AONDE?! A revista que não come régui de ninguém

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editorial Aooooonde?! A revista que não

põe a trazer a cultura cotidiana. A

come régui de ninguém! Aonde?!

nossa fonte é quem, também, nos

quer movimento. Quer provocar o

lê. É quem vive a cultura periférica,

debate, a reflexão e a resistência.

urbana e popular, mas muitas vezes

Cultura é o foco e a nossa missão.

ignorada pelos grandes veículos de

Práticas culturais periféricas diante

comunicação de Salvador.

do tradicional jornalismo cultural de

Nosso intuito para além de reportar,

Salvador. Aonde?! traz o conceito

é visibilizar nossa cultura do dia-a-

de cultura na perspectiva dos Es-

-dia e, assim, potencializar o senti-

tudos Culturais. Assuntos aborda-

mento de pertencimento da cidade.

dos de forma próxima e direta. Para

Além de provocar o empoderamen-

além de lançamentos de discos, li-

to e contribuir para o processo de

vros, shows e espetáculos teatrais.

(re)construção identitário, transfor-

Um jornalismo cultural que se pro-

mação social e cultural da cidade.

quem somos Concluintes do curso de gradu-

em Jornalismo, são as idealizado-

ação Comunicação Social pela

ras da revista como produto final

Universidade Federal da Bahia,

como trabalho de conclusão de

Carla Galrão, habilitação em Pro-

curso, sob sobaaorientação orientação dada profespro-

dução Cultural e, Gislene Ramos,

sora e doutora fessora Lia Seixas. Lia Seixas.

expediente Editora e redatora

Gislene Ramos

Direção de arte e fotografia Carla Galrão Produção gráfica Carla Galrão e Fernanda PC Ilustração

Zeca Forehead Tuíris Azevedo

Coordenação Lia Seixas

Contato revista.aonde@gmail.com

Fernanda Pinheiro, Gildete Ramos do Nascimento, Maria deF. Fátima Edilson Nascimento, GalrãoMaria Barreto, de MarcosGalrão Fátima Leandro Barreto, RochaMarcos Medrado, LeZeca Forehead andro R. Medrado, Júnior Simas. Agradecimentos


escola comunitária luiza mahin 6 UM EXEMPLO DE EDUCAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL ensaio

perfil

domingo é meia

8

rosa show

10

UM TALENTO QUE NASCEU DAS RUAS

rap é ideia

O PODER TRANSFORMADOR DA CULTURA HIP HOP

ideaxéqui

larissa fulana de tal

CINEASTA COMENTA SOBRE A PRODUÇÃO DO CINEMA NEGRO

12 15

feminismo de banheiro

18

guia

23

tome baculejo!

24 29

QUEM VAI LIMPAR?

COMIDA DE RUA

O ABSURDO DO “NÃO VAI DAR EM NADA MESMO”

beleza negra

AFINAL, O QUE É EMPODERAMENTO NEGRO?

ensaio

grafite

dicas culturais charge

pixação

33 34 35


4


5

Todo Ă´nibus lotado tem um pouco de

navio negreiro...


escola comunitária luiza mahin UM EXEMPLO DE EDUCAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL Toda criança tem direito à edu-

sula de Itapagipe, arregaçaram

cação. É o que diz a Consti-

as mangas e construíram um

tuição. Mas nem sempre essa

espaço para educar suas crian-

é uma realidade comum para

ças. Nascia então, em 1990,

bairros da periferia de Salva-

a escola Comunitária Luiza

dor. E por isso, muitas vezes,

Mahin. Uma iniciativa da Asso-

não dá para ficar sentado ape-

ciação de Moradores do Con-

nas se lamentando pela falta

junto Santa Luzia, do bairro do

de escolas públicas e creches.

Uruguai. Mais que um lugar

Foi pensando assim que mu-

de alfabetização infantil, é um

lheres e mães, moradoras da

exemplo de luta, resistência e

região dos Alagados, na Penín-

transformação social. Marilene da Conceição (Lurdinha)

6


6 7

conhecendo a escola luiza mahin Luiza

A escola não tem mensalidade,

à tarde, com seis professores,

Mahin, africana da Costa Mina,

pois é um dos benefícios das mães

arte-educadores; além da con-

que foi trazida para o Brasil

filiadas à Associação de Morado-

tribuição dos jovens da Rede Re-

como escrava. Quituteira, ela

res, podendo usufruir, dentro das

protai (Rede de Protagonistas em

sempre esteve à frente das re-

disponibilidades de vagas para

Ação de Itapagipe), que oferecem

voltas dos escravos.

crianças entre 3 a 6 anos.

oficinas com arte-educação e ati-

“A gente pensou numa escola

Com três coordenadoras peda-

com história dentro da luta ra-

gógicas, entre elas, Sônia Dias, a

Mãe e moradora da comunidade,

cial e trazer nomes de negros

escola atende 272 crianças, entre

Nilcélia Duarte, fala sobre ter sua

que lutaram para podermos

educação infantil a partir dos 3

filha de quatro anos na escola.

estar aqui”, conta uma das fun-

aos 5 anos, e mais 2 anos, fazen-

“Tenho muito orgulho de minha

dadoras da escola, Marilene da

do o 1º e o 2º ensino fundamen-

filha estudar aqui. Ela gosta muito

Conceição, ou como prefere ser

tal. “Funcionamos em dois turnos,

e percebo que está aprendendo

chamada, Lurdinha.

com seis turmas de manhã, e seis

assuntos importantes para ela”.

O

nome

homenageia

vidades diversas”, explica Sônia.

mulheres, mães, educadoras e guerreiras “Mulheres da Laje” foi o nome do

ser uma nova mulher. “Cheguei

Um exemplo de transformação

grupo que ergueu o prédio da es-

aqui com 25 anos e hoje, com

através da educação. A Esco-

cola. Remanescentes de palafitas

52, sou mais empoderada, com

la Comunitária Luiza Mahin é

que mostraram ser exemplos de

mais conhecimento e me aman-

prova viva de luta, resistência

luta política e social.

do muito mais”, conta Solange,

e cidadania. Mulheres, mães e

que coordena a Biblioteca Co-

moradores unidos em defesa da

munitária Clementina de Jesus,

melhoria da comunidade e de

fundada em 1994.

suas crianças.

Com 20 anos de Luiza Mahin, Solange Sousa, hoje pedagoga, conta que a construção da escola fez

Nilcélia Duarte

Solange Souza

Sônia Dias


8


9

domingo ĂŠ

meia...

frota.


rosa show

UM TALENTO QUE NASCEU DAS RUAS

Negra de cabelos volumosos,

pleno viaduto

corpo exorbitante e cheio de

“Viaduto show”.

curvas. Maquiagem impecável.

apelidado de

nhecimento. Foi na rua que nasceu a personalidade Rosa Show.

história de vida

Morando em um ambiente fa-

Dizem que rua não é casa de nin-

miliar ruim, apesar de ter famí-

14 anos à mulher empoderada

guém. Para ela, foi. E mais, foi

lia, com a mãe e irmã, Rosa foi

candidata a vereadora de Salva-

palco do nascimento de uma ar-

para morar nas ruas de Salvador.

dor em 2016.

tista. Rosa Show, como assim é

Apesar de toda a insegurança e

chamada hoje, morou nas ruas de

vulnerabilidade, era onde ela se

Salvador durante sua infância e

sentia mais forte e mais segura.

adolescência.

“A minha ida pra rua começou

Um sorriso exuberante. Da menina que morou nas ruas aos

Impossível não notar a presença de Rosa Show, a mulher soteropolitana que faz jus ao nome artístico.

Cabeleleira e

Próxima a moradores de rua, usu-

agitadora cultural, Rosa é idea-

ários de droga e marginais, Rosa

lizadora do Samba Rosa Show,

enfrentou muitas dificuldades.

que acontece no bairro de São

Mas também foi nas ruas que en-

Caetano. O evento ocorre em

controu proteção, amizade e co-

10

por conta da violência doméstica, quando eu tinha 14 anos e meu cunhado queria ‘bulir’ comigo e eu, sempre ousada, dei umas ca-


11 cetadas nele. Daí minha irmã me botou pra fora de casa”, conta. Tudo poderia ter dado errado.

pela comida mesmo, mas depois fui tomando gosto pelo aprendi-

zer que sou um projeto de rua e tudo o que eu gosto de fazer

zado”, lembra.

é na rua e para a rua, como os

da perigosa para muitas pessoas,

show de mulher

sambas. Aí a gente vai descobrindo artistas”, conta Rosa que

Rosa diz que estava protegida:

Candidata a vereadora de Sal-

garante ter muita gente nas ruas

“Eu sempre tive muita fé. Nunca

vador em 2016, Rosa é uma

apenas esperando uma oportu-

aconteceu nada de ruim comigo,

nova mulher. Consciente de

nidade. Hoje a cabeleleira tam-

Deus estava ao meu lado”.

suas conquistas e de sua traje-

bém oferece cursos e oficinas

tória de vida, ela conta o quan-

gratuitas sobre sua profissão.

to aprendeu ao longo dos anos.

Assim como aprendeu

Foi modelo plus size (gordinha),

do incentivo voluntário, Rosa

participou de programas de te-

Show retribui o que fizeram por

levisão, sempre dona do pró-

ela.

Mas apesar da rua ser considera-

Na mesma época, Rosa conheceu uma senhora, hoje já falecida, com quem aprendeu a trançar cabelos. Logo passou a exercer a profissão de “trançadeira”. Com o tempo, foi aprimorando através de cursos profissionalizantes. “Na

prio estilo, entre cabelos, roupas e sapatos exuberantes.

a partir

Um exemplo de mulher guerreira que traçou o próprio ca-

rua, não tinha comida. Foi nes-

Uma artista nascida das ruas

minho, como afirma: “É preciso

ses cursos, que davam almoço

de Salvador, que hoje trabalha

confiar em si. E saber que só

ou lanche, que fui sobrevivendo

para que nasçam outros talen-

quem pode fazer algo por você

e aprendendo. No início eu só ia

tos como ela. “Eu costumo di-

é você mesma!”.

Eu sou Rosa Show, mas cada pessoa é um show diferente. Pode ser Maria Show, Joana Show, Raimunda Show, todo mundo tem o seu estilo, a sua personalidade.


Mr. Armeng

rap é ideia

O PODER TRANSFORMADOR DA CULTURA HIP HOP

Rap é um dos estilos musicais

Ritmo e poesia, resultado da

Breaking e o Graffiti, o Rap, na

que

temas

sigla “RAP”, do inglês Rhythm

cultura do Hip Hop, tem como

sobre questões sociais, como

and Poetry. Duas palavras que

marca a crítica! A união de ritmo,

preconceito, denúncia, racismo,

explicam a principal definição do

poesia e crítica social. Ideias de

desigualdade social e violência.

Rap. Junto com DJ, o MC, a dança

transformação pessoal e social.

A versão mais conhecida do sur-

enfrentavam diversos problemas

de Salvador não conheçam bem.

gimento da cultura do hip hop

como pobreza, violência, racismo,

Tendo o conhecimento como um

é de que nasceu na periferia de

tráfico de drogas, carência de in-

dos principais elementos, logo o

Nova Iorque, nos Estados Uni-

fraestrutura e de educação, entre

Rap ganhou nas letras o peso da

dos. Bairros como Bronx, que

outros. Nada que alguns bairros

crítica social.

traz

nas

letras

breve história

12


13

rap é ideia

que mostra não só a minha vivên-

Akani, rapper do Nova Saga, co-

Cantar a realidade é o principal

cia no bairro, mas como todos que

menta sua experiência: “No inicio

foco de muitos rappers. Seja uma

estão ali”, conta.

que comecei a escutar Rap foi um

realidade de violência, preconceito e desigualdade; seja de amor, família e belezas da vida. Para o rapper Maurício, conhecido como Mr. Armeng, o hip hop é uma cultura transformadora na vida das pessoas: “O Rap eu comparo a uma faculdade, porque é um processo de formação e muita informação mesmo”. O rapper Lucas Kintê, apresentado ao Rap com 8 anos de idade, diz que ficou bestificado como a identificação que teve com o estilo. “Minha negritude e a proximidade com a comunidade foram meus elementos para fazer Rap. Tenho uma música chamada Paripe City que é quase um hino de Paripe,

Lucas Kintê

Os jovens Akani Santana e Makonnen Tafari, nascidos e criados no Pelourinho, trazem para as letras do grupo Nova Saga as experiências vividas e observadas. Como

pouco difícil porque minha mãe não gostava muito das letras por ouvir mais as parte de xingamentos, mas era preciso ouvir todo o contexto da letra”.

fala Makonnem: “O Hip Hop na

Apesar de boa parte das referên-

vida do jovem, principalmente da

cias musicais do Rap serem da

periferia, é uma voz de liberdade, é

região sudeste do Brasil. Diogo,

como um refúgio”.

conhecido como Baco Exu do

norteste também é rap Pela popularização de grupos como Racionais MCs, com letras que escancaravam a realidade por entre violência e criminalidade, ainda se tem um pouco de preconceito com o Rap.

Blues, problematiza a referência exagerada a cidades de São Paulo e Rio de Janeiro na letra da música “Sulicídio”. Baco explica que a sua música é uma provocação para que as pessoas passem a olhar mais para o rap produzido no Nordeste. Que aqui em nada deixa a desejar per-


Foto: Divulgação

to dos artistas do sul do país, só não tem o devido reconhecimento nacional. “Querendo ou não muitos rappers do Sudeste são uma escola pra uma galera. Só que quando se começa querer imitar a realidade, as gírias, o jeito de comportar, isso, pra mim, é uma perda de identidade”, explica Baco Exu do Blues.

Foto Divulgação Baco

o rap transforma

Não à toa o movimento faz tanto sucesso entre jovens, que muitas vezes enxergam ali uma forma de se expressar e letras que trazem a sua realidade. “O Rap traz consci-

também a postura fora dos palcos,

mitidas e cantadas através do Rap,

através das ideias que são pas-

porque a formação está ali, como

sadas. “O Rap é uma música que

explica Armeng. “Mesmo jovem a

consegue tocar os jovens de forma

gente vai adquirindo mais consci-

mais rápida, de fazer a galera se

ência e conhecimento com o rap;

conscientizar e se politizar”, conta.

outros rappers, livros, grandes nomes da história e vai buscando

ência e conhecimento”, como bem

Entre as principais questões da

afirma Mr. Armeng, que hoje leva a

realidade da juventude negra de

cultura Hip Hop para diversas es-

Salvador é o aumento de mortes.

Essas histórias mostram que o Rap

colas de bairros periféricos de Sal-

Lucas Kintê pontua a responsabili-

e toda a cultura do Hip Hop não é

vador. “Eu sempre procuro bairros

dade para com a mudança da rea-

somente uma distração e entrete-

que ninguém quer ir. E com esse

lidade que o Rap carrega: “A juven-

nimento na vida das pessoas. São

trabalho com rimas, vejo alunos

tude negra está morrendo demais.

ideias capazes de formar e transfor-

que não rendem nas aulas e de re-

Eu quero cantar vida, não quero

mar vidas e realidades.

pente estão mais participativos”.

cantar morte! E o hip hop traz essa

Akani também pontua a importância não somente das letras, como

14

questão”. Daí a importância das ideias trans-

mais”.


ideaxéqui com larissa fulana de tal CINEASTA COMENTA SOBRE A PRODUÇÃO DO CINEMA NEGRO

15


quem é essa fulana de tal?

principais referências É importante dizer que não so-

O meu nome artístico, Fulana de

mos os primeiros. Nossa cami-

Tal, veio inspirado no autor do

nhada, de cineastas negros, vem

livro “Noites dos Cristais”, uma

de longe. Muitos deram de si para

novela sobre a Revolta dos Ma-

que nós estejamos produzindo ci-

lês, Luis Fulano de Tal.

nema hoje.

Curiosidade é que os escravos

Zózimo Bulbul, cineasta negro

sem donos ou sem referência de

brasileiro que com resto de pelí-

onde vieram recebiam sobreno-

cula de um filme em que ele atua-

mes como Fulanos, Beltranos e

va, fez o seu primeiro filme como

Ciclanos.

diretor, isso na década de 1970.

coletivo tela preta No “Coletivo Tela Preta” eu encontrei parceiros, realizadores e

Ele foi um dos primeiros cineastas negros que trouxe a questão da negritude no cinema. E ainda Waldir Onofre e Antônio Pitanga,

cineastas negros que buscam um

que são referências importantes.

ponto de encontro de discussão,

Todos eles estavam dentro da

linguagem, propostas e dinâmicas

escola do Cinema Novo, que nas-

de trabalho na produção cinema-

ceu num processo de represen-

tográfica.

tação do povo. Mas a pergunta

O trabalho do cinema é bastante

que chega é: o que é representar

hierarquizado: o diretor, o assisten-

o povo?

te do diretor, o assistente do assis-

A partir daí entram vários atores

tente, produção e assim por diante.

negros no cinema. Pois o que

A ideia é repensar essas dinâmicas

existia até então era uma classe

de trabalho. Não que a gente não

média branca que fazia filme. Os

trabalhe dessa forma.

negros eram os personagens, os

O problema não é a hierarquia, é

objetos. E aí chega o choque de

construída estando dentro do processo de construção cinematográfica. Você pode ser professor universitário. Mas você vai ter uma atuação política dentro da universidade. Você pode ser cineasta. Mas você vai ter uma atuação política dentro do cinema. E assim por diante. Você vai enegrecer aquele espaço!

o que é cinema negro, larissa? Não existe unidade estética do cinema negro. Não existe uma única linguagem. O que existe é uma proposta política de desconstrução dos estereótipos dos personagens negros e de ocupar literalmente o por trás das câmeras. Cinema negro é política! É importante que os negros estejam não somente na frente das câmeras atuando. Mas atrás dela também. É fundamental o olhar de quem é negro. O olhar é poder. O roteiro é poder. E empoderamento também é isso.

classe e de raça dentro da produ-

E isso só se consegue em cole-

mais aberto, que coloca o roteiro

ção cinematográfica.

tivo. Sozinho ninguém aguenta.

na mesa. Tentar possibilidades de

É como Zózimo dizia: Só por

propostas de produção coletiva e

dentro a gente consegue propor

preta de fato. Isso é Tela Preta.

e mudar! Eu consegui mudar a

como ela funciona. É um diretor

minha história que estava sendo

16

Num curso de cinema extremamente elitizado. O cinema negro tá aqui pra mostrar fazendo. Do fazer e do propor.


17

o que não queremos de representação Entre as tantas representações es-

veito das situações; a “Empregada

vimento. Ele é. Se você é a mulata

tereotipadas do negro no cinema,

doméstica”, aquela que tá na casa,

gostosa, mostra que você é somen-

cito alguns exemplos: o “Favelado”,

quase não se vê, quase não se ouve,

te isso. Nasceu e é.

é aquele inocente, morre de medo

ou tem um lado materno para com

do Estado, não sabe direito o que

os filhos dos patrões, ou ela é vilã,

tá fazendo ali, é o típico “fudido e

a que fala demais; e ainda tem o

abestalhado”; a “Mulata gostosa”, é

“Marginal”.

a mulher gostosa, mas que é apenas isso; só fica na laje tomando sol, ela é representada somente como objeto desejado; o “Negão gostoso”, aquele homem negro que come geral, que consegue ter um apetite sexual fora do normal, quase animalesco; tem o “Malandro”, geralmente o sambista, esperto, tira pro-

O perigo da representação estereotipada é reforçar o que o social já estabelece. Por exemplo: já se espera aquele comportamento. Um

Em Cidade de Deus, por exemplo,

homem negro é violento. Ele não se

tem uma cena que mostra o per-

tornou ou estava em um momento.

sonagem de Zé Pequeno crescen-

Torna o que pode ser um momento

do com uma arma na mão e dando

em uma coisa única e permanente.

risada. Parece que ele tem prazer

Como ainda se trabalha na questão

em matar, que ele nasceu marginal.

maniqueísta de que ou é bom ou é

Não tem mãe, não tem pai, como se

ruim, o preto sempre se fode, por-

tornou um marginal, nada. O perso-

que se entende que preto é ruim!

nagem não tem nenhum desenvol-

Estereótipos se prestam a isso.

personagem negro, mas humanizado Fazer um cinema negro também

É colocar um personagem comple-

É contar de coisas que só quem

não é que vou colocar um perso-

xo. Conta quem é aquele persona-

vive entende. Narrativas próprias

nagem negro que vai ser somen-

gem. Se ele estuda, trabalha ou

da gente da comunidade negra. A

te um cara sempre bom, perfeito.

quais vontades, desejos, sonhos,

gente é que precisa contar.

Não é isso! Representação huma-

anseios, questões, medos e com-

nizada não é isso.

plexidades. Como um ser humano.

salve aos meus contemporâneos Reverencio, por fim, toda a mi-

na ideia de Glauber Rocha “Uma

essa proposta de provocar. De

nha geração, como Viviane Fer-

câmera na mão e ideia na cabe-

mostrar formas de representa-

reira, Yasmin Thainá, Tamires

ça”. Mas para nós, negros, não

ções e outros olhares. De des-

Santos, Aline Lourena, Renata

basta.

construir construindo... filmes e

Muitas vezes não temos condi-

a nossa história! Essa é a minha

Martins, David Aynan, entre tantos outros.

ções financeiras e nem estrutu-

Tem muitos jovens pegando a

ra. É mais difícil, mas não é im-

câmera e fazendo filme, como

possível. E o cinema negro tem

idéaxéqui!


feminismo de ban QUEM VAI LIMPAR?

rosa show

UM TALENTO QUE NASCEU DAS RUAS

18


anheiro

AR?

19


Rosemeire

quem escreve... quem lê... e quem limpa? Eis o desafio: conversar com al-

próximo. Ela pode até pensar no

“Geralmente sujam os espelhos,

gumas mulheres e cruzar as suas

próximo a ela, mas não no próxi-

que são fáceis de limpar. Agora

opiniões sobre as mensagens de

mo que vai limpar”, afirma.

quando riscam as paredes é bem

empoderamento nas portas de banheiros femininos, públicos e privados, de universidades, casas

A fotógrafa Sandra Travassos encara os escritos como uma forma

complicado pra tirar, é cansativo”, conta.

de mostrar que as mulheres estão

Estudante de psicologia, Thaise

ocupando os espaços e que não

Bagdeve conta que também per-

Da mulher que escreve. Da mu-

estão se calando. Mas quando

cebe de forma positiva os escri-

lher que lê. Da mulher que lim-

questionada sobre quem vai lim-

tos politizados na Faculdade de

pa! Opiniões diferentes. Práticas

par aqueles escritos, ela comen-

São Lázaro da UFBA e confessa

diferentes. O que para umas são

ta: “Eu admito que nunca tinha

nunca ter parado para refletir que

mensagens positivas, para outras,

pensado nisso. Acredito que elas

em sua maioria é uma mulher ne-

pode ser apenas um trabalho a

limpam porque é obrigação delas,

gra que tem que limpar. “Moran-

mais antes de voltar para casa

até porque trabalham com limpe-

do fora do Brasil percebi que, nos

cansada.

za. Eu, no lugar delas, não limpa-

banheiros, sempre eram mulhe-

ria!”. Para ela, as mensagens ser-

res negras que trabalhavam ali e

vem para melhorar a autoestima

eu me perguntava o porquê delas

de todas as mulheres.

estarem naquela condição”.

lha com serviços gerais em uma

Apesar de respeitar a forma de

Com olhares positivos para os es-

casa de show em Salvador. “Elas

pensar de cada pessoa, Domingas

critos feministas de banheiro, a

não pensam na pessoa que limpa.

Santos, também serviços gerais,

advogada Lara perguntaria para

Porque não se preocupa com o

conta o que acha dos escritos.

mulheres que limpam como elas

de shows, entre outros espaços.

“Eu gostaria de perguntar porque elas escrevem isso, questiona Rosimeire Santana, que traba-

20


Aline Lobo

21 se sentem apagando as mensa-

A psicóloga Verena Souto que

A cantora e feminista negra, Ali-

gens. “Como elas se sentem ao ler

está no lugar da mulher que lê as

ne Lobo, vê problemas na práti-

e também apagar frases que po-

mensagens, acho que é mais uma

ca, “São interessante as frases,

deriam ajudar a melhorar o meu

forma de expressão para mulhe-

mas ao mesmo tempo isso re-

dia e a me sentir melhor”, diz Lara.

res que no anonimato

passam

flete um feminismo concentrado

mensagens para que outras se

na porção branca da população.

identifiquem.

A galera quando escreve não faz

A geofísica, Rebeca Thaís, acha interessante até certo ponto, pois depende do espaço e a quem se quer

Quando questionada sobre a pre-

atingir. “Porque nem sempre o seu

ocupação pelas que limpam os es-

recado vai chegar em quem quer que

critos, Verena admite: “Essa é uma

alcance. Às vezes aquela mulher que

questão interessante. Eu penso sem-

vai limpar lida muito mais como um

pre em quem escreve e em quem

trabalho do que como uma frase de

lê, mas em quem limpa nunca parei

fortalecimento”.

para pensar. É uma boa reflexão”

a conexão de que é uma mulher negra que vai limpar aquilo e que talvez nem pense naquilo que tá escrito”, explica.

recado a quem escreve “Vão sujar as suas casas! Porque

“Eu gostaria de perguntar se elas

Se a mensagem de empodera-

ao invés de curtir a festa, dão

fazem isso nas casas delas, nos

mento chega até quem limpa?

mais trabalho pra mim e pra ou-

banheiros. E sobre o que é Femi-

Rosimeire é categórica sobre a

tras também. Para mim, é só uma

nismo, eu nem tenho muito que

prática: “Essas mensagens pra

sujeira que vou ter que limpar, ou

dizer, porque eu nem tenho tem-

mim tanto faz, se lê ou não lê,

tentar limpar”, conta Domingas,

po pra ficar pensando em muita

pra mim não significa nada, e eu

ao perguntar o que ela diria para

coisa, mas respeito a forma de

que vou ter que limpar. Não muda

as mulheres que escrevem.

pensar e agir de todo mundo”,

nada!”.

complementa Domingas.

Domingas


22

Aline Lobo

“A galera quando escreve não faz a conexão de que é uma mulher negra que vai limpar”

Thaise Bagdeve

“Morando fora do Brasil, percebi que eram sempre mulheres negras trabalhando nos banheiros”

Rebeca Thaís

“Às vezes aquela mulher que vai limpar, lida muito mais como um trabalho”

Lara

“Como elas se sentem ao ler e também apagar frases que poderiam ajudar a melhorar o meu dia”

Sandra Travassos

“Acredito que elas limpam porque é obrigação delas. Eu, no lugar delas, não limparia”

Verena Souto

“Eu penso sempre em quem escreve e em quem lê, mas em quem limpa nunca parei para pensar”


guia

RANGO DE RUA

tudo quente

cachorro quente da barra

parque são brás $

beiju do rio vermelho

barra - em frente à perini

rio vermelho - em frente à mc donalds

R$ 7 a R$ 34 $

Funciona de terça a domingo, das

R$ 1

$

2,50 a 7,50

17h30 às 23h30; vende 103 tipos

Vende 1300 unidades por dia

O beijus tem nomes de diversos

de pastel, tem pastel de até 2 quilos.

funciona das 7h às 20h.

bairros da cidade de Salvador.

feijoada da kombi 4 rodas - Amaralina $

R$ 22 a 49

Diariamente, das 20h às 4h. Vende 100 pratos por dia, 25 anos de história.

23


tome baculejo!

O ABSURDO DO “NÃO VAI DAR EM NADA MESMO”

24


25


relatos anônimos

Eu e um coletivo estávamos gra-

Eu e meu primo estávamos voltan-

Estávamos fumando no Passeio

fitando uma parede de uma área

do do carnaval com duas garotas.

Público e os policiais já chega-

nobre da cidade, quando fomos

Quando chegou na porta do prédio,

ram pedindo pra abrir a mochila.

abordados por uma viatura. Fo-

uma delas passou mal e vomitou.

Perguntou o que eu fazia e se eu

mos revistados, fotografados

Fui no condomínio buscar água.

era usuário de maconha, eu dis-

e fomos encaminhados a uma

Nesse momento passou uma via-

se que sim, mas não encontraram

companhia da PM. Lá, outros

tura de caatinga com um policial,

nada comigo. Eu nunca fui agre-

policiais disseram que nosso

que perguntou “De onde você está

dido fisicamente, mas se eu for,

caso era pra ser liberado sem

vindo? O que quer aqui? Veio atrás

jamais vou dar queixa, porque

ocorrência, pois não havia nada.

de mim com tom agressivo. Achei

aquela mesma polícia depois vai

Só que tinha um problema: A

que ele fosse me bater. Daí quando

passar na porta da minha casa e

nossa foto já tinha circulado por

ele viu que estávamos acompanha-

pode fazer algo comigo. Não tem

grupos no Whatsapp e foi parar

dos e que elas eram brancas ele fi-

como dar queixa da polícia por-

em um site de notícia sensacio-

cou mais calmo. Mas mesmo assim

que a gente sabe que não vai dar

nalista. Na notícia alegava que a

ainda ficou gritando e xingando.

em nada. Acho que o baculejo é

ocorrência tinha sido registrada

Dizendo que não éramos pra estar

só mais um mecanismo de coa-

às 19h, muito antes do horário.

ali. Se ele quisesse metia bala na

gir a população negra. Quando a

Nisso fomos encaminhados para

gente e ia ficar por isso mesmo. O

gente sai na rua e se assume en-

a delegacia registrar a ocorrên-

que me deu mais raiva era que o po-

quanto negro, com cabelos dread,

cia de algo que não tínhamos

licial também era negro. Se eu fosse

sabe-se que em alguns espaços o

feito, pois a notícia com aqueles

branco entrando no condomínio,

policial já vai estereotipar como

jovens negros já havia sido fa-

tenho certeza que ele não tomaria

suspeito, propenso a ser um cri-

bricada.

a mesma atitude.

minoso.

(estudante, 22 anos)

26

(estudante, 29 anos e morador de cajazeiras)

(estudante de publicidade, 21 anos)


27

Eu tinha 17 anos. Voltando de um show, numa moto-taxi pra ir

Eu estava junto com amigos num

pra casa. Perto da Feira de São

carro na Pituba, parados esperando

Joaquim, uma blitz. A rua esta-

um outro amigo. Passou um carro

va vazia, domingo à noite. Eles

da PM e pediram que todas as pes-

pararam a moto, já chegando de

soas saíssem do carro. Eu era o úni-

forma truculenta e violenta, co-

co negro do grupo. Eu fui o único a

locando a mão na cara. Pediu pra

ser revistado. Foi uma revista bem

encostar com as mãos pra cima.

agressiva e humilhante. Meteram as

“Tudo o que vocês estiverem no

mãos no meu cabelo, dizendo que

bolso joga no chão”. Eu estava

eu poderia ter escondido drogas no

com uma máquina fotográfica,

cabelo. No que pediram meus do-

que tinha levado pro show. Per-

cumentos, minha CNH provisória

guntou: Essa máquina é sua? Eu

estava vencida e aí disseram que

falei que sim. “Ligue ela aí que

me levariam com carro e eu teria

eu quero ver as fotos”. Perguntei

que pagar R$300, mesmo eles não

pra quê ver as fotos? “Bora logo!

sendo do Dentran. Aí outro policial

Ligue aí que quero ver as fotos!”

falou no meu ouvido se eu tinha

Liguei e mostrei as fotos. Ele fi-

algum dinheiro. Falei “Não tenho,

cou olhando e eu “Óh, aqui sou

me levem então!”. Aí meus amigos

eu, tá vendo?!” Mandou pegar

assustados fizeram uma vaquinha e

minhas coisas do chão e ir em-

deu R$ 60. O policial achou pouco.

bora.” Minha sorte é que tinham

Conseguimos mais R$ 20. Manda-

fotos comigo. Se não, eu era o

ram que eu deixasse o dinheiro no

preto que tinha roubado a má-

banco do carro disfarçadamente e

quina!

então me liberaram. Saíram rindo.

(estudante e produtor cultural, 23 anos)

(pedagogo, 29 anos)

Eu estava no Rio vermelho no ponto de ônibus, fui abordado por um policial com dois tapas nas costas e perguntou onde estava a droga. Eu falei pra me revistar, pois eu não tinha droga nenhuma. Ele falou que não era criança, que não era menino, que queria saber onde estava a droga. Isso durou cerca de 40min. E nesse tempo todo, falando diversas coisas de como iria pisar na minha cabeça falando. “Já era sua vida negão! Negão você tá fudido!” Perguntou “Você sabe onde é a Estrada do Cia? Eu disse, sei. “É lá que vou deixar o seu corpo. Aí eu falei que era funcionário da prefeitura, consegui ligar para o sub-secretário e eles conversaram. Depois de me liberar, ele disse que não podia me pedir desculpa pois estava fazendo apenas o trabalho dele, mas que era pr’eu tomar cuidado andando na rua. (estudante de publicidade, 21 anos)


tomar baculejo não é legal! Ser apalpado por um policial

drado num determinado perfil

lêmica e desentendimento por

fardado, de pernas abertas, com

é visto como o criminoso nato,

parte dos abordados e ações”,

mãos na cabeça, sob a mira de

é o jovem negro. Ideias que fo-

explica. E sobre a questão racial

arma de fogo e aos olhos de to-

ram disseminadas por teóricos

e a suspeita, o policial comenta:

dos não é algo agradável. Não é

como Cesare Lombroso e Nina

“A desigualdade social é um fator

nada legal.

Rodrigues”, conta.

para a criminalidade, e acaba ge-

Lidos os relatos dos 9 jovens que

De acordo com o advogado, pro-

passaram por uma revista poli-

fessor de direito e mestrando do

cial é possível perceber o quanto

PPGD UFBA, Geraldo Cunha,

O quando ao procedimento pa-

subjetiva é a prática e o quan-

a revista policial é legal desde

drão do que procurar durante o

to pode variar de situação. Mas

que fundada em suspeita fun-

baculejo, ele diz: “Procurar ar-

uma coisa foi comum entre as

dada, em conformidade com o

mas, brancas ou não, ou qual-

histórias: todos eram negros.

art. 240, §2*, do Código Penal.

quer objeto de crime, de maneira

Quando questionado se há prá-

firme, mas proporcional à situa-

ticas racistas nas abordagens,

ção; sem que haja desrespeito”.

Para o pedagogo, Gabriel (sobrenome oculto), a prática da revista policial é estrutural e histórica, desde o período escravista.

Cunha diz: “Há casos que sim, há casos que não”.

rando um perfil, por vezes cruel, de suspeitos”.

Apesar de ser judicialmente legal perante o Código Penal, não há

Para ele, o baculejo só legitima

Para o Policial Militar entrevis-

dúvidas de que passar por uma

toda uma estrutura racista. “A

tado, cujo nome optou por não

revista policial é uma situação

prática é seletiva, em pessoas

revelar, a questão da suspeita

constrangedora. E diante dos re-

brancas em bairros nobres ela

fundada é complicada: “Por ser

latos, nota-se que muitas abor-

não acontece. Sujeito enqua-

algo muito subjetivo, gera po-

dagens são racistas e abusivas.

28


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beleza negra AFINAL, O QUE É EMPODERAMENTO NEGRO?

Autoconhecimento. Autoafirma-

empoderamento negro que tem

mento através da aparência. Ca-

ção. Amor próprio. Liberdade.

feito homens e mulheres negras

racterísticas que, por conta do

Felicidade. Muitas são as recei-

exibirem orgulhosos a estética

racismo secular, muitas pessoas

tas para alcançar essas precio-

afro. Cabelo. Brincos. Batom.

se viram na condição de negar

sidades nos dias de hoje. E é o

Roupas estilosas. É o empodera-

esses traços da ancestralidade.


Mas então, o empoderamento

amarrar um turbante. Faz parte de

nasce de fora pra dentro ou de

um processo muito maior. Quando

dentro pra fora? Perguntamos a

eu me sinto fraca, feia, incapaz, eu

antropóloga Naira Gomes, uma

me alimento do estarmos juntas.

das idealizadoras da Marcha do

Por isso acolhermos uns aos outros

Empoderamento Crespo em Sal-

é tão importante.”

vador. “É um pouco de tudo. É de dentro pra fora e de fora pra dentro. Mas é importante saber que é mais dentro que fora”, responde.

Naira revela que a sua experiência acadêmica lhe mostrou: “Entre as mulheres que usavam químicas e que voltaram ao cabelo natural,

Para a antropóloga, o empode-

o que mais mudou nelas foram as

ramento não é individual. É troca.

ideias. Os cabelos serviram para

Troca é coletiva, como explica: “É

mostrar quem elas eram e o que é

inspirar uma companheira a usar

ser mulher negra.”

uma flor no cabelo. É ensinar a

Naira Gomes

o poder da beleza negra Tamires Paixão

Com aparência cheia de referên-

sim e que se ele quisesse conti-

cias da cultura negra, a jovem de

nuar comigo seria daquela forma,

27 anos, Tamires Paixão, conta

caso contrário ele partisse a mil; e

como era antes do processo de

ele partiu”, lembra a jovem.

empoderamento pela aparência. “Quando criança e adolescente eu sofri muito com apelidos. Não gostava dos meus lábios grossos, do meu nariz e morria de vergonha de usar batom”.

Tamires infeliz, só serviu para ela se fortalecer e enxergar mais beleza em si mesma, como conta: “Comecei a ver beleza não só no cabelo, mas nos meus traços, nos

Tamires revela que o preconcei-

meus lábios e meu nariz. São ca-

to vem também de pessoas pró-

racterísticas da minha etnia, são

ximas, a exemplo de um namo-

heranças dos meus ancestrais. É

rado que teve. “Ele não gostava

a minha história.”

do meu cabelo natural nem de tranças. Só me aceitava com ele alisado. Mas aí resolvi começar a usar o cabelo natural e um dia ele perguntou: ‘Você só vai ficar

30

Mas o que poderia ter deixado

assim agora é?’ e eu respondi que

Tamires é mais um entre tantos casos em que aceitar a aparência com traços negroides foi extremamente importante para a descoberta do amor próprio, da autoaceitação enquanto indivíduo


31 negro. Esse é o processo de em-

lheres que elas não devem desis-

poderamento através da estética.

Verônica Bonfim

tir. Nós, mulheres negras somos lindas. E temos que ter orgulho

Apesar de pesquisadora do as-

das nossas raízes”.

sunto, a antropóloga Naira, que também esbanja seu cabelo crespo, fala sobre o longo e doloroso processo de transição que pas-

“respeitem meus cabelos, brancos”

sou: “Eu chorei muito. Cortei meu cabelo perto do Natal, em pleno verão. Todo mundo na praia com os cabelos grandes soltos e eu

Mais que um simples monte de

com o meu pequenininho. Foi a

pelos sobre nossa cabeça, o ca-

descoberta da minha força. Mas

belo é um importante símbolo

depois você encontra um outro

social. É como nos apresentamos.

mundo que lhe aceita, que troca

Uma das formas que dizemos

com você, que lhe fortalece. É um

quem somos.

processo que dói pra caramba, mas lhe transforma em uma pes-

E quando se trata do cabelo cres-

soa muito mais forte”.

po, a responsabilidade dessa afir-

Outra mulher que teve a sua vida transformada por conta do processo de mudança da aparência e empoderamento através do cabelo foi a professora Verônica Bonfim. Ela não passou por uma transição capilar

natural, mas

também não foi fácil. Após descobrir um câncer de mama, Verônica sofreu com a queda dos cabelos por conta do tratamento de quimioterapia e no mesmo período o seu marido a abandonou por conta da doença. “Depois que meus cabelos caíram, assumi a minha careca. E ver meus cabelos naturais crescendo novamente e estando curada do câncer foi uma gran-

de vitória pra mim e passei a me amar muito mais”.

mação de identidade é mais forte. Não à toa que o movimento negro brasileiro toma o cabelo natu-

Apesar do abandono do marido

ral como símbolo de afirmação da

no momento em que mais preci-

identidade.

sava, Verônica conta que encontrou forças pra continuar, principalmente através da memória do seu pai. “Meu pai me dizia ‘Eu gosto quando você usa batom e o seu cabelo assusta as pessoas”. Você é linda, você é forte’”, lembra a professora das palavras do pai já falecido. Com uma história de vida vitoriosa, Verônica faz questão de fortalecer outras mulheres não somente no trabalho, mas onde ela passa. “Hoje eu assumo os meus cabelos e me sinto forte e livre. E digo sempre para as mu-

O processo de deixar o cabelo natural crescer ultrapassa a questão da aparência. Nasce com ele o autoconhecimento e a identidade racial, tanto de homens como mulheres. A partir daí este cabelo passa a ser um símbolo social de afirmação da identidade negra. A antropóloga Naira Gomes conta o que nasce junto com o cabelo crespo: “Quando o cabelo natural cresce, cresce um corpo que estava silenciado. Vem com ele o batom, brincos, a roupa colorida,


vem um turbante, vem tudo

quando não se tem ainda a força

Esse longo processo percorrido

aquilo que foi conquistado ao

do empoderamento, o cabelo é o

por tantas mulheres e homens

longo do processo. Cada fio

que primeiro sofre a intervenção.

negros é de grande importância

de cabelo crespo colocado pra cima é uma conquista de toda uma imposição. Não é só o cabelo, é todo o corpo.”

O alisamento é o que aparece primeiro, como explica Naira: “O cabelo é o mais fácil silenciar. Mas, por outro lado, ele é o que fala

para a história e para o combate ao racismo, como explica Naira Gomes: “É uma representação de tudo que nos foi negado.

Historicamente o racismo vem

mais rápido também. Esse cabe-

O sorrir para outra mulher negra é

atrelado a diversas práticas de

lo natural é só uma parte de um

revolucionário. É a compreensão

opressão. Entre elas, o julgamen-

todo. Ele representa nossa histó-

de que estamos juntas. A dor dela

to negativo do cabelo é algo bas-

ria, nossa dor, autoestima, afeti-

é a minha dor também. É um exer-

tante presente. Aquele cabelo

vidade, tudo que está por trás de

cício diário do acolhermos umas

que é feio, duro e ruim. E como

ser negro ou negra.”

às outras. E isso é revolução!”.

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grafite

pixação


fotos: divulgação

dicas culturais

Amigos da Madragoa - Apresentação de chorinho com convidados onde: Largo da Madragoa – Ribeira, 12h às 16h. Todo domingo, gratuito mais informações: www.facebook.com/Grupo-musical-Amigos-da-Madragoa

Jam no MAM - Apresentação de artistas diversos tocando jazz, aos sábados

Sarau da Onça - Recital de poesia e apresentações artísticas

onde: Museu de Arte Moderna – Av. Contorno, Comércio, 18h30. R$ 7 e R4 3,50

onde: Rua Albino Fernandes 59, - Sussuarana, 18h Gratuito

mais informações: www.jamnomam.com.br

mais informações: www.facebook.com/sarau. da.onca

Gerônimo - Show com seus grandes sucessos e convidados surpresa onde: Largo Pedro Archanjo Pelourinho, 20h. R$ 20 e R$ 10 mais informações: www.facebook.com/Geronimosantanaoficial

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tuĂ­ris azevedo

charge

35


Rosimeire Santana serviรงos gerais


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