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440 Hz

YAMANDÚ

NAS FRONTEIRAS

AFINADA PARA QUEM GOSTA DE MÚSICA

CAPINAN

POETA TROPICALISTA

NFT

SAIBA O QUE É E COMO FUNCIONA

KATZE DOR E REDENÇÃO


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SUMÁRIO 06 NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS 26 ENTENDENDO A NFT 30 JOSÉ CARLOS CAPINAN o poeta tropicalista 34 YAMANDU COSTA um homem chamado violão 38 JULIANA LINHARES inventora de nordesttes 44 CAPA - KATZE alternativa à dor 48 BULL BRIGADE italianos e punks 50 COLUNA SUSPECT DEVICE 60 IN VENUS vanguarda sonora 62 MVBILL 70 OUVIMOS NA REDAÇÃO REVIEW

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72 O INSTITUTO ENTREVISTA 56 ENCERRAMENTO - ERICO MALAGOLI

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LEGENDA CLIQUE PARA ACESSAR vídeos incorporados à revista CLIQUE PARA ACESSAR o link indicado

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EDITORIAL A MÚSICA ESÁ FICANDO SEM TETO A cultura pede socorro. Se no primeiro momento da crise decorrente da pandemia da COVID-19 os artistas foram a linha de frente dos afetados com a paralização das atividades, agora são os espaços de cultura que pedem ajuda. Os artistas continuam passando dificuldades, porém, na necessidade encontraram outras formas de subsistirem. Muitos venderam instrumentos, outros começaram pequenos negócios que ajudam a pagar as contas (sim, estou falando de quem está fazendo pão para vender) e ainda há aqueles que se concentraram na gravina. A Lei Aldir Blanc movimentou o mercado e socorreu a muitos. Por outro lado, os espaços de cultura que não encerraram as atividades nos primeiros meses da pandemia, esgotaram as alternativas. A oferta de delivery nunca supriu sua demanda financeira, e estes passaram a contar com empréstimos e sacrifícios, muitos deles, aliás, se esforçaram além da conta para manter seus funcionários. Recentemente, algumas casas icônicas de São Paulo anunciaram seu fechamento. O Ó do Borogodó causou comoção - se fechado, a profecia de Vinicius de Moraes estaria mais perto e seríamos o túmulo do samba. Mais uma vez em sua história o Ó foi salvo (anos atrás escapou dos tratores da especulação imobiliária) e agora está se mantendo por meio de financiamento coletivo. O Espaço Cultural Rio Verde e a Casa do Mancha deixarão saudades, o anúncio de encerramento parece ter sido definitivo. Nesse momento, A Casa Francisca corre contra o tempo em uma campanha de financiamento coletivo que está mobilizando artistas e formadores de opinião. No mesmo caminho está o Bona Casa de Música. Estamos diante de um fenômeno em que os “clubes de música” estão precisando se tornar, efetivamente, clubes, com associados. Em um momento em que não sobram recursos a quase ninguém, salvar esses negócios por meio do financiamento coletivo se tornou uma verdadeira cumplicidade contra a supremacia dos filisteus, cujo projeto de destruição do mercado cultural está caminhando a passos largos.

Fernando de Freitas

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Edição 9 - Abril 2021

Diretora de Redação Ana Sniesko Editor-chefe Fernando de Freitas Assistente editorial Ian Sniesko Arte e diagramação Dupla Ideia Design Direção de arte: Camila Duarte Diagramação: Fernando de Freitas Revisão Luis Barbosa Colaboradores Anneliese Kappey, Carolina Vigna, Erico Malagoli, Lucas Vieira, Henrike Baliú Imagem da Capa: Luciano Lagares Estudio Open The Door/ Divulgação A Revista 440Hz é uma publicação da Limone Comunicação Ltda.

Caixa Postal 74439 São Paulo, SP, CEP: 01531-970 contato@revista440hz.com.br


Todas as edições disponíveis em nosso site gratuitamente www.revista440hz.com.br


Fotos: Divulgação Flavio Salgado /

NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

SORORIDADE’N ROLL

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irmes desde março de 2020 nos lançamentos virtuais, a banda carioca Ave Máquina estreou em abril o webclipe da música “Carta pra Amy”, faixa presente em seu primeiro álbum, gravado ao vivo na Showlivre. Além do vídeo, a canção recebeu novo arranjo e conta com participação da cantora Gabi Livon. De autoria da vocalista Kátia Jorgensen, a canção pode ter clima vintage, mas sua letra trata de temas muito atuais: relações tóxicas, abuso, narcisismo e de como mulheres podem criar uma rede de apoio. “Acredito que muitas mulheres vão se identificar com a letra da música, que é baseada em uma história real vivida por mim”, revela a autora. O lançamento tem mixagem do baixista Rafael Monteiro, masterização do guitarrista Yuri Ribas e edição de vídeo feita pelo baterista Fiu. Mesmo sem um encontro presencial, o grupo segue em plena produção.

Cecé Pássaro chega às plataformas digitais com o novo single que tem videoclipe produzido pelo artista Airton Gregório. Com baterias eletrônicas, pianos, sintetizadores e letras provocadoras, as composições de Cecé Pássaro são marcadas por manifestações de forças da natureza, por uma poética não binária e pela evocação do sagrado. A música é produzida por Cecé, Diego Schültz e Dazluz.

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Fotos: Divulgação

MIX DE ESTAMPAS


NA SOLITUDE DE GILBERTO GIL Durante a pandemia, todos tivemos que aprender a ser só, mesmo que ao lado de pessoas queridas. Foi por isso que Laura Zandonadi escolheu a canção “Eu Preciso Aprender a Só Ser” como primeiro single do projeto em que regrava a obra de Gilberto Gil ao lado de Sérgio Chiavazzoli, guitarrista e produtor que por muitos anos acompanhou o cantor baiano. Gravada originalmente em 1974, a canção evoca a introspecção, e Laura revela o motivo da escolha: “eu entendi que a solidão, quando transformada em solitude, nos prepara para um mergulho profundo, e me permiti um encontro comigo mesma”. A gravação foi realizada em formato voz e violão no estúdio de Chiavazzoli e o teste que fizeram foi tão entrosado que se tornou a versão final. Amigos de longa data, Sérgio é presente na obra da cantora desde seu primeiro EP. Também compositora, a artista divide o trabalho autoral com o projeto Laura e Os Casamenteiros, em que apresenta músicas para cerimônias de casamento.

UM ALENTO DE ELZA Os álbuns “Elza Soares”, “Nos Braços do Samba”, “Lição de Vida”, “Pilão + Raça = Elza” e “Grandes Sucessos de Elza Soares”, que estavam fora de catálogo, acabam de entrar para os aplicativos de música graças a gravadora Deck. Originalmente lançados pela Tapecar, em meados dos anos 70, é uma verdadeira joia para os fãs. A coletânea “Grandes Sucessos de Elza Soares” (1978), que incluía o hit “Salve a Mocidade” (Luís Reis), antes era só encontrado em compacto.

ESTRANHOS ROMÂNTICOS EM NOVO CLIPE

A banda carioca Estranhos Românticos lançou o clipe de “Só”, música do segundo álbum do grupo formado por Pedro Serra (bateria), Marcos Müller (guitarra e voz), Mauk (baixo) e Luciano Cian (teclado). Com direção do baterista, o vídeo de imagens bucólicas ilustra a canção que mistura indie tropical, psicodelia e dub com direito a solo do guitarrista e produtor JR Tostoi no final. Lançado em 2020, o disco Só teve recepção bastante positiva da crítica, entrando em diversas listas de melhores do ano em sites especializados.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

MÚSICA POLÍTICA

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KUNUMI MC ANUNCIA NOVO SINGLE

Kunumi MC se prepara para lançar Jaguatá Tenondé, uma música de rezo, como ele denomina. A faixa será disponibilizada, através do selo Let’s Gig pela Altafonte. Cantada em guarani, a faixa composta e produzida por Kunumi traz ele no violão tocando acordes característicos das canções tradicionais da etnia mbyá guarani, e conta com sua companheira, Pará Reté e Maitê Ará da Silva na voz, além de Naara Yakecan na percussão. Rod Krieger adicionou elementos orquestrais e, junto com Jander Antunes, que fez a captação, mix e master do áudio, assina a co-produção da canção. Kunumi é um dos destaques da programação do m-v-freloaded, festival dedicado à arte do vídeo feito para música, em versão online e gratuita.

DEMANDA EM ALTA!

Com a pandemia gerada pela Covid-19, muitos serviços que não são considerados essenciais tiveram que se adaptar com o distanciamento social e buscar alternativas para continuar em operação. A apresentação de artistas em lives e shows em casa virou uma verdadeira febre. Mas para a realização desses shows online, é preciso organizar toda uma estrutura e aparelhagem. E essa mudança de comportamento tem sido identificada em um relatório do GetNinjas, app para contratação de serviços, que registrou um aumento de 26% na demanda por serviços de áudio e vídeo no período.

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Fotos: Divulgação

lém de sua potência sonora, a banda de punk/hardcore Black Pantera vem afirmando seus posicionamentos através das letras de suas músicas e das quais escolhe gravar. O single “Seis Armas” (Deck), que já está disponível nas principais plataformas digitais, foi produzido pelo próprio trio, formado por Charles Gama (guitarra e vocal), Chaene da Gama (baixo e vocal) e Rodrigo Augusto “Pancho” (bateria). A novidade chega acompanhada de um lyric video, dirigido por Pedro Hansen. “A gente compôs ‘Seis Armas’ na época em que o governo decidiu flexibilizar decretos que regulamentam o uso de armas ao mesmo tempo que não comprou todas as vacinas que o país precisava”, diz Chaene. Em cima de uma base instrumental pesada e frenética, eles bradam seu manifesto, cujo refrão é: Seis armas pra mim/ Seis armas pra você/ Vacina pra ninguém.


NOVO ÁLBUM DE DINOSSAUR JR A banda Dinosaur Jr. acaba de lançar seu novo álbum, Sweep It Into Space, via Jagjaguwar. Recentemente, eles apresentaram seu terceiro single/vídeo, “Take It Back”, que seguiu “Garden” e “I Ran Away”. “Take It Back” começa com uma percussão, colocando em mente as explorações de Keith Richards na Jamaica (pelo menos por um tempo), com um mini mellotron digital tocado por J Mascis. O vídeo, dirigido por Callum Scott-Dyson, é feito de animação stop-motion e imagens coladas. Além disso, a banda anunciou seus convidados especiais para o Camp Fuzz II, seu fantasy camp em Big Indian, NY, nos EUA, que acontece de 27 a 30 de julho. Sweep It Into Space foi gravado, como sempre, no Amherst’s Biquiteen. As sessões começaram no final do outono de 2019 e o único músico extra usado dessa vez foi Kurt Vile, que coproduziu o álbum. Depois que a gravação com Kurt foi interrompida, J Mascis assumiu as rédeas do resto da produção. A bateria de Murph conduz o disco como um caminho ao inferno. As canções de Lou aqui são tão elegantes como sempre. J flue e floresce nas diferentes direções que ele costuma seguir.

ESTREIA DE COLOMY Uma das novidades do mercado musical em 2021 é a banda Colomy, projetada através do ímpeto criativo de três jovens músicos. Os gaúchos Pedro Lipatin (guitarra, synth e vocal) e Eduardo Schuler (bateria e backing vocal), chegaram em São Paulo com a banda Dóris Encrenqueira e então conheceram Sebastião Reis (violão e vocal), que atualmente integra a banda de seu pai, Nando Reis. Começaram a tocar juntos e, entre janeiro e fevereiro de 2020, Pedro e Sebastião compuseram “Sendo Como Sou”. “Essa canção foi escrita numa tarde e foi o ponto de partida para levarmos a ideia a sério e fazer desses frutos musicais o combustível das nossas vidas”, comenta Pedro Lipa. A faixa já está disponível em todos os aplicativos de música, pela gravadora Deck, e seu clipe já pode ser assistido no canal da banda no YouTube.

Saiba mais em: https://bit.ly/3tQfAAa

UM CORDEL DE LENINE A artista plástica e comunicadora da cultura popular brasileira Mari Salmonson foi convidada pelo Coral da USP para ilustrar a história contada na famosa música “Lavadeira do Rio”. A composição de Lenine faz parte do repertório do CORALUSP 12 Em Ponto, que possui um programa de compositores nordestinos de várias épocas e estilos. Como alterativa para as apresentações, os corais vêm enfrentando grandes desafios e uma das formas encontradas foram as plataformas digitais. Desde o início da pandemia, o Coral da USP, comandado pelo regente Eduardo Fernandes, vem oferecendo programas digitais e conteúdos em seus canais nas redes. O clipe é o primeiro, lançado pelo Coral, que mesclará a arte visual com a poesia da música.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS A ZapMusic, primeira plataforma de streaming por assinatura voltada para os profissionais e fãs do violão do Brasil, acaba de chegar. Em seu catálogo, documentários sobre grandes violonistas brasileiros, webséries diversas que vão desde ritmos brasileiros, mercado de trabalho, violão pelo Brasil, entre outros. Autoridades da área farão participações e produzirão conteúdo para o streaming. Além do conteúdo online, que será disponibilizado semanalmente, os inscritos poderão fazer parte de um clube de vantagens, com a oportunidade de utilizá-lo para assistirem a eventos e workshops exclusivos. A plataforma ainda oferecerá ofertas em produtos musicais, encordoamentos e demais acessórios. O valor mensal da assinatura será de R$ 59,90.

UM EP MUITO

ESPERADO A

cantora e compositora Rachel Reis acaba de lançar o EP ‘Encosta’, em parceria com Zamba e Cuper, o projeto que deu o pontapé com o single ‘Saudade’ e agora apresenta mais 3 faixas inéditas, com o intuito de homenagear a Bahia através dos ritmos. Disponível nas principais plataformas digitais, o projeto também contará com visualizers que serão lançados no canal do YouTube de Rachel. O produtor musical Zamba traz uma bagagem de estudo na área instrumental com os ritmos eletrônicos, trap, pagotrap e estava num momento onde queria combinar texturas e contextos enquanto estava em isolamento social, quando pensou em se juntar com Cuper que é um guitarrista influenciado pela música caribenha e da américa do sul, e Rachel que carrega consigo influências bem regionais com um tom adocicado. “Esse trabalho foi e está sendo muito especial de fazer, a sintonia rolou muito fácil, foi um espaço de troca, escuta e cuidado. O processo tem sido importante para mim nesse período de pandemia, me jogar no EP foi uma forma de escape”, destaca Rachel.

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SUPERCOMBO É OLGA

A Olga Music, selo brasileiro criado pela Agência Olga em parceria a ADA, braço de distribuição digital da Warner Music Group, acaba de assinar com a Supercombo, banda capixaba de rock que já se apresentou em importantes eventos nacionais como Lollapalooza e Planeta Atlântida. Em novembro de 2019 o Supercombo realizou um show histórico, um festival próprio, com 5 horas de apresentação. O registro inédito do evento, que celebrou os 5 anos do disco “Amianto” com os grandes sucessos da banda, será lançado em DVD e em todas as plataformas de streaming, via Olga Music, em agosto. É esperar pra ver!

Fotos: Divulgação

Fotos: Lucas Raion / Divulgação

STREAMING PARA VIOLÃO


PODER DE YZALÚ A cantora e rapper Yzalú é a protagonista do videoclipe da música ‘Qual teu sonho’. O vídeo foi um pedido da Hershey, como parte de uma ação especial para o Dia Internacional da Mulher. E para dar vida à composição, de autoria da própria Yzalú, o clipe presta uma homenagem e ressignifica diversas simbologias femininas sob a perspectiva dela e de outras artistas. Além disso, joga luz sobre o sonho e a luta constante de inúmeras mulheres em viverem de sua arte, enfrentando todas as adversidades. Com batida dançante e estilo urbano o videoclipe destaca oito artistas, de diferentes expressões, com objetivo de dar voz e espaço para que elas possam mostrar sua arte. Com direção de Hanna Batista e André Inácioa equipe de produção contou com quadro quase 100% feminino.

SUBMARINO AMARELO ESPANHOL

O Villarreal Club de Fútbol, um dos clubes mais famosos e históricos da LaLiga Santander, está prestes a completar um século de vida. No próximo dia 10 de março, quarta-feira, parte da Comunidade Valenciana celebrará o aniversário de 98 anos do chamado ‘Submarino Amarelo’. Para entender a razão do apelido, é preciso voltar aos anos 1970 - quando o clube se encontrava em seu pior momento no futebol espanhol. Quando o Villarreal disputava a segunda divisão nacional, pouco depois de chegar ao último nível durante os anos 1930, bem no período da Guerra Civil Espanhola. Foi quando, enfim, o clube garantiu sua promoção e viu sua torcida celebrar este feito com uma canção bastante famosa da banda de maior sucesso do mundo na época: The Beatles. A cidade de Villarreal celebrou, então, o acontecimento com uma explosão de alegria e uma festa que teve como trilha sonora o hit do momento: ‘Yellow Submarine’.

AEROPLANO À VENDA

O disco Delírios Líricos acaba de ganhar versão em LP 180g com capa Gatefold. Lançado digitalmente e em CD no mês de maio de 2020. O álbum foi indicado como um dos melhores do ano pela APCA (Associação Paulista de Críticas de Arte) em 2020, também apareceu em diversas listas de melhores do ano em publicações especializadas em música. Delírios Líricos foi gravado no fim de 2019 no Estúdio Minduca com produção e arranjos coletivos por Tatá Aeroplano, Dustan Gallas, Junior Boca, Bruno Buarque e Lenis Rino e contou com participações de Bárbara Eugenia, Malu Maria, Biba Graeff e Beto Lanterna. A versão LP de “Delírios Líricos” conta com 8 faixas. A versão da canção “Ressurreições”, parceria de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, será lançada futuramente em compacto sete polegadas. À venda no site do Tatá Aeroplano.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

UMA ODE AMAZÔNICA

LUZ RIBEIRO CAMPEÃ

DO SLAM BR

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om palavras ácidas e rimas fortes, que falam sobre a força (e o sofrimento) da mulher na atual situação do país, Luz Ribeiro conquistou o troféu da edição especial do SLAM BR Especial On-line - Campeonato Brasileiro de Poesia Falada, que este ano aconteceu de maneira totalmente virtual. A slammer venceu depois de uma rodada de desempate com Lucas Afonso, recebendo 10 de todos os jurades. “Essa conquista pra mim é muito importante, principalmente no âmbito dos afetos. Se você ver, entre os dez participantes, a quantidade de homens e mulheres pretos, uma mulher trans… Isso é muito afetivo, ao mesmo tempo que são portas sendo abertas. Eu penso que eu ter ganhado em 2016 tenha sido uma fenda para outras mulheres adentrarem o espaço”, fala Luz. Assim como nos saraus mais tradicionais, a ideia do formato poetry slam é democratizar a poesia. Como temas, as batalhas trazem coisas do cotidiano, como a homofobia, o racismo, o machismo, preconceito, a violência, entre outros temas. O slam chegou ao Brasil pelas mãos de Roberta Estrela D’Alva - diretora, idealizadora e apresentadora do projeto -, e foi encampado pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos.

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Com inspiração na lenda e com a música “Flor de Mururé”, o grupo paraense Carimbó Cobra Venenosa lança seu primeiro videoclipe, em formato de curta-metragem, dirigido por Marcos Corrêa e Priscila Duque. A obra é uma ode à beleza, às encantarias e ao poder feminino amazônico. A produção, realizada pela Psica Produções, reuniu uma equipe majoritariamente feminina, LGBTQIA+, preta e periférica. “O mais valioso no processo do clipe é a questão da periferia como potência. É a reunião de pessoas de diferentes idades e gêneros na equipe e no elenco. Foi uma escolha política ter pessoas desse universo, ninguém foi levado para gravar em Icoaraci e Outeiro”, explica o codiretor Marcos Corrêa. Fotos: Coagula Divulgação Ju Matemba /

Fotos: Cvic sales /divulgação

Um menino, que saiu vestido de menina, foi agredido e teve seu corpo jogado nas águas dos rios da Amazônia. Ao emergir, voltou em forma da flor de mururé, uma planta aquática com características femininas e masculinas, de origem amazônica, muito comum na região do Afuá (Ilha do Marajó - PA). Essa é a lenda da “Flor de Mururé”, repassada de forma oral pelas antepassadas de Naraguassu Pureza da Costa (54 anos), uma figura lendária do Afuá, que manteve viva a tradição ancestral da pajelança amazônica.


O Selo Sesc, lança mais um single do disco que articula música e poesia do filósofo, compositor e pianista. Em “O solfejo de nossas filhas”, disponível nas principais plataformas de música, Vladimir Safatle (piano e voz) tem a companhia de Valentina Ghiorzi Safatle (voz). O Sesc Digital também oferece o conteúdo de graça e sem necessidade de cadastro. . Sobre “O solfejo de nossas filhas”, o professor da Universidade de São Paulo (USP) destaca que “a transmissão é uma forma de surpresa. Quando menos se espera, algo que te parecia profundamente íntimo, o vínculo a uma frase musical, aparece na voz de outro, em uma migração que te faz lembrar que, afinal, a frase não te era íntima. Há o tempo imóvel do que não de hoje, nem de ontem, mas do que ninguém sabe como surgiram”. Traz músicas instrumentais próprias sob estruturas variadas, com piano, voz, instrumentos de cordas, sopro e percussão, interligadas com trechos de obras conhecidas, com o uso de textos autorais e fragmentos de poemas de autores consagrados.

A multi-instrumentista, cantora e compositora pernambucana Lara Klaus traz ao mundo o single Poeira Estelar, com a participação de sua conterrânea Flaira Ferro. A faixa é um lançamento em parceria com o selo americano Six Degrees Records.A canção taambém ganhou um lyric video dirigido por Lara. Poeira Estelar é um novo capítulo na carreira solo da artista, que se iniciou em 2018 com o lançamento do álbum Força do Gesto. Ela também é membro fundadora do LADAMA, uma reunião de quatro mulheres de pontos diferentes do continente americano. Lara conta que escreveu letra e música antes da pandemia de Covid-19, e a faixa foi produzida de forma colaborativa durante de 2020. “Poeira Estelar é uma resposta a todos os sistemas que oprimem nossa criatividade, nossa essência, nossa liberdade. É, também, resistência ao governo atual, que rejeita tudo que eu sou: mulher, artista, educadora, lésbica. Enquanto eles defendem armas de fogos e agem com intolerância, eu lanço ataques em formas de nuvens e atiro dardos em forma de estrelas - as minhas armas são o amor, a arte, a empatia, a colaboração. E resisto, resisto sempre”, enfatiza.

Fotos: Patrícia Soransso Divulgação

SAFATLE EM TEMPO TÁTIL

LARA KLAUS E SUA CANÇÃO MANIFESTO

ÈKÓ E SEUS INIMIGOS

A banda paulista Èkó Afrobeat acaba de estrear o clipe e o single “Enemy”, uma nova versão da faixa que encerra o álbum Èkó Afrobeat. O vídeo foi dirigido pela cineasta Marina Decourt. “Esta música representa a tentativa do Èkó de fazer um afrobeat “clássico”. Enquanto as outras músicas do primeiro disco da banda investem na mistura do afrobeat com a música brasileira, Enemy vai por um caminho diferente, privilegiando o gênero nigeriano. Os ritmos, a harmonia, as frases dos sopros, a temática política e a estrutura da letra (com coros em pergunta e resposta) são oriundos do afrobeat”, conta Igor Brasil, guitarrista da banda e um dos autores da música. A canção foi composta inicialmente como um tema instrumental, por Igor Brasil, inspirada na música “Water No Get Enemy”, de Fela Kuti. A letra (composta em 2015) faz uma critica a forma com que os debates, em especial o debate político, se dão no meio virtual, e de certa forma, antevia o processo de radicalização que vivemos.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

ALCEU EM DOSE TRIPLA E

m quarentena por quase um ano, Alceu Valença aproveitou o momento introspectivo para tocar violão em casa como nunca tinha feito antes. A partir disso (e de algumas lives intimistas realizadas no período), elaborou um repertório com cerca de trinta músicas, entre sucessos, tesouros escondidos e músicas inéditas. Com as canções selecionadas e cumprindo todos os protocolos de proteção, entrou no Estúdio Tambor (Rio de Janeiro), com o produtor Rafael Ramos, para registrá-las. O resultado são três álbuns - com um quarto a caminho -, em que o cantor de 74 anos ressurge em sua essência: voz, violão e composições. O primeiro deles, “Sem Pensar no Amanhã”, já está nas plataformas digitais. “Sem Pensar no Amanhã” é um samba inédito da nova safra de composições de Alceu. Neste primeiro lançamento, o artista também recria temas como “La Belle de Jour”, “Táxi Lunar”, “Ciranda da Rosa Vermelha”, “Estação da Luz” e “Marim dos Caetés”, entre outras.

A Tuyo sempre soube da importância que é, para as bandas, tocar em um evento como o SXSW. Devido à pandemia, o grupo paranaense formado por Lio Soares, Lay Soares e Machado não pode viajar até o Texas, nos Estados Unidos, para participar do badalado festival, então a participação do trio se deu de forma virtual. A apresentação, que aconteceu no dia 18 de março, foi apontada pelo jornal The New York Times como um dos melhores do SXSW. A escolha foi feita pelo renomado crítico musical Jon Pareles. “Os integrantes dividem vocais harmônicos em canções que mesclam indie rock com eletrônico e tendências rítmicas brasileiras”, afirmou Jon Pareles. Ele ainda fez menção à performance de “Sem Mentir”, faixa que integra o próximo disco da Tuyo, intitulado Chegamos Sozinhos em Casa, com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2021.

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Fotos: Divulgação

MESMO DE LONGE, SHOW DE TUYO É DESTAQUE NO THE NEW YORK TIMES


AMAZON AGORA VENDE VIOLÃO

Saiba mais em: www.amazon.com.br

GAROTAS SUECAS O ano era 2010 e o então sexteto começava sua quinta turnê pelos Estados Unidos para lançar seu primeiro LP, “Escaldante Banda”, depois de três EPs. Em 40 dias, guiando a própria van, eles percorreram o país fazendo shows em inferninhos e grandes festivais, passando por 24 cidades diferentes. Um verdadeiro sonho para todo artista independente. Para comemorar 10 anos de seu primeiro lançamento, eles decidiram compartilhar a memória do seu HD com o público, que resultou no clipe com a direção de Leonardo Montico e Rafael Aflalo. Nele, as presenças de Sessa e Sal, já desligados da banda e presentes na memória afetiva da banda. Em sua formação atual, com Irina (voz e teclados), Fernando Perdido (voz e baixo), Nico Paoliello (voz e bateria) e Tomaz Paoliello (voz e guitarra), o Garotas Suecas se prepara para lançar seu quarto disco, previsto para ser lançado ainda este ano.

NASCIDA NO ISOLAMENTO

O quarteto instrumental Os Barbapapas acaba de lançar seu disco DooWooDooWoo. O álbum foi produzido a partir da provocação do selo berlinense Fun In The Church, que conheceu a banda na web, gostou e propôs o lançamento de um disco de vinil. O grupo, que já havia composto 3 músicas inéditas e curtas, pensadas para o consumo digital, se viu no novo desafio de fazer um álbum. A partir daí, um repertório começou a ser construído em volta das canções e o álbum foi ganhando também faixas mais longas, mas seguindo certa toada das faixas curtas, para serem ouvidas sequencialmente. O grupo nos carrega, ao longo de DooWooDooWoo, a uma estação espacial não tripulada, onde agulhas instrumentais perfuram a membrana de nosso horizonte planetário, proporcionando uma visão holística de toda a experiência psicodélica de nosso planeta.

Fotos: Patrícia Soransso Divulgação

Afinada com seus consumidores, a Amazon. com.br anuncia uma novidade para os músicos e amantes de instrumentos: o lançamento da categoria de Instrumentos Musicais no Brasil. A partir de agora, estão disponíveis mais de 60 mil itens para os aficionados por música, a loja conta com uma variedade que vai desde instrumentos de cordas, como violão, guitarras, baixo e ukulele, até flautas, instrumentos de percussão, como bateria e cajón, além de teclados, caixas de som, amplificadores, microfones, mesas de som, itens de DJ e acessórios em geral. Para celebrar, a loja oferece produtos com descontos até 20%.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

FROES, ALARCON

E MULLER

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FAVORITE DEALER NA MIRANTE AMPLIFY

A Favourite Dealer, de Curitiba-PR, é fruto da fusão entre o protopunk e o Stoner, trazendo para a cena paranaense um som sinuoso, cheio de riffs e carregado de distorção e sujeira. Adeptos do DIY, a Mirante incendia a cena underground de Curitiba com uma nova proposta para as Livesessions, apostando em apresentações temáticas, sintetizando a identidade da banda no visual nos backgrounds e da edição.

Fotos: Coagula Divulgação

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encontro de três diferentes vozes da Nova MPB acontece no projeto inédito do selo Taquetá, com a capixaba Ana Muller, a goiana Mariana Froes e o paulista Rodrigo Alarcon. O primeiro single do “Taquetá Vol.1” é intitulado “Carta que Não Diz”. A faixa foi a primeira composição antes do projeto tomar forma, escrita por Müller e Alarcon, de maneira despretensiosa, que abre com a voz de Mariana Froes. A produtora musical Niela Moura, uma das idealizadoras do projeto que também colaborou na composição da faixa, conta que a canção surgiu de um dia exaustivo de gravações, mas que motivou os artistas a produzirem mais. “Quando definimos que ‘Carta que Não Diz’ entraria para o repertório e abriria a série de lançamentos, nós não tivemos dúvida que a voz que abriria essa experiência sonora tinha que ser dela, e foi uma escolha muito feliz”, comenta. O projeto “Taquetá Vol. 1” será contemplado em um EP, lançado em breve, com cinco faixas que selam a parceria da empresa com os três artistas. A união das três vozes já conhecidas pelo público da geração atual marca um resgate da MPB dos anos 50 e 60, demonstrando a versatilidade dos artistas que, apesar de beberem dessas referências, nunca haviam lançado algo parecido. “Carta que Não Diz” já está disponível em todas as plataformas.


BRITNEY AJUDA

A cantora Mauren McGee está com single novo nas plataformas digitais. É Howling To The Moon, num emocionante feat com a norte-americana Lovetta. O single, que fala sobre o poder da mulher de renascer das cinzas e se reinventar em uma conexão selvagem e mágica com a natureza, sai via Canil Records. Mauren escreveu a letra em Nova Iorque (EUA), após uma extensa turnê, que a cantora define como um ‘divisor de águas’, entre altos e baixos da vida. “É sobre se recompor, renascer das cinzas após o fim de alguma coisa. É sobre o luto, sobre a sombra que às vezes vivemos para curar”.

Fotos:so Divulgação

DIVISOR DE ÁGUAS DE MAUREN MCGEE

Britney Spears sempre foi um fenômeno mundial da música pop, e isso não é diferente no Brasil. Seguindo o movimento mundial #FreeBritney, os fãs tupiniquins da diva do pop também sempre se manifestaram a favor dela, e os fãs de Brit tornaram isso um hit até no Tinder, o app mais popular do mundo para conhecer novas pessoas. As menções ao nome Britney Spears sempre foram altas no Tinder entre os membros do Brasil, mas esse número é ainda maior entre um público surpreendente: a geração Z - jovens entre 18 e 25 anos, que não testemunharam a ascensão da princesinha do pop. Eles usam o termo Britney Spear 2x mais do que os millennials, chegando ao pico de 3x mais em janeiro desse ano, data em que o documentário sobre a vida dela virou tópico nas redes sociais. O termo é usado em bios como forma de manifestação e posicionamento em favor da cantora, algo como “Mora em São Paulo e sou #FreeBrtiney”.

UMA HISTÓRIA CONTADA “THIS IS CANOAS, NOT POA!”, de Wender Zanon, é um documentário com um relato sobre música, construção coletiva, amizade, underground, cultura e a importância da manutenção de espaços para arte. São 60 entrevistados que relatam algumas das principais atividades do rock underground nos últimos 40 anos da cidade de Canoas. Mesmo com perspectivas diferentes, essas pessoas nutrem um amor em comum pela música.

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Fotos: Jão vicente

NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

AMARO DEPOIS DO AMOR

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epois de participar do EP “Amor”, de Milton Nascimento e Criolo, o pianista pernambucano Amaro Freitas, considerado uma das melhores revelações do jazz brasileiro contemporâneo por fazer a revolução na ponta dos dedos pela fusão do gênero com ritmos tradicionais pernambucanos, lança, em junho, seu terceiro trabalho, Sankofa. O álbum, que tem patrocínio de Natura Musical, realização da 78 Rotações Produções e sairá também no exterior pela inglesa Far Out Recordings, é uma busca espiritual por histórias esquecidas, filosofias antigas e figuras inspiradoras do Brasil negro. Sankofa é um símbolo Adinkra - conjunto de símbolos ideográficos dos povos acã, da África Ocidental -, que representa um pássaro com a cabeça voltada para trás. Quando se deparou com ele em uma bata à venda em uma feira africana no Harlem, Nova York - bairro que historicamente foi palco de grandes pianistas do jazz como Thelonius Monk e Art Tatum -, compreendeu a importância do seu significado e fez dele o conceito fundamental para o seu novo álbum. “O símbolo do pássaro místico, que voa de cabeça para trás, nos ensina a possibilidade de voltar às raízes, para realizarmos nosso potencial de avançar”, comenta. O primeiro single, Baquaqua, destaca a história raramente contada do africano Mahommah Gardo Baquaqua, que foi trazido para o Brasil como escravo, mas fugiu para Nova York em 1847, onde aprendeu a ler e escrever. Sua autobiografia foi publicada pelo abolicionista americano Samuel Moore e hoje é o único documento conhecido sobre o comércio de escravos escrito por um ex-escravo brasileiro.

Novo single da banda Sandália de Prata, que aborda a necessidade de leveza em tempos tão pesados. Composição da vocalista Uli em parceria com Lino Krizz. Gravado inteiramente de forma remota, com produção musical de Uli, Everson Gama e Dado Tristão, com arranjos para harpa, metais e cordas por João Lenhari. A principal inspiração musical deste single é o músico norte americano, mestre da soul music, Curtis Mayfield. “Não é utopia e sim a necessidade de olhar além das próprias dores e desafios. Manter a coragem pra criar e levar adiante o que viemos fazer neste universo. Tempo leve veio como um pulsar de esperança em meio aos medos que eu estava sentindo”, conta Uli.

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Fotos: Divulgação

MIX DE ESTAMPAS


INÉDITA DE PAULO LEMINSKI Energia Solar”, versão da cantora, compositora e instrumentista curitibana Bruna Lucchesi, da composição inédita do grande poeta, romancista, tradutor, compositor, biógrafo e ensaísta Paulo Leminski, conterrâneo de Bruna. A escolha da faixa aconteceu quando Bruna ganhou o Songbook do Paulo Leminski de presente de aniversário da Estrela Leminski e do Téo Ruiz, viu Energia Solar e não encontrou nenhuma gravação disponível na web, decidiu fazer sua versão e mostrá-la à Estrela. “Um ano depois, em agosto de 2019, Estrela me ligou me convidando para tocar a mesma canção na edição comemorativa do Sofar Sounds Curitiba pelos 75 anos do Leminski. Eu abri o show, que era um grande encontro dos amigos e parceiros do poeta, cantando e tocando esta canção”, conta Bruna. Alguns meses depois gravou “Energia Solar” em um vídeo da websérie Estufa Sessions no YouTube, e após o lançamento, o produtor Ivan Gomes viu e a incentivou a gravar o tema e lançá-lo como single.

GANHANDO O MUNDO Bruno Soares Amaral é um jovem negro, nascido e criado na vila Bom Jesus, periferia de Porto Alegre. Aos 24 anos de idade é cantor, compositor, educador social e professor de percussão. Sua história com a música começa nas aulas do ensino fundamental, se desenvolvendo no grupo de rap Geração Grio, e se aprimorando com a poesia nas diversas batalhas de Slam que participou e organizou. Ele acaba de lançar seu primeiro single como cantautor independente: “Manual de Sobrevivência”, além de um clipe dirigido e produzido por Luis Ferreirah e filmado na vila Bom Jesus.

HERZEGOVINA

A banda carioca Herzegovina lança o clipe “In Danger”, faixa do recém lançado vinil Emergency (Mandinga Records). O lançamento acontece pela Plainsong, uma nova plataforma destinada à difusão de bandas pós-punk. O som do Herzegovina pode ser definido principalmente como Pós Punk. Suas principais influências são Joy Division, Television, Gang of Four e algumas bandas brasileiras dos anos 80 como Mercenárias e Voluntários da Pátria, entre outras. “A banda tem a preocupação de não ficar presa ao passado e soma a todas essas referências uma sonoridade original e atual o que distingue o som do Herzegovina de um mero revival dos anos 80”, explica Rafael Crespo.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

Imenso Verão é uma resposta mansa e debochada a alguém que quer muito o perdão, mas não faz nada por ele. Para contrapor o tom da letra, eu queria que a estética da música mirasse no refinamento. E a visão elegante do Leo e a coleção dele de instrumentos de diferentes décadas foram perfeitos para isso. Eu estou tocando uma guitarra rara japonesa Teisco, da década de 60, e ele, todos os outros instrumentos, como o Wurlitzer, Mellotrons, Auto-Harp, o teclado Yamanha PS20 do começo dos anos 80. Essa mistura, esse baixo que ele criou, o coro, o beat, levaram a música para uma década não-identificada e eu amo esse resultado.”, diz Isabel Lenza.

BIG BAND DE MULHERES Após cinco anos de sua formação, a Jazzmin’s, primeira big band formada somente por instrumentistas mulheres no Brasil, apresenta Quando Eu Te Vejo, o disco de estreia. Com esperáculos transmitidos pelo youtube durante o mês de maio, a banda coloca seu álbum no mundo. O grupo reúne artistas vindas do universo popular e erudito, que combinam seus conhecimentos numa nova e refinada experiência timbrística. Criada em 2016, a Jazzmin’s se diferencia das big bands tradicionais por ter uma formação particular, resultando numa sonoridade singular. O som característico das madeiras como a flauta, o clarinete e o clarone, da trompa e até mesmo do vibrafone amplia, diferencia e proporciona ao grupo arranjos únicos. A big band é formada pelas instrumentistas Marta Ozzetti (flautas), Lais Francischinelli, (clarinete), Fabrícia Medeiros (clarinete, clarone), Paula Valente, Bia Pacheco, Mayara Almeida e Tais Cavalcanti (saxofones), Isabelle Menegasse (trompa), Grazi Pizani e Estefane Santos (trompetes), Cindy Borgani e Sheila Batista (trombones), Carol Oliveira (vibrafone/percussão), Lis de Carvalho (piano), Re Montanari (guitarra), Gê Cortes (baixo) e Priscila Brigante (bateria).

FORNINHO’S BROKEN SHOWER

F.B.S é a primeira música lançada por Kermit Machin, que nasceu após ouvir o novo álbum do Vinyl Williams, “Azure. Após três anos, com muitas gravações, alterou a letra da música, fez muitas camadas de instrumento e chamou dois amigos para trazerem novos “sabores” para o som (Marina Marchi - Voz & Thiago Leal - Baixo e Synths). “Lanço essa música agora tendo o apoio do meu selo Alcalina. A música bebe de influências de bandas malucas como Morgan Delt ,Vinyl Williams e Tame Impala”, comenta.

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Fotos: Divulgação

ISABEL LENZA IMENSO VERÃO


BEL_MEDULA TEM NOVIDADES Depois de Os Ouvidos Têm Parede, Bel_Medula lança o segundo single de Semente, terceiro álbum do projeto de Isabel Nogueira, que será divulgado em Junho. Dona Quixota é o nome da faixa que, assim como o primeiro lançamento, também ganhou clipe com direção do músico e artista visual Rieg Rodig assista aqui. Isabel conta que a música nasceu dentro do avião, quando retornava de uma feira de música: “compus a letra e a melodia de uma vez só, depois de ter visto shows de mulheres incríveis. Fiz a música pensando na desigualdade de gênero que insiste em se manter presente neste universo”, lembra. Claramente, a letra se remete às pressões que as mulheres sofrem para se enquadrarem em modelos pré-estabelecidos pela sociedade, “e convida para pensar que podemos ter escolhas, mesmo que às vezes pareça que não”, completa.

OUÇA JOÃO PEDRO BONFÁ No #33 do The Quarantine Experience, projeto idealizado na quarentena pelo cineasta brasileiro Raul Machado, lança “Onça Power”, clipe de João Pedro Bonfá com participação de seu pai Marcelo Bonfá, George Israel e Eliza Matta. “O clipe retrata bem a realidade que estou vivendo depois de ter me mudado para o interior. Inclusive foi lá que gravei o novo disco todo. A música me lembra um the clash meio caribenho”, conta Pedro. JP Bonfá, guitarrista, cantor e compositor, nascido no Rio de Janeiro, . Hoje se dedica ao seu trabalho solo de música autoral. Seu segundo disco está previsto para este ano.

SCALENE AO VIVO

Para amenizar um pouco a saudade do “velho normal”, a banda Scalene disponibilizou em seu canal no YouTube quatro vídeos de uma apresentação realizada pelo grupo em fevereiro de 2020, em São Paulo. “Em fevereiro do ano passado fizemos uma sequência de shows no SESC 24 de Maio que renderam um registro muito bonito do que seria a turnê do ‘Respiro’”, contam. Gravados durante a última apresentação ao vivo da Scalene no cenário pré-pandemia, o material audiovisual corresponde às faixas “phi”, “Silêncio”, “Percevejo’’ e “Ciclo Senil”, que preservam seu formato original, sem edições de áudio e regravações.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

O MIX EXÔTICO DE

PERSIE

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ma explosão carnal e sentimental. Nada resumiria melhor o novo single de Persie. “Caroço Coração” mistura o balanço do brega à profundidade do dream pop. Na letra, a cantora aborda o âmbito sensorial das paixões. A faixa chega nas plataformas de streaming pelo selo Maxilar, que é capitaneado por Gabriel Thomaz (Autoramas) e Henrique Roncoletta (NDK). A faixa foi produzida de forma remota, contando com a colaboração dos músicos Dreg Araújo (baixo), Chris Kuntz (guitarra), Dio Costa (bateria eletrônica) e Carlos Tupy (guitarra fuzz/reverse, sintetizadores e mixagem). A masterização ficou a cargo de Igor Guimarães. “Escolhi este título porque sempre imaginei que o coração era o caroço do corpo. E isso está instintivamente ligado aos nossos desejos mais profundos. O caroço gera o fruto proibido que tanto queremos experenciar. E isso também é exibido no videoclipe. Compus essa música me inspirando principalmente na cantora Diana e nas bandas Beach House e Cocteau Twins”, conta.

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Para Warpaint, o aclamado quarteto de Los Angeles,a pandemia significou encontrar o caminho de volta uma para a outra. Desde o venerado terceiro álbum “Head’s Up” de 2016, a banda estava em suas próprias jornadas singulares e, assim que se juntaram para trabalhar em um novo álbum, 2020 as mandou para confins opostos do globo. Apesar disso, Warpaint acaba de lançar ‘Lilys’, sua primeira música recém-escrita em cinco anos e um lembrete de porque a banda esteve na vanguarda da música alternativa feminina por uma década. “Esta faixa começou como um experimento. Estávamos brincando com sons de sintetizador e tentando algo textural e quase atonal às vezes. Não tinha a intenção de chegar às nossas sessões de álbum. Mas depois de alguma mineração e edição, tornouse uma base muito boa para uma melodia. É uma daquelas coisas que simplesmente flui sem pensar muito. É tão doce quando isso acontece!”, contam. Produzida e mixada junto com Sam Petts-Davies), ‘Lilys’ foi recentemente tocada na nova série da HBO Made For Love, e captura a essência da banda reunida novamente e reconectada, mais pronta do que nunca para sua nova fase, no mundo pós pandêmico.

Fotos: Coagula Divulgação Ju Matemba /

Fotos: Cvic sales /divulgação

A VOLTA DE WARPAINT


Rota de Fuga, novo single do duo paulistano A Balsa chega às plataformas digitais em 21/05 e conta com a participação da cantora, compositora e atriz Antônia Morais. Um indie pop dançante com clima espacial, a música em dueto, fala sobre um sentimento universal e atual: o de querer compartilhar a solidão. Faixa principal de uma sequência de 3 lançamentos, Rota de Fuga conta com clipe com cenas lindas, todo captado em Londres pelo diretor Fabrício Rodrigues, o mesmo que dirigiu clipe de Veraneio Temporal. lançado em 2020 pelo duo. A Balsa é formada por Fil, vocalista e compositor, e Bari, instrumentista e produtor, apresenta um som próprio que explora melodias cheias de referências brasileiras, com um instrumental indie e atmosfera dreampop.

Formado em 2014 na cidade de Francisco Morato, região metropolitana de São Paulo, o Fibonattis surgiu na cena punk rock nacional sem pretensões e conquistou o público com letras que revelam o cotidiano simples de seus integrantes. “Desde quando montamos a banda, fizemos um ‘pacto’ com nós mesmos, de que abordaríamos temas que condiziam com a nossa realidade, com o máximo de verdade nas letras. Nossas vivências foram transformadas em melodias, e quem ouve Fibonattis, automaticamente conhece a nossa história”, conta o vocalista e guitarrista Júnior. O álbum homônimo, que marcou a estreia da banda em 2016, acaba de ganhar um lançamento especial em LP pela Neves Records. “Fibonattis” é o sexto título lançado pela gravadora paulista em vinil neste ano.

Fotos: Patrícia Soransso Divulgação

A BALSA E ANTONIA MORAIS ENTRAM EM ÓRBITA

DA LESTE PARA O MUNDO

DEBUTE DE DIZIN

O paulista Dizin apresenta ao mundo seu álbum de estreia, intitulado The Time Has Come, depois de uma série de três singles. Com produção de Martin Mendonça, músico e um dos principais parceiros de Pitty, e com a banda formada por ótimos instrumentistas como Dudinha do Estúdio Buena Família, onde o disco foi gravado, que já tocou com Gal Costa, Seu Jorge e Criolo, Gui Almeida (Pitty) e Paulo Kishimoto (Pitty, Forgotten Boys e Riviera Gaz). Dizin é o apelido de João Diniz Lira, que agora tem 18 anos e, apesar da pouca idade, um vasto repertório musical. Seu pai é o compositor e poeta Lirinha, que esteve à frente do Cordel do Fogo Encantado. Sobre o álbum, “cada faixa é um mergulho em um mundo diferente, mas de alguma forma todas ainda parecem fazer parte do mesmo universo, e eu não poderia estar mais satisfeito com o resultado”, diz.

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Fotos: Jão vicente

NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

O SORRISO DE BNEGÃO

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á 15 anos chegava às lojas independentes de todo o país “Brasil Riddims”, o primeiro disco dedicado à cultura dos riddims (“rythms”, dito na linguagem do patuá jamaicano) lançado no país, sob o comando do primeiro sound system do Rio de Janeiro, o Digitaldubs. Neste álbum, um dos principais destaques foi a versão do clássico “Sorriso Aberto”, autoria de Guará, imortalizado por Jovelina Pérola Negra, cantada por BNegão em cima do instrumental batizado “Curimba Riddim”, uma base singular, que trouxe uma alquimia única. “Sempre achei essa base revolucionária, muito à frente do tempo. E foi justamente isso que me fez querer relançá-la justamente agora, no momento em que inicio uma nova fase na minha carreira e quando esse tipo de experiência sonora (dentro do universo das batidas presentes na diáspora africana) está mais em voga do que nunca”, diz BNegão. E assim foi feito: com alguns ajustes/mudanças nas peças, timbres e uma nova gravação de voz, “Sorriso Aberto (Curimba Riddim)” aparece como o segundo single (de uma série de 5) a ser disponibilizado por BNegão, dentro da contagem regressiva para o lançamento de seu primeiro disco realmente “solo”, que trará versões fumegantes e inesperadas de músicas suas e também de autores como Moleque de Rua e Ratos de Porão.

Danny D. Weirdo é uma banda performática de art-rock (ou rock n roll anti-herói), com influências em Queens of the Stone Age, Girl Band, Swans, Interpol, Black Midi, entre outros. E, desde o mês de abril, eles estão lançando de forma episódica o novo EP “Cujo”, que consiste de três músicas concebidas durante a pandemia, cada uma com um clima diferente e inspirados por eventos distantes entre si, porém com a conexão da rebeldia e raiva diante de situações históricas. O primeiro single, “Garcia”, foi inspirado por Juan Pujol García, um agente duplo na Segunda Guerra Mundial. O segundo single, “Romantik” foi inspirado pelos anos de 2014 a 2019. O terceiro, “Unabomber” esperado para junho, foi inspirado pelo terrorista Unabomber, que sofreu experimentos do governo americano conhecidos como MK Ultra antes de realizar seus ataques a universidades.

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Fotos: Divulgação

CAPÍTULOS DE DANNY D. WIERDO


NADA DEMAIS “Nada Demais” é a nova música do projeto Acidental, liderado por Alexandre M. A faixa contou com a participação dos músicos Joe Gomes (ex-Pitty, The Dead Billies, Retrofoguetes) e Luiz Gadelha (Talma & Gadelha e Luiz Gadelha e os Suculentos). O single faz parte do álbum “Objetos Arremessados Pela Janela”, com lançamento previsto para maio, pela gravadora paulista Hearts Bleed Blue (HBB) em CD, LP e nas principais plataformas digitais. “Essa é realmente a música do disco que mais possui características da música brasileira e por isso eu achei oportuno convidar duas pessoas que dariam ainda mais esse ar para a faixa. Joe Gomes é um dos melhores baixistas do Brasil e Luiz Gadelha sempre mergulhou na MPB com suas músicas e sua voz única”, conta Alexandre M. No entanto, as influências do Acidental vão além da música brasileira, e segundo Alexandre, “Nada Demais” traz à tona o rock gótico dos anos 80 nos acordes, timbres e produção. “Talvez lembre bandas como The Cure, Echo and the Bunnymen e Guilherme Arantes”, revela.

DUPLA HOMENAGEM Serj Tankian acaba de lançar o videoclipe para “Rumi” (https://youtu.be/usOpQ0ex4yQ), uma homenagem tanto ao filho de seis anos de Tankian, quanto ao poeta sufi do século 13, ambos de mesmo nome. “A especificidade lírica na música é geralmente desencorajada porque menos pessoas as internalizam, pois têm menos conexão pessoal,” explica Tankian sobre a sua decisão não convencional de compartilhar sobre as letras da faixa. “Mas há casos em que é vital que a inspiração e a musa sejam específicas. Neste caso, um pai conversando com seu filho e uma reverência ao poeta que inspirou o nome do filho não poderia ser reescrito para que se pudesse generalizar.”

BOAS NOVAS

O novo single dos Acústicos & Valvulados, “Se Você For Assim”, com distribuição da OneRPM, já está em todas as plataformas digitais. Dessa vez, o feat é de Jacques Maciel, vocalista e guitarrista da Rosa Tattooada – maior representante do Hard Rock no cenário gaúcho. Além de Jacques, a música conta com as percussões de Vicente Guedes. Lançada originalmente em 2003, “Se Você For Assim” é a faixa de abertura do álbum Creme Dental Rock’n’Roll. Na época, foi trabalhada como single, e teve clipe com alta rotação na MTV. Agora, neste relançamento, uma nova versão do vídeo foi editada por Sérgio Caldas, e também estará disponível no canal do YouTube da banda.Crespo.

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TEC Por Fernando de Freitas

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T F N O D O Ã Ç U L O V RE

AFIA R G O T P I R C A AD A ARTE NA ER


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este início de ano, a moda dos NFTs tomou a internet por completo. Milhares de músicos, artistas visuais e afins começaram a correr contra o tempo para se tornarem pioneiros da tecnologia que promete revolucionar o mundo da arte. Mas você, agora, está provavelmente se perguntando: “que raios é um NFT?” Em resumo, é um token virtual que permite a um indivíduo atestar ser o dono de um arquivo digital. Sua tecnologia é baseada na blockchain, uma rede de dados que torna possível a existência de criptomoedas como o Bitcoin e garante que transações financeiras sejam feitas de forma segura sem a necessidade de um mediador. O NFT é, portanto, um criptoativo. O token também está diretamente ligado à moeda Ethereum - somente através dela pode ser comprado e vendido. A sigla é um diminutivo de non-fungible token (token não-fungível). Isso significa que o valor de uma unidade de NFT é único e não pode ser trocado por outros. Diferentemente, porém, do Bitcoin, que funciona como uma moeda corrente (duas notas de dez reais podem ser trocadas e continuarão tendo o mesmo valor), no NFT cada moeda é única. Isso possibilita que qualquer bem digital imaginável seja vendido ou se torne propriedade de alguém: fotos, arquivos de áudio, textos e até memes. Claro, qualquer um ainda pode possuir uma cópia do arquivo em questão, mas enquanto você for o detentor do token NFT atrelado a ele, somente você é capaz de provar ser proprietário do arquivo original.

PROBLEMAS QUE OS NFTS RESOLVEM

Desde a popularização dos computadores e da internet, da onda do mp3 até o streaming dos dias de hoje, houve uma desvalorização significativa do valor da arte nos meios digitais.

Antigamente, artistas focavam seus esforços em vender discos exclusivos ou pinturas e quadros, por exemplo, e conseguir um lucro justo com isto. Hoje em dia tudo mudou e, até pouco tempo, a falta de capacidade de se atrelar um valor tangível a arquivos digitais em um mundo cada vez mais ligado a internet, era um dos maiores problemas modernos da arte. Com o NFT, recupera-se o tal valor perdido de uma forma condizente com os novos tempos. Artistas podem vender os arquivos originais de uma música, uma foto, um vídeo ou a letra de uma música e lucrar com isso ao mesmo tempo em que mantêm os direitos autorais sob o trabalho. É uma porta que se abre para mais formas de uma monetização justa sobre a arte, especialmente na música. Afinal, artistas vem sofrendo com os valores cada vez mais baixos dos pagamentos de royalties por parte das plataformas de streaming faz muito tempo. É inevitável falar também do interesse econômico que os NFTs representam. Por ter um alto potencial lucrativo, as transações, somente este ano, já ultrapassam a casa dos 2 bilhões de dólares.

SOLUÇÃO PARA OS ARTISTAS INDEPENDENTES Engana-se quem

pensa que NFT é só para os grandes. Na verdade, é comparável a uma espécie de investimento em sua carreira. Você pode, por exemplo, distribuir NFTs gratuitamente ou por um preço simbólico para seus fãs, sob a condição de que você ganhe uma porcentagem sobre o lucro caso o token atrelado ao arquivo seja revendido no futuro. Imagine o quanto artistas como Beyonce ou Drake teriam lucrado caso a tecnologia estivesse disponível no começo de carreiras. Porém, embora qualquer arquivo digital possa ser transformado em NFT, é importante que ele tenha um valor que justifique a criação de

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um token, caso contrário, as pessoas não se interessarão em possuir o ativo em questão. É preciso ser criativo(a) e pensar no que um fã gostaria de ter, pode ser uma foto que recebeu muitos likes, os vocais de uma música ou até mesmo o arquivo da capa de um single ou álbum. Por último, é de extrema importância a pesquisa extensiva sobre o assunto para se certificar de que entendeu totalmente como os NFTs funcionam; certifique-se também de que você é o/a detentor(a) dos direitos autorais atrelados ao arquivo. Isto tudo vai lhe ajudar a evitar problemas virtuais e até legais no futuro.

O FUTURO DOS NFTS E OS DIREITOS AUTORAIS

e esclarece “por enquanto, devemos buscar aplicar os conceitos e instrumentos jurídicos já existentes aos negócios que forem sendo performados. E, por enquanto, isso pode ser feito”. Mas o fato não precisa desanimar, se tivermos cautela. Como dito anteriormente, é essencial que quem queira se aventurar nesse universo de possibilidades virtuais, certifique-se de que detém todos os direitos autorais da obra que está sendo comercializada e pesquise a fundo sobre a tecnologia da blockchain. Esta, muitas vezes ignorada por leigos no mundo das criptomoedas e criptoativos, é importantíssimo para que você não perca seu tempo nem dinheiro.

A tecnologia dos NFTs ainda é muito nova, ainda não existe qualquer tipo de regras ou legislação que deva ser seguida. Quando isso se encontra com o tema dos direitos autorais, vira uma pauta extensiva com muitas perguntas e poucas respostas.

Alguns pontos essenciais para se ter conhecimento são: como fazer transações na blockchain, como funciona a tecnologia e como ter uma carteira cripto seguindo todos os protocolos de segurança.

Recentemente, muitos artistas relataram estarem vendo suas próprias comercializadas como NFTs, por exemplo. Celebridades viram fotos suas sendo vendidas por milhões de dólares. Apesar de a blockchain ter como principal ponto forte a descentralização e a não-necessidade de qualquer mediador para funcionar, soluções para problemas como esse ainda são uma incógnita.

André Abujamra é um dos pioneiros na tecnologia NFT no Brasil. O músico se juntou recentemente ao artista visual Uno de Oliveira para criar uma série de obras digitais. Tudo começou quando Uno convidou Abujamra para sonorizar sua obra “Coé Lhek”, uma criptoarte retratando um morador de comunidade. O arquivo já foi leiloado e vendido em um marketplace de NFTs. Para o seu próximo projeto, André criou um conceito chamado “neuro abus”, no qual irá apresentar 8 músicas instrumentais de 1 minuto e 75 segundos cada, que irão totalizar 8 minutos e 6 segundos de música - fazendo alusão aos 86 milhões de neurônios presentes no cérebro humano. Conversamos com Abujamra sobre a tecnologia dos NFTs, sobre como leigos podem adentrar nesse universo, alguns pontos importantes

Para Mariana de Carvalho Mello, Diretora Jurídica da ABRAMUS, é importante tratar o assunto com cautela e observar o fenômeno diante da legislação já existente de Direitos Autorais, “não me parece ser o momento de se falar em qualquer mudança legislativa para abarcar o tema das NFTs, pois seria um exercício de adivinhação com um resultado provavelmente pouco abrangente” explica a advogada

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CONVERSA COM ANDRÉ ABUJAMRA

como direitos autorais e possíveis direções o NFT irá tomar a partir de agora. Confira abaixo. Como é o processo de criação das suas obras digitais? Quais são os pontos levados em conta para que as obras gerem interesse de mercado? Eu comecei no mundo dos NFTs através de um convite de um amigo e artista digital, o Uno de Oliveira. Nos conhecemos numa sala do ClubHouse e combinamos uma primeira colab. Fiz uma música para uma arte dele chamada Coé Lek. Depois de dois, três dias a peça entrou em leilão no Makersplace. Daí começou a doideira toda. Fizemos mais alguns trabalhos juntos (versão UNO/ABU) e ele me ajudou em outros (versão ABU/UNO). Não faço algo pensando se tal obra vai gerar interesse no mercado. Penso em fazer algo que goste e tenha a ver com minha maneira de criar música. Vendi mais 5 NFTs depois desses, então penso que algum interesse gerou. Quais são os passos ao criar o token NFT? O quão fácil é a parte técnica do processo para um artista leigo no assunto? Se a pessoa é leiga, recomendo uma pesquisa no Google. Você vai encontrar vários vídeos de tutoriais sobre como acessar os marketplaces, que são os lugares onde você vai poder ofertar sua arte, música, gif ou foto. Basicamente, você tem que ter acesso a um marketplace, uma carteira digital e alguma moeda cripto disponível na carteira. A parte técnica vai depender do seu marketplace. Você tem que verificar os tamanhos e formatos de arquivo que eles aceitam. Isso pode variar de site para site. Fazer o upload é muito simples, como subir um vídeo no YouTube, por exemplo. Você só tem que prestar atenção em cada passo, pois tudo envolve alguma taxa.

Fotos: Uno de oliveira

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Há algum custo atrelado ao processo? Sim, o processo de subir o NFT é chamado Mint. Para “mintar” uma obra, você tem a taxa de gás, que é o valor cobrado pelas plataformas para gerar o código no blockchain. Esse custo varia de 70 a 90 dólares, depende geralmente da cotação do Ethereum, que é a moeda cripto mais usada. Através do blockchain do Ethereum é que são gerados os smart contracts que regem as vendas e possíveis revendas das obras. O mercado dos NFTs ainda não possui nenhum tipo de regularização relacionada a direitos autorais e afins. Quais cuidados você toma e recomenda aos iniciantes? Direito Autoral sempre será um direito pessoal e instranferível. Isso não entra numa venda de NFT. O que você pode vender são seus direitos conexos. Um fonograma de uma música pode ser vendido inteiro ou fatiado, por exemplo. Já temos, aqui no Brasil, uma plataforma que vai ser dedicada a música chamada Phonogram.me. Eles vão tornar todo esse processo mais simples e transparente. Por último, como você vê o futuro dos NFTs? É, em sua visão, uma inovação que veio para ficar? Eu vou repetir o que já comentei numa live outro dia. Estamos chegando num novo território. Me sinto um viking chegando na Groenlândia trocentos anos atrás. Você não deve ir para uma viagem desse tipo carregando uma mochila pesada com coisas do passado. Elas não vão ser úteis. Então, carregue a sua mochila de coisas novas, aceite que o futuro é inevitável e tente aproveitar da melhor forma possível. E, pra acabar, tenha em mente que NFT não é o fim, é uma ferramenta que tem infinitas possibilidades, inclusive vender gifs animados de gatinhos.

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TROPICÁLIA Por Fernando de Freitas

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vanguarda tem um verdadeiro amor à tradição. É um amor pouco idealizado, um relacionamento sem grandes liturgias. A tradição, para a vanguarda, é a memória viva de um povo, não um bibelô na estante, exibido intocado, que vai deixando de reluzir sob o véu opaco do tempo, que não perdoa o mais brilhante tesouro. José Carlos Capinan, aos 80 anos, permanece sendo a vanguarda de nossa música, ainda que sua carreira esteja completando quase 60 anos. A primeira vez que me dei conta da existência de Capinan foi no banco de trás do carro de meus pais, em uma viagem até Brasília, que, em recesso político, vivia a sombra do afastamento de Collor. Em uma fita copiada, Gilberto Gil anuncia a can-

ção “Soy loco por ti América”, de José Carlos Capinan. Quando surge uma contestação inaudível na plateia, Gil afirma “É do Capinan, sim! Eu apenas adaptei”. Ao longo dos anos, voltei a encontrar seu nome em créditos nas capas. Parceiro de Edu Lobo na premiada “Ponteio” (e outras mais), de Jards Macalé e de João Bosco em Papel Maché (que ciúmes deve ter sentido Aldir Blanc!), entre tantos outros. São 99 canções listadas no Dicionário Cravo Albin, conforme consulta realizada na internet, porém, Capinan contabiliza cerca de 200. Obra que o letrista não considera fechada: “espero continuar mais alguns anos, como continuo namorando as moças, os dias e as frutas”.

! A D I V , I T R O P O C O L Y O S

TA S I L A C I P O R T A OET P O D A R B O A A VIDA E

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TROPICÁLIA NA COXIA DOS FESTIVAIS A primeira parceria veio com Tom Zé, em 1963, musicando a peça “Bumba-meu-boi”, no Centro Popular de Cultura de Salvador, quando era estudante de Direito. Um ano depois, com o Golpe Militar, a peça foi considerada subversiva. Colega de figuras como Gilberto Gil e Caetano Veloso, Capinan sentiu que o clima mudava e que ele corria risco na capital, voltando para o interior da Bahia, para a casa de seu pai, antes de ir “para São Paulo, depois pro Rio, depois para São Paulo de novo para voltar pro Rio”. Hoje Capinan vive em Salvador, onde é diretor do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira.

Nessas andanças, Capinan reencontrou Gilberto Gil, com quem teve uma parceria significativa. Em 1966 compuseram a canção “Ladainha”, a primeira a ser colocada em acetato e que figurou o Lado B do compacto “A Banda”, composição de Chico Buarque vencedora do “Festival de Música Popular Brasileira”, da TV Record, naquele ano. No mítico Festival de 1967, Capinan veio, em uma parceria Edu Lobo, apresentar para o mundo “Ponteio”. Venceu o festival. A parceria também rendeu a premiada “Cirandeiro”, gravada no álbum “Edu e Bethania. No mesmo ano foram gravadas por Edu as parcerias “Corrida de jangada” e “Rosinha”, e por Gilberto Gil, no álbum “Louvação”, mais duas

parcerias, “Água de meninos” e “Viramundo”. “Soy loco por ti America”, composta com Gil e Torquato Neto sobre a morte de Che Guevara, viria a ser interpretada no primeiro álbum solo de Caetano Veloso em 1968, junto com “Clarice”, uma das poucas canções que fez com Caetano. No ano seguinte, estabeleceria uma parceria de peso, com Jards Macalé, com a canção “Gothan City”, para mais um festival. Outras muitas parcerias seriam gravadas por Jards nos próximos anos. É interessante que, diante de dezenas de parcerias, uma acaba não sendo listada, por inusual. Maria Bethania, segundo o próprio Capinan é uma intérprete parceira. Com suas interpretações poderosas, a cantora deu vida e cor às letras do poeta como mais ninguém. Ela cantou diversas músicas dele e a proximidade ficou marcada. Ainda que estes anos tenham sido de significativa produção na carreira do letrista, difícil encaixotar sua produção a eles. Mesmo voltando à Bahia e se formando médico anos depois, suas contribuições jamais cessaram.

A Tropicália foi um movimento de vanguarda estética gestado dentro de um universo artístico jovem, de meados da década de 1960. Reconhecida pelo álbum, e marco, “Tropicália ou Panis et Circensis”, contou com o protagonismo de Gil, Caetano, Betânia e Gal, e também legitimou o rock experimental dos Mutantes enquanto música brasileira. Nara Leão era velha conhecida da Bossa nova, mas abraçou o movimento. Tom Zé, que seguiu sempre o caminho de experimentalismo e vanguarda, mais uma vez se equilibrou na sua eterna corda bamba entre o mainstream e

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Fotos: Divulgação

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o alternativo. Junto deles estavam o maestro Rogério Duprat, o poeta Torquato Neto e, claro, Capinan.

do mangue / Derramemos vinho no linho da mesa / Molhada de vinho e manchada de sangue”.

Porém, a tropicália não se resume a este álbum ou a estes artistas, tampouco está isolada enquanto vanguarda artística do seu tempo. Nomes como o de Jorge Mautner e do artista plástico Hélio Oiticica estão intimamente ligados ao movimento, Jorge Ben navegou por essas águas e Jards Macalé sempre esteve por perto.

Sendo os tropicalistas invasores da cena paulistana, talvez reste um travo por parte da intelectualidade local. A vanguarda trazida de fora do eixo Rio-SP, desrespeitava as formas estabelecidas na ponte aérea cultural e as regras estéticas, que estavam marcadas por um certo elitismo. Da música americana era possível beber do jazz, mas jamais do rock’n’roll. A bossa era nosso jazz, mas não conversava com as massas, a proposta tropicalista estava em trabalhar a arte deixando permeáveis as fronteiras entre a sabedoria popular e os ensinamentos intelectuais, na forma, na mensagem e, claro, comercialmente.

É interessante que, embora exista o confronto de determinados críticos a uma suposta falta de posicionamento político por parte deste movimento, Capinan e Gil compuseram “Sou Loco por Ti América”, inspirado na morte de Che Guevara e presente no primeiro álbum de Caetano Veloso. Ou ainda que, em “Misereres Nobis”, que abre o álbum “Tropicália ou Panis et Circencis”, existam versos como “Já não somos como na chegada / O sol já é claro nas águas quietas

As contradições são possíveis e esperadas. Não existe como conciliar versos em que em uma linha fala de mangue para na seguinte falar de vinho e toalhas de linho. É exatamente

por isso que a conclusão dos versos é a toalha suja de vinho e sangue. A violência desses versos está na contradição, enquanto é cantado (cinicamente) com o sorriso cordial sob o qual a violência brasileira se disfarça. A alegria tropicalista é simulacro que acoberta a dor e a humilhação como mecanismo de sobrevivência vertidos em arte. A análise diante das lentes do tempo ajuda a ressaltar aquilo que não é visto no calor da hora. A injustiça que o tempo reforçou é a ausência de créditos. As plataformas de streaming apontam apenas os intérpretes da música. O compositor, escamoteado, permanece na surdina. Como Capinan não tinha a verve de subir aos palcos da música (senão por sua presença etérea de letrista), seu nome se perde. Por outro lado, ele se sente satisfeito pelo reconhecimento que têm, respeitado pelos pares e conhecido nas rodas dos amantes da música.

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VIOLÃO Por Fernando de Freitas

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S

entado em uma cadeira de praia, à beira do mar de Algarve, Yamandu Costa aproveita um breve relaxamento das restrições de contato social impostas em Portugal, onde atualmente vive. Seus filhos brincam ao ar livre, o que estava difícil de acontecer em Lisboa. Yamandu toma seu chimarrão e, durante três horas seguidas, toca, tendo como plateia apenas o mar. O violonista gaúcho é reconhecido internacionalmente como um dos maiores em seu instrumento. Com sua incrível precisão e rapidez no sete cordas, sua técnica une cada elemento do violão com um timbre distinto. Mas o músico transcende a

virtuosidade técnica, sua inventividade harmônica em constante improvisação faz dele um dos músicos mais interessantes de nosso tempo. Ainda que a comparação direta sempre leve nossa memória a Baden Powell e Rafael Rabelo (ou até mesmo a Paco de Lucia), ao fechar os olhos, ouço a naturalidade em romper com os limites do instrumento própria de Charlie Parker.

TALENTO É difícil escrever sobre Yamandu sem ser superlativo. É quase impossível não compará-lo, sem medo de fazer injustiças, com verdadeiras

lendas. Como Baden (entre tantos outros), o violonista gaúcho despontou como talento precoce, iniciando sua carreira solo aos 17 anos. Porém, a carreira começou cerca de 10 anos antes, quando assumiu a guitarra elétrica da banda de música regional de seu pai. Yamandu conta que “nunca fiz a escolha de ser músico, isso sempre foi a minha realidade”, nunca enfrentando a ambivalência da escolha de uma profissão artística. Em um caso que se torna cada vez mais raro, Yamandu tem o talento lapidado pelos palcos de uma banda de baile (quem se lembra da conversa que tivemos com Airto Moreira?). No seu caso, no contexto da música regional gaúcha, conversando com as fronteiras uruguaias e portenhas. Foi nesse contexto que, aos 20 anos, Yamandu lançou seu primeiro álbum com Lúcio Yanel, violonista argentino radicado no Brasil de quem se aproximou na adolescência. Foi também na adolescência que o universo musical de Yamandu se expandiu. Nesse período, conheceu outros violonistas da música brasi-

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VIOLÃO leira que estavam distantes de sua realidade. Mas também foi quando tomou contato com o jazz e o blues, conhecendo guitarristas como George Benson e Steve Ray Vaughn. Claro que ouviu um pouco de rock, mas o estilo nunca lhe conquistou completamente. Nessa expansão, também começou sua história com o violão Sete Cordas, instrumento que se tornou uma de suas marcas. Yamandu admite: “não sou propriamente um Sete Cordas, eu uso o violão sete cordas como um recurso adicional”, respeitando, assim, a tradição do choro e do samba.

AMIGOS E MODAS A relação de Yamandu com o violão é de amor. Assumidamente um colecionador, ele tem em casa, em Lisboa, um enorme armário para acomodar os preciosos instrumentos. “Cada violão novo tem um som e uma cor diferentes, cada vez que compro um instrumento novo, ele me estimula a tocar e compor algo diferente” conta o músico. É possível ver o armário aberto em alguns víde-

os no seu canal do Youtube. Nesse canal, Yamandu apresenta a websérie “Histórias do Violão”, na qual visita diversos lugares, músicos e até o luthier espanhol Vicente Carrillo, com quem tem uma série signature de violões. Também é possível vê-lo tocando com outros músicos e amigos, na série Visita Boa, como Elodie Bouny, violonista clássica mundialmente reconhecida, com quem se casou e tem dois filhos. Perguntamos, inclusive, se além dos vídeos existe o plano de perpetuar a parceria musical em um álbum, o que confirmou Yamandu, ressaltando já existir material sendo trabalhado para esse projeto. Entre tantos vídeos, é possível pescar também, por exemplo, parcerias com Sérgio Assad. Conforme você explora a obra e as histórias de Yamandu, fica claro o poder das parcerias. A música, em especial o seu

Fotos: Divulgação

Para quem gosta de música, ver Yamandu tocar não é como ver Messi ou Cristiano Ronaldo jogarem. É diferente. É como ver Cruiff comandando a laranja mecânica ou a seleção brasileira de 1982, há uma magia que transcende as regras do jogo. É como se cada música que toca fosse

composta para que ele trabalhasse sobre ela. Assim como nos exemplos futebolísticos (tão raros nessa revista) - aqueles times não jogaram futebol, eles eram o futebol (e, portanto, o futebol é injusto) -, Yamandu é o violão. Isso transparece, inclusive, na sua linguagem corporal: próximo a um transe, ele traduz a essência da música e nos convida a conhecer a beleza em sua forma mais profunda.

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violão, é instrumento de união entre as pessoas. Cada parceria é uma conversa maravilhosa que trava com um parceiro. Entre as parcerias especiais, uma se destaca, agora como lembrança, mas outrora como dois álbuns: aquela estabelecida com o mestre Dominguinhos. É um encontro de gerações e culturas que dissolve qualquer diferença na fluidez melódica que os dois dividem entre si. Um encontro de sonhos que representa Yamandu, a troca que o move no aprendizado eterno que é a jornada musical.

CAMINANTES Conversamos com Yamandu durante as fases finais de masterização do álbum “Caminantes”, gravado em trio com o guitarrista português Luís Guerreiro e o bandoneonista argentino Martín Sued. O trabalho, com sua direção musical, entrecruza a musicalidade do Brasil, Argentina e Portugal. É um trabalho que tem por objetivo representar a diversidade de povos que, apesar de distintos, se conectam em suas raízes históricas. Essa diversidade também se faz presente em instrumentos característicos de cada cultura – bandolim do tango e guitarra do fado, por exemplo. A audição do material destaca toda generosidade do músico. Diante de dois instrumentos com a sonoridade mais realçada, seja pela força do fole de um ou pela ardência característica do outro, o som do violão convida o retorno à função de acompanhamento, o que Yamandu faz com firme delicadeza. Mas Yamandu é Yamandu e não cabe em papel secundário, então ele se destaca nos temas naturalmente. A verdade é que o que o gaúcho tem de mais generoso é a capacidade de dividir o protagonismo. Sabe que pode reforçar o brilho próprio com as estrelas que de si aproxima.

Estes diálogos musicais que trava ao longo de um álbum são uma reflexão sobre a formação cultural à qual pertence. O trio estabelece conexões que se desdobram em ritmos e melodias que se diferenciam e se assemelham em dinâmicas de aproximação e afastamento. Assim como a origem, marcam-se a personalidade dos músicos entre frases e silêncios que só se complementam pela necessidade de encontrar a harmonia que os une. Se, ao ouvir esse álbum, sentir que viaja por estes locais, é porque Yamandu o faz cada vez que começa

a tocar. Porém, para tocar, Yamandu viajou para todos estes lugares, ora metafórica, ora literalmente. Nas viagens literais, muitas vezes Yamandu foi filmado em aeroportos, sozinho e tocando seu violão. Ele explica, entre um gole e outro de vinho: “O tempo de aeroporto é um tempo perdido, então aproveito para tocar, desde que não incomode ninguém” em tempos brutos, há quem peça que um gigante do violão se cale. Mas acredito que existam mais pessoas que queiram ouvir.


ENTREVISTA

Fotos: Clarice Lissovski /Divulgação

Por Lucas Vieira

O OLHAR DE JULIANA LINHARES PARA A PLURALIDADE DA CULTURA NORDESTINA

A INVENTORA DE NORDES 38


STES

J

uliana Linhares é conhecida na música brasileira por sua voz nos projetos “Pietá” e “Iara Ira”. No teatro, além da formação acadêmica como diretora, tem seu trabalho reconhecido nos palcos, com destaque na atuação em “A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa”, baseado na obra de Clarice Lispector. Agora, em “Nordeste Ficção”, seu primeiro disco solo, faz viagem musical em que apresenta as imensidões de sua região de origem.

UM DISCO NECESSÁRIO Juliana precisou de dez dias sem ouvir as faixas de Nordeste Ficção para escutar o disco finalizado pela primeira vez. Se sentindo exausta por conta das repetições em busca de possíveis mudanças na mixagem, decidiu reunir os amigos para encarar a obra completa. O momento foi de felicidade e alívio. Houve muita emoção, lágrimas e festa - “o Chico César dançou ‘Lambada da Lambida’ do início ao fim”, revela. Toda essa energia que diz muito sobre o álbum foi sentida remotamente, com a reunião feita online via Zoom. Ao invés dos abraços, as felicitações pelo resultado de “Nordeste Ficção” vieram pelo telefone. O retorno dos amigos fez Juliana ter certeza de que os caminhos escolhidos tinham sido certeiros - “deu para sentir que a música já estava no mundo”. A importância da obra havia transcendido seu universo particular. Há três anos Juliana desenha a ideia de um disco solo. Imaginava um álbum feito com uma banda definida, que a acompanhasse no estúdio e nos palcos, o que tornaria viável a ideia, tanto pela praticidade quanto para manter a fidelidade da proposta dos arranjos. A intenção era que fosse um trabalho feito no estúdio com o calor do ao vivo. Mas, por causa da pandemia, Nordeste Ficção foi feito de forma completamente remota. Os músicos gravaram de suas casas e a primeira reunião de uma banda ocorreu em live realizada no YouTube no dia 29 de abril. Por questões de segurança, a apresentação contou com arranjos adaptados a um número pequeno de instrumentos, tocados por Elísio Freitas e Bóka Reis. Segundo Juliana, gravar “Nordeste Ficção” sabendo da impossibilidade de levá-lo aos palcos após seu lançamento foi difícil. Porém, fazê-lo durante a pandemia era necessário e urgente. Trouxe ânimo e salvou a cantora da tristeza e do desespero, em momentos em que precisou colocar em prática sua produção diária como artista. Por enquanto, a esperança de realizar apresentações ao vivo serve de alimento para o futuro. “Eu pensei o show com dramaturgia, nuances de momento, luzes definidas. Mas o álbum também foi pensado para ter uma energia além do palco, por conta do momento que estamos passando”, revela. “Nordeste Ficção” tem produção de Elísio Freitas (e de Vovô Bebê na faixa “Frivião”) e direção artística de Marcus Preto. Além de discutir o que é ser nordestino hoje, foi imaginado como um roteiro de teatro, em que as faixas foram concebidas como universos independentes. O álbum apresenta a herança de artistas como Amelinha, Ednardo, Elba Ramalho e Belchior, além de reimaginar a obra de Tom Zé, Petrúcio Amorim e Jessier Quirino. De Nordestes mais recentes, se encontra

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ENTREVISTA

A capa do álbum (com retrato feito por Clarice Lissovsky e projeto gráfico de Ara Teles) traz trecho do livro “A Invenção do Nordeste e Outras Artes”, de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, publicação que discute como a ideia da região brasileira é carregada de estereótipos e mitos, e é vista a partir de um universo imaginário, apesar de ser um espaço físico real. Encenada pelo grupo Carmin, a peça também teve profunda influência em Juliana na concepção do disco, que, ao longo de 11 faixas, dialoga com propostas da obra: “Se a vida é amiga da arte, é possível com arte inventarmos outros Nordestes, que signifiquem a supressão das clausuras desta grande prisão que são as fronteiras.” Nordeste Ficção soa atemporal, sem parecer preso a uma década específica, característica comum na música nordestina. A que elementos você atribui esse aspecto?

A história não é linear. Belchior também poderia ser lançado daqui a uma década. Quando achamos que algo vai ser resolvido com o passar dos anos e vemos onde estamos politicamente, dá pra entender que a história não é progressiva, mas feita de acontecimentos e resoluções. Se não solucionamos um problema com atitudes, ele não é resolvido pelo tempo. Para mim, o tempo também é ficção. Discos que falam sobre o presente também falam de momentos que são eternos. Como disse Clarice Lispector: “Sempre eternamente é o dia de hoje”. Como foi escolher a ordem das músicas do disco, uma vez que ele foi pensado como uma peça de teatro? Foi difícil, porque dá vontade de experimentar muito. Além disso, com o streaming, as pessoas não costumam ouvir muito as últimas faixas do álbum e, como eu penso na obra completa, isso é chato. E, acompanhando os números, já consegui perceber que as músicas finais estão sendo realmente menos ouvidas.

Tem uma frase que acho bonita, que diz que quando nos apoiamos no ombro de quem veio antes, conseguimos enxergar melhor o que vem adiante. Eu bebi na fonte de Alceu Valença, Cátia de França, Elomar. Quis resgatar essa potência ruidosa, rock’n’roll, que há no Nordeste e que teve dificuldade de ganhar o Brasil.

Dentro disso, eu fiz escolhas como, por exemplo, insistir que “Nordeste Ficção” não fosse a última faixa, porque queria muito que ela fosse ouvida. O Durval [autor de “A Invenção do Nordeste”] conversou comigo sobre sedução e entramos em acordo de que deveríamos abrir o disco com uma música sedutora e, então, seguir conquistando o ouvinte.

Ao mesmo tempo, é preciso olhar para as questões de hoje, as novas linguagens. O Elísio me trouxe muitas referências, a gente queria brincar com as células do forró, fazer um dub com xote, conversar com a sonoridade atual sem esquecer o passado.

Acabou que a mais ouvida é “Meu Amor Afinal De Contas”, que saiu antes, em single, e “Nordeste Ficção” é a segunda. Pensamos muito no lugar onde ela entraria e é bom saber que não é a faixa dois da tracklist, porque mostra que os ouvintes fa-

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zem escolhas, e esse é o poder que a música deve ter. Como a sua mudança para o Rio de Janeiro mudou a sua percepção sobre o Nordeste? Quando vim para o Sudeste, eu me tornei nordestina. Enquanto você está em um lugar em que todos são iguais, você apenas “é” e não fica questionando. Quando vai para um lugar em que te veem de uma maneira diferente, com todos os estereótipos, se torna uma coisa por preconceito e, ao mesmo tempo, porque você é aquilo, já faz parte de como a nossa história foi construída e é preciso lidar com essa definição. Por muito tempo eu pensei que era bobagem me enxergarem daquele jeito e isso me incomodava, sempre lutei para quebrar esses estereótipos na música e no teatro. Eu nunca fui para o lugar que era esperado porque isso me incomodava. Quando fui fazer o “Nordeste Ficção” eu disse: “Peraí, não é assim que me rotulam? Minha voz não fala sobre isso? Então eu vou usar essa imagem e mostrar que somos isso, mas que vamos muito além”. Então, foi assim o meu processo no Rio de entender, questionar, me incomodar, e também dizer que há um poder enorme nessa história e, por isso, vou falar dessa questão. Talvez se eu estivesse em Natal, iria discutir outro assunto, mas vir para cá me faz também me ver como nordestina, olhando do Sudeste. Levantar essa pauta sobre o Nordeste era importante para mim. Qual preconceito o Sudeste precisa desaprender sobre o Nordeste e o que precisa aprender sobre a região? O grande preconceito são os estereótipos fixados que não se destroem,

Fotos: Divulgação

com Chico César e Zeca Baleiro, e com os contemporâneos Rafael Barbosa (seu irmão), Posada, Caio Riscado, Sami Tarik, Khrystal, Mestrinho, além da ponte com o Sudeste através de Letrux e Moyseis Marques.


mas foram construídos. Mas não há vitimização, foi disseminado pelos nordestinos também. Mas acho que é parar de olhar para o nordestino como submisso, incapaz e como uma coisa só. Isso de “o Nordeste”. Que Nordeste? Nem existe! É tão diverso e colocam todo mundo em um saco só e o resultado é uma balança em que o Nordeste sempre sai perdendo um pouco em tudo. As pessoas precisam aprender a olhar com menos resistência, com

vontade de descobrir e entender que existe muita riqueza no Nordeste, não só pobreza, estética da fome, escassez. Riqueza de conteúdo científico, profissionais, alimento, água. A palavra é pluralidade. Considerando sua relação com música e teatro, escolha uma peça que você gostaria de ver transformada em um disco e um disco que você gostaria de ver transformado em uma peça.

A minha grande referência recente é a encenação do Grupo Carmin para o livro “A Invenção do Nordeste”, que acho que fiz esse trabalho de transformá-la em disco. Mas adoraria ver “Vau da Sarapalha”, do Grupo Piolim, da Paraíba. É uma peça que trouxe um apontamento de um Nordeste menos óbvio para o Sudeste. O disco eu escolheria seria o “20 Palavras Ao Redor do Sol”, da Cátia de França. Ela tem uma poética de imagens e palavras que, acho, daria


ENTREVISTA muito pano pra manga, uma coisa meio Manoel de Barros paraibana que acho que iria arrasar. Nas letras do álbum você diz que não pode mudar o mundo e que o sucesso não precisa ser meteórico, que o que você quer é “cantar para os seus”. Como você quer que Nordeste Ficção seja lembrado pelo “seus”? Eu queria que esse disco trouxesse carga energética para o momento, fosse como uma pilha, para que as pessoas ultrapassem o momento em que vivemos, que trouxesse poder para o Nordeste.

Além disso, queria incentivar o desejo de investir nas pessoas do Brasil, sem essa valorização do que vem de fora, apesar de essa questão já ter melhorado muito. “Nordeste Ficção” é sobre abrir uma fronteira para o mundo todo e valorizar que o Nordeste tem muita riqueza, muito potencial.

FAIXA A FAIXA Juliana Linhares comenta as músicas de Nordeste Ficção. Bombinha Foi a primeira canção que eu escolhi. É uma composição do Posada, um artista que busca na música nordestina essa coisa ruidosa, rock’n’roll, que tem muito a ver com o que eu queria fazer. Eu estava doente, fiquei sem voz, preocupada e liguei para ele, que me mandou três músicas e, quando ouvi “Bombinha”, pedi a ele para segurar porque eu iria gravar e ela norteou muito o que eu faria no disco.

Fotos: Clarice Lissovski /Divulgação

A gente vive uma vida de busca pelo

sucesso, sair do Nordeste para ganhar a vida, é uma loucura. Isso é uma construção de uma estrutura capitalista muito bem firmada na sociedade. Eu queria dizer que isso não é tudo, que o sucesso vai por outros caminhos. Tem pessoas que fazem muito sucesso sem sair do Nordeste, que circulam o mundo sem precisar vir para o Sudeste.

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Balanceiro Ela foi composta depois que eu, Khrystal e Sami Tarik fomos para o Samba do Trabalhador aqui no Rio. A gente saiu de lá muito bêbado para a casa do Moyseis Marques e começou a fazer a música. Eu tinha anotado as ideias em um papel e nunca mais vi. No ano passado, em maio, eu achei essa letra e, milagrosamente, lembrava da melodia. Aí liguei para a Khrystal e ela fechou as partes que faltavam. Eu acabei colocando no disco porque ela tem essa mensagem sedutora que atinge todo mundo, a gente se sente contemplado pela letra. Meu amor Afinal de Contas Minha primeira parceria com Zeca Baleiro. Quando recebi dele a gravação com a minha letra foi muito incrível, porque ele tem uma assinatura muito própria e parecia que era uma música dele, o que me fez trazê-lo para o disco. Tudo isso levou a ideia para caminhos diferentes, de eu me sentir também intérprete da minha própria música e desconstruir o que já tinha imaginado de produção musical da faixa, criou uma identidade nova para a canção. Embrulho Foi a minha primeira parceria com Chico César. A gente já tinha trabalhado junto na peça “A Hora da Estrela” e eu acho ele muito forte, presente, político. Eu vi que ele estava postando músicas novas todo dia, saquei que ele estava ativo, produzindo. Entrei em contato e ele enviou a música em uma hora e meia, foi muito rápido e muito bom. Nordeste Ficção O livro “A Invenção do Nordeste” mexeu muito comigo. Eu estava com essa história sobre o que é ser nordestina na cabeça. As pessoas

sempre me davam cactos e eu me questionava sobre os motivos. Eu fiquei me imaginando como uma das plantas e, dessa brincadeira, fiz uma estrutura. Em Natal, mostrei pro meu irmão, meio com vergonha, e ele adorou e foi fechando as ideias comigo. Misturamos essa história com os conceitos do livro. Minha referência para ela foi a gravação de Amelinha para “Frevo Mulher”. Tareco e Mariola É a música da minha vida. No Rio, ninguém a conhecia e era emocionante quando eu cantava a cappella nos shows do Pietá. Ela sempre esteve ao meu lado, me abriu portas e me deu segurança. Como intérprete, eu consigo dizer através dela muitas coisas que eu penso e sinto. Não tinha como eu não gravá-la. Bolero de Isabel Cantei ela na escola em uma peça em homenagem ao Jessier Quirino e me apaixonei. Uma vez, eu e Rodrigo Garcia (que toca a faixa no disco) gravamos ela ao vivo e mandamos pro meu pai, que foi compartilhando e o áudio chegou no Jessier. Ele me escreveu uma mensagem linda, que ainda guardo. Um dia o Pietá tinha uma entrevista na rádio às 6h da manhã. Eu fui a única que topou e, chegando lá, o outro convidado do programa era o Jessier! Achei que era uma música ideal, que também fala de uma beleza ficcional e poderosa de um Nordeste. Lambada da Lambida Foi a minha segunda música com Chico César, que diz que a alegria é revolucionária, que mesmo nessa situação que estamos dá para ser feliz. Fiz a nossa canção alegre e, mais uma vez, ele foi rápido. Era de noite e não deixei ninguém lá de casa ir dormir, falei “Guenta aí, o Chico manda em uma hora e meia!”. Às

onze horas, ele enviou e foi muito legal. É uma canção em que eu queria falar de amor entre mulheres, passar de forma sutil uma mensagem muito importante. Armadilha Fiz em um dia que não conseguia dormir, estava com muitas frases na cabeça. Foi em uma fase da pandemia que eu chorava muito, perguntava “Cadê meu futuro?”. Teve muita influência de Ednardo e Elomar, do “Talismã”, de Geraldo Azevedo, daquele jeito mais mouro, árabe de Elba cantar. Eu queria uma música mais misteriosa e fiz a melodia inteira e parte da letra, que foi completada pelo Caio Riscado lindamente. Aburguesar Marcus Preto tinha feito o disco “Vira Lata na Via Láctea” com Tom Zé e, nesse processo, acharam essa música em um rolo de fita, de 1972. Na época, o Tom refez a letra. O Marcus disse que achava que a versão original tinha tudo a ver comigo. Chamei a Letrux porque queria que tivesse um contraponto entre o Nordeste e minha trajetória no Sudeste, queria ter no disco as fronteiras abertas para o Brasil. Letrux também é atriz, intérprete de si mesma, achei que ela teria coragem de gravar essa música e a convidei. Frivião Frivião eu fiz letra e música, com meu violão, fazendo arranjos de boca. Eu mostrei pro meu pai e meu irmão, que gostaram, tinha a coisa do frevo, Alceu Valença. Pedi ao Rafael para mudar a letra, eu estava achando boba e pedi a ele para mexer e deixar mais interessante, mas mantendo a estrutura. Foi ótimo, foi nossa forma de gritar fora Bolsonaro e lembrar do carnaval tão poderoso de Recife.

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CAPA

Por Fernando de Freitas

E U Q R O D A M E T E S E QU ORMA

Imagens: Divulgação e Helena Wolfenson

F S N A R E SE T

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álbum começa com um conselho de mãe: os que não aprenderam com a própria dor se tornam pessoas que querem causar dor aos outros. A sabedoria popular, nesse caso, se espalha para o aprofundamento místico que explora a dor e a maturação do indivíduo. É a própria Katze, olhando no espelho e encarando o seu desenvolvimento inevitável, no

contexto da pós-modernidade. Porém, ao olhar a esse espelho, Katze vê também a paisagem que a cerca, tonando a obra um desenho surrealista que desnuda a realidade. Assim, temos o quadro completo do sofrimento do indivíduo (que não mais é a musicista) diante da violência e da barbárie. O grotesco e o sublime se encontram em um projeto sonoro que resgata a simplicidade da canção mântrica e a deforma diante de pesados efeitos aplicados aos instrumentos. Katze, enquanto projeto musical, é o sumo da pós-modernidade que flui sem lealdade a gêneros musicais. Katherine, a artista que se propõe Katze neste projeto, trafega a linha tênue que

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Foto: Shutterstock/André Luiz Moreira

CAPA separa a obra de arte do pastiche. Em mãos menos habilidosas, o kitsch (ou um neo-kitsch, para brincar com as palavras) atingiria as composições, transformando em pasteurização e lugares-comuns. Mas nas mãos dela o som se torna original, com várias camadas de ambiência usadas no limite do excesso (reverbs e delays bem marcados, alguns echoes e flangers aparecem medidos), que traçam essa atmosfera mística que se fortalece nas sobreposições de vozes e instrumentação auxiliada por beats construídos por sons orgânicos. As melodias vocais passeiam por um caráter confessional desleixado. É como se a necessidade de contar fosse arrebatada pelo

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cansaço. O resultado acaba sendo certa sinceridade íntima de quem ao fim do dia, à meia luz, de uma sedução que se transforma em relacionamento, ao dividir as frustrações diárias. Em um cenário amplo, é como se Katze estabelecesse com seu ouvinte um refúgio em que é permitida a falibilidade, a insegurança e o medo. Com isso, cria-se um ambiente de conforto e acolhedor, por meio de um processo em que passamos a nos identificar no espelho da compositora. Como obra, o álbum Fratura Exposta, com data de lançaso em 20 de abril, se pretende um doloroso atestado de nossa humanidade. É uma busca por uma resposta sonora à tradição de agressividade

do rock’n’roll em clichês masculinos e aos valores patriarcais da música pop. Faz parte de um grupo de artistas verdadeiramente autênticas que têm, nos últimos anos, trazido ao mundo obras interessantíssimas, tais como Papisa, ANNÁ, Luiza Lian e Jasper, entre outras. Katherine Finn Zander apresenta em sua obra solo algo que vai além dos excelentes projetos com a banda Cora e o grupo Noid. Os projetos acabam sendo complementares, porém quando se coloca sozinha, Katze se multiplica na dor que todos sentimos na busca de romper com a insensibilidade que permeia as relações sociais que vivenciamos.


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PUNK ITALIANO

Por Fernando de Freitas

E D A G I R B L BUL

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uito do que conhecemos do rock italiano está intimamente ligado às canções de Roberto Carlos. Se pensarmos em Punk Rock, logo pensamos em países cujo desmonte do welfare state e a decadência da economia industrial urbana os atingiu em cheio. Punk é a música dos jovens periféricos de cidades como Londres, Manchester, Nova York, Detroit, Berlin, Frankfurt e São Paulo (sim, existem – muitas – exceções, mas estou olhando exatamente para o meu imaginário). Eu nunca havia ouvido punk italiano, muito menos punk em italiano, até conhecer a Bull Brigade, que completou em março 15 anos de estrada. Com dois álbuns gravados (e alguns EPs) a banda de Street Punk está preparando o terceiro, que deve sair nos próximos meses. O que surpreende no álbum “Vita Libertà” (2008) é como as letras em italiano casam bem com as baterias rápidas e riffs melódicos da banda de Torino. Conversei com Stephano, baixista da banda para conhecer um pouco mais da cena. Se “Vita Libertá” marca a carreira da banda em assumir cantar principalmente em Italiano, isso não diminuiu seu público além das fronteiras. Na Europa o público parece entender a mensagem intependente da língua. Atravessando a fronteira com a alemanha, eles encontraram muitos admiradores, que entendem a por meio da energia musical que eles colocam no palco. Como muitas bandas que fazem sucesso em nichos, a música é uma profissão de meio período,

seus integrantes tem outros ofícios. Eugy, o vocalista, por exemplo, trabalha em uma fábrica. É dessa relação que nasce a autenticidade do som da banda, sendo eles imersos na realidade da classe trabalhadora e periférica cujos temas entrelaçam os problemas sociais e, como são italianos, o calccio (uma música da banda toca nos jogos do Torino FC – onde um dia jogou Walter Casagrande). Logo de início, a conversa se encaminhou para questões políticas. A Itália foi berço fértil para o fascismo e ainda hoje vive suas reminiscências. O street punk (também conhecido como Oi!), ao longo dos anos, foi identificado com movimentos ultranacionalistas da classe operária como grupos Skinheads e White Power (nota: a história do movimento Skinhead não deve ser reduzida aos ultranacionalistas, tendo início no Brixton londrino em comunidades negras). Ressaltados esses fatos, Stephano contou que a banda tem posição antifascista clara e que nunca teve problemas com o público fazer qualquer confusão neste sentido. Sendo um dos protagonistas da cena Italiana de punk, a banda precisa expandir suas fronteiras em suas turnês, uma vez que o público e a cena local são pequenos. Eles já fizeram centenas de show pelo território Europeu, mas também encontraram uma oportunidade de se apresentar no Chile, experiência que, para Stephano, trouxe o desejo para a banda excursionar pela América do Sul.

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COLUNA

T C E SUSP E C I V DE Por Henrike Baliú

“Aprendemos mais com um disco de três minutos, baby, do que já aprendemos na escola”, cantava Bruce Spingsteen na poderosa “No Surrender”. Obviamente, ele se referia ao single de sete polegadas, aquele disquinho de vinil que você precisa se levantar a cada três minutos para trocar de lado. Aquele pedaço de plástico que carrega a verdade sono-

ra, castiga seus tímpanos e abre sua mente com o poder, a glória e a fúria dos três acordes. Discos que faziam você pensar, criticar, contestar, se divertir e, ao mesmo tempo, se libertar e se rebelar, pois essa era a essência do rock’n’roll. Mas se na era do Spotify até o antes majestoso, imponente e importante LP perdeu o impacto que tinha, imagina o single físico. Entre 1976 e o começo dos anos 1980, muitas bandas punks lançaram singles espetaculares, com músicas

escolhidas a dedo e capas incríveis. Na coluna desse mês, vou focar em alguns compactos da minha coleção dessa época áurea do punk rock. Tenho amigos colecionadores que não gostam de singles, o que deveria ser considerado heresia no mundo do vinil, um crime punível com a perda da sua coleção para o mofo e a umidade. Amo LPs, gosto de CDs, mas o single tem um lugar especial no meu coração. Bom, vamos lá, por ordem alfabética: The Adverts “Gary Gilmore’s Eyes”. Inglaterra, 1977. Anchor Records. Em 1976, Gary Gilmore assassinou duas pessoas nos EUA. Foi preso, julgado e exigiu ser sentenciado à morte. Foi executado por um pelotão de fuzilamento no ano seguinte, e as suas últimas palavras foram: “let’s do it!”. Na sequência, a banda punk inglesa, que contava com a linda e estilosa Gaye Advert no baixo, solta seu terceiro single, “Gary Gilmore’s Eyes”. A letra, na primeira pessoa, fala sobre receber um transplante de olhos, acordar após a cirurgia e perceber que os olhos vieram de ninguém

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Imagens: Reprodução

“We learned more from a three-minute record, baby, than we ever learned at school”


menos que: Gary Gilmore! Um fato curioso: a frase final de Gary, “let’s do it”, foi inspiração para o slogan da Nike, “Just do it”. Sério. Asta Kask “För Kung & Fosterland” EP. Suécia, 1981. Rosa Honung Records Lembro da primeira vez em que vi um disco da banda sueca Asta Kask. Foi em 1993, na cidade de Barueri, SP, onde minha ex-banda, o Blind Pigs, ainda em seus primórdios, ensaiava na cozinha dos punks da Hard Life. Eles tinham vários discos de bandas europeias de que eu nunca tinha ouvido falar. Entre elas, estava o Asta Kask, que me chamou a atenção pela foto na capa do disco: quatro moleques no maior visual punk, cabelos espetados, jaquetas de couro rebitadas, segurando seus instrumentos no meio da neve. Em 1981, os garotos do Asta Kask entraram em estúdio pela primeira vez e gravaram quatro músicas para o compacto “För Kung & Fosterland” (Pelo Rei e Pela Pátria), uma mistura perfeita de agressividade e melodia, que se tornaria a marca registrada da banda. A agulha quase pega fogo nos segundos iniciais da faixa de abertura, “Ringhals Brinner” (Ringhals Está Queimando), e quando termina de tocar “PS.474”, que fecha o lado B, já está incandescente. É necessário colocá-la na água fria por alguns minutos para resfriá-la antes de escutar o próximo disco. Aos desavisados, Ringhals é uma usina nuclear na península sueca de Värö.

Black Flag “Louie Louie”. Estados Unidos, 1981. Posh Boy Records. Com a agulha já devidamente seca, colocamos o próximo compacto na vitrola, que nos leva para a ensolarada Califórnia, nos Estados Unidos de Ronald Reagan. Nesse sete polegadas, Dez Cadena é o responsável pela voz que arrasta pela lama suja do hardcore punk a música “Louie Louie” (originalmente gravada pelos The Kingsmen em 1963). A versão ganha uma letra nova, agressiva e violenta: “Você conhece a dor no meu coração, apenas mostra que não sou muito

inteligente. Quem precisa de amor quando se tem um revólver? Quem precisa de amor para se divertir?”. A microfonia come solta, o caos impera e um clássico do rock é chacinado sem misericórdia e sem perdão em pouco mais de um minuto. Desde sua formação, em 1976, até esse single, o Black Flag já tinha trocado de vocalista umas três vezes. Em seguida, Dez Cadena passaria o microfone para Henry Rollins, que seria o gritante até o fim da banda e ganharia fama internacional com sua Rollins Band nos anos 90. The Clash “White Riot”. Inglaterra, 1977. CBS Records. 18 de março de 1977. O The Clash lança seu single de estreia, o incendiário “White Riot”, um verdadeiro coquetel molotov sonoro. Começando com uma sirene policial, a música é uma gravação bem diferente da versão mais crua que acabou saindo no primeiro álbum. Joe Strummer


escreveu a letra após ele e o baixista Paul Simonon participarem dos tumultos contra a polícia durante o carnaval de rua de Notting Hill, um bairro de imigrantes jamaicanos, em agosto de 1976. “O homem negro tem muitos problemas, mas não se importa em jogar um tijolo, pessoas brancas vão para a escola onde te ensinam a ser estúpido”. Se tocando Asta Kask, a agulha ficou incandescente, aqui ela literalmente pega fogo e derrete um pouco do vinil ao final da audição. The Clash “Train in Vain / London Calling”. Brasil, 1979. Epic. Muita gente, até quem coleciona disco, não sabe, mas a Epic lançou no Brasil, em 1979, um single de “Train In Vain (Stand By Me)”, com “London Calling” no lado B. O mais louco é que a música “Train In Vain”, cantada por Mick Jones, era uma faixa escondida no álbum duplo “London Calling”. Ela originalmente não estava listada na contracapa nem no rótulo do vinil. Alguns outros países fizeram a mesma coisa: Bolívia, Canadá, Costa Rica e Estados Unidos. Porém, o Brasil foi o único que lançou o single com capa, fazendo do nosso lançamento nacional um item bastante cobiçado por colecionadores. The Cortinas “Fascist Dictator”. Inglaterra, 1977. Step-Forward Records. Vamos começar explicando o nome da banda: não é um tributo à cortina da casa da sua tia, não. O nome vem do carro popular mais vendido na Grã-Bretanha nos anos 1970, o Ford

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Cortina. “Fascist Dictator” foi a estreia em vinil da banda, que lançou mais dois singles e um álbum antes de acabar e cair no esquecimento. O refrão é simples e direto: “Sou um ditador fascista, yeah, é o que sou. Sou um ditador fascista, não sou como qualquer outro homem”. O guitarrista, Nick Shepard, foi parar naquela formação do The Clash que gravou o LP “Cut The Crap”. Recentemente, recebi uma mensagem em um dos meus grupos de WhatsApp, afirmando que Eduardo Bolsonaro queria comprar os direitos dessa música, dar de presente para seu papai e torná-la o novo hino oficial do Brasil, em inglês mesmo, pois eles manjam muito da língua. Bom, recebi no WhatsApp, então só pode ser verdade, né? The Cramps “Garbage Man / Drug Train”. Estados Unidos, 1980. I.R.S Records. Saindo da política, vamos pegar o trem descarrilhado das drogas, rumo ao mundo excêntrico, divertido e pervertido de uma das melhores bandas surgidas no final da década de 70, o

The Cramps. Formada pelo casal Lux Interior (vocal) e Poison Ivy (guitarra), a banda durou até a morte de Lux, em 2009. Psychobilly? Punk? Rockabilly? Garage Punk? Não, o The Cramps vai além dos rótulos. Após a audição desse single perfeito, demente e icônico, seu cérebro fica um pouco atordoado, pois convenhamos, um som sobre ser um lixeiro no lado A para depois embarcar no lado B e viajar a bordo do trem das drogas, não é para qualquer um. The Cramps definitivamente não é uma banda qualquer, eles fazem música ruim para pessoas ruins. Aconselho escutar esse single sob efeito de entorpecentes. Elvis Costello and The Attractions “Radio Radio”. Inglaterra, 1978. Radar Records. Olha, precisa ter muito culhão para adotar o nome do Rei como seu nome artístico, mas foi o que Declan Patrick Aloysius MacManus fez em 1977, quando mudou seu nome para Elvis Costello. Mesmo sem nunca ter se considerado punk, foi jogado na onda do movimento por jornalistas.


O cara era, e ainda é, muito talentoso, lançou singles incríveis entre 1977 e 1980, mas, para mim, nenhum chega aos pés do hino “Radio Radio”, música simplesmente deliciosa com uma crítica feroz às rádios corporativas. Os teclados dão um show à parte. A letra é sensacional e a melodia, linda. Costello é gênio e esse single é prova disso. “Tiny Steps” no lado B, também é sublime. The Jam “Down in The Tube Sta-

tion at Midnight”. Inglaterra, 1978. Polydor Records. Nesse espetáculo em 45 rotações por minuto, os mods do The Jam gravaram a sua primeira obra prima. A letra é um ataque ao xenofobismo que dominava a ilha da Rainha Elizabeth. A introdução da música te coloca na plataforma do metrô de Londres com o trem passando, enquanto a banda deslancha em seu melhor momento até então. Você sente o drama do

imigrante sendo abordado por racistas no escuro do metrô londrino, enquanto tudo que ele queria era voltar para casa, para sua esposa que o espera para o jantar. Ele apanha e sente o cheiro de seus agressores. Cheiro de “pubs e muitas reuniões de extrema direita”. A partir daí, musicalmente, a quarta marcha é engatada, o refrão alcança sua glória e o The Jam merecidamente ganha o título de maior banda da Grã Bretanha. Parabéns Paul Weller, merecido. Na contracapa, uma foto do Keith Moon, baterista do The Who, que tinha acabado de morrer de overdose. Lightning Raiders “Psychedelic Music / Views”. Inglaterra, 1980. Arista Records. A primeira vez que escutei “Views”, o lado B desse obscuro single, foi no CD “Criminal Zero” do Forgotten Rebels. Os canadenses gravaram esse clássico esquecido do The Lightning Raiders, que lançaram apenas três singles entre 1980 e 81 e nada mais. O mais legal desse, o primeiro, é que foi produzido pelo ex-Sex Pistols Steve Jones, que também toca guitarra nas duas músicas e ainda chamou seu companheiro de banda, o baterista Paul Cook, para dar uma palinha. Esse single é uma joia perdida. O lado A, “Psychedelic Music”, é um tributo power pop à música psicodélica, e é incrível. Mas é no lado B, com “Views”, que a mágica acontece. Em um mundo perfeito, essa banda teria estourado. Nipple Erectors “King of the Bop”. Inglaterra, 1978. Soho Records. Antes de montar a magnífica The Pogues, Shane MacGowan escrevia para fanzines punks e cantava na banda punk Nipple Erectors (Eretores de Mamilos). “King of the Bop” tem um toque de rockabilly, é bacana, divertido, mas é realmente no The Pogues que Shane MacGowan mostra ser um poeta, um dos grandes, se

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Foto: Shutterstock/André Luiz Moreira

não um dos maiores que surgiram das cinzas do punk rock inglês. Essa minha cópia tem uma estória curiosa. Sou aquele cara chato, que garimpa mesmo quando vê uma loja de discos usados ou quando está numa feira de vinil. Anos atrás, eu estava numa feira de antiguidades aqui em São Paulo e tinha um senhor vendendo vinil. Nas caixas dos LPs não tinha nada de interessante para mim, mas vi que ele tinha uma caixa grande, com vários compactos. Pedi para olhar. Só tinha Roberto Carlos, “Capitão Gay” do Jô Soares & Carlos Suely, uns singles nacionais todos detonados, mas continuei fuçando. Quando eu estava para desistir, porque só tinha bosta mesmo, me deparo com essa raridade, capa em perfeito estado. Respirei fundo, tirei o disco da capa para ana-

lisar. Estava novo! Segurei a ansiedade enquanto o coração palpitava cada vez mais forte. A emoção era grande, eu sabia que esse single era bem raro. Como nenhum disco tinha etiqueta de preço, perguntei quanto custava quase gaguejando. “Garoto, esse aí é trinta reais, mas para você faço por vinte”, ele respondeu. Sem falar nada, até porque eu não conseguia, tirei uma nota de 20 do bolso, paguei o cara e fui para casa sabendo que a sorte naquela manhã de sábado tinha sorrido para mim. Pogue Mahone “Dark Streets of London”. Inglaterra, 1984. Antes de virarem The Pogues, eles eram conhecidos por Pogue Mahone, que significa “kiss my ass” em gaélico irlandês. A expressão “kiss my ass” por sua vez, pode ser traduzida para

“vá se fuder” em português. Punk. Esse single foi financiado e lançado pela própria banda, mas depois relançado pela Stiff Records, já como The Pogues. “Dark Streets of London”, escrita por Shane MacGowan, é poesia em forma de música. Alegre e contagiante. Eu posso estar em qualquer canto da Grande São Paulo, no calor tropical de quarenta graus, mas se coloco essa música no fone de ouvido e fecho meus olhos, sou transportado imediatamente para as ruas escuras de Londres cobertas de neve. Já o lado B, tem uma versão impressionantemente triste da música “The Band Played Waltzing Matilda”, que conta a estória de um jovem enviado para a Península de Galípoli, na Turquia, na Primeira Guerra Mundial. Ele perde as pernas na batalha, não pode mais dançar, envelhece, e de sua varanda vê o desfile militar, com heróis esquecidos de uma guerra esquecida. Uma linda estreia para uma banda que, como um bom uísque, só melhoraria com o tempo. Ramones “Rock n’ Roll Radio”. Estados Unidos, 1980. Sire Records. Infelizmente não tenho muitos singles do Ramones, mas tenho esse, com sua capa bizarra e duas músicas incríveis: “Do You Remember Rock n’ Roll Radio?”, produzida pelo maluco/ gênio/assassino/presidiário/falecido Phil Spector, e a balada “I Want You


Around” do filme “Rock n’ Roll High School”. Aliás, a cena em que Joey canta essa música é de outro mundo. A protagonista, uma colegial de lingerie vermelha, fuma um baseado na cama e, intoxicada pela erva do diabo, vê Joey Ramone cantando para ela numa poltrona, enquanto Johnny toca sua guitarra sentado numa cadeira. Ela olha pela janela e Marky está tocando bateria no quintal. Mas cadê o baixista Dee Dee? Não vou dar spoilers, assista no YouTube, vale a pena. The Replacements “I’m in Trouble / If Only You Were Lonely”. Estados Unidos, 1981. Twin Tone Records. Em 1982, minha família se mudou do Planalto Paulista para Ann Arbor, no estado de Michigan, na terra do Tio Sam. Ficamos lá uns quatro anos, enquanto meu pai, um oficial da Marinha do Brasil e engenheiro naval, estava em missão oficial estudando engenharia nuclear na University of Michigan. Meu pai já era colecionador de discos e lá teve contato com o punk hardcore americano. Nessa época, ele testemunhou o The Replacements ao vivo num barzinho em Ann Arbor e trocou ideia com a banda depois do show. Alguns anos depois, The Replacements se tornaria uma das maiores bandas indie norte americanas. Mas nesse single, eles ainda eram uns punks que cuspiam cerveja

nos shows. “I’m In Trouble” é uma das melhores músicas do espetacular álbum de estreia, “Sorry Ma, Forgot To Take Out the Trash” (desculpa mãe, esqueci de levar o lixo para fora). O lado B, “If Only You Were Lonely”, surpreende por ser uma linda balada acústica sobre trabalhar, depois ir beber no bar, ver a garota que você gosta (mas ela não está sozinha), ficar deprimido porque a viu, beber mais, voltar para casa, vomitar na privada e deitar na cama com o mundo girando. Meu pai comprou esse compacto por

apenas $1.99 na loja Schoolkid’s Records, a etiqueta com o preço ainda está na capa. Hoje, é uma raridade. Sex Pistols “Holidays in The Sun”. Japão, 1978. Columbia. Você tira o disco da capa - uma colagem com imagens roubadas de um anúncio de uma agência de turismo belga. Coloca na vitrola. A música começa hipnotizante, com uma batida cadenciada, que lembra soldados nazistas da SS marchando - e creio que essa era a ideia mesmo. O bumbo da bateria logo acompanha a mar-

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Foto: Shutterstock/André Luiz Moreira

cha, enquanto Steve Jones solta uns acordes na guitarra. Paul Cook faz uma virada simples, porém eficiente, na bateria e a paranoia se instaura com Johnny Rotten, cuspindo a frase “férias baratas às custas da miséria alheia” para, logo em seguida, cantar o verso “eu não quero férias no sol, eu quero ir para a nova Belsen, eu quero ver um pouco da história, porque agora tenho uma economia razoável”. Para quem não sabe, Belsen foi um campo de concentração nazista no norte da Alemanha, na cidade de Bergen. O som não é rápido, o vocal não é gritado, mas é um soco no estômago, uma música pesada e densa, apesar de ser contagiante e melódica. Fico pensando como teria sido escutá-la, em 1977, pela primeira vez. Uma experiência e tanto, imagino. Minha cópia é a edição japonesa, lançada um ano depois da edição original. Starjets “War Stories”. Inglaterra, 1979. Epic Records. Quadrinhos de guerra + punk rock = diversão garantida para mim. Sempre gostei de HQs bélicas. Sempre

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gostei de punk rock também, então não tinha como errar com esse compacto aqui, perfeito para meu gosto peculiar. O Starjets é de Belfast, na Irlanda do Norte, e quem cresceu lá nos anos 60 e 70, sabe bem o que é guerra. A banda lançou apenas um LP e vários singles, pela gigante Epic, antes de acabar em 1980. “War Stories”, um punk pop perfeito, foi o ponto alto da curta carreira dos garotos irlandeses. “Do the Push”, o lado B, é uma pérola pop. Um dos meus compactos favoritos. Stiff Little Fingers “Alternative Ulster”. Inglaterra, 1978. Rough Trade. Me interessei pela luta por independência na Irlanda do Norte ainda moleque, por causa do Stiff Little Fingers. Devorei artigos sobre o IRA (Exército Republicano Irlandês), seu braço político, o Sinn Féin, e li a biografia de um dos seus principais líderes, Gerry Adams. Eu queria entender mais sobre as letras e a capa desse single: um garoto irlandês brincando em cima de um muro, enquanto um soldado britânico do exército de ocupa-

ção se protege com seu fuzil. Uma das capas mais simples e marcantes que já vi na vida. Nem aparece o nome da banda, apenas o da música, “Alternative Ulster”, em vermelho, como um aviso de que um dia Ulster (uma das quatro províncias irlandesas) seria livre do domínio britânico. A música é um clássico absoluto do punk rock. Os acordes iniciais já fazem os pelos do braço arrepiar, dando vontade de pegar um avião para Belfast só para arremessar um paralelepípedo em um tanque inglês. Stiff Little Fingers “Straw Dogs”. Inglaterra, 1979. Chrysalis. Seguindo a tradição de capas chocantes, o SLF solta o single “Straw Dogs” em 1979, com a foto de um açougue na capa. Ué, mas o que tem de chocante a foto de um açougue com carcaças de animais penduradas por ganchos em uma vitrine, se você não for vegetariano? Vamos lá, straw dog é uma expressão inglesa usada quando alguém está se referindo a estuprar e pilhar alguém ou várias pessoas. A associação da imagem do açougue com o tema da música, tor-


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na a imagem da capa poderosa. A faixa, sobre soldados mercenários contratados para lutar e matar em guerras é, na minha opinião, a melhor na longa discografia da banda. E não entrou em nenhum álbum. Na época, para escutar esse som, você tinha que comprar esse single. Tom Robinson Band “Up Against the Wall”. Inglaterra, 1978. EMI. Falei sobre o Declan Patrick Aloysius MacManus ter culhão para mudar o nome para Elvis Costello, mas pensando bem, culhão mesmo teve o jovem Tom Robinson. Em uma cena em que Sid Vicious usava camiseta com suástica, ele gravou a música “(Sing If You’re) Glad To Be Gay” (cante se você é feliz em ser gay). “Up Against The Wall”, o terceiro single, foi lançado logo depois, um punk rock que não deve nada às melhores bandas da época. O lado B, “I’m Alright Jack”, é tão bom quanto. Infelizmente, a TRB é uma banda que não tem o reconhecimento que merece. No Brasil, os três primeiros compactos foram compilados em um único LP, “Rising Free”, lançado em 1978 e ainda fácil de encontrar. Fica a dica.

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The Undertones “Jimmy Jimmy”. Inglaterra, 1979. Sire Records. Minha agulha hoje viu o mundo pelos olhos de um assassino, ficou incandescente, pegou fogo, derreteu um compacto, arremessou tijolos em policiais, viajou no trem das drogas, denunciou fascistas, flertou com a psicodelia, passeou pelas ruas escuras de Londres, entrou em apuros, bebeu num bar e vomitou, tirou férias baratas em um campo de concentração nazista e foi para a guerra. Ufa!

Ainda bem que ela aguenta o tranco. Mas agora é hora de pegar leve com a tadinha, então coloco na vitrola o single em vinil verde, edição limitada, da banda irlandesa The Undertones, os reis do punk pop. Aqui é só alegria. O lado A é sobre aquele primo que a família toda acha o máximo, o Jimmy, mas você acha ele um saco. O lado B, “Mars Bars” é sobre chocolate. Gênios. Com esse single, nossa viagem em 45 rotações por minuto pelo maravilhoso mundo do compacto termina. Até a próxima coluna!


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LANÇAMENTO

Por Fernando de Freitas

S U N E V IN A M O T N I S

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ting star, cujas mimetizações foram retratos pálidos. Talvez por não perseguir esse resultado, tendo por influência inicial o underground anglo-saxão, que veio a se desdobrar nos músicos da vanguarda paulistana (Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, entre outros) da década de 1980 - e encontrando as ramificações que perduram até hoje (Kiko Dinucci, Metá Metá) -, a proposta é lançar um projeto que estabelece parâmetros criativos a quem está ao seu redor. Talvez seja aí que se assume a continuidade sonora que ficou órfã desde a morte de Chico Science. (Cabe aqui um aparte: a Nação Zumbi levou adiante o projeto musical iniciado com Chico, sem se tornar uma repetição de si mesma, continuou criando e seguiu um caminho belíssimo, mas com nuances novas. O vácuo deixado por seu primeiro vocalista nunca mais foi preenchido e, acredito, esse foi o melhor caminho para a banda.) Embora, à primeira, audição seja patente a conversa entre voz, sinth e guitarra, as tensões criativas da banda de transparecem conforme as audições se acumulam. O baixo de Patrícia

é elemento central de tensão na música. Seu encontro com a bateria de Duda Jiu ressoa o embate como uma capoeira, que dança e luta. Na atuação de Cint, por sua vez, há uma aspereza entre o orgânico e o sintético que não se resolve na voz. A guitarra encontra seu espaço nesta tensão, costurando no limite das forças contrárias que parecem querer se dissociar. Esse tecido musical é resultado de uma banda absolutamente consciente de sua unidade, de seu lugar enquanto artistas e das questões políticas que se propõe a retratar. Para chegar a este álbum a banda ensaiou durante um ano, várias vezes por semana, ao longo de horas. O ritual e a comunhão permitiram que os caminhos fossem explorados livremente, encontrando e desencontrando a música que produziam. Essa busca perfaz tornar consciente aquilo que se percebe no inconsciente, processo para o qual foi necessário gravar diversos ensaios, ouvi-los, buscar reproduzir, ouvir novamente... em uma dialética que se retroalimenta até que se encontre o ponto que reflete a intencionalidade inicial.

Fotos: Filipa Aurélio i /Divulgação

O

som é denso. O ar que propaga as músicas do álbum Sintoma, da banda In Venus, pode ser cortado com uma faca. A densidade é consequência do peso sonoro e temático. É música feita para externar inconformidade. A dissonância é o incidente que eleva a tensão e nos coloca em posição de escuta ativa. O sintoma deve ser percebido com atenção, a música produzida pela banda não tem a função de preencher o ambiente, pois ela toma e se torna o ambiente que é preciso encarar. Junto com a banda composta por Cint Murphy (voz e sintetizadores), Duda Jiu (bateria), Patricia Saltara (baixo) e Rodrigo Lima (guitarra), a coletiva Formas, formada por Adriana Latorre, Brunella Martina, Camila Visentainer, Erikat, Filipa Aurélio, Thais Lopes e Thamu Candylust, participou da concepção do álbum. Decorrente da necessidade da banda de compartilhar processos criativos entre artistas, surgiu a coletiva, responsável pela concepção visual da obra. Para gravar o álbum, a banda se isolou, entre os dias 22 e 26 de fevereiro de 2020, em um processo de residência artística no interior de São Paulo. Levando o do it yourself à experiência comunitária, a banda divide o processo criativo do álbum enquanto conceito, sem fragmentar o trabalho. Ao aproximar a cadeia criativa, toma para si a direção, sem alienar os colaboradores. O resultado é um álbum extremamente coerente como obra, no sentido amplo. Ainda que a referência não tenha sido proposital, a proposta da combinação melódica das vozes e das guitarras remete ao álbum “Da Lama ao Caos”, de Chico Science e Nação Zumbi, de 1994. A banda atinge um resultado sonoro do qual poucos se aproximaram, pois daquele álbum ( junto com Afrociberdelia) restou a sensação de shoo-

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ENTREVISTA

Fotos:Doouglas Jacó /Divulgação

Por Lucas Vieira

A D I V E D O Ã S S MI

BOLO ÍM S O M O C E U G E S MV BILL IDADE C A D IA R Ó T IS H E DA MÚSICA DE DEUS

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MV Bill tem evitado o tempo vago. Para o artista, o trabalho tem sido de muita importância para manter sua saúde: “Ajuda a ocupar minha mente, dar uma segurada na ansiedade e a pagar as contas aqui de casa”, revela. Sua produção em 2020 foi incessante. Além de vários singles, participou de diversas lives de festivais virtuais e programas de rádio e TV, se apresentando e cedendo entrevistas. Foi também no ano passado que relançou seu primeiro álbum, Traficando Informação (1998), em vinil. O ócio criativo que o agradava foi deixado de lado durante o isolamento social. Já no primeiro mês da pandemia no Brasil, lançou o single “Quarentena”, em que criticava as negligências do governo e expunha a realidade da favela: “As casas não são grandes e geralmente muita gente, aglomeração inevitável, alguns lugares ainda não tem água potável”. Outra reflexão veio com “Isolamento”, em abril. Além de protestar a favor da conscientização e do auxílio para as pessoas mais pobres, declarava como estava lidando com a situação: “Ocupando a mente para não pirar”. Assim como é impossível desassociar a imagem de artistas como Dorival Caymmi da Bahia e Adoniran Barbosa de São Paulo, o mesmo pode ser dito sobre MV Bill e a Cidade de Deus. Porém, a referência vai além da musicalidade e de suas letras. O empoderamento da CDD e de seus moradores é questão central na vida do artista, que luta para o reconhecimento da cultura do bairro da zona oeste do Rio de Janeiro nos territórios físicos e virtuais. Em seu trabalho como músico, MV Bill tomou o cuidado, no começo da pandemia, para que sua equipe não ficasse desamparada. Se organizou e fez o que era possível: “A arte vive da aglomeração. Tem profissionais que estão tendo dificuldade, ficando sem comer. Eu consegui manter minha banda por um período mesmo sem os shows, dando um auxílio. Então nenhum deles levou um susto e ficou sem grana de uma hora para outra”. Como apresentador do programa “Hip Hop Brasil”, o rapper também vai além da música. No ar através da TV por assinatura desde 2014, a atração é motivo de muito orgulho para o artista, que mantém vivo o único programa fora da internet voltado para a exibição de clipes de rap. Com algumas imagens gravadas em locações da Cidade de Deus, filmadas por profissionais do bairro, os primeiros episódios foram realizados durante período de flexibilização, e a temporada corre o risco de precisar ser concluída de forma remota. “Mas parar não vai”, garante MV Bill. Entre as novas atrações do programa, que também inclui entrevistas e matérias, o rapper destaca a participação da diretora Gabriela Katz, que falou sobre outros pontos de vista do gênero musical: “Ela falou do machismo e da falta de visibilidade que um diretor de vídeos de hip hop tem no Brasil. Fa-

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ENTREVISTA lam dos MCs, DJs, talvez no B-Boy e dificilmente no grafitti. Mas além deles existe o beatmaker, roteirista, assistentes e essas pessoas nem são vistas. Em se tratando de show, tem uma equipe enorme, minimizada pelos contratantes que não entendem a estrutura. Existe uma cadeia de profissionais muito grande além dos artistas”.

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VOANDO BAIXO Nascido Alex Pereira Barbosa, aos 47 anos MV Bill tem em seu currículo funções como rapper, ator, escritor, apresentador, produtor musical e ativista, entre muitas outras. Sua carreira na música teve início em 1988, quando começou a compor sambas-enredo com seu pai. Sua primeira aparição como cantor foi registrada na música “Filhos do Brasil”, inclu-

ída na coletânea Tiro Inicial (1993). Em abril, sua discografia atingiu a marca de doze álbuns, complementada por seu novo disco, batizado de “Voando Baixo”. O álbum chegou às plataformas digitais após o lançamento de “Cordão de Ouro”, single feito em parceria com os rappers da Cidade de Deus Gasco, Bragadok e Daime, apresentado no começo do mês com produção de


Montenobeat e Menordosbeats. MV Bill conta que Voando Baixo foi feito “à moda antiga”. Ouviu bastante seus dois primeiros discos (Traficando Informação, de 1998, e Declaração de Guerra, de 2002) e foi na contramão das estratégias mais comuns no mercado atual, com lançamentos sucessivos de singles que posteriormente são reunidos em um álbum. Segundo o rapper, o novo trabalho é uma obra conceitual, em que as passagens e a ordem das músicas são propositalmente pensadas. O artista considera que o processo de produção foi rápido e incluiu participações como Marrom (da banda RZO), DJ Luciano Rocha e Kmila CDD, rapper que é sua irmã e cujo trabalho possui direção musical do cantor. MV Bill afirma que o álbum “é muito condizente com o momento” e reúne crônicas viscerais sobre um Brasil desestabilizado. Foi de encontro às suas raízes musicais, pensou o que precisava ser dito outra vez e trabalhou mensagens e beats novos, tratando de assuntos como o amor em diferentes perspectivas, o protesto político, e ressaltou a importância da união da população contra as injustiças - em especial do povo negro. Entre as 12 faixas inéditas, destaca “Essência”, música com arranjo de cordas em destaque na qual adicionou declarações de moradoras idosas da Cidade de Deus. “Eu quis falar sobre a vivência dentro da CDD e coloquei esses depoimentos sobre como foi passar por todas as etapas da vida e como é estarem vivas nessa idade. São mulheres que me conhecem desde pequeno e trouxeram também uma visão delas sobre mim”. Voando Baixo traz capa assinada pelo Pomo Estúdio, que registra o caos nas comunidades avistado por fotografia aérea. O músico apare-

ce com a mão em riste, em posição combativa baseada em diálogo e conciliação. A posição do artista entre chamas lançadas por um avião particular retrata a polarização nas periferias. A produção musical, mixagem e masterização são do DJ Caique (com exceção para “Milicítico”, feitas por Tibery) e as produções executiva e fonográfica são da MV Bill Produções Artísticas. No começo da carreira você adotou a abreviação “MV” com o significado de “Mensageiro da Verdade”. Há alguns anos você ressignificou a sigla. Em um país marcado pelas fake news se tornou mais difícil comunicar a verdade através da música? Essa alcunha sempre foi muito difícil de carregar, porque a gente vive em um mundo de mentiras, é tipo aquele filme do Jim Carrey [O Mentiroso, 1997] Tente ficar 24 horas sem mentir - você não chega ao fim do dia. Eu criei o MV para me diferenciar do MC, que na época era mais ligado ao funk. Não queria dizer que eu era dono da verdade, meu objetivo era trazer uma verdade dentro de um mundo de mentiras, sabe? Dizer: “Não minta para nós dizendo que vai nos ajudar. A verdade é que você não vai”. Há uns 4 anos, no Twitter, uma menina deu uma nova definição para MV: “Missão de Vida”. Eu achei genial. Assim como Sandra Sá virou “de Sá”, Jorge Ben virou “Benjor”, Mensageiro da Verdade se tornou Missão de Vida. Isso não mudou quem sou, mas o tipo de bandeira que carrego. Hoje ela é mais leve. As mudanças no mundo e na própria favela, mudaram meu modo de pensar e falar, assim como o politicamente correto, o cancelamento da internet. Quando eu fiz “Só Deus Pode Me Julgar” eu não pensava nis-

so, eu citei nomes. Se faço isso hoje sou processado. Esse cenário não gerou uma poda, mas criou um cuidado maior. Desde seu primeiro álbum a crítica política é uma constante, independente do governo. Você considera que nos últimos anos foi necessário intensificá-la? A crítica política sempre foi necessária no meu trabalho. É presente porque as injustiças nunca deixaram de existir. Em governos anteriores a polícia matava pra caralho, tanto ou mais que agora. Sempre existiu racismo, desigualdade, covardia. A favela sempre foi usada politicamente pelos governos, é uma história que não tem santo. É tão feio o quadro que se pinta no Brasil, que você tem que ter o direito de não se identificar com nenhum político. Eu particularmente quero ter a minha liberdade de poder fazer um disco igual o que fiz agora e em 2022 gravar um tão pesado ou mais. A liberdade lírica para mim é muito importante, nunca fechei com nenhum governo para ter minha fala livre. Mas também penso que quem tem um lado deve levantar a sua bandeira, embora eu não tenha. Sei em quem vou votar, escolho o menos pior sempre, mas não faço propaganda. Acho que a pessoa também tem o direito de não votar, já houve eleições em que achei o pleito tão ruim que preferi justificar a me responsabilizar por um voto merda. Para mim é muito bizarro ver hoje político com fã clube. Eles não têm que ter torcida, tem que ter gestão, plano de governo. Sinto muita saudade do tempo em que a gente, o povo, se unia para cobrar os políticos. Para os governantes a situação nunca pode estar confortável, a batata deles sempre tem que estar assan-


ENTREVISTA do. Se estão fazendo algo bom, temos que deixar claro que eles precisam fazer mais. Se estão errados, temos que cobrá-los. Você já produziu um documentário, realiza há sete temporadas um programa que divulga e registra o hip hop no Brasil e, recentemente, falou da necessidade da construção de um museu sobre a Cidade de Deus. Qual importância que você atribui à memória? Se nós, pretos e favelados, não preservarmos a nossa própria memória, ninguém irá. Se matam a nossa história viva, imagina a que já se passou. Nesse sentido, acho muito importante termos uma memória resguardada de forma que possa ser visitada pelas futuras gerações. Às vezes a gente tem dificuldade até de lembrar pessoas e acontecimentos recentes, e a falta de um museu contribui para isso. Então, quando menos percebemos, estamos idolatrando algo que não tem nada a ver com a gente. Acho que a CDD e todas as favelas deveriam ter um museu, porque existem histórias grandiosas nesses lugares que precisam ser resguardadas e essa cultura e os moradores desses lugares estão fora do raio de interesse dos governos. Em 2020, você retratou o COVID-19 nos singles “Quarentena” e “Isolamento”. No ano anterior, antes de existir essa realidade, lançou “Vírus”, canção que fala do racismo como uma pandemia, há anos se espalhando e contaminando as pessoas por todo o planeta. Na sua opinião, de que forma a discriminação racial tem afetado a população negra durante a situação do coronavírus? Em uma pandemia, a tendência é

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que as pessoas com menos grana sofram mais. E nesse cenário predominam as pessoas pretas. É um contexto em que atrocidades e desníveis sociais ficam muito aparentes, principalmente quando não se tem uma política eficaz de combate à crise sanitária. Para a pandemia ainda vejo uma vacina, mas para essa mistura de desigualdade social com racismo eu não enxergo cura. O que podemos fazer é aumentar a nossa qualificação para ocuparmos espaços melhores. E mesmo assim ainda tem muitas empresas que não nos aceitam. Precisamos também ter consciência. Quando comecei a gerar empregos e controlar uma empresa, passei a contratar só gente preta. É uma forma de empoderar outras pessoas e a gente têm que passar a se ver como chefia. Pelo nosso histórico, temos dificuldade de enxergar negros como patrões, mas eu achei que era importante investir nisso. Foi muito difícil, por exemplo, montar uma banda só de negros. Não foi fácil conseguir um trio de metais, violinista e principalmente tecladista preto. Depois eu passei a reparar: a maioria das bandas o cara que toca teclado é um branco de rabo de cavalo. E isso dificulta muito na hora de produzir o trabalho, porque o cara às vezes tem muito estudo, mas não sabe tocar dentro da proposta, entender a dinâmica e fazer aquele “arroz com feijão” excelente que às vezes só precisa ter duas notas. Você já tem mais de vinte anos de carreira e tanto sua forma de compor quanto os beats que você usa nas suas músicas estão sempre se atualizando. O que influencia nesse resultado?

Eu sou da velha guarda, mas nunca tive a mente fechada. Sempre abri os olhos para novidades, porque o rap tem seus subgêneros, novas tendências. Acho importante porque isso renova o ritmo, traz novos adeptos. Tem também seu lado ruim, gente querendo falar de outros assuntos, o que é normal e ter essa abertura acaba se refletindo no meu som, musicalmente e liricamente. Primeiro pela minha leitura, gosto muito de falar de atualidades e retrabalhar assuntos com outras palavras, algo que a língua portuguesa permite muito. No lado musical me agrada mostrar minha versatilidade, meus flows diferentes. Cantar um trap, um boom bap, um funk dos anos 70 suingado com samba. Transitar por essas vertentes, pra mim, é muito bom e traz essa atemporalidade, que tem a ver também com não datar as músicas citando nomes. Não nomear um parlamentar em uma música, por exemplo, não é se abster. É uma medida para não dar uma moral que ele não merece, porque a música fica para sempre. Mas eu posso fazer uma canção que vai servir para ele e para um próximo que entrar, porque a prática política no Brasil não muda nunca, quem manda no país é o centrão. Antes de “Voando Baixo”, seu último lançamento foi a participação em Cordão de Ouro. Como foi essa experiência e qual é a sua relação com os novos rappers da Cidade De Deus? Eu sabia que estava rolando uma movimentação de rappers novos na Cidade de Deus. Mas também sentia que havia um afastamento, talvez por eu ser um cantor reconhecido. Também me dava impressão que ro-


lava aquela marra de rapper. Aí esses músicos se aproximaram com muita humildade e respeito, tinham em mim uma referência e achavam que eu combinava com a onda deles. Eu ouvi o trabalho e achei muito bom. Escrevi a minha parte rápido e me juntei a eles. Por conta dessa qualidade, eu senti que esse trabalho precisava também de um clipe. Eles já tinham um diretor, eu apenas entrei com o capital e a parte em que canto, o mérito musical é todo deles. “Cordão de Ouro” tem letra de rappers da CDD e beat produzido aqui. Eles fizeram um estúdio em uma área em que vi muitos amigos morrerem, então tem muita emoção reunida. Gravamos o clipe em locações remotas do bairro, em um dia com menos gente na rua. In-

dependentemente do resultado, celebrar isso em vida pra mim é muito emocionante. Eu sempre sonhei com um estúdio dentro da Cidade de Deus. Antigamente eu ficava sabendo um dia antes que teria que ir para São Paulo gravar voz. Pegava ônibus meia noite, chegava na rodoviária Tietê às seis da manhã. Lá eu entrava no metrô, saltava na estação Liberdade, ia andando até o Estúdio Ateliê e ainda tinha que ficar esperando o horário de abrir. Muitas vezes quando não conseguia quarto ainda tinha que voltar para o Rio no mesmo dia. Você está sempre em diálogo com os artistas que surgem no universo do rap, geração após geração. Que mensagens os rappers atuais

estão transmitindo que você considera importantes? O que eu acho muito maneiro é a liberdade que as e os MCs têm hoje. Poder falar um pouco mais de diversão, de sexo, dos prazeres da vida sem se sentir pudorizado por conta disso. A minha geração foi muito conservadora quanto a essas questões. Você vê que alguns raps dos anos 1990 e 2000 pareciam professores falando em cima das batidas. Para seguir, eu tive que ficar mais suingado, malemolente, sarcástico. Até a minha forma de cantar e dizer as palavras hoje são diferentes. É essa liberdade da nova geração que eu admiro muito, de poder falar sobre qualquer assunto do seu próprio jeito, sem precisar seguir um modelo.

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ENTREVISTA

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Segundo declaração sua, um dos motivos que te afastou do crime foi ter percebido que um dos principais destinos desse caminho era a morte. Hoje, com uma carreira consolidada como artista, qual é a sua relação com a morte? Ainda tem medo de morrer? Antes eu tinha medo pra caralho de morrer, ainda sou um cara muito medroso. Essa coisa de perder a vida de bobeira, numa discussão política, briga de trânsito, ser atropelado, sofrer um acidente. Mas é um destino comum e acho que a gente tem que encarar com naturalidade. Eu vivo cada dia de forma intensa, acordo agradecendo a Jah pela vida e vivo como se cada dia fosse o último. Eu vi uma frase do Chico Anysio, de poucos dias antes de sua morte, em que ele disse que não tinha medo de morrer - tinha pena. Viver é tão bom, tão legal, que dá pena de deixar esse mundo, mas é o destino de todos. Então acho que a gente tem que viver, aproveitar. É o que tento fazer: deixar a minha marca. E acho que consigo pelas coisas que já construí, por ter meu público e uma obra que eles não vão deixar que morra. Muitas coisas que a gente faz hoje vão imortalizar a gente amanhã. Então precisamos fazer as coisas bem e viver bem para que no futuro sejamos lembrados.

O ENCONTRO DE MV BILL E CHUCK D NA CIDADE DE DEUS Durante a entrevista, MV Bill contou que a pandemia também decretou o fim de sua coleção de LPs. Apesar de ter doado a maior parte das bolachas para uma instituição leiloar, o artista guardou algumas preciosidades, como o álbum “Fear Of A Black Planet”, lançado em 1989 pelo grupo de rap Public Enemy. O rapper aprecia tanto a obra que também tem sua versão em CD, que guarda com mui-

ta honra por conter um autógrafo de Chuck D, líder da banda. O encontro ocorreu em 2003, quando o Public Enemy veio ao Brasil para tocar no Tim Festival, no início do mês de novembro. Ao se apresentar no Museu de Arte Moderna, na zona sul do Rio de Janeiro, um estranhamento tomou o rapper americano: “Ele sacou que aquela plateia de fãs brancos, de classe média, que assistiram à apresentação não era o Brasil que ele tinha estudado. Aí ele ficou sabendo que estava rolando o festival Hutúz e entrou em contato com a organização”, conta MV Bill. O Public Enemy teve grande participação naquela edição do festival voltado para o hip hop brasileiro. Se apresentaram e até entregaram o principal prêmio da noite ao RZO. Segundo o depoimento de MV Bill, naquele mesmo período Chuck D fez um tour guiado por ele pela Cidade de Deus: “O Chuck jogou taco [brincadeira de rua tradicional no Rio de Janeiro] na Cidade de Deus. Quando ele viu a molecada, eu expliquei: “It’s brazillian baseball” e ele riu muito. Eu disse que não sabia muito de inglês, mas conseguimos nos comunicar bem. Quando passamos perto de um ponto de tráfico ele perguntou “drug dealer?”. Eu afirmei e ele disse “Same old shit”, dizendo que era igual ao lugar de onde ele veio.

Ver o Chuck D falando que se identificou com o nosso lugar foi muito emocionante. Eu disse para ele que gostava muito do Public Enemy e que, mesmo sem entender bem inglês, a raiva com que ele cantava em clipes como o de ‘Brothers Gonna Work It Out’ traduziam para mim a mensagem da música sem eu conhecer o idioma”. Cinco anos depois, em 2008, foi a vez do reencontro. MV Bill estava em Washington D.C. para participar de um ciclo de palestras promovido pela National Geographic Channel e, em uma das apresentações, Chuck D estava na primeira fila. Depois, no camarim, foi a vez do músico do Public Enemy se declarar: “Eu mostrei o clipe de ‘Preto Em Movimento’ para ele e recebi uma retribuição. Ele disse que, assim como na minha relação com o Public Enemy, ele não entendia a letra da minha música, mas o clipe transmitia toda a mensagem. Aí quando ele fez essa revelação eu falei: ‘Já que tu tá falando essa porra vamo fazer uma parceria logo’, e ele topou”, conta MV Bill. A parceria aconteceu e está registrada na música “Transformação”, do álbum “Causa e Efeito”, de 2010. Contando também com produção de KL Jay (do grupo Racionais MCs), a faixa se tornou um dos destaques do disco.

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RESENHAS CATALÉPTICOS – HUNGRY FOR MEAT, THIRST FOR BLOOD

aparecia uma banda de rock com sonoridade mais experimental na cancha do mainstream, principalmente com um vocal feminino, eles eram comparados ao grupo de Rita e dos irmãos Dias Batista (Alô, Pato Fu!). A questão é que isso foi extremamente injusto com essas bandas, é como ser eternamente comparado aos Beatles (Kurt Cobain dizia que Mutantes era JADSA – OLHO DE VIDRO Quando 2021 chegar ao fim, as fa- melhor que Beatles). migeradas listas apontarão o álbum de Jadsa como um dos melhores (seDe uns anos para cá, esse fantasma não o melhor) do ano. Produzida por esmaeceu. Foi assim que passamos a Jadsa e João Meirelles, ela apresenta uma geração que ouviu e entendeu um trabalho impecável de voz, explo- Mutantes. Sophia Chablau é exatarando seu timbre limpo e macio em mente o caso. Neste álbum de estreia, canções pungentes. Na certeira faixa produzido por Ana Frango Elétrico, “Sem Edição”, Jadsa faz um groove recebemos um produto bem-acabado certeiro, cheio de referências (de Gal e original, desamarrado da obrigato- que aparece outras vezes ao longo riedade comparativa com o passado, do álbum - a Tulipa Ruiz). mas que bebe o licor produzido por A dinâmica entre voz e contrabai- eles. Ressoa lindamente o melhor da xo reforçam um balanço aos quais música alternativa paulista dos úlos demais instrumentos dão o brilho timos 60 anos, sem nenhum pé no minimalista. É um álbum sem sobras, desgastado pop-rock. Está ali a vanjusto, que se veste com elegância. guarda dos anos 80 e sons despreCom as participações de Kiko Di- tensiosos e resistentes dos 90 (que nucci, Ana Frango Elétrico, Josyara e ainda ensaiam ser resgatados com Luiza Lian, a força e o balanço fazem ares cult). deste lançamento um potencial clásRock com bossa nova, tropicália, sico. regionalismo, timbres distorcidos entremeados por violões e um lugar SOPHIA CHABLAU E UMA ENORME confortável para viver os desconfortos e reflexões. É a rede na varanda PERDA DE TEMPO Durante muitos anos, erámos ór- de um apartamento no centro de São fãos dos Mutantes. Toda vez que Paulo.

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Esqueça os fones de ouvidos. “Hungry For Meat Thirsty For Blood” é o nome do novo EP do Catalépticos, e a banda prensou um vinil 10”, pela gravadora paulista Neves Records, para ser ouvido nas maiores e mais potentes caixas de som que você tiver disponível. O álbum conta com duas faixas de estúdio - “Hungry For Meat Thirsty For Blood” e “Death March”, disponíveis nas principais plataformas digitais desde 2020 - e outras quatro gravadas ao vivo no festival Psycho Carnival em 2020 - “Death Train”, “Psychopath Fever”, “Freaks!” e “Brand New Cadillac”, exclusivas para a versão em vinil. Na era dos streamings e sons magros dos celulares e caixas minúsculas, faz falta aquela música que mexe o ar com pancadas de bateria, riffs rápidos e baixo preciso. É isso que propõe a banda de Curitiba e que apenas a música de nicho realmente permite. Psycho Billy da melhor qualidade e analógico.


LUNA VITROLIRA - ÁLBUM E FILME ‘AQUENDA - O AMOR ÀS VEZES É ISSO’

Luna Vitrolira acaba de lançar um dos álbuns mais aguardados dos últimos anos. Quando uma das mais talentosas poetas de sua geração (e não só de sua geração), laureada com um prêmio Jabuti, se propõe na transformar em música sua criação em um projeto de três anos, a expectativa se instala. Quando esse álbum é produzido em conjunto com Amaro Freitas, quando Xenia França dá sua participação e quando tudo isso é acompanhado por um filme, sabemos que temos um álbum para entrar no cânone. A poesia poderosa de Luna entrega os temas crus em declamações ainda mais fortes. É o olhar reflexivo e doloroso da realidade da mulher, da mulher negra, da mulher negra e periférica. É a realidade em beats e arranjos. É a música que te arrebenta por dentro. É poesia que te reconstrói do nada. É arte em estado puro. É Luna Vitrolira, poeta de ofício, fazendo o que faz melhor, mostrando a verdade de Luna Vitrolira.

YARD OF BLONDS – FEED THE MOON A banda californiana Yard Of Blondes lançará seu álbum de estreia, “Feed the Moon”, que ouvimos antecipadamente na redação, em 19 de maio de 2021. Com um rock bastante melódico e pesado, a banda retoma uma sonoridade clássica dos anos 1990, quando a música alternativa podia ser simples e bem tocada. “Feed The Moon” é o resultado da colaboração da banda com Billy Graziadei (fundador da banda Biohazard), que produziu o álbum. A mixagem ficou aos cuidados de Mike Patterson (Nine Inch Nails, Black Rebel Motorcycle Club, Beck) e Maor Applebaum (Faith No More) masterizou o álbum. Com esse time, a sonoridade não poderia ser outra, senão as irrepreensíveis guitarras distorcidas, bateria de acompanhamento rítmico apimentado e baixo denso. Destaque para as faixas “Do You Need More”, que abre o álbum, e “You

And I and I”, com contraste entre a voz principal masculina e a linha de backing vocal feminina. Aposta old school de um som que não envelhece jamais.


O INSTITUTO ENTREVISTA

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Por Felipe Ricco


I L A E R O T R E B O R

Fotos: Divulgação

Fala Roberto, muito obrigado por topar a entrevista. Primeiro gostaria que você falasse um pouco sobre você. Obrigado pelo convite, é um prazer bater um papo com vocês. Sou formado em design de produto. Depois da faculdade, trabalhei com a fabricação de equipamentos, acessórios e conteúdo de skate e wakeskate. A paixão pela guitarra e pela música falou mais alto e, desde 2014, atuo somente com luthieria e fabricação de guitarras. Como você começou na luthieria? Assim que ganhei minha primeira guitarra já estava desmontando ela com as ferramentas de meu pai, tentando aprender como tudo funcionava, e fui me interessando cada vez mais. Comprava sempre revistas GuitarPlayer, Cover Guitarra, Total Guitar… e tudo que achava sobre guitarras à procura de informação. De tanto mexer na minha guitarra, fui aprendendo e logo já estava regulando as guitarras de meus amigos. Quando tentei construir uma guitarra, percebi que não conseguiria fazer sozinho, que tinha muita a aprender. Cursei a B&H Escola de Luthieria e, desde então, não parei mais de estudar o assunto. Os instrumentos que você constrói tem o design bastante autoral num mercado onde os desenhos são replicados à exaustão. Qual a importância de criar os seus próprios modelos? Sendo formado em design, gosto e valorizo novas ideias. O mercado ainda é um pouco fechado para coisas novas. A maioria ainda procura pelos desenhos mais “clás-

sicos”, pois são o que seus ídolos tocavam… Mas, atualmente, a procura recai cada vez maior sobre novos shapes e venho recebendo muitos comentários positivos sobre meus modelos, o que me incentiva a querer criar mais. Fala sobre o seu processo de construção e sua escolha de fazer tudo de forma artesanal. Qual a motivação para construir dessa forma? Faço todos os meus instrumentos de forma totalmente artesanal, utilizando basicamente as mesmas técnicas de luthieria de antigamente, construindo poucos instrumentos ao mesmo tempo, podendo assim focar em cada detalhe da fabricação de cada um deles, desde a escolha das madeiras até o acabamento. Como você vê o mercado da luthieria hoje em dia, com o advento da pandemia? Como todas as áreas, a pandemia afetou o mercado de luthieria. Mas nada melhor do que tocar guitarra para enfrentar a quarentena, não acha? Falando em pandemia, por conta da quarentena as pessoas andam buscando cursos online, qual sua opinião sobre aprender luthieria online? Acho que todo acesso a boa informação é sempre válido e bem-vindo. Cursos focados em regulagem e manutenção acho super válidos, assim como os voltados em construção, porém para este acho que o aluno já deva ter alguma experiência prática com madeira, ferramentas e algumas máquinas, por questões de segurança.

Sobre aulas, você já pensou em ensinar luthieria? Sinceramente nunca pensei, mas porque não?! Quais as maiores dificuldades você teve ao montar a Reali Guitars? A maior dificuldade foi começar, dar o primeiro passo. Montar a oficina, aquisição de máquinas, ferramentas, conhecimento e experiência, são coisas que levam tempo e cada uma delas tem a sua dificuldade. E realizações? Pode dizer coisas que te deixaram orgulhoso à frente da sua luthieria? Cada guitarra construída é um motivo de grande orgulho, cada novo passo conquistado, etapa de fabricação otimizada, cada cliente satisfeito é motivo de muito orgulho. Quais conselhos daria para quem está começando no ramo? Meu conselho é dedicação e sempre dar o seu melhor. Querer sempre aprender mais, estudar, ter persistência e paciência. Aprender com seus erros e acertos, e principalmente acreditar no que faz. Fazendo um exercício de futurologia, quais são os planos para a Reali daqui pra frente? Construir mais, novos modelos, e guitarras cada vez melhores. Pra finalizar, manda um recado para os leitores. Agradecer a todos do Instituto pelo convite e poder falar um pouco sobre meu trabalho. Convido todos para acompanhar meu trabalho através do Instagram @realiguitars.

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HOMENAGEM Por Érico Malagoli

José Mário Malagoli foi um dos guitarristas do “The Thicks”, banda do bairro da Pompéia que experimentou sucesso regional em São Paulo. Na época, os instrumentos musicais, em especial a guitarra elétrica, eram caros e difíceis de achar. Na época, a demanda crescente não encontrava oferta em um mercado que havia se especializado em violões para Bossa Nova. Foi por isso que José e Carlos Alberto Malagoli (irmão e membro da banda) acabaram por fazer, eles mesmos, seus próprios instrumentos “do zero”. Eram instrumentos 100% artesanais, incluindo as pontes e os captadores. Foi o começo da Malagoli, nos anos 60. A genialidade e criatividade de José, que desde criança desenvolvia seus primeiros equipamentos

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eletrônicos, enquanto a meninada jogava bola, foi decisiva para o pontapé inicial e sucesso da empresa. A Sound e a música brasileira passaram a se confundir. Suas guitarras passaram pelas mãos de muitos músicos. Os cavaquinhos viajaram o mundo. O famoso pedal com sirene esteve sob tantos pés (e hoje é cobiçado pelos colecionadores vintage). E os captadores, que hoje transformam qualquer guitarra em uma máquina de

timbres, passando por uma loja na Rua General Osório. Com certeza, uma grande perda para a família, amigos e para a empresa. Jose M. Malagoli deve estar solando Jet Blacks junto de seu irmão, Duílio, em algum lugar do céu. Descanse em paz, meu tio.


COXIA Anneliese Kappey

Ana Sniesko Erico Malagoli

Camila Duarte Fernando de Freitas

Henrike Balíú Ian Sniesko

Luis Barbosa

AFINADA PARA QUEM GOSTA DE MÚSICA

Lucas Vieira

440 Hz


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Revista 440Hz Ed. 9  

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