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França X Estados Unidos: análise comparativa de um filme com roteiro original francês e seu remake norte-americano1 Felipe Augusto Ayer DE NEGRI2 Cintia Cerqueira CUNHA3 Universidade de Uberaba, Uberaba, MG

RESUMO O trabalho propõe a análise de um filme francês e sua releitura americana. Depois de percorrer o surgimento, alcance e influência do cinema, vemos que desde os primórdios deste veículo de comunicação os dois países enfatizam pontos completamente diferentes em suas produções cinematográficas. A França dá mais importância ao conteúdo e os Estados Unidos valorizam a técnica mais avançada. Os dos filmes analisados, Trois hommes et un couffin (França, 1985) e Três Solteirões e um Bebê (Estados Unidos, 1987), diferem também na ideologia que pretendem passar, levando uma mesma história a ser contada de maneiras totalmente diferentes. PALAVRAS-CHAVE: cinema; Hollywood; homens; solteirões; remake; bebê; França. INTRODUÇÃO O remake é uma prática antiga que data desde o começo do veículo cinema. É uma obra baseada em uma outra obra previamente lançada. No cinema, há três tipos de remake. O Remake Disfarçado é aquele que traz uma adaptação com pequenas mudanças para a obra, com novas personagens, novo título, novos cenários. Ele não necessariamente tenta esconder suas raízes, podendo trazer referências ao original. O Remake Direto é aquele que pode até trazer novos elementos, como um novo título, mas sua narrativa não esconde o fato de ser baseado em uma obra anterior. O Não-Remake é aquele que tem o mesmo título como referência ao original, mas não traz muito elementos dele. Tem uma história totalmente nova. (Verevis, 2006) Remakes domésticos, feitos a partir de filmes da mesma nacionalidade, são taxados apenas como superiores ou inferiores ao original. Quando o filme refilmado, principalmente em Hollywood, é baseado em um filme estrangeiro, ele é taxado de pirataria cultural e os roteiristas americanos são acusados de bancarrota de criatividade. (Forrest, Koos, 2002). A partir dos anos 1980, nos Estados Unidos, houve uma onda de remakes baseados em filmes franceses que dura até hoje. Um dos remakes norte-americanos mais famosos e comentados pela crítica, imprensa e pesquisadores da área é do filme Trois Hommes et Un 1

Título do Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Comunicação Social (habilitação em Jornalismo) da Universidade de Uberaba em 2010. 2 Graduando em Comunicação Social (habilitação Jornalismo) e autor da monografia. E-mail: felipedenegri@gmail.com . 3 Orientadora do trabalho. E-mail: cintia.cunha@uniube.br .

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Couffin (França, 1985), refilmado dois anos depois nos EUA com o nome Three Men and a Baby (EUA, 1987). No Brasil, os filmes chegaram em VHS com os títulos Três Homens e Um Bebê e Três Solteirões e Um Bebê, respectivamente. O francês permanece inédito em DVD no Brasil. A comparação entre os filmes francês e americano é o foco da monografia, que analisou as diferenças e adaptações dos roteiros, cenas, temporalidade, foco temático, ideologia etc. OBJETIVOS A proposta da monografia é analisar o tratamento dado pela França e pelos Estados Unidos à história contada nos dois filmes, um europeu original e o outro remake hollywoodiano. Para isso, aponta as principais diferenças entre os roteiros original e adaptado quanto ao enredo e seus personagens centrais. E, num segundo momento, percebe as adaptações feitas de um país para o outro. Outro objetivo é questionar a suposta decadência do “cinema arte” francês em contraponto com a chamada “bancarrota de criatividade” do cinema hollywoodiano que estaria – segundo alguns autores – pirateando culturas de outros países. JUSTIFICATIVA Como meio de comunicação de massa, o cinema pode retratar parte da realidade, situações que refletem um pouco do cotidiano e da cultura em que os realizadores do filme e o público ao qual este é destinado estão inseridos. O cinema revela costumes, cultura, lança moda, gírias, faz com que o público se identifique com personagens e situações. Quando um filme é exportado leva todos esses elementos a outros países. Por conta disso, justifica-se a análise comparativa dos filmes em questão, visto que o cinema influencia a forma de pensar e agir das pessoas e define, inclusive, padrões de comportamento. O filme americano chegou aos cinemas brasileiros e o francês, só em home video. A análise torna-se interessante visto que, graças à supremacia mundial de Hollywood, a versão americana é possivelmente mais conhecida em todo o mundo, em detrimento do roteiro original francês.

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Diante do contexto acima, houve a venda e exposição, para a maioria absoluta dos espectadores, da cultura e visão norte-americanas das situações retratadas no filme, que fogem, em parte, à ideia original da roteirista e diretora do filme francês Coline Serreau.

METODOLOGIA E DESCRIÇÃO DO PRODUTO O trabalho foi realizado a partir de uma pesquisa bibliográfica de obras previamente selecionadas. A análise de dois filmes, o primeiro francês original e o segundo um remake americano, foi feita com base nos dados retirados da pesquisa bibliográfica. A monografia foi dividida em cinco capítulos e conclusão. O primeiro capítulo, o cinema como veículo de comunicação de massa, traz a primeira exibição cinematográfica; a ideologia burguesa; os primeiros filmes e a evolução do cinema; o cinema como instrumento de propaganda ideológica; as diferentes linguagens e o cinema como produto à venda. O segundo capítulo enfoca o cinema na França contando uma breve história do cinema francês; a invenção dos gêneros; o Avant-garde e os movimentos autorais; a Nouvelle Vague, a nova onda francesa; os anos 80 e o Cinéma du look e o mercado europeu atual. O terceiro capítulo descreve um pouco do cinema nos Estados Unidos, contando uma breve história do cinema americano. Ele enfoca os seguintes aspectos: a montagem invisível; o advento do som; o sistema de estúdio; a televisão e o Home Video e o mercado norte-americano hoje. A problemática do remake é o tema do quarto capítulo, que responde à pergunta “o que é um remake?”; descreve os tipos de remake existentes; aborda o mercado dos remakes; traz alguns exemplos de remake e fala sobre os bebês como objeto de estudo. A análise dos filmes escolhidos entra no quinto capítulo que descreve, separadamente, o original francês e seu remake; traça as diferenças fundamentais entre eles; discute a afirmação da autoridade e a ambivalência entre o certo e o errado; mostra as adaptações culturais, a questão dos gêneros e da sexualidade e discute a suposta decadência do “cinema arte”.

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REFERENCIAL TEÓRICO Na França, berço do cinema, ainda na década de 1920, começaram os movimentos cinematográficos nacionais, como o Surrealismo, por exemplo. Segundo o cineasta JeanClaude Bernardet (1980), em seu livro O que é Cinema, eles eram encabeçados por cineastas idealistas que queriam fazer do cinema uma verdadeira obra de arte, assim como a pintura, literatura e música. De acordo com o cineasta Adriano Medeiros da Rocha (2006), no final da década de 1950, a França via o surgimento do seu maior e mais marcante movimento, a Nova Onda Francesa. Ela tinha como intuito quebrar todas as regras que Hollywood tinha imposto como padrões cinematográficos. Jean-Luc Godard, o cineasta mais conhecido desse movimento, realizou filmes que contavam com cortes abruptos, lacunas temporais, falta de explicações na trama e alguns atores que não tinham experiência no ramo, eram simplesmente pessoas “normais’. Tudo que Hollywood repudiava. Nos Estados Unidos, o cinema mudou de rumo em 1915, quando um cineasta realizou um filme que marcou para sempre a linha entre o cinema primordial e o cinema maduro. Segundo Bernardet (1980), a edição com cortes invisíveis de D.W. Griffith fazia com que o espectador esquecesse que estava vendo um filme, quase o levando para dentro dele. Na mesma época, França e Estados Unidos experimentaram o cinema com som e, um pouco depois, em cores. Desde então, inúmeras tecnologias têm sido criadas para aperfeiçoar a qualidade técnica dos filmes, principalmente nos Estados Unidos. Muitos outros progressos importantes ainda revolucionaram a trajetória e o mercado cinematográfico, mas o professor de história do cinema americano, Antonio Carlos Gomes de Mattos (2006), nos conta que o advento do mercado de home video, apresentado na década de 1980 nos Estados Unidos, rendeu (e ainda rende) muito dinheiro para os grandes estúdios. Aluguel e vendas dos filmes através de fitas VHS e DVD’s provaram ser um mercado promissor ainda na década de 1980. O merchandising envolvendo cinema também alavancou os lucros dos grandes estúdios. Segundo Lucy Mazdon (2000), pesquisadora na Universidade de Southampton, Hollywood desencadeou, na década de 1980, uma grande produção de filmes baseados em outros filmes previamente lançados: o remake, prática que data dos primeiros dias do veículo. A grande fonte de “inspiração” americana foi, inicialmente, a França. Existem mais 4


de vinte filmes realizados nos Estados Unidos nas décadas de 1980 e 1990 que têm como fonte de conteúdo filmes franceses. As acusações das práticas americanas de refilmagem vêm de todos os lados do Atlântico e apontam para diversos lados. Jennifer Forrest e Leonard Koos (2002) citam vários autores e críticos, que acusam a falta de criatividade dos roteiristas americanos, que não conseguem atingir as metas exigidas por Hollywood; a padronização dos valores impostos por Hollywood, como perfeição técnica do filme, estrelismo, filme que corresponda e agrade ao público americano; filmes voltados à cultura americana (língua, estilo de vida, etc); exclusão dos filmes de outras nacionalidades, protegendo os valores de Hollywood como o único padrão aceitável; filmes “formatados” para agradar à enorme audiência mundial (não conter nudez, referências à homossexualidade, ambivalência de valores, etc.), entre outros. É possível analisar diversas diferenças, não somente culturais, mas também ideológicas, em remakes americanos de filmes franceses. O filme estudado, Três solteirões e um bebê (EUA, 1987) é um remake do filme Três homens e um bebê (França, 1985). Entre eles, uma das diferenças mais notáveis é o apartamento em que residem os três personagens principais. No filme francês, o apartamento parisiense é escuro, cheio de sombras e tons escuros, enquanto no remake americano, o apartamento é bem iluminado, claro e cheio de vida. O filme francês é mais ambíguo, com mais pontas soltas, deixando algumas conclusões ao espectador, enquanto o americano tenta amarrar todas as tramas e entregá-las “mastigadas” para a plateia. A trama da droga é exemplificada por Mazdon (2000). No filme francês, a polícia é atrapalhada, principalmente quando o jovem policial perde uma chance de prender os traficantes em flagrante. No filme americano, a polícia é uma autoridade inquestionável, está presente em mais momentos do filme e não é facilmente enganada. Enquanto no francês a polícia deixa os bandidos escaparem, no americano ela consegue prender os bandidos em flagrante e com uma confissão gravada com ajuda dos protagonistas do filme. Segundo Mazdon (2000), a rotina de cuidar de uma criança estranha é melhor retratada no filme francês quando ele mostra a face entediante da puericultura. Mesmo assim, os três homens (um deles o pai) conseguem desenvolver laços afetivos com ela. No americano, apesar das dificuldadades iniciais, o bebê é “absorvido” na rotina dos três, sugerindo que cuidar de uma criança é sempre fácil e divertido.

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Mazdon (2000) argumenta que a sexualidade também é um fator a ser considerado quando se compara os dois filmes. O filme francês parece não se importar de sugerir algumas conotações homossexuais entre os homens que dividem o apartamento, nem em tratar as mulheres apresentadas no filme como incompetentes para cuidar da criança (todas as mulheres relevantes se baseiam em conhecimento científico para se referir aos cuidados com o bebê). Já o remake americano tenta excluir qualquer sugestão de homossexualidade ao afirmar repetidamente uma heterossexualidade promíscua, representada através de inúmeras mulheres que entram e saem do apartamento sugerindo que os homens são dados a aventuras e vida boêmia. As mulheres do filme, porém, se mostram preocupadas com a criança, mas se recusam a carregar um fardo que não é delas, indicando que elas até dominam a puericultura, mas que essa atividade também deve ser realizada pelo homem. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da análise, pôde-se comprovar que a prática do remake é um tanto predatória, normalmente visa o lucro e descaracteriza a história original. O filme francês mostra a rotina entediante da puericultura e a identidade masculina em crise, em uma narrativa mais ambivalente e, portanto, mais próxima da realidade. O remake americano é completamente amarrado, não deixa pontas soltas para o espectador interpretar e delineia nitidamente a fronteira moralista entre o certo e o errado, punindo o errado e glorificando o certo. A rotina divertida da puericultura e a afirmação da identidade masculina heterossexual, entre outras adaptações, mitificam a realidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AUGUSTO, Isabel Regina. Dos céus de Berlim a Los Angeles city. O cinema e a estética contemporânea: case studie de canibalismo midiático. Disponível em http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/conexao/article/viewFile/112/103 Acesso em 20 de ago. 2010 AUSTIN, Guy. Contemporary French cinema: an introduction. Disponível em http://books.google.com.br/books?id=-Bbxa3q3ZZAC&pg=PA119&dq=&hl=ptbr&ei=PUHITN6RFs6s8Ab67Yki&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1&ved=0C CwQ6AEwAA#v=onepage&q&f=false Acesso em 20 de ago. 2010 BERNARDET, Jean-Claude. O que é Cinema. São Paulo: Brasiliense, 2006. CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Editora Cultrix/Pensamento, 1995.

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