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De manh達, em Cabo Frio Praia do Forte - Cabo Frio / Foto de PapiPress


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Capa

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Peixe!

Nesta região, a pesca tem grande significado para a população, tanto cultural, quanto economicamente. Este pedaço de terra que entra no mar, é conhecido desde a época em que os navegadores portugueses chegaram por aqui.

Julho, 2007 Número 15

Desenvolvimento

9 Mercado em Expansão A construção da Ponte Rio-Niterói, na década de 70, iniciou o processo. Casas e apartamentos para veraneio, temporadas fervilhando de gente vinda de toda parte, descobrindo a Região dos Lagos, até então um paraíso praticamente intocado.

11 Arraial na vertical 15 A Rede de franquias Yázigi Internexus realiza Encontro Regional em Cabo Frio São Pedro da Aldeia 16 Enfim, os ônibus A novela do transporte coletivo em São Pedro da Aldeia parece estar chegando ao final Cultura 22 Se essas paredes falassem A história de uma cidade contada pela sua arquitetura Capa 32 Tecnologia é a saída Pescadores e empresários da pesca reclamam da falta de peixes no nosso litoral. Culpam a poluição e a pesca predatória, e acreditam que apenas incentivos do governo podem reverter a situação Especial 40 Rir o melhor remédio Esporte

42 Santinha na raia Maurício Santa Cruz, o Santinha, bi-campeão mundial e campeão italiano na categoria J 24 é Cabo Frio no Pan

45 II Semana de Vela de Cabo Frio Artigo 46 TURISMO... Que turismo é esse ?

Desenvolvimento Crise do sal em discussão A OAB quer a intervenção dos governos estadual e federal para evitar a quebra das indústrias

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Saúde Esperança renovada Definir a rotina de uma pessoa com Câncer é quase tão difícil quanto conviver com a doença. São exames, cirurgias, quimioterapia, radioterapia e dor: do corpo e da alma. Isso porque, apesar das estatísticas mundiais comprovarem que mais da metade dos casos de Câncer têm um final feliz, a doença ainda é encarada por muitos como uma sentença de morte.

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Armação dos Búzios Objeto do desejo Armação dos Búzios luta para manter suas áreas de proteção livres da ocupação imobiliária e discute seu Código Ambiental sem a presença da prefeitura

Opinião

48 “Procura-se um homem de Cristo” Capa: Barcos de pescadores artesanais na Praia Grande - Arraial do Cabo Foto de César Valente

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CIDADE, Julho de 2007


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Marcus Antônio Monteiro Nogueira

Constitui-se, em verdadeira amostra de um trecho único e singular do litoral de nosso Estado, a península de Armação de Búzios, submetido à constantes ameaças de destruição pela pressão imobiliária e ocupação inadequada

Divulgação

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Niete Martinez

arcus Antônio Monteiro Nogueira é Bacharel em Direito e especialista em patrimônio cultural e imaginária barroca. Ex-Secretário Municipal de Cultura de Nilópolis e ex-Superintendente de Cultura do Estado do Rio de Janeiro assumiu a Direção do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural em 2003. Apaixonado por seu trabalho, em 2001, organizou a exposição “O Barroco na Baixada Fluminense”, que expôs obras oriundas de acervos públicos e coleções particulares. A exposição bateu o recorde de público da Casa França-Brasil, na época. Foi matéria dos principais telejornais e capa de jornais e revistas de grande circulação do Brasil e do exterior, como The New York Times. Além da beleza das peças expostas, a razão para tamanho sucesso foi a derrubada de um tabu, até então existente entre especialistas e historiadores, de que na Baixada Fluminense não haveriam obras do período barroco. Na época, a exposição foi apontada por moradores da Baixada Fluminense, como um grande fator da elevação de sua auto-estima. O catálogo da exposição, esgotado, é hoje importantíssima fonte de pesquisa.

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O que é o Inepace e qual a sua função? O Inepac - Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - é o órgão da administração estadual vinculado à Secretaria de Cultura e responsável pela proteção, preservação e valorização do Patrimônio Cultural Fluminense. Suas atribuições envolvem desde o desenvolvimento de estudos e pesquisas voltadas para o conhecimento, a identificação e o registro dos bens culturais e naturais - imóveis ou móveis, materiais ou imateriais constituidores de nossa memória e identidade social; ao reconhecimento oficial daqueles bens, que são resultado da produção/criação humana e de sua relação com o meio em que vivemos, merecedores de proteção especial pelo Estado. Quando um bem ou área é tombada, a quem cabe cuidar para que seja preservada? É dever de todo cidadão cuidar do patrimônio cultural do país, conforme definido pela Constituição Federal de 1988. Na esfera governamental, essa tarefa aparece co-

mo competência comum da União, dos Estados e dos Municípios, responsáveis pela proteção de documentos, obras e outros bens considerados de valor histórico, artístico e cultural, além de paisagens naturais notáveis e sítios arqueológicos. A legislação existente é suficiente para garantir que um patrimônio tombado não seja descaracterizado? Como foi dito antes, a Constituição de 1988 ampliou a responsabilidade do Poder Público, com o apoio das comunidades, em promover e proteger o patrimônio cultural, através de instrumentos que vão desde o tombamento até outras formas de acautelamento e preservação, como o inventário, a vigilância, a desapropriação, entre outras. Teoricamente pode-se dizer que a legislação, o seu texto, é suficiente, mas na prática não temos conseguido aplicá-la como seria necessário, de forma a evitar ou minimizar os danos, as perdas e a descaracterização do nosso Patrimônio. CIDADE, Julho de 2007

MARCUS ANTÔNIO MONTEIRO NOGUEIRA Diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac)

Infelizmente, como ocorre em outras áreas, interesses financeiros particulares, em detrimento do interesse público maior, muitas vezes continuam a comprometer a preservação do patrimônio ambiental urbano, das paisagens culturais e naturais notáveis, ou mesmo, de edificações isoladas protegidas pelo tombamento. Também as carências crônicas das instituições públicas, com as quais somos obrigados a conviver, muitas vezes contribuem para causar, mesmo que indiretamente, danos irreparáveis ao nosso patrimônio, independente da existência de uma legislação adequada. É preciso, ainda, muito trabalho para fazer valer todo o ideário contido em nossa Constituição. Como é feito um processo de tombamento? Qualquer cidadão pode solicitar o tombamento de um bem que considere possuidor de valor histórico, artístico, arquitetônico, urbanístico, paisagístico ou afetivo para sua cidade ou comunidade - uma determinada 5


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casa, um conjunto de edificações, obras de arte, documentos, monumentos, ruas, praças, áreas verdes, paisagens naturais, etc. Cabe aos órgãos técnicos de patrimônio a apreciação dos pedidos e o desenvolvimento dos estudos necessários ao tombamento. O processo é devidamente montado pelo Inepac com informações históricas, documentais, fotográficas, dentre outras, justificando o pedido; este é, em seguida, encaminhado, através do Secretário de Cultura, ao Governador do Estado para ciência prévia. Retornando o processo ao Inepac, é providenciada a publicação do Edital de Tombamento Provisório e enviadas as notificações aos proprietários e demais correspondências aos órgãos afins comunicando acerca do Ato. O processo completo, com todas as informações, é então remetido ao Conselho Estadual de Tombamento, para opinar e elaborar um parecer conclusivo sobre o assunto e, após, é novamente enviado através do Secretário de Estado de Cultura ao Governador para autorização final. Retornando o processo, cabe ao Secretário de Cultura a publicação, no Diário Oficial do Estado, de uma Resolução com o ato do tombamento definitivo. É importante esclarecer que o tombamento provisório tem o mesmo efeito legal que o tombamento definitivo. Quando uma área é tombada, como no caso das Áreas 1 e 2 de Armação dos Búzios, significa que se tornam não edificantes? Inicialmente é importante esclarecer que o tombamento dessas áreas naturais, de extraordinária beleza cênica, e a sua inclusão na listagem dos bens considerados como Patrimônio Cultural Fluminense, deu-se pelo reconhecimento oficial do excepcional valor cultural que esta paisagem possui, agregado a outros valores ambientais, que resultam da composição de seus inúmeros elementos naturais, onde se destacam a formação geomorfológica e geológica dos costões rochosos e a flora de Mata Atlântica, típica da região. Constitui-se, portanto, em verdadeira amostra de um trecho único e singular do litoral de nosso Estado, a península de Armação de Búzios, submetido à constantes ameaças de destruição pela pressão imobiliária e ocupação inadequada. Assim sendo, no tombamento das Áreas 1 e 2, com cerca de 94,985 hectares e 186,787 hectares, respectivamente, foram estabelecidos parâmetros de conservação, para uso e ocupação, restritivos o suficiente para assegurar que os motivos que justificaram o tombamento e sua salvaguarda como Patrimônio Cultural Fluminense sejam respeitados, conforme preconiza a própria lei estadual e federal que trata da matéria, não as tornando não edificantes. Vale lembrar que os estudos de tombamento basearam-se em pareceres fornecidos 6

por instituições com as quais o Inepac estabeleceu parceria, a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - Feema, o Departamento de Recursos Minerais, o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Uerj. Existe um entendimento entre o Inepac e as prefeituras do interior sobre essas áreas? Como é o relacionamento geral do Instituto com as prefeituras? No caso de Armação dos Búzios, o relacionamento com a Prefeitura está muito longe do desejável. Na gestão do Secretário de Meio Ambiente e Saneamento, Marcelo Haddad, recentemente exonerado, estávamos iniciando entendimentos para a busca de soluções comuns. Na administração anterior, houve um início de relacionamento institucional, com a Secretaria de Meio Ambiente e Saneamento, assim como com a Secretaria de Planejamento e Urbanismo, após o tombamento de 2 sítios naturais no município. A Prefeitura,

As maiores dificuldades vêm sendo encontradas na atuação da Prefeitura (de Búzios), que freqüentemente desconsidera a legislação estadual de tombamento inclusive, chegou a solicitar a ampliação das áreas tombadas, embora tal pedido não tenha sido oficializado. No início do atual governo, foram estabelecidos contatos com a então Secretaria de Planejamento Urbano e Meio Ambiente Secplama. Em ofício enviado a essa Secretaria, em 30 de maio de 2005, solicitamos que a aprovação de projetos referentes a quaisquer intervenções nas áreas tombadas, assim como o licenciamento de obras, estivessem condicionados à aprovação prévia do Inepac. Apesar dessa solicitação, reiterada em outras oportunidades, nos deparamos, inúmeras vezes, com licenciamento de obras nas áreas tombadas sem a prévia anuência deste Instituto, em atendimento à legislação estadual em vigor. Recentemente, comprovou-se a denúncia recebida pelo Inepac, de parcelamento do solo aprovado pelo município, sob forma de desmembramento, em gleba tombada na Praia do Forno. A esse respeito, o Inepac oficiou diversas vezes à Prefeitura e ao Cartório de Armação dos Búzios, com cópias ao Ministério Público Estadual. Até o momento, não houve qualquer pronunciamento da Prefeitura, mesmo com a publicação de diversas matérias, pelo Primeira Hora, uma vez que o processo de desmembramento em CIDADE, Julho de 2007

questão foi requerido pela Câmara Municipal. Outro fato é que as áreas tombadas não foram, sequer, mencionadas no Plano Diretor do município, aprovado em 2006. No entanto, em 2005, a então Secplama enviou ao Inepac mapa do zoneamento ambiental, onde essas áreas estavam demarcadas. O referido mapa foi anexado ao ofício onde aquela Secretaria solicitou que fosse adotado, no tombamento estadual, os mesmos parâmetros que estavam sendo estudados na revisão do Plano Diretor. Nessa ocasião, foram cedidas ao Inepac e ao DRM, para delimitação das áreas de preservação permanente nas áreas tombadas, as bases cartográficas da Prefeitura, que resultaram do levantamento aerofotogramétrico realizado em 2003. Da mesma forma, constata-se, agora, que não existem referências ao tombamento estadual no projeto de lei que institui o Código do Meio Ambiente de Armação dos Búzios. No entanto, no projeto de lei do Código Ambiental do Estado do Rio de Janeiro foi incluído um capítulo que trata do Patrimônio Cultural. Assim solicitamos à Câmara Municipal, onde o projeto, elaborado pela Prefeitura, encontra-se em discussão, que conste do texto desse projeto de lei a inclusão das áreas tombadas. A descontinuidade administrativa, em especial nos municípios fluminenses, certamente prejudica a construção de um relacionamento mais constante e eficiente. Mas temos exemplos de bom relacionamento com o município do Rio de Janeiro, apesar da sua complexidade, Miracema, com que trabalhamos conjuntamente há muitos anos, Valença, que se encontra numa fase positiva de consolidação de parcerias, São João de Meriti, onde estamos fazendo um trabalho conjunto de inventário, dentre outros. Existem divergências sobre os limites das áreas tombadas em Búzios. Como é a demarcação dessas áreas e quem deveria cuidar disso? No tombamento das áreas naturais em Armação dos Búzios, em 2003, foi utilizado um mosaico de fotos fornecido pela empresa Nautilus, bem como as bases fornecidas pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal – Ibam, utilizadas no Plano Diretor realizado para a Prefeitura em 1999. Nessa ocasião, não foi possível contar com as bases cartográficas mais recentes da Prefeitura, que ainda estavam sendo processadas, para subsidiar os estudos do novo Plano Diretor do município que, então, estava sendo elaborado pela Fundação Getúlio Vargas. Portanto, algumas das informações utilizadas na delimitação das áreas tombadas não foram precisas. Por essa razão, em algumas ocasiões, têm surgido divergências entre a demarcação, nos mapas, e a delimitação conforme descrita, desses limites.


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TA Marcus Antônio Monteiro Nogueira

Quais as maiores dificuldades encontradas em Búzios? As maiores dificuldades vêm sendo encontradas na atuação da Prefeitura, que freqüentemente desconsidera a legislação estadual de tombamento.

Como está a situação da avenida Litorânea em Cabo Frio? As exigências feitas pelo Instituto estão sendo cumpridas? O senhor acredita que a obra possa ser realizada ainda este ano? Recebemos, há uns 10 dias, a última versão do projeto da avenida no seu trecho final. Segundo avaliação da equipe técnica, as exigências feitas anteriormente foram “textualmente” atendidas, apesar de não terem sido encaminhados os projetos executivos específicos. A nossa expectativa quanto à sua execução é grande porque, para o Inepac, esta é a última oportunidade da Prefeitura implantar no local um projeto de acordo com os parâmetros estabelecidos pelos órgãos de patrimônio; todos os demais trechos da Avenida Litorânea, anteriormente urbanizados, foram realizadas à revelia e desconsiderando a orientação dos órgãos de preservação e muitos itens ainda se encontram pendentes.

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É necessário a requalificação imediata de toda a orla da Praia do Forte com a execução do projeto de recuperação das áreas degradadas, e sua recomposição paisagística É necessário a requalificação imediata de toda a orla da Praia do Forte com a execução do projeto de recuperação das áreas degradadas e sua recomposição paisagística. Somente assim, esse trecho que compõe o tombamento estadual das Dunas de Cabo Frio terá finalmente recebido a atenção que merece. A Região dos Lagos vive um momento de expansão, com muita pressão sobre áreas de preservação, como é o caso do projeto Reserva Peró, em Cabo Frio, e do Club Breezes, em Búzios. Como o senhor vê esses empreendimentos? Acha que estão adequados às leis ambientais? Os empreendimentos referidos estão previstos para serem implantados em áreas que não estão protegidas pela legislação estadual de tombamento.

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No entanto, no caso do Resort Peró, destinado a terreno situado nas Dunas do Peró, foi-nos enviada uma cópia do EIA-Rima. Assim, tivemos conhecimento do empreendimento, um complexo turístico, hoteleiro, residencial e de lazer, ancorado na atividade de hotelaria. Desta forma, diante da responsabilidade do Poder Público de proteger o patrimônio cultural, e tendo em vista que as intervenções propostas poderiam causar impactos danosos à qualidade ambiental e cultural do sítio natural, o Inepac manifestou sua preocupação sobre o assunto junto a diversas instituições competentes. No momento, temos notícias que o projeto vem sendo ajustado para atender à legislação ambiental, uma vez que se encontra em processo de licenciamento ambiental na Feema. No caso do Club Breezes, previsto para ser implantado na Praia de Tucuns, em Armação dos Búzios, fora dos limites das áreas tombadas, temos acompanhado o assunto pelas publicações da imprensa. Assim, tivemos conhecimento que o caso é objeto de uma ação civil pública, instaurada pelo Ministério Público Estadual e que as obras foram suspensas após liminar concedida pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.


Desenvolvimento PapiPress

Mercado em Expansão

Praia do Forte - Cabo Frio Totalmente tomada

A construção da Ponte Rio-Niterói, na década de 70, iniciou o processo. Casas e apartamentos para veraneio, temporadas fervilhando de gente vinda de toda parte, descobrindo a Região dos Lagos, até então um paraíso praticamente intocado. Renato Silveira as décadas seguintes, o processo evoluiu, trazendo pessoas também interessadas em morar por aqui, fugindo da violência das grandes cidades ou simplesmente atrás das oportunidades trazidas pelo crescimento, tanto do turismo quanto do mercado de trabalho, em franca expansão. Hoje, a população da região cresce a inacreditáveis taxas de mais de 5% ao ano (há bairros em Cabo Frio onde esse número chega a 12%, como o Peró), fazendo com que o mercado imobiliário, meio estacionado após algumas crises, nas décadas passadas, saltasse, e fizesse dos municípios que a compõem, praticamente um novo eldorado para o setor, com destaque para empreendimentos como o programado para a Reserva do Peró, onde nada me-

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nos que o Club Med e o Sheraton pretendem se instalar em breve.

Mercado em alta O presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis, Ricardo Monte, atesta esse crescimento. Segundo ele, já são mais de 500 profissionais trabalhando em toda a região (somente em Cabo Frio há mais de 100), e nenhum deles se queixando de vendas fracas ou coisa parecida. “Não que as vendas sejam algo extraordinário, nem há ninguém ficando milionário por aqui. Mas agora há uma constância. Vim de Niterói, e no auge da inflação, com os preços subindo diariamente, as vendas eram feitas com mais velocidade. Agora, podemos vender até menos, mas há mais segurança”, acredita. Se nas décadas passadas, a procura de imóveis era basicamente feita por veranisCIDADE, Julho de 2007

tas, ou seja, pessoas interessadas apenas na alta temporada, nos últimos anos essa realidade mudou, e há praticamente um empate entre os que vêm para ficar e os que querem apenas um imóvel para lazer. “Posso dizer que 50% das vendas são feitas para veranistas, e com uma mudança. Já não se vende mais tanto para Minas Gerais, tem mais gente do Rio procurando imóvel na região. Observo também que o pessoal de Brasília também vem descobrindo nossa área. A outra metade é de gente comprando para morar mesmo” explica o corretor. Mas mesmo com essa mudança de perfil, o mercado continua sazonal, ou seja, as vendas crescem no verão, mais ou menos a partir de novembro, e diminuem em março. Em se tratando de uma região composta de vários municípios, há também uma di9


Desenvolvimento Celso Gabriel

Ernesto Galiotto

SÃO PEDRO DA ALDEIA Opção de imóveis mais baratos

tos locais disponíveis para novas construções na cidade, embora alguns apostem no crescimento vertical para resolver esse problema (veja matéria anexa de Tomás Baggio) “Não há espaço para a construção de novos empreendimentos em Arraial do Cabo. De um lado, temos o Pontal, os terrenos da Álcalis, do outro, a Restinga de Massambaba, quase tudo tombado como reserva. No centro, quase não há mais espaço” disse.

Mercados complementares

Em Búzios, as restrições ambientais não representam um problema para os empreendedores imobiliários. A cidade, mesmo com vigilância severa dos ambientalistas, ainda é a campeã de vendas. “Búzios já passou pelo processo de sobrevalorização que Cabo Frio passa hoje, e os preços já se ajustaram. Com isso, as vendas estão num bom patamar, e tem muita gente procurando a cidade para lazer e moradia. E esse sentimento preservacionista acaba sendo positivo”, avalia. Realidade diversa vive o município de Iguaba Grande, que conta hoje com uma grande oferta de imóveis e pouca procura. “ Parece que Iguaba está a venda. A quantidade de imóveis em oferta é enorme, para uma procura muito pequena”.

A princípio, que vem lucrando mais com essa sobrevalorização cabo-friense é o município vizinho de São Pedro da Aldeia. Com preços na faixa de 100% a 150% mais baixos do que Cabo Frio, a cidade vem alavancando vendas inimagináveis na década passada, quando a poluição da Lagoa de Araruama afastou muita gente de lá. “O cliente vem, vê o preço de Cabo Frio, acha caro, e descobre que São Pedro, há 10 minutos dali, tem imóveis muito mais em conta, e acaba fazendo sua opção” explica Ricardo. Já Arraial do Cabo, até mais próximo de Cabo Frio do que São Pedro, não acompanha essa tendência. Motivo? Não há mui10

César Valente

ferença na realidade de cada um deles, tanto no perfil de quem vem morar como no de quem vem visitar. E, segundo Ricardo, os preços acompanham essa tendência. “Vejamos o caso de Cabo Frio. Tudo que aconteceu nessa cidade nos últimos anos trouxe muita gente para cá, e o conseqüente aumento da procura. Com isso, os preços deram uma disparada, e chegamos ao ponto de termos imóveis ao preço da Barra da Tijuca. É lógico que há uma distorção nisso, que vai acabar sendo corrigida” acredita ele.

BÚZIOS Campeã de vendas apesar das questões ambientais

Búzios é a campeã de vendas

CIDADE, Julho de 2007

RICARDO MONTE Presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis

Chegamos ao ponto de termos imóveis ao preço da Barra da Tijuca


César Valente

Arraial na vertical Tomás Baggio processo de ocupação de Arraial do Cabo foi uma das questões mais discutidas na elaboração do novo Plano Diretor da cidade, aprovado pela Câmara Municipal em março deste ano. No centro da cidade, não há espaço para novas construções, e os empreendedores imobiliários voltam, agora, seus olhos para a verticalização da moradia no município. Eles vislumbram, também, as terras da Companhia Nacional de Alcalis. São 21 milhões de metros quadrados que a partir de agora devem sofrer ocupação gradativa. O novo plano aumentou o gabarito da cidade (número de andares que se permite construir em um prédio), de três para seis pavimentos. Destes, dois devem ser reservados para garagem, e a construção não pode ultrapassar 60% da área total do terreno, que deve ter, no mínimo, 750 m2. Também há limite na altura do prédio: 23 metros. Para a construção de prédios com essas características, pedem-se ainda estudos de impacto de trânsito, vizinhança e meio ambiente. O discurso da verticalização em Arraial do Cabo ganhou força com a chegada do empresário Fuad Zacharias. Há dois anos, ele tentou desenvolver empreendimento na Praia Grande com característi-

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cas estranhas ao antigo Plano Diretor e, para isso, contou com a ajuda do prefeito Henrique Melman (PDT). O projeto enviado à Câmara pelo executivo solicitava autorização para a construção de três projetos na orla da praia. Um deles, em área então adquirida pela empresa Mascate de Arraial do Cabo Empreendimentos Imobiliários LTDA, de Fuad Zacharias, que no total teria dez andares e 321 apartamentos. Antes mesmo da aprovação na Câmara, já havia, no local, estrutura montada para stand de vendas. A justificativa do projeto enviado por Melman era o valor do imposto de Solo Criado, que seria pago aos cofres públicos: novecentos mil reais. A sessão da Câmara Municipal no dia 17 de maio de 2005 foi uma das mais polêmicas e conturbadas da história da casa. Bancadas de governo e oposição travaram três horas de intenso debate, com plenário lotado. Os seis, dos nove vereadores que defenderam a construção, ficaram conhecidos, depois desse dia, como a “bancada de Fuad”. O projeto foi aprovado com os votos de Cristiano da Silva Pimentel (PV), Ângelo de Macedo Alves, o Shogum (PCdoB), Carla Celeste (PCdoB), Eduardo Andrade da Rocha (PDT - então líder do governo), Walter Félix Cardoso Júnior, o Piolho (PPS - atual presidente da Câmara) e Almir dos Santos Teixeira (PDT -

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então presidente da casa), mesmo com o Plano Diretor determinando o gabarito máximo de três andares em toda a cidade. Os vereadores contrários ao prédio de dez andares (Rômulo Leonardo - sem partido -; David Dutra - PR -; e Reginaldo Mendes Leite - PT), questionaram os impactos no trânsito e no meio ambiente. “Nem entramos no mérito se dez andares era bom ou ruim. Naquele dia, dissemos simplesmente que o projeto era inconstitucional, pois feria uma das principais leis do município. Além disso, não houve estudos sobre o impacto de um prédio desse tamanho na cidade. Não estava especificado para onde iria o esgoto e de que forma se comportaria o trânsito. Questionamos também sobre os critérios usados pela prefeitura para estabelecer o valor de novecentos mil reais a título de Solo Criado”, recorda o vereador Reginaldo Mendes Leite. A favor da construção constava um parecer do Grupo de Revitalização Urbana (GRU), que garantia a capacidade de três empresas (Ampla, Prolagos e Telemar) levarem seus serviços até o local (luz, água e telefone, respectivamente). A aprovação do projeto foi seguida por uma Ação Civil Pública que Reginaldo protocolou no Ministério Público. O processo foi analisado e encaminhado pelo promotor Murilo Bustamante e, no dia 10 de setembro de 2005, o juiz de Arraial do Cabo, André Luiz Nicollit, deu liminar proibindo a construção pela empresa Mascate. Outra novidade no Plano Diretor de Arraial é a liberação de áreas de salina, e de parte das terras da Álcalis, para a construção civil. Na opinião do vereador Reginaldo Mendes, a forma de ocupação da cidade foi “equivocada”, e o grande problema do novo plano é a falta de estudos técnicos.

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OAB reuniu autoridades para discutir a situação da indústria salineira

Crise do sal em A OAB quer a intervenção dos governos estadual e federal Texto e fotos: Loisa Mavignier ministro do Trabalho e Desenvolvimento Social Carlos Lupi declara o seu amor ao estado do Rio de Janeiro e promete empenho para encontrar soluções para a crise das indústrias do sal e barrilha na Região dos Lagos. O comprometimento do ministro foi firmado durante o 1º Fórum Regional SOS Indústria do Sal e Barrilha, promovido pela 20ª subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no auditório da Universidade Veiga de Almeida, em Cabo Frio (22/06). “Eu amo o meu Estado. Eu amo o Rio de Janeiro. E como ministro do Rio de Janeiro, assumo a responsabilidade de resolver a questão da Álcalis e vou resolver. Vamos negociar a dívida com o INSS, a Previdência, o BNDES. Tenho consciência do meu papel, mas vou querer que cada

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um também assuma o seu papel, o governo estadual e as prefeituras. Vamos negociar com cada prefeito dessa região e vamos saber quem de fato está do lado dessa região”, enfatizou o ministro. Ele propôs uma reunião com uma Comissão Mista do fórum no Ministério do Trabalho, em Brasília, para iniciar as negociações. Ao abraçar a causa da indústria do sal e barrilha, leia-se Cia. Nacional de Álcalis, em Arraial do Cabo, que já foi a maior produtora nacional de barrilha, e a Cia. Salinas Perynas, a OAB quer levar ao governo do Rio e à presidência da República projetos de viabilidade para as empresas e garantir os empregos de centenas de trabalhadores. Para isso, mobilizou cerca de 300 representantes de sindicatos patronais e de empregados, entidades de classe e políticos no fórum regional. O secretário estadual de Trabalho, Emprego e Renda, AlceCIDADE, Julho de 2007

bíades Sabino não compareceu ao evento, e o prefeito de Cabo Frio, Marquinho Mendes, teve um mal estar súbito e não participou do fórum.

Ônus social A meta da OAB e sindicatos é encontrar, com apoio governamental, uma saída para a crise dessas indústrias que juntas acumulam dívidas de mais de 500 milhões de reais. Empresas que, quando definitivamente paralisadas, irão gerar um ônus socioeconômico de grandes proporções na região, já iniciado pela demissão gradual de cerca de mil trabalhadores nos últimos dois anos. Uma bancarrota que fechará também as páginas históricas da indústria do sal na economia local. “Esse é um momento perene. Não vamos descansar enquanto não encontrarmos soluções, não só para a Álcalis e a Salinas,


Região

MINISTRO CARLOS LUPI

Assumo a responsabilidade de resolver a questão da Álcalis e vou resolver

Também participaram do “1º Fórum Regional SOS Indústria do Sal e Barrilha” - o deputado federal Bernardo Ariston; o deputado estadual Alair Corrêa; o deputado estadual e presidente da Comissão do Trabalho na Alerj, Paulo Ramos;o presidente da Câmara de Vereadores de Cabo Frio, Luis Geraldo e o vereador Jairo Mendes; Luis Cotia; o prefeito de Arraial do Cabo, Henrique Melman; o presidente da Câmara de São Pedro da Aldeia, vereador Chumbinho; Charles Souza Franco, gerente de Tecnologia da Salinas Perynas; diretores do Sindicato dos Tabalhadores na Indústria de Extração e do Refino do Sal de Cabo Frio, Alexandro dos Santos Esteves; o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Álcalis, Alexandre Alves dos Santos, e o secretário geral Roberto Luis Resende Rodrigues; advogados, vereadores, ambientalistas, historiadores e trabalhares das indústrias.

discussão para evitar a quebra das indústrias mas para os grandes reclames da sociedade na região”, garante o presidente a OAB/ Cabo Frio, Eisenhower Dias Mariano. A entidade pretende levar a Comissão Mista à Brasília em julho. Somente a Álcalis deve mais de R$ 449 milhões, desse total R$ 282 milhões são débitos federais, estaduais e municipais. O Plano de Viabilidade Econômica para a indústria apresentado durante o fórum inclui mudanças no processo de produção, fábrica de carboneto de potássio, carcinicultura (criação de camarão), pólo industrial, turismo, construção civil, entre outras ações que envolveriam um investimento global de US$ de 62.567.779 milhões, com geração de 760 empregos diretos e 450 empregos indiretos. Projetos que a OAB quer apresentar ao BNDES, ao governador Sérgio Cabral e ao presidente da República Luis Inácio Lula da Silva.

Já a Perynas acumula dívidas trabalhistas de mais de R$ 20 milhões e de cerca de R$ 10 milhões com a Cia. Estadual de Gás (CEG), isso sem contar os demais credores. A salineira, uma das mais tradicionais da região, de acordo com o gerente de Tecnologia, Charles Souza Franco, vê a saída no reaproveitamento da terra e culpa a alta no preço do gás, as condições climáticas desfavoráveis e a concorrência do mercado globalizado pela decadência da empresa. Já o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Extração e do Refino do Sal de Cabo Frio, Alexandro dos Santos Esteves, acredita em sucateamento premeditado em função de projetos imobiliários. A meta da Perynas é aprovar na Prefeitura de Cabo Frio o loteamento residencial de áreas na praia do Sudoeste, em Cabo Frio, como meio de pagar as dívidas com trabalhadores e fornecedores. CIDADE, Julho de 2007

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Cartas www.revistacidade.com.br Julho, 2007

Publicação Mensal NSMartinez Editora ME CNPJ: 08.409.118/0001-80 Redação e Administração Praia das Palmeiras, nº 22 Palmeiras – Cabo Frio – RJ CEP: 28.912-015 cidade@revistacidade.com.br

Diretora Responsável Niete Martinez niete@revistacidade.com.br Reportagens Juliana Latosinski Loisa Magvinier Renato Silveira Tiago Freitas Tomás Baggio Octávio Perelló

GOSTARIA DE FAZER UMA OBSERVAÇÃO QUANto ao primeiro paragrafo da matéria da Loisa Mavigner e propor uma reflexão mais profunda sobre o tão falado desenvolvimento sustentável. Neste primeiro parágrafo é colocado que aprovado o Código Ambiental ele irá garantir um desenvolvimento sustentável para o município. Poderá garantir sim, sob o aspecto de diretrizes ambientais, mas o desenvolvimento sustentável do município só será possível se tivermos condições de gerar emprego e renda de tal forma que a população fixa do município possa alimentar e fazer funcionar a vida financeira do município, diminuindo a dependência do turismo, da construção civil e da sazonalidade que atinge a toda nossa região. A sustentabilidade ambiental só é possível se houver sustentabilidade de renda, se tivermos um município com planejamento de fato, gerando emprego e renda, consequentemente impostos e desenvolvimento, ai sim os conflitos serão abrandados e o meio ambiente poderá ser realmente protegido. O que estamos vendo é exatamente o resultado da falta de planejamento, a falta de implementação de metas e diretrizes que apontem para o desenvolvimento sustentável do município. Se não tivermos outra forma de garantir a sobrevivência do município alem do turismo e da construção civil, cada vez será maior a pressão sobre o meio ambiente e maiores serão os conflitos. Agora se adicionarmos a falta de uma legislação clara e objetiva, então estaremos criando as condições ideais para que o jogo de interesses se manifeste da forma mais danosa, criando caminhos paralelos para obtenção de vantagens e possibilitando a corrupção. Chico Sales (Armação dos Búzios / RJ)

Fotografias Cesar Valente Filmers 9900 PapiPress Colunista Octávio Perelló

Produção Gráfica Alexandre da Silva alecabofrio@oi.com.br

Impressão Ediouro Gráfica e Editora S.A Tiragem 5.000 exemplares

Distribuição Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Búzios, Rio das Ostras, Casimiro de Abreu, Macaé, Rio de Janeiro e Brasília.

Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores. 14

ORA, ORA... DORMITÓRIO DAS GARças! Eu hein !? Costumava chamá-lo Santuário das Garças, quando lá ía, remando um caiaque, há uns seis anos atrás. Então, começou a degradação. Todos sabem quem a produziu, mas não querem falar. E muito menos eu, que não sou besta. Enfim, acabaram com aquilo, que agora querem revitalizar. Eu pergunto: o que interessa a uma família de garças uma passarela cheia de moleques andando de bicicleta, como foi mostrado na sua revista? Já imaginou o muro da sua casa com uma porrada de garças olhando pra dentro e falando: “olha o ninho deles” ou “olha o filhinho deles”. Durma-se com um barulho desses, que eu quero ver. José da Fonseca (Palmeiras - Cabo Frio / RJ) FIQUEI DECEPCIONADA AO LER A mátéria de Cristiane Zotich “O Poder das Mulheres”,que cita a existência de somente duas Vereadoras na Região do Lagos. Leitora assídua desta revista, muito me admirei ao constatar que, uma jornalista que escreve sobre política, ignore o número de Vereadoras existente em nossa Região. Na Câmara Municipal de Iguaba Grande, somos quatro mulheres Vereadoras, um fato inédi-

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to na história política da Região dos Lagos. Certa de que esta renomada Revista tomará as medidas quanto a retratação por parte da referida jornalista, despeço-me renovando protestos de elevada estima e distinta consideração. Vereadora Rosa Maria N. Ferreira PMDB (2º Mandato) (Iguaba Grande / RJ) ACABEI DE CONHECER A REVISTA CIdade, editada em Cabo Frio. Confesso, que em anos de jornalismo no Estado do Rio e na Região dos Lagos, em especial, é a primeira vez que tenho o prazer de ler uma publicação tão bem produzida e estruturada. Parabéns. Trabalhei na sucursal Lagos do jornal O DIA, atualmente trabalho na assessoria de imprensa do governador e tenho tempo disponível para colaborar com vocês. Rafael Masgrau (Rio de Janeiro / RJ)

Cartas para o Editor Praia das Palmeiras, 22 - Palmeiras, Cabo Frio/RJ - Cep: 28.912-015 E-mail:cartas@revistacidade.com.br


Encontro Regional Yázigi

A Rede de franquias Yázigi Internexus realiza Encontro Regional em Cabo Frio

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Diretora de Marketing e Gestão da Rede Yázigi Internexus, Márcia Pires, coordenou durante os dias 22 e 23 de maio de 2007, no Hotel Malibu, na cidade de Cabo Frio, o Encontro Regional das Escolas Yázigi dos Estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais. A diretora explicou que os objetivos dos Encontros Regionais promovidos pelo Yázigi, em todo o Brasil, durante o mês de maio, visam à troca de experiência entre os franqueados, e também discutir estratégias de negócios para 2007/2008, além de alinhar os franqueados em torno dos valores da marca. Parciparam do Encontro cerca de 50 escolas. Segundo Márcia, Cabo Frio foi escolhida para acolher o evento, “por que a escola Yázigi local tem sido, ao longo dos últimos 30 anos, um exemplo de franquia para a Rede Yázigi, com os franqueados envolvidos e comprometidos com a marca, primando pela competência, atenção e cuidado com seus clientes”.

Melhor franquia A rede de Escolas Yázigi ganhou da revista “Pequenas Empresas, Grandes Negócios”, o premio de Melhor Franquia do Brasil no ano de 2006. Márcia Pires explica que como ganhadores do prêmio em 2006, o Yázigi não poderá concorrer ao prêmio deste ano. “Porém participa da Comissão que elegerá a melhor franquia do Brasil em 2007. Independentemente desse prêmio, sabemos que o Yázigi estará entre as melhores empresas franqueadoras do Brasil”, finalizou a diretora. MÁRCIA PIRES Diretora de Marketing e Gestão da Rede Yázigi Divulgação

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São Pedro da Aldeia

Enfim, os ônibus

ônibus municipais voltaram a circular em São Pedro da Aldeia

A novela do transporte coletivo em São Pedro da Aldeia parece estar chegando ao final Renato Silveira / Fotos César Valente novela do transporte coletivo em São Pedro da Aldeia parece estar chegando ao final. No dia 2 de junho, 2 anos após a saída da Viação São Pedro, braço da Auto Viação Salineira no município, os moradores da cidade voltaram a contar com linhas de ônibus regulares para quase todos os bairros (exceção da zona rural, que ainda não está sendo atendida), com a chegada da Aldeense, nome fantasia adotado pela Transporte Opala, empresa de Silva Jardim vencedora da licitação ocorrida em janeiro deste ano. A demora entre o final da concorrência pública e o início dos trabalhos da empresa faz parte do enredo inimaginável até por um autor de novelas, em seus dias mais inspirados. A cada mês, a prefeitura local anunciava a chegada dos ônibus, que não acontecia, o que já estava virando piada nas ruas da cidade. Enquanto isso, a população se virava como podia, se locomovendo em lotadas e nas kombis, a essa altura também ilegais, depois de serem descredenciadas após uma queda de braço com o poder público em busca de reajuste de tarifas.

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Volta à normalidade Embora o estado dos ônibus não seja exatamente o esperado pelos usuários e a prefeitura (a frota é velha, fato admitido até pela diretoria da empresa), a popula-

“Tinha de andar meia hora até o ponto, que fica na rua principal. Agora, os ônibus passam praticamente na porta da minha casa, e a gratuidade está garantida” comemora. O usuário comum também festeja a chegada das linhas municipais. Para Maria Lúcia Moreira, do Campo Redondo, a economia no bolso está sendo grande. “Tinha de pagar R$ 2,70 na passagem, agora pago só R$ 1,49 e ainda desço perto da minha casa” conta.

Adapatção

Frota não é nova ção festeja a volta à normalidade, principalmente os estudantes, que desde a saída da antiga empresa, tinham dificuldade para chegar nas escolas. Maria dos Santos, moradora da Rua do Fogo, é uma delas. Aluna da Escola Estadual José Rascão, penava no ponto esperando os poucos ônibus intermunicipais que cortavam seu bairro. CIDADE, Julho de 2007

Para o proprietário da empresa, o empresário Jorge Teixeira, a avaliação deste primeiro mês de funcionamento é positiva. Segundo ele, a população tem aderido, e em breve, poderá contar com veículos mais novos. “Estamos em fase de adaptação, chegando na cidade. Mas a primeira impressão está sendo ótima” avaliou, lembrando sua experiência anterior em Araruama, onde, teve o contrato rompido repentinamente pela prefeitura, e após três vitória na Justiça, voltará a operar em 60 dias. A questão do transporte alternativo, maior problema a ser enfrentado pela “nova” empresa, não preocupa Jorge. A maior garantia do combate às lotadas vem da prefeitura, que apenas aguarda o início das linhas para a Zona Rural para iniciar a repressão.


“Já está tudo acertado com a Polícia Militar, Polícia Rodoviária e Detro para iniciarmos a repressão ao transporte ilegal. Faremos o trabalho com calma, anunciando três dias antes, para que ninguém reclame que foi pego de surpresa. Só não começamos ainda porque não há linhas de ônibus para a Zona Rural, e não podemos fazer esse trabalho selecionando os que podem e os que não podem circular. Quando começar, nenhuma lotada poderá circular na cidade” garantiu o subsecretário de Transporte José Maria Cadimo. MARIA LÚCIA MOREIRA

JORGE TEIXEIRA Diretor da Aldeense

JOSÉ MARIA CADIMO Subsecretário de Transporte

Estamos em fase de adaptação, chegando na cidade

Faremos o trabalho (repressão) com calma, anunciando três dias antes, para que ninguém reclame que foi pego de surpresa”

Tinha de pagar R$ 2,70, agora pago só R$ 1,49, e ainda desço perto da minha casa Kombis ainda rodam livremente

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ESPERANÇA RENOVADA Definir a rotina de uma pessoa com Câncer é quase tão difícil quanto conviver com a doença. São exames, cirurgias, quimioterapia, radioterapia e dor: do corpo e da alma. Isso porque, apesar das estatísticas mundiais comprovarem que mais da metade dos casos de Câncer têm um final feliz, a doença ainda é encarada por muitos como uma sentença de morte. Juliana Latozinski

a Região dos Lagos, a notícia do credenciamento da Unidade de Oncologia do Hospital Santa Izabel (Onko Sol) pelo Sistema Único de Saúde (SUS), anunciada pela prefeitura de Cabo Frio, no mês de maio, renovou as esperanças dos pacientes que sofrem de Câncer, nos nove municípios que compõem a Baixada Litorânea. “Foi uma vitória para toda a região. Isso representa um ganho muito grande na qualidade de vida e de tratamento dessas pessoas, que não precisarão mais enfrentar as viagens, muitas vezes diárias, para a capital onde fazem quimioterapia, evitando, assim, o desgaste físico e emocional”, destacou o secretário de Saúde de Cabo Frio, o médico Antonio Pedro Pires Jardim.

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Depois de cinco anos pleiteando o credenciamento, o Onko Sol será uma “Unacon”, e passará a integrar a rede de atendimento de alta complexidade para assistência em oncologia, que faz parte do projeto do governo estadual de descentralizar o atendimento aos pacientes com câncer. O Instituto Nacional do Câncer (INCA), localizado na cidade do Rio de Janeiro é o atual responsável pelo tratamento dos portadores da doença que vivem na Região dos Lagos e Baixada Litorânea. Com o término dos trâmites burocráticos e a inserção do Onko Sol na base de dados do SUS, somente os casos de câncer de pescoço e cabeça continuarão a ser tratados no INCA, por ser reconhecido como referência nesse tipo de atendimento. A estimativa da secretaria municipal de Saúde é que o Onko Sol atenda uma média de 1.200 a 1.500 pacientes ao ano, no CIDADE, Julho de 2007

universo de mais de meio milhão de habitantes da Baixada Litorânea. “Isso representará uma economia social e financeira para todos nós. O município tem uma despesa mensal de R$ 60 mil a R$ 80 mil por mês com o tratamento fora de domicílio. Além disso, possibilitar ao paciente que o atendimento seja feito perto de sua residência otimiza e acelera os resultados positivos e a recuperação”, declarou o secretário. Mesmo antes do credenciamento pelo SUS, a cidade de Cabo Frio já tratava, com recursos próprios, os pacientes moradores do município no Onko Sol. Segundo Antonio Pedro, atualmente, o município possui 100 casos de Câncer, desses, 42 já recebem atendimento na unidade de oncologia do Hospital Santa Izabel. “O credenciamento pelo SUS vai estender esse benefício aos municípios vizinhos, como Sa-


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Marconi Castro

Saúde

ANTONIO PEDRO PIRES JARDIM Secretário de Sáude

No Onko Sol, o tempo que separa o diagnóstico da cirurgia e início do tratamento quimioterápico ou radioterápico vai girar em torno de 15 dias

O município tem uma despesa mensal de R$ 60 mil a R$ 80 mil por mês com o tratamento fora de domicílio César Valente

GUSTAVO VIEIRA sócio-gerente do Onko Sol

quarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo, Armação dos Búzios, Rio das Ostras e Casimiro de Abreu”.

Atendimento mais humanizado Mais do que simplesmente uma economia financeira para os cofres públicos dos municípios, o credenciamento do Onko Sol pelo SUS representa um ganho social incalculável: a humanização do atendimento, que visa acolher, não só a pessoa portadora do câncer, mas também toda a família do paciente. “Vamos poder oferecer um atendimento mais direcionado e até mesmo, personalizado. Proporcionalmente, isso se torna mais difícil de se fazer dentro do INCA, afinal de contas, lá é o centro de referência nacional e recebe casos do país inteiro”, lembra o secretário municipal de Saúde. Gustavo Vieira, sócio-gerente do Onko Sol faz coro à afirmação do secretário Antonio Pedro e declara que o acolhimento é a palavra de ordem no tratamento prestado pela Unidade de Oncologia do Hospital Santa Izabel. Outro ponto importante da descentralização do atendimento é em relação à agilização do tratamento. Segundo ele, o tempo de espera para a realização de alguns procedimentos no INCA chega a durar quatro meses.

JOELAMA FIDALGO

Nossa missão é fazer com que as pessoas se fortaleçam e se sintam maiores do que a doença César Valente

Procuramos devolver, por meio do artesanato, a beleza da vida às essas mulheres CIDADE, Julho de 2007

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Saúde

Rede de solidariedade Desde 2002, o tratamento do câncer na região ganhou um aliado importante na recuperação dos pacientes. Surgia, há cinco anos, a ONG “Amigas da Mama”, uma entidade filantrópica que visa informar e auxiliar, de diversas formas, as pessoas portadoras da doença. Comandada por Joelma Fidalgo, personalidade local, conhecida pelo seu engajamento social, a ONG conta atualmente com 82 participantes, que 20

tar auxílio material e financeiro aos portadores de câncer, com a doação de alimentos, roupas e medicamentos e, também, oferecem alternativas de geração de renda com oficinas de produção de artesanato. As atividaSala de quimiterapia des acontecem numa sala na Investimentos no Praia do Siqueira, e as peças espaço físico produzidas são comercializadas numa loja cedida pela prefeitura no Terminal de Transatlânticos, no bairro da Passagem. “Quem faz o belo, recebe o belo. Procuramos devolver, por meio do artesanato, a beleza da vida às essas mulheres, que estão com a auto-estima muito abalada. A mente ocupada contribui para a eficiência do tratamento e mostra o quanto elas ainda são capazes de produzir coisas boas para o mundo”, explica Joelma Fidalgo. Foi dessa forma que a donade-casa e costureira, Maria juntas, formam uma grande rede de soli- Sônia Pereira, também vem se recuperando de um câncer no pulmão. Depois da cidariedade. “Quando você descobre que tem cân- rurgia, que extraiu uma parte do órgão, cer, parece que uma parede desce à sua Maria Sônia fez quimioterapia no INCA frente e você não enxerga mais nada, só a por seis anos. O último exame, realizado morte. Se não houver um bom amparo em abril de 2007 indicou que o câncer haemocional nessa hora, é bem capaz que o via sido vencido. “Não poderia ter sentido felicidade câncer vença e a nossa missão é fazer com que as pessoas se fortaleçam e se sintam maior. Sabemos que não existe a palavra maiores do que a doença”, descreveu “cura”, mas conseguimos sucesso no traJoelma, que passou pela experiência de um tamento e podemos levar uma vida norcâncer de mama há 12 anos e foi vitoriosa mal. Sou muito grata ao trabalho das “Amigas da Mama”, elas foram fundamentais na sua batalha. Assim como ela, suas companheiras de para a minha recuperação”, comemora ONG também trazem na bagagem muitas Maria Sônia. O credenciamento do Onko Sol pelo histórias de sofrimento parecidas, mas principalmente de vitória. A vontade de SUS para essas mulheres renovou o fôlepassar essas experiências adiante e, com go para a luta que as “Amigas da Mama” isso, melhorar a convivência dos pacien- travaram contra o câncer. A entidade e a tes com a doença é o combustível que move unidade de oncologia do hospital Santa Izabel há muito tempo são parceiras e a entidade. “Ao conhecer outros casos, muitos até contabilizam muitas conquistas ao longo mais graves do que o meu acabaram me dos últimos anos. “Essa conquista vai representar uma motivando e fazendo com que eu superasse cada dia o câncer. Eu tinha muito para qualidade sem tamanho para o tratamento viver e não poderia deixar que a doença dos pacientes. Sem contar com a diminuime derrubasse. Foi pensando assim que eu ção dos gastos para as famílias. Foi mais venci”, conta a comerciante Maria Edilma uma batalha que vencemos e assim contiFerreira, de 42 anos, que descobriu aos 37, nuamos nossa caminhada, pois sabemos que tinha câncer de mama e por pouco, es- que ainda há muito por fazer”, ressalta Joelma, com o brilho no olhar de quem não capou de uma depressão profunda. Além do apoio psicológico, as “Ami- se amedrontou diante da vida , nem mesgas da Mama” também se propõem a pres- mo diante do câncer. PapiPress

“No Onko Sol, o tempo que separa o diagnóstico da cirurgia e início do tratamento quimioterápico ou radioterápico vai girar em torno de 15 dias. Isso representa um ganho enorme para a qualidade de vida e sucesso no tratamento do paciente”, destaca ele, acrescentando que a intenção é tornar o local um centro de excelência no tratamento do Câncer da região. Engajado na luta pelo credenciamento do Onko Sol pelo SUS desde 2001, quando as Diretrizes da Assistência Oncológica do Estado do Rio de Janeiro definiram que a região da Baixada Litorânea comportava um serviço de atendimento de alta complexidade para tratamento oncológico, Gustavo também aposta na geração de emprego e renda que esse fato pode representar para a economia local. “Hoje, operamos com apenas 20% da nossa capacidade e 14 profissionais. O serviço de oncologia envolve laboratório, cirurgia, centro de imagem, tratamento, e internação em hospital e para atender a essa demanda será necessário a contratação de mais profissionais da área de Saúde no município”, justifica Gustavo. Para receber o credenciamento do SUS e ser considerado uma unidade de referência no atendimento na região, as instalações do Onko Sol passaram por uma ampliação e precisaram se adequar às normas da vigilância sanitária. “Investimos muito na preparação do espaço físico, equipamentos e pessoal para poder atender a demanda regional. Temos laboratório próprio e inclusive um mamógrafo funcionando dentro da estrutura do Hospital Santa Izabel, para oferecer maior conforto aos pacientes”, disse Gustavo.

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Se essas paredes falassem

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Cultura

A história de uma cidade contada pela sua arquitetura Tiago Freitas

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ão fossem feitas basicamente de tijolo e concreto, mas sim tivessem vida, as paredes dos mais antigos prédios de Cabo Frio cumpririam com excelência o trabalho de pesquisadores: contariam elas mesmas a história desta cidade, desde o tempo de feitoria, quando era comum em seu território - que ia das imediações dos Campos dos Goitacás a Maricá - a exploração do pau-brasil, passando pelos tempos áureos da produção de sal, aos dias de hoje, em cuja principal atividade econômica é o turismo. Paredes como as de edificações tais são a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, localizada no Centro, o Convento Nossa Senhora dos Anjos, no Largo de Santo Antônio, a Igreja de São Benedito e as casas no entorno dela no bairro Passagem, a Biblioteca Municipal (antiga casa dos Massas), a Casa de Cultura José de Dome Charitas -, o Forte São Matheus entre outras, constituem, tanto pelos diferentes estilos arquitetônicos, como pela relevância cultural, um rico tesouro histórico, que a duras penas tenta-se preservar. Como foi dito acima, se esses prédios falassem..., contariam, inclusive, histórias que não constam na História. A missão de manter em pé esses prédios, e vivo todo o conteúdo cultural deles, cabe a alguns poucos órgãos fiscalizadores. Um deles é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ou ainda o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e o Instituto Municipal do 22

Patrimônio Cultural (Imupac), este último já desativado. De acordo com Manoel Vieira, chefe do escritório técnico regional do Iphan, “a importância de se proteger um bem material, seja ele imóvel ou não, reside no valor da sua conservação para a difusão de conhecimentos e significados para as gerações futuras”. “Mesmo assim, não se descobriu, até hoje, uma maneira de se conservar as formas de percepção de um grupo sobre um dado bem material. Na medida em que o grupo muda de costumes, o valor do bem também se altera”, completa Manoel. A afirmativa pode ser explicada inclusive pela falta de conhecimento (às vezes até de interesse) de grande parte da população sobre a história que envolve determinado patrimônio, esteja ele tombado ou não. Pode-se ilustrar essa realidade pela velocidade com que as pessoas passam por esses raros edifícios, muitos localizados no centro da cidade, por onde quem transita naturalmente está mais preocupado com o tempo que falta para fechar as portas do banco do que com o tempo histórico, resguardado muito mais em páginas de velhos livros. Se viajassem ao ano de 1837, quando foram iniciadas as obras de construção do Charitas, milhares de habitantes e visitantes de Cabo Frio tomariam ciência, por exemplo, do contexto político e social em que o prédio foi erguido. A cidade vivia um agravante estado de abandono de criCIDADE, Julho de 2007

Passagem Conjunto ainda intacto


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Charitas Multiplas funções na história de Cabo Frio

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PELOURINHO DE 1660 Retirado de seu local de origem, adorna a Casa dos 500 Anos

Interior do Forte São Mateus 24

anças, frutos de relações sexuais entre brancos e escravos e índias. Daí a inscrição em latim, “Charitas” (pronuncia-se Káritas), que significa “Caridade” - provavelmente alguns niteroienses devem imaginar existir aqui um prédio com nome de um bairro de lá, “Charitas” (com som de “x”). A “Casa de Caridade”, projeto do major do Imperial Corpo de Engenheiros, Henrique Luiz Memeyer Bellegard, também foi popularmente denominada “Casa da Roda”, devido a existência de uma roda na porta de entrada, onde era colocada a criança e por onde a “dona” da Charitas, matrona, a retirava. Em virtude das inúmeras epidemias que assolaram a cidade no século XIX, a Charitas passou a funcionar, também, como hospital. Na Segunda Guerra Mundial, foi abrigo do primeiro grupo de artilharia do Dorso, sediado em Cabo Frio. O estabelecimento já foi usado também como Fórum, escola e Biblioteca Municipal. Histórias instigantes como essa também podem ser contadas pelas construções que abrangem o bairro Passagem. Um conjunto arquitetônico e urbanístico formado pela Igreja de São Benedito, pelas casas em seu entorno e por algumas ruas, o bairro é reconhecido como o sítio urbano mais antigo de Cabo Frio. A denominação “Passagem” deve-se a existência, no local, de um porto, às margens do Canal Itajuru, ponto de embarque e desembarque de mercadorias, incluindo tráfico de escravos e do pau-brasil, abundante nas matas nativas da região. Segundo o chefe do escritório técnico do Iphan, o bairro Passagem é único que até hoje é preservado em todo conjunto, já que no trecho que vai deste até o Largo de Santo Antônio (caminho que constituiu, em meados do século XVII, a mudança para o CIDADE, Julho de 2007

novo centro urbano), onde se encontra o Convento Nossa Senhora do Anjos, poucos prédios restam dos casarios originais que compunham a paisagem do local na época. “Cabo Frio passou por um processo de modernização dos seus prédios que acabou por sacrificar muitas construções antigas, que como outras possuíam importância histórica e arquitetônica. O Mc’Donalds, por exemplo, foi erguido num local onde antes havia um belíssimo casarão. Apesar do esforço, nem tudo é possível conservar tal e como era em outrora” explica Manoel Vieira, acrescentando o caso do Pelourinho, datado de 1660, que ficava aos fundos do Charitas, embora o local original fosse no Largo da Matriz, e que agora se encontra no jardim da Casa dos 500 Anos. Nele, eram afixados os editais da Câmara e expostos os criminosos às espera do castigo.

Prestes a virar apenas fotografia Um bom exemplo da dificuldade em se preservar essas antigas construções pode ser visto na atualidade. Tramita na justiça um processo que solicita a permissão da secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano de Cabo Frio para levar ao chão a casa que pertencia ao fotógrafo Wolney Texeira e Souza, responsável pelo maior acervo histórico fotográfico da cidade. Apesar de não possuir instrumentos legais para evitar a demolição da casa, que foi vendida pela família do fotógrafo, a secretária de Planejamento, Rosane Vargas, afirmou que, particularmente é totalmente contra a perda deste patrimônio que hoje se encontra abandonado. “O processo está em fase de decisão, e eu estou trabalhando o máximo que posso para evitar a demolição da casa. Acho que


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Cultura

CASA DE WOLNEY TEIXEIRA Rumo à demolição

O mais importante do Wolney, que é o trabalho de registro dele da cidade de Cabo Frio, isso está de certa forma “tombado”, pois em todos os locais da cidade existe uma de suas fotografias Carlos Magno Vice-presidente do Conselho de Cultura

seria mais uma perda, entre tantas outras que tivemos, em nosso patrimônio histórico e cultural”, ressaltou Rosane. O chefe do Iphan em Cabo Frio, no final de 2006, entrou com uma representação no Ministério Público Estadual (MPE), pedindo a intervenção do órgão para que a casa de Wolney fosse preservada. Mas um parecer do Conselho Municipal de Cultura parece não caminhar na mesma direção do esforço que está sendo feito para manter de pé as paredes do último exemplar arquitetônico que fazia parte dos casarios característicos da Rua Direita (hoje Érico Coelho). Segundo o vice-presidente do conselho, Carlos Magno, também procurador do município, não existe nada que possa ser feito. “Minha opinião é de que a casa, infelizmente, está abandonada e acho que não há muito ali para se recuperar. Além disso, os proprietários querem derrubar. O mais importante do Wolney, que é o trabalho de registro dele da cidade de Cabo Frio, isso está de certa forma “tombado”, pois em todos os locais da cidade existe uma de suas fotografias. Na Câmara Municipal existe

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uma série delas. Por isso, o conselho não criou nenhuma restrição à demolição”, argumentou Carlos Magno. Manoel Vieira explica ainda que o Iphan não possui autonomia para evitar a demolição da casa, porque ela está fora da área tombada pelo instituto. Outro empecilho é a importância estritamente local do prédio, pois o Iphan é um órgão nacional, podendo intervir somente nas áreas por ele tombadas. Uma solução apontada por Manoel seria a reativação do Imupac, que foi criado em 1981, no governo do então prefeito José Bonifácio. O instituto foi desativado, e reativado no governo de Ivo Saldanha, em 1989. Mais tarde, desfez-se novamente. Dele, restou apenas o conselho, que por unanimidade não se opõe à demolição da casa que pertencia ao fotógrafo Wolney. “A importância dela não está apenas no fato de ter sido residência do Wolney, mas principalmente por ser a última de muitas que constituíam um belíssimo conjunto de prédios, de estilos coloniais, imperiais e republicanos. Uma história a mais que cairá no eterno esquecimento”, lembra Manoel.

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Peixe! Nesta região, a pesca tem grande significado para a população, tanto cultural, quanto economicamente. Este pedaço de terra que entra no mar, é conhecido desde a época em que os navegadores portugueses chegaram por aqui. O nome, Cabo Frio, foi dado pela característica geográfica e por causa das águas geladas da Praia Grande, palco do fenômeno da Ressurgência. Tomás Baggio / Fotos César Valente o Brasil, a corrente marítima predominante é a do Atlântico, que vem do equador e traz águas quentes ao nosso litoral. A corrente das Malvinas, proveniente da ilha com o mesmo nome, na Argentina, vem nas profundezas do oceano com águas extremamente geladas. O destino da corrente do sul seria o próprio equador, se ela não encontrasse, no meio do caminho, uma barreira. A sudeste do país, na altura do estado do Rio de Janeiro, uma muralha quarenta quilômetros dentro do mar provoca uma mudança no rumo: a corrente bate nela e aflora, ou, em termos científicos, ressurge. Quando sobe ao nível do mar, traz, além das baixas temperaturas, diversos nutrientes que servem de alimentos para os peixes. O fenômeno ocorre em cinco pontos ao redor do mundo. Um deles é o Cabo Frio. O Cabo Frio começa em Búzios, pelo norte, e Saquarema, pelo sul, e avança mar adentro como um funil. Em sua extremidade está a Ilha do Cabo Frio, ou Ilha do Farol, em Arraial do Cabo. Ao redor, somente água salgada (do mar e da Lagoa de Araruama). Olhando no mapa, é uma pon-

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Pescador artesanal acena para os barcos avisando a localização dos peixes na Praia Grande em Arraial do Cabo ta na costa leste do Brasil, conhecida como Região dos Lagos. De perto, um berçário de peixes e riquezas marinhas, com paisagens paradisíacas. Características que transformam o lugar num campo de batalha, seja por peixes, que segundo pescadores estão sumindo, ou pelas riquezas provenientes da natureza e do turismo que ela atrai. Em Arraial do Cabo, a disputa chegou a tal ponto que, em 1997, o governo federal determinou, por decreto do então presidente Fernando Henrique Cardoso, a criação da Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo (Resex), proibindo a pesca predatória em benefício da pesca artesanal. A Resex contempla todo o território marítimo cabista, numa distância de três milhas (4,8 quilômetros) da costa. Nela, é proibido pescar com barcos de arrastão, CIDADE, Julho de 2007

que levam toneladas de peixes com a ajuda da tecnologia do radar e da força do motor que puxa os quilômetros de rede. A pesca artesanal é feita com canoas, da mesma forma que há 500 anos, herança dos índios que habitavam essa região. Nela, os cardumes são encontrados a olho nu, e para puxar a rede, nada além dos braços de quem espera a chegada do alimento do dia.

10 anos depois Com dez anos de criação, a primeira Reserva Extrativista Marinha do Brasil funciona precariamente. O Plano de Utilização, que determina as regras, foi criado às pressas quando o decreto foi assinado. Ele deveria ter sido substituído pelo Plano de Manejo, com, no máximo, cinco anos de criação da reserva. Até hoje, os agentes


que controlam a área não entraram num consenso. Ao contrário, as divergências e disputas estão cada vez mais acirradas, e os próprios pescadores não se entendem sobre as necessidades. Eles concordam em uma questão: o maior problema é a pesca predatória - motivo de criação da Resex -, que ainda não foi controlada. O representante Federal e maior fiscalizador da Resex é o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). O chefe do Ibama de Arraial do Cabo é, também, o responsável pela reserva. Atualmente, o cargo é ocupado pelo biólogo Marcus Machado, mas ele se encontra em licença médica e disse que vai deixar o cargo. A gerente do escritório regional do Ibama em Cabo Frio, Lísia Vanacôr Barroso, dispõe de 11 funcionários para cobrir 13 cidades da região, o que considera insuficiente, e admi-

te que não pode oferecer suporte às operações de emergência. “Tenho menos de um funcionário por cidade. E a única embarcação que possuímos serve somente para a Lagoa. Não tenho condições de atender as demandas de última hora. O Ibama participa apenas das operações planejadas com, pelo menos, uma semana de antecedência”, declarou Lísia. Ela argumentou, ainda, que a divisão do Ibama proposta pelo Governo Federal prejudica o órgão, e que isso está “na contra mão da história”. “A proposta é desmembrar o Ibama em dois órgãos distintos, o que não concordamos e por isso estamos em greve. O novo órgão (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) ficaria responsável por todas as Unidades de ConservaCIDADE, Julho de 2007

ção (Áreas de Proteção, Parques, Florestas e Reservas), inclusive a Resex, e o Ibama com o resto. O Governo do Estado (do Rio), por exemplo, está unindo seus órgãos de Meio Ambiente. Essa decisão está na contra mão da história”, opinou Lísia Barroso. O idealizador e primeiro chefe da Resex, entre 1997 e 2006, biólogo Fabio Fabiano, trabalha hoje na Diretoria de Desenvolvimento Sócio Ambiental do Ibama em Brasília, e cuida de reservas extrativistas ao redor do Brasil. Para ele, os conflitos que ocorrem em Arraial do Cabo são “normais”, frutos da disputa por espaço. Fábio acredita que uma boa gestão na Resex pode trazer resultados positivos na economia, principalmente com a decadência da Companhia Nacional de Álcalis, e admite, inclusive, o trabalho off-shore (com equipamentos de extração do petróleo) como fonte de riquezas. “Os conflitos são normais em um ambiente com tantas riquezas. Às vezes é difícil compreender, mas o fato é que, com a reserva, a sociedade perde um pouco dos direitos em nome da população extrativista tradicional, que vive dessa forma há centenas de anos e não pode ser dizimada”, argumenta. Fábio apóia um conjunto de regras que permita à Resex controlar todo território marítimo de Arraial do Cabo, deixando, para ela, o monitoramento das atividades realizadas na área. “O meio-ambiente tem prioridade sobre qualquer outra atividade. Por isso, acredito que todos os segmentos interessados podem atuar na Resex, inclusive o offshore, desde que se submetam às regras dela. Não devemos sobrepor o valor do petróleo ao valor ambiental”, analisa o biólogo.

Gestão compartilhada A gestão da Resex é compartilhada. Enquanto o Ibama tem o dever de fiscalizar, o papel de cadastrar e controlar os atores envolvidos, é da Associação da Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo (Aremac). Há dez meses, a entidade é presidida por Eraldo Teixeira da Cunha, que diz estar trabalhando no cadastramento das embarcações. Ele classifica a Resex como “desordenada” e aposta no limite de 500 barcos, de turismo e pesca, para organizar o trânsito marítimo e facilitar a fiscalização. “A reserva está completamente desor29


Capa denada. Hoje, os barqueiros colocam as embarcações no mar e começam a trabalhar sem qualquer controle. O limite de 500 barcos foi aprovado em Assembléia Geral e vamos começar o cadastramento” declarou, sem definir prazos. As atitudes de autoridades em busca de melhorias para a Resex ainda são tímidas, mas as negociações que trouxeram 140 recifes artificiais para Arraial e as últimas operações de repressão à pesca irregular mostram o inicio de um entendimento. Quem tomou a iniciativa de colocar recifes artificiais no fundo do mar de Arraial do Cabo foi o vereador Reginaldo Mendes Leite (PT). A estrutura dos recifes (uma pirâmide oca, de 1.100 quilos cada, com diversos vergalhões apontados para fora) foi planejada para impedir a passagem de redes no fundo do mar. Eles foram afundados em posições estratégicas, depois do quebra-mar da Praia Grande, cerca de 500 metros para dentro da Ponta da Cabeça, antes da direção da Ilha do Francês. “Fizemos um campo minado”, diz Reginaldo. “Nenhum barco de arrastão joga a rede naquela área. Se jogar, a rede volta rasgada pelos recifes”. Ele explicou que, com o passar do tempo, os organismos marinhos criam uma crosta em volta da estrutura, o que impede o apodrecimento das partes de ferro e serve de alimentos para os peixes. “Além de proteger o pescador artesanal, os recifes atraem os peixes que procuram por comida e ajudam na reprodução das espécies”, completa o vereador..

Barcos de pescadores artesanais na Praia Grande - Arraial do Cabo

Só que a pesca predatória mudou de local, e continua a atrapalhar os que puxam a rede na beira da praia. Por isso, a secretaria de Meio Ambiente de Arraial do Cabo intensificou a fiscalização. As duas

últimas operações, realizadas em parceria com a Polícia Florestal, o Porto do Forno e a Aremac, resultaram na apreensão de quilômetros de redes e toneladas de peixes capturados irregularmente. “A responsabilidade da fiscalização é do Ibama, que diz que não tem estrutura para fazê-la. Então decidimos fazer para provar que é possível, mesmo com a nossa estrutura de dois fiscais. Depois disso, o Ibama nos chamou para conversar”, desafiou o secretário de Meio Ambiente de Arraial do Cabo, Joseílson Ferreira, o Veíca. Para as operações, os fiscais da secretaria saem acompanhados de policiais florestais em barco disponibilizado pelo Por-

Decidimos fazer (a fiscalização) para provar que é possível

Os recifes protegem o pescador artesanal e atraem os peixes

Parceria com Polícia Federal

Joseílson Ferreira, Veíca 30

Reginaldo Mendes Leite CIDADE, Julho de 2007

to do Forno. Na última operação, um barco foi apreendido com uma rede de mais de 20 Km de extensão (distância maior que a estrada que liga Arraial do Cabo a Cabo Frio). Em outra, dois barcos e duas toneladas de peixes também foram apreendidos com a ajuda da Polícia Florestal. A rede de 20 Km, chamada de rede de espera, é um dos problemas dos pescadores de Arraial do Cabo, segundo o presidente da Colônia de Pescadores Z-5, Manoel Félix de Mendonça. Ele diz que esse tipo de rede, quando jogado no mar, impede a passagem dos peixes para a costa, onde deve chegar para ser capturado pelos pescadores artesanais. - São redes enormes, que pegam todos

A reserva está completamente desordenada

Eraldo Teixeira da Cunha


Pesca artesanal

os peixes que chegariam na beira da praia. Os que não são pescados voltam para alto mar, e os pescadores artesanais ficam sem peixes. Por isso a pesca predatória tem que acabar na Reserva - disse Manoel.

“Só está pescando quem precisa muito” Os pescadores se mostram descontentes com a situação e criticam a própria reserva. Eles fazem rodízio nas praias da cidade para jogar a rede, e dizem que, agora, ficam semanas sem ver um cardume. Para alguns, a pesca tradicional está com os dias contados. “Criaram a reserva mas ninguém cui-

Hoje não dá pra botar o filho na pesca

Enéas Simas de Carvalho, Neca

da. Esse pessoal da Aremac, Colônia, Ibama, tá nem aí pra gente”, revolta-se o extrativista Antonio Carlos de Andrade, conhecido como Barriguinha. Na opinião dele, a pesca artesanal está perto do fim, e os herdeiros da atividade só pescam por necessidade. “Em dez anos a pesca vai acabar. Quem começa a pescar, hoje, é porque mal sabe escrever. Só está pescando quem precisa muito”, acredita. “Aprendemos a pescar com nossos pais, que aprenderam com os pais deles. Mas, hoje em dia, não dá pra botar o filho na pesca”, completa o veterano Enéas Simas de Carvalho, o Neca, de 75 anos.

O meioambiente tem prioridade sobre qualquer outra atividade

Fábio Fabiano CIDADE, Julho de 2007

A pesca artesanal é um processo centenário. O vigia deve ser o mais experiente. Ele fica no alto, em morros com boa visibilidade, para acompanhar a chegada dos cardumes e direcionar, através de sinais, os pescadores que estão no mar. De cima, o vigia sabe o tamanho do cardume, com o número aproximado e a espécie dos peixes. Para os leigos, o cardume é uma mancha preta se mexendo em baixo d’água. Para o vigia, o formato e a velocidade da mancha indicam as características necessárias para a captura. Para se comunicar com os pescadores, numa distancia que varia entre 50 e 150 metros, o vigia usa uma toalha branca, com a qual faz sinais mostrando a direção do cardume e o momento de cada etapa da pescaria. Tudo começa quando ele agita a toalha, permitindo que os pescadores entrem no barco. Depois avisa o momento de puxar a âncora e começar a remar para dentro do mar. No local onde o cardume está passando, o vigia bate com a toalha no pé, mostrando aos pescadores que eles devem jogar a rede no mar. Nesse momento, a canoa gira em torno do cardume de peixes, cercando-os com a rede para quem está em terra firme puxar. Quando a rede está chegando na beira da água, um homem da canoa pula e bate com as mãos na água, impedindo que o pescado fuja do cerco. Entre 40 minutos e uma hora o processo está concluído, e todos que ajudam no puxar da rede recebem peixes. Em cada pescaria, 30% da captura é destinada à distribuição entre os que ajudaram.

Em dez anos a pesca vai acabar

Antonio Carlos de Andrade, Barriguinha 31


Tecnologia é a saída Pescadores e empresários da pesca reclamam da falta de peixes no nosso litoral. Culpam a poluição e a pesca predatória, e acreditam que apenas incentivos do governo podem reverter a situação

Pescador conserta sua rede na Marina dos Pescadores, em Arraial do Cabo

Tomás Baggio ara o engenheiro de pesca, Modesto Guedes Ferreira Júnior, especialista em aqüicultura, o problema não é a ausência do pescado, mas sim o atraso na tecnologia utilizada no trabalho. Ele é coordenador do curso superior de Tecnologia Pesqueira da Universidade Estácio de Sá, no campus Cabo Frio, e acredita que os equipamentos utilizados na Região dos Lagos estão muito atrasados: “em, pelo menos, trinta anos”, garante. “A pesca já não é mais aquela atividade amadora, sem recursos. A forma de pescar mudou. Os apetrechos (equipamentos e assessórios) de pesca também. Quem não se atualiza fica para trás em qualquer área. Na pesca é a mesma coisa”. Hoje, ele diz, tão importante quanto buscar o peixe no fundo do mar, é saber dimensionar e avaliar os recursos disponíveis no oceano. O processamento (industrialização) do peixe que chega às nossas mesas,

P

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está cada vez mais elaborado, com a utilização de novas tecnologias. Na opinião dele, as empresas que não se adaptarem a essa nova realidade tendem a desaparecer. “O primeiro ponto, é que a produção tem que ser aliada à preservação. É possível produzir cada vez mais sem prejudicar o meio ambiente. Basta utilizar o que existe de melhor em tecnologia e formação profissional”, opina o professor. Há, ainda, outras alternativas para a atividade, como a utilização da pesca enquanto atividade turística, o que parece perfeitamente conciliável nesta região. Modesto Guedes sugere a criação de um entreposto moderno, com restaurantes e atividades do estilo ‘pesque e pague’. “Eu insisto na questão da modernização. Não há outra saída que não seja essa. Hoje, não há segurança na pesca profissional. Tem que ter segurança”.

Aprendendo a pescar O curso de Tecnologia Pesqueira da CIDADE, Julho de 2007

Universidade Estácio de Sá é pioneiro, e existe apenas no campus Cabo Frio. O objetivo é formar profissionais capacitados no gerenciamento do setor pesqueiro, buscando exercer a atividade com tecnologia de ponta associada à preservação do meio ambiente. Além da captura do pescado, os alunos aprendem a tecnologia de cultivos aquáticos, avaliação e dimensionamento dos recursos pesqueiros, tecnologia de processamento do pescado e o gerenciamento de empresas do setor. A produção deve estar associada à preservação. Entre os alunos, estão pessoas interessadas na área ambiental, na produção de alimentos e, claro, pescadores que pretendem se aperfeiçoar na profissão. Este, por exemplo, é o caso de João Mário da Rocha, que mora em Arraial do Cabo e, com 52 anos, não teve outra profissão na vida a não ser pescar. Ele é presidente da Fundação Instituto de Pesca de Arraial do Cabo (Fipac), uma autarquia da prefeitura que


Pedro Campos

César Valente

Capa

JOÃO MÁRIO DA ROCHA Presidente do Fipac

Pedro Campos

Senti a necessidade de aprender coisas novas sobre a minha área

cuida da pesca, e diz que entrou no curso por necessidade de aperfeiçoamento. “Sou um dos fundadores da Fipac e fui o primeiro presidente, no governo de Davi Dutra. Agora voltei com o Melman (prefeito de Arraial) e senti a necessidade de aprender coisas novas sobre a minha área. Desde que comecei na Fipac muita coisa mudou”. A veterinária Vanessa Carvalho, que mora e trabalha em Rio das Ostras, já fazia beneficiamento de produtos de origem animal, e decidiu aprender mais sobre os peixes. Antes de entrar no curso, ela conhecia o processo dentro da indústria, mas tinha curiosidade de saber o que acontece com os peixes antes de entrarem nas máquinas, serem embalados e enviados aos mercados. “Para mim, é como uma Pós Graduação. Tinha essa necessidade pelo local onde trabalho. Alimentação é muito importante”, ressalta.

MODESTO GUEDES FERREIRA JÚNIOR Engenheiro de pesca e professor

Quem não se atualiza fica para trás em qualquer área. Na pesca é a mesma coisa CIDADE, Julho de 2007

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OBJETO DO DESEJO

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CIDADE, Julho de 2007


Ernesto Galiotto

Armação dos Búzios

Armação dos Búzios luta para manter suas áreas de proteção livres da ocupação imobiliária e discute seu Código Ambiental sem a presença da prefeitura Renato Silveira m meio às discussões para a votação do Código Ambiental de Armação dos Búzios, recentemente enviado pelo governo municipal ao Poder Legislativo, paira no ar uma pergunta: por que preservar, além das óbvias razões econômicas, algumas áreas, não apenas daquela cidade, mas de todas as que compõem a chamada Região dos Lagos? As respostas são múltiplas, e remetem aos tempos de formação geológica do planeta, quando, segundo algumas teorias, nosso continente fazia parte de uma grande área, conhecida como Gondwana, que se somava ao que hoje é conhecido como a África. Segundo estudos do Departamento de Recursos Minerais - DRM -, algumas formações rochosas e vegetações encontradas apenas nos municípios de Búzios e em algumas partes de Cabo Frio, possuem similares no continente africano, sendo importantíssimas, portanto, para a realização de pesquisas que ajudarão a entender alguns aspectos da formação de nosso planeta. Além das questões arqueológicas, impõem-se a necessidade de manter intactas algumas das últimas áreas preservadas da Região dos Lagos, que não por acaso, encontram-se em Búzios. “O meio físico de Armação dos Búzios apresenta, em pequeno espaço, uma grande diversidade de paisagens. Estão presentes paleofalésias, áreas úmidas, restingas, lagoas, ilhas, praias e costões rochosos. Dada a beleza local, esses ambientes sofrem pressão muito grande para ocupação humana. Uma parte do município já está densamente ocupada, e as áreas restantes, estão sendo de maneira inadequada”, diz um trecho do documento assinado pelos geólogos do DRM Kátia Mansur, Antônio Soares, Francisco Dourado e Hermani Vieira, e pela geógrafa Ana Paula Ferreira. A fim de definir regras para essa ocupação, moradores de Búzios e ambientalistas, não só da cidade mas de todo o país, vêm pressionando para que as leis existentes sejam cumpridas, e que o município produza um Código Ambiental ainda mais rígido do que as legislações estadual e federal.

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Áreas tombadas ainda permanecem vazias, apesar da pressão imobiliária

CIDADE, Julho de 2007

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Armação dos Búzios Para esse grupo, o projeto de Código Ambiental enviado pelo Governo Municipal à Câmara é uma decepção, agravada pelo fato de nenhum representante do Executivo, conhecedor do tema, comparecesse à audiência pública convocada pelo Legislativo, no dia 18 de junho. De acordo com Mônica Werhauser, secretária da Ong Ativa Búzios, que tem como objetivo cuidar da transparência das contas públicas, a ausência do poder municipal da audiência convocada pelo Legislativo é sintomática, pois eles não têm interesse em discutir, e sim impor. “A mesma coisa aconteceu durante as discussões para a criação da chamada Via Azul. Recebemos o projeto deste Código Ambiental e só apareceu aqui a Kátia Mansur, do DRM, para dar explicações. O problema é que ela só pode falar de um aspecto da questão. Em relação aos outros, não tivemos com quem conversar” desabafou.

Área 1 Área 2

Insatisfação E a representante do DRM também não está satisfeita com o projeto enviado pelo Governo. Dentro das questões que pôde discutir e que estavam dentro de sua alçada, encontrou dois graves problemas. “A definição de base de morro foi tomada com um cálculo só, mas a geografia da cidade não permite esse método. Há que ser calculado morro a morro, pois não são todos da mesma forma. Outro problema está na área tombada no entorno do Mangue de Pedra, na Praia Gorda. Há uma nascente de água doce, importantíssima para aquele ecossistema, que não foi incluída”, queixou-se. Os vereadores também não ficaram satisfeitos com a ausência do Executivo na audiência, e chegaram a ameaçar com a suspensão da sessão, só não o fazendo em respeito ao grande número de pessoas presentes ao plenário. Para o presidente do Legislativo, Genilson Drumond (PMDB), no entanto, não haverá necessidade de nova convocação, e os trâmites do projeto correrão normalmente, à revelia do governo municipal e das demais entidades ausentes (segundo ele, foram convocados o IBAMA, a FEEMA, o DRM, a Prefeitura e o Ministério Público)

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Áreas tombadas assinaladas em vermelho

CIDADE, Julho de 2007

Saio daqui da mesma forma que entrei

Se for necessário, convocaremos nova audiência

Amarildo Silva, Xita - presidente da Colônia Z23

Vereador Henrique Gomes


Entretanto, essa não é a opinião do vereador Henrique Gomes (PP),que acredita que a discussão ficou empobrecida com essas ausências. “Se for necessário, convocaremos nova audiência para esclarecermos os pontos que não ficaram nítidos”, afirmou. O chefe do escritório regional da FEEMA, Carlos Alberto Muniz nega ter recebido convite para a audiência. Já o IBAMA e o MP não apresentaram, até o fechamento dessa edição, nenhuma justificativa. “O único contato que tive com o legislativo buziano sobre essa audiência foi a respondido a duas perguntas técnicas feitas por um parlamentar. Não houve convite” afirmou Muniz.

Pesca esquecida

Ponta da Lagoinha Costões rochosos guardam a história geológica do continente

A definição de base de morro foi tomada com um cálculo só, mas a geografia da cidade não permite esse método

Kátia Mansur - DRM

Não tivemos com quem conversar

Mônica Werhauser Ong Ativa Búzios,

CIDADE, Julho de 2007

Se as questões geológicas foram devidamente esclarecidas pela representante do DRM, outros aspectos importantes para a preservação do rico meio ambiente da Armação tiveram que ser deixados de lado devido à ausência dos representantes do governo municipal. Um dos ítens abandonados foi a pesca. Para o presidente da Colônia de Pescadores Z23, Amarildo Silva, o Xita, a discussão foi improdutiva, pois nem mesmo recebeu a cópia do projeto, desconhecendo totalmente o seu conteúdo. “Temos sérios problemas com pesca predatória por aqui, e a artesanal vai acabar desaparecendo. Não temos nenhuma informação e saio daqui da mesma forma que entrei”, queixou-se. Outro tema importante, a vegetação, também não pôde ser debatido pela ausência de especialistas. Isto num município que possui, segundo estudos da FEEMA, “um dos mais importantes centros de fitodiversidade do planeta”. Com tudo isso, a discussão está longe de ser encerrada, e a população continua carente de maiores explicações sobre o Código Ambiental. Há, no município, diversas áreas já tombadas por leis estadual e federal, e espera-se que a municipal avance nessa questão. A briga promete esquentar nos próximos meses.

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MANIFESTAÇÃO

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Conselho Gestor da APA do Pau-brasil, de caráter consultivo, integra a estrutura administrativa da referida APA. Criado por Decreto Estadual (no 32.578/2002) e presidido pela FEEMA tem, entre outras finalidades acompanhar planos, programas, projetos e ações propostas; manifestar-se sobre questões ambientais que envolvam a proteção e a conservação do ecossistema; acionar as Câmaras Temáticas para a discussão de políticas e propostas de estudos e rever, periodicamente, o Plano de Gestão da APA do Paubrasil. Composto por trinta e dois (32) membros envolvendo instituições públicas e organizações sociais, possui Regimento Interno regularmente aprovado, sendo previstas diversas Câmaras Temáticas encarregadas de examinar e relatar à Plenária, assuntos de sua competência. Compete aos conselheiros, entre outros, debater e votar as matérias em discussão; requerer informações, providências e esclarecimentos ao Presidente; pedir vista de matéria por prazo determinado; apresentar relatórios e pareceres nos prazos fixados; participar das Câmaras Temáticas acompanhando e manifestando-se sobre o enquadramento de projetos e atividades no zoneamento e sobre propostas de revisão apresentadas por terceiros. Entre as Câmaras, destaca-se a de “Revisão do Zoneamento” que tem por objetivo “monitorar a implantação do Zoneamento Ambiental da APA e propor, quando pertinente, a sua revisão e aprimoramento em consonância ... com as necessidades de proteção dos recursos ambientais existentes.” Assim composto é de se supor que o processo de gestão daquela Unidade de Conservação atue de forma democrática administrando a proteção do ecossistema com os interesses particulares entretanto, toda a norma legal que rege a APA e sua estrutura, vem sendo sistematicamente burlada no processo de licenciamento do tão famoso Empreendimento Reserva Peró, mais conhecido por “Club Med”, que é na verdade apenas uma das bandeiras hoteleiras a ser instalada juntamente com outros quatro hotéis, dois clubes e oito loteamentos residenciais. A FEEMA, durante todo processo de licenciamento daquele empreendimento, evitou a discussão interna e a participação do Conselho na análise do enquadramento dos projetos específicos e suas atividades no zoneamento previsto no Plano de Manejo da APA, não disponibilizando a proposta integral pretendida pelos empreendedores, tendo sido apenas apresentado itens caracterizados por MEDIDAS MITIGADORAS e/ou COMPENSATÓRIAS para a instalação do mesmo, a saber: metodologia para transplantio de espécies arbóreas em sua área abrangência; criação do Centro Zoobotânico e apresentação da proposta de sede da APA. Devido à natureza do empreendimento e à fragilidade do ecossistema sobre o qual será instalado cujos atributos naturais mantém-se intacto, caberia amplo debate interno inclusive, a discussão da revisão do zoneamento impondo respeito à preservação de áreas que ficaram desguarnecidas com a aceitação de construção em terrenos alagadiços, típicos de restinga, com agravante de edificação em zonas de preservação e de conservação da vida silvestre, as mais restritivas do Plano de Manejo da APA. Membros do Conselho dirigindo-se à Presidência do mesmo solicitaram a abertura da discussão do empreendimento RESORT PERÓ em caráter de urgência, no âmbito interno do Conselho Gestor da APA bem como, a continuidade do processo de revisão do zoneamento da mesma, em aprimoramento e consonância com as necessidades de proteção dos recursos ambientais daquela APA em especial, da área de interesse do referido empreendimento, o que não foi atendido. É com pesar que membros do Conselho, que deveriam ter sido consultados, agora assistem à revelia a possibilidade do licenciamento para instalação por parte da FEEMA, ou seja, a permissão para início das obras de um empreendimento que não só fere o Plano de Manejo da APA como também ampla legislação federal e estadual. Esta manifestação tem a finalidade de repudiar a atitude da FEEMA que peca pela falta de respeito às demais instituições públicas e sociais que chamou para si como parceiras no processo de gestão daquela Unidade de Conservação e alertar a sociedade quanto ao descumprimento da legislação ambiental em detrimento da preservação do meio ambiente de excepcional valor para o Estado do Rio de Janeiro. Maryane Medeiros - IPHAN Haroldo Cavalcante de Lima - JBRJ Denise Morand - Associação de Hotéis de Búzios Carmem Cides Oliveira Lima - Associação de Hotéis de Cabo Frio Marcelo Obraczka - Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Armação dos Búzios

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CIDADE, Julho de 2007


Gente Fotos: PapiPress

NILS OSTERGREN O nome da vela

A Voz

Considerado por Lars Grael como o melhor fabricante de velas artesanais do Brasil, o paulista neto de suecos, Nils Ostergren, é uma lenda viva no mundo da vela. Começou a velejar aos catorze anos no Rio Guaíba e, perfeccionista, dedicou-se a confeccionar suas próprias velas, e as dos amigos. Com o sucesso, passou a fazer velas para competição, especialmente para a classe Snipe, a sua favorita. Agora, a classe pela qual velejou e competiu, o homenageia com a criação do troféu Nils Ostergren, na II Semana de Vela de Cabo Frio. Afastado temporariamente da atividade por causa de um acidente, Nils retorna à confecção de velas, aproveitando o bom momento do esporte na região, especialmente na cidade de Rio das Ostras.

Uma das vozes mais bonitas do rádio cabofriense é também uma sensação na música. Oswaldo Guimarães, o locutor-cantor, que fez carreira nos microfones da antiga Rádio Sucesso, Rádio Cabo Frio AM, e em locuções especiais e comerciais para a Rádio Ondas FM, e outras, há anos vinha se dedicando exclusivamente à música religiosa, chegando a formar sua própria banda, a Herança de Deus. Desse trabalho, resultou a gravação de três CDs, e as vitórias em duas etapas consecutivas do Hallel-Fest, em Lorena-SP, que é o maior festival de música católica da América Latina. Em 2006, voltou aos palcos cantando MPB, com sua voz suave e afinadíssima. Além do rádio e dos shows, Oswaldo também apresenta um programa de TV, “Doidos por música”.

Pé de Vento A carioca Andréa de Thuin e o cabofriense César Trindade Marques, resolveram incrementar o namoro com uma sociedade comercial. A exprodutora de shows, encontrou na idéia de abrir um bistrô com o namorado, uma maneira de fugir da violência a cidade grande. Assim nasceu o Pé de Vento, no Condomínio Casagrande, para o deleite dos moradores do bairro do Portinho. Uma mistura de bar, armazém e bistrô onde se pode beber uma cerveja gelada, comer um sanduiche ou tomar um caldo verde,sempre com aquele visual privilegiado do canal Itajuru. A idéia do casal é aproveitar o espaço, para promover também eventos. Assim regatas, passeios de bicicleta, almoços e shows musicais já estão acontecendo no quarteirão mais movimentado do bairro. CIDADE, Julho de 2007

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Especial

RIR

o melhor remédio A primeira gargalhada do homem deve ter sido reveladora. Imaginar quando houve o despertar do humor dá para supor muitas situações. Como que numa reconstrução arqueológica evidencia-se a sua origem na reação de sobrevida, em geral ao medo ou ao sofrimento. O homem riu de si mesmo ou do outro e sentiu alívio na alma. Algo sutil que não lhe ocorrera, até então, nos primórdios de sua sisudez.

Octavio Perelló ão há no mundo povos que não tenham o humor dentre os seus hábitos mais espontâneos. Antes mesmo de tê-lo adotado para celebração da alegria, cultivouo para se defender de algum fardo ou do impacto negativo de um mau acontecimento. Rir é próprio da necessidade de se aliviar, como num escape de gases prestes a explodir do recipiente pressionado. O anedotário popular consagra histórias de humor de todos os povos – com especial foco em rivalidades: brasileiro com português, brasileiro com argentino, português urbano com português camponês, inglês com americano, americano com cubano, sucessivamente, além dos ícones mundiais da chacota, tais como o japonês mal dotado, o judeu avarento, e até padres, pastores e rabinos, coitados – que Deus nos perdoe! –, e tipos genéricos de todas as nacionalidades e religiões como a bicha (vale lembrar nesta categoria as hilariantes interpretações do genial comediante Costinha), o corno, o impotente, o corrupto e o burro. A lista de tipos é imensa e variada.

N

Com O Grande Ditador, Chaplin transformou a besta fera Hitler em malvada boneca excêntrica que queria fazer do mundo o seu espelho de penteadeira

Bem que Ele poderia ter escolhido outro O humor judaico é dos mais marcantes. Humor de meio-riso no canto da boca, melancólico e angustiado, por vezes meio cáustico, e muito auto-referente. Os judeus podem, em geral, não rir muito para os outros, mas sabem bem rir de si mesmo. Cultivaram o humor através dos tempos, com forte tradição oral e escrita. Passaram por poucas e boas, e até mesmo por total falta de alternativa restou-lhes apenas rir do absurdo da vida. Cismas, provações das mais aterrorizantes e perseguições ao longo dos séculos foram exercitando essa via de descompressão. Há uma conhecida narrativa do humor judaico que diz que perante as sucessivas desgraças, como as pestes, a escravidão imposta pelos romanos, a inquisição na Idade Média e o holocausto promovido pelo nazismo, o amargo rabino ao meditar sobre a responsabilidade de ser, segundo as escrituras, o povo escolhido, teria soltado a pérola “bem que Ele poderia ter escolhido outro”. Humor do sobrevivente que olha tudo destroçado a sua volta e, sem alternativa, ri da própria desgraça.

“Entre sem bater”

Cobras, lagartos e a teia de intrigas Na política temos casos de humor espontâneo, próprio das observações críticas do povo, sempre caricatas, e de humor premeditado, destilado em veneno, construído por políticos na briga de espaço e medição de forças. Ambos rendem muitas histórias, 40

Pasquim trouxe o humor para o jornalismo

CIDADE, Julho de 2007

Afixou na porta de casa o Barão de Itararé, após sucessivas invasões e surras da polícia getulista.


Ivo Saldanha e o Palhaço Chupeta

seja de contestação legítima ou de execração leviana. Naturalmente que muitas foram geradas das próprias bobagens ou bobeadas do personagem-alvo, outras nascidas do anti-marketing feito por hábeis e versáteis caluniadores. Há episódios em que o fato criado se voltou contra o seu criador: o ex-presidente da República Jânio Quadros e a sua indefectível vassoura, imagem que capitalizou em campanha como arma contra a corrupção que pretendia varrer do país, e que combinada aos gestos caricatos e a fraqueza demonstrada no comando do poder ajudou a compor munição política dos adversários, que lhe imputaram folclóricos ares de loucura. A oratória de combate e o poder de articulação do ex-governador do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, renderam-lhe a pecha de “o corvo”, imputada em campanha do jornal Última Hora, de seu desafeto, o jornalista Samuel Wainer, que o associava ao arauto das notícias ruins. Nesta tirada teve relativo sucesso Samuel Wainer, frontalmente atingido em injúrias e denúncias feitas pelo também jornalista e dublê de político Lacerda. Na Região dos Lagos, o ex-prefeito e ex-deputado estadual Ivo Saldanha viu sua trajetória política ruir em meio ao efeito bumerangue de suas atitudes. Médico de origem humilde e trajetória interessante, fenômeno eleitoral com ampla identificação popular, Saldanha praticava a jocosidade e a rede de intrigas fomentando agentes disseminadores de apelidos e fofocas enquanto com o seu inseparável chapéu afirmava estar implantando a indecifrável “meritocracia”. Diante do manto rarefeito perdeu a credibilidade, mesmo porque, com todo o mérito que pudesse anunciar aos quatro ventos, enquanto esteve na Prefeitura, o povo que antes ele pusera em transe – ouriçado pelas ruas a estalar os dedos e erguer o polegar em gesto de firmeza –, não lhe reconheceu ações efetivas que o autorizassem a criticar quem quer que fosse. Constantemente se referia aos ex-prefeitos Alair Corrêa e José Bonifácio como “baleadinhos” lançados ao mar, mas os assistiu retornar ao gabinete máximo do município e também à Assembléia Legislativa. Outro nobre colaborador do anedotário político foi o ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. Despertava amor e ódio em suas trincheiras, e por muitos era visto como destemperado e um tanto ranzinza, mas o que mais exercitava publicamente, além da veemência oposicionista, era a prática do humor, implacável nas analogias e piadas; e até certo dom de premonição, ver-se-ia depois. São tantas as sacadas que vale lembrar as mais emblemáticas como o “filhote de Chagas Freitas” que atribuiu a Miro Teixeira, o “gato angorá” que colou em Moreira Franco e o “sapo barbudo” Lula que as elites teriam de engolir – e não é que engoliram com gosto!

O grande espelho de penteadeira

JÂNIO QUADROS, um presidente que fez o País rir

Saindo do humor calculado, utilizado como instrumento para nomear e destituir poderosos, e passando ao humor mais fundamental, de resistência às adversidades da vida, esse que as raízes judaicas parecem explicar a gênese, recorremos ao verdadeiramente corajoso e hilariante Aparício Torelli, o Barão de Itararé, que após ter sido por seguidas vezes vítima de espancamentos em sua própria casa – investidas da violenta polícia política getulista, inconformada com as tiradas sacanas do grande intelectual e humorista gaúcho –, afixou na porta de entrada a placa com o seguinte aviso: “Entre sem bater”. Quase que na mesma linha o jornal O Pasquim atravessou os anos de censura e repressão com muito humor. Com entrevistas, charges, notas, artigos e irreverência suficientes para garantir aos componentes de seu expediente muitas apostas nos bares cariocas sobre quem poderia ser preso a cada edição, o jornal serviu de sobrevida àqueles que não tinham onde se expressar, e de certa forma alentou com a leveza própria do riso o mecanicismo esquerdista que imperava entre formadores de opinião nas décadas de sessenta e setenta. Por fim, um dos lances mais certeiros daquele que se revelou dentre os maiores gênios do século XX: o polivalente Charlie Chaplin, que prestou enorme contribuição à Humanidade ao compor o seu personagem de O Grande Ditador, dosando loucura e exacerbação de gestos, desmistificando a besta fera Hitler, transformando-a em malvada boneca excêntrica que queria fazer do mundo o seu espelho de penteadeira. Assim é a força motriz do humor, implacável elemento de resistência humana. CIDADE, Julho de 2007

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Divulgação

Esporte

Santinha veleja na Itália

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CIDADE, Julho de 2007


Divulgação

Santinha na raia Maurício Santa Cruz, o Santinha, bi-campeão mundial e campeão italiano na categoria J 24 é Cabo Frio no Pan Renato Silveira que poderia haver em comum entre esse atleta, um dos favoritos para a medalha de ouro nos Jogos Pan Americanos do Rio de Janeiro em 2007, e a cidade? Um passeio pelo Braga, bairro nobre do município, e a resposta aparece em forma de rostos mais que familiares para o campeão. É lá, que fugindo da violência e do stress do Rio de Janeiro, moram há mais de cinco anos sua mãe Ângela e seu pai Antônio Carlos, e, onde, sempre que pode, nosso herói da vela aparece para uma visita, ao lado de sua esposa Flávia e sua filhota Carolina. Mas os veleiros Bruschetta I e II, navegados com destreza por Santinha em companhia de Daniel Santos, João Carlos Jordão e Alexandre, por enquanto, não acompanham o atleta nas vindas à cidade. Bem que ele gostaria, já que considera o mar cabo-friense, especialmente a Praia do Forte, uma das raias mais perfeitas do planeta para a prática de seu esporte. O problema está na estrutura, praticamente inexistente por aqui. “Faltam condições logísticas. Não temos uma marina adequada, precisamos de um guincho para a retirada do barco, que é pesado, enfim, a infra-estrutura que temos na cidade ainda não permite. A simples construção de uma grande marina já traria para cá diversos atletas, porque temos condições perfeitas para o velejo a maior parte do tempo, e ainda por cima, longe do stress da cidade grande. Se as autoridades se ligassem nisso, traríamos para a cidade um turismo constante e de qualidade. Mas falta visão”, aposta o campeão. Enquanto isso não acontece, Santinha encara mesmo é a poluída Baía de Guanabara em seus treinos para o Pan. Aliás, é nela mesmo que acontecerão as competições de vela dos jogos, que já agitam o Rio de Janeiro. Recém-chegado da Itália, onde venceu o campeonato local com seus companheiros e os inseparáveis Bruschetta, Santinha conta que a competição naquele país é uma das mais importantes do planeta, e bastante disputada “São atletas de alto nível, e a disputa é muito acirrada. Saímos do mundial no México em fevereiro e já começamos a nos preparar para ela” disse, entusiasmado. A vela, para Santinha, é uma paixão antiga, nascida ainda na infância, quando a família apenas freqüentava Cabo Frio e nem sonhava numa mudança definitiva para a cidade. De lá para cá, disputou entre 89 e 97 diversas competições na categoria snipe na cidade, de onde saiu campeão três vezes. Sonhando com uma medalha no Pan, Santinha tem planos para mais adiante, e já começou as preparações para, em 2008, disputar a Volta da França, uma das mais importantes competições de vela do planeta. “Esse é apenas um de nossos projetos. Aos 31 anos, ainda tenho muito tempo de competição pela frente, pois na vela, quanto mais velho melhor (risos). Não vou disputar as Olimpíadas de 2008, pois não há mais tempo hábil para isso, mas já estamos nos programando para 2012, na Inglaterra, onde pretendemos disputar na categoria 470”, explicou. Mas os sonhos do nosso atleta não se resumem à competições e medalhas. Embora saiba que a prática de seu esporte não seja das mais baratas, Santinha tem projeto para ensinar vela à crianças carentes, e já vem buscando patrocínio para isso. “Não podemos ficar presos à custos, pois com certeza sai mais caro perdermos esses jovens para o crime. Poderia continuar competindo, mantendo os professores no local desse projeto, que poderia acontecer em Cabo Frio. Depende da visão de nossas autoridades e empresários”, finalizou.

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César Valente

Campeão na Itália com o velero Bruschetta

César Valente

Santinha exibe seus troféus de campeão Mundial e Italiano na categoria J24

Temos (Cabo Frio) condições perfeitas para o velejo a maior parte do tempo 43


Ponto de Vista

AQUI JAZ oão VI continuava triste. Assim se sentia desde 1788 quando, com 21 anos, soube que se tornaria rei com a morte do irmão mais velho, José. Chegou a chorar. Em 1809, casado com Carlota, estabelecido no Rio de Janeiro, estava preocupado. Uma noite comentou com ela: “A tralha da corte continua vindo, há pedidos de espaço para construção de armazéns. Não sei o que fazer”. Foi dormir e lá pelas três da madrugada acordou sobressaltado. “O que é?”, perguntou Carlota. “Tive uma idéia”, respondeu. “Milagre! Apaga essa vela e amanhã a gente conversa”. Acordou, chamou seu secretário e ordenou: “Prepara um decreto aforando os terrenos próprios para armazéns e trapiches”. E assim surgiram o Decreto de 21 de Janeiro de 1809, o Aviso de 18 de Novembro de 1818 que declarou que “15 braças da linha d’água do mar e pela sua borda são reservadas para servidão pública e que tudo o que toca a água do mar e acresce sobre ela é da nação”. A seguir veio o Decreto de 13 de Setembro de 1820 “dando competência à repartição da Marinha para a concessão em todos os portos, de qualquer porção de praia”. Da nação se tornou, hoje em dia, uma danação. Os 33 metros dos quais se tanto fala correspondem às 15 braças, cada braça medindo 2,2 metros. Nada a ver com a distância de um tiro de canhão, em 1831, idéia usada para justificar que o tal aforamento está associado com segurança nacional. Coisa nenhuma. A coisa foi bolada para levantar dinheiro e pagar as despesas do Império. No dia 7 de abril de 1831, Pedro I que já contava 11 do total de 18 filhos, metido em encrencas amorosas, tendo batido de frente com o marquês de Barbacena, abdicou em favor do filho Pedro, com cinco anos. Seguiu-se o período da regência, o Império enfrentando uma crise financeira: João VI havia levado consigo ouro do Banco do Bra-

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sil, em 1821, do que resultou a liquidação do banco em 1829. (Não pode ser acusado de ter levado tudo, pois deixou o usado na coroa que entregou a Pedro: “Bota essa coroa na cabeça, etc.”). “Temos que dar um jeito”, “jeito” sendo a maneira que os governos usam para obter recursos: criar impostos e taxas, entre elas a de ocupação na faixa estabelecida por João VI. Veio a Lei de 15 de Outubro de 1831 orçando a receita e fixando a despesa para o ano financeiro de 1832-1833, e uma lei orçamentária colocando à disposição das Câmaras Municipais Terrenos de Marinha e permitindo aos Presidentes das Províncias aforar e estipular o foro. A definição de Terrenos de Marinha se deu através da Instrução número 348 de 14 de Novembro de 1932, alterada por Getúlio Vargas em 1941. Seguiram-se duas malvadezas, em 1980: 1) “Terrenos Acrescidos de Marinha, os que se tiverem formado natural ou artificialmente para o lado do mar ou dos rios e lagoas em seguimento aos terrenos de marinha”; 2) “Terrenos Marginais, os que, banhados pelas correntes navegáveis, fora do alcance das marés, vão até a distância de 15 (quinze) metros, medidos horizontalmente, para a parte da terra, contados desde a linha média das enchentes ordinárias”. Bem vago e arbitrário. A primeira medição sistemática das alturas de marés ocorreu ao longo de 1831, com a definição, no terreno, do nível médio do mar para o Rio de Janeiro. Não há notícia de que as medições tenham se repetido. Como o imposto do cheque, o nível veio para ficar e a saída é solicitar que, por exemplo, no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro, se coloque uma placa, “Aqui Jaz a Linha do Nível Médio do Mar em 1831”. Deve ficar uns 300 metros da beira da praia, sete palmos abaixo do asfalto. Ernesto Lindgren

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II Semana de Vela de Cabo Frio elo segundo ano consecutivo, aconteceu, nos dias 23 e 24 de junho, a Semana de Vela de Cabo Frio. O evento é organizado pela Federação de Vela do estado do Rio de Janeiro e Iate Clube do Rio de Janeiro (Subsede de Cabo Frio) e tem o apoio da prefeitura da cidade. 33 barcos das classses Snipe, Dingue, Laser standard, Laser Radial Optmist, Hobie Cat 14 e 16, 420 e RS:X, competiram na Praia do Forte, com ventos fracos nos dois dias, o que tornou a competição bastante técnica. Este ano os organizadores homenagearam Nils Ostergren, com a criação de troféu com seu nome, para o vencedor da classe Snipe - onde o velejador competiu, e para a qual dedicou-se a fabricar velas de competição. O troféu Nils Ostergren foi conquistado pelos velejadores Mário Eugênio Tavares e Christina Frediani. Na classe Dingue, venceram Flávio Dantas e Anna Flávia Dantas. Os velejadores Marcelo Ferrina e Anderson de Lima ficaram em

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Hobie Cat 16 passa pela Boca da Barra

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primeiro no Hobie Cat 16, e Octácilio Egger Neto venceu na classe Hobie Cat 14. A classe Laser Radial teve como vencedor o velejador Gabriel Messias, e Ronaldo Fernandes levou o troféu do Laser Standard. Na classe Optmist o velejador Marco Antônio Correa conquistou a vitória. Por causa do grande número de competidores na classe Laser, este ano aconteceu, também, premiação especial para os velejadores locais. De Cabo Frio venceu o velejador Victor Simões, o Tuco. De Barra de São João, o velejador Ademar de Carvalho e de São Pedro da Aldeia, Alex de Souza. Ronaldo Fernandes Vencedor da classe Laser Standard

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PapiPress

Artigo

Canal Itajuru Cabo Frio

TURISMO... Que turismo é esse ? Tati Bueno

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Brasil ocupa hoje vergonhosamente um dos últimos lugares no ranking mundial entre os paises que menos turistas recebem. Inacreditavelmente, consegue ficar atrás da Romênia, lá no fim do mundo, onde a única atração, é o Castelo do Conde Drácula, embora esteja comprovado, no mundo inteiro, que turismo é sinônimo lucrativo de investimento gerador de empregos e conseqüentemente o maior gerador de renda. Se o turismo no Brasil despenca a olhos vistos, imagine o daqui de Cabo Frio, onde a gente vê uma secretaria jogando dinheiro pelo ralo sem nenhum planejamento, com o agravante cada dia maior de um turismo de baixa renda, numa demonstração patente de amadorismo em matéria de comercialização deste produto tão importante que é o Turismo. A Ilha de Aruba no Caribe, com apenas 32 km, aproximadamente, de extensão, gasta milhões de dólares para mostrar ao mundo as suas belezas naturais e recebe anualmente milhares de brasileiros, dando ao Brasil a medalha de bronze, só perdendo para o México e Estados Unidos. A causa desta má administração deve-se também a ineficiência das agên-

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cias de viagens, subproduto de uma política turística vergonhosa, que inventam pacotes no período de alta temporada, tentando lucrar o máximo e oferecendo em troca um serviço de péssima qualidade. Frente a essa globalização desenfreada, o mercado internacional direciona os objetivos para a criação de programas de formação especializadas, com a capacitação profissional e mudanças para a valorização dos diplomados em Turismo. Anos atrás eu ouvi do ex-presidente FHC, que já declarava, naquela época, durante a Conferência da Amazônia Legal, que nada gera mais emprego, e que nada gera mais renda no mundo do que o Turismo. Passados anos, nada foi feito, absolutamente nada, para melhorar o sistema turístico no Brasil, onde apesar das belezas naturais reconhecidas , continua nos últimos lugares no ranking mundial. Porque o Brasil é um país onde a distribuição de renda é motivo de vergonha e todo tipo de impunidade é cada dia maior e mais freqüente. Continua dando demonstração patente de ser um país do terceiro mundo onde a justiça tem neurônios de menos e os políticos são velhacos demais. Tati Bueno é jornalista CIDADE, Julho de 2007


Livros Octávio Perelló

LEIA MAIS LIVROS LEIA MAIS LIVROS Poesia erudita e popular

A ciência de nossa vegetação nativa O que restou de matas intactas na Região dos Lagos, especialmente no entorno do Cabo que irrompe o Atlântico? Sabese que o maior percentual de área remanescente encontra-se em terras da Marinha do Brasil. Quais espécies sobrevivem, como identificá-las e que importância têm no ecossistema regional? Não é sempre que surgem publicaç��es voltadas para a diversidade botânica que co-habitavam e as que ainda resistem nesta região, desde a formação de suas planícies arenosas costeiras, depósitos aluviais e lagunas. Atenção: trata-se de um alento para as redes pública e particular de ensino – adotem com louvor o livro-revista científica Plantas úteis da restinga: o saber dos pescadores artesanais de Arraial do Cabo, Rio de Janeiro (Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2006, 36 páginas). O pool de co-autores, composto por Viviane Stern da Fonseca-Kruel, Ariane Luna Peixoto, Cyl Farney Catarino de Sá, Dorothy Sue Dunn de Araújo, Wilson Luiz da Silva e Alexis José Ferreira, reúnem tão rico material nestas poucas e gordas páginas, que nós leitores havemos de reclamar apoio do Ministério do Meio Ambiente, através do Comitê de Divulgação Científica, que tivesse permitido edição mais caprichada, com capa que não parecesse folder de divulgação turística. A concepção gráfica dos textos e das fotos ao longo das páginas é primorosa, o que nos faz exaltar o mérito dos pesquisadores e lamentar o pouco apreço dos editores.

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Linguagem coloquial da poesia urbana e marginal adicionada à erudição herdada da tradição do cordel, eis a receita da cozinha literária do poeta, ator, roteirista para cinema e vídeo Mano Melo. Personagem real que difundiu, antes mesmo de sua publicação, poemas como Sexo em Moscou, consagrado em recitais pelo Brasil inteiro, o autor do insólito O Evangelho de Jimmy Rango – pequeno livro sanfona de cerca de 9 cm x 6 cm –, teve finalmente sua primeira oportunidade de reunir seus poemas neste primor intitulado O lavrador de palavras (Bapera, 1999, 80 páginas). Humor e erudição em ritmo de leitura cantada.

Papéis unidos Grandes obras perpetuam-se no tempo, são redescobertas por novos e ávidos garimpeiros de boa literatura e transcendem os limites idiomáticos. Neste contexto, no Brasil temos o reinado absoluto de Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho que nos legou obra de envergadura tal que tem sido objeto de estudo de especialistas em literatura do mundo inteiro. As reedições dos livros de Machado são festejadas em toda a extensão de sua importância. O leitor interessado na excelência da arte narrativa do conto tem mais um nobre motivo de celebração com o lançamento de Papéis Avulsos (Martin Claret, 2007, 191 páginas). É o livro lançado em 1882, que originalmente traz a obra-prima O Alienista e outras preciosidades, que o mestre diz se tratar não de escritos dispersos, mas sim de “pessoas de uma só família que a obrigação do pai faz sentar à mesma mesa”.

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OPINIÃO

Dom Álvaro Rosa

“PROCURA-SE UM HOMEM DE CRISTO” Ele me consagrou para levar a boa mensagem jo. 4.18

momento é agora. É urgente. O movimento Cristão faz uma convocação geral. Este é o estilo cristão. Para sermos cristãos devemos adaptar nossa vida à vida de Cristo, por isso, procura-se um ser de Cristo. Uma das grandes missões de Jesus é, foi e será, divinamente, evangelizar todos aqueles que precisavam de Deus, pois, 19% da população mundial não conhece Deus. Portanto, devemos nos espelhar na vida de Cristo, nossa missão cristã é também: doutrinar, ensinar, evangelizar e dar testemunho de que cremos neste Deus. Engraçado. A nossa missão não é só salvar a própria alma, ir a igreja, receber os sacramentos, rezar, procurar viver as lições do Evangelho... nossa missão é a missão de todos, é bem maior... é evangelizar. É dar testemunho de vida ao amor a Deus. É sair do texto, a leitura de superfície, mas contextualizar, é dar vida ao texto sagrado, é uma outra viagem, contextualizar é se movimentar. Somos pessoas razoavelmente comunicativas. Conversamos com os irmãos, os vizinhos, o vendedor de frutas e com o motorista, somos cidadãos do mundo. Discutimos sobre todos os assuntos; política, ciência, esporte, educação, cinema, televisão, artes, teatro, rádios, etc. Expomos as nossas opiniões. As vezes até escondemos nossa condição de Discípulo de Cristo. Estamos fora, “Jesus, a partir de agora queremos estar diferentes. Queremos ser cristãos autênticos. Queremos adaptar nossa vida à tua vida.” Deus não precisa de agente

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secreto pois o seu Espírito Santo é Paráclito e não paralítico. Pois se você, Cristo, estivesse em nosso lugar, além de dar opiniões sobre todos os assuntos, procuraria o momento oportuno para doutrinar e evangelizar, já que é o Deus que se fez carne e habitou no meio de nós. Tornou-se um Deus Harmônio. Por isso, procura-se um homem de Cristo. Dom Álvaro Francisco Lopes da Rosa é Bispo Diocesano de Igreja Católica Brasileira em Cabo Frio

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Resumo 3ª edição do Festival do Camarão

Areia é o tema da II Maratona de Fotografia

Entre os dias 29 de junho e 1º de julho, a Prefeitura de Cabo Frio voltou a realizar o Festival do Camarão, o maior festival gastronômico da região da Costa do Sol. Essa foi a terceira edição do evento que aconteceu na Praia do Siqueira, bairro tradicional de pesca e considerado, por muitos moradores e visitantes, como o local com o pôr-do-sol mais bonito da cidade.

A organização da Maratona Fotográfica de Cabo Frio anunciou a segunda edição do evento, programada para os dias 24, 25 e 26 de agosto. O edital, que já está disponível na internet. Os participantes deverão apresentar entre 10 a 30 fotos (imagens gravadas em CD, no formato JPG, ou em papel), junto com a ficha de inscrição preenchida até o dia 19 julho. A inscrição deverá ser entregue pessoalmente, ou através de envio pelos Correios, na Rua Jornalista Pedro Cordeiro de Mello, QL14 – Ville Blanche - Cabo Frio. O edital e a ficha de inscrição estão disponíveis em www.ladobproducoes.blogspot.com

Vanilda, Lincoln e Chumbinho

Lions promove palestra O Lions Clube de São Pedro da Aldeia, através de sua presidete Vanilda Biedert, promoveu palestra sobre petróleo na Câmara Municipal. O Gerente de Comunicação e Segurança de Informação da Petrobras, Lincoln Weinhardt, fez a exposição para uma platéia atenta, composta de empresários, políticos e imprensa.

Consórcio para a Sáude Prefeitos de oito municípios estiveram reunidos, em cabo Frio, para a criação do Consórcio Intermunicipal de Saúde. Farão parte do Consórcio, Cabo Frio, Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo, Búzios, Casimiro de Abreu e Rio das Ostras.

5 anos de dança Allan Lobato festejou 5 anos de dança em Cabo Frio, com um super baile na Sociedade Musical Santa Helena. Vários dançarinos fizeram apresentações, entre eles, Alex de Carvalho e companhia (participação na “Dança dos famosos” - Rede Globo), Lídio Freitas e companhia (Jaime Arôxa Tijuca), Renata Peçanha (participação no “Bailando pelo um sonho” - SBT) e os djs Anibal Feifer e Mafie do RJ, que tocaram o melhor do zouk.

Campeões Os corredores buzianos, treinados por Amaury Holanda exibem os troféus conquistados em Rio das Ostras, na V Corrida Rústica da Paz. Um verdadeiro show dos atletas Daniel Pereira, Ruan Leonardo, Gabriel Pereira, Nathália Sobrinho, Evelin Souza, Prisciane Conceição, Andreza Batista e Wagner Batista

Secretaria da Mulher

I Curta Cabo Frio

A Prefeitura de Cabo Frio criou a Secretaria Municipal da Mulher, que tem a advogada Tereza Muniz Tenan Assaf Marcondes, como secretária da pasta. A prefeitura anuncia, também, a construção de uma sede para a nova Secretaria, chamada de Casa de Referência da Mulher. No local pretende-se atender mulheres que sofram violência sexual, social, institucional, emocional e física. Segundo a secretária, o objetivo é “enfrentar e minimizar a desigualdade, a discriminação e a violência contra a mulher”.

O festival de curta-metragem e mostra internacional de Cabo Frio, que acontecerá entre os dias 10 e 16 de setembro, já tem sua programação oficial definida. Este ano, o evento poderá ser visto no Charitas, noTeatro Municipal, na Casa dos 500 Anos, no Cine Recreio, no auditório da Universidade Veiga de Almeida (UVA), no Boulevard Canal e nas escolas municipais do Jardim Esperança e Distrito de Tamoios.

CEFET em Cabo Frio A cidade de Cabo Frio está na relação de cidades-pólo do Plano de Expansão da Rede Federal de Educação Tecnológica do Governo Federal e deve receber uma unidade do CEFET já em 2008.

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Sucesso A Feira Forte foi realmente um sucesso. O stand da D&C, ficou lotado durante todo o período do evento. 49


G aleria

“Não fique assim...palhaço” - 1,2 x 1,0 m - Mista sobre tela - 2006

Yuri Vasconcellos Nasceu no Rio de Janeiro, e, aos dois anos, começou seus desenhos já morando em Cabo Frio. Fez a primeira exposição em 1988, aos 12 anos. Em 1995, ingressa na Faculdade de Artes Plásticas, com habilitação em Pintura, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Inquieto e pesquisador, morou e expôs em vários lugares do Brasil como: São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Búzios. Fez uma temporada de estudos e exposições em Portugal, em 2004. Filho do artista plástico Ivan Cruz, é ator formado, poeta de coração, músico em processo, e designer gráfico.



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