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DONA APARECIDA A mulher além do pênfigo


Edição da capa: Isabel Ventura Desenho da capa: Carlos Roberto Alves Júnior Fotos: Arquivo Público de Uberaba, João Fábio Sommerfeld e Lar da Caridade Contato: nanysilverio@hotmail.com

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Mariany Aquino Silvério Universidade de Uberaba Curso de Comunicação Social Habilitação de Jornalismo

DONA APARECIDA A MULHER ALÉM DO PÊNFIGO

Projeto Experimental de Conclusão de Curso na categoria Livro-Reportagem

Orientadora: Professora Mestre Cíntia Cerqueira Cunha

Uberaba-MG Junho - 2011 3


FICHA CATALOGRテ:ICA

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DEDICATÓRIA E AGRADECIMENTOS

Dedico esse livro primeiramente a Deus, que me deu entusiasmo para cumprir mais essa etapa da minha vida. Dedico esse trabalho à minha mãe Eliete A. Aquino e ao meu pai Afonso Silvério Junior. É por eles que eu acordo todos os dias e agradeço a Deus por ter me dado uma família tão bonita, sábia, amorosa e simples, pois com a simplicidade da minha mãe, me tornei quem eu sou hoje. Agradeço à minha orientadora Cíntia Cunha e

a todos

os

professores

que,

com

muita

persistência, aperfeiçoaram a minha escrita. Escrevi este livro com todo meu carinho e dedicação. Cada verso escrito significa muito para mim.

Obrigada mesmo aos colaboradores, à

família

e

amigos

da

Dona

Aparecida,

que

dedicaram um pouquinho do seu tempo para as minhas entrevistas.

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Obrigada, Dona Ivanda, Cida, Robertinho, Antonieta, Enedina, Marieta, Cleonice, Dora, Ivone, Sr. João Naí e tantos outros que me ajudaram a descobrir essa linda história de vida. Nada foi fácil não, mas é com orgulho que eu digo que me formei nesse curso e sou mais uma integrante no time dos jornalistas formados pela Uniube.

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INTRODUÇÃO Eu estava no sexto período quando me identifiquei com a matéria “Métodos de História de Vida”, ministrada pela professora Cíntia. Mais adiante, a matéria “Livro-reportagem”, com a mesma professora, me fez decidir o que eu faria como Trabalho de Conclusão de Curso. O Lar da Caridade, Hospital do Fogo Selvagem, fica no quarteirão de cima da minha casa,

onde

moro

desde

pequenininha.

A

curiosidade me fez escrever este livro, coisa de jornalista, não é mesmo? Eu via aqueles doentes no pátio do hospital tomando sol de manhãzinha e me preocupava com as crianças tão novas e com o corpo coberto de queimaduras. Os doentes ficavam ali por alguns minutos e já entravam para o hospital. O restante do dia ninguém os via. Aos finais de semana, chegavam ao hospital vários ônibus lotados de gente e de mercadorias. Eu olhava a placa daqueles ônibus e lia: São Paulo, 7


Manaus, Sorocaba e me perguntava: “Esse povo mora tão longe! O que eles vêm fazer aqui nesse fim de mundo?” No mesmo quarteirão fica o hospital, a creche, o centro espírita e, no quarteirão paralelo, situam-se a escola e a fábrica de plástico. Antes, eu nem me dava conta de que tudo isso era obra de Dona Aparecida. Então, quando tive que fazer a escolha do tema para esse TCC, escolhi Dona Aparecida. Mas eu queria saber por que ela fez tudo isso. Foi quando eu pesquisei bastante e vi que existem muitas coisas falando do pênfigo, do hospital... Mas nada explicava de onde ela veio, como era a vida dela antes de tudo isso. Foi quando eu decidi fazer um livro diferente e contar quem é Dona Aparecida Conceição Ferreira, além do pênfigo.

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ÍNDICE

Capítulo I - Café com Leite

pág. 10

Capítulo II - Realidade do sonho

pág. 37

Capítulo III - A vinda para Uberaba

pág. 58

Capítulo IV - A luta com a doença

pág. 67

Capítulo V - O Lar da Caridade

pág. 92

Referências Bibliográficas

pág. 115

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CAPÍTULO I CAFÉ COM LEITE

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O Brasil vivia a época da política café-comleite. Para quem não sabe o que significa, existia uma alternância do poder nacional na República Velha, de 1898 a 1930. A República Velha foi o período que antecedeu o governo Getúlio Vargas. O país tornou-se um exportador de café e a indústria deu um salto. O termo café-com-leite é uma referência aos maiores Estados produtores destas mercadorias no Brasil: o Estado de São Paulo, que produzia o café, e Minas Gerais, produtor de leite. Esse acordo entre o “café e o leite” foi concretizado pelas oligarquias estaduais e pelo governo federal. Esses dois Estados eram os mais ricos da nação. Por esse motivo, se tornaram o centro das atenções presidentes

para

os

políticos

atentavam-se mais

da

época.

para

Os

o setor

agrícola. O resultado da política café-com-leite foi o crescimento da agricultura e pecuária em toda a região Sudeste.

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Pouco mais adiante, mais precisamente, em 1914, o advogado nascido em Minas Gerais, Wenceslau Brás, assumiu a Presidência do Brasil. Brás tomou o poder, adotando uma severa política financeira, por causa da redução das exportações brasileiras. Nesse tempo, enquanto na grande cidade paulista circulavam

pelas ruas

apenas

1.700

automóveis, no interior do país ainda se andava a cavalo. É justamente de uma cidadezinha cravada no interior do Brasil que iremos falar agora.

As águas são calmas, o verde é perfeito e as árvores parecem surgir de dentro do rio. Uma grandeza indescritível. O canto suave dos pássaros e toda essa paisagem representam a natureza bela e perfeita, bem ali, na divisa de Minas com São Paulo: o rio Grande. O rio nasce em Minas Gerais e banha uma parte do Estado de São Paulo. É nas margens desse rio que, em 1842, nasceu a pequena cidade 12


paulista, Igarapava. O nome Igarapava tem origem tupi-guarani e significa “porto das canoas”. A cidade fica no nordeste de São Paulo. Igarapava tem gente humilde, mas gente de fibra, guerreiros desde o princípio. Essa região foi lugar de descanso e acesso dos bandeirantes em direção às minas dos goyazes. Homens valentes, os bandeirantes eram mandados pelos portugueses com a intenção de batalhar contra escravos fugitivos e indígenas revoltados. O que os motivava era o desejo de localizar jazidas de metais preciosos e outras riquezas. Eles saíam de São Paulo e seguiam rumo ao interior do Brasil, por meio de florestas, e atravessavam rios. Os bandeirantes usavam chapéu de abas grandes, botas de cano alto e vestiam-se com camisa e calça de algodão. No peito havia uma espécie de gibão de couro, revestido de algodão para protegê-los de possíveis flechadas. Essas terras foram doadas pelo rei de Portugal aos bandeirantes. 13


Naquela época, trabalhar pra sustentar uma família enorme não era nada fácil. Além disso, as famílias insistiam em ter cinco, seis, sete ou, quem sabe, quatorze crianças numa casa. Como a maior parte das cidades do interior do país, Igarapava é uma cidadezinha de ruas estreitas e arborizadas com uma igreja matriz bem no coração da cidade... E muitas, mas muitas histórias pra contar. Como a história de Maria Abadia de Almeida.

Maria Abadia de Almeida

A moça branca, de cabelos castanhos e encaracolados,

olhos

fundos

marcados

pelo

cansaço, trabalhava como doceira e lavadeira. A família era humilde, mas não, miserável. Todos 14


trabalhavam intensamente para colocar a comida na mesa. Mas ela não faltava. As meninas faziam doces, colhiam frutas, teciam, lavavam, enquanto os homens cuidavam da lavoura e das fazendas. Quando Maria Abadia não estava fazendo doces

para

os

casamentos

realizados

em

Igarapava ou nas redondezas, estava a lavar roupa para as madames da cidade, que eram poucas na época. Ainda jovem, Maria Abadia conheceu um rapaz nordestino, que chegara a Igarapava em busca de trabalho. Acostumado com o calor infernal do Nordeste, ele começou a trabalhar na lavoura, de sol a sol. Maria Abadia era branca como o leite, e o moço, negro como o café em processo de torrefação. Rapidamente se envolveram e, dessa mistura, tiveram dois filhos: Francisco nasceu primeiro e, em seguida, veio Aparecida. Pouco tempo depois, o moço disse a Maria Abadia que teria que voltar para o Nordeste, pois lá 15


seria mais fácil arranjar dinheiro para criar os dois filhos. E assim partiu... O rapaz retornou para a terra dele, deixando Maria sozinha na labuta com os filhos. Ninguém conhecia o moço o suficiente. E como já era de se imaginar, ele nunca mais voltou. Naquele período, as coisas

aconteciam

mesmo do jeito que vemos nas novelas de época. As moças se casavam novas, geralmente com quem os pais escolhiam. Se a moça escolhia o noivo, o que era incomum, os pais tinham que aprovar. Sem o consentimento dos pais, nada acontecia. Porém, com Maria Abadia não foi bem assim. As circunstâncias da vida fizeram com que ela pulasse a etapa do casamento e antecipasse a vinda dos filhos. Sem prudência nenhuma e nem condições financeiras para criar os filhos, Maria Abadia entregou Aparecida, a filha mais nova, aos avós: Joaquina Ferreira e Manoel Inocêncio Ferreira, que tinha o apelido de Manoel Carapina, pois todos o conheciam deste modo. 16


A menina foi rejeitada pela própria mãe e, no início, os avós também não queriam aceitá-la. Todos eram brancos e Aparecida parecia um grãozinho de café no meio da família. Junto com eles morava a bisavó, que já estava com noventa e sete anos na época. Chamava-se Canuta de Jesus e era mulata. A bisavó não hesitou e estabeleceu que Aparecida fosse morar com eles. Na mesma casa também morava o filho mais novo de Joaquina e Manoel. Manoel Inocêncio Ferreira Filho era o mais ajuizado dos três irmãos, e apenas quatorze anos mais velho que Aparecida. O apelido dele era Nequinha e, desde o primeiro momento, aceitou de bom grado a sobrinha.

Manoel Inocêncio Ferreira Filho

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A pequena Aparecida só foi registrada quando já estava com três aninhos de idade. Um tio, chamado Gabriel, cuidou da papelada no cartório de Igarapava. Aparecida nasceu no dia 19 de maio de 1914. Mas como, naquela época, as crianças

não eram registradas

logo

após

o

nascimento, ela só ganhou nome e sobrenome em 1917: Aparecida Conceição Ferreira. O local onde Aparecida morava com os avós e a bisavó Canuta, em uma casa de cisterna, era uma espécie de chácara bem grande e tinha três quartos. Na cidade, estava bem localizada, ficava a cinco ruas da Igreja Matriz. Lá havia um riacho que passava no fundo do quintal com bananeiras, laranjeira e outros pés de fruta, além da criação de porcos e das duas vacas que davam o leite. Manoel Carapina era carpinteiro. Ele saía pelas fazendas para trabalhar. De tardezinha, ele levava pra casa aquelas notas grandes, mostrava e falava que era pra comida. Ele nunca escondeu o dinheiro de ninguém. Colocava tudo num baú e 18


nenhuma pessoa se atrevia a mexer. Nunca precisou usar chave em casa, tinham o maior respeito por ele. Todos os dias, Manoel chegava em casa com alguma sacola de verdura ou fruta. As que não existiam

na chácara,

ele levava. Às

vezes,

comprava o queijo que todos gostavam. A avó Joaquina tecia o pano no tear e fazia as roupas de todos da casa. Cozia doces das frutas panhadas na chácara mesmo. A bisavó era conhecida por tia Canuta. Muitos moradores da cidade, os vizinhos da rua, a procuravam para tomar bênção, remédios, pedir conselhos. Ela benzia várias pessoas que pediam ajuda todos os dias. Nequinha era um moço claro, alto, ouvia mais e falava menos. Bastante sistemático, ele começou a trabalhar desde pequeno na lavoura. Sempre ajudou seus pais com as responsabilidades e despesas de casa.

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Aparecida também foi uma criança alta, tinha os cabelos bem encaracolados na altura do queixo, olhos pretinhos feitos jabuticaba. Com o tempo, os avós se acostumaram com seu jeito e, além de amá-la, passaram a defendê-la de todas as formas. Passar fome, nunca passou. No entanto, Aparecida tinha apenas dois vestidos: um de ficar em casa e um pra ir à Igreja no domingo. A família era muito dedicada ao trabalho, além de se alimentar da fé. A mãe de Aparecida também morava nessa chácara. O fato é que a menina cresceu achando que era filha da sua bisavó, Canuta. Maria Abadia tinha o apelido de “Gorda”. Quando alguém na rua afirmava que Aparecida era filha da “Gorda”, a bisavó desmentia, falava que ela era sua filha. Maria, além de não ter tempo pra filha, quase não parava em casa. Ela passava praticamente o dia todo nas fazendas

vizinhas,

fazendo

doces

para

os

casamentos. Naquele tempo, em todo casamento 20


eram montadas aquelas mesas enormes: uma de quitanda e uma de doce e era Maria Abadia quem fazia todos eles. Quando não estava produzindo e decorando doces, estava lavando roupas, pra conseguir um dinheiro extra. Por isso, Aparecida foi criada pelos avós e pela bisavó que, pelo menos, tinha tempo para ela. O tempo ia passando. Como o nordestino, pai de Aparecida, nunca mais retornou, Maria Abadia se envolveu com um português que morava na cidade. Ainda vivendo na chácara com os pais, engravidou de trigêmeos. Porém, sem recurso algum

e

sem

médico,

os

três

branquinhos

faleceram com alguns dias de vida. Rita, irmã de Maria Abadia, também foi mãe solteira, e igualmente não tinha juízo... Ao todo, Rita teve oito filhos que moraram na chácara e cresceram junto com Aparecida.

Passaram-se alguns meses e Maria Abadia engravidou do português de novo. Com ele, teve 21


dez filhos, mas somente quatro sobreviveram: Balbina, Joaquina, Albertina e Sebastião. Todos herdaram o sobrenome do pai português, Dias. Os irmãos de Aparecida eram todos brancos. Somente ela ficou com o sobrenome dos avós, Ferreira.

As irmãs Albertina, Aparecida e Joaquina

E foram os avós, com a ajuda fundamental do tio Nequinha, que criaram toda essa criançada. O adolescente tinha mais responsabilidade e pegava todas as crianças que as irmãs iam 22


colocando no mundo. Ele quem ensinava tudo a elas. Criou, educou, pôs todos na escola, deu-lhes a noção de trabalho e mais, deu carinho. Nessa época, viviam na chácara quatorze crianças. Oito filhos da Tia Rita, cinco filhos da “Gorda” contando com Aparecida e o Tio Nequinha que, apesar de toda a responsabilidade, ainda era novo. Somando os avós, a bisavó, Rita e Maria Abadia, viviam na mesma casa dezenove pessoas dividindo os três quartos. Enquanto isso, as irmãs Maria Abadia e Rita continuavam fazendo doces e lavando roupas pra ajudar a sustentar todas aquelas pessoas. A infância de Aparecida foi junto de muitas crianças. Alguns irmãos, outros primos, filhos da tia Rita, mas como ela achava que era filha de Canuta, cresceu pensando que todos eram seus primos. Aparecida era a criança mais velha, mas se sentia discriminada pela sua cor. Quando a família saía pelas ruas da cidade, ela notava que as

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pessoas olhavam e comentavam sobre a cor dela, que se destacava no meio dos demais. A rotina na família Ferreira era implacável. Todos acordavam bem cedo. No fundo da casa, existia um tipo de oratório, onde a bisavó Canuta colocava todos pra rezar o terço às seis horas da manhã. Filhos e netos, toda a família se reunia para rezar o Rosário. Com sol ou com chuva, eram assim todos os dias. Essa molecada toda começou a pegar no batente muito cedo. Tio Nequinha não deixava ninguém ficar à toa. Colocava para capinar o terreiro, plantar arroz, apanhar algodão, café... Além de todas essas atividades que cada um desenvolvia na chácara, também faziam polvilho e farinha de mandioca. Havia um cocho grande e banquinhos tripé. Cada um dos pequeninos pegava um banquinho e subia pra alcançar o cocho e descascar a mandioca. Aparecida sempre se destacava. Se a avó pedia pra alguém colher as frutas, era ela quem 24


colhia. Se precisasse subir em árvores, como nas mangueiras, ela já estava lá em cima, antes mesmo de alguém pedir. Enfrentar animais como as vacas, porcos, cachorros, só ela mesmo. Entrava dentro do chiqueiro e colocava comida para os porcos. Era mais esperta, aprendeu a bordar com a avó desde menininha. Bordava

umas

almofadas

bonitas,

coloridas.

Ainda no início da década de 20, circo era chamado de cavalinho de pau. Aos domingos, quando Nequinha tinha tempo, levava todos para ver o espetáculo. Ele não comprava nada nas barraquinhas, pois era tudo mais caro. Levava aqueles cartuchos de amendoim e de pé-demoleque pra comer. Eram aqueles cartuchos grandes mesmo, pra dividir entre todas as crianças. O avô, Manoel Carapina, dava uma pratinha de dois mil réis para cada um gastar no circo. As famosas brincadeiras, como argolas e tiro ao alvo, eram diversão garantida para a criançada. Mas 25


como Aparecida acertava todas as charadas, ganhava ainda mais rodadas. Aparecida

adorava

circo,

ficava

deslumbrada. Malabarismo, equilibristas, palhaços, mágicas, animais, quantas coisas! Se deixassem, ela ficava lá o dia todinho. Quando iam pra casa, ela era motivo de discórdia, pois queria sempre mais. Na segunda-feira, quando tudo parecia estar normal, Nequinha chegava do trabalho cansado e, em meio a tantas crianças, ele dava falta de Aparecida. Ela fugia de casa e ia para o circo escondida. As primas não tinham coragem de ir, então ela ia sozinha. Não estava nem aí, queria apenas se divertir. Como não tinha dinheiro para pagar a entrada, ela passava por baixo dos panos. Aqueles panos enormes e intensamente coloridos. Era exatamente no cavalinho de pau que o tio encontrou a menina com os olhos esbugalhados de tanta alegria! Por mais que ele ficasse com dó, precisava lhe corrigir. Levava Aparecida pra casa, 26


dava bronca e algumas palmadas. Era uma hora de falação, mas não resolvia nada, alguns dias depois ela fugia de novo e o tio, sem hesitar, a procurava direto ao circo. E novamente lá estava ela, passando por debaixo dos panos do mesmo jeito. Se Aparecida estava triste com alguma coisa, ela também sumia. A avó e as primas procuravam, procuravam e nada. Ela subia nas árvores e ficava lá por um tempo, até a raiva passar. De repente, aparecia no quintal da casa de novo.

Quando as crianças estavam com sete para oito anos, o tio as colocava pra trabalhar fora, vender frutas e doces na rua. Mas nem por isso deixavam de ajudar em casa. Continuavam com seus afazeres do mesmo jeito. Aparecida

começou

a

ajudar

com

as

despesas também. A avó Joaquina fazia doce de laranja da terra. Todo dia curtia a laranja, secava e

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dava o doce na cesta pra Aparecida vender. Ela saía cedo, depois que rezava o terço com a família. Na parte da manhã, vendia os doces e, no período da tarde, banana e laranja que colhia no quintal da chácara. Vendia nas portas da escola, na porta da Igreja matriz, para as madames da cidade, e até mesmo para as “moças da vida”, como eram chamadas as prostitutas há algum tempo atrás. Aparecida, como a maior parte das crianças, não tinha preconceito. Entrava nos bordéis e vendia seus doces, sem saber direito o que acontecia naquele lugar. E como era bem recebida pelas moças, suas pontuais freguesas, ela voltava lá todos os dias. A

criança

levada

se

revelava

quando

Aparecida era contrariada em suas vendas. Ela marcava bem a fisionomia das pessoas que não compravam dela. Algum tempo depois, começou a catar no quintal da chácara para atirar no muro das casas dessas pessoas. Por isso, praticamente a

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cidade toda comprava os doces só pra não ver suas casas imundas no outro dia. A garota vendia seus doces e frutas até de tardezinha. No final do dia, ao chegar em casa, entregava pro tio todo o dinheiro que conseguia com as vendas. “De manhã cedo eu vendia verdura e, de tarde, banana e laranja. Quando as mulheres não queriam comprar de mim, eu pegava bosta de vaca e jogava nas casas delas. Muita gente comprava, de ver minha maldade. Porque era maldade... Brincar não, não tinha tempo”, lembra dona Aparecida. Os dias eram iguais na casa da família Ferreira. No café da manhã não tinha pão, era broa de fubá e biscoito de polvilho. A avó Joaquina fazia rosca só na Semana Santa porque todos jejuavam, por isso, naquele feriado faziam uma mesa toda especial. O almoço de domingo era uma fartura. Na casa do senhor Manoel Carapina não se comprava quilo de carne, era a vaca inteira. Ele cortava as 29


carnes e punha secar no sol e, assim, conservava. À noite, antes de dormir, todos bebiam leite com farinha ou puro. Cada um tinha sua cumbuca. Depois do leite ninguém mais saía no terreiro, pois tinham medo da mula-sem-cabeça. Essa era a história que a avó Joaquina contava pra garotada, para conservá-los dentro de casa.

Aos 11 anos, Aparecida entrou para o Grupo Escolar de Igarapava. Foi o tio que a matriculou. Ela gostava de estudar, principalmente matemática. Adorava resolver aqueles probleminhas em sala de aula. Português, não gostava muito não, mas tinha que estudar mesmo assim. Nequinha tomava a lição de todos que estudavam diariamente. E coitado de quem não estivesse com tudo na ponta da língua, ficava de castigo. A menina era uma das primeiras da classe, aprendia com facilidade. Mas aprontava tanto que o avô era chamado na escola toda semana para ouvir as reclamações das professoras. Ninguém entendia 30


seu comportamento. Ela não tinha medo de bater, nem de apanhar... Enfrentava tudo e todos. Uma das travessuras de Aparecida foi numa festinha da escola. Ela fez uma menina da classe beber guaraná à força, na marra mesmo. O resultado disso foi que os irmãos e os primos dessa garota cercavam Aparecida na saída da escola para bater nela. A partir desse incidente, todos os dias, quando ia pra escola, a menina tinha que dar uma volta gigante pra chegar à rua do colégio sem passar em frente à casa desses garotos. E ainda entrava pelo portão dos fundos da escola, pois Dona Abadia Raimunda, a servente que recebia os alunos no portão, não deixava Aparecida entrar.

O ano era 1925. O dia a dia ainda era o mesmo na família Ferreira. Acordavam cedinho, rezavam o terço, ajudavam o avô com os afazeres na chácara, vendiam seus doces, almoçavam e iam para a escola... A garotada crescia velozmente. 31


Nada mudou até que Joaquina, a avó querida, faleceu. Um silêncio terrível brotou na chácara aqueles dias. O avô Manoel ficou pensativo e mais calado por vários dias.

Todos sentiram muito a

morte de Joaquina Ferreira, pois era ela quem preparava os doces com tanta dedicação, fazia as roupas, bordava as almofadas... Mas a vida tinha que seguir. Aparecida começou a fazer as coisas que a avó ensinou. Cuidava da casa, varria o terreiro, lavava roupas, cozinhava diariamente. Enquanto isso, as outras crianças continuaram a ajudar o tio Nequinha na labuta. Nequinha era um exemplo para todos e a paixão de Aparecida. Paixão porque foi pai e mãe ao mesmo tempo. Ele sempre pôs o respeito em primeiro lugar, prezava muito a moral e a dignidade. Era ele quem emprestava dinheiro quando alguém precisava, mas exigia que pagassem quando pudessem. Fazia tudo de coração. 32


Apesar das

travessuras

e brincadeiras,

Aparecida era uma moça séria. Aprendeu a ter responsabilidade muito cedo. Desde que a avó faleceu, ajudava Nequinha a cuidar de toda a molecada dentro de casa. Quando ela pedia para as primas varrerem o terreiro, se faziam o serviço com má vontade, ficavam sem comer ovos no jantar. A menina, naquele momento, estava com 12 anos. Enfrentava uma rotina intensa e fazia coisas de adulto, como cuidar de toda a casa e ajudar na criação dos primos. Mas com o apoio do tio, tudo parecia ficar mais fácil. Como em qualquer família, os cômodos da casa iam perdendo seus moradores com o passar dos anos. Tia Rita faleceu. A bisavó Canuta, apesar de muito velhinha, ainda estava lúcida.

Dois anos mais tarde, Aparecida concluiu a quarta

série

primária

no

Grupo

Escolar

de

Igarapava e abandonou a escola. Naquele tempo, 33


completar a formação primária tinha grande valor, por causa das pouquíssimas escolas existentes e da escassez de professores. O

excesso de

atividades e a rotina exaustiva na chácara a motivaram a largar a escola. No entanto, ela nunca reclamou.

Em um dia como outro qualquer, Aparecida descobriu que era filha de “Gorda” e não de Canuta. A bisavó já estava muito idosa e preferiu dizer toda a verdade, pois achou que a menina, moça crescida, já tinha condições de compreender a

situação.

Aparecida

ficou

confusa,

mas

considerou que quem a criou foi a avó Joaquina, o avô Manoel e o tio Nequinha. A barriga onde havia sido gerada não tinha tanta importância para ela. Por outro lado, a garota sentiu-se feliz, pois de uma hora para outra descobriu que contribuía diretamente na criação dos próprios irmãos. Mesmo morando na mesma casa, com as

mesmas

pessoas, a vida de Aparecida passou a ter um novo 34


sentido: ela ganhou uma mãe e quatro irmãos, Balbina, Joaquina, Albertina e Sebastião, que só era chamado de Tião. Só faltava conhecer o pai verdadeiro. Mas esse ela nunca viu e nem soube quem era.

Com quatorze anos, Aparecida já era mais que uma moça, parecia adulta. Continuava a usar vestidos e chinelo de dedo, mas não abria mão das coisas das quais gostava, como os bailinhos, por exemplo. Nos finais de semana, a pequena Igarapava ficava alvoroçada com os bailes da juventude. Quem frequentava esses bailes, em sua maioria, eram os jovens solteiros da cidade. Todos colocavam a melhor roupa para ir ao evento. Então, Aparecida usava o mesmo vestido com o qual ia à igreja aos domingos. O cabelo era preso e ela não usava

nenhuma

maquiagem.

Sapato

baixo,

sempre.

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Ela gostava muito de dançar. Era uma imensa distração ouvir as músicas, ver gente diferente, as mocinhas, os mocinhos. Era como fugir

da

realidade.

Manoel

Carapina,

muito

sistemático, não fazia muita questão que ela fosse não... Mas ela ia assim mesmo, sempre que podia. Algumas primas de Aparecida, mais novas do que ela, já namoravam nesta época. Mas ela ainda não sabia o que era namoro. Por isso, o entusiasmo e a curiosidade tomavam conta dela quando ia aos bailes da cidade. Aparecida era uma das moças mais simples que frequentavam o baile. Mas ela não ligava pra isso, nunca teve vaidade. O sonho dela era casar, criar seus filhos e lutar pela vida ao lado de alguém que a aceitasse do jeitinho que era. E ela sabia que esse alguém um dia ia chegar...

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CAPÍTULO II REALIDADE DO SONHO

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Clarimundo Emídio Martins era um jovem de vinte e três

anos. Morava em Igarapava e

trabalhava na Mogiana. Foi um homem alto, negro, cabelos crespos, nariz avantajado e bem fino. Tinha um semblante calmo. Foi namorado de uma das filhas de tia Rita, mas o namoro não foi pra frente. Mesmo com o fim do namoro, o rapaz ainda frequentava a casa do avô Manoel. O moço era amigo do tio Nequinha. Juntos, gostavam de tocar violão nas horas vagas. Toda vez que ia até lá, Aparecida estava em cima das árvores no quintal. Em cima da mangueira ou apanhando coquinho... Então eles nunca se conheciam. Até o dia em que a menina desceu da árvore e apareceu na sala, quando Nequinha apresentou Clarimundo a ela. Pode parecer coisa do destino, mas, a partir daquele momento, a vida dos dois tomou um novo rumo. Mas como nem tudo é como a gente quer... Nequinha não deixava a sobrinha mais velha namorar de jeito nenhum. Tinha muitos ciúmes. Tratava Aparecida como uma filha mesmo. Então, a 38


menina

passou

a

encontrar

Clarimundo

às

escondidas. Eles combinavam de se encontrar todos os dias à noite na ponte da cidade. O rapaz não morava longe da chácara. O tio Nequinha dormia todos os dias no mesmo horário e, como ficava cansado demais, apagava. Manoel tinha o sono pesado. A bisavó também dormia bem. Era nessa hora

que

Aparecida

aproveitava

para

ver

Clarimundo. Ele estava sempre a esperar por ela na ponte. Aparecida pulava a janela do seu quarto e, cuidadosamente, abria o portão e saía. Encontrava o rapaz, conversavam por alguns minutos e voltava à sua casa de novo. Passava pelo portão e pulava a janela do seu quarto novamente. Fez isso muitas vezes. O avô e a bisavó Canuta nem desconfiavam, achavam que ela estava dormindo. E ela fazia isso sem medo.

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No ano de 1930, a bisavó Canuta morreu aos 113 anos. Para Aparecida foi um choque, mas Clarimundo deu muito apoio a ela e a todos da casa. A partir desse dia, a família não se juntava mais rigorosamente para rezar o Rosário e nem para tomar o café da manhã tão cedo, que ela preparou durante tanto tempo. A partida de Canuta deixou muita gente abatida. Além da família, vizinhos, amigos e moradores

de

saudades,

pois

Igarapava

também

acreditavam

que

sentiram ninguém

substituiria sua bênção e seus conselhos. Canuta se foi quando Aparecida estava com 16 anos. Cada vez mais era ela quem ajudava o avô e o tio nas atividades domésticas. Naquele momento, a moça não pensava em mais nada a não ser em se casar. O namoro de Aparecida e Clarimundo ia muito bem, mas continuavam se encontrando escondido. Ela se sentia feliz, mas não deixava

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transparecer dentro de casa para os avós não desconfiarem. Clarimundo

era

muito

compreensível

e

respeitava o que Aparecida quisesse. Tudo tinha que ser no tempo dela, até mesmo apresentar o rapaz para a família como namorado. Ele esperava. Durante todo o dia, enquanto Aparecida cuidava da casa, mal podia esperar o anoitecer para passar os quinze minutinhos com o namorado na ponte. Ele sempre chegava primeiro e ficava aguardando sua querida.

A situação não poderia continuar assim por muito tempo. Aparecida decidiu levar o namorado em casa para que pudessem ficar juntos sem aquela adrenalina que era pular a janela todos os dias. O dia parecia estar mais bonito que o normal para Clarimundo. Vestiu-se com a melhor calça e camisa que tinha. Nos pés, um sapato surrado. O azul do céu era mais intenso, o sol parecia brilhar e 41


esquentar mais o suor que corria em sua pele negra. Era domingo e, como combinado, o rapaz deveria chegar à casa de Aparecida na hora do almoço para oficializar o namoro. Enquanto isso, o coração de Aparecida disparava aguardando a chegada do namorado. Como de costume, o almoço seria farto com bastante carne, arroz branquinho, feijão e verduras. Aparecida gostava do tempero mais forte, meio apimentado. Para esse dia, colocou a melhor toalha na mesa e caprichou ainda mais no tempero. A moça ficou a espiar o portão o tempo todo. Com o mesmo vestido de todos os domingos e seu chinelo de dedo, enquanto cozinhava o arroz, ouviu um barulho no portão. Era ele. Para Nequinha, era normal o rapaz chegar lá, porém estranhou estar sem o violão debaixo do braço e de sapato fechado naquele calor. Com toda simplicidade, Clarimundo falou ao amigo que a ocasião era diferente, não foi até lá somente para tocar violão e prosear. 42


Pedindo licença a Manoel, o rapaz entrou e pediu Aparecida em namoro. Ficou um silêncio no ar por alguns segundos. Manoel olhou para Nequinha, que olhou para Aparecida. O nervosismo e ansiedade tomavam conta do casal. A pergunta tão esperada foi feita pelo avô: - Quais são as suas intenções com minha neta, rapaz? - As melhores possíveis, seu Manoel. Eu gosto dela! - respondeu Clarimundo com a voz firme. Tenso, o avô concedeu o namoro com a aprovação de Nequinha também. Contente, mas discreta como sempre, Aparecida então os chamou para almoçar. Na mesa, conversaram bastante com o rapaz, que foi perdendo a timidez aos poucos. O avô reparava Clarimundo o tempo todo. Mas o moço apresentava ser um homem honesto, trabalhador e de boas intenções. A partir deste dia, todos os domingos, Clarimundo almoçava na casa da namorada. 43


Naquela época, os namoros eram bem diferentes dos que conhecemos atualmente. Os casais mal pegavam na mão, nem se abraçavam e namoravam na sala de casa com a família toda em volta do sofá, principalmente os irmãos mais novos que ficavam por conta de vigiar as meninas. Qualquer

contato

físico

era

proibido

e,

se

acontecesse, era às escondidas. Com o passar do tempo, quanto mais Clarimundo conhecia a vida de Aparecida, mais tinha certeza de que seria ela a mãe de seus filhos. Aos

poucos,

começaram

a

conversar

sobre

casamento. Os dois eram de famílias humildes. O ordenado de Clarimundo na Mogiana era muito pouco. Não teriam casa para morar se casassem naquela falta de recursos. Conversaram bastante sobre isso, tentando encontrar uma solução.

Quando sobrinha mais

Nequinha

percebeu

que

sua

velha já estava encaminhada, 44


resolveu cuidar de sua própria vida. Passou tantos anos criando sobrinhos e ajudando os pais que esquecera de aproveitar sua juventude. Havia uma moça que morava na fazenda vizinha que chamara a atenção de Nequinha há anos. A jovem era dez anos mais nova que ele e, como ele, nunca tinha namorado. Nequinha foi até a fazenda e conversou com os pais dessa moça. Como a fazenda era vizinha, os pais dela já conheciam o trabalho do rapaz na lavoura e sabiam de sua dedicação com a família. Rapidamente, aprovaram o namoro e, em pouco tempo, se casaram.

O namoro de Aparecida continuava bem. Mas Clarimundo insistiu na história de casamento, já que o namoro durava pouco mais de dois anos. Aparecida concordou. Num dia entre eles combinado, Clarimundo foi até a casa de Aparecida com o intuito de pedir sua mão em casamento. Estavam ainda mais 45


nervosos do que no dia de domingo em que o namoro foi oficializado. O rapaz pediu Aparecida em casamento para o avô Manoel e Nequinha. A resposta do tio foi clara: - Você quer se casar com ela? Você pode casar, mas vai aguentar um pouco, hein?! Se prepare para acostumar com o jeito dela que eu aguentei até hoje. Em 14 de junho de 1934, eles se casaram. Clarimundo foi morar com Aparecida na casa do avô Manoel, até que a situação melhorasse para eles.

Após o casamento de Nequinha e Aparecida, o avô Manoel parecia ter cumprido sua missão na terra. Resistiu até os cento e dezoito anos de idade. Com a morte do pai e a esparramada dos sobrinhos, já todos crescidos, Nequinha preferiu vender a sede da chácara em Igarapava. Com a

46


esposa, mudou-se para uma fazenda na pequena cidade de Nova Ponte, no interior de Minas Gerais. A cidade fica pertinho de Igarapava, a 70 quilômetros apenas. Lá ele enxergou melhores condições

de trabalho

e

recomeçou

a

vida

trabalhando como coletor, enquanto sua esposa cuidava da casa. Como toda cidade do interior, naquela época, Nova Ponte tinha uma igreja na praça do centro,

ruas

estreitinhas,

poucos

armazéns,

pouquíssimos médicos, professores, profissionais em geral. Mas uma represa no meio da cidade era seu diferencial.

Após a venda da chácara do avô Manoel, Aparecida e seu esposo, Clarimundo, mudaram-se para uma casinha bem simples, de poucos cômodos, em Igati, uma estação de Igarapava. Na nova casa, ela continuava na lida com seu esposo. Trabalhavam de sol a sol para se manter. Não era nada fácil, mas Aparecida estava 47


acostumada a ter que lutar para não faltar comida na mesa. Aparecida e o esposo moraram pouco tempo em Igati. Clarimundo teve que deixar a Mogiana, pois o ordenado era insuficiente para pagar as despesas do casal. Aparecida então resolveu vender a casinha que havia herdado da avó Joaquina em Igati e, com o marido, foi morar na Fazenda Santa Maria, ainda no município de Igarapava, na região Furnas. Nesta fazenda, eles sobreviviam tocando lavoura. Com dois anos de casados, Aparecida realizou mais um de seus sonhos: teve sua primeira filha, Ivone Martins. A menina era a cara da mãe, só um pouco mais miudinha. Herdou apenas o sobrenome do pai. O casal melhorou um pouco de situação plantando lavoura e criando porcos na Fazenda Santa Maria. Além disso, Aparecida dava injeção e fazia curativos aos que precisassem de seus

48


serviços, atividades que aprendeu só de ver a bisavó Canuta fazendo. Em um momento de emergência na fazenda vizinha, Aparecida contribuiu com o nascimento de uma criança. Com o passar do tempo, começaram a solicitar a presença dela quando mais um bebê precisava vir ao mundo. Aparecida não cobrava os partos, fazia de coração e com boa vontade. Em

meio

a

essa

rotina

estressante,

Aparecida teve mais uma menina, a quem deu o nome de Ivanda Martins. Também parecida com a mãe, porém, mais alta que a irmã mais velha. Os filhos vinham como uma escadinha. Numa média de dois em dois anos, Aparecida engravidava novamente. Na terceira gravidez, teve uma menininha de novo, Evani Martins. O rostinho de Evani era uma mistura de Aparecida e Clarimundo. A

cada

dia

que

passa,

crescem

as

necessidades das meninas e o desejo dos pais em melhorar de vida. Aparecida então decide dar aulas 49


para os peões que trabalhavam na fazenda com ela. Com o que aprendeu até a quarta série, poderia ensiná-los pelo menos a ler. Montou então uma espécie de escolinha dentro da própria casa e dava aulas à noite. Algum tempo depois, o casal teve o primeiro filho homem: Boanésio Aparecido Martins. O menino parecia mais com o pai tanto na aparência, quanto em ser mais calado, mais quieto. A partir daí, o casal passou a ter meninos. O quinto filho foi batizado como Cosme Damião Martins. E o filho mais novo, Antônio Brás Martins, que era o mais parecido com Clarimundo e o mais alto dos filhos.

Aparecida (ao centro) com todos os filhos. Da esquerda para a direita: Ivanda, Boanésio, Evani, Ivone, Cosme e Brás

50


Com

o

desenvolvimento

dos

filhos,

Aparecida punha-os para assistir às aulinhas à noite na fazenda. Foi com a mãe que todos aprenderam ler. Ivone era a filha mais amorosa, companheira. Boanésio, o mais sistemático e calado. Dentro de casa, tudo acontecia conforme a vontade de Aparecida. Fazia com os filhos o que seus avós lhe ensinaram desde cedo: tinham que ajudar nos afazeres de casa. Enquanto

Aparecida

e

Clarimundo

trabalhavam para pôr comida em casa, cada filho tinha seu dever como limpar a casa, cozinhar, lavar as louças, varrer o quintal.

Ela ensinou Ivone a

cozinhar bem novinha. Assim, trabalhava tranquila, enquanto a filha mais velha cuidava dos irmãos.

No ano de 1946, quando Clarimundo levava um dos filhos, a cavalo, para crismar na igreja de Igarapava, teve uma forte queda. Caiu do cavalo e

51


quebrou a perna, ficando imobilizado por muito tempo. O filho não se machucou. Com a perna toda imobilizada, Clarimundo ficou impossibilitado de trabalhar. Aparecida teve que

dobrar

suas

atividades

para

conseguir,

sozinha, o sustento da família. Sabendo disso, Nequinha buscou toda a família de Aparecida para morar em Nova Ponte. Foi na Fazenda Vitor José da Silveira que fizeram sua nova moradia. Aparecida foi trabalhar na lavoura daquela cidade. Em Nova Ponte, a escassez de professores era ainda maior. Perto da casa onde moravam, existia um salão que era pra ser uma escola, mas não havia professor. Vendo a necessidade daquele povo, Aparecida resolveu dar aulas. Não sabia muito, mas tinha prazer em ensinar. Pegou tanto gosto pela profissão que voltou a estudar. Durante o dia, estudava em Nova Ponte. À tarde, trabalhava na lavoura e, à noite, dava

52


aulas na zona rural, em duas turmas. Tudo o que aprendia, ensinava a quem precisasse. Clarimundo ficava com as crianças em casa, enquanto Aparecida passava o dia todo fora, trabalhando sem cessar. Ela não se queixava. Ao chegar em casa, já de noitinha, ainda cuidava do esposo com toda preocupação. Aos finais de semana, Aparecida também trabalhava. Ela não parava nem aos domingos para descansar ou ficar com a família. Em Nova Ponte, foi aperfeiçoando seus serviços como parteira. As famílias das fazendas vizinhas, que conheciam seu empenho e gentileza, sempre chamavam Aparecida para realizar algum parto. O esposo compreendia o empenho de Aparecida perfeitamente. Quantas vezes chegava visita na casa deles, seja família, parentes ou amigos, e ela não estava em casa. Algumas primas que, na infância, moraram com Aparecida na chácara de Igarapava, iam visitá-

53


la aos

domingos,

mas

não

a

encontravam.

Perguntavam para Clarimundo: - Cadê Aparecida? - Tá vendo menino nascer! - Mas desde que hora? - Desde cedinho. Um vizinho veio buscar ela a cavalo e ela foi fazer o menino nascer. Preocupa não, daqui um pouco ela chega! Era

sempre

assim

que

Clarimundo

respondia, naquela calma. Aparecida atravessava as fazendas a cavalo, de balsa, ou a pé mesmo. Prestativa demais, onde fosse preciso, ela ia. Passava horas sem comer nada, na casa dos outros que mal conhecia. Dependendo do caso, ficava o dia todo sem banho, sem nada, mas não arredava o pé de lá enquanto sua tarefa não estivesse

cumprida...

De

repente,

chegava

Aparecida toda suja em casa... Contribuiu com o nascimento de muitas crianças. E jamais cobrava por esse tipo de serviço.

54


Assim que a perna de Clarimundo melhorou, ele passou a dar aulas na mesma escola que Aparecida. Trabalhava na lavoura de manhã, dava aulas à tarde e ficava com os filhos à noite. A vida dentro de casa, naqueles tempos, era bem diferente do cotidiano que conhecemos hoje. Diálogo, quase não existia. Filhos tinham que obedecer qualquer coisa que os pais mandassem fazer. Ordem tinha que ser cumprida. Com os filhos, Aparecida era fechada. Não costumava

dividir

os

problemas

com

eles.

Necessidades ou brigas de qualquer casal ficavam só entre eles. Se os filhos notassem que ela estava triste e perguntavam, a resposta era sempre a mesma: - Não é nada! E também, isso é assunto de adulto. Apesar do seu “jeitão” sério e sistemático, Aparecida fazia questão de educar seus filhos muito bem. Impunha limites. Acreditava que se deixasse eles fazerem tudo que queriam, não ia dar 55


nada certo. Por isso, ensinou que cada um deve fazer sua parte em casa.

A casa era simples, não tinha nem rádio. Havia horta e alguns animais, como na chácara de Igarapava. “Naquele tempo, era fartura de água. Na fazenda onde a tia Aparecida morava em Nova Ponte tinha uma bica que passava dentro de casa. Ela nunca mandou canalizar essa bica d’água. Era bem no meio da casa. Ali era porco bebendo, galinha comendo e a gente brincando... Era bom demais.” – relembra Antonieta Ferreira de Sousa, sobrinha de Aparecida.

Foi em Nova Ponte que Nequinha teve sua filha, Antonieta Ferreira de Sousa. Além do trabalho como coletor, ele também entrou para a política. Foi presidente do PSD (Partido Social Democrata, fundado em 1945) e contou com a ajuda da sobrinha Aparecida, que trabalhou muito nas 56


campanhas. Andava a pé de uma fazenda para outra divulgando o trabalho do tio. Adorava a política. Ela também

adorava

novelas.

Naquela

época, passava no rádio, à noite, duas vezes por semana, a novela “O Direito de Nascer”. Como ela não tinha rádio em casa, ia pra cidade ouvir o capítulo e depois voltava pra fazenda. Mas não perdia nenhum episódio.

Na pequena Nova Ponte, eles moraram quatorze anos. Foi lá que os filhos de Aparecida e Clarimundo passaram a infância. Durante esse tempo, Aparecida completou o magistério e o casal melhorou

um

pouco

a

situação

financeira

trabalhando como professores, plantando lavouras e criando porcos.

57


CAPÍTULO III A VINDA PARA UBERABA

58


“O Boanésio tinha inteirado dez anos e eu não queria que ele ficasse só capinando, tinha de estudar.” – dizia Aparecida. Por isso, em 1952, Aparecida decidiu que queria melhorar a educação de seus filhos e, em Nova Ponte, não teria muita condição para isso. Decididos, ela e o marido mudaram-se para Uberaba, uma cidade pouco maior que Nova Ponte, onde teriam melhores possibilidades. De Nova Ponte a Uberaba não se gasta nem uma horinha de viagem. É bem próximo, mas Uberaba parecia se desenvolver mais. No tupi, Uberaba significa “águas cristalinas”. A cidade do Triângulo Mineiro passou de vila para a categoria de cidade no segundo dia do mês de maio de 1856. E foi em 1870 que criadores de Uberaba inseriram o gado zebu no Brasil. A cidade é conhecida nacionalmente por ser a “terra do zebu”, devido ao grande número de criadores dessa raça de gado. Evidentemente, ainda hoje

59


esse fato movimenta bastante a economia da região. Em Uberaba, a igreja matriz também fica no centro, como nas outras cidades do interior. A Igreja Catedral encontra-se na praça Rui Barbosa, onde a cidade nasceu. Nesse local, foi construída a primeira casa de Uberaba, pelo sargento-mór Antônio Eustáquio. Em meados do ano de 1952, quando chegaram a Uberaba, Aparecida e sua família se instalaram na chácara do João Laterza, localizada na rua Marquês do Paraná, no bairro Estados Unidos. Nesta casa, moravam de aluguel. Aparecida tomava conta de um depósito de materiais para construção do senhor Laterza. Além disso, plantou, dentro de sua casa, uma horta com várias frutas e verduras, que Clarimundo vendia para complementar o dinheiro para as despesas do mês. Na chácara do Sr. Laterza, moraram por dois anos e meio. Depois, alugaram outra chácara no 60


mesmo bairro, na antiga rua do Contorno (hoje, Carlos Maria Nascimento). A rua do Contorno era de pedregulho e o terreno, nada plano, era bastante escorregadio, ainda mais quando chovia. Aparecida

continuava

vendendo

suas

hortaliças. Porém, em um dia de tristeza e desperdício, após uma longa tempestade, as mudinhas

de

alface

e

dos

outros

legumes

encheram de areia. Não serviam mais pra vender. Aparecida então começou a desejar um emprego mais reconhecido, que pudesse dar aos filhos uma educação de valor. A família estava precisando de dinheiro.

No ano de 1956, enquanto Aparecida lavava sua horta, parou um carro em frente à sua casa. Era o doutor Jorge Azor, que gritou ainda dentro do carro: - Nêga, eu arranjei um serviço pra você.

61


Jorge Azor é um médico que Aparecida conheceu na cidade de Nova Ponte. O doutor conhecia

suas

habilidades

e

dedicação,

principalmente com os partos que fazia. Por isso, lembrou de Aparecida quando soube que surgiu uma vaga na Santa Casa de Uberaba. Nessa época, Ivone, a filha mais velha do casal,

também

procurava

emprego

e

se

interessou pela vaga que o doutor anunciou. Jorge levou

Aparecida

para

conhecer

o

setor

de

Isolamento da Santa Casa. Aparecida percebeu que o serviço não era adequado pra Ivone, já que sua filha não tinha experiência alguma. A vaga estava disponível porque todos tinham medo de trabalhar lá. Neste setor, ficavam os doentes que possuíam doenças contagiosas como tuberculose, hepatite e, naquela época, deu uma crise de febre amarela na cidade. Precisando trabalhar, Aparecida enfrentou tudo isso. Com a indicação do Dr. Jorge, logo foi contratada. Clarimundo ficava em casa cuidando 62


dos filhos, enquanto Aparecida trabalhava na Santa Casa. E Ivone era responsável por preparar as refeições para o pai e os irmãos. “A situação no isolamento era horrorosa. Tinha

um

doente

com

tétano,

outro

com

tuberculose intestinal, outros com febre amarela... Aquilo me confundiu muito. Não gostei do quadro, mas ele pagava três, quatro vezes mais do que eu tirava na chácara. Na época, era muito dinheiro... Fiquei no isolamento.” – relembra Dona Aparecida.

No

ano

seguinte,

em

1957,

algumas

surpresas começaram a acontecer. Chegou ao pavilhão

de isolamento

o

paciente Josaphat

Francisco Machado, portador da doença pênfigo foliáceo. “Entrei pra dentro não eram onze horas ainda. Cheguei na farmacinha e fui fazer minhas 63


orações pedindo ajuda para me conformar com o que eu tinha visto.” – recorda Aparecida.

A doença do pênfigo pode aparecer em qualquer pessoa, criança ou adulta, atingindo mais os moradores da zona rural. Ela manifesta-se por meio de bolhas rosadas que dominam o corpo com rapidez.

As

bolhas

ardem

e

coçam

muito,

provocando uma vermelhidão intensa. Por esse motivo,

é

chamada

vulgarmente

de

“Fogo

Selvagem”. A doença ainda não tem causa definida, mas até hoje não mostrou ser contagiosa. O pênfigo foliáceo surge na parte externa do corpo do doente, inclusive, no couro cabeludo. Existe também o pênfigo vulgar, ainda mais grave, pois ataca os órgãos internos. Ele pode atingir desde a mucosa da boca e até o tubo digestivo. O tratamento externo é feito através de banhos antissépticos, pomadas e linimentos. E o interno, à base de corticoides. O tratamento pode 64


demorar

anos,

dependendo

da

evolução

do

paciente.

Ainda em 1957, chegou ao isolamento um total de vinte e dois enfermos portadores do pênfigo foliáceo. E era Aparecida que cuidava desses doentes na Santa Casa. Passado um ano, apenas dez pacientes tiveram alta, pois se recuperaram melhor durante o tratamento. Porém, a diretoria da Santa Casa afirmava que o tratamento era caro e longo demais e julgava-se incapaz de manter os demais doentes naquela unidade hospitalar. “Eu estava dando café pros doentes, de manhãzinha, dia 08/10/1958, quando a nova diretoria da Santa Casa de Misericórdia chegou. Não entrou. Parou na porta e disse: - Hoje, a senhora pode mandar seus doentes embora, não tem almoço pra eles”. – conta Dona Aparecida. Todos os doentes começaram a chorar. Não tinham

pra

onde

ir,

muito

menos

dinheiro. 65


Aparecida tentava amenizar, mas a situação era complicada. Até então, Aparecida pensava em cuidar deles

somente

por

obrigação,

afinal,

estava

ganhando bem. Mas no momento em que eles estavam na rua, ela percebeu que os queria bem, ficou com dó. Sentiu vontade de ajudar. Aparecida saiu pela porta dos fundos da Santa Casa com os doentes. Foram juntos na rádio PRE 5 e fizeram um pedido de ajuda no ar. Não adiantou. Nenhum ouvinte se sensibilizou ao ponto de enviar algum auxílio. Ao

retornarem

ao

hospital,

entraram

novamente pela porta dos fundos, o necrotério. Apreensiva, Aparecida anunciou à diretoria que iria embora da Santa Casa se os doentes não pudessem ficar. Nessa hora, ela não imaginava que sua vida poderia mudar...

66


CAPÍTULO IV A LUTA COM A DOENÇA

67


Aparecida não pensou em mais nada, estava revoltada com o fato de os doentes não terem onde ficar. Decidiu então sair com os enfermos pelas ruas da cidade pedindo socorro, lamentando, implorando por ajuda. Mas, receosas por não conhecerem a doença, as pessoas estavam com medo de se aproximar. As feridas abertas pelo fogo selvagem são inimigas do calor. Por isso, não demorou muito para que os doentes, debaixo de um sol escaldante, começassem a sangrar. E mesmo precisando de repouso

e

medicamentos,

eles

continuaram

perambulando com Dona Aparecida pela cidade, em busca de um abrigo. O que mais doía em Aparecida não era nem o fato de os doentes não terem um lugar adequado para o tratamento, mas a necessidade urgente de um ombro amigo, um coração generoso. Era isso que eles mais precisavam naquele momento: vencer a barreira do preconceito.

68


O

dia

passa

lento

sem

que

eles

conseguissem qualquer ajuda. Além do cansaço e dos pés que sangravam, o calor do sol sapecava ainda mais a pele castigada pelas chagas da doença. Sem saída, Aparecida teve que tomar uma atitude: levou-os para sua casa na rua do Contorno, no bairro Estados Unidos. A chegada repentina de Aparecida com os doze enfermos em casa assustou muito Clarimundo e os filhos. Assim como as pessoas na rua, os filhos dela também não conheciam a doença, que acharam ser contagiosa. Indignados, marido e filhos ficaram sem conversar com Aparecida, pois julgaram sua atitude absurda. Naquele dia, ela pediu ajuda aos vizinhos. A casa era pequena demais para abrigar a todos. Um vizinho deu um caixote, outro deu um colchão, outro, um cavalete, e assim ela foi organizando todos dentro de casa. Mas Aparecida recebeu críticas de muita gente. Afinal, levar aqueles doentes para junto da 69


família era considerado insustentável, mas ela sabia o que estava fazendo. Mesmo abrigados, os doentes não paravam de chorar. Viam Aparecida como uma heroína, mas sabiam que não seria nada fácil. Davam as mãos, pois estavam no mesmo barco e lutariam juntos pela sobrevivência. No dia seguinte ao tumulto da chegada dos enfermos em sua casa, Aparecida acordou cedinho para providenciar um banho bem quente em cada um dos doentes. Em seguida, fez o almoço pra todos, quando os filhos a intimaram: - Mãe, a senhora escolhe: ou nós ou os doentes. - Hoje eu escolho os doentes porque eles só têm Deus e eu. Vocês podem se virar. – respondeu Aparecida sem titubear, mas com o coração partido. Diante daquela situação, Aparecida começou a refletir. Já moravam oito pessoas na casa, ela ainda pôs mais doze dormindo lá e, no momento, 70


ela estava desempregada por conta deles. O que iria fazer agora?

Dois dias depois, foram à casa de Aparecida o diretor da Escola de Medicina e o diretor da Saúde Pública. Sabendo da situação, ofereceram o necrotério do Asilo São Vicente para que os doentes pudessem ficar uns por dez dias, até conseguirem um lugar melhor. O asilo fica na rua Constituição, no bairro Abadia. A partir desse instante, Aparecida trocou a vida em família para morar com os doentes, e deixou os filhos com o esposo em casa. Afinal, já estavam todos grandinhos. Assim, continuou a assistência prestada aos que mais precisavam dela no momento. Desde que ela saiu de casa, houve grandes divergências entre Aparecida e o esposo. Em uma dessas contendas, ela vendeu alguns porcos que tinha com o marido em sociedade e usou o dinheiro para cobrir os gastos com os doentes. Clarimundo 71


então declarou que não entrava em sociedade com ela nunca mais, seja no que fosse. Com o passar do tempo, algumas pessoas começaram a ajudar. Pertinho do asilo havia terrenos baldios, onde ela plantou uma horta por um tempo, com o consentimento dos donos. Na medida em que os doentes melhoravam, eles iam trabalhar na horta para ajudar com as despesas. No pavilhão do asilo era também tudo improvisado. Aparecida dava banho nos doentes em tambores de óleo cortados ao meio. Mas entre campanhas

e

pedidos,

conseguia

suprir

as

necessidades. Alguns espíritas e familiares dos enfermos faziam campanhas de mantimentos, pedindo de porta em porta e doavam o que conseguiam para Aparecida. O trabalho realizado naquele lugar ficou conhecido pela região. Rapidamente, chegavam a Uberaba mais doentes com pênfigo procurando por socorro.

72


Em 1959, já haviam passado pelo pavilhão do Asilo São Vicente 43 doentes que Aparecida acolheu e curou. Os dez dias concedidos no Asilo prolongaram–se por dez anos, devido à urgência do tratamento daquelas pessoas. Na mesma

época,

aconteceu

um fato

marcante para a história da cidade. Em 05 de janeiro de 1959, mudou-se para Uberaba o médium Chico Xavier que, mais tarde, seria a figura espírita mais conhecida e importante do Brasil e um dos grandes amigos de Aparecida na luta contra o pênfigo.

Dentro do hospital, no asilo São Vicente, não havia quarto para Aparecida dormir. Ela deixava os doentes mais acomodados e dormia num cantinho da lavanderia. A lavanderia era um cômodo minúsculo onde havia inúmeras

cadeiras com aquelas

pilhas

enormes de roupas para passar. Num canto, ficava

73


um colchonete fino. Era lá mesmo que Aparecida dormia todas as noites, sejam frias ou de calor.

Foi em meados de 1960 que chegou ao hospital uma menina de Uberlândia, cidade próxima de Uberaba. A menina levava a vida de uma adolescente de quinze anos normal. Até o dia em que seu corpo amanheceu todo tomado pelo pênfigo. Inicialmente, as feridas assemelhavam-se a queimadinhos de cigarro que, aos poucos, foram aumentando. Seu nome é Marieta Rodrigues Pereira. Sua família era muito carente e se assustou demais com a doença. Ninguém sabia nem do que se tratava. Marieta parou de ir à escola, pois todos tinham medo dela, e até a família a evitava. Ela passou a viver trancada em seu quarto e chorava desesperadamente

com

o

rosto

debaixo

do

travesseiro.

74


Marieta passou alguns meses sem ver o sol, sem ver o movimento da rua, sem sentir o cheiro da chuva, até que, um dia, sua madrinha a visita com uma notícia: - Ouvi falar que tem uma senhora em Uberaba que pode cuidar de você. E é pra lá que eu vou te levar agora mesmo. – falou a madrinha, angustiada em ver a menina toda escondida debaixo do cobertor. Sem

esperanças,

Marieta

partiu

de

Uberlândia com sua madrinha, que a trouxe para Uberaba em busca de uma solução para seu problema. Dentro do carro, a jovem de 15 anos escondia seu rosto com um lençol. O rosto já havia sido tomado pela doença. Ela tinha vergonha. Nas pernas, as feridas se manifestaram de tal forma que ela não conseguia andar: uma perna grudava na outra. “Foi o dia mais feliz da minha vida! Quando eu entrei naquele lugar e vi um monte de pessoas 75


igual eu, fiquei aliviada. Aparecida abriu o portão e me recebeu com os braços abertos, me deu um abraço apertado. Já me pôs pra dentro e deu um banho, melhorei na hora!” – lembra Marieta com lágrimas nos olhos. Marieta não voltou mais para sua terra, ficou no hospital por um ano e conseguiu se curar. “Ah, eu tenho muita saudade de tudo lá dentro. Éramos todos irmãos e Aparecida, como uma mãe pra todo mundo. Ela dormia no chão da lavanderia todo dia e acordava cedinho, disposta, dava banho um por um.” – conta Marieta, emocionada. Mesmo livre da doença, Marieta não quis voltar para Uberlândia. Preferiu ficar morando no hospital e começou ajudar Aparecida. Afinal, ela salvou a sua vida. “Ela foi muito mais que uma mãe pra mim, ela que me ensinou tudo, me curou com todo o carinho do mundo.” – afirma Marieta.

76


A

partir

daí,

Marieta

passou

a

ser

companheira de Aparecida nas viagens para São Paulo. Pelo menos uma vez ao mês, iam para o Viaduto do Chá, na capital paulista, pedir ajuda. Aparecida

e

Marieta

sempre

estavam

acompanhadas de alguns doentes, para mostrar a realidade aos que passassem pelo viaduto. No chão, Aparecida esticava um lençol velho e cada doente segurava de um lado. Enquanto isso, ela ficava batendo um sininho para chamar a atenção dos transeuntes. Muitas pessoas ajudavam. Em São Paulo, elas colaboravam muito mais que na própria cidade de Uberaba, onde as pessoas podiam ver de perto a

necessidade

do

hospital.

Aparecida

foi

conquistando amizades na grande cidade... Elas iam às rádios, pediam ao vivo. Havia pessoas que ajudavam todo mês. Cada vez mais, Aparecida necessitava de doações maiores, pois não paravam de chegar doentes possuídos pelo fogo selvagem. Naquele 77


ano de 1960, passaram pelo pavilhão 187 doentes penfigosos.

Somente no dia 29 de abril de 1960, ou seja, um ano e oito meses depois de Aparecida sair da Santa

Casa

desabrigados,

com foi

os

primeiros

normalizado

doentes

legalmente

o

movimento hospitalar criado por ela. Denominado Associação

Hospital do

Pênfigo

Foliáceo

de

Uberaba, foi registrado na página 174 do livro número um do Cartório de Títulos e Documentos de Uberaba. Apesar de a limpeza ser peculiar no pavilhão do Asilo São Vicente, não havia mais estrutura para atender o grande número de enfermos devido à falta de espaço e precariedade de suas instalações. Já no início de 1961, foi registrado um total de 363 (trezentos e sessenta e três) vítimas do pênfigo. Construir a sede própria era o próximo sonho de Aparecida. Assim, os doentes teriam mais condições de tratamento. 78


No ano seguinte (1961), chegou ao recémcriado hospital ainda improvisado no asilo uma paciente com 12 filhos. “Eu não podia deixar eles. Aluguei uma casinha, perto do asilo onde eu estava, e fiquei criando elas. Aí veio mais dois, três, quatro e eu criava. A casa tinha três cômodos.” – conta Aparecida. Nessa casa, Aparecida também deixava os familiares dos doentes ficarem. Até mesmo outras pessoas que encontrava abandonadas na rua ela abrigava.

Aparecida

preocupava-se

ainda

com

a

educação de tanta gente que acolhia. Ela mandava as crianças penfigosas para as escolas estaduais do bairro, mas ninguém as aceitava por causa das feridas. As demais crianças se assustavam. Então, mais uma vez, ela montou uma escolinha ali mesmo onde tratava os doentes. Fez umas carteiras de caixote, pegou uma lona e abriu em um corredor que existia no asilo. 79


Para alguns doentes, em estado mais grave, Aparecida dava a lição escolar na cama mesmo.

Dona Aparecida com os primeiros alunos de sua escola

Ainda no ano de 1961, chegou a Uberaba um

doente

de

Patos

de

Minas

procurando

ansiosamente por Aparecida. Era João Alves da Silva que, após sofrer humilhação e desprezo até mesmo da própria família, soube da ajuda de Aparecida aos penfigosos.

80


Naturalmente, ele também foi acolhido com muito carinho por Dona Aparecida. Logo, já recebeu os cuidados necessários e melhorou um pouco. João Alves, mais conhecido como João Naí, deixou toda a família em Patos de Minas e veio morar no hospital com a “nova família”. Após sua cura, João Naí passou a trabalhar dentro do hospital. Ajudava nas hortas, capinava o terreiro... O que tivesse pra fazer, ele estava sempre preparado. Dentro do hospital existia realmente um ambiente familiar. Mesmo com tantas coisas pra fazer, Aparecida procurava dar atenção a todos, um por um. Na creche, ela gostava de estar rodeada pelas crianças.

Aparecida ganhava muitas coisas. Apesar das dificuldades, havia muitas doações. Adquiria alimentos, dinheiro, remédios e, assim, ia suprindo a necessidade do hospital e da creche.

81


Mas as despesas continuavam crescendo e Aparecida ainda alimentava o sonho da sede própria para acolher toda aquela gente. Então, ela resolveu ir novamente a São Paulo, com o intuito de recolher donativos para cobrir

os gastos

inadiáveis daquele mês. Chegaram à capital paulista cheios de esperanças Aparecida, Marieta e outros que já haviam se curado do pênfigo. Mais uma vez, ficaram no Viaduto do Chá e começaram a campanha de súplica aos que passassem por aquele local. O ano era 1964 e, daquela vez, tudo foi diferente. Autoridades chegaram ao local impedindo a continuação da campanha e fizeram acusações como se Aparecida pedisse dinheiro para ela. Duvidaram da existência do hospital que tratava dos penfigosos e a acusaram de manter uma entidade fictícia. Aparecida foi presa e lhe negaram até mesmo o direito de defesa. As centenas de 82


pessoas ajudadas por Dona Aparecida ficaram enlouquecidas diante dessa injustiça. Dentro

da

prisão,

revoltada,

mas

aparentando a calma de sempre, tentava convencer aquelas autoridades de que existia o hospital do pênfigo em Uberaba e que ele precisava de muita ajuda. Mas todos os depoimentos foram em vão. Continuavam duvidando da palavra dela. Foram oito dias de angústia, aflição e sentimento de indignação. Enquanto Aparecida estava presa, Marieta e os demais permaneceram no viaduto vendendo rifas. Só eles sabiam a necessidade que passavam naquele momento e, ainda, com a líder na cadeia por causa deles. Apesar da opinião contrária dos superiores, a liberdade foi dada a Aparecida. Porém, com uma condição:

ela

deveria

apresentar

atestados,

documentos (ou qualquer carta de reconhecimento da Entidade) afirmados pelo prefeito, vereadores, juízes e delegado de Uberaba.

83


Sem demora, Aparecida retornou a Uberaba e juntou todos os documentos. Foram mais de setenta

cartas

de

pessoas

que

sabiam

da

importância da instituição. Voltando a São Paulo, Aparecida apresentou os documentos e foi liberada. Entretanto, ficou proibida de promover suas campanhas até o fim do processo. Para se defender, Dona Aparecida contou com a ajuda voluntária da advogada Izolda Dias, de São Paulo. A doutora Izolda conhecia a eficácia de suas campanhas naquela cidade e a apoiou incondicionalmente. Depois de alguns meses, o processo foi encerrado, pois ficou constatada a veracidade de todas as informações prestadas. Aparecida passou a receber apoio de muitas pessoas famosas, como a cantora Amélia Rocha. Quando Amélia recebeu o disco de ouro, que era seu sonho, ela ofereceu todo o valor ao Hospital do

84


Pênfigo. O disco foi rifado. Esse valor já garantia toda a parte elétrica para a nova sede do hospital. “A TV Tupi me ajudou muito. Fiquei mais conhecida quando o Saulo veio a Uberaba. Ele filmou tudo lá no asilo, filmou os doentes e levou a fita. Lá em São Paulo, ele mostrou a realidade. Pelo meu traje, pelo meu aspecto, até duvidaram do que eu fazia. Depois, o povo passou a acreditar.” – recorda Dona Aparecida. Saulo Gomes é um jornalista que conheceu Aparecida fazendo reportagens para a TV Tupi. Ele passou a ser grande amigo e colaborador. Saulo arranjava caminhões com toneladas de doações e trazia para Uberaba. Dessa forma, a obra de caridade pela qual Aparecida lutava ficou conhecida nacionalmente. Até mesmo Sílvio Santos, durante algum tempo, mandava o caminhão do Baú trazendo comida. Aparecida chegou a ir a um programa dele, e fez um apelo em rede nacional. 85


Mesmo

num

programa

de

televisão,

Aparecida manteve seu jeito humilde. Com seu vestido florido e sandálias de dedo, conheceu vários artistas. Alguns deles, inclusive, a ajudavam mensalmente.

Com a divulgação do trabalho de Aparecida, os pacientes chegavam de lugares cada vez mais distantes. Um exemplo são as três enfermas que vieram da cidade Riolândia, interior de São Paulo. Quando se curaram, voltaram para sua terra e, com a ajuda dos maridos, fizeram uma grande festa para arrecadar dinheiro em gratidão a Aparecida. Durante o feriado de Finados, em novembro, os doentes saíram pelas ruas de Uberaba com Aparecida arrecadando ajuda para complementar o dinheiro do terreno. Os proprietários, Dr. João Bichuette e Mário Arruda, pediam pelo terreno Cr$ 300.000,00 (trezentos mil cruzeiros). “Comprei o terreno do Hospital. Não foi o quarteirão todo, aqui em volta tinha umas casinhas, 86


e eu fui comprando de uns, de outros... Era tudo buraco, só sinal de rua. O terreno era um mangueiral, comprei e paguei com o dinheiro de uma festa que fizeram na cidade de Riolândia.” conta Aparecida. Assim, começou a construção da nova sede do hospital do pênfigo. Enquanto isso, Aparecida continuou a cuidar dos doentes no asilo, enquanto criava as crianças na casa que fazia de creche. No final daquele ano, 1964, os primeiros alicerces concluídos.

da

construção

Começaram

do então

hospital

foram

a levantar

as

paredes para iniciar a parte do madeiramento.

Para aumentar ainda mais a alegria de todos, no final de 64, dois enfermos para os quais Aparecida

dava

a

lição

escolar

diariamente

conseguiram passar na prova para ingressar no Colégio Doutor José Ferreira. Para Aparecida, era a comprovação de que o pênfigo não afetava a capacidade intelectual dos pacientes. 87


No ano seguinte, 1965, mais cinco alunos também passaram na prova e começaram a quinta série. A primeira até a quarta séries eram cursadas dentro

do

ambiente

hospitalar,

durante

o

tratamento. O contentamento e orgulho de Aparecida e dos doentes eram perceptíveis. Entretanto, eles não puderam sequer iniciar o ano letivo. Os pais dos outros alunos estabeleceram que seus filhos não estudariam mais ali se os doentes do pênfigo frequentassem o colégio. Mais uma vez vitimados pelo preconceito e a ignorância, os doentes não poderiam continuar os estudos. Passaram três dias chorando e se alimentando

mal

devido

ao

acontecido.

Mas

Aparecida não desanimou. No dia seguinte, assim que o sol clareou, Aparecida pegou dois doentes e foi até a Inspetoria Seccional.

Intercedeu

por

eles,

pedindo

o

cumprimento do direito de acesso à escola. Afinal,

88


eles não poderiam ser vistos pela sociedade como seres humanos diferentes dos outros. Diante daquela cena,

a autoridade do

Ministério da Educação e Cultura não fechou as portas. Assumiu o compromisso de que os doentes teriam um bom ensino, mesmo que fosse dentro do hospital. Após

dois

dias,

membros

do

setor

educacional na cidade visitaram o hospital, que ainda se encontrava no Asilo São Vicente de Paulo, e admitiram o funcionamento de Classes Anexas do Colégio Dr. José Ferreira. Essa liberação foi feita pelo diretor do Ensino Secundário, autorizou

professor a

Gildásio

experiência

Amado,

“Escola

dentro

que de

Hospitais”. Durante vários anos, muitos professores lecionaram voluntariamente no hospital. Nunca houve

remuneração

para

os

docentes

do

estabelecimento. Nas aulas de Educação Moral,

89


era enfatizada a existência de Deus. Aparecida achava importante que todos tivessem fé. A escola dentro do hospital teve até um hino. A composição é da professora Maria Crema Marzola que, por muitos anos, contribuiu com trabalhos voluntários.

HINO DA ESCOLA Salve, Escola, querida e modesta Relicário de luz e saber Em um dia risonho de festa Gloriosa, queremos te ver!

Batida de sol ardente És do saber o fanal Que nos guia para a frente Bendita Escola do Hospital!

Através da lavoura florida Que a riqueza da Pátria produz Nossos pais vão lutar pela vida 90


E nós vimos em busca de luz.

Salve, Escola querida e modesta, De paredes branquinhas de cal És um dia risonho de festa Alegrando a vida do hospital!

A nossa alma formando enobrece Boa escola risonha e gentil, Ensinando a cantar como preces As cantigas do nosso Brasil.

91


CAPÍTULO V O LAR DA CARIDADE

92


No dia 24 de agosto de 1969, foi inaugurado o novo prédio do hospital na rua João Alfredo, no bairro Abadia. Todos os doentes foram transferidos para um lugar maior e com instalações adequadas para o tratamento do pênfigo. Diante de tantas finalidades do local onde, além de cuidar dos doentes, abrigavam-se as crianças e familiares dos enfermos, foi dado o nome Lar da Caridade. Nessa nova sede, Aparecida construiu um pequeno quarto para ela. Mais uma vez, seu esposo, Clarimundo, perguntou se ela não voltaria a morar com eles, mas Aparecida preferiu ficar no hospital.

Além de todas as atividades desenvolvidas, Aparecida criou oficinas dentro do Lar da Caridade para o dia a dia dos enfermos não ser tão monótono. Mas o intuito mesmo era propiciar a qualificação

profissional

de

seus

acolhidos.

Bordados, artesanatos, corte e costura, marcenaria, 93


panificação, reciclagem, serralheria e sapataria começaram a fazer parte da rotina dos internados. Vendo todo aquele movimento, graças à dedicação de Aparecida, seus filhos resolveram contribuir e passaram a ser voluntários nas oficinas. Os doentes que se curavam também ajudavam a ensinar os demais.

Dentre os enfermos do hospital, uma mulher se destacava. Ela era vítima de um grande transtorno conhecido como “obsessão espiritual” pelo Kardecismo. Essa doutrina moral de fundo religioso foi codificada por Allan Kardec na França. Sem saber como lidar com aquele transtorno, dona Aparecida resolveu procurar um centro espírita. Ela levou a doente até um determinado centro,

na esperança de melhorias

em seu

comportamento. Numa salinha simples, foram realizados os respectivos trabalhos espíritas. No dia seguinte, a surpresa: Aparecida recebeu no hospital lençóis, fronhas, pijamas, 94


toalhas de rosto e de banho, duas unidades para cada doente. E mais: três vestidos e um par de sapatos para Aparecida. O presente preocupou Aparecida, pois ela não revelava a ninguém que só possuía um vestido e, muitas vezes, andava descalça porque seu único chinelo estava gasto demais. E principalmente pelos conjuntos de roupas aos doentes, que ficavam nus após o banho, enquanto as únicas peças que tinham eram lavadas. Pois bem. O centro ao qual Aparecida recorreu no dia anterior era onde Chico Xavier trabalhava. Ela ainda não conhecia o Chico, nem seus trabalhos espíritas. Mas o médium premeditou e soube de todas as necessidades de Aparecida nos poucos minutos em que ela esteve no centro. Alguns dias depois, Aparecida recebeu a cobrança de uma firma onde ela devia o valor de doze cruzeiros referentes ao óleo de cozinha que precisou comprar fiado. Naquele dia, a comida seria

95


insuficiente para todos os doentes, pois as doações estavam no limite. Na mesma manhã, aparece Chico Xavier no hospital. Após se apresentar a Aparecida, ele lhe entrega um envelope com a quantia de trezentos cruzeiros. Sem entender, ela quitou a dívida com o armazém e supriu a despensa do hospital por mais uns dias. Aparecida não tinha costume de frequentar centros espíritas. Desde criancinha, ia às igrejas católicas. Mas ela se surpreendia cada vez mais com Chico Xavier, pois ele sempre aparecia na hora em que ela mais precisava. A partir disso, Aparecida resolveu ir algumas vezes ao centro espírita. Mas foi em São Paulo que se converteu de vez a essa religião. O centro, situado no bairro do Brás, fez Aparecida acreditar que aquilo não era brincadeira. Nesse dia, ao iniciar os trabalhos espíritas, as portas foram fechadas. Não havia ninguém conhecido de Aparecida. No terceiro andar do 96


centro, havia Dona Mafalda, uma enferma que não andava, pois sofria de paralisia nos membros inferiores. Aparecida subiu ao terceiro andar para se concentrar e rogar por Mafalda. Começaram a fazer o trabalho espírita, enquanto Aparecida só olhava. Naquela hora, sentiu uma energia diferente, seu coração pulsava mais rápido e ela chegou a ficar com medo. Depois dos passes realizados dentro do centro, dona Mafalda andou. Ao ver esse milagre, Aparecida passou a ser espírita. Dona Mafalda começou a visitar o hospital com frequência, ajudando nas campanhas voluntárias. Chico Xavier também estava sempre com Aparecida. Dentro do lar ou nas reuniões espíritas, foram grandes companheiros. Ele ajudava o lar com as campanhas e conseguia arrecadar muitas coisas.

97


Dona Aparecida ampara o amigo Chico Xavier no corredor do Hospital do Pênfigo junto a outros companheiros dele

Devido ao grande número de crianças que chegavam, filhas de doentes, Dona Aparecida fundou a Casa Izabel de Aragão. Uma creche para cuidar dos filhos dos enfermos e outras crianças cujos pais não tinham condições de criar. A creche recebeu este nome, pois Izabel de Aragão era um espírito de elevada condição relatado por Chico Xavier. Em vida, ela foi rainha de Portugal e ficou conhecida com rainha santa, por amparar os necessitados. 98


No início da década de 70, Aparecida descobriu que tinha diabetes. Sua glicose estava bastante alterada e ela devia tomar os devidos cuidados. Para regular o nível de açúcar no sangue, Aparecida comia sementes de laranja, sem aquela primeira casca, só a sementinha mesmo. Para ela, era um santo remédio. Aonde ela ia, carregava a sacolinha de plástico cheia das sementes de laranja. Com esse método simples, ela se sentia bem. Afinal, ela sempre foi saudável e disposta e, após tantos anos convivendo com a dor e o sofrimento extremos provocados pelo fogo selvagem, o diabetes certamente não a assustaria.

Dois anos mais tarde, em 1972, chegaram duas crianças pedindo ajuda no Lar da Caridade. Uma menina

de sete anos

carregando sua

irmãzinha no colo, de um aninho apenas. A criança maior afirmava que seus pais tinham se separado e que o pai não poderia ficar com as duas filhas. Ele mesmo a levou na porta do 99


lar. A criança mais nova ficou com Dona Aparecida e a irmãzinha de sete anos foi embora com o pai. Dora de Castro foi criada no Lar da Caridade. Desde o primeiro momento, Aparecida não negou ajuda. Pôs a menina na creche junto com as outras crianças e ali ela foi crescendo. “A Dona Aparecida punha a família dela pra cuidar das crianças, enquanto ela cuidava dos doentes. Era muita gente, muita criança, mas o que ela podia fazer, ela fazia por todos.” – relata Dora. Dora conta um pouco sobre o jeito de Aparecida: “Ela sempre foi muito séria. Pra arrancar um sorriso dela, era difícil, porque era muita coisa pra ela preocupar. Quando ela chegava no armazém e via que tava acabando as coisas, ela ficava brava, porque aí ela ia pra São Paulo buscar ajuda”. E complementa: “Era tão brava que ela falava uma vez só, a gente já entendia!”. Dora mostra um sorriso ao se lembrar de sua infância no lar. Ela conta que Aparecida gostava de 100


comer carne de porco, pamonha, doce e, quando tinha uma de suas comidas prediletas, ela se fartava. “Aparecida comia muito e não deixava de tomar a cervejinha no final de semana. Era o único vício que ela tinha, tomava a cerveja dela quietinha no

quarto

dela

sozinha

e

ouvindo

Nelson

Gonçalves. Aí. todo mundo tinha que ouvir junto!” (risos) Dora lembra ainda que Aparecida raramente saía do hospital. Era só pra ir ao centro espírita ou quando viajava pra São Paulo em busca de ajuda. Caso contrário, estava sempre lá. Ela

cresceu

no

lar.

Aos

doze

anos,

Aparecida colocava as meninas na oficina de costura, bordado. Quando

Dora

completou

dezoito

anos,

Aparecida levou a jovem até São Paulo para ajudála com o que fosse necessário. Num momento de descuido, Dora engravidou de um motorista.

101


Retornando a Uberaba, Dora contou a Aparecida sobre a gravidez: “Aí ela falou que eu não ia ficar mais lá, porque eu já estava com 18 anos e tinha que criar minha filha. Tudo o que ela podia fazer pra mim ela já tinha feito”. Dora não se sentiu desamparada, pois já tinha aprendido como se virar. A partir desse dia, se despediu do lar e foi criar a sua filha. “Ela foi a minha mãe. Pra qualquer filho é um orgulho muito grande ter uma mãe tão guerreira!” – afirma Dora. Dora de Castro até hoje vive da costura. Ela reside com sua filha na mesma rua do hospital e, sempre que pode, passa lá para matar a saudade.

Já Regina Beatriz foi professora de costura voluntária no Lar da Caridade. Essa atividade era voltada para meninas de 12 a 18 anos, abrigadas do lar. “Falar da Vó não tem explicação. Ela é mãe, é vó, é tia... É tudo. Quando precisa, ela dá bronca, 102


e ela tem razão, senão não dá conta, é muito filho, muito neto... Sempre presente, em tudo pode contar com ela.” – emociona-se a costureira.

No ano de 1973, chegou ao lar uma garota recém-nascida chamada Cleonice Rodrigues de Souza. Abandonada pela mãe ao nascer, a garota foi encaminhada pelo Juizado de Menores e Aparecida a acolheu no lar. “Eu lembro que o Chico Xavier ia na creche e enquanto não abraçava um por um ele não ia embora.” – recorda Cleonice. Quando

completou

18

anos,

Cleonice

conheceu a sua mãe biológica. Mas ela se sentia deslocada na família, estava acostumada com o Lar da Caridade. Então, preferiu morar na instituição. Afinal, foi lá que ela aprendeu

a costurar,

datilografar e cozinhar durante toda sua infância e adolescência. Cleonice se formou em Contabilidade. Foi quando Aparecida informou que precisava de uma

103


pessoa no escritório. A menina que cresceu ali passou então a ser funcionária do hospital. “Foi a Vó Cida que me ensinou tudo que eu sei. Ela me criou, me mostrou o certo, me fez virar gente. Eu sou muito grata por tudo que ela fez por mim, até por esse emprego onde estou até hoje. Ela sempre se preocupou com nosso futuro, colocou a educação e o amor acima de tudo.” – fala Cleonice, que carinhosamente chama Aparecida de avó.

Cleonice com a “vó” Cida no Lar da Caridade

104


Ao longo de muitos anos, foram realizados dentro do hospital trabalhos espíritas para os que careciam

de tratamento espiritual. Diante da

necessidade crescente desse tipo de trabalho, em 06 de outubro de 1975, Aparecida inaugurou o Centro Espírita Deus e Caridade, situado na rua Patos, 250, em frente à creche, na rua paralela ao hospital. A inauguração contou com a presença de Chico Xavier.

Já em 1979, Aparecida resolveu iniciar mais uma atividade no Lar da Caridade: a reciclagem do plástico, transformado novamente em matériaprima. Todo plástico usado reaproveitado.

Saquinhos

no hospital de

leite,

era

copos

descartáveis, garrafas de água, etc., tudo tinha utilidade. O material passava por várias etapas até chegar à fase final e ficar pronto para ser vendido às indústrias de plástico. Essa atividade teve papel 105


importante na inserção dos jovens abrigados por Aparecida no mercado de trabalho.

Em

1984,

Aparecida

e

Clarimundo

comemoraram cinquenta anos de casados. Mesmo não vivendo debaixo do mesmo teto, um estava sempre a ajudar o outro. Com o passar dos anos, Clarimundo aceitou o fato de sua esposa residir no hospital com os doentes pelos quais lutava sem descanso.

Aparecida e seu esposo Clarimundo na comemoração das Bodas de Ouro, em 1984

106


Desde o ano em que Aparecida saiu de casa para se dedicar às vítimas do fogo selvagem, o casal não morou mais junto, porém eles jamais se separaram. Aparecida só teve Clarimundo como companheiro. Ele também só teve a ela. No ano de 1986, a escola que Aparecida havia implantado estava cada vez mais difícil de manter, devido ao grande número de alunos. Então, ela decidiu pedir ajuda à prefeitura de Uberaba, que resolveu municipalizar aquela instituição de ensino. A escola passou então a se chamar Escola Municipal Adolfo Bezerra de Menezes, concedida pela

Campanha

Nacional

de

Escolas

da

Comunidade (CNEC). A escola, situada na rua Patos, 249, no bairro Abadia, mantém aulas da primeira à oitava séries. Essa realização se deve ao prefeito da época, Wagner do Nascimento, e ao secretário da Educação e Cultura, José Thomaz da Silva Sobrinho. 107


Como se não bastassem todas as obras e oficinas mantidas no Lar de Caridade, além da fábrica de reciclagem de plástico, Aparecida criou ainda outros setores para que os jovens pudessem se ocupar. Serralheria, padaria, confecção, bazar, marcenaria, açougue, granja foram alguns deles. Todos esses departamentos foram criados com a finalidade de profissionalizar os abrigados e, de alguma forma, trazer recursos financeiros para a instituição. Com

o

passar

dos

anos,

Aparecida

conseguiu trazer mais e mais benefícios para dentro e fora do lar. Os moradores do bairro, por exemplo, ganharam uma farmácia com remédios gratuitos. “Eu ganho muita amostra, muito remédio, e a maior parte a gente não usa. Tem uma farmacêutica que cuida disso lá. Quem precisa traz a receita, o que tem eu dou.” – diz dona Aparecida.

Um consultório dentário também foi instalado dentro do lar. Ele surgiu devido ao receio percebido 108


pelos doentes nos profissionais dos consultórios convencionais. Estagiários da Universidade de Uberaba cuidam do tratamento dos dentes dos enfermos residentes. Além disso, também há estagiários de Psicologia para os que precisam. Esse serviço é aberto à comunidade também, basta agendar.

Antônio Roberto de Paula Teixeira, em 1998, começou a trabalhar na fábrica de plástico formada por dona Aparecida. O jovem de vinte anos trabalhou por um ano na fábrica, quando a fundadora do lar chamou-o para ser motorista. No mesmo ano, o rapaz iniciou seu novo cargo: motorista da van do hospital. O trabalho de buscar e levar os doentes ao médico e trazer mercadorias é ele quem faz. Antônio

Roberto,

mais

conhecido

por

Robertinho, conheceu Isa Ananias Cabral dentro do lar. A moça também foi umas das “filhas” criadas

109


por Aparecida no hospital. Namoraram e, mais tarde, se casaram com a bênção de Aparecida.

Em meados do ano 2004, Aparecida perdeu parte da visão. O diabetes, quando não tratado adequadamente, pode causar

até a cegueira

completa, entre tantos outros problemas. Robertinho, o motorista da instituição, conta que, mesmo com a visão desgastada, dona Aparecida cortava a couve fina como ninguém quando preparava a comida. “Ela já enxergava pouquinho, eu ficava com medo dela cortar o dedo de tão fininha que picava a couve para o almoço”. – lembra o rapaz. Certo dia, Aparecida chamou Robertinho num canto e entregou-lhe alguns sacos repletos de algodão. - Meu filho, põe na van e leva lá pro Hospital da Criança.

110


Sem

perguntas,

Robertinho

cumpriu

a

ordem. Chegando ao Hospital da Criança de Uberaba, tirou os sacos de algodão da van e entregou-os a uma enfermeira. A enfermeira, com os olhos cheios de lágrimas, recebeu o algodão e disse a Robertinho: -

Como

você

sabe

que

estávamos

precisando de algodão? Acabou tudo hoje e eu não tive coragem de contar a ninguém que estava em falta. Eu tava aflita sem saber o que fazer. - Foi a dona Aparecida do Hospital do Pênfigo que mandou pra vocês. – responde Robertinho. - Só pode ser um socorro do céu, pois ninguém sabia que o algodão tinha acabado hoje. – completa a enfermeira. Naquele momento, Robertinho voltou aos seus afazeres satisfeito pela boa ação que havia presenciado.

111


Aparecida tinha o costume de levantar todos os dias às cinco da manhã para fazer o café para todos. Certo dia, ela levantou às seis e estranhou. Estava tudo escuro ainda. Assustada, chamou a enfermeira. Quando soube que o diabetes havia deixado ela cega, Aparecida falou: - Deus seja louvado! Se ele quis assim... Após esse fato, foram colocados cordões por todos

os

lados

conseguisse

no

transitar

hospital pelos

para

que

corredores

ela com

segurança, segurando o cordão.

Na manhã do dia 22 de dezembro de 2009, para a comoção de toda a cidade, faleceu dona Aparecida, aos 95 anos. Sua sobrinha, Antonieta conta: “Muita

emoção,

muita

dívida,

isso

preocupava ela demais. Depois que morreu o tio que era pai, o marido, começou a sair umas feridas na perna dela, a diabete foi voltando a ponto de dar 112


a cegueira. Ela já estava muito idosa, parou o rim, foi parando os órgãos. As irmãs também tiveram diabetes. Muitos da família, inclusive, também morreram por causa dessa doença.” O corpo foi velado na instituição que ela criou. Menos de uma hora depois de sua chegada, trezentas pessoas já estavam reunidas em filas para dar o último adeus a Aparecida.

Durante

todos

esses

anos,

Aparecida

recebeu muitos títulos e homenagens públicas de reconhecimento ao trabalho pelo qual dedicou sua vida. A obra assistencial continuou na cidade de Uberaba, do mesmo jeito que ela deixou. Hoje, o número de enfermos no hospital é menor, apenas nove internos. Outros penfigosos com situação menos elevada, vêm ao hospital uma vez por semana receber o medicamento.

113


Atualmente, quem toma conta de toda a presidência da instituição é Ivone Aparecida, neta de dona Aparecida. Filha da Ivanda.

Mesmo com toda a obra de caridade edificada e a vida de pura benevolência a que Aparecida se dedicou na cidade de Uberaba, ela ainda dizia: “Eu não aprendi a ter amor. Eu tenho amor, mas não sei dar”. Pode parecer absurdo aos nossos ouvidos, mas Aparecida acreditava não saber dar amor por não ter conhecido carinho da mãe. Por mais que seu tio Nequinha lhe tenha dado educação, ele, a vó Canuta e todos que a rodeavam não mantinham o costume de pegar no colo, acarinhar. Por isso, ela dizia que todo o amor que tinha guardava só para ela. “Eu não sei demonstrar”, afirmava. Mas tudo que Aparecida Conceição Ferreira fez

ao longo da

vida foi somente

demonstrar e dar a mais abnegada forma de amor.

114


Bibliografia:

BUENO, Izabel. Uma vida de amor e caridade. 3º Edição. Belo Horizonte: Editora Espírita Fonte Viva, 2002. CASTRO, Ruy. Estrela Solitária. Um brasileiro chamado Garrincha. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. São Paulo: Edições Loyola, 1996. NATÁLIO, Rodolfo. Retrospectiva Uberaba 2009. JORNAL DE UBERABA. Uberaba: 31/12/2009. Disponível em http://www.jornaldeuberaba.com.br/?MENU=Cadern oA&SUBMENU=Cidade&CODIGO=34547. Acesso em 14 de set. 2010. PAIVA, Carlos. Exemplo de vida. JORNAL DE UBERABA. Uberaba: 23/12/2009. Disponível em <http://www.jornaldeuberaba.com.br/?MENU=Colun as&SUBMENU=CarlosPaiva&CODIGO=5005>. Acesso em 14 de set. 2010. RAMOS, François. Aparecida Conceição. SOCIEDADE ESPÍRITA ANDRÉ LUIZ. [sl] 31/01/2010. Disponível em <http://www.seal.org.br/index.php?option=com_cont ent&view=article&id=1358:aparecida115


conceicao&catid=37&Itemid=3>. Acesso em 15 de fev. 2010. SALVADOR, Maria das Graças. UFTM encampa Hospital do Pênfigo. JORNAL DE UBERABA. Uberaba: 17/04/2010. Disponível em <http://www.jornaldeuberaba.com.br/?MENU=Cade rnoA&SUBMENU=Cidade&CODIGO=36353>. Acesso em 15 de set. 2010. SOUZA, Luciana Alves de. Uma história de amor construída pelo bem. REVELAÇÃO ONLINE. Uberaba: Disponível em <http://www.revelacaoonline.uniube.br/a2002/gente/ aparecida.html>. Acesso em 15 de set. 2010. SOUZA, Luiz Carlos. Hospital do Pênfigo pede ajuda. JORNAL ESPÍRITA DE UBERABA. Uberaba: Disponível em <http://www.jornalespiritadeuberaba.com/HOSPITA L%20DO%20P%C3%8ANFIGO%20PEDE%20AJU DA.htm>. Acesso em 30 de ago. 2010. VENDRAMINI, Renata. Uberaba perde fundadora do Hospital do Fogo Selvagem. JORNAL DE UBERABA. Uberaba: 23/12/2009. Disponível em http://www.jornaldeuberaba.com.br/?MENU=Cadern oA&SUBMENU=Cidade&CODIGO=34442. Acesso em 14 de set. 2010. VILAS BOAS, Sérgio. Biografias e Biógrafos. São Paulo: Summus Editorial, 2002. 116


Uma vez, uma de suas crianรงas perguntou: - Dona Cida, como a senhora conseguiu fazer tudo isso aqui sozinha? Aparecida respondeu: - Basta querer!

117

Tcc mariany aquino livro reportagem aparecida 2011 1  

É um Livro -Reportagem feito pela aluna Mariany Aquino, que conta quem é Dona Aparecida Conceição Ferreira, além do pênfigo. Também conhec...

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