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Revista

d3 Edição 00 Ano 1. Maio 2009 R$ 10.90

Em Primeiro Plano Documentário revela a trajetória de Annie Leibovitz, uma das maiores fotógrafas de todos os tempos


Editorial Expediente

d3

é uma revista feita para um publico interessado em design, atualidades, fotografia e tecnologia. Trabalhamos com a ideia de uma revista não muito rebuscada, e com conteudos atuais e do agrado geral. É com grande satisfação que apresentamos a revista d3, que mesmo por ser uma produção acadêmica, nos possibilitou entrar no universo da constução de páginas editoriais de uma revista. Um aprendizado constante a cada página diagramada, a cada orientação recebida, o que tornou mais instigante a busca pela melhor construção, para que o leitor compartilhe conosco as reportagens nela apresentadas. Foi um enorme trabalho dar conta de um revista , mas o prazer ter ter conseguido realizar esse trabalho é enorme e muito satisfatório. Demos uma pincelada por tudo que achamos contemporãneo e clássico e chegamos a ideia da d3, que por sua vez o nome foi escolhido por fazer parte da sua composição 3 designers.

Rebeca Cavalcanti Catarina Monteiro


Sum谩rio

01. O Artista que ajudou a eleger Obama

02. Eles criaram a vida Moderna

03. A cara do FUTURO

04. Em primeiro Plano

05. Mem贸rias da Revista Senhor


O Artista que ajudou a eleger Obama

Ele já chegou a ser detido algumas vezes por ações ilegais de grafite. Hoje, Shepard Fairey é o autor do retrato mais divulgado ao longo da campanha do próximo presidente dos Estados Unidos e, aos poucos, sai das ruas e entra nas galerias e nos museus FERNANDO EICHENBERG


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m seu embate para chegar à Casa Branca, antes de ser consagrado pelo voto como o próximo presidente dos Estados Unidos, o candidato democrata Barack Obama recebeu um inesperado reforço de marketing eleitoral. Um pôster com o seu retrato traçado nas cores vermelha, azul e branca (as mesmas da bandeira americana), o semblante firme e sereno com o olhar levemente lançado acima do horizonte — comparado por alguns à célebre mirada de Che Guevara imortalizada pelo fotógrafo Alberto Korda —, tornou-se imagem onipresente de sua campanha, a mais divulgada no país e utilizada até mesmo no exterior. A peça de propaganda não foi produzida por uma grande agência de publicidade nem encomendada pelos marqueteiros oficiais de Obama, mas uma criação espontânea do artista gráfico Shepard Fairey, que viu sua popularidade — e seu valor artístico — crescer com a de seu candidato. Lançados em apenas 350 cópias, os cartazes se esgotaram em minutos e proliferaram ad infinitum pela internet. O sucesso levou a campanha oficial a abraçar a iniciativa do cabo eleitoral grafiteiro e a endossar sua obra, sem resistir a dar seus palpites. A pedido dos conselheiros de Obama, a palavra “Progress”, legenda do pôster original, foi substituída por “Hope” e “Change”, leitmotiv do discurso do candidato democrata. Etiqueta e estratégia política obligent. Fairey foi brindado com uma correspondência assinada pelo próprio Barack Obama: “As mensagens

políticas implicadas no seu trabalho têm encorajado os americanos a acreditar que podem contribuir para mudar o status quo. As suas imagens têm um profundo efeito sobre as pessoas, sejam vistas numa galeria ou num semáforo. Tenho o privilégio de fazer parte do seu trabalho artístico e estou orgulhoso de ter o seu apoio”. Nascido em 1970, em Charleston, na Carolina do Sul, Frank Shepard Fairey se quer um representante da street art, um artista urbano que já foi detido uma quinzena de vezes pela polícia por ações ilegais de grafite, o chamado bombing, em muros de cidades americanas (em uma das vezes, foi preso no Japão). “Quando fiz 14 anos, em 14 de fevereiro de 1984, ganhei um skate. Meus pais achavam que skates eram para os brigões, e acho que tinham razão”, contou certa vez. O skate e o punk-rock de The Clash, Sex Pistols e The Dead Kennedys forjaram, na sua adolescência, os contornos de sua cultura de street art. Seu anonimato foi definitivamente perdido por acaso. Em 1989, trabalhava em uma loja de


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A pedido dos conselheiros de Obama, a palavra “Progress”, legenda do pôster original, foi substituída por “Hope” e “Change”, leitmotiv do discurso do candidato democrata

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skates em Providence para poder pagar os estudos na reputada Rhode Island School of Design, que acolheu alunos como David Byrne e Gus Van Sant. Como ele próprio confessa, pirateava tudo o que podia, fabricava t-shirts de grupos de rock e adesivos em série. Numa noite, ao folhear uma revista à procura de uma imagem para ensinar a um amigo como fazer um modelo, se deparou com o retrato de André The Giant (1946-1993), francês lutador profissional de vale-tudo nos Estados Unidos. Na hora, fez uma adesivo com o rosto do personagem acrescido da frase “André has a posse” (André tem uma gangue). Em pouco tempo, sua brincadeira estava espalhada e copiada por todo o lado, repercutindo em conversas de rua e mesmo em artigos na imprensa. ROBIN HOOD DA ARTE

Os adesivos viraram cartazes, impressos com a palavra “Obey” (obedeça), que se tornou sua marca registrada, literalmente: Obey Giant Art Inc. Sua guerrilha artística nas ruas não trazia nenhuma mensagem objetiva, o que atraiu a curiosidade, mas também gerou irritação nos passantes. Em um manifesto de 1990, definiu suas campanhas como uma “experiência de fenomenologia”, inspirada nas pensatas do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976). “A fenomenologia visa antes de tudo a despertar o sentido do questionamento sobre o que nos rodeia. Os pôsteres Obey tentam estimular a curiosidade e levar as pessoas a questionar ao mesmo tempo o cartaz e a relação que tem com o seu entorno”, escreveu. Sua iconografia é assumidamente influenciada pelo construtivismo russo de Alexander Rodchenko e dos irmãos Stenberg, pela arte revolucionária chinesa, pela propaganda política totalitária em geral, pela pop art de Andy Warhol, pelos trabalhos de Barbara Kruger, Twist, Bansky, Robbie Conal ou John Van Hamersveld. Críticos o acusam de plágio por usar imagens de outros artistas sem citar a origem. Fairey diz se apropriar de “referências” e arroga como estraté-


gia e humor artísticos o “roubo” de logotipos e o “sequestro” de ícones populares. Casado e pai de duas filhas, residente em Los Angeles, Fairey se faz cada vez mais raro nas ruas e mais presente nas galerias. Em recentes exposições em São Francisco e Londres, criações originais suas, das menores às maiores, foram vendidas entre US$ 80 e US$ 85 mil. Suas obras hoje integram o catálogo de prestigiadas coleções como as do New Museum of Design, de Nova York, San Diego Museum of Contemporary Art, Museum of Modern Art, de San Diego, ou Victoria & Albert Museum, de Londres. O skatista-punk agora é um artista-empresário de sucesso. Fundou a agência de design Studio Number One, criou a grife de roupas Obey, a revista de cultura pop Swindle e a galeria de arte Subliminal Projects. Seus traços são requisitados para capas de CDs de grupos como Led Zeppelin e Smashing Pumpkins, de livros de George Orwell das edições Penguin, para o cartaz do filme Walk the Line (sobre a vida de Johnny Cash) e para publicidades de Wal-Mart, Seven Up ou Volkswagen. Em resposta às frequentes acusações de ter renegado suas origens e se vendido à lógica capitalista, diz ser um Robin Hood da

arte, que usa o mercado para continuar divulgando suas mensagens subversivas: “Fazer parte do mundo da arte comercial e compreendê-la é, de certa maneira, como uma infiltração. Porque sempre senti que grande parte do meu trabalho era uma reação à propaganda e uma forma de compreender como a propaganda funciona. Arte e comércio necessitam um do outro. As pessoas falam dessas coisas de um modo preto no branco”. Mas uma coisa não se pode negar: a street art é reconhecida por contestar, não apoiar o poder. Para pesquisadores americanos, artistas de rua aceitam a propalada vinculação de Obama com a comunidade em parte porque também atribuem ao seu próprio movimento raízes populares: o presidente eleito é visto como alguém que partilha seu ethos. “Não é legal entre os artistas de rua punk, rebeldes, apoiar algo que é tido como parte do establishment”, disse o próprio Fairey. Ou seja, se, à primeira vista, seu cartaz com o rosto do novo presidente dos Estados Unidos contradiz a cartilha da street art, depois de um olhar mais cuidadoso, se percebe que se trata de mais um legítimo efeito provocado pela arrasadora maré Obama.


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Eles criaram a vida moderna Cadeiras, poltronas, móveis de escritório. Muitos dos objetos que nos cercam são inspirados no estilo dos designers americanos Charles e Ray Eames. Seus fi lmes sobre casas, trens, brinquedos e galáxias distantes são exibidos no Brasil Gisele Kato

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lhe em volta. Sabe aquela cadeira de plástico tão comum quanto confortável? Ou aquela mesa de escritório com as gavetas adaptadas à parte inferior de um dos lados? E a famosa poltrona de couro macio, instalada na frente da TV? As peças têm algo em comum: a influência da dupla de designers norteamericanos Charles e Ray Eames. A herança do casal está presente na maioria dos itens de mobiliário que nos cercam, dos assentos nos aeroportos e rodoviárias às mesas e cadeiras usadas em casa e no trabalho. Se escolhermos imagens para retratar o século 20, certamente muitas viriam com uma invenção dos Eames. Agora repare na foto que ilustra a abertura desta reportagem, com o casal sobre uma moto Triumph. Feita para compor um cartão de Natal

enviado aos amigos, ela revela a percepção, inédita, que Charles e Ray tiveram de que a própria imagem era tão importante quanto os objetos que desenhavam. Em outras fotos, posaram sentados em suas cadeiras ou, ainda, apenas com as estruturas delas. Para Charles e Ray, o design não excluía o estilo de vida um estilo americano que, surgido após o fi m da Segunda Guerra, seria exportado para o resto do Ocidente. Nesse novo mundo, de matérias-primas mais baratas, o design deveria melhorar a vida das pessoas, com praticidade aliada a beleza. Foi com essa concepção que o casal produziu, ao longo de 45 anos de trabalho, móveis, vitrines, brinquedos e até filmes parte deles em exibição no Brasil a partir deste mês. O local de trabalho de Charles e Ray, hoje desativa-


blusa limpa no armário. Ray interpretava o pedido por traje black-tie ao pé da letra e enrolava uma gravata preta no pescoço. Charles e Ray se conheceram em 1940, na Cranbrook Academy of Art, de Chicago. Nascida em 1912, Ray Kaiser, uma artista plástica conhecida, estudava tecelagem na instituição; já Charles, cinco anos mais velho, era professor do departamento de design industrial. Ali conheceram outro designer de móveis famoso, o italiano Harry Bertoia. Interessado em metais, o italiano trabalhou com joalheria e foi ele quem desenhou as alianças de Charles e Ray, que se casaram em 1941. Nessa época, Charles já havia desenvolvido seu primeiro grande sucesso, a Organic Chair, cadeira feita de folhas curvas de madeira compensada. A criação, assinada em parceria com o arquiteto finlandês Eero Saarinen, ganhou um prêmio do Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York. A segunda grande peça de Charles, a Lounge Chair, já foi criada em parceria com Ray, em 1956. Em uma combinação de couro e madei-

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do, refletia muito desse imenso legado. O ateliê localizado em Los Angeles possuía corredores com paredes de madeira articulada que podiam ser arranjadas de acordo com o número de ambientes desejados, estantes gigantes abarrotadas de livros, maquetes, gavetas com papéis de diferentes texturas, cadeiras enfileiradas, ferramentas, protótipos, pôsteres e fotos acumulados em quatro décadas. Charles e Ray Eames passavam os dias numa espécie de castelo do Professor Pardal, cercados de objetos tão incríveis quanto improváveis, suas fontes de inspiração e dedicação. Do lado de fora do prédio, ficava um lindo jardim, o lugar preferido para almoços ao ar livre. E o resto tinha pouca importância. Amigo deles, o diretor de cinema Billy Wilder contava que os dois nunca se preocuparam com moda ou roupa. Sua imagem de Charles era sempre com uma calça larga e uma camisa aberta até o peito, enquanto Ray adotou como uniforme as camisetas de mangas curtas e as saias rodadas. Vestir-se formalmente, para ela, implicava pegar uma

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, ra, mais luxuosa, virou símbolo dos negócios bem-sucedidos nos anos 60 e 70: nenhum executivo era realmente respeitado se não tivesse um modelo no escritório. Outro grande trabalho em dupla foi a própria casa do casal, em Pacific Palisades, na Califórnia, planejada em 1949 como parte de um programa promovido pela revista americana Arts & Architecture. Pré-fabricada e de baixo custo, com uma estrutura de aço e paredes e janelas que deslizam, a construção, espaçosa, iluminada e versátil, é adorada até hoje por arquitetos e designers do mundo todo. Charles e Ray também fizeram filmes, que revelam seus pontos de vista, processos criativos e intimidade. Foi mais de uma centena de curtas-metragens lançados entre 1950 e 1982. Na seleção que chega ao Brasil, serão 26 curtas, com duração entre 1 e 30 minutos, divididos em cinco núcleos, que separam temas científicos de históricos e experimentais. Entre os títulos escolhidos pelas curadoras e também cineastas Silvia Hayashi e Laura Faerman, estão obras-primas como Powers of Ten, que versa sobre o tamanho

Para Charles e Ray, o design não excluía o estilo de vida um estilo americano que, surgido após o fim da Segunda Guerra, seria exportado para o resto do Ocidente.

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das coisas no universo, e 901: After 45 Years of Working, um documentário produzido pelo neto de Charles, Eames Demetrius, sobre o lendário escritório de Los Angeles. “Sou encantada por esses curtas que selecionamos para a mostra. Neles, vemos claramente a faceta de investigação do mundo nutrida pelo casal. Eles usaram uma linguagem nada pretensiosa, tinham o desejo de fazer filmes educativos. Seu legado vai além das cadeiras que, invariavelmente, pensamos ao citar a dupla”, diz a curadora Silvia Hayashi. A sinergia que os unia deixou uma marca profunda na trajetória do design moderno agregando confronto e simplicidade à sofisticação. Por trás de suas idéias, esteve sempre um desejo forte de tornar o mundo um lugar melhor. O que a princípio pode soar ingênuo ganha outro sentido diante da produção dos Eames. Se hoje se fala tanto na era do design na grande indústria, talvez seja importante entender que essa história começa em 1941, quando Charles e Ray trocaram alianças.


A Cara do

FUTURO Uma exposição em São Paulo resume as idéias de Karim Rashid, o maior designer da atualidade Por Gisele Kato

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credite: muitas das formas do século 21 sairão do computador de Karim Rashid. Nascido no Egito, criado no Canadá e atualmente radicado em Nova York, ele lidera o seleto grupo de designers que definem hoje a cara do mundo pós-moderno. Suas parcerias com grifes como a japonesa Kenzo, a italiana Alessi e a brasileira Melissa resultam em mais de 2.500 produtos no mercado. Ao sucesso comercial soma-se a presença em 14 dos principais museus do planeta, incluindo o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, e o Die Neue Sammlung, de Munique. São deste último as 60 peças, entre móveis, objetos e embalagens, exibidas a partir do dia 23 no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Com curadoria do alemão Albrecht Bangert, a mostra funciona como panorama de um legado múltiplo e fundamental para se chegar bem perto do espírito dos nossos tempos. Aproximar-se de Rashid é conhecer um homem que, aos 47 anos, faz do avião o seu escritório de trabalho e, em permanente trânsito, cultiva noções de tempo e espaço muito


particulares. Para o designer, já não há fronteiras entre o universo real e o virtual. “Sua obra não é feita para a eternidade, é pensada para o agora”, diz Bangert. O próprio artista não se intimida ao bancar o desprezo à nostalgia e às coisas antigas. Obcecado por tecnologia, ele só veste roupas de microfibras, geralmente brancas, porque considera o tecido que melhor se conecta com o futuro. Autoconfiante, ele diz, sem falsa modéstia: “Eu quero mudar o mundo”. E o mundo ideal, para Rashid, é cor-de-rosa, tanto que o tom está presente em várias de suas criações. A energia e a artificialidade da cor encantam o designer.


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PRIMEIRO PLANO

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Documentário revela a trajetória de Annie Leibovitz, uma das maiores fotógrafas de todos os tempos

O documentário “Annie Leibovitz - Life through a lens’’ revela muitas faces da mais famosa fotógrafa de rock e uma das maiores de todos os tempos. Muito reservada, ela se revelou inteira para as câmeras da irmã, Barbara, diretora desse documentário filmado para a TV pública americana, no ano passado, e exibido em janeiro deste ano, nesta terça e na quartafeira, no Festival do Rio. Ela fez seu nome nos anos 70 como fotógrafa e editora de fotografia do jornal (depois revista) “Rolling Stone’’, mas incursionou pelo mundo das celebridades e da moda através das revistas “Vanity Fair” e “Vogue”, além da política, incluindo imagens marcantes da guerra na Bósnia, onde esteve instigada por sua mentora, a escritora Susan Sontag (1933 - 2004), definida no filme como a outra metade dela por ser uma mulher de palavras, enquanto Annie é uma mulher de imagens. Tudo está fartamente documentado nos 90 minutos do filme, que passam num instante para quem se interessa pelo mundo dos anos 60 para cá. Filha de militar, família grande, Annie passou anos indo de um lado para o outro por conta das


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transferências do pai. As andanças eram sempre registradas em fotografias. Daí o interesse que acabou se tornando profissão. Um tanto ou quanto desinformado, o pai deixou que ela fosse morar em San Francisco com uma amiga, achando que seria seguro. O movimento hippie nascia na cidade, o lugar menos adequado para conceitos conservadores dele, mas uma época maravilhosa para Annie começar a registrar freneticamente tudo à sua volta. O fundador da “Rolling Stone”, Jan Wenner, conta como a contratou quando o jornal acabara de nascer, em San Francisco, como porta-voz da contracultura. Ele fala de como Annie começou a se firmar lá dentro com imagens marcantes para

o crescimento da empresa que, em 1978, mudouse para a chique Quinta Avenida, em Nova Iorque, em busca de um lugar no mainstream. Annie fez dupla muito tempo com o desvairado escritor Hunter Thompson, que ela nunca viu careta, e também usou drogas: “ A cocaína fazia a gente pensar que estava pensando”, diz ela, numa frase genial para definir esta substância emburrecedora da mente humana. Este mergulho foi incentivado pelos Rolling Stones, que a contrataram para cobrir a turnê de 1975, o auge do período drogado da banda. Keith Richards ironiza que apostou num rápido colapso dela em meio à loucura stoniana, mas Annie segurou a onda. Jagger conta no filme ter se amarrado na capacidade dela de capturar movimentos da banda no palco. Annie diz que sua filosofia de trabalho era de que só se pode capturar de verdade a essência de quem se fotografa se você se tornar parte dele. E é isso que Jagger ressalta, ao mencionar a capacidade dela de se tornar parte da turma, a ponto de ninguém se importar com o clicar constante da sua máquina. Arnold Schwarzenegger faz eco a Jagger. Ele a conheceu em 1975 quando ainda era estrela apenas do mundo fisiculturista e conta da capacidade de Annie de se tornar “um dos rapazes” e deixar todo mundo à vontade diante de suas câmeras. O documentário tem muitos depoimentos mais, entre eles de Mikhail Baryshnikov, da candidata presidencial americana Hillary Clinton, da editora de Vogue Anna Wintour, da atriz Demi Moore, fotografada grávida e nua para a ‘’Vogue’’ e muitos outros. A diva punk Patti Smith conta que não se reconheceu na foto escolhida por Annie para a capa de ‘’Rolling Stone’’, mas anos depois percebeu que se tornara aquela pessoa. Yoko Ono revela que ela e John se impressionaram com Annie desde a primeira sessão de fotos em 1971, quando ela ainda era pouco conhecida,


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" A cocaína fazia a gente pensar que estava pensando", diz ela, numa frase genial para definir esta substância emburrecedora da mente humana.

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porque não parecia interessada em Lennon como celebridade. “Ela estava mais interessada em nossa essência,” conta ela. As fotos foram para a reveladora entrevista em que John disse que o sonho acabou. A última sessão foi algumas horas antes de John ser assassinado, quando ele topou posar nu, abraçado a Yoko inteiramente vestida. Annie foi feliz num momento trágico: a foto capturou a alma do casal.


Memórias da revista

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s e nh or

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e vez em quando, um sujeito formado em jornalismo aparece e vira para mim e diz: “Eu me lembro daquele artigo que você escreveu sobre o Spinoza na revista Senhor.” Faço um sorriso modesto, encaro as sandálias dele, penso que mundo estranho este em que as pessoas se formam em jornalismo. O sujeito prossegue: “Que revista hem!” Eu vou mais longe: “Ainda vou processar a Chauí por uso indevido”. Na verdade nunca escrevi uma única linha sobre Spinoza. Na verdade, tenho a maior dificuldade de me lembrar da revista Senhor. Não guardei nenhuma. Lembro pouquíssimo dela. O que eu me lembro mesmo é que foi meio frustrante e gostoso. Mas isso, como tudo mais, é opinião pessoal. Eu me lembro é do pessoal. Da redação. Restaurantes. A revista Senhor foi assim: Em janeiro de 1959 eu tinha 23 para 24 anos, era chefe de redação da Norton Publicidade, ganhava 30 contos por mês. Fui checar na carteirinha de trabalho. Tá lá. A revista Senhor não assinou a carteira. É dado. Recapitulando: era chefe de redação, 9 às 5, mais dois frilas excelentes, duas agências. Master e Abaeté, que menores, não tinham condição de pagar um redator tempo integral. Então, na hora do almoço,


Mas a revista? Como era a revista? Era na

Travessa do Ouvidor, 22, um andarzão na sede da Editora Delta, empresários responsáveis por enciclopédias como a Larousse além de coleções, feito Nobel, Freud, esses caras. Eu me lembro dos dois irmãos Waissman, Sérgio e Simão. Simpáticos e finos. Possivelmente queriam o prestígio de uma publicação intelectual. Ou então pegar mulher. Não sei. Verdade é que chamaram o Nahum Sirotsky para fazer, ser

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ou depois do trabalho eu passava lá pegava os dados, fazia o texto das campanhas e faturava 15 milhas em cada uma. Lembro-me da campanha de lançamento de cigarros da Lopes Sá, para a Master. E dos livros da Civilização Brasileira, do querido Ênio Silveira, na Abaeté, onde o diretor de arte, frila também, era o Eugênio Hirsch, simpaticíssimo e que também fazia umas capas péssimas para a Civilização. Mas, enfim, o que eu queria dizer era o seguinte, 60 contos por mês era uma nota. Pra dar uma idéia: dava para comprar um carro novo por mês. Nada mau. Eu gastava tudo em disco importado e mulheres locais. Dinheiro bem empregado. Só que aos 23 anos todo mundo é idiota. Principalmente eu. Como eu tinha assinatura de revista americana e já lera uma porção de pocket books entrei numa crise existencial. Ou de identidade. Por aí. Foi quando o Paulo Francis, que já era meu amigo desde 1953, me perguntou se eu não queria ser redator de uma revista, tal de Senhor, uma mistura assim de Esquire, New Yorker e Playboy. Quanto pagam? Mal. Na minha cabeça, eram 17 milhas. Ridículo, perto do sessentão. Mas topei, já que era uma besta. Com cara íntegra (vocês não têm idéia do que é minha cara íntegra...) demiti-me da publicidade, a alma gargalhando e berrando, “Free at last, thank God All Mighty, free at last!”. Comecei, se não me engano, em março. Preenchendo a vaga deixada pelo redator anterior, Adirson de Barros, demitido depois de um ou dois números apenas, possivelmente por já ser informante do SNI antes mesmo da criação desse simpático órgão informativo. No número de maio eu já estava lá. Isso porque em abril morrera Billie Holiday e, antes, eu já escrevera matéria sobre a pobre da moça. Senhor foi pras bancas com “A Hora e a Vez de Billie Holiday”. Não era de todo uma josta. Tratava a cantora como já morta, previa como seria uma enganosa cinebiografia, com Dorothy Dandridge, Belafonte, coisa e tal. Não peguei fama de pé-frio.

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editor-chefe da revista, e o Nahum que sabe das coisas, fez. Chamando o Francis para editor e o Carlos Scliar para direção de arte, assistido pelo esplêndido Glauco Rodrigues. Luís Lobo ficou com serviços, Jaguar com cartuns. Numa salona, trabalhava o Ivo Barroso para a enciclopédia, mas que traduziu muita coisa boa para a revista. Todas as capas, todas as ilustrações do Scliar eram de primeiríssima qualidade. Os serviços do Luiz Lobo eram ótimos principalmente porque na hora do almoço o que fizemos de pesquisa


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Eu gastava tudo em disco importado e mulheres locais. Dinheiro bem empregado. Só que aos 23 anos todo mundo é idiota. Principalmente eu.

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para dica de restaurante não estava no gibi, saía na Senhor. Me lembro de um restaurante em particular, na travessa dos Barbeiros, o Escondidinho. Nunca comi tão bem em minha vida. O ponto alto da revista, para este criado que vos fala, era o almoço. Oba! Epa! A casa Heim, Dirty Dick’s, o árabe da Senhor dos Passos, um porrilhão deles. O fotógrafo era o Chinês, o Armando Rosário. Formidável o Chinês. Posei muito para ele, para a revista, essa parte de serviços. Ilustrando uma matéria do Marcito Moreira Alves intitulada “Os Boas Vidas”. Eu em close com um chapeuzinho-esporte acendendo um cigarro por trás do volante do meu carro. Eu tinha carro, claro. Bonito, Mercury, duas cores, hidramático. Meus pés ilustrando umas meias xadrez, muito sobre o amarelo, no bar do hotel Miramar, aquele do posto Seis. Eu de longe com uma moça ao lado no saguão do Santos Dumont, ela com meu paletó. Era pra ilustrar paletós. A moça eu estava de olho nela, trabalhava no DAC. Foi pretexto. Não deu em nada. Quer dizer, deu – no melhor sentido possível – mas anos depois. Que mais? Eu escrevi uma matéria sobre o conjunto vocal The Hilo’s. Outra sobre o LP do João Gilberto. Outra que era uma tremenda engana-

Ivan Lessa

ção sobre os Beats and Angry Young Men, que chamei de Os Cansados e os Zangados. Cozinhei tudo de uma porção de coisas de revistas importadas lá de casa ou da redação. Traduzi um conto do Thurber com um erro de redação deste tamanho. Imagina vocês, que, no contículo, “As Sete da Noite”, tem no original uma moça “lying in the sofa” e, em português, eu taquei “mentindo no sofá”. Era o que eu achava de mulher, meu querido, me veio na natural, sorry. Teve também uma engraçada. Francis me deu um artigo do Sartre para traduzir. Sobre Berlim. Em inglês. Li e fiquei esperando. Aí Francis ou Nahum me cobraram a tradução. Cadê? Eu – olha só que paspalhão! Estava esperando o original em francês. E esta besta foi chefe de redação de agência de publicidade. Well, well. Divertida , na revista, era uma sessão que o Lobo (“Lobíferra Cretaturra”, como o chamava Scliar, que ciciava um pouco e arranhava os rr, assim feito a Clarice, de quem eu já vou falar logo, logo) criou, no começo, intitulada Sr. e Cia. Noticinhas curtas, com molho. Eu fiz algumas que não eram de jogar fora. Por exemplo: “Jeff Chandler vai se casar com Esther Williams. Bem feito pros dois”. Coisinhas assim. Pra mim, as


dos Deputados). Rubem Braga fez crítica de arte, Armando Nogueira texto antológico sobre Didi, “O Homem que Passa” (titulão, hem?). Outros colaboradores? Carpeaux, Millôr, Vinícius, Marques Rebêlo, meu pai, minha mãe, Sabino, Antônio Maria, Sérgio Porto, Cony, Callado. Todo mundo que sabia escrever. Gozado. Tinha muita gente que sabia escrever. Lembro de um camarada que escrevia sobre som, hi-fi, por aí, chamado Fânzeres. Fânzeres é um nome sensacional. Fânzeres. Ah. Clarice. Pois é. Só era conhecida no metiê.

A Senhor publicou um esquema de tipo encarte, o Quincas Berro d’Água do Jorge Amado. Incríveis os originais dele. Cada erro sensacional de ortografia, gramática, pontuação, tudo. Mas ele ainda era ótimo. No mesmo esquema, “O Urso”, do Faulkner, um troço do Tolstói. Quando tinha tradução literária, muita colaboração do Mário Faustino, amicíssimo de Francis e cobrão conforme se diz nos meios acadêmicos. Francis entrevistou o Martin Luther King. Graham Greene, acho. Carlos Lacerda escreveu sobre o cultivo de rosas (até hoje tenho os originais em papel da Câmara

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Dicas do Pasquim estão meio aí. Mas isso é besteira, forget it, deixa pra lá. Eu acertei mesmo foi com Jaguar. Embora, que me lembre nessa fase, não saiu nada. Talvez palpite num ou noutro cartum. Mais tarde é que viramos amigos e irmãos.

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um visual legal, publicava umas coisas mais do que razoáveis e – ah! ia me esquecendo. Tinha fotografia de mulher meio pelada. De muito bom gosto, claro. Várias edições feitas lá em casa. É. Eu morava em cobertura dando pra praia. Que praia? Copacabana, Leme, claro. Queriam o quê? Ramos? Uma moça que pousou: condessinha. Polonesa, creio. Outra de flor no cabelo, pele ruim.

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Daí o Francis me mandou entrevistar o ginecologista Hélio Aguinaga e o rabino Lemmle. Sobre pílula anticoncepcional. Eu não tinha, não tenho o menor jeito para esse troço. Foi um horror. Daí o Francis me mandou escrever um artigo, colado mas não muito, de revista americana, cujo título – como esquecer-te? Era “Como Dizer Não à Sua Mulher”. Enganei o quanto pude. Não saía mesmo. Pra vexame meu, Francis afinal sentou e escreveu de enfiada, se me permitem a expressão. Acho que foi na frente de todo mundo. Todo mundo rindo de mim e jogando pedra. Logo depois, o Nahum me chamou e me demitiu por incompetência. Quer dizer, Nahum é bonzinho demais, nunca faria assim. Deve ter dito que eu era formidável mas que isso e aquilo outro e coisa e tal. Me abraçou, me beijou na boca, capaz até de ter chorado. Nahum é maravilhoso, um anjo. Vive me mandando e-mail de Tel Aviv cheio de anedota em inglês. Não sei por quê. Mas digo que achei ótimo e trocamos lembranças. Vive dizendo que foi quem me “descobriu”. Capaz. Verdade é que o Newton Rodrigues veio me substituir dando finalmente um cunho de profissionalismo à redação da prestigiosa revista. Veio também o Ivan Meira, do mundo da publicidade, passe caro, para tornar a publicação mais viáv-

Aquele livro com título parecido com coisa da Carson McCullers. Perto – ou distante – do Coração Selvagem. Morava em Washington, era casada com diplomata. Alguém – quem? – teve a feliz idéia de pedir conto. Chegava tudo por carta. Lembro daquele, “A Menor Mulher do Mundo”. Sensacional. Apareciam os envelopes americanos, a gente voava lá. Feito exemplar novo da New Yorker. Depois do dia do fechamento da revista, nós nos pintávamos todos e íamos para a praça Mauá bulir com os marinheiros. Mentira. Essa última frase aí, de se pintar e ir pra praça Mauá, é mentira. Eu só queria ver se vocês ainda estavam acordados ou prestando atenção. Olhaí, é o seguinte: a revista vinha num papel muito bom, tinha


el do ponto de vista publicitário. Foram para Copacabana. Logo ali, saída do Túnel Velho. Mudou o diretor. Veio Odylo Costa Filho, especialista número um em velório de imprensa. Reynaldo Jardim, especialista número dois. O Jaguar passou a fazer um encarte humorístico na revista, O Jacaré. Estreitamos ainda mais a amizade, houve o início de colaboração. Eu voltei para a publicidade, fiquei sem fazer nada, voltei para a imprensa. Resolvi – sempre por motivos pessoais – fazer as piores besteiras do mundo. Modestamente, peguei um recorde sul-americano no gênero, anos 62-68. Tudo bem. É assim mesmo. Só não entendo porque vocês brasileiros perdem tempo com essas bobagens. Vão pra praia, gente. Jogar futebol. Tocar violão debaixo das estrelas, while beautiful morenas do the samba, chic-a-chic-aboom-chi. Esse negócio de jornalismo cultural, não sei não, hem gente?

27 Diagramaçao da Revista Senhor


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Revisra d3  

Revista criada para cadeira de design editorial. Criaçao Rebeca Gouveia e Catarina Monteiro

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