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440 Hz

QUARANTINE EXP Os vídeos gravados na intimidade e com a colaboração dos artistas

AFINADA PARA QUEM GOSTA DE MÚSICA

7TH KNOB NOS BEATS A VONTADE DE DIZER O QUE SE EXTRAPOLA

DENTRO DE CASA

O QUE FIZEMOS DE NÓS E DE NOSSA MÚSICA


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SUMÁRIO 06 AGRADECIMENTO 08 NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS 20 GIULES uma voz que desponta 22 THE ZASTERS a nova roupagem do rock 24 VALERIES de Londrina para Seattle 26 DANNY D. WIERDO entrevista com o alter-ego 30 COLUNA BATERAS BEAT 34 LETRUX um papo sincero e direto 38 QUARANTINE EXP vídeos na intimidade dos músicos 42 KELL SMITH sem medo de mostrar que é humana 44 MV BILL o hip-hop em era de pandemia

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46 7th KNOB experiências sonoras e sentimentais 48 HOME STUDIO gravando dentro de casa 54 MV88+ a solução da Shure para seu celular 56 REGULAGEM DE GUITARRA fizemos um curso online e contamos para você 60 O INSTITUTO ENTREVISTA LUCAS CARACIK 64 ALDIR BLANC a última homenagem em vida 68 O dinossauro O Pedal Sound e sua famosa sirene

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LEGENDA CLIQUE PARA ACESSAR vídeos incorporados à revista CLIQUE PARA ACESSAR o link indicado


EDITORIAL PRECISAMOS FALAR QUE OS SHOWS ESTÃO FAZENDO FALTA PARA TODOS Como fazer uma revista de música quando não há shows para ir? Claro que os lançamentos continuaram, que houveram lives (nós fizemos umas duas dúzias), mas tudo isso é uma sombra do que nos falta. Toda a estrutura do projeto editorial que seguiamos até aqui tinha uma lógica metafórica de uma carreira musical, mas as carreiras estão interrompidas, sobre os palcos e por detrás deles. Todos aqueles que trabalham para o show existir não sabem o que é trabalhar desde meados de março. São técnicos de som e luz, roadies e toda sorte de staff, são também os garçons, barmen e barwomen, hostess, segurança, manobrista e equipes de limpeza. É muita gente. E nem sabemos quando poderemos asistir novamente um show, o momento mágico e catártico em que, pela força de todos esses trabalhadores, o artista se conecta diretamente com seu público. Diante do meu desconforto, foi difícil encontrarmos um caminho para esta edição que não significasse romper a estrutura que trabalhavámos. O esqueleto temático foi abandonado por ora e a vontade era de abraçar todo mundo. Impossível! Acabamos seguindo uma linha de falar do presente, de retratar um pouco do que vemos e vivemos nesse momento. Qualquer previsão para o futuro é mero exercício de adivinhação e, assustadoramente, o futuro “ja é”. Agradeço muito que neste processo nós amarramos laços ainda mais fortes com parceiros e que passam a ocupar colunas na Revista 440Hz. Além da Malagoli Captadores, Você poderá esperar, a partir desta edição as colunas da Bateras Beat e dO Instituto. Meu convite pessoal é para que leia esta edição e aproveite o dia para pensar da importância da música em sua vida. Fernando de Freitas

440 Hz

Edição 5 - Junho 2020 Diretora de Redação Ana Sniesko Editor-chefe Fernando de Freitas Assistente editorial Ian Sniesko Arte e diagramação Dupla Ideia Design Direção de arte: Camila Duarte Diagramação: Fernando de Freitas Revisão Luis Barbosa Colaboradores Anneliese Kappey, Carolina Vigna, Erico Malagoli, Matheus Medeiros Foto da Capa: Joana Knobbe/ Divulgação

Foto: Arquivo Pessoal

A Revista 440Hz é uma publicação da Limone Comunicação Ltda.

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Caixa Postal 74439 São Paulo, SP, CEP: 01531-970 contato@revista440hz.com.br


LEIA A 440Hz

440 Hz

AFINADA PARA QUEM GOSTA DE MÚSICA

PLEBE RUDE

Abrimos todos os segredos e testamos as novidades do

GALPÃO MALAGOLI

ENCENANDO A HISTÓRIA DA HUMANIDADE

ANTONIO NÓBREGA

RIMA, embolada e indignação

Todas as edições disponíveis em nosso site gratuitamente www.revista440hz.com.br


AGRADECIMENTO LIVE-PROTESTO VIDAS NEGRAS IMPORTAM Em 10 de julho de 2020, a Revista 440Hz realizou a live-protesto Vidas Negras Importam. Como agradecimento aos artistas que participaram deste momento, apresentamos um pouco do trabalho de cada um. Clique sobre a foto para acessar. Vírgínia Rosa

Zé Leonidas

Hilda Maria

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Chicco Marola

Jé Oliveira

Kely Pinheiro


Renata Vilela

Cesar Melo

Alan Rocha

Graça Cunha

Rubah

Amanda Maria

L´Homme Statue

Naruna Costa


NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS BAIXOU O PREÇO

DESEJOS E CAMINHOS L

’Homme Statue já nos presenteou com mais dois singles do projeto “Sai do Meu Caminho”, que chega pelo selo In Their Feelings. Com um refrão inflamado e animado, somado a uma letra afiada, francês Loic Koutana manda um rap 100% em português. Contrastando com seus lançamentos anteriores, a intensidade que permeia cadências e ritmos constrói uma atmosfera provocativa e atraente na música. Com versos como “Sai do meu caminho/Dindin esperando/Contas pra pagar”, “Preto no topo/Fazendo dinheiro”, a música é uma carta aberta de empoderamento. A faixa “Desejos”, que chegou às plataformas no Dia dos Namorados, traz uma textura de áudio e se amplia para momentos íntimos em uma pegada de R&B com pitadas de Trap. Ele não cansa de nos surpreender!

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DÊ UM ROLÊ

A cantora Pitty trouxe uma lembrança muito especial e disponibilizou em seu canal no YouTube o documentário “Dê Um Rolê”. O material lançado em 2016, como parte do DVD “Turnê SETEVIDAS ao Vivo” (Deck) e agora pode assistido na internet. Dirigido e editado por Otavio Sousa, “Dê Um Rolê” é um registro da vida de turnês e viagens da cantora. Além de cenas dos shows, o documentário conta com depoimentos da baiana e sua equipe, reflexões sobre a vida longe de casa e detalhes que mostram bem toda a infraestrutura por trás de grandes espetáculos. Vai lá ver!

Fotos: Divulgação

Para apreciar uma boa música, basta um rádio de pilha. Mas se você quer ouvir cada detalhe que o artista colocou na faixa durante a gravação é o que realmente torna a experiência especial. Com o objetivo de proporcionar essa possibilidade a cada vez mais pessoas, a Deezer diminuiu em mais de 20% o preço da assinatura HiFi, que passou de R$ 33,80 para R$ 26,90 por mês. Os benefícios deste plano incluem, além de todos os proporcionados no Premium, streaming de 54 milhões de faixas FLAC em todos os seus dispositivos e compatibilidade com sistema de som High-end. Além disso, os assinantes também podem usar o aplicativo 360 by Deezer, tendo acesso antecipado às faixas no formato 360 Reality Audio sem nenhum custo adicional.


UM CLIPE EM CASA O pernambucano radicado em São Paulo, Semper Volt acaba de lançar Cristal, seu novo álbum. “Bateu” primeira faixa, abre os caminhos para um disco conciso que trabalha a música eletrônica com elementos bem brasileiros. Ela faz parte dos três interlúdios e preparam o ouvinte para o clima do que estar por vir, num álbum que foi concebido para ser ouvido do começo ao fim. E como novidade pouca é bobagem, em meio a pandemia o pernambucano topou o desafio de fazer um clipe em casa. Semper Volt lançou em maio “Se Juntou”, feito em stopmotion e inspirado em “Sledgehammer” do Peter Gabriel. O artista conseguiu um fazer um trabalho simples ao mesmo tempo engenhoso e divertido com uma pequena equipe: a companheira e a filha.

PATRICIA PALUMBO ESTREIA SÉRIE DE PODCASTS A série de podcast Linha do Desejo é o mais novo lançamento do programa VOZEScomASAS. Baseado nos encontros ao redor do documentário “O Incerto Lugar do Desejo “ de Paula Trabulsi, a série de podcast Linha do Desejo dá voz a convidados especiais e diferentes plateias instigados pelos mais variados temas ao redor do “Desejo”. O conteúdo captado também está incluído na próxima fase do projeto: uma sala de roteiro desenvolvendo várias outras ANAs ao redor da personagem do documentário ANA Thereza (interpretada por Maria Fernanda Cândido). A série de podcast vem com oito episódios. Você pode escutar a série de podcast Linha do Desejo nas mais diversas plataformas do programa VOZEScomASAS.

Saiba mais em: https://linhadodesejo.com/podcast

O SINGLE DE SABRINA PARLATORE Sabrina Parlatore, que já apresentou tantos músicos, anuncia oficialmente carreira na música com a estreia de singles inéditos. Composta e produzida por Wilson Simoninha, “Quero Você” está disponível nas plataformas de streaming e no formato de lyric vídeo no YouTube. Elegância é o conceito que norteia a sonoridade da faixa que expressa o amor, arrematada por saxofone e cello. “Uma gravação acústica com referências da MPB e do jazz da década de 1990 quando Sabrina iniciou a carreira na televisão”, define Simoninha. A paulistana de 45 anos entrega: “É uma construção melódica que me deixou confortável para uma interpretação intensa”.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

THUNDERBIRD VOLTA

COM MÚSICA

DE PROTESTO

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m meio ao distópico ano de 2020, Luiz Thunderbird retorna com o ácido, dançante e enérgico projeto solo, autointitulado e materializado pelo disco Pequena Minoria de Vândalos. Um grito libertário frente ao conservadorismo contemporâneo. Música de protesto, para balançar na pista, segundo ele. Inaugurando o álbum, Thunderbird apresenta uma versão inédita para “A Obra”, hits dos anos 80 dos belo horizontinos de Sexo Explícito. Entre as participações especiais do disco estarão Odair José, Pedro Pelotas (Cachorro Grande), Lucinha Turnbull, Julito Cavalcante (BIKE), Zé Mazzei (Forgotten Boys) e Ricardo Kriptonita.

Fotos: André Peniche / Divulgação

CANÇÃO DE NINAR O APOCALIPSE

Depois de dançar entre o bolero e o arrocha nas já mostradas faixas Quem Ama Sofre, parceria com Luiz Tatit, e Cinema Ilusão, co autoria com Zeca Baleiro e que tem vozes de Zeca e Chico César, Vanessa Bumagny lança uma canção de ninar para o próprio medo que não estava admitindo que sentia, mas estava lá. “Uma fantasia infantil, porque esse ‘bicho papão’ não vai dormir com a música. Mas ela pode acalentar a minha e a nossa fragilidade para a gente se fortalecer”, ela comenta. Assim é Canção para Ninar o Apocalipse: uma possibilidade de perceber o medo em cada um e poder acolher o sentimento.

DEMANDA EM ALTA!

Com a pandemia gerada pela Covid-19, muitos serviços que não são considerados essenciais tiveram que se adaptar com o distanciamento social e buscar alternativas para continuar em operação. A apresentação de artistas em lives e shows em casa virou uma verdadeira febre. Mas para a realização desses shows online, é preciso organizar toda uma estrutura e aparelhagem. E essa mudança de comportamento tem sido identificada em um relatório do GetNinjas, app para contratação de serviços, que registrou um aumento de 26% na demanda por serviços de áudio e vídeo no período.

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XAVIER CLIPE GRAVADO COM O CELULAR

FLEA EM AUDIOBOOK

Multi-instrumentista e produtor musical, Xavier acaba de lançar nas plataformas digitais a canção “Algo Que Nem É Seu”. Repleta de texturas, instrumentos que soam como colagens, mas que traz a leveza da brisa do mar, aliada a versos curtos e espaçados, a música disserta sobre transformação, relações, ciclos e recomeços, a partir de uma sonoridade densa e experimental. “A música foi composta no violão, mas a nossa vontade sempre foi tirá-la desse lugar mais comum, e acho que conseguimos, queria que soasse como canção, mas com um arranjo mais estranho, que conduzisse a uma viagem quase que instrumental”, explica o artista que, além da carreira solo, é músico de diversos projetos encabeçados por cearenses, como Soledad, Vitoriano e seu Conjunto e Daniel Peixoto. A faixa, que integra a mixtape “Mormaço”, chega também com um clipe, dirigido pela artista cearense Patrícia Araújo e inteiramente filmado com celular, dentro da mata densa.

O músico americano Michael Peter Balzary, mais conhecido como Flea, é baixista, membro-fundador da banda Red Hot Chilli Pepers e autor do seu livro de memórias. Lançado mundialmente em 2019 - Acid for the Children - acaba de ganhar sua versão em audiobook no Brasil pela Storytel, plataformas de audiobook. O baixista inicia a obra contando sua eterna busca pelo divino e espiritual e destaca que para ele, ser famoso não significa nada. O audiobook tem duração de 9 horas e 49 minutos, em língua portuguesa e pode ser ouvida online ou offline na plataforma. A Storytel está com um mês de acesso grátis na plataforma e o aplicativo pode ser baixado para Android e Apple. Saiba mais em: https://www.storytel.com/br/pt/

Poderia ser apenas uma metáfora, mas é um fato. O cantor e compositor Saulo von Seehausen - que se autointitula “saudade” (em minúsculo) lança single, que chega acompanhado de webclipe. Em tempos de quarentena e abraços virtuais, o nome ‘’afago’’ não poderia ser mais apropriado. As imagens foram feitas durante as gravações. captando a atmosfera em que o trabalho do artista tem sido confeccionado: um ambiente caseiro, intimista e familiar. O cenário principal é o Estúdio Araras, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, onde o cantor cresceu.

Fotos: Gabriela Amerth / Divulgação

AFAGO É O NOVO SINGLE DE SAUDADE

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

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para colocar em prática a frase “a união faz a força”, a campanha “Brasil Andar Com Fé” convida a olhar para quem precisa. O projeto parte da intenção de ajudar a divulgar instituições (ONGs) de todo o Brasil, que neste momento cuidam de pessoas em situação de vulnerabilidade. A partir do beat criado pelo produtor musical Renato Neto, a ação convida artistas a gravar versões da música de Gilberto Gil, como um convite às ações sociais no Brasil todo. A campanha já conta com Carlinhos Brown, Chico César, Elba Ramalho, Elza Soares, Fernanda Abreu e tantos outros. Acaba de ir ao ar e o segundo vídeo do projeto que conta com participação de Preta Gil, madrinha da ação.

TODO MUNDO NA PLAYLIST Sabe quando você faz um encontro com os amigos (quando não existia pandemia... e rolava uma playlist coletiva? O Spotify encontrou uma maneira para fazer isso acontecer dentro da plataforma com seu novo recurso Group Sessions, que já está disponível para os assinantes. Ao compartilhar um código escaneável com outros usuários do Spotify, você pode ceder o controle da reprodução de uma mesma lista a qualquer pessoa em sua casa. O app permite até cem usuários por sessão. Nós já testamos a fuuncionalidade em meio à pandeimia e ainda não deu briga de casal. Mas pensa bem... O duro vai ser controlar tantos gostos diferentes!

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Fotos: Divulgação

PELO BEM DE TODOS


DAY VOLTA ÀS ORIGENS A cantora geminiana do movimento POP underground e dona do hit que leva o título de seu signo, lançou o que define como “um presente para os fãs”, o EP “Deezer Sessions DAY”. A artista, que é integrante do programa Deezer Next, escolheu quatro canções para essa regravação acústica: “Complicado”, “Clichê”, “Geminiana” e “Tanto Faz”. A jovem cantora e compositora, que começou a fazer sucesso com vídeos acústicos postados no Twitter anos atrás, foi um dos destaques do The Voice em 2017 e apresentadora do Multishow no Rock in Rio em 2019.

ALESSANDRA MORENO APRESENTA NOVO EP A cantora e compositora Alessandra Moreno acaba de estrear o novo single “Me inspira”, a segunda faixa do EP Sinestesia, do olfato! Dona de uma voz poderosa, ela faz uma levada pop que é para sair dançando pela sala. Já está disponível nas plataformas digitais.

CONEXÃO BRASILPORTUGAL O grupo Elo Urbano, formado por Samuca e Zef, anuncia o lançamento do single “Rap Sem Limites”. Na primeira parceria internacional do grupo, o Elo Urbano chamou a MC portuguesa Francis para o som. A música ainda conta com riscos do DJ Zarif, do interior de São Paulo. A faixa vem no ritmo do Boom Bap clássico, a inspiração principal de todos os integrantes. O instrumental da faixa foi feito pelo produtor Beatowski. O lançamento acontecerá apenas no YouTube, a faixa estará só nesta plataforma.

PARA SE ATUALIZAR Se tem algo que não se esgota em meio ao isolamento, são os conteúdos amplificados por canais do YouTube. O LAMC, Latin Alternative Music Conference, é um evento de música que ocorre anualmente em Nova Iorque, Estados Unidos, com duração de seis dias. Desta vez, a programação com dezenas de painéis e palestras sobre inovação, diversidade, formação, desafios pós-coronavírus e outros assuntos pertinentes ao mercado, além dos showcases de novos artistas estão disponíveis no canal do evento no YouTube.

CORONEL PACHECO LANÇA LYRIC VIDEO

A primeira prévia do novo álbum cheio que deve ser lançado em breve, é uma retomada à “Menino da Lua”, música do disco “Petit Comité” (2016), que foi inspirada em poemas do Giovani Baffo. “Com tanta coisa estranha acontecendo por aí, cresceu a ideia de que todo mundo é obrigado a ter um posicionamento claro sobre qualquer assunto. Nessa música a gente preferiu parar, pensar e falar um pouco sobre o que não temos tanta certeza assim”, conta Edu Barreto, vocalista da banda Coronel Pacheco. Há três anos do seu último lançamento, o trio retorna com “Menino II”, faixa com participação de Natália Matos e Thaís Bonizzi nos vocais. “Partimos do Reggae e ao longo do processo fomos adicionando detalhes no arranjo”, conta.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS ANA LAROUSSE COM A POLÍTICA CANÇÃO MURO

EDI ROCK E SEU

MANIFESTO

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nindo sua voz e sua arte à diversas outras personalidades e cidadãos que estão se posicionando em torno do movimento antirracista, o rapper Edi Rock, também integrante do Racionais MC’s, acaba de lançar a faixa “Vidas Negras”. Com a intenção de ser um manifesto frente aos recentes acontecimentos, o artista solo se posiciona através da composição inédita por entender a música como sua arma mais potente. “Comecei a trabalhar no meu novo álbum ‘Origens - Parte 2’ no ano passado e agora vejo que esse é o momento de compartilhar uma parte do que tem sido desenvolvido. Nada mais oportuno, já que o momento de ataques contra o povo negro pede posicionamento e atitude. No meu caso através da música, através do rap”, conta o artista. Todos os royalties gerados com o clipe serão destinados à Central Única das Favelas (CUFA), a maior organização não governamental focada em favelas do Brasil.

Após um hiato de quase dois anos longe dos palcos, a poeta, compositora, cantora e musicista Ana Larousse está de volta. “Muro”, o primeiro single dessa nova fase, foi produzido por Érica Silva (Mulamba), gravado por uma banda composta apenas por mulheres e lançado pela “Coletânea Sêla de Produtoras Musicais”, em agosto de 2019. O clipe, desenvolvido na época, é apresentado para o público agora. Ainda que mantenha um caráter pop e muito poético, é uma canção mais experimental e conceitual do que os trabalhos anteriormente lançados, trazendo ainda mais à tona a profundidade e complexidade da artista. “Profético ou apenas esperado, o universo que construímos aconteceu e estamos muito orgulhosos do resultado desse trabalho”, conta.

Mesmo com as mudanças causadas pela pandemia de Covid-19, o consumo de rádio segue forte. De acordo com levantamento especial da Kantar IBOPE Media, realizado em 13 regiões metropolitanas do país, 74% dos ouvintes de rádio afirmaram que estão mantendo ou aumentando o consumo do meio durante o isolamento. O número é maior do que o levantado na onda anterior (abril), que era de 71%. O número de ouvintes que consumiram o meio com serviços de streaming de áudio também cresceu de 25% para 27%.

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Fotos: Coagula Divulgação

MEU QUERIDO RÁDIO


Com o avanço da Covid-19 e o fechamento de bares, restaurantes e casas de entretenimento, ficou evidente que a maior parte da classe artística depende de seu ofício para pagar contas. “Os artistas independentes foram alguns dos primeiros profissionais a parar as atividades e ficaram totalmente desguarnecidos”, afirma Léo Cuófano, idealizador do Soul Live, aplicativo de lives desenvolvido com o intuito de proporcionar a eles um retorno justo sobre as apresentações. No modelo de negócios pensado por Leo e sua sócia, Talyta Vecina, que também é sua esposa, o artista fica com até 80% do valor dos ingressos negociados dentro da plataforma. O app também oferece a possibilidade de atuar por meio de promotores regionais e profissionais, classe que também foi prejudicada nesse momento. O Soul Live já está disponível na Apple Store e Google Play. Para se tornar promotor Soul, entre em contato através do Instagram: @soullive e pelo e-mail contato@soul-live.com

Após o lançamento do single “Abril”, lançado no último mês, a goiana Mariana Froes chega com a inédita “A Porta” com participação do maranhense Phill Veras. O single, que chega acompanhado de lyric vídeo, é uma composição sobre amor, mas o sentimento após o trauma: “É sobre aprender a amar de novo, reconstruir confiança, deixar suas defesas de lado”, conta a artista. A goiana, que faz parte do selo Taquetá (de Pedro Kurtz e Niela Moura), tem se destacado como novo nome da música brasileira, conquistando público a cada dia.

Fotos: Patrícia Soransso Divulgação

LIVE MONETIZADA

MARIANA FROES SE UNE A PHILL VERAS

ALARCÓN EM LIBRAS! “Apesar de Querer” é a música do cantor Rodrigo Alarcon que ganhou um clipe com iniciativa acessível à comunidade surda. A canção, que já alcançou mais de 4.4 milhões de streams apenas no Spotify, tem participação de Abacaxepa e já é conhecida do público por fazer parte do setlist dos shows pelo país. “Na hora de gravar o clipe, pensamos em como essa mensagem poderia ser levada para mais pessoas, e a Libras chegou como uma forma de inclusão desse público que não receberia a mensagem da canção da maneira com que vai receber agora”, conta o artista. Para a realização, houve a colaboração da intérprete, pedagoga e especialista em Libras e Educação Inclusiva, Pollyane Rodrigues.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

OS RATOS E A ARMADA O

isolamento social decorrente da pandemia de coronavírus alterou o modo como as bandas têm produzido música. Exemplo disso é a faixa inédita “Os Ratos”, lançada nesta terça-feira (15) pela Armada. O grupo, que sempre prezou pela qualidade impecável de suas gravações, desde a época em que seus integrantes faziam parte da lendária Blind Pigs, agora troca os estúdios pelo celular e considera que a mensagem é mais importante que o meio. “Os Ratos” conta ainda com um videoclipe desenvolvido também à distância e editado pelo baixista Mauro Tracco. “A letra do Henrike é uma analogia, mas queria que as imagens fossem para outro lado. Queria que fossem explícitas, sem muito lugar pra subjetividade”, diz Tracco. A ideia do baixista foi mostrar os ratos como inimigos nojentos e desprezíveis. Para isso, se valeu de cenas de filmes B dos anos 70 e 80 com essa temática. Assista!

Werá Jeguaka Mirim é o nome de Kunumí MC. Com dois discos já lançados, Kunumí MC lança agora o single Xondaro Ka’aguy Reguá (Forest Warrior), que ganhou clipe, dirigido pela dupla da Angry Films, Bruno Silva e Gabe Maruyama. A música retrata a realidade dos povos indígenas de força e resistência, desde a invasão dos portugueses até o presente momento, sob a visão de um indígena. Kunumí conta que a ideia do clipe foi retratá-lo na aldeia Krukutu, onde vive em Parelheiros (SP). .

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Fotos: Coagula Divulgação

RAPPER CANTA SOBRE A LUTA DOS POVOS INDÍGENAS


CRESCE A PROCURA POR AULAS DE MÚSICA

SAMBA NA QUARENTENA A canção fez com que Henrique Cartaxo - um de seus compositores, junto à Luísa Toller e Gustavo de Medeiros - se inspirasse ainda mais, compondo a faixa inédita “Sete Dias”, “uma canção produzida em casa, com o sentimento das noites de quarentena”, revela o compositor. A música acaba de estrear nas plataformas digitais e o clipe pode ser visto aqui. A música surge como uma isolada criação autoral do músico, que tem vivido um dia de cada vez nesta quarentena. A faixa aborda um ciclo pelo qual passamos, entre esperança e medo, nesses dias de isolamento

NASCIDA NO ISOLAMENTO

Divididos entre cidades dos estados do Paraná e Santa Catarina, os amigos de longa data, Diogo Clock (voz e guitarra), Conra Hirt (baixo), Cezar Iensen (bateria) e Marcelo Vieira (guitarra) estão vivendo a experiencia de montar uma banda nova à distância, durante o isolamento social causado pela pandemia do coronavírus. Intitulado Os Texugos, o grupo punk rock bubblegum tem pressa e divulgou nessa semana cinco singles, já disponíveis nas principais plataformas digitais. “Anos 80”, “Despautério”, “Nos 3 acordes”, “T.O.C” e “Verso Etílico” fazem parte do primeiro EP, “Quarentena em Hill Valley”, com lançamento previsto para o mês que vem.

Fotos: Patrícia Soransso Divulgação

Enquanto é preciso ficar em casa para se proteger do coronavírus, os passatempos são os mais diversos. Um relatório realizado pelo GetNinjas apontou um aumento de 53% na procura por aulas de música em São Paulo durante a pandemia. Este crescimento foi registrado entre os dias 17 a 23 de maio, em comparação com os dias 8 a 14 de março, período em que a Covid-19 não havia impactado diretamente o setor. “Percebemos ao longo desses três meses de análise do relatório que, com a quarentena prorrogada, as pessoas estão aproveitando mais o tempo em casa para retomar atividades que, com a rotina antes da pandemia, ficaram de lado “, comenta Eduardo L’Hotellier, fundador e CEO do GetNinjas. Ainda de acordo com o relatório, as aulas de música mais procuradas pelos clientes no aplicativo, são: canto, violão, teclado, piano e violino.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

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música “Only U”, que foi tema de uma novela da Rede Globo, foi a primeira parceria do cantor Leo Von com o hitmaker Mister Jam. Na época, Leo (filho do cantor e apresentador Ronnie Von) morava nos Estados Unidos e teve que acompanhar o sucesso de seu primeiro hit de longe. Agora, seis anos depois, ele volta ao país e retoma a parceria de onde parou. “On Hold” é o lançamento de Leo Von, Mister Jam e Paulo Jeveaux, que segue a onda do Future Nostalgia, um Pop moderno com pitadas de Dance e Soul Music dos anos 70. “Esse é um projeto paralelo às nossas carreiras nesse momento, mas estou muito empolgado com esse lançamento, pois essa é a primeira vez que o público vai poder ouvir meu trabalho de produção”, diz o cantor. “On Hold” já está em todas as plataformas digitais acompanhada de um Lyric Video seguindo a temática Future Nostalgia.

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A TRUPE POLIGODÉLICA

O primeiro disco da banda chegou às plataformas digitais tão logo iniciou a pandemia. Direto do Vale do São Francisco, mais especificamente: Juazeiro-BA e Petrolina-PE, nasce o trabalho da banda A Trupe Poligodélica, intitulado “A Transmutação do Eco em Lenda”. Com uma base fundamentada no rock progressivo e psicodélico, composto de ritmos e sonoridade variadas, que passam pelo Blues, Baião, Samba, Ciranda, São Gonçalo, Afoxé, Afrobeat, Brega, Valsa, entre outros. O disco é o sexto lançamento do selo Bosque Coletivo. O disco é composto por nove faixas com letras escritas por Fatel e arranjadas pelo grupo, que juntos transformam todas essas referências rítmicas, sonoras e poéticas em uma mensagem sólida e consistente.

Fotos: Coagula Divulgação

LEO VON, PRODUTOR


PAULO GABARDO TRANSBORDA NO EP INTEIRO

Assim podemos descrever “Uma prece”, novo videoclipe dos cearenses da Oto Gris, single do EP Praias Possíveis. O filme traz a banda de volta às suas raízes e celebra o caldeirão cultural nordestino. A dupla de diretores, Jonathas Alpoim e Rafael Neves assinam o vídeoclipe e explicam que trazer o filme para o sertão profundo foi uma escolha para além da estética: “A música transcende; o som e o clima de “Uma prece” nos remetem a esse lugar, suas crenças, cores e dicotomias”. Os diretores ressaltam que, para a produção da cena onde aparece um cacto em chamas, foram tomados todos os cuidados para que a planta não sofresse qualquer dano, utilizando estopa fixada aos espinhos da planta para provocar as chamas, que foram apagadas assim que a captação foi finalizada.

Fotos:so Divulgação

RITUAL NO SERTÃO

“Inteiro” é o nome do primeiro EP do artista Paulo Gabardo, que saiu da fria e úmida Curitiba para encarar, aceitar e superar suas sombras na seca e ensolarada Brasília. O nome e as quatro canções que compõem este trabalho expõem um pouco da transformação do artista em sua passagem pela capital federal. “A mensagem do EP tem muito a ver com todo esse contexto de negação, depressão e desorientação que me fizeram acordar para uma parte de mim que estava negligenciada. É como um desfecho dessa fase”, reflete Gabardo. O EP traz uma seleção de músicas compostas pelo artista quando ainda morava na capital federal. Disponível em todas as plataformas digitais.

MARTTE ATTACA O single “A Rua”, canção que traz reflexões sobre o momento em que estamos vivendo, de isolamento social pelo mundo. Em uma pegada Eletro Pop, o artista paulistano apresenta a faxa com produção em parceria com SKY - produtor do álbum debut “Vem Bem Vindo” (indicado como álbum do ano pela Redbull em 2019), e convida o ouvinte para dançar, extravasar suas emoções e sorrir, pois o artista acredita que tudo isso vai passar.

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PRESTE ATENÇÃO

Por Fernando de Freitas

R O D A M U E E D I O R E T S A UM

O D L A C I S U M O ELAÇÃ V E R A É S E L AS E D A GIU C I L E D S A I ELOD M M O C O T N E MOM O MUITA EMOÇÃ

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ainda que, também seja possível fazer uma relação bastante direta com Regina Spektor, artista cuja carreira tem praticamente a mesma idade de Giules. Ao ouvir a música dessa jovem compositora, lembramos daquela função afetiva da música de nos conectar com nossas dores e nos lembrar que não estamos sozinhos. Giules é a voz na escuridão da tristeza que nos resgata pela empatia do reconhecimento. O mais incrível é que ela faz música exatamente como uma forma dela mesma não se sentir sozinha nestes sentimentos. O EP Sleephead, recém lançado pela HandShake Label, tem tratamento cuidadoso, com produção delicada, acrescentando leve instrumentação, como um eventual violoncelo a ressoar aumentando a vibração de algumas

estrofes, e dando brilho ao colorido da voz e do violão impecável. Este é um parceiro que comenta, pontua e faz acompanhamento de personalidade. O violão não é volume a preencher o espaço vazio da melodia cantada, mas contraponto do arranjo de voz. É a dupla que substitui a solidão que canta Giules. “Passei um ano estudando na Hungria e esperava retomar meu relacionamento quando voltasse, mas não foi bem assim que aconteceu. Eu compus essas músicas para lidar com essa dor” conta Giules, que escreveu Asteroid Waves ao ver um beijo que não gostaria durante uma noite na balada. “Eu escrevi essas músicas para mim, mas outras pessoas sentem a mesma coisa e não se sentem sozinhas”, complementa sobre o sentimento de colocar as canções em público.

Fotos: Divulgação

hegou o momento em que a música dos anos 1990 está enraizada nas entranhas dos jovens compositores. Giules, que nasceu em 1999, transborda referências que podem até soar estranhas para ela, pois está em seu imaginário sem sequer ela um dia ter acompanhado àquelas artistas. Em voz e violão Giules canta todos os acústicos que ouvimos antes dessa redescoberta do revival do folk (sim, é nesse ponto que estamos). É importante entendermos que ela não faz folk ou um subgênero dele, mas um rock acústico que exala as paixões e afetações como um dia cansamos de ouvir e quase desapareceram. É possível reconhecer trejeitos que pertencem a Alanis Morrisette ou Shania Twain, mas ainda o rasgar de emoções de The Corrs ou 10.000 Maniacs,

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CENA

S E U Q O H C E K C RO E D A D I L A E DE R Por Ian Sniesko

Uma conversa coma proeminente banda The Zasthers

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liando uma estética pesada com críticas ferrenhas ao sistema e ao establishment, o The Zasters prova que o rock e o pensamento crítico andam lado a lado e expõem as fragilidades da sociedade não de uma forma cirúrgica, mas sim de uma forma brutalmente realista. A banda vem pondo em prática muitos projetos, mesmo com os desafios e dificuldades da atual quarentena em que vivemos. A exemplo do clipe Meltdown, que foi gravado de forma totalmente DIY, cada integrante a partir de sua casa. Conversamos com o The Zasters sobre estes projetos e também sobre as origens do grupo. Confira abaixo. Como o The Zasters surgiu? Ju: Antes até do nome The Zasters surgir, era uma banda que eu formei com as minhas amigas pra tocar. Mas consideramos o começo oficial da The Zasters em agosto de 2015 com a entrada da Na Sukrieh. Na época, éramos um trio feminino de indie rock começando a fazer músicas autorais. O EP This is a Disaster que foi produzido pelo Capilé lá na Costella foi nosso primeiro trabalho de estúdio e onde tudo começou, com uma pegada garagem. Com a entrada do Rafa na guitarra em 2017 viramos um quarteto, lançamos com ele dois singles (Come See The Band e Going Down). E no começo desse ano o André entrou como baixista, Meltdown foi o primeiro lançamento que ele participou com a gente. Quais são as influências do som de vocês? Rafa: Cresci ouvindo hardcore, descobri que queria ter banda num show do Dead Fish no Hangar 110. E aí fui conhecer outras coisas, ouço bastante rock inglês 60s e 70s, bastante do indie rock anos 2000 e ultimamente tenho escutado mais coisas do pop, tipo Lady Gaga, Billie Eilish.

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clipe seguindo esse mesmo caminho. A ideia pro video especificamente surgiu junto com o pessoal do Estúdio Grão (direção, produção e edição), onde iríamos destruir objetos de comunicação, como uma crítica à alienação que estávamos vivendo no momento. Rafa: Gravamos numa casa em reforma, queríamos passar a impressão de um ambiente “precário”, rudimentar, e era de fato, bem precário. A casa não tinha água, energia elétrica, nada. Puxamos energia elétrica de fora da casa para ligar o som, luzes e câmeras, foram 12h de gravação no meio da poeira (e sem banheiro!). Ser uma banda independente no Brasil é uma tarefa bem difícil, e a realidade dos artistas as vezes pode ser injusta. Como vocês lidam com tais desafios? Rafa: Ódio e disciplina (risos). Tentamos canalizar as frustrações no nosso som, tornar a frustração produtiva de alguma forma, e ter disciplina para levar as coisas adiante. Pensar mais no nosso trabalho do que nas dificuldades. André: Acho que nos focamos no nosso som e na originalidade, sem fazer comparações com outros artistas. Acho que é outro ponto para nos sentirmos bem com o que criamos. Com o atual momento de quarentena que estamos vivendo, obviamente estas dificuldades se agravaram. Como vocês estão se adaptando a esse cenário no âmbito da divulgação, dos shows, etc? Na divulgação em si, não sentimos aumento nas dificuldades. Até temos a impressão que por conta do isolamento, as pessoas estarem mais em casa, têm um pouco mais de tempo de consumir cultura, ouvir som, assistir vídeos, etc. O que mais nos impactou foi não podermos fazer shows e termos que pausar o projeto do nosso novo álbum, mas estamos tentando usar o tempo da melhor maneira possível. O André (nosso baixista) entrou na banda no começo do ano, na correria de ajudar nos arranjos e aprender a tocar todas as músicas, e com essa pausa estamos aproveitando para melhorar nosso entrosamento em relação a composições (mesmo que à distância). Já para “substituir” os shows estamos nos acostumando com esse esquema de live via redes sociais, estamos pensando que até quando tudo voltar ao normal, vamos fazer algumas lives também, além dos shows. Sobre o clipe Meltdown, que foi gravado na quarentena, como se deu a ideia para o vídeo e como foi o processo de gravação e edição?

Quais foram os maiores desafios do projeto? Ju: Juntamos imagens do nosso dia-a-dia além de imagens da banda tocando e cantando. A gravação e edição do vídeo foi até bem tranquila, acredito que a maior dificuldade foi escrever a música à distância, que foi algo que nunca fizemos antes. Normalmente nos encontramos em estúdio e vamos compondo o que falta presencialmente. Desta vez, fomos escrevendo em casa cada um a sua parte e mandando áudios no WhatsApp com as ideias de cada um. Foi legal descobrir que conseguimos fazer música de casa. Rafa: Foi a primeira vez que gravamos uma música sem nunca passar ela no ensaio, quando for possível ensaiar no estúdio de novo vai ser a primeira vez que tocaremos juntos essa música, isso é meio estranho. E no processo criativo, vocês estão dando uma pausa ou continuam compondo? Se sim, como fazem para que todos os integrantes participem do processo? Rafa: Quando a pandemia começou estávamos no começo do processo de gravação de um álbum que ficamos quase 2 anos compondo, e por causa do isolamento social achamos que era prudente adiarmos até sentirmos que fosse seguro voltar a gravar em estúdio. Logo nas primeiras semanas de quarentena fizemos alguns vídeos de covers e alguns sons nossos à distância, e quando vimos que a quarentena seria mais longa do que pensávamos, começamos a compor à distância. Nosso processo normalmente já funcionava em boa parte pela internet, sempre alguém tinha uma ideia inicial e mandava no nosso grupo no WhatsApp, pra irmos pensando ideias a partir daquilo, e aí no ensaio a gente testava as ideias. A diferença é que agora ao invés de testar no ensaio, cada um grava da sua casa e manda pros outros ouvirem e aí vamos dando pitacos e criando um em cima do áudio que o outro manda. Inclusive, nesse esquema fizemos o último single que lançamos “Meltdown”, que a nossa batera Nabila Sukrieh mandou um áudio com a letra pronta e um violão acompanhando, e aí fomos arranjando a música, depois eu juntei as gravações de todo mundo e mixei. Vocês têm planos para lançamentos futuros? Ju: Sim! Além de alguns singles de quarentena (que possivelmente juntaremos em um EP), assim que possível entraremos em estúdio para gravar nosso primeiro álbum! Temos 10 músicas prontinhas pra lançar.

Imagens: Divulgação

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Ju: Ouço bastante coisa! Mas de influência direta na The Zasters eu diria bandas de indie rock dos anos 2000, Arctic Monkeys, The Kooks, The Strokes. Nabila: Gosto muito de indie rock no geral, arctic monkeys acho que foi a essência para criar a identidade e um caminho pra banda, da minha parte, o que mais me motivou. Gosto muito de música alternativa, com sons mais híbridos como Metric, Little Dragon, Hot Chip, que venho tentando incorporar e mesclar com grooves mais pesados cada vez mais para chegarmos em algo que seja bem a nossa cara. André: Assim como o Rafa, cresci ouvindo bandas de hardcore como Dead Fish, Bad Religion, Rise Against, Rancid. Depois de um tempo fui ouvindo outras coisas como Metallica, Strokes, No Doubt… hoje em dia escuto música Ska, como The Specials e Madness, por exemplo. Enfim, ouvir um pouco de tudo e não ter a cabeça fechada para conhecer coisas diferentes é algo ótimo, na minha opinião. Qual é o significado do nome da banda? Ju: É uma brincadeira com a sonoridade da palavra “disaster”. Em alemão “Zaster” tem diferentes significados também, mas pra gente não quer dizer nada daquilo (risos). Vocês têm uma estética bastante pesada e puxada para cores quentes, como o vermelho no clipe de Going Down. Essa estética é um resultado da sonoridade pesada da banda ou ela foi pensada junto com a música? Nabila: Esse aspecto visual para nós sempre foi muito importante. Sempre achamos fundamental ter uma estética definida que também ajude a traduzir nossas intenções com a banda. Usamos essas cores mais quentes e fortes para Going Down, que representam muito bem a energia mais agressiva da música, junto com os macacões e toda coisa de destruir a TV e objetos de comunicação que fazemos no clipe! Hoje, com o single Meltdown, e futuramente com o álbum, estamos buscando algo mais complexo, tanto de sonoridade como em termos visuais, uma identidade ainda mais forte e plural. Como foi o processo de gravação do clipe da música citada (Going Down)? É um vídeo ao meu ver pautado na simplicidade mas que passa muitas mensagens fortes e distintas. Nabila: Foi um vídeo bem direto com uma mensagem direta de indignação. A primeira ideia da música surgiu com o Rafa e já com essa intenção de algo mais agressivo e crítico. Desenvolvemos a música e pensamos no

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PRESTE ATENÇÃO

Por Fernando de Freitas

A D A M A H C A D N A B UMA

S E I R E L VA

M UM E A I C N Ê D N E DEP N I E E D A D I CO R L A O P O T SON I U M E RE D R O C E D E U Q TRABALHO

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Fotos: Divulgação

ondrina é uma cidade com pouco mais de meio milhão se habitantes (e mais ou menos o dobro em sua região metropolitana). Afastada dos principais centros de cultura do país, a cidade é um polo industrial da região sul do país. São características que lembram uma localidade muito importante para a música: Seattle. A banda Valeries faz parte da cena da cidade e acaba de lançar o álbum La La Pop. A semelhança que impressiona não é, necessariamente, uma identidade entre o som apresentado pela banda e aquele de alguns expoentes de Seattle, que existe, mas na liberdade de encontrar sua sonoridade. O que há de semelhante entre as cenas é que, por pertencerem a cidades grandes e desenvolvidas, porém sem as nuances do gigantismo metropolitano, a cena musical não se fragmenta em grupos esteticamente identificados, mas formam um grande grupo, diverso, em que as influências individuais estão em

um diálogo constante. A identidade é geográfica e os laços formados nas conversas, mais livre entre estilos. Em uma grande metrópole é mais comum os grupos se segmentarem e estabelecerem padrões (e, muitas vezes, compromissos) estéticos internos destas quase agremiações de estilo. La La Pop é resultado de se tentar trazer a energia e a sonoridade de uma banda com vivência de palco para uma gravação de estúdio. Guilherme Hoewell explica que a banda buscou os timbres mais próximos possíveis daqueles que seu público pode encontrar quando eles estão tocando ao vivo: “a gente até sabe os equipamentos que os nossos ídolos usam, mas não temos acesso a tudo, então o que fizemos foi tentar soar o melhor possível com o que tínhamos e o mais próximo do que as pessoas ouvem ao vivo”. O trabalho é um resgate de uma forma de fazer rock alternativo, pesado e potente, mas com uma roupagem de pro-

dução pop: “a gente usa muito uma estrutura de verso-refrão verso-refrão que o Nirvana usava”, conta o cantor e guitarrista. Mas não é apenas isso, a banda lança seu primeiro álbum já calejada pelos palcos e com savoir-fair do relacionamento com o público. Contrariando uma lógica recentemente imposta por algumas bandas e artistas, Valeries não lançou um trabalho de estúdio para divulgá-lo nos palcos, mas apresentou um trabalho consistente após testá-lo sobre o palco. A história da banda já é marcada por uma turnê pelos EUA impulsionada por uma demo que circulou em 2015, quando a banda foi formada. Desde então, foram 5 anos de dedicação aos palcos, apenas com o lançamento do EP 663, um projeto experimental de guitarras e vocais, com estética lo-fi, em 2018. O interessante é que, conversando com a banda, eles não planejam projetando oportunidades, mas a partir delas lançam mão dos projetos e abrem novos caminhos, e isso reflete no que vêm ao mundo: um álbum que se sustenta por sua força sonora, conectado com o público de rock’n’roll. Assim como muitos outros músicos, quando terminaram de gravar e começaram a dar os toques finais na edição e na masterização, com shows de lançamento marcados, veio a crise sanitária e a necessidade de isolamento social. A decisão foi disponibilizar a obra mesmo assim, enquanto estava quente, para que não sofresse a ação impiedosa das gavetas e, requentada, perdesse o sabor original.

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ENTREVISTA

Por Ian Sniesko

A R U P E A ART ONIMATO E O AN

rdo entre ie W . D y n n Da ile de a b o e a ir t รก as mรกscaras

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Como o grupo teve origem? Danny: Aprendi a fazer arte por mim mesmo pois nunca pude pagar por aulas, isso fez com que eu desenvolvesse meu próprio jeito de me expressar, independente das amarras da técnica. Quando passei numa faculdade públlica de artes cênicas em São Paulo, passei a estudar mais técnicamente a performance e dediquei meus estudos autônomos à música. Neste meio termo conheci The Residents, uma banda adepta da Teoria da Obscuridade, que diz que o artista só é capaz de fazer uma arte pura através do anonimato, e, quando percebi, já tinha criado uma máscara e colocado no rosto. Usando ela, passei a torturar minha guitarra durante um dia inteiro, até que meus dedos sangraram e no espelho eu enxerguei ele, ou eu: Danny. Depois disso recrutei Lori pra compor a banda de forma que a performance fosse além da música e da cena e atingisse também as artes visuais. Jhonny tem a energia bizarra que eu queria para banda, então chamei ele. Vinny já curtia as músicas e acabamos nos indetificando um com o outro, ele veio também. Depois de procurar exaustivamente por um guitarrista, eu quase desisti, aí Rory apareceu pra compor o grupo.

No que consiste o conceito da banda Danny D. Weirdo? Danny é um personagem? Danny: Tem muitas coisas que não me satisfazem na maior parte do cenário artístico paulistano, eu não consigo me encontrar e me identificar com obras que focam em temas supostamente cotidianos como relacionamentos e socialização. Existem coisas mais cotidianas que isso e somos acostumados a pensar que não são. Problemas psicológicos e políticos estão entre essas coisas, e mesmo assim, muitas vezes quando alguns artistas abordam esses assuntos, ainda não me identifico com o modo que o fizeram. Tenho certeza que não sou o único a se sentir estranho ou querer lidar de forma estranha com a vida, então passei a fazer algo que eu gostaria de ver, e que alguém, estranho como eu, se sinta representado por minha arte. Quanto à ele, ou a mim, Danny é uma persona, e, diferente de um personagem que muitas vezes é fictício, escrito, criado, Danny é real, é um expurgo, um segundo rosto, uma sátira do que vejo nos outros e em mim mesmo. Quais são suas principais influências no lado musical? Danny: Na base do som vem Queens of the Stone Age, Interpol e um pouco de Arctic Monkeys. Na estrutura dramática da música vem Swans, Gorillaz, The Residents, Radiohead e Black Midi. No barulho cito de novo Swans e Black Midi e adiciono Daughters, Deaf Kids, e Pixies. Nas letras com certeza Lenine e Damon Albarn. E as influências na arte visual? Pergunto pois vocês parecem ser muito ligados também a este tipo de arte. Lori: Eu acredito que de alguma forma a precariedade traga o melhor do artista, provocando a cabeça a achar soluções não convencionais para as coisas. E isso acontece também com o processo criativo, por isso defendo movimento do DIY, o faça você mesmo, e eu tento explorar isso por meio de alguns movimentos artísticos pra falar a verdade, com o Salvador Dalí no Surrealismo, o lado performático do alemão Joseph Beuys e o artista contemporâneo suíço Augustin Rebetez. Danny: Também gostamos muito de filmes e jogos de terror, Silent Hill é uma das nossas referências estéticas desde quando a banda começou. Recentemen-

Imagens: Divulgação

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erá que um artista só é capaz de fazer uma arte pura através do anonimato? Para Danny D. Weirdo, sim. A banda performática é um tipo raro no cenário musical atual, e é integrada por Danny (vocal, guitarra e composição), Vinny (baixo), Jhonny (bateria), Rory (guitarra), e Lori na performance visual. Os temas das músicas chamam a atenção: não é sempre que vemos faixas com nomes excêntricos como “Comida Congelada”, ou então minimalistas e atiçadores da curiosidade como “Shakespeare”. A estética e o conceito do grupo fogem do convencional para dar lugar a personas anônimas apresentadas pelos integrantes por trás de máscaras criadas por eles próprios. A opção pelo mistério vai, claro, além das aparências. É para os artistas e principalmente para Danny uma forma de satirizar a si próprio e uma ferramenta para que possa se expressar livre de quaisquer amarras psicológicas. Confira abaixo nossa conversa com a banda.

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te tenho lido os mangás do Junji Ito e já é mais uma referência pra nós. Falem um pouco sobre o processo criativo de vocês. Lori: Eu escolhi que o processo criativo para o projeto Danny D.Weirdo nunca fosse uma coisa fixa. Sempre tento mudar os jeitos e caminhos que desenvolvo meus trabalhos, por mais que dê uma atenção maior para o desenho exaustivo. Pela minha performance em palco ser totalmente intuitiva, tento dar voz principalmente para a minha estética pessimista, mas é

divertido também terminar o show e ver o que saiu ali, é quase um laboratório. Danny: Eu tento trazer uma espécie de experiência dramática com o som da banda. As músicas possuem atos e um climax. Os temas vêm conforme a necessidade de expressão, é raro eu começar uma composição sem ter um tema, mas se isso ocorre, eu procuro um que caiba na atmosfera sonora. Contraditoriamente, o nome é a primeira coisa que surge, porque me ajuda a guiar o processo e porque é divertido dar um nome digno de filme pra uma música,

acho que atiça um pouco a curiosidade quando você abre uma playlist e lê “Jack Daniel’s Tennessee Honey” ou “Les Enfants Terribles”. As letras das suas músicas tem uma pegada bastante surreal. Da onde vem a inspiração para escreve-las? Danny: Apesar de ter citado Lenine, receio que jamais vou chegar na genialidade e no aproveitamento da língua portuguesa que esse homem tem. Dito isso, busco brincar com as palavras como posso, usando metáforas e imagens pra que o ouvinte possa tirar suas próprias conclusões do que está ouvindo. Mas algumas vezes eu apenas penso em alguma frase que seria legal como uma frase de efeito de algum vilão. Outras vezes é só a primeira coisa que veio na minha cabeça. E de vez em quando algo que eu gostaria de ter dito ou que de fato aconteceu (eu realmente já chorei enquanto comia uma coxinha) Como está sendo o processo de criação nessa quarentena? Como estão se adaptando no âmbito musical para o momento no qual estamos vivendo? Lori: Tá sendo desafiador na verdade. O mundo externo afeta o processo criativo, e principalmente na situação que a gente tá, não tem como não afetar. Mas as provocações continuam, mesmo que sendo lendo alguma coisa nova, assistindo um filme ou escutando uma música que me faça sentir bem. Ultimamente estou escutando muito Pixies e Low Roar, o que tem me ajudado a não perder a cabeça. Danny: A quarentena me deixou sem tesão de trabalhar no projeto durante o primeiro mês, mas quando percebi que eu tava preso numa espécie de loop (Dia da Marmota, Feitiço do Tempo, Bill Murray?) eu resolvi evoluir um pouco meu som e trabalhar de formas diferentes meu processo de composição. Além disso estamos sofrendo consequências gravíssimas de atitudes que muitos de nós não tomamos e eu preciso falar disso, mas do meu jeito. Quanto ao âmbito musical, somos relativamente novos no meio, fizemos apenas três ou quatro shows antes de tudo isso acontecer, mas decidimos lançar o single “Maníaco” (produzido pelo nosso querido amigo Gil Mosolino) como uma manisfestação, parece ser apropiado para o momento. Por último, pretendem lançar novos trabalhos no futuro próximo? Começamos a trabalhar no conceito do próximo EP a partir de uma música que fez durante a quarentena, mesclando o som atual com o som que pretende fazer no futuro, mas o projeto ainda é primitivo demais.


NOTA DO EDITOR Quando entramos em contato com a banda, recebemos uma resposta engraçada e um tanto desconcertante, fomos questionados se queríamos falar com ele ou com o alterego. Entendemos que seria mais interessante a conversa com o outro, claro. Em nossas conversas lembramos do dia em que o lendário Pasquim entrevistou Julinho da Adelaide, compositor inventado por Chico Buarque para driblar a censura. Com a ajuda da jornalista Juliana Rodrigues, que tem um trabalho incrível pesquisa do jornalismo musical impresso, encontramos as páginas que reproduzimos aqui (clique para abrir o PDF).

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COLUNA

Por Cris Lucas

. . . E U Q O T M U Á D

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pensar em ter sua própria banda. E já que falamos disso... Você já pensou em ter a sua? Com toda certeza, sim! Como ter uma banda é também ter seu negócio (talvez o seu primeiro negócio), vamos a algumas dicas de como trilhar esse caminho. O projeto de uma banda se divide em três partes: 1 – Artístico 2 – Empresarial 3 – Ser Feliz Apesar de cada uma destas questões se subdividir em diversos outros pontos específicos, falaremos de forma abrangente para entendermos a importância de cada uma e como elas se completam. Artístico: é tudo que envolve a criação e apresentação da sua banda. A escolha do nome e estilo, dos integrantes, do repertório, figurino, sobre o que as letras das músicas falam são fatores de criação que vão refletir diretamente no resultado artístico final, ou seja, como sua banda será vista pelo público. É fundamental experimentar estilos diferentes e variados de música, porém, se você e seus amigos de banda puderem conversar e encontrar um ponto de partida será bem positivo para o crescimento artístico da sua banda. Empresa: é tudo que torna possível o Artístico: o marketing; a internet; contabilidade; produção de vídeos, fotos e show; venda de shows e o gerenciamento de todos estes tópicos são cruciais para a sua banda dar certo. Pode até parecer impossível, mas te daremos mais uma dica: dividir estas funções¡? O guitarrista cuida do Instagram; o baixista do dinheiro; o baterista vende os shows e o vocalista é o responsável por criar os vídeos e organizar o portfólio. Desta forma, se todos estiverem alinhados, fica mais fácil, certo? Para criar esta atmosfera na prática, a Bateras Beat criou a “Bateras Jam”. São dezenas de apresentações anuais realizadas em todas as unidades da franquia com o intuito de manter o aluno no palco, em apresentações abertas ao público, fazendo-o participar das produ-

ImagensIzzie Renee on Unsplash

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abe aquele seu ídolo? Um dia ele sonhou em estar exatamente ali, naquele palco enorme, com muitas luzes, fumaça e milhares de pessoas aplaudindo, cantando junto. Isso parece familiar, não é? Eu, você e nossos ídolos sonharam com esse momento. Sabe por quê? Por que viver de música é, acima de tudo, trabalhar com o sonho. Por outro lado, sempre que iniciamos algo muitas são as dúvidas, não é? O mesmo acontece com as informações. É uma chuva de decisões, caminhos, idéias e, principalmente, sonhos. Com a música não é diferente. O que não é diferente também é o “Ponto Zero”, ou seja, o que fazer para que o sonho se torne realidade. A Bateras Beat Music School considera que querer ter suporte para todas estas questões é o início ideal para um futuro sólido e descomplicado. O início da sua jornada como músico! Para uma carreira artística feliz e com um desenvolvimento saudável, quanto mais assuntos e vivências pudermos explorar e absorver melhor e, assim, mais preparados estaremos. Antes de falar do estudo em si do instrumento, alguns outros pontos são importantes para todos os aspirantes a músico ou estudantes de música como, por exemplo, a convivência com seus tutores e alunos em níveis mais avançados. Sendo assim, o ambiente de um instituto é extremamente benéfico, pois sempre haverá muita troca de informações e experiências. A música é feita pelo coletivo e aprender a trabalhar em equipe, respeitar opiniões e saber se manifestar é primordial... E você não vai fazer isso sozinho, certo? Além disso, o ensino moderno de música tem como um fator-base as aulas em grupo, de prática de banda e estudo de repertório, para se tocar junto com outros músicos e que é muito útil aos alunos iniciantes, já que em seu primeiro ano de estudos você certamente poderá

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ções, escolha de repertório, criações e ensaios desde o início, para que o novo músico tenha contato com boa parte destes tópicos importantes e já ganhe alguma autonomia para aplicar em sua vida artística. Devemos estar sempre conectados e, para você ter uma idéia da importância disso, inúmeras são as bandas que nasceram destas Jam Sessions ou de eventos maiores, como o BATERAS 100% BRASIL. SER FELIZ: nada disso terá sentido se você não acordar todos os dias com uma vontade imensa de tocar e de dar o seu melhor. Por isso, DIVIRTA-SE! Escute e “tire” muitas músicas, copie seus músicos preferidos. Existe muito aprendizado nisso, acredite! Comemore cada nova virada, lick ou acorde aprendido, mostre aos seus amigos e seus familiares. Separe um bom momento do seu dia para evoluir, estude seus exercícios com tranqüilidade e não tenha pressa. Você vai se surpreender ao descobrir que a música é sua aliada e te ajudará a ser mais concentrado, criativo, espontâneo, ou seja, uma pessoa ainda melhor!

SOBRE O ESTUDO DO INSTRUMENTO:

Todo grupo precisa ter bons integrantes e este tópico fala sobre o investimento que você deve fazer em você. Serão horas e horas de estudo e, acreditem, é extremamente prazeroso, se bem organizado e conduzido. É preciso entender e trabalhar suas necessidades a médio e longo prazo, dentro da sua verdade musical e referências. Além disso, o ensino musical moderno tende direcionar a metodologia diretamente ao mercado musical.

O QUE ISSO SIGNIFICA?

Que a escolha dos exercícios, conceitos e vivências propostas é diretamente relacionada ao que os músicos precisam para atuar competitivamente no mercado musical seja ao vivo, em estúdio ou como professor, futuramente. O CEO do Bateras Beat e baterista, Dino Verdade, lembra: “A meu ver, é muito importante que, na iniciação musical, o músico tenha contato com vários estilos, ampliando, assim, sua visão musical”. Igualmente importante é respeitar o seu gosto musical, pois é nele que você encontrará facilidade em

assimilar a linguagem e o repertório. Para finalizar, deixamos um desafio: Faça uma análise de você mesmo, tente se ver daqui a 3, 5 e 10 anos e questione-se... Qual é seu principal objetivo como músico? O que falta para você se sentir e estar mais preparado? Em que fatia do mercado você deseja atuar? Você conhece todas as possibilidades? 1 - Ter uma banda, 2 - Gravar em estúdio, 3 - Ser um Sideman, 4 - Produção musical 5 – Ser um professor de música, 6 – Fazer arranjos, 7 – Tocar em Musicais, 8 – Tocar em cruzeiros. Estas são apenas algumas possibilidades do mercado musical. Nas próximas dicas falaremos de cada uma delas e como aproveitar seus estudos ao máximo para atingir seus objetivos. Cris Lucas é Professor Bateras Beat Music School, baterista e empresário.


ENTREVISTA

Por Matheus Medeiros

S O T N A R P S O A rux ao t e L e d e d o Uma ntir direito de se

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na religião ao invés da ciência, um verdadeiro horror. Em Noite de Climão foi o disco de abertura da era Letrux. Pensando na Letícia que lançou Climão e na Letícia que lançou Aos Prantos, quais são as principais diferenças entre as duas? Ah, envelheci. Em três anos muita coisa aconteceu na minha vida, pessoal e profissional. Rodei o Brasil com esse show, conheci lugares, pessoas, percebi a podridão dos haters, recebi o amor das pessoas empáticas, descobri mais o Brasil profundo, estudei mais, li mais, me investiguei mais, e pretendo continuar assim, ainda que a pandemia tenha suspendido algumas coisas por agora. Quando o Climão começou, apesar de já ter 35 anos, eu ainda tinha uma visão mais Pollyana da vida. A estrada ensina muito. Não perdi a ternura, mas claro que endureci. Em Vai Brotar você se diz mais espiritualizada. Como isso tem te ajudado a viver o momento atual? Sempre fui espiritualizada, por conta do meu pai que é médium e da minha mãe, que é mestra de reiki. Sempre tive acesso ao invisível. Agora estou cada vez mais inserida e sem medo do mundo que não é palpável. Já tive muito medo, agora não tenho mais, porque estabeleci uma conexão, que, sem dúvida, tem me ajudado muito a seguir nos tempos que correm. Como foi o momento em você decidiu que Aos Prantos seria o nome do disco? Acho que em maio de 2018. Estava no avião, com muito medo, sozinha, não amo muito voar. E aí comecei a improvisar uma letra com melodia, só para parar de ter medo, e me distrair. E aí saiu a letra de Eu estou aos prantos. Depois do aeroporto, fiquei com aquilo muito vivo em mim. Entrei no hotel, chorei (sou bastante chorona) e pensei que o estado do meu novo trabalho seria esse: choroso. Foi eureka ali. Esse Filme que Passou Foi Bom trata da morte. Atualmente essa sensação percorre o pensamento de muitas pessoas. Nesse sentido, como você acha que a música ajuda a pensar nisso? Tomara que a música ajude, sim, nesse assunto que infelizmente ainda é um tabu, mas é a única certeza da nossa vida. Todos nós vamos morrer. Só não

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uando Letrux anunciou o lançamento de seu mais novo álbum, Aos Prantos, as expectativas eram altas após o sucesso de Letrux Em Noite de Climão (2017). Na capa, uma imagem corajosa, uma pintura do rosto de Leticia, aos prantos, com marcas do cansaço e envelhecimento. É a nudez da persona que apresenta o choque pictórico no primeiro contato visual. Nessa nudez verdadeira, dessas em que vemos as cicatrizes brilhando sobre a pele, as 13 canções mantêm a atmosfera tragicômica do antecessor, mas de forma mais madura, tanto na estética dos versos quanto na musicalidade, novamente sob produção de Natália Carrera e Arthur Braganti. O álbum da compositora também conta com a participação de artistas como Liniker e Luísa Lovefoxxx, bem como uma homenagem a Fernanda Young em Vai Brotar. Para a Revista 440Hz Letícia Novaes - de refúgio na serra do Rio de Janeiro desde o início da pandemia de Covid-19 - falou sobre a situação atual do país, as emoções que permeiam o novo disco e sobre o direito de sentir e abraçar as sombras. Como tem sido a sua quarentena? Como você tem se sentido? Acho que estou como todas as pessoas, tenho dias positivos, dias negativos. Há dias em que tenho mais fé e acredito na humanidade e há dias em que acho que o mundo não tem volta, vamos afundar cada vez mais. Tá brabo. Aos Prantos foi lançado no dia 13 de março, pouco tempo antes do início das medidas contra o novo coronavírus. De forma não intencional, você lançou um trabalho que gera muita identificação nas pessoas com o atual momento. Pensando nisso, você acha que Aos Prantos foi uma espécie de presságio do que viria? Pois é, acho que, de alguma maneira, todos nós já sentíamos que o mundo se encaminhava para um lugar complicado, o sistema capitalista já mostra seu desgaste há décadas. Aos Prantos vem de um lugar meu de observação, de sensibilidade. Quem acompanhou os últimos quatro, cinco anos do país sabe a lama em que a gente caiu. Tivemos chances de luz, mas fomos engolidos por pessoas preconceituosas, que preferem acreditar

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sabemos quando. Estamos vivendo tempos mortíferos, infelizmente, e lógico que é normal sentir medo, mas a arte ajuda muito a lida com essa sensação. Lembro de um dia em que queria desaparecer do mundo e ouvi Nina Simone cantando Feeling Good e aquela voz me ajudou muito, foi inesquecível. Em El Dia Que No Me Quieras” você usa o espanhol para se conectar com sua veia latino-americana. Como você enxerga essa relação de pertencimento em você e nas outras pessoas atualmente? Acho uma pena não sermos um país que consome tanto música em língua espanhola. Acho que o Brasil se acha muito e ignora os hermanos. Tive acesso a artistas de língua espanhola que eu amo muito, como Juana Molina, Rosa Montero, Isabel Allende, Kevin Johansen, Pablo Neruda, Nicolás Guillén e sempre tive o desejo de fazer uma canção em espanhol. Arthur Braganti, meu amigo, tecladista e um dos produtores do disco, também ama falar espanhol e aí um dia começamos a brincar com signos, símbolos e fomos pirando nessa música. Em Salve Poseidon, além da referência ao deus grego, você faz uma homenagem a Fernanda Young. Pode comentar um pouco sobre a influência que ela trouxe para seu trabalho artístico? Amo muito Fernanda Young. Li o seu primeiro romance quando eu tinha 16 anos e foi muito impactante, virei muito fã, li todos os seus livros, vi todas as séries que ela fazia roteiro, filmes, letras de música. Uma mulher muito irreverente, inteligente, curiosa, diferente. Sua passagem foi luminosa como a de um cometa. A frasezinha é uma singela homenagem. Abalos Sísmicos foi uma música que se transformou diversas vezes entre ensaio e gravação. Ela fala sobre pessoas que não assumem seus erros e não pedem desculpas. Como você acha que esse comportamento tem afetado o pensamento das pessoas no Brasil? Existem muitas pessoas assim e eu fui diretamente ferida e perturbada por uma pessoa assim nos últimos anos. Pessoas dissimuladas mentem pra você e pra terceiros, falham na preservação do caráter, um verdadeiro horror. Tem muita gente assim, felizmente sou protegida e passei anos da minha vida rodeada de gente íntegra, mas, como qualquer ser humano, caí no conto de uma pessoa mentirosa. O mais curioso é que depois descobri mil mentiras e histórias terríveis de tal pessoa. Ou seja: o problema não era meu. E sim dela. Acho que pedir desculpa é um ato nobre, poucas pessoas têm essa luz e capacidade. Sem dúvida, o país estaria num lugar me-

lhor se as pessoas reconhecessem os erros e pedissem desculpas. Após o lançamento de Aos Prantos, você com certeza já tinha planejado como faria a promoção do álbum. Com a quarentena, qual tem sido sua estratégia para chegar nas pessoas? Sou bastante ativa nas redes sociais, posto todos os dias alguma curiosidade sobre o disco, temos as letras das músicas, faixa a faixa, vídeos de processo do disco, vídeo de bastidores, vídeo da produção, fizemos bastante coisa, e fico feliz com o

reconhecimento das pessoas. Estão amado o disco, dizendo que ele é o melhor amigo delas durante a quarentena. Fiz três lives, uma mais acústica, outra plugada, uma num bate papo e algumas músicas com a Manu Gavassi. Sou reconhecida por ser uma pessoa ativa nas redes sociais, posto poema, manifestações políticas, coisas do passado, coisas atuais, alimento bastante meu público por ali. Existem já dois videoclipes do disco: Déjà vu Frenesi e Eu Estou aos Prantos. Em breve há de pintar um novo.


JÁ ROLOU MUITA LIVE SEMPRE COM CONVIDADOS ESPECIAIS

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POR LÁ

Por Fernando de Freitas

THE QUARANTINE EXPERIENCE

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Fotos: Divulgação

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isolamento social apenas intensificou aquilo em que já acreditamos a tempos: quando falamos de tendências no meio digital, o futuro já é. As ondas são o momento e se você não está nela, você surfará tarde, quando ninguém mais estiver olhando. The Quarantine Experience, segundo seu criador Raul Machado “é um encontro musical à distância em que as bandas gravam suas rotinas durante a quarentena e as conciliam com a música. Os integrantes usam celulares para filmar, cada um no seu canto, respeitando o isolamento social. E a gente coordena tudo de casa. Tem rolado mágica!”. E o que torna esse projeto especial é que reúne diversas formas que vinham acontecendo juntas em uma só, junto com uma curadoria elegante de artistas que podem mostrar experiências diversas. Semanalmente dois videoclipes de artistas de diferentes gêneros, regiões e países vão ser lançados na internet “Como estamos em situação de incertezas e mudanças tanto interiores como exteriores, que possamos ver isso tudo como uma oportunidade de reflexão, como uma oportunidade de crescermos, de compartilharmos, de sentir o outro. O momento pede resguardo e cuidados. Nesse âmbito, a arte ajuda a preencher um espaço que tanto nos faz falta: o de poder estarmos reunidos com nossos queridos amigos e familiares.” ressalta o produtor. Raul Machado é um cineasta brasileiro autor de inúmeros videoclipes Chico Science & Nação Zumbi, Planet Hemp, Sepultura, Ratos de Porão, Marcelo D2, O Rappa, Pitty, CPM 22, Fatboy Slim, Vive la Fete.

ARTISTAS QUE JÁ ESTÃO NO CANAL:

No episódio #7 de The Quarantine Experience: Saudade que não Quer Cessar”, um samba em homenagem a Beth Carvalho, de Marília Calderón em parceria com Dito Silva e Ricardo Rabelo (compositores do Pagode da 27, na Zona Sul de São Paulo, autores

de vários sambas cantados por Criolo, como Hora da Decisão). É uma canção sobre despedidas e saudades regadas a boemia e a inspiração artística. Segundo Marília, nela derramam-se “sentimentos e melodias no pinho do violão, mas, ainda assim, a saudade não cessa”. Com cavacos de Rabelo, percussão de Jefferson Santiago (ambos do Pagode da 27) e piano de Rafael Montorfano, o Chicão (pianista da banda de Gal Costa), a faixa, se não faz cessar, alivia nosso pranto. No clipe, Marília, Dito, Rabelo e Chicão aparecem tocando seus instrumentos de suas casas, imagens que foram mescladas a imagens de DJs com vinis de Beth Carvalho. A cantora Luana Carvalho, filha de Beth, colaborou enviando fotos de família. Agradecimentos: Debora Pill, Mary G, Marcia Toledo (Maçã), André Mod, Thiago Mello, Guilherme Batista, biD, DJ Txa, DJ Paulao, DJ Tatá Ogan, Ricardo Rabelo, Jefferson Santiago, Dito Silva, Samira, Calais, Gabriel Cabeça, Sander Mecca, Adri de Maio, Josie Rodrigues, Ludmila Frateschi, Anna Helena Haddad, Camila Toledo, Ariane Marinho, Mauricio Wallace.

No episódio #6, uma das mais importantes bandas independentes brasileiras, o Autoramas. Aqui a banda apresenta a faixa Coisa pra Caramba pra Fazer”, do álbum Libido, gravada totalmente na casa de cada um dos seus integrantes, em São Paulo, Campinas e Jundiaí. “Toda vez que a Érika e eu fazíamos alguma live, que se arrumava, a gente aproveitava a luz e gravava para o clipe”, conta Gabriel Thomaz. “Na quarentena, a gente passou por vários sentimentos: passou por momentos de organização, arrumação da casa, depois ficamos de saco cheio, depois ficamos com raiva, daí passou a raiva, daí veio a preguiça, passou a preguiça… São várias situações… Acho que está tudo ali no vídeo.” O Autoramas lançou 7 álbuns, vários singles e muitas músicas em compilações. Já tocou em todos os estados do Brasil e, também, no Japão, EUA, Reino Unido, México, Uruguai, Argentina, Peru, Chile, Portugal, Espanha, França, Holanda, Bélgica, Itália, Suíça, Áustria, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Alemanha. No episódio #5 da TheQuarantineExperience: Cloé du Trèfle com Cet air Lancinant, do álbum Vertige Horizon-

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te. No vídeo, ela se junta às violoncelistas Céline Chappuis e Thècle Joussaud para fazer as imagens em casa e algumas pela cidade de Bruxelas - a Bélgica é um dos países europeus com maior número de vítimas (o país divulga não só aqueles que faleceram em hospitais, mas também os que morreram em casa e as mortes suspeitas por Covid-19) e ainda está em lockdown. Cloé e Celine tiveram permissão para sair de casa e do lockdown apenas porque participam de um trabalho comunitário durante a pandemia que leva alimentos para pessoas idosas na vizinhança e aproveitaram para fazer algumas imagens para o videoclipe da Quarantine Experience. Artista independente, Cloé du Trèfle nasceu em Bruxelas e já viajou por todos os continentes apresentando sua música electroacústica, fez duas turnês pelo Brasil. Chamada de Bjork belga pela imprensa francesa, Cloé tem sete álbuns lançados. Todos podem ser ouvidos nas plataformas digitais de Cloé. No episódio #4 da TheQuarantineExperience : Pere Ubu de Riviera Gaz. Formada inicialmente em 2013 como um projeto solo de Gustavo Riviera, fundador do Forgotten Boys, grupo que atua há mais de vinte anos na cena independente,- quando ele foi morar fora do Brasil. Compôs algumas músicas e se apresentava

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sozinho, na voz e no violão. Quando voltou ao Brasil convidou Paulo Kishimoto para gravar uma demo - ambos tocam juntos na Forgotten Boys. O encontro com Steve Shelley aconteceu através de um amigo em comum, um fotógrafo em Paris. “Convidamos o Steve para gravar o EP quando ele estava vindo para o Brasil em turnê com o Lee Ranado. Daí para frente a banda se formou, fizemos turnês, gravamos, lançamos o EP e o disco Connection. Queremos fazer uma turnê logo que pudermos, pós pandemia”, conta Gustavo. No episódio #3 da #TheQuarantineExperience: o clipe de Do lado de lá, da banda paulista Luvbites. Escrita por Júlia Dutra, a canção que está no segundo disco, Loud Fast Soul, fala sobre a sensação de impermanência. A Luvbites é formada por Julia (voz e órgão), Leticia Blue (bateria e voz), Igor Diniz (guitarra e voz), André Felipe (baixo e voz) e Wiu (guitarra e voz), que se dividiram para fazer as imagens do celular desde suas casas. No episódio #02 da #TheQuarantineExperience, apresentamos o clipe de Estrela, da Orquestra Jabaquara, uma big band pop brasuca não convencional, que faz uma pesquisa pelos bailes do mundo e suas diversas possibilidades. Assista

pelo canal The Quarantine Experience no YouTube. A orquestra é composta por duas crooners encantadoras, uma percussionista, dois trompetes, três saxofones, um trombone, um contrabaixo, uma guitarra, uma bateria e um pequeno arsenal eletrônico com sintetizadores e samplers, regidos pelo maestro e produtor musical Xuxa Levy - que realiza o sonho antigo de montar uma orquestra pop nos moldes das big bands de Duke Ellington, Quincy Jones, The Brian Setzer Orchestra, Spok Frevo Orquestra e, sua inspiração maior, a Orquestra Tabajara. Abrindo o #TheQuarantineExperience, a banda Cigarras com Horizontal, faixa presente no vinil homônimo, lançado em março de 2020 pela Zoom Discos. Para o clipe, as quatro integrantes, Babi Age (bateria), Tais Albuquerque (backing vocal e guitarra), Rubia Oliveira (backing vocal e baixo) e Maria Paraguaya (guitarra e voz), gravaram pelo celular cenas com seus instrumentos como se estivessem fazendo um show de suas respectivas casas. Curtidas e maturadas nos porões, bares e inferninhos de Curitiba, as Cigarras vêm causando no underground desde janeiro de 2017, triturando gêneros como punk, mod e garage com um som cru e grudento em um dos shows mais vigorosos da atualidade.


EDIÇÃO ESPECIAL IMPERDÍVEL


PRESTE ATENÇÃO

Por Fernando de Freitas

L A R U T A N O A H T I M S L L KE

DE S O S R U C E R S O DO Ã M E R B A A R LBUM Á A CANTO R A V A R G A PAR L A T I G I D O Ã Ç AFINA SO MAIS CALORO

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Fotos: Divulgação

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erá que em um momento em que tudo parece fora de controle, nós conseguimos tomar as rédeas de nossos próprios caminhos? Se depender de Kell Smith, sim. No que está ao alcance da cantora, parece que ela quer seguir rumo próprio, sem perder a essência do que construiu até aqui e não ser apenas um fenômeno musical. Kell escolheu um novo produtor para trabalhar. Não que trabalhar com o maestro Bruno Alves seja novidade em sua carreira, este já era responsável por diversos aspectos musicais do trabalho da cantora, e para ela o convite foi natural. Quando conversamos por telefone, ainda que ela não tenha dito isso, deixou a impressão de que ela buscava o conforto de trabalhar com alguém com quem ela sentisse totalmente à vontade no processo. A cantora também tem bastante cuidado com sua própria imagem e com a forma como ela quer se colocar no universo musical brasileiro. Faz questão de se afastar dos rótulos pop e se aproximar da MPB. E nesse caminho, no qual faz sentido a escolha do produtor, Kell fez uma decidiu trilhar um caminho que desafia a lógica do mercado e dispensou a afinação eletrônica na produção de seu álbum. “A escolha dos músicos, quando você faz isso, tem que ser perfeita. Tem que entender quem é o instrumentista que a música pede” explica Bruno Alves, que escalou a dedo quem tocou nas faixas, entre eles Orlando Bolão e Cuca Teixeira. As escolhas de Kell só são possíveis pois ela tem uma afinação própria e um timbre de voz impecável, que puderam ser vistos nas lives ou stories que faz. “Eu brinco que ela já veio com o plug-in”, ri o produtor. Mas, por outro lado, a cantora conta que o maestro às vezes esquece que ela não é, ainda, experiente como Bruno: “Ás vezes, eu preciso lembrar ele que estou aprendendo”, diz, com humildade verdadeira.

E nessa complementariedade, Kell traz seus temas, que exploram o íntimo em questões delicadas e que demandam delicadeza e um viés próprio para falar sobre depressão e autocuidado, além do compromisso de criar uma conexão com seu público. Para isso, ela usa de seu repertório do R&B, que está em sua vivência dentro da música gospel, e da MPB – é profundamente apaixonada por Elis Regina, Milton Nascimento e Belchior. Para quem quer chamar de pop a música de Kell, saiba que esse caminho também está dado, e é o pop essencial de Quincy Jones e David Foster suas grandes referências. Assim, quando veio o isolamento social e os dois entraram em estúdio para gravar O Velho e Bom Novo, eles usaram o melhor da tecnologia e dos recursos, mas também o melhor das velhas formas, para fazer o que acreditam ser um som próprio de Kell.

A cantora tinha a intenção de se entregar à verdade neste álbum. Deixou na mixagem os ruídos da respiração enquanto cantava, para se aproximar do público, deixar mais vivo seu som. Não à toa, a primeira frase do álbum, parafraseada no início deste artigo, é “Será que as pessoas conseguem prestar atenção nas letras das músicas no meio de tanta correria?”, seguida do verso “Seja gentil”. Em um mercado que impõe tantos padrões, Kell e Bruno se cercam dos melhores para rompê-los, ainda que, em meio ao isolamento social, isso tenha sido feito à distância. Mas esse é um álbum pop não pasteurizado, in natura, com sabores complexos que escapam quando diminuímos as taxas de compressão e a quantidade de plug-ins. É uma obra para a qual podemos olhar e reconhecer um ser humano com suas qualidades e defeitos, gostemos ou não, mas reconhecer a coragem de se colocar no mundo com muito menos filtros. O ouvido agradece.

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Fotos: DOUGLAS JACÓ Divulgação

HIP-HOP

Por Luis Barbosa

A R O G A É A R O H A : L L I B MV UIU O R T N O C M E U Q E D AS REFLEXÕES TILO S E U E S A R A P E T ESPAÇO QUE EXIS

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á lá se vão quase cinquenta anos desde que, em certas festas de rua, nos subúrbios negros e latinos de Nova Iorque, nasciam o hip hop e um de seus pilares, o rap. Muita coisa aconteceu desde então, inclusive seu desembarque em terras brasileiras, na década de 1980. Aqui, o rap ganhou contornos próprios e, a despeito das transformações por que passou desde sua chegada ao Brasil (inclusive, derivando em novos estilos), manteve como marca principal a abordagem, mais ou menos contundente, da realidade das periferias do país, o estilo de vida de seus moradores, o fosso da desigualdade e da injustiça social. E embora o rap nacional não conte com muita visibilidade por parte da grande mídia, seus representantes levam adiante essa tradição e estão sempre prontos a responder às demandas que a dinâmica social lhes impõe. Desde o início da quarentena imposta pela pandemia da COVID-19 e mesmo cumprindo o isolamento social, MV Bill, um dos principais representantes do ritmo no país, lançou duas músicas inéditas, Isolamento e Quarentena, além do lançamento de um remix de Vírus, que, apesar do título foi lançada originalmente em agosto de 2019 abordando o racismo, e não tem qualquer relação com a doença. Ou será que tem? Nos primeiros versos de Isolamento, MV Bill declama: “Isolamento social já existia antes da COVID”. Em Vírus, por sua vez, o rapper canta: “A peste continua se espalhando como um vírus / É bom se acostumar com gente preta em todo lugar”. A incidência muito maior de casos, e de mortes, nas populações negras e periféricas do país escancarou o “isolamento” em que já viviam enormes contingentes do povo brasileiro antes da pandemia. E o rap em geral e o rap de MV Bill não poderiam se furtam a denunciar o que já estava posto, lá em 2019, e explode diante de nossos olhos agora: “Ainda que as pessoas estejam numa micareta, a maioria das minhas músicas é sobre esse momento que estamos vivendo hoje, não somente de pandemia, mas de indignação.” Sobre o momento atual, e, também,

sobre um certo lugar e sua realidade específica, afinal Quarentena na favela é diferente: “As casas não são grandes e geralmente muita gente / Aglomeração inevitável / Alguns lugares ainda não tem água potável”. Cantar a realidade, o momento atual não implica em, simplesmente, se deixar guiar pelo noticiário do dia. Há temas, como o racismo, que, infelizmente, permanecem. A atualidade de uma canção como Vírus se confirma, seja nas evidências de que a discriminação e o preconceito matam direta (como no caso, recente, do menino João Pedro) ou indiretamente (vitimando majoritariamente os negros e os mais pobres): “é importante falar que não preciso mudar pra me moldar o momento atual. Já sou o momento que estamos desde que eu nasci e comecei a fazer rap”. Significa isso que é uma missão do rap, e dos rappers, dar voz a esse discurso crítico, de denúncia social? Defender as mesmas pautas? “Acho que cada artista tem de saber o seu papel não só na arte, mas também na sociedade. Não penso numa parada uniforme. Acho que cada um tem uma cabeça e um posicionamento ou não. Dentro do próprio rap, tem várias cabeças e ideologias. Tem momentos que lutaremos juntos, alguns trabalharemos separados. Não há nenhum problema nisso”. Afinal, desde os tempos em que os Racionais MC’s estouraram e fizeram do hip hop e do rap produtos culturais (re) conhecidos, muita coisa mudou. “Popularidade traz mais público e conhecimento, mas também outros tipos de artistas, de letras e posturas de palco. O público também mudou e tem uma nova forma de adorar seus artistas. Não estou nem dizendo se é melhor ou pior, apenas traçando o panorama que eu vejo”. Fato é que, entre antigos e novos representantes, há toda uma geração de rappers em atuação no país, fazendo a crônica de um Brasil que o Brasil insiste em não ver. E construindo, com sua música e seu ativismo, um normal que seja, de fato, novo; ajudando-nos a resistir a essa fase de “afastamento agora” para “abraçar depois”.

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ISOLAMENTO CRIATIVO

Por Fernando de Freitas

B O N 7TH K

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UM ÁLBUM SOBRE OS SENTIMENTOS QUE TRANSBORDAM NO ISOLAMENTO SOCIAL


Fotos: Divulgação

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música de Zé Rodrix e Tavito começava com um verso bucólico: “eu quero uma casa no campo”; e já dizia de uma vez “onde eu possa compor muitos rocks rurais”. Mas, no contexto da pandemia, a versão 2020 da casa no campo tem dimensões apocalípticas e um tanto de tecnologia diante de nossa inevitável conectividade. É neste contexto que a compositora Joana Knobbe lança, sob o pseudônimo de 7thKnob, o álbum Beat.Ween 30 Quarentine Days, produzido em 30 dias de experiências no software Ableton Live, em sua casa, durante o período de isolamento social. A compositora já trazia, em seu trabalho solo, uma força experimental no universo da canção, com resultados para lá de interessantes. Como compositora de trilhas e produtora, sua sonoridade também ressoava a liberdade de quem cria por meio do profundo conhecimento da música nos campos teórico e prático. Mas este trabalho é a criação que tem na liberdade sua essência. Não é uma novidade a exploração de loops. No Brasil, por exemplo, Os Mulheres Negras faziam isso na década de 80, mas a tecnologia à disposição hoje permite um trabalho numa escala muito maior e com uma variação também muito maior de possibilidades. Artistas como São Yantó e La Baq trabalham muito bem com o conceito de loop e tem feito coisas belíssimas (e não são os únicos! Deixo de fora outras dezenas de menções merecidas aqui). O isolamento gestou a experiência de 7thKnob, que é música em estado puro. A composição se liberta das amarras da canção, fazendo com que a compositora aproxime o pop do erudito em paletas da arte contemporânea. Simplificando, cada beat traz consigo um conjunto de sons que manifesta sensações vi-

vidas pela compositora durante esse período, combinadas a contribuições de outros artistas, com sonoridades captadas no mundo “analógico” e/ou trabalhadas no ambiente digital. O que faz deste álbum um registro especial é exatamente esse modo de expressar o inexprimível. A canção é a forma dos relacionamentos, do convívio social, somos educados afetivamente pela canção. Retirados do convívio, confinados em nossas casas pela força de uma doença arrebatadora, experimentamos uma vivência inédita em um século e nos faltam palavras e nos sobram sensações. É neste momento que os loops de 7thKnob nos toca, pelo detalhe íntimo de nossas próprias texturas diárias. A palavra não entra como canção, mas como poesia, as vozes que nos cercam ainda que no isolamento, ora próximas e ora distantes, mas sempre em fragmentos poéticos. Os temas de Joana e de sua obra retornam nos beats como quem se revisita num processo de autoconhecimento ou de reconhecimento em um novo contexto. A realidade alterada faz temas serem revisitados: volta Mãe, volta Lila, volta Amor Coragem, volta Belchior recolados de fragmentos que caíram em seu quintal quando a dita normalidade se despedaçou e ela precisou dos beats eletrônicos para recolar, remontando a imagem que não mais é de Joana, mas de 7thKnob. Nesta mistura intensa, descobrimos que a casa no campo não existe e estamos presos dentro de nós. As paredes que nos sufocam são apenas o retrato da impossibilidade de voltarmos a encontrar o toque humano, a conversa amiga e rasteira ao longo das tardes. Os idílios da casa no campo, das tar-

des em Itapuã, dos barquinhos, de Copacabana até de, eventualmente, um cruzamento da Ipiranga com Avenida São João, se desfazem em sentidos. A criatividade floresce nas limitações, e 7thKnob é o produto deste grito contido e colorido da impossibilidade de sair de casa.

SOBRE O #30DIAS30BEATS

O movimento #30dias30beats surgiu em meio à busca por novidades. A ideia surgiu quando o músico e DJ Daniel Jesi percebeu que a produção feita em casa estava aumentando entre os amigos músicos e sentiu a necessidade de escoar essa produção. Já no primeiro ano, em 2019, beatmakers de todo o país se empolgaram com a proposta que se baseia em produzir uma música de 1 minuto com uma imagem associada, que pode ser vídeo ou foto, durante 30 dias, no Instagram. Basta usar a hashtag #30dias30beats no Instagram que o beatmaker já está participando. A ideia assim como o exercício, é forçar o artista a focar em ferramentas novas e entender qual é o seu método de produção. O ato de fazer, concomitantemente com outros artistas, estimula cada um a entregar a sua ideia diária e, também, a compartilhar informações. Esse processo formou uma rede de comunicação que mostra, em uma escala maior, as características gerais de um beatmaker. Uma característica do projeto é que mesmo sendo uma ação em grupo, os resultados são todos individuais. Nesse período, cada artista pode avaliar seus pontos e, assim, comparar com quem fez o mesmo movimento. Não há certo nem errado. Esse movimento veio para dar possibilidade de produtores criarem sem um molde específico. E usarem sua criatividade ao máximo.

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CAPA Por Ian Sniesko e Fernando de Freitas

Fotos: Tinho Souza / Divulgação

A P E D O P O Ã N A C I S Ú AM 48

T N E M A L O S I O APESAR D (E TE R E S E D O P A MÚSIC S HOMESTUDIO


ARAR

ITA TO SOCIAL MU NOS A T I E F ) O D I S EM

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xiste uma lenda que diz que, nos anos 90, Steve Jobs (ou Bill Gates, dependendo de quem conta a história), quando sua empresa começou a crescer, foi perguntado se ele temia que alguma grande corporação acabasse com seu negócio. Ele teria respondido “Claro que não! O que me apavora, na verdade, é que, neste exato momento, existe um moleque no porão da casa dos pais criando coisas que eu jamais pude imaginar”. Steve Jobs (ou Bill Gates) e outros grandes nomes da revolução tecnológica que vivemos nos últimos 40 anos, foi um dia esse garoto curioso no porão da casa dos pais. Ele sabia que ele estava abrindo caminho para outros iguais a ele e, por isso, temia ser desbancado.

Se nessa mesma época você perguntasse ao presidente de uma gravadora se ele temia que um moleque gravando música no seu quarto era algo que o preocupava, isso seria motivo de muita piada. Por muito tempo, a indústria fonográfica funcionou a base de grandes orçamentos, equipamentos caríssimos e inacessíveis e, claro, havia a barreira da distribuição. Gravar álbum, prensar um LP (e posteriormente um CD) com qualidade e colocá-lo nas lojas demandava muito dinheiro e planejamento. Mas foi-se o tempo em que era preciso uma mesa de mixagem enorme conectada a um gravador de fitas complexo de se operar para gravar a sua música. Aquelas fitas magnéticas caríssimas são um passado que não deixa saudade para a maioria dos engenheiros e produtores, embora alguns artistas mantenham o fetiche por esse luxo vintage. E quando veio a digitalização da distribuição (curiosamente impulsionada por caras como Steve Jobs, de novo), a regra do jogo mudou por completo e o suporte físico da música definhou e, junto com ele, a era das grandes gravadoras. Começava um tempo em que todo o processo passou a estar ao alcance de uma pessoa comum. Mas sem romantismo, ainda é uma indústria.

O BEDROOM PRODUCER

Hoje, muitos hits são feitos em não mais do que um laptop potente e alguns periféricos como interface de áudio e microfones de qualidade. Desde o início da digitalização, no processo de produção musical ocorrida no final dos anos 80, vemos cada vez mais a democratização do home studio e a indústria toma como norma o papel do chamado bedroom producer: uma figura importante para entendermos a dinâmica da indústria musical dos nossos dias.

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CAPA

ENTENDENDO COMO FUNCIONA

O coração de todo estúdio é o DAW (Digital Audio Workstation). Estes softwares concentram tudo o que você precisa para gravar, produzir, mixar e masterizar sua música. Hoje em dia eles são bem otimizados para rodar bem na maioria dos computadores modernos. Alguns grandes nomes são o Avid Pro Tools, conhecido por sua facilidade para se trabalhar com áudio, o FL Studio, ótimo para edições MIDI, e o Apple Logic Pro, famoso por oferecer um bom balanço entre as funcionalidades. A escolha se dá puramente por preferência do artista/produtor, até porque o resultado final será muito semelhante e indistinguível aos ou-

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vidos da maioria do público. Os softwares centrais trabalham lado a lado com os plugins de áudio. Os plugins são ferramentas adicionais que variam desde efeitos para serem inseridos nos canais de áudio (compressores, reverbs, etc) até instrumentos como sintetizadores e baterias. Os DAWs geralmente vêm acompanhados de uma vasta gama destes adendos, porém há sempre a possibilidade de adquirir novos plugins pagos ou gratuitos. Atualmente, a maioria das produções faz uso destes softwares devido a praticidade e o potencial colaborativo que oferecem quando comparados às suas versões em hardware (as chamadas produções in-the-box). Se você deseja também fazer gravações, é recomendado o uso de uma interface de áudio. Existem, hoje, muitas opções acessíveis no mercado que oferecem entradas para microfones e instrumentos em linha e se conectam diretamente com o seu DAW de escolha. O número de canais vai depender da aplicação: se você deseja apenas gravar voz e instrumentos de corda, uma interface com dois canais provavelmente irá satisfazer suas necessidades. Se deseja microfonar uma bateria, por exemplo, é interessante procurar por uma com pelo menos oito. Nenhum home studio está completo sem um sistema de monitoração. A maioria dos profissionais opta por monitores de áudio como monitoração principal devido a sua resposta mais fiel ao espectro de frequências, porém para isto é preciso um espaço com bom tratamento e isolamento acústico. O problema é que uma reforma para atender estes padrões aumentaria bastante o orçamento. Portanto, o mais recomendado no início é investir em um bom par de fones de ouvido de estúdio

(marcas como AKG e Senheiser são boas opções). Procure por um par do tipo fechado se você deseja usá-lo apenas para gravações e monitoração; se está pensando em se aventurar também no mundo da mixagem e masterização, é interessante pesquisar sobre os fones de ouvido do tipo abertos ou semi-abertos.

UM POUCO DO QUE TEM SIDO FEITO

Nos documentários sobre a gravação de Imagine, John Lennon abre sua casa em Tittenhurst Park para os amigos gravarem com ele. A construção daquele estúdio demorou meses e era algo bastante incomum - até recentemente os Beatles usavam os lendários estúdios da Abbey Road. Em Friar Park, a propriedade de George Harrison, foi construído um estúdio de gravação de 16 canais, em 1972, onde ele gravou a maior parte de seus álbuns. Na ocasião, George fez questão de que os equipamentos fossem superiores aos da Abbey Road. Mas se você não fosse um Beatle (ou tivesse um status financeiro que chegasse perto disso), ter um estúdio em casa era um luxo incomum. Na década de 1980, Gilberto Gil e Liminha idealizaram um estúdio sem cara de estúdio chamado Nas Nuvens, onde foi gravada uma série de álbuns de sucesso, mas não era um estúdio em casa e, sim, uma casa que era um estúdio. Um dos artistas que aproveitaram as primeiras mudanças tecnológicas para ter um estúdio em casa aqui no Brasil foi John Ulhoa, do Pato Fu. Em sua casa, na Pampulha, ele produziu diversos artistas, tais como Arnaldo Batista e Zélia Duncan. É neste estúdio que Fernanda Taka, sem diminuir o ritmo de trabalho durante sua quarentena, optou em gravar material para um álbum inédito.

Fotos: Unplash

Bedroom producer é uma expressão utilizada para designar os produtores musicais independentes que procuram por oportunidades na internet, seja trabalhando com outros artistas, também independentes, seja vendendo instrumentais pré-prontos. Por exemplo, o instrumental da música Old Town Road, que estourou em 2019 foi comprado, segundo o músico Lil Nas X, com os últimos 30 dólares que ele tinha em sua carteira. Esta dinâmica colaborativa, e que se afasta do monopólio das grandes gravadoras, torna o processo cada vez mais fácil, porém foram necessários muitos avanços na tecnologia para que isso fosse possível. Desde os protocolos MIDI, que permitem um maior controle de instrumentos como sintetizadores e até a emulação perfeita da bateria e do baixo; até os simuladores de amplificadores, que são palco de uma discussão acaloradas sobre sua fidelidade aos equipamentos reais, porém com efeitos práticos ambos são indistinguíveis.


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Além de canções inéditas, o disco conta também com versões, como é o caso de Não Creio em mais Nada. Escrita originalmente por Totó, trata-se do maior sucesso desse compositor, tendo sido gravada originalmente por Paulo Sérgio. Três singles deste trabalho já foram lançados. O primeiro, Terra Plana, a canção foi escrita por John Ulhoa, que produziu e tocou todos os instrumentos. “Escrevi a música pensando em nossa filha, imaginando se estamos dando a ela as ferramentas que precisa para ter a coragem que a vida pede, e a sabedoria para se esquivar do obscurantismo que anda nos assolando. É sobre pais envelhecendo e desejando ter acertado na educação dos filhos, para um dia poderem se despedir em paz”, conta John.

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Por sua vez, Não Esqueça, segundo single do álbum, é uma canção inédita de Nico Nicolaiewsky (1957/2014). Fernanda e seu marido, John Ulhoa, eram amigos do artista, que fez parte do conhecido espetáculo Tangos & Tragédias, e ainda hoje têm se envolvido em eventos que buscam manter viva a obra do gaúcho. A canção é um recado amoroso muito atual, apesar de escrita há muitos anos, e nunca foi oficialmente registrada por Nico. Alguns versos parecem ter sido feitos exatamente durante os tempos de pandemia: “Não esqueça que é tudo ilusão, não esqueça de lavar as mãos”. Fernanda Takai também aposta na linguagem visual que acompanha o trabalho musical. “Escolhi uma bela e significativa imagem do ar-

tista plástico Renato Larini para dar o tom do single e de todo o álbum. Ele tem um trabalho que se conecta bem com as canções do disco, que vem com uma intenção sonora e lírica diferente dos meus anteriores”. O álbum completo é esperado agora para julho. De uma geração bastante mais jovem e com a turnê e agenda de shows adiados devido à pandemia, os integrantes da banda Scalene (cada um de um lugar) criaram um EP que funciona como uma extensão de Respiro, seu trabalho anterior. Intitulado Fôlego, o trabalho de cinco faixas inéditas acaba de chegar nos aplicativos de streaming. “Por mais que não estivesse previsto e seja fruto do período de distanciamento social, sinto que Fôlego é uma continuação bastan-

Fotos: Tinho Souza / Divulgação

CAPA


te natural do Respiro”, pensa o vocalista Gustavo Bertoni, que forma o grupo ao lado de Tomás Bertoni, Lucas Furtado e Philipe “Makako” Nogueira. “É também uma despedida dessa fase em que exploramos um som mais calmo. É um reflexo do momento em que a gente está vivendo, tanto na forma como ele foi produzido - à distância - quanto nos temas das letras”, define. Primeira música a ter surgido no período de quarentena, Caburé abre Fôlego com um ritmo calmo, que convida a um processo de absorção de tudo o que estamos vivendo. “Eu sei que há mais, há de haver mais”, diz o refrão. Em seguida, Passageiro cria perspectivas diversas para o que rege as vontades e escolhas de cada um. Querer mudar, afinal, é legítimo ou apenas uma projeção? Pergunta esta que desemboca na terceira faixa de Fôlego, Caleidoscópio. “Tem uma vigilância moral que nos afasta de enxergar o outro com empatia. Mesmo na busca por uma melhora, todos encontram limitações no caminho”, resume Gustavo. O momento de pandemia não anula outros assuntos urgentes e que devem ser amplificados. Espelho surge, então, como uma forma de não ser omisso e com o compromisso de levar aos fãs uma (auto)

reflexão sobre a estrutura racista da qual fazemos parte. Produzido por Diego Marx, também à distância, Fôlego encerra com Estar a Ver o Mar, única faixa criada antes da quarentena. Se em Passageiro a banda fala sobre navegar um mar imenso, em direção a um horizonte que não tem fim, aqui a ideia é a de sua contemplação. “É sobre a sensação de observar o que está acontecendo no entorno. Quando você se enxerga como parte desse algo maior, também entende que não é possível ter controle sobre o todo”, finaliza Gustavo. Neste mesmo sistema de colaboração à distância, Arthur Favero e a Bia Gullo gravaram a música Será, que fala sobre a quarentena, durante esse período de isolamento, cada um em sua casa. Ela em Uberlândia e ele em São Paulo, cada qual em seu homestudio, tiveram de se adaptar para fazer com que essa música acontecesse. A música Será foi lançada com o selo Alma Music. Já o integrante da banda Supercombo, Paulo Vaz, aproveitou esse momento para se entregar a um projeto bastante pessoal. Inspirado em seu filho, compôs dez faixas instrumentais e autorais, que ajudam os pais a entreterem os pequenos de forma lúdica, por meio do piano.

“Esse trabalho foi muito especial para mim! Contei com a participação do João, eu tocava as melodias e ele ia me falando do que mais gostava! Me ajudou muito no processo de criação e produção”, diz o artista. Como o nome do álbum sugere, tem músicas mais calmas para as crianças dormirem e músicas mais pra cima, para poderem ouvir enquanto brincam e se divertem. As faixas levam nomes conhecidos para nós, que nos remetem a nossa infância. Dia de Sol é a música de trabalho, e com ela estão Escorrega, Gira Gira, Soltando Pipa, Pulando Corda, Sonhos, Parquinho, Voa Voa, Bola de Papel e Nuvem. E quando se é dono de um estúdio e você precisa manter o distanciamento social? No Lavanderia Estúdio, que já foi cenário de trabalhos de bandas/artistas como Bratislava, Cigana, Heitor Vallim e Vagale, a solução encontrada por Rafouza, produtor e dono do estúdio, foi oferecer serviços à distância de produção audiovisual e, além disso, aproveitar o tempo para lançar seu primeiro EP. Esses são só alguns exemplos, muitos outros podem ser encontrados ao longo desta edição da Revista 440Hz. Para quem faz música, por que não começar a gravar agora a sua?

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TESTES

Por Fernando de Freitas

O GADGET

MULTIUSO DA SHURE O

teu celular tem mais capacidade de processamento que os primeiros estúdios de áudio ou de vídeo inteiramente digitais. Também não seria demais dizer que os softwares (hoje simplificados como app) também são muito melhores e acessíveis, tanto em seu computador quanto em celulares ou tablets. Porém, enquanto as câmeras evoluíram de uma maneira assustadora e alguns equipamentos de luxo contam com lentes Leica e Zeiss, entre outras, os microfones, por melhores que sejam, destes equipamentos servem para o propósito que menos damos uso a ele, telefonar.

DESEMPACOTANDO

A Shure enviou para testes o seu lançamento, o Shure MV88+, uma solução para celulares e tablets focada em produtores de conteúdo para web. Na caixa comercializada conforme recebemos, você encontra um pequeno pedestal da Manfrotto e um estojo de Neoprene. No estojo, está o microfone MV88+, em estrutura de metal com as letras L e R indicando uma de suas principais qualidades, o fato dele captar o som em estéreo. A espuma que acompanha é de fácil encaixe e desencaixe, e bastante útil para externas, para evitar a ação do vento. Os cabos USB-C e Lightning já estão incluídos e você não precisa se importar em sair correndo para adquiri-los à parte (porém, se você sentir a necessidade de carregar

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o celular enquanto grava é necessário um adaptador, esse sim, deve ser comprado à parte; mas só o fato de ser possível gravar e carregar ao mesmo tempo é bem vindo!). No mesmo estojo, encontramos um suporte para o celular, que firma o seu aparelho por rosca. Ainda que seja bastante útil e de qualidade, talvez seja o único ponto fraco do produto, uma vez que só permite prender o celular na horizontal e tenha pouca pressão para firmar o aparelho. Mas você praticamente se esquece de qualquer outra coisa quando tem nas mãos o pedestal da Manfrotto, leve e resistente. Não é muito dizer que vale metade do preço do que se paga pelo produto.

TESTES

Para usar o MV88+ é necessário instalar o app Motiv Audio da Shure (gratuito), que, uma vez aberto, conversa com seus principais apps. Isso quer dizer que você estará usando o microfone quando estiver gravando ou transmitindo através do seu Facebook, YouTube e Instagram, por exemplo. Uma das coisas legais é que você pode gravar em estéreo, controlando a amplitude da captação ou em monocardioide (o app também permite a gravação em bidirecional ou em Mid-side-bruta – uma mistura de monocardiode e bidirecional – mas isso é mais interessante para quem trabalha com vídeo). Isso permite opções interessantes, como gravação de voz, de

canto, de instrumento e amplificação. Outros atributos interessantes são as possibilidades de corte de frequências graves, excluindo ruídos de fundo abaixo de 75Hz ou 150Hz, ou de compressão de som em três modos, caso seja necessária aquela força extra. É claro que o MV88+ não substitui tantos outros microfones específicos existentes no mercado, nem que seu celular se torna um estúdio completo – tomando exemplos da própria Shure, ninguém vai abrir mão de um SM58, SM57 ou de um KSM44A -, mas, sem abrir mão da qualidade, com ele você tem um equipamento leve e compacto, que possibilita a gravação e a transmissão em diversos modos. Imagine você que nas décadas passadas Keith Richards, Paul Mccartney e tantos outros não se separavam de seus gravadores portáteis. Para um músico ou entusiasta, esse microfone é a melhor versão daqueles equipamentos.

AUDIOS

O editor da Revista 440Hz gravou dois audios, um tocando um violão de corda de nylon e outro com microfonando ima guitarra em um pequeno amplificador Vox. Infelizmente, por conta do isolamento social, não foi possível chamar um instrumentista melhor...


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PRIMEIROS PASSOS

Fotos: Tinho Souza / Divulgação

AULAS

Por Fernando de Freitas

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Para aprendizes e entusiastas, o curso de regulagem dO Instituto Online é uma opção para começar na Luthieria sem sair de casa

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omos convidados pelO Instituto Online para assistir o Curso de Regulagem de Guitarras disponível na plataforma digital da escola, que também oferece diversos cursos presenciais em sua sede.

Vamos ser sinceros, quem nunca estava tocando em casa e sentiu um trastejamento naquela sétima ou nona casa e pensou que gostaria de resolver aquilo sozinho? Ou mesmo não se incomodou com aquelas oitavas que não se afinavam de jeito nenhum, olhou para os saddles e teve certeza de que aquilo envolvia algum ritual mágico ancestral? Mas é claro que para todos os casos existe a internet! Aí você procura um pouco e acha um e-book que promete solucionar TODOS os seus problemas. Mas ele não te dá qualquer informação útil. E os vídeos no Youtube? Eu te garanto que o melhor que você encontrará será gravado por um luthier de Nashville com tanto sotaque que você terá raiva do seu cursinho de inglês ou um cara bem intencionado que gravou com uma câmera VGA duas décadas atrás. Sim, no fim você desiste, coloca o instrumento na bag e vai até o seu luthier (o meu se chama Henrique).

MATERIAL DIDÁTICO

Comece pelo e-book. Não é mero chamariz, é uma reunião de informações bastante completa para que, de forma simples, você possa entender o funcionamento da guitarra e seus

principais elementos. As explicações vão do básico a uma eventual fórmula de física, que esclarece minúcias aos mais curiosos e detalhistas. Assim, a leitura ou um passar de olhos mais atento antes de assistir os vídeos já desmistificam alguns segredos. O material enriquece o curso e vai além de ser um mero manual do que assistimos no vídeo, descrevendo objetivamente materiais e formas de construção de guitarras que influenciam no som e na tocabilidade. Ainda que esses dois pontos possam ser subjetivos, afinal cada guitarrista tem a busca de seu timbre próprio e sua própria noção de conforto (muitas vezes condicionadas ao próprio corpo), você pode desvendar as vantagens e desvantagens de escolha de material de capacitores a pestanas. É possível, inclusive, encontrar vídeos de referência no e-book, que esclarecem algumas escolhas que os fóruns de internet parecem estar dedicados a lovers, haters e muito, mas muito “achismo”.

COMO SE FOSSE NETFLIX

O Curso de Regulagem é separado em 9 vídeos que variam entre 5 a 30 minutos cada, dependendo da necessidade e complexidade de cada assunto. São utilizados 5 modelos de instrumento (Les Paul, SG, Stratocaster, Shredder e violão), passando, assim, por diferentes tipos de raios, pontes, saddles e tremolos (ficando de fora o estiloso, mas raro, Bigsby).

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AULAS suas próprias preferências e conforto. Talvez, para quem está no começo de sua jornada nos instrumentos de corda, o mais esperado seja aprender a regular o tensor do braço e afinação de oitavas, mas chega um momento na vida de todo guitarrista (e de um instrumento principalmente) que só esses ajustes são como cobertor de solteiro para um casal numa noite fria, não adianta, sempre algo não se acerta. Por isso a jornada começa com todo o tratamento da escala e das trastes, para chegar nesses ajustes com o instrumento redondo, confortável como uma cama de hotel cinco estrelas. Mas, nesse passo-a-passo, também vai se aprendendo um pouco do funcionamento mecânico do instrumento, dos fatores físicos que vão influenciando nos ajustes finos. Assim, ao chegar nos pontos mais “misteriosos”, você já encara com simplicidade dois temas mágicos, a confecção de

um rastilho e a temida ponte flutuante tipo Floyd Rose. Imagine você que muita gente teme tanto a ponte flutuante que leva a guitarra para um luthier toda vez que tem que fazer a troca de cordas (os amantes de guitarras clássicas com ponte fixa como Les Paul ou Telecaster costumam fazer piadas com isso). O Curso de Regulagem é um excelente começo para quem gosta de botar a mão na massa. Claro que é um longo caminho até a fabricação de instrumentos acústicos ou mesmo reparos de braços partidos, mas, caso você fique batendo papo por meia hora na loja de seu luthier em um dia com mais movimento, veja quantos instrumentos chegam para serem regulados e veja quantos reparos profundos ele tem para fazer. Se você for tímido, ou não tiver um luthier gente boa como o Henrique, pense bem, quantas vezes você precisou regular tua guitarra?

Fotos: Unplash

A primeira aula é sobre as ferramentas. E, mesmo para quem é daqueles que nasceram e cresceram em lojas de ferragem ou mecânicas de toda a sorte, pode ser de grande utilidade, afinal uma chave allen é uma chave allen em qualquer lugar (padrão métrico ou polegada), mas, talvez, algumas adaptações de uso de um objeto ao qual você deu outro uso a vida toda te trará uma bela facilitada, ou mesmo alguém mais experiente pode aproveitar as dicas para construir seu próprio taco de retífica. O que se segue é o olhar para o instrumento sem mistérios. Entendendo as forças e contra-forças dele, pontos de atrito e como fazer a manutenção para que ele fique o mais próximo do ideal e mais confortável para seu guitarrista. Se, para aqueles que buscam um caminho profissional, o curso ensina como agradar o gosto do cliente, para o entusiasta é a sustentação de

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O INSTITUTO ENTREVISTA

Por Felipe Ricco

K I C A R A C S LUCA

QUE A D N A B , N U S THE R O H C N A A A A N S Ê L A CONHEÇ G M U OS E R I E L I S A R B S I REÚNE DO A S E L G N I L A T I P CA

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Fotos: Divulgação

ucas Caracik é arquiteto com formação pela USP e faz parte de uma nova geração de luthiers que vem trazendo inovação para o mercado brasileiro nos últimos anos. Aos 31 anos ele produz instrumentos de forma artesanal em sua oficina no centro de São Paulo, a Caracik Guitars. Além disso, ensina luthieria e divulga conhecimento técnico e teórico em seu canal no YouTube. Confira agora a entrevista que fizemos com ele:

Como você descobriu a luthieria? Foi durante meu percurso como músico (de diversos instrumentos), ainda no interior paulista, em minha infância e adolescência. Ouvi falar dos artesãos responsáveis pela construção de clarinetes, violas caipiras e violões. Depois, através de leitura, descobri o ofício do(a) luthier, artesão responsável exclusivamente pela construção de instrumentos de corda. Você quis trabalhar com essa arte logo de cara ou aconteceu algo para entrar nesse meio? Foi uma escolha bastante “orgânica”, que foi ocorrendo naturalmente durante meus estudos e minha prática no ofício. Fui conhecendo algumas figuras importantes, pessoas que admirava e me afeiçoando cada vez mais ao trabalho e ao estilo de vida que a luthieria me possibilitava. Você fez algum curso? Sentiu dificuldades pra obter o aprendizado? Sim, realizei o curso básico (de regulagem) e intermediário (de construção) na B&H Luthieria, com os (as) professores (as) Vicente Palma, Henry Ho, Marcio Benedetti e Pauleira. Fui monitor do curso de construção de acústicos na mesma escola e auxiliava o professor Vicente Palma durante as aulas. Em 2013, reali-

zei o curso de construção de violão com os professores Luciano Borges e Robert O’Brien (Colorado/EUA), na oficina do mestre Luciano, na cidade de Araguari/MG. No início foi bastante difícil ter acesso ao conhecimento técnico necessário ao manuseio correto e seguro de máquinas e ferramentas, mas adquirindo livros (no exterior) e buscando vídeos de profissionais “referência”, creio que o aprendizado esteja cada vez mais acessível. Você se considera um guitar tech, construtor ou não gosta de se rotular? Eu sou um luthier no sentido pleno da palavra, pois desenho e construo instrumentos, realizo manutenção e regulagem e ainda ofereço cursos em minha oficina. Como você vê o mercado da luthieria no Brasil? É um mercado bastante conservador, pouco aberto a inovações. Falta estudo e informação, tanto para os músicos e músicas que se servem do nosso trabalho

quanto para alguns profissionais do ramo. No entanto, o mercado vem se desenvolvendo, ainda que de forma bastante vagarosa. Novos(as) profissionais são bem vindos(as) nesse mercado? Claro, sempre! Como é a competitividade no meio da luthieria? Não penso nesses termos. Não faço guitarras ou realizo serviços para competir com ninguém. Faço o que faço por um desejo intrínseco e necessidade criativa. E sempre com grande admiração pelo trabalho de amigos e amigas da área. A variedade e as diferenças nos ensinam, são fontes inesgotáveis de conhecimento. O que você acha da utilização de novas tecnologias numa área que sempre foi marcada pela tradição pelo trabalho artesanal? Acho natural. O desenvolvimento técnico faz parte de qualquer ofício. Essa é uma pergunta bastante complexa, que nos leva a uma discussão e a uma necessária análise histórica. Não acho

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que a área sempre tenha sido marcada pela tradição do trabalho artesanal. A guitarra elétrica de corpo sólido, por exemplo, nasceu como um objeto industrial, na primeira metade do século XX, e depois foi apropriada por artesãos e artesãs em todo o mundo. Não vejo de forma binária a utilização ou não de novas tecnologias no ofício. Há todo um gradiente de possibilidades, desde os artesãos e artesãs que constroem da forma manual, com pouca ou nenhuma ferramenta elétrica, até as pequenas fábricas, que se utilizam de máquinas CNC e processos automatizados de construção. Todos podem fazer trabalhos incríveis, criativos e precisos. Você também ensina o ofício da luthieria. O que acha da inclusão de novas tecnologias no ensino da luthieria?

Eu ofereço diversas modalidades de curso e ensino em minha oficina. Desde cursos presenciais de construção e regulagem até cursos e grupos de estudos on-line. Evidentemente, cursos on-line de construção, por exemplo, devem ser feitos por aqueles(as) que já tem alguma carga de conhecimento prático e repertório de trabalho manual com máquinas e ferramentas. Desta maneira, você vê o(a) professor(a) explicando a técnica e entende com mais facilidade o que está sendo feito, podendo treinar e aplicar com segurança o que foi passado por vídeo. As ferramentas de ensino on-line também são muito interessantes e econômicas para consultorias e resolução de dúvidas sem o necessário deslocamento físico, que pode ser

proibitivo em certas distâncias e momentos. Qual seu conselho para os novos(as) profissionais? Estudem muito, leiam, façam cursos e busquem sempre trabalhar com segurança. Muito obrigado, Lucas. O espaço é seu, deixe o recado que quiser. Gostaria de agradecer aos amigos e amigas do Instituto pela oportunidade e o espaço destinado à divulgação do ofício e do meu trabalho. Para quem quiser mais informações sobre luthieria, música e dicas técnicas, se inscreva em meu canal no YouTube: www.youtube.com/caracikguitars Estou à disposição para cursos e encomendas de instrumentos! Muito obrigado!


TELEVISÃO

Por Fernando de Freitas

ALDIR PASSADO EM BLANC

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A SÉRIE

O emblemático LP duplo que leva os nomes de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, lançado em 1984, ganhou adaptação visual para uma série de ficção. Criada e dirigida por Frederico Cardoso, com os atores Guida Vianna e Lionel Fischer no elenco, Imagem Vinil personifica crônicas bairristas extraídas das 20 composições autorais do disco. A narrativa cômico-dramática capta galeria de situações que desvendam a Tjiuca, na zona norte do Rio de Janeiro. “Um

bairro intenso, frequentado por juventude frenética e morada de idosos conservadores, que não fogem de comemorações e de botecos”, descreve Cardoso, nascido e residente do local há 48 anos. Embora amparado pela licença dramática, o roteiro de onze episódios independentes não distorce a criação dos letristas. “Há, no entanto, interpretações minhas e dos atores, haja vista que a riqueza de detalhes nas composições dá margem a diferentes compreensões”, ressalva Frederico. Maurício (interpretado por Roberto Rodrigues) conota o sentimentalismo das faixas Perder um Amigo e O Bonde no episódio inicial, Saudades. O advogado com escritório na famosa Praça Saenz Peña não quer sair do seu bairro de origem para viver com Fátima (Clarisse Zarvos). Envolvido por lembranças do seu falecido avô, embarca numa viagem imaginária pela Tijuca Antiga. Vai ao “cinema” (onde atualmente há uma farmácia e uma igreja) e anda de “bonde” (percurso do táxi). Chega a desmarcar clientes, mas de nada adianta: seu irmão e sua noiva o quererem tirar dessa paranoia. As mazelas de Querelas do Brasil e Entre o Torresmo e a Moela são denunciadas no segundo episódio, Pimenta. Nele, um aposentado (Fischer) debocha de jovens militantes presos no interior do Bar do Chico enquanto a violência policial toma as ruas próximas. Tachado de conservador, Pimenta desperta o interesse dos garotos ao compartilhar sua história de resistência. De volta ao seu apartamento, na companhia de sua solitária esposa Betina (Vianna), descobre-se que ele é um ex-militar infiltrado em movimentos estudantis que entregava “comunistas” ao governo, coisa que adorava fazer. Valquíria (Vitória Rangel), destemida estudante da classe média-alta de apenas 10 anos de idade, é o quarto episódio, baseado na canção homônima e em Valsa do Maracanã. Ela costuma registrar em seu diário a paixão por cavalos, enquanto observa alguns desses animais na Praça Xavier de Brito, já que é proibida de montar neles

pelos pais (Felipe Garcia e Waleska Arêas). Até que, em função de uma atividade escolar sobre poluição do Rio Maracanã, consegue cavalgar por locais próximos, como a Praça da Bandeira e a Avenida Brasil. O realismo estético também norteou a fotografia da obra, dirigida por Cristiano Moraes. A captação de luz natural nas cenas e as filmagens externas sem interferências na rotina local foram alguns recursos utilizados. O Bar da Dona Maria, boteco na Rua Garibaldi onde Aldir e Maurício se reuniram com parceiros para compor foi um dos cenários escolhidos, que se junta ao Estádio do Maracanã, ruas e comércios. O elenco principal também é formado pelos atores Marcello Melo, Maria Clara Guim, Christian Santos, Anderson Quack, Flávio Bauraqui e Arlindo Paixão (Mongol). A faixa Querelas do Brasil é a trilha sonora de abertura dos episódios, que têm animações assinadas por Leandro Ferra. Imagem Vinil é produzida por Cinema Petisco, Cidadela e Pé de Moleque Filmes. “Ouvia o disco na adolescência por conta do meu pai, em 1980, e isso me deu vivência musical. Escutando-o repetidas vezes, entendi as letras pelo pensamento visual. Quando decidi filmá-lo, o desafio foi transpor não só as faixas, mas poesias e pinturas do LP, que parece um livro. Vejo nitidamente nos episódios a realidade paralela e atemporal que Aldir e Maurício criaram”, esclarece Frederico Cardoso sobre a idealização do projeto. Embora não tenha participado do desenvolvimento, Aldir Blanc assistiu Imagem Vinil. No ano passado, ele concedeu depoimento sobre a carreira ao diretor da série. O trecho sobre o financiamento do LP foi editado no teaser da obra. Imagem Vinil teve exibição de seu primeiro episódio em pré-estreia realizada na inaugural Mostra Séries do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2019. A série começou a ser exibida em rede nacional a partir de 4 de junho, às 21 h, no canal de TV por assinatura Prime Box Brazil.

Imagens: Marcos Paulo Prado / Unsplash

E

m 4 de maio faleceu Aldir Blanc. Se firmou como um compositor dentro do panteão dos deuses da música brasileira. Tendo gravado apenas dois álbuns em estúdio sob seu nome, firmou seu lugar com parcerias prolíficas com Maurício Tapajós, Guinga e João Bosco. Dentre suas muitas composições, O Bêbado e o Equilibrista tornou-se um hino na voz de Elis Regina e indissociável da cantora. Médico de formação, Aldir acabou enveredando pela carreira intelectual, se estabelecendo como compositor e escritor. Como cronista, passou por alguns dos principais veículos do Brasil e lançou mais de uma dezena de livros. Foram gravados mais álbuns em sua homenagem do que os que ele pessoalmente deu ao público. Em idade avançada, foi internado em abril em um hospital público e transferido para um hospital particular graças a contribuições voluntárias. Entre questionamentos sobre como nós enquanto sociedade tratamos nossos artistas e nossa memória, o Projeto de Lei que foi apresentado ao Congresso para socorro dos artistas durante o período de pandemia da Covid-19 ficou conhecido como Lei Aldir Blanc. Porém, algumas iniciativas também mostram que não estamos esquecendo nossos artistas e nossa história, como querem fazer acreditar os pessimistas. Se existe uma coisa que sabemos fazer no Brasil, além de música, é dramaturgia televisiva, e a obra de Aldir Blanc ganhou sua homenagem.

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DINOSSAURO Por Carlos Alberto Malagoli

D N U O S L A D E P O D A I R A HISTÓ sirene a m u a h n i t e l e e porque

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o final dos anos 60, a Malagoli decidiu introduzir mais um produto em sua produção; tratava-se dos Pedais de WhaWha. Tínhamos essa facilidade, porque quando eu entrava com uma ideia, meu irmão Duílio, entrava com seu conhecimento em metalurgia, o José Mário entrava com sua habilidade em eletrônica e meu sobrinho Luiz que tinha muita facilidade em mexer com circuitos. Assim, lançamos nosso primeiro Pedal, o WhaWha e Distorção. Naquela época a coisa era muito louca, tudo em música mudava muito rápido e assim, logo em seguida, lançamos nosso segundo Pedal, batizado ES-2. Esse Pedal já contava com mais efeitos e por isso, foi um grande sucesso de vendas. E assim, sucessivamente foram lançados os ES3, ES-4, ES-5 e outros.

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O Pedal ES-3, ficou muito conhecido, porque dispunha de uma Sirene, Repetidor, Buster, Distorcedor e WhaWha. Muitos perguntam porque colocamos a Sirene... Na época, quando por exemplo, terminava uma seleção de músicas românticas e passava para uma seleção de Rock, tocava-se a Sirene. Produzimos esses Pedais até o final dos anos 80. Nosso maior distribuidor foi a Loja Leimar que na época era a loja mais especializada e mais movimentada de São Paulo! Chegamos a convencer o Magazine Mappin à expandir sua secção de Instrumentos Musicais, que na época estava restrita a somente vender violões. O Mappin acabou sendo, um grande distribuidor de nossos produtos. Fazíamos entregas de madrugada, a família toda


COXIA Anneliese Kappey

Ana Sniesko Erico Malagoli

Camila Duarte Fernando de Freitas

Carolina Vigna Ian Sniesko

Luis Barbosa

AFINADA PARA QUEM GOSTA DE MĂšSICA

Matheus Medeiros

440 Hz


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Revista 440Hz - Edição 5  

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