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www.revistacidade.com.br Janeiro, 2007 Número 9

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PRESERVAÇÃO X DESENVOLVIMENTO A hora da decisão

Entrevista Sergio Goldberg A Reserva Peró será o maior destino turístico do Brasil Especial “Bem Te Ver é uma penitência” Criador da Fundação que apóia menores em Búzios fala de seu trajeto de cigano profissional a diretor de centro social Petrobras destinará R$ 90 em projetos culturais

Comêrcio

10 Perguntas Lísia Barroso Vanacor

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Macaé Bem longe do paraíso Já se foi o tempo em que notícias sobre o desenvolvimento de Macaé eram motivo de orgulho para a população e ferramenta de marketing para os políticos.

Pega Ladrão! Comerciantes do Centro de Cabo Frio denunciam série de roubos e arrombamentos

Turismo

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Política Jogo feito Está montado o quebra-cabeça político do estado do Rio de Janeiro. No dia 15 de dezembro o TRE - Tribunal Eleitoral Regional diplomou os 119 eleitos em uma cerimônia que durou pouco mais de duas horas.

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Cultura Turismo cultural tem atrativos na região

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IPHAN seleciona bolsistas

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Desenvolvimento Plano Diretor: a pressa é amiga da construção Assim como em Búzios, o Plano Diretor de Cabo Frio também deixou a questão ambiental de lado

Capa: Via Azul - Armação dos Búzios / RJ - Foto: Filmers 9900/Major Praia Brava - Cabo Frio / RJ - Foto: Marconi Castro

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Praia sem peixe frito Quiosques estão sendo retirados de toda a orla da Região dos Lagos

Região

Irresistível conquistadora Com um estilo inovador na conquista dos clientes, estrutura, tecnologia de vendas e eficiência no atendimento e entrega dos produtos, a Distribuidora de Bebidas Marbela conquistou o mercado em quatro anos de operações atendendo a 13 municípios

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Sergio Goldberg

A Reserva Peró será o maior destino turístico do Brasil

Marco Antonio de Carvalho Fotos Marconi Castro

iretor da carioca Agenco, o engenheiro Sergio Goldberg é lacônico ao falar do futuro do Reserva Peró, o projeto mais recente da construtora, que ainda gera discussões entre os ambientalistas de Cabo Frio e Região dos Lagos. Isso não impede, no entanto, que ele reafirme seu otimismo e o sonho de transformar o complexo no maior pólo turístico do Brasil, quando todo o empreendimento da praia do Peró estiver concluído. Responsável pela construção do Macaé Palace e do Sheraton, também em Macaé, além da Vila do Pan, na Barra da Tijuca, no Rio, Goldberg acredita que as dúvidas que surgiram sobre o grandioso projeto da Reserva Peró serão respondidas em pouco tempo e o início da construção será ainda em 2007. Na entrevista a seguir, Goldberg conta um pouco da história da Agenco e afirma que o futuro morador da Vila do Pan, construída para abrigar os milhares de atletas que participarão dos Jogos Pan-Americanos, em julho, deve se sentir orgulhoso por adquirir um imóvel que abrigou um campeão.

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SERGIO GOLDBERG diretor da Agenco

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A Sergio Goldberg

Qual a sua formação? Sou engenheiro. Minha graduação foi em 1972 mas desde 1969, ainda cursando a Faculdade de Engenharia, estagiava em empresas do segmento. Estou na empresa desde 1972, data da minha formação profissional, quando comecei a atuar como engenheiro de obras. A Agenco foi fundada em 1960, atuando inicialmente no ramo imobiliário. Existe alguma diferença entre o ramo inicial da empresa e a construção civil? A atuação da Agenco, desde a sua fundação até os dias de hoje, é voltada para a construção de empreendimentos imobiliários onde ela participa. Não nos dedicamos a realizar obras de empreitada ou obras públicas.

nossas realizações, mas tão importante quanto o Città temos o Sheraton Barra, o Centro Empresarial Mario Henrique Simonsen e outros tantos empreendimentos.

de êxito comercial. Após os Jogos, se transformou num bairro de referência na cidade. Este exemplo se repetiu em Sidney, Atenas, Seul, e nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo.

A dificuldade para construir um Città America (ou uma Vila do Pan ou um Macaé Palace) é a mesma de se construir um edifício em Vila Isabel, por exemplo? Qualquer obra precisa ser planejada e ter projetos completos e definitivos. Evidentemente que o tamanho e a proporção das edificações requerem uma movimentação maior de profissionais.

Ou seja: isso ajuda na hora da venda? Sim. Como eu disse, os adquirentes da Vila Pan-americana no Rio de Janeiro se mostraram orgulhosos pela estadia de atletas nos apartamentos.

O Macaé Palace e o Sheraton, também em Macaé, foram inaugurados há pouco. São os dois primeiros empreendimentos da Agenco fora do Rio de Janeiro? Há alguma diferença entre construir no Rio e em cidades distantes da sede da empresa? A Agenco já tinha construído em Niterói, mas, hoje em dia, com a tecnologia disponível e os softwares utilizados pela

Quando é que o senhor espera que a questão sobre a construção do Clube Med, no Peró, em Cabo Frio, esteja resolvida? O projeto foi apresentado com todos os cuidados ambientais que demandam uma área de proteção ambiental e dentro da legislação existente. Esperamos que tenhamos o assunto resolvido no início do ano.

O modo de gerir o negócio é diferente? Há alguma característica que diferencia o Surgiram algumas objeções sobre a utilização profissional do ramo imobiliário e o da da Reserva. De que forma o senhor vê essas construção civil? objeções? Sim. As obras ligadas a empreendimenDe forma natural. Estamos tos imobiliários têm cultura difebuscando esclarecer todas as rente das obras de empreitada. questões. Tenho a impressão que estou respondendo da maneira como De que forma uma empresa (seja a entendi o que você chama de O projeto Reserva Peró foi Agenco ou outra qualquer) pode se ramo da construção civil, que são apresentado com todos os cuidados propor a construir numa cidade as obras de empreitada para parcomo Cabo Frio, onde há ticular ou para o Estado, o que ambientais que demandam uma área praticamente um sambaqui em cada não é o nosso foco. de proteção ambiental e dentro da bairro? Como administrar a legislação existente preservação da história e do A forma de conquistar o cliente é a ambiente e, ao mesmo tempo, mesma? atender à necessidade de construir Não. Os clientes de empreene crescer? Como resolver essa dimentos imobiliários integram o delicada equação? chamado mercado imobiliário O nosso projeto analisou todas as quesformado por pessoas físicas ou jurídicas empresa, todo o planejamento, controle, que adquirem unidades imobiliárias que compras, aferição e qualidade são realiza- tões, e a nossa proposta prevê um desentêm características diferentes, podendo ser dos à distância, sem grandes dificuldades. volvimento sustentável, atendendo à legislação ambiental. compradores finais ou para investimento. A Vila do Pan é o maior empreendimento da Zuenir Ventura escreveu uma crônica em “O história da empresa? As construções que têm a assinatura Agenco Sim. Outras cidades que sediaram pan- Globo”, sobre os ‘edifícios inteligentes’, são voltadas para a classe média. Houve, na americanos e Olimpíadas também tiveram prédios com saúna, piscina, academia, empresa, a preocupação de dedicar seus que construir imóveis para abrigar atletas restaurante e biblioteca. Esse novo formato é empreendimentos a este público algo que as construtoras devem oferecer, e participantes dos jogos. específico? daqui em diante? Sim. O foco da Agenco é produzir para Confesso que nunca li algo assim. Os De que forma os possíveis compradores a classe média alta. novos projetos têm oferecido aos comprareagem ao fato do condomínio e do dores um conjunto de intervenções nas apartamento onde irão viver tenha sido Alguns dos empreendimentos da Agenco são partes comuns dos prédios, procurando construído para hospedar os atletas que ícones da construção civil na Barra da Tijuca, oferecer aos compradores lazer, entreteniirão participar dos Jogos Pan-Americanos? como o Città America. Até que ponto um De forma exitosa. Desde 1992, nas mento e cultura. Acho este caminho sadio espaço como o Città America passa a ser um Olímpiadas de Barcelona, a Vila Olímpica e complementa a necessidade de um moracartão de visitas da empresa? O Città America integra o portfólio de se tornou um símbolo na cidade e um gran- dor.

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O senhor tem tempo para o lazer? O lazer é fundamental para que o nosso senso criativo possa estar sempre revigorado. Procuro preservar e aproveitar estes momentos com bastante ênfase. O senhor costuma vir à Região dos Lagos? Tem predileção por alguma cidade em especial? Acho que as cidades têm características diferentes e se complementam. Tenho frequentado tanto Cabo Frio e Búzios. Por que a Agenco escolheu o Peró para construir o Club Mediterranée? Nosso objetivo é transformar o projeto Reserva Peró no mais importante destino turístico do País, privilegiando o conceito de preservação ambiental, valorizando as características naturais. As belezas naturais da praia do Peró, as facilidades de acesso através do aeroporto de Cabo Frio ou por meio viário, nos oferecem a garantia que o destino será superior a outros existentes no Brasil. O projeto integrado onde operações hoteleiras de prestígio internacional com condomínios residenciais e outras atrações, nos garantem a confiança desta vocação. VILA DO PAN Desafio vencido pela Agenco

Nosso objetivo é transformar o projeto Reserva Peró no mais importante destino turístico do País, privilegiando o conceito de preservação ambiental

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Comércio

PEGA LADRÃO! Comerciantes do Centro de Cabo Frio denunciam série de roubos e arrombamentos Cristiane Zotich Fotos Marconi Castro om o verão a pleno vapor, os comerciantes de Cabo Frio teriam muito para comemorar com o aquecimento das vendas, se não fosse uma onda de insegurança que fez várias vítimas, principalmente na área central da cidade. O problema é a série de roubos e arrombamentos registrados desde o final de novembro. Algumas lojas, como uma do setor de informática, localizada num shopping no Centro de Cabo Frio, tiveram perda total:

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todos os computadores foram levados da noite para o dia. Indignado, o proprietário foi para São Paulo, e pretende fixar residência por lá mesmo. Marcelo Chuairi, da Cores do Mar, e presidente da Associação da Rua dos Biquínis, na Gamboa, já foi vítima deste tipo de crime algumas vezes. “No verão passado, minha loja foi roubada, e há pouco voltaram a arrombá-la”, conta. “Não cheguei a registrar ocorrência”.

Prejuízo O comerciante Sérgio Lobo, dono da Captain Blood, não teve a mesma sorte. No

final de novembro teve a loja arrombada. Mais de duzentas peças de roupas foram levadas da loja, localizada no calçadão do Malibu, Praia do Forte, gerando um prejuízo estimado em 6 mil reais. “Minha loja não foi a única”, acusa Lobo. “De uma loja de informática levaram tudo. Um cyber café também foi vítima de roubo, assim como outras três lojas de roupas. E todos os arrombamentos e roubos foram feitos em poucos dias”. Lobo revela que o problema é antigo e que a falta de segurança não é novidade. “Ano passado, uma semana antes da morte do ex-diretor do Procon de Cabo Frio, fui

JOSÉ RENATO CHERNICHARRO DELEGADO DA 126ª DP Mesmo se tivéssemos a Delegacia Legal na cidade, os problemas seriam os mesmos

COMPUWAY: perda total 8

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MARCELO CHUAIRI

No verão passado, minha loja foi roubada, e há pouco voltaram a arrombá-la

CAPITAIN BLOOD: localização privilegiada não impediu assalto


assaltado por dois homens de moto, que colocaram uma arma na minha cabeça. Levaram cerca de 4 mil reais”.

Dificuldade na delegacia Tão desgastante quanto ser vítima deste tipo de violência é ter que registrar a ocorrência na delegacia. Quem afirma isso são as próprias vítimas dos bandidos. “A gente encontra muita má vontade por parte dos policiais do plantão”, confirma Lobo. “Além disso, o material que a polícia utiliza é velho, nem sabem datilografar. Não vemos nenhuma movimentação da polícia no sentido de resolver esses casos. Não têm viaturas nem combustível; o efetivo é pequeno demais em relação à cidade. E não sou eu quem está dizendo. Os próprios policiais dizem isso quando vamos registrar queixa”, denuncia, lembrando que foi vítima de assalto e roubos diversas vezes, e até hoje nunca conseguiu reaver nada do que lhe foi levado.

Pouco a ser feito Para o delegado da 126ª DP (Cabo Frio),

José Renato Chernicharro, não há muito a ser feito para resolver o problema da delegacia. “Infelizmente as máquinas são antigas mesmo. Temos um técnico que troca as fitas toda semana porque são muitas as ocorrências registradas, e não dá pra fazer isso em computador e imprimir em impressora matricial. Mesmo se tivéssemos a Delegacia Legal na cidade, os problemas seriam os mesmos”, garante. Para minimizar o problema, ele lembra que, quando a situação é crítica, “retiramos pessoas de outros setores para colocar no plantão”. Chernicharro também pede que as pessoas façam uma petição para que o problema seja resolvido fora do plantão, principalmente nos finais de semana, “quando não fico aqui, e um único delegado fica responsável por toda a Região dos Lagos”, explica. Apesar do esforço, o delegado reconhece que existem pessoas despreparadas para o atendimento ao público. “Já conversei várias vezes com meu pessoal. Mas nem sempre isso resolve”.

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INBOX

77 milhões para saneamento

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s membros do Comitê de Bacia Lagos São João estiveram reunidos no Hotel Carapebas, em São Pedro da Aldeia, para tratar dos investimentos para a segunda fase do saneamento da região. No encontro foi anunciado o cronograma de obras das concessionárias de água e esgoto (Prolagos e Águas de Juturnaíba) para os próximos três anos, com investimentos de 77 milhões de reais. Do total previsto, R$ 27 milhões serão destinados para a construção de nova adutora da Prolagos, que aumentará a oferta de água para os municípios de Cabo Frio, São Pedro da Aldeia, Iguaba Grande e Arraial do Cabo. Os outros R$ 50 milhões correspondem a investimentos no sistema de captação de esgoto pelas concessionárias Prolagos (R$ 23 milhões) e Águas de Juturnaíba (R$ 27 milhões). - Estamos com um pacote de investimentos muito satisfatório. Pretendemos, nos próximos três anos, atingir a meta de quase 100% de interceptação do esgoto que vai para a Lagoa Araruama. O Consórcio já tem o acordo com os prefeitos e as concessionárias. Estamos aguardando o parecer final da AGENERSA (Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro) – informou Luiz Firmino, secretário Executivo do Consórcio Ambiental Lagos São João.

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Especial

A escolha de

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RUY BORBA FILHO Presidente da Fundação Bem-te-vi

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Especial

“Bem Te Ver é uma penitência” Criador da Fundação que apóia menores em Búzios fala de seu trajeto de cigano profissional a diretor de centro social

Prédio principal

Marco Antonio de Carvalho

ascido em Porto Alegre, Ruy Borba Filho descende de uma família da fronteira, o pai de São Borja, mãe de Uruguaiana, deixou o Rio Grande do Sul aos 24 anos para estudar direito econômico na Alemanha. Só voltou a viver no Rio Grande do Sul durante um ano e meio, quando presidiu um banco regional. Na Alemanha esteve por três anos, em Tübingen, de 1970 a 1974, época turbulenta da história recente alemã, tempo de grupos paramilitares de esquerda como o Baader-Meinhof que, porém, não atraíam a atenção do jovem estudante brasileiro. Tanto que, depois de se formar, Borba foi viver em Santa Catarina, onde desenvolveu a atividade profissional que considera “talvez a mais importante da minha vida”, diretor de um banco estatal, órgão executivo do conselho de desenvolvimento econômico do estado, que o governador Konder Reis tinha criado. O banco teve um papel importante: Jorge Borhausen era o presidente da instituição e o trabalho devia “consolidar e transformar aquela estrutura em algo dinâmico”. Borba lembra que “a gente criou coisas que são comuns hoje, três décadas depois: os condomínios industriais”, como fez Jaime Lerner em Curitiba, na mesma época. “Pegávamos uma região, o extremo-oeste catarinense, por exemplo, que tinha vocação para a indústria alimentícia, com a Perdigão e a Sadia, e criamos um condomínio para aquela área. A política pública devia atender às especificidades da indústria da região”. Assim, o banco sequer incentivava, “o que é um pouco um eufemismo”, empresas que não tivessem tal perfil a se instalar ali.

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Um trabalhador cigano Depois de dirigir um dos braços do BNDES, no Rio de Janeiro, Borba foi para São Paulo, onde atuou como vice-presidente financeiro da Perdigão durante quinze anos. Mais tarde, montou um pequeno banco, onde ficou até 1996, quando aposentou-se. Foi, então, para Nova York, onde tinha apartamento há mais de dez anos, certo que jamais voltaria a morar no Brasil: “Adoro Nova York, mas nunca tinha vivido lá, eu passava férias”. Mas algo aconteceu que mudou a vida de Borba: “Comecei a ir a uma igreja, a Saint Patrick, para ouvir o evangelho. Havia um monsenhor que falava de forma fantástica, aquilo começou a me impregnar e depois de algum período fui a Israel, uma coisa maluca, sozinho, num carro pequeno, e decidi: iria voltar para o Brasil para ser padre”. O antigo advogado e economista Ruy Borba, então, trancou-se no secu12

Piscina Fundação oferece reforço escolar, aulas de computação, alimentação, atividade esportiva e artistica de alto padrão para crianças carentes. Sala de computação


lar Mosteiro de São Bento, no centro de São Paulo, encerrado numa cela durante trinta dias. Somente depois desse tempo de silêncio foi que o abade disse que Borba devia ficar um ano longe do mosteiro para confirmar se efetivamente queria seguir a vida religiosa. “Fiquei muito indignado”, lembra ele, “achava que tinha encontrado minha vocação tardia. Não quis”. Mas só desistiu definitivamente de ser padre anos depois. “E ainda bem. Da Igreja prefiro nem falar, é explosivo demais”.

Projeto Bem Te Ver Foi aqui que o projeto Bem Te Ver surgiu. Já morando em Búzios, onde adquirira uma casa em 1982, Borba acompanhou a amiga Diva Nunes, em uma picape, numa visita à casa de uma família carente. “Então vi a mãe de onze crianças, que tinha acabado de parir uma delas, desmaiada, a criança também, uma cena horrorosa. Foi essa mulher, Angelina, quem me deu levou à idéia da Bem Te Ver”. Outra mulher, porém, a documentarista Tania Quaresma, teve influência marcante na criação do projeto: em 1985, em Brasília, ela chamou Borba para ser um dos fundadores, “de araque, nunca trabalhei no magnífico projeto dela”, que reunia crianças de rua. A partir da experiência da amiga, Borba criou o Bem Te Ver e desde agosto de 2000 dirige uma estrutura que funciona como “um centro de oportunidades” para crianças e adolescentes. A cena que Borba assistiu na casa miserável da dona Angelina levou-o a tentar fazer alguma coisa, a interferir numa realidade social duríssima. “Mas meu cotidiano era muito distante disso, os pobres que eu conhecia eram meus empregados, em casa. Eram pobres em relação a mim, mas não miseráveis, sem perspectivas.” Tocado, religiosa e humanisticamente, pela miséria que conheceu, Borba se lembrou que assistira, ainda em Nova York, à missa de sétimo dia da Madre Teresa de Calcutá, “que eu mal sabia quem era”. A angústia diante da miséria e do gigantismo dela levou Borba a se mexer – e, como a madre indiana, “eu não me preocupo em resolver o problema, quero apenas pegar uma dessas crianças e dar uma chance. Mas são milhares de crianças”.

Salas de aula

RUY BORBA FILHO

Quero apenas dar uma chance a essas crianças

Atividade física orientada

Refeitório

Uma penitência Borba descobriu que quase todas as crianças que a Fundação atende são miseráveis, brancos, pardos, pretos ou quase brancos, quase pardos e quase pretos, tão subnutridos que sequer têm forças para levantar uma bola de basquete. “Tudo isso me dá um desânimo, a sensação de impotência diante de uma miséria tão crescente. Mas é quase uma penitência, como se tivesse uma cruz para carregar”. Durante um tempo Borba teve quem o apoiasse a carregar a cruz: a prefeitura de Búzios, no governo Mirinho Braga, fez uma parceria, aproveitando o espaço e os equipamentos da Fundação Bem Te Ver. “As crianças da rede pública eram encaminhadas para um segundo turno, centenas e centenas de crianças tinham onde aprender e brincar de artes e fazer esportes, de sete da manhã até o turno da noite, dedicado aos adolescentes”. Mas algum sortilégio ocorreu e fez com que o novo prefeito de Búzios, Toninho Branco, rompesse o acordo e se colocasse claramente contra o projeto. “O que é uma imbecilidade”, acusa Borba. Nem mesmo uma possível filiação de Borba a um partido político pode servir de explicação para a antipatia do prefeito: “Não sou candidato a nada, a fundação sequer tem meu nome. Tudo isso é ridículo porque durante a campanha política o prefeito não saía da Fundação. Depois da eleição ele encontrou o pote de mel e lambuzou-se”. Coisa que ocorre em Búzios, no Rio e em Brasília. O resultado, aponta Borba – há três anos também diretor do jornal Primeira Hora – é que Búzios não tem nenhum investimento na área social e, “ao invés de fazer como Araruama e Rio das Ostras, que criaram uma rede de proteção social, aproveitando as várias entidades que já existem, a prefeitura se mantém distante”. A preocupação social não faz parte do perfil do prefeito, deduz Borba. “É o Toninho dos Brancos”, que prefere olhar o lado fashion de Búzios e finge não saber que existem favelas na cidade conhecida em todo o mundo pela sua beleza. 13


Cartas SOU RESIDENTE À RUA IRMÃ JOSEFIna da Vega há muitos anos, e venho por meio desta solicitar que seja feita uma matéria a respeito do abandono de veículos em frente ao Condomínio Village do Sol I. Na frente do antigo Quebra Galho tem um caminhão abandonado há muitos anos, que até dificulta uma melhor visualização por parte dos vigias do citado Condomínio. Outro veículo abandonado é um Monza, quase em frente à portaria central do Condomínio. Pelo que pude apurar o veículo fundiu o motor e o proprietário abandonou o mesmo, isto há uns 25 dias. Estou preocupado, pois assim como estes dois veículos estão emporcalhando a nossa rua, amanhã muitos outros poderão fazer o mesmo. Rogério Teixeira Nahas (Palmeiras - Cabo Frio/RJ)

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Publicação Mensal NSMartinez Editora ME CNPJ: 08.409.118/0001-80 Redação e Administração Praia das Palmeiras, nº 22 Palmeiras – Cabo Frio – RJ CEP: 28.912-015 email:cidade@revistacidade.com.br Diretora Responsável Niete Martinez niete@revistacidade.com.br Editor de Texto Marco Antônio de Carvalho marcoantonio@revistacidade.com.br Reportagens Cristiane Zotich Juliana Vieira Martinho Santafé Octavio Perelló Renato Silveira Fotografias Marconi Castro Filmers 9900 Papipress Colunistas Octávio Perelló Produção Gráfica Alexandre da Silva alecabofrio@oi.com.br Armação dos Búzios

Ângela Barroso Tels: (22)2620-8960/9221-3718 angelabarroso743@hotmail.com Impressão Ediouro Gráfica e Editora S.A Tiragem 5.000 exemplares Distribuição Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Búzios, Rio das Ostras, Casimiro de Abreu, Macaé, Rio de Janeiro e Brasília. Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores.

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EM ATENÇÃO À MATÉRIA INTITULAda “Queda de Braço”, publicada na Revista CIDADE, na edição de novembro, vimos esclarecer que o Exmo. Sr. Prefeito de Cabo Frio, Marcos da Rocha Mendes, encaminhou ofício a esta Superintendência do IPHAN informando ter determinado a imediata paralisação das obras no terreno do antigo Palace Hotel e manifestou seu interesse em regularizar a situação. Esclarecemos que nada tínhamos a opor quanto à já executada demolição do antigo edifício. Assim sendo, com a compreensão e o apoio da administração municipal, bem como da sociedade local, acreditamos poder solucionar de maneira sensata e satisfatória esta e outras questões ligadas ao patrimônio cultural de Cabo Frio, que envolvam as instâncias federal e municipal. Carlos Fernando de S. L. Andrade (Superintendente Regional 6ª SR do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) A REVISTA ESTÁ DE PARABÉNS. AS matérias são dez. Adorei a edição de dezembro falando da homossexualidade e do Cabo Free. Foi muito bom, é isso aí, continuem assim, valeu. Inda Perez Miguel (por e-mail)

EXCEPCIONAL A FIRMEZA DO PROmotor, de quem tive ótima impressão quando, junto com Gerson Tavares, conversamos sobre a realização de shows em Cabo Frio. Juntando a declaração de Gustavo Beranger, (“Nada de mega-shows, porque Cabo Frio não precisa disso”), e mais ainda a preocupação da PM com a segurança, há sinais de que Cabo Frio inicia uma fase bem diferente da que o residente costumava assistir. Ernesto Lindgren (Palmeiras - Cabo Frio/RJ) PARABÉNS! PELA PRIMEIRA VEZ EM Cabo Frio temos uma revista de porte. A diagramação, assuntos, fotos, postura editoral, organização estrutural da revista são de qualidade semelhante às semanais nacionais de grande porte. Como leitora e moradora desta cidade há 26 anos, posso afirmar que antes não houve sequer alguma que passasse próxima à Revista Cidade. Parabéns a todos que dela participam e torço para que continuem esse trabalho sempre com uma postura isenta de qualquer vínculo político. Roseli D’Ávila (Cabo Frio/RJ) RECEBI O ÚLTIMO EXEMPLAR DA REvista no sindicato. Mais uma vez, parabéns. Ernesto Vianna (Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro)

Cartas para o Editor Praia das Palmeiras, 22 - Palmeiras, Cabo Frio/RJ - Cep: 28.912-015 E-mail:cartas@revistacidade.com.br CIDADE, Janeiro de 2007


Petrobras destinará R$ 90 em projetos culturais Petrobras e o Ministério da Cultura (MinC) anunciam no dia, 21 de dezembro, o conjunto de projetos que será contemplado pela Ação Extraordinária Petrobras – MinC 2006, com verba total de R$ 90 milhões. Parte expressiva dos resultados financeiros da empresa obtidos neste exercício fiscal (2006) será destinada aos projetos prioritários e estruturantes trazidos pelo ministério. A relação abrange editais públicos para diferentes áreas, incluindo segmentos de cultura indígena e negra e restauros de patrimônio edificado. Entre as novidades, está o edital de Segurança do Patrimônio, formulado em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com objetivo de estruturar sistemas de segurança em bibliotecas e museus para proteção contra roubos. Também está sendo lançado um edital para patrocínio de projetos culturais em universidades públicas, além de um prêmio para projetos com foco em pessoas idosas. Nas ações de restauro de patrimônio, a Petrobras anuncia o aterramento da fiação elétrica nas cidades históricas de Olinda (PE) e de Ouro Preto (MG), entre outros projetos. No evento, será assinado o protocolo de intenções com a Prefeitura de Ouro Preto. Além do apoio a novas ações, a empresa confirma a continuidade a projetos já patrocinados como o Pixinguinha – retomado em 2004 pela Funarte com patrocínio da Petrobras -, os Prêmios Myriam Muniz, Klaus Vianna e Carequinha de fomento ao teatro, à dança e ao circo, editais como o Viva Capoeira e o de Culturas Indígenas e o apoio à Escola Nacional de Circo.

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10 P e r g u n t a s ção mineral sem a realização da recuperação ambiental das áreas degradadas.

Parcerias para intensificar a fiscalização

1. A senhora assumiu há pouco tempo a chefia do Ibama em Cabo Frio. Em que situação encontrou o escritório, e como está estruturado agora? Encontrei o escritório instalado em um espaço apertado, que se destinava a abrigá-lo provisoriamente e acabou ficando por quase quinze anos (19922007). Recentemente, o IBAMA do Rio de Janeiro alugou um imóvel amplo com oito salas, banheiro e mobiliário novo, duas copas, um auditório e garagem para as duas viaturas oficiais, estando prevista a chegada de novos computadores e telefone PABX. 2. Desde que foi deflagrada a Operação Euterpe, o Ibama passou a imagem de ser um órgão não muito confiável. O que pode ser feito para reverter esta situação? Não concordo que o IBAMA não é um órgão confiável porque no Rio de Janeiro há quase trezentos funcionários distribuídos na sede da capital, nos escritórios do interior e nas diversas unidades de conservação (parques nacionais, reservas biológicas, APAs e outras) dos quais apenas 27 funcionários foram alvo da Operação Euterpe, o que corresponde a menos de dez por cento. Para aumentar a eficiência da atuação da instituição são necessárias medidas de gestão ambiental, com objetivos claros e avaliação do desempenho dos servidores. 3. Existe alguma instrução especial para o escritório de Cabo Frio, em função do ocorrido? São diretrizes para o Escritório Regional do IBAMA em Cabo Frio fazer a reorganização administrativa do serviço (arquivo de documentação, distribuição de tarefas, organização de mobiliário, etc.), estabelecer parcerias com outros

LÍSIA BARROSO VANACOR Chefe do Escritório do IBAMA/ Cabo Frio órgãos de fiscalização para otimizar o atendimento a denúncias, implantar atividades de educação ambiental, participar das dinâmicas associadas ao licenciamento de petróleo, entre outras. 4. Acredita que, a partir de agora, o Ibama se tornará mais rigoroso nas licenças ambientais? O Escritório Regional do IBAMA em Cabo Frio não tem competência para emitir licenças ambientais por se tratar de uma unidade descentralizada, sendo feita aqui no Escritório a emissão de laudos e pareceres técnicos que subsidiam as decisões na sede na capital. Por termos recebido infra-estrutura adequada, o trabalho agora será realizado com maior rigor resultando em maior qualidade de serviço. 5. Quais as atribuições do Ibama? Cumprir e fazer cumprir a parte federal da política nacional do meio ambiente, agir supletivamente à ação dos Estados e Municípios, opinar quando o assunto em tela refere-se à área de entorno das unidades de conservação federais ou à zona costeira, entre outras. 6. Quais os problemas mais comuns registrados pelo órgão em Cabo Frio? Conflitos relacionados à atividade de pesca nas lagoas costeiras; desmatamento principalmente para urbanização e agricultura, edificação em áreas de preservação permanente, manutenção de fauna silvestre em cativeiro sem licenciamento, extraCIDADE, Janeiro de 2007

7. Os pescadores artesanais alegam que a pesca na Lagoa de Araruama está acabando por causa da falta de fiscalização por parte do IBAMA. Como o órgão pretende agir com relação ao assunto? Não é somente a falta de fiscalização que está prejudicando a conservação dos recursos pesqueiros na Lagoa de Araruama. A utilização de malhas menores do que as permitidas, captura de indivíduos juvenis e a pesca durante os períodos de defeso da reprodução das espécies também estão contribuindo para agravar a situação. A ação do IBAMA vai ocorrer com o apoio de parcerias para intensificar a fiscalização. 8. O projeto Reserva do Peró pretende ocupar parte da APA Pau Brasil, em Cabo Frio. Como a senhora vê esse assunto? Vejo como um projeto de grandes dimensões que pretende se instalar em uma área com características ambientais complexas que abrigam a biodiversidade típica desta região. Neste sentido torna-se necessário demonstrar de maneira clara à sociedade e às autoridades que a legislação ambiental está sendo respeitada. 9. Acha possível conciliar preservação ambiental com crescimento econômico? Sim. Através da adoção dos preceitos e técnicas associadas ao desenvolvimento sustentável, respeitando a legislação ambiental federal, estadual e municipal, adequando os empreendimentos às características geográficas do local, privilegiando a conservação ambiental como forma de obtenção de benefícios socioeconômicos. 10. Como a senhora encara o desafio de chefiar um escritório que está sendo alvo de investigação policial? Isso muda o foco do seu trabalho? O Escritório Regional do IBAMA em Cabo Frio não está sendo alvo de investigação policial. As investigações que foram realizadas pela Polícia Federal na Operação Euterpe tiveram como alvo toda a Superintendência do Estado do Rio de Janeiro, a exemplo de outras operações que já aconteceram em alguns Estados da Federação (MT, PA, RO, RR). 17


Cesar Fernandes

MACAÉ crescimento impulsionado pelo petróleo

BEM LONGE DO PARAÍSO 18

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Macaé

Já se foi o tempo em que notícias sobre o desenvolvimento de Macaé eram motivo de orgulho para a população e ferramenta de marketing para os políticos. Agora, provoca arrepios do prefeito ao pipoqueiro da Praça Veríssimo de Mello. Cada manchete na mídia sobre o tema configura um cenário preocupante, com a vinda de mais trabalhadores não qualificados, em sua maioria, aumentando a favelização, pressionando os serviços públicos e agravando os já preocupantes índices de criminalidade. Sem contar com especulação imobiliária e os altos preços praticados por bares e restaurantes, comércio em geral, postos da gasolina etc. O paraíso está muito longe daqui

não será diferente com a divulgação de que, pela primeira vez, Macaé está na lista dos municípios com as 10 maiores concentrações de renda per capita do país, de acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade subiu do 55º lugar para a oitava posição no ranking de participação dos pequenos municípios no Produto Interno Bruto (PIB) do país entre 2003 e 2004. Segundo o IBGE, o crescimento se deu por conta do “incremento da atividade industrial no setor de equipamentos para a exploração de petróleo e gás na Bacia de Campos e do aumento de cerca de 25% do preço do barril do petróleo em 2003”. Ao lado de Campos, sexta colocada no PIB per capita, Macaé foi a cidade que mais ganhou relevância no PIB brasileiro desde 1999. A cidade está na seleta lista dos dez municípios que concentram 25% de toda a riqueza do país.

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Realidade ou ilusão ? O que isso representa, de fato, para os municípios pesquisados? O professor Roberto Moraes Pessanha, do Observatório Sócio-Econômico do Norte Fluminense, responde: quase nada. “Eu costumo chamar esse cálculo do PIB de ‘Produto Ilusório Bruto’, porque o IBGE usa uma metodologia equivocada, considerando o que é gerado pelo petróleo e atribuindo toda essa riqueza aos municípios, criando uma distribuição absurda, pois quase toda essa riqueza sequer passa por aqui. A Fundação CIDE faz um estudo diferente, calculando o PIB municipal separadamente da riqueza gerada pelo petróleo, que, obviamente, não pode ser ignorada. Mas o resultado final está bem mais próximo da realidade”. Moraes exemplifica: Quissamã, que é o terceiro PIB per capita nacional, pelo IBGE (R$ 231 mil), pela Fundação CIDE o PIB per

capita é de R$ 8.600,00. Carapebus, o sexto pelo IBGE (R$ 167 mil), pela CIDE tem R$ 4.947 per capita. Pelo IBGE, o PIB per capita de Macaé é de R$ 120.602,00, enquanto para a CIDE cai para R$ 25.921,00.

Falsa impressão O prefeito de Macaé, Riverton Mussi, também encara os dados do IBGE com bastante reserva: “Se esses números deixam qualquer prefeito contente, também trazem preocupação. Devido a notícias como essa, que colocam a cidade na mídia nacional, muitas pessoas acabam vindo para cá achando que Macaé é o paraíso do emprego. Mas na realidade, não é bem assim. Emprego tem, mas para quem tem qualificação”, disse. O prefeito lembra que Macaé é uma cidade atípica. De acordo com ele, se por um lado, o petróleo traz recursos e investimentos de empresas da iniciativa privada, traz também um ônus muito grande para o município. “Todos os dias, chegam a Macaé chefes de famílias em busca de oportunidades. Sem qualificação, eles não conseguem emprego e acabam inchando cada vez mais as periferias”, comentou.. Devido às migrações, o crescimento populacional de Macaé é o dobro da média nacional. Em 30 anos, o número de habitantes triplicou - hoje, são 160.725 habitantes, de acordo com dados do IBGE de julho de 2006. Com isso, aumentam também os gastos da prefeitura em setores como saúde, educação, saneamento e infra-estrutura. “Isso sem contar com as perdas que o município teve nos últimos dez anos, como a invasão de áreas de preservação ambiental por migrantes e o aumento da violência”, disse o prefeito. Para o prefeito, além de investir em programas sociais visando a melhoria da qualidade de vida da população, o grande desafio é preparar Macaé para o futuro. “A verba dos royalties um dia vai acabar. A prefeitura tem que investir em obras de infra-estrutura, mas também tem que penCIDADE, Janeiro de 2007

sar no futuro. Nosso maior desafio é procurar alternativas para que o município mantenha sua força econômica quando o petróleo não for mais a principal fonte de renda”, disse Riverton Mussi, citando o Fundo Municipal dos Royalties, que deve ser criado no próximo ano, e o Pólo Industrial, que pretende atrair empresas de diferentes setores. O secretário de Meio Ambiente de Macaé, Fernando Marcelo Tavares, estava em Peruíbe, no litoral paulista, para proferir palestra sobre os impactos da atividade petrolífera no meio ambiente. Quando soube da pesquisa do IBGE, sua reação foi imediata: “Esse tipo de informação, além de não condizer com a verdade, aumenta o fluxo migratório que, por sua vez, pressiona mais o patrimônio ambiental do município. É lamentável que isso ainda esteja ocorrendo”. O vereador Pedro Reis, ex-secretário de Rui Porto

Martinho Santafé

RIVERTOM MUSSI PREFEITO DE MACAÉ

Emprego tem, mas para quem tem qualificação

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Macaé Saúde, concorda: “”A periferia vai continuar inchando, as demandas vão aumentando, como na saúde, e também a violência. É mais um duro golpe contra Macaé. É uma propaganda que dificulta a administração. Como se pode projetar uma cidade com toda essa pressão populacional ?”

Erro grave

cia de Polícia Civil foi construída na época da fusão, quando Faria Lima governava o Estado, e desde então jamais recebeu melhorias substanciais. Tanto a Polícia Civil quanto a Polícia Militar reclamam há mais de 20 anos a falta de efetivos e de materiais e equipamentos e os índices de criminalidade avançam a cada dia. Não há mais a quem recorrer, embora um recém criado Fórum de Segurança Pública vem discutindo o problema com as chamadas “autoridades competentes”. A omissão do Estado é tamanha que na época em que uma ponte sobre o Rio São João desabou, na Rodovia BR-101, Os prefeitos e a população têm prefeitos e vereadores alertaram que saber que não se ganha duas o DER-RJ para providenciar revezes na loteria, a não ser que seja forços na ponte sobre o mesmo algum ‘anão’ do orçamento rio, em Barra de São João, porque todo o tráfego pesado haROBERTO MORAES via sido desviado. Apesar disso, nada foi feito e a referida ponte, sob o risco de desabaos fluminenses serão impactados. Não vejo mento, ficará interditada por 150 dias, presolução para isso. Os prefeitos e a popula- judicando comércio, indústria e o forte tução têm que saber que não se ganha duas rismo da região. vezes na loteria, a não ser que seja algum ‘anão do Orçamento’. Se não houver bons O risco de se ter petróleo O artigo “Ter petróleo é uma maldição?”, critérios, o futuro será devastador”. Para ele, parte desse dinheiro deveria do consultor de empresas e escritor Ricardo ser reservada para utilização no futuro, Neves, publicado na última semana de seusando apenas no presente os rendimen- tembro na revista Época, mexeu com muita tos, como já acontece no Alasca, ou seja, gente do ramo, inclusive prefeitos e emuma espécie de fundo de previdência mu- presários que o leram. No polêmico artigo, nicipal. Ele cobra prudência dos adminis- Neves levanta a tese de que a auto-suficitradores. “São riquezas que, efetivamente, ência em petróleo, aparentemente, benefinão existem. Campos tem orçamento de R$ ciaria o Estado do Rio de Janeiro, respon1 bilhão 200 milhões para 2007 e vai gastar sável por 83% da produção nacional. Ele R$ 800 milhões com pessoal e custeio. É discorda: “O Rio de Janeiro vive há mais de uma década sob o signo acelerado dos uma situação de alto risco”. royalties, (...) uma bolha de riqueza momenOmissão do Estado tânea que maquia e impede que se veja a Se algumas prefeituras têm aplicado os real condição desse Estado: entre a estagroyalties de olho no futuro, o governo do nação e a decadência”. Prossegue o autor: “O petróleo no Rio Estado – que recebe a maior fatia – tem se mostrado incompetente ou, na melhor das tem beneficiado, antes de tudo, uma malta hipóteses, omisso em relação aos municí- de políticos neopopulistas e clientelistas pios que mais produzem riquezas, que desestruturaram de forma assustadonotadamente nos serviços de sua compe- ra a administração do Estado e de várias tência. Em Macaé, por exemplo, em anos prefeituras. Boa parte do empresariado eleitorais o que mais aparecem são as pla- fluminense segue iludida, tanto quanto o cas anunciando “Mais água para Macaé”, senso comum, Eles acreditam que do pemas o abastecimento da Cedae é precário tróleo e do gás natural sairão progresso e e a água costuma não chegar nos bairros empregos”. E alerta: “O Rio de Janeiro pode periféricos. A obra de ampliação do siste- terminar como o Alasca. É o Estado americano com as maiores reservas petrolíferas. ma arrasta-se há mais de 10 anos. Na área de segurança, a mais crucial do Mas há mais de duas décadas tem crescimunicípio, a precariedade é total. A delega- mento econômico negativo”.

Divulgação

Se Riverton é prudente em relação ao assunto, outros prefeitos fazem questão de alardear tais pesquisas, o que, na opinião de Roberto Moraes, é um grave erro: “Além de atrair sérios problemas sociais, esses levantamentos reforçam a tese de parlamentares que estão discutindo novas leis para mudar a distribuição dos royalties. É preciso repensar o uso responsável de todo esse dinheiro. Por mais que se invista corretamente, é improvável que no futuro haja algo capaz de substituir as receitas atuais”. O diretor do Observatório Sócio-econômico do Norte Fluminense acha que os royalties podem ser vistos como um prêmio ganho na loteria, sendo pago parceladamente.“Em todas as simulações, mesmo que se faça um bom uso desse dinheiro, os municípios terão que sobreviver com pelo menos a metade dos orçamentos atuais,

quando a produção de petróleo na Bacia de Campos começar a declinar. E Macaé tem um problema mais sério, pois a base da Petrobras está instalada na cidade que tem um dos maiores crescimentos de favelização”. Moraes lembra que o governo do Estado também terá um baque semelhante, “violentíssimo”, e explica: “Este ano o Estado vai arrecadar quase cinco bilhões de royalties e participação especial. Quando isso começar a declinar, todos os municípi-

ROBERTO MORAES DIRETOR DO OBSERVATÓRIO SÓCIOECONÔMICO DO NORTE FLUMINENSE

Se não houver bons critérios, o futuro será devastador.

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Cidadania e Vida Depressão Depressão é uma palavra freqüentemente usada para descrever nossos sentimentos. Todos se sentem “para baixo” de vez em quando, ou de alto astral, às vezes, e tais sentimentos são normais. A depressão, enquanto evento psiquiátrico é algo bastante diferente: é uma doença como outra qualquer que exige tratamento. Muitas pessoas pensam estar ajudando um amigo deprimido ao incentivarem ou mesmo cobrarem tentativas de reagir, distrair-se, de se divertir para superar os sentimentos negativos. Os amigos que agem dessa forma fazem mais mal do que bem. O amigo que realmente quer ajudar procura ouvir quem se sente deprimido e no máximo aconselhar ou procurar um profissional quando percebe que o amigo deprimido não está só triste. Uma boa comparação que podemos fazer para esclarecer as diferenças conceituais entre a depressão psiquiátrica e a depressão normal seria comparar com a diferença que há entre clima e tempo. O clima de uma região ordena como ela prossegue ao longo do ano por anos a fio. O tempo é a pequena variação que ocorre para o clima da região em questão. O clima é o estado de humor e o tempo as variações que existem dentro dessa faixa. O paciente deprimido terá dias melhores ou piores assim como o

não deprimido. Ambos terão suas tormentas e dias ensolarados, mas as tormentas de um, não se comparam às do outro. Existem semelhanças, mas a manifestação final é muito diferente. Ninguém sabe o que um deprimido sente, só ele mesmo e talvez quem tenha passado por isso. Nem o psiquiatra sabe: ele reconhece os sintomas e sabe tratar, mas isso não faz com que ele conheça os sentimentos e o sofrimento do seu paciente. A causa exata da depressão permanece desconhecida. A explicação mais provavelmente correta é o desequilíbrio bioquímico dos neurônios responsáveis pelo controle do estado de humor. Esta afirmação baseia-se na comprovada eficácia dos antidepressivos. A depressão é uma doença grave e se não for tratada a tempo pode levar à morte. Procure um médico. A prevenção sempre é o melhor remédio. DAVID DUTRA é especialista em clínica médica e terapia intensiva * Visite nosso site e deixe sua crítica ou sugestão para esta coluna: www.daviddutra.com

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Turismo

PRAIA SEM PEIXE FRITO Quiosques estão sendo retirados de toda a orla da Região dos Lagos Renato Silveira Fotos Marconi Castro quele peixinho frito com direito a cervejinha gelada, degustado confortavelmente em uma mesa munida de guarda-sol à beira-mar vai desaparecer, se a decisão da Secretaria de Patrimônio da União (SPU) que pretende retirar todas as construções irregulares em área federal for cumprida à risca. Em Cabo Frio e Búzios, os freqüentadores da Praia do Forte e Geribá convivem com essa realidade desde o verão passado, quando todos os quiosques foram retirados, após decisão do Ministério Público Federal. E a novidade deve estender-se para outras faixas de areia nesses e em outros municípios da Região dos Lagos. É o caso da Praia da Tartaruga, em Armação dos Búzios, onde os quiosques ainda não foram demolidos, mas estão devidamente lacrados por ordem do MP. Lá, todos os ex-comerciantes, agora cadastrados como ambulantes, trabalham com um isopor e uma barraca de praia, servindo apenas bebidas. Para o presidente da Associação de

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PRAIA DO FORTE Um ano sem os quiosques

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Quiosqueiros da Tartaruga, Altair Cardoso, a iniciativa cheira a jogada dos especuladores imobiliários, já que existem rumores de que aquela área seria vendida para a construção de mais um condomínio à beira-mar: “Não interessa para eles terem esses quiosques instalados na ´praia particular`. Até um ano atrás, pagávamos à prefeitura pela utilização desse local, e agora descobrimos que ele pertence à União. Estamos cumprindo a lei, mas quem vai pagar nosso prejuízo?”, indaga, lembrando que um restaurante, localizado na mesma área dos quiosques, continua em pleno funcionamento.

Situação em Geribá Essa também é a situação da Praia de Geribá, que desde o verão passado funciona sem os quiosques, substituídos por barracas brancas, a maioria delas já destruídas, dando lugar a singelos guarda-sóis. Lá, o presidente da Associação dos Quiosqueiros, Ivo Farias, reclama que a mesma lei que os expulsou da praia, manteve as piscinas das mansões e restaurantes, como o Fishbone, em pleno funcionamento. Para o advogado das associações de quiosqueiros, Hamber Carvalho, a prefeitura já deveria ter feito o Termo de Ajuste de Conduta com o Ministério Público, para regulamentar o funcionamento dos agora ambulantes, mas nada foi feito: “Estamos aguardando a assinatura do TAC para darmos os próximos passos jurídicos”. Segundo a assessoria de comunicação da prefeitura de Búzios, o texto do Termo de Ajuste de Conduta está sendo elaborado pela Procuradoria Geral, e deverá ser divulgado em algumas semanas. O governo municipal também está ordenando o funcionamento das praias, cadastrando e uniformizando os ambulantes, e “apertando” na fiscalização.

Convênio com restaurantes da orla, em Cabo Frio A proibição da confecção de alimentos na faixa de areia não eliminou de vez o peixe frito da vida dos freqüentadores da Praia do Forte. Numa jogada inteligente, os exquiosqueiros, agora instalados em tendas padronizadas que são colocadas pela manhã e retiradas no final do dia, fizeram uma parceria com diversos restaurantes da orla e servem as comidinhas aos banhistas. Ainda assim, os ambulantes reclamam das regras impostas pelo Termo de Ajuste de Conduta assinado entre a Prefeitura e o Ministério Público, como, por exemplo, a CIDADE, Janeiro de 2007

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HAMBER CARVALHO MARCOS AMORIM “Não há porque sermos retirados daqui. Essa cidade já não tem empregos”

Advogado das associações de quiosqueiros

Estamos aguardando a assinatura do TAC para darmos os próximos passos jurídicos

DANIEL DE DANNY “Aqui na Praia Grande tem muito quiosque feio e sujo” IVO FARIAS Presidente da Associação de Quiosqueiros de Geribá “Lei aplicada apenas para os quiosques”

fixação em apenas 25 o número de mesas instaladas na areia. É o caso de Guilherme Guerra, que não gostou da mudança das regras porque “na alta temporada esse número é muito pequeno. Estamos obrigando as pessoas que vêm à praia munidos de cadeiras e comida”. Na Praia das Conchas, a determinação para a derrubada dos dezesseis quiosques é definitiva, mas não para agora, o que vai permitir que os quiosqueiros trabalhem até março. Segundo o presidente da Associação dos Quiosqueiros, Ernani Gomes da Silva, a preparação do Plano Diretor da cidade adiou a assinatura do TAC que vai regulamentar o funcionamento da área. “A idéia inicial é funcionar como na Praia do Forte, mas com uma Praça de Alimentação, que será construída um pouco mais atrás, perto do estacionamento”.

Em Arraial, apenas recomendação de retirada

GUILHERME GUERRA - Praia do Forte “Estamos obrigando as pessoas que vêm à praia munidos de cadeiras e comida” JOSÉ FRANCISCO, o Chicão “Essa medida vai causar desemprego”

ERNANI GOMES DA SILVA “A idéia inicial é funcionar como na Praia do Forte, mas com uma Praça de Alimentação”

MAX VIERA “Existe um projeto de reurbanização da orla”

Os freqüentadores da Praínha, em Arraial do Cabo, ainda terão uma sobrevida maior de seu peixinho frito. O Ministério Público apenas recomendou a retirada dos quiosques, e a Prefeitura não pretende se envolver nessa questão, pois nas vezes em que tentou foi impedida pelo Poder Judiciário. Para o quiosqueiro Marcos Amorim, seu estabelecimento não invade área de preservação ambiental, presta um serviço para o turismo e gera empregos. “Não há porque sermos retirados daqui. Essa cidade já não tem empregos, a Álcalis fechou, e o turista gosta do serviço. Tem de ser visto também o lado social”, defende-se. Os quiosques da Praia Grande foram notificados pela Secretaria de Patrimônio da União para apresentarem sua documentação, mas ainda não ouviram falar em retirada ou mudança no funcionamento. Max Vieira, que trabalha no local há 24 anos, disse não ser contrário às mudanças, e está aguardando os acontecimentos.”Existe um projeto de reurbanização da orla, que deve levar os quiosques para o calçadão. O serviço na areia deve acabar por aqui”. A prefeitura de Arraial do Cabo, por seu lado, afirmou que não fará nenhuma ação de remoção ou demolição dos quiosques, por ser uma área da União, e não do município. Mas frisou que se o MP obtiver autorização judicial para a retirada, prestará todo o auxílio necessário.

A opinião dos freqüentadores A polêmica sobre a extinção da mordo-

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Turismo

Praia das Conchas - Cabo Frio

Praia de Geribá - Búzios Muros das mansões continuam sobre a areia

Prainha - Arraial do Cabo

Praia Grande - Arraial do Cabo

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mia do peixinho frito à beira-mar divide os freqüentadores das praias da Região dos Lagos. Para alguns as medidas são válidas para a preservação do meio ambiente mas, para outros, trata-se de uma grande bobagem, que só vai atrapalhar o turismo. É o caso do professor José Francisco de Moura, o Chicão, que, confortavelmente instalado na Praia das Conchas, afirmou ser contra a retirada dos quiosques. “Essa medida vai causar desemprego, porque muita gente vive disso. E não acho que tenha grande impacto sobre o meio ambiente”, acredita. Para o cantor e compositor Daniel de Danny, existem quiosques e quiosques, e enquanto alguns merecem continuar, outros deveriam ser retirados. “Aqui na Praia Grande tem muito quiosque feio e sujo, mas alguns prestam um serviço muito bom para a gente e para os turistas”. Já o vice-prefeito de Mendes, Reinaldo Medeiros, que participava de um encontro de fim de ano com seus companheiros de governo na Praia da Tartaruga, acredita que é melhor ficar tudo como está. “Estamos sendo bem atendidos e o meio ambiente está preservado.”

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JOGO FEITO

Está montado o quebra-cabeça político do estado do Rio de Janeiro. No dia 15 de dezembro o TRE - Tribunal Eleitoral Regional diplomou os 119 eleitos em uma cerimônia que durou pouco mais de duas horas.

Juliana Vieira Fotos Rafael Wallace local foi o plenário Barbosa Lima Sobrinho, palco das votações na Alerj Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro - e, mesmo com um pouco de atraso a cerimônia foi um misto de comemoração e reencontros.

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ALAIR CORRÊA O partido me tem como um reserva de luxo

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Rostos novos ou já conhecidos tinham uma coisa em comum: um entusiasmado discurso. O plenário e as galerias ficaram superlotados. Na primeira fila o governador eleito Sérgio Cabral acompanhado de sua esposa e de três dos seus cinco filhos, ao lado o vice-governador Luiz Fernando Pezão, e o senador eleito, Francisco Dornelles. Para surpresa dos diplomados a governadora Rosinha Matheus não esteve na

ALCEBÍADES SABINO Reconhecimento pela força política da região

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cerimônia e foi representada pelo seu vice Luis Paulo Conde. Através de chamada nominal o presidente do TRE, desembargador Roberto Wider, entregou o diploma a cada um dos eleitos. As Regiões dos Lagos e do Norte Fluminense estavam representadas pelos deputados estaduais Glauco Lopes (PSDB), Alcebíades Sabino (PSC), Crhistino Áureo (PSC), Paulo Melo (PMDB) e

GLAUCO LOPES Mais investimentos para os setores de petróleo e minas e energia


Política Alair Corrêa (PMDB). E também pelos deputados federais Silvio Lopes (PSDB) e Bernardo Ariston (PMDB), unânimes quando o assunto era o desenvolvimento das regiões com o próximo governo. Para o reeleito Bernardo Ariston, o estado do Rio terá a atenção que não teve nos últimos quatro anos. “A parceria do Cabral com o presidente Lula será positiva para o Rio, já que nos últimos quatro anos esteve de costas para nosso estado”, garantiu. Já Silvio Lopes, ex-prefeito de Macaé e eleito para a Câmara Federal pela segunda vez, defendeu um projeto de biodiesel na região. “ Penso que devemos ter uma contra-partida pela perda da construção do pólo petroquímico, isso poderia se dar com a implantação do projeto do biodiesel na região”, defendeu. Se há uma coisa em que todos os deputados estaduais diplomados concordam é que o novo governador será um conciliador e, com isso, quem sairá ganhando será a população fluminense. O tucano Glauco Lopes, reeleito para seu segundo mandato, é confiante em afirmar que a postura de Cabral em se relacionar bem com todos os partidos é uma atitude inteligente e surpreende ao anunciar que além do turismo, sua bandeira dentro da Alerj, também lutará por mais investimentos para os setores de petróleo e minas e energia. Outros são categóricos quando perguntados sobre a expectativa para o próximo mandato, o deputado estadual Paulo Melo, por exemplo, afirmou que não haverá mudanças em seu trabalho. “É um contrato renovado com a população e tenho que pagar com trabalho”. Para o ex-prefeito de Rio das Ostras, Alcebíades Sabino, a confiança no novo governo é ainda maior até porque ele será

PAULO MELO Contrato renovado com a população

o próximo secretário estadual de Trabalho. “Acho que o convite é um reconhecimento pela força política da região”, disse, ressaltando que mesmo não assumindo uma cadeira na Alerj mantém seu compromisso com a Região dos Lagos. Outro que aceitou o convite e que assumirá pela terceira vez a secretaria de estado de Agricultura é o macaense Crhistino Áureo. Segundo ele, com a geração de trabalho neste campo é possível chegar ao desenvolvimento econômico. Já Alair Corrêa, ex-prefeito de Cabo Frio, que volta à Alerj depois de 13 anos, se declarou feliz por iniciar seu sétimo mandato como homem público, contou também que se sente um garoto voltando à Alerj e com a possibilidade de complementar o mandato do filho, morto em um acidente de carro em abril de 2005. Alair também declarou que não pensa em presidir nenhuma Comissão na Assembléia e vai ainda mais longe afirmando que acha o número de Comissões existentes “exagerado”. Quando o assunto é a prefeitura de Cabo Frio, ele é determinante e ressalta que não dirá que desta água não beberá. “O partido e eu temos um compromisso de apoiar a reeleição do Marquinho Mendes, mas se lá na frente ele não estiver bem colocado entre a população de Cabo Frio eu não vejo problemas em me candidatar. O partido me tem como um reserva de luxo para entrar na disputa”.

Recados dados O presidente do TRE foi o único a fazer discurso durante a cerimônia e não poupou ninguém na hora de se dirigir aos eleitos. Wider cobrou dos políticos compromissos com o mandato e chegou a defender o fim da reeleição. Os eleitos apenas ouviram.

CRHISTINO ÁUREO Secretaria de Agricultura, pela terceira vez

Outro momento de “saia-justa” aconteceu quando os repórteres cobraram de Sérgio Cabral uma posição em relação ao aumento nos salários dos deputados. Com o reajuste, aprovado em Brasília, os deputados estaduais do Rio de Janeiro passam a ganhar R$ 18 mil, quase o dobro dos atuais R$ 9,6 mil. Politicamente falando, o governador eleito respondeu que como cidadão lamenta mas que como governador terá de cumprir.

O que muda em 2007 na Alerj Uma grande dúvida é quem será o presidente da Assembléia Legislativa a partir de 2007. Alguns nomes chegaram a ser cogitados, como o do próprio Jorge Picciani, que comanda a Casa Legislativa desde 2003. Outro nome cotado é do ex-prefeito de Duque de Caxias e recordista absoluto nas urnas com 204.880 votos, José Camilo Zito. Até mesmo no nome de Paulo Melo já foi colocado na lista dos presidenciáveis, porém o próprio Paulo Melo anunciou que uma coisa é certa, continua como o líder do Governo na Alerj.

PMDB será, de novo, a maior bancada na Alerj Assim como nesta última legislatura, o PMDB também será maioria na Alerj a partir de 2008. O partido elegeu 17 dos 70 deputados estaduais, quatro a menos que em 2002. Já as bancadas do PT, PFL e PSDB terão seis parlamentares cada. Com cinco representantes estarão o PDT e o PSC, em seguida vem o PSB com três eleitos. Na lista estão ainda o PMN, PAN, PPS, PL, PP e PHS, que conseguiram eleger dois deputados. Na lanterna estão os PTC, PSDC, PSOL, PRONA, PT do B, PSL, PV, PTB, PRB e PC do B com a eleição de um parlamentar.

BERNARDO ARISTON A parceria do Cabral com o presidente Lula será positiva para o Rio

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SILVIO LOPES Contra-partida pela perda do pólo petroquímico

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PRESERVAÇÃO X D


CAPA

ESENVOLVIMENTO A hora da decisão

PRAIA DO PERÓ

Cristiane Zotich recente destruição de um sambaqui na área do Loteamento Novo Portinho e da derrubada do muro que separava a área de outro, no Morro dos ìndios, mais a implantação do empreendimento Reserva Peró, fez nascer a discussão: é possível uma cidade progredir sem destruir seus arquivos históricos e o meio ambiente? Para Juarez Lopes, secretário de Meio Ambiente de Cabo Frio, é preciso acreditar que sim: “É inevitável o crescimento de uma cidade. Precisamos encontrar formas de reduzir o impacto ambiental.” Lopes conta que, numa recente reunião com os vereadores de Cabo Frio “me perguntaram sobre a verticalização da cidade, e eu disse ser contra, porque em várias cidades isso não deu certo. Por isso, hoje, exigimos que os novos empreendimentos, no mínimo, façam o tratamento do esgoto com resíduo zero”.

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Rosane Vargas, da secretaria de Planejamento de Cabo Frio, uma das responsáveis pelo Plano Diretor da cidade, revela que este é um dos assuntos principais do documento: amparar a questão ambiental e dar condições para que o município cresça sem causar impactos. Mesmo quando o assunto é a preservação arqueológica, o discurso é o da preservação, mesmo que na prática, o resultado seja outro. “No caso do Novo Portinho, os empresários desconheciam a existência do sambaqui. Por isso houve a destruição. Cabo Frio tem alguns sambaquis cadastrados pelo Inepac e pelo Iphan, que constam do Plano Diretor. Mas os mais recentes não são cadastrados. Este era o caso do Loteamento Novo Portinho”. Rosane Vargas lembra que o fato de ser descoberto um sambaqui numa determinada área não impede que esta área seja edificada. “É possível aliar crescimento com preservação arqueológica. Quando se constata que houve depredação, salva-se o material, que é encaminhado ao Museu Nacional. Mas a área não fica fechada para as construções. Foi o que houve no Novo Portinho. Sendo que neste caso apenas o Iphan sabia da existência do sambaqui. Em nenhum momento eles comunicaram a existência deste sítio arqueológico. O que não é o caso do Peró, por exemplo. Existe projeto da construção de um hotel no local, e um estudo arqueológico já comprovou a existência de dois sambaquis nas extremidades da área. Desta maneira, a preservação está sendo providenciada, e todo o restante da área poderá ser edificada”.

Sambaquis no Plano Diretor

Cansado de ouvir os mesmos discursos, o arqueólogo Geraldo Monteiro está de malas prontas para partir para o Maranhão: “Rio das Ostras tem um sambaqui no centro da cidade e o transformou em museu. Saquarema também. Araruama descobriu um sítio no pátio de uma escola e tudo se transformou numa oca indígena. Cabo Frio, enquanto isso, não tem esta mentalidade. Aqui tudo se perde. O Morro dos Índios é o mais antigo sambaqui da Região dos Lagos. No entanto, está abandonado. A Casa dos 500 Anos, que não tem nenhum contexto histórico (não está provado que a feitoria de Américo Vespúcio foi em Cabo Frio) recebe investimentos da prefeitura que poderiam ser empregados no resgate dos sambaquis. A Fazenda Campos Novos, que também possui uma história rica, foi transformada em canil público depois de tombada. A decepção é muito grande com o descaso”.

Marconi Castro

Decepção e despedida

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É com toda a veemênc atuar dos órgãos que d

EDUARDO QUEIROZ Diretor da Magnus

Ambientalistas paralisaram Cabo Frio

O construtor Eduardo Queiroz acusa defensores de meio ambiente de autoritarismo e de engessar toda a cidade

Marco Antonio de Carvalho / Fotos Marconi Castro duardo Queiroz é diretor da Magnus, construtora criada em 1980, com sede em Cabo Frio e cerca de quarenta edifícios erigidos na cidade. Mineiro de Belo Horizonte, administrador de empresas, freqüenta a região desde menino. É ainda presidente da associação que reúne os construtores, “uma entidade volátil”, sem endereço próprio, que só se reúne “quando surge algum problema” para os associados. E, nos últimos anos, o problema tem sido um só, na visão do empresário: a interferência, muitas vezes extravagante, de órgãos de defesa do meio ambiente no setor da construção. A mais recente foi a quase desconhecida Delegacia do Meio Ambiente estadual, que intimou alguns construtores a se apresentar no Rio de Janeiro e abriram inquérito policial porque alguns

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deles estariam construindo em áreas proibidas. “Tiram da cartola uma lei que nem as prefeituras conhecem, esses negócios meio malucos aparecem a toda hora, criam regras absurdas”. Essa situação é recente, apareceu há coisa de cinco anos, lembra Queiroz. Se Cabo Frio tem a pré-história dos sambaquis, tão citada hoje, “há vinte anos também tinha. O que está acontecendo é que os ambientalistas perderam os parâmetros. São capazes de imaginar que em um determinado local tem um sambaqui, numa área de mil metros, e mandam isolar uma área dez vezes, cem vezes maior”. Mas esse não é um problema de Cabo Frio, diz Queiroz: é nacional, e “o fato é que as obras estão paradas no Brasil inteiro.” Ele, porém, ressalva: “Acho até que se poderia paralisar um país, mas por um CIDADE, Janeiro de 2007

motivo concreto, porque há realmente alguma coisa, alguma descoberta de um sítio arqueológico”. Não é assim que ocorre. Exemplo: na praia do Forte existe uma área onde “havia um projeto para a construção de um hotel, num local onde certamente tem um sambaqui”. O projeto, afirma Queiroz, cercava, protegia o sambaqui, o hotel construiria um acesso ao sítio arqueológico, que se transformaria num ponto turístico. “Eu moro aqui há trinta anos e não sei o que é um sambaqui, nunca vi um sambaqui a céu aberto. Sei o que é de ler, de ver fotografias, sei o que tem, mas nunca fui convidado a visitar um sambaqui. Ora, o construtor fez o projeto, conseguiu aprovar tudo, mas quando a obra foi iniciada meia dúzia de ecologistas começaram a fazer barulho, a pichar tapume, os políticos apareceram, e é nessa hora que surge um monte de malucos para bater palmas. Resultado: o negócio foi abandonado, tem um monte de casebres em cima do sambaqui, e hoje aquele lugar lindíssimo é perigoso de se visitar”.

A cidade está engessada O governo Benedita da Silva criou uma faixa imensa na cidade, a APA do Pau-Brasil, e com isso “Cabo Frio não tem mais para onde crescer”, lembra Queiroz. “Para complicar as coisas, a reserva florestal não tem regulamentação”, o que gera interpretações de todos os gêneros. A outra opção de crescimento para a cidade é a saída para Macaé, mas “a comparação que eu faço é que quando você está sobrevoando Las Vegas, primeiro passa por casinhas que são verdadeiras favelas, não a Las Vegas que a gente conhece, de avenidas largas, iluminadas”. Cabo Frio segue nessa direção, diz Queiroz, e não tem para onde crescer. Tudo ficou difícil para o construtor, afirma ele, tanto que, apesar de construir apenas no centro da cidade “tenho antes que aprovar meus projetos na Feema, o que é um absurdo: o lote é urbano, foi aprovado como lote urbano”. Ainda assim, Queiroz tenta entender o legislador, que talvez estivesse olhando para a Barra da Tijuca, no Rio, “onde pegam milhões de metros quadrados e implantam uma pequena cidade.


CAPA

ncia que afirmo que existe algo de muito autoritário no modo de e defendem o meio ambiente, há uma cultura do autoritarismo Lá sim, há porque uma interferência da Feema”, não em lotes urbanos em Cabo Frio. O resultado é que construtores e ambientalistas se olham à distância: “A gente fica com um pé atrás, pensando que eles podem sacar uma lei de uma hora para outra e embargar todo um trabalho”. A praia do Forte, por exemplo, “é tombada pelo Patrimônio Histórico, e a resolução diz que toda a área em torno da praia, numa faixa de duzentos metros, tem que passar por uma aprovação antes que alguém construa. De repente, começaram a exigir que a lei fosse cumprida depois da situação instalada, chegam a falar em derrubar edifícios. É preciso um mínimo de bom senso”. Ninguém é contra a preservação, ressalva Queiroz, “mas é preciso tomar cuidado para não paralisar a cidade. Levam anos para aprovar um projeto, os ambientalistas também não se entendem. Era evidente que a cidade ia crescer em direção ao Peró, mas seria um crescimento ordenado. Com a APA o crescimento continua, mas de forma desordenada”.

O autoritarismo dos ambientalistas Como fazem países que têm uma história (e uma pré-história) a preservar, como o Egito e grande parte da Europa? “Tenho um amigo que constrói na Espanha”, conta Queiroz, “cuja especialidade é a recuperação de casas seculares, em pedra. Lá é simples: ele abre um mapa onde está assinalado onde se pode e onde não se pode construir”. Aqui, no entanto, “nosso problema é que pode aparecer alguém no meio da sua construção e dizer: ‘Pára, acho que aqui tem alguma coisa’. Basta o achismo de um funcionário do Iphan para que toda uma obra seja embargada”. Assim, “é com toda a veemência que afirmo que existe algo de muito autoritário no modo de atuar dos órgãos que defendem o meio ambiente, há uma cultura do autoritarismo”. Este, na visão de Queiroz, é o problema: não existe outro. Ele, no entanto, insiste que não vê má-fé na atuação dos ambientalistas, “acho que é mais por ideal, eles acreditam que estão fazendo o melhor. Mas isso não desculpa nada”.

Tempos diferentes Para o Superintendente Regional do 6º SR do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Carlos Fernando Andrade, é possível conciliar crescimento econômico com preservação. No entanto, isso não é tarefa fácil. “Existe uma diferença de tempo entre o dinheiro e a preservação. O desenvolvimento exige respostas rápidas, e a preservação depende de um tempo, para que sejam realizadas as pesquisas, análises, salvamentos. Tudo isso leva tempo, e aí acontece o primeiro conflito.” Segundo Andrade, esse tempo de análise é fundamental “porque o poder público, se errar, erra em proporções planetárias, afetando a vida de milhares de pessoas. Já o empresário não precisa de tantos cuidados, pois suas decisões só afetam o âmbito de sua empresa”.

“O empresário vende o que o IPHAN preserva” Na visão de Andrade, que veio a Cabo Frio e Búzios para reuniões com as autoridades locais em busca de diálogo, empresários e órgãos ambientais deveriam pensar como sócios do mesmo negócio. “O empresário vende o que preservamos. Não haverá Turismo, sem preservação ambiental e histórica”, afirma. Outro problema com relação à questão da preservação, segundo ele, é a falta de educação patrimonial: “Estamos acostumados a lidar apenas com as questões de preservação ambiental, com muitas palestras, cursos, e ações. Precisamos começar a tratar o patrimônio, que não pertence a nós, mas sim às gerações futuras, da mesma maneira. A educação patrimonial é fundamental para o conhecimento, não apenas das obras e locais que precisam ser preservados mas também, e principalmente, da legislação que protege esses bens”.

CARLOS FERNANDO ANDRADE Superintendente Regional do 6º SR do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)

CIDADE, Janeiro de 2007

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Acervo do Museu de Arte Religiosa e Tradicional

Marconi Castro

Cultura

Turismo cultural tem atrativos na região Octávio Perelló enos conhecidos do que as praias, raramente contemplados pelos interesses midiáticos, os museus da Região dos Lagos remontam a história, a arte, a arquitetura, a arqueologia e a oceanografia em seus acervos. Ícone da presença das ordens religiosas na região, o Museu de Arte Religiosa e Tradicional, inaugurado em 1982 nas dependências do Convento Nossa Senhora dos Anjos, em Cabo Frio, impõe-se pela importância e localização estratégica. Tombado em 1957, o prédio, edificado no sopé do Morro da Guia, em 1686, é um imponente monumento da arquitetura franciscana que, além do museu, abriga o escritório técnico do IPHAN. Em seu interior, olhos curiosos passei-

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am pelo acervo permanente constituído por conjunto de imagens em terracota e madeira policromada dos séculos XVII e XVIII, atualmente com o respeitável índice de 90% de restauração. Através de doações, vem formando o núcleo de biblioteca e arquivo que gravita em torno da pesquisa das ordens religiosas na Região dos Lagos, que se inicia pelos franciscanos e se estende com os beneditinos. A igreja conventual, onde os frades exerciam a fé e o canto em louvor, é por si só uma relíquia a ser visitada. Embora pequena, sua nave é conhecida como o melhor palco que por diversas vezes abrigou o Festival de Corais realizado anualmente em Cabo Frio. De acordo com sua diretora, Dolores Brandão, o museu é identificado como instituição incentivadora e acolhedora de diversas manifestações culturais. Músicos e artistas plásticos têm em seus currículos CIDADE, Janeiro de 2007

exposições em seu espaço. Promove atividades de educação patrimonial para escolas públicas e particulares do primeiro ao terceiro graus, cursos de patrimônio cultural dirigido a professores de nível médio e intermediário, e a profissionais das áreas de turismo e cultura, além de incentivar a formação de platéia jovem para concertos musicais. Para 2007, a diretora projeta novos desdobramentos do intercâmbio cultural promovido pelo museu, nos moldes da parceria realizada com a cidade de Porto Alegre (RS), através da UFRS e do Centro Educacional Pastor Dohms que trouxe a região o Octeto de Violões da UFRS e levou a Orquestra de Cavaquinho de Cabo Frio, do maestro Ângelo Budega, a cinco cidades do Rio Grande do Sul. A expectativa é de que em julho os músicos se apresentem na cidade de Viamão / RS.


Marconi Castro

PapiPress

Roteiro conta ainda com espaços culturais O turismo cultural conta ainda com outros espaços. Em Cabo Frio, a Charitas, antigo abrigo de crianças órfãs e que foi quartel militar e biblioteca e hoje abriga a secretaria de Cultura, é uma das mais importantes construções do século XIX. O local, além de eventos, abriga parte do Espaço Cultural em Cabo Frio acervo do Museu José de Dome, pintor baiano que viveu e morreu na cidade. Cabo Frio conta ainda com o Espaço Cultural, onde se concentram as artes plásticas e o artesanato local, a Biblioteca Municipal, em belo e inadequado solar às margens do Canal do Itajuru, e o Forte São Matheus. A memória da cidade, que inspirou fotógrafos, pesquisadores e escritores em Cabo Frio, chega agora em formato inusitado. A pesquisadora Penha Leite abriu as portas de sua casa ao público com a exposição Chão Bento, uma reunião de fotos sobre a origem e transformação urbana do bairro São Bento. Fortalecendo o roteiro cultural, ainda no bairro São Bento, o Instituto Carlos Scliar, inaugurado na casa em que o pintor morou, é uma oportunidade rara de conhecer a vida e a obra do pintor, de outros artistas, como também do projeto oficina-ateliê. Para fechar o roteiro, ainda que incompleto, uma dica de destino mágico: a Casa da Flor, insólita residência do salineiro Gabriel dos Santos, que a construiu com cacos que recolhia em seu trajeto pelas salinas e matas de São Pedro da Aldeia e Cabo Frio. A arquitetura, espontânea, é frequentemente comparada à obra de Gaudí.

Demais instituições também guardam relíquias O roteiro pelos museus da região passa ainda por instituições como o Museu Oceanográfico da Marinha (Instituto Almirante Paulo Moreira), em Arraial do Cabo, criado em 1982, que tem em seu acervo cerca de 200 espécies de organismos vivos e embalsamados, aquário de 27 mil litros, além de 500 peças de naufrágios. Segundo o comandante Wladimir Gonzalez, o Museu Oceanográfico da Marinha é um projeto único na região e funciona como um centro de excelência em pesquisas do mar. Muito visitado em todos esses anos pelo público estudantil, ajudou a formar gerações de profissionais ligados à biologia marinha e oceanografia. Sua origem data do ano anterior à sua inauguração, a partir de uma ocorrência típica: o encalhe e morte de uma orca na Ilha do Cabo, e o posterior recolhimento de seus ossos para pesquisa e exposição no museu.

Arqueologia O Museu de Arqueologia de Saquarema tem como destaque a sua característica de museu ao ar livre, delimitado em área de sambaqui do município, abrigando o tra-

balho de pesquisa da arqueóloga Lina Kneipp, uma reconhecida desbravadora das pesquisas arqueológicas na região, com preciosa contribuição científica ao estudo e identificação de sítios arqueológicos. O visitante se encanta com projeto tão simples e grandioso, e tão característico da história dos primeiros habitantes, ao topar com as cercas e construções de madeira sobre área de restinga, reconhecidamente de interesse arqueológico. Inaugurado em abril do ano passado, o Museu de Arqueologia de Araruama é um imponente projeto de reconstituição da presença tupinambá na região. Instalado na antiga Fazenda Aurora, em área de comprovada importância arqueológica, tombada pelo Inepac (Instituto Estadual do Patrimônio Cultural), dispõe de um acervo de painéis e fotografias relacionadas à arqueologia do município, enquanto aguarda a finalização da restauração total da área para acolher o acervo sob guarda do Museu Nacional. O prédio neoclássico, construído no século XIX, é considerado o único solar cafeeiro da Região dos Lagos. Na área construída, que compreende o solar, o engenho e a senzala, funciona uma escola municipal em período integral, atendendo da pré-esCIDADE, Janeiro de 2007

cola a 8ª série, e instalações de auditório e espaço para exposições. Segundo o secretário de Cultura, Ricardo Adriano, o museu promove ações integradas com outras escolas da rede pública municipal, como a Escola Municipal Honorino Coutinho, construída sobre um cemitério indígena incrustado na mata de Morro Grande, fomentando atividades voltadas para o trabalho de pesquisa arqueológica e educação ambiental. No pátio da escola foi construído uma cópia de oca tupinambá e há ainda o enterramento aparente de um sambaqui, utilizados para a educação sobre a história indígena. O Museu Casa de Casemiro de Abreu, no município homônimo, guarda a memória do poeta nascido no município. Construído na casa onde teria vivido o poeta, o museu dispõe de acervo bibliográfico e demais curiosidades sobre a sua trajetória. Atualmente em obras de restauração, a construção, tombada pelo Inepac, é um exemplar da arquitetura colonial do município, aguardado pelo público interessado em conhecer as riquezas culturais ocultadas pela cultura praiana que resiste em constatar que há mais coisas sob o sol do que as areias escaldantes. 35


Filmers 9900 / Gonzalo

Gente

Filmers 9900 / Marcelo

Colaboração: Ângela Barroso e Octávio Perelló

Pela cachaça Rubem Braga dizia que o Brasil é o único país que tem vergonha de sua bebida típica. Cassiano e Neuza Gouveia não pensam assim e criaram o Bebentuário, em Búzios, onde reúnem vários barris de carvalho cheios da cachaça que trazem da histórica e paulista Santana de Parnaíba. A cachaça é criação da tia Mabuzzy, homenageada pelo casal, que costuma receber turistas que buscam conhecer uma branquinha de dezoito anos, envelhecida nos tonéis.

Me Gusta Sandra e Marcos Sodré, proprietários do restaurante Sawasdee, felizes pelo primeiro lugar conquistado no Festival Gastronômico, Me Gusta Búzios.

Marconi Castro

A Tribal acontece Há três anos a Associação Cultural Tributo à Arte e à Liberdade (Tribal) vem mexendo com a vida cultural de Cabo Frio. Composto por jovens artistas da cidade, começou com seus encontros artísticos realizados em bares e restaurantes. Em 2005, a Tribal movimentou a área artística, saindo à praça e contestando o poder cultural cabo-friense. Com os seus criadores realizou nove sessões das Noites Culturais no Teatro Municipal, evento multi-cultural onde desfilam vários artistas da região, além de participar do Festival de Esquetes, Tempo de Espera e Bonecarte. Desenvolve também o Ciclo de Leitura. O Cine Tribal, outra criação do grupo, é a mostra de curta-metragens de autores locais, nacionais e internacionais, que estreou no Villa Café e realizou as suas duas últimas sessões na Casa dos 500 anos. 36

CIDADE, Janeiro de 2007


IPHAN seleciona bolsistas Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN – estará realizando processo seletivo para o preenchimento de vagas de bolsistas integrantes do Programa de Especialização em Patrimônio - PEP - do IPHAN para o exercício de 2007 mediante as condições estabelecidas em Edital público. O escritório de Cabo Frio vai selecionar um arquiteto para trabalhar nos projetos locais e dará preferência a moradores da região. Serão selecionados profissionais recém-graduados em diversas áreas de formação, em diferentes unidades da federação, para sua especialização no campo da preservação do patrimônio cultural durante um ano, subsidiados com bolsas de estudo. São considerados recém-graduados, para efeito do Edital, aqueles candidatos com no máximo cinco anos de formados, tendo concluído o curso superior em dezembro de 2001 ou nos anos seguintes.

O

Os candidatos selecionados serão treinados por meio da participação supervisionada nas atividades cotidianas do IPHAN e do desenvolvimento de estudos de casos, pesquisas e projetos, sempre relacionados a temáticas do trabalho institucional.

Quem pode se candidatar Poderão se candidatar cidadãos brasileiros que concluíram curso superior na área exigida, de 2001 em diante que não tenham usufruído anteriormente de bolsa do governo brasileiro para a mesma finalidade. As inscrições no Programa são individuais e devem obedecer às áreas de formação e à distribuição territorial. Antes da realização da inscrição, o Iphan recomenda que sejam observadas as atividades propostas para o Programa por cada unidade do Instituto. Os candidatos só poderão se inscrever em uma unidade do IPHAN, até o dia 16 de janeiro de 2007.

CIDADE, Janeiro de 2007

A duração da bolsa é de 12 meses, com inicio no dia 1º de março de 2007, podendo ser renovada por igual período, desde que o bolsista tenha avaliação de desempenho positiva e de modo que a duração total não ultrapasse 24 meses, dependendo da disponibilidade de recursos. A bolsa consistirá em parcelas mensais no valor de R$855,00 (oitocentos e cinqüenta e cinco reais) a serem creditadas em conta bancária exclusiva do beneficiado. Os candidatos poderão obter esclarecimentos adicionais que julgarem necessários com o IPHAN, junto à COPEDOC, pelo correio eletrônico copedoc@iphan.gov.br ou por correspondência endereçada ao Iphan:— COPEDOC/PEP, Palácio Gustavo Capanema, Rua da Imprensa 16/808, Centro. CEP 20.030-120, Rio de Janeiro – RJ. Telefones de contato: (21) 2220-4646, Ramal 222 e (21) 2220-0156.

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Onda amarela na Praia das Conchas Cabo Frio

IRRESISTÍVEL Conquistadora

Marcelo Sanches Fotos Marconi Castro

Com um estilo inovador na conquista dos clientes, estrutura, tecnologia de vendas e eficiência no atendimento e entrega dos produtos, a Distribuidora de Bebidas Marbela conquistou o mercado em quatro anos de operações atendendo a 13 municípios 38

CIDADE, Janeiro de 2007


Região quase impossível resistir aos apelos da Marbela. Com experiência de 20 anos atuando no mercado de distribuição de bebidas, e uma política de vendas que mistura profissionalismo, cordialidade, tecnologia e muita estrutura para atender às reais necessidades do cliente, a Distribuidora, que iniciou suas operações na região em 2003, avançou sobre o mercado, e hoje atende a 13 municípios, a partir de São Pedro da Aldeia: Saquarema, Araruama, Iguaba, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, Casimiro de Abreu, Rio das ostras, Macaé, Conceição de Macabu, Carapebus, Quissamã, Arraial do Cabo e Búzios. A localização é um ponto importante na estratégia da empresa, que optou por São Pedro, por causa disso. “Estar no centro da nossa área de abrangência facilita muito a operação, para nós e também para as pessoas que querem trabalhar conosco. Hoje temos funcionários de diversos municípios, pela facilidade de se chegar até aqui. Além disso, fomos muito bem recebidos em São Pedro” explica José Guimarães Correa Júnior, sócio da empresa, que emprega 264 funcionários, e possui uma frota de 38 caminhões pesados, 12 carros de apoio e 3 motocicletas.

É

Capacitação Sessenta e dois vendedores percorrem a região diariamente, fazendo a reposição dos produtos e angariando novos clientes. Mas, para integrar esse time, os interessados precisam passar por um rigoroso exame de seleção. Se aprovados, terão ainda que cumprir um estágio de uma semana dentro da empresa , onde conhecem todos os procedimentos operacionais e, só depois disso, poderão ir para as ruas. O treinamento é uma constante e faz parte do dia a dia da Marbela. Diariamente os vendedores recebem instruções antes de saírem para o trabalho externo. Uma vez por ano, passam por treinamento diretamente na Ambev. Além disso, os treinamentos, através de canal fechado, acontecem semanalmente, com simulação de vendas. A Distribuidora proporciona, ainda, treinamento para os clientes, através de canal fechado, da Ambev.

Tecnologia Na busca da qualidade e eficiência no atendimento, a Marbela investe em tecnologia. Toda a equipe de vendas, supervisores e gerentes possuem rádio de comunicação e podem falar entre si , e também

com os clientes, a qualquer momento, de qualquer parte da região. Para os vendedores, um luxo a mais: todos trabalham com Palm Top o que possibilita fazer a descarga remota dos pedidos, representando mais agilidade no atendimento. Para completar, um moderno sistema computadorizado de roteirização, o Root Show, realiza a distribuição inteligente dos produtos pedidos, facilitando ainda mais a entrega.

Parceria com funcionários Nada é por acaso. Benete Bonifácio Reis de Oliveira, sócio de Júnior, define de forma simples o sucesso da empresa: “só é possível porque se tem gente boa do lado”. A referência é para os funcionários e, ao percorrer os corredores da Marbela, podese entender o por quê. “É difícil uma empresa como a Marbela por aqui”. A afirmação espontânea é da recepcionista Elizângela dos Santos Moura, que trabalha há quatro anos na empresa, dois como telefonista. “A empresa é humana com os funcionários”, diz. Para Leonardo Leal, gerente comercial, “o relacionamento é o principal diferencial da Marbela”. O espírito, é comum entre os funcionários, Flavio Evangelista, três anos de casa, Líder da área de Operações, Puxada e Armazém, endossa as palavras do colega: “A empresa dá oportunidade para a gente fazer o trabalho. A principal diferença e a liberdade de ação” Outro que está satisfeito é Wagner Guimarães de Oliveira, o Waguinho, primeiro vendedor admitido, com matrícula número 001. Waguinho chegou antes mesmo da instalação completa da empresa, e ficou. “O que mais me agrada é o relacionamento da diretoria com os funcionários. Na maioria das empresas isso é uma coisa distante. Aqui é diferente, todos os diretores estão muito próximos da gente.” “Acreditamos que uma política de investimento no pessoal gera satisfação, que é repassada para o cliente”, diz Júnior, que investe também na parceria com os clientes, usando da mesma sensibilidade. Assim, a região vai sendo revestida com as cores da Marbela, representadas pelas logomarcas das cervejas Skol, Antártica, Bohemia e Original.

Projetos personalizados Um marketing de resultados, que privilegia a necessidade do cliente, tem proporcionado efeitos de surpreendente bom gosCIDADE, Janeiro de 2007

José Guimarães Correa Júnior

muito bem recebidos “emFomos São Pedro ”

Benete Bonifácio Reis de Oliveira

Só é possível porque se tem “gente boa do lado ”

Quiosque do Tadeu Toldos personalizados

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Região

Tadeu Santiago Rocha, quiosqueiro

“ Pontualidade na entrega ”

Wagner Guimaraes de Oliveira

Todos os diretores estão “muito próximos da gente ”

to e funcionalidade, além de ótimo aproveitamento visual para a marca patrocinadora. Assim nasceu o primeiro ponto de venda exclusivo Bohemia, o Made in Brazil, num dos pontos mais tradicionais de Cabo Frio, o bairro da Passagem. “Ali fizemos um trabalho diferenciado, para atender a um segmento mais elitizado”, explica Júnior, que aplica a mesma política também aos demais segmentos. Na Praia das Palmeiras o popular Quiosque do Tadeu ganhou toldos transparentes, integrados ao desenho do seu quiosque e ao Meio Ambiente, com a marca da ”boa” Antártica. Tadeu Santiago Rocha, o proprietário, afirma ter fechado exclusividade com a Marbela por causa da atenção que recebeu da Distribuidora. “Um dia me mandaram umas mesas e cadeiras, sem me pedir nada”, diz. Hoje seu quiosque ostenta as cores da Cerveja Antártica, ganhou toldos personalizados, geladeira, mais mesas e cadeiras, e Tadeu não quer saber de vender outras marcas. Defende as cores da Marbela “pela pontualidade na entrega, mas principalmente pelo atendimento”.

Verão com cerveja A região dos Lagos pode dormir tranqüila, pois não vai faltar cerveja no verão. Um esquema especial já está funcionando para atender à demanda excedente. Mais 60 pessoas foram contratadas para o trabalho de carga e descarga e já está funcionando um sistema de atendimento com vendedores noturnos nas cidades de Cabo Frio e Búzios.

Em pé da esquerda para direita: Halice (Gerente Antarctica), Raul (Chefe de OBZ), Mônica (Supervisora de RH), Flávio (Líder do setor operacional), Walas (Técnico de Informatica), Leonardo (Gerente Comercial), Irlan (Gerente Financeiro). E baixo: Guedes (Gerente de Vendas Macaé), Edinaldo (Gerente Skol), Nilson (Contabilidade)

Responsabilidade Social Leonardo Leal

O relacionamento é o principal “diferencial da Marbela ”

Elizângela dos Santos Moura

“A empresa é humana” 40

Bater metas parece ser a vocação da Marbela. Em 2003, por iniciativa do supervisor Fonseca, os funcionários iniciaram uma campanha de responsabilidade social com o intuito de arrecadar alimentos para distribuição nas comunidades carentes, dentro da área de abrangência da Distribuidora. A iniciativa, incorporou o espírito da Marbela e, ano a ano, as metas estabelecidas são batidas com folga. Em 2003 a meta era arrecadar 500 kg de alimentos. A equipe conseguiu entregar 600. Em 2004 a meta foi dobrada: 1000 kg. Foram entregues 1200 kg . Em 2005 mais uma meta desafiadora, de 1500 kg. Foram arrecadados 1600. Em 2006, outro desafio: arrecadar 2000 kg de alimentos. No dia 23 de dezembro, uma carreata fez a entrega de 2.400 kg nas áreas carentes de São Pedro ( Boqueirão, CIDADE, Janeiro de 2007

Poço Fundo e Lixão do Alecrim). Ao mesmo tempo, em Macaé, mais 1.300 kg foram entregues no bairro de Aroeira, totalizando 3.700 kg de alimentos, que beneficiaram aproximadamente 250 famílias. 85% acima da meta estabelecida. Segundo Fonseca, idealizador e coordenador do projeto, “O grande sucesso


OPINIÃO

Ernesto Lindgren

Pedra sobre pedra e as cidades falassem, Haifa, em Israel, diria a Cabo Frio: “Eu sou você daqui a três mil anos: pedra sobre pedra, areia, conchas e sambaquis”. O que continua a ser chamado de Parque Ecológico de Marapendi, na Barra da Tijuca, já é pedra sobre carcaças de caranguejos e sambaquis. Adiante dele, o Parque Ecológico Chico Mendes é uma selva de pedra, e manter o nome é uma ironia. Marapendi foi área militar, as placas visíveis para quem se dirigia à Sepetiba. O que se chama de Praia do Foguete, em Cabo Frio, também foi área militar. Loteada, foi sendo vendida ao longo dos últimos 30 anos. Hoje é pedra sobre pedra, areia, conchas e sambaquis. Uma cidade é a manifestação espontânea da propriedade inerente a todos os seres vivos, a de se organizar, e tentar impedir que se manifeste quando se trata de humanos conduz à situação como a que ocorreu na audiência pública sobre a Reserva do Peró: depois de mais de cinco horas de debates, retornou-se ao ponto de partida. Não se sabe o que fazer e não se especifica a política e a estratégia que todos concordam ser imperativo existir. A associação entre população e território não é ordenada, mas condicionada à minimização das distâncias, do que resulta uma estrutura circular. Isso se evidencia em exemplos como os mostrados nas figuras, uma de aldeia de nativos brasileiros na Amazônia e a outra dos vestígios de aldeia no Monte Sinai e que existiu há mais de cinco mil anos. Essa estrutura se manifesta em Cabo Frio onde em torno dos bairros de São Cristóvão e Jardim Caiçara se dispõem os demais, os dois bairros tendendo a se tornar os locais de concentração de atividades econômicas. Essa tendência é inexorável, ao poder púbico cabendo a tarefa de impor a ordem desejada.

S

Grupo de Líderes é afinado e tem alto grau de capacitação em suas áreas Primeiro ponto Bohemia de Cabo Frio: marketing de soluções personalizadas

desta campanha é atribuído a intensa emoção que cada um de nós sentimos no momento em que entregamos diretamente a cesta nas mãos das pessoas necessitadas, que retribuem imediatamente com lágrimas e sorrisos, nos dando a certeza que temos que continuar com este projeto por toda nossa vida”.

CIDADE, Janeiro de 2007

Numa cidade os principais agentes que interferem na estrutura interna são o poder público e o gestor imobiliário. Este nada mais é do que um intermediário, um facilitador da manifestação daquela propriedade inerente ao ser humano. Responsabilizá-lo pela maneira desordenada como um território é ocupado transfere a ele uma atribuição que é exclusiva do poder público. Nada consegue impedir a manifestação de uma idéia cujo tempo chegou, inclusive nas cidades. O que aconteceu nos parques na Barra da Tijuca se

repetirá em Cabo Frio. Havendo a necessidade imperativa de uma política pública que preserve e proteja os sambaquis, que seja ela concisa e objetiva. Comentar sobre o assunto sem apresentar sugestões é perder tempo. Portanto, sem maiores considerações, seguem-se duas. 1) Política: o Poder Público preservará os sambaquis. 2) Estratégia: o responsável pelo empreendimento comercial na Reserva do Peró deverá isolar os sambaquis usando meios adequados, colocando as áreas à disposição de especialistas, para estudos, e ao público, para visitação.

ERNESTO LINDGREN Sociólogo urbano 41


Desenvolvimento

Plano Diretor A PRESSA É AMIGA DA CONSTRUÇÃO Assim como em Búzios, o Plano Diretor de Cabo Frio também deixou a questão ambiental de lado Cristiane Zotich esde que foi aprovado, no dia 21 de novembro, o Plano Diretor de Cabo Frio tem gerado polêmicas. Um grupo de vereadores, ambientalistas, e até membros do governo, denunciam que o documento é omisso no que se refere às questões ambientais. Afirmam que o Plano é um documento “genérico”, e que pode ser aplicado em qualquer cidade porque não trata, exclusivamente, das questões de Cabo Frio. Segundo o vereador Janio Mendes, o Plano foi aprovado às pressas. “Quando o Plano chegou na Câmara, queriam votar no mesmo dia, mas fui ao Ministério Público”, lembra Mendes, “coloquei a questão ao promotor Murilo Bustamante, que disse ao Acyr Rocha, presidente da Câmara, que o prazo administrativo de 60 dias tinha que ser respeitado”. Este prazo terminaria no dia 6 de dezembro. “Mas foi marcada uma audiência pública para o dia 23 de novembro, sobre a APA do Pau Brasil, então a votação foi antecipada para o dia 21. Junto votaram uma alteração na Lei de Uso do Solo específica para a área de construção do Club Med, no Peró, em regime de urgência”, conta Mendes. O Club Med tem inauguração prevista para setembro de 2008. Com investimento de 46 milhões de reais, o hotel começará a ser construído pela Agenco em breve. Assim como os outros hotéis da rede francesa, serão 352 apartamentos de alto luxo e todos com vista para a praia, uma das mais bonitas de Cabo Frio. O resort ficará numa área de proteção ambiental, a APA do Pau

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Brasil. A permissão para isso, segundo Janio, “aconteceu a partir desta alteração feita, em regime de urgência, num dos pontos da Lei de Uso do Solo”.

Um Plano ainda pior Segundo o vereador, “o atual Plano Diretor consegue ser pior do que o anterior”, já que antes existia previsão de áreas ambientais, havia delimitação das áreas de interesse ecológico. “Esse é excessivamente genérico. Se tirarmos o nome de Cabo Frio do documento, ele funciona para qualquer cidade. O Plano não trata das características da cidade. O objetivo foi fazer leis sem amarras, sem ordenamento do Uso do Solo, que teve o dedo do secretário de Governo, Carlos Victor da Rocha Mendes, que tem se apresentado como avalista do Club Med”, acusa Janio. Juarez Lopes, secretário de Meio Ambiente de Cabo Frio, também apontou falhas no Plano Diretor no que diz respeito à pasta. Entre os assuntos “pouco abordados”, segundo ele, estão o saneamento e preservação ambiental. “Faltou definir a infra-estrutura da cidade. Como sou sanitarista, não consigo fazer esta separação. O Plano induz a cidade ao crescimento, mas não induz ao investimento em infra-estrutura”. Para Lopes, houve um cuidado na assinatura de um Protocolo de Intenções entre alguns segmentos, prevendo investimentos de 50 milhões de reais na cidade. Mas alguns pontos importantes não foram abordados. “Ele não trata das áreas ambientais, CIDADE, Janeiro de 2007

Divulgação

LUIS FIRMINO PEREIRA secretário executivo do Consórcio Intermunicipal Lago São João

esperança é a criação “doMinha Código Ambiental ”


Ernesto Galiotto

embora também não anule a Lei Orgânica que desde 1990 é a grande diretriz da cidade. Mas essa lei também é falha. Ela criou o Fundo de Meio Ambiente que até hoje não foi implantado. Passaram pela prefeitura os prefeitos Ivo Saldanha, José Bonifácio, Alair Corrêa (duas vezes) e agora Marquinho Mendes”.

Apenas uma síntese

Marconi Castro

VEREADOR JANIO MENDES

Queriam votar no mesmo dia em que chegou, mas fui ao Ministério Público

Marconi Castro

VEREADOR ALFREDO GONÇALVES

perfeição “nãoA existe ”

Walmor Freitas

JUAREZ LOPES secretário de Meio Ambiente de Cabo Frio

Ele não trata das “áreas ambientais ” CIDADE, Janeiro de 2007

Para o vereador Alfredo Gonçalves, “o Plano Diretor é apenas uma síntese que precisa a cidade”, pois “o que vai regê-lo são as leis complementares. É claro que poderia ser acrescida alguma coisa, mas a perfeição não existe. Ele trouxe muitos pontos favoráveis, como o macro-zoneamento, por exemplo, e o IPTU progressivo. Mas algumas questões ambientais poderiam ser mais enfocadas”. Para ambientalistas, como Luis Firmino Pereira, secretário executivo do Consórcio Intermunicipal Lago São João, a esperança está na criação do Código Ambiental de Cabo Frio. “Acompanhei algumas reuniões da FGV, e notei que no Plano não se vê a questão do esgoto e do lixo, por exemplo, que passamos para o município. Eu sei que teremos algumas leis complementares como o Uso do Solo. Mas minha esperança é a criação do Código Ambiental, que tem que ser feito agora porque a questão da ocupação da cidade é ambiental”. Cidades como Búzios, São Pedro da Aldeia e Rio Bonito já apresentaram o Código. Casimiro de Abreu também e Silva Jardim está trabalhando nisso, oferecendo incentivos no IPTU para quem preservar. Casimiro de Abreu oferece recursos para quem preservar a floresta. Sobre todos esses aspectos, o Plano Diretor de Cabo Frio é muito superficial. Juarez Mendes informou que apresentou duas propostas à FGV para o Plano Diretor: o Código Ambiental e o de Saneamento, mas eles não foram considerados pela FGV, que não se justificou. Fomos à Câmara com esperança que os vereadores entendessem essa necessidade, criando regras ambientais, enfim. Nesse Plano Diretor, isso foi deixado de lado”. Ainda segundo Mendes, a tendência é de que o Código Ambiental seja deixado de lado, ainda, por muito tempo. “Não existe nenhuma previsão de discussão do projeto. Ele seria uma lei que complementaria o Plano Diretor, respeitando suas determinações. Mas estão esperando tudo ser destruído para discutir esta questão”. 45


Desenvolvimento com até doze andares. “Se considerarmos a área de sombra que o Hotel Malibu projeta hoje na Praia do Forte (com apenas quatro andares reflete sombra no calçadão), com doze a sombra vai chegar dentro da água.” Para o secretário Juarez Lopes, a verticalização tem seus prós e contras, mas ele prefere se posicionar contrário ao projeto. “A verticalização, se bem concebida, pode ser uma boa. Mas também pode trazer inú-

Verticalização também preocupa Se as questões ambientais causam tanta discussão, a proposta de verticalização, no Plano Diretor, é outro assunto que rende bastante. A sugestão está na Lei de Uso do Solo, que tem 180 dias para ser aprovada, contando da data de aprovação do Plano Diretor. Pela proposta, alguns pontos de Cabo Frio, como a Praia do Forte, Centrinho e Guriri, por exemplo, poderiam ter prédios

Carlos Victor Mendes Secretário de Governo de Cabo Frio

Era preciso ser inteligente e rápido

As questões ambientais foram tratadas de maneira breve, como denunciam alguns vereadores? Vereadores que poderiam ampliar este assunto muitas vezes compareciam às reuniões e ficavam omissos, mas o Plano Diretor conta com o embasamento da Lei Orgânica do município, que é abrangente e o Plano Diretor vem somente reforçar a Lei Orgânica. Denúncias deste tipo são, no mínimo, desprovidas de ciência, e talvez com outras intenções que não sejam o bem da cidade. O que diz o Plano Diretor a respeito do Meio Ambiente? Reforça o que determina a Lei Orgâ46

dada, junto com as demais leis que completarão o Plano Diretor. A Lei votada específica para o Projeto Peró foi analisada e tem por objetivo atrair investimentos raros no momento atual. No que tange à atividade turística, sua aprovação pela Câmara obedeceu a normas legais constitucionais e da Lei Orgânica, em consonância com o plano gestor da APA do Pau Brasil e Lei Orgânica. Dentro da sustentabilidade do meio ambiente e dentro da legalidade, os vereadores agiram com grande espírito público, pois um investimento que chega a 270 milhões de reais não poderia ficar esperando debates intermináveis, já que foram analisados por técnicos especializados no assunto, com total amparo legal. Além disso, essa legislação aprovada produzirá, ao longo do tempo, 16 mil novos empregos e atuará na ocupação ordenada do local com total proteção do meio ambiente. Era preciso ser inteligente e rápido para que o meio ambiente protegido venha a produzir justiça social. Além disso, esperar seria perda de tempo e somente discussões infrutíferas com intuitos eleitoreiros de oposicionistas. Marconi Castro

Vereadores de oposição afirmam que o Plano Diretor foi aprovado às pressas, sem dar nenhuma atenção às questões ambientais. Isso é verdade? O Plano Diretor foi elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, secretaria de Planejamento, secretaria de Governo e ouviu todas as entidades – organizadas ou não – durante seis meses. A Câmara Municipal foi convidada a ter um representante no grupo de elaboração. Foram três audiências públicas com a participação da sociedade e do Ministério Público Federal e Estadual. No prazo estabelecido por lei, ficou à disposição da sociedade e da Câmara. Mais de mil inserções foram feitas oriundas da sociedade. O Plano não foi aprovado antes do prazo legal, mas depois do prazo legal, determinado pelo Estatuto das Cidades.

meros problemas, como a redução de ventilação, piora no conforto ambiental e queda da qualidade de vida. Quando esse assunto entrou em pauta, há alguns anos, eu era presidente da Associação de Arquitetos e Engenheiros da Região dos Lagos, e me posicionei contra. E eu não diria que esta é uma questão polêmica, mas que o tema central desta discussão é um só: a disputa entre o desenvolvimento e a preservação”.

nica e acrescenta e endossa a nova APA criada, a APA do Pau Brasil. Há denúncias, também, de que um trecho da Lei de Uso do Solo teria sido alterado em regime de urgência, a seu pedido, para beneficiar o Club Med, permitindo que ele seja construído em área de preservação ambiental. Qual sua versão sobre essa história? A Lei de Uso do Solo ainda será estuCIDADE, Janeiro de 2007

Com relação à Lei do ISS e IPTU de 2001, que dá isenção fiscal a grandes empreendimentos hoteleiros, ela foi pensada já com base na vinda do Club Med? Existe a Lei, inclusive regulamentada, e que se baseia na utilização da mãode-obra local para maior isenção. Entretanto, isto não foi solicitado ainda pelos empresários à prefeitura.


Resumo Parque do Mico Leão Dourado

Polêmica sobre Estação de Tratamento de Iguaba

Lançada a pedra fundamental do Terminal de Embarque Temporário da Petrobras no Aeroporto de Macaé. O empreendimento será exclusivo para uso da força de trabalho da Petrobras, e faz parte do seu plano de modernização das instalações. O objetivo é dar maior conforto e praticidade para os funcionários que embarcam para as plataformas , que chegam a 27 mil embarques aéreos mensais. O empreendimento terá 700m2, salas de embarque e desembarque, auditório para briefing de segurança, sala de segurança de vôo, sanitários e saguão de espera para 124 pessoas. A previsão é de 60 dias para o início às obras.

O secretário de Meio Ambiente de Cabo Frio, Juarez Lopes, anunciou que já está demarcada a área do Parque Municipal do Mico Leão Dourado, no segundo distrito. Segundo Juarez, “ o objetivo não é intervir, ou tomar a propriedade de ninguém, mas fazer com que as pessoas que estão lá entendam que todas aquelas matas, protegidas pelo Código Florestal, são das gerações futuras.” Segundo o secretário, o parque é uma Unidade de Conservação e de Proteção Integral, onde não há possibilidade de uso humano, diferente das áreas de uso sustentável, que admitem a presença de empreendimentos como clubes. O parque está inscrito na Câmara de Compensação Ambiental do Ibama afim de receber percentuais de recursos originários de investimentos em empreendimentos potencialmente poluidores, como plataformas de petróleo, entre outras.

A prefeitura de Iguaba Grande vai questionar judicialmente a decisão tomada pela Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico (Agenersa), que mantém a Praia do Popeye, no centro da cidade, como local receptor dos efluentes da Estação de Tratamento de Esgotos da Prolagos, o que é rejeitado pela maioria da população iguabense. A decisão contraria o TAC (Termo de Ajuste de Conduta) assinado entre a concessionária, o Consórcio Ambiental Lagos São João e o Ministério Público. A idéia da prefeitura é levar esse material para a Zona Rural, onde serviria para irrigação.

Um Plano para a Bacia Hidrográfica Lagos São João O documento objetiva nortear as intervenções e projetos ambientais na área de atuação do Comitê de Bacia Lagos São João. Para financiar os projetos de recuperação e educação ambiental na região, o Comitê propõe um percentual progressivo para a cobrança, de R$ 0,02 por m³, pelo uso da água da Bacia às concessionárias Prolagos e Águas de Juturnaíba. A cobrança, no entanto, esbarra no parecer da Agenersa, que não autoriza o repasse ao consumidor final.

Região garante assento na Alerj Os números da última eleição para deputado estadual surpreenderam e na contramão do que vinha acontecendo nos últimos anos na Alerj um total de 61% dos parlamentares continuarão por mais quatro anos no cargo de deputado estadual. Dos 70 deputados que hoje cumprem mandato, 59 disputaram a reeleição porém só 37 voltarão em 2007, uma média considerada histórica.

Petrobras prepara nova sede do Sentrom

César Valente

Novo terminal no aeroporto de Macaé

Chumbinho é presidente O vereador Chumbinho (Claudio Vasque Chumbinho dos Santos) foi eleito presidente da Câmara Municipal de São Pedro da Aldeia, para o biênio 20072008, por unanimidade (dez votos), no final da tarde de 14 de Dezembro.

CIDADE, Janeiro de 2007

A Petrobras está investindo 721 mil reais na construção da nova sede da Sociedade de Ensino e Terapia Macaense (Sentrom). A previsão é de que a construção esteja concluída em fevereiro de 2007. O terreno, que foi doado pela prefeitura de Macaé, possui 2.550 metros quadrados e terá 640 metros quadrados de área construída. Atualmente, o Sentrom atende a cerca de 140 alunos. No entanto, de acordo com a diretora da instituição, Rita Manhães, essa capacidade será ampliada com a nova sede. “A expectativa é de que passemos a acompanhar em torno de 250 alunos”. No futuro endereço existe a possibilidade de criação de cursos noturnos. O Sentrom foi criado em 1989 para atender pessoas portadoras de distúrbios neurológicos e faz parte do Programa Avançado de Assistência e Tratamento de Pessoas Especiais (PATE), mantido pela Petrobras, com o apoio da Unidade de Negócio de Exploração e Produção da Bacia de Campos desde 1991. 47


Artigo Quem? Como? Onde? Por quê? e Quando? stas são cinco perguntas que todo bom redator de jornal tem que responder no seu texto para esclarecer a história que relata, qualquer história. Pode até faltar um desses elementos, permite-se, mas é sempre bom deixar o leitor, esse amigo que nos sustenta, absolutamente a par de todos os detalhes. Pois bem, eis onde quero chegar: a Assessoria de Comunicação de Búzios, que não chega a ser uma secretaria, acaba de inovar: está cobrando dos repórteres todas as informações que, estes sim, deveriam obter. Explico melhor: quando o repórter vai à Assessoria de Comunicação para ter uma informação oficial, ou mesmo um pedido de entrevista com algum secretário, subalterno ou mesmo o último dos contínuos, tem que preencher formulário onde vai constar seu nome, veículo onde trabalha, destino da informação solicitada, como pretende dar divulgação e outros detalhes. E, como última humilhação, é solicitado a comprar um CD virgem onde serão gravadas (se for o caso) as informações. E não há tempo previsto, falha técnica grave para quem trabalha contra o relógio, como é o caso de um jornal. Búzios tem mais de cinco jornais, desde um diário, o “Primeira Hora”, até o mais tradicional, como o “Perú Molhado”, semanal. Não sabemos se jornais dos municípios vizinhos, e até da capital, e demais revistas regionais, são submetidos ao mesmo esquema. Talvez seja necessário este repórter que vos escreve preencher um desses formulários para obter a certeza. Fiquemos porém na dúvida porque a Cidade está aguardando este artigo, mandado em cima da hora. Não sei ao certo quais as razões alegadas para o procedimento da competente Assessoria (seria motivo para um outro questionário?). Mas acho que é coisa de algum funcionário padrão, aplicado servidor, que teria alguma prevenção contra jornais e jornalistas, e sabemos que os há aos montes.

E

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Aníbal Fernando

Penso que talvez o prefeito de Búzios, Toninho Branco, tenha se queixado de ser maltratado pelo noticiário, que é coisa comum entre a classe dos políticos, basta ver o exemplo do presidente Lula, que vive se queixando, ora dizendo que o anarquizam demais, que o ridicularizam, que não o entendem, embora o pessoal do Palácio da Alvorada, a turma que redige os discursos presidenciais, treme quando ele improvisa. “Lá vem ele” – dizem, com as mãos nos ouvidos. Mas não disseram nada demais do prefeito buziano, que eu me lembre. Acho mesmo que o pessoal da ruas, como acontece em toda a cidade pequena, fala muito mais: que comprou um carro oficial importado (ele garante que foi doação), que adquiriu vistoso apartamento na praia do Forte, que é dado a suas escapadas amorosas, muito embora seja separado legalmente, o que não impede que sua ex-esposa seja secretária de Promoção Social. Foi uma separação amigável, é o que afirmam. Mas a imprensa não disse nada disso. Ela só diz, reproduzindo o que o próprio prefeito já afirmou, que recebeu uma administração falida, onde até dados vitais do município foram apagados dos computadores, provocando uma anistia fiscal não programada. E por isso não podia fazer nada no primeiro ano porque estava “arrumando a casa”. Já está terminando o segundo e talvez as exigências da Assessoria tenham a ver... Mas acho que o prefeito fez promessas mirabolantes na campanha e o pessoal está cobrando. Acho eu, ressalve-se. Como não podia deixar de ser, os jornais espelham a cobrança. Acho, porém, como lembrou um colega, que as verbas de publicidade são mixurucas. Pode ser. Quem sabe? Para todos os efeitos ele já se candidatou à reeleição. E justificou: “A oposição já está em campo.” Aníbal Fernando é Jornalista CIDADE, Janeiro de 2007


Livros Octávio Perelló

Em dose dupla, Zeca invade a sua praia De A-há a U2 – Os bastidores das entrevistas do mundo da música, de Zeca Camargo (Editora Globo, 2006, 474 páginas). O repórter fez uma compilação dos bastidores das corriqueiras e por vezes insólitas entrevistas que fez, a serviço da MTV e TV Globo, com artistas do mundo pop. Dois méritos do autor: reconhecer lacunas imperdoáveis em sua formação musical e não ter se dado por vencido por suas frustrações e autocríticas, resolvendo relatar com bom humor os fatídicos minutos em companhia de muitos ídolos, entre os quais muitos dos seus e dos nossos. Um aviso: não procure respostas sobre o comportamento do entrevistador e dos entrevistados (embora muitos dos relatos nos façam entender porque tantas das referidas entrevistas foram um fiasco). Tenha calma e observe as impressões contidas no bom e despretensioso texto do autor e a viagem valerá. A fantástica volta ao mundo – Registros e bastidores de viagem, de Zeca Camargo (Editora Globo, 2004, 408 páginas). Conhecer o mundo com os próprios pés é o que há de melhor, mas os relatos de viagem sempre acompanharam a humanidade, às vezes dando informações preciosas. Neste livro o repórter revela os bastidores de suas viagens para o dominical Fantástico da TV Globo. Com inúmeras conexões, o mundo apreendido pelo autor não é nada desprezível. Pelo contrário, informa, com leveza própria para as tardes de verão. Destaque para as fotos, em especial, de Meteora, no interior da Grécia.

LEIA MAIS LIVROS Desbunde produtivo Geração em transe: memórias do tropicalismo, de Luiz Carlos Maciel; apresentação de Ângela Chaves (Nova Fronteira, 1996, 275 páginas). O jornalista e escritor escreve memória afetiva de uma época em que eclodiu a contracultura, e como autor-protagonista tem o olhar aproximado das experiências que geraram o cinema de Glauber Rocha, o teatro de José Celso Martinez Corrêa, a música de Caetano Veloso e todo o caldo que entornava deste caldeirão.

A mulher mais linda da cidade Um título romântico para a coletânea de contos permeados de personagens desvalidos, quartos imundos de hotéis ordinários; homens e mulheres que vivem o viés perverso do sonho americano, vistos pelas lentes do universo infernal e onírico de Charles Bukowski em A mulher mais linda da cidade e outras histórias (L&PM, 2001, 149 páginas).

Mais Bukowski “Escrevedor” em sua própria definição, autor de si mesmo, talvez, uma vez que sua vida não se distingue dos seus escritos, poeta e romancista norte-americano, transgressor visceral, amante do turfe, bebidas e mulheres, seja na ordem que for. Este é Charles Bukowski em Os 25 melhores poemas de Charles Bukowski, magistralmente traduzidos pelo poeta Jorge Wanderley (Bertrand Brasil, 2003, 176 páginas). Texto em inglês e português, em edição caprichada.

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G aleria

Auto Retrato (1964) Óleo sobre eucatex (55 x 75 cm)

Carlos Mendonça Nascido em Teresópolis, tem residência fixa em Cabo Frio. Começou a pintar em 1956, e desde então participou de várias exposições coletivas e individuais em todo o Brasil.


Revista Cidade - Janeiro 2007  
Revista Cidade - Janeiro 2007  

Notícias do interior do estado do Rio de Janeiro

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