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Blogosfera Literária de cara nova Confira um panorama completo dos blogs literários de hoje e veja dicas se você está começando agora

Vida de Livreiro Fique por dentro da experiência de Wellington, autor do blog O vendedor de livros

Ensaio Fotográfico Conheça o Espaço de Leitura do Parque Água Branca

Entrevista com Leia Mulheres

Família Trindade Fomos ao sarau dos descendentes de Solano no Sesc Vila Mariana

Resenha do livro de Ágatha Christie


EDITORIAL

Primeira Edição Revista Por Dentro surge com o desafio de ser uma publicação independente sobre literatura e o universo dos livros em geral. Com periodicidade trimestral, esta publicação é exclusivamente preparada para existir na versão digital.

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Sem pretensões de agradar aos apaixonados por livros cult ou de ser voltada a de livros pop, a Revista Por Dentro busca ser um lugar para se encontrar um conteúdo diversificado com um só propósito: informar aqueles que têm a leitura como paixão. Para esta primeira edição, preparamos conteúdos em diferentes formatos e voltados para os mais diversos gostos. Para a matéria de capa, a escolha recaiu por um panorama da blogosfera literária atual. Através do contato com blogueiros – que estão há anos no segmento literário – conseguimos fazer um balanço do que mudou e do que permaneceu com base na percepção de quem tem experiência com essa plataforma nesse segmento especificamente. Esperamos que essa edição seja de grande utilidade para você que está dedicando seu tempo e paciência para lê-la. Boa leitura. Equipe Revista Por Dentro

EXPEDIENTE Editora Andressa Lima

Capa e Projeto Gráfico Andressa Lima

Revisão Andressa Lima

A Revista Por Dentro é uma publicação independente e a reprodução do conteúdo parcial ou integral é expressamente proibida sem prévia autorização. Os artigos assinados são de inteira responsabilidade dos autores e não representam a opinião da revista.

Redatores Andressa Lima Carolina Abrantes Fred Lopes Colunistas Eduardo Carolino Rafael Salgado Robson Delgado

Revista Por Dentro São Paulo – SP E-mail:

contato@revistapordentro.com

Versão disponível em: www.revistapordentro.com

Fotografia Alex Fonseca Samara Brito

Revista Por Dentro 3


SUMÁRIO

18

6 REDES SOCIAIS 7 ASPAS 8 ENSAIO [FOTO]

8

24

12 ENTREVISTA 16 EVENTO 18 CAPA

28 34

24 PERFIL 28 CARREIRA

16

12 4 Revista Por Dentro

6

30 RESENHA 34 LANÇAMENTOS


7 30

33

OS OUTROS 27 Por Rafael Salgado

LEITOR MIRIM 33 Por Eduardo Carolino

36

CRテ年ICA 36 Por Robson Delgado

27 Revista Por Dentro 5


NAS REDES SOCIAIS

Domínio público

A estudante americana Marley Dias, de 11 anos, criou uma campanha que ganhou as redes sociais: #1000BlackGirlBooks. Com a meta de reunir mil livros com protagonistas negras até o final de fevereiro, Marley já ultrapassou o número. Ao final da campanha, os exemplares serão doados a uma escola de Saint Mary, na Jamaica - cidade natal de sua mãe. Parabéns, Marley!

Setenta anos após a morte de Hitler, responsável por um dos maiores genocídios da história, sua mais conhecida obra é reeditada na Alemanha. “Mein Kampf” ganhará uma nova versão, que conta com acréscimo de 3,7 mil notas críticas e comentários de especialistas e historiadores, os quais se propõem a desmentir os mitos do ditador nazista.

HQs da Marvel para ler online A Marvel disponibilizou alguns títulos de seu acervo de histórias em quadrinhos para os fãs acessarem gratuitamente através da internet. São 268 títulos disponibilizados para leitura em inglês. Entre os HQs há edições antigas e até clássicas, como é o caso da HQ de estreia do Homem-Aranha – avaliada em duzentos mil dólares. Reprodução

Clube do Livro Feminista

Reprodução

Emma Watson começou um clube do livro feminista. Anunciando o novo projeto através de um tuíte, a atriz convidou seus seguidores a ajudarem com sugestões de nomes. O escolhido foi Our Shared Self (Nossa Prateleira Compartilhada). O grupo está ativo e funciona através do Goodreads.

6 Revista Por Dentro

Reprodução

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Protagonistas negras

Campanha ‘Juntos por Inclusão’ Um incêndio destruiu o acervo do projeto Inclusão Literária no final de 2015. Após um comunicado postado na fanpage do projeto, surgiu a ideia da campanha ‘Juntos por Inclusão’. Ela busca reconstruir o espaço físico e o acervo, além de mobilizar voluntários para reorganização do espaço.


ASPAS Eu disse a Alan o que estava escondido Reprodução

por trás da palavra 'Sempre'. J. K. Rowling ao ser questionada por uma fã no Twitter sobre a dica que teria dado a Alan Rickman durante as gravações de Harry Potter.

Vocês não vão gostar disto. Reprodução

Durante meses não quis mais nada que não fosse ser capaz de dizer: ‘Completei e entreguei o The Winds of Winter antes do último dia de 2015’. Mas o livro não está pronto. George R. R. Martin em declaração sobre o sexto volume da saga que tinha o dia 31 de dezembro como prazo de entrega.

Quando o meu filho Henry nasceu, a Reprodução

senhora Lee autografou uma cópia de 'Quem é Você, Alasca?' para ele com a dedicatória 'Bem-vindo ao mundo, Henry Atticus'. Este livro é o meu maior tesouro. John Green em tuíte sobre a morte da escritora Harper Lee, em 19 de fevereiro. Revista Por Dentro 7


ENSAIO FOTOGRÁFICO

Crian desde Espaço de Leitura do Parque Água Branca é fruto da ação sociocultural do Fussesp, o Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo. Localizado em Perdizes, bairro da zona oeste da capital, o Espaço de Leitura funciona das 9h às 18h entre quarta-feira e domingo. Seu acervo é composto de aproximadamente 2.000 exemplares, sendo a maior parte livros do gênero infantil e infanto-juvenil.

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do leitores cedo Por Andressa Lima Fotografia de Samara Brito

São nas casinhas temáticas, que servem de lar aos livros do Espaço de Leitura do parque, que os usuários podem encontrar livros de contos de fadas, literatura brasileira e estrangeira e também HQs, revistas e jornais.


ENSAIO FOTOGRÁFICO Acervo das Casinhas Temáticas

O Espaço de Leitura também é equipado com mesas e guarda-sóis, que ajudam a compor um ambiente aconchegante para quem quer se aventurar na leitura dos livros que o espaço dispõe.

Casa dos Livros – localizada na Rua da Leitura, é nesta casinha que estão livros de arte, literatura e estrangeira, HQ, jornais e revistas Gruta do Grito – livros de suspense, mistério, medos e monstros estão acessíveis no Beco do Mistério Clube de Histórias – para ler sobre cotidiano, família, escola, amigos e brinquedos os usuários só precisam procurar a Vila de Todo Dia Ponto da Interrogação – livros sobre curiosidades, palavras, espaço sideral, dinossauros e afins estão na Estrada dos Porquês Castelo Voador – para ler contos de fada, lendas, fábulas ou mitos o lugar certo é a Alameda Fantástica Coreto do Aconchego – livros e brinquedos para os leitores pequeninos estão na Praça dos Bebês. ■


A programação do Espaço de Leitura do Parque Água Branca é bastante diversificada. Lá você vê exposições, lançamentos de livros, saraus, teatro e muito mais. Há programações fixas e também eventos que variam de acordo com cada mês. Acompanhe o face /espacode.leitura para ver os próximos eventos.


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ENTREVISTA

Por Andressa Lima empoderamento feminino ganhou espaço nacional. Dominando os meios de comunicação, a figura da mulher tem ganhado destaque e visibilidade, principalmente após iniciativas que propõem discussões sobre seu papel social – como é o caso da redação do Enem de 2015. Quebrando paradigmas e estereótipos, o debate em torno do tema tem gerado comentários acalorados. E, claro, o protagonismo feminino, que está bastante evidente nos dias atuais, não poderia deixar de ser notado também no campo da literatura. Nessa edição, entrevistamos as garotas que estão por trás do Leia Mulheres, um projeto voltado para incentivar a leitura de mais escritoras. Confira a entrevista.

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Revista Por Dentro: Como surgiu a ideia de trazer esse projeto para o Brasil e quem deu o pontapé inicial 12 Revista Por Dentro

para deslanchar a proposta aqui? Leia Mulheres: No início de 2015, eu, Juju Gomes, pensei em utilizar o mote do projeto da Joanna Walsh (a criadora da hashtag #readwomen2014) para algo presencial, como um clube de leitura. Conversei com amigas que já estavam envolvidas em projetos de leitura (Juliana Leuenroth e Michelle Henriques). Elas apoiaram também a empreitada e começamos juntas o clube em São Paulo. Logo depois veio Rio com a Luara França e Denise Mercedes. A Emanuela Siqueira e Lubi Prates começaram o projeto na livraria Arte e Letra de Curitiba. Assim começou o projeto e se expandiu pelo país. RPD: Em que consiste o projeto? LM: O nosso principal objetivo é promover a literatura produzida por mulheres, colocando-a em evidência. Queremos trazer a literatura para perto, não elitizá-la.


RPD: Ele é voltado especificamente para o público feminino ou o objetivo é incentivar a leitura de mais mulheres pelo público leitor em geral? LM: Homens são bem vindos para participarem dos debates e darem opiniões durante o processo, mas as mediadoras são sempre mulheres, mantendo o protagonismo feminino.

para conversar sobre livros escritos por mulheres. E assim tem sido desde então. Temos também um site em que postamos resenhas de livros e algumas entrevistas com escritoras e mulheres que trabalham no meio editorial.

RPD: Qual a dinâmica do funcionamento dos clubes? Na verdade é só chegar no dia dos dos clubes, com exceção de Belo Horizonte que precisa de um cadastro antecipado. Se já leu o livro do debate, Queremos neste melhor, mas caso não tenha novo ano levar o lido isso não será projeto para outros empecilho.

RPD: Desde o início do Leia Mulheres até hoje, qual é a percepção em relação ao que deu certo e ao que precisa ser aprimorado? LM: Como o clube é muito lugares, conversar RPD: O Leia Mulheres livre, no sentido de não ter uma dinâmica de palestras, com outras conta com quantas mas de uma roda de colaboradoras no pessoas e ampliar conversa mesmo, em que momento? Há planos a discussão. todos são convidados a para expansão? falar, com o tempo fomos LM: Chegamos a 20 cidades aprendendo a fazer as e estamos indo para 25 escolhas dos livros e a fazer a conversa até abril provavelmente. Hoje estamos fluir melhor. Queremos neste novo ano em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, levar o projeto para outros lugares, Curitiba, Juiz de Fora, Sarapuí, conversar com outras pessoas e ampliar Itapetininga, Belo Horizonte, Porto a discussão. Alegre, Salvador, Boa Vista, Recife, Fortaleza, Campina Grande, Maceio, São RPD: Como vocês percebem a Bernardo do Campo, Campinas, recepção das leitoras brasileiras? Sorocaba, Natal e em breve estaremos LM: A recepção foi muito melhor do que em João Pessoa, Florianópolis e Goiânia. podíamos imaginar! Muita gente se entusiasmou com a ideia e muitos dos RPD: Houve dificuldade em clubes que temos atualmente surgiram implantar o projeto em alguma da nossa conversa com meninas de região? outras cidades e estados. Vamos nos LM: A maior dificuldade para implantar ajudando à distância e o projeto já o clube é encontrar o lugar em que eles cresceu muito. aconteçam. Depois disso, vamos negociando e dialogando com as RPD: Qual é a estrutura que vocês mediadoras para que a divulgação pensaram para viabilizar o Leia aconteça. Mulheres desde 2015? LM: Nossa ideia inicial era fazer uma RPD: Como vocês acompanham o roda de leitura, sentar com as pessoas Revista Por Dentro 13


ENTREVISTA

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o crescimento do Leia Mulheres? LM: A comunicação é sempre online, dividimos matérias, contato de editoras quando querem enviar livros para mediadoras e o crescimento é de toda uma equipe em prol do projeto, tem sido enriquecedor para todo mundo.

O que seria um livro de “mulherzinha”? Romântico? Sensível? Homens escrevem romances dessa forma. escrevemos, mediadoras participam ou já fizemos eventos juntas. Não temos parcerias fixas, depende do livro a ser lançado e aí sim podemos fechar parcerias, no momento depende do contexto dos clubes.

RPD: Há preocupação em criar conteúdo em relação ao que é debatido nos clubes? LM: Nós começamos com entrevistas no site e ainda não temos um conteúdo de feedback para autoras e na Alguns dos livros debatidos pelos clubes do Leia verdade nem pensamos Mulheres em janeiro e fevereiro deste ano nisso. Nosso foco tem sido o público leitor e como a literatura chega até eles. RPD: Como uma vertente brasileira do #readwomen2014, vocês Sobre mercado editorial - qual acompanham a repercussão do percepção em relação ao machismo projeto em outros países? Há presente na produção literária? alguma associação com a escritora LM: Estamos em 2016 e ainda há Joanna Walsh? aquela lenda de que mulheres escrevem LM: A Luara, uma das mediadoras do livros de “mulherzinha”. O que seria um Rio de Janeiro, entrou em contato com a livro de “mulherzinha”? Romântico? Joanna Walsh e ela agradeceu por Sensível? Homens escrevem romances termos começado no Brasil. Ela também dessa forma. E mulheres escrevem repostou nas redes sociais do projeto e terror (Shirley Jackson), ficção científica nas suas pessoais. No momento (Ursula K. Le Guin), policial (Agatha estamos apenas no Brasil, porque já é Christie) e assim por diante. Uma muito trabalho e temos muito a fazer, pessoa, independente de seu gênero, veremos o que acontece depois. pode escrever qualquer vertente da literatura. Um dos objetivos do Leia RPD: O site informa que o projeto Mulheres é mostrar que a mulher conta com a parceria de sites, como produz todo e qualquer tipo de o Capitolina. Vocês também literatura, e mostrar que o mercado possuem parcerias com livrarias ou editorial ainda tem traços de sociedade editoras brasileiras? patriarcal, em que a literatura produzida LM: Na verdade, a parceria que por homens ainda tem mais destaque. ■ colocamos no site é de veículos que já

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EVENTO

uem estava no Sesc Vila Mariana no sábado, dia 27 de fevereiro, às 17h, pode presenciar uma das belezas de Embu das Artes. Em clima intimista, a Praça de Eventos do Sesc recebeu o Sarau da Família Trindade. Contando com presença de Raquel Trindade, artista e filha do poeta e músico Solano Trindade, o evento reuniu adultos, jovens, idosos e crianças entre o público que assistia à apresentação. O sarau também contou com a presença do filho de Raquel, o músico Vitor da Trindade, que musicou os poemas de Solano, além de sua nora Elis, que estuda dança. Caçapava, músico e compositor, também estava presente, assim como os netos de Raquel: o rapper Zinho Trindade, o músico e ator Manoel Trindade e a cantora Maria da Trindade. Raquel, no auge de seus 80 anos, abriu o evento encantando a plateia com uma música que seu pai cantava para ela quando era pequena. O público se envolveu acompanhando com palmas. “Nós temos uma herança cultural muito rica. Nossos ancestrais não nos deixaram terras nem dinheiro, mas nos deixaram uma herança cultural muito grande”, declarou a filha de Solano ao dizer que família continuará o

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Por Andressa Lima Fotografia de Alex Fonseca legado de seu pai. Solano, era militante do Movimento Negro e integrante do Partido Comunista, enquanto a mãe de Raquel era presbiteriana. Sobre isso, Kambinda – nome artístico de Raquel, com o qual assinou muitos quadros – comenta que “O Capital” de Karl Marx e a Bíblia andavam juntos em sua infância. Convidada para dar aulas na Unicamp, Raquel leciona Teatro Negro no Brasil, Folclore e Sincretismo Religioso.

O legado da Família Trindade

No sarau, que mostrou a riqueza do legado de Solano, Raquel contou ao público a história da família e relembrou, através das canções e dos poemas musicados, a condição histórica dos negros no Brasil. Outro importante legado cultural é o Teatro Popular Solano Trindade, que completou 40 anos em 2015, e este ano concorre ao Prêmio Governador do Estado – em votação até 19 de março às 21h na categoria “Territórios Culturais” através do site www.premiogovernador.sp.gov.br.


A presença da poesia social de Solano

Tem gente com fome Trem sujo da Leopoldina correndo correndo parece dizer : tem gente com fome , tem gente com fome , tem gente com fome Piiiii Estação de Caxias, de novo a correr , de novo a dizer : tem gente com fome , tem gente com fome , tem gente com fome

A segunda apresentação foi o poema “Deformação”, musicado por Caçapava e cantado por Maria da Trindade. Zinho Trindade fez a terceira apresentação da tarde, declamando “Então, que cor eu sou?”. Elis, nora de Raquel, realizou uma apresentação de maracatu e, em seguida, Manoel Abílio contextualizou o poema Jorginho, escrito na década de 50, e o declamou para a plateia. O sarau também contou com Vitor cantando “O batuque da Jurema” e “Rio”, poema de Solano, com a participação de Maria da Trindade. Um dos momentos mais belos do sarau foi a apresentação cantada do poema “Tem gente com fome”, feita por Raquel, que lembrou aos presentes da atualidade da poesia de seu pai. O sarau também contou com a composição “Pregões”, de Vítor Trindade, apresentado com a cantora Maria da Trindade.

Vigário Geral , Lucas , Cordovil Brás de Pina , Penha Circular Estação da Penha , Olaria , Ramos Bom Sucesso , Carlos Chagas , Triagem, Mauá Trem sujo da Leopoldina correndo correndo parece dizer : tem gente com fome , tem gente com fome , tem gente com fome Tantas caras tristes querendo chegar em algum destino , em algum lugar Trem sujo da Leopoldina correndo correndo parece dizer : tem gente com fome , tem gente com fome , tem gente com fome

Só nas estações quando vai parando lentamente começa a dizer : se tem gente com fome dá de comer se tem gente com fome dá de comer

Um sarau de homenagens

Mas o freio do ar , todo autoritário , manda o trem calar : Psiuuuuuuuuuu

Reprodução

Não se pode apontar apenas um momento marcante durante o sarau do dia 27. Afinal, além da bela apresentação de Raquel do poema “Trem sujo da Leopoldina”, um outro momento excepcional foi a homenagem que Caçapava fez à Raquel, ao ritmo do maracatu, com a canção “Kambinda”. Vítor ainda cantou “Axexé” e “Viva o outro lado da vida”. Mas, além da bela apresentação, a plateia contou com mais uma grande surpresa naquele fim de tarde. Ao ritmo do estilo coco, artistas e público formaram uma única roda onde dançaram com a Família Trindade. ■

Da esquerda: Raquel, Zinho, Vítor, Maria e Manoel Revista Por Dentro 17


CAPA

Blogosfera Literária de cara nova mercado editorial começou o ano com saldo positivo. Segundo o Painel das Vendas de Livros de 2016, divulgado pelo Sindicato Nacional dos Editores (SNEL), o número de livros vendidos entre 29 de dezembro de 2015 a 25 de janeiro de 2016 apresentou crescimento de 14,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Por trás desses números, que expressam as vendas de livros tanto em livrarias quanto em supermercados, está uma técnica de marketing bastante utilizada pelas editoras: as parcerias com blogueiros literários. Dando opiniões sobre as mais diferentes obras literárias, sejam elas lançamentos ou clássicos, são os blogueiros quem criam conteúdo opinativo na internet com impressões sobre os mais variados gêneros literários E, claro, em muitos casos, isso determina e até influencia na compra de exemplares pelo público leitor.

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Mas é certo que essa influência entre os leitores brasileiros não surge do nada, ela é construída com dedicação, pesquisa, tempo e muita leitura. Um exemplo disso é o blog Listas Literárias, criado em dezembro de 2009 pelo Douglas. Firmando parcerias regulares com editoras, o blogueiro não para por aí. “Acredito que as parcerias mais importantes se dão com os leitores, que muitas vezes colaboram com o blog, e com autores independentes”, explica. E as motivações para mergulhar na blogosfera literária são diversas, no entanto a maior delas é o desejo de compartilhar leituras. “Na época não existiam tantos blogs e sites voltados para o mundo literário como hoje em dia” lembra Livy, do blog No Mundo dos Livros, criado em 2010. Hoje a plataforma é utilizada para postar resenhas, realizar sorteios e atualizar os seguidores sobre o universo literário,


além de viabilizar verdadeiras amizades feitas através do blog.

Vida de blogueiro literário Quem vê resenhas fresquinhas e conteúdo atualizado com frequência talvez não faça ideia que tudo isso dê muito trabalho. Ainda mais para os blogueiros que fazem verdadeiros malabarismos para dividir o tempo entre trabalho, faculdade ou pós-graduação, família e lazer. E a qualidade do conteúdo é sempre uma preocupação. “Tenho que conciliar meu tempo para deixar o blog sempre atualizado e com um conteúdo legal” revela Dyana do blog Desejo Literário, criado em 2011. Recém-formada em Publicidade, a blogueira conta que procura postar entre duas e três vezes na semana, além de usar os finais de semana para gravar vídeos e organizar as postagens. Já a Paola do Livros & Fuxicos, no ar desde 2011, programa as postagens com uma semana de antecedência e usa os fins de semana para definir os posts das semanas seguintes. Uma técnica semelhante é aplicada no blog Mais que livros, fruto da parceria entre a Glaucia e a Andressa. Criado em 2013, o blog das sócias formadas em Administração conta com posts programados com antecedência. Douglas, do Listas Literárias também adere a uma programação diária para pesquisar e produzir conteúdo. No entanto, há quem prefira flexibilizar a agenda e postar de acordo com as leituras que vai fazendo, como é o caso da Isa e da Mel, bloguerias do Resenhas à La carte, criado em 2015. As duas também são jornalistas e, entre freelas e a tese da pós, elas escrevem resenhas e conteúdo para o blog.

“Nossa rotina é bem livre. Nós vamos lendo e fazendo as resenhas, pesquisamos pautas legais para amantes de livros e vamos trocando ideias”, explica Isa. E não é só porque as coisas fluem mais livremente dessa forma que o trabalho é menor, não. A Livy, do blog No Mundo dos Livros, diz que mesmo não tendo uma rotina definida, tenta colocar pelo menos uma ou duas resenhas no ar a cada semana.

E-book vs. Livro Impresso Este não é um tema que separe a blogosfera literária, muito pelo contrário. A maioria dos blogueiros está aberta à experiência com e-books e mantém a leitura de exemplares físicos. No entanto, isso não é um padrão. Há os apegados, que não se desfazem de seus livros de maneira alguma, e também há aqueles que passam suas obras adiante sem maiores dramas. A Glaucia, do Mais que livros, é categórica: “Prefiro ler o livro físico, por vários motivos. Gosto de ter o livro na minha estante, adoro o cheirinho de livro novo, a diagramação e sinto que a experiência com o livro físico, pelo menos para mim, é mais confortável”. Em contrapartida, a Dyana, do Desejo Literário, procura se desapegar dos livros: “Quando leio um livro, se ele não se tornou um dos meus favoritos da vida, eu passo pra frente sem nem pensar duas vezes”. Para quem acha que essa é uma atitude radical, a blogueira explica: “Gosto de pensar que outros leitores poderão curtir a leitura, principalmente aqueles que não possuem muito acesso a ela”. Mas a questão do e-book é mais um degradê do que um preto no branco. Apesar da preferência de alguns Revista Por Dentro 19


CAPA blogueiros pelo impresso, muitos leem frequentemente livros digitais pela praticidade, comodidade e até mesmo por ser mais acessível que o exemplar físico.

A reinvenção da blogosfera literária Há controvérsias também quando o assunto é o surgimento de novos blogs de cunho literário. A Paola do Livros & Fuxicos percebe um aumento da quantidade de blogs desse segmento, mas completa: “Percebo que os blogs antigos, com mais de cinco anos, por exemplo, estão chegando ao fim. Da minha época de iniciante são poucos os blogs que continuam ativos”, aponta. Já a Isa do Resenhas à La carte, por exemplo, acredita que o número de blogs literários têm diminuído e que hoje é o YouTube quem está em alta quando o assunto é compartilhar informações sobre livros e leituras. “É

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um processo de transformação. Hoje as pessoas gostam de assistir a opinião de quem elas gostam, mais do que ler resenhas”, explica. E ela não é a única a perceber o boom dos youtubers com canais literários. A maior parte dos blogueiros que cederam entrevistas para essa matéria aponta que não apenas o YouTube, mas também as demais redes sociais – como Instagram, Twitter e Facebook – têm, de certa forma, tido um papel fundamental no modo de se fazer blogs literários hoje. Seja na concorrência, na viabilidade de angariar leitores ou na facilidade de ampliar as formas de contato com o público leitor, a verdade é que a blogosfera literária teve que se reinventar e não a mesma de menos de uma década atrás. E em relação aos blogs sobre livros de hoje há retorno maior para aqueles que realmente o levam a sério, segundos a maior parte dos blogueiros. Melhorar e diversificar o conteúdo são ferramentas indispensáveis para quem quer ter


sucesso nessa empreitada, revela a blogueira do No Mundo dos Livros.

O papel dos blogs literários Cada blogueiro vê a função do blog de uma maneira diferente e pessoal. Para a Paola, o blog é uma forma de se ver representada e, ao mesmo tempo, compartilhar leituras. A Dyana, a Isa e a Livy também enxergam o blog como um espaço para manter um contato mais próximo com os leitores e ser um ambiente de troca e amizade. A Glaucia confere ao blog uma função mais jornalística, com foco em informar e influenciar leitores com objetividade e sinceridade em todos os conteúdos publicados. Já a Mel acredita que seu papel como blogueira deve incentivar o hábito da leitura. Seguindo essa linha de responsabilidade, o Douglas acredita que trabalhar de forma digna e qualificada nos blogs colabora com o próprio sistema editorial, independente

Editora Angel, Editora Zahar, Editora Baraúna, Editora Crown, Editora Selo Jovem, Editora Geração Editorial, Editora Novo Conceito, Editora Fundamento, Editora Grupo Editorial Pensamento, Editora Empíreo, Editora Planeta, Editora Galera Record, Grupo Editorial Record, Editora Companhia das Letras, Paralela, Objetiva, Seguinte, Suma de Letras, Editora Hedra e Editora Biruta Algumas das editoras que realizaram parcerias com blogs em 2016

de se criticar esse mesmo sistema. A maneira como cada um deles vê sua atuação na blogosfera literária só revela o quão plural e diversificada são esses olhares, além da importância do trabalho deles para milhões de leitores brasileiros. Eles estão cientes de sua colaboração no sentido geral e, indo mais longe, todos eles juntos são responsáveis por mostrar as variadas facetas com as quais podemos olhar um mesmo livro.

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CAPA Dicas para quem começou um blog literário agora E para você que vai começar agora, aqui vão algumas dicas valiosas deles que estão no meio há anos. Confira as orientações e boa sorte. ■

Tenha paciência e faça o que ama. Tenha seu próprio estilo e identidade, para criar afinidade com seu público, e faça do seu blog um espaço onde possa compartilhar . Livy

Para quem está começando o mais importante é ter domínio dos assuntos que pretende abordar e manter o cuidado com a escrita. Glaucia

Escreva sobre o que você pensa, tire fotos legais, comente em outros blogs, crie uma página no Facebook para divulgação, entre em contato com editoras Isa

Faça por amor. Ter um blog é trabalhoso e requer muita dedicação. Mas quando o mantemos pelo amor a literatura, tudo vale a pena. Paola

Tente fugir do óbvio, nunca copie a "fórmula" de outros blogueiros, crie sua própria identidade. Acessos, likes e grana virão com o tempo. Mel

Definir seu público, se dedicar, postar com frequência, estar presente nas redes sociais, ter imagens de qualidade, investir no layout e conteúdo e amar o que faz. Dyana

Confira outros meios semelhantes e encontrar um diferencial para seu projeto que permita que o internauta queira ou precise de seu blog. Douglas

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Reprodução

PERFIL

Por Carolina Abrantes e Fred Lopes

Autora se dedicou a explorar as profundezas do pensamento humano, transpondo a consciência ‘nua e crua’ para o papel. ome forte da terceira fase do Modernismo, Clarice Lispector quase não se identifica com os demais autores modernistas. A autora, que se ocupou em desvendar o interior do ser humano, possui apenas uma obra de caráter social, A Hora da Estrela, e mesmo nessa ainda há uma grande presença de monólogos íntimos. Mesmo assim, Lispector é uma das vozes fundamentais quando se fala de literatura brasileira. Ucraniana naturalizada brasileira, Clarice cresceu em Maceió, se mudando tempos depois para o Rio de Janeiro, onde cursou Direito e se casou com um colega de classe. Acompanhou o marido em suas viagens diplomáticas pela

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Europa, voltando anos depois para o Rio, onde permaneceu até falecer, vítima de câncer. Rompendo com a sequência temporal linear, Clarice quase sempre apresenta como ponto de partida de suas obras experiências pessoais de seus personagens em ambientes familiares. De início pode até causar certa estranheza aos que não estão acostumados com quebra de linearidade ou narrativas íntimas, mas é sempre possível captar a essência. Compreender suas obras de forma completa foi algo que a própria crítica não pode enxergar de início em seus primeiros livros.


Reprodução

Panorama Clarice Lispector Em entrevista que foi exibida, na Tv Cultura em 1977, após sua morte. Clarice conta a Júlio Lerner sobre quando começou a escrever, sua juventude e a rotina que mantinha como “escritora amadora”. Clarice Lispector é um dos maiores nomes da literatura brasileira até hoje. Apesar de ter nascido na Ucrânia na década de 1920, veio morar no Brasil com apenas dois anos de vida, por isso sempre considerou-se “brasileira e pronto”. Clarice cresceu em Recife, casou-se com um diplomata brasileiro e por anos viveu na Europa, até retornar ao Rio de Janeiro — cidade onde morreu devido a complicações causadas por um câncer, em 1977. No início da entrevista, Lispector — que afirma desconhecer a origem de seu sobrenome, conta que antes mesmo de seus sete anos de idade já fabulava e inventava histórias, e assim que foi alfabetizada, passou também a escrevêlas. Quando jovem, Clarice diz que não tinha um objetivo específico, pensava apenas em escrever, por isso descreve sua produção dessa época como “caótica, intensa e inteiramente fora da realidade da vida”. Em suas obras, a autora enfatiza a presença de relações antagônicas e de posições opostas; marca essa que também se tornou característica de sua personalidade. Clarice conta que era muita tímida e mesmo assim, antes de publicar seu primeiro livro, já escrevia para revistas e jornais. Ela levava suas produções para serem “aprovadas” e publicadas e enfrentava a desconfiança de quem as lia — muitas vezes

Última entrevista concedida pela escritora no ano em que morreu pensavam que a jovem havia copiado ou traduzido textos de outros autores. Esse é um dos motivos que a fazia definir-se como “tímida e ousada ao mesmo tempo”. Quando questionada, por Júlio Lerner, sobre em qual momento de sua vida decidiu ser escritora, Clarice afirma que é amadora neste quesito, nunca se assumiu como uma profissional da escrita. Escrevia quando tinha vontade e acreditava que se fosse uma escritora profissional, perderia sua liberdade. Clarice Lispector acostumada a produzir intensamente, chamava os intervalos entre uma obra e outra de hiatos, períodos onde ela dizia vegetar e sentir-se oca. Porém, em um desses períodos, uma alternativa que encontrou foi voltar a produzir para o público infantil. Sua primeira produção no gênero foi uma história que escreveu quando seu filho tinha sete anos, algo “simples” que ela não considerava literatura. A história ficou esquecida durante anos até que lhe pediram uma produção deste gênero e ela enfim aceitou publicá-la, foi uma de suas cinco obras infantis publicadas. A escritora contou que comunicar-se com crianças era algo fácil, já que tinha ligação com seu instinto maternal. Mas quando escrevia para adultos afirmava estar se comunicando com o mais Revista Por Dentro 25


PERFIL Reprodução

secreto de si mesma, por isso era uma tarefa difícil. Ela não se considerava uma escritora popular e lembra, durante a entrevista, que já havia até sido chamada de “hermética” por aqueles que não entendiam suas obras. Clarice dizia se compreender, mas afirmava que o conto “O ovo e a galinha” ainda era um mistério para si própria e, justamente por isso, uma de suas obras preferidas. Mesmo escrevendo durante a ditadura militar no Brasil, Lispector afirmava que sua obra não alterava nada na sociedade, e que escrever era apenas uma forma de “desabrochar”. Para ela, o papel social do escritor brasileiro da época, era apenas “o de falar o menos possível”. Apesar das suas contribuições à literatura brasileira, Clarice Lispector nunca considerou-se uma escritora profissional. Sobre ‘O ovo e a galinha’ O conto “O ovo e a galinha”, se não o mais, é um dos mais intrigantes de Clarice Lispector. Um texto rico em metáforas, que possibilita diversas analogias. Clarice que em entrevista contou manter o hábito de escrever pela manhã na mesa da cozinha, pode apenas ter colocado o ovo como uma representação de seus sentimentos, de sua essência, de seu dom de escrever; algo que nem sempre ela compreendia, porém de extrema importância para si, assim como o ovo para a galinha. A inspiração que vem e some, quanto mais se tenta decifrar, mais confusa se torna. Algo que é inerente a nós e, ao mesmo tempo, tão delicado, que assim como o ovo pode facilmente ser quebrado. O ovo é alma da galinha e, desta 26 Revista Por Dentro

forma, pode conter vários significados e interpretações. Seria então uma deslealdade com o ovo dar-lhe apenas um significado diante de tantas possibilidades. Talvez seja por isso que Clarice não o fez. Cada um que ler o compreenderá de uma forma, e o adaptará a um contexto único. E cada leitura do conto também terá uma interpretação diferente da anterior, e consequentemente da próxima. A própria Clarice dizia ter dúvidas... Mas se o seu desejo como autora era instigar o seu leitor através daquilo que o causa curiosidade e o desafia a pensar... ela conseguiu! Sendo assim, quem saberá o que Clarice realmente quis dizer? “O ovo e a galinha” continuará sendo um mistério. ■


OS OUTROS

Uni-vos Por Rafael Salgado

difícil não odiar. É difícil lidar com as coisas quando tudo que os outros querem é seu sangue formando uma poça embaixo de sua cabeça. Nesse momento, ódio é único sentimento que faz sentido. — O que é que você tá dizendo, irmão? — Eu tô dizendo que o ódio, para a vida que levamos, é a única coisa que faz sentido. — Olhe à sua volta. Sua família está aqui, a minha também, temos pessoas que amamos nos cercando. Onde o ódio existe aqui? Famílias, amigos, somos todos um só, vivendo dá melhor forma possível. Sobre o que os outros querem, foda-se. O vento está morno. O samba toca ao fundo, vindo de um rádio toca CD's. Pessoas riem, dançam, comem e bebem. A churrasqueira está preparando as carnes, o cooler gela as cervejas; na geladeira, refrigerante e sobremesa. As crianças sonham com carros velozes e casas de bonecas imensas. — Você não me entendeu. Esse mundo é nosso também, mas somos tratados como lixo. Ele foi criado para nós também, mas não nos pertence mais. Quantas vezes os seguranças já ficaram te olhando quando você entra numa loja? Quantas vezes as pessoas aceleraram os passos por te ver andando atrás delas? Quantas vezes você já tomou uma fechada da polícia? — Não sei... todas? — Você tá zoando com algo sério, irmão. O mundo não é nosso porque somos pretos. Porque viemos da senzala. O chicote bate em nós até hoje, cem anos depois. Nossa cultura foi jogada no lixo, só pro homem branco poder acumular riqueza. Só para ele poder dizer que é melhor. Eu não sei muitas coisas, mas sei de uma, Jesus não era branco de olhos azuis. Meu cabelo não é ruim e eu não sou sujo. Sei que Deus me ama da mesma forma que ama todos os seus filhos brancos — Lucas foi interrompido pelo seu cunhado que veio oferecer carne. — Sobre o que vocês estão falando? — perguntou o cunhado.

— Estamos falando sobre o mundo ter sido tirado de nós. Sobre terem nos tirado de nossas terras, nos escravizado e depois nos jogaram ao vento. — Pesado para o momento, não acha? — Pesado é viver sendo sombra do seu opressor. Olhe à sua volta, quantos médicos negros você conhece? Engenheiros? Políticos? Agora, pense em quantos catadores de lixo, pedreiros e domésticas são brancos. Nos deixaram só o que eles não querem e ainda assim falam que somos inferiores. Isso é tão grande, grave e escroto que um deputado disse ter educado seus filhos tão bem ao ponto de ele nunca namorarem negras. Vocês podem pensar que ele só é mais um babaca que está lá por um certo tempo, mas o problema é bem maior. Ele está tendo um apoio de uma molecada nova que se sente superior. Seu cunhado se sentou para ouvir, com um certo transtorno transbordando pelo seu rosto. — Tiraram nossos nomes, nossas origens para um bando de branquelos criados a leite em pó e nutella dizerem que são superiores. Irmãos, eu estou tão puto que não consigo mais me esconder. Nós não somos nada — disse aumentando o tom de sua voz. — Nós não viemos do nada, nós somos pessoas que sangram, sentem dor e felicidade como qualquer outra. Por isso que digo, nossa hora é agora devemos reverter esse placar de desigualdade. Antes que pudesse completar seu pensamento, seu amigo perguntou: — O que você está sugerindo, irmão? Que peguemos em armas e vamos reivindicar o que é nosso? — Não, não é isso. Me desculpe se só demonstrei ódio, não era o que queria. Eu sei o que o ódio pode fazer com um homem. O ódio só serve para destruir o homem. Ele começa por dentro, depois passa por todos a sua volta. O que eu estou dizendo irmãos, é que nós devemos nos unir. Nós devemos ser um só numa linha de igualdade. Brancos, amarelos, marrons e pretos de todos países, uni-vos. Revista Por Dentro 27


Reprodução

CARREIRA

Por Andressa Lima

rabalhar rodeado de diferentes exemplares das mais variadas obras literárias: que leitor não amaria? Pois é, quem pensa que trabalhar com livros é algo fácil, vai ter que colocar os pés no chão. Nessa edição a Revista Por Dentro foi a fundo numa profissão fundamental para o ramo literário: a de livreiro. Você que adora ir às livrarias ou sebos sabe o quão indispensável é este profissional. No entanto, o que a profissão pode ter de idílica, ela também tem de difícil. Em entrevista, o criador do blog “O Vendedor de Livros”, Wellington Ferreira, conta que ser livreiro não é fácil. “Ouvi muitas coisas dos clientes que, se eu fosse fraco, teria desistido. Mas fiz disso um estímulo para crescer no meio e consegui”, afirma. Iniciando-se no ramo

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pela extinta Livraria Siciliano, do shopping ABC, o livreiro conta que apesar de possibilitar o contato com diferentes pessoas e culturas, a profissão é muito desvalorizada e mal paga – o que desestimula os profissionais da área. Além disso, no que se refere aos horários e escalas de trabalhos são poucas as livrarias que oferecem uma boa estrutura para o trabalho dos livreiros. Apesar das dificuldades que encontrou em seus anos como vendedor de livros, Wellington afirma que nunca se arrependeu da escolha que fez. Para ele é fundamental gostar de livros para se dar bem na profissão, afinal há profissionais que estão na área e que não têm o gosto pela leitura – o que acaba dificultando bastante as coisas.


Colhendo os frutos Hoje Wellington enxerga o que conquistou como fruto de sua experiência na área. Dono de um blog que é referência no segmento literário desde 2009 e idealizador de um grupo de leitura com mais de 17 mil pessoas, ele afirma: “Muitas pessoas passaram a gostar de ler depois de fazerem parte do grupo e depois das nossas indicações”.

Para ser um livreiro

Home do blog ‘O vendedor de livros” www.ovendedordelivros.com.br

A profissão não exige uma formação específica, até porque algumas livrarias que se localizam em shoppings contratam livreiros para o cargo de vendedores. No entanto, dica que Wellington dá para quem quer começar na profissão é gostar realmente de ler. “Se você gostar muito de ler já é

meio caminho andado, o resto você vai pegando no dia a dia”, pontua. “Agora, caso não goste, não entre no ramo, não seja mais um a vir engrossar as estatísticas de "livreiros" que trabalham com livros e não gostam de ler”. ■

Radar Livreiro

Dicas

Onde trabalhar Livrarias, shoppings ou sebos Formação Não é exigida uma faculdade ou curso específico, o que conta é a boa relação livreiro-cliente Experiência Ter conhecimento diferencial

do

ramo

é

Quer saber mais da profissão, então confira algumas dicas de blogs e posts para leitura: Este blog

um

O que faz Venda, controle de estoque, inventário de produtos para reposição, consulta de preços, organização, buscas no acervo ou estoque.

Esse post

goo.gl/g70cEZ

Revista Por Dentro 29


RESENHA

Assassinato no Expresso do Oriente Por Andressa Lima m dos maiores sucessos da Rainha do Crime, o livro Assassinato no Expresso do Oriente – Murder on the Orient Express no original – ultrapassou a marca de 3 milhões de exemplares vendidos logo em seu ano de estreia. Escrito em 1934, o romance policial completou 80 anos em 2014 e, nesse tempo, já ganhou três adaptações para o cinema: a primeira dirigida por Sidney Lumet em 1974, outra em 2001 com direção do alemão Carl Schenkel e a mais recente, de 2010, dirigida por Philip Martin. Na trama, o leitor se depara com mais um mistério que precisa ser desvendado pelo famoso detetive criado por Agatha Christie, Hercule Poirot. O caso lhe cai às mãos ao acaso: precisando viajar com urgência à Londres, onde é solicitado, o detetive belga consegue embarcar no Expresso do Oriente, atipicamente lotado para a época. É nesse ambiente que, no meio da noite, Mr. Ratchett, um dos passageiros, é assassinado com 12 facadas irregulares. Além desse detalhe que parece estranho a quem lê, junta-se mais uma peça nesse quebra-cabeças proposto por Agatha: a porta da cabine de Mr. Ratchett estava trancada por dentro. Estranhamente, o assassinado havia “previsto” sua morte e pedido ajuda a Poirot, que negou seus serviços.

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Tudo isso é apresentado ao leitor na primeira das três partes do livro, chamada de “Os fatos”. Após a tragédia, Hercule Poirot tem um caso intrigante que precisa solucionar antes que o trem chegue a seu destino. Afinal, haveria no Expresso do Oriente um assassino entre os passageiros? É com essa pergunta que o leitor chega à segunda parte do livro, denominada “Os depoimentos”. Nela, os passageiros do trem precisam falar, um a um, com o detetive e apresentar sua versão do ocorrido durante a noite. Cada detalhe parece ser fundamental para a resolução do crime e Agatha é magistral ao descrever os personagens, passageiros das mais diferentes nacionalidades, além de instigar o leitor a pensar como detetive. Propor causas que impulsionaram a morte de Mr. Ratchett e reler trechos para desvendar o caso são tarefas que acompanham o leitor pelas mais de 200 páginas. A parte mais esperada e também a última – “Hercule Poirot para e pensa” – propõe o caminho que leva ao desfecho do caso, e este desfecho pode ser concluído por um leitor sagaz e atento. Então, a recomendação para você que quer desbravar as páginas deste livro é: leia com atenção e siga sua intuição de leitor-detetive.


INFOGRÁFICO

O que é um Booktuber? Criado em 2011, o termo “booktuber” é uma criação do australiano Bumblesby, que denominava assim as pessoas que faziam comentários sobre lançamentos literários no YouTube.

No entanto, os booktubers existem muito antes do próprio nome em si.

2007

2009

E desde então, o número só vem crescendo no Brasil, possibilitando aos amantes de livros variadas opções de canais para comparar opiniões sobre leituras recentes.

Usando uma linguagem simples e acessível, alguns booktubers realizam parcerias com editoras e autores. O resultado é um conteúdo bastante diversificado.

O hobby, em alguns casos, vira profissão e por isso os booktubers podem alinhar ganhos financeiros de acordo com as visualizações geradas pelos vídeos. Revista Por Dentro 31


LEITOR MIRIM

A literatura infantil e o universo imaginativo da criança Por Eduardo Carolino odo mundo sabe como é o universo infantil. A imaginação de uma criança é incrível. O brincar é uma atividade natural, e o aprendizado contido nele é fantástico. É do saber de todos que o universo imaginativo delas extrapola a compreensão dos que estão em sua volta, e muitas vezes ficam horas e horas, como num transe, vivendo o fantástico mundo desta incrível fase da vida de uma pessoa. Os livros infantis são um grande aliado no processo de alfabetização das crianças, uma vez que, desde o ventre da mãe, os pais já contam histórias, falam palavras agradáveis, preparam o ambiente para que a criança cresça e desenvolva suas habilidades, respeitando cada etapa de sua vida. É fundamental que os pais tenham este costume de ler para seus filhos. É muito comum ver grandes empresas fazendo campanhas de incentivo à leitura. E entre vários projetos, citamos a fundação Itaú, que criou a campanha, “ler para uma criança, isto munda o mundo”. Clássicos da literatura atravessam gerações e vão transformando o universo de cada um de nós, e neles descobrimos o mundo em aventuras incríveis. Mas a tecnologia chegou e os livros foram perdendo espaço, de certa forma. Hoje é comum ver crianças desde cedo já mexendo com a tecnologia, antes mesmo de falar, muitos já manipulam celulares e tabletes, Pcs, e muitas famílias correm o risco de atropelar etapas fundamentais, na alfabetização de seus filhos. Mas em pleno séc. XXI é possível manter este contato com o livro? Claro que é, e isto depende de cada pai e mãe, e do que se propõem com seus filhos. É claro, que exigirá um esforço grande, mas criar filhos sempre foi um enorme desafio, seja em qualquer tempo ou era.

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Várias ferramentas, aplicativos, escolas trabalham para que esta geração, que já nasce conectada seja alfabetizada da melhor forma possível. Um aplicativo que me chamou a atenção é o Timokids, que é um aplicativo de histórias e jogos educativos focado neste público já conectado. Em conversa com a CEO fundadora, Fabiany Lima, ela disse que o app não substitui o livro, mas é um aliado, e que tanto escolas, creches, como os pais, precisam integrar todas estas ferramentas disponíveis, “O aplicativo é o meio utilizado para estimular e tornar a leitura dos livros mais interessantes” disse ela. Como pai e educador, vejo como enorme desafio integrar tudo isto, e como tenho três filhos, gosto de intercalar as atividades, como hora da história, hora da arte, que é quando juntos colorimos, ou criamos alguma arte manual, tirando fotos e depois postando em alguma rede social, que eles gostam muito, temos o tempo do jogo online, ou no vídeo game, além de incentivar as brincadeiras comuns do dia a dia. Temos um espaço na casa onde a tecnologia não pode entrar, nossa biblioteca, e quem reina é o livro, lá temos coleção de vários autores, espaço para fazer atividades manuais, e claro um lugar que precisa ser bem atrativo para a criança. Enfim, o livro seja físico ou digital, precisa ser comum nos lares de todos. A criança poder ir ao shopping e comprar um livro, ou ir no play store e baixar um, precisa combinar e está vivo em nosso dia a dia, pois o futuro de nossos filhos depende disto, e é minha e sua a responsabilidade de colaborar com a imaginação criativa de nossos filhos, para que possam viver esta fase da melhor forma possível, e ser construído um futuro sólido para os grandes desafios da vida!

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LANÇAMENTOS Mulheres no poder Autoras : Schuma Schumaher e Antonia Ceva Edições de Janeiro 576 páginas

Os meninos da Biblioteca Autor: João Luiz Marques Ilustrador: Rômolo D´Hipólito Editora Biruta 168 páginas Cansado de escrever em seu blog, Heitor começa a buscar uma história na qual também possa ser personagem. No entanto, durante essa busca, a biblioteca de seu bairro está ameaçada de demolição! Para proteger sua biblioteca, Heitor recebe ajuda dos personagens de seus livros favoritos, que rompem através das páginas para ajudar o garoto a enfrentar esse desafio.

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Resultado de uma pesquisa iniciada pelas autoras em2009, sobre o protagonismo feminino na política, o livro já foi lançado no Rio de Janeiro e agora chega aos leitores paulistas. Contendo fotos, textos e depoimentos que narram a trajetória de mulheres que ocuparam e ocupam espaços de poder , o leitor consegue ver a presença feminina atuante em espaços marcados pela hegemonia masculina.

Harry Potter and the cursed child Autora: J.K.Rowling Scholastic 1320 páginas “Harry Potter and the Cursed Child” é confirmado como o livro que dará sequência à saga Harry Potter. Depois da ansiedade dos fãs, finalmente veio a confirmação de que a peça teatral ganhará uma versão no formato de livro. Segundo informações do site Pottermore, o livro tem data de estreia prevista para 31 de julho, tanto na versão física quanto digital e terá duas partes.


O nome de Deus é misericórdia

Autoras : Papa Francisco e Andrea Tornielli Edições Planeta 112 páginas

As mulheres e os homens Autora: Luci Gutiérrez Coleção Boitatá 52 páginas Com lançamento de um selo infantil, a Boitempo criou uma coleção, chamada “Livros para o Amanhã”. As mulheres e os homens é o quarto volume e questiona os padrões de gênero impostos socialmente de forma leve e acessível para as crianças. Meninas usam rosa e meninos usam azul? De forma descontraída, o livro procura abordar questões de gênero por um viés de igualdade e respeito à pluralidade. O livro é indicado para crianças a partir de 8 anos e tem tradução de Thaisa Burani.

O primeiro livro do pontífice chegou às livrarias brasileiras em janeiro com programação lançamento em mais 83 países. Escrito a partir de uma conversa de Francisco com o jornalista Andrea Tornielli, o livro trata de temas como corrupção e misericórdia divina tendo um formato de perguntas e respostas e é destinado ao público em geral.

O que são classes sociais? Autor: Joan Negrescolor Coleção Boitatá 52 páginas Também integrando a coleção “Livros para o Amanhã”, do selo infantil Boitatá, O que são classes sociais? é o terceiro volume. Partindo da ideia de que todas as pessoas são iguais, o livro aborda explica as dinâmicas sociais de maneira simples e de fácil compreensão para as crianças. Ensinando que as pessoas têm os mesmos direitos, o livro também é indicado para crianças a partir de 8 anos, além de contar com a tradução de Thaisa Burani.

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CRÔNICA

Fumaça esbaforida Por Robson Delgado

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yrés já estava atordoada. A rotina regrada já lhe havia convertido em máquina humana. Naquela tarde cinzenta, Ayrés estava nublada. Não, ela estava o superlativo de nublado. Seu sol se manifestava incapaz e a enchente assolava seu íntimo. Não havia nada que pudesse deixá-la desta forma. Solteira, bom trabalho, sem filhos e família estruturada. Absolutamente nada notável que pudesse afligirlhe. Chegou em casa. Ao abrir o portão, deu-se conta que havia esquecido de alimentar seu cachorro. Julgava seu único confidente e melhor amigo. Como pôde Ayrés ter esquecido de atender a necessidade mais básica de seu melhor amigo? Como? Fechou o portão. Ficou prostrada. Estava inerte. Pensou e não entendeu o porquê de seu esquecimento, tido por ela como falta gravíssima. Pensou de novo. Pela primeira vez, seu cão não se levantou nem abanou o rabo. O cão não se manifestou. Ayrés, já atônita, abriu a porta, adentrou em casa, abriu a janela que ampliava sua relação com o seu animal. Não obstante, pegou seu cigarro, acendeu-o. Sentou-se no sofá e se pôs a pensar. Fumou. Esbaforiu em direção ao cachorro.

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Revista Por Dentro - Edição 1 - Jan/Fev/Mar 2016  

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