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A Influência do Design no Jornal Impresso: O exemplo da Folha de S. Paulo 1 Diogo Paiva GOMES 2 Cíntia Cerqueira CUNHA3 Universidade de Uberaba, Uberaba, MG

RESUMO Esta monografia tem como intuito compreender como as alterações tecnológicas contribuíram para a mudança no discurso jornalístico, dentro dos jornais impressos, através do uso do design. Para chegar a essa conclusão, antes foi preciso contar um pouco da história desse processo, desde a criação da tipografia, até o advento da internet, nos dias atuais. Além disso, utilizamos o exemplo da Folha de S. Paulo para mostrar as diferenças que a página impressa veio sofrendo com as mudanças gráficas e influências ocorridas desde a tipografia, passando pela fase litográfica e finalmente chegando à era do design. PALAVRAS-CHAVE: Design; Transformação; Discurso; Jornalismo; Tecnologia; Folha de S. Paulo. INTRODUÇÃO As mudanças gráficas ocorridas desde a criação da tipografia, passando pela fase litográfica e chegando até a era do design modificaram a forma de se fazer jornal impresso no Brasil e no mundo. E para entender como é essa influência no produto final que pretendemos analisar, o jornal impresso, é preciso ter conhecimento sobre alguns conceitos. É importante saber como se deu o contexto histórico de cada fase gráfica e qual o impacto da chegada do fotojornalismo e de outros recursos, como os infográficos, dentro desse cenário.

Fase Tipográfica

Um dos nomes mais importantes na história do jornalismo impresso foi o alemão Johannes Gutenberg, criador do primeiro sistema de impressão mecânico, em meados do século XIV, que deu início a uma grande caminhada de modernização e expansão da imprensa. Chamado de tipografia 4, esse sistema se proliferou na Europa e fez com que surgissem os primeiros periódicos. “No início, quando a impressão era quase artesanal, a 1

Trabalho de Conclusão de Curso. Aluno do 8º período de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo da Universidade de Uberaba – Uniube, Uberaba – MG, e-mail: lapaiva@criapropaganda.com.br 3 Orientadora do Trabalho. Professora do curso de Comunicação Social da Uniube, e-mail: cintia.cunha@uniube.br . 4 Originalmente, o termo tipografia trata-se de um processo de impressão mecânico que se utiliza de matrizes fundidas em chumbo e antimônio prensadas no papel com auxílio de uma prensa mecânica, com objetivo de transferir ao papel as formas contidas nos 'Tipos'. Os originais eram organizados manualmente e, para a impressão no papel, era utilizada uma espécie de tinta preta produzida à base de fumo. 2

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enunciação assemelhava-se com a dos livros. Os recursos gráficos eram escassos e o texto verbal predominava.” (Freire, 2008, p. 579) Nos primeiros jornais europeus do século XVI, o modelo seguido se assemelhava a livretos. Na primeira página, aparecia apenas o nome do jornal, do impressor e a data da publicação. O texto se iniciava na terceira página, com título e letra capitular. Não havia muitas possibilidades de fonte, por isso, geralmente um só tipo era usado para escrever em uma ou duas colunas. “Tal composição era fruto das possibilidades de impressão da tipografia da época e do costume livreiro. O jornal ainda não dispunha de uma estratégia compositiva própria.” (Sousa, 2005, p. 244) Só com o passar do tempo é que novos elementos gráficos foram agregados, criando identidades diferenciadas entre livros e periódicos. No jornal, seu nome ganha destaque na cabeça da primeira página e às vezes vem acompanhado de um logotipo xilogravado (imagem impressa como uma espécie de carimbo). Começa a existir uma periodicidade e novas denominações de títulos (gazeta, diário, notícias). Também ocorrem mudanças no conteúdo das matérias, que passa a ser mais noticioso.

Pouco a pouco vão surgindo outros elementos que vão configurando melhor o jornal como produto: aumento do formato, divisão em colunas mais estreitas, filetes separando as colunas, ilustrações (xilogravuras, depois clichês metálicos), títulos em corpo maior, matérias hierarquizadas, chamadas para páginas internas. Bem depois, com o desenvolvimento da fotografia, o jornal passa por uma revolução visual que vai influenciar em muito o modo de fazer e de ler jornais. O texto verbal passa a conviver com as imagens. Fotografias e ilustrações reconfiguram as páginas dos jornais dando início a uma relação entre essas duas formas de expressão (FREIRE, 2008).

Nessa fase, o artifício mais utilizado e eficaz na diferenciação e na atração do olhar eram as fontes tipográficas. Mas nem sempre por escolha do tipógrafo. A falta de recursos fazia com que tipografias diferentes fossem usadas também por limitações técnicas. “Os tipos móveis eram comprados com um número restrito de caracteres (tantos “a”, outros tantos “e”, “s”, etc.) e tamanhos de letras.” (Freire, 2008) Dar significado e modificar o discurso através de diferenças nas tonalidades, peso, estrutura e cores das letras ainda não era possível ou, quando feito, muito precário. Essa possibilidade só ocorrerá na segunda fase de desenvolvimento do design de notícias, a partir do offset e do computador. Mas dentre todas as possibilidades, é importante pensar na legibilidade do texto, porque para cada tipo existe uma forma adequada de se aplicar a tipografia, que faz com que ele fique consistente e harmônico. “Cabe à tipografia a tarefa de tornar o texto escrito legível. 2


É ela quem dá a forma visível e durável à linguagem humana. É também uma das responsáveis por dar energia e vida ao texto” (Freire, 2009, p. 293).

Fase Litográfica

Apesar de todos os períodos terem importância fundamental na construção do Jornalismo, foi a partir do período litográfico que o discurso começou a ganhar novas formas, principalmente, pela introdução da imagem no layout da página impressa. A fase litográfica no Brasil está situada entre 1970 (quando os primeiros jornais do país passam a usar esse tipo de impressão) até o final da década de 1980. Faremos a análise desse período usando os padrões do processo offset, que em tese segue os mesmos princípios da litografia tradicional (impressão com matriz plana, separação físico-químico entre água e tinta). Essa mudança de fase aconteceu em grande parte por causa da televisão. Os jornais perceberam que não adiantava ter um bom conteúdo se o acesso não fosse facilitado e amplo. Além disso, os telejornais incomodavam por antecipar o que seria lido nos jornais no dia seguinte. “A forma ágil e concisa do texto telejornalístico também levou os jornais a terem que sair da letargia em que se encontravam, levando-os a refletir sobre o futuro do meio.” (Freire, 2008) Essa reflexão fez com que a montagem da página fosse transferida da oficina gráfica para o departamento de arte. Isso aproximou o jornalista do tratamento final de sua produção. Páginas diferenciadas, que integravam melhor os materiais verbais e não verbais, foram criadas quando editores de jornais passaram a ser responsáveis pelo seu desenho. A partir daí, os cinco princípios do design (alinhamento, repetição, proximidade, contraste e balanço) passam a ser mais levados em consideração, o que deixa o produto final mais organizado, limpo, com hierarquia mais nítida e melhor visibilidade. Já no fim da década de 80, princípio da década de 90, o jornal começa a ficar mais disciplinado com relação à tipografia, adotando menos fontes e utilizando como artifício de diferenciação as variações de peso e inclinação. A cor surge nessa fase, mas apenas como uma novidade ilustrativa e estética, restringindo-se à capa e à contracapa e aos suplementos inspirados nas páginas de revistas, aplicada em fotografias e em alguns quadros.

O offset propiciou ainda mais agilidade ao jornalismo. Neste período há um aumento na quantidade de informações, uma melhoria na reprodução de imagens e consequente aumento na demanda de fotografias e infográficos. Os textos passam a ser menores e mais objetivos e dividem cada vez mais o 3


espaço com as imagens e demais elementos gráficos. O design passa a ser agora uma exigência, diante de tantos componentes a coordenar. Outras mídias, como a televisão e as revistas semanais passam a influenciar a enunciação nos periódicos diários, pelo bombardeamento de imagens que proporcionam. As matérias passam a ser mais fragmentadas e mais ilustradas. (FREIRE, 2008)

No fim da fase litográfica tem início o processo de informatização de muitas redações jornalísticas. Começa a surgir maior proximidade entre o jornalista e o artista gráfico, o diagramador. Aparece o cargo de editor de arte, que é aquele profissional que gerencia a préimpressão. “É no final desta fase que se dão as primeiras verdadeiras reformas gráficas, já vislumbrando o papel que o computador teria em toda a enunciação jornalística” (Freire, 2008).

Fase Digital ou Era do Design

O começo dessa fase se dá entremeado ao fim da fase litográfica, ou seja, início da década de 1990, se estendendo até os dias de hoje. O design de notícias se firma como um dos principais elementos da enunciação jornalística e o computador passa a ser extremamente necessário em todas as fases da produção da notícia e até mesmo da impressão do jornal. O fator mais importante desse período também é alterado. Deixa de ser a impressão, como nas outras fases, e passa a ser toda a gama de “possibilidades expressivas que o computador propiciou ao jornalismo. Seja no uso maior (e melhor) das cores, seja no tratamento de imagens, seja na agilidade da edição como um todo” (Freire, 2008). Outro concorrente vem influenciar as novas mudanças do Jornalismo: a internet. A capacidade da rede de transmitir, ao mesmo tempo, textos, imagens, áudio e vídeo, faz com que as matérias dos jornais fiquem mais fragmentadas e espalhem-se nas páginas, imitando as janelas que ficam abertas no computador. O design é cada vez mais necessário para organizar e criar expressão nas páginas.

O design participa, cada vez mais, da organização espacial, da construção das narrativas e de sentidos na enunciação jornalística. O design de notícias tem possibilitado o cumprimento das exigências básicas deste tipo de mídia proporcionando visibilidade, legibilidade e inteligibilidade, além de tornar o ato de leitura um momento de informação e deleite. O fazer jornalístico hoje é fortemente ligado ao design, pois o jornalista contemporâneo escreve seu texto cercado por restrições formais. Se antes ele deveria atentar para as regras do manual de estilo, para saber quais termos usar ou não, hoje ele deve saber também quais os recursos gráfico-visuais dispõe no projeto 4


gráfico para construir seu texto, agora composto por elementos verbais e não verbais (FREIRE, 2008).

Para o doutor em Comunicação e Mídias Contemporâneas, Eduardo Nunes Freire, que pela sua linha de pesquisa foi usado como referência principal desse trabalho, dentre as características do design dos jornais atuais, temos: a valorização do conteúdo pela organização da página, com adoção de níveis para criar diferentes velocidades de leitura (hierarquização); a modulação e modelização, como forma de padronização da diagramação; a divisão dos conteúdos em peças para os diferentes gêneros jornalísticos; o rigor no uso da tipografia; a parcimônia no uso de cores e respeito aos preceitos da cor-informação; a ênfase na edição de fotografias; e o uso consistente da infografia. Uma dessas características que se torna muito importante é a modulação como forma de estruturar a página. Ela facilita o alinhamento, cria blocos de conteúdos que agregam valor à notícia, hierarquizando para mostrar ao leitor os assuntos que o jornal julga serem mais importantes. “O valor-notícia é, então, expresso em módulos por coluna (matérias mais importantes devem ocupar áreas maiores), mas também conta a topologia, a posição do bloco na página (quanto mais acima e mais à esquerda maior o peso dado ao assunto)” (Freire, 2008). O uso de cores e fontes também foi bastante ampliado pelas possibilidades dadas pelo computador. Apesar de que, atualmente, os grandes jornais selecionam uma média de três tipos diferentes de fontes, agregando suas variações de peso, inclinações e estrutura, para criar uma identidade visual e disciplinar o uso. Já as cores vêm sendo utilizadas, por exemplo, para diferenciar editorias, para destacar palavras, chamar a atenção do leitor para um ponto específico e até ajudar a criar um percurso de leitura. Quanto à fotografia, na fase digital ela tem inúmeras vantagens, como maior velocidade, menor custo e mais qualidade. “Várias etapas foram extintas, como a revelação, a montagem de contatos para escolha e edição das fotos, e o escaneamento. Tudo isso representava tempo.” (Freire, 2008) Foto não é mais elemento decorativo. A imagem deve informar o leitor, ajudar a contar a história, mostrar a novidade.

O design no jornal impresso

No jornal, é imprescindível que as notícias estejam dispostas nas páginas de forma que sejam facilmente identificadas e entendidas pelo leitor, de uma maneira legível e clara. Para 5


Freire (2009, p. 293), a visibilidade no Jornalismo impresso está ligada às questões do uso do espaço e de que modo as notícias são ordenadas na página. A enunciação jornalística foi afetada diretamente pelas mudanças gráficas. Nos dias atuais, o design tem papel importante para a construção dessa enunciação, organizando-a e trazendo um apelo visual, inclusive mesclando matérias verbais e não verbais e quebrando a linearidade. O design também tem a missão de destacar partes do texto que antes ficavam escondidas no todo. Mas a internet talvez seja a maior influenciadora de todas essas mudanças. Ultimamente, percebemos a intenção dos jornalistas de criar uma espécie de “janela” de conteúdos, de repartir os textos para depois interconectar as partes através do design, como se fossem hipertextos com seus links.

Pequenas peças são distribuídas dentro do espaço da notícia. Cada fragmento do mosaico que é a página apresenta um aspecto do enunciado. Tanto pode ser um número destacado quanto a opinião de um especialista no assunto tratado, quanto uma análise do próprio jornal, ou uma peça que resgate a memória de um fato (FREIRE, 2008).

Freire compara o discurso jornalístico das fases anteriores com esse novo modelo que vemos na era digital. Para ele, os conteúdos continuam preservados, assim como a forma de redigir a notícia. O que muda é a edição. “Na edição, o jornalista separa os fragmentos de acordo com os gêneros mais adequados para a apresentação do conteúdo.” (Freire, 2008) Dessa forma, jornalistas atuais pensam na informação como um todo, percebendo possibilidades gráficas que podem contribuir para melhor assimilação do leitor. Na atualidade, até um termo novo foi criado e é bastante citado por Freire: design jornalístico. Para ele, se trata de um nicho de mercado, onde o design gráfico se dedica às publicações jornalísticas (jornais e revistas). “Essa especialização se faz necessária diante das peculiaridades do discurso jornalístico” (Freire, 2009, p. 292). Nesse caso, esse profissional pretende potencializar este discurso, organizar os conteúdos, criar identidade, atrair a atenção do leitor e construir o sentido pela relação entre as diversas matérias significantes (verbovisuais) que compõem o jornal.

Fotojornalismo

Segundo o pesquisador e professor de teoria e história do jornalismo, Jorge Pedro de Sousa, em seu trabalho “Elementos de Jornalismo Impresso”, de 2001, uma das revoluções 6


que influenciaram bastante o discurso jornalístico foi o surgimento do fotojornalismo, que acabou por ordenar melhor os conteúdos dentro das páginas do jornal. “Com o desenvolvimento da fotografia, o jornal passa por uma revolução visual que vai influenciar em muito o modo de fazer e de ler jornais” (Freire, 2009, p. 299). O texto verbal teve que aprender a conviver com textos não verbais depois do aprimoramento das técnicas de reprodução de imagens, como a fotografia, uma vez que ambas têm maneiras diferentes de se expressar. “Aos poucos o design vai aparecendo como elemento integrador destas duas instâncias, surgindo também a

necessidade do

estabelecimento de regras de formação que potencializassem tal integração.” (Freire, 2009, p. 299) Na fase digital em que vivemos, a fotografia tem inúmeras vantagens, como maior velocidade, menor custo e mais qualidade. “Várias etapas foram extintas, como a revelação, a montagem de contatos para escolha e edição das fotos, e o escaneamento. Tudo isso representava tempo.” (Freire, 2008, p. 584). Foto não é mais elemento decorativo. A imagem deve informar o leitor, ajudar a contar a história, mostrar a novidade. OBJETIVO A monografia desenvolvida pretende analisar como o design influencia na produção da notícia nos jornais impressos através do exemplo da Folha de S. Paulo; identificar quais as principais tecnologias voltadas à produção que foram implementadas na imprensa escrita e avaliar em quais pontos as tecnologias contribuíram para a melhoria do Jornalismo como produto. JUSTIFICATIVA No decorrer da história, o Jornalismo passou por várias transformações. Dentre todos os aspectos que contribuíram para a concepção desta ciência social tal qual ela se apresenta hoje, a tecnologia foi a que mais interferiu, tanto no modo de produção, quanto na maneira na qual os profissionais que vivem da notícia levavam o seu dia a dia dentro das redações. Este estudo se torna necessário para a compreensão de como estas tecnologias influenciam na formação da imprensa, analisando desde as primeiras ferramentas implantadas até os dias atuais e as mudanças que o design proporciona aos jornais impressos, com destaque para a Folha de S.Paulo.

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METODOLOGIA E DESCRIÇÃO DO PRODUTO A Folha de S. Paulo foi escolhida por se tratar de um veículo de abrangência nacional, além de ter passado por mudanças radicais nos últimos anos. Além disso, a identidade visual do jornal é muito forte e perceptível. Para embasar o estudo, foi necessário levantar alguns autores que falavam acerca do assunto. Portanto, a pesquisa é basicamente bibliográfica e documental. Após esse processo, foi feita a análise comparativa das mudanças ocorridas em alguns exemplares das capas da Folha de S. Paulo. O resultado desta pesquisa foi a redação de uma monografia com cinco capítulos. O trabalho final ficou assim dividido: Mudanças Gráficas e suas fases; Era do Design, um dos principais elementos da enunciação jornalística; Discurso Jornalístico, que sofre alterações proporcionadas pelo design, Fotojornalismo, fator de revolução no discurso jornalístico, provocando uma evolução visual, e a Folha de S. Paulo, com a análise das capas.

ANÁLISE BIBLIOGRÁFICA

Por ser o Jornalismo uma ciência social cada vez mais presente no cotidiano popular, o seu estudo e compreensão têm se tornado cada vez mais necessários, tanto nos bancos universitários, que formam os profissionais que vivem da notícia, quanto para a população, que diariamente sofre a influência da existência dessa ciência. Desde seus primeiros ensaios até a contemporaneidade, o mesmo se destaca em várias esferas, chegando, em alguns casos, a se confundir com a própria história, como relata o escritor Sodré (2008), no livro a História da Imprensa no Brasil, que ilustra a importância do Jornal Comércio na época do império, onde a expressão “quarto poder” ganhava o seu espaço no vocabulário dos intelectuais.

Num meio tão agitado, valeram ao Jornal do Comércio a força e o prestígio com que, no princípio do segundo reinado, ele agia e reagia sobre a sociedade, prestígio que cresceu e se acentuou a tal arte que, a expressão „quarto poder‟ lhe era aplicada com absoluta. (SODRÉ, 1999. p. 189)

Por se tratar de um tema de amplitude imensurável, cujo entendimento já contou com a contribuição de inúmeros teóricos, profissionais e entusiastas, a monografia se resume a apenas uma linha desta história: a participação do design na transformação dos jornais 8


impressos. Para isso, é utilizado o exemplo da Folha de S.Paulo, jornal brasileiro de circulação nacional que ilustra este trabalho. Freire (2009, p. 294) nos diz que “a configuração atual do jornalismo impresso é a expressão da consolidação de diversas transformações que ocorreram no jornalismo ao longo dos anos”. Ele acredita que o discurso jornalístico do século XIX é bem diferente do discurso do século XXI pela mudança do viés de tratamento da notícia. No início, a imprensa podia ser considerada uma mera porta-voz dos grupos políticos ou ideológicos. Hoje em dia, filiações ideológicas são mais veladas e os jornais tentam manter uma imagem plural e objetiva, embora saibamos que a notícia se transformou em mercadoria. A tecnologia foi um dos fatores que mais interferiram no processo de produção da notícia e, por isso, já protagonizou diversos estudos. No livro Deu No Jornal, O Jornalismo Impresso na Era da Internet, Caldas (2004) narra alguns desafios do jornal tradicional na era eletrônica onde, segundo o autor, um dos principais desafios é "preservar os seus valores". A interpretação do autor, que prenuncia a extinção do Jornalismo, tal qual fora feito antes no aparecimento do rádio, televisão, e como não poderia deixar de ser, da internet, indica que ele acredita na fusão das possibilidades do áudio, as facilidades do vídeo, à tradicional leitura, com uma interatividade que nenhum antecessor conseguira. O fato é que os impressos sempre se utilizaram dos implementos tecnológicos para o seu próprio benefício. Desde a invenção de Gutenberg até o advento das mídias digitais, os impressos têm sabido converter os ditos "concorrentes" em ferramentas úteis para o seu dia a dia. E por mais que as outras mídias apresentem vantagens, o jornal preserva-se como uma "reconstituição viva e detalhada dos jornalistas no cenário de uma redação, palco nervoso e agitado de suas atividades" (Caldas, 2004). O profissional que vive da notícia impressa também foi bombardeado com a tecnificação crescente e contínua, o que se pode notar na própria forma de trabalho. Quem já viveu a experiência do Jornalismo antes da criação de aparatos como o telefone ou a internet sabe que, antigamente, para conseguir um fato era preciso deslocar até o foco da notícia, retornar à redação e só depois transcrever aqueles fatos para serem publicados. Hoje, o descolamento do profissional até o fato é cada vez mais raro. Nilson Lage, em seu livro Reportagem: Teoria e Técnica da Entrevista e Pesquisa Jornalística, relata alguns efeitos colaterais da contínua inserção tecnológica na produção da notícia, como o aumento do seu custo operacional.

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Com a mecanização, o custo de produção dos jornais havia aumentado. Eles já não eram financiados pelos leitores, como antes: o mercado publicitário nascia e com ele a integração da imprensa com os interesses gerais da economia. Precisavam e anúncios, e estes dependiam do número de leitores. (LAGE, 2008. p. 13)

Em síntese, Lage responsabiliza a tecnologia somada à potencialização fomentada pelo capitalismo como os transformadores da imprensa, que antes era utilizada apenas como uma espécie de comunicação dirigida, em empresa, onde o aspecto financeiro passou a ter papel significativo, influenciando inclusive no cotidiano dos jornalistas e na forma de se compor a notícia. Um ponto interessante resultante da inclusão tecnológica foi a transformação da notícia em produto. Esta ótica de estudo é observada por diversos autores, incluindo Cremilda Medina que no livro Notícia, um produto à venda, relaciona todas as teorias elaboradas para tentar entender este fenômeno. Já Fayt (1965) afirma que “não obstante a concentração e a dependência da imprensa com relação à publicidade, a competição em matéria de imprensa continua relativamente aberta”. O fato é que todos os estudos relacionados às transformações sofridas no exercício do Jornalismo direcionam os seus esforços para o entendimento da notícia como um produto final, sendo que, para o entendimento pleno de tais efeitos é necessária a compreensão dos agentes dessa transformação nas etapas da produção da notícia, como a redação, o design, a pré-impressão, captação de imagens e até mesmo a impressão, sendo que todas estas são partes indispensáveis no processo de produção da notícia, e desde sempre trabalharam limitadas aos investimentos realizados em tecnologia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todas as mudanças gráficas pelas quais passou o jornal impresso tiveram grande significado para a construção e história desse veículo de informação tão importante. Com relação ao exemplo que utilizamos, a Folha de São Paulo não foi diferente. Cada etapa evolutiva agregou conhecimento, aumentou possibilidades e teve sua parcela de contribuição para o Jornalismo que conhecemos e consumimos atualmente. Fez-se importante também, ao longo da pesquisa, citar as influências que o design veio sofrendo até se tornar o que denominamos de design moderno. Todas elas contribuíram para a formação dos designers e por isso tendem a serem a base de raciocínio e fonte de inspiração desses profissionais que foram agregados às redações jornalísticas pela importância que a 10


comunicação visual adquiriu ao longo dos anos. Sobre o assunto, Hurlburt nos diz que “quando um layout é bem realizado, o que nós consideramos seu estilo é uma mistura da experiência acumulada, do gosto pessoal e do talento criador do designer” (Hurlburt, 2002, p. 44). Notamos ainda a presença marcante do design dentro dos discursos aos quais o Jornalismo se propõe. Todas as ferramentas gráficas auxiliam a produção do jornal, desde a construção de sua identidade visual, até a necessidade de veicular informações de maneira não verbal ou implícita, seja para facilitar a legibilidade ou até mesmo por questões editoriais. Muitas vezes, o discurso jornalístico está tão atrelado ao design que ambos se confundem como algo único porque, de fato, em uma página bem construída, eles se complementam. O fotojornalismo aparece em um capítulo à parte, e não como tópico, pela importância que vem sendo dada à fotografia dentro do jornal. Hoje em dia, imagens são usadas também de forma discursiva, e com a propriedade de, muitas vezes, informar o leitor sobre o fato. Além disso, são essenciais para a criação de um layout completo, conciso, que facilite o entendimento e aproxime o leitor da notícia, por trazer até ele a imagem do ocorrido. Atualmente, fotos estão, inclusive, ajudando a pautar o jornal e a hierarquizar as matérias. Por fim, buscamos contar um pouco da história do jornal que escolhemos como exemplo, no caso a Folha de São Paulo, de forma breve, uma vez que sua utilização neste estudo foi para simplesmente ilustrar e contribuir com sua contextualização. A falta de referências sobre o jornal também dificultou nosso acesso a informações, mas, pelo proposto, entendemos que o material que tivemos em mãos serviu como base para que, pelo menos, pudéssemos ter subsídios para exemplificar. Entendemos que muito ainda deve ser pesquisado para que se chegue à amplitude da influência que o design tem, nos dias atuais, para o jornal impresso. E acreditamos, assim como Nicolau Sevcenko, que o jornal impresso não é “nem espelho do real, nem falsificação grosseira. Há muito que aprender sobre o processo pelo qual o jornal não só fala do mundo, mas participa efetivamente da produção da imagem que todos nós compomos da realidade e do cotidiano”. E se apropriando do pensamento de Fernando Pessoa, ele ainda nos diz que “só como surpresa, (...) podemos recuperar a vida intensa que palpita por trás desses implacáveis arranjos gráficos e a infinidade de intenções que eles contêm” (Sevcenko, 2006, p. 10). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BASTOS, Daniel Trench. Tentativa e Acerto, a Reforma Gráfica do Jornal do Brasil e a Construção do SDJB. São Paulo, 2008. 123 p. 11


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