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EDITORIAL

DESTAQUES

A reportagem que publicamos neste número 5 da revista A.23 remete-nos para um dos temas que nos é mais caro – a memória das pessoas. A memória como invenção ou simplesmente como aquilo que coleccionamos como ensinamentos. Talvez, por isso, possamos dizer que este número se vocaciona para um tema específico: as pessoas. É de pessoas que nos fala a grande reportagem deste número, onde partimos de um sem número de histórias captadas pelo jornalista Jolon e publicadas em forma de notícia ou crónica, nos últimos 30 anos, no “Jornal do Fundão”. Jolon é, por excelência, o biógrafo de um povo, e estas histórias são registos únicos de quem soube captar o coração sentimental das histórias mas, acima de tudo, da vida destas pessoas. Nietzsche já o dizia: “Talvez o homem não possa esquecer nada”. Ver e conhecer são operações demasiado complicadas para que possam ser totalmente apagadas. São essas imagens, eternizadas pelo olhar de quem as capta, que estão também reproduzidas no portfolio do fotógrafo Jorge Barros, acompanhado por um texto notável de Fernando Dacosta, mostrando-nos um trabalho único sobre os mineiros. Se identificássemos um tema na obra de Jorge Barros, diríamos, sem dúvida, que esse tema é a alma humana, pois as fotografias parecem dotadas de uma linguagem única que nos falam da vida daqueles que construíram milhares de quilómetros debaixo de terra e desafiaram os limites da natureza, como nas Minas da Panasqueira. São registos únicos de uma profissão quase extinta, são retratos esculpidos nas rugas das caras dos mineiros. É também da presença humana que nos fala o trabalho da fotógrafa Margarida Dias que capta uma das personalidades ímpares da cultura portuguesa no seu atelier, espaço do efémero, rodeado dos seus objectos mais pessoais: o Mestre Lagoa Henriques. O jornalista António Valdemar e o artista plástico José Mouga falam-nos do Mestre que revolucionou a arte em Portugal, mas também, e sobretudo, do homem. Na sua expressão sincera e espontânea, Lagoa Henriques é-nos dado nas suas múltiplas dimensões. Destaque ainda para a grande aposta dos últimos meses: a A23 online, um espaço de intercâmbio cultural que é porventura aquele sem barreiras ou limitações físicas que sublinha a dimensão multicultural e a variedade de opiniões. A provar que nos encontramos cada vez mais de portas abertas ao mundo. Que esta revista contribua para, nos próximos meses, abalar a paz inquieta da cultura em Portugal, riquíssima mas, por vezes, com ar de moribunda, perdida no meio do cosmopolitismo e da informação fácil. Que nela o leitor descubra, mais do que palavras, novas vidas e a matéria prima deste número: as pessoas.

Ricardo Paulouro

PÁG.06 REPORTAGEM AS ESTRANHAS E FANTÁSTICAS HISTÓRIAS DE JOLON Ora venha de lá essa história! Jolon, correspondente do “Jornal do Fundão” em Penamacor há mais de 30 anos tem uma retrosaria aberta com um balcão de histórias de vida que recolhe. É um biógrafo do povo, um jornalista que nos leva ao coração sentimental das histórias. Vamos à viagem, vamos às histórias, dás-nos boleia Jolon?

PÁG.02 OPINIÃO “REGIONALIZAÇÃO. UMA PRIMEIRA REFLEXÃO” “OBAMA. ENTRE A TRAGÉDIA PALESTINIANA E A CRISE ECONÓMICA“ “32” “CR7. VIAGEM AO TOPO DO MUNDO” “FALTA DE CREDIBILIDADE E CACIQUISMO” “PRECÁRIOS PELA VIDA FORA”

PÁG.10 CONTO “NAS LINHAS DE MONSIEUR RAMOS”

PÁG.12 PORTFOLIO MINEIROS. MÁGICOS DE SOMBRAS SECRETAS Jorge Barros tem percorrido o país ao longo das últimas décadas e tem resgatado emções como poucos souberam fazer. A A.23 publica neste portfolio imagens da série “Mineiros”, com texto do jornalista e escritor Fernando Dacosta. Este é o retrato daqueles que conhecem os mistérios do subsolo como a palma das suas mãos.

PÁG.21 CULTURA LAGOA HENRIQUES Com uma vida a criar desenhos e esculturas, Lagoa Henriques é mais do que um artista plástico. Muitos reconhecem-lhe o papel de Mestre, inspirado por poetas e filósofos. António Valdemar, José Mouga e Margarida Dias dão-nos uma visão ímpar do Mestre que trabalhou tão bem a pedra como lapidou as palavras da poesia.

PÁG.18 ENTREVISTA “O INVENTOR DE IMAGENS. MANUEL GUSMÃO”

PÁG.26 MÚSICA “HOT CLUB, O JAZZ É QUEM MAIS ORDENA”

PÁG.28 PLATEIA THOMAS ALFREDSON. DEIXEM OS VAMPIROS ENTRAR “A MELHOR ESCOLA DO MUNDO” “PÚBLICO ZERO”

PÁG.30 DOCUMENTAL “FOTÓGRAFOS POR UM DIA”

PÁG.31 GASTRONOMIA “RESTAURANTE O MÁRIO”

PÁG.32 MEMÓRIA

Director Ricardo Paulouro/ Director-Adjunto Pedro Leal Salvado/ Directora de Arte Margarida Dias / Chefe de Redacção Margarida Gil dos Reis/ Produção Executiva João Paulo Alexandre/ Colaboram neste número António Valdemar, Fernando Dacosta, Jacinto Galeão de Tormes, Jorge Seguro Sanches, José Mouga, José Nuno Matos, Luiz Antunes, Manuel Gusmão, Manuel da Silva Ramos, Maria Almedia, Nuno Reis Gonçalves, Pedro Fiúza, Pedro Teles Ramos, Rita Barata Silvério, Rui Dias, Rui Pelejão Marques, Pedro Leal Salvado, Vasco Paulouro/ Fotografia João Trindade, Jorge Barros, Margarida Dias/ Ilustração Filipe Matos (www.g03.org), José Mouga/ Cartoon António Pilar Design Gráfico Francisco Elias/ Foto de Capa Jorge Barros/ Periodicidade Trimestral/ Tiragem 10.000 exemplares/ Impressão Mirandela Artes Gráficas/ Distribuição Gratuita/ Propriedade Associação Cultural A.23 (associacao23@gmail.com / www.a23online.com / a23online@gmail.com ), www.contiudo.com, contiudo@gmail.com Número do registo na ERC 125073 Morada e sede de redacção Rua dos Três Lagares — Edifício Laranjeiras, Torre 3,6º — Fundão


Sinais

REGIONALIZAÇÃO UMA PRIMEIRA REFLEXÃO Texto

Núcleo Distrital de Atendimento à Vítima Doméstica Com o objectivo de combater e prevenir a violência doméstica, o Governo Civil de Castelo Branco tem o mérito da criação do Núcleo Distrital de Atendimento à Vítima Doméstica. Esta é uma importante aposta que pode contribuir para a mudança de atitudes e comportamentos. É pena que não tenham sido muitas as acções e campanhas no distrito visíveis no combate a este flagelo. Os números indicam que quarenta e quatro mulheres morreram em Portugal, nos últimos meses, vítimas de violência doméstica. As queixas por violência doméstica são comuns no distrito. Concelhos como Castelo Branco e Sertã estão entre os lugares cimeiros no aumento de queixas. Estima-se que uma parte significativa das mulheres europeias com mais de 16 anos são vítimas de violência doméstica.

Museu Cargaleiro em Castelo Branco É um motivo de orgulho para o distrito de Castelo Branco o entendimento a que chegaram a Câmara de Castelo Branco e a Fundação Manuel Cargaleiro relativamente ao espólio do Mestre, acessível ao público na cidade de Castelo Branco. No Solar dos Cavaleiros, é possível apreciar exemplares da produção do próprio artista, com destaque para a pintura a óleo e a guache, desenho, gravura, serigrafia, tapeçaria, azulejaria e outros objectos de cerâmica. Manuel Cargaleiro nasceu em 1927 em Chão das Servas, no concelho de Vila Velha de Ródão, sendo conhecido nacional e internacionalmente.

O novo caciquismo ou o longo braço do poder local É um fenómeno que condiciona o desenvolvimento da região e do país. São, cada vez mais, os casos de promiscuidade entre os detentores de cargos com funções públicas e as actividades pessoais, na política local. Vereadores, assessores e chefes de gabinete que presidem a associações que se tornam âncoras do projecto politico do concelho, com milhares de euros de transferências de capital, subsídios e cooperações. É urgente a criação de um regime de imcompatibilidades que delimite a fronteira entre o poder e a sociedade civil. Quando se perspectivava uma mudança de atitudes, no exercício dos poderes públicos, por parte de uma nova geração de políticos concelhios, eis que nos deparamos com uma versão actualizada do caciquismo rural que, em nada de essencial, se distinge do velho.

Jorge Seguro Sanches

Como seria a nossa região da Beira Interior se a regionalização proposta em 1998 tivesse sido aprovada? Quem tomaria decisões de desenvolvimento regional na nossa região? Com que critérios teriam sido afectos os fundos do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN)? Quem decidiria sobre a prioridade de alguns investimentos públicos que têm sido decididos para a nossa região? Quanto teria custado ou que benefícios teriam os portugueses com a existência de regiões administrativas?

terciário. Durante décadas, os sucessivos dirigentes políticos, quer da ditadura quer da democracia e de todos os partidos não utilizaram qualquer estratégia vencedora e consensual que impedisse este movimento. A regionalização, um objectivo constitucional, foi sempre adiada e todos, quase sem excepção, aceitaram por omissão aquilo que a todos nos salta à vista: um Interior cada vez mais vazio onde apenas as maiores cidades, com alguma escala, conseguiram evitar o seu esvaziamento. Em contrapartida, quase todas as

Será porventura difícil fazer um exercício deste género – imaginar como seria a nossa vida se a nossa região tivesse, desde 1998, capacidade para tomar, por si, decisões. Onze anos depois, e por força da moção de José Sócrates ao Congresso do PS, o tema volta às nossas agendas com o “objectivo de chegarmos a um consenso alargado quanto à instituição em concreto das regiões e quanto ao modelo a adoptar” e de “procurar o apoio político e social necessário para colocar com êxito, no quadro da próxima legislatura, e nos termos definidos pela Constituição, a questão da regionalização administrativa, no modelo das cinco regiões”. Se, na nossa região, cruzarmos a fronteira com Espanha, a diferença é evidente. Os nossos vizinhos espanhóis optaram por um país regionalizado e, nos últimos 30 anos, a Espanha afirmou-se pelo seu progresso e pela redução de assimetrias internas. Portugal, pelo contrário, concentrou no litoral, numa faixa de território entre Braga e Setúbal cerca de 80% da população e da riqueza do país e, em Lisboa, quase toda a capacidade de decisão. Em particular, a nossa região tem vindo nas últimas décadas a perder população, riqueza, poder e massa crítica. Foi assim inicialmente com a emigração nos anos 50 e 60 mas também - e de forma mais radical - com a transformação de grande parte do sector primário do nosso país e com a criação – nas grandes cidades do Litoral – de um novo e cada vez maior sector

vilas e aldeias do Interior estão, e se nada se fizer, condenadas a desaparecer. Não entendo, ao contrário de muitos, que a regionalização seja o remédio milagroso para o problema: perdeu-se muito tempo, perdeu-se muita gente e acima de tudo o país perdeu uma grande oportunidade de crescer de uma forma sustentada: grandes cidades como Lisboa e Porto também não são nenhum exemplo pela forma como cresceram desordenadamente. O modelo que podemos construir nos próximos anos, mais que uma oportunidade para a nossa região é uma grande oportunidade para o país. Cabe-nos, enquanto agentes políticos, acertar com o modelo de descentralização administrativa que sirva o país e que não dê qualquer azo aos que procurarão, como em 1998, utilizar a demagogia, o populismo e a hipocrisia. Nesse sentido, deixo, desde já, duas ideias: o modelo de regionalização aprovada não poderá implicar o aumento de custos de funcionamento da Administração Pública e, por outro lado, que o agora proposto modelo cinco regiões garanta como objectivo a homogeneidade de cada uma das regiões (nomeadamente entre Litoral e Interior). Agora, resta-nos fazer valer os nossos direitos e os nossos deveres com o futuro.

Deputado do Partido Socialista na Assembleia da República pelo distrito de Castelo Branco http://jorgeseguro.blogspot.com


OBAMA ENTRE A TRAGÉDIA PALESTINIANA E A CRISE ECONÓMICA

32

Texto

Texto

Vasco Paulouro Neves

Rita Barata Silvério

A eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos da América foi o acontecimento político mais importante do ano passado e, é fácil prevê-lo, marcará de forma indelével a próxima década. A expectativa é enorme e tem razão de ser: primeiro afro-americano eleito presidente, num país que ainda há poucas décadas atrás conhecia a ignóbil realidade da segregação racial. Obama emergiu como um politico carismático e brilhante que apresentou ao povo norte-americano um discurso progressista que, pela coragem e audácia (uma palavra cara ao novo presidente) que exigia no contexto muito próprio da política americana, deve ter deixado corados de vergonha alguns chefes actuais da socialdemocracia europeia. A sua oposição à guerra do Iraque, desde a primeira hora e quando tal atitude era de grande risco político e nada fácil de assumir no ambiente vingativo do pós - 11 de Setembro, e a crítica certeira à visão unilateral das relações internacionais que foi a marca da administração Bush criaram no mundo inteiro a expectativa de uma mudança real na Casa Branca. Por enquanto, não pode dizer-se que o novo presidente tenha frustrado as gigantescas expectativas que recaem sobre si. Logo nos primeiros dias de trabalho na Casa Branca, ordenou o encerramento do centro de detenção de Guantanamo e dos centros de detenção que a CIA tem no estrangeiro para suspeitas de terrorismo, bem como proibiu a utilização da tortura a suspeitos de terrorismo nos interrogatórios e durante a detenção, actos de grande simbolismo que mostram o “mundo de distância” que o separa de Bush. Contudo, é agora que as coisas começam a contar, e logo no inicio deste difícil mandato surgem dois acontecimentos que põem à prova a fibra de Obama e que ameaçam desiludir os mais optimistas.

O primeiro foi a tragédia de Gaza. A invasão da faixa de Gaza pelo exército israelita, estrategicamente executada antes da tomada de posse da nova administração americana e num período pré-eleitoral em Israel (numa altura em que as sondagens mostravam dificuldades da coligação de governo e um reforço do Likud), constituiu um autêntico massacre militar sobre uma população indefesa, que no seu dia-a-dia vive e sobrevive a custo num minúsculo território cercado e bloqueado economicamente, sem emprego e sem condições mínimas para uma vida decente. Por mais que os meios de comunicação tradicionais nos tentem impingir

“Um modelo que preconizou de forma radical a desregulação e privatização da economia, que sobrepôs a especulação financeira à economia produtiva, que impôs a ideia do Estado mínimo, que reduziu a política a um apêndice da economia e que quis destruir os direitos sociais e os princípios base do Estado-providência que estiveram no centro do contrato social.” a sua versão “softcore”, apresentando esta tragédia como um “conflito” entre o Hamas e Israel, como se estivessem em cena dois actores com a mesma capacidade militar e de destruição, como uma guerra “normal” que inevitavelmente provoca danos colaterais, a desproporção de forças é tão pornograficamente evidente que hoje podemos dizer que o que se passou foi um crime contra a Humanidade. Um crime que provocou para cima de um

milhar de mortos civis, entre estes centenas de crianças, e arrasou as frágeis infra-estruturas de Gaza. Perante isto, o que vai fazer Obama? Manter o tradicional apoio incondicional ao seu aliado no Médio Oriente ou, pelo menos, tentar moderar os falcões israelitas, fazendo ver a Israel que esta política apenas promove o radicalismo islâmico e a longo prazo põe em causa a própria existência de Israel enquanto Estado viável. O segundo é, como não podia deixar de ser, a gravíssima crise económica que o mundo enfrenta. Aqui, o gigantismo da tarefa é ainda mais evidente. A crise é profunda e apesar de alguns a terem decretado apressadamente como o prenúncio fim do capitalismo, ela é pelo menos a morte do paradigma de capitalismo que dominou o mundo nas últimas três décadas: o paradigma neoliberal. Um modelo que preconizou de forma radical a desregulação e privatização da economia, que sobrepôs a especulação financeira à economia produtiva, que impôs a ideia do Estado mínimo, que reduziu a política a um apêndice da economia e que quis destruir os direitos sociais e os princípios base do Estado-providência que estiveram no centro do contrato social consensualizado no pós-guerra nas democracias ocidentais. As consequências sociais são dramáticas e, infelizmente, estão à nossa vista todos os dias: desemprego a aumentar, pobreza, insegurança, precarização do trabalho, aumento da xenofobia e do ataque aos imigrantes, etc… Com uma Europa inexistente politicamente e incapaz de tirar as conclusões desta crise, o mundo vira-se ironicamente para os EUA, o epicentro da crise actual. Será Obama capaz de perceber que para além da urgência do imediato também está em causa a reforma do sistema capitalista actual e da sua globalização?

Lúcia, Celia, Rosario, Olimpia, Rita, Marcia del Carmen, a mulher de Benito Paz, uma alicantina de 33 anos, Noelia, Angelina, Julia, Gina, C.K.V, uma idosa de 74 anos, e assim até 32, que se diz depressa, foram as mulheres caídas desde Janeiro nesta Espanha que comemorou com discursos e homenagens no Parlamento os 30 anos de Democracia. 32 irmãs, filhas, mães, namoradas ou desposadas, todas elas assassinadas por amor, porque antes morta que ver-te nos braços de outro. 32 mortas à martelada, queimadas com gasolina, esfaqueadas, atropeladas, atiradas pela janela, esvaziadas de vida depois de despojadas de dignidade. 32 casos de polícia, fulana de tal, de 45 anos, foi encontrada morta em sua casa, estava em processo de divórcio, blablabla, os vizinhos sabiam da história de violência familiar, os filhos estão desolados, o homem tentou suicidar-se. 32 notícias repetidas no início do telejornal, boa noite, mais uma vítima de terrorismo doméstico, entrevista ao ministro, ao chefe de polícia, ao maltratador redimido e à especialista em assuntos de género, resumo da lei integral e mudanças previstas. 32 mulheres foram mortas em Espanha por homens que se acharam sempre proprietários de um pedaço de carne, estes são os dados. Em Portugal há poucos dados. Primeiro a mulher suicida-se, depois veremos se foi assassinada. Em Portugal há comissões, telefones de apoio à vítima, reuniões de peritos e uma lei que ninguém aplica. Em Portugal as mulheres que aparecem mortas no chão da cozinha com uma faca no peito não abrem noticiários, não são tema para ninguém. Porque no Portugal da Ota, do Cristiano Ronaldo - dos temas de merda - a violência doméstica é conversa de feministas doidas, um assunto que não deve preocupar ninguém porque já se solucionará sozinho, porque tem a ver com a educação, porque há gajas que até gostam de levar, porque o matrimónio é sacrifício, porque se não saem de casa é porque não querem, porque ninguém tem a ver com a vida dos outros, porque a quem lhe importa o barulho da casa do lado com o euribor a subir, porque sempre foi assim. Isto é Portugal, um paízinho da treta que se acha importante porque tem auto-estradas, festivais de rock e um multibanco que funciona, mas que ignora tudo o que não seja capa de jornal, como as mulheres espancadas, mutiladas e mortas por aberrações de homens que sabem que têm todo o poder para desfazer vidas porque se está tudo a cagar, porque a quem lhe importa quantas caem, vítimas, de tanto desprezo. Se é intolerável 32 mulheres mortas, mais indigna saber que em Portugal nem sequer há números. Diariamente em www.rititi.com


CR7 VIAGEM AO TOPO DO MUNDO Texto

Rui Dias

1 O momento era de festa. Campeão nacional em 2001/02, o Sporting apresentava-se aos adeptos. Preocupados com os sinais de que Jardel já não pertencia a este mundo e sem certezas quanto ao futuro de João Pinto, que um mês antes agredira um árbitro no Mundial da Coreia do Sul, a família verde e branca compareceu em número reduzido. A tarde de 20 de Julho de 2002 confirmou o arrefecimento da exaltação mas devolveu às bancadas o fascínio de mistério e esperança. Entre os titulares de Laszlo Bölöni nesse jogo com o Paris Saint-Germain estava Cristiano Ronaldo, jovem madeirense há muito referenciado mas cujo percurso nas camadas jovens do Sporting e das selecções nacionais o apresentava como caso problemático. Entrou sem bater à porta. Actuou sobre a esquerda, falhou um golo na primeira parte, não deu particularmente nas vistas e saiu aos 59 minutos. No fim, transformouse num dos principais alvos do interesse jornalístico. Perante os microfones, recusou o guião dessas ocasiões memoráveis e, em vez de se mostrar emocionado pela oportunidade concedida, resolveu dizer o que lhe ia na alma; não aproveitou a boleia do lugar-comum e mostrou-se espantado com a surpresa dos outros, afirmando com todas as letras: “Os sócios ainda não viram o verdadeiro Ronaldo, isto é só o começo.” 2 A confiança insolente em si próprio, traduzida em saudáveis brisas de loucura em forma de palavras e actos, apanhou muita gente desprevenida. Mas não aqueles que lhe conheciam o estilo, o atrevimento, a paixão e a convicção fanática de que havia de ser alguém no futebol e na vida. Ronaldo inaugurou uma era em Alvalade, porque nunca o clube acolhera no centro de estágio uma criança de 12 anos, idade com que trocou o Funchal por Lisboa. Os responsáveis leoninos, que não duvidavam do potencial ilimitado do menino, precisavam apenas de vê-lo noutro enquadramento, condicionados pelo desfecho habitual das aventuras de outros jovens insulares, adolescentes de 15/16 anos que não resistiam ao choque e, uma semana depois, regressavam a casa por total inadaptação à nova realidade. Em 1997, Cristiano Ronaldo integrou uma equipa que já passara por inúmeras filtragens – eram os vinte resistentes de um processo de selecção iniciado semanas antes, quando o universo de escolha ascendia a mais de cem candidatos. Dois dias bastaram para se tornar líder do balneário e herói de uma comunidade rendida à qualidade futebolística, à entrega ao treino e ao descaramento de quem se tornou, em poucas horas, o centro de todas as atenções. 3 No regresso a casa, depois da inauguração do novo Estádio de Alvalade,

a 6 Agosto de 2003, alguns jogadores do Manchester United abordaram o treinador em pleno voo questionando-o se estava nos planos contratar o diabo que lhes infernizara a vida horas antes. Prova de que nem tudo terá sido decidido no momento, pouco depois Cristiano Ronaldo era apresentado em Old Trafford como jogador do clube inglês. Ao cabo de três semanas e de alguns jogos oficiais, a lenda regista uma conversa determinante entre o treinador e o candidato a estrela. Alex Ferguson chamou Cristiano e, enfurecido, arrasou-o em dez minutos de intensidade máxima, nos quais pôs em causa a atitude, as decisões e o comportamento do futebolista nas quatro linhas. Quando abandonou o gabinete, Ronaldo convenceu-se de que o sonho terminara antes de começar; que a ilusão de uma grande carreira internacional estava definitivamente comprometida; que o treinador, pelo modo inflamado como lhe falara, perdera a confiança no seu potencial e assumira o fracasso daquela arrebatadora paixão à primeira vista. Quando já ia ao fundo do corredor, Ferguson chamou-o em voz alta, fechou-o no mesmo local e, sempre ruborizado, colocou a questão três vezes (“Percebeste o que eu te disse?) para ouvir sempre a mesma resposta (“Sim, mister, percebi”). E rematou a conversa com a declaração chave para o futuro do

“No dia em que concentrar nas quatro semanas de um Campeonato do Mundo o que faz durante uma época inteira, será mais fácil entender a convicção de que Ronaldo tem o destino traçado como um dos melhores executantes da história do futebol.“

fenómeno: “É bom que tenhas percebido, porque amanhã vais ser titular outra vez!” Na essência da repreensão não estava o modo como o jovem expressava o talento mas o desrespeito que revelava pelas regras mais elementares do jogo. Sir Alex soube, desde o primeiro instante, que era sua obrigação fazer de Ronaldo um jogador melhor mas nunca ousou corromper-lhe o estilo, a natureza, a vocação – jamais caiu no ridículo, por exemplo, de considerá-lo individualista, justamente por saber que, durante cada jogo, corre sempre riscos de reconhecê-lo como génio. 4 O desafio à adversidade e a rebeldia perante a derrota são sinais indiscutíveis de grandeza mas, em desportos colectivos, não podem ser arma de um homem só – nos primeiros passos, foi esse o principal obstáculo à plena afirmação de quem não estava habituado a pedir ajuda aos outros para ser bem-sucedido. Cristiano Ronaldo, que só conhecia o extraordinário para respirar e a fantasia para ser feliz, está cada vez mais consciente das exigências do dia-a-dia e dos mecanismos repetitivos que põem a máquina a funcionar, prova de que o tempo cura o exagero, controla a contundência, aumenta a sobriedade, estimula o prazer de jogar em comunidade e ajuda a estabelecer diferenças entre recreio e eficácia, magia e senso comum, provocação e respeito pelo meio em que está inserido. 5 Recebidos os títulos individuais com que a indústria brinda anualmente as suas estrelas, Ronaldo tem pela frente uma espécie de exame exclusivo para prodígios. Pode ser talento em estado de graça ou profeta de uma nova era; ter iniciado viagem de ida e volta ao topo do Mundo, como tantos outros já fizeram, ou ir ao encontro dos deuses que repousam num patamar

de onde jamais voltarão; ser fenómeno arrasador mas passageiro ou desempenhar papel semelhante ao de Michael Jordan, o mago do basquetebol que sobrepôs a arte individual a um jogo que, sempre concebido como espectáculo grandioso, só depois desse clique com nome próprio adquiriu a dimensão universal que hoje lhe reconhecemos. No dia em que concentrar nas quatro semanas de um Campeonato do Mundo o que faz durante uma época inteira, será mais fácil entender a convicção de que Ronaldo tem o destino traçado como um dos melhores executantes da história do futebol. 6 Ao contrário de quase todos os parceiros nesta caminhada de seres superiores, a começar pelo topo da escala (Di Stefano, Pelé, Cruijff e Maradona tinham sentido estratégico apuradíssimo), Ronaldo é um génio de soluções quase estritamente individuais (Ronaldinho e Messi, sendo artistas de vocação solitária, têm mais peso no funcionamento da equipa, enquanto Zidane e Kaká pertencem ao ramo daqueles que multiplicam o talento dos outros). Definitivamente, é diferente dos outros. Mesmo reconhecendo o esforço para se adaptar às regras em vigor e de alimentar a rotina como forma de combater a desinspiração, Cristiano continua a ser uma peça solta na engrenagem das grandes máquinas que são o Manchester United e a selecção nacional. Ao fim de cinco anos de deslumbramento, Old Traford e toda a Inglaterra renderam-se ao malabarismo, à extravagância e ao cocktail de truques com assinatura de um futebolista único. Uma breve análise à centenária história do futebol leva-nos à conclusão de que nunca um jogador com características tão desacreditadas por académicos e puristas (noutros tempos chamar-lhe-iam “brinca na areia”) voou tão alto e tão bem suportado em reconhecimento e números quanto Cristiano Ronaldo. 7 No culminar de um ano dourado, no qual os títulos nacionais, europeus e mundiais do United fizeram sobressair o talento que vai marcar o futebol nos próximos anos, o comportamento e o futebol de Ronaldo correspondem ao menino que, ao segundo dia em Alvalade, com 12 anos, vindo do Funchal, se tornou líder de um balneário sem dono e que, na estreia pelos seniores do Sporting, com 17 anos, se surpreendeu com o alvoroço mediático à sua volta argumentando, com razão, que “ainda não viram nada”. Seis anos depois, já lhe vimos quase tudo, incluindo o que julgávamos impossível num ser humano. Resta-nos a convicção de que, apesar do assombro que já causou, ainda não lhe vimos tudo.

Jornalista do “Record”


PRECÁRIOS PELA VIDA FORA Texto

José Nuno Matos

FALTA DE CREDIBILIDADE E CACIQUISMO Texto

Pedro Leal Salvado

Independentemente do apuramento da verdade dos factos, verdade essa que provavelmente nunca venha a ser descoberta ou, pelo menos, com consequências, o caso Freeport obteve quase de modo imediato e automático o estatuto de credível. De facto, é preocupante que a corrupção e o favorecimento de um grupo privado por um político não cause nem espanto, nem sequer crie dúvidas da possibilidade de tal ter sucedido, pelo menos na maior parte dos portugueses. Uma democracia saudável e forte será aquela em que necessariamente os cidadãos acreditem, ou que, no mínimo, dêem o benefício da dúvida acerca da honestidade e credibilidade dos seus governantes. É um facto que a classe política dos últimos 30 anos se constituiu numa verdadeira teia de dependências e favores, povoada por verdadeiros profissionais, cujo sustento provém única e exclusivamente da política. Assistimos diariamente a verdadeiras transferências milionárias de ministros para instituições públicas e destas para grandes grupos privados e, de novo, de volta para os Ministérios… Se esta é uma realidade que acompanhamos pelos meios de comunicação social a nível nacional, sentimo-la no nosso dia a dia a nível do poder local: os “pequenos tiranetes” como já foram apelidados, mais vulgarmente conhecidos por “caciques” locais. A forma mais simples e directa de cimentar o poder é o emprego público. Contrariamente ao que seria de esperar, os primeiros contemplados são todos aqueles que possam de algum modo representar um perigo ou um desafio ao poder instituído: eleitos e militantes de partidos da oposição, independentes e antigos governantes, bem como os seus familiares. São os conheci-

dos avençados: “coordenadores de freguesias”, “coordenadores de modernização de canil”, sociedades de advogados cuja função contratual é “definição e orientação politica”, adjuntos de adjuntos e assessores de assessores... Numa primeira fase, é do interesse do poder mantê-los exactamente nesse estatuto de contrato precário, pois se por um lado não permite a segurança do posto de trabalho, por outro lado mantém o avençado motivado e leal na esperança do tão almejado lugar no quadro; ou seja, nas mãos do poder. Temos hoje a máquina da Administração, quer nacional

“Que pensar quando os órgãos sociais de quase todas as instituições do concelho são tomadas pelos seus vereadores, chefes de gabinete, assessores e demais correligionários políticos?” quer local, hiper-povoada de contratados que nada fazem, mas que por alguma razão interessa ao poder ter sob a sua folha de pagamentos. Uma vez passada a primeira fase, os leais entram para o ambicionado quadro. É um custo do erário público compensado de quatro em quatro anos em votos. Seguidamente, há que controlar e dominar todas as formas de expressão da sociedade civil, entrando em todos os órgãos sociais de todas as instituições, associações, clubes e colectividades em geral. Uma vez no poder dessas colectividades, há que aprovar transferências de capital, subsídios, ajudas, colaborações, cooperações e co-produções… mais uma vez, um custo elevado para o erário público mas com a compensação já referida. Esta verda-

deira anulação da sociedade civil tem o seu expoente máximo na criação pelo próprio poder de associações, que depois preenche a seu bel-prazer e, de novo, com uma “linha de crédito” virtualmente ilimitado. Há que referir que todas as operações e metodologias descritas são, até ver, feitas com o beneplácito da Lei, ou seja, de modo totalmente legal. É o preço que pagamos por elegermos como legisladores, ex-autarcas, ex-assessores, ex-governantes… Concretizando, como poderei pedir a um concidadão que dê o beneficio da dúvida ao primeiro-ministro no caso Freeport, se esse mesmo concidadão viu, nos últimos 8 anos, a empresa do director de campanha do seu presidente passar de falida para economicamente sólida e em crescimento?; que viu a associação presidida por um vereador tornar-se a âncora do projecto politico do concelho, com milhares de euros de transferências de capital, subsídios e cooperações?; ou que viu os órgãos sociais de quase todas as instituições do seu concelho tomadas pelos seus vereadores, presidentes de junta, chefes de gabinete, adjuntos, assessores e demais correligionários políticos?... Difícil, para não dizer mesmo impossível. A limitação de mandatos terá sido uma boa medida, mas insuficiente e demasiadamente tímida para acabar com o actual estado do exercício do poder. Continua a faltar um verdadeiro regime de incompatibilidades entre o exercício de funções públicas e actividade pessoal, que delineie clara e cabalmente a fronteira entre o poder e a sociedade civil.  
  Pedro Leal Salvado assina a crónica semanal “Tinta Permanente” Veja a lista completa das avenças da Câmara Municipal do Fundão em www.a23online.com

E de repente existem precários em Portugal. A espectacular cobertura mediática à volta da divulgação de dados relativos ao emprego precário aposta em retratar a coisa como algo de exótico, de novo, que existe mas não se sabe se veio para ficar. E perante tal, a resposta governamental não podia ser mais exótica: impôr ao patronato o pagamento de 5% dos custos de segurança social. A precariedade é mais do que isto. Constitui certamente um fenómeno mais visível em termos laborais, caracterizando a condição de cerca de 41,8% da população activa - desempregados, trabalhadores a recibo verde, contratados-a-prazo ou inscritos em empresas de trabalho temporário -, e de todos os trabalhadores não contabilizados nestes dados - estagiários ou imigrantes ilegais -, igualmente forçados a entrar num jogo em que se aposta o possível e o impossível para se gozar de um mínimo de estabilidade (raramente alcançada). No entanto, a precariedade apresenta sinais de dilatação social, prendendo na sua teia tanto a jovem endividada perante o banco ou a seguradora de saúde, como o cidadão de outro país a quem é negado o visto de residência. A indiferença que estas situações mereceram por parte de partidos políticos e sindicatos - que apenas recentemente acordaram para o problema - levou ao aparecimento de iniciativas como o May Day, pequenos sintomas da afirmação do precariado enquanto sujeito político. Inicialmente realizado em Milão e mais tarde alargado a outras metrópoles europeias (entre as quais Lisboa), o May Day propõe-se todos os anos a refundar a evocação do dia 1 de Maio. A sua relevância decorre não tanto do número de pessoas que reúnem, mas essencialmente da alternativa que simboliza: tanto na sua composição heterogénea, como na sua dinâmica democrática e metodológica. Deste ponto de vista, o May Day é expressão deste “afirmar negando”, cujo alento reside na inexistência de uma forma institucional rígida ou num programa político. É tão-somente um colocar em causa, um grito que desafia, a declaração de guerra de uma força colectiva que, cansada de carregar sobre os seus ombros o peso de todo um sistema económica que lhe usurpa as energias, quer produzir autonomamente, decidir livremente, viver dignamente.


AS ESTRANHAS E FANTÁSTICAS HISTÓRIAS DE JOLON Ora venha de lá essa história! Jolon, correspondente do “Jornal do Fundão” em Penamacor há mais de 30 anos, tem uma retrosaria aberta com um balcão de histórias de vida que recolhe. É um biógrafo do povo, um jornalista que nos leva ao coração sentimental das histórias. Vamos à boleia. Texto

Rui Pelejão Marques e Ricardo Paulouro


“Eu dormia no palheiro perto das cabras e de dois burros que meus pais tinham. Uma noite, ao entrar, reparei que os burros tinham o pêlo todo eriçado e cheio de gotas de água. Deitei-me e de repente noto que me tiram a manta de cima. Tento acender a lanterna, mas gastei metade da caixa de fósforos e não consegui acendê-la. Entretanto sinto como que pessoas a passarem perto de mim e risos. Pareceu-me reconhecer o rir de uma moça de quem eu andava atrás. Então disse-lhes: ó filhas do diabo se quereis brincar vinde aqui para a cama que eu já vos ensino a brincar. Mas elas continuavam a rir e a correr. Tentei agarrá-las com a mão as bruxas – mas não apanhei nenhuma. Agarrei o meu gibão e enrolei-me nele. Olha que dava três voltas ao corpo! Deitei-me. Quando dei conta senti-me no ar e sem o gibão. Tapei-me com a enchalma, tornaram a tirar-ma. Mas sem medo continuei a convidá-las para se meterem na cama comigo. Até que sinto um corpo mais pesado a escorregar na palha e um gargalhar de homem que me meteu medo. A partir de então já não ouvi nada mais. Diziam que sempre que as bruxas saem são acompanhadas pelo demónio, terá sido ele que se riu daquela maneira”. Ele há histórias do diabo. Ele há histórias do catrino. Esta é uma das “Estranhas e fantásticas histórias de Ti Zé Trapiço”, publicada no “Jornal do Fundão” em 27 de Julho de 2001. Então com 92 anos, Ti Zé Trapiço, velhote das longínquas Aranhas, contava a picaresca aventura com as insinuantes bruxas a João Lopes Nunes, correspondente do JF no concelho de Penamacor. Fica gravada a memória nas páginas de um jornal, museu do efémero, mesmo agora que Zé Trapiço já abalou para a terra da verdade. Fica gravada, graças a Joaquim Lopes Nunes, ou simplesmente Jolon, que é como assina este “mineiro” de histórias da raia perdida. No meio de tanto palavreado e banzé retórico que se publica aí pelas estrebarias a seis colunas, há uma

leitura obrigatória em Portugal. Obrigatória para quem ainda acredita, como nós, que o coração sentimental do jornalismo são as pessoas. Há quase trinta anos que Jolon nos conta histórias de pessoas. Num tempo de jornalismo autista, enfeudado à missinha da assembleia municipal (simulacro de democracia local), ao comodismo do arcondicionado, da preguiça da Internet e das sinecuras que a profissão oferece (paga-se mal em dinheiro, mas generosamente em vaidade); num tempo de jornalismo funcionário e mouco, ler as refrescantes histórias de Jolon serve para nos tirar a cera da indiferença dos ouvidos e escutar a voz humana, modulada em palavras que são eco da condição humana, aqui na expressão de um mundo rural que vai morrendo aos poucos, mas com uma dignidade e uma alegria só possível a quem ao longo da vida se habituou a viver com nada ou pouco mais que isso. Mais do que saber contar histórias, Jolon sabe ouvi-las. Tem orelha treinada e faro de perdigueiro. Ao balcão da sua retrosaria em Penamacor ou calcorreando as aldeias remotas, os lugarejos mais inóspitos daquela região raiana, Jolon sabe como ninguém puxar pela língua às pessoas. “Venha de lá essa história, Ti Joaquim Bicicleta”. E a língua das pessoas lá se solta, abrindo o coração que se ilumina nos olhos com as memórias de outros tempos. Depois, com a minúcia de um cinzelador aponta-as no seu bloquinho para as trazer semanalmente às páginas do nosso “Jornal do Fundão”. São mais do que crónicas do efémero ou retratos do quotidiano. São registos únicos de um modo de vida que desaparece lentamente, são retratos eloquentes da vida no campo, esculpidos nas rugas das caras dos velhos. Na sua expressão sincera e espontânea que nem a fotografia esboroada a tinta de jornal finge ou intimida, antes esclarece. Mas chega de floreados e mariquices. Um jornalista deve saber ouvir, saber calar-se e ouvir. Vamos à viagem, vamos às histórias, dás-nos boleia Jolon?

Nasce torto e jamais se endireita E este país que nasceu torto, jamais se endireita, não é Ti António Ramos, “indreita”? «Aos 87 anos, António Ramos ainda endireita muita gente»

“Contando já com 87 anos, António Ramos diz ter nascido já com o dom de endireita, assim como o pai, porém foi com este que se foi aperfeiçoando. Para evidenciar os ensinamentos do pai, contou que o ‘Ti Alexandre, pastor de seu pai, natural de Segura, também aprendeu. Um dia, o Ti Alexandre foi preso. Diante do juiz pediu que lhe levassem um galo. Satisfeita a vontade, num instante partiu as pernas à ave, atirou com elas ao chão e desafiou que qualquer médico lhe pusesse o galo a andar. Posteriormente ele mesmo o fez perante a admiração de todos. O réu foi mandado em paz. O Ti Ramos esclarece que o homem não partiu as pernas ao galo ‘ele só as desmanchou, depois foi só pôr os ossos no lugar e o galo voltou a andar’. (…) A primeira vez que o levaram, recorda, foi para endireitar um pé ao Dr. Rolão Preto ‘ Ele era um político. Uma vez estava em casa dele e chegaram uns indivíduos para o prender. Ele vestiu-se com uma samarra de pele de cabra, pegou num cacete e num guarda-chuva e disse bem alto – vou botar o gado fora. Passou por entre os guardas, que não o reconheceram e foi-se embora.”

A arte de endireitar quebrantos ortopédicos é comum e especial na Beira Baixa como documenta o caso de Tó Craveiro, o homem dos sete ofícios:


“Foi emigrante na Alemanha, trabalhou na Câmara Municipal de Castelo Branco , nas horas vagas matava e vendia cabritos. Para além disso ainda era endireita, este é o retrato de Tó Craveiro”. Bem aos ossos faz-lhe a cerveja: “Grande apreciador de cervejas, quando vivia em Castelo Branco, uma empresa de cervejas oferecia-lhe uma grade desta bebida pelo Natal, como recompensa por ser tão bom consumidor”.

Se Tó Craveiro era conhecido como o varredor dos cabritos em Castelo Branco, também Fernando Pombo ganhou fama como matador de porcos. Uma fábula à La Fontaine, o pombo mata-porcos.

Na Aldeia do Bispo encontramos «Fernando Pombo excelente matador de porcos»

“Junto de uma velha pipa de madeira as galinhas esgravatavam na esperança de encontrarem alguma minhoca. Estrategicamente colocada a bancada de madeira aguardava a chegada da vítima: o porco. Minutos depois, os homens após alguma luta, conseguem prender as patas e colocá-las em cima da banca. Fernando Pombo previne os ajudantes para segurarem bem o animal de modo a que não venham a ser feridos quando ele esfaquear no momento de aflição. Lava a barbela do animal e ao contrário do que estamos habituados a ver, utiliza uma pequena navalha com uma lâmina de cerca de 10 centímetros. Mais surpreendidos ficamos ainda porque em poucos minutos o porco estava morto. Pode afirmar-se que teve uma morte rápida e de sofrimento mínimo para o animal. Este é porventura o

motivo porque o matador é considerado um dos melhores da terra. A experiência de largos anos é outra justificação para cerca de uma centena de solicitações por ano, para a matança de porcos, em Aldeia do Bispo. A arte de matar porcos, cabritos ou cabras aprendeu-a com o pai que era talhante. Tinha 15 anos de idade. O porco maior que matou pesava 200 kg.”

Pois, é do diabo. Agora não há fronteiras, nem Guerra Civil em Espanha, a fome que há anda escondida e envergonhada, calada, mas o diabo anda por aí a gargalhar como no palheiro de Ti Zé Trapiço. Mas vamos ouvir mais histórias de contrabandistas, que são das boas: «Chegamos a ser quase 50 contrabandistas a cavalo»

Matar para ganhar a vida. O sustento, o trabalho árduo, os ofícios que se extinguem num mundo rural. Tudo isto faz parte do roteiro de Jolon. O trabalho dos homens e das mulheres da Beira Baixa é um filão que o jornalista garimpa como mineiro de metais preciosos. Seja no balcão da sua retrosaria ou quando se acamarada com os velhos dormitando ao sol no terreiro das Aranhas, Jolon sabe que basta um fósforo para acordar as memórias. E como estamos na raia, as histórias de contrabando vêm à baila com uma mini na mão e um lampejo de malandrice e saudade. “Zé Tostão: ganhão, pastor e contrabandista”

“Era o tempo da Guerra Civil de Espanha. Eles não tinham lá nada, nós tínhamos de tudo. Eu levava farinhas de milho, trigo, centeio, bacalhau, açúcar, café. Cheguei a fazer o alqueire de centeio a 100 escudos e a vendê-lo a 200 e 250 escudos. Era então, muito, mas muito dinheiro. (...) A conversa é como as cerejas, diz o povo. De facto a conversar com José Borrego Domingos não se dá pela passagem do tempo e as histórias surgem espontaneamente. Em relação aos tempos antigos e ais actuais, que tem a dizer?: ‘Agora é que está o diabo...’ coça a cabeça.”

“António Luís (o Paca) de 79 anos, foi companheiro de muitas dessas aventuras. Fomos encontrá-lo em casa bastante debilitado, pois havia passado a noite hospitalizado em Castelo Branco. Apesar disso, o ânimo foi-se elevando a pouco e pouco com o desenrolar da conversa. A tal ponto que acabou sentado no banco de pedra defronte da sua residência, onde habitualmente passa as tardes com o seu amigo Carreto, recordando com nostalgia, os desafios que correram em conjunto durante vários anos das suas vidas. O Pacas iniciou-se na sua vida de contrabando aos 14 anos, e recorda: ‘Chegámos a ir 50 a contrabandistas em cavalos carregados com cargas de 80 a 100 quilos de café cubano. Escolhíamos as noites de chuva, pois normalmente os guardas não saiam de casa. Íamos numa longa fila, distanciados uns dos outros por alguns metros. Se os guardas apareciam e tentavam apanhar algum, este gritava e os outros fugiam.’ Aos tiros de intimidação juntavam-se os gritos do cavaleiro, o que fazia com que os contrabandistas se livrassem da carga, cortando as cordas que a prendia ai cavalo. Em caso de perigo extremo, tentavam salvar o cavalo e a eles próprios. Se não fosse possível, o cavalo era sacrificado e ficava para trás.” Para trás ficam esses tempos de aventuras, para trás ficam também ofícios, artes e profissões que se foram extinguin-


do à medida que as terras envelhecem e ficam desertas, entregues aos fantasmas e às memorias, que essas vivem e perduram. Uma terra que já não precisa de barbeiro é uma terra onde já nada prospera, como em Quintãs: «O último barbeiro das Quintãs»

“Uma pequena e antiga oficina de barbearia que é uma verdadeira preciosidade. Um museu mesmo. Quem ali entra regressa invariavelmente ao século passado. Desde a cadeira, passando pelos objectos usados na profissão, do espelho, até ao velho candeeiro de vidro a petróleo, tudo faz recordar os tempos em que as máquinas de cortar o cabelo e barbear eléctricas ainda não sonhavam ser inventadas. O banco corrido em madeira (tipo dos usados nas antigas tabernas) onde os clientes se sentavam aguardando a sua vez, matando o tempo contando histórias de lobos, lobisomens, bruxas e bruxarias, enfim, pondo as notícias em dia. (...) Neto e filho de barbeiros, João Martins Leal, viúvo, 81 anos de idade, todos os dias vai à sua oficina. Os clientes é que não.”

Ao longo das semanas, Jolon vai dando conta nas páginas do Jornal do Fundão das profissões em vias de extinção espalhadas pelas terreolas. Vamos pelos títulos que só por si são histórias de humanidade. Benquerença - “Dos estafetas dos CTT de há 40 anos um ainda é vivo”, Aldeia de Joanes - “Artesão, cineasta e poeta popular”, Penamacor “Foi ganhão e cocheiro sem nunca ter tido férias”, Meimão “A última tremoceira continua a vender”; Tortosendo “Já houve seis alfaiates mas agora só trabalha um”, Benquerença “talhantes e taberneiros: duas profissões em vias

de extinção”. E por falar em tabernas, quando o povo já não molha o bico, só falta a última pazada de terra.

Tratemos dos vivos! Jolon conta a história de Maria Pires: “Mulher de armas mete respeito no negócio: corpulenta e desassombrada, Maria Pires sempre pôs os clientes da taberna em respeito ‘eles tinham medo de mim’”. Nas fotocópias dos seus artigos o correspondente do “Jornal do Fundão” faz anotações. Junto à fotografia de Maria Pires com o seu marido, “ambos já falecidos”. Epitáfio de um tempo que se acaba. «Até a enterrar mortos trabalho de mulher é descriminado»

“Inédito não será, mas a situação comporta carga bastante de insólito para merecer algumas linhas de jornal. É em Aranhas, freguesia do concelho de Penamacor, onde, como acontece por essas aldeias da Beira Interior, os braços dos homens escasseiam. Conta-se breve a história que o nosso correspondente em Penamacor fez chegar à redacção. Maria de Lurdes Dias, viúva, 52 anos, alem de varrer as ruas de Aranhas enterra os mortos da localidade. A tarefa é o expediente que lhe calhou em sorte para ganhar a vidinha. Os leitores de Aranhas dirão – olha a admiração! Atão ela não é filha do ti José Inês e sobrinha do Ti João Inês, ambos coveiros da freguesia em tempos idos. – Será? Mas o caso é que Maria de Lurdes, que tanto faz a limpeza das ruas como a abertura das covas e correlativo tratamento do cemitério, não tem problemas em barbear e vestir defuntos, uma questão de profissionalismo. Medo? Só dos vivos, que

os mortos não fazem mal a ninguém. O problema é outro: mãe de 9 filhos (apenas 2 em casa), não está satisfeita com o vencimento que lhe atribuíram. Por cada funeral recebe 4.000 escudos e a Junta de Freguesia paga-lhe uma mensalidade de 23 contos. É caso para dizer: até a enterrar mortos o trabalho da mulher é descriminado”. Mas cuidemos dos vivos, cuidemos dos nossos velhos e demos-lhes ouvidos, são retratos e memórias que todos podemos coleccionar e guardar como ensinamentos de humanidade e lições de vida como na história: «Os últimos residentes da Bazágueda:»

“Rodeado de serras, pinheiros, estevas, giestas urzes, medronheiros, já as famílias viveram naquela zona. Mas foi aos 20 anos de idade que Domingos Campos decidiu fazer do local a sua residência. A atracção que aqueles sítios exercem sobre uma pessoa são motivo suficiente e justificativo para que apesar de contar 80 anos de idade, ele e a sua mulher, Dª. Maria José Cunha, de 67, continuem a residir na Bazágueda”.

Por cima da foto, Jolon anota. “O homem já faleceu, ela continua lá”. Uma anotação com uma força terrível, solitária, mas carregada de uma certa esperança. Enquanto a Dª. Maria José Cunha continuar lá, Jolon trará a vida das pessoas normais para as páginas do “Jornal do Fundão”, e fará da vida, notícia, nem que seja uma história de amor, como o casal de anciões da Benquerença: “Casados há 66 anos, cada vez se querem mais bem”. Bem haja pela boleia, Jolon.


NAS LINHAS DE MONSIEUR RAMOS

Texto

Manuel da Silva Ramos Ilustração

José Mouga

“Ela fizera uma autêntica pega de caras aos meus céleres espermatozódes. E vencera.”

Durante muito tempo pensei que as bóias das presas de camarão no rio Tejo entre o Fratel e as Portas de Ródão eram plásticos à tona de água, poluição industrial. E só hoje depois de ter falado com os pescadores do Arneiro sei da utilidade dessas bóias. Assim é também o amor em comboio, num Intercidades ou num regional ou até no Alfa. Visto de um apeadeiro, ele é incompreensível, mesmo se ele é uma cara de uma francesa que ri com os olhos aquosos cheios de ternura. Numa grande estação esse rosto talhado à faca pleno de felicidade é meramente curioso como as exóticas bilhas de água de Nisa de antigamente. E rapidamente se esquece porque ele pertence à zona franca internacional. A vida é um segredo bem guardado. E o amor a chave desse segredo vitrificado. Ao contar hoje esta dúplice aventura com uma francesa que me levou ao fundo da província , não posso deixar de pensar no que me levou a romper com Françoise e a odiar para sempre a maneira de ser dos homens casados portugueses – uns imbecis de teimosos predadores. Françoise, cinquenta anos, parisiense, excêntrica e divorciada. Encontrámo-nos numa padaria de Graça e rapida-

mente começámos a falar e rapidamente fomos para a cama. Visitou-me um mês depois e prometi levá-la à província à inauguração da casa de um poeta. É raro, porque os portugueses preferem abrir Casas do Benfica. Fomos pois como se fôssemos para a América, com uma quantidade imoderada de garrafas em duas mochilas, e rapidamente tomámos conta de uma carruagem só para nós. Enquanto abria a primeira garrafa de tinto, Françoise foi às retretes e quando de lá saiu vinha vestida com uma lingerie dernier cri, tudo em negro rendilhado. Logo ali a fodi no primeiro lugar solitário e nesse andamento erótico estivemos uns bons quinze minutos, só suspenso pela passagem lenta do comboio na estação das touradas de Vila Franca. A nossa tourada continuaria mais dez minutos e Françoise voltou à retrete para se tornar a vestir. Ela fizera uma autêntica pega de caras a todos os meus céleres espermatozóides. E vencera. No Entroncamento fomos buscar mais comida e copos de plástico para as bebidas. Pão, queijo de Nisa e tinto de Bordéus. Quando acabámos estávamos prontos para admirarmos a paisagem. A paisagem soberba com o Tejo en-


viesado fazia-me lembrar os altos e baixos para satisfazer Françoise. Ela era uma mágica criatura cheia de orgasmos ziguezagueantes. A água corrente desse rio longo e volúvel fazia-me antever a vagina sempre molhada de Françoise e quando chegámos às Portas de Ródão o meu sexo estava outra vez de pé e levei a francesa para o corredor, onde infantis estudantes costumam fumar de pé, para a foder contra o número 42, o número da carruagem. Quando voltámos cheirava a cona nauseabunda (eram a s fábricas de celulose de Vila Velha de Ródão) e Françoise sorriu-me com todos os dentes. Como eu amava esta mulher ! E ia prová-lo… Descemos no Fundão e cansados começámos a subir a Avenida da Liberdade mas logo na passadeira diante da estação Françoise foi quase atropelada por um automóvel. Estava a olhar para uma estranha criatura que fazia do passeio gestos incompreensíveis e dizia palavras sem nexo dirigindo-se a um público ausente e massacrado. E quando chegámos ao Hotel Samasa tínhamos uma garrafa de espumante para comemorarmos a chegada do nosso amor.

*

Regressámos a Lisboa dois dias depois contentes da nossa estadia e estávamos na estação à espera do Intercidades quando faltou a Françoise o seu cachecol. Faltava meia hora para o comboio chegar, ela tinha tempo de o ir buscar. E lá foi enquanto eu guardava as malas. Mas demorou-se

e eu achei estranho e fui à sua procura. Qual não foi o meu espanto quando a vi perseguida por um carro lentíssimo e ela fazendo os mesmos gestos incompreensíveis que o pedinte do dia da nossa chegada. Aproximei-me e compreendi tudo. E não tardei a gritar alto para o condutor : — A sua mulher sabe ? Dê-me já o seu número de telefone que amanhã serei eu a perseguir a sua mulher ! Arrancou o labrego e nós regressámos à estação. Já lá estava o comboio e por um triz escapámos à decepção. Françoise amuava enquanto eu já sentado insultava todos os casados que fora de casa rolavam em máquinas de sedução. Desta vez o comboio ia cheio mas nós não parámos de nos beijar e beber Licor Beirão com bolinhos de mel da Casa Formiga. Boiando no Tejo, esse plástico atormentador deitado fora mais me enchia a alma de ódio contra esses homens que faziam de qualquer mulher uma coisa descartável. Antigamente não era assim, os totós não tinham carro, não tinham dinheiro, não tinham vícios, só frustrações. Agora a hipocrisia era total: deixavam a mulher em casa amarrada aos filhos e faziam de galantes sedutores em cada esquina atirando-se a tudo o que bulia de feminilidade. Se a Nossa Senhora de Fátima passasse em mini-saia tenho a certeza que replicavam… Nunca gostei destes insistentes anafados, destes delatores de fumo, destes apáticos caseiros que agora iam às putas e fodiam as gastas sem preservativo trazendo para o lar agarrada a eles a maldição da doença mortal. Irresponsáveis como os pintainhos! É por

isso e por outras que este país é impermeável à poesia. O António Maria Lisboa morreu sordidamente num quarto na Graça porque o pai conveniente o não compreendia e só o via com um emprego fixo e um carrinho e uma caterva de filhos e uma esposa malfadada que o esperasse, enquanto ele tiritava de tesão potente por uma musa inexistente… A sociedade portuguesa está em plena decomposição, parece não conhecer a frustração para melhor avançar, nada se salva no sacrário. Nem a honra, nem o manguito. E todo e qualquer hedonista faz o manguito. É a fome do hedonismo geral. Goza, malandro, que amanhã será tarde ! Isto é, toda a gente quer podar. Curtir a curta vida. Porra, até apetece ir para um convento franciscano! Chegámos a Lisboa e embrenhámo-nos logo na noite. Não havia saída para este país. E a culpa era do hedonismo geral desgastante. Françoise seria sempre solicitada por qualquer chapuço enquanto eu andava longe e quando eu voltasse zangar-me-ia. Não pelo era pela estupidez do acto mas sim pela filosofia. Essa filosofia da traição que aniquila o mundo. Mas eu sabia que havia uma luzinha de esperança: esses putos de treze anos, que eu encontrava no Bairro Alto e que caídos de bêbados trocavam de parceiros e parceiras como quem bebe um copo de coca-cola, não eram assim. Eram pela orgia partilhável. Pelo respeito pelo outro. Respeitavam o amor secreto das pessoas livres. E quando chegámos a Alfama as luzes dos candeeiros públicos pareciam o esperma dos dinossauros.


MINEIROS MÁGICOS DE SOMBRAS SECRETAS Texto

Fernando Dacosta Fotografia

Jorge Barros

“A luz no fundo (no alto) dos túneis, imperceptível e bruxuleante a princípio, recortada e firme depois, revela-se, quando nos encaminhamos para a saída, a luz mais envolvente que alguma vez sentimos. A subida para o exterior, se feita ao entardecer, ou ao amanhecer, dilata-nos de uma vibração, de uma aquosidade únicas. Mágicos de sombras secretas, os mineiros detêm uma reminiscência, uma duplicidade inatingíveis aos comuns”.


O jornalista e escritor Fernando Dacosta e o fotógrafo Jorge Barros retratam a vida debaixo da terra, arriscada em séculos anteriores e, actualmente, substituída pela tecnologia informática. Apesar dos punhos e da picareta terem sido trocados pela broca mecânica, as minas continuam a exercer para muitos o fascínio: o cheiro, a escuridão, os milhares de quilómetros escavados pelo homem, labirintos que a mãe natureza permitiu explorar.

LITURGIAS DE TERRA As zonas de Portugal onde, ao longo dos séculos, se abriram, se demarcaram explorações de minérios, formam uma espécie de ilhas no corpo do País. Ilhas alinhadas em pequenos arquipélagos sobre veios abertos e fechados ao longo das geografias, dos tempos, dos interesses, das sobrevivências, das contingências. Gente de características muito próprias (em hábitos, sofri-

mentos, solidariedades, sonhos) povoam-nas de fora para dentro, do exterior para o interior, da luz para as sombras, no cumprimento de destinos quase sempre imperscrutáveis. A terra exerce sobre os mineiros a mesma atracção que o mar sobre os pescadores. Nela, é o infinito das profundezas, nele, o infinito das lonjuras que fascinam; nela, é a fantasmagoria da caserna, a tepidez do útero, a fremência das rebentações, nele, a reverberação da luz, o laminar dos ventos, a fragrância dos delírios que empolgam. Há numa e no outro fenómenos indizíveis de paixão e ódio, de fim e recomeço, de vida e morte. Por isso, a paixão e o ódio, o fim e o recomeço, a vida e a morte têm nos que se lhes entregam fronteiras de delicadíssima fragilidade, de levíssima indefinição. O imaginário que os envolve e engrandece, e atemoriza, e fantasia, cedo se nos impôs, se nos dilatou, projectando por artes, por religiosidades, por vertigens, por costumes perturbadores. O som que se ouve no interior da terra é o oposto do que se

1 - 2 Início de trabalho nas Minas da Panasqueira. A terra tornouse-lhes o grande mito (do bem e do mal), a grande referência (das alegrias e das aflições), a grande fuga (dos sonhos e dos pesadelos), a grande incerteza (da permanência e da subsistência).


escuta no largo dos oceanos. É uma música quase inaudível, uma vibração feita de rarefacções, de fremências, de abismos, de alvas – os capítulos deste registo. CATEDRAIS CÓSMICAS Espaços de esventramentos, as minas lembram ao mesmo tempo naves de catedrais e labirintos de duendes. Tudo nelas é desconcertante: o silvo das máquinas e a mudez dos homens, a invisibilidade do desconhecido e os focos dos projectores, a dureza dos movimentos e a candura dos olhares, a lama das sendas e a reverberação dos metais, a amálgama dos estaleiros e a solidão dos operadores. A tecnologia e a psicologia mais avançadas alteraram nos últimos anos a exploração (mecânica e humana) do sector. Mineiros de picareta e vagoneta nas mãos, rastejando por luras empestadas de silicose, fizeram-se já imagens do

passado. Hoje eles são operários especializados no manejo de poderosos e complicados veículos de perfuração, transporte, britagem, movidos com velocidade e perícia por vezes alucinantes. O universo do interior da Terra lembra o do exterior de planetas captados no cosmos e nele retidos, repetidos até à ficção. Os fatos-macacos de cores fosforescentes, os capacetes de lanternas eléctricas, as botas de canos impermeáveis, as luvas de cabedal enrugado, o marulhar denso dos líquidos, os movimentos crescentes da robotização dão-lhes dimensões de seres fora do conhecido. Chegam pendularmente para os turnos (seis horas e meia), despem, nas instalações de entrada da empresa, as roupas civis que trocam, em pavilhões próprios, pelas da função que os aguarda. Passam, depois, o torniquete do controlo e iniciam a descida. De elevador, de carrinha, de jipe, a pé, 400, 700 metros, para as galerias e secções que lhes cabem.

As tarefas desenvolvem-se-lhes ora rápidas e incentivadoras, ora lentas e tensas. Profissão das mais incomuns que se conhecem, a sua impôs-se, há séculos, como de dimensão excepcional. SERES SAGITARIANOS A palavra mineiro ganhou, aliás, ressonâncias abissais. Na imaginação geral, os que a exercem transformaram-se em seres sagitarianos, sobrenaturais, metade homens metade máquinas, chispando lodo e luzes, desafios e inquietações. São uma espécie de sacerdotes-guerreiros, secretos e alquímicos, a perseguirem na terra o oiro dos minérios formados pelas erupções dos gigantescos magmas iniciais. Portugal (a Ibéria), que sofreu refluxos profundos desses apocalipses, conserva no interior de si estrias fabulosas da sua sedimentação.


Flutuante, em termos de mercado, o nosso País (Neves Corvo, no Alentejo, Guarda, por exemplo, as maiores jazidas de cobre da Europa) tem-se ressentido de euforias e desânimos descontínuos. Desde a pré-história até à actualidade, todos os povos que nos habitaram (os romanos fizeram-se à superfície) desenvolveram explorações intensas. “No início do século XIX fermentou a ideia da riqueza de jazigos no subsolo português”, anota a historiadora Helena Alves. Na segunda metade desse século verificou-se mesmo uma “febre mineira” em certas zonas. Falava-se, inclusive, numa faixa piritosa peninsular, “cadeia de ferro e cobre que prendia”, no dizer de João Maria Leitão, “o Sado ao Guadalquivir”. Tais notícias atraíram banqueiros, investidores, consórcios estrangeiros (belgas, espanhóis, franceses, ingleses, alemães) e nacionais. E atraíram, sobretudo, populações de quase todo o País. “Quando num local apareciam vestígios do passado, como explorações metalíferas, o povo via logo neles anúncios de riquezas ocultas e misteriosas”, anota Leite de Vasconcellos. CLAUSTROFOBIA AO CONTRÁRIO O sol, o azul, a brisa, o mar, os vales, as árvores acabam por ser esquecidos com o suceder das vidas passadas na penumbra das galerias, onde o tempo se escoa sem alvorada nem ocaso, a preto e branco, sob focos de projectores eléctricos e lufadas de ventilação artificial. A temperatura, nelas, é invulgarmente tépida. Não há Verão nem Inverno, quase que pode falar-se em Primavera ou Outono permanentes. A humidade morna, atravessada de vibrações de frio e calor, de secura e viscosidade, é a sen sação que predomina. O seu mundo criou como que uma estação própria, fora das dos calendários estabelecidos, conhecidos. Às vezes, à superfície, os termómetros marcam oito graus negativos (como na Panasqueira, em Janeiro), ou trinta e oito positivos (como em Aljustrel, em Agosto), e lá em baixo o mercúrio fixa-se nos dezoito. Uma espécie de “claustrofobia ao contrário” afecta, a partir de certa altura, muitos dos mineiros. Sentem, no exterior, vertigens, as planuras, as praias, os espaços demasiado abertos e ensolarados causam-lhes insegurança, entorpecimento. Porque gostam do silêncio, eles amam a música; porque se habituaram à solidão, procuram o convívio; porque sabem que viverão pouco, saboreiam o festim.Em muitas das suas comunidades têm existido, aliás, bandas e coros, grupos de teatro e de desporto de projecção nacional. Houve mesmo bandas e coros, grupos de teatro e de desporto que sobreviveram ao encerramento das empresas dos seus componentes, e persistiram vivos, coesos, orgulhoso.

SEM RETORNO Muitos dizem que a sua profissão está a chegar ao fim. Há dezenas de anos que (na Europa) lhe prevêem a extinção— por exaustão de reservas, por afectação da ecologia, por concorrência de mercados, por estratégias de globalização, por conveniências de políticas. Poucos querem, porém, mudar de vida. Vida a que se habituaram com o suceder das gerações (famílias inteiras) e a estabilidade das jornas (acima das médias locais); vida a que os mais novos, porque não lhe acham alternativa, e os mais velhos, porque lhe doaram a alma, se entregam sem retorno. A sua deusa, Santa Bárbara, parece, por vezes, querer abandoná-los. Expeli-los. Para os salvar?

3 Início do turno nas Minas da Panasqueira 4 Mineiro. Panasqueira 5 Mineiro, Panasqueira


6 Balneário Neves Corvo. Roupas pessoais. Para as preservarem (de desvios, de humidades, de odores), os homens penduram-nas em cabides – roldanas que elevam até ao tecto. Aí ficam a arejar, rodando, ondulando como enforcados sem rosto, como velas sem brisa. Aos poucos, as sombras dão-lhes formas e flutuações fantasmáticas, como a tudo, interiores e exteriores, nas minas. 7 Minas da Panasqueira. Desligadas as máquinas silenciadas as vozes, fermências imperceptíveis ecoam a toda a volta, por cima, por baixo, pela frente. 8 Escoamento. Levado para a superfície por passadeiras e elevadores automáticos, o minério ganha depois tratamentos diferentes. Uma nova fase (transporte ferroviário, testagem química, selecção qualitativa) sucede-se até que estruturas próprias o lançam nos grande mercados internacionais.

Jorge Barros Apaixonou-se pela fotografia em 1961, participou em exposições, obteve prémios. A partir de 1974, trabalhou com companhias de teatro independente como a “Comuna”, “Barraca” e “Bando”, foi sócio fundador da cooperativa de cinema “Virver”, foi assistente de realização do filme “Bom Povo Português”, de Rui Simões, e colaborou no documentário “Rossio”, de Fernando Lopes. Em 1983, passa a dedicar-se exclusivamente à fotografia. Além de diversas exposições individuais e colectivas organizadas em vários países, tem ilustrado capas de livros e gravações musicais e participado em emissões de selos dos CTT. E, entre outras distinções, recebeu o prémio “Ilustração” da Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira - Design Gráfico 88. Colaborador de revistas e jornais - JL, Público, DN, Expresso, Atlantis (TAP) e “Tempo Livre” (Inatel) - deu formação sobre fotojornalismo no CENJOR de 1995 a 1997. “Mineiros” e “Sob a Terra”, ambos com textos de Fernando Dacosta, são dois dos seus trabalhos mais recentes.


O INVENTOR DE IMAGENS

MANUEL GUSMÃO Texto

Ricardo Paulouro Fotografia

Margarida Dias

Manuel Gusmão evidenciou-se, desde jovem, pela ligação à chamada “Nova Crítica”, tendo integrado a redacção das revistas “O Tempo e o Modo”, “Letras e Artes”, “Crítica” e coordenando a revista “Vértice”. Do Alentejo guarda a cor dos laranjais e o sol de Inverno. A agitação do 25 de Abril fê-lo sair à rua mas os poemas, esses, ficaram em fragmentos, ainda à espera de publicação. A arquitectura do livro passou a ser uma preocupação constante na sua obra, visível no seu último livro.


Quem é Manuel Gusmão? Nasci em Évora, em 1945, filho de um bibliotecário e de uma professora do ensino básico. O meu pai era o director da Biblioteca de Évora e dava aulas no secundário dedicandose, mais tarde, exclusivamente à biblioteca. É curioso que já comigo a estudar em Lisboa a minha mãe tirou Filosóficas na Faculdade de Letras. Ela fez o último exame ainda eu estava no 5º ano e acabámos sensivelmente na mesma altura. Os meus primeiros anos foram passados em Évora, em Alcobaça e em Leiria, dado que a minha mãe era do Litoral e o meu pai era de Mourão, no Alentejo, portanto, era um casamento entre a Beira Litoral e o Alentejo. Na escola primária, como tive alguns problemas de saúde, andei por vários sítios: fiz a 1ª e a 2ª classe em Leiria, a 3ª classe em Évora e a 4ª em Alcobaça. Depois fiz o exame de admissão ao colégio de Évora, onde completei todo o secundário até entrar na faculdade. Quando cheguei à Cidade Universitária lembro-me de ter ficado admirado com aquelas dimensões, com o espaço, com a escadaria inicial e com o anfiteatro principal. Quais eram os escritores que lia nesse tempo? Eram muito ecléticos e dissemelhantes como a biblioteca do meu pai. Eu muito cedo descobri o Sá Carneiro, Pessoa, depois o Gomes Leal e o Cesário. Por outro lado, na narrativa, o Manuel da Fonseca. A “Seara de Vento” foi o primeiro romance que me fez estremecer, depois Lorca, que o meu pai dizia de cor. A política, nessa altura, fazia parte da sua vida? A família do meu pai era oposicionista, anti-militarista, antinacionalista e anti-clerical. A família da minha mãe era o contrário, o meu avô materno era militar, era da “situação”,

passou várias vezes pelo Governo Civil e relacionava-se com Salazar, era militarista, era clerical. Lembro-me ainda, embora puto, da chegada do general Norton de Matos e do Humberto Delgado a Évora. Quando chega a Lisboa já tem consciência política? Acho que sim, era contra o fascismo e comecei a ler os primeiros textos de Marx e Lenine. Embora só no final da Faculdade, a partir de 68, 69, é que comecei a intervir publicamente. Começo a colaborar em revistas, por indicação do Jorge Silva Melo, no “Tempo e o Modo”, no “Letras e Artes” e, mais tarde, no jornal “Crítica” que era da Eduarda Dionísio e do marido. Eu era uma espécie de colaborador permanente. Nós fazíamos o jornal e depois ainda o íamos distribuir, eu e a Eduarda, o Jorge Silva Melo e o Luís Miguel Cintra, cada um ia para uma zona diferente. Eu ficava responsável pela Faculdade, Campo Grande, Avenida de Roma e Alvalade. Depois, recolhíamos o dinheiro das vendas. É já há vários anos militante do Partido Comunista Português e continua a integrar o Comité Central. Como é que se filiou no PCP? Tenho ligações com o PCP desde 1971, mas formalmente só sou membro desde Abril de 1974. Encontrei no PCP alguns dos Portugueses mais comoventes que conheço. Por outro lado, é o partido que há longo tempo mantém uma ligação indissolúvel entre a democracia, nas suas diferentes vertentes e o projecto de uma sociedade sem exploração. Posso falar de fidelidade a um programa e a um campo social que me parece manter a sua necessidade, ou seja, não é para mim aceitável que, nas sociedades em que vivemos, a fase actual seja desde há décadas uma fase de impres-

sionante acumulação de saber e de conhecimento científico e tecnológico e que, tendo mesmo chegado a uma plataforma civilizacional, no século XX, que comporta direitos ditos de primeira, segunda e terceira geração, continuem a existir problemas crónicos, como os da fome e da exclusão. Como é que com tantas forças sociais e humanas, o sistema mundial do capitalismo continua a manter problemas de desigualdade tão intensos no acesso à saúde, à educação e a gerar sociedades onde se agravam não só fossos entre diferentes grupos sociais, mas entre o que as nossas sociedades poderiam fazer e aquilo que efectivamente fazem. Julgo ainda que o PCP, mesmo que por vezes rude e áspero, mesmo sendo por vezes lento, é não apenas o garante da integração entre o caracter profundamente transformador do trabalho humano e as diferentes causas ou razões de luta, mas também uma força segura contra as ameaças de barbárie que muitos de nós, mesmo não comunistas, pressentimos no ar dos tempos. É por essa altura que começa a publicar dispersos. Porque demorou tanto tempo a publicar em volume? Nas vésperas do 25 de Abril tinha um livro de poemas mais ou menos organizado e pronto para publicar, mas achei que aquele livro, a seguir ao 25 de Abril, não fazia muito sentido, não tinha muito a ver com os tempos, nem comigo mesmo. Para mim foram também tempos de intensa participação sindical e política e por isso eu escrevia um pouco ao lado, na margem dessa agitação. Ainda publiquei nessa altura em revistas, mas é só em 1990 que publico o meu primeiro livro. Só consigo publicar quando organizo um novo livro em que me possa reconhecer e possa, por exemplo, dar a noção de tempo histórico que há entre os textos. Sempre me interessou, por um lado, trabalhar com


estilos diferentes para depois os obrigar a fazer sentido com uma arquitectura, uma organização do volume. Todos os volumes têm um certo tipo de arquitectura pondo todos os textos em diálogo uns com os outros. Nesse sentido, o primeiro livro é um dos livros que tem textos escritos com um período de tempo maior. Ainda penso em retomar alguns desses fragmentos que eu tinha para publicação antes do 25 de Abril. Enquanto escritor qual é a grande busca do escritor Manuel Gusmão? Eu diria que em cada livro há uma busca própria ou específica, ou seja, eu tenho pensado até aqui os livros com uma organização interna que tem a ver com aquilo que eu disco e com uma corda do instrumento que eu quero tocar. A organização de cada volume tem a ver com o modo de encarar a linguagem do mundo e procurar um determinado modo de diferença em relação às outras vozes. Isso é a razão de cada livro. Depois, há uma unidade que subjaz à diferença dos livros e essa unidade tem a ver com uma procura de muitas coisas que se podem dizer de maneiras difusas. Por exemplo, posso dizer que na procura de uma voz própria influem os autores que fui lendo e com quem fui estando. Havia coisas relativamente às quais eu ficava com inveja de não ter escrito, embora a noção de que não

fui eu que escrevi seja uma noção ética e quase deontológica, para mim importante, do ponto de vista crítico. Nunca me ponho perante um livro como se quisesse insinuar que colaborei nele. Pelo contrário, foi escrito por outro. Qual foi a grande descoberta de juventude, em termos de escritores portugueses? Entre os meus autores especiais, a grande descoberta quando chego a Lisboa é o Herberto Helder. Rapidamente me apercebi que era um poeta inimitável porque senão fica-se sobre a sombra daquele poder todo e é-se queimado. Houve uma autora que eu gostei particularmente, sobretudo dos últimos livros, e que depois conheci pessoalmente, que foi a Luiza Neto Jorge. Mais tarde, o Carlos de Oliveira. Depois, muitos poetas estrangeiros, como o João Cabral de Melo Neto. Esteve durante todos estes anos ligado à Faculdade de Letras de Lisboa e assistiu a um período de grande transformações da academia, da sociedade e até, de certo modo, da arte. como é que analisa hoje o ensino e o estado da arte em portugal? Relativamente às transformações das instituições, vamos ver qual é o caminho que se segue, isto é, em que medida é que as instituições vão marcar os próprios estudos e a própria maneira de trabalhar. Quando era estudante, a partir do terceiro ano, comecei a faltar às aulas e a fazer muitas leituras por fora das leituras ditas obrigatórias. Curiosamente, foi nessa altura que comecei a tirar melhores notas. O que nos marcou mais nessa altura foi Barthes, Lacan, Foucault, Derrida. Mas é certo que, em termos de Faculdade, havia o paradigma da estilística. Depois, chega o programa estruturalista que conduz a uma análise en-

sismesmada e altamente formalizada, alimentado por uma espécie de utopia que era a da existência de uma ciência da literatura que emergia da leitura do Jakobsen, ou até mesmo do poema “Ulisses” de Fernando Pessoa. Corremos actualmente o risco de uma massificação cultural? Tudo depende daquilo que designamos como “massificação” e das relações entre isso e o que entendemos por “democratização”. Essa questão remete-me para o problema que Benjamin põe sobre a reproductibilidade técnica das artes, associada à perda da aura. Ele vê essa reproductibilidade como uma possibilidade de massificação do acesso ao fenómeno artístico. Adorno, por seu lado, achava que essa massificação acabaria por ser insuportável, defendendo, por isso, acerrimamente, as formas mais “duras” ou “autónomas” da cultura dita erudita. A minha opinião em relação a esta questão é que há promessas no modo como as condições de produção se manifestam na circulação e divulgação dos objectos artísticos. Mas existe de facto um grande risco que já não é novo e que é o de uma massificação sem democratização, nem emancipação. Debate-se hoje muito justamente o papel que o intelectual tem na sociedade... Há, pelo menos, duas maneiras de entender a noção de intelectual. Por um lado, a palavra intelectuais designa um conjunto de profissões que supõem geralmente uma formação de nível superior e que tem um papel de intervenção muito maior do que o seu peso numérico, na medida em que se trata de trabalhadores com habilitações específicas em matérias que tocam o conjunto da sociedade. Estou-me a referir ao ensino e à educação, à investigação científica, à saúde, à comunicação social, entre outros. O papel dos intelectuais tem então a ver com a forma como usam os seus saberes. Há também um outro uso, mais antigo, da palavra “intelectual”, como aquele que surge enquanto porta-voz, ou representante de determinados valores e grupos sociais. Penso que hoje, por exemplo, o tema “do fim dos intelectuais” diz sobretudo respeito a esta segunda função do intelectual não aquele que directamente participa na produção e intermediação de ideias. Serve de intermediário. Segundo alguns teriam deixado de existir intelectuais pretensamente universais. Essas pessoas que assim o dizem estão já a participar numa disputa sobre o papel a desempenhar e, de certo modo, a ideia do fim dos intelectuais, posterior à ideia do “fim das ideologias”, que surge na década de 50 e reapareceu em força no fim dos anos 80, liga-se também à ideia do “fim da História” e do “fim da classe operária”. Estamos assim perante aquilo que podemos designar como as ideologias do fim que, parecendo ser características dos dois últimos fins de século, não são tanto diagnósticos como antes profecias ou objectivos a atingir. Mais de trinta anos depois do 25 de Abril, como é que olha neste momento para Portugal? Acho que vivemos numa apagada e vil tristeza e num momento de perigo real. Esta situação tem a ver com a interrupção do processo do 25 de Abril, bem como com o modo como se tem assistido ao crescimento de formas de esteticização da política, que chegam hoje a um ponto que o Benjamin provavelmente não calcularia, passando pela própria espectacularização da vida privada. Benjamin dizia que, no tempo de Homero, a humanidade se dava em espectáculo aos deuses do Olimpo e que no seu tempo ela se dava em espectáculo a si própria, retirando da destruição de si mesma um enorme prazer estético. Hoje assistimos à transformação em mercadoria, em espectáculo, do sofrimento, do desamparo e degradação de pessoas, sobretudo nesse “médium” poderosíssimo que é a televisão. Essa espectacularização foi, muitas vezes, apresentada como uma autonomização do político que o libertaria da expressão dos interesses. Julgo que o que tem vindo a acontecer é um pouco o contrário disso. Toda essa aparente autonomia do “jogo político” em relação aos interesses, acaba por esconder a enorme pressão do poder económico sobre o poder político, ou seja, acaba por estreitar a autonomia da acção política, e, por outro lado, converter o cidadão num consumidor do espectáculo e não num participante em algo que é conflito e negociação.

UM um risco na página um gesto furtivo um movimento de queda na sombra a sombra de um corpo. uma boca : alguém chama – palavras contra o sentido, contra a direcção do vento

DOIS a luz pelos ramos das árvores batida um acidente da voz flatus vocis – quem vem lá – retirada ao corpo a trémula juventude descobre-se a antiga ferida

TRÊS entre as margens montanhosas o rio divide-te pelas pedras que saltando vais de onde vens rosto de quem um gomo um gume brilha na claridade do súbito assombro.

Manuel Gusmão (poema inédito)


LAGOA HENRIQUES Revolucionou o ensino do Desenho, na Escola das Belas Artes do Porto e de Lisboa. No início dos anos 70, um incêndio destruiu-lhe quatro décadas de criação artística. As poucas peças salvas abriram-lhe o caminho, renascido das cinzas, para uma nova escala. Cedo, o desenho e a poesia ganharam também um lugar à mesa. A fotógrafa Margarida Dias captou pormenores do atelier de Lagoa Henriques, objectos, sombras, vestígios. António Valdemar, Margarida Dias e José Mouga dãonos aqui o retrato de um homem que se definiu como “um sonhador”, com “o coração ao pé da boca”. Palavras ditas com a simplicidade de quem será sempre o Mestre.


LAGOA HENRIQUES PRESENÇA E AFIRMAÇÃO Texto

*António Valdemar     

Se não tivermos receio das palavras, por demasiado gastas, reduzidas ao lugar comum ou atribuídas indiscriminadamente, podemos classificar Lagoa Henriques de personalidade multifacetada. Consagrou–se à escultura, ao desenho, ao magistério, à cenografia teatral, à literatura e, em sucessivos programas de Televisão, à divulgação do património português. Tudo isto que se multiplicou numa entrega gene rosa, numa permanente inquietação de comunicar e intervir, revela a afirmação exuberante de um temperamento forte, de um carácter determinado, de uma sensibilidade muito própria. Realizou, em todas as modalidades da escultura, obras que permanecem em museus e colecções mas, sobretudo, em ruas, praças, largos, jardins e outros espaços públicos: homens e símbolos, a vida e a morte, figuras carregadas de história e figuras marginais e anónimas arrancadas ao quotidiano. Fiel ao ideal grego, aos cânones da Renascença e aos clássicos da modernidade, nada é supérfluo na estrutura e na forma do corpo humano, quer em repouso, quer em movimento. A criação multiforme de Lagoa Henriques encontra-se presente de Norte a Sul do País. Está, ainda, profusamente representada na Madeira. Mantém laços culturais e afectivos com a região: em júris de concursos de professores para a Universidade; em conferências e colóquios; em muitas exposições individuais e colectivas. Existem, no Funchal, peças escultóricas que evidenciam o domínio do ofício e o poder conceptual de Lagoa Henriques: a alegoria, na sede dos Serviços Sociais; a estátua de João Paulo II, no adro da Sé; a estátua de Sissi, a lendária imperatriz da Áustria, no Parque de Santa Catarina, junto ao edifício construído por Niemayer. Encontram–se, na Praia das Palmeiras, em Santa Cruz, duas grandes figuras em bronze «A Terra e o Mar»,

implantadas sobre uma pedra de basalto. Estas e outras criações de Lagoa Henriques passaram a fazer parte indissociável dos locais em que se integram como, também, se verifica por exemplo, com a fonte monumental no centro histórico de Leiria; a estátua de Guerra Junqueiro, na praça do Areeiro; o Segredo, no alto do Parque Eduardo VII; a evocação de Teixeira Gomes e a copejada de atum, no largo principal de Portimão, voltado para o rio Arade; António Aleixo, entre a rua e a entrada de um café, em Loulé; Dórdio Gomes, no jardim do centro de Arraiolos; Fernando Pessoa, sentado à mesa, à porta da Brasileira, em pleno Chiado. Além da escultura, o desenho constitui para Lagoa Henriques um exercício de introspecção, um pretexto de catarse, uma oportunidade de transição entre o real e o imaginário alternando, quase sempre, a serenidade apolínea e o arrebatamento dionisíaco. Poderá ser um discurso fragmentário, de corpos e máscaras, de gestos e atitudes insistentemente repetidos, mas denuncia a explosão impetuosa de energias latentes, na busca da relação com um todo de afinidades electivas. Machado de Castro, no «Discurso sobre as Utilidades do Desenho», já advertia que só «da perfeição das formas em particular e da boa relação com o seu todo é que procede a beleza de qualquer corpo». Os desenhos de Lagoa Henriques, no seu grafismo claro e conciso, resultam do registo circunstancial do que o devora e consome, do que o deslumbra e atrai: a perfeição de uma forma, a harmonia de um ritmo, a reminiscência de um encontro, a sedução de um olhar, o desejo exacerbado de agarrar a vida que foge. Daí o próprio Lagoa Henriques se referir, com frequência, aos seus desenhos como o «risco inadiável» que é, afinal, a tradução imediata de emoções íntimas e irreprimíveis. Talvez muito mais do que as

palavras, nas suas múltiplas extensões semânticas, o desenho permite-lhe fixar a cintilação dos instantes no incêndio dos sentidos. Lagoa Henriques, a partir dos anos 50, leccionou nas Escolas de Belas Artes do Porto e de Lisboa. Marcou várias gerações. Introduziu novas metodologias no ensino do desenho e da escultura. Impulsionou o confronto de ideias, a curiosidade pelo que é novo e diferente. Desenvolveu uma prática pedagógica orientada para estimular todas as potencialidades do aluno, para atingir e amadurecer o espírito crítico, rejeitar o conformismo e a rotina. Inimigo feroz do carreirismo, incute nos alunos a coragem de opinião para enfrentar os habilidosos e resistir aos aventureiros que procuram vencer o mérito e impedir a ousadia. Conduziu os que frequentaram as suas aulas para a descoberta e interpretação dos sinais do tempo, para dar resposta aos desafios e interrogações que se deparam no dia-a-dia. Foi o mestre – quer queiram, quer não queiram - de alguns dos actuais mestres na escultura, no desenho, na pintura, na arquitectura. Discípulo na escola do Porto, do escultor Barata Feyo e de Marino Marini, em Itália, Lagoa Hen­riques também recebeu o impacto da poesia de Fernando Pessoa e Cesário Verde. Ambos o influenciaram na escultura e no desenho e ainda nas incursões através da palavra falada e da palavra escrita. Pessoa insinuou-lhe o modo de aprofundar o que há dentro dos labirintos do homem, no tumulto ou na limpidez da consciência; Cesário apurou-lhe a comunicação directa com as pessoas, iluminou–lhe a observação perante as plantas e os animais, ensinou–lhe a decifrar a cidade ou o campo, a aparência e a essência das coisas e dos seres. Ao longo de 50 anos, tive o privilégio de apreciar, de perto, a estatura humana, a amplitude afectiva, os contrastes


emocionais e a cultura diversificada de Lagoa Henriques: os defeitos das qualidades e as virtudes dos defeitos que o impuseram como personagem rara e aliciante. Conheci-o, em São Lázaro, apresentado por Barata Feyo; convivemos, depois, em tertúlias de livrarias; nos intervalos de espectáculos de teatro, de cinema, de concertos musicais; à mesa de cafés e restaurantes, nas sessões, nem sempre pacíficas, da Academia das Belas Artes. Ficámos amigos. Intensificaram a amizade outros amigos comuns, no seu atelier em Lisboa -  universo de trabalho e reflexão, palco de luminosos entusiasmos e de indomáveis repúdios contra os tartufos, os medíocres e ídolos com prémios nacionais e internacionais. É difícil esquecer o passar das horas neste espaço repleto de esculturas, pinturas, desenhos, fotografias antigas e actuais e uma desordem criativa de livros e papéis. Completam o cenário, troncos e raízes de árvores; calhaus rolados, antigos instrumentos musicais, achados arqueológicos, um pouco de tudo o que faz recordar amigos, colegas, discípulos, muitas viagens em peregrinações sempre inacabadas. Espaço e tempo humanizados, o atelier de Lagoa Henriques, no sítio do Bom Sucesso, em Belém retrata, em todas as dimensões, uma vida e uma obra, intensamente vividas. É a casa onde se entra e de onde nunca mais se sai. Encerra um valor patrimonial que merece ser defendido e transmitido. Memória de uma época e de um lugar. Memória de Lisboa num dos seus cais abertos ao mundo.

* Presidente da Academia Nacional de Belas Artes; jornalista; sócio efectivo da classe de Letras da Academia das Ciências

 


A AULA (QUASE) CLANDESTINA Texto

José Mouga

Corria o ano de 1960. Às quartas feiras, depois de um jantar barato de mais citações que comida, regressávamos à escola de Belas Artes que pela hora da noite voltava a ser o Palacete dos Braguinhas. A sala de desenho, agora cheia de sombras, regressava à sua antiga condição de salão de músicas e silêncios. Começava então a aula que o Mestre criara, uma aula quase clandestina, em que gramáticas e programas ficavam à porta para darem lugar a um olhar diferente sobre o modelo despido no estrado. Com gestos largos, marcados pela sua paixão pelo teatro, o Mestre riscava no ar as linhas invisíveis e fundamentais da construção de um corpo e sem baixar os braços deixava que os traços começassem a nascer nas folhas de papel. O giradiscos por ele trazido para a aula gerava musicas antigas que eram novidades para muitos. Numa ou noutra noite, abria um livro, fazendo subir no ar com uma leitura clara e comovida, textos de Raul Brandão, ou os versos de todos os Pessoas. O desenho deixava então de ser um exercício de traçar e, para quem o quisesse entender, transfiguravase em extensão do pensamento e mais do que o retrato do corpo. Começava aí o Risco Inadiável.Iriuscil iquatum


Cartaz Canal Zero “Para Maquinaria e Estados Líquidos” Projecto de fusão entre música electrónica e música acústica, que associa ao vivo a imagem em tempo real analógica, mostrando como são infinitos os limites e as potencialidades de duas artes música e vídeo - quando cruzadas. Uma partilha de múltiplas situações através da manipulação de sons e imagens, criando ambientes que nos transportam para uma realidade (in)visível. Para ver a 20 de Março. Na Culturgest, em Lisboa

Paulo de Carvalho “Do Amor” Do Amor é um disco que celebra o amor e tudo o que ele encerra. É uma viagem guiada pela carreira musical de Paulo de Carvalho, e que marca o regresso aos palcos de uma das mais bonitas e marcantes vozes do panorama musical português. Para ver a 13 de Março No Teatro Municipal da Guarda

El Fad Depois de uma colaboração nos finais dos anos oitenta e do trabalho discográfico “Cacus”, editado em 2005, Carlos “Zíngaro” e José Peixoto voltam a reunir-se no projecto “El Fad”. A Peixoto e a “Zíngaro” juntase outro colaborador de longa data, o baterista José Salgueiro. Recuperando algum material temático de José Peixoto e revigorando-o numa expressão criativa colectiva, este quarteto, que conta com o credenciado contrabaixista Miguel Leiria, pratica uma música aberta, enérgica e subtil Para ver a 7 de Março. Na Moagem – Cidade do Engenho e das Artes, no Fundão

CD Andrew Bird – Noble Beast Longe vão os tempos do pop mais objectivo e concreto de “Mysterious Production of Eggs”. “Noble Beast” continua a mostrar um músico de um enorme talento. A composição é exemplar, associada à faculdade natural da sua voz e do seu assobio.

HOT CLUB, O JAZZ É QUEM MAIS ORDENA Reportagem No nº38 da Praça da Alegria, em Lisboa, respira-se música. Ao descer as escadinhas para a subcave, entramos no mais emblemático clube de Jazz nacional. O Hot Club Portugal, a servir Jazz desde 1949 Texto

Rui Pelejão Marques Fotografia

Margarida Dias

A música de Jazz é uma inquietação acelerada. Françoise Sagan

“Around midnight”, o filme de Bertand Tavernier, com Dale Turner no papel de um Dexter Gordon em espiral de decadência em Paris, sugere aquela que é provavelmente a melhor hora para descer as escadinhas do nº 38 da Praça da Alegria e entrar no santuário e praça-forte do Jazz em Portugal não o Hot Clube Portugal. Como naquelas velhas casas de bebidas em Inglaterra, estilo Smithson food & drinks Since 1831, o Hot Clube Portugal pode orgulhar-se de servir Jazz a Portugal “since” 1949. A sua atmosfera parece segredar-nos isso mesmo, porque mais do que um simples bar, o Hot Club é a casa amiga do Jazz em Portugal. Apesar de ser uma instituição quase vetusta, o ambiente informal e descontraído cria o espaço de eleição para o convívio de várias gerações de amantes de


acompanhando o tempo de irreverência e inconformismo que marcou a década de 60, foi a vez de Miles Davids e uma nova geração de músicos rebentarem com os espartilhos do Jazz e liderarem a revolução do Free Jazz, uma das mais influentes na sua história. De qualquer forma, tal como os anéis de um tronco de uma árvore revelam a sua história e a marca da sua identidade, percorrer a história do Jazz é também uma viagem ao empolgante, dramático, mas imensamente estimulante Séc. XX.

Escola do Hot Club: Talento e técnica

“Naquele tempo o Jazz era uma expressão musical reservada a uma pequena elite, mas o Clube acabou por ser um dos grandes meios de divulgação do Jazz em Portugal. “ “Ao longo das décadas passaram pelo palco da subcave do 38 da Praça da Alegria, alguns dos grandes nomes da cena Jazz internacional que marcaram e influenciaram duas gerações de músicos de Jazz que 'cresceram' no Hot Clube.”

Jazz e de músicos - os mágicos do improviso, que ali deram os primeiros passos, tocaram os primeiros acordes e trilharam a estrada do Jazz. Mas quando se desce a claustrofóbica escada de acesso à subcave mais famosa da noite lisboeta, estamos também a descer às raízes de uma música com mais de um século, que se propagou da América negra ao mundo inteiro, como uma pandemia de ritmo e improviso. No palco, Maria João explora novos territórios do Jazz ao lado de João Farinha, Júlio Resende na bateria e André Nascimento na electrónica. De algum modo, todos eles são os herdeiros longínquos dos primeiros jazzman de New Orleans, que no início do séc. XX abriam o caminho para uma das mais marcantes e influentes formas de expressão musical contemporâneas. O tilintar do gelo nos copos agita-se com a voz de Maria João que explora novas sonoridades de ìParrots and Lions.

De New Orleans para o mundo O Jazz é um mutante com ritmo, costumava dizer Miles Davis, um dos génios que marcou uma das muitas rupturas na linguagem daquela forma de expressão musical ao longo do Séc. XX. Com efeito a história do Jazz reflecte essa excitante transfiguração que foi sofrendo, criando inúmeros movimentos que influenciaram e foram decisivamente influenciados pela história social e cultural do Séc. XX.

“Não seria a música uma linguagem perdida, da qual esquecemos o sentido e conservamos apenas a harmonia”, interrogava-se o autor italiano Massimo Azeglio, e o Jazz parece ser na harmonia e no ritmo a “corporização” dessa ideia de Babel original. Cronologicamente, o Jazz nasceu no período entre 1890 e 1910 em Nova Orleans, as suas raízes têm um forte cunho africano, já que remontam à música dos negros e criolos dos EUA e dos tempos da escravatura negra. Enquanto trabalhavam, os escravos entoavam cânticos de sofrimento e subtil contestação, os blues e o Ragtime, que são a árvore genealógica do Jazz. O termo “Jazz” a descrever um tipo de música muito popular em Nova Orleans e em Chicago, e cujos expoentes principais são originalmente identificados como músicos de Jazz: A Dixieland Band, Nicky de La Rocca, o pianista Jelly Roll Morton, o clarinetista Sidney Bechet são alguns dos nomes que se podem elencar nesta vaga de pioneiros que deram o tiro de partida, para uma expressão musical que se tornou um fenómeno de enorme popularidade na América dos Anos 30, graças ao swing das Big Band`s como as de Duke Ellington, Bob Calloway e Earl Hines. A evolução do Jazz, à semelhança das artes plásticas e da música clássica, seguia vários caminhos e tendências; muitas vezes opostas e contraditórias, como aconteceu com a clivagem ocorrida entre o bebop dos anos 40 e o cool jazz dos anos 50 ñ o confronto entre um Jazz mais popular e mainstream e um Jazz mais intelectual. Depois,

“O improviso é uma inspiração que de nada serve sem técnica”, afiança José Marrucho, jovem baterista fundanense que terminou a sua formação técnica na Escola do Hot Clube Portugal. Também o saxofonista fundanense, João Roxo, um dos membros do quarteto Trifazz, não se coibe em colocar a “escola do Hot como uma das melhores alternativas à formação clássica que nos prepara para o mercado de trabalho. A grande mais valia é poder aprender a tocar com aqueles que considero serem os melhores músicos de Jazz portugueses, que felizmente lá dão aulas. Como é o caso do Paulo Gaspar, professor de clarinete, que para mim é o melhor clarinetista de Jazz português. É uma escola com um ambiente muito positivo e que faz com que as pessoas que querem aprender a tocar Jazz evoluam”. Criada em 1979 pelo contrabaixista Zé Eduardo, foi a única escola de Jazz do país responsável pela formação da quase totalidade da nova vaga nacional de músicos de Jazz e também de uma série de outros intérpretes que integram as formações orquestrais e algumas das bandas mais relevantes da música portuguesa nas suas diversas formas de expressão – do pop ao rock, passando pela música ligeira e mesmo pelo fado, a Escola do Hot é um viveiro de talentos. Nomes como Maria João ou o pianista Bernardo Sassetti são apenas alguns dos mais famosos músicos que deram os seus primeiros passos no Hot e que mantêm com aquela instituição e com o bar “uma ligação afectiva muito forte. É como se fosse uma grande família espalhada pelo mundo, que de vez em quando se encontra aqui em casa”, explica Bernardo Sassetti, frequentador assíduo da “casa nostra” do Jazz lisboeta. Com um dos sonhos antigos dos sócios concretizado – o bar no nº 38 da Praça da Alegria, a Escola do Hot continua a dar todos os anos à música portuguesa uma nova “fornada” de cantores Jazz, pianistas, bateristas, contrabaixistas, guitarristas saxofonistas, trompetistas e um sem fim de novos talentos.

Aqui há Jazz! Inicialmente, o Hot Clube de Portugal era apenas um pequeno clube de amigos que se juntava para ouvir uns discos, beber uns copos e discutir Jazz, explica um dos “clubistas” de primeira hora que assistiu ao nascimento em 1949 do Hot, fundado por Luís Villas-Boas, o principal impulsionador da ideia, e que foi conjuntamente com alguns amigos um dos “pais-fundadores” daquele Clube. Naquele tempo o Jazz era uma expressão musical reservada a uma pequena elite, mas o Clube acabou por ser um dos grandes meios de divulgação do Jazz em Portugal. Ao longo das décadas passaram pelo palco da subcave do 38 da Praça da Alegria, alguns dos grandes nomes da cena Jazz internacional que marcaram e influenciaram duas gerações de músicos de Jazz que “cresceram” no Hot Clube. É essa mística de clube de culto que ainda hoje se respira naquele espaço, onde o Jazz continua a dar a primeira nota. Com uma plateia interessada e interessante, que varia entre o aficcionado conhecedor e o turista curioso, entre o músico profissional e o universitário, o Hot Clube é um espaço muito eclético, onde é possível estar calmamente em silêncio a beber um bom vinho com Jazz ao vivo, ou então nas noites quentes de Verão, em animadas tertúlias na encantadora esplanada interior. Porque no nº 38 o Jazz é mesmo uma alegria. Entrevista a João Roxo em www.a23online.com


Palcos Esta Noite Improvisa-se De Luigi Pirandello Encenação Jorge Silva Melo Os Artistas Unidos regressam ao Teatro Nacional D. Maria II com o espectáculo Esta Noite Improvisa-se (1929), um texto da última fase do autor italiano, que conclui a sua trilogia do “teatro no teatro”, revolucionário no modo de representação no palco. Para ver de 5 de Março a 5 de Abril. Teatro Nacional D. Maria II

Tambores na Noite De Bertolt Brecht Encenação Nuno Carinhas Esta é a segunda peça escrita pelo dramaturgo alemão, a primeira a conhecer o palco. Soldado que regressa a casa após ter sido mobilizado, feito prisioneiro e enviado para África, Kragler adere à Revolução Espartaquista, a cujas fileiras e ideais socialistas acabará, no entanto, por virar as costas em favor de um bem mais comezinho, e confortável: a “grande cama, branca e larga”… Para ver de 20 de Março a 26 de Abril. Teatro Nacional de S. João

Querido Monstro De Javier Tomeo Encenação José Neves Querido Monstro regista a insólita conversa de duas personagens aparentemente muito diferentes, das quais descobrimos, ao longo das suas discussões, um vínculo que os une: a obsessão por uma mãe possessiva. Para ver de 18 a 20 de Março. No Teatro Municipal da Guarda

Nick De Arthur Kopit Encenação Arthur Kopit “O interrogatório de Nick”, da autoria do dramaturgo americano Arthur Kopit, que optámos por denominar apenas por “Nick”, trata-se de uma peça em um acto, que propõe em cena uma dissemelhança de tratamento num interrogatório policial, entre “supostos” negros e brancos. Para ver a 7 de Março. No Centro de Artes do Espectáculo de Portalegre

THOMAS ALFREDSON DEIXEM OS VAMPIROS ENTRAR Texto

Pedro Teles Ramos

Thomas Alfredson já não é particularmente novo. Nem na idade, já conta com 43 anos, nem como cineasta pois já leva nesta vida desde 1990. Então como é possível que só agora tenhamos dado por ele? Há várias razões: A sua carreira até 2002 limitou-se a séries de televisão para consumo interno na sua Suécia Natal. Depois dessa data realiza 3 longas metragens que não passaram do mercado nórdico e do circuito de alguns festivais de cinema mais esclarecidos e só em 2006 é relativamente falado pela realização duma divertida campanha de sensibilização para os efeitos nocivos do aumento generalizado do consumo de álcool dirigida muito directamente ao presidente da União Europeia (o nosso querido Sr. Barroso). A campanha continua on-line para vosso/ nosso deleite e informação. Mas é só em 2008 que o seu nome passa a ser falado por todo o lado graças àquele que é muito provavelmente o melhor filme do ano que passou – Let The Right One In, ainda sem estreia em Portugal. São muitos os atributos que contribuem para fazer de “Let The Right One In” um filme extraordinário mas é sem dúvida nenhuma o virtuosismo da realização de Thomas Alfredson que o convertem em algo excepcional. A história está baseada na novela homónima de John Ajvide Lindquist que apesar de não conhecer deve ser material de primeiríssima água se atendermos ao lirismo e à força emocional que a sua adaptação cinematográfica desprende. Alfredson baseia a sua obra prima no axioma básico que todas as Escolas de Cinema (as de verdade e não as que formam “doutores” ensinam aos seus alunos na primeira aula: “Tudo o que puderem contar com imagens deve contar-se com imagens. As palavras são um mal do qual há que prescindir na medida do possível”. Com esta máxima em mente Alfredson constrói um filme cuja força reside no subtexto: uma economia narrativa mais que estudada onde nenhum plano é fortuito nem acessório, um minimalismo estranhamente poético, sublimado pelo contraste fotográfico entre a gélida paisagem sueca e as cálidas emoções que se desprendem do écran. E finalmente por um par de interpretações em que os olhares e os pequenos gestos dizem muito mais que qualquer discurso por mais elaborado que fosse: o pequeno Oskar (Kare Hedebrant) com o seu carácter introvertido e solitário que o converte no alvo das burlas e agressões dos seus colegas de classe mais malandros. A sua necessidade de afecto é colmatada pela chegada à vizinhança da pequena Eli (Lina Leandersson) uma misteriosa menina de tez bem morena e olhar languido que se converte no ponto de apoio de Oskar ao hostil meio em que se vê inserido e que nos deixa a nós (bebedores de sangue convictos) perdidamente “apaixonados” desde o primeiro momento que entra em cena. Tão ou mais apaixonados do que ficámos pela maravilhosa (e também moreníssima!) “Casanova” interpretada por

Annabella Sciorra em “The Addiction” de Abel Ferrara (que deve ser no mundo vampírico a mãe da Eli ou qualquer coisa do género). Curiosamente é também com o filme de Ferrara que “Let The Right One In” mais se assemelha relativamente à dimensão moral do filme que sai a reluzir a partir do momento que Eli revela a Oskar a sua natureza de “menina vampira”. A partir daí Oskar vê-se obrigado a pesar e questionar os seus imperativos éticos até que a poderosa conexão emocional estabelecida com a pequena vampira acaba por ganhar a corrida a uma sociedade que lhe proporcionava mais tristezas que alegrias. O grande trunfo do filme está em que o espectador cria uma empatia imediata com o impúbere casal em contra da sociedade estabelecida sem qualquer réstia de culpabilidade levando mesmo uma sala de cinema inteira a entrar em euforia com aplausos e gritos de apoio quando Eli dá cabo dos ingénuos provocadores que não param de atormentar o pequeno Oskar durante todo o filme numa redefinição colectiva das noções do bem e do mal. Uma experiência que só se vivia nos primeiros momentos do cinema e que me arrepiou completamente. Em suma, uma apoteose final sobre o sentido da amizade entendida com uma intensidade e entrega que poucas vezes se encontram nesta vida. Uma amizade incondicional pela qual tanto eles como nós espectadores estamos dispostos a qualquer coisa. Até a matar! E mais não digo para não retirar o prazer que dará ver este filme a todos aqueles que o possam fazer. Nem que seja via DVD importação que estará em breve editado ou com alguma sorte no próximo IMAGO. PS: Era suposto este texto ser escrito desde o festival de Clermont Ferrand onde fomos ver filmes e buscar alguma inspiração para o próximo IMAGO. Mas a única relação que me lembro é mesmo a vontade de morder o pescoço daquela jovem parecídissima com a Zooey Deschanel que dançava ao som de Yuksek no fim da festa do Canal + onde mais uma vez entrámos...sem ninguém nos convidar. Se os vampiros dançarem em 2009 de certeza que dançarão ao som de Yuksek. Para ouvir sem moderação!

Let The Right One In http://www.lettherightoneinmovie.com/ Dear Mr. Barroso http://www.dearmrb.se/ Annabella Sciorra http://www.imdb.com/name/nm0001711 Yuksek — Away From the Sea http://www.myspace.com/yuksek Leia outras crónicas de Pedro Ramos em www.a23online.com


A MELHOR ESCOLA DO MUNDO Texto

Pedro Fiúza

No centro do Porto há uma escola. Uma escola que prepara profissionais de teatro, seja lá o que isso queira dizer nos dias de hoje. Não sei se este texto será uma homenagem ou apenas uma recordação. Há umas escolas de teatro no Porto, mas há uma que é a minha, reservo-me o direito de posse sobre ela. Como vários alunos, também eu senti a angústia do final de curso, não queria acabar, na verdade também porque era burro e porque não tinha dinheiro para continuar a estafar num curso de um teatro que cada vez se me mostrava mais ingrato. A minha escola. A Academia Contemporânea do Espectáculo, onde apanhei os professores da minha vida. A minha escola faz vinte anos. Vinte anos para uma escola assim, num país que de teatro sabe pouco... é obra. Durante o curso amei e odiei a minha escola. Amei e odiei os meus professores, eles que me desculpem, mas era a idade da descoberta e a inocência era o prato do dia. Da minha escola guardo momentos revolucionários para toda a vida. Projectos que eram maiores que espectáculos. Aulas intensas. Feridas. Medos. Vitórias. Derrotas. Conquistas internas. Vinte anos a preparar actores, técnicos de luz e de som, cenógrafos, figurinistas, encenadores, professores. Quando já era altura criaram uma companhia de teatro, já era altura. para mim é uma das melhores companhias que temos no país, mas estamos num país obscuro. O primeiro ano na minha escola foi estranho, capaz de tudo e de nada, com o fascínio da cidade nova, tanta manhã perdida, mas ainda assim, a absorver o máximo possível dos meus professores. O António Capelo, de quem tinha um medo terrível, o João Paulo Costa com o seu lado visionário, o mestre Moura Pinheiro, enfim... e a Joana Providência, a Magda, o Zeferino... No segundo ano, aulas com o Rogério de Carvalho, O Encenador, mais uma bela dose de medo antes de ir para as aulas, a comédia das comédias, as aulas eram na segundafeira de manhã e o estômago começava a dar sinais de vida no Domingo de noite!!! Isto parece ridículo mas é verdade. É que o Rogério de Cravalho era o mito com que os alunos mais velhos metiam medo aos alunos mais novos!!! E nas suas aulas era o teatro. Teatro muitas vezes em estado puro, teatro sensível. Poderia aqui fazer um curriculum da minha escola mas não quero. Poderia aqui fazer uma homenagem sentida e sentimental mas também não quero. Prefiro dizer que é para mim a melhor escola do mundo, que me deu os tempos mais absorventes da minha vida, que me mostrou muitas vezes a razão para continuar. Talvez seja nestes momentos que eles me fazem falta, quando se anda assim à deriva pelo mundo, de teatro vazio em teatro vazio, ali ao menos tudo tinha uma razão e a cabeça era aberta para mostrar a vida, ou para mostrar o palco, ou os dois.

PÚBLICO ZERO Texto

Luíz Antunes

Entramos na sala, o cheiro é sempre uma mistura de boticário que paira no ar. Olhamos em redor, e os “do redor” olham-nos pontualmente. E lá estamos nós à espera do inesperado, há uma expectativa que se abre sem limites concretos, sem trajectória. Esperamos e desejamos, mas será que estamos disponíveis? Como O’Neill escreveu “esperança e surpresa estão demasiado contaminadas de humano para poderem participar nesta disponibilidade para o que vier de um lá que nem sabemos onde se situa onde terá vigência.” Por vezes não se sabe o que se vê, não nos parece ser nada, nem o novo, nem o esperado. Fica-se calmamente sentado a aguardar que nos entre pelos olhos. Apenas que nos entre pelos olhos aquelas infindáveis imagens de gentes que se movem aparentemente sem rumo e sem trajectória, tal como as nossas expectativas. Eis a passividade do pensamento, eis a glória do público zero. Heraclito formulou de uma forma clara essa imposição: “se não buscas o inesperado não o encontrarás, que é penoso e difícil encontrá-lo”. Por isso, não esperar, mas ir encontro de, tentar alcançar no tempo e no espaço, o que implica por parte do agente, uma vontade própria de busca. A Dança, a dança teatral do Ocidente, já foi barroca, romântica, clássica, moderna, abstracta, com influências de tudo e apenas do nada, já foi conceito e realidade, minimal e até somente ou quase palavra. Já deixou de ser dança para ser “só” performance, ou “só” com “mente” performance contemporânea. Mas o público continua a querer ser zero e o criador um zero à esquerda que não se consegue colocar à direita e somar. Num trabalho de Olga Roriz intitulado Jardim de Inverno, aparece um texto da coreógrafa que começa da seguinte maneira: “No jardim da casa do mar Ela espera. Avança e logo pára. Ela não pára nunca.” Não será isto que se pode dizer sobre a Dança? Não será isto o estado da Dança em Portugal? Não basta apenas desejar. É preciso agir, abrir as portas ao hoje e não ficar preso no novo de ontem, ou às novas danças de antes de ontem. A maioria de nós vive presa a formas hidráulicas de vida, em que esperamos que nos elevem as pernas, para que tudo façam por nós. Houve correntes que tudo queimaram em nome do novo, assim teve que ser; mas agora deixem que o queimado

amargo, que ficou, dê lugar às pequenas pontas verdes que surgem no meio dos troncos carbonizados e secos. Nos anos 80, a “Nova Dança Portuguesa”, o forte movimento constituído por várias cabeças pensante e corpos dançantes, que moldados foram por técnicas bem sólidas de base, trouxeram grande criatividade, propondo uma nova realidade, que aceite foi. Segundo a coreógrafa e bailarina Vera Mantero, “estamos, sem dúvida, num país dos mais pobres culturalmente onde as artes interessam a pouca gente e a dança interessa ainda a menos gente dentro do mundo das artes”. Será apenas isto? E o público zero continua sem nada perceber! As estruturas de dança actualmente (formadas por bailarinos, coreógrafos, críticos, entre outros) são sempre mais pensantes que actuantes, com o argumento de que as gerações mais novas “não assumiram as rédeas”. Mas quem deixa? Outra questão pertinente fica no cosmos, onde é que esta nova geração da dança teve a sua formação? Quem os formou? Todos os que anularam as suas bases, não tendo consciência, que é o que lhes permite ter um corpo ainda actuante e pensante? Perdoem-me, mas desconfio da consciência. Pois pelo menos as actuais estão ocidentalmente conformadas e confundem-se com a culpa, o remorso, a expiação ou, então, com vaidade, o orgulho, a prepotência. Tal como a consciência, por vezes a memória é curta, por isso não nos esqueçamos que muitos dos incendiários tentam hoje semear as suas colheitas em terrenos violentamente queimados. Mas a olhos vistos sem os rebentos idilicamente desejados, é que cada umbigo, por maior que seja, alberga em si uma quantidade reduzidíssima de sementes. O público quer ser zero por pensamento, actos e omissões, continuando para bem de muitos e para mal dos matemáticos, que não conseguem descobrir uma nova formula, de somar ao zero, conteúdo. O espectáculo chegou ao fim e as essências de boticário dando cor ao olfacto, dão lugar a um bafiento transpirar de desconforto de quem nada quis perceber, ou de quem não sabe como dizer que não gostou! Somos todos espectadores de situações zero. E ele há tanta maneira de deixarmos de o ser, não há?


Artes Manuel Luís Cochofel The Inner World of VALENTINA 170167 Manuel Luís Cochofel tem-se afirmado como um dos fotógrafos mais promissores do panorama artístico português. Premiado em diversos concursos de fotografia, entre os quais se destaca a IX Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira em 2006, Manuel Luís Cochofel está representado em diversas colecções públicas e privadas. The Inner World of VALENTINA 170167 é a sua mais recente exposição, na Galeria Pente 10. 31 imagens a cores e uma imagem a preto e branco, obtidas entre 2005 e 2006, podem ser vistas e apreciadas até 21 de Março, de 3ª a Sábado (15h00-20h00). Veja vídeo em www.a23online.com

Paulo Nozolino Bone Lonley “Bone Lonely” é o título da exposição que Paulo Nozolino mostra na Galeria Quadrado Azul, em Lisboa, até 7 de Março 2009, e de um livro a publicar pela editora alemã Steidl. Esta exposição estará igualmente presente em Julho de 2009 nos 40 anos dos Rencontres d’Arles, França.

Nadir Afonso As Cidades no Homem No momento em que Nadir Afonso completa 88 anos de idade e comemora 70 de carreira como pintor, a exposição As Cidades no Homem, comissariada por Bruno Marques e Ivo André Braz, reúne 20 telas pertencentes ao acervo da Fundação Nadir Afonso. A totalidade das obras foi produzida entre a década de 1940 e a actualidade e é subordinada à temática das cidades. Para ver até 20 de Março, na Assembleia da República, em Lisboa.

João Cutileiro Mitos e Revisitações Partindo da representação de alguns mitos clássicos em Boticelli, Boucher e Ingres, João Cutileiro recriou essas imagens através de uma constante e repetida prática do desenho que, por vezes, saltou do papel para a gravação na pedra, tornando-se mais próxima da matriz escultórica da obra do artista. A representação do mito, enquanto temática iconográfica é já em si um exercício de reintepretação, a um tempo da história literária e da sedimentação da matéria visual que sobre essa narração a história da arte vai construindo através das imagens aplicadas. De 21 de Março a 17 de Maio, no Teatro Municipal da Guarda.

Auto-retrato de Accra, Gana Um projecto fotográfico realizado pelos fotógrafos Maria Almeida e Nuno Reis Gonçalves

FOTÓGRAFOS POR UM DIA Viajar dá a oportunidade de conhecer, na pele, novas culturas, incluindo, não só mas também, as dificuldades que afrontam o dia-a-dia dessas pessoas. E existe um objecto que proporciona a oportunidade de trocar momentos de alegria, embora que momentâneos, com essas pessoas que por vezes vivem no limiar da pobreza. A câmara fotográfica é mais que um objecto e neste caso particular faz de elo entre o fotógrafo e o objecto fotográfico. Lançámo-nos num peditório entre amigos e colegas de trabalho com o objectivo de comprar 30 câmaras fotográficas descartáveis e de no próximo destino, neste caso o país africano Gana, proporcionar um dia diferente a um conjunto de crianças que nunca tivesse sonhado com uma câmara. O projecto consistia em realizar um workshop de fotografia a uma turma, em Accra, capital do Gana, de alunos entre os 12 e os 15 anos, com uma lição histórica e outra mais técni-

ca para dar uma pequena base de conhecimento fotográfico e despertar a vontade de pintar com luz pela primeira vez nas suas vidas. Depois de recolhidas as câmaras e os respectivos rolos fotográficos revelados, foi feita uma selecção das melhores fotos de cada aluno e foi realizada uma exposição dos trabalhos na escola. Os resultados foram impressionantes com alguns alunos em particular a evidenciar uma aptidão natural para fotografar, com enquadramentos de invejar para quem nunca tinha utilizado uma câmara. Talvez esta tenha sido, para alguns, a única oportunidade de estar na pele de fotógrafo mas quem sabe pelo menos um deles vai recordar este dia e trabalhar para um dia vir a ser um fotógrafo a sério. http://www.nunoreisgonacalves.blogspot.com


Boa mesa Fiado Alguém que vem do bulício despersonalizador da cidade e se encontra de repente no coração do Pinhal, no planalto anterior à descida para Janeiro de Cima, fica literalmente arremelgado com o panorama que tem diante dos olhos: o Zêzere serpenteia no vale em meandros de sonho. Em Janeiro de Cima há um exelente restaurante, numa casa restaurada, podemos desfrutar de uma boa refeição e degustarmo-nos com os magnícos produtos regionais que fazem do Fiado o melhor restaurante das Aldeias do Xisto Preço Médio 10 a 15 Euros Rua Espírito Santo, 5, 6185 — Janeiro de Cima. Tel. 914 863 230

Marisqueira Bela Vista Marisqueiras são, felizmente, uma especialidade portuguesa. No Fundão temos agora o senhor Alfredo e a dona Isabel. Os dois fazem milagres numa cozinha espaçosa e brilhante, propõem o mar à beira da Gardunha. Na carta têm também as especialidades regionais: Cabrito, Ensopado de Borrego, entre outros. Preço Médio Almoços a 7 a 12 Euros Rua do Parque Desportivo, 6230 — Fundão Tlf. 275 771 920

O Mário Refeição média 10 a 15 euros Estrada Nacional 18 Cruzamento de Alcaria Telefone 275 750 001/0 Coordenadas de localização para GPS 40º 12.055’N/ 7º 29.859’W Ambiente rústico, com duas lareiras, ar condicionado e duas salas para fumadores e não fumadores, acessibilidade a deficientes. Lotação 170 pessoas 4 parques de estacionamento Reservas.

RESTAURANTE O MÁRIO O TEMPLO GASTRONÓMICO DA BEIRA BAIXA Texto

Jacinto Galeão de Tormes

Na mítica Estrada Nacional 18, que viu passar o Alves Barbosa, o Ribeiro da Silva, o Joaquim Agostinho, ciclistas do sonho puro, que viu passar também em herói o Humberto Delgado em cima de um descapotável, o Kubitchek, Presidente da República do Brasil, mais o António Paulouro num carro negro cheio de esperança, há um restaurante que pela sua história pessoal e pela sua evolução surpreendente se projecta como o templo gastronómico da nossa Beira. Fomos lá comer um dia destes em que um frio glacial nos atravessava o corpo e os nossos olhos pediam um auxílio e um reconforto. E o tempo fortificou-nos, encheu-nos de uma alegria e de uma plenitude espantosas. Raras são as ocasiões nesta vida onde um lume crepitante de uma lareira acompanha um cabrito jovem à pátria da felicidade e onde um acolhimento beirão nos fustiga o rosto com uma chuva mais carinhosa. No cruzamento de Alcaria, o Mário proporcionou-nos tudo, nessa noite hostil, o que um homem de gosto e de sensibilidade espera e mais: deu-nos a certeza de estarmos no local certo, movidos por iguarias magnéticas, presos a um milagre culinário. Porque nestes instantes intensos e magnificentes, a vida só pode ser ilusão. Já o disse muitas vezes que o transporte mágico nos lega a boa comida é uma recompensa à falta de magia que há neste mundo. Flaubert, que foi um bom gourmet burguês, dizia rindo que toda “a cozinha burguesa era sã” e que “a comida de restaurante era sempre escaldante”. Todos estes preconceitos existem nos nossos beirões que gostam também de catalogar as coisas que comem nos sítios eleitos. O Mário até ontem era o templo da cozinha regional da nossa Beira; hoje ele é o templo de toda a cozinha (e até a internacional) da Beira Baixa. Indiscutivelmente. E vejamos, nos olhos e nos ouvidos. Começamos a nossa refeição ideal por um belíssimo pão de centeio e um cremoso queijo fresco, mesmo ali fabricado ao lado, na Beiralact, que nos deixou logo em transe. O presunto pata negra que comemos a seguir tinha a idade fantástica das certezas. Vieram a seguir umas cherovias alouradas e bem espalmadinhas que nos convenceram que este adorado tubérculo é o sol da nossa boca. Depois os pastelinhos de bacalhau que provamos, na sua espessura e combinação, demonstraram que são únicos no mundo. A nossa barriga acalmada, passamos às coisas mais requintadas. Regado por um maravilhoso branco da Quinta Almeida Garrett o Camarão Tigre à Mário que nos serviram lançou-nos para a intemporalidade. Estava soberbo o miolo alvíssimo daquele fruto de mar que cavalgando um canapé de pão de centeio e regado com um molho extraordinário de marisco com mostarda nos transportou para países distantes e exóticos. O zênite não tardou a vir. E isso na figura de um Filet Mignon divino e tenríssimo. Já há mais de vinte anos, (desde que deixei a doce França e a sua cozinha familiar) que não comia uma carne assim deslizante na boca, gostosa como os afectos mais intensos. Servido com um arroz certo de ervilhas, cogumelos, salsa frita, este prato combinado com o tinto da casa ( um formidável tinto simples da quinta Almeida Garrett) fez o nosso peito cantar interiormente. Terminámos a refeição com um extraordinário requeijão com doce de abóbora e cereja. Vindo também da vizinha Beiralact, este requeijão imenso e cremoso feznos soletrar que nunca tínhamos comido igual. Assim se terminava uma refeição de beleza entalhada no melhor dos mundos. Mas o Mário reserva todas as surpresas, é ainda mais que isto. Uma sumptuosa cozinha regional infinita e que nos

bate nas costas. Vejam só. Sopas diferentes e lindas (provem por exemplo a sopa de feijão à Beira Baixa) que são um regalo de harmonia. Tibórnias de bacalhau, Panela no Forno, Arroz de Carqueja, Leitão do Monte com passas de cereja, Cabrito no Churrasco, Cabrito à Padeiro, etc, etc. O Bucho de Porco do Fundão com grelos salteados com batata cozida, o Feijão à Lavrador no Inverno, o Entrecosto na Brasa com feijão manteiga, couve, enchidos e batatas cozidas, a Mãozinha de Vaca com grão de bico, a Feijoada à Transmontano (às segundas-feiras, especialidade para os negociantes do mercado do Fundão, são pratos que levantam a alma Beirã). Mas o milagre d’ Mário. A caça também está presente. Pode-se comer aqui o que não há noutro sitio: perdiz, javali, coelho, lebre. O peixe que aqui se serve é fresquíssimo e

rico: cherne, garoupa, robalo, salmão, polvo, etc. No tempo adequado o sável e a lampreia fazem brilhar a mesa fraternal e sazonal. Com dezoito pratos quotidianos de carne e peixe, mais de quarenta sobremesas onde as papas de carolo, o arroz doce, a tigelada da beira, o celebre requeijão com doce de cereja iluminam o nosso rosto, o Mário tem escolhas dos deuses. E agora vamos aos vinhos, meus amigos, porque o vinho enobrece o humano. Numa carta de vinhos invejável, os regionais de proximidade como a Quinta dos Termos, Almeida Garrett, a Alma da Beira, vinho d’Alcaria, colocam-se sem vergonha ao lado de um Barca Velha, de um Quinta do Vale Meão, de um Quinta do Confradinho, de um Mouchão, de um Esporão, e de vinhos do Dão e de outras zonas demarcadas. É para terminar uma refeição aqui se encontra o surpreendente Bastardinho de Azeitão. Montaigne dizia que “um homem satisfeito vale por dois”. Foi o que sentimos ao sair deste templo único da cozinha da Beira Baixa com quarenta anos. E nem o frio entrou connosco. E antes de abrirmos as portas do carro lembramonos do Mário, o pai fundador já falecido, deste restaurante acolhedor hospitaleiro gerido familiarmente, que começando por uma humilde taberna criou um maravilhoso reino de sabores na nossa fria mas comovente região.


LIVRO

Mapa de Manuel A. Domingos Livrododia Natural de Manteigas, Manuel A. Domingos publicou até ao momento dois livros de poesia: “Entre o Silêncio e o Fogo” (2002), pelo Aquilo Teatro (Guarda), e agora “Mapa” (2008), pela Livrododia (Torres Vedras). Foi colaborador do DNJovem e da revista Rodapé e tem colaboração dispersa em várias revistas. “Talvez a função do geógrafo / não seja cartografar/ mares, ilhas, montanhas, / tentando dar-lhes /um lugar exacto ou / sentido à sua existência. / talvez a verdadeira / função seja amar / esses mares, ilhas, / montanhas, mesmo que / não tenham um lugar / exacto ou a sua existência / um verdadeiro sentido”.

Avenida da Liberdade, Fundão

Preço 12,60 Euros

FUGAS

BLOGOSFERA Uma Casa Portuguesa no coração de Barcelona No coração do Bairro da Gràcia, um dos mais activos pólos de intervenção cultural da capital catalã, há um espaço dedicado exclusivamente à divulgação, promoção e venda da melhor pastelaria, vinhos e um sem-número de iguarias de produção portuguesa. Pedro Ramos e Leonor Pinto saíram da Covilhã para inaugurar esta casa há cerca de três anos. Os mais de 18 mil portugueses inscritos no Consulado fizeramnos abrir este espaço descrito carinhosamente pelos catalães como A Casa. Numa fuga a Barcelona, não deixe de experimentar os pastéis de nata, bolos de arroz e queijadas ou alguns salgados típicos em Portugal como a bola de carne ou as empadas de galinha. Escolha difícil será a dos vinhos, pela criteriosa selecção de tintos, brancos, verdes e espirituosos, entre os quais a ginjinha de Óbidos, servida em copo de chocolate. Doces, azeites, conservas, tudo o que procura para matar as saudades de casa. De Terça a Sexta das 17h às 23h Sábados, Domingos e Feriados das 11h às 15h e das 17h às 23h Segundas – Fechado.

http://cafe-mondego.blogspot.com/ “Café Mondego era um mítico café da cidade da Guarda, espaço de tertúlia, crítica e encontro”. http://omissaoimpossivel.blogspot.com/ Blogue de Pinto Santos, de Alpedrinha, de actualidade e divulgação musical. http://bocadeincendio.blogspot.com Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios. http://fiuza-hahaha.blogspot.com “Meus caros leitores, / neste momento estou a sofrer da patologia das datas marcantes / quando as mudanças parece que ganham um significado muito mais / profundo do que as simples palavras, mudar de, passar de, avançar / para, recuar para, estar em, etc, etc... /o mundo é perigoso / tenho apertos no barriga / não quero dormir / não quero acordar / é o maldito vazio.”


associação 23 publicação trimestral distribuição gratuita 2009 | #5

FUNDÃO | Biblioteca Eugénio de Andrade, Moagem, Papelaria Estudante, Pastelaria Jardim, Verdinho COVILHÃ | Cine Teatro, CMC, UBI, Teatro das Beiras, Biblioteca Municipal, Biblioteca da UBI, Sindicato dos Professores, Museu dos Lanifícios, Plataforma, Longa Metragem, IMB Hotels CASTELO BRANCO | Cine Teatro Avenida, CMCB, Governo Civil, IPJ, Alma Azul, ESAD VILA VELHA DE RODÃO | Biblioteca Municipal, Casa de Artes, Cultura do Tejo GUARDA | Teatro Municipal da Guarda, IPJ, Biblioteca Eduardo Lourenço, Instituto Politécnico da Guarda BELMONTE | Museu Judaico IDANHA-A-NOVA | Centro Cultura Raiano PROENÇA-A-NOVA | CMP, Biblioteca Municipal LISBOA | Centro Cultural de Belém, Falculdade de Letras de Lisboa,Teatro Maria Matos, Teatro Municpal São Luíz, Culturgest, Galeria Zé dos Bois, Fábrica Braço de Prata, Ler Devagar, Cinemateca, TNDM II, Fnac CASCAIS | Bar do Guincho PORTO | Maus Hábitos, Passos Manuel, Serralves, Centro Comercial Bombarda, L de Luz, Plano B, ACE COIMBRA | Teatro Gil Vicente, Associação Académica, ARCA, SOREA, Casa da Cultura VISEU | Teatro Viriato TONDELA | ACERT AVEIRO | Teatro Aveirense BRAGA | Theatro Circo



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