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Universidade de Uberaba Livro-reportagem: Eu, Jorge. A história da ex-travesti, pai de quatro filhos1 Alex Gonçalves RODRIGUES2 Cintia Cerqueira CUNHA3 Universidade de Uberaba, Uberaba, MG RESUMO Este livro-reportagem intitulado “Eu, Jorge: a história da ex-travesti, pai de quatro filhos” conta a história de um homem que desde o tempo da juventude foi “obrigado” pelos padrões sociais a esconder sua verdadeira orientação sexual. Gay convicto, manteve um casamento heterossexual por 18 anos até que decidiu contar à esposa e aos quatro filhos toda a verdade. Transformou-se em um travesti, se prostituiu e hoje, respeitado por todos e livre da mentira que sustentou por tantos anos, vive sua liberdade em busca de novos desafios. PALAVRAS-CHAVE: livro-reportagem; gay; ex-travesti; pai; prostituição.

INTRODUÇÃO O livro-reportagem intitulado “Eu, Jorge: a história da ex-travesti, pai de quatro filhos” pertence à linha de pesquisa Cultura e Memória do Curso de Comunicação Social (habilitação em Jornalismo) da Universidade de Uberaba. Um dos objetivos dessa linha de pesquisa é superar estereótipos sociais e estabelecer um diálogo autêntico com a diversidade cultural. Gomide, como era conhecido nas ruas de prostituição de Uberaba, nasceu Jorge Luiz Eiras, um carioca de olhos verdes, criado no morro do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Amante do carnaval do Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano, desfilava junto com a mãe, de quem afirma ter herdado a alegria e o jeito extrovertido de ser. Criado com muito carinho, nunca foi questionado pelos pais sobre sua vida particular. O respeito que mantinham uns pelos outros fazia com que Jorge tivesse a “liberdade” de que precisava para ocultar sua orientação sexual homossexual. Sempre rodeado de amigos, o “sangue quente” carioca fez com que o sexo fosse, para ele, além de uma necessidade física, pura diversão. Cético em relação à fidelidade e ao

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Projeto Experimental de Conclusão de Curso na categoria Livro-Reportagem. Aluno do 8º período de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo da Universidade de Uberaba – Uniube, Uberaba – MG, e-mail: alexgrjornalista@gmail.com. 3 Orientadora do Trabalho. Professora do curso de Comunicação Social da Uniube, e-mail: cintia.cunha@uniube.br. 2

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Universidade de Uberaba casamento, Jorge afirma sempre ter se relacionado sexualmente com quem teve vontade, independente de quem estivesse ao seu lado. Filho único, casou-se aos 18 anos com Fátima, uma uberabense que, após fugir da cidade interiorana, cansada dos maus-tratos recebidos em casa, estava à procura de sua verdadeira mãe na Cidade Maravilhosa. Grávida do ex-namorado e sem onde ficar, aceitou o trabalho como doméstica na casa de Jorge que a tornaria, algum tempo depois, dona da casa e mãe dos seus filhos. Após 18 anos de casado, e depois de inúmeros casos extraconjugais, o homem “cumpridor de todas as responsabilidades de um marido”, traído por seus desejos, se sente “obrigado” a contar à família sobre sua homossexualidade. Apesar do choque inicial da revelação inesperada, Fátima e Jorge afirmam ter compartilhado não só 18 anos de casamento, mas a cumplicidade de pessoas que entenderam o significado da palavra amor e respeito. Hoje, com 59 anos, Jorge está com filhos e netos criados e manteve-se respeitado perante sua família e a comunidade onde vive. Ele e Fátima reconhecem que o casal foi um para o outro muito mais que marido e mulher.

OBJETIVO

O presente trabalho tem como objetivo principal registrar o perfil de Jorge Luiz Eiras, em algumas etapas de sua vida, na forma de livro-reportagem. O foco inicial desvenda aspectos de sua infância e como eram os seus relacionamentos antes do casamento. Em uma segunda etapa, o livro pretende mostrar como Jorge conheceu Fátima, o casamento e os vários amantes que possuía. O ápice da narrativa será a revelação feita à esposa e aos filhos, bem como o nascimento de Gomide, sua sexualidade vivida como travesti nas ruas de Uberaba. A descrição de alguns casos amorosos, os perigos e as histórias engraçadas vividas nas ruas de Uberaba e região também são objeto do livro. Com o intuito de atender à linha de pesquisa Cultura e Memória, esse estudo pretende também levantar as principais contribuições desse personagem hoje. Já avô, ele é responsável pela criação da neta e da única filha ainda solteira. Um homem simples que, livre das perucas e da vida boêmia, decidiu enterrar a travesti Gomide Muniz de Bragança Berdinazzi, símbolo de sua liberdade sexual, para viver o homem detentor de seu livre-arbítrio frente a uma sociedade ainda intolerante com a diversidade.

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Universidade de Uberaba JUSTIFICATIVA

A sexualidade sempre foi um tema bastante polêmico. A sociedade atual vive uma liberdade aparente. Prega-se uma aceitação da diversidade sexual, porém, o preconceito ainda está arraigado em boa parte de nossa cultura. Assumir uma postura sexual diferente da convencional (homens gostarem de mulheres e vice-versa) é tema ainda controvertido. A história de Jorge Luiz Eiras é apenas um recorte das muitas existentes nos dias de hoje. São casos de homens e mulheres homossexuais que, para cumprir o dever social, “optam” por se casar com um parceiro de outro sexo. Para que haja a instituição da chamada família, ainda parece necessária a presença de pai, mãe e filhos, não importando se vivem juntos, separados ou em lares desajustados. Um leve progresso já é visto em nossa sociedade diante, por exemplo, da união civil homoafetiva, mas os novos casais reconhecidos perante a lei são ainda alvos de um preconceito velado e até mesmo de atitudes claramente homofóbicas. Para muitos, é melhor ouvir que o marido deixou a esposa por outra mulher mais jovem, do que por outro homem. Por isso, assumir a homossexualidade ainda é um tabu e requer coragem perante os inúmeros sofrimentos que podem advir dessa decisão. A escolha do tema não objetiva criar um herói em meio há tantos já existentes, muito menos estimular outras pessoas a tomarem as mesmas decisões. O intuito é apenas mostrar a fundamental importância do respeito frente às escolhas de cada um. O livro-reportagem vem para dar voz a uma pessoa que viveu boa parte de sua vida ancorada em deveres sociais, em detrimento de sua verdadeira orientação sexual e que, ao assumir a homossexualidade sofreu, errou, acertou e hoje mantém o respeito de todos à sua volta. Para se escrever um perfil, segundo jornalista e escritor Sérgio Vilas Boas, é necessário envolver-se, sentir. É preciso sentir a expressão humana e é preciso deixar de ser um voyeur. “Não basta apenas embaralhar os fatos ou aspear as frases do personagem. Essa só vem no seu instante.” (VILAS BOAS, 2003). Daí a importância do feeling, da sensibilidade para captar o que de fato é notícia ou apenas estória. A narrativa que nasce depois de inúmeras horas de escuta flui como um bálsamo para a ansiedade daquele que escreve. É certo que homens e mulheres, ao longo do processo evolutivo, tendem a repaginar alguns conceitos, rever algumas posturas. Desse modo, livrar-se de considerações ou crenças

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Universidade de Uberaba pessoais é fato determinante para o resultado do trabalho. Essa mutação pessoal, esse ato de ensimesmar, é como uma hibernação importante para a vida da narrativa. Descobrir o universal embutido nas particularidades, lançar luzes sobre os dramas humanos que incitem o pensamento. Isso não tem nada a ver com generosidade, sentimentalismo ou rasgar seda. É possível criticar sem ofender; alfinetar sem ferir; homenagear sem trair-se, retratar sem granular. (VILAS BOAS, 2003, p. 16)

O que faz então com que as pessoas se interessem pela leitura de um determinado perfil? A identificação. Ver-se naquela história, como vilão ou mocinho, faz com que a capacidade intelectual de criação se expanda, alcance patamares até então não pensados. Na verdade, a leitura de um perfil é muito mais do que alimentar-se de algumas histórias, é fazer referências a fatos que se esconde por mero capricho ou uma epifania frente a determinados acontecimentos ou trajetórias. Como ensina Vilas Boas: “Os processos de criação são multidimensionais. Neles, combinam-se memória, conhecimento, imaginação, síntese e sentimentos, cinco elementos imprescindíveis ao trabalho autoral”. (VILAS BOAS, 2003, p. 13). O escritor norte-americano Joseph Campbell em A Jornada do Herói nos faz perceber que a narrativa se consolida sempre à base de uma estrutura direcional. Ela, embora sofra as alterações em conformidade com o personagem, nos dá a trajetória necessária para entender as frações de vida do indivíduo, e o quão limitado ele é nas várias etapas de existência. Essa “forma-vida” é por si só parte de todo o processo evolutivo. Mas é na sua existência ímpar que ele se encontra sempre.

Em sua forma-vida, o indivíduo é necessariamente mera fração e distorção da imagem total do homem. Ele é limitado, que como homem, mulher; a cada período de sua vida, ele é outra vez limitado na condição de criança, jovem, adulto maduro ou ancião... (CAMPBELL, Joseph 1999, p. 368).

Contar a história de heróis dos dias de hoje é uma tarefa que nos leva a compreender as necessidades dos tempos modernos. A indigência dessa transcrição é para entendermos de que maneira o indivíduo luta por questões ainda básicas como liberdade, comida e respeito, mesmo depois de tantas evoluções e conquistas. “Aonde quer que vá e o que quer que possa fazer, o herói sempre se acha na presença de sua própria essência”, afirma Campbell. Hoje, o que mudou não foram os porquês, mas as maneiras. Homens e mulheres devem empreitar-se na sobrevivência em seu novo espaço. Segundo Campbell, a

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Universidade de Uberaba “comunidade é o planeta e não a nação com seus limites”. Isso traz uma proximidade muito grande com os que vivem no seu entorno. O herói moderno, o indivíduo moderno que tem a coragem de atender ao chamado e empreender a busca da morada dessa presença, com a qual todo o nosso destino deve ser sintonizado, não pode – e, na verdade, não deve – esperar que sua comunidade rejeite a degradação gerada pelo orgulho, pelo medo, pela avareza racionalizada e pela incompreensão santificada. “Vive”, diz Nietsche, como se o dia tivesse chegado. (CAMPBELL, Joseph 1999, p. 376)

Revelar alguém através de um perfil nunca trará o personagem em sua totalidade porque, por mais que você transcreva, há sempre algo a ser desvendado. A jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum possui uma sensibilidade ímpar para aplicar tal metodologia. A fé nas pessoas e nas histórias relatadas é que faz com que o teor de cada narrativa fique à altura do que é esperado. Nos dias atuais, o texto de um perfil que é enriquecido com recursos literários perdeu espaço no jornalismo tradicional. Para Vilas Boas (2003), alguns dos motivos disso ter acontecido foram a redução de orçamento, a falta de tempo para investigação e também de espaço para publicação.

A mídia impressa não tem conseguido enxergar as várias alternativas disponíveis para oxigenar suas práticas. Ao contrário, embarca na ideia de uma desilusão generalizada das pessoas em relação aos ideais de justiça e igualdade. (VILAS BOAS, 2003, P 12).

Desta forma, é mais adequado para este projeto escrever o perfil em forma de livroreportagem. Lima (2004) explica que o livro-reportagem distingue-se de outros tipos de livros em relação ao conteúdo e ao tratamento dado à linguagem. Este tipo de livro tem como objeto algo real, a linguagem é tratada com recursos literários e não tem periodicidade.

METODOLOGIA

O presente projeto de pesquisa se inicia com a análise documental de algumas entrevistas feitas em revistas e documentários. O objetivo é conhecer um pouco mais sobre outras histórias e situações similares a de Jorge Luiz Eiras. Duarte ensina que se deve localizar, identificar e também organizar o material para posteriormente poder contextualizar momentos e situações empregadas no trabalho. A partir

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Universidade de Uberaba daí, consegue-se “introduzir novas perspectivas em outros ambientes, sem deixar de respeitar a substância original dos documentos”. A entrevista em profundidade também foi utilizada no projeto. Esse recurso busca, a partir de teorias, recolher respostas de acordo com experiências subjetivas da fonte. O autor ensina como proceder na entrevista para se obter o êxito esperado. Cita, por exemplo, para não se ter pressa, deixar o entrevistado à vontade e fazer uma pergunta de cada vez. (DUARTE, 2005, p. 276) Outros recursos também de extrema importância são a observação participante e a escuta ativa. A jornalista Eliane Brum revela que “escutar é muito mais que ouvir, é estar aberto para se surpreender”. Dessa forma, o jornalista/escritor deve esvaziar-se de si e voltar para o seu texto ou projeto uma pessoa diferente da que saiu em busca da história. A metodologia empregada para escrever o perfil é mencionada pelo autor Sergio Vilas Boas. No livro Perfis e como escrevê-los, o autor dá algumas dicas em relação ao processo de criação do perfil, como por exemplo: A narrativa de um perfil não pode prescindir de todos os conceitos e técnicas de reportagem conhecidos, além de recursos literários e outros. Mas ela também está atada ao sentimento de quem participa. A frieza e o distanciamento são altamente nocivos. Envolver-se significa sentir. (VILAS BOAS, 2003, p.14)

Segundo a doutora em ciências sociais pela Universidade Federal de São Carlos, Larissa Maués Pelúcio, os travestis procuram inserir no próprio corpo símbolos do que é tido como próprio do feminino. Muitas vezes o processo de transformação das travestis se inicia com a ruptura com o mundo da casa, seguido pelo necessário apego ao universo da rua, onde encontram formas de sobrevivência e aprendem ou potencializam seu processo de transformação. (PELÚCIO, 2004, 123-154)

Toda a história então é revelada através da técnica da entrevista em profundidade, onde o personagem Jorge Luiz Eiras conta sobre sua vida, sobre as pessoas que fizeram parte dela e principalmente sobre os seus dias atuais. Além de Eiras, são entrevistados – para compor melhor a história – também os filhos e a ex-esposa.

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Universidade de Uberaba CONSIDERAÇÕES

O livro-reportagem, além de cumprir os procedimentos da academia, fez-se necessário também para dar voz a uma família, considerada diferente dos padrões “normais da sociedade”. Revelar-se para alguém é mostra-se propenso a críticas e controvérsias. A história de Jorge Luiz Eiras não poderia ficar apenas nos causos das rodas de amigos, nas conversas da vizinhança, muito menos nos desafetos adquiridos pelo preconceito. Ela vem para elucidar que, apesar de sermos diferentes, possuímos como igualdade a necessidade de viver a felicidade da forma mais plena possível. O estudo não deve ser comparativo, nem visto como uma via de regra. O recorte apenas mostra um entre tantos casos vividos de maneira reprimida. Por isso, vem de uma maneira tão particular retratar um homem que, diferente ou igual a tantos, necessitou, em um dado momento, ser feliz. Para fins acadêmicos, o trabalho configura, para o jornalista escritor iniciante, grande fôlego de reportagem e pesquisa científica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. 5ª ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1999, p. 368 e 76. Documentário Meu Marido é gay. Exibido em 06/2008 pelo http://www.youtube.com/watch?v=VYUTyPKSiSw, Acesso em 26 fev. 2012.

canal

GNT.

DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio. Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação. São Paulo: Atlas, 2005, p. 276. LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Barueri, SP: Manole, 1995. MARIANO, Agnes Francine de Carvalho. Eliane Brum e a arte da escuta. Em Questão, Porto Alegre, v. 17, n. 1, p. 307-322, jan./jun. 2011. MARTIN, Ricky. Tradução Maria Fernanda Lapa Cavallani e Pedro Barros. São Paulo: Eu, Planeta, 2010. RAMALHO, Cristiane. “Não foi fácil sair do armário”. Revista Isto é especial retrospectiva 2011. Ano 35 nº 2198, pgs 6 a 8. Dez 2012. PELÚCIO, Larissa Maués. Travestis, a (re)construção do feminino: gênero, corpo e sexualidade em um espaço ambíguo. Revista ANTHROPOLÓGICAS , ano 8, volume 15(1): 123-154 (2004).

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Universidade de Uberaba SEBE BOM MEIHY, José Carlos. Augusto & Lea: um Caso de (Des)amor em Tempos Modernos. São Paulo: Contexto, 2006. VILAS BOAS, Sérgio. Perfis e como escrevê-los. São Paulo, Summus: 2003, p 12 a 16.

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Paper alex versão final (1)  

Este livro-reportagem intitulado “Eu, Jorge: a história da ex-travesti, pai de quatro filhos” foi feito pelo aluno Alex Gonçalves Rodrigues...

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