espanhola, escrevendo sobre a mesma, no jornal da sua escola, e aos 13, já vasculhava as livrarias em busca da compreensão dos pensadores anarquistas, com os quais se identifica até hoje. Aos 29 anos escreve a obra que o consagra em seu campo – As estruturas sintáticas. Zinn atribui ainda que a ligação entre a lingüística e as convicções políticas se deve a sua crença de que existe uma “natureza humana fundamental baseada num 2 Mandarim – termo derivado de mandar. No dicionário Aurélio tem os seguintes significados: 1. alto funcionário público, na antiga China e 2. manda-chuva – os mandarins da política. (FERREIRA, 2004,p. 1262).

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instinto de liberdade” (apud ZINN, p. 13). Apresenta ainda os principais envolvimentos políticos de Chomsky para concluir: “é esta a responsabilidade dos intelectuais, valerse dos talentos que acaso tenhamos – para expor as mentiras e dizer a verdade – com o objetivo de criar um mundo melhor” (ZINN, 2006, p. 16). Chomsky já na introdução do livro começa a falar da guerra do Vietnã, apresentando-a como uma guerra colonial clássica, decidida por um governo liberal, para impor a vontade americana ao país, e que recebeu o apoio de muitos políticos, intelectuais e especialistas acadêmicos. Ao buscar as causas destes apoios mostra o envolvimento destes intelectuais no domínio de uma tecnocracia liberal a serviço da ordem vigente e ciosos de representar os interesses da justiça e humanidade. Busca explicações para estes comportamentos adesistas em Randolph Bourne, que em ensaio de 1917 aponta a adesão intelectual e o entusiasmo de jovens com a guerra, devido à mudança nas faculdades, que passam “de uma formação que dava ênfase aos estudos clássicos para outra que privilegia os valores políticos e econômicos” e que promovem uma “identificação entre a guerra e esses homens” e que movidos pelo pragmatismo “imbuíram-se literalmente de uma atitude instrumental diante da vida” e que pela inteligência “vêm-se transformando em eficientes instrumentos da técnica da guerra, acatando sem muito questionamento as metas propostas pelo alto escalão (Apud CHOMSKY, 2006, p. 20-1). Busca também em Bourne a esperança da alteração deste quadro, apontando que um clima mais cético, malicioso, desesperançado e irônico poderá proporcionar a fermentação do novo, em que a insatisfação se poderá transformar em promessa. Isso ocorrerá quando houver a substituição do fascínio técnico pelo “fascínio das idéias novas e verdadeiras, da livre especulação, do vigor artístico, dos estilos culturais, da inteligência permeada de sentimento e do sentimento dotado de contornos e fibra pela inteligência” (Ibidem, p. 22). Esse desafio foi atual quando escrito por Bourne e lembrado por Chomsky e, acima de tudo ainda está presente nos dias de hoje, dias de domínio da incredulidade. Ao apresentar os temas dos diferentes ensaios, critica a postura dos liberais americanos, sua objetividade ou neutralidade afirmando que ao aceitar a presunção da legitimidade do debate sobre determinadas questões “já perdemos a nossa humanidade”(24). São questões sobre as quais não podem pairar dúvidas e que se estas existirem já “estaremos nos degradando e insultando além da medida as vítimas de nossa violência e de nossa cegueira moral”. Depois faz a afirmação categórica de que “a guerra é simplesmente uma vergonha, um ato depravado de homens fracos e depravados”(24). Interroga também se os crimes de guerra mostram efetivamente ao mundo o funcionamento das instituições livres do país e a imunidade diante do sofrimento e, verdadeiramente, se desespera quando constata que entre os argumentos contrários à guerra, o de maior aceitação junto ao povo, é o dos altos custos que essas guerras envolvem e não as considerações de ordem moral. Uma forte incursão contra os intelectuais e seus argumentos é apontado por observações que faz de Joseph Harsch sobre as frustrações causadas por bombardeios 170 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 167-182| 2° Semestre 2008


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limitados. Harsch afirma que os bombardeios devem ser sempre suficientemente fortes e provocar estragos suficientes para chamar os adversários para a negociação e que isso deve ser levado em conta, na escolha dos alvos. Outra cena ele toma do New York Times que apresenta uma matéria sobre uma exposição no Museu da Ciência e Indústria de Chicago, que comunicava não ser mais possível ver na referida exposição crianças atirando em alvos vietnamitas, que, uma vez atingidos, sinalizavam aos atiradores com uma luz que se acendia. A brincadeira havia sido proibida. Chomsky diante deste quadro de degradação moral conclui que apenas resta chorar por um país assim, apresentando ainda a raiva, a indignação e a confissão de terríveis culpas como boas terapias. Dirige também suas críticas àqueles que conclamam à revolução em um momento em que não existem os germes das novas instituições e uma consciência moral e política necessária para as novas instituições alternativas. Categoricamente afirma: “Se uma revolução vier a ocorrer na América de hoje, será sem dúvida um movimento em direção a algum tipo de fascismo” (Ibidem, p. 33). Lembramos que Chomsky é filiado politicamente ao anarquismo, ou ao socialismo libertário. Nunca foi defensor do socialismo real soviético3. Termina a introdução apresentando as dificuldades, alegando que mais do que opções deliberadas, de escolhas livres, são os hábitos inconscientemente adquiridos que impedem as mudanças. Este fenômeno ocorre tanto “numa sociedade fragmentada e competitiva (quando) os indivíduos não são capazes de descobrir seus interesses nem agir em sua defesa, como não são capazes de fazê-lo quando impedidos de se associar livremente por controles totalitários” (Ibidem: 34). Considera, ainda, que o renascer do pensamento anarquista se constitui num dos fatos mais promissores dos últimos anos e cita uma descrição que Einstein faz para a Liga de Resistência à Guerra, em que afirma que é através da união que os indivíduos saem da solidão e do isolamento e assumem com coragem o cumprimento do que consideram seu dever. Assevera que “a existência de uma elite moral dessa natureza é indispensável para a preparação de uma mudança fundamental na opinião pública, mudança que, nas atuais circunstâncias, é absolutamente necessária para que a humanidade possa sobreviver” (apud CHOMSKY, p. 36). Cita ainda o famoso episódio em que Einstein revela que não saberia responder sobre que armas seriam usadas numa Terceira Guerra Mundial, mas que com certeza, numa quarta, seriam empregados porretes e pedras. O mais famoso ensaio do livro – A Responsabilidade dos Intelectuais – inicia com uma referência a um livro do pós-guerra de autoria de Dwight Macdonald em que aparece esta questão. Afirma ser a responsabilidade dos intelectuais, ainda maior que a dos povos, uma vez que estes estão em melhores condições de “denunciar mentiras dos governos, de analisar os atos de acordo com suas causas, seus motivos e não raro suas intenções ocultas. Pelo menos no mundo ocidental, detêm um poder decorrente da liberdade política e da liberdade de expressão” (apud CHOMSKY, p. 372). Do pós-guerra Chomsky passa para a responsabilidade dos intelectuais na década de 3 A respeito deste socialismo real parece que Rosa de Luxenburgo teve uma premonição, quando advertiu Lênin, em 1918, de que “os métodos bolcheviques levariam primeiro à ditadura de um partido, depois a uma ditadura do Comitê Central do partido, e finalmente ao regime absoluto de um membro do Comitê Central (HITCHENS, 2007, p. 88-9).

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60, quando enuncia o famoso conceito citado na epígrafe: “Os intelectuais têm a responsabilidade de dizer a verdade e denunciar mentiras” (CHOMSKY, p. 573). O autor mostra a seguir que os mandarins inúmeras vezes recorrem a mentiras em nome do chamado “interesse nacional” e ainda estranha a pouca reação que estas mentiras provocam. Denuncia o seu caráter ideológico com o uso de argumentos de que as ações de invasão são para a ajuda dos povos e que os bombardeios muitas vezes são feitos apenas para chamar para a mesa de negociações, em nome de um mundo livre. Em nome desta ideologia faz a análise de várias intervenções e cita novos argumentos de governantes e de porta-vozes. Sempre é ressaltada a necessidade da defesa e propagação da doutrina que afirma a dignidade do indivíduo frente ao Estado e que impõe medo ao povo, com a falta de escrúpulos dos adversários, quanto aos métodos usados para alcançarem seus objetivos. As análises de ações impregnadas de idealismo, de valores religiosos e éticos superiores prosseguem nas análises do autor. Denuncia ainda as certezas das quais estão imbuídos os intelectuais da oficialidade, que se consideram responsáveis e que apontam para qualquer crítica fora da realpolitik como destituídas de bom senso, sentimentais, emocionais e até histéricas, nocivas e perniciosas aos interesses nacionais. A esta altura do ensaio aparece a designação que confere a estes intelectuais, qualificando-os de especialistas. Contra eles traz o argumento de que nenhuma política de Estado pode estar imune a críticas e que a atual agressividade americana é uma força dominante nas relações internacionais, que precisa ser analisada do ponto de vista de suas causas e motivações, não podendo ser absolvida a priori, por razões de Estado. Segue mostrando os argumentos dos especialistas, em nome da realpolitik. Estes se constituem de professores, pastores e homens de Estado e destaca que muitos de seus argumentos só encontram paralelo nas mais absurdas políticas totalitárias do regime nazista. Após várias investidas faz a denúncia de que o culto ao especialista é simultaneamente de interesse próprio, para os que o preconizam como também fraudulento. Voltando ao tema da responsabilidade do intelectual entra no cerne da questão, afirmando que a principal preocupação deve ser o seu papel na criação e na análise da ideologia. Traz ao cenário o famoso ensaio de Daniel Bell sobre o fim das ideologias, em que sustenta a idéia de que as ideologias acabaram, pelo menos no que se refere ao conceito marxista de classes e que agora tudo deve ser resolvido no contexto de um estado de bem-estar social. Chomsky faz a síntese dos pontos essenciais do texto de Bell: elas se exauriram, ao menos enquanto alavancas sociais e que, como conjunto de crenças impregnadas de paixão, se julgavam com o poder de transformar um modo de vida como um todo. Na síntese que faz de Bell continua mostrando que estes intelectuais não mais vêem a necessidade da transformação radical da sociedade, uma vez que foi alcançada uma sociedade pluralista de bem-estar social e que estes chegaram a um consenso, responsável pelo fim das ideologias. Bell encontra, inclusive, para estes radicais de outrora, importantes funções – de elevado prestígio-na gestão deste Estado. E ironicamente conclui: “Bell parece alimentar a fé utópica de que os especialistas técnicos serão capazes de resolver os poucos problemas que ainda restam; por exemplo, o fato de que o trabalho seja tratado como mercadoria e os problemas da ‘alienação’ (Ibidem, p. 394-5). Afirma ainda que o consenso por 172 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 167-182| 2° Semestre 2008


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eles construído, fundado numa tecnocracia isenta de valores e utilizado para justificar a aplicação do poderio imperialista americano. Chomsky inicia as conclusões do seu ensaio voltando para a questão da responsabilidade dos intelectuais que têm por dever enxergar os acontecimentos em sua perspectiva histórica. Afirma que não adianta fazer guerras para que países continuem sendo sociedades abertas, se por sociedades abertas entendemos apenas estarem abertas à penetração econômica ou ao controle político dos Estados Unidos e que não podemos praticar genocídios em nome da defesa da liberdade e dos direitos humanos. Afirma ainda que a nova forma de imperialismo não consiste em anexar territórios mas, sim, em forçar para que as sociedades se abram aos interesses do imperialismo do livre mercado. No encerramento do ensaio ocorre um retorno a Macdonald com a pergunta: “Que foi que eu fiz?” Afirma que este é o tipo de pergunta que o americano deve se fazer diariamente diante do anúncio de novas atrocidades no Vietnã – “à medida que vamos criando, vociferando ou tolerando as imposturas que serão usadas para justificar o próximo ato de defesa da liberdade”(411).

A QUESTÃO DOS INTELECTUAIS: SITUANDO HISTORICAMENTE Por uma série de razões, especialmente em virtude das delimitações que um texto exige, optamos por situar a questão dos intelectuais em seu contexto histórico no ensaio de Francis Wolff – Dilemas dos Intelectuais, do livro organizado por Novaes – O Silêncio dos Intelectuais. Wolff inicia o seu ensaio, comparando a França de 1983, no pós-eleição de Mitterrand, com o Brasil de 2005, o pós-eleição de Lula. Nos dois momentos houve grandes alianças de intelectuais com as classes populares e, em ambos, grandes frustrações que se seguiram. Na França o projeto de transformação radical da sociedade – socialmente audacioso e economicamente antiliberal – é abandonado pela esquerda por uma política de gestão no plano econômico e realista do ponto de vista social. O mesmo ocorre no Brasil, quando anos de discursos de esquerda foram substituídos pela fidelidade às organizações financeiras internacionais, pelo realismo econômico e pelo rigor orçamentário. Em suma, tanto na França, quanto no Brasil, com as esquerdas no poder, optou-se pela mesma política com a qual prometiam romper. O que aconteceu em conseqüência? Alguns ruidosamente romperam com o partido e outros se refugiaram no silêncio. Poderíamos acrescentar que inúmeros, talvez até a maioria, se acomodaram diante da situação, curvando-se diante da realpolitik. Destas situações resultaram os seminários que debateram sobre o silêncio dos intelectuais.

QUEM É O INTELECTUAL – O SEU SURGIMENTO Já na apresentação do livro, Adauto Novaes, ao lançar o tema, fala da anemia criadora como característica dos nossos tempos, atingindo especialmente os campos da política e do pensamento. Como justificativa apresenta a perda de legitimidade e valor das categorias universais da liberdade, da justiça, razão e verdade, matérias do

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intelectual. Cremos que a visão de Novaes seja uma bela apresentação para o tema. Wolff nos fala que a palavra intelectual surge com o caso Dreyfus, quando Émile Zola assina em L’Aurore, o J’accuse, o artigo em que exige a revisão do processo de Dreyfus, condenado injustamente por traição4. Esta atitude de Zola recebe listas de apoios, iniciando-se uma tradição de interferência dos intelectuais na discussão de temas mais amplos pertinentes à toda sociedade. Esta iniciativa foi classificada por Maurice Barre, um antidreyfusista, como o “protesto dos intelectuais”, tendo, então, a palavra recebido uma conotação pejorativa. Dessa colocação histórica, Wolff parte para a conceituação e a caracterização do intelectual. Desde o aparecimento do J’accuse (janeiro de 1898) e ao largo de todo o século XX, a palavra intelectual sempre estará associada ao exercício de uma atividade intelectual, revestida de prestígio social, que lhes conferia a condição de intervir em debates públicos e defender valores universais como a justiça e a verdade ou como nos diz o próprio Wolff: “o intelectual é aquele que transforma uma autoridade intelectual em autoridade política em nome de uma autoridade moral” (WOLFF, 2006, p. 47). Complementa ainda que, para que haja o intelectual, são necessárias três características: a existência de um sujeito social, um certo tipo de objeto (o universal) e um certo espaço onde ele possa se expressar.5 Ao comentar as características, Wolff apresenta o sujeito social como um trabalhador intelectual, não manual portanto, ligado à produção ou circulação – distanciado do processo utilitário, donde lhe vem o prestígio. Eles se ocupam com as atividades de criação (artes, letras, ciências) e secundariamente com tarefas de mediação (informação e educação). A segunda condição do intelectual é a de que este sujeito esteja imbuído de uma consciência de valores morais universais, de concepções de sociedade e visões de mundo, de idéias válidas sempre, e em toda parte, para todo homem e toda sociedade, independente de qualquer interesse particular. É este comprometimento e distanciamento que lhe confere a condição de intervenção. Quanto à terceira condição, a da existência de espaços públicos, onde possa se manifestar, é uma decorrência da liberdade de expressão. Para constatar esta terceira característica basta ver como os intelectuais são tratados nas ditaduras ou nos totalitarismos. Wolff se reporta então à Grécia, ao século V a. C., quando pela primeira vez na história se somaram estas três condições: homens com tempo livre (ócio) para as idéias – que perceberam a formação de valores universais com o nascimento da razão e que se reuniam na praça para a sua discussão, condições que deram aos gregos o nascimento histórico dos intelectuais. Apresenta em seguida Sócrates como o primeiro intelectual, por ter sido um pensador perseguido, em função dos valores que defendia, intransigente em seus 4 Um completo relato do caso Dreyfus pode ser encontrado no livro de Hannah Arendt, Origens do totalitarismo. Antisemitismo – imperialismo – totalitarismo, nas páginas 111 a 143 (ARENDT, 2006). 5 Em outro ensaio do livro – Intelectual engajado: uma figura em extinção -, de Marilena Chauí, o mesmo tema é discutido e o J’accuse é tomado como notório exemplo de atuação do intelectual e este é assim definido: (...) A figura moderna do pensador e do artista não submetidos à instituição eclesiástica, estatal e acadêmico-universitária. A autonomia racional moderna das ações (artes, ética, direito, técnica) e do pensamento (ciência e filosofia) conferiu a estes sujeitos algo mais do que a independência: conferiu-lhes autoridade teórica e prática para criticar as instituições religiosas, políticas e acadêmicas, como fizeram os philosophes da Ilustração Francesa, e, no século XIX, para criticar a economia, as relações sociais e os valores, como fizeram os socialistas utópicos, anarquistas e marxistas” (CHAUÍ, 2006, p. 20).

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princípios até o final e contra todos os poderes de seu tempo. A sua acusação foi uma compilação de argumentos infundados por seus adversários para se livrarem de um intelectual incômodo. O clima que antecedeu o seu julgamento foi próprio de um clima de caça às bruxas, antiintelectual, que se repetirá ao longo da história, cada vez que os intelectuais produzirem incômodos, como nas questões Dreyfus e no macarthismo americano. Este intelectual, definido pelos antiintelctuais, obedece a três traços fundamentais: a) A tagarelice. Ele fala em vez de agir e trabalhar. É inconcebível ao antiintelctual que alguém possa se ocupar com o pensamento e a fala, com coisas inúteis e estéreis. b) A derrubada de valores. Refere-se àqueles valores sobre os quais a sociedade se organiza e se sedimenta, como os deuses, a família e as hierarquias e, no caso de Sócrates, as acusações de impiedade. c) Aquele que se mete naquilo que não lhe diz respeito. Explicitando esta característica nos afirma que existem duas maneiras de se meter onde não é devido: a primeira consiste em falar em nome de universais, contrariando interesses individuais, mostrando desapego, e a segunda que consiste em saber além do permitido, motivado pela curiosidade intelectual. Aponta ainda que estas duas características também são as funções da razão, quais sejam: de um lado pensar em nome do universal, independentemente do particular e de outro, retomar o sapere aude, o ousar pensar, sem limites do auge da era das Luzes. Para os contemporâneos de Sócrates, pensar além dos limites do conveniente para a cidade, equivaleria a saber tudo e assim se igualar aos deuses, o que não lhes era permitido. Wolff conclui esta reflexão afirmando que o intelectual é acima de tudo uma invenção dos antiintelectuais. Na seqüência do texto, traça uma diferença entre os intelectuais e os cientistas políticos. Estes são apresentados como cientistas, letrados, doutos ou, simplesmente, experts. Limitam a seus campos de competência, enquanto o intelectual intervém no espaço público e no domínio amplo dos temas sociais e políticos. “É um passador entre o mundo das idéias e o mundo da cidade”, afirma Wolff (51). Observamos que esta diferenciação entre o intelectual e o especialista aparece no ensaio de Chomsky e aparece também em outros ensaios de O Silêncio dos Intelectuais, como no já mencionado de Chauí. A autora situa esta diferenciação, já no contexto atual da pregação ideológica do fim da história, do fim das utopias revolucionárias, um tempo em que desaparece do horizonte histórico o futuro, e em que o presente, desprovido de força negativa, se fecha sobre si mesmo e em que a ordem vigente é legitimada e justificada pelo capitalismo, apresentado como destino final da humanidade. (CHAUÍ, 2006, p.30). Dentro desse contexto, continua Chauí, o intelectual é substituído pelo especialista competente e a crítica passa a ser silenciada com a proliferação ideológica de receitas para viver bem. É fácil estabelecer uma relação entre o enunciado por Chauí com a análise de Chomsky, sobre o pensamento de Daniel Bell. Voltando a Wolff, ele vê em Sócrates o primeiro intelectual, um vez que ele procura retirar poder dos sofistas atenienses, desalojando-os de sua competência, para se voltar aos interesses e assuntos comuns a toda cidade, com a introdução do Universal, na contradição com os interesses específicos do particular. Cita Cícero para demonstrar este fato: “a filosofia desceu do céu para a terra, introduziu-se nas casas COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 167-182| 2° Semestre 2008 | 175


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e na praça do mercado” (Apud Wolff, p. 51), mostrando assim que idéias universais, lançadas em espaços públicos, podem provocar rupturas nas regras e costumes ancestrais da tradição. No paradoxo dos debates gregos entre os sofistas e Sócrates, Wolff mostra que Sócrates irá dar à razão, não uma função instrumental, mas, sim, a sua função crítica e moral. O texto continua mostrando o intelectual Sócrates em seus diálogos com a Cidade, para a seguir lançar outro interessante questionamento. Foi Sócrates ou foram os sofistas os verdadeiros intelectuais na antiga Grécia? O autor separa os sofistas históricos, como Protágoras e Górgias, daqueles que nos chegaram através dos diálogos de Platão, como argumentadores de má fé. Enquanto Sócrates é mostrado como um indivíduo isolado, os sofistas são apresentados como uma escola de pensamento, e como os primeiros profissionais da educação, da educação para a democracia e das influências da oratória sobre ela. Wolff retira a seguir de um diálogo platônico – Protágoras – um dos mais belos argumentos em favor da democracia, em função da condição humana, devido a sua criação. Ela é explicada através do mito. Quando os deuses resolveram criar os mortais, queriam também dotá-los das condições de existência e encarregaram Epimeteu de distribuí-las entre eles. Dá-lhes o necessário para, de um lado, se alimentarem e resistirem às intempéries e, de outro, de se defender uns contra os outros. Este se esqueceu, no entanto, do homem, deixando-o nu e desarmado e condenado à rápida extinção. O irmão Prometeu intervém, roubando o fogo de Zeus para dá-lo aos homens. Com isso dá-lhes diferentes talentos, artes e ofícios, podendo assim intercambiar diferentes bens e cooperarem entre si. Não lhes foi dada, porém, a capacidade de se defenderem contra animais de outras espécies, obrigando-os assim a organizar a sua vida em cidades. No entanto, não conseguem sobreviver em virtude das lutas que travam entre si, estando novamente ameaçados de extinção. Aí o próprio Zeus intervém, brindando os homens com as qualidades morais que permitiriam a necessária convivência. Estas qualidades seriam as da justiça e do respeito a si. Uma bela história. Mas quais seriam as suas conseqüências? Ainda segundo Protágoras, a democracia repousa sobre duas divisões sucessivas, a saber: o espaço privado e o espaço público. Explicando, considera que o espaço humano não é monolítico e que o espaço público e o privado devem sempre sobreviver mesmo em qualquer circunstância histórica. E é esta a demarcação precisa entre a democracia, como sociedade aberta, e a sociedade fechada, desde as sociedades primitivas, até os totalitarismos modernos. A marca das sociedades fechadas é a não-distinção entre estes espaços e em que nada do que é individual, particular, escapa ao domínio do coletivo. Protágoras mostra pelo seu mito que os homens são espontaneamente avessos à vida política, entrando nela apenas pela necessidade de sobrevivência. No começo estão isolados (vida privada) mas as suas fragilidades os obrigam a conviver para estabelecer as trocas ou coletivamente se defenderem (espaços públicos). Mas estes espaços não podem anular os espaços privados. Protágoras alega que isto bastaria para formar uma sociedade aberta, mas não ainda democrática. Esta advirá como conseqüência do esquecimento de Epimeteu, ou da natureza, em não dotar os homens em todas as suas necessidades, mas das intervenções de Prometeu (que lhes legou as qualidades ligadas ao fogo e a técnica) 176 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 167-182| 2° Semestre 2008


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e de Zeus (as qualidades morais). As qualidades dadas por Prometeu estão na origem da divisão do trabalho e possibilitam a cooperação socioeconômica, mas estão desigualmente repartidas, o que provocará a troca de bens e serviços, enquanto que as qualidades morais, dadas por Zeus, foram distribuídas por igual, possibilitando, portanto, a democracia. Supondo, porém, que Zeus tivesse distribuído as qualidades morais, também de forma diferenciada, estariam assim fundamentados os princípios da aristocracia. Supondo, ainda, que as qualidades éticas e políticas tivessem sido dadas apenas para alguns e que não tivesse havido a divisão entre as qualidades dadas por Prometeu e as dadas por Zeus, teríamos então os homens com as mesmas qualidades, tanto para promoverem o entendimento econômico, quanto o político e assim não se estaria mais justificando a democracia, nem a aristocracia, mas sim, a tecnocracia, e esta era a tese sustentada por Sócrates. Para ele uma decisão racional é sempre universal e a razão é sempre a mesma em todos os homens. Não existe diferença entre a razão instrumental e a razão ética. Mas voltando à questão dos intelectuais, quem foi efetivamente o primeiro intelectual? Foi Sócrates o herói solitário, ou foram os sofistas que constituíram o maior movimento intelectual dos tempos antigos. Wolff nos responde com a dupla possibilidade. Enquanto Sócrates interfere do exterior sem participação direta, os sofistas participam diretamente mas ambos assumem posturas críticas diante dos fatos. Como decorrência, na escolha do modelo de intelectual, Wolff situa os três dilemas do intelectual nos tempos de hoje.

OS DILEMAS DO INTELECTUAL PRIMEIRO DILEMA: INTELECTUAL ESPECÍCO OU INTELECTUAL TOTAL Este primeiro dilema é apresentado por Wolff por duas figuras históricas dos nossos tempos: Sartre como o intelectual total e Foucault como o específico. Lembra que os sofistas não eram experts, mas que na qualidade de bons mestres da palavra se julgavam no direito de opinar e interferir em tudo, sobre finanças, urbanismo, estratégia militar..., ao contrário de Sócrates. O perigo é se tornar voz surda. O intelectual total é mostrado na figura de Sartre como escritor, filósofo, crítico, romancista, homem do teatro, político engajado, que usa a grande imprensa para se manifestar. Para Sartre, em função de suas influências marxistas, a política é uma questão de Estado, que concentra em si todo o poder. Para Foucault o intelectual não se engaja em todas as direções, mas se restringe ao domínio do que é seu. Não intervém sobre a totalidade, mas na especificidade do hospital, universidade, relações familiares, das áreas de sua competência. O poder está difuso e apenas secundariamente centrado no Estado. O poder é uma soma de micro-poderes.

SEGUNDO DILEMA: TER O SABER DO PODER OU DENUNCIAR O PODER DO SABER Para os sofistas o saber é poder e está ligado à retórica, à sedução e ao convencimento, através das palavras. Mas isso não será subjugar o povo a um novo poder, ao poder da palavra dos intelectuais? Ora é exatamente esta a crítica que COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 167-182| 2° Semestre 2008 | 177


A UNIVERSIDADE E A FORMAÇÃO DO INTELECTUAL

Sócrates faz aos sofistas. Para ele o verdadeiro saber sempre será crítico. Eis o dilema. O que fazer do próprio saber? O poder das idéias e das palavras deve ser usado a favor ou contra o poder, – usando o prestígio das simbolizações e a autoridade da razão. Como exemplo desta situação é tomado Bourdieu no papel de Sócrates.Segundo Bourdieu os intelectuais têm por função uma postura de dominação simbólica, dispõem de uma capacidade de impor normas de julgamento e há neles uma duplicidade ante o poder que criticam, porque são fascinados por ele quando o exercem ou quando se revestem do poder da crítica absoluta. Wolff mostra em Bourdieu o intelectual socrático, quando ele é apresentado no papel do conhece-te a ti mesmo, ou seja na função de analisar e criticar o poder dos intelectuais “ou explicar a razão do engendramento do campo intelectual, de sua reprodução e das microestruturas características de sua organização” (64). Está enunciado o dilema, tanto quanto à finalidade, quanto às formas de sua ação.

TERCEIRO DILEMA: ÉTICA DA CONVICÇÃO OU ÉTICA DA RESPONSABILIDADE Wolff volta mais uma vez ao debate entre os sofistas e Sócrates, situando este no campo da ética da convicção e aqueles, na ética da responsabilidade. Mas como fica esta situação quando a questão posta é a democracia? Não seria uma traição dos intelectuais manterem sempre uma postura apenas crítica? Não poderiam cooperar – com a força de suas críticas – no aperfeiçoamento desta democracia? Por acaso não consideramos hoje a democracia grega como uma das maiores invenções de todos os tempos e não foram os sofistas os seus melhores defensores? Do ponto de vista político os sofistas foram os vencedores, mas intelectualmente perderam. Poucos atacam hoje o pensamento de Sócrates e Platão. Wolff ilustra esta questão como sendo o debate travado entre Sartre e Aron, de fundo weberiano, qual seja, a eterna pureza de convicções, sem jamais transigir, sendo os guardiães das idéias, a exemplo de Sócrates. Colocados desta forma, Sartre, Foucault e Bourdieu estariam todos do mesmo lado. Por outro lado, não seria melhor tender para a realização do possível, abrindo mão de certos princípios? Qual seria o risco ao assumir essa posição? Seria a traição? O próprio Wolff considera que “dos pequenos arranjos com o real às pequenas transigências com os homens, é grande o risco de se acabar traindo completamente os ideais (de justiça e de verdade) e de se converter ao realismo mais cético” (66). Wolff conclui que, diante destas três escolhas impossíveis, eles preferem se manter silenciosos. Mas o seu silêncio se constitui apenas num tempo de respirar e de refletir. Voltando ao ensaio de Novaes, este se apresenta num tom bem mais pessimista a respeito da atuação dos intelectuais. Dele tomamos duas referências: na primeira ele recorre a Paul Valéry que afirma que a sociedade está prestes a se destruir em função daquilo que ela própria criou; a tecnociência, passagem da ciência-saber à ciência-poder. Nesta sociedade a previsão do futuro, que sempre foi uma das bases da civilização, passa a ser algo incerto e impossível de ser imaginado e Valéry nos apresenta a sua enigmática frase “entramos no futuro de costas” (apud Novaes, p. 9), permanecendo sempre num presente eterno e fugaz. Na segunda se vale de Benjamin:

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Pedro Elói Rech

“o intelectual tem ‘preguiça no coração’, tristeza, a ‘acedia’ que o torna mudo porque sabe com quem, necessariamente, entra em relação: o vencedor e o seu espólio, que ele define como bens culturais” (apud Novaes, p. 18) e conclui, ainda com Benjamin: “Não existe documento de cultura que não seja documento de barbárie” (Ibidem, p. 18). Queremos ainda trazer, e também para encerrar, uma reflexão de Boaventura Santos, comentada por Chauí, sobre os dois pilares básicos, sobre os quais se assentou a modernidade: os pilares da regulação e da emancipação. Vale a pena seguir a análise de Chauí, na constatação da vitória da regulação sobre a emancipação: O pilar da regulação, por sua vez, apoiou-se sobre três princípios: o Estado (ou a soberania indivisa, que impõe a obrigação política vertical entre os cidadãos), o mercado (que impõe a obrigação política horizontal individualista e antagônica) e a comunidade (ou a obrigação política horizontal solidária entre seus membros). O pilar da emancipação, por seu turno, foi constituído por três lógicas de autonomia raciona: a racionalidade expressiva das artes, a racionalidade cognitiva e instrumental da ciência e da técnica, e a racionalidade da ética e do direito. O projeto da modernidade julgava possível o desenvolvimento harmonioso da regulação e da emancipação e a racionalização completa da vida individual e coletiva. Todavia, o caráter abstrato dos princípios dos pilares levou cada um deles à tendência a maximizar-se com a exclusão do outro; além disso, a articulação entre o projeto moderno e o surgimento do capitalismo assegurou a vitória do pilar da regulação contra o da emancipação (CHAUÍ, 2006, p. 19).

Retornando a busca da interpretação da sociedade em Protágoras, no mito de Epimeteu e Prometeu e da intervenção direta de Zeus, perguntamos: que novas intervenções superiores e sobrenaturais seriam necessárias para que a humanidade sobreviva e para que não se concretize a profecia de Einstein, de que as armas utilizadas numa quarta guerra mundial seriam pedras e porretes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do exposto resta fazer algumas considerações, que antes de serem finais pretendem ser abertura para novas possibilidades. Citamos os eixos pedagógicos dos cursos de Comunicação e a sua estruturação para a formação integral do ser humano, unindo a formação filosófica e humanística com a formação técnica e profissional. Não há na estruturação destes cursos a dicotomia, tão característica nos tempos atuais, em que reducionismos na formação são promovidos, em nome de mercados cada vez mais afunilados e competitivos. Se o curso permite a formação humana integral, resta, no entanto, outro questionamento. Ele realmente dá conta de oferecer esta formação? Será que a realidade universitária brasileira hoje permite uma formação que possibilita a apropriação de categorias universais e abstratas para a análise da realidade e que torne realmente válida a qualificação do seu trabalho como sendo um trabalho intelectual? Se a resposta for sim, então a real condição de trabalho e de trabalho assalariado, COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 167-182| 2° Semestre 2008 | 179


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como lembra Bucci, permite efetivamente um trabalho no campo dos universais, desvinculado ou suficientemente independente do interesse particular? Evocamos a título de ilustração o filme O Informante, em que Al Pacino, na qualidade de jornalista investigativo, afirma categoricamente que no mundo das megacorporações ninguém é livre, nem mesmo os donos dos meios de comunicações, uma vez que são subordinados financeiramente a estas corporações. Será que não falta nos tempos atuais uma das condições para a existência dos intelectuais que é o campo da liberdade de expressão? Se esta condição não é dada, sobrará espaço apenas para os especialistas acríticos e “divertidores” do público com o entretenimento da indústria cultural. A respeito encontramos um indignado Rouanet, também no livro organizado por Novaes (2006, p. 77), que, com base em Adorno, denuncia a substituição do antigo intelectual do campo dos universais, pelo especialista, que tem como objetivo de seu trabalho a uniformização das consciências e produzir os homens-massa, num conformismo total com o sistema. Quais as conseqüências? Adorno nos adverte em Educação e Emancipação, em um ensaio – Educação após Auschwitz – sobre o perigo das pré-adesões, incondicionais e acríticas, produzirem males como os campos de concentração e o que neles aconteceu. Males ainda presentes na sociedade, e cujos horrores não foram suficientes para que fossem extirpados, unicamente em função dos interesses particulares dominantes. Primo Levi, ao descrever os “funcionários” que deram forma ao regime nazista, os descreve não como indivíduos degenerados, mal nascidos, sádicos ou afetados por algum vício de origem. Ao contrário, eram feitos de nossa mesma matéria, eram seres humanos médios, medianamente inteligentes, medianamente maus: salvo exceções, não eram monstros, tinham nossa face, mas foram mal educados. Tratava-se, em sua maioria de sequazes funcionários grosseiros e diligentes: alguns fanaticamente convencidos do verbo nazista, muitos indiferentes, ou temerosos de punições, ou desejosos de fazer carreira, ou demasiado obedientes. Todos tinham sofrido a aterradora deseducação fornecida e imposta pela escola... (LEVI, 2004, p. 175)

Ah! A educação.... Voltando ao mito para a justificação da democracia, consideramos efetivamente imprescindíveis a manutenção tanto dos espaços privados, quanto dos públicos para o bom funcionamento das instituições. Queremos ainda lembrar a histórica dificuldade da convivência entre a liberdade e a igualdade. Quando um sistema privilegia a liberdade, a igualdade fica sacrificada e o inverso acontece quando os sistemas privilegiam a igualdade. E voltando a Protágoras, lembramos que deste mito de Prometeu e Epimeteu faz parte também Pandora, e sua caixa ou ânfora. Epimeteu não ouve os conselhos do irmão e abre a caixa, e em ato contínuo, os males se espalharam pelo mundo, mas não sem tempo de, ainda dentro dela, reter a esperança. Coisas da condição humana. Conviver com os males e também com a utopia. Outra fabulosa lembrança da condição humana nos é dada por Homero, na Ilíada. Após a impressionante passagem em que Príamo vai resgatar junto a Aquiles o cadáver de Heitor, para lhe dar as honras do funeral, Aquiles apresenta a imagem dos dois tonéis que existem no Olimpo, um de males e outro de bens, como dádivas de Zeus. Carlos Alberto Nunes, numa apresentação da Ilíada, assim nos narra este 180 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 167-182| 2° Semestre 2008


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emblemático mito da condição humana. Se, ao nascimento, alguém recebe uma mistura desses dons, atravessa, de acordo, a existência ora a sofrer, ora com fases de relativa felicidade. Mas se recebe apenas males, torna-se desprezado por todos e ludíbrio permanente dos homens e dos deuses. É de notar que Aquiles não menciona a terceira possibilidade: de receber algum mortal, ao nascimento, apenas dádivas do tonel de bens, que a condição humana é incompatível com essa disposição (NUNES, 1962, p. 37).

Coisas da condição humana. Se os intelectuais se refugiaram no silêncio, ou em outros termos, para a respiração e reflexão, é para dar continuidade de vislumbrar no horizonte um futuro a ser construído, não permitindo a imobilidade da eternização do presente. Também coisas da condição humana.

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REFERÊNCIAS ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo – anti-semitismo – imperialismo – totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. BUCCI, Eugênio. Sobre Ética e Imprensa. São Paulo: Companhia das Letras. 2000. CHAUÍ, Marilena. Intelectual engajado: uma figura em extinção? In. NOVAES, Adauto. (org.) O Silêncio dos Intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. (p. 19 a 43). CHOMSKY, Noam. O Poder Americano e os novos mandarins. Rio de Janeiro e São Paulo: Record. 2006. FERREIRA, Aurélio B. de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua portuguesa. Curitiba: Positivo. 2004. HITCHENS, Christopher. Os Direitos do Homem de Thomas Paine. Rio de Janeiro: Zahar. 2007. LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes. São Paulo: Paz e Terra. 2004. NOVAES, Adauto. Intelectuais em tempos de incerteza. In: NOVAES, Adauto. O Silêncio dos Intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. (p. 7 a 18). NUNES, Carlos Alberto. A Questão Homérica. In: HOMERO. Ilíada. São Paulo: Edições Melhoramentos. 1962 (p. 5 a 39). ROUANET, Sérgio Paulo. A Crise dos Universais. In: NOVAES, Adauto. O Silêncio dos Intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. (p. 69 a 83). WOLFF, Fausto. Dilemas dos Intelectuais. In: NOVAES, Adauto. (org.) O Silêncio dos Intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. (p. 45 a 68). ZINN, Howard. Prefácio. In: CHOMSKY, Noam. O poder americano e os novos mandarins. Rio de Janeiro e São Paulo: Record. 2006. (p. 9 a 16).

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IDEOLOGIA NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS: UMA INVESTIGAÇÃO LITERÁRIA Christian L. M. Schwartz1

Universidade Positivo

Resumo Este artigo se dedica à análise do processo de produção de sentido (ou sentidos, vários) nas sociedades contemporâneas, ou seja, à investigação do lugar central que ocupa nessas sociedades, ditas globalizadas, a ideologia – nosso conceito-chave. Definindo-se o termo como “processo geral de produção de significados e idéias”, a partir, principalmente, dos escritos do filósofo russo Mikhail Bakhtin, evitamos dois dos entendimentos mais comuns – e, a essa altura, já bastante desgastados – do que seja ideologia: nem apenas um sistema dominante de idéias em dado momento histórico, nem simplesmente o “atalho errado” para o real, a “falsa consciência” – na linha de uma teoria marxista-materialista. O Legado da Família Winshaw, romance do autor britânico Jonathan Coe, ilustra bem aquele tipo de configuração social – as citadas sociedades da globalização – ao situar seus principais personagens em postos-chave de poder na Inglaterra dos anos 80 e início dos 90, a chamada Era Thatcher. Algumas passagens do argumento teórico aqui exposto são ilustradas ainda por dois outros romances do mesmo autor: Bem-Vindo ao Clube, que se passa nos anos 70 e termina às vésperas da escolha de Margareth Thatcher como primeira-ministra da Inglaterra; e O Círculo Fechado, que retoma a trama de Bem-Vindo ao Clube vinte anos mais tarde, já no governo Tony Blair. Trata-se de mostrar que a história – seja ela contada por livros propriamente de História, seja por romances como os aqui mencionados – será, antes de tudo, linguagem – portanto, e inevitavelmente, ideologia. Palavras-chave: linguagem & ideologia; ficção & história; globalização; Jonathan Coe.

Abstract This article focuses on the process of making sense out (or apprehending the various senses) of contemporary societies’ “reality”, that is, on how ideology – our key-concept – has come to play such a central role in these societies, the so-called globalized societies. We define ideology, mainly after 1 Graduado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná – UFPR (1997), cumpriu créditos do Master of Arts in Literary Studies na University of Central England – UCE (2002-2003), em Birmingham, Inglaterra, etapa de sua formação que concluiu na UFPR (2005-2007), obtendo o título de Mestre em Estudos Literários. Atuou como jornalista profissional em grandes veículos da imprensa, como a revista Veja e a rádio CBN, tornando-se professor a partir de 2002. Atualmente, ensina na Universidade Positivo (graduação e extensão), nas áreas de Publicidade e Jornalismo, com ênfase em Produção de Texto e Literaturas Brasileira e Estrangeira Modernas. É também tradutor do inglês para o português de obras de ficção e não-ficção.


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the Russian philosopher Mikhail Bakhtin’s writings, as being “the general process of producing ideas and meanings”, thus avoiding two of the most commonsensical – and, at this point, frankly worn out – definitions of the term: ideology, here, being neither a dominant system of ideas in a particular historical moment nor the kind of “wrong shortcut to reality” which the Marxist-materialistic notion of “false conscience” would suggest. The novel What a Carve Up!, by the British author Jonathan Coe, illustrates that kind of social configuration – the aforementioned globalized societies – when it puts its main characters to play key-roles within the power system of the 80’s and early 90’s in Britain – that period best known as the Thatcher Era. Some other moments of our argument are exemplified with excerpts of two other novels by the same author: The Rotters’ Club, set mainly in the 70’s and whose plot is cut short exactly on the eve of Thatcher’s election; and The Closed Circle, a sequel to The Rotters’ Club set 20 years later, already during the reign of Tony Blair. The essay aims to show that history – be it told by proper History books or by novels such as the aforementioned ones – will be, first and foremost, made of language – therefore, and inevitably so, ideology. Keywords: language & ideology; fiction & history; globalization; Jonathan Coe.

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“Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido” (Santos, 2000, p.17), lê-se na abertura de um livro clássico sobre o fenômeno da globalização. É certamente uma descrição apropriada para o mundo de Michael Owen – aquela já distante década conhecida como Era Thatcher – ou, ao menos, para a representação, de todo confusa, que Owen nos faz daquele mundo. Michael Owen é o protagonista de O Legado da Família Winshaw (versão original, 1ª edição, 1994; versão brasileira, 2002), de Jonathan Coe. O enredo do romance, aparentemente bastante simples, pode ser resumido em poucas palavras: escritor em crise tenta concluir a biografia de família influente na Inglaterra thatcherista. Quem tenta dar sentido(s) ao mundo contemporâneo é esse protagonista-escritor, Michael Owen. Contratado para escrever a biografia dos Winshaw, poderosos que notoriamente confundem vida e dinheiro públicos com seus negócios privados, Owen mergulha ora na história do país, ora na própria memória pessoal em busca de juntar os cacos da “realidade”: para ele – um autor naquele momento fracassado e desde a infância obcecado por um filme, por uma “irrealidade” que passa horas e mais horas a reprisar no vídeo-cassete – essa “realidade” daquele final de Era Thatcher é um imenso e confuso mosaico de imagens da TV e do próprio cinema, a fragmentação inevitável da pós-modernidade (para alguns, da própria modernidade). Em suma: em O Legado, Coe retrata por esse prisma a grande virada políticoideológica do final dos anos 80. O evento maior nessa virada – a Queda do Muro de Berlim, em 1989, com o conseqüente colapso do bloco soviético – determinou a hegemonia geopolítica anglo-americana na década seguinte e, apesar de ameaças mais recentes, até os dias de hoje. Está aí o caráter historiográfico do romance, que ainda assim continua a ser ficção – melhor dizendo, metaficção, pois é o personagem Michael Owen, figura do universo ficcional, quem “escreve” o que lemos, enquanto lemos. Mas a narrativa não se fixa na primeira pessoa do protagonista, utilizando-se dos mais diversos gêneros discursivos (o jornalístico, o ensaístico, a linguagem do cinema e mesmo, em tom de paródia, a da literatura) e das “vozes”, por assim dizer, de personagens dos mais diferentes matizes ideológicos. “A História não é menos uma forma de ficção do que o romance é uma forma de representação histórica” (White, 1994, pp.137-138), parece querer nos dizer o autor de O Legado da Família Winshaw. É a sua versão para um período caótico. Mas, antes mesmo de Coe, quem chama a atenção para esse entrelaçamento inevitável entre ficção e história é o próprio personagem que reclama para si nada menos do que a autoria de O Legado: Owen, o “historiador oficial” dos Winshaw. É ele, enfim, quem “escreve” o livro enquanto lemos, relatando-nos os detalhes de sua empreitada. A certa altura, o personagem diz o seguinte: [...] quanto menos acesso tinha a fatos concretos e demonstráveis, mais precisava usar minha imaginação para construir a narrativa, forjando incidentes que apenas intuíra, especulando sobre assuntos de motivação psicológica, até inventando conversas. (Inventando, sim: não me furto a usar a palavra certa, mesmo tendo me furtado à ação em si durante cinco anos até então.)

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E aí, por ódio a essa gente, renasceu minha personalidade literária, e desse renascimento veio uma mudança de perspectiva, uma mudança de ênfase, uma mudança irreversível em todo o caráter da obra. (Coe, 2002, p.107)

O personagem, como podemos ver, tenta decidir se o próprio livro – que é também o livro de Jonathan Coe – é história ou ficção. E reafirma que a história será parte importante da narrativa ficcional, assim como a historiografia, por mais que entre os historiadores se tenha por muito tempo tentado fugir a isso, não deixará de se servir dos recursos da narrativa para reconstruir o passado. Essa é, de fato, uma evolução mais ou menos recente. Trata-se do que David Harlan – falando dos historiadores – chamou de “o retorno da literatura”: Havia um tempo em que os historiadores pensavam haver escapado ao “meramente literário”, um tempo em que eles haviam estabelecido os estudos históricos no sólido fundamento do método objetivo e do argumento racional. No entanto, os recentes avanços em crítica literária e em filosofia da linguagem solaparam esta confiança. Agora, após uma ausência de cem anos, a literatura volta à história, montando seu circo de metáfora e alegoria, interpretação e aporia, traço e signo, exigindo que os historiadores aceitem sua presença zombeteira bem no coração daquilo que, insistiam eles, consistia [sic] sua disciplina própria, autônoma e verdadeiramente científica. (2000, p.15)

Um outro teórico, Marshall, acrescenta ainda: “A descrição historiográfica é um tipo de mimese, que procura perpetuar circunstâncias relevantes por meio da memória e da narrativa, expressando a ação em imagens, com o uso de um conjunto de sinais que permitem suas interpretações” (p.59). Não se poderia perfeitamente estar falando de um romance? Certamente, e essa indistinção quando se confrontam literatura e história nos dias de hoje não será incomum. Com a palavra, finalmente, o romancista Jonathan Coe: Nos seus melhores momentos, suponho que esses meus romances “históricos” [aspas originais] possam oferecer algo que a escrita dos historiadores não pode fazer na mesma medida ou com tantos detalhes: um senso do que se poderia chamar de textura de uma época, o que as pessoas comuns teriam conversado, pensado e sentido enquanto os grandes eventos – aquilo que está a cargo da história convencional registrar – passavam por suas vidas. Sim, o romance pode contribuir para [um] “esforço de memória coletivo”. (Schwartz, 2007, p.21, grifo original)

Em O Legado, a metáfora do cinema – uma verdadeira profusão de telas a projetar imagens que confundem – tampouco é gratuita. Cabe a um personagem secundário, um estudante idealista e candidato a cineasta chamado Graham, numa conversa com o protagonista, teorizar sobre a questão: – [...] Sabe, o filme é um meio tão compactamente estruturado, que [...] todos os tipos de decisões precisam ser tomadas. Quanto tempo vai durar uma tomada, como vai ser o enquadramento, que tomadas vão acontecer antes dela, quais virão depois. Ora, esse processo não se torna suspeito quando se lida com uma

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coisa que se promove explicitamente como um filme político? Não torna o papel do diretor de cinema intensamente problemático, nos sugerindo não a pergunta: “É essa a verdade?”, mas “De quem é essa verdade, afinal?” (Coe, 2002, p.318)

Pouco adiante, na mesma conversa, Graham arremata: “[...] no final das contas, toda verdade é ideológica”. A do romance de Jonathan Coe, pode-se dizer, é contraideológica, mas mergulhada em ideologia ainda assim. Num magistral lance de autoreferência e intertextualidade, em tudo pós-moderno, O Legado inclui a resenha de um livro – novamente “escrita” pelo próprio protagonista Michael Owen e, por isso, citada entre aspas abaixo – que parece comentar o próprio romance de Coe. Tornou-se questão de rotina [...] elogiar o Sr... [refere-se ao autor do livro que resenhava] por sua hábil combinação de sagacidade e dedicação política; e até mesmo insinuar que nele, afinal, temos um ironista moral que faz valer a pena essa época desumana. Precisamos desesperadamente de romances, afinal, que mostrem uma compreensão do seqüestro ideológico que aconteceu tão recentemente neste país, que possam ver suas conseqüências em termos humanos e mostrar que a reação apropriada não está simplesmente na tristeza e na revolta, mas no riso louco e incrédulo. (Coe, 2002, p.313)

Ora, um exemplar pronto e acabado de tal ficção política, capaz de provocar “riso louco e incrédulo” porque paródica e altamente irônica, é precisamente o que o leitor de O Legado tem nas mãos. É precisa, ainda, a alusão ao “seqüestro ideológico” que tomava conta da Inglaterra de Thatcher e do resto do mundo naqueles primórdios da globalização, conforme chegaram a teorizar vários estudiosos do fenômeno e de seu embasamento ideológico, chamado genericamente de “neoliberalismo”. [...] Thatcher [...] tirou das sombras de uma relativa obscuridade a doutrina muito particular que ficou conhecida como “neoliberalismo” e a transformou no principal guia de princípios do pensamento econômico e da administração. [...] O neoliberalismo tornou-se, em suma, o discurso hegemônico. Infiltrou-se em nossa maneira de pensar a tal ponto que passou a fazer parte do senso comum segundo o qual muitos de nós interpretamos, vivemos e entendemos o mundo2 . (Harvey, 2005, p.2-3)

Aquilo que recebeu, em outros segmentos talvez mais radicais da militância acadêmica, a alcunha de “pensamento único”, pode também ser visto como “fábula” (Santos, 2000). Será que pretendem nos fazer apreender o mundo pelas lentes (cinematográficas?) de um novo liberalismo saudoso dos tempos em que a história transcorria com a linearidade inocente de um conto de fadas? O capitalismo triunfante e a razão invencível formam a linha de frente de um certo pensamento que chegou a defender o fim da história – um final feliz que não houve, como se sabe. No romance em que aborda questões históricas mais recentes, O Círculo Fechado

2 “[...] Thatcher [...] plucked from the shadows of relative obscurity a particular doctrine that went under the name of ‘neoliberalism’ and transformed it into the central guiding principle of economic thought and management. […] Neoliberalism has, in short, become hegemonic as a mode of discourse. It has become incorporated into the common-sense way many of us interpret, live in, and understand the world.”

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(versão original, 1ª edição, 2004; versão brasileira, 2005), Jonathan Coe aciona um personagem muçulmano, Munir, ele também um “tipo” comum nesses nossos tempos, cuja indignação caricata contra aqueles crédulos neo-iluministas do fim da história é descrita nos seguintes termos: A história – cujo fim fora anunciado prematuramente por alguns escritores havia mais de uma década, após a derrota do comunismo – estava tomando um impulso terrível, crescendo em um rio impiedoso e rápido que logo alagaria as suas margens, e milhões de pessoas, temia Munir, seriam levadas por sua corrente em direção a um destino desconhecido sobre o qual não tinham controle. (Coe, 2005b, p.388)

Jameson (2001, p.43) sugere que uma teoria ponderada do nosso tempo “postula um novo estágio, um terceiro estágio multinacional do capitalismo, do qual a globalização, quase sempre associada à assim chamada pós-modernidade, é uma característica intrínseca”. Tal postura rejeita – ironiza, uma vez mais – a idéia de um horizonte final do capitalismo. E aqui voltamos ao conceito de ideologia: não há outro mais pertinente ao período histórico retratado por Coe em seus livros. Na Era Thatcher, com sua feroz retórica de convencimento da opinião pública sobre as maravilhas de um mundo liberal, o termo ideológico conhece seu auge, enquanto se aproxima o fim do embate – este também embebido em ideologia – entre o Ocidente capitalista e o Oriente comunista. Essa passagem de máxima voltagem ideológica, a que se poderia chamar “encruzilhada pós-Guerra Fria”, torna o mundo confuso aos olhos (ou, antes, segundo as palavras) de nosso protagonista Michael Owen. Confuso não apenas para ele: outro romance de Coe, Bem-vindo ao Clube (versão original, 1ª edição, 2001; versão brasileira, 2004), cujo enredo é interrompido às portas da Era Thatcher, ainda nos anos 70, traz personagens também em apuros para apreender um mundo em transformação – a crise dos sindicatos, uma cultura jovem de resistência, representada principalmente pelo punk, e o fantasma da guerra racial; a continuação desse livro, o já mencionado O Círculo Fechado, por sua vez, retoma os mesmos personagens – a maioria ainda adolescente em Bem-vindo ao Clube – agora já vivendo este início de século em que, tendendo à farsa, a história parece dar a volta sobre si nas guerras do Oriente Médio (ainda raciais?), mas desta vez com a marca de uma cultura jovem de hedonismo e valores individuais exacerbados e da crise das lutas políticas, sindicais ou não. Se o tom ideológico do nosso tempo perdeu nitidez, foi por alguns poucos anos apenas. Em resposta à mistificação do fim da história, cunhou-se o seguinte aforismo (apócrifo, ao que consta, algo tão comum no ambiente cibernético envolto em anonimato dos dias atuais): “As ideologias podem ter morrido com o Muro de Berlim, mas renasceram das cinzas das Torres Gêmeas”. O 11 de setembro nova-iorquino é mais um desses emblemas ideológicos da história recente. É pela atualidade da obra de Jonathan Coe – e pela atualização ali proposta do conceito de ideologia, tão em voga, como vimos – que passamos a investigar esse aspecto.

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Que é ideologia? Konder (2002, p.194), apoiando-se em reflexão do historiador britânico Raymond Williams, se refere às “três acepções usualmente assumidas pelo conceito de ideologia: a de sistema de crenças característico de um grupo ou classe social; a de sistema de idéias falsas (falsa consciência) contrapostas ao conhecimento científico ou verdadeiro; e a de processo geral de produção de significados e idéias”. Em outro momento, o mesmo Konder, desta vez recorrendo ao verbete “ideologia” de Mario Stoppino, no Dicionário de política, alude ao significado “fraco” do conceito, que corresponde mais ou menos à primeira das acepções acima: o termo ideologia designaria, explica Konder, “sistemas de crenças políticas, conjuntos de idéias e valores cuja função é a de orientar comportamentos coletivos relativos à ordem pública”; e contrapõe a isso o significado “forte”, segundo Stoppino, “aquele em que o termo se refere, desde Marx, a uma distorção do conhecimento”, ou seja, a anteriormente citada acepção da “falsa consciência” – uma expressão marxista até a medula. O significado “fraco”, assim chamado porque de fato dilui um conceito filosófico importante na solução fácil do “sistema de crenças”, não nos servirá: trataremos, afinal, mais do mundo conforme apreendido pelos personagens de Jonathan Coe do que do thatcherismo, do neoliberalismo ou de qualquer conjunto de idéias assemelhado. Aqui, vale a sábia observação do crítico Antonio Candido, ele próprio um sociólogo de formação, quando se trata dos “nexos sociais da literatura”: “[...] procuro não fazer análises paralelas, isto é, descrever as condições sociais e depois registrar a sua ocorrência no texto, o que pode levar, por exemplo, a encarar a criação ficcional como um tipo de documento. Isto pode ser legítimo para o sociólogo ou o historiador, não para o crítico. O que procuro é, quando for o caso, compreender como o dado social se transforma em estrutura literária” (Cariello, 2006, p.E1), processo a que o próprio Candido chama “redução estrutural”. Quanto ao significado “forte” de ideologia, segundo a elaboração de Konder/ Stoppino, tampouco nos ajuda. Ora, defender que haja idéias “falsas” em contraposição a um certo “conhecimento científico ou verdadeiro”, ou ainda opor a “falsa consciência” marxista a uma suposta “verdade” subjacente, seria derrubar a observação anterior sobre a validade dos mais diversos tipos de discursos – da narrativa, em particular, e mais ainda da narrativa literária no presente caso – na construção da história. Fiorin (2003, p.28), ainda em viés marxista que não nos serve, vê a ideologia também como “conjunto de idéias” ou “representações que servem para justificar e explicar a ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens”. Diz o autor: “Como ela é elaborada a partir das formas fenomênicas da realidade, que ocultam a essência da ordem social, a ideologia é ‘falsa consciência’”. A definição não nos serve, repita-se, porque a “realidade”, como veremos, só se manifesta na linguagem, e uma tal “essência da ordem social”, se existir, será ela também pura linguagem3. Vejamos o que sugere Eagleton (1997, p.193, grifo nosso): 3 Não se está negando, com isso, a existência do mundo real, tampouco do passado desse mundo – que, conforme temos afirmado e reafirmado neste estudo, de fato existem (existiram). O que se rejeita é uma suposta “essência”, última e irrefutável, do mundo histórico. Este é de natureza político-ideológica, enquanto o outro – a que poderíamos chamar “mundo concreto” – tem existência puramente cognitiva.

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O termo ideologia tem um amplo espectro de significados históricos, do sentido intratavelmente amplo de determinação social do pensamento até a idéia suspeitosamente limitada de disposição de falsas idéias no interesse direto de uma classe dominante. Com muita freqüência, refere-se aos modos como os signos, significados e valores ajudam a reproduzir um poder social dominante, mas também pode denotar qualquer conjuntura significante entre discurso e interesses políticos. A partir de um ponto de vista radical, o primeiro sentido é pejorativo, enquanto o segundo é mais neutro. Minha própria visão é de que ambos os sentidos do termo têm seus empregos, mas que não os desenredar deu origem a um bocado de confusão.

Adotando uma noção ampliada de ideologia – “qualquer conjuntura significante entre discurso e interesses políticos” – o que se pretende é exatamente “desenredar” nosso uso do conceito de termos como “classe dominante” ou “falsa consciência”. Sem ignorar, ao mesmo tempo, esse ponto nevrálgico – ao qual voltaremos sempre que necessário – em que inevitavelmente o termo ideologia, visto como francamente marxista, esbarra em uma tradição anti-racionalista e múltipla de pensamento, aqui encarnada principalmente em Foucault – a ponto de este ter mesmo preterido, em suas investigações, a categoria ideologia em favor de outra, poder (2005b, p.39-40; 2004, p.7). No caso dos romances aqui analisados, no entanto, pensamos ser mais adequado e instigante persistir com a primeira das duas categorias: apenas evitaremos, em linhas gerais, seu sentido “pejorativo” em favor de uma visão mais “neutra” da questão ideológica. Resta-nos, portanto, a terceira acepção levantada há pouco por Konder/Stoppino: ideologia como “processo geral de produção de significados e idéias”, ou seja, uma abordagem mais puramente filosófica, conforme resume Linda Hutcheon, quase que nos mesmos termos usados até aqui neste breve retrospecto: Deixando de lado a noção marxista, mais antiga, de ideologia como uma falsa consciência ou como um sistema ilusório de crença, o discurso crítico atual passou a adotar uma noção diferente de ideologia como um processo geral de produção de sentido. Em outras palavras, todas as práticas sociais (inclusive a arte) existem na ideologia e por meio da ideologia [...]. (1991, p.227)

Tanto melhor se pudermos encontrar na filosofia da linguagem o que procuramos: uma teoria pluralista, não-totalizante, do recurso ideológico na literatura. Ou, por outra, a resposta a como a linguagem literária, na aparente inércia das palavras, produz significado ideológico. Mais: em que uma “realidade” – repare-se: não uma “verdade” última, mas, como disse Antonio Candido, “o dado social [que] se transforma em estrutura literária”, portanto necessariamente um discurso – em que, enfim, uma tempestade de mudanças discursivamente auto-justificadas como as da Era Thatcher, por exemplo, é determinante em uma obra literária? Como se dá, no microcosmo do romance, o mencionado “processo geral de produção de sentido”? O pensamento do filósofo russo Mikhail Bakhtin pode lançar alguma luz sobre tais questões.

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Antes de mais nada, é preciso esclarecer brevemente as condições de produção dos textos de Bakhtin citados adiante. Porque viveram sob a vigilância cerrada do regime comunista, tendo sofrido os expurgos tão comuns especialmente no período stalinista, Bakhtin e o círculo de intelectuais do qual fez parte escreveram quase sempre de forma precária e clandestina. Dois outros nomes comumente associados ao pensador russo – Voloshinov e Medvedev – disputam até hoje a autoria de algumas passagens que, aqui, em prol da fluência do texto, creditaremos simplesmente a Mikhail Bakhtin. Cabe ainda um esclarecimento inicial sobre a ligação entre esses trabalhos de Bakhtin et al. e o pensamento marxista, obviamente na ordem do dia na Rússia comunista. Tezza (2003, p.28), como forma de imediatamente demarcar diferenças entre uma coisa e outra, sugere situar o lugar do marxismo em Bakhtin ��� se se tratava simplesmente de um “marxismo nominal”, uma estratégia de publicação de Voloshinov e Medvedev, com as palavras de ordem repetidas em geral no primeiro capítulo do livro para escapar da censura, ou se de fato, ou além disso, havia uma legítima preocupação de fundar uma teoria da linguagem de raiz marxista [...].

O mesmo Tezza, referindo-se à afirmação de um estudioso da obra bakhtiniana de que o filósofo russo, ainda que menos explicitamente do que Voloshinov e Medvedev, também reverenciou o pensamento marxista, observa: “Embora seja discutível a citada reverência de Bakhtin ao marxismo, [...] a influência de alguns de seus aspectos pode ser entrevista em muitos momentos, em particular na afirmação da materialidade do signo, em todas as suas instâncias, que aparece no conjunto de sua obra dos anos 30 e 40” (p.29). Em se tratando de um pária do regime, não será certamente uma inspiração marxista do tipo dogmática, em busca de “verdades” que, novamente, aqui não nos interessam. Tezza prossegue: [...] Medvedev condena no marxismo soviético a tendência a ver a literatura como a mera transmissora de ideologias, ou como reflexo direto da vida, ou como reflexão mecânica da realidade, ou como portadora de teses. Para Bakhtin [...], na literatura não há filosofia, mas o ato de filosofar; não há conhecimento, mas o processo de cognição. (p.36)

Tal processo, com tudo que ele, sim, possa conter de ideológico, é o que nos interessa a partir de agora. No célebre estudo Marxismo e Filosofia da Linguagem (um título que, sob luzes e álibis novos aqui expostos, poderá ser melhor compreendido), Bakhtin não hesitará em situar a ideologia no nível do discurso: “Sem signos não existe ideologia” (2006, p.31, grifo original); “Tudo que é ideológico possui um valor semiótico” (p.33, grifo original). Assim colocada, a ideologia deixa de ser parte da consciência – como preconizaria uma visão idealista da questão – e entra no mundo social dos signos, de acordo com Bakhtin. O centro organizador de toda enunciação, de toda expressão não é interior, mas exterior: está situado no meio social que envolve o indivíduo. Só o grito inarticulado de um animal procede do interior, do aparelho fisiológico do indivíduo isolado. É uma reação fisiológica pura e não ideologicamente

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marcada. Pelo contrário, a enunciação humana mais primitiva, ainda que realizada por um organismo individual, é, do ponto de vista do seu conteúdo, de sua significação, organizada fora do indivíduo pelas condições extra-orgânicas do meio social. (Bakhtin, 2006, p.125-126, grifo original)

Mesmo o “discurso interior” é, portanto, gerado fora de quem o profere, de acordo com o pensamento bakhtiniano. Que dizer da consciência, voltando a ela? “A consciência só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, conseqüentemente, no processo de interação social”, afirma Bakhtin (2006, p.34). O que afasta também, vale reforçar, qualquer possibilidade de “falsa consciência” – esta noção marxista dogmática de ideologia que, embora historicamente relevante, pelo exposto até aqui pouco nos serve. A única definição objetiva possível da consciência é de ordem sociológica. [...] A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de relações sociais. Os signos são o alimento da consciência individual, a matéria de seu desenvolvimento, e ela reflete sua lógica e suas leis. A lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social. Se privarmos a consciência de seu conteúdo semiótico e ideológico, não sobra nada. (Bakhtin, 2006, p. 35-36)

Bakhtin afirmará, de fato, que por sua vez “[...] as leis da comunicação semiótica [...] são diretamente determinadas pelo conjunto das leis sociais e econômicas”, arrematando em seguida: “A realidade ideológica é uma superestrutura situada imediatamente acima da base econômica” (p.36). Não se trata de negar o parentesco desse pensamento com os conceitos marxistas fundamentais – esse parentesco está no próprio título do livro citado. Em Marxismo e Filosofia da Linguagem, Bakhtin afirma ainda: “O ser, refletido no signo, não apenas nele se reflete, mas também se refrata. O que é que determina essa refração do ser no signo ideológico? O confronto de interesses sociais nos limites de uma só e mesma comunidade semiótica, ou seja: a luta de classes” (Bakhtin, 2006, p.47, grifos originais). Repita-se: referências certamente haverá ao pensamento de Marx e Engels nas idéias sobre literatura, história e ideologia aqui apresentadas. Mas este estudo se propõe a ir além de coincidências a nosso ver circunstanciais, neste caso. Vejamos. No romance em que cobre os anos 70, Bem-vindo ao Clube, Jonathan Coe a certa altura, em mais um procedimento típico de intertextualidade, nos oferece a “transcrição” de uma fita cassete contendo um diálogo entre o sindicalista Bill Anderton e a estudante Claire Newman. Embora as razões da garota para aquele encontro fossem outras, e não cabe aqui detalhá-las, a conversa se realiza a maior parte do tempo como uma entrevista para o jornal da escola de Claire. A jovem repórter pede a Bill que explique o porquê das greves e da agitação permanente na fábrica onde trabalha, no subúrbio de Longbridge. “Há uma luta acontecendo em Longbridge – uma guerra, pode-se dizer. A luta entre trabalho e capital. Essa luta é tão antiga quanto a história ou pelo menos tão antiga quanto o capitalismo, mas não se encontra muita coisa sobre ela nos livros de história”, diz o sindicalista (Coe, 2004b, p.301). Mais um crédulo a 192 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 183-198| 2° Semestre 2008


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embarcar ingenuamente na luta de classes pura e dura, como tantos naquele tempo? Talvez não. No desenrolar do diálogo a partir daquele trecho, Bill Anderton irá um pouco além do marxismo de cartilha, numa ilustração bastante satisfatória do quanto, também para os personagens desses romances, a linguagem – como ideologia, inevitavelmente – constrói o fato histórico, como discutimos anteriormente. Bill prossegue: Eu já olhei nos [sic] livros que meu filho usa na escola e são os mesmos que eu costumava ler quando criança – a história dos reis e dos príncipes, e dos primeiros-ministros. A história da classe dominante , em outras palavras. Mas a classe dominante4 é apenas uma parte minúscula da história, e ao longo de séculos vem se sustentando e sendo apoiada pelo trabalho do restante da população, e essas pessoas também têm história. (Coe, 2004b, p.301)

Ainda uma visão bastante marxista, alguém argumentará – com certa razão. Registre-se, no entanto, o protesto do personagem por uma nova filosofia da História, aquela mesma que tem inspirado tanto a historiografia recente quanto o tipo de romance aqui analisado. A “realidade”, e é isso que nos interessa, só será apreensível pela linguagem – constatação a que o próprio Bill Anderton chegará com total clareza na seqüência de sua entrevista com Claire. No trecho a seguir (em que “CN” é Claire Newman e “BA”, Bill Anderton), o sindicalista se debate com a questão, para ele essencial, dos termos em que está sendo contada a sua história e a dos seus – a “classe trabalhadora” – por parte dos dirigentes de Longbridge, a “classe dominante”. CN: Vê a relação entre essas duas classes como uma luta, uma guerra. BA: Essencialmente, sim. CN: Não foi justamente esse seu posicionamento que lhe rendeu a reputação de militante? BA: Não gosto dessa palavra. Ela é invenção da classe dominante. É só uma palavra que inventaram para rebaixar uma pessoa que está representando os interesses de seus companheiros. A classe dominante é dona da língua, entende, como de tudo o mais. As palavras, assim, se corromperam. CN: O senhor é marxista? BA: Bom, essa sua pergunta é um tanto... tendenciosa, Claire. Sabe o que é um marxista? CN: (rindo) Não sei muito bem. [...] BA: Eu já li Marx, obviamente. Estudei os textos dele na escola noturna, e concordo com sua interpretação da história. Só que isso não faz de mim um comunista, é claro. (Coe, 2004b, p. 301)

O diálogo coloca em xeque toda e qualquer noção consagrada ou sistema totalizante: militância, marxismo, comunismo. A própria História. Novamente, se os acontecimentos e os personagens aspiram a qualquer materialidade, só podem 4 Nesta passagem, optamos por tradução própria do original “ruling class” (Coe, 2004a, p.239). Na edição brasileira (Coe, 2004b, p.301), a expressão é traduzida ora como “classe dominante”, ora como “classe governante”. A primeira opção é, sem dúvida, mais adequada à discussão sobre marxismo travada entre os dois personagens no diálogo em questão.

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consegui-la nos signos com os quais se vêem marcados. “Signos ideológicos”, como quer Bakhtin, numa espécie peculiar de marxismo em chave semiótica, por assim dizer, ou ainda de materialismo histórico dos signos – Foucault, em seu A Ordem do Discurso, usará a expressão análoga “materialismo do incorporal”. É o que leva o sindicalista a concluir: “Se a gente dominar a linguagem, então tem poder. Uma espécie de poder” (p. 302-303). Bem-vindo ao Clube, recordemos, segue os acontecimentos até a derrota política irreversível dos sindicatos, no final dos anos 70. A primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher sobe ao poder, em grande medida, porque entende a dimensão ideológica da história e sabe manipulá-la: reinventa a discussão política pela via da linguagem. E é por essa via que, quase quinze anos mais tarde, depois de Thatcher ter sido sucedida por outro primeiro-ministro conservador, John Major, a Inglaterra volta à tutela dos trabalhistas com Tony Blair. A ironia – que evidentemente não escapa aos romances de Coe – está no fato de a retórica do chamado Novo Trabalhismo ser muito parecida com aquela do thatcherismo mais militante. Na continuação de Bem-vindo ao Clube, O Círculo Fechado, o parlamentar trabalhista Paul Trotter descobre as maravilhas de ter uma consultora, Malvina, capaz de orientá-lo na arte da retórica, vale dizer, da condução da história. Ela o incentiva a ser irônico sempre que houver oportunidade. “A ironia é algo muito moderno – assegurou Malvina. – Muito atual. Veja: você não tem mais de deixar claro exatamente o que quer dizer. Na verdade, você nem mesmo precisa acreditar no que diz. Esta é a beleza da coisa” (Coe, 2005b, p.68, grifo original). O singular personagem Paul Trotter, com o deslumbramento e a simplicidade crua de quem até então desconhecia um tal recurso quase mágico, encerra a questão: “Na era da ironia, as palavras podem querer dizer o que quisermos” (p.69). Ainda não é o momento de entrarmos em detalhes sobre a teoria literária de Mikhail Bakhtin. Retrocedamos, pois, à concepção de ideologia para resumir nosso percurso – ou, antes, o percurso bakhtiniano – até aqui: Na base de nossa análise está a convicção de que toda obra literária é internamente e imanentemente sociológica. Forças sociais vivas a perpassam; cada elemento de sua forma é permeado por valores sociais vivos. Por essa razão uma análise puramente formal deve tomar cada elemento da estrutura artística como um ponto de refração de forças sociais vivas, como um cristal sintético cujas facetas estão estruturadas e posicionadas de forma a refratar feixes específicos de valores sociais, e refratá-los num ângulo específico5. (1999, p.276)

Trata-se novamente daquela “realidade ideológica” pairando acima do mundo (ou, para Antonio Candido, do processo de “redução estrutural” a que nos referimos antes). E voltamos ao nervo exposto de nossa argumentação. Haverá, afinal, essa realidade (a infra-estrutura marxista) anterior à linguagem? A resposta é sim e não. Por um lado, Bakhtin e seu círculo, em sua perquirição sobre “como o signo reflete e refrata 5 “At the basis of our analysis lies the conviction that every literary work is internally and immanently sociological. Within it living social forces intersect; each element of its form is permeated with living social evaluations. For this reason a purely formal analysis must take each element of the artistic structure as a point of refraction of living social forces, as a synthetic crystal whose facets are structured and ground in such a way that they refract specific rays of social evaluations, and refract them at a specific angle.” 194 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 183-198| 2° Semestre 2008


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a realidade em transformação” (2006, p.42, grifo original), reafirmam o pressuposto materialista da anterioridade de uma infra-estrutura. “As relações de produção e a estrutura sociopolítica que delas diretamente deriva determinam todos os contatos verbais possíveis entre indivíduos, todas as formas e os meios de comunicação verbal: no trabalho, na vida política, na criação ideológica” (p.43). Mas, de outra parte, e na seqüência mesmo da citação acima, o pensamento bakhtiniano é categórico quanto à relevância concreta do que é enunciado: “Por sua vez, das condições, formas e tipos da comunicação verbal derivam tanto as formas como os temas dos atos de fala”. Ora, tais atos de fala – ecoando justamente o conceito de enunciado em Foucault (Castro, 2006) – afiguram-se tão “reais” quanto qualquer “realidade” infra-estrutural que supostamente os houvesse precedido. Esse processo de retroalimentação – fato que gera palavra que gera fato, não necessariamente nessa ordem – é a chave para o entendimento da representação na literatura segundo Bakhtin, como veremos a seguir. Estamos aqui, é certo, bem distantes da mistificação de uma “essência” das relações sociais, ou ainda de um “conhecimento científico ou verdadeiro” do mundo. Preliminarmente, portanto, separando os fenômenos ideológicos da consciência individual nós os ligamos às condições e às formas da comunicação social. [...] Mas esse aspecto semiótico e esse papel contínuo da comunicação social como fator condicionante não aparecem em nenhum outro lugar de maneira mais clara e completa do que na linguagem. A palavra é o fenômeno ideológico por excelência. (Bakhtin, 2006, p.36, grifo original)

Ideologia não é, recapitulando, um sistema dominante de idéias ou o “atalho errado” para o real, a “falsa consciência” – na linha de uma teoria marxista. Voltando a O Legado da Família Winshaw, e ainda nos remetendo a Bakhtin, poderíamos falar, sim, de uma “ideologia dominante” (relembrando: o thatcherismo, o neoliberalismo, aquilo a que alguns chamaram “pensamento único” ou “fábula” da globalização e do “fim da história”). A isso se contrapõe uma “ideologia do cotidiano”, segundo Bakhtin. É a essa “ideologia do cotidiano” que se dedica o romance, em dois níveis: os “estratos inferiores” desse contra-discurso são os protestos anti-Thatcher, anti-neoliberalismo, anti-privatizações etc. de Michael Owen, a primeira pessoa do protagonista; e os “estratos superiores” da “ideologia do cotidiano”, as várias outras vozes do romance, seus inúmeros personagens – a Família Winshaw do título, de tão numerosa, aparece em uma árvore genealógica nas páginas iniciais – e respectivos matizes ideológicos. Expressa-se assim a “voz do escritor”, solitária afinal, em tom monológico por baixo de todas as outras. Conforme também escreve Bakhtin, o autor é o “único que sabe, entende e influi em primeiro grau. Só ele é ideológico” (1981, p.68-69). Aqui, contraideológico: os gêneros discursivos e as vozes que os representam estão a serviço, por assim dizer, do que o mesmo Bakhtin denomina “consciência autoral”. Em citação anterior, Harvey (2005, p.2-3) observava, sobre aquele período, que “o neoliberalismo tornou-se, em suma, o discurso hegemônico. Infiltrou-se em nossa maneira de pensar a tal ponto que passou a fazer parte do senso comum segundo o qual muitos de nós interpretamos, vivemos e entendemos o mundo”. Parece-nos razoável pensar que nem Michael Owen, nem a entidade autoral por trás do personagem (ou, por

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outra, nem Jonathan Coe, nem seu alter-ego ficcional) escapariam àquele “seqüestro ideológico”, como a ele se refere o próprio Owen. O que nos interessava mostrar era a reação desses dois “personagens” – sim, porque trata-se aqui da persona autoral de Coe, como é óbvio, da “consciência autoral” do romance, para voltar a Bakhtin, e não da figura biográfica – diante daquela “realidade” (atenção, uma vez mais, às aspas: só nos é dado conhecer aqueles fatos em romances ou livros de história). E, se Owen, na ideologia do cotidiano bakhtiniana, pode ocupar o “nível inferior”, por que não supor que seria originalmente Coe a sustentar, na “voz do escritor”, as demandas dos “níveis superiores”, aqueles em que “se acumulam as energias criadoras com cujo auxílio se efetuam as revisões parciais ou totais dos sistemas ideológicos” (Bakhtin, 2006, p.125)? Tanto mais forte se torna o argumento quanto mais se consegue deslindar o “tom único” desse romance – apesar de sua profusão de “vozes”, um magnífico coro ideológico. Ao fim e ao cabo, no entanto, ouvimos apenas o clamor solitário – mas hilariante e poderoso – de um artista contra a aspereza de seu tempo.


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Aculturação norte-americana no Brasil: marco contextual Patrícia Helena Rubens Pallu1

Universidade Positivo

Resumo Esse artigo apresenta um relato histórico do processo de entrada da língua inglesa no Brasil durante a segunda Guerra Mundial e por que os Estados Unidos escolheram a América Latina para invadir culturalmente. Abordou-se aqui de que forma essa invasão cultural aconteceu e qual o grau de dominação cultural que a língua inglesa atingiu no Brasil. Discutiu-se também o status de língua franca que o inglês tem hoje. Isto é, tem sido usado em todo o mundo, entre pessoas de diferentes nacionalidades e para diferentes fins. Palavra-chave: dominação cultural, inglês, língua global

Abstract This article presents how the English language entered Brazil during World War II and why Latin America was chosen to be culturally invaded by the United States at that time. How this invasion occurred and to what extent Brazil has been culturally dominated is also discussed in this article. Furthermore, the role of lingua franca that English has achieved is discussed since this language has been used all over the world by people of different nationalities and for different purposes. Keywords: cultural domination, English, global language

1 Patrícia Helena Rubens Pallu é professora da Universidade Positivo e integrante do Conselho de Coordenação do curso de Jornalismo, graduada em Letras-Inglês (UFPR) e em Administração de Empresas (FAE) e mestra em Educação e Cultura (UDESC). patypalu@gmail.com


Aculturação norte-americana no Brasil: marco contextual

1 CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS Na maioria dos colégios brasileiros, nos quais uma língua estrangeira está incluída há bastante tempo nos currículos do Ensino Fundamental e Médio, a aprendizagem da referida língua se caracteriza pela sua taxa de insucesso. São poucas as pessoas que alcançam um bom conhecimento de uma ou várias línguas estrangeiras, chegando ao estágio em que se possa ler um bom livro, acompanhar um filme ou manter uma conversa com os falantes nativos. Mesmo aquelas pessoas que estão motivadas por razões relacionadas às necessidades de aprender a falar o inglês pela influência norte-americana que o Brasil sofre em muitos setores continuam apresentando dificuldades. Sobre a questão da inclusão do idioma inglês nos currículos do Ensino Fundamental e Médio no Brasil, a informação que temos, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, é que não há na política educacional brasileira o objetivo de que os alunos aprendam a se comunicar em inglês mas, apenas, que possam receber as informações necessárias para compreender pequenos textos escritos e realizar pequenas traduções. O ensino, neste caso, está voltado apenas para a leitura e escrita. Pode-se dizer que a obrigatoriedade do inglês nos currículos escolares no Brasil mais parece uma pseudosegunda língua materna, em razão das dificuldades que são geradas nas escolas para os que ensinam e, principalmente, para os que aprendem. A influência norte-americana na ciência e na tecnologia, a instalação de grandes multinacionais cujos melhores empregos exigem um bom conhecimento de inglês, a necessidade de realizar viagens, fazer estudos de pós-graduação, quando falar mais de um idioma é imprescindível, o desejo que muitas pessoas têm de destacar-se socialmente, a revolução nas telecomunicações proporcionada pela informática, pela fibra óptica e pelos satélites que despejam informações pela TV, o uso da internet, contribuindo para o fenômeno da globalização, são dados reais da necessidade que os brasileiros têm de falar o inglês. Dando ênfase à voz política neste mundo já globalizado, mas que naturalmente ainda padece de graves problemas, e apesar de nosso atual Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, haver se pronunciado contra o idioma inglês para os brasileiros, o caminho da palavra inteligente se sobrepõe ao da agressão e da ignorância e se apresenta como a única alternativa. Quanto mais e quanto antes pudermos expressar nossos pontos de vista em linguagem convincente, no idioma da maioria, tanto melhores serão as chances de sermos ouvidos para defendermos nossos interesses, combatermos as injustiças bem como as posturas conservadoras e preconceituosas, discriminadoras e etnocêntricas. A rapidez das mudanças nas tecnologias de produção, de venda, de marketing, de comunicação, da construção civil e a força da economia na prestação de serviços, que nessa era da pós-modernidade está em destaque, fazem com que falar o idioma inglês seja imperativo para muitas pessoas. Outro fator relevante para a aprendizagem de mais de uma língua, sobretudo o inglês, está na influência da cultura norte-americana, presente também em todos os setores do cotidiano das pessoas. As donas-de-casa lidam com aparelhos domésticos 200 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 199-214| 2° Semestre 2008


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cujas indicações de uso e de cuidados a serem tomados estão todos escritos em inglês. As crianças, sobretudo as de famílias de baixa ou média renda que vivem em apartamentos, passam boa parte de seu tempo livre diante de um aparelho de televisão assistindo à programação para o público infantil que é quase toda produzida fora do Brasil. Ainda que algumas crianças entendam o que se fala na programação é de supor que como está fora de contexto não produz nem aprendizagem e, talvez, nem diversão. Da mesma feita, isso ocorre também com os brinquedos e as revistas em quadrinhos. A construção da identidade cultural na criança não se baseia em nossos costumes, nossas tradições ou nossos valores. As crianças assistem a histórias e lêem revistas construindo sentidos sem dominar a complexidade de informações que provêm do contexto original no qual são criados estes produtos. O universo informacional emergente faz com que a recepção dos produtos midiáticos seja articulada com uma sobreinformação e com a desinformação que de fato não inibe a capacidade de reelaboração das crianças, mas que deve ser lida como um fenômeno mais complexo que a simples absorção de informações estranhas, porque estão descontextualizadas e sem familiaridade. O número de falantes de inglês como língua estrangeira é de aproximadamente 700 milhões, como segunda língua é de algo em torno dos 400 milhões e o número de falantes nativos é de quase 440 milhões, somando um total aproximado de 1 bilhão e quatrocentos milhões falantes em todo o mundo. Conseqüentemente, há uma crescente demanda para a aprendizagem do inglês no mundo inteiro. (CRYSTAL, 2006). Segundo Ventura (1989:36 apud PAIVA, 1996), o inglês é uma epidemia que contamina 750 milhões de pessoas no planeta. O inglês, a língua sem fronteiras, está na metade dos 10 mil jornais do mundo, em mais de 80% dos trabalhos científicos e no jargão de inúmeras profissões, como a informática, a economia e a publicidade. Na pós-modernidade o domínio do idioma inglês é condição sine qua non para uma ascensão profissional. Não há como contestar, e nem desconsiderar, que na realidade atual o inglês é um idioma quase universal, sobretudo na cultura ocidental. O encurtamento das distâncias entre todos os continentes, reduzindo o globo terrestre a uma “aldeia global”, em função da tecnologia de informática, requer que quase todos os trabalhadores, mesmo aqueles que ocupam posições profissionais mais simples, tenham noções do idioma inglês, mesmo que seja para operarem as máquinas de produção, cujas legendas são sempre em inglês. O indivíduo que não tiver acesso à internet, e conseqüentemente a algumas noções do idioma inglês, está sendo excluído do mundo de trabalho, passando a fazer parte do rol das pessoas subempregadas que não têm nenhuma garantia de futuro. A tentativa de refletir sobre a temática significa trazer à baila um tema de interesse para muitas pessoas, podendo abrir novos circuitos de reflexão.

2 A INFLUÊNCIA NORTE-AMERICANA NO BRASIL Como ocorreu e ocorre com todos os povos, nós brasileiros também temos nossa característica de ser e viver, nosso modo de resolver problemas, nossas formas de convivência, nossos valores e nossas formas singulares de expressar nossos desejos. COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 199-214| 2° Semestre 2008 | 201


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O que significa que também temos nossa própria cultura. Se assim não fosse, nós não reconheceríamos um outro brasileiro que estivesse no Exterior ou vice-versa. Mesmo neste tempo de grandes transformações sociais pelas quais o mundo está passando, ainda temos uma identidade cultural. O que, aliás, todos os povos têm. Porém, como a identidade de um povo não é estática, imóvel, pronta e acabada, as transformações que já ocorreram e que atualmente ocorrem com maior velocidade se fazem sentir em nossa cultura nesse processo de transformações que é permanente. No último século, além das influências que recebemos da cultura francesa, inglesa, dos imigrantes europeus, árabes e japoneses, tivemos, notadamente, a influência dos norte-americanos. Conseqüentemente surgiram formas de expressão cultural que interferiram no significado e no sentimento de brasilidade. O processo de dominação em que vivemos atualmente, que vem mais diretamente dos EUA, pode até despertar um sentimento de autodesprezo e inferioridade que pode levar a maioria dos brasileiros a desejarem ser idênticos ao invasor. Segundo Alves (1988), nos últimos anos tem-se falado muito no surgimento de uma civilização mundial, em virtude da internacionalização da economia e do desenvolvimento dos meios de comunicação. E isso nos levaria à perda das identidades nacionais e a viver numa nova civilização, que ela denomina de americanização da cultura em nível internacional. A autora acima referida em 1988 já tinha uma visão de futuro, ao considerar a cultura norte-americana como a mais “cumulativa e rica”, legitimando sua hegemonia sobre as demais. Arrisco-me em dizer que talvez ela não tivesse claro, apenas, que o movimento cultural pelo qual passaria a civilização mundial ocorreria tão rapidamente. E isso porque hoje ao que tudo indica essa nova forma de civilização já está em pleno exercício. Com relação à ideologia e à indústria cultural brasileira, são veiculados com bastante ênfase os conteúdos ideológicos capitalistas, bem como, e em especial, os do imperialismo norte-americano. Para melhor compreendermos isso vejamos o que significa ideologia: Marilena Chauí (1984) diz: “Para Marx as idéias dominantes em uma sociedade nascem das condições materiais de produção, da existência e das relações sociais por elas geradas naquele momento histórico. As idéias estão ligadas à maneira como são apropriados os bens, como é organizado o trabalho e são estruturadas as divisões sociais. E isso muda, quando mudam também essas condições”. A ideologia capitalista por excelência, como é o caso dos EUA, e também do Brasil, tem se pautado por manter os membros de nossa sociedade a se conformarem, sem críticas e revoltas, com a sua organização, que é apresentada como única possível e desejável, sendo cada um o que é por ter se esforçado, por ter escolhido, ou por dispor de talento ou não para ocupar determinadas funções. No Brasil, isso é reforçado pelas crenças religiosas, que levam os crentes a se conformarem com sua condição e a pedirem que as mudanças em sua vida venham de poderes místicos. Vejamos como isso ocorre na prática: diante de dois funcionários de uma empresa, um executivo de alto escalão e o outro o faxineiro. Os valores pregados na empresa são que ambos são igualmente importantes para a empresa, apenas exercem funções diferentes. Pode-se 202 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 199-214| 2° Semestre 2008


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dizer, então, que a ideologia procede pela omissão e não pela revelação da realidade. O que dá para pensar é que essa ideologia dominante está em toda parte, e é absorvida por todos, pois os valores ideológicos são difundidos pelos mais variados meios, não havendo possibilidade de não serem absorvidos. O Brasil é um país capitalista e gira em torno dos EUA, como é o caso da cultura mundial depois do advento do processo da pós-modernidade, sobretudo nos países subdesenvolvidos. Os conteúdos dos filmes, notícias, quadrinhos, brinquedos, etc., que são dados a consumir, veiculam a ideologia burguesa nacional e norte-americana. Isso pode ser percebido nas situações mais comuns do cotidiano, conforme o exemplo que vimos acima. Paulo Freire (1978) diz que a base da invasão cultural é a crença por parte dos invadidos de sua inferioridade intrínseca, enquanto acreditam na superioridade do invasor, nascendo daí o desejo de se parecerem com ele. Para que isso possa parecer real, basta vestir-se como eles, andar como eles, comprar as coisas que eles usam e, mais do que tudo, falar como eles. Neste caso, falar o inglês. Hoje isso já mudou em função da globalização, da internet, e ainda que o autor esteja dizendo algo que tem a ver com a nossa história, falar o inglês parece que não é mais uma questão psicológica identificadora e, sim, uma necessidade de sair da condição de monolíngüe para o bilingüismo mundial.

3 TIO SAM CHEGA AO BRASIL No início da história do Brasil houve um processo intenso de trocas de elementos culturais entre o branco europeu (o invasor colonizador) e o índio. Essas trocas se deram primeiro com o índio, habitante nativo, e depois com o negro trazido como escravo da África.

“Ouvi dizer que de Europa voltaste feito doutor?

Parece-te isso impossível? É verdade, sim, senhor! E por que academia? E qual a ciência, então? Isso não sei: o diploma é escrito em Alemão.” (MATOS apud XAVIER, 1994, p. 28)

O começo propriamente da cultura brasileira, na época do Brasil Colônia, se deu com o domínio da cultura portuguesa, que foram nossos descobridores, cujo idioma, por força da própria história, se consolidou no Brasil. Na seqüência houve a cultura holandesa que deixou algumas influências culturais, ainda que sem destaque; a cultura francesa que motivou muitos filhos de brasileiros abastados a estudar na França, pois que isso dava grande prestígio. Em menor grau houve a influência inglesa, que com o passar do tempo, enquanto língua falada, foi a que permaneceu como sendo, depois do português, a de maior importância no Brasil. No final do século XIX e início do século XX, o Brasil recebe muitas levas de imigrantes, tais como: italianos, espanhóis, alemães, árabes, eslavos, suíços e japoneses. Ainda que tenhamos sofrido influências culturais trazidas por eles, estas não foram significativas em toda a cultura brasileira COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 199-214| 2° Semestre 2008 | 203


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e são, atualmente, encontradas em regiões específicas como o Sudeste e a Região Sul. Ainda que os brasileiros tenham absorvido suas práticas culturais, estas não tiveram o caráter de dominação. Foi com os imigrantes italianos e espanhóis que, politicamente, houve a prática anarquista, mas, como elas eram condenadas pelos governos de sua própria origem e não estavam a serviço de seus países, não tiveram o caráter de dominação política no Brasil. No entanto, sua influência cultural permanece ainda hoje, sobretudo a dos italianos, quer seja: a culinária, as artes, o idioma, que é falado em muitas regiões do sul do Brasil, a arquitetura, a música, a dança, quer seja, a diversão. A influência espanhola está situada mais nas regiões de fronteira, com a Argentina, Paraguai e Uruguai. Os japoneses tiveram influências na agricultura, no comércio de alimentos, e nas tradições japonesas, em geral. A influência dos alemães deu-se, sobretudo na indústria pesada, na arquitetura, na agricultura, na pecuária, na culinária e nas festas tradicionais de Santa Catarina. A influência dos árabes foi muito grande no comércio de roupas em geral e na culinária. A chegada de Tio Sam ao Brasil, de forma contundente, aconteceu a partir do início dos anos 40, em condições e com propósitos muito bem definidos. Essa década, a de 40, foi notável pela presença cultural maciça dos Estados Unidos, entendendo-se cultura no sentido amplo dos padrões de comportamento, da substância dos veículos de comunicação social, das expressões artísticas e dos modelos de conhecimento técnico e saber científico. O estandarte dos americanos era a necessidade de uma política de boa vizinhança entre os Estados Unidos e os demais países da América Latina com dois propósitos: um o de favorecer um convívio harmônico e respeitoso entre todo o continente americano, e outro o de que houvesse uma política de troca generalizada de mercadorias, valores e bens culturais, que deveria partir do Tio Sam para o restante da América. Os brasileiros, como bons aprendizes, começaram a substituir os sucos de frutas tropicais, que podiam ser fartos à mesa, por uma bebida de gosto estranho e artificial, a “famosa” coca-cola. Naturalmente, começaram a trocar os sorvetes feitos nas pequenas sorveterias por um sucedâneo industrial chamado Kibon, acontecendo o mesmo com a goma elástica chamada chiclets. Novas palavras foram sendo incorporadas ao vocabulário e passamos a ouvir o fox trot, o jazz, o boogie-woogie e a assistir aos filmes produzidos em Hollywood. A boa vizinhança tinha a “cara” de uma avenida larga, de mão dupla, isto é, um intercâmbio de valores culturais entre as duas sociedades. Porém, na prática, isso foi bem diferente. A avenida larga tinha a fantástica diferença de recursos de difusão cultural dos dois países e produziu, o que era de se esperar, uma influência de direção praticamente única, de lá para cá. Segundo Moura (1984), o imenso impacto cultural que ocorreu em virtude da presença norte-americana no Brasil não foi aleatório. Houve um planejamento cuidadoso de penetração ideológica e conquista de mercado. O principal organismo criado foi o Birô Interamericano para a América Latina, e foram convidados especialistas das universidades norte-americanas para debater uma “filosofia” 204 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 199-214| 2° Semestre 2008


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para orientar sua ação. Eles diziam que esse processo de exportação cultural era parte integrante de uma estratégia mais ampla que procurava assegurar no plano internacional o alinhamento do Brasil e da América Latina como um todo aos Estados Unidos, que naquele momento procurava afirmar-se como uma grande potência e um novo sistema de poder no plano internacional. Foi a partir da Segunda Grande Guerra Mundial que a influência política e econômica da Inglaterra na América Latina como um todo foi dando lugar e espaço cada vez maior à influência norte-americana, cujo idioma é o inglês. No período da política de Getúlio Vargas, quando foi grande o desenvolvimento industrial, o capital norte-americano foi entrando no Brasil, sob a forma de empréstimos, equipamentos e tecnologia. Surgiram no Brasil as multinacionais, que tinham suas sedes sobretudo nos EUA, e foi assim que o capitalismo yankee serviu de modelo para o capitalismo em nosso país. Associada a isso ocorreu também a invasão dos setores de comunicação de massa, que tiveram grandes investimentos em nosso país com a importação de filmes, músicas, histórias em quadrinhos, jornais e revistas. Esse período marcou a invasão e dominação norte-americana sobre os nossos costumes culturais. Os filmes dos Estados Unidos procuravam mostrar as indústrias bélica, aeronáutica, cinematográfica, siderúrgica, óptica, assim como os avanços técnico-científicos (microscópio eletrônico, tecidos sintéticos, produtos químicos, o sistema educacional e a cultura em geral). Tivemos então a chamada “invasão teleguiada” que, sem a presença do invasor, fazia chegar até nós os produtos culturais dos norte-americanos. Ocorre então a imposição da cultura americana através do consumo, mas pensávamos estar preservando a nossa liberdade e mantendo nossa determinação cultural. A invasão cultural dos EUA parecia até conveniente, pois o Brasil tinha a ilusão de atingir um estágio de desenvolvimento igual ao dos norte-americanos, uma vez que o imperialismo americano teve sucesso sem par na exportação de padrões de comportamento, gostos artísticos, hábitos de consumo – o que praticamente universalizou o chamado “American way of life”. Mas, é claro, isso não fazia parte dos planos dos Estados Unidos. Muito pelo contrário. O que os EUA queriam era que os brasileiros, e uma grande parte da América Latina, interiorizassem a ideologia imperialista2 norte-americana, e isso foi muito bem feito. Alves (1988), em seu livro A invasão cultural norte-americana, identifica algumas concepções e práticas ideológicas que são veiculadas pelos meios de comunicação: todas as coisas podem ser trocadas por dinheiro no mercado. Até mesmo o ser humano (por um salário); consumir sempre é a regra básica para todos. Ter é mais importante do que ser, pois a posse de determinadas coisas pode conduzir ao sucesso, à felicidade, ao prazer e à elevação do status, prioridades supremas na escala de valores do capitalismo; as chaves do sucesso são a ambição, a astúcia, o trabalho disciplinado e a habilidade em aproveitar as oportunidades da vida que são oferecidas “igualmente para todos”, embora apenas os “mais aptos, esforçados, ou melhor, adaptados às regras da competição”, sejam capazes de desfrutá-las; o sucesso é estar de certa forma acima dos outros, provando-se de algum modo que se está entre os 2 Por imperialismo entendemos a forma de política ou prática exercida por um Estado que visa à própria expansão, seja por meio de aquisição territorial, seja pela submissão econômica, política e cultural de outros Estados.

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melhores; desigualdade de riquezas e diferenças sociais sempre existiram e existirão na humanidade, cabendo a cada um o que o destino lhe reservou como quinhão. No entanto, o trabalho, a perseverança e a sorte poderão conduzir a níveis mais altos na escala social, como provam alguns poucos exemplos de self-made men; ambientes plenos de bens materiais são fonte de prazer e realização pessoal. O capitalismo é o caminho natural que nos conduz a eles, garantindo-nos sua propriedade, desfrute e posse, e nos transformando em usuários permanentes do “paraíso terrestre”. Se, porém, nossos sonhos de felicidade não se realizarem aqui na Terra, existe sempre a esperança de atingi-los numa outra realidade imaterial após a nossa morte. Esses eram alguns dos parâmetros sobre os quais se sustentaria – do ponto de vista do campo ideológico – o capitalismo, que mantém a burguesia no poder. Estes serviriam também para nivelar as pessoas em termos de necessidade, interesse, gosto e hábito. Estaria então mantida a massa de consumidores dos produtos padronizados. Os brasileiros que eram assalariados das multinacionais, e também a maioria da população, foram “engolindo” o que era norte-americano e começaram a achar que o que é importado é melhor. Aliás, esse conceito permanece até hoje no Brasil. Transformamo-nos em brasileiros americanizados. Passamos a desejar consumir o que eles produzem e, quanto mais semelhantes a eles nos sentirmos, tanto mais acreditaremos que o que é melhor para eles é melhor também para nós, os brasileiros. O que é americano se apresenta cada vez menos como estrangeiro para nós, e até incorporamos muito de sua cultura em produções autenticamente brasileiras. Vale destacar que as mensagens ideológicas difundidas pela indústria cultural não são facilmente percebidas pela maioria da população. “Fazer as nossas cabeças” é estrategicamente programado. Uma seleção prévia é feita nos noticiários, documentários, artigos e programas da imprensa falada e escrita. Ainda que procurem dar aos informes um aspecto de neutralidade ou imparcialidade, não é isso que acontece. A estratégia utilizada para a propaganda ideológica é muito sutil, dessa maneira, os meios de comunicação desempenham muito bem o seu papel como manipuladores do público. Considerando a tendência da pós-modernidade, de que tudo é temporário, tudo é desmontável, a informação, o conhecimento, os costumes, os comportamentos, as atitudes, as novas ideologias, as novas tecnologias, o novo know-how sobre marketing, as mais modernas formas de lazer, os novos investimentos, novas pedagogias, a mais sofisticada medicina, as subidas à Lua são na grande maioria das vezes veiculadas no idioma inglês. Alguns hábitos comuns aos norte-americanos estão sendo vivenciados tão freqüentemente por nós, que já estamos nos transformando em criaturas muito semelhantes a eles. Pode-se até dizer que, em alguns casos, já se torna difícil distinguir entre nossos hábitos aqueles que se originaram da cultura estrangeira, sobretudo da norte-americana. Os remanescentes da geração brasileira que viveu antes da invasão cultural e que podem distinguir uma cultura da outra são muito poucos. A nossa própria identidade nacional está muito pálida, ainda que esse fenômeno na pós-modernidade esteja ocorrendo em todos os países em desenvolvimento, que perdem suas fronteiras

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nacionais em virtude de sua dependência aos países altamente desenvolvidos. Dependência essa que se dá em muitos sentidos. A cultura norte-americana começou a entrar no Brasil através de mecanismos políticos, tais como as leis de ensino, nos idos da década de 30, e ficou muito mais forte nos anos 60. Fomos bombardeados com promessas de riqueza e bem-estar que eram produzidas pelos milagres econômicos, planejados por super-heróis tecnocratas, que prometiam um futuro de desenvolvimento e paz social, com grandes carros, eletrodomésticos sofisticados, lazer e casa própria para todos. Nossas atenções eram dirigidas para campeonatos esportivos, copas do mundo, resultado de loteria esportiva, campanhas da fraternidade, enchentes, secas, “novelas das 8”. Havia no ar uma intenção implícita de ocupar nossas energias intelectuais para que nos tornássemos espectadores acomodados e sem senso crítico. Os brasileiros interessados no conforto que lhes era prometido muito pouco refletiam sobre os acontecimentos à sua volta. Em 1860, do total de nossas importações 55% vinham da Inglaterra, e 33% de nossas exportações iam para a Inglaterra. O Brasil estava se tornando um grande mercado de investimento de capitais ingleses. Nossas ferrovias e outros meios de transporte e de comunicação eram financiados pelos ingleses. Ocorreu, no entanto, que a hegemonia política e econômica da Inglaterra logo seria contestada e posta em risco pelos EUA, que já começavam a transparecer a grande potência que seriam no século seguinte. Foi a partir desse ponto que o nosso passado começou a ser mais ou menos camuflado ou interpretado de maneira um tanto inocente por nossos escritores e educadores. Os EUA começam a ter sua ação imperialista no continente americano. O termo imperialista está sendo usado com o sentido de exercício de influência ou dominação, que países industrializados, militarmente fortes e mais ricos, exercem sobre a economia, a política, a diplomacia e a cultura dos outros países ditos subdesenvolvidos. Uma característica das relações imperialistas é o intercâmbio econômico desigual, em que o país dominado se transforma em mero fornecedor de matériasprimas e alimentos e importador de manufaturados, de tecnologia e capitais do país dominador. Preocupados e ocupados com o trabalho nas multinacionais e esperançosos com as promessas de um porvir melhor, os trabalhadores brasileiros novamente pouco refletiam sobre os acontecimentos que vinham ocorrendo à sua volta. Vejamos como foi o caminhar do Sistema Educacional Brasileiro após a Segunda Grande Guerra Mundial, quando o nosso país foi invadido pelas grandes indústrias européias e norte-americanas. A Lei das Diretrizes e Bases do Ensino de 4024/61 foi importada da França, e aplicada no Brasil sem adaptações. Permaneceu em aplicação por 10 anos, mas os Estados Unidos logo perceberam que ela não atendia aos objetivos do “emburrecimento” desejado por eles. Esta foi, então, substituída pela Lei 5692/71, importada dos Estados Unidos, e que também foi aplicada sem adaptações.

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Aliás, quando elaborada segundo parâmetros ou influências dos procedimentos norte-americanos, tinha por objetivos profissionalizar já no nível do Segundo Grau, para preparar “mão-de-obra” um pouco mais qualificada, permitindo assim que os brasileiros pudessem trabalhar nas grandes indústrias multinacionais. Não podemos dizer que o sistema educacional de um país prepare as gerações para as mudanças sociais; são, ao contrário, as mudanças sociais que pedem um sistema educacional condizente com suas necessidades, então, o que se pode supor é que quando essas leis de ensino foram aplicadas vieram atender ao novo jeito e às novas necessidades da nossa sociedade, portanto, necessidades estrangeiras, ou americanizadas, que era o que estávamos nos tornando. Aliás, as próprias leis de ensino não pretendiam que o povo se tornasse crítico, ao contrário, era suficiente que se soubesse operar as máquinas, ou da produção ou dos escritórios. Se as leis eram “produzidas” por intelectuais estrangeiros isso significava que eram excelentes e não se questionava se elas se aplicariam à nossa realidade ou não.

4 A PENETRAÇÃO DA LÍNGUA INGLESA NO BRASIL Desde o momento em que a classe média (pequena burguesia) acorda no Brasil e a classe menos favorecida pula da cama para ir trabalhar, o povo brasileiro é bombardeado por palavras da língua inglesa, cujo significado, freqüentemente, não é entendido por muitos daqueles que as ouvem. Escovamos os dentes com Close up, Colgate ou Phillips. Usamos meias Hangten, tênis Nike, Reebok, Puma; calças feitas com blue jeans. Depois de se vestir com Red Nose, Levi’s, Golden Cup, Mormaii, Lee, Calvin Klein, Asics, Triumph International, GAP, Psycho Street, Zapping, Zoomp, ou tantas outras marcas de roupas, as pessoas vão até a cozinha, sobretudo as da classe média, em busca do café da manhã. Comem biscoitos cream-cracker, waffers ou cookies com o café a ser mantido quente na garrafa térmica Aladdin Pump-A-Drink. Os estudantes ao sair para o colégio pegam sua mochila da Kipling com seus objetos: canetas roller ball da Parker, Bic Soft Touch, Paper Mate, Uniball, Pentel ou uma Pilot que estão dentro do estojo made in Taiwan. Ao entrar numa lanchonete pedimos uma coca-cola ou light-coke e comemos um hot-dog, um hamburger ou um cheeseburger. Nos finais de semana certamente o pessoal da burguesia pode ir a uma Steak House, ou no restaurante self-service. E à noite tomamos um whisky em um Scotch bar e depois saímos para dançar num disco club. A língua inglesa está presente nos quatro cantos de uma residência onde aparelhos de rádio, televisão, vídeo, etc. são ligados e desligados com as indicações ON e OFF. Em uma pesquisa realizada nas páginas amarelas da lista telefônica de Belo Horizonte no período de 1969 a 1971, Neves (1971 apud Paiva, 1996) constatou a presença de 64 nomes comerciais em inglês. Examinando as páginas amarelas do

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catálogo de 1990 da mesma cidade encontram-se, apenas nos itens encabeçados pela letra A, de nomes comerciais listados sob rótulos que vão de academias a automóveis, 120 nomes comerciais em inglês. Como exemplo: Academia Muscle Ltda; Steel Scenter Ltda; Big Loc, Trade Center, Golden Center, Selfs Alimentos Ltda, Holly Mix Comida Kilo, Rubberplast Indústria e Comércio, Autospet, Help, Habit, World Sales Corretagem Promoções Ltda, Price Waterhouse Auditores, etc. Na lista telefônica Editel 2004 para Curitiba e Região Metropolitana podemos encontrar, num total de 138 assinantes de Curitiba, 58 nomes de academias desportivas em inglês ou usando termos em inglês para compor o nome das empresas. São exemplos: H20 Natação e Wellness, Academia Ambient’s, Academia Atletic Wellness, Academia Be Happy, Academia Body Center, Academia CWB Sports, Master Gym, Academia Sport Mania Ltda, entre outros. Segundo Paes (1986, p. 10 apud Paiva, 1996), jornais e revistas estão cheios de expressões em inglês e há até propagandas produzidas na língua inglesa. Aliás, poderíamos perguntar: “A quem se destinam essas propagandas se nós falamos o idioma português? Ou será que há brasileiros, no Brasil, que só falam o inglês?” Se estivermos procurando um imóvel de alto padrão para comprar, teremos que usar um dicionário português-inglês para entender a descrição dos imóveis e fazer a nossa escolha. Esses imóveis podem possuir penthouse gardens, suítes master, flat service, coffee shops, e um brasileiro que não aprendeu inglês ainda não saberia dizer se essas peculiaridades deixam o imóvel melhor ou não. Enfrentamos atualmente, também, o problema da adoção do gerundismo que pode ter se originado das traduções literais de expressões em inglês tais como: “I’ll be putting you through” (“Eu vou estar transferindo a sua ligação”), que são indiscriminadamente utilizadas pelos operadores de telemarketing. Essas expressões passaram a fazer parte do jargão do setor de telemarketing das empresas brasileiras a partir do momento em que os funcionários do ramo foram treinados com manuais americanos traduzidos sem o cuidado de se identificar que a melhor tradução para o português brasileiro de “I’ll be putting you through” não é “Eu vou estar transferindo a sua ligação”, mas “Eu vou transferir a sua ligação”. Temos que pensar que 90% dos jovens consumidores de hit parade e que gostam de rock não entendem as músicas que ouvem “berradas” em inglês pelos cantores mais badalados. Mas, para que entender se basta “berrar” também e, sobretudo, “soletrar” o nome do CD na hora de comprá-lo? Nos cinemas de Curitiba em 15 de outubro de 2004 havia 29 filmes em cartaz: 17 americanos, 02 ingleses, 06 brasileiros, 02 franceses, 01 italiano e 01 japonês. Segundo Guareschi (1988, p. 33 apud Paiva, 1996), uma média de 55% do total de filmes exibidos são americanos. Esses filmes são distribuídos pela Motion Pictures Export Association of America, que congrega a MGM, 20th Century Fox, United Artists, Columbian Paramount e Warner Bros. Predomina de norte a sul do país o cinema americano e nas programações dos cinemas em todas as capitais do país as produções nacionais em exibição não chegam a 50% das americanas. As estações de rádio tocam músicas em inglês dia e noite e também usam nomes em inglês, por

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exemplo: Transamérica Light FM - PR, MIIB (Music Independent Internet Brazil) Internet Radio – RJ e Radio Rock FM – PR. O Brasil é um grande comprador de filmes americanos para a televisão e, conforme Guareschi (1988, p. 38 apud Paiva 1996), é responsável por um quarto do total das compras do continente latino-americano. Diante do quadro brasileiro podemos afirmar que aprender a língua inglesa neste início de milênio é tão importante quanto aprender uma profissão. O idioma inglês é necessário para a vida atual porque em muitas profissões é indispensável algum domínio de inglês. Mas, é lógico que não podemos nos esquecer que temos objetivos bem claros com esse idioma. Segundo Figueiredo (1990, p.4 apud PAIVA, 1996), o ensino de inglês virou verdadeira febre em Belo Horizonte, onde cerca de 100 mil pessoas se deparam com métodos de ensino cada vez mais modernos e sofisticados. Alguns dos motivos que levam as pessoas a estudar inglês são: conseguir um bom emprego, promoção de cargos nas empresas, fazer estudos de pós-graduação, fazer turismo, conseguir uma bolsa de estudos para o exterior, usar a internet, entre outros. Há muitas pessoas que estudam inglês para ascender socialmente melhorando seu status social. Freqüentemente, ouvem-se os adolescentes dizerem que estudar o inglês é bom para o futuro profissional, porque esse é o discurso dos pais, que não tiveram a mesma oportunidade. Esses pais costumam pagar cursos de inglês para os filhos alegando que já estão velhos demais para aprender essa língua, e que os seus filhos estão com a cabeça mais fresca, e que, portanto, aprenderão mais e melhor. O prestígio do inglês é usado até por um vendedor de cuscuz no Rio de Janeiro que faz sucesso ao oferecer seu produto falando em inglês com seus fregueses. Um vendedor de cuscuz é um homem simples, isto é, com pouca instrução, e ele certamente sabe muito bem que os brasileiros gostam e se interessam mais por objetos que são vendidos em inglês, ainda que seus ingredientes sejam nacionais. É muito comum a publicação de artigos em inglês em revistas editadas no Brasil pela comunidade científica. O argumento é que com isso a revista científica pode circular e ser lida nos países do Exterior e se ela for publicada em português sua circulação será restrita ao Brasil. Com isso o Brasil não daria a conhecer suas produções científicas no Exterior, porque o português não é uma língua universal, como é o caso do inglês. O fascínio por falar a língua inglesa e as respectivas culturas que ela representa tem gerado muitas críticas. O crítico de cinema Pepe Escobar comentou ironicamente sobre a cidade de Fortaleza, dizendo que “o bar mais popular é o “London, London” e a rua dos restaurantes chama-se “Broadway”. (O Estado de S. Paulo, 25/11/1989). Será que freqüentar um bar ou restaurante com o nome em inglês dá a ilusão de pertencer a uma classe social de prestígio? Na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos dois de seus serviços são rotulados em inglês. O Express Mail Service e o Sedex VIP, Very Important Package, que é um serviço de malotes entre as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Por que

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rotular em inglês se a circulação é doméstica? A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos é uma empresa do governo, portanto não se justifica que seja permitido rotular serviços em inglês para circulação doméstica. Ao que tudo indica, o governo não está muito preocupado em preservar a cultura nacional e deixa livre a invasão dos rótulos importados. O que vemos é o inglês estampado pelas ruas das grandes e pequenas cidades, constituindo-se num dialeto comercial próprio do povo brasileiro. Ao que dá para supor que o que é importado é bom3. O jornal Hoje em Dia (15/08/1989), da cidade de Belo Horizonte, publicou uma entrevista com Cássia Avelar, coordenadora do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), que informa que 70% dos pedidos de registro de marca são de nomes estrangeiros, com predominância do inglês. Esse dado revelado na entrevista mostra por si só a influência da americanização, que se estende em outras marcas da influência dos EUA. Só para dar alguns exemplos: a mania de carro, a crescente mania de processos na justiça entre cidadãos, o aparecimento de casos de assassinatos em série, o uso do boné típico dos mecânicos da II Guerra e do beisebol, etc. Isso ao que parece pode ser uma tentativa ilusória de identificação com os estadunidenses. Quem sabe numa tentativa de julgarem que assim podem entrar no mercado como se fossem do país hegemônico, que mais tem influência política e econômica nos países subdesenvolvidos. Pinto (1986, p. 41 apud PAIVA, 1996) afirma que a Primeira Guerra Mundial foi essencial para a mudança do eixo Brasil – Europa para Brasil – Estados Unidos. O comportamento de rotular os locais comerciais com o inglês tem suas raízes na história de nossa dependência cultural. A partir de 1921, a dependência para com os norteamericanos aumentou com a crise do café, tendo o Brasil que recorrer a constantes empréstimos dos Estados Unidos. A dependência cultural veio da dependência econômica. O povo é levado a acreditar que o cinema americano é melhor que o cinema brasileiro, e este encontra dificuldades de exibição, porque, naturalmente, o povo já internalizou em suas crenças, atitudes e comportamentos, que o que é importado é sempre melhor do que aquilo que é feito aqui mesmo no Brasil. Os Estados Unidos possuem organismos de “ajuda” aos países subdesenvolvidos. Esses organismos contribuem para a divulgação da cultura e do idioma estadunidense, pois que, naturalmente, o país que ajuda não vai fazer isso gratuitamente. Mesmo sem esses organismos os meios de comunicação de massa, as emissoras de rádio, a televisão, a programação dos cinemas, encarregam-se da tarefa de divulgação da cultura americana. O produtor de cinema Jece Valadão4 declarou que os Estados Unidos interferem no mercado cinematográfico sempre que o cinema brasileiro ameaça conquistar algum espaço, dizendo: “Através do cinema, os americanos estão vendendo a música deles, o jeans deles, o way of life deles, a língua deles. Atrás de cada filme americano vem um produto americano”.

3 O grifo é da autora. 4 Debate sobre o cinema brasileiro, realizado pela Rede Bandeirantes de Televisão em 26/02/1990.

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As pessoas, grupos e classes sociais alcançados por essa indústria são induzidos a pensar e a expressarem-se principalmente nos termos e segundo os objetivos dos que a controlam. Todo um conjunto de possibilidades do pensamento e expressão é esquecido, proibido ou reprimido. A própria maneira de transmitir informações e interpretações, além da seleção de umas e outras, induz as gentes a um modo de pensar e expressar-se alienado. Esse processo de massificação é importante para a perpetuação das estruturas sócio-econômicas geradas pelo sistema capitalista. (IANNI, 1976, p. 56 apud PAIVA, 1996, p. 26).

Todo o processo de divulgação da cultura americana está sendo pensado pela indústria cultural que serve ao seu país. Ao que parece, o homem americano traz dentro de si o culto à sua pátria e procura ampliar seus horizontes de domínio cultural e econômico. A impressão que temos é que esse sentimento nacionalista é bem menos acentuado no povo brasileiro, haja vista todos esses nomes em inglês que são expostos nas portas do comércio e da indústria no Brasil, bem como a importância que muitas pessoas dão ao uso de roupa que trazem as etiquetas americanas e até orgulho em dizer que usam objetos importados. Para os brasileiros o que é nacional não é bom, não dá status e isso, ao que tudo indica, também é um conceito que está internalizado no povo brasileiro. Este comportamento é adquirido de geração em geração, pela fala dos mais velhos sobre os mais novos, e é um fenômeno psicológico, sociológico e ideologicamente transmitido de uma geração para outra, como ocorre em todas as culturas. As mudanças no comportamento e atitudes dos povos de uma nação, naturalmente se processam, porém, lentamente e na caminhada histórica. A penetração da língua inglesa no Brasil e também no mundo tem a presença hegemônica dos Estados Unidos. O domínio da força armada no Terceiro Mundo não é mais a maior força. A maior força de domínio é a língua que é a matéria-prima do imperialismo cultural causado pela dependência econômica. A língua inglesa circula entre os brasileiros como uma mercadoria altamente vendável, cujo mercado é sempre comprador. Com isso importam-se palavras estrangeiras que servem a uma necessidade simbólica de identificação com a sociedade norte-americana que tem grande poder político e econômico no mundo. Temos uma demonstração de que os brasileiros querem se identificar com as nações de grande poder político e econômico para se sentir superiores e privilegiados enquanto classe social. Parece um comportamento adolescente em grande escala, que é o de querer ser filho de pais da classe privilegiada para sentir-se bem recebido por outros grupos. A contar a idade do Brasil, em seu aspecto cultural é possível dizer, metaforicamente falando, que o Brasil está na fase da adolescência, não possuindo ainda sua própria identidade social, cultural, política e econômica. E a necessidade que as pessoas sentem de falar o idioma inglês não é sem razão.

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Patrícia Helena Rubens Pallu

REFERÊNCIAS ALVES, J. F. A invasão cultural norte-americana. São Paulo: Moderna, 1988. (Coleção polêmica). CHAUÍ, M.de S. 1986. O que é ideologia? 22. ed. São Paulo: Brasiliense. CRYSTAL, D. English Worldwide. In: R. Hogg and D. Denison (eds), A History of the English Language (Cambridge: CUP, 2006), 420-39 FREIRE, P. Conscientização: teoria e pratica da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Moraes. 1980. HOJE EM DIA, jornal. Belo Horizonte/BH, 15/08/1989 MOURA, G. Tio Sam chega ao Brasil: a penetração cultural americana. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Coleção Tudo é história). O ESTADO DE S. PAULO, jornal, São Paulo/SP, 25/11/1989 PAIVA, V. L. M. de O. (org.) Ensino de língua inglesa: reflexões e experiências. Campinas, SP: Pontes; Minas Gerais: Departamento de Letras Anglo Germânicas – UFMG, 1996. XAVIER, M. E. et al. História da educação: a escola no Brasil. São Paulo, FTD, 1994. (Coleção Aprender e Ensinar).

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VISÃO DE EMPRESA BASEADA EM RECURSOS (VBR): CONCEITOS, ANÁLISE E ESTUDO DE CASO DO GRUPO POSITIVO Alexandre Castro1

Universidade Positivo

Resumo

À luz da abordagem da Visão da Empresa Baseada em Recursos (VBR), oriunda de estudos de Penrose (1959) e desenvolvida por autores, como Wernerfelt (1984), Prahalad e Hamel (1990) e Peteraf (1993), dentre outros, este trabalho teve o objetivo de testar a aplicabilidade, em análise de caso do Grupo Positivo, sediado em Curitiba e com atividades ramificadas em várias áreas e espalhadas por países de cinco continentes, do modelo de identificação das competências essenciais de uma empresa – conforme proposto, especificamente, por Prahalad e Hamel. Os três níveis do modelo de identificação – se a competência essencial contribui significativamente para os benefícios percebidos pelo cliente do produto final; se é difícil de ser imitada pelos concorrentes; e se oferece acesso a outros mercados – mostraram-se contemplados na análise empírica do Grupo Positivo, que, de um pequeno curso dirigido a pré-vestibulandos, criado por seis professores em 1972, evoluiu para um amplo complexo empresarial que, em 2008, abriga mais de 6 mil funcionários e lidera, nacionalmente, as áreas de ensino, gráfico-editorial e de informática. Palavras-chave: Visão da Empresa Baseada em Recursos

Abstract

In light of the Enterprise Resource Based View (VBR) approach, which comes from Penrose’s studies (1959) and developed by authors such as Wernerfelt (1984), Hamel and Prahalad (1990) and Peteraf (1993), among others, this work aimed to test the applicability of the model of identifying the basic skills of a company - as proposed, specifically, by Hamel and Prahalad, in a case analysis of Positivo Group, a Curitiba-based company with diverse activities in various areas and with operations scattered around countries on five continents. The three levels of identification type: whether the key competence contributes significantly to the benefits perceived by the customer of the final product; if it is difficult to be imitated by competitors; and if it offers access to other markets - showed up covered in the empirical analysis of the Group Positivo case which, from a small course focused in university entrance preparation, created by six teachers in 1972, evolved into a large business complex that in 2008 houses more than 6 thousand employees and is a national leader in the areas of education, publishing and computer manufacturing. Keywords: Enterprise Resource Based View

1 Jornalista, professor, coordenador do curso de Jornalismo da Universidade Positivo, diretor do Instituto Cultural de Jornalistas do Paraná, especialista em Pensamento Contemporâneo – Século XX (PUCPR), mestrando em Administração (Universidade Positivo)


ViSÃO DE EMPRESA BASEADA EM RECURSOS (VBR): CONCEITOS, ANÁLISE E ESTUDO DE CASO DO GRUPO POSITIVO

1 Introdução Ao longo dos últimos 50 anos, tem se registrado um crescente processo de estudos que envolve não apenas a busca de definição do próprio termo competência – englobando desde análises em nível individual até complexos sistemas organizacionais de transmissão de informações, conhecimentos e habilidades –, como também tentativas de elaboração de métodos pragmáticos de desenvolvimento de competências por conglomerados empresariais de âmbito mundial. Nesse contexto, numerosos autores, como Oliveira Jr (2001), Fleury e Fleury (2001), Fernandes e Fleury (2005b), Fernandes e Berton (2005), Mills et al. (2002), dentre outros, destacam a contribuição da denominada Visão da Empresa Baseada em Recursos (VBR). Oriunda dos estudos de Penrose (1959) e desenvolvida por autores, como Wernerfelt (1984), Prahalad e Hamel (1990) e Peteraf (1993), a VBR propõe um modelo de identificação em três níveis das competências essenciais de uma empresa – conforme sistematizado, especificamente, por Prahalad e Hamel: 1) se a competência essencial contribui significativamente para os benefícios percebidos pelo cliente do produto final; 2) se é difícil de ser imitada pelos concorrentes; e 3) se oferece desdobramentos ou acesso potencial a outros mercados. No presente trabalho, buscou-se testar a aplicabilidade do modelo de identificação de competências de Prahalad e Hamel à trajetória de crescimento do Grupo Positivo, sediado em Curitiba, que atua hoje, com destaque nacional e internacional, nos segmentos de educação – do ensino infantil à pós-graduação –, gráfico-editorial e de informática. O trabalho divide-se em cinco partes. Após esta introdução, alinham-se as principais questões relativas à busca de definição de competências, nas últimas décadas, e os conceitos básicos de Visão da Empresa Baseada em Recursos (VBR). No terceiro segmento, apresentam-se o histórico e a trajetória de crescimento do Grupo Positivo. Na quarta seção, faz-se a análise do modelo de identificação de competências em relação ao caso empresarial específico em tela; e, por fim, expõem-se as conclusões.

2 Referencial teórico Desde as pioneiras visões tayloristas-fordistas, os conceitos de competência têm variado substancialmente. Competência é uma palavra do senso comum, utilizada para designar pessoa qualificada para realizar algo. Seu oposto ou antônimo não apenas implica a negação dessa capacidade, mas também guarda um sentimento pejorativo, depreciativo. Chega mesmo a sinalizar que a pessoa encontra-se ou se encontrará brevemente marginalizada dos circuitos de trabalho e de reconhecimento social. (FLEURY E FLEURY, 2001, p. 18).

Apoiando-se em McLagan (1997, p. 41), prosseguem os autores:

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No mundo do trabalho, a palavra competência vem assumindo diversos significados, alguns mais ligados às características da pessoa: conhecimentos, habilidades, atitudes (ou seja, variáveis de input), e outros, à tarefa, aos resultados (variáveis de output). (...) A nosso ver, o conceito de competência só revela seu poder heurístico quando apreendido no contexto de transformações do mundo do trabalho, quer seja nas empresas, quer seja nas sociedades”. (FLEURY e FLEURY, 2001, p. 18 e 19).

Nesse contexto, na mesma obra, Fleury e Fleury frisam que somente “rebatendo a discussão das competências do indivíduo e as competências das organizações, recupera-se a noção da empresa como um portfólio de competências” (p. 23). E citam Durand (1998), que compara: “nos tempos medievais, os alquimistas procuravam transformar metais em ouro; hoje, os gerentes e as empresas procuram transformar recursos e ativos em lucro. Uma nova forma de alquimia é necessária às organizações. Vamos chamá-la de competência”. (FLEURY e FLEURY, 2001, p. 23). Também Fernandes e Fleury (2005a) observam que: nos últimos anos tem ocorrido um interesse crescente pelo tema competências dentro do âmbito organizacional. Tal boom explica-se pela busca de novos referenciais que ultrapassem o modelo tradicional de gestão de pessoas, calcado nos pressupostos da administração taylorista de buscar a pessoa certa para o lugar certo (TAYLOR, 1982) e de centrar a idéia de controle no coração das relações entre pessoas e organização (FLEURY e FISCHER, 1992). (FERNANDES e FLEURY, 2005a).

Nesta busca, continuam os autores, a noção de competências tem surgido como alternativa. Em vez do desenho de cargos, recortes e atribuições de viés notadamente taylorista, autores proponentes da nova abordagem sugerem que gestores assumam o conceito de competências, que privilegia o indivíduo e seu desenvolvimento. Na nova ordem, elege-se o termo competências como novo centro das práticas de gestão de pessoas, o que se dá nos modelos de gestão por competências. (FERNANDES e FLEURY, 2005a).

Entretanto, advertem Fernandes e Fleury, quando se aproxima desta discussão, observa-se que há mais fumaça do que fogo. Em primeiro lugar, porque não há consenso sobre o próprio conceito de competências. Muitos autores e gestores propõem definições que embaralham competência com conceitos afins, tais como comportamento, atitude, conhecimento, habilidades, potencial, desempenho, entre outros. Em segundo, porque, se nem conceitualmente há acordo, pode-se imaginar as práticas derivadas. Assim, sob a mesma nomenclatura de modelos de competências encontram-se desde propostas de fato originais até velhos esquemas fordistas caiados com fachada de modernidade. (FERNANDES e FLEURY, 2005a).

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2.1 Visão da Empresa Baseada em Recursos Nesse cipoal de conceitos, diversos autores destacam a importância do surgimento e desenvolvimento da denominada Visão da Empresa Baseada em Recursos (VBR), a partir dos trabalhos iniciais de Penrose (1959). O desafio em descobrir as formas pelas quais as empresas desenvolvem e mantêm sua competitividade em suas respectivas indústrias é o principal ponto de pesquisa na teoria em administração estratégica. (...) Nos últimos anos, uma abordagem para estratégia que combina ambas, a análise interna e externa da organização, tem emergido e sua premissa básica é que os recursos internos à organização comandam o desempenho da empresa. Essa abordagem é conhecida como ‘visão da empresa baseada em recursos’ (Wernerfelt, 1984; Peteraf, 1993; Prahalad e Hamel, 1990, entre outros).

“Essa abordagem propõe que os recursos internos à empresa sejam os principais determinantes de sua competitividade, em oposição à abordagem da análise da indústria, na qual o principal determinante da competitividade da empresa é sua posição na indústria”. (OLIVEIRA JR, 2001, p. 123). A discussão atual na visão da VBR, prossegue o autor, aparece inicialmente como uma forma de compreender a relação entre recursos e produtos e como alguns produtos necessitam de recursos para seu desenvolvimento, assim como recursos podem ser usados para vários produtos. Vista sob esse ponto, a discussão está enraizada no trabalho de Wernerfelt (1984), que define recursos como algo que pode ser pensado como um ponto forte ou um ponto fraco da firma, ou como aqueles ativos (tangíveis ou intangíveis) que estão associados de forma semipermanente à empresa. Esse autor fornece alguns exemplos de recursos: nome da marca, conhecimento tecnológico desenvolvido na empresa, emprego de pessoal qualificado, contratos de negócios, maquinário, procedimentos eficientes, capital. etc. A abordagem proposta por Wernerfelt (1984) constitui um ‘divisor de águas’ à medida que apresenta uma forma de utilizar recursos como a principal fonte de vantagem competitiva da empresa. (OLIVEIRA JR, 2001: 123 e 124).

Fernandes e Fleury (2005b) estão entre os autores que frisam ter sido, especialmente “desde o sucesso do artigo de Prahalad e Hamel sobre as core competences”, que o tema competências organizacionais “vem ganhando importância crescente, tanto em debates acadêmicos, como em fóruns profissionais”. No centro do referido artigo, Prahalad e Hamel propõem que pelo menos três testes podem ser aplicados para identificar competências essenciais em uma empresa. Primeiro, uma competência essencial oferece acesso potencial a uma ampla variedade de mercados. (...) Segundo, uma competência essencial deve contribuir de maneira significativa para os benefícios percebidos dos clientes do produto final. (...) Finalmente, uma competência essencial deve ser difícil de ser imitada pelos concorrentes. E será difícil se for uma complexa harmonização das tecnologias individuais e das habilidades de produção. (PRAHALAD E HAMEL, 1990: 62). 218 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 215-228| 2° Semestre 2008


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2.2 A tirania das unidades estratégicas de negócios Além dos três testes propostos para identificação das competências essenciais em uma empresa, é fundamental – para o objetivo do presente trabalho de analisar a aplicabilidade desse modelo à trajetória do Grupo Positivo – destacar outro aspecto do artigo de Prahalad e Hamel. É o que diz respeito à crítica dos autores em relação à “tirania das unidades estratégicas de negócios.“Quando as competências se tornam aprisionadas”, advertem, as pessoas que as detêm não são designadas para as oportunidades mais desafiadoras e suas habilidades começam a se atrofiar. (...) É estranho o fato de os gerentes das unidades estratégicas de negócios, que estão sempre dispostos a competir por orçamento, não se interessarem em competir por pessoas – o mais precioso recurso de uma empresa. Achamos irônico o fato de a alta gerência devotar tanta atenção para o orçamento e, entretanto, não possuir nenhum mecanismo comparável para alocar as habilidades humanas, que dão corpo às competências essenciais. Os gerentes seniores raramente são capazes de enxergar quatro ou cinco degraus abaixo nos níveis da organização, identificar pessoas que materializam as competências essenciais e movê-las pelas fronteiras organizacionais. (PRAHALAD e HAMEL, 1990, p. 70).

Insistem os autores: É a consistência na alocação de recursos e o desenvolvimento de uma infraestrutura administrativa apropriada a essa alocação que dá vida a uma arquitetura estratégica e cria uma cultura gerencial, um trabalho em equipe, uma capacidade de mudar e uma vontade de compartilhar recursos, a fim de proteger habilidades proprietárias e pensar a longo prazo. Essa também é a razão pela qual a arquitetura específica não pode ser copiada facilmente, ou da noite para o dia, pelo concorrente. A arquitetura estratégica é uma ferramenta para se comunicar com os clientes e com os outros elementos externos. Ela revela a direção ampla sem mostrar cada passo. (PRAHALAD e HAMEL, 1990, p. 73).

É de se destacar, ainda, dois outros trechos do artigo de Prahalad e Hamel para os fins deste trabalho: Uma vez que a alta gerência (com a ajuda de gerentes de divisão e de unidades estratégicas de negócios) tenha identificado competências internas, ela deve solicitar a identificação de projetos e de pessoas intimamente ligadas a eles. Os representantes da empresa devem examinar o local, o número e a qualidade daqueles que dão corpo à competência. Isso emite sinais significativos aos gerentes de nível médio: as competências essenciais são recursos corporativos e podem ser realocados pela gerência corporativa”. (PRAHALAD e HAMEL, 1990, p. 75).

E, por fim:

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Onde as prioridades são claras, é menos provável que as transferências sejam vistas como idiossincrasias ou motivadas por políticas. (...) Há maneiras de tirar da cabeça de funcionários-chave a idéia de que eles pertencem perpetuamente a qualquer negócio em particular. No início de suas carreiras, as pessoas podem ser expostas a uma variedade de negócios por meio de um cuidadoso e planejado programa de rodízio. (...) No meio de suas carreiras, designações periódicas para equipes de projetos em outras divisões podem ser necessárias, tanto para difundir competências essenciais como para soltar as amarras que possivelmente prendam a pessoa a um determinado negócio. (...) Aqueles que detêm competências essenciais fundamentais deveriam saber que suas carreiras são observadas e guiadas por profissionais corporativos de recursos humanos. (PRAHALAD e HAMEL, 1990, p. 77).

3 Grupo Positivo Nesta seção, apresentaremos o histórico e a trajetória do Grupo Positivo, de 1972 a 2008, com base em dados oficiais fornecidos pela central corporativa do conglomerado. Tais informações embasarão, na seção seguinte, a análise da aplicabilidade ao Grupo Positivo do modelo de Prahalad e Hamel de identificação de competências essenciais de uma empresa. O Grupo Positivo originou-se da iniciativa de um pequeno grupo de seis professores de ensino médio de Curitiba que, em 1972, decidiram abandonar seus empregos e criar sua própria escola. Assim nasceu, em poucas salas alugadas, o Curso Positivo, que logo começaria a se destacar pelo nível de aprovação de seus alunos nos vestibulares. Nos 30 anos que se seguiram, o Grupo Positivo transformou-se na maior corporação da área educacional do País, possuindo empresas que lideram também os demais segmentos em que atuam: gráfico-editorial e de informática. Com mais de seis mil funcionários, o Grupo tem negócios em todos os Estados brasileiros, e, no plano internacional, com países da América do Sul, América do Norte, África, Europa, Oriente Médio e Ásia.

3.1 Área educacional Mais de dez milhões de alunos – da educação infantil à pós-graduação –, nos segmentos público e privado, são atendidos diariamente em sala de aula, direta ou indiretamente, pelo sistema educacional Positivo, seja por meio das suas unidades próprias de educação básica, média e superior em Curitiba, seja pelos portais educacionais ou pelos livros didáticos produzidos. Em Curitiba, estão localizadas as Escolas Positivo, da rede própria de ensino básico e médio, as escolas de idiomas (Centro de Línguas Positivo), duas sedes do curso pré-vestibular (Curso Positivo), além da Universidade Positivo –, um dos mais modernos campi do País que, numa área de 500 mil metros quadrados, abriga 26 cursos de graduação, três mestrados, um doutorado, dezenas de cursos de especialização e centenas de cursos de extensão. 220 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 215-228| 2° Semestre 2008


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Com dois sistemas de ensino (o SPE – Sistema Positivo de Ensino e o Sistema de Ensino Brasil Aprende), o Grupo Positivo lidera o mercado nacional, atendendo alunos das redes pública e particular, e tem seus métodos pedagógicos e os livros didáticos que produz adotados em escolas do Japão e dos Estados Unidos nas quais estudam filhos de brasileiros. Os conteúdos são fornecidos também via quatro portais educacionais – o Portal Aprende Brasil, o Portal Educacional, o Portal Universitário e o Portal Positivo.

3.2 Área gráfico-editorial As atividades no segmento gráfico-editorial originaram-se e cresceram a partir da área educacional. Inicialmente, os professores fundadores do Curso Positivo implantaram uma pequena gráfica, para imprimir suas próprias apostilas. Logo, as apostilas começaram a ser vendidas para outras escolas, iniciando-se uma espiral de crescimento que levaria às atuais Editora Positivo e à Posigraf. A Editora Positivo conta com duas divisões de negócios: Livros e Periódicos, responsável por livros didáticos, paradidáticos e de interesse geral, além de obras de referência como a linha impressa do Dicionário Aurélio e periódicos focados em educação, como a Revista Aprende Brasil; e Sistemas de Ensino, que responde pelo atendimento da rede de escolas públicas e particulares que adotam o sistema educacional criado pelos fundadores do Grupo Positivo. A Editora Positivo mantém ainda um centro de pesquisas próprio, no qual mais de 200 especialistas das mais diversas áreas do conhecimento atuam na criação de novas obras e novos produtos. Trabalhando em sinergia com a Posigraf e a Positivo Informática, a Editora Positivo beneficia-se dos serviços de impressão e logística, além de tecnologia e relacionamento com o mercado. Já a Posigraf, fundada ainda em 1972, é hoje a maior gráfica comercial da América Latina, liderando desde 1997 o ranking nacional no segmento livros, revistas e impressos comerciais e promocionais, estabelecido pela Associação Brasileira da Indústria Gráfica. A Posigraf foi a primeira gráfica brasileira a conquistar a certificação ISO 14001 e FSC (Forest Stewardshio Council), e conta hoje também com a ISO 9001. Com 20 mil metros quadrados de área instalada em Curitiba, a Posigraf tem filial em São Paulo e representações em todo o Brasil e nos países do Mercosul, e clientes nos Estados Unidos, Japão e Europa.

3.3 Área de informática Passando a atuar desde 1989 também na área tecnológica, com a criação da Positivo Informática, o Grupo Positivo produz computadores, softwares e soluções educacionais para os mercados nacional e internacional, abrangendo os segmentos de varejo, área pública e mercado corporativo. A Positivo Informática é hoje a maior produtora de tecnologia educacional do País, tendo alcançado um ciclo de exportações sem precedentes no Brasil. Desenvolveu, COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 1| n.1|p. 215-228| 2° Semestre 2008 | 221


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pioneiramente, quatro portais educacionais de internet, associando sua experiência pedagógica à evolução tecnológica. Possuindo uma planta industrial de 10 mil metros quadrados e certificada pelas ISO 9001 e ISO 14001, a Positivo Informática transformou-se na maior fabricante nacional de computadores. Sua divisão de hardware oferece uma linha completa de microcomputadores, com os quais é líder de vendas no País; e sua divisão de Tecnologia Educacional é responsável por soluções exclusivas como as mesas educacionais – hoje exportadas para cinco continentes –, desenvolvimento de softwares educacionais e gerenciamento de cinco portais de internet especializados em educação e serviços de capacitação de professores e suporte técnico. A Positivo Informática atua ainda na linha “home”, oferecendo softwares e games – como todos os softwares educacionais desenvolvidos pela Disney, da qual é distribuidora exclusiva no Brasil, e, entre mais de 70 outros títulos, do software educacional Kid Pix Deluxe, o mais vendido no mundo.

4 Análise de aplicabilidade Após a exposição, na segunda seção, dos conceitos da abordagem da Visão da Empresa Baseada em Recursos (VBR), e, no terceiro segmento, do histórico e da trajetória do Grupo Positivo, buscaremos, nesta parte do trabalho, analisar a aplicabilidade do modelo de Prahalad e Hamel de identificação das competências essenciais de uma empresa, em relação ao referido conglomerado.

4.1 Versatilidade O primeiro dos três testes aplicáveis para identificar as competências essenciais de uma empresa, conforme os autores do modelo, é se uma competência essencial oferece acesso potencial a uma ampla variedade de mercados. A competência em sistemas de monitores de vídeo, por exemplo, permite a uma empresa participar de negócios extremamente diversos, como calculadoras, aparelhos de TV miniaturizados, monitores para laptops e painéis para automóveis (essa é a razão pela qual a entrada da Casio no mercado de TV portátil era previsível)”. (PRAHALAD e HAMEL, 1990: 62).

A toda evidência, a competência essencial inicial do Grupo Positivo em educação, revelada nos primórdios de sua atuação em 1972, com o Curso Positivo, espraiouse para todos os demais segmentos desenvolvidos pelo conglomerado nas décadas seguintes. A Gráfica Positivo, por exemplo, criada ainda em 1972, era umbilicalmente ligada às atividades educacionais do Curso Positivo – seu objetivo era imprimir as apostilas produzidas pelos professores do curso. Hoje, como já mencionado, a Posigraf, além de liderar o ranking nacional no segmento livros, revistas e impressos comerciais e promocionais, transformou-se na maior gráfica comercial da América Latina, tendo clientes nos Estados Unidos, Japão e vários países da Europa.

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Paralelamente, a Editora Positivo, especializada no segmento de educação, igualmente atua em todo o Brasil e no Exterior, contando inclusive com um centro de pesquisas próprio, responsável pelo desenvolvimento de obras e novos produtos. A diversidade de oportunidades na área educacional levou o Grupo, ainda, a expandir-se do curso médio inicial para os níveis infantil, básico e superior, para centros de ensino de línguas estrangeiras, criação de portais educacionais de internet e desenvolvimento e venda de um sistema de ensino usado por milhares de escolas públicas e particulares de todo o País, do Japão e dos Estados Unidos, num total de atendimento de mais de 10 milhões de alunos. Ainda na esteira da versatilidade do segmento educacional, o Grupo Positivo ingressou na área de informática, alcançando consolidar-se como o maior produtor de tecnologia educacional do País – criando softwares e soluções educacionais para o mercado nacional e internacional –, e como o maior fabricante brasileiro de computadores, atuando nos segmentos de varejo, área pública e mercado corporativo.

4.2 Valor gerado O segundo teste do modelo de Prahalad e Hamel é o de que “uma competência essencial deve contribuir de maneira significativa para os benefícios percebidos dos clientes do produto final” (PRAHALAD e HAMEL, 1990, p. 62). Wernerfelt, ainda anteriormente (1984), havia incluído nos exemplos desses recursos o nome da marca – ao lado de conhecimento tecnológico desenvolvido pela empresa, emprego de pessoal qualificado, contratos de negócios, maquinário, procedimentos eficientes, dentre outros. No caso do Grupo Positivo, é de todo evidente o poder agregador da marca para o desenvolvimento de novos negócios. Apoiando-se no sucesso e na credibilidade alcançados desde o início pelo Curso Positivo, foi criada a Gráfica Positivo, e posteriormente a Editora Positivo. Na mesma linha, surgiram todas as demais Escolas Positivo, o Centro de Línguas Positivo, o Sistema Positivo de Ensino, os portais Positivo, a Positivo Informática, a Universidade Positivo etc. Com absoluta clareza, a marca agrega significativo valor aos benefícios percebidos pelos clientes dos Grupo Positivo nos vários segmentos em que este atua.

4.3 Sustentabilidade O terceiro e último teste é o de que uma competência essencial deve ser difícil de ser imitada pelos concorrentes. E será difícil se for uma complexa harmonização das tecnologias individuais e das habilidades de produção. Um concorrente poderia adquirir parte da tecnologia que forma a competência essencial, mas acharia complicado duplicar o padrão mais ou menos compreensível da coordenação interna e do aprendizado”. (PRAHALAD E HAMEL, 1990: 62).

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ViSÃO DE EMPRESA BASEADA EM RECURSOS (VBR): CONCEITOS, ANÁLISE E ESTUDO DE CASO DO GRUPO POSITIVO

É de se resgatar ainda, aqui, outra consideração dos autores, anteriormente citada: É a consistência na alocação de recursos e o desenvolvimento de uma infraestrutura administrativa apropriada a essa alocação que dá vida a uma arquitetura estratégica e cria uma cultura gerencial, um trabalho em equipe, uma capacidade de mudar e uma vontade de compartilhar recursos, a fim de proteger habilidades proprietárias e pensar a longo prazo. Essa também é a razão pela qual a arquitetura específica não pode ser copiada facilmente, ou da noite para o dia, pelo concorrente. A arquitetura estratégica é uma ferramenta para se comunicar com os clientes e com os outros elementos externos. Ela revela a direção ampla sem mostrar cada passo”. (PRAHALAD E HAMEL, 1990: 73).

No caso do Grupo Positivo, os concorrentes poderiam ter relativa facilidade para copiar determinadas competências. Por exemplo: dispondo de recursos financeiros, é possível adquirir as mesmas máquinas que a Gráfica Posigraf. Ou, aparentemente mais fácil ainda, imitar currículos dos cursos dos diversos níveis – que são públicos –, adotar os mesmos estilos de apostilas, livros e materiais didáticos, formatos de portais de internet e assim por diante. O que certamente contribui de modo decisivo para dificultar a simples imitação das competências do Grupo é – como Prahalad e Hamel destacam ser essencial para a formação de uma competência essencial – a existência de uma política de alocação e transferência de recursos humanos que possibilitou, ao longo do tempo, a efetiva criação de uma cultura gerencial específica, sempre voltada à inovação. Trata-se de uma “fonte de vantagem sustentável”, também como descrito por Oliveira Junior (2001, 1999a e 1999b), no qual um sofisticado ciclo de interação e transferências de competências individuais e organizacionais torna a empresa relativamente imune à própria perda eventual de alguns de seus principais colaboradores. São numerosos os casos, no âmbito do Grupo Positivo, de transferências estratégicas de colaboradores, em momentos de criação de novos produtos ou empresas. Exemplos são, dentre muitos outros, a designação de testados diretores de escolas de nível básico ou médio, integrantes do Grupo desde os seus primórdios, para cargos-chave do então recém-criado centro universitário e, posteriormente, da área de graduação deste para as novas atividades de pós-graduação.

4.4 Aplicabilidade Com base nos elementos elencados nesta seção, é possível afirmar a aplicabilidade, em relação ao Grupo Positivo, dos testes do modelo de Prahalad e Hamel para a identificação de competências essenciais de uma empresa, demonstrados os pré-requisitos de 1) oferecimento de potencial de acesso, pela competência, a ampla variedade de mercados; 2) contribuição significativa da competência para os benefícios percebidos pelos clientes do produto final; e 3) dificuldade de imitação da

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competência pelos concorrentes, levando à sustentabilidade da empresa.

5 Conclusão O presente trabalho teve o objetivo de, à luz da abordagem da Visão da Empresa Baseada em Recursos (VBR), oriunda de estudos de Penrose (1959) e desenvolvida por autores como Wernerfelt (1984), Prahalad e Hamel (1990) e Peteraf (1993), dentre outros, testar a aplicabilidade, em análise de caso do Grupo Positivo, sediado em Curitiba e com atividades ramificadas em várias áreas e espalhadas por países de cinco continentes, do modelo de identificação das competências essenciais de uma empresa – conforme proposto, especificamente, por Prahalad e Hamel. Os três níveis do modelo de identificação – se a competência essencial contribui significativamente para os benefícios percebidos pelo cliente do produto final; se é difícil de ser imitada pelos concorrentes; e se oferece acesso a outros mercados – mostraram-se contemplados na análise empírica do Grupo Positivo, que, de um pequeno curso dirigido a pré-vestibulandos, criado por seis professores em 1972, evoluiu para um amplo complexo empresarial que, em 2008, abriga mais de 6 mil funcionários e lidera, nacionalmente, as áreas de ensino, gráfico-editorial e de informática.

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Gràfica Posigraf Papel: Pólen 75g/m2 (miolo) e couchê fosco 250g /m2 (capa) Fontes: Times News Roman (texto), Zurich BdXCn BT (titulos) Impressão: offset Curitiba, desembro de 2008

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Volume1 COMUNICAÇÃO reflexões, experiências, ensino