Revista 440Hz - Ed.8

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440 Hz

SUKA

E O CAMINHO DE MÁRMORE

AFINADA PARA QUEM GOSTA DE MÚSICA

WARNING!!!

OS ARTISTAS QUE FARÃO 2021

ANDRÉ

ABUJAMRA O FOGO DE EMIDOINÃ



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SUMÁRIO 06 NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS 24 as bandas que devem bombar em 2021 prevendo o imprevisível 29 COLUNA ERICO MALAGOLI 30 SUKA FIGUEIREDO o saxofone e a resiliência 32 CHICO CHICO Ttalento e fama 34 SISO um sábio pop 38 CAPA - ANDRÉ ABUJAMRA 44 GLASS CAVES REVIEW 46 COLUNA SUSPECT DEVICE 54 O INSTITUTO ENTREVISTA Gustavo Konno

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EDITORIAL SENSIBILIDADE EM ESTADO BRUTO Nós pulamos uma edição. Os últimos meses foram bastante intensos e optamos por não publicar em dezembro. Mas, como sempre, o retorno de nossos leitores foi uma alegria. Uma de nossas conquistas foi estreitar os laços com artistas e selos de fora, o que deve enriquecer nossas próximas publicações (em conteúdo, é claro). Tenho pensado muito em como as músicas me fazem viajar por paisagens que guardo dentro de mim. Lugares em que não estive, inclusive, estão vívidos quando fecho os olhos. Eu sou transportado constantemente por ruas e estradas, bares e casas de shows e até pelo tempo. A música me liberta enquanto a irresponsabilidade das autoridades nos aprisiona em fronteiras, cidades, em nossa casa e em nosso medo. Se, por sobrevivência, eu faço a escolha de ficar em casa a maior parte do tempo, esse mesmo instinto me faz ouvir, faixa a faixa, cada artista que encontro. Essa é uma edição de artistas que transcendem em suas músicas. De pessoas que fazem música que dá sentido à vida e dão suas vidas para a música. Em diferentes graus de fama e pontos da carreira, cada artigo desta edição retrata o estado bruto da sensibilidade musical. Da mesma forma que a música me liberta, aqueles que estão retratados aqui são paladinos desta liberdade. Fernando de Freitas

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Edição 8 - Fevereiro 2021 Diretora de Redação Ana Sniesko Editor-chefe Fernando de Freitas Assistente editorial Ian Sniesko Arte e diagramação Dupla Ideia Design Direção de arte: Camila Duarte Diagramação: Fernando de Freitas Revisão Luis Barbosa Colaboradores Anneliese Kappey, Carolina Vigna, Erico Malagoli, Matheus Medeiros, Henrike Baliú Imagem da Capa: Luciano Lagares Estudio Open The Door/ Divulgação

Foto: Arquivo Pessoal

A Revista 440Hz é uma publicação da Limone Comunicação Ltda.

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Caixa Postal 74439 São Paulo, SP, CEP: 01531-970 contato@revista440hz.com.br


Todas as edições disponíveis em nosso site gratuitamente www.revista440hz.com.br


DESEJOS E CAMINHOS

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lançamento do álbum coloca um fim à espera que começou no ano passado com “Shame Shame” (ocupando a 1ª posição em Mainstream Rock/Rock Airplay na Billboard), além de “No Son of Mine”. O lançamento de Medicine at Midnight encerra a parceria de uma semana do Foo Fighters com o Spotify, que incluiu ‘Doses à Meia-noite’ de conteúdo exclusivo na forma de vídeo, áudio e lista de reprodução. Medicine at Midnight foi produzido por Greg Kurstin e pelo Foo Fighters, projetado por Darrell Thorp e mixado por Mark “Spike” Stent. Os integrantes da banda Foo Fighters são Dave Grohl, Taylor Hawkins, Nate Mendel, Chris Shiflett, Pat Smear e Rami Jaffee.

FOLK SUECO

Com referências musicais enraizadas nas tradições americanas e no indie folk, o folk sueco e o cantor e compositor HB Nielsen começa o ano com o lançamento do último single, Can’t Seem To Recall, que faz parte do seu próximo EP” It’s Today Again “. O trabalho é resultado de uma aventura por Nova York, onde perambulou com um caminhão, onde o violão era o seu companheiro. A música já está nas plataformas.

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Fotos: Danny Clinch / Divulgação

NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS


Um grito de liberdade artística, esse é o Voz Festival – Arte e Diálogo. Com o intuito de ampliar a voz de artistas da cena independente, com trajetórias ligadas a luta pelos direitos das pessoas que sofrem racismo, preconceito, discriminação e violência, foram 4 dias com uma programação rica com música e poesia. O evento ainda foi marcado por rodas de conversas sobre temas urgentes. Entre os convidados, a multiartista e ativista pelo direito à moradia no MSTC Preta Ferreira, a apresentadora do programa de TV Drag Me As A Queen Rita Von Hunty, além da produtora e influenciadora digital Dandara Pagu, o cantor e compositor Chico Salem e a ativista contra abusos em meios espirituais Tatiana Badaró, para citar apenas alguns. Se você perdeu, corre no canal do Festival para conferir como foi.

FARO NA NOVA BRASIL Apresentada por Fabiane Pereira, também idealizadora do canal de YouTube Papo de Música, a atração pretende trazer um olhar mais atento às novidades da música brasileira. O programa, nascido na extinta MPB FM, passou pela SulAmérica Paradiso, pela MOOD FM (todas no dial carioca) e, agora, ganha uma nova casa. Fabiane passa a integrar a programação da Nova Brasil FM e já abriu a estreia com Letrux. A Nova Brasil está presente em 11 praças: São Paulo (89,7), Rio de Janeiro (89,5), Recife (94,3), Salvador (104,7), Brasília (97,5), Campinas (103,7), Araçatuba (95,5), Ribeirão Preto (91,3), Fortaleza (106,5), Maceió (106,5) e Aracaju (93,5) alcançando mais de 400 cidades brasileiras.

Fotos: Bárbara Lopes / Divulgação

A PRIMEIRA VOZ

NARA E A RESISTÊNCIA

Em Ninguém pode com Nara Leão, que chega às lojas pela Editora Planeta, Tom Cardoso reconstrói a vida da artista que participou dos mais importantes movimentos musicais surgidos a partir da década de 1960, que, tratada como ‘café com leite’ pela patota que se reunia no apartamento da família em Copacabana, deixou a bossa nova para se juntar à turma politizada do CPC e do Cinema Novo e foi a primeira estrela da MPB a falar abertamente contra a ditadura militar. Na biografia, que traz prefácio de Tárik de Souza, Tom apresenta passagens da infância de Nara, marcadas pela angústia e reclusão, detalhes da inimizade com Elis Regina, dos famosos encontros no apartamento da Av. Atlântica, onde a bossa nova ganhou corpo, cara e nome, do relacionamento com Ronaldo Bôscoli, da amizade com figuras como Vinicius de Moraes, Roberto Menescal e Ferreira Gullar.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

TITA LIMA CANTA DA CALIFÓRNIA Fotos: PAna Paula Muniz / Divulgação

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projeto The Quarantine Experience chega ao seu 28º episódio com a cantora e compositora Tita Lima, que traz “A Novidade”, faixa do seu terceiro álbum Titanium, os anteriores são 11:11 (2007) e Possibilidades (2010). “Música e letra original são de Ricardo Kudla, minha e de Cris Cado fizemos a letra da parte em inglês que encaixou perfeitamente. A letra fala sobre estar no pico da meia idade, feliz e satisfeito com a rotina, rodeado por experiências e pessoas incríveis. Fala sobre focar no positivo para se ter beleza e abundância diariamente. Os arranjos são do Miranda, adoro os teclados e a guitarra dessa música!”, conta Tita Lima. Esta foi uma das últimas produções de Carlos Eduardo Miranda, que morreu em março de 2018 e tem várias parcerias com Tita. Radicada em Los Angeles há seis anos, a artista gravou as imagens para o clipe em Las Vegas e no Deserto de Joshua Tree.

ROCK ELETRÔNICO CARIOCA

Latexxx é um duo de rock eletrônico formado em 2018 no Rio de Janeiro por Gabriela Camilo Fabio L. Caldeira. Ela de formação clássica e inclinações dance (voz, synths, piano e programações), já ele egresso de experiências mais roqueiras (voz, guitarra, synths e programações), ambos entusiastas dos recursos musicais eletrônicos. A dupla lança seu primeiro álbum, autointitulado, e um clipe para, “Tem o mapa do meu corpo na sua língua”. A dupla ainda embarcou na produção de um EP inédito, em edição limitada, que ainda inaugurou o Selo Baratos/ Clube do Vinil.

ESTREIA AOS 74 ANOS

Já está no ar em todas as plataformas de streaming “B4 the place bun down” por Samy Keith & Quintal do Caribe. O disco tem 9 faixas e foi produzido por Gustavo Trivela (The Bombers) e Marcozi dos Santos (Same Flann Choice). O disco além de um resgate do cancioneiro tradicional do Caribe, traz o encontro do reggae e do mento com a música popular brasileira resultando em uma sonoridade única. O álbum é o primeiro registro do cantor caribenho Samy Keith de 74 anos. Ouça: https://bityli.com/xsGh4

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A cantora e compositora paulistana Nathalie Alvim acaba de lançar “Azul Salgado” em todas as plataformas digitais. Composta pela artista, a melodia surgiu durante uma viagem, que serviu de “limpeza” para o período de vida que Nathalie passava, com turbulências, términos e tomadas de decisões. “Comecei a tentar encaixar as palavras que vinham bem intuitivamente com aquela sensação de leveza”, comenta. Em um processo introspectivo, o novo single prova que o momento de reflexão intensa vale para todos. Conhecida por passar pelo The Voice Brasil (2014), no último ano a artista apostou em um financiamento coletivo para dar start em uma nova fase de sua carreira, com singles que completarão o EP “Outro”. Dessa vez, Nathalie apresenta suas próprias composições com arranjos que foram construídos pela cantora junto ao produtor musical Ricardo Prado e, em algumas faixas, parceria de composição com Ivan Liberato. “Azul Salgado” pode ser ouvida em todas as plataformas digitais.

GINGA DE JADSA A artista baiana Jadsa abre os caminhos de seu primeiro disco cheio, “Olho de Vidro” (Natura Musical), com o lançamento do single “A Ginga do Nêgo”, que chega às plataformas digitais no dia 5 de fevereiro pelo selo paulistano Balaclava Records. OUÇA AQUI A faixa é uma das diversas parcerias de Jadsa e do baixista Caio Terra, que a acompanha nos palcos desde 2014 e é responsável pelo arranjo da música. “Na letra eu sinto que tem uma raiva, vontade de explodir tudo, olhar para a frente e seguir. Essa força eu sinto em Exú, por isso o cito”, diz Jadsa sobre a composição, que inicialmente era um poema e foi adaptado para o arranjo de baixo.

Ouça: https://tratore.ffm.to/azulsalgado

Foto: João Milet Meirelles / Arte: Lia Cunha

AZUL SALGADO

Mesmo com o cancelamento do Carnaval em 2021, ficaremos sem ouvir os “clarins de Momo” soando pelas ruas do Recife e ladeiras de Olinda, mas o frevo ainda resiste pelas mãos de artistas pernambucanos que estarão na coletânea O Ano que Não Teve Carnaval, que tem direção musical/curadoria do músico recifense Juvenil Silva. O trabalho reúne 13 artistas, com suas canções de “cunho carnavalesco”, entre frevos e “ousadias” a partir do gênero. Desses, dois nomes apresentam músicas inéditas: Dunas do Barato, com Você pensa?, e Evandro Negro Bento, com Calote na vida.

FotosDivulgação

INDEPENDENTES CELEBRAM O FREVO

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS BOWIE NO TIKTOK O TikTok anuncia que, em comemoração ao aniversário de 74 anos do artista David Bowie, todo o seu repertório está disponível no aplicativo para seus usuários e criadores de conteúdo! O canal dele no TikTok está no ar em @DavidBowie, trazendo vídeos icônicos de sua vida e trabalho ao longo de mais de cinco décadas de inovação e reinvenção. E, a partir domingo, dia 10 de janeiro, para marcar os cinco anos de sua morte, será lançado o desafio #TheStarman. Usando a faixa Starman - lançada pela primeira vez em 1972 como o single principal de The Rise and Fall of Ziggy Stardust e The Spiders from Mars - a comunidade TikTok se reunirá para celebrar a vida e trabalho de Bowie, recriando seus olhares icônicos ao longo dos anos.

IGGOR CAVALERA

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baterista Iggor Cavalera lançou criou uma conta no Patreon, onde irá disponibilizar conteúdos exclusivos e diferenciados para seus fãs. Há dois níveis de contribuição, com diversas recompensas. No último mês, Iggor lançou seu canal no YouTube, onde está postando a série de vídeos “Beneath the Drums”, onde disseca grandes momentos de toda sua carreira, tocando músicas e contando mais sobre seu processo de criação. O Patreon de Iggor Cavalera oferece duas modalidades. Uma delas é a “Bloody Roots”, com valor mensal de 30 dólares, que dá direito ao fã de obter as faixas de bateria em formato wav para tocar junto e aprender. O patreon VIP “Beneath the Drums” prevê, por 50 dólares mensais, além de todos os benefícios da modalidade anterior, conversas online via “Zoom” após cada estreia de vídeo da série que ele postar no YouTube.

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PARA OUVIR UM SOM

Beats Flex chega às lojas da Apple no Brasil, com tecnologia flexível, além da experiência de uso e som diferenciados. Conta com estrutura leve e confortável e é o fone premium sem fio mais econômico já lançado na história da Beats by Dre. Uma das principais novidades do Beats Flex é a presença de ímãs na sua estrutura, o que torna as funções de reproduzir/pausar automáticas. A música toca quando os fones estão nos ouvidos e pausa quando eles são deixados em repouso ao redor do pescoço. Conta com qualidade sonora semelhante a outros modelos da marca, além de 12h de bateria. Preço sugerido R$ 579.

Fotos: Divulgação

APRENDA COM


MAMMA SYSTEM

A cantora e compositora paraense Thais Badu lança no dia 29 de janeiro o seu álbum de estreia, Mama System (Natura Musical). A obra, que também tem o patrocínio do Banco da Amazônia, traz o conceito de um sistema de som que não segrega ninguém, mas, sim, agrega a diversidade e tudo que o sistema opressor tenta destruir. É sobre força, coragem e incentivo para realizar seus sonhos. Das sete faixas, seis têm participação especial de nomes como Tchelinho (Heavy Baile), Luisa Nascim (Luisa e os Alquimistas), entre outros. “Mama System vem contando a minha trajetória que, ao mesmo tempo, se interliga com a história dos meus ancestrais. Entendi que meu objetivo na terra é fazer minha arte e, através disso, empoderar outros corpos a acreditar em si mesmos”, explica Badu. “Nada é em Vão”, single com clipe já apresentado para o público, abre o álbum falando exatamente sobre não desistir nunca de seus sonhos.

ÉPICA GREGA NA PERIFERIA PAULISTANA

A dramática história de amor de Orfeu e Eurídice ganha vida nas periferias paulistanas. Encenado pelo grupo Tô em Outra Cia e dirigido ao público jovem, na faixa entre 12 e 29 anos, o espetáculo Das Ruas, um Orfeu de Mochila - o Musical faz apresentações no formato digital nos dias 1 e 2, 8 e 9, 15 e 16 de março, segundas e terças, às 20 horas, com ingresso gratuito. A encenação acontece ao vivo com atores e banda no palco do Viga Espaço Cênico. As transmissões serão pelo Youtube e redes sociais do grupo. Ao som de samba, funk, rap, pop e gospel, a mitologia grega é transposta para a realidade das periferias com ritmo ágil e dinâmico. Vencedor em sete categorias de prêmio de teatro independente, fala da importância de ter protagonistas negros no teatro musical. O espetáculo é composto por 15 músicas e tem uma 1h20 de duração.

PERSIE CANTA O AMOR

Conexão é a palavra-chave do novo single de Persie, “Antenas’’. A faixa remete à uma das formas mais antigas de comunicação para abordar a intensidade dos relacionamentos contemporâneos. A canção é regada de synthpop e conta com nuances doces e melancólicas. Na ocasião, a cantora se inspirou em artistas de diferentes nichos, como Guilherme Arantes, Can e Faust, Stereolab e Tomaz Méndez. O Studio Vip foi o palco para as sessões de gravação. Persie venceu um concurso e ganhou a possibilidade de desenvolver toda a produção da música no local.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS DUAS EM UM

NOVO ÁLBUM DA BANDA KATARSE “dançantefilosóficofuriosotosco”

Esse é o nome do novo álbum da banda Katarse. Como o próprio título compila, é uma banda de música dançante, filosófica, furiosa e tosca. O álbum não deixa dúvidas a respeito dessa alcunha. Disponível nas plataformas digitais. Ouça: http://www.

tgreguol.com.br/blog/ dancantefilosoficofuriosotosco/

JULIA MESTRE

CANTA RITA

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om 24 anos, Julia contabiliza em sua discografia: o EP Desencanto (2017), o disco GEMINIS (2019), três singles e um álbum ao vivo. A lista está prestes a ficar mais extensa com o lançamento do projeto Faro Apresenta: Julia Mestre canta Rita Lee, no qual a artista apresenta duas versões para músicas da rainha do rock brasileiro. São elas: “Agora Só Falta Você” e “Papai Me Empresta o Carro”. “Ela me inspira dentro e fora dos palcos, porque eu também sou uma menina querendo fazer música. O meu sonho é tocar pelo mundo afora”, comenta.

Ouça: https://backl.ink/143715589

NOVO LIVRO DE T. GREGUOL “Antes de Saber Eu Também Não Sabia” (2020) é o novo livro de T. Gregol. O autor conduz 160 entrevistas excêntricas com pessoas tipo Ana Roxo, Edgard Scandurra, Eduardo Suplicy, Juninho Bill, Letrux, Lord Vinheteiro, Monja Coen, Ná Ozzetti, Rita Von Hunty, Sidarta Ribeiro e mais um monte de pessoas interessantes. Ouça: http://www.tgreguol.

com.br/blog/antes-de-sabereu-tambem-nao-sabia-2020/

No encerramento das comemorações dos 30 anos de sua carreira discográfica, Adriana Calcanhotto lança o álbum Remix Século XXI, seis canções significativas de sua obra pela primeira vez em versões remixadas. Com a curadoria do DJ Zé Pedro, que escolheu os produtores, essas versões traçam um perfil eletrônico e surpreendente de hits radiofônicos, como por exemplo “Vambora”, “Mentiras” e “Esquadros”. A house music e seus desdobramentos foi o estilo eletrônico sugerido por Zé Pedro aos produtores por conversar melhor com o pop de Adriana. “Mentiras”, “Esquadros”, “Senhas” e “Cantada” foram produzidas por George Mendez, que nasceu em Pernambuco e firmou seu talento na Europa, onde morou durante 15 anos. Pesquisador atento da obra de Adriana, ele assina as quatro faixas como Vizcaya, seu projeto de remixes. Para as faixas “Vambora” e “Ninguém na Rua”, dois produtores também brasileiros e residentes em Londres: Fernando Britto, do projeto Tin God, e Eduardo Herrera, do Discoteked, adoradores de house music e synthpop.

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Fotos Divulgação

ADRIANA CALCANHOTO REMIX


PIANO E JAZZ Carioca do subúrbio de Madureira, o pianista Jonathan Ferr é tido atualmente como um dos principais nomes do jazz brasileir e acaba de lançar seu primeiro single, “Saturno”, pelo selo slap. A faixa é carregada de swing, força e camadas que têm o intuito de conduzir a uma viagem cósmica sem volta para o referido planeta e chega ainda com um clipe/filme. O produto audiovisual mescla a linguagem cinematográfica do curta-metragem com as colagens de um videoclipe em um hibridismo cheio de poesia e imagens sobre amor, afeto, ancestralidade e o tempo. No novo single - que conta também com sua banda, formada por Caio Oica na bateria, Facundo Estefanell no contrabaixo e Alex Sá no saxofone - Ferr assina ainda como compositor, produtor musical e é o responsável pelos arranjos de cordas e regência. Em sua carreira, Jonathan já levou seu Urban Jazz s pelo mundo como Rock In Rio, Rio Montreux Jazz Festival, Festival Sesc Jazz, Festival de Inverno de Garanhuns, Festival de Jazz & Blues de Rio das Ostras, entre outros, e já se apresentou em clubes do gênero em países como Portugal, Espanha, Alemanha e Holanda.

UMA VOLTA AOS ANOS 90 A Armada divulgou a faixa “Três Acordes, Um Amor e Uma Cerveja”, que faz parte da série de gravações de quarentena produzida pela banda. A música curta e divertida é uma versão do Ack, grupo punk rock carioca dos anos 90, e ganhou um videoclipe editado por Mauro Tracco, também baixista da Armada. A ideia da regravação veio depois do convite para participar do Festival Punk Rock Bash, realizado no início do mês em homenagem às bandas brasileiras dos anos 90.

ANA MÜLLER EM PRELÚDIO

Ana Müller traz ao mundo o projeto Prelúdio, que reúne regravações em alta qualidade de músicas que marcaram a carreira da artista e uma inédita. Em meio ao isolamento social, causado pela pandemia da COVID-19, a artista capixaba revisitou canções que marcaram sua carreira e decidiu regravá-las, antes de dar um passo à frente. “Esse projeto é a porta de entrada para tudo que há de vir, esse violão de nylon, essa leveza. Foi um presente poder revisitar essas canções e, ao mesmo tempo, iniciar o processo do próximo trabalho que será tão lindo, tão terno”, comenta. Ouça: https://ditto.fm/preludio-anamuller

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

O NOVO DE ANA FRANGO ELÉTRICO

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ulher Homem Bicho é o novo single de Ana Frango Elétrico, que chega às plataformas pelo Selo RISCO. É o segundo single lançado pela artista este ano, após o sucesso de Little Electric Chicken Heart (2019, Selo RISCO), que alçou sua carreira a nível nacional e internacional (concorrendo ao Latin Grammy, na categoria Melhor álbum de rock em língua portuguesa). Mulher Homem Bicho foi gravado de maneira totalmente remota durante a quarentena, com a colaboração à distância de diversos músicos em seus home studio. Felipe Pacheco arranjou cordas e gravou violino e viola. O baixo ficou por conta de Alberto Continentino; na bateria, Pedro Fonte; percussões, Victoria dos Santos. Rhodes e synth foram gravados por Lucas Freitas. Guilherme Lírio gravou guitarra, glockenspiel e pocket piano e Dora Morelenbaum gravou voz – ambos participantes de peso do Little Electric Chicken Heart. A mixagem e masterização ficou por conta de Martin Scian, com quem Ana trabalha desde antes de seu primeiro disco, Mormaço Queima, e ao lado de quem produziu o Little Electric Chicken Heart. A capa ficou por conta de Caio Paiva com desenhos da ilustradora Fernanda Massotti. Ana produziu e gravou voz, órgão (em MIDI) e violão.

A canção “Preciso Aprender a Ser Só”, de Gilberto Gil, é a primeira aposta de Joana Bentes como intérprete. A cantora, compositora, produtora e artista plástica apresenta a versão no estúdio JOB sob sua própria produção como uma prévia de seu primeiro disco cheio A Gota do Mar Contém o Oceano Inteiro. Escolhida como cartão de visita do seu primogênito, Joana se baseou nas reflexões proporcionadas principalmente pela vivência da pandemia. Agora ela comemora o nascimento de “Kintsugi” em um momento simbólico, a abertura de um ciclo novo mundial e a celebração dos defeitos, fragilidades e cicatrizes. “Esta música é um convite a assumir algumas características inerentes ao ser humano, mas isso nem sempre é muito fácil”, pontua a multiartista. “A vulnerabilidade ocupa um lugar de tabu na nossa sociedade. E cada vez mais se adia a compreensão dela como um processo natural de existência”, completa.

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Fotos: Divulgação

JOANA BENTES RELÊ GILBERTO GIL


SPOTIFY LANÇA HUB PARA COMPOSITORES

Depois de um ano como o de 2020, tivemos a certeza de que a música é a melhor companheira para todas as horas. Foi pensando nisso que o Spotify criou o Hub Compositores, dando aos fãs, colaboradores e parceiros da indústria mais um espaço para apreciar os autores e suas composições. O hub agregará uma extensa coleção de playlists Written by (em português, Escrito por), playlists de compositores populares e uma playlist rotativa de destaques (Compositores e lançamentos em destaque, playlists dedicadas a feriados específicos ou momentos culturais e muito mais). Quer saber como é fácil acessar o Hub? Confira as instruções detalhadas:

https://open.spotify.com/genre/ songwriters-page

JÉSSICA ELLEN LANÇA MACUMBEIRA A atriz que neste ano se destacou como a personagem Camila, de “Amor de Mãe”, investe mais uma vez na área musical. A artista, que já tem um álbum gravado, o Sankofa (2018), acaba de lançar o single Macumbeira, canção composta por Luiz Antônio Simas, com direção e produção musical de Rafael do Anjos. A novidade faz parte do EP homônimo da cantora, previsto para ser lançado em 2021. A canção, além de ser uma autoafirmação de fé, de autoestima do povo preto – e também do povo preto que é religioso – é tratada pela artista “como um manifesto, uma maneira de resistir e um grito de alerta sobre as queimadas aqui e no mundo”. Para Jéssica, o single nasce como uma forma de protesto de como os políticos vêm tratando o assunto, chegando ao ponto de responsabilizar indígenas e quilombolas pelas queimadas. “A arte, a religião, a fé, a música, me trazem a certeza que dinheiro não é oxigênio” resume ela sobre como vê a canção e futuro EP como uma forma de expressão e acredita ser sobre o modo em que suas criações podem afetar as pessoas.

O HOMEM BOMBA

Apelido de João Diniz Lira, jovem artista paulistano de 18 anos, Dizin lança seu primeiro álbum The Time Has Come em 30 de abril de 2021. Em janeiro, ele já apresentou o primeiro single “Human Bomb (Explode)” em todas as plataformas digitais. Os dois singles seguintes “Sky” e “Manipulata (Can’t You Just Stop)” vem na sequência. “Human Bomb fala sobre um personagem instável, que pode explodir a qualquer momento. É uma música que trata a instabilidade emocional de forma metafórica, através do desespero de um homem bomba, que sabe que está prestes a machucar a todos em volta e a si mesmo. Essa é uma das músicas de arranjo mais complexo do disco, e foi um desafio divertido trabalhar com ela no estúdio. Em uma parte do arranjo incrível de bateria do André Dea ele faz o som do relógio da bomba no aro dos tambores, criando uma atmosfera imersiva que insere o ouvinte na tensão da música. Essa foi também a única música do álbum que eu gravei no baixo”, conta Dizin sobre a primeira faixa em que além da guitarra, também toca o contrabaixo.

Fotos: P Divulgação

Acesse:

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

ESTRELA

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compositor paulistano Piérce Willians acaba de lançar em todas as plataformas digitais seu segundo EP, intitulado de A Derradeira Estrela Acende, a continuidade do EP anterior Quando. Juntos, eles formam o título Quando a Derradeira Estrela Acende. São quatro faixas: “Raga do Vento”, “Pinocchio”, “A Estrada do Imperador” e “Manhã do meu Amor”. As duas primeiras canções são parcerias, “Raga do Vento” é de autoria de Piérce com Gabriel Edé e Manu Romeiro; “Pinocchio” em conjunto com Isabela Sancho. O registro das canções, que flertam com rock progressivo, folk, rock e MPB influenciada pela música mineira de Lô Borges e Milton Nascimento - grandes referências de Piérce -, gaúcha e latino-americana, foi feito em 2015 e tinha como proposta inicial ser lançado como álbum. “O álbum ficou mais ou menos engavetado por cinco anos, até que Daniel Carezzato (o Nié) e Murilo Gil me encorajaram e propuseram o lançamento em 2020”, conta.

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A 6a edição da DMX Digital Music Experience 2020 contou com três dias com grandes nomes e especialistas da música nacional e internacional, sob o comando de Dedé Teicher, apresentadora do Multishow, diretamente do “Estúdio Estácio”. A especialista em Aprendizagem Baseada no Funcionamento do Cérebro, Roberta Bento, e sua filha Taís Bento, pedagoga com especialização em Aprendizagem Baseada no Funcionamento do Cérebro e Aprendizagem Cooperativa, falaram sobre as influências e benefícios da música nas mais diversas situações da vida e dos negócios. Roberta contou todos os desafios enfrentados, desde uma paralisia cerebral no momento do nascimento, e como a música a ajudou em todo seu processo de aprendizado e desenvolvimento. Todo o conteúdo da DMX Brasil 2020, e também das edições anteriores, está disponível no canal oficial no YouTube da DMX Brasil.

Fotos: Divulgação

DERRADEIRA

DMX SEMPRE INOVANDO


DANDARA EM PRETAS YABÁS A cantora e compositora Dandara Manoela convoca todas as Orixás femininas em seu novo single, “Preta Yabás”. A canção é uma grande exaltação à potência e ao protagonismo da mulher negra. De forma poética, exalta sua resistência e ancestralidade. “A música ‘Pretas Yabás’ aborda o deslocamento simbólico das mulheres negras da base da pirâmide social, do lugar mais silenciado e negligenciado, para o centro, o foco. Faz menção ao espaço que elas vêm ocupando e a luta diária para serem ouvidas, terem mais acessos e direitos garantidos”, explica Dandara Manoela.

Partindo de um momento introspectivo e recluso, Larissa Luz se põe a esmiuçar lugares mais sensíveis, entendendo melhor as várias nuances da afetividade da mulher preta. “Não Tenha Medo de Mim” é uma nova faceta do discurso político e social cultivado pela multiartista. Para transformar a trilha em audiovisual, a - também atriz - convida o ator Fabrício Boliveira a externar a sensibilidade que rodeia o amor preto. “Nos últimos tempos, tenho falado muito sobre política, questões sociais e agora estou me permitindo a acessar lugares mais sensíveis, que têm a ver com acolhimento, sentimento e afeto, o que também correspondem à militância”, reflete a artista. A baiana ainda lançou “Dance com sua Sombra” uma produção caseira que catapulta Larissa para além da voz ou atuação, possibilitando-a assinar a composição, produção, roteiro e ainda co-direção do single.

Fotos:so Divulgação

LUZ E MEDO

RAP PLUS SIZE QUESTIONA OS PADRÕES

Rap Plus Size, duo formado por Jupi77er e Sara Donato, lança “Só Pago O Que Me Cabe”. Em parceria com a UZZN records e produção musical de Rentz Beats, o single questiona os padrões de beleza e a gordofobia na indústria da moda e deixa claro que há mercado para o plus size, além de novos criadores descentralizados que atendem às suas necessidades. “Esse som fala sobre a indústria da moda e o quanto ela afeta pessoas gordas. Nós temos dinheiro para pagar roupas que nos vestem bem e vamos pagar por roupas que nos servem, não para essas grifes que não têm nossos tamanhos”, explica Jupi77er.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

SALA DE ESTAR NO STREAMING

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lgumas faixas das sessões do Sala de Estar, já disponíveis no Youtube, chegaram às plataformas digitais. A adequação do trabalho audiovisual para plataformas como Spotify e Deezer visa diversificar o consumo dos fonogramas produzidos pela plataforma de desenvolvimento de conteúdo independente. O primeiro álbum da frente de streamings da plataforma de desenvolvimento de conteúdo Sala de Estar se chama “Palavra e Melodia”. A temática busca juntar discursos musicais que em sua expressão, revelam a sensibilidade dos compositores para criar consonância entre uma boa letra e uma boa melodia. Os artistas que integram o álbum são: Nina Fernandes, Santaella, Califrê, Chico Bernardes, YMA, Murilo Sá, Mané i Zé, Gabriel Coelho e Berggasse. O Sala de Estar recentemente retomou as gravações e a nova temporada de gravações viaja por diversos gêneros musicais, indo do funk ao rock, passando pelo pagode e soul.

Fotos: /Divulgação

THE.LAZYB E C.ALMA LOOPS APRESENTAM NOVO SINGLE

Uma banda ensaiando na garagem de casa. Esse é o clima que os produtores Murilo Nogueira e Bruno Pelloni visam trazer com o novo single garage’s groovy. Na ocasião, os músicos assinam o lançamento sob os pseudônimos the.lazyb e c.alma loops, respectivamente. A faixa é instrumental e dialoga com a estética do gênero Lofi Hip Hop, trazendo ambientações, elementos eletrônicos e nuances de guitarra.

MAP MUSIC CHEGA PARA INOVAR

Uma das agências do mercado publicitário e artístico nacional, a MAP Brasil apresenta a MAP Music, braço de negócios especializado na indústria do entretenimento musical, com foco no empresariamento 360º de artistas, músicos e produtores. A iniciativa, idealizada pelos sócios Amanda Gomes, Pedro Tourinho e Rogério Rodrigues, tem o objetivo de reinventar o mercado, criando, produzindo e apoiando projetos diversos, com respeito às multiplicidades culturais. Entre os clientes está o Silva, recém-lançou o “Cinco”, seu quinto álbum e o primeiro em carreira independente. “Queremos que o artista tenha liberdade criativa para evoluir musicalmente como ele achar mais adequado. Se quer gravar de forma independente, investimos na infraestrutura necessária para evidenciar o talento de artistas como o Silva, por exemplo, que produz, compõe, grava e faz mixagem”, destaca. “Acredito que esse trabalho define bem o momento atual dele e o resultado é surpreendente”, completa.

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PERCUSSÃO DE GUSTAVO DA LUA Gustavo da Lua grava pelo selo Índio Rock o single “Vem pra ficar”, escrito com seu amigo e parceiro de percussão na Nação Zumbi, Marcos Matias, que já está nas principais plataformas digitais. Produzido por Davi Índio no estúdio Casa Azul, São Paulo, mixado e masterizado por Ricardo Prado no Canto da Coruja, Piracaia, contou com a participação de Juliano Hodapp (Planta e Raíz) na percussão, Natan Oliveira no trompete e trombone, Sando Ramos no violão e Emílio Mizão na guitarra. Além de produtor fonográfico, Davi Índio também participou no baixo e MPC. “Vem pra ficar” marca a busca de Da Lua por novos caminhos para as suas composições. Traz influências da música afro-cubana e de sua cidade natal, Olinda, misturando estilos com movimentos musicais influenciados pela santeria. Tudo harmonizado com o sotaque pernambucano e letra que abarca contos e lendas místicas, encantos, encontros e desencontros, combinando fantasia e realismo.

A&V COM BETO História, rock e celebração. Tudo isso vai de encontro ao novo single dos Acústicos & Valvulados. Isso porque a música Ao Vivo e a Cores acaba de ganhar uma versão comemorativa, contando com a participação especial do ex-vocalista da Cachorro Grande, Beto Bruno. A música foi originalmente lançada em 2001, integrando o segundo álbum homônimo do grupo. Já a nova versão antecipa a coletânea Diamantes Verdadeiros Vol. II, que comemora os 30 anos de estrada do quinteto. O álbum está previsto para o decorrer de 2021 e reunirá outros clássicos da banda. Tais como A Minha Cura, Em Pouco Tempo, A Espera, entre outros. As sessões de gravação ocorreram no Estúdio Tabuleiro, em Porto Alegre. A produção é assinada por Felipe Magrinelli e Diego Lopes.

O cantor e compositor pernambucano Juba segue promovendo seu recém-lançado álbum solo, “Ethos” (Deck), e lança acaba de lançar o clipe de “Céu de Ilusão” (Juba/ Junior do Jarro). A sonoridade da canção remete à psicodelia setentista, principalmente a do movimento Udigrudi, vivido em terras pernambucanas naquela época. Instrumentos acústicos como bandolim, viola dinâmica e percussões se misturam ao peso da base, executada por guitarra, baixo, teclado e bateria. Isso tudo acompanhado por uma voz ora doce, ora rasgada nos refrões. “‘Ethos’ é para ser escutado com calma, é um disco para ser saboreado sem a pressa do relógio”, finaliza Juba.

FotosDivulgação

JUBA LANÇA CLIPE DE “CÉU DE ILUSÃO”

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS KELL SMITH LADO B Após abordar temas como vulnerabilidade, saúde mental e ressignificação do luto, no lado A de “O Velho e Bom Novo”, segundo álbum de sua carreira, lançado em maio de 2020, agora, a cantora e compositora encerra um ciclo lançando as 6 faixas inéditas que compõem o lado B. A obra chega à todas as plataformas digitais, pelo selo Na Moral e está disponível no link: https://bit.ly/LadoBKell. Na jornada durante as canções, todas escritas por Kell, vemos uma artista versátil, não apenas em lírica e potência vocal, mas em temáticas contemporâneas à vida de uma mulher jovem, em franco processo criativo e de autoconhecimento. É um álbum orgânico, como a própria vida.

CONFESSO

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cantor e compositor paulistano Zé Ed, autor do álbum homônimo, o primeiro solo e autoral de sua carreira, lança o videoclipe de “Confesso”. Quem assina a direção é a dupla de artistas Camila Tuon e Marcela Tissot, que respondem por uma sequência de trabalhos audiovisuais da cantora Tássia Reis. “Confesso” é uma das faixa mais escutadas do álbum do primeiro álbum autoral de Zé Ed em todas as plataformas digitais e a mais executada nas rádios independentes do país. “É a tradução para o autoperdão. É a purificação dos sentimentos. Uma confissão íntima é tão comum a todos”, explica o compositor. Nas imagens, por ordem alfabética, artistas de diversas linguagens se intercalam Artur Hiroyuki, Danielle Rosa, Demétrio Campos (in memorian), Kelly Campello, Lourenço Homem, Mari Santos, Monique Lemos e Viviane Clara. O vídeo foi gravado inteiramente com celular, antes da pandemia. E justamente no período da quarentena teve seu momento de ir para ilha de edição e ser finalizado.

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TEATRO BRADESCO DIGITAL

Devido ao sucesso da programação relevante e diversificada que trouxe para suas redes sociais, o Teatro Bradesco anuncia a continuação da sua programação cultural em 2021. A retomada do projeto do Teatro Digital já começou com o maestro João Carlos Martins com Orquestra Bachiana Filarmônica SESI-SP. Ao longo do ano, o YouTube do Teatro Bradesco seguirá trazendo uma live por mês, conduzida pelo músico João Marcelo Bôscoli com convidados, assim como aconteceu ano passado. No Instagram haverá conteúdos complementares, como dicas de playlists, podcasts e livros, além de vídeos específicos em datas comemorativas. Em sua programação, 107 lives foram apresentada. Ao todo, 640 mil pessoas assistiram os conteúdos promovidos pelo teatro. Para receber esse mesmo número de público no espaço físico do Teatro Bradesco, seriam necessárias 429 sessões presenciais, gerando uma demanda de 18 meses de apresentações lotadas no teatro. A live com o maior pico simultâneo foi a do grupo Titãs. Já a apresentação mais vista, até o momento, é o encontro entre Seu Jorge e Daniel Jobim.

Fotos: Divulgação

ZÉ ED LANÇA


AURORA CONTRA VIOLÊNCIA

“Aurora” veio como o “tirar o nó da garganta” diante de tanta negligência com a vida da mulher. Essa é a forte definição da canção que chegou no Dia Internacional do Combate à Violência Contra a Mulher. A banda Teorias do Amor Moderno, abraçou a causa, apesar dela estar sempre presente nas composições. O empoderamento feminino no dia a dia, nos relacionamentos, em tudo o que abrange um projeto tão denso e importante que o grupo acredita. Sobre a composição, a vocal e guitarrista Larissa Alves conta que “Aurora é diferente, porque ela traz a dor que só pode ser sentida por nós, e por isso ela precisava ser “parida” por mulheres. Então aconteceu o que a música pediu - do início ao fim feita por mulheres”.

UKETONAIS É A NOVIDADE DE MARCELO MENDES

Atonais foi uma banda de curta duração. Eles lançaram o disco Em Amplitude Modulada de forma independente e com baixa tiragem no ano 2000, zeram alguns poucos shows e sumiram no mundo. As duas forças criativas por trás da banda eram Marcelo Birck (Graforréia Xilarmônica, Solo) e Leandro Blessmann (autor das músicas da benga – “Benga, velha companheira”, “Benga Minueto”, etc. –, solo). A banda acabou, mas a magia ficou no ar. Marcelo Mendes foi um desses discípulos. Com gravações guardadas há mais de dez anos, agora ele decidiu mixare fez 15 clipes com as letras das músicas e agora disponibiliza o disco Uketonais: As músicas de Em Amplitude Modulada em Ukulele serviços de streaming.

MON CHOUX

A cantora, compositora e violinista Tetel Di Babuya lança Mon Choux, seu primeiro disco autoral. Com forte influência do jazz, da bossa, do samba e do blues, as músicas apresentam letras em inglês e o tema da entrega total em relacionamentos versus autossuficiência, com um toque sarcástico. Autobiográficas e bem-humoradas, as canções falam do amor visceral, visto tanto por ângulos otimistas e inocentes como por ângulos distorcidos e ligeiramente estranhos. Gravadas de forma espontânea e o mais perto de ao vivo possível, todas as canções são de Tetel Di Babuya, letra e música. Cantando e tocando violino, a artista é acompanhada no disco por Daniel Grajew (piano, acordeom e Rhodes), Nilton Leonarde (baixo acústico, baixo elétrico e violão), Emílio Martins (percussão) e Richard Fermino (sax, trompete e trombone).

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

NATUREZA

R

econhecido como uma das principais vozes da floresta, o rapper indígena guarani, que carrega a bandeira do RAP Nativo, Kunumi MC, lança a faixa Força de Tupã em parceria com o artista colombiano Lozk. Essa união foi possível através da iniciativa Latinese, que conecta artistas dos países da América Latina e auxilia na produção de músicas e videoclipes em parceria internacional. Força de Tupã fala sobre a luz de Tupã iluminando a escuridão e, assim, trazendo paz e esperança. Junto com a canção, Kunumi e Lozk lançam, ainda, um videoclipe feito à distância, numa conexão Aldeia Krukutu, onde vive o artista indígena, e Bogotá, cidade onde Lozk mora. Em Força de Tupã, Kunumi MC surge como um mensageiro das forças divinas para dar apoio àqueles que estão desanimados diante de dificuldades em suas vidas. E celebra as medicinas sagradas, como a ayahuasca e o rapé, além de evocar a presença de Tupã, cantando em sua língua nativa.

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A banda de rock com vários discos de platina e ganhadora do Grammy, Kings Of Leon, anuncia oficialmente o lançamento do álbum de estúdio “When You See Yourself” em 5 de março de 2021, pela RCA Records. O single principal, “The Bandit” está disponível com um videoclipe que estabelece o tom álbum. A banda também disponibilizou uma segunda faixa, “100,000 People”. Gravado no famoso Blackbird Studios de Nashville e produzido pelo vencedor do Grammy Markus Dravs o álbum lança Kings of Leon com uma evolução moderna de seu som. O álbum foi divulgado em vários formatos e chega quatro anos após seu álbum de estreia que foi o número um nos EUA, “Walls”. A banda até começou a anunciar o álbum com o envio de uma camiseta exclusiva com as faixas e letras. Também aproveitam o momento concientizar e arrecadar fundos para ajudar as equipes de música ao vivo da Live Nation’s Crew Nation.

Fotos: Divulgação

MENSAGEM DA

WHEN YOU SEE YOURSELF


DANDARA EM PRETAS YABÁS Há cinco anos, o rompimento da barragem de Fundão deixou 19 mortos e inundou várias casas no distrito de Bento Rodrigues e arredores, em Minas Gerais. O rompimento em Mariana causou o maior impacto ambiental da história brasileira e foi o maior do mundo envolvendo barragens de rejeitos. Centenas de pessoas que perderam seus lares, seus entes queridos, seus meios de sustento e sua cidade. “Existem ali famílias que perderam absolutamente tudo e ainda não tiveram nenhum tipo de amparo”, pontua Amanda Pacífico, vocalista da banda. O sexteto Mulamba é conhecido por não permanecer em silêncio. Cantando dores, a banda retoma com mais um lançamento: LAMA, dirigido por Virginia de Ferrante. O videoclipe mistura a linguagem documental com a videoarte e volta os olhos para o crime ambiental em Mariana em caráter de denúncia. As imagens, feitas no distrito de Minas Gerais, também são um alerta para outros crimes ambientais infelizmente tão comuns. A maior parte das filmagens aconteceram durante as manifestações dos 4 anos do rompimento da barragem em Mariana. Virginia de Ferrante, também roteirista e produtora do clipe, se juntou com a diretora de fotografia, Marina Duarte, para a captação das imagens das ruínas deixadas pelo crime. Elas contaram com o apoio imprescindível do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) que auxiliou em toda a produção.

O Brasil apresentou a maior queda no indicador de liberdade de expressão, segundo relatório da organização internacional de direitos humanos, que analisa a situação em 161 países. De acordo com os organizadores do estudo, a piora no índice “se acelerou com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder no início de 2019. Preocupado com o cenário atual, o cantor e compositor CIRIO, lança o seu novo single “Censura”, uma canção de protesto em defesa da democracia e da liberdade de expressão, em reação aos recentes indícios de retorno da censura, do discurso de ódio e do autoritarismo no Brasil.

Fotos:so Divulgação

LUZ E MEDO

IN VENUS ABRE NOVA FASE COM SINGLE-CLIPE ANSIEDADE “Felicidade instantânea trazida por abismos absolutos, uma ideia de falso controle e uma gigante vontade de mostrar ao mundo o que não se é” - assim começa o manifesto que irá acompanhar Sintoma, próximo álbum de estúdio do grupo paulistano de post punk In Venus. Inaugurando o sucessor do elogiado disco Ruína (2017), Ansiedade é mostrada ao público com videoclipe soft gore que aponta diretamente para uma sociedade que precisa ser curada.

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FIQUE ATENTO

O É M E U Q DE 1 2 0 2 E D O AN

A banda de Itatiba, liderada por Jasper Okan, lançou três singles, Mente Sabida, Aflora e Mira. A sonoridade é construída em cima de muito groove e suingue que acompanham a voz de Jasper. A altivez e firmeza do canto remetem ao estilo de Tracy Chapman, assim como a indissociável relação com a ancestralidade. Se Chapman nascesse 30 anos depois no Brasil, seria Jasper Okan.

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Imagens: Reprodução

JASPER E A GANA


ANNÁ

O álbum Colar é avis rara. Poucos artistas fizeram um trabalho tão original e, ao mesmo tempo, tão rico de influências como Anná. Em uma mesma canção ela é capaz de navegar por cinco ou seis estilos em um conceito de música de colagem. A artista mocoquense radicada em São Paulo é por si só a definição de metamorfose ambulante e vê o álbum como um retrato de sua jornada musical do momento que foi composto e gravado. Entre a tradição e a inovação, Anná avança de peito aberto para conquistar os dois, questionando o que pode ou não ser feito. A artista entendeu como ninguém que é Proibido Proibir, inclusive, tirando nota máxima em estética.

LOUIC KOUTANA – L’HOMME STATUE

O álbum do artista francês residente no Brasil estava pronto, mas seu lançamento foi adiado pela pandemia. Louic, que é um sucesso absoluto no Tik Tok, em 2020 participou da live Vidas Negras Importam da Revista 440Hz. A música de Louic é poderosa e arrebatadora, descrevem momentos de sofrimento de sua vida (e de muitos outros) e se encontra com as raízes do que são os cantos dos povos. É incrível ver a transformação da personalidade alegre e expansiva de Louic em sua persona musical.


RACHEL REIS

Em 2020 a baiana de Feira de Santana invadiu as playlists e fez todo mundo dançar suas canções de desejo e saudade. A expectativa é que ela lance mais material nos próximos meses. Se em 2021 o Carnaval está meio esquisito, é certo que 2022 será o Carnaval dela.

JULIE NEFF

Ela estava morando em São Paulo quando a pandemia chegou. De volta ao Canadá, manteve as relações conosco. Julie tem tudo que precisa para estourar: música boa e personalidade. O mais interessante é que ela também navega bem entre gêneros e ritmos.

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INVASÃO BRITÂNICA

Com a Scruff of the Neck, outros selos começam a desembarcar aqui (como a Fear Records). A geração de bandas que vem por aí promete focar aqui seu público. Os lançamentos de Somebody’s Child e The Reytons devem seguir o caminho do Glass Caves. Também devem despontar nomes como The France, Shade e Gloria. Alguns brasileiros estão por lá fazendo “música inglesa” como a Lilly J., do Anchor the Sun, e o Muca.

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RUBAH

Foto: Shutterstock/André Luiz Moreira

O mineiro Rubah vem fazendo um trabalho bastante consistente nos últimos meses e lançou singles bastante interessantes. É o tipo de músico que cava cada oportunidade que pode e é incansável.

DISCO NOVO DE TIM BERNARDES (OU DO TERNO OU OS DOIS) O menino prodígio está com tudo. Acabou de fazer uma participação em uma canção da Gal e já faz algum tempo se tornou uma referência como compositor no Brasil. Ao que parece ele (e a banda) estavam com bastante material, mas decidiram segurar a onda durante a pandemia. É bem possível (e provável) que durante 2021 seremos presenteados com um ou dois lançamentos de álbuns.

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COLUNA GUITARRAS & CARROS por Érico Malagoli

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ou suspeito para falar a respeito, pois gosto de ambos os assuntos, mas na minha cabeça faz todo sentido. Olho para guitarras (especialmente as mais antigas) e vejo... carros!!!! E o pior é que o contrário também acontece, se eu vejo um Cadillac, logo me lembro de uma Telecaster por exemplo! Bom, delírios à parte, sei que compartilho esses gostos com alguns músicos e, por conta disso, decidi contar a história de como Billy Gibbons, vocalista e guitarrista do ZZ Top, adquiriu “Pearly Gates”. E, veja, não estou falando da famosa guitarra. A história, contada pelo próprio, começa no final dos anos 1960 com um automóvel Packard velho e surrado que costumava ser o carro da Banda (dos três integrantes e de sua comitiva). “Esse automóvel nos serviu muito bem”, disse Gibbons. “Era enorme, chamativo e rebaixado, mas não intencionalmente, era simplesmente muito antigo”. Não muito depois de conseguir o Packard, uma fã que sempre acompanhava a banda decidiu ir para a Califórnia, para tentar um papel em um filme, e a banda teve a genti-

leza de deixá-la usar o Packard para chegar lá. É verdade que eles nem acreditavam que o carro aguentaria a viagem, mas aguentou e, de acordo com a lenda, ela conseguiu o papel. Por conta disso, decidiram batizar o carro com o nome de “Pearly Gates”, em referência à porta de entrada do Céu, porque concluíram que “ele deveria ter conexões divinas”. Em algum momento, a garota vendeu o carro e mandou o dinheiro de volta para a banda. “No mesmo dia em que o dinheiro chegou, um cara me ligou querendo me vender uma Les Paul 1959 Sunburst”, contou Gibbons. “Comprei a guitarra e liguei para a garota para agradecer e contar a novidade. Ela disse: “Parece que o carro foi para uma boa causa e como o dinheiro que colocou a guitarra em suas mãos veio da venda do Packard, reivindicaremos o nome de Pearly Gates também para ela. Agora você pode fazer música divina”. Nas palavras de Billy Gibbons “Por mais que eu tente, nunca consegui encontrar outra guitarra que soasse tão celestial.” E essa é a lenda da “Pearly Gates” de Gibbons. As especificações das Les Paul 1959 da Gibson podem ser o Santo Graal das guitarras vintage, e a “Pearly Gates” de Gibbons provavelmente é uma das mais desejáveis de todas. Se você também procura esse timbre, aqui na Malagoli temos em nossa linha as Custom 55, que possuem especificações bem próximas.

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MÚSICA INSTRUMENTAL

Por Fernando de Freitas

O D E R I E U G I F A K U S E D M O SO A FAZ R O T N A C A , E IDAD C O C E R P A D RETRATO S O T N E M A Ç N A OS L R I E M I R P S U E S 30


Fotos: Gustavo Arrais

A

primeira vez que vi (e ouvi) Suka Figueiredo foi na peça Gota D’água [Preta]. A saxofonista faz parte da banda e do elenco da montagem assinada por Jé Oliveira e que foi tema de uma crítica publicada na Revista 440Hz. Dentre uma constelação de talentos que incluía Juçara Marçal, Suka participava altiva de seu papel de musicista e figurante, sendo impossível não notá-la sobre o palco. Também pudera, a montagem teve por objetivo expor questões do protagonismo negro, e Suka, mesmo figurante, tem a postura artística de uma protagonista. É nas rédeas de seu próprio protagonismo que Suka apresenta “Caminho de mármore”, um tema que conversa com sua formação íntima de musicista e com o imaginário instrumental que permeia a construção de um percurso de composição de quem, provavelmente, segue no encalço de uma melodia que ressoa nos limites do seu subconsciente, que a tradução para o instrumento gera variações infinitas das mais diversas cores e tonalidades. O caminho de Suka é único e sem clichês. A (ex-)bancária carioca, logo após se mudar para São Paulo, se apaixonou pelo saxofone durante uma apresentação do Jazz na Kombi no bairro do Butantã. O arrebatamento pelo som do instrumento foi tamanho que foi atrás de aprender a tocar. Encontrou aulas gratuitas e foi percorrendo as possibilidades que lhe apareciam até conseguir sua vaga no conservatório.

maioria com anos de estudos bancados por seus privilégios sociais de brancos. É um ato político que Suka propõe cada vez que sobe em um palco armada de seu saxofone ou quando coloca sua marca em uma gravação. Ao imprimir sua própria personalidade em composições, a saxofonista usou as tintas da diversidade, deixando-se influenciar por todo som que ama, mas que fazem de suas pegadas um registro único. As frases rítmicas refletidas sobre os estudos de Astor Piazzolla e Moacir Santos se destacam, sem deixar esquecer que existe um tanto de bossa que ressoa Jobim e Baden-Powell. Colocada lado a lado com a Silibrina ou Bixiga 70, é fácil perceber que Suka está também conectada com seu tempo. A compositora recomenda que se ouça a gravação em alta fidelidade nas plataformas de streaming, em boas caixas ou com um bom fone de ouvido. A recomendação advém da própria experiência: “no dia em que a música foi lançada, acabou a luz em casa. Peguei o carro para carregar o celular e ouvir”, e foi assim que ela ouviu, pela primeira vez, sua música lançada. Suka não sabia que seu celular estava programado para tocar a música em economia de dados, ou seja, com a

definição baixa, o que, combinado com as limitações de áudio do telefone, a fez ter o sentimento de ver seu trabalho destruído. Passado o susto, ouviu novamente em alta definição, e o alívio se transformou em alegria. A gravação inicia com o som do acordeom com frases de tango, envolto de ruído e chiado. Não é a estética low-fi, mas uma homenagem às gravações anteriores aos suportes analógicos. Homenagem que serve como declaração, Suka não esconde de onde alimenta sua música, é agradecendo à suas referências que ela inicia Caminho de Mármore. A transição para o tema tocado pela banda é feita pela bateria. Nesta ponte entra o baixo que passeia entre o balanço e o groove, ou seja, em levadas que variam entre a sonoridade dos ritmos afro-brasileiros com o soul americano. É nesta base que Suka para a lançar os desafios no flauta e saxofone. Em sucessivas frase e comentários, a variação melódica usa e abusa do jogo de ponto e contraponto. Em intensidade crescente, o caminho parece desenhar um movimento em que a própria música passa a alimentar os instrumentistas e dar a eles a energia da superação.

ALTA FIDELIDADE

Suka é uma artista metódica e atenta aos detalhes. Segue repetindo a posição de Xenia França, segundo a qual “onde não tem espaço para mim, eu abro o espaço”. É com essa postura que encara o desafio de firmar seu lugar no ambiente da música instrumental e, mais especificamente, dentro do time dos metais, região dominada por homens, em sua grande

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LANÇAMENTO

Por Fernando de Freitas

A RUA

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O C I H C O C I H C DE


A

lguns músicos são famosos desde a infância. Temos inúmeros exemplos de carreiras que começaram em função da precocidade musical. Mas Chico Chico era famoso por ser filho de Cassia Eller. Na época, ele era o Chicão, e lhe foi creditada uma mudança de rumos na carreira de Cassia. Faz parte da mitologia de Cassia. O que não foi mitológico, ainda que tomado por ares heroicos, foi a luta de sua outra mãe, Maria Eugênia, para manter sua guarda após a morte de Cássia. À época, a dupla maternidade era um tabu. Como muitas outras realidades sociais, as instituições e as autoridades fechavam os olhos. A Justiça era cega, surda e muda. Diante da fama de Cassia, abriu-se o debate público sobre o tema. Embora o processo nunca tenha chegado à sentença, abriu-se o caminho para que essa realidade fosse oficialmente reconhecida nos anos seguintes. Perguntado sobre o assunto, Chico afirma “tenho muito orgulho que minha história possa ter ajudado outras pessoas”. O menino que crescia rodeado de música e instrumentos chegou a cursar Geografia, mas acabou se tornando músico. “Eu cresci com acesso a muitos instrumentos e discos”, conta deitado em sua rede, enquanto faz a videochamada com a Revista 440Hz. A conversa com o músico é solta, como se estivéssemos juntos em uma mesa de bar em Santa Tereza, no Rio de Janeiro, dividindo uma cerveja e aproveitando o fim da tarde no verão carioca. Música, cachorros e futebol fazem parte desse cenário.

SEMPRE BEM ACOMPANHADO

Chico é um cara de parcerias. O título de seu primeiro álbum, 2 x 0 Vargem Alta, acabou se tornando o nome da banda que o acompanhava. Embora tenha sido sua estreia, acabou sendo confundido com a estreia de uma banda da qual fazia parte. As parcerias se multiplicaram com participações de artistas como Ana Cañas, Tetê Espíndola, Pedro Luís, Posada, Troá! e Orquídeas do Brasil. Mas a parceria com Fran rendeu o álbum Onde?, lançado em 2020. Fran já havia lançado o excelente álbum Raiz no

mesmo ano e o encontro potencializou o talento de ambos. Chico Chico desenvolveu uma veia mais focada na canção, que contrasta com sua produção solo, trabalhada no estranhamento harmônico. Além do nome de batismo, Francisco, a dupla divide este sentimento de escolher a profissão de um familiar muito famoso, Fran é Fran Gil, neto de Gilberto Gil. Juntos, eles imprimem sua identidade própria na música. É claro que o timbre de voz de Cassia está presente na voz de Chico e que a virtuosidade no violão de Fran lembra a de seu avô. Mas o que resplandece entre eles é a possibilidade de ouvir produções autênticas no encontro de suas próprias identidades musicais, sem a preocupação de estar ou não à sombra de outra geração. Sobre o timbre de voz, Chico sorri “não tem jeito, né? É minha mãe. É algo genético. Mas ela sabia cantar. Minha mãe estudou, do jeito dela, mas estudou. Eu não”. E explica: “minha música vem da minha necessidade de falar, tenho dificuldade de me considerar um músico, um compositor ou um cantor. Sou um falador”. Com seu amigo de longa data João Mantuano, Chico lançou uma série de singles em 2020 e planeja um álbum para breve, para coroar essa relação. São composições pungentes, com certa dose de agressividade musical, combinadas com liberdade de experimentação. Não é propriamente uma música experimental ou conceitual, mas a despreocupação com determinadas “regras” da música popular. Os arranjos conversam diretamente e em função da proposição vocal, em especial na canção Pra Tua. O próximo trabalho deve ser solo. E deve ser logo. Embora pareça que Chico não liga muito para a fama, ele diz que o que as pessoas veem é o jeito tranquilo dele. Na realidade, Chico está ansioso para colocar no mundo esses trabalhos. Dono de dois cachorros e vascaíno, em algum momento pode aparecer com algum objeto com o símbolo do Atlético Mineiro. Sua mãe era atleticana fanática e colava o símbolo em tudo que possuía. Ela estará sempre lá, e Chico chega bem acompanhado, por ela e por muitos.

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ÁLBUM

Por Fernando de Freitas

A M U A H N I T A I C N Ê U L INFEIO DO CAMINHO NO M

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remendar porcelana), trazendo uma nova roupagem a algo que já pode ser considerado tradição e cânone. Se engana quem associar o arcabouço conceitual de Siso com alguma aridez dificuldade em sua obra. Como o Kintsugi, é fácil apreciar e entender o seu valor, uma vez que os elementos que estão ali são tangíveis. Ele usa a porcelana e o ouro de Minas Gerais, de onde vem, mas os trabalha na megalópole de São Paulo. Siso é metáfora completa de seu trabalho, deixando a personalidade de David submersa pela obra.

DA RECONSTRUÇÃO AO AFETO

O olhar de Siso no álbum homônimo é direcionado ao afeto. É a valorização do processo e dores a partir de uma posição de ternura despreocupada consigo. É a empatia de um velho monge que sabe apenas os erros constroem a sabedoria. É por

Imagens: Divulgação e Helena Wolfenson

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avid encarou seu trabalho e entendeu que transcendia a sua pessoa. Sua identidade era formada músicas que falavam do amadurecimento. Assim assumiu o nome Siso. “Veio disso, de siso ser um sinal de maturidade, uma maturidade que se questiona, porque que não tem função no corpo. É uma maturidade que envolve um processo de dor. É uma dor dentro de uma maturidade que vem se desenvolvendo. Eu acho que isso tem muito a ver com o que faço dentro da música” explica o músico. É diante das cicatrizes que adquirimos ao longo da vida que Siso apresenta seu mais novo trabalho, com o objetivo de mostrar composições dentro de um universo pop mais maduro, com referências já curadas pelo tempo. Essas cicatrizes são transformadas em ouro pelo processo do Kintsugi (técnica japonesa de


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Foto: Shutterstock/André Luiz Moreira

ÁLBUM isso que, apesar da profundidade que apresenta, não está revestido de seriedade. O músico consegue trazer temas que indiretamente (ou não) se referem ao cenário político, como a canção Quando o Amor de 1 Homem é 1 Revolver, ao mesmo tempo em que faz uma descrição de um fenômeno cultural (para não dizer psicopatológico), com a leveza de quem responde a sua proposição, “é melhor correr”, no verso seguinte do refrão. Neste cenário, ele consegue construir a música em catarse com os versos repetidos “pesa mais o amor”. Ele tensiona a pista de dança que encontra a simplicidade da resolução de sua proposta. Esso modo de fazer música se repete com peso nos sintetizadores e beats ao longo do álbum. É interessante como ele emenda as canções Corpo para Amar com Não Me Venha Com Essa de Amor. Ele

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constrói, desconstrói e reconstrói o discurso e a canção fazendo a jornada dançante sobre nossa própria instabilidade e incoerência. Ao fazer isso, Siso acolhe os sentimentos mais comezinhos de seu ouvinte, “a gente aprende, a gente cresce, a gente desenvolve e ganha profundidade na vida e, ao mesmo tempo, como é que a gente pode lidar com isso com leveza?” reflete o compositor. “É a linha tênue entre a profundidade que a gente adquire e não se deixar afundar por isso”.

POP ANTIGO

A primeira música de trabalho deste álbum é Pop Antigo. Trata-se de um tema dançante e sensual que entra neste universo maduro que Siso frequenta. “É uma música pop que roqueiro gosta, tem algo de Depeche Mode”, conta Siso. E complementa: “tudo começou com a jornada de criação da música. Eu criei todo o instrumental dela e eu não sabia

para que caminho ir com a letra, aí fui mostrando para algumas pessoas. Primeiro levei para a Letrux, ela não conseguiu trabalhar em cima porque estava fazendo Aos Prantos. Levei o pro Thiago Petit, não rolou também. Aí ei levei para a Yma, que falou ‘amigo isso me lembra 2002’ e imediatamente me veio o termo Pop Antigo”. A canção é feita dos mesmos contrastes que permeiam todo o álbum, trazendo climas solares e noturnos que refletem o mesmo tema. “Nada é uma coisa só ou a outra, eu tento integrar essas coisas na minha criação, está tudo dentro de uma dinâmica só” conta o músico. A música é feita para a noite, mas não a noite dos jovens que estão descobrindo a vida. É a trilha sonora daqueles que, entre idas e vindas, amores e desamores, ilusões e desilusões encontram espaço para espantar o fel na pista de dança.


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CAPA Por Fernando de Freitas

B A R E S E D A I C N Â T R O P A IM IPLO E T L Ú M A T S I T R A ER S O FOGO DE UM A S I C E R P E S QU A M , L E V Á C I L INEXP ENTENDIDO

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ndré Abujamra não gosta de dar entrevistas. Faz parte de uma espécie raríssima de artistas cuja única necessidade de fama se traduz unicamente em sua obra. Abu, como é conhecido pelos amigos, ama fazer o espetáculo, porém, fora dele, sua figura imensa contrasta com as atitudes de um cara tímido. Passou-se mais de um ano desde as primeiras tentativas e a primeira conversa, uma live transmitida no Instagram, e mais seis meses de negociação até que conseguíssemos transformar nossas conversas em uma matéria da Revista 440Hz. Por mais de uma vez ele me contou que teve dificuldades para aprender a falar. Antes das palavras, frases e orações, André aprendeu música. Essa é parte da mitologia de um dos artistas mais prolíficos, multifacetados e queridos do Brasil. E é esse ambiente mitológico que o artista, que ironicamente debutou no mercado com os álbuns Música e Ciência e Música Serve Para Isso, vem explorando nas últimas três décadas seus trabalhos mais pessoais.

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NA PISTA

ABU PAI E MAURÍCIO

Duas figuras estão sempre presentes na mitologia de André: seu pai, Antônio Abujamra, e seu parceiro original, Maurício Pereira. Do seu pai são muitas as histórias, ele mesmo uma figura mitológica, por sua presença no teatro e na televisão, tanto quanto ator - para toda uma geração, Antônio será eternamente o bruxo Ravengard - quanto como entrevistador. Em uma das histórias preferidas de André, seu pai teria dito a ele, um menino de 3 anos de idade, que, como sabemos, não era muito afeito a falar: “a vida é sua, estrague-a como quiser”. Por obediência, ou desobediência, não fica claro, André

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perseguiu isso. Aos 22 anos decidiu abandonar a faculdade de música que parecia incompatível com seu trabalho de músico profissional. Seu pai insistiu para que ele se formasse, usando o argumento de que o diploma garantiria uma cela especial quando fosse preso. Perceba, seu pai não disse “se ele fosse preso”, mas “quando”. Mas também é o homem que repetia, “não será por falta de amor que meus filhos farão terapia”. Assim, embora em muitos aspectos André pareça a antítese de Antônio, sua dedicação ao amor, no aspecto mais puro da palavra, é idêntica. Abu declara o amor aos filhos, entre eles o músico Joe Abujamra, à ex-mulher e melhor amiga Ana Muylaert e aos selecionados amigos. Ele não quer saber de inimizades e rusgas, escolhendo ignorar (e bloquear) quem escolhe esse caminho nas redes sociais. Embora não falte amor, com Maurício Pereira existe uma competitividade saudável. Irmãos musicais, a parceria de dois álbuns e muitos (muitos mesmo) shows com Os Mulheres Negras tem o status de cult no cenário musical brasileiro. Dali para frente a carreira de ambos seguiu caminhos muito diferentes, cada um em busca de respostas diferentes ao produzir música. O afastamento nunca foi completo, tendo os amigos colaborado um com o outro diversas vezes, e feito eventuais shows com o repertório do Mulheres que são um verdadeiro tributo a algo maravilhoso que um dia existiu. Ambos parecem concordar que na remota possibilidade de voltarem a gravar juntos, não será mais o Mulheres, mas Maurício Pereira e André Abujamra. De perfil mais comedido, Maurí-

cio fala sobre o antigo parceiro: “O Abu não esgota. Ele nasceu para ser músico. Essa conexão com a música eu só vi em duas pessoas, nele e no meu filho Martim (Tim Bernardes)”. Mas a conexão de Abu com Maurício é algo que parece ser tão forte quanto a dele com a música. Desde que se conheceram, em uma aula de percussão africana no começo da década de 1980, passando pelo Mulheres e uma série de colaborações posteriores (que incluem uma parceria para composições para o Castelo Rá-Tim-Bum). Chico Bernardes conta que uma vez pediu para André trazer um pedal de Reverb dos Estados Unidos. Acontece que Abu pediu permissão para o amigo. “Eu não estava indo muito bem na escola e meu pai pediu para ele guardar para me dar no Natal. Ele acabou deixando com meu irmão (Tim), que guardou no estúdio que dividimos. Um dia eu vi o pedal e ele disse que era de um amigo”, conta o jovem músico. O pedal acabou sendo entregue a ele e seu uso faz parte dos elementos que definem o timbre de Chico.

UMA FORÇA DA NATUREZA

Poucas carreiras musicais são tão extensas como a de André Abujamra, tampouco tão diversas. Em paralelo ao Mulheres, Abu iniciou uma carreira de composição de trilhas sonoras, incentivado pela, então, namorada, Anna Muylaerte (com quem foi casado e a quem hoje se refere como sua melhor amiga). No site IMDB, ele é listado como compositor de 65 trilhas sonoras, mas o número real chega uma centena. Dentre essas obras estão as trilhas de Carlota Joaquina, Bicho de Sete Cabeças, Durval Discos e Carandiru. Abu também têm mais de uma dezena de prêmios na área.

Fotos: Divulgação

Seu mais recente trabalho autoral é o álbum Emidoinã, que dá prosseguimento ao projeto iniciado pelo Omindá e que deve ter mais três partes. Mas os títulos de seus trabalhos-solo anteriores também dão a dimensão de um olhar que invariavelmente ultrapassa o universo tangível, são eles: Infinito de Pé, Marafo e o Homem Bruxa. Também não podemos deixar de lado toda discografia do Karnak, que sempre buscou traduzir em palavras simples angústias grandiosas. É a obra de alguém que procura a alegria sublime para além do grotesco da realidade. Pode-se ter a impressão de que André não tem lugar em uma sociedade violenta e hostil, mas ele se encontra em algum lugar, entre a figura do profeta e do alucinado, como uma voz de resistência, de esperança infantil, numa tentativa de encaminhar o mundo a um lugar mais belo. Por outro lado, sua missão nada tem de ingênua, pois sua música enfrenta a complexidade dos elementos (ou paixões, furores) humanos. Por isso que Emidoinã é dedicado ao fogo.


Entre as premiações que já recebeu, uma delas no teatro, o presenteou com uma passagem para Paris. “Eu era muito novo, não tinha dinheiro e só tinha ganho a passagem. Meu pai não estava nem aí e eu não quis pedir pra ele. É um dos meus maiores arrependimentos ter perdido essa passagem. Anos depois, soube que o Grande Otelo ganhou o mesmo prêmio, pegou o avião, tomou um café no (aeroporto) Charles de Gaulle e voltou. Hoje eu teria ido”, conta Abujamra.

No teatro, Abu escreveu trilhas para inúmeras peças do pai. “Ele era o meu maior crítico. Eu entregava o CD para ele e no dia seguinte me devolvia falando que estava uma merda e que era para eu fazer de novo”. O músico conta que tem muitas composições gravadas e guardadas dessas parcerias com o pai. Após o encerramento do Mulheres, Abu partiu com o amigo Theo Werneck para uma viagem para o oriente médio. Foi nessa viagem

que surgiu a banda Karnak, que tomou de surpresa a crítica brasileira. A banda, que tinha mais de uma dúzia de músicos (e um cachorro, diga-se de passagem), rompia com a dinâmica introspectiva do Mulheres (cuja equipe de bastidores era muito maior que a banda, comandada pelo o inseparável empresário/ produtor/amigo-quase-irmão Agui Rocca). Se não foi sucesso imediato, Karnak se tornou uma banda cultuada pelos fãs e, mesmo não estando em plena atividade nos últimos


NA PISTA com sonoridade esquisitíssima, mas fruto de uma experimentação entre dois amigos em plena diversão.

Com o Karnak, André encontrou um novo caminho para suas experimentações. A música que vinha do Laboratório Santa Sicília passou a conversar com influências diferentes. Sem nunca abandonar sua Gibson Les Paul preta 1978 (comprada nos Estados Unidos, durante a juventude, com o dinheiro de muitas horas cortando grama por lá), o som foi rotulado de World Music para satisfazer a necessidade dos críticos. Era um rock muito diferente do que se fazia no Brasil da década de 1990 e o rótulo não ajudou a banda. O que era taxado de intelectual, na realidade era a busca de uma simplicidade fundamental. Era um som tão despido de pretensões que, muitas vezes, foi confundido com seu inverso, o conceitualismo. O trabalho rendeu, à época, três álbuns de estúdio: Karnak, Universo Umbigo e Estamos Adorando Tóquio (esse último não está nas plataformas digitais – até quando André?). Ano passado a banda lançou a ópera-rock Nikodemus.

Após a virada do milênio, Abu passou a seguir carreira solo. Ou, pelo menos, a lançar álbuns com seu nome estampado na capa. Desde a estreia com Infinito à Pé até O Homem Bruxo, Abu não conheceu o mesmo sucesso comercial que havia atingido com Karnak (que não era assim estrondoso, mas era um sucesso), mas nunca deixar de trafegar como sucesso entre os críticos.

Também do Karnak é a canção de André que mais foi regravada (na realidade, com uma obra tão grande, isso é mera especulação): Alma Não Tem Cor. Nas vozes de Chico César ou Zeca Baleiro, a canção ganhou novas nuances e alcançou novos públicos. Em 2020, comemorando 25 anos da música, Abu lançou novas versões, com clipes no Youtube. Como produtor, Abu assumiu a função em Tem Mas Acabou, do Pato Fu. Na ocasião, Fernanda Takai dizia que “queremos vencer pela estranheza”, o álbum contava com Pinga que entrou nas paradas de sucesso da época. A parceria com John Ulhoa continuou ao longo dos anos, rendendo o álbum ABCÇYWÖK (lançado durante o ano de 2020)

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Em paralelo (sempre em paralelo), André lançou duas outras bandas, Gork e Turk. Turk é uma “banda punk” que, no seu humor característico, é a pior banda do mundo. Abu anuncia os shows dizendo que “é para ninguém ir”. Entre a autossabotagem e a autodepreciação, mais uma vez ele atinge o status cult, sendo seu público composto das pessoas mais descoladas da noite paulistana. Se alguns se referem àqueles shows minúsculos do início da bossa nova como “todo mundo que era alguém na noite do Rio de Janeiro estava lá aquela noite”, ir a um show do Turk pode ser considerado algo tão exclusivo quanto isso. As pessoas que foram a esses shows contam, com certo orgulho, que uma vez que dentro da cena alternativa, isso é o alternativo, do alternativo do alternativo.

AS OUTRAS FACES DE ABU

Se já havia feito sucesso com a Trilha sonora de Castelo Rá-Tim-Bum, Abu está profundamente envolvido com o Show da Luna, desenho infantil criado e dirigido por Célia Catunda e Kiko Mistrorigo. A versão em inglês estreou no canal norte-americano Sprout, da NBC, em 16 agosto de 2014 e, no Brasil, em 13 de outubro de 2014, no canal Discovery Kids. Sua voz é claramente ouvida na abertura quando canta: “Esse é show

da Luna, tudo que é pergunta a Luna Faz”. Dentro desse universo infantil, está o álbum Nikodemus, do Karnak. Ao conversar com Abu, existe um elemento infantil nele, no melhor sentido. Seu olhar está sempre pronto a se maravilhar com as novidades e uma a entrega generosa. Nessa relação de maravilhamento, Abu também se tornou ator. Tudo começou fazendo pontas nos filmes em que fazia a trilha sonora. O talento teatral sempre esteve presente no palco musical, mas foi logo reconhecido nas telas do cinema. Das telas, também transitou pelo teatro, encenando antes da pandemia, como As Nove Faces do Senhor Abu. Embora ele insista na ideia das facetas, Abu é um artista completo (quer dizer, acredito que ele não tenha talento em ginástica artística), cuja abrangência dos talentos ajuda a espalhar sua presença, mas atrapalha no reconhecimento de um talento específico. Abu, se só guitarrista fosse, seria um guitar hero brasileiro; se só compositor, referência fundamental; se só ator, tão grande quanto seu pai. Porém, como ele é tudo isso, acaba confundindo as pessoas. Mas talvez ele siga a cartilha de Tom Zé, confundindo para explicar.

A QUINTOLOGIA

Em 2018 tomou o cenário de surpresa mais uma vez. Apresentou ao mundo Omindá, o primeiro álbum de uma série de cinco. Era o disco da água. Com melodias fluídas e participações de artistas do mundo inteiro, o álbum tocou em cheio a sensibilidade das pessoas. A apresentação no Auditório do Ibirapuera já faz parte daquelas noites lendárias da música brasileira. Diante da casa lotada, Abujamra apresentou seu álbum mais ambicioso. Era o resultado de uma jor-

Fotos: Divulgação

anos, manteve a agenda de shows anuais no Sesc Pompeia, invariavelmente com casa cheia.


nada que consumiu anos e muito, mas muito, dinheiro “eu gastei tudo que ganhei na minha vida para gravar esse álbum” conta o compositor. Dentre os artistas de 14 países, Abu gravou com a Orquestra Filarmônica de Praga e convidou a atriz portuguesa Maria de Medeiros para participar de uma faixa. É provável que Omindá seja um daqueles álbuns que resistam o tempo e seja por muito tempo citado como uma referência da música brasileira. De fato, foi um marco para a carreira de Abu. Neste projeto, estão planejados 5 álbuns. Omindá (água), Emidoinã (fogo), Lejôodara (ar) e os álbuns da terra e do “quinto elemento”. “O Lejôodara será um álbum alegre”, conta Abu. “Quero que as pessoas saiam felizes do show”. Já o álbum da terra deve ser mais pesado e “o quinto, não sei, preciso inventar”.

EMIDOINÃ

Seu lançamento mais recente, o álbum dedicado ao fogo – Emidoinã – é uma surpresa. Não pela expectativa, ele já havia sido muito anunciado. Mas a continuação de Omindá representa um caminho muito diferente de seu predecessor. É uma obra mais pesada e pungente, focada nos sons da guitarra distorcida. “Eu tenho sorte, o estúdio que frequento vou tem absolutamente tudo de que preciso e posso imaginar”, conta Abu sobre a possibilidade de gravar com os equipamentos que ele quiser. “Neste álbum, eu usei o som das guitarras plugadas no amplificador, sem muitos pedais”. As canções têm grande energia e reconectou Abu com um público mais jovem. Mesmo tendo laçando o álbum em meio à pandemia, o músico pôde ver suas redes sociais infladas e as reproduções nas plataformas de streaming se multiplicarem. “Em vez de quarenta e nove centavos, vou

ganhar sete reais no próximo mês”. A conexão com um público mais jovem é fruto da sua constante renovação sonora. Neste caminho, Abu convidou artistas com apelo mais jovem como Crioulo, Russo Passapusso e Marisa Brito, mas mantendo antigas parcerias, como com Chico César, BNegão e Pedro Luís. Como o próprio tema induz, Emidoinã é um álbum que trabalha com intensidades. O poder construtivo e destrutivo do fogo é como seu con-

trole e descontrole. Abujamra caminha sobre as labaredas, se colocando em risco. É um passo ousado que dá para longe da segurança que seria repetir-se a partir do antecessor. O caráter teatral do álbum se complementa com a animação que o acompanha. A obra ganha riqueza em sentidos e, de alguma forma, faz as vezes de um show de lançamento que se torna impossível neste momento. André é taxativo “só faço show de novo quando for seguro para todo mundo”.

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RESENHA

Por Fernando de Freitas

SPIN AROUND THE SUN

GLASS CAVES LANÇA EP PODEROSO 44


À

apertado as mãos de todos os seus fãs. Claro que, com a expansão de seu sucesso além das fronteiras do Reino Unido (e com a pandemia), esse cenário não é mais o mesmo. Mas a conexão entre eles e o público está patente no seu EP A Spin Around the Sun. Gravado com maestria pela Scruff of the Neck, a energia dos músicos que precisam roubar a atenção dos transeuntes aprisionados em suas preocupações particulares está expressa faixa a faixa. Não é sobre agradar. Muito menos fazer o que se espera. Músicos de rua que se preocupam apenas em agradar dificilmente deixam de ser músicos de rua. É sobre surpreender e contagiar. A música de Glass Caves faz parte daquele seleto grupo de músicas que têm a potencialidade de ativar nossas memorias emocionais, ainda que a canção nem existisse quando precisamos dela no passado, mas que fará parte da trilha sonora de nossas vidas. Eye to Eye e Chasing a Feelling

são hits imediatos. Impossível não cantarolar essa última impossível junto e acompanhar seu ritmo. São canções que, ao ouvirmos, podemos dançar sozinhos na sala esperando em o dia que ela vai tocar em uma pista de dança. É o rock’n’roll em sua essência espiritual, sem as afetações do estrelato, em que aquele cara sobre o palco poderia estar no público e vice-versa. Um dia Lennon cantou: “a working class hero is something to be” e Glass Caves segue essa tradição. Completam o EP as canções Float into Space, Who Are You e Left or Right. Cada qual com sua própria textura, sempre com a sessão rítmica poderosa, acelerando ou desacelerando. Mesmo a soturna Left or Right tem o mesmo efeito de captura. O ano de 2020, foi o momento em que o resto do mundo conheceu os músicos que estavam nas ruas do norte da Inglaterra. Se tudo der certo, será em 2021 que o Glass Caves conhecerá o mundo pessoalmente.

Fotos: Gustavo Arrais

exceção de Elvis Presley, cujo sucesso foi imediato ao entrar para o meio musical, os grandes talentos da música pop foram lapidados pela experiência de palco enquanto passavam maus bocados. Os Beatles passaram dois anos fazendo pequenos shows Reino Unido afora, apertados no banco de trás de uma van, sem contar com o período em Hamburgo em que tocavam em bordeis e dormiam nos fundos de um cinema pornô. Bruce Springsteen sobreviveu dez anos sem possuir nada além de sua guitarra, dormindo de favor em uma loja de pranchas de surf em Jersey ou onde lhe emprestassem um sofá, antes de gravar seu primeiro álbum. Os Stones dividiam um apartamento sujo, o Greatful Dead, uma casa em San Francisco, Kurt Cobain dormia em seu carro. A banda Glass Caves passou anos fazendo shows de rua “passando o chapéu”. A banda, até pouco tempo atrás, se orgulhava de dizer que já havia

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COLUNA

T C E SUSP E C I V DE

Johnny Cash “Original Sun Singles ’55-‘58” (LP) duplo & “The Outtakes” (CD box set) Fico imaginando a cidade de Memphis, no estado de Tennessee no sul dos Estados Unidos, por volta de 1954. Elvis, um garoto motorista de caminhão, entrando pelas portas do pequeno e modesto estúdio da Sun Records do Sam Phillips, gravando o compacto que começaria uma revolução musical. Por aquelas portas ainda passariam Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Roy Orbison, Billy Riley, Johnny Cash, e tantos

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outros. O Man in Black ainda não tinha ganhado esse apelido, era um vendedor, muito ruim por sinal, que oferecia aspiradores de pó de porta em porta, que tocava com sua banda tecnicamente limitada, a Tennessee Two. A limitação virou um ponto positivo, pois a banda criou um som único, característico, e o trio gravou clássico após clássico entre 1955 e 1958, todos lançados em quatorze singles de sete polegadas. Essas 28 pérolas estão presentes no LP duplo de 180 gramas do selo americano Sundazed, impecavelmente remasterizadas.

Infelizmente, algumas músicas, consideradas cruas demais, foram “embelezadas” por instrumentos adicionais e backing vocals após as gravações. Mas se você quiser testemunhar essas músicas em toda sua glória, da maneira que foram originalmente gravadas no estúdio da Sun Records, com todos os takes existentes, conversas entre os músicos e incríveis versões inéditas, então pegue o box set The Outtakes, lançado pelo selo alemão Bear Family Records. São três CDs com tudo que existe do material gravado por Johnny Cash na Sun. Escutar esses CDs com o fone de ouvido e um copo de whiskey na mão, é uma experiência sonora mágica, que te leva para o cantinho do estúdio. E sentado no chão, pra não atrapalhar, você observa enquanto Cash e o Tennessee Two erram, começam de novo, e vão lapidando as músicas que hoje são consideradas não só clássicos do rock’‘n’roll e do country, mas clássicos da música americana. O box set ainda conta com um livreto de mais de 100 páginas, com fotos e informações técnicas. Dois lançamentos essenciais para entender as raízes desse gigante, que gravaria até sua morte, aos 71 anos de idade.

Imagens: Reprodução

ANOS 50

Por Henrike Baliú


retomar sua coroa aos 34 anos de idade. Esse LP duplo, edição limitada em vinil amarelo e rosa, lançado em 2019 para comemorar os 50 anos desses shows antológicos, foi um lançamento exclusivo para a loja de Graceland, o eterno lar do Rei, mas você ainda encontra esse álbum em vinil preto. Vale a pena, Elvis é Elvis.

ANOS 70

ANOS 60

ELVIS “The International Hotel August 26, 1969” (LP duplo) Quando avisaram John Lennon da morte de Elvis, em 1977, ele disse: “Elvis morreu quando entrou para o exército”. Entre 1958 e 1960, o maior fenômeno musical que o mundo já tinha visto serviu o exército americano em um batalhão de tanques de guerra na Alemanha. De volta aos Estados Unidos, não pisou mais em um palco até 1969. Se você quisesse ver o Rei naquela época, você tinha que ir até o cinema mais próximo, comprar seu ingresso, uma pipoquinha, e assistir a algum dos seus mais de trinta filmes, que, convenhamos, não são lá essas coisas (salvo um ou outro, tipo “Jailhouse Rock”), e olha que sou fã do cara. Então, imagina o frenesi quando foi anunciada a temporada de shows em Las Vegas, no luxuoso hotel cassino recém construído, o The International. Era o evento do final da década. Os ingressos esgotaram. Todos queriam testemunhar a volta do Rei aos palcos. E quem o fez, jamais esqueceu. Elvis estava espetacular, em plena forma, com uma banda ensaiadíssima. Sua gravadora, a RCA, gravou alguns desses shows

e aqui temos um deles completo! É aquela coisa, como diz o ditado, “quem não gosta de Elvis, bom sujeito não é”. John Lennon estava redondamente enganado, Elvis em Las Vegas, no verão de 1969 estava mais vivo do que nunca, ele era uma explosão de energia, provando para si mesmo e para o mundo, que o Rei do rock‘n’roll estava de volta para

Misfits “Static Age” (LP) O que é uma heresia? É uma ideia ou ideologia rejeitada pela Igreja, tida como falsa. Por exemplo, alguns blasfemadores cometem o sacrilégio de apontar o proud boy Michale Graves como o melhor vocalista que a lendária banda punk americana Misfits já teve. Isso, meus amigos, é um belo exemplo de heresia. Que Danzig em sua infinita sabedoria os perdoe, pois eles não sabem o que dizem. Convenhamos, Misfits sem seu vocalista original, Glen Danzig, não é Misfits. É uma boa banda, mas não é o Misfits. Misfits é isso aqui, esse álbum (mal) gravado em 1978, mas que só viu a luz do crepúsculo em vinil dezenove anos depois. Punk rock em seu estado bruto, primal, violento, com letras inspiradas em filmes B, quadrinhos e serial


killers, mas com uma melodia matadora. Um clássico dos clássicos. Melhor que ele, talvez o LP Walk Among Us, de 1981. Talvez. Hinos macabros como Hybrid Moments, Some Kinda Hate, Last Caress, Angelfuck, Bullet e Attitude” fazem desse LP mais do que um item crucial na coleção. Isso aqui é a bíblia negra do punk rock. We are 138! Amém. The Carpettes “Frustration Paradise” & “Fight Among Yourselves” (LPs) Sou aquele cara que julga um disco pela capa. Se eu não conheço a banda, mas a capa é foda, eu até dou uma escutada nos primeiros segundos da faixa de abertura. Se a capa é horrível e nunca ouvi falar da banda, nem tenho vontade de escutar o disco. Sempre achei a capa uma peça importantíssima para a apresentação de um disco, mesmo atualmente, no vasto mundo digital. Muitos anos atrás, no auge dos CDs, a loja FNAC de Pinheiros, em São Paulo, que hoje não existe mais, fez uma liquidação histórica de CDs importados. Eles tinham centenas de títulos de punk rock, sério, era muita coisa. Fui lá com um amigo e enchemos as malas, literalmente, de CDs da gravadora inglesa Captain Oi!, especializada em re-

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lançamentos de punk rock dos anos 70 e 80. Fui pegando sem olhar as capas, só porque eram da Captain Oi!, que eu sabia ser sinônimo de qualidade. Cada um por seis reais! Isso em uma época em que CD nacional de banda independente ruim era vendido nos shows a 10 reais. Devo ter comprado mais de 50 CDs naquela noite, tudo parcelado no cartão de crédito. Passei as semanas seguintes trancado no quarto escutando um por um. Deixei o de uma banda chamada The Carpettes por último porque, convenhamos, que nome ruim. E a capa do primeiro disco dos caras? Que coisa horrível, sem palavras. Coloquei o CD para tocar já pensando em quebre-lo no joelho na sequência, prática comum naqueles anos rebeldes. Começa a primeira música, até que é bacana, a segunda também é legalzinha, mas com a terceira, I Don’t Mean It, eles ganharam um fã. É daquelas que grudam na cabeça, um verdadeiro hit power pop. Escutei demais o CD e depois devo ter vendido ou trocado, ou algum pilantra roubou, porque fui procurar um tempo atrás e não o encontrei. Mas recentemente consegui os LPs originais, lançados pelo selo inglês Beggars Banquet. Frustration Paradise é de 1979, Fight Among Yourselves é do ano seguinte. Os dois discos são bons

demais, não sei dizer qual é o melhor. Só não gosto muito quando o trio resolve descambar para o reggae. O Stiff Little Fingers e o The Clash fazem isso com maestria, mas o The Carpettes, sei lá, deviam ter seguido a fórmula mágica do power pop que eles dominavam tão bem em todas as faixas. Eles lançaram uma série de singles clássicos entre 1977 e 1980, depois sumiram. Voltaram em 2002 com um álbum decente, mas sem a magia daqueles primeiros anos. É uma banda que não tem o destaque que merece na história do punk rock. Seria pela capa horrível do primeiro LP? Mas se tem uma coisa que o The Carpettes tentou me ensinar é a não julgar um disco pela capa. Não funcionou, sou teimoso, continuo praticando esse ato preconceituoso.

ANOS 90

Johnny Cash “Unchained” (LP) e “Unchained The Outtakes” (CD) Em 1994, um desacreditado Johnny Cash, esquecido pela grande indústria musical, assinou com o selo American Recordings, do jovem produtor Rick Rubin. Rick já tinha produzido os Beastie Boys, Slayer, Run D.M.C., Danzig e The Cult quando decidiu produzir o novo LP do veterano Cash. Gravaram um álbum, American Recordings, que superou qualquer expectativa e ainda levou o Grammy de melhor disco coun-


try em 1995. Já em 1996, veio o excelente Unchained. Um disco perfeito do começo ao fim. As gravações eram feitas na casa do Rick Rubin ou na cabana do Cash. Gravaram dezenas de músicas, mas só quatorze entraram no disco. Algumas inéditas acabaram sendo incluídas no excelente box set Unearthed, mas os fãs sabiam que existiam mais tesouros nos cofres da gravadora. Eis que o selo pirata, Cash Bootleg Series, entra em ação, arromba os cofres e presta um serviço, que não tem preço aos admiradores do Man in Black, lançando o CD Unchained The Outtakes. Faixas inéditas como Don’t Sell Daddy Any More Whiskey e I Changed The Locks, somadas às versões cruas de Mean Eyed Cat, Country Boy e I’ve Been Everywhere fazem desse disco um item crucial na coleção. O selo já conta com mais de cinquenta lançamentos em CD em seu catálogo. Você vê que quem está por trás do selo realmente ama Johnny Cash, pois é tudo extremamente bem feito. Olha, não vou ficar aqui discutindo se é certo ou errado um selo pirata lançar material inédito ou não. Mas se a gravadora não lança, alguém tem que lançar! Eu particularmente agradeço à existência do Cash Bootleg Series, o Robin Hood da pirataria musical.

LANÇAMENTOS

Danzig “Danzig Sings Elvis” (LP) Glen Danzig teve composições suas gravadas por ninguém menos que o mestre Roy Orbison (a lindíssima Life Fades Away) e o eterno Johnny Cash (a sombria Thirteen). Pois bem, eu sabia que uma hora o homem conhecido como The Evil Elvis, iria gravar seu tributo ao Rei. A hora chegou, apesar de eu achar que Danzig deveria ter gravado esse álbum quando estava um pouco mais jovem, pois sua voz já perdeu parte da potência que tinha. Mesmo assim ele faz bonito, como na versão assustadoramente bela de First In Line ou na clássica Always On My Mind. Danzig Sings Elvis é um trabalho de amor, pro-

duzido pelo próprio Danzig. Sem uma produção sofisticada, parece que foi gravado no porão dele e, se bobear, foi mesmo. Não é um LP para animar festa, é um álbum para escutar deitado no chão da sala, com todas as luzes apagadas, de madrugada, bêbado, se lamentando pela mulher que você perdeu por ser um babaca. Muita gente não gostou, mas até aí tenho certeza de que Glen Danzig não gravou esse álbum pensando em agradar ninguém. Lançado no começo de 2020 pelo selo americano Cleopatra Records em diferentes versões, a minha é a primeira prensagem limitada à mil cópias, na cor rosa.

digitalmente, mas para a alegria de colecionadores como eu, algumas foram eternizadas em vinil. No começo da pandemia do Covid 19, a Itália foi um dos países mais afetados pelo vírus. O selo italiano Wild Honey Records quis, de alguma forma, fazer a diferença. Se aliaram ao Tim e juntos lançaram esse EP maravilhoso. No lado A, a inédita Life’s For Livin”, onde se ouve apenas a voz rouca do Tim junto com um piano. No lado B, versões acústicas de It’s Quite Alright, do Rancid e da obra-prima do Bob Dylan, The Time’s They Are A-Changin’. Todo o lucro da venda foi

Tim Timebomb “Life’s For Livin’” (EP) Quando ele era moleque e tocava na banda californiana de ska punk Operation Ivy, era conhecido pelo apelido de Lint. Depois usou seu nome de batismo, Tim Armstrong, quando montou a banda punk Rancid. Hoje é conhecido por Tim Timebomb. E com essa alcunha, gravou centenas de músicas, de versões de clássicos do punk e do rock a composições próprias. A maioria dessas gravações está disponível apenas

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Foto: Shutterstock/André Luiz Moreira

usado para ajudar na construção voluntária de hospitais de campanha de emergência na cidade italiana de Bergamo, devastada pelo vírus.

NOVIDADES PIRATES PRESS RECORDS “Oi! This is Streetpunk 2020” (LP duplo) Para “celebrar” esse ano bizarro, a Pirates Press Records e a LSM Vinyl prepararam algo especial, a coletânea Oi! This Is Streetpunk 2020, que conta com vinte bandas em um vinil dez polegadas duplo, com pôster. Tem Lion’s Law, da França; Fuerza Bruta, banda de Chicago que canta em espanhol com dois brasileiros mutantes na formação; Falcata, de Portugal; The Young Ones, da Holanda; Brassknuckle Boys, Bonecrusher e Hard Evidence, entre outros pesos pesados do street punk americano. Representando a América Latina, está a minha banda, Armada, com a inédita The Rebel Sound, um tributo aos canadenses do Forgotten Rebels.

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Territories Falando em Canadá, o Territories tem aqui três lançamentos interessantes. O mais recente, When the Day Is Done é um mini LP com seis músicas que seguem o estilo do álbum de estreia (que ficou na lista de melhores de 2018 de muita gente, incluindo a minha), punk melódico com letras incríveis. O Territories é aquela banda que gosto de colocar para tocar quando estou dirigindo nas estradas, música para viajar. No split single, eles são meio que ofuscados pelos também canadenses Vicious Cycles, que resolveram gravar um hino punk para esse sete polegadas, a fulminante Problem Officer, provavelmente uma das melhores músicas que escutei em 2020. Além do mini LP e do split single, o Territories soltou um single para a música Short Seller, que é um CD que toca na vitrola. A mídia do CD foi usada como base, uma película com as ranhuras (essencialmente ondas sonoras impressas) é aplicada na mídia, apenas de um lado. E pronto! Você tem um CD que toca na vitrola! E o mais legal é que a arte foi feita para imitar uma ficha de poker. Escute Territories já! Me agradeça depois.

The Slackers Peculiar e Live at Ernerto’s foram originalmente lançados em CD pela Hellcat Records, selo do Tim Timebomb. Ganharam agora relançamentos deluxe em vinil pela Pirates Press Records. Live at Ernerto’s, que comemorou vinte anos em 2020, virou vinil duplo. Peculiar, de 2006, teve um tratamento diferenciado, ganhou um single com duas músicas inéditas encartado no LP, uma capa gatefold e um novo nome: More Peculiar. Confesso que só conhecia a banda nova iorquina de ska de nome, nunca tinha parado para escutar, mas gostei da capa do More Peculiar, então ele foi para a vitrola logo que chegou em casa. Por alguma razão, que o álcool explica, coloquei a agulha no lado B, na faixa I’d Rather Die Happy. Só violão e voz, uma letra simplesmente incrível e uma linda melodia me transformaram em fã em menos de dois minutos. Aí começou What Went Wrong e fiquei me perguntando por que nunca peguei um álbum deles para escutar antes. Como deixei esse disco passar batido? Que trabalho incrível! A música título é demais. Set The Girl Free é hit. Como esses caras não são milionários? Por que alguém não me mostrou essa banda antes? Ou será que mostraram, e eu, no


alto da minha arrogância punk, não dei bola por ser uma banda americana de ska? Não me lembro. Como é que eles não estão em alta rotação nas rádios? Ou talvez estejam, não ouço rádio. Para meu cérebro não fundir com tantas perguntas, abri mais uma cerveja e coloquei o Live at Ernerto’s na sequência. Gravado num boteco na Holanda! Como conseguiram um som tão bom nesse buraco na Holanda? Married Girl é outro hit. Por que os caras nunca tocaram no Rock in Rio? Chega de perguntas! Se como eu, você ficou dormindo até agora e nunca escutou essa banda, ainda há redenção. Ouça The Slackers já! E aproveita e pegue o espetacular single 12 com as inéditas Nobody’s Listening e Sleep Outside. The Old Firm Casuals Lars Frederiksen, guitarrista/vocalista do Rancid, assim como o Tim Ti-

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Foto: Shutterstock/André Luiz Moreira

mebomb, também tem seus projetos paralelos. No começo dos anos 2000, ele lançou dois LPs espetaculares com sua ex-banda, Lars Frederiksen and The Bastards. Moicano em pé na capa do primeiro LP. Visual motoqueiro com cabelo espetado, óculos escuros, pistolas na mão e mulheres seminuas nos braços no encarte do segundo. Uns anos depois, ele raspou a cabeça, colocou uma camisa Ben Sherman e montou uma banda skinhead, o The Old Firm Casuals. É difícil comparar um projeto com o outro, são bem diferentes. No The Bastards ele escrevia as músicas junto com o Tim, que também era o produtor, o resultado era mais acessível, mais melódico. Aqui na firma, o Tim não coloca o dedo em nada, a proposta é um som mais bruto, mais visceral. Esses dois discos são relançamentos de alto nível, mas não trazem nada de novo. This Means War saiu em 2014 e o EP A Beggar’s Banquet, em 2016. Skinhead rock de alta qualidade para os bootboys de plantão. Oi! LSM VINYL Antes conhecida como Longshot Music, a LSM Vinyl, do meu amigo Mike Longshot, também me mandou uns discos para resenhar nessa pandemia. Entre eles estava um que eu queria muito Trench Warfare (Full Session), a estreia da banda holandesa Savage Beat. Trench Warfare saiu em 2017, mas esgotou rapidinho e foi relançado agora pela LSM Vinyl com duas faixas a mais. Rock‘n’roll agressivo e uma arte matadora fazem desse disco uma linda adição à minha coleção. Também da Holanda, os não tão jovens assim The Young Ones soltam sem misericórdia o petardo Cream Of The Crop. São sete hinos que lembram muito Cockney Rejects e outras clássicas bandas Oi! inglesas dos anos 80. A faixa título, que abre esse disco, já te dá vontade de tirar a Doc Martens do armário, sair para beber e causar confusão com os amigos na rua. Isso aqui,

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meu amigo de cabeça raspada, é Oi! puro, do mais alto calibre. Em uma cena cheia de bandas genéricas, os The Young Ones se destacam. Minha favorita aqui talvez seja “B&G”. Mais um disco que entrou para a prateleira. Se você acompanha a nova safra de bandas street punks, com certeza conhece os canadenses da Bishops Green. O que talvez você não saiba é que as origens da banda remontam à clássica Subway Thugs, que tinha Greg Huff, o frontman do Bishops Green, na voz e Mike Longshot, o poderoso chefão da LSM Vinyl, no baixo. The Good, The Bad and The Thugly traz a discografia completa em um álbum duplo, encarte com a história da banda e uma capa bem legal, estilo quadrinhos. Uma ótima escolha para fãs do Bishops Green ou para quem gosta de street punk sem muita produção.

Da costa oeste dos Estados Unidos vem os bovver boys da Suede Razors. Todos são veteranos de guerra da cena street punk californiana. O vocalista vem do Harrington Saints. O guitarrista tocou na excelente Hounds and Harlots e hoje está na Ultra Sect junto com o baterista. E o baixista é ninguém menos que o dono da LSM Vinyl. O sete polegadas com os hits The Bovver and the Glory e Crazy Paving, um cover da Billy Karloff Band, obscura banda punk 77 inglesa, foi lançado em 2019. Gosto de covers assim, que fogem do convencional e te fazem conhecer coisas “novas. O mini álbum Razor Stomp é de 2017. São seis músicas que soam como se o Slade encontrasse o Last Resort num pub em Londres, bebessem Guiness até serem expulsos do bar e fossem fazer uma jam session juntos em algum buraco fedendo a mofo. Minha cópia é assinada pela banda, obrigado Mike!

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O INSTITUTO ENTREVISTA

Por Felipe Ricco

O N N O K O V A GUST

G

ustavo Konno é o fundador da Klingen Guitars, empresa que vem desde 2015 conquistando seu lugar no mercado de guitarras premium. Hoje, com artistas do calibre de Lulu Santos usando seus instrumentos, Gustavo e Klingen são nomes consolidados no mercado da luthieria no Brasil. Fique agora com a entrevista exclusiva que a gente fez com ele. Como você começou na luthieria? Comecei fuçando nos meus próprios instrumentos em 1998, entrei no curso de luthieria da B&H e conclui o curso em 2001. Daí pra frente foram muitos testes, observações, aprendizado, frustrações e descobertas. Quando você entrou no mercado, o principal intuito era construir instrumentos ou trabalhar como guitar tech? Oficialmente comecei a Klingen em 2015, o objetivo sempre foi focar

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Fotos: Divulgação

na construção. Fiz bastante manutenção durante algum tempo de Klingen, mas por agora estou focando nas construções mesmo. Você estudou luthieria numa das mais tradicionais escolas do país. Hoje, olhando pra trás, o que acha que compensa mais, fazer um curso numa escola ou ser aprendiz de um luthier com experiência? Os dois são importantes e não excludentes. O curso acaba pontuando formalmente assuntos importantes que talvez não sejam abordados numa experiência como aprendiz. Por outro lado, o curso não tem como abordar todas situações do dia a dia em que um aprendiz está exposto. Já ministrou algum curso na área? Se não, tem interesse em dar aulas? Já fiz várias turmas de programação CNC. Comecei a gravar um curso online de Luthieria, mas assistindo o material achei ruim e acabei não dando prosseguimento. Mas é algo que não desisti completamente, tem muitos assuntos mais

conceituais / teóricos que não vejo com facilidade por aí e seria legal disseminar. Ainda tratamos luthieria como uma área de conhecimento mais empírica do que técnica. É a favor do uso da tecnologia para passar conhecimento? O que você acha de cursos online de luthieria? Sim, gosto de tecnologia. Cursos online de luteria são super válidos, afinal há muitas pessoas que não teriam acesso de outra maneira. Mas fazer um curso não é garantia de saber fazer na prática. Você é formado em engenharia e trabalhou muitos anos na indústria. O que te fez mudar para o mercado do hand made e montar a Klingen? Fabricar guitarras comercialmente sempre foi um sonho. Ser engenheiro também era um sonho, mas acabou sendo um meio para criar a Klingen. Serviu para adquirir experiência profissional e recursos financeiros. Acredita que o conhecimento que adquiriu na indústria pode ser aplicado no mercado da lu-

thieria? Se sim, pode citar algum exemplo? Eu trabalhei em várias áreas na indústria, finanças, marketing, planejamento estratégico, gerenciamento de programas, vendas. Tudo isso é importante. No fim, fazer guitarras é um dos menores problemas para um luthier. É o feijão com arroz. Fazer bem feito é o básico. Mas as pessoas se esquecem que é preciso desenvolver fornecedores, criar uma reputação, vender, gerenciar clientes, cuidar das finanças, desenvolver processo de produção, balancear a produção. No fim é muito mais que fazer guitarra. Com a pandemia do Corona Vírus diversos segmentos do mercado entraram em crise e muita gente está precisando se adaptar. Como a Klingen está lidando com esses novos tempos? O maior problema é a instabilidade de fornecimento de matérias primas e serviços. As vendas vão muito bem, melhor que antes da pandemia inclusive. Como você vê o mercado da luthieria no Brasil? Consegue fazer uma comparação com o mercado internacional? Vejo que estamos evoluindo a passos largos, nunca na história tivemos tantas opções. Muitas marcas surgindo a todo momento. Em uma perspectiva global, a fabricação de instrumentos está ficando mais pulverizada. As grandes marcas estão perdendo muito terreno para pequenos fabricantes. Uma mudança no padrão de consumo. Algum conselho para novos profissionais? Não é um mercado fácil. Talvez um dos setores mais difíceis que eu conheço, mas é possível progredir. Ofereça bons produtos e serviços, seja honesto com seus clientes e persevere. Finalizando por aqui, muito obrigado pela entrevista, o espaço é seu para mandar um recado. Eu fico pensando quantas pessoas tem por aí maturando suas habilidades e vão em algum momento no futuro lançar uma nova marca de instrumento. Isso me anima! Ter mais pessoas e marcas para fortalecer o mercado como um todo me parece ser o caminho do progresso da luthieria e quem sabe, colocar o Brasil no mapa de fabricante de ótimos instrumentos.

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ENCERRAMENTO

A beleza será convulsiva, ou não será. - André Breton, do seu livro “Nadja”

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COXIA Anneliese Kappey

Ana Sniesko Erico Malagoli

Camila Duarte Fernando de Freitas

Henrike Balíú Ian Sniesko

Luis Barbosa

AFINADA PARA QUEM GOSTA DE MÚSICA

Matheus Medeiros

440 Hz