Page 1

IBITIPOCA: O POVOADO QUE FICOU ESQUECIDO NO TEMPO... MAS DEPOIS RETOMOU E AVANÇOU. (Texto integralmente produzido por autoria de José Roberto Góes Baretta de Ibitipoca – Todos os direitos reservados) Muito se tem investigado sobre as diversas mudanças sociais que o turismo causa em pequenas comunidades quando são descobertas por seus atrativos naturais e antropológicos. Seja pela natureza à volta de algum vilarejo antes desconhecido ou pouco visitado, ou seja pela oferta de seu artesanato e outros produtos culturais típicos, por exemplo. No alto da Serra de Ibitipoca, que é uma ramificação do maciço da Mantiqueira, no sudeste do estado brasileiro de Minas Gerais, a pequena Vila de Conceição de


Ibitipoca vem se modificando desde a chegada do turismo no início da década de 1970. Por suas dezenas de cachoeiras, grutas, lagos e piscinas naturais de águas cristalinas, matas nativas que abrigam fauna e flora diversas e raras, em meio a campos verdes, floridos e rochosos que levam a mirantes com altitudes superiores a 1.700 m, a Serra de Ibitipoca sempre despertou a atenção de cientistas, pesquisadores e visitantes em busca de lazer. Em 1973 foi criado pelo estado de Minas, no alto dessa serra, o Parque Estadual do Ibitipoca, com 1488ha de exuberante beleza natural. Além do parque, a simplicidade típica mineira dos habitantes daquele arraialzinho de Conceição de Ibitipoca, dos idos anos 70, do século XX, cativava os novos visitantes que se deslumbravam com a enorme hospitalidade de um povoado, até então esquecido naquelas


montanhas, desde 2 séculos atrás. Ibitipoca já havia sido no passado distante, nos séculos XVII e XVIII, cenário da corrida de aventureiros, os bandeirantes, que adentraram as matas do interior das “Minas Geraes”, iniciando o “ciclo do ouro” no Brasil, colônia de Portugal na época. Registros históricos do Arquivo Público Mineiro e da Biblioteca Nacional atestam que, Ibitipoca foi um dos caminhos do ouro que levava esses desbravadores para a capital das Minas, Vila Rica, hoje Ouro Preto. A serra abrigava naquele tempo uma população de “mais de 5 mil almas”, contando com escravos, índios, mineradores e comerciantes. Esvaziada depois do ciclo do ouro, que culminou e terminou com episódio da história do Brasil denominado “Inconfidência Mineira”, Ibitipoca tornou-se então um pequeno povoado esquecido na região, até a chegada dos primeiros turistas da década de 70 do


século XX. Estes eram jovens sonhadores, estudantes ou professores que buscavam outros preciosos valores já deteriorados nas grandes cidades: o ar e as águas puras das montanhas, com toda sua riqueza natural, além de novos amigos que recebiam esses visitantes com braços e portas abertas. A Vila de Ibitipoca tinha nesse outro momento histórico 40 casas apenas, em 1974, e a população não passava de 300 habitantes. Depois desses pioneiros turistas das décadas de 70 e 80, que muito interagiram com os habitantes da serra naquela época, Ibitipoca foi traçando seu futuro em direção a um novo ciclo econômico, o do turismo sustentável, e mais especificamente o ecoturismo. Com a colaboração de vários daqueles que iniciaram esse turismo na serra, e com alguns deles já fixando residência ou casa para fim de semana na vila, os antigos moradores se juntaram a esses novos


ibitipoquenses fundando, em 1993, uma entidade de defesa da Serra de Ibitipoca para que fossem determinados parâmetros de um crescimento ordenado e saudável para Ibitipoca e seu entorno. Assim foi criada a AMAI – Associação de Moradores e Amigos de Ibitipoca que entre alguns outros êxitos conseguiu elaborar e aprovar o seu “Plano Diretor de Organização Territorial e Desenvolvimento do Turismo em Conceição de Ibitipoca”, sancionado pela Câmara Municipal de Lima Duarte, sede do distrito de ibitipoca. Se no passado distante o ciclo do ouro ocasionou a corrida caótica e destruidora da natureza e de seres humanos desprovidos de títulos das terras naquele século XVIII, Ibitipoca agora, com seus moradores e amigos da serra, se preocupava em impedir uma nova corrida predatória, caso não se estabelecessem as diretrizes para um turismo com sustentabilidade. Assim


Ibitipoca começava já na década de 1990 a se organizar para que esse novo período econômico fosse produtivo, mas sem agredir o meio ambiente e em consonância com os anseios locais, preservando a cultura da serra. Há de se reconhecer que para que o turismo não se expandisse em maior quantidade do que a recomendada para a conservação desse paraíso ecológico, Ibitipoca teve e tem até hoje a cooperação de técnicos e cientistas que por meio de estudos sérios sobre os possíveis impactos socioambientais, ajudaram a se estabelecerem normas e a formarem consciências de turistas e moradores no sentido do uso correto e da conservação da serra. Neste ponto podemos citar vários trabalhos das Universidades Federais de Juiz de Fora (UFJF), de Viçosa (UFV), de Lavras (UFLA), de Minas Gerais (UFMG), dentre outras instituições. Citamos também a Fundação João Pinheiro que


elaborou junto à comunidade o seu plano diretor. Muito importante foi e é até hoje a ação reguladora permanente do órgão gestor do Parque de Ibitipoca, o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF-MG). Se não fosse a rígida atuação deste órgão do estado, o parque estaria sujeito a sobrecargas constantes, com superlotação em períodos de alta temporada, como por exemplo nos feriados prolongados. A limitação de visitação ao parque foi estabelecida no ano de 2001, em 300 ingressos de terças a sextas-feiras comuns e em 800 ingressos nos fins de semana e feriados. Além disto, algumas trilhas e atrativos turísticos foram temporariamente interditados, conforme necessidade de manutenção e recuperação de seus ecossistemas. Hoje Ibitipoca tem, aproximadamente, 1.500 habitantes. A vila, como se pode constatar, cresceu mas segue um planejamento onde um padrão


arquitetônico se faz notar, com a característica predominante de seu tradicional “tijolinho aparente” e com telhados de cerâmica ao invés de lajes e telhas de zinco, comuns em outras vilas já descaracterizadas, infelizmente. E tem também as janelas e portais de madeira, como a dos casarios antigos da época colonial, citando a história mineira. É óbvio que o crescimento populacional foi e ainda é inevitável. Mas este crescimento não se deu apenas pelo acréscimo de novos moradores que vislumbraram viver em Ibitipoca e trabalhar investindo no comércio local, mesmo que só tenha movimento em finais de semana e feriados. Ibitipoca cresce principalmente porque, ao contrário do êxodo rural que ocorria antes do turismo, agora os filhos da terra desejam ficar e investir em seus patrimônios legitimamente herdados de suas famílias ibitipoquenses. Com isto a autoestima das pessoas nascidas na serra,


sejam jovens ou idosos é elevada e a população sente orgulho em ser atuante na conservação de seus maiores patrimônios: a natureza e cultura local. Hoje é o próprio cidadão da Serra de Ibitipoca que se torna o maior fiscal e protetor desse seu patrimônio. Além do IEF e da polícia ambiental fiscalizarem e protegerem o meio ambiente, os moradores também participam ativamente desta proteção, denunciando qualquer possível ameaça que venha a colocar em risco a fauna ou a flora, ou algum elemento patrimonial. Como exemplo podemos citar uma recente prisão em flagrante de criminosos que em um veículo furgão, vindos de outro estado, estavam aprisionando espécimes de animais para serem contrabandeados. Já haviam capturado alguns pássaros quando foram denunciados à polícia por um morador da área rural. Abordados os ladrões, e com várias armadilhas apreendidas, os


animais foram devolvidos à natureza e os malfeitores presos e indiciados. Como se pode ver, esta é uma das mudanças de comportamento da população nativa em consequência das diretrizes de implantação do ecoturismo na Serra de Ibitipoca nos últimos 20 anos. Antigamente, antes do turismo, a serra era muito freqüentada por caçadores e outros predadores que coletavam plantas e animais raros para serem comercializados nos grandes centros, e até no exterior. Isto hoje não aconteceria mais impunemente, pois em Ibitipoca as leis ambientais são cumpridas, mais que em outros lugares, por ser área próxima de uma Unidade de Conservação - o que deveria acontecer em qualquer localidade, claro. A Serra de Ibitipoca atualmente é uma “zona de refúgio” para espécies que antes estavam em vias de extinção. É possível se encontrar onças pardas, jaguatiricas, lobos guarás, macacos bugios, e várias


espécies livres das ameaças de caçadores, passeando pela serra solenemente com suas crias. A Serra de ibitipoca é um exemplo de conservação da natureza, e seus habitantes além de se orgulharem disto, também sabem que para que haja o ecoturismo é necessária esta conservação de costumes e do meio ambiente. O turismo sustentável pode e deve melhorar as relações entre os homens e dos homens com a natureza. As relações entre os que recebem visitantes e os hóspedes que são acolhidos, geram amizade, respeito e recursos, que antes eram escassos. A capacitação de mão de obra local também foi um dos temas abordados na época da fundação da AMAI, e cursos correlatos foram ministrados por instituições em parceria com a Associação. Hoje, em Ibitipoca, os filhos da serra escolhem se querem empreender em seus próprios negócios, ou se querem


trabalhar no comércio local, pois não faltam empregos em Ibitipoca, ao contrário de outros lugares. Muitos trabalhadores que saíram da serra nos anos anteriores ao turismo, aprenderam em outras cidades ofícios como os de pedreiro, carpinteiro, marceneiro, e de outras atividades da construção civil. Ao perceberem a oportunidade de trabalho em sua terra natal, voltaram para ibitipoca nos anos 90 quando já começavam as obras de novas casas e pousadas. Aconteceu que foram se formando novos construtores profissionais qualificados que hoje trabalham na edificação de novos estabelecimentos, que muitas das vezes são os seus próprios empreendimentos familiares. Se não fosse pelo advento do turismo, estas famílias ibitipoquenses estariam residindo no caos das grandes cidades, com grande possibilidade de estarem percebendo miseráveis salários


ou muito menores rendas do que agora ganham em sua terra natal. Muitas teses são desenvolvidas em estudos de mestrados e doutorados em que são aferidos impactos negativos do turismo em algumas comunidades. De fato há muitos casos em que estes estudos confirmam tal realidade, mas em Ibitipoca isto não se aplica. Alguns pesquisadores, talvez mediante metodologia inadequada, se equivocam ao concluírem sobre essa negatividade em relação ao turismo em Ibitipoca. Há que se apurar os dados com entrevistas significativas e amostragens maiores, por exemplo, sem a ótica parcial impregnada por “pré conceitos”. Se foram transformados alguns valores antigos tradicionais, ou se houve alguma perda em relação à cultura local, isto não é consequência do turismo, e sim dos novos tempos em que a globalização dita padrões hegemônicos que são reafirmados pelos meios de comunicação


de massa. E assim, não seria possível regredir no tempo, ou impedir que as novas gerações entrassem em contato com outras realidades culturais, mesmo se não houvesse turismo. Antes da internet, antes da televisão e do rádio ou qualquer outra mídia, o direito de ir e vir sempre foi almejado por qualquer ser humano, e o contato com diferentes modos de vida sempre aguça a curiosidade em qualquer época. O que se pode fazer para que seja conservada a cultura local é, paralelamente ao global, se incentivar a produção artística também dos eventos específicos do lugar, pois afinal, trata-se de mais um produto turístico a ser apresentado ao púbico. Não há porque deixar de se enfatizar as manifestações folclóricas regionais, mas seria purista, paternalista ou até mesmo hipócrita querer boicotar manifestações globais e ecléticas como, por exemplo, o Ibitipoca Blues, Rock ou Jazz, já que estes até já se


tornaram outras tradições da Serra de ibitipoca desde as últimas duas décadas. Ora, as tradições não são feitas mais obrigatoriamente por séculos e séculos. Muitas produções artísticas de qualidade são produzidas em ibitipoca. Além dos eventos maiores citados acima, e que mobilizam toda a comunidade e seu comércio, outros mais específicos e de cunho regional já foram desenvolvidos por produtores locais, com programações de “raiz”, e com musicais caipiras autênticos, como por exemplo no Festival Cultural da Serra, no ano de 2006 e em várias outras ocasiões. E há as festas religiosas como a da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, em dezembro, e também a de N.S. Aparecida em outubro, dentre outras festividades regionais. Caberá aos produtores de eventos apresentarem projetos que visem enfatizar e valorizar a cultura da região. Para isto há espaços públicos na vila e


também está sendo construído, por iniciativa particular, um teatro com capacidade para 800 pessoas que estará aberto a produções de qualidade para a comunidade e seus turistas. Mas nem com tudo isto que foi relatado acima, a vila de Ibitipoca deixou ou deixará de ser a mesma vila que cativou sempre seus visitantes, com a simplicidade e carisma de seu povo. Não há quem não se encante com a boa prosa de seus personagens que contam “causos” do presente e do passado. Cantadores, violeiros e sanfoneiros sempre existirão em Ibitipoca. Aliás, uma qualidade natural dos mineiros da serra é, com certeza, a musicalidade, haja vista a criação e manutenção da Escola Banda Lira de Conceição de Ibitipoca que há dez anos vem formando os músicos que se apresentam em festividades locais e dos arredores. Além disso há a banda de “forró pé de serra”, de nome Espim de Cacto que anima as noites em bares e


festas da vila, sendo composta por artistas genuinamente ibitipoquenses. E músicos das cidades vizinhas se apresentam em bares da vila nos fins de semana e feriados. Ibitipoca, então é muito musical, sempre. Não há porque haver considerações pseudointelectuais de que o turismo fez mal a Ibitipoca. Os que pretendem convencer de que Ibitipoca sem o turismo seria melhor, estão completamente sem conhecimento da realidade deste lugar pitoresco e maravilhoso, ou então querem egoisticamente que ibitipoca volte ao passado remoto, para que seja objeto esdrúxulo de estudo, talvez intitulado “Ibitipoca: o povoado que parou no tempo”, para assim ornamentar suas retóricas pseudocientíficas e impregnadas de ideologia. Qualquer pessoa que vier a Ibitipoca poderá conferir com seus diversos moradores se o advento do turismo foi


motivo de melhoria na qualidade de vida dos habitantes locais. É só perguntar! Experimente!!!!! Esta explanação é apenas a opinião de um morador da Serra de Ibitipoca, baseada na observação dos últimos 36 anos, apenas constatando simplesmente a realidade local, e não tendo nenhuma pretensão de ser científica. Meu nome é José Roberto Góes Baretta, tenho 59 anos de idade e 36 anos de Ibitipoca. Fui um daqueles primeiros turistas que se apaixonaram pelas pessoas a pela natureza dessa serra mágica, decidindo nela me estabelecer trabalhando honestamente e com muito prazer. Abraço a todos.

Ibitipoca o povoado que parou no tempo e retomou a trajetória  
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you