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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XX Prêmio Expocom 2013 – Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação

Livro-Reportagem de Perfis - Relicário 1 Agnes Maria Araujo ANJOS 2 Cintia Cerqueira CUNHA 3 Universidade de Uberaba, Uberaba, MG.

RESUMO Como forma de registrar a cultura e memória de cultuadores de orixás da cidade de Uberaba, nasceu a produção do livro-reportagem de perfis Relicário. Devido à ausência de produtos jornalísticos que abordem questões religiosas e visto que as discussões acerca do tema são cada vez mais atuais, o livro torna-se necessário como um material que possa ser utilizado por pesquisadores do tema, frequentadores de religiões afro-brasileiras e pessoas que trabalham com políticas públicas para negros no Brasil. PALAVRAS-CHAVE: Perfis; religiões afro-brasileiras; histórias de vida; livro-reportagem.

INTRODUÇÃO Os povos africanos, quando trazidos pelos europeus, para servirem ao país, foram separados de suas famílias. Mulheres e crianças chegaram ao Brasil em grande escala, o que colaborou para enfraquecer a cultura africana ainda mais e facilitou o processo de escravidão. Etnias, dialetos e cultura-religiosa diferentes foram misturados nas senzalas brasileiras, o que propiciou o início do sincretismo religioso. Essas etnias costumavam manifestar na África o culto a diferentes orixás. Chamados forças da natureza, os orixás são divididos entre terra, fogo, ar e água e assim são cultuados com músicas, oferendas e orações diferentes por cada família ou etnia. Com a proibição do culto imposta pelos europeus, os escravos, para que pudessem professar a sua fé, modificaram a realização de seus rituais, e acoplaram diferentes manifestações religiosas vindas da África com manifestações cristãs impostas no período. Neste momento, uma nova manifestação de fé nasce no Brasil. O Candomblé, mais do que uma religião afro-brasileira, é uma cultura de resistência criada entre os negros das senzalas brasileiras.

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Trabalho submetido ao XX Prêmio Expocom 2013, na Categoria Jornalismo, modalidade livro-reportagem. Aluno líder e estudante do 8º. Semestre do Curso de Jornalismo da Universidade de Uberaba, e-mail: amaanjoss@gmail.com. 3 Orientadora do trabalho. Professora mestre do Curso Jornalismo da Universidade de Uberaba, e-mail: cintia.cunha@uniube.br. 2

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Os brasileiros vão à praia pular as sete ondas, rezam para São Jorge, São Benedito e Santa Bárbara e muitos não sabem que o culto a esses santos tornou-se comum no país graças ao sincretismo religioso. Para cultuarem a religião africana, os escravos colocavam seus fundamentos ritualísticos dentro das imagens desses santos e aparentavam realizar um ritual católico, porém, estavam manifestando sua fé aos orixás. Foi assim que o orixá Ogum se tornou São Jorge, Ossain foi chamado de São Benedito, Santa Bárbara, de Iansã e Xangô, de São João Batista. Sabe-se que hoje o racismo, a discriminação e o preconceito são heranças do período escravocrata. Vários casos registrados no ano de 2011 sobre a Intolerância religiosa foram reunidos no Mapa da Intolerância Religiosa – 2011 Violação do Direito ao Culto, do jornalista e pesquisador Márcio Alexandre Martins Gualberto. Ele ressalta, na introdução do livro, a ausência de preparação das autoridades para lidar com esse tipo de caso, já que geralmente acontecem ao lado de situações racistas.

O fato de a intolerância religiosa caminhar de mãos dadas com o racismo provoca, muitas vezes, nos órgãos responsáveis por fiscalizar e punir, certa leniência, não porque a intolerância não deva ser combatida, mas porque estes órgãos ainda são incapazes de lidar de maneira eficaz com os temas ligados ao racismo. (Gualberto. 2011, p. 10)

Com isso, o comunicador social, enquanto formador de opinião, deve auxiliar na produção de materiais que possam contribuir para minimizar a intolerância religiosa latente no país. Como parece haver severo desconhecimento por parte da imprensa acerca do assunto, nasce a ideia de abordar primeiramente religiões de matrizes africanas. Surgiu então a necessidade de elaborar um livro-reportagem perfil, em busca de evidenciar o lado humano de personalidades anônimas que, por suas características e circunstâncias de vida, passaram a personificar o grupo social em questão, no caso, cultuadores de religiões afro-brasileiras. O livro-reportagem se encaixa na linha de pesquisa de Cultura e Memória, desenvolvida no curso de Jornalismo da Universidade de Uberaba com o intuito de interpretar e registrar as manifestações culturais do cotidiano da cidade e da região. A proposta foi de estabelecer uma reflexão problematizadora da cultura e da memória por meio de uma intensa interdisciplinaridade com as ciências humanas e sociais. Em busca de superar estereótipos sociais, estabelecer um diálogo autêntico com a diversidade cultural e recuperar a memória e as tradições da cultura oral da região. 2


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OBJETIVO O principal objetivo do projeto foi o de elaborar um livro-reportagem para desmistificar algumas religiões afro-brasileiras, dentre elas a Umbanda, o Candomblé e o Tambor de Mina, contando histórias de personagens anônimos. Para isso, o texto aproximou o público leitor de uma realidade desconhecida com uma abordagem que contou sobre o dia a dia cultural e familiar dos personagens envolvidos em busca de contribuir na luta contra a intolerância e preconceito, a partir de um relato mais humano de identificação dos integrantes das religiões afro-brasileiras da cidade de Uberaba, Triângulo Mineiro. Buscou-se registrar a cultura e memória de um povo que resiste tentando manter suas manifestações religiosas em meio a uma cultura cristã latente.

JUSTIFICATIVA Justifica-se a execução do projeto devido à importância do registro histórico-cultural local e da desinformação acerca do assunto. A análise do paper apresentado no XVII Congresso de Ciências da Comunicação da Região Sudeste, realizado em junho de 2012 em Ouro Preto, intitulado Jornalismo Cultural: A Abordagem Dada a Reportagens Especializadas

no

Culto

aos

Orixás

(http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sudeste2012/resumos/R33-0278-1.pdf), apresentou reportagens sem a mínima imersão do jornalista com as fontes e outras extremamente específicas para cultuadores de orixás, que traziam linguagem bastante hermética, impossibilitando uma compreensão mais abrangente. Diante dessa problemática, abordar o tema como forma de interação e compreensão das religiões de matrizes africanas se torna atual e necessário. Para isso, a escolha da modalidade livro-reportagem foi oportuna, visto que ela permite o aprofundamento da abordagem escolhida, já que o levantamento de questões raciais é cada vez mais efetivo. Políticas públicas e ações afirmativas são discutidas e implementadas e todos esses atos evidenciam que mudanças nesse sentido só foram alcançadas através de debates, discussões e publicações acerca do tema. Só para se ter uma ideia dos avanços na área, é obrigatório o ensino da cultura africana em todas as escolas brasileiras por determinação federal. Hoje, em São Paulo, assim como em outras cidades brasileiras, já encontramos inclusive museu afro com diversos livros, documentários e um acervo da memória afro-brasileira.

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MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS

A coleta de informações baseou-se nas técnicas de entrevista semiestruturada e métodos de história de vida. O autor Sergio Vilas Boas destaca em seu livro Perfis e como escrevê-los o formato que se pretende abordar cada perfil no livro: Diferentemente das biografias em livro, em que os autores têm de enfrentar pormenores da historia do biografado, os perfis podem focalizar apenas alguns momentos da vida da pessoa. É uma narrativa curta tanto na extensão (tamanho do texto) quanto no tempo de validade de algumas informações e interpretações do repórter. (Vilas Boas, 2003, p, 13)

A descrição de expressões e ambientes foi destacada, conforme ensinam Sergio Vilas Boas e Eliane Brum. As principais fontes utilizadas foram personagens anônimos. E a ambientação, realizada com o auxílio da técnica de observação participante. Segundo Pedro Demo, no livro Repensando a Pesquisa Participante (1999, p, 124), uma das características do processo é a busca pelo entendimento e conhecimento de uma situação particular. DESCRIÇÃO DO PRODUTO O livro-reportagem está dividido em seis capítulos e subtítulos, dependendo da necessidade dos perfis abordados. Cada perfil fala sobre um personagem diferente. A escolha desses personagens seguiu alguns pré-requisitos, dentre eles, que estes pertencessem a religiões afro-brasileiras, fossem moradores da cidade de Uberaba, no Triângulo Mineiro, e possuíssem histórias que pudessem ilustrar questionamentos acerca das manifestações religiosas abordadas. Cada capítulo aborda no mínimo três seguintes aspectos da vida do personagem: a apresentação, início do contato com a fé e o entrelaçamento da vida do personagem com a religião nos dias de hoje. Em cada história, foram introduzidos aspectos específicos da religião professada, histórias de fé, festas e trabalhos visualizados durante a produção do livro. Com isso, buscouse esclarecer como ocorrem o culto de fé de cada personagem e explicar para o leitor um pouco do modo de vida de pessoas que professam a fé em religiões afro-brasileiras. É importante destacar que foram retratadas as histórias de vida e confissões dos personagens, pois o livro não busca retratar a religião e sim a forma como cada pessoa escolhida vivencia a sua fé.

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Os personagens pertencem às seguintes manifestações religiosas: Umbanda, o Candomblé (Ketu, Angola e Gegê) e o Tambor de Mina (Religião tipicamente encontrada no Nordeste do país). Os capítulos estão assim subdivididos: 1 – Exu é o mensageiro - A chance de vida de Diego Santiago Montandon Escolhido por ter uma história de vida dentro da religião afro-brasileira. Foi iniciado em função de uma doença grave que daria a ele poucos dias de vida. Após a sua iniciação no Candomblé, a doença foi amenizada até a cura. Hoje, é formado em Enfermagem pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

2 – “Oxalá, meu Pai, tem pena de ‘nois’, tem dó que as voltas do mundo é grande, e seus poderes são maior ...” - A força de Luzia Mapuaba Nascida e criada em Uberaba, ela é a matriarca da família Mapuaba e comanda hoje um centro de Umbanda na sua casa, a Folia de Reis, o terno de Congo e deu início à Escola de Samba Rosas de Ouro na cidade de Uberaba.

3 – Oxaguian é aquele que rege o conflito entre os povos - A História de Joãozinho de Oxaguian Pai de Santo no bairro Jardim Primavera, Joãozinho foi escolhido por ter uma história de influência familiar dentro da religião e forte presença social na comunidade onde mora. Possui também uma relação de amizade e respeito com outras comunidades religiosas presentes em seu bairro.

4 – Xangô, o Deus do Trovão - Trovoadas de dona Ana Lúcia na cidade de Uberaba

Nasceu na cidade de Bacabal - MA, mas foi criada na cidade de Pindaré-Mirim - MA, onde fundou a comunidade espírita Umbandista do Vale do Pindaré. Filha de santo do pai Antenor da tenda espírita Umbandista Santa Bárbara no Maranhão. Em Uberaba, fundou a tenda Tambores de Mina Casa de São Benedito na Cruzada de Xangô. É recém-formada em Direito, com seus 58 anos de vida, pela universidade de Uberaba - Uniube.

5 – Ogum, o rei da guerra e dos caminhos – Alberto, o homem que abriu os caminhos 5


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Dono de um dos últimos terreiros característicos de Candomblé Angola em Uberaba. Filho de Ogum, ele fundou um dos primeiros terreiros abertos em Uberaba e muitos pais de santo que exercem trabalhos em Uberaba foram filhos de santo iniciados no terreiro do Pai Beto.

6 – Oxumarê, a cobra e também o arco-íris - Beatriz a representante

Mãe de santo na Vila Militar, influente por ter um terreiro consolidado há muitos anos e conhecida por todos os vizinhos, é uma forte figura dentro dos terreiros de Uberaba. Concilia sua casa de axé com uma loja de artefatos religiosos. Formada em Direito, sua vida mostra exatamente a dualidade proporcionada pelo seu orixá regente, Oxumarê. CONSIDERAÇÕES O projeto de contar histórias de vida e abordar o tema religiosidade nasceu com o intuito de desmistificar a fé. O objetivo inicial era elaborar um livro em dupla de autores. Devido à inviabilidade do projeto, hoje ele se ramificou, e dois produtos distintos sobre o tema foram entregues como Trabalho de Conclusão de Curso, à Universidade de Uberaba, no segundo semestre de 2012. O livro-reportagem foi elaborado pela graduanda Agnes Maria Araujo Anjos e um webdocumentário sobre o mesmo tema, desenvolvido pela estudante Natália Alberto de Melo. Ambos possuem o mesmo nome: Relicário, escolhido pelo significado da palavra - caixa, cofre, lugar próprio para conter relíquias (Houaiss: 2009, p. 1639). Relicário é o local onde se guarda algo sagrado, independente da religião. Por isso, acredita-se que o nome define o projeto, já que a fé de cada personagem está agora registrada nesse material jornalístico. Há também o intuito de transformar o livro e o webdocumentário em uma série, composta por diversas religiões, já que a intolerância religiosa não é fato isolado das religiões afro-brasileiras. Pretende-se contar casos de fé e resistências de personalidades anônimas representantes de religiões que sofrem com a intolerância, por exemplo, os cristãos protestantes, os budistas, os rastafáris, dentre outras.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOAS, Sergio Vilas. Perfis e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003. 170 páginas. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Pesquisa Participante, ed. 1990. São Paulo: Brasiliense, 1981. COIMBRA, Oswaldo. O Texto da Reportagem Impressa - um curso sobre sua estrutura. 3a.. ed. São Paulo: Ática, 2004. 183 p. GUALBERTO, Marcio Alexandre M. Mapa da Intolerância Religiosa – 2011: violação ao direito de culto no Brasil. Multipike, 2011. 154 p. HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Sales; FRANCO, Francisco Manuel de Mello. Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, 1ª edição. KARDEC, Alan. O livro dos Espíritos. 2ª.. ed. São Paulo: Virtude Livros, 2011. LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do Jornalismo e da Literatura. São Paulo: Manole, 1995. PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 624 páginas. VALENTE, Waldemar. Sincretismo Religioso Afro-brasileiro. 1ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1955. 173 páginas.

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