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Dezembro, 2007 Número 20

Além dos números “A violência não cresceu, a eficácia da polícia é que melhorou”, diz comandante.

São Pedro da Aldeia

12 Corredor expresso Responsabilidade Social

16 Redes sustentáveis A Bacia de Campos sob a ótica da sustentabilidade Comércio

18 Grana extra no verão... só no verão Empregos temporários crescem em Cabo Frio, mas a efetivação ainda é uma realidade para poucos Meio Ambiente

22 Firmino na Serla Energia

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Enfim, a ponte Depois de três anos de obras, finalmente é inaugurada a ponte interligamdo os municípios de Cabo Frio e São Pedro da Aldeia

28 Cadê o gás natural? Especial

32 O desbravador de Iucatã Thomas Sastre conta suas aventuras na península mexicana 36 Inaugurado Aterro Sanitário Armação dos Búzios

49 Ferradura ganha, mas não leva Saúde

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52 Câncer de próstata A prevenção é o primeiro passo 53 Yázigi apresenta sua Cantata de Natal As cores e os sons do natal apresentados na Rua Silva Jardim

Turismo

Jóias do passado Casarões do ciclo da cana-de-açúcar viram atração e impulsionam o Turismo Cultural em Quissamã

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Espetáculo

O circo pede passagem Arte circense sobrevive e se transforma em projeto de inclusão social 4

Região

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José Mariano Benincá Beltrame

Desde o primeiro minuto da nossa gestão, estamos na luta contra o tráfico de drogas, em uma verdadeira campanha para desarmar os bandidos e trazer um pouco de paz à população

Juliana Vieira

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José Mariano Benincá Beltrame Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro

Secom/Seseg

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advogado José Mariano Benincá Beltrame, 49 anos, formou-se pela Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e em Administração de Empresas e Administração Pública pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Especializou-se em Inteligência Estratégica na Universidade Salgado de Oliveira e na Escola Superior de Guerra. Fez curso de Inteligência da Secretaria Nacional de Segurança Pública e de Análise de Dados de Inteligência Policial, Sistema Guardião. Ingressou no Departamento de Polícia Federal no ano de 1981 como agente, principalmente na área de repressão a entorpecentes. Exerceu funções no setor de inteligência, combatendo o crime organizado em vários estados brasileiros. Ministrou aulas e palestras no Curso de Pós-graduação em Inteligência e Segurança Pública da Universidade Federal do Mato Grosso. Na Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro, como delegado de Polícia Federal, foi coordenador da Missão Suporte, chefe do Serviço de Inteligência e da Interpol.

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TA José Mariano Benincá Beltrame

Quantas vagas serão abertas no próximo concurso da Polícia Militar? Quando deverá ocorrer? Quantos homens deverão ser destinados para os batalhões do interior do Estado, principalmente para a Região dos Lagos? O número de vagas será suficiente para suprir as necessidades de todo o Estado? Este ano a PM forma dois mil policiais, que vão atuar durante os próximos oito anos exclusivamente na Capital, reduzindo, mas ainda não resolvendo, nosso déficit de efetivo. Para 2008, um novo concurso será aberto para a formação de mais dois mil PMs que vão ser distribuídos pelo interior do Estado. O número exato para cada batalhão, quando tivermos esses homens formados, será definido após a avaliação do Comando Geral da PM. Recentemente, em entrevista a um jornal local, o coronel Adilson Nascimento, comandante do 25º Batalhão da Polícia Militar, afirmou que se a frota de viaturas estivesse 100% em condições de uso, o trabalho da PM da Região dos Lagos seria mais eficaz. Há previsão da renovação da frota de veículos para os próximos meses? Estamos terceirizando a frota da Região Metropolitana. Em 90 dias, 647 viaturas zero quilômetro e com manutenção garantida serão entregues. Dos cerca de dois mil veículos antigos, temos 40% em estado precário. Recebemos a frota em janeiro, com 65% de precariedade, ou seja, temos cerca de 1,2 mil viaturas em condições plenas de uso, com pequenos reparos que vão reforçar o que já existe no interior. E ainda teremos 501 veículos do legado do Pan, cuja destinação ainda será definida. As casas de veraneio, tão comuns na região, estão se tornando residências fixas de muitas famílias que saem dos grandes centros para fugir da violência. Junto com estas famílias, a violência também tem migrado. Crimes que até pouco tempo eram vistos pelos 6

moradores do interio através da mídia são hoje assistidos de perto por eles. Diante de tais dados, existe algum estudo para conter a violência e o crime organizado no interior do Estado, em especial e na Região dos Lagos? A criminalidade, quando combatida em grandes centros urbanos, como temos

Para 2008, um novo concurso será aberto para a formação de mais dois mil PMs, que vão ser distribuídos pelo interior do Estado feito duramente na Capital, pode migrar para áreas mais distantes, algumas com potencial atrativo, como consumidores de drogas ou pessoas com bens que podem ser alvo de assaltos e roubos. O que posso adiantar é que com o Centro de Inteligência que foi montado para o Pan, temos hoje muito mais condições de realizar investigações mais detalhadas, com o objetivo de desarticular quadrilhas especializadas. Mais informações, caso Dezembro de 2007 CIDADE, Novembro

eu as dissesse, prejudicaria o trabalho investigativo. As tão faladas milícias, praticadas por PMs nas comunidades cariocas, também estão sendo registradas na região, como no Segundo Distrito de Cabo Frio, onde comerciantes fizeram graves denúncias contra policiais do 25º BPM. O que o Estado pode fazer para conter este problema em cidades pequenas, onde, aparentemente, seria mais fácil de resolver? Novamente a questão da investigação. Temos em curso mais de uma centena de investigações sobre milícias e neste ponto temos dois problemas: não podemos adiantar nada; além do que, tipificar o crime de milícia ainda é muito difícil. É preciso realizar ações muito bem amparadas pela investigação, sob pena de se fazer pirotecnia e depois ver a Justiça, com razão, soltar todos os envolvidos. É uma questão de responsabilidade policial. Em relação a denúncias contra policiais, temos um canal específico para isso na secretaria: a Ouvidoria de Polícia, pelo telefone 3399-1199. Por que alguns municípios da Região dos Lagos, como Cabo Frio e Arraial do Cabo, ainda não possuem uma Delegacia Legal? No caso de Arraial, desde o governo de Rosinha Garotinho, há um terreno destinado para a obra, mas até agora nada foi feito. O Programa Delegacia Legal segue em curso, mas obviamente há dificuldades financeiras. Neste ano fechamos convênios com as prefeituras de Macaé, Rio das Ostras e Quissamã, o que nos propiciou levar o programa a estas cidades. Para 2008, Arraial do Cabo é prioridade. O Estado tem algum projeto para a construção de uma penitenciária na Região dos Lagos? Um dos principais problemas hoje também é a questão da superlotação nas delegacias. Em Cabo


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Frio, por exemplo, uma cela para no máximo oito pessoas abriga mais de 50. Caso a resposta seja negativa, o que o Estado pode fazer para eliminar mais este problema? Temos problemas em relação a carceragens como as da Polinter. Precisamos de investimentos federais e o governo tem feito a sua parte, mantendo um ótimo relacionamento com o governo federal, o que nos dá esperança de oferecer o melhor para os cariocas e fluminenses. A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária pode detalhar melhor os projetos em curso.

sobre a existência de ramificações dos chefões do tráfico do Rio de Janeiro na Região dos Lagos? Desde o primeiro minuto de nossa gestão, estamos na luta contra o tráfico de drogas, em uma verdadeira campanha para desarmar os bandidos e trazer

Em Cabo Frio, a Polícia Militar tem travado uma tremenda guerra para acabar com as facções Comando Vermelho e Terceiro Comando, presentes nas principais favelas da cidade. Dezenas de pessoas já foram mortas nesse duelo. O senhor tem conhecimento disso? O Estado tem alguma linha de investigação

um pouco de paz à população. Nossas ações são vistas a cada dia, como, por exemplo, a apreensão de cerca de nove toneladas de maconha, desde janeiro, e de cerca de 6,5 mil armas no mesmo período. Sobre casos específicos, como a Região dos Lagos, caímos na mesma questão do sigilo das investigações. Se

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O Programa Delegacia Legal segue em curso, mas obviamente há dificuldades financeiras

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adiantarmos algo, perdemos a oportunidade de agir. Cabo Frio é a cidade que mais recebe turistas no Estado do Rio e ainda não conta com uma Delegacia estruturada. Hoje quem for registrar uma queixa lá tem que levála redigida e impressa. A secretaria tem conhecimento disso? De acordo com o chefe do Departamento de Polícia do Interior, doutor Rafik Louzada, o atendimento na delegacia de Cabo Frio está funcionando normalmente. O setor ainda não é informatizado, o que compromete certamente a velocidade do serviço, mas estamos fechando uma série de convênios para melhorar essa questão. Como o senhor gostaria de ser lembrado ao fim de seu trabalho na secretaria de Segurança Pública? Como um gaúcho que ama e adotou o Rio para viver e que trabalhou incessantemente para devolver a paz ao Estado.


Ernesto Galiotto

Região

Enfim, a ponte Depois de três anos de obras, finalmente é inaugurada a ponte interligamdo os municípios de Cabo Frio e São Pedro da Aldeia Loisa Mavignier

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uarenta e oito mil toneladas de concreto, mais de meio século de espera e duas décadas de congestionamentos provocados pelo estrangulamento no tráfego na alta temporada turística e eis que surge a grande obra na Região dos Lagos: a ponte deputado Wilson Mendes, a duplicação das RJ-140, batizada de deputado Márcio Corrêa, e o viaduto de acesso a Búzios. Em meio a discursos políticos inflamados e até comoventes, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, inaugurou a ponte no dia 14 de novembro, mandando recadinhos de ponderação aos pretensos candidatos a candidatos regionais nas próximas eleições para prefeito e vereadores. No ato da inauguração, Cabral lembrou

o empenho da ex-governadora Rosinha Matheus e dos deputados da região pela iniciativa da realização do empreendimento, só concluído em sua administração. Sem, no entanto, deixar de ressaltar a sua parcela de contribuição para a concretização da obra orçada inicialmente em R$ 108.845 milhões e terminada com total R$ 146.911 milhões. “Não adianta discutir de quem é a obra. Desde que assumi, minha meta foi concluir todas as obras em andamento antes de abrir novas frentes. Obra parada é prejuízo para o Estado e para o povo”, disse o governador. Um tom pré-eleitoral marcou a solenidade, onde circularam deputados, vereadores e secretários estaduais. Além disso, não faltaram elogios mútuos e manifestações CIDADE, Dezembro de 2007

públicas de apreço político. No centro das divergências explícitas, tendo de um lado o deputado estadual Alair Corrêa (PMDB), e, de outro, o prefeito de Cabo Frio, Marcos Mendes (PSDB), o governador manteve-se neutro e brincalhão, ressaltando a participação de todos na obra, evitando melindrar possíveis candidatos a prefeito em 2008. “Este palanque prova que a união faz a força. Aqui se superam as divergências. Obrigado a essa classe política, que com maturidade pensa primeiro no povo e no bem estar da população”, disse Cabral

A obra Foram três anos marcados por alguns incidentes de percurso, como a paralisação da obra, de dezembro de 2006 a abril de 2007, época de mudança no governo 9


Este palanque prova que a união faz a força

Loisa Mavignier

GOVERNADOR SÉRGIO CABRAL

cedidas em Cuba, Florianópolis e na Baía de Todos os Santos. A previsão da Serla é concluir a dragagem em março de 2008, quando o fluxo de água triplicará na região da Ponta do Ambrósio e será de 50% maior no estreito de Perynas. “O Consórcio está contratando uma equipe especializada para o monitoramento da lagoa. Iremos avaliar a evolução das intervenções”, explica.

Impasses

estadual, impasses ambientais, desapro- a troca hídrica entre o mar e a Lagoa de priações de imóveis e problemas com as Araruama. O projeto do governo estadual, redes de água, de energia e de telefone ao via Fundação Superintendência Estadual longo das rodovias. Além do desconforto de Rios e Lagoas (Serla), em parceria com para a população, que vivenciou um longo o Consórcio Intermunicipal Lagos São período em clima de reforma em casa, até João, exige um investimento de R$ 9,5 ver a obra inaugurada, embora ela ainda milhões e prevê a retirada de 600 mil m³ não esteja concluída. de sedimentos do canal, dos quais já foram O projeto, executado com recursos do dragados 200 mil m³. Fundo Estadual de Conservação Ambiental A presidente da Serla, Marilene Ra(Fecam), com participação federal e de mos, acredita que, após a conclusão da empreiteiras do Consórcio Queiroz Gal- dragagem, quando o canal ficará com dois vão-Oriente, inclui a duplicação dos 14 metros de profundidade e 300 de largura, a quilômetros da RJ-140, com 984 luminá- renovação e melhoria da qualidade da água rias; o viaduto de ligação para Búzios e Rio na lagoa levará de seis meses a um ano. das Ostras, com 60 metros de extensão; e a Os sedimentos, segundo ela, estão sendo ponte de 350 metros de comprimento, 12,5 aproveitados pelas prefeituras de Cabo Frio de altura a partir da lâmina d’água e com o e de São Pedro da Aldeia para recomposimaior vão livre do Brasil na metodologia ção de aterros. Parte do material retirado de balanços sucessivos – 170 metros –, foi destinado para o aterro do Aeroporto com laterais de 90 metros cada. de Cabo Frio. Ficaram pendentes a ciclovia, no Marilene esclarece que o estudo de percurso da saída da Via Lagos, altura do impacto ambiental, realizado pela Coorbairro Balneário São Pedro até o Canal denação de Programa de Pós-Graduação e Palmer; o canteiro central, a capa asfál- Engenharia COPPE/UFRJ, não apontou astica e a finalização das seis passarelas pectos negativos na interferência no canal. para pedestres. Pelo projeto básico seriam A obra segue o modelo de ações bem suapenas duas passarelas. A população protestou e incluiu-se mais uma. Por DRAGAGEM exigência da Promotoria Pública foInvestimentos de R$ 9,5 milhões e ram licitadas outras três, totalizando previsão de retirada de 600 mil m³ seis nos pontos considerados mais de sedimentos do canal Itajuru perigosos e de maior concentração populacional – Balneário (próximo ao Corpo de Bombeiros), Rua do Fogo, Centro, próximo ao condomínio Zuana Zacarias (Campo Redondo), Baixo Grande e Morro do Milagre.

Revitalização da lagoa Dentre as promessas mais importantes da obra está o desassoreamento do Canal Itajuru, que permitirá, em tese, a circulação hidrodinâmica e 10

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Responsável pela fiscalização do empreendimento na Região dos Lagos, o diretor da 9ª Residência de Obras e Conservação do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ), Aécio da Rocha, afirma que nunca acompanhou uma obra com tantos problemas. “Algumas questões foram parar até na polícia”, diz. Segundo ele, as concessionárias de serviços públicos – Prolagos, Telemar e CEG – teriam sido responsáveis por 80% dos atrasos nos serviços. Em função disso, o prazo de conclusão excedeu em mais de ano. Além disso, os impasses ambientais exigiram adequação do projeto do viaduto para Búzios, devido às interferências na lagoa na entrada de São Pedro da Aldeia, onde foram aterrados 23 mil m² para a duplicação da rodovia. Por determinação da Promotoria do Meio Ambiente, a curvatura da estrada foi reduzida em 30% e o viaduto que teria 40 metros passou a ter 60 metros. Em contrapartida, foram devolvidos para a lagoa 27 mil m² da antiga salina Santa Felicidade, desapropriada pelo Estado, permitindo a circulação da água. No total, foram desapropriados 420 imóveis no traçado da rodovia com conseqüentes brigas na Justiça. Loisa Mavignier

Deputado Alair Corrêa, governador Sérgio Cabral e o prefeito de Cabo Frio Marcos Mendes. Ao fundo, o ex-prefeito de Iguaba Grande, Rodolfo Pedrosa


Loisa Mavignier

Região

Obra gerou emprego e renda para 900 trabalhadores

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rojetada para atender o fluxo de tráfego nos próximos 15 anos, a obra de duplicação das RJ 106 e 140, construção do viaduto e da ponte sobre o Canal Itajuru injetou cerca de R$ 30 milhões em mão-de-obra nos últimos anos. No pico da execução, gerou emprego e renda para 900 trabalhadores de várias regiões do país. Desse total, torno de 40% seriam da Região dos Lagos. E no seu término ainda emprega 350 pessoas. A informação é do gerente de contrato do Consórcio Queiroz Galvão-Oriente, responsável pela execução do projeto. Segundo Adauto Nascimento, o aproveitamento de mão-de-obra local não foi maior em função da qualificação técnica. Mas na reta final da obra, chamada no jargão das empreiteiras de “perfumaria”, cerca de 80% dos trabalhadores que permanecem seriam da região. São serventes, motoristas, carpinteiros, pedreiros, engenheiros e técnicos do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, São Paulo, Belém do Pará e de outras regiões, parte deles integrantes do quadro permanente da Queiroz Galvão-Oriente, que, junto com trabalhadores locais, deixaram o seu legado para a população da Região dos Lagos, tão carente de novos investimentos. Para o pedreiro Raimundo César de Freitas, 34 anos, a obra garantiu uma renda mensal de R$ 1.300 durante 15 meses. Um salário impensável em Limoeiro do Norte, no Ceará, de onde veio atraído pela oportunidade de trabalho. Olhando a ponte, ele diz: “Dá a sensação de dever cumprido”. O aldeense Ezequiel Alves Braga, 28 anos, dedicou-se um ano e oito meses à

obra como pedreiro e tem a esperança de ser aproveitado em novas frentes de trabalho. “Nossa região merece”, comenta orgulhoso de sua participação na construção da ponte. Já Jorge Gomes da Silva, 28 anos, natural do Piauí, pretende voltar um dia para visitar a ponte. “Derramei muito suor aqui, mas ficou bonito”, destaca o servente Josevaldo Cleber. ADAUTO NASCIMENTO diretor da Queiroz Galvão-Oriente

DIVERSIDADE CULTURAL trabalhadores de São Pedro, Ceará, Paraíba e Piauí

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DEFICIT DE PASSARELAS: população é submetida ao risco na travessia da nova pista.

Corredor expresso Renato Silveira Fotos de César Valente

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esde o início das obras de duplicação das RJ 106 e 140, iniciadas após o acidente que vitimou o então deputado estadual Márcio Corrêa, a população de São Pedro da Aldeia, cidade cortada 99,9% pelo trecho duplicado, já imaginava que sua vida ia mudar, para melhor e para pior. No primeiro caso, o acesso à cidade-mãe, Cabo Frio, ficaria muito mais rápido, e, de fato, hoje é possível se locomover entre os dois municípios em menos de dez minutos. O lado ruim da história é que o outrora pacato lugarejo viraria um corredor expresso de alta velocidade, com bairros isolados pelas pistas e com um baixíssimo número de passarelas para pedestres. E a tragédia anunciada se materializou no domingo final de um feriado prolongado. No dia 18 de novembro, quando parte dos turistas de outros estados rumavam para suas casas, no fim de mais um feria12

dão (o do Rio de Janeiro estenderia sua folga por mais dois dias, devido ao feriado estadual da Consciência Negra), a menina Laide Daiane Medeiros Gonçalves, de apenas 11 anos, morreu atropelada na altura do bairro Vinhateiro, num local conhecido como Curva da Morte (já o era antes da duplicação). A reação da comunidade não tardou, e na segunda-feira pela manhã, o povo fechou as pistas por mais de uma hora, queimando pneus, e só saiu após a chegada das forças policiais. A transformação da cidade nesse corredor expresso vem preocupando as autoridades locais, e algumas já pensam em modificações em certas estruturas da obra, que vem prejudicando a população de “sem automóveis”, grande maioria dos usuários. Para o presidente da Câmara Municipal de Vereadores, Cláudio Vasque Chumbinho, o povo pobre é o que mais vem sofrendo com a maneira que está funcionando a rodovia. “A pista foi feita visando beneficiar a CIDADE, Dezembro de 2007

passagem de quem vai para Cabo Frio e Búzios. É de vital importância para o desenvolvimento da Região, mas não poderia ter sido construída sem levar em conta as necessidades da população que vive às suas margens”, queixou-se o parlamentar. De acordo com Chumbinho, a falta de sinalização e o baixo número de passarelas (até o fechamento desta edição, apenas duas estavam em funcionamento) vêm causando transtornos para quem precisa atravessar de um lado para o outro da pista. “Assim tivemos o atropelamento desta menina, que acabou morrendo, e diversos outros que vêm apavorando a população, sem alternativa a não ser arriscar a vida atravessando as pistas perigosamente”, lamentou. Outro problema verificado após o início do funcionamento da duplicação foi os acessos a alguns bairros, que simplesmente deixaram de existir, caso da Ponta do Ambrósio e Rua do Fogo, esquecidos no planejamento inicial da obra. “Através da Câmara, enviamos ofício ao Departamento de Estradas e Rodagens (DER) solicitado modificações no projeto,


São Pedro da Aldeia e o trevo para a Rua do Fogo já está reaberto, e será construída uma nova entrada para a Ponta do Ambrósio”, informou Chumbinho. O presidente do Legislativo aldeense é especialmente revoltado contra a construção de um viaduto na entrada da cidade, que, na sua visão, descaracterizou a paisagem desnecessariamente. “É um viaduto desnecessário, feito para a turma que vai para Búzios, e que enfeou a entrada da cidade, uma das coisas mais bonitas que existia em São Pedro”, lamentou. A população que transita diariamente na rodovia corrobora as queixas do vereador. O estudante Rafael da Silva, 17 anos, morador do Balneário das Conchas, reclama da falta de passarelas no seu bairro. “Volta e meia a gente fica sabendo de algum atropelamento. A pista é larga, e às vezes nem correndo dá tempo de atravessar”, afirmou

A moradora Genara de Souza, do Bairro São João, também se queixa da falta de passarelas no bairro. “A mais próxima fica a cerca de um quilômetro de onde atravesso. Aquilo está muito perigoso”, assusta-se. De acordo com a Diretoria de Operação e Conservação Metropolitana do DER, através da Assessoria de Comunicação, serão construídas no total seis passarelas, que em função das concessionárias de serviços públicos, não puderam ser concluídas e que nos próximos 30 dias todos os serviços estarão finalizados. Quanto ao trevo de acesso a Rua do Fogo e a Ponta do Ambrósio, também estão sendo concluídos nos próximos dias, devido ao atraso na remoção de postes de luz. “Esclarecemos ainda que a empresa encontra-se na estrada aguardando a conclusão pelas concessionárias destes serviços, para assim finalizarmos os acabamentos finais”, informou a assessoria.

CLÁUDIO VASQUE CHUMBINHO

GENARA DE SOUZA

A pista foi feita visando beneficiar a passagem de quem vai para Cabo Frio e Búzios

Aquilo está muito perigoso Apenas duas passarelas

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Cartas

S ENSACIONAL A MATÉRIA DA MÔNIca Casarin. É de tirar o fôlego. Se não houver

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repercussão, que Carlos Minc nos faça o favor de procurar outra coisa para fazer. Chama a polícia, tropas da ONU! Ernesto Lindgren (Cabo Frio/ RJ)

Publicação Mensal NSMartinez Editora ME CNPJ: 08.409.118/0001-80 Redação e Administração Praia das Palmeiras, nº 22 Palmeiras – Cabo Frio – RJ CEP: 28.912-015 cidade@revistacidade.com.br

RESSALTO O IMPORTANTÍSSIMO TRAbalho da imprensa no sentido de denunciar e esclarer a população sobre os abusos cometidos contra ela. Parabéns à revista CIDADE pela coragem e qualidade editoral. Marco Antônio Salzberg (Rio das Ostras/RJ)

Diretora Responsável Niete Martinez niete@revistacidade.com.br Reportagens Augusto de Carvalho Danielle Carvalho Graciele Soares Juliana Vieira Loisa Mavignier Monica Casarin Renato Silveira Roberta Costa Roberta Vitorino Thiago Freitas Tomás Baggio Vanessa Campos Fotografias Cesar Valente Cezar Fernandes PapiPress Tatiana Grynberg Colunistas Ângela Barroso Danuza Lima Octávio Perelló Produção Gráfica Alexandre da Silva alecabofrio@oi.com.br Impressão Ediouro Gráfica e Editora S.A Distribuição Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Búzios, Rio das Ostras, Casimiro de Abreu, Quissamã, Campos, Macaé, Rio de Janeiro e Brasília. Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores. 14

ESCREVO COMO UMA SIMPLES CIDAdã buziana, apesar de não ter recebido o título, eu poderia. Comprei a minha casa na Praia do Canto, no ano de 1988, eu tinha quatorze anos. Meus pais moraram nela por cerca de 20 anos, o meu filho provavelmente viverá nela com a sua própria família. Quase vinte anos depois eu me deparo com uma obra que não precisa ser arquiteto para ver que é totalmente ilegal, é só olhar ao redor e ver que ela, além de ter um segundo andar que tá mais para terceiro, também cresce para baixo. Eu sou a mais prejudicada, pois perdi a minha vista e a minha privacidade, meus domingos e feriados, mas eu tenho notado que incomoda a outros também, pois isso pode ser o início do fim da charmosa Búzios, comparada com Saint Tropez, que apesar de ser muito mais antiga, conseguiu impedir as mãos corruptas de estragarem seu lindo vilarejo. O que está havendo com a nossa prefeitura? Ela está corrupta ao ponto de deixar que acabem com nossa linda Búzios? O que uma pessoa como eu pode fazer? Antonia Rizo Baptista (Rua Maria Joaquina, nº177, Armação dos Búzios/RJ). VENHO, POR MEIO DESSE E-MAIL, agradecer-lhe por ter entendido e compreendido os objetivos e anseios fielmente buscados e reivindicados pelo Sindicato dos Estivadores de Cabo Frio. Sua reportagem, além de ter sido brilhantemente feita, refletiu veementemente o pensamento dos sindicalizados de nosso instituição. Obrigado por ter vestido a camisa e ter reconhecido a força e a importância dessa instituição, que já existe há quase cem anos. Espero sempre contar com a sua compreensão e respeito. Valério Alex Rodrigues Mendonça (Pres. do Sindicato dos Estivadores de Cabo Frio/RJ) CIDADE, Dezembro de 2007

GOSTARIA DE PARABENIZAR A REPÓRter Gracielle pela matéria sobre a escola para jovens atletas, e também a triatleta Monike Azevedo pelo incentivo ao esporte na Região dos Lagos. Ângelo Fernando (Cabo Frio/RJ) FIQUEI MUITO IMPRESSIONADO COM a qualidade da revista CIDADE, que eu não conhecia. Parabenizo a equipe de jornalistas, e em especial a repórter Mônica Casarin pela esclarecedora matéria sobre o bairro da Ferradura, onde tenho familiares que têm uma casa e onde passo alguns feriados. Espero que essa revista continue apresentando os assuntos de interesse para os municípios da região. Agberto Danton (Rio de Janeiro/RJ) MORO NO RIO E GOSTO DE IR PARA Cabo Frio e Búzios. Fiquei conhecendo a revista aí, e depois comecei a ver na internet para saber das novidades e ver as fotos. Quero fazer uma sugestão de vocês colocarem a programação dos eventos daí no site de vocês. Parabéns pela revista, gostei muito. Marcelo Sandrino (Rio de Janeiro/RJ) SOU DO RIO DE JANEIRO, MAS SEMPRE que posso passo os finais de semana na Região dos Lagos. Parabenizo a jornalista Mônica Casarin e a revista CIDADE pela ótima matéria sobre a Ferradura em Búzios. Não dá para acreditar que tudo isso esteja acontecendo nesse paraíso e ninguém toma providências. Como sempre, parece que tudo vai terminar em pizza e a impunidade vai vencer, como já está acontecendo. Continuem assim. Conceição Schimidt (Rio de Janeiro/RJ)

Cartas para o Editor Praia das Palmeiras, 22 - Palmeiras, Cabo Frio/RJ - Cep: 28.912-015 E-mail:cartas@revistacidade.com.br


NUTRIÇÃO

Água

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om a chegada do verão, a ordem passa a ser “hidratar-se”. E a melhor maneira de fazer isso é bebendo muito líquido, principalmente água. A água é considerada mais importante para a vida do que os alimentos, pois as pessoas podem viver semanas sem comida; sem água, porém, somente alguns dias. Cerca de 70% do peso corporal do adulto é constituído de água. Ela auxilia na regulação da temperatura do corpo, elimina as toxinas através da urina e da transpiração, molda o bolo fecal, é usada intensamente no processo de respiração e faz a distribuição de muitos nutrientes pelos diversos órgãos do corpo. Quando nossa alimentação é equilibrada, temos aí incluída parte da água que necessitamos; o consumo de frutas e legumes, por possuírem um alto teor de água, deve predominar. A quantidade de água que se deve beber depende da constituição física, do nível de atividade e da umidade do ar. A recomendação básica é que se beba pelo menos dois litros de água por dia. Quanto maior a quantidade de água que um alimento contém, menor o seu valor calórico. As frutas que contém maior teor de água são melão, melancia, morango, limão, mamão, carambola. Entre as verduras e legumes, os campeões são acelga, alface, almeirão, chicória e espinafre, abobrinha, berinjela, champignon, pepino e tomate. Todos esses alimentos podem ter mais de 90% de água. Durante as dietas de emagrecimento, a reposição de líquidos é muito importante, pois a diminuição de alimentos ingeridos e conseqüente queima de gorduras fazem com que se perca muita água. A sede é um sinal de que é preciso hidratar-se, é um alerta do corpo, que começa a entrar em processo de desidratação. Assim, se você se considera uma pessoa saudável, conscientize-se e faça pausas em seu dia para garantir seu aporte de líquido. DANUZALima LIMAéénutricionista nutricionista Danuza danuza_lima@hotmail.com danuza_lima@hotmail.com CIDADE, Dezembro de 2007

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REDES SUSTENTÁVEIS A Bacia de Campos sob a ótica da sustentabilidade Martinho Santafé

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om o objetivo de aumentar a competitividade e a sustentabilidade das pequenas e médias empresas (PMEs) da região petrolífera da Bacia de Campos, o Programa Tear (Tecendo Redes Sustentáveis), promovido pelo Instituto Ethos e pelo Fundo Multilateral de Investimento (Fumin), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), tem ampliado de forma gradativa, mas segura, as oportunidades de mercado. Através do Tear, são adotadas medidas de responsabilidade social empresarial (RSE) em PMEs que atuam na cadeia de valor de empresas estratégicas em sete 16

setores da economia: açúcar e álcool; construção civil; energia elétrica; mineração; petróleo e gás; siderurgia; e varejo. Em cada um desses segmentos, identificou-se pelo menos uma grande empresa com experiências avançadas em RSE para ancorar o programa. No caso da região da Bacia de Campos (petróleo e gás), a empresa-âncora é a Petrobras, cabendo ao Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) a condição de indutor do programa. Em Macaé, com o apoio do Sebrae-RJ, foram selecionadas 16 PMEs entre fornecedores e clientes, com as quais a empresaâncora se comprometeu a trabalhar para a incorporação e ampliação de uma gestão socialmente responsável nos processos CIDADE, Dezembro de 2007

internos e no relacionamento com suas partes interessadas.

Na Bacia de Campos O Programa Tear para a Bacia de Campos vem sendo implementado em Macaé pelos seguintes representantes de entidades: Aristóteles Riani, consultor local do Instituto Ethos; Gabriela Levone, do IBP; e Glauco Nader e Fernanda Falquer, do Sebrae-RJ. O Arranjo Produtivo Local (APL) de Petróleo, Gás e Energia da Bacia de Campos prevê 25 ações e uma delas contempla a responsabilidade social empresarial, conforme explica Glauco Nader: “Em maio de 2006 realizamos um se-


Divulgação/ Petrobras

Responsabilidade Social minário no Sesi/Senai, abordando os indicadores do Instituto Ethos, com a presença de 180 pessoas, demonstrando o grande interesse em relação ao tema”, conta. Identificando a demanda reprimida, outras ações foram idealizadas pela Rede Petro Bacia de Campos, entre elas a implementação do Programa Tear. “O Programa – explica Aristóteles, que é professor da Universidade Estácio de Sá, em Macaé – objetiva mudanças do modelo de gestão das empresas baseado nos critérios de sustentabilidade”. Glauco complementa: “O Instituto Ethos formatou uma metodologia de responsabilidade social mais flexível para ser aplicada nas pequenas e médias empresas”.

Engajamento Pesquisa realizada pelo Instituto Ethos e pelo jornal Valor Econômico, comprova que as empresas brasileiras, de forma geral, inclusive as de pequeno e médio porte, estão mais engajadas no processo de responsabilidade social do que as estrangeiras, tendência claramente detectada na Bacia de Campos. Na Conferência Ethos 2007, realizada em junho, no Hotel Transamérica, em São Paulo, dois empresários de Macaé participaram de uma das oficinas e testemunharam os benefícios gerenciais que o Programa Tear trouxe para a empresa deles, a Hidropartes. Quando iniciou a implantação do Programa, a Hidropartes queria contribuir para a sustentabilidade, reduzindo custos operacionais e contando

com a participação dos empregados neste processo. A empresa implantou um programa de combate ao desperdício mediante o uso racional dos recursos naturais. Com a economia que, no primeiro mês, foi de R$ 2.500,00, pôde criar um fundo de microcrédito para ser utilizado por seus empregados, com baixa taxa de juros. “A metodologia começa a surtir efeitos através de rotinas em sua gestão”, observa Glauco Nader.

Acerto A Petrobras, empresa-âncora do Programa Tear na Bacia de Campos, reconhece o acerto desse trabalho realizado em Macaé, conforme explica o gerente José Luiz Reis: “A Petrobras tem como política de contratação de bens e serviços privilegiar fornecedores que tenham a RSE como gestão estratégica. O Programa Tear vem contribuindo para a disseminação das boas práticas em RSE na Cadeia de Valor de Petróleo & Gás e a incorporação da gestão sustentável como produto diferencial para as empresas participantes. Como resultado do Projeto, a Petrobras identifica o desenvolvimento de multiplicadores na cadeia, o que vem reforçar como certa sua política da inclusão de RSE nos critérios de contratação”.

Como funciona Segundo Gabriela Levone, do IBP, o Programa Tear mantém encontros mensais de oito horas. Além disso, a metodologia prevê consultoria para auxiliar as empresas na implantação de tudo o que foi trabalhado nesses encontros. Em cada um desses encontros é colocado um tema, como, por exemplo, princípios

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e valores, missão e visão, planejamento estratégico, oficina de indicadores, critérios essenciais, código de ética e relações de trabalho. Cada empresa tem uma tarefa interna decidida nesses encontros, daí a importância do acompanhamento do consultor local. O Programa Tear tem a duração de 36 meses com 24 encontros, sendo que em Macaé já foram realizados 12. “Nas últimas semanas, o Programa tomou um impulso muito forte e entrou na fase de implantação de fato, com os resultados já sendo percebidos. As empresas estão se reunindo em subgrupos para discussões temáticas e identificação de prática que podem ser facilmente disseminadas”, diz Aristóteles. Sete temas são contemplados nessas discussões: valores, transparência e governança; público interno; meio ambiente; fornecedores; consumidores e clientes; comunidade; e governo e sociedade. A avaliação funciona assim: as empresas preenchem os indicadores online, e o Instituto Ethos envia relatório com a pontuação de cada uma. A partir daí, elas poderão reagir com mais consistência. “Hoje as empresas estão reaprendendo a elaborar seus planejamentos estratégicos. E é importante que elas possam rever todo o planejamento dentro da ótica da sustentabilidade”, diz Gabriela Levone. Aristóteles vê nesse processo uma grande oportunidade para a formação de futuros líderes empresariais para a nova cultura da sustentabilidade. “Pela necessidade que se tem hoje, e como se trata de uma mudança de cultura no longo prazo, precisamos de ações mais contundentes. Por enquanto, elas têm sido tímidas, tendo em vista que apenas 16 empresas estão envolvidas no Programa, em um universo de mais de cinco mil empresas existentes.

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Comércio

Grana extra no verão... só no verão

Empregos temporários crescem em Cabo Frio, mas a efetivação ainda é uma realidade para poucos PapiPress

Alta temporada aquece o comércio e o mercado de trabalho

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Vanessa Campos

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ara quem está em busca de uma grana extra neste verão – com possibilidade de estendê-la com uma efetivação –, a hora é essa, em qualquer lugar do país. Em Cabo Frio não é diferente. Em praticamente todos os setores da cidade, principalmente moda praia e vestuário, supermercados, hotéis e pousadas, o que não faltam são vagas abertas e empresas recebendo currículos visando o “boom” de vendas que se inicia na segunda quinzena de dezembro e se prolonga até o final do carnaval. A boa notícia para os candidatos é que, segundo os cálculos da Associação Comercial, Industrial e Turística de Cabo Frio (Acia), serão gerados, neste verão, cerca de quatro mil empregos temporários formais (com carteira assinada) no município. A notícia ruim é que só 10% desse total de funcionários deverão ser efetivados. Duas pesquisas recentes realizadas pela Acia comprovam que as oportunidades de trabalho temporário em Cabo Frio não param de crescer. Na temporada 2006/2007, a entidade pesquisou, no universo de 900 empresas associadas, um total de 23 empresas nos mais diferentes setores do comércio local: moda praia, calçados, hotéis, restaurantes, material de construção, bazar, padarias, mercado de móveis e eletro. Na época, o total de vagas oferecidas por essas empresas somava 277, resultando em uma média de 12 vagas por empresas. Neste ano, a mesma pesquisa foi feita com outras 12 empresas desses mesmos setores. Resultado: as empresas estão oferecendo 298 vagas, totalizando uma média de 24 vagas por empresa, o dobro do demonstrado na pesquisa anterior. Para o empresário e presidente da Acia, Adelício José dos Santos, é fácil explicar o aumento do número de vagas: “Além do desenvolvimento do setor comercial da cidade, que hoje agrega grandes redes de lojas geradoras de um grande número de empregos, temos a estabilidade da moeda, que traz mais lucro ao comerciante, podendo gerar mais empregos e ainda o aumento, a cada ano, do número de turistas na cidade, na alta temporada. Hoje, sem errar, já recebemos cerca de 900 mil pessoas no verão”, destacou ele, acrescentando mais um dado sobre o setor comercial da cidade: outro levantamento feito pela Associação, há dois anos, constatou, em Cabo Frio, perto de 30 mil empregos formais fixos durante o ano. “Não podemos esquecer de que somos a cidade-pólo do desenvolvimento. Aqui, empregamos muita gente de outros municípios, como São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo e Búzios”, completou. Quem também comemora com o aumento da demanda de turistas e do lucro dos comerciantes é a economia do município. Segundo dados da secretaria municipal de Fazenda, na última temporada, houve um aumento na arrecadação de ISS (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza) superior a 25%, o que representou R$ 200 mil a mais nos cofres municipais, naquele verão. Para esta temporada, a expectativa é de que a arrecadação aumente ainda mais, dobrando em relação ao que foi arrecadado anteriormente. “A expectativa é baseada na implantação, em janeiro deste ano, do ISS Eletrônico, que contribuiu muito para organizar o setor. Em função do novo serviço, a arrecadação do imposto, este ano, aumentou em 90% em relação a 2006”, explica o secretário de Fazenda, Clésio Guimarães, acrescentando, contudo, que “o ganho financeiro é mínimo perto do que representa o ganho social”. “Para o município, mais do que a arrecadação, o lucro é o desenvolvimento e a divulgação da cidade e a geração de tantos empregos”.

Falta de qualificação é problema para o empregador Mas a oferta de vagas em massa para a alta temporada não está relatada somente nas pesquisas da Acia. No núcleo do Sistema Nacional de Empregos (SINE) instalado em Cabo Frio, órgão mantido pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e pelo governo do Estado, a demanda de vagas para empregos temporários cresceu de forma considerável desde outubro. Naquele mês, segundo a diretora do SINE, Janaína Antunes Sampaio, das 380 vagas de emprego captadas, 30% eram oferta de emprego temporário. Desse total, 150 foram preenchidas e, somente na primeira quinzena de novembro, o SINE já tinha conseguido encaminhar mais 200 pessoas ao mercado de trabalho formal. Ainda segundo a diretora, a estimativa é de que, até o final do verão, o SINE tenha oferecido, pelo menos, 500 empregos temporários formais. “Nos últimos meses, conseguimos um “boom” de ofertas temporárias, como Casa & Vídeo, Rua dos Biquínis, o McDonald’s de Búzios. Neste período, é comum a captação de 350 vagas por mês”, explicou ela, destacando que os meses de novembro e dezembro deverão apresentar a maior oferta de vagas, já que os empregadores, geralmente, contratam de dezembro a março. “O estouro mesmo de gente querendo funcionário se dá agora em dezembro”, completou. Entretanto, como nem tudo são flores no caminho do candidato, Janaína chama a atenção para o fato de que vagas disponíveis não são garantia de um emprego, principalmente quando o objetivo é se manter no mercado de trabalho por um longo período. Segundo a diretora, a grande dificuldade hoje do empregador cabo-friense não é achar gente para trabalhar, mas, sim, encontrar gente qualificada para a função desejada. “A situação é grave. O SINE recebe cerca de 200 pessoas por dia atrás de uma vaga de emprego. Deste total, 20% estão qualificadas para a vaga que procuram e 80% têm experiência, mas nada de qualificação, como conhecimento técnico, curso na área. Mas como o empregador tem muita necessidade, principalmente nesta época do ano, acaba absorvendo uma mão-de-obra mesmo sem a qualificação adequada. Tanto que para emprego temporário, a maioria pede apenas boa aparência e acima de 18 anos”, afirma Janaína.

MODA PRAIA: principal empregadora de mão-de-obra feminina No setor que mais emprega mão-de-obra feminina em Cabo Frio – só na Rua dos Biquínis, principal pólo do setor, de onde são escoadas 85% das peças produzidas em todo o município, há mais de três mil mulheres empregadas nas quase 200 lojas (e indústrias) locais –, a qualificação também é, atualmente, a principal preocupação do empregador. Segundo Marcelo Chuairi, presidente da Associação Comercial da Rua dos Biquínis (Acirb), antes de colocar uma funcionária nova atrás

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Tatiana Grynberg

efetivados. Na Rua dos Biquínis, por exemplo, das 900 vagas geradas no verão, só 15% serão transformadas em emprego fixo. Culpa da sazonalidade? Falta de clientela na baixa temporada? Para a maioria dos empresários e gerentes de lojas, a resposta para ambas as perguntas é não. Segundo grande parte dos entrevistados pela revista CIDADE, o maior responsável pela efetivação (ou não) é o próprio funcionário. Para eles, nem mesmo a inexperiência é um fator negativo na hora de contratar. “É uma realidade, sim, que o comércio GAMBOA SHOPPING não consegue absorver todo mundo que movimento cresce trabalha como extra no verão, mas quando 10 vezes no verão aparece um profissional muito bom é difícil para a gente demitir. Existe sempre lugar para quem é bom. A loja pode até apertar do balcão, os lojistas têm procurado encaminhar as candidatas um pouco, mas ela jamais vai descartar quem é bom, quem é dedicado”, afirmou o gerente da filial da Taco em Cabo Frio, para os mini-cursos de Atendimento ao Cliente que a própria Márcio Cardoso, que, até final de novembro, já contava com mais entidade tem oferecido em sua sede. O objetivo, diz Chuairi, não de cem currículos em mãos, dentre os quais deveria selecionar é apenas garantir um bom atendimento à clientela – que neste pouco mais de dez candidatos para trabalho extra no verão. O período, fica dez vezes maior na Rua dos Biquínis –, mas também perfil da maioria dos candidatos, segundo ele, aponta para estuproporcionar a chance de efetivação. “O triste de quando você dantes universitários, entre 19 e 28 anos de idade, que objetivam, emprega no verão é que você sabe que vai ter que dispensar decom o dinheiro extra, pagar a faculdade. “Aqui, grande parte pois. Isso incomoda a maioria dos empregadores. Com o tempo, não quer ficar só como extra, pois precisa terminar a faculdade, nós descobrimos que para conseguir fazer com que a pessoa seja ajudar nas contas em casa”, completa o gerente. E como a Taco efetivada, ela precisa conquistar o diferencial no setor comercial, (e a maioria das grandes empresas) oferece treinamento ao novo que é a qualidade no atendimento”, destacou ele. funcionário, ter farta experiência anterior acaba não sendo o Na Rua dos Biquínis, na última temporada, foram criados fundamental para conseguir a vaga. “A garra do candidato para 900 postos de trabalho extra, abrangendo funções que vão desde gente já basta”, avisa. atendente e caixa a costureira e bordadeira. Para esta temporada, De opinião semelhante, aliás, compartilham todos os entrea estimativa de vagas é a mesma. Segundo o presidente da Acirb, vistados. Quer conseguir um emprego temporário e conquistar os funcionários temporários começaram a ser contratados em a tão sonhada efetivação? Duas qualidades são fundamentais: setembro (para a chamada pré-temporada), entretanto, 50% do vontade de trabalhar e dedicação ao que se propôs. total de vagas serão preenchidas agora, no mês de dezembro. “Se a pessoa não tiver medo de trabalhar já é meio caminho andado. Efetivar é conseqüência. Já identifiquei em algumas enEfetivação é o desafio no final da temporada trevistas que muitas vezes as pessoas querem um emprego e não Por outro lado, se chovem vagas para quem quer ganhar uma trabalho”, destacou o gerente da filial nº 76 da Itapuã de Cabo grana extra na alta temporada, o mesmo não acontece quando acaFrio, Marcos Petri, que trabalhará, nesta temporada, com o dobro ba o carnaval (ou até mesmo antes, quando chega final de janeiro). de funcionários na loja, sendo 13 extras. E completa: “chamamos Na maioria das lojas, a realidade é que, de 15 funcionários extras muita gente que nunca trabalhou. Praticamente, nesta contratação chamados para a alta temporada, no máximo dois ou três acabam de extras, 70% nunca trabalhou. Não é regra, mas observamos

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Comércio

Ainda dá tempo de conseguir uma vaga

Ricardo Valle

JANAÍNA ANTUNES SAMPAIO Diretora do SINE

O triste de quando você emprega no verão é saber que vai ter que dispensar depois

Hoje, sem errar, já recebemos cerca de 900 mil pessoas no verão

PapiPress

ADELÍCIO DOS SANTOS Presidente da Acia

Para o município, mais do que a arrecadação, o lucro é o desenvolvimento

MARCELO CHUAIRI Presidente da Acirb

Marconi Castro

Neste período, é comum a captação de 350 vagas por mês

CLÉSIO GUIMARÃES Secretário de Fazenda

PapiPress

PapiPress

Para quem ainda pensa em buscar um emprego temporário para este verão, há tempo, mas é preciso correr. A maioria das

lojas de Cabo Frio ainda estão contratando e selecionando a equipe no mês de dezembro. “A pessoa pode trazer currículo até dezembro, mas até depois também. A oportunidade pode aparecer quando menos se espera”, orienta o gerente da Taco Cabo Frio, Márcio Cardoso. Quem quiser, além de deixar currículos nas lojas, pode se cadastrar no SINE de Cabo Frio, que funciona de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 16h30, e está situado na Av. Teixeira e Souza, nº 1870. Há vagas para os municípios de Cabo Frio, São Pedro da Aldeia, Búzios e Arraial do Cabo. Para se cadastrar, basta apresentar carteira de identidade. “É importante não desistir de procurar, mesmo quem nunca trabalhou antes, temos que tentar”, destaca a estudante Katielly Domingos, de 18 anos, que, após um mês entregando currículos, conseguiu uma vaga na loja Mauna Loa, localizada na Rua dos Biquínis. Feliz da vida com a conquista do primeiro emprego, a estudante aconselha: “o importante é correr atrás, é mostrar que você quer trabalhar. Mesmo sem a garantia de ser efetivada, vale a pena trabalhar, mesmo que temporariamente, ao menos, você ganha experiência”. Secom/Cabo Frio

que essas pessoas, muitas vezes, têm mais garra, mais vontade, e sem vícios de outras empresas”. “O que vai fazer você demitir ou não um funcionário depois da alta temporada é o próprio funcionário. Se o funcionário temporário tem dedicação, responsabilidade, iniciativa, mostra-se um funcionário padrão, tem comprometimento com a empresa, você dificilmente vai abrir mão porque o empresário também não é bobo, ele sabe que investir em mão-de-obra hoje é fundamental para a perpetuação da empresa”, explica Marcelo Chuairi. E, ainda, segundo os entrevistados, o mais importante é dar o melhor de si no dia-a-dia da empresa, deixando de lado o mito de que o desempenho na entrevista é fundamental. “Nem sempre a entrevista aponta como é a pessoa: às vezes, na entrevista, o candidato apresenta um monte de qualidades, mostra-se prestativo, mas é no dia-a-dia que a gente vê quem é o funcionário de verdade”, destaca Adelício.

MÁRCIO CARDOSO Gerente da Taco

A loja pode até apertar um pouco, mas ela jamais vai descartar quem é bom

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MARCOS PETRI Gerente da loja Itapuã

Não é regra, mas observamos que essas pessoas, muitas vezes, têm mais garra, mais vontade 21


Meio Ambiente

FIRMINO NA SERLA Thomás Baggio

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om os sinais de recuperação da Lagoa de Araruama, o modelo de gestão ambiental praticado na Região dos Lagos chamou atenção e, agora, será levado para todo o Estado do Rio de Janeiro. O maior símbolo desse modelo, o Consórcio Intermunicipal Lagos São João (CILSJ), servirá de exemplo para a implantação e fortalecimento de órgãos semelhantes, e o ambientalista Luis Firmino Martins Pereira, secretário-executivo do consórcio, passa a acumular a vice-presidência da Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (Serla). Firmino assumiu o posto no início de novembro, após convite do secretário estadual de Meio Ambiente, Carlos Minc. A Serla é o órgão gestor dos recursos hídricos do Estado, e responsável pela implantação da política estadual para esse setor. A missão dele será coordenar a gestão participativa em todo o Rio de Janeira, unindo governos, empresas e sociedade nos locais onde o meio ambiente dá sinais de desgaste. Ele também será responsável pelas nove agências regionais da Serla e pelos cinco comitês de bacia que já estão instalados (além do Lagos São João, tem o da Baía de Guanabara, do Rio Macaé, do Rio Guandú - que abastece a cidade do Rio - e o do Rio Piabanha, na Região Serrana). Segundo Luis Firmino, outros quatro comitês devem ser criados nos próximos anos, no Médio Paraíba (próximo a Resende), no Litoral Sul (próximo a Angra dos Reis), na Foz do Rio Paraíba (Norte Fluminense), e o comitê BNG, que se refere aos rios Bengala, Negro e Grande (Região Serrana). “Antigamente, a Serla era vista só pela dragagem, ou seja, como um órgão que só tentava resolver problemas que já existiam. Hoje ela procura trabalhar com a gestão ambiental, com enfoque na prevenção 22

Luis Firmino “Nosso principal problema ainda é o esgoto”

dos problemas. E essa política tem objetivos muito parecidos com o que estamos fazendo aqui na região. Vou trabalhar, basicamente, na criação e manutenção desses comitês”, afirma o ambientalista. Apesar de ter assumido recentemente, os dias de Firmino na vice-presidência da Serla já estão contados. Na verdade, a própria Serla vai deixar de existir, devido à lei aprovada na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que une a Serla, a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) e o Instituto Estadual de Florestas (IEF) em um mesmo órgão: o Instituto Estadual do Ambiente (Inea). “O governo do Estado está unificando a política ambiental, o que a torna mais eficiente e menos burocrática. Portanto, parte do meu desafio também será ajudar a montar a estrutura do futuro Inea”, declarou Luis Firmino. CIDADE, Dezembro de 2007

Gestão participativa O CILSJ foi criado em 1999 com objetivo de ajudar na conservação, recuperação e uso sustentável do meio ambiente, e abrange 12 municípios: Armação dos Búzios, Araruama, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Cachoeiras de Macacú, Casimiro de Abreu, Iguaba Grande, Rio Bonito, Rio das Ostras, São Pedro da Aldeia, Saquarema e Silva Jardim. O Consórcio promove estudos, campanhas, e representa os interesses comuns, de caráter ambiental, das cidades participantes. Como a gestão de água e esgotos na região passou para iniciativa privada (Prolagos e Águas de Juturnaíba), o consórcio tem, ainda, a missão de intermediar o diálogo entre essas empresas e os governos a fim de direcionar os investimentos no setor. Assim, uma das ações mais significativas do CILSJ está no


Carreira ambiental Luis Firmino é formado em arquitetura, com mestrado em ciência ambiental e doutorado em geografia, concluído há poucos meses nos Estados Unidos. Funcionário de carreira da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), onde trabalhou por 25 anos, Firmino deixou o órgão para ser o primeiro - e até agora único - secretário-executivo do CILSJ. Para ele, o trabalho de recuperação do meio ambiente na região ainda não é ideal. Ele critica a falta de estrutura e de pessoal das secretarias municipais de Meio Ambiente das cidades da Região dos Lagos (sem exceção), diz que os maiores problemas são, pela ordem, esgoto, lixo, e as unidades de conservação. Firmino também

Ricardo Valle

processo de recuperação da Lagoa de Araruama, com os investimentos, até agora, na construção de Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs) e na dragagem da lagoa e do Canal do Itajurú, por onde as águas da lagoa são renovadas. Apesar de ter um grande desafio pela frente, Luis Firmino vai continuar à frente do consórcio. Segundo ele, o trabalho na Região dos Lagos está “estruturado”. “Com certeza vou ficar um pouco mais distante. Mas, a pedido dos prefeitos, vou continuar como secretário-executivo. O trabalho do consórcio está estruturado, com várias obras de recuperação ambiental em andamento. Vou continuar acompanhando tudo isso”, disse ele. Na opinião dele, outra vitória na recuperação da lagoa aconteceu no fim do mês passado, quando a nova ponte sobre o Canal do Itajurú, batizada de “Deputado Wilson Mendes”, foi inaugurada. Para Firmino, trata-se de um marco na história ambiental da região. “Sem dúvida, essa ponte é um marco. Em 2001, quando pela primeira vez se propôs fazê-la, muitos acharam que essa obra jamais sairia do papel. Agora que ela está pronta, a renovação das águas da Lagoa de Araruama vai durar menos tempo, facilitando o processo de despoluição. Entretanto, ainda temos a velha estrada embaixo para ser removida, junto com a antiga adutora da Companhia Nacional de Álcalis (que abastece Cabo Frio e Arraial do Cabo de água). Uma nova adutora será construída embaixo da nova ponte para a antiga ser demolida. Só então poderemos começar a sentir o efeito esperado na Lagoa, decorrente dessa obra”, explicou.

Dragagem na divisa dos municípios de Cabo Frio e São Pedro

levanta a bandeira do turismo, acreditando que este seja o “único” caminho para conscientizar as pessoas da importância de preservar a natureza. “Ainda não temos um quadro que poderíamos chamar de desejável na grande maioria das secretarias de Meio Ambiente. Isso em termos de estrutura operacional, de equipes técnicas, etc. Nosso principal problema ainda é o esgoto, que está recebendo um bom encaminhamento. O segundo maior é o lixo, que vemos, agora, o início de uma solução com a inauguração do aterro sanitário de São Pedro da Aldeia, que vai atender a toda região. Também precisamos ter mais cuidado com as unidades de conservação. De qualquer forma, a sustentabilidade ambiental da nossa região só estará assegurada quando fizermos do turismo a verdadeira fonte de geração de riqueza e de emprego para aqueles que aqui vivem”, garante ele. Segundo Firmino, o CILSJ ficará ainCIDADE, Dezembro de 2007

da mais forte no ano que vem, quando sua identidade jurídica será modificada. Com a nova denominação, o CILSJ deve ajudar no processo de municipalização do licenciamento ambiental, que hoje fica a cargo somente da Feema. A idéia é de que pequenos licenciamentos passem a ser feitos pelas secretarias municipais de Meio Ambiente. “O consórcio deve se fortalecer muito a partir de 2008, com a transformação do mesmo em consórcio de direito público. Assim, deixa de ser uma associação civil e passa a ser autarquia inter-federativa. Ou seja, ganha personalidade pública e vai atuar muito mais incisivamente junto às secretarias de Meio Ambiente de todos os municípios da região, principalmente no que diz respeito ao licenciamento ambiental. Dar esse poder para os municípios vai, necessariamente, fortalecer as secretarias de Meio Ambiente”, acredita Luis Firmino. 23


Matéria vencedora do Prêmio Cabo Frio de Comunicação/2007 na categoria jornalismo impresso. Publicada na edição n° 5

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Patrimônio

Passagem para o charme Tati Bueno Fotos Ricardo Valle

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epois de uma briga que durou quase 30 anos, pela preservação da herança cultural da cidade, os moradores da Passagem conseguiram que, exatamente no último dia do ano de 2002, o Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (Inepac) confirmasse um antigo decreto de 1982, que tombava um dos mais charmosos bairros de Cabo Frio: a Passagem. Com o tombamento da Igreja São Benedito e de vários imóveis que fazem parte do Largo que leva o mesmo nome de uma das mais antigas igrejinhas de Cabo Frio, os moradores puderam manter o patrimônio para deixar como herança cultural para seus herdeiros e para a cidade. Cultuado e conhecido em todo o país como o “santinho preto”, a Igrejinha de São Benedito foi construída em 1761 para homenagear um dos santos mais populares do Brasil, associado aos padecimentos dos escravos e negros brasileiros, e cumprindo, assim, a influência da Igreja na vida sócio-econômica dos antigos povoados. A igrejinha acolhia os trabalhadores escravos que se rendiam na época aos cultos coletivos, por seu caráter divino e sagrado. Segundo o historiador Hilton Massa, um dos moradores mais antigos do bairro, foi lá que surgiu o primeiro bairro da cidade, pois lá aportavam todos os marinheiros e que, posteriormente, foi conhecido como o bairro dos Marítimos. O nome Passagem vem de uma lenda ou de um fato de que lá havia um poço de água límpida, transparente e potável, que abastecia a guarnição do Forte São Mateus, onde o então capitão Francisco José da Silva, comandante da guarda costeira, havia chegado ao Brasil com a princesa Leopoldina e aqui se casou, constituindo, talvez, o primeiro núcleo familiar, cujos descendentes continuaram o desenvolvimento histórico e cultural da cidade. O mais charmoso bairro de Cabo Frio foi durante décadas freqüentado pelos nomes de destaque e mais relevantes da nata política do país, como o conhecido banqueiro e governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto. Foi também freqüentado por uma das mais sofisticadas expressões da sociedade brasileira, que é a nobre família Imperial de Orleans e Bragança. Entre os melhores restaurantes do bairrro, está o internacional Bistrô Benedito, um dos melhores da cidade e o singular bar Mané Paixão, que é um dos mais freqüentados de Cabo Frio por causa de suas serestas, seus cantores e boemia, que fazem da Passagem um lugar para excelentes noitadas e um dos melhores roteiros turísticos noturnos da região, comparável até aos melhores do mundo. Nas tardes amenas da primavera, eu me sento tranqüila na grama macia, encostada a um tronco de uma árvore grande e florida, em frente à igrejinha e, com um livro de poesia nas mãos, viajo pelo universo de minha imaginação e me vejo sentada em uma das mais lindas pracinhas do mundo, que é a Praça de Furstemberg, nos arredores de Paris, que é quase tão bonita e charmosa quanto a pracinha de São Benedito, no bairro mais chic e charmoso de Cabo Frio, que é o bairro da Passagem.

Passado de glórias e visitantes ilustres

Igreja de São Benedito

Casario tombado pelo Inepac

Vida noturna tem muitas opções

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Artigo

O Progresso e o Meio Ambiente Ernesto Galiotto

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credito que a natureza e o progresso podem trabalhar juntos, sim, desde que não existam demagogias e interesses escusos, mas, sim, o interesse no desenvolvimento sustentável. Na sexta-feira, dia 2 de novembro, o Aeroporto Internacional de Cabo Frio, que caiu como uma luva para o desenvolvimento turístico e industrial de toda a região, recebeu o seu primeiro vôo charter, que inaugurou a nova pista e demonstrou que podemos ter um grande desenvolvimento na região e até melhorar a situação das cidades do entorno, durante a baixa temporada. Porém, existe um problema muito grande que precisa ser resolvido. Ao desembarcar de um avião que oferece todo conforto necessário, o passageiro embarca em uma outra condução qualquer para chegar até o centro da cidade ou ir até as cidades vizinhas, e por incrível que pareça, precisa passar pelo desconforto de enfrentar uma estrada de terra batida, esburacada e cheia de poeira, que em dias de chuva se transforma em um imenso atoleiro. E como se isso não bastasse, ainda tem que fazer um contorno de 16,5 km para chegar a Cabo Frio. Tudo isso poderia ter sido evitado se durante o período de ampliação da pista esses fatores tivessem sido considerados relevantes. Havia tempo hábil para que fossem feitos todos os estudos necessários para um pequeno desvio na cabeceira da pista sem agredir ao meio ambiente. E assim poderíamos ficar apenas a 6 km do aeroporto e com o acesso feito por uma estrada pavimentada que poderia ser até iluminada. Eu não quis acreditar que tinha sido apenas o desinteresse da administração pública do município, e por curiosidade fiz algumas perguntas a alguns dos administradores do aeroporto, e eles me informaram que veio dos órgãos ambientais competentes, como IBAMA, SERLA, FEEMA e demais, a proibição para alterações necessárias. Vamos admitir que isso seja verdade. Tenho certeza de que um pequeno desvio de acesso para o caminho mais viável causaria um impacto ambiental infinitamente menor do que o causado pelas invasões em Monte Alto e Morro da Coca-Cola, em 26

Arraial do Cabo, nas próprias Dunas e nos morros de Cabo Frio, no Rio São João, e pela degradação da Laguna de Araruama. Será que esses “ditos” colaboradores da natureza não perceberam que dos males esse seria o menor e que travando, dessa forma, por uma questão apenas burocrática, o desenvolvimento da região, o impacto econômico seria muito maior? Eu, como ambientalista, que estou sempre sobrevoando nossa região e acompanhando de perto estas situações, fico, às vezes, até desanimado. É lamentável assistir a nossos órgãos competentes fazendo alguma coisa só para chamar a atenção da imprensa e mostrar algum tipo de trabalho, e logo após a poeira baixar, deixam o problema de lado, sem resolvê-lo. Assim como foi com a questão da Beira Rio, em Barra de São João. Assim foi quando a SERLA, há uns três anos, fez um enorme “barulho”, dizendo que algo em torno de 60 casas, que estavam sendo construídas irregularmente, seriam demolidas e os responsáveis teriam que pagar uma multa de R$ 50 mil. Pura balela! As casas estão lá até hoje, foram concluídas e ninguém pagou multa nenhuma, pois a política do “deixa pra lá...” prevaleceu, e a natureza mais uma vez saiu perdendo. O papel da mídia é fazer chegar à população o fato completo, do início ao fim, desde as primeiras denúncias até a conclusão. Para que o povo possa ter a certeza de que o que foi dito foi transformado em realidade, ou se foi só mais um “blábláblá” para dar uma satisfação momentânea. Voltando para o assunto inicial, sobre a estrada do aeroporto, imagine quando começarem a chegar os vôos internacionais e o turista tiver que atravessar um atoleiro para chegar ao seu destino? Qual a imagem que ele ira fazer da nossa região e do nosso país ao retornar para sua casa? É duro admitir, mas muitas vezes boa parte de um investimento como este, do aeroporto, escoa pelos ralos da incompetência e da burrice. Eu não consigo me lembrar se alguma vez, em algum aeroporto do mundo por onde andei, precisei passar em meio a um atoleiro cheio de buracos para embarcar ou desembarcar. Tenho certeza de que todos os cidadãos que pensam no futuro estão aguardando providências para que tenhamos uma boa estrada de acesso, porque, afinal de contas, o Aeroporto Internacional de Cabo Frio, embora seja privado, é um patrimônio de todos. Ernesto Galiotto é ambientalista CIDADE, Dezembro de 2007


ANGELA

angela.barroso@yahoo.com.br

Barroso

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Búzios Estrelada

O 13º Festival de Cinema de Búzios, trouxe para o balneário, muitos artistas famosos, gente bonita e bom astral

1 Bruna Lombardi, o idealizador do festival, Mario Paz, Carlos Alberto Ricceli que estreiou na direção do filme “O Signo da Cidade” e Liége Monteiro. O Festival realizou uma amostra de 16 filmes, sendo 12 inéditos no circuito comercial.

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2 Luciano Zaffir na Praia de Geribá 3 Selton Mello, exelente ator no papel-

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título do filme “Meu Nome Não é Johnny” que foi exibido durante o Festival.

4 A atriz Julia Lemmertz, elegantérrima veio divulgar o longa “Mulheres Sexo Verdades e Mentiras” de Euclydes Marinho.

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5 Pepe Arselli (Filmers 9900) e o ator argentino Ricardo Darin que protagonizou sucessos como “As Nove Rainhas” e “O Filho da Noiva” agora também como diretor. Assina e atua no filme “O Sinal” que abriu o 13º Festival de Cinema de Búzios. 6 Adriana Calçada e seu filho Raphael que estão atuando no curta metragem buziano “A Coruja Falou?...” do Bo Montenegro.

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7 Rodrigo Queiroz da Revista Quem, Gonçalo ( Filmers9900) e Bo Montenegro.

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8 Maria Paula e João Suplicy, filho da Ministra do Turismo, Martha Suplicy curtindo o clima do Festival.

9 Reynaldo Gianecchine é recebido por Cristiane Oliveira, no Anexo Bar, que bombou durante os 5 dias do 13° Festival de Cinema de Búzios, recebendo inúmeras celebridades que deixaram os frequentadores do bar em clima Hollywoodiano.

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10 A grande atriz Cristiane Torloni veio por uma boa causa, apresentou um vídeo sobre a Amazônia.

11 Carolina Dickeman em momento de descontração. 12 Marcio Garcia, freqüentador assíduo do balneário, veio prestigiar os amigos e o Festival. Fotos de Marcelo Dutra (Filmers 9900)

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Energia

Cadê o gás natural? Juliana Vieira

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dia 30 de outubro marcou o início de uma batalha. De um lado, a Petrobras anunciando que não tem mais condições de atender o crescimento da demanda do gás natural no país; de outro, o Estado do Rio de Janeiro, que foi pego de surpresa com a diminuição em 17% do abastecimento do gás. Graças a uma liminar judicial, conseguida durante a madrugada de 31 de outubro, os municípios fluminenses voltaram a contar com o gás natural em sua totalidade. Mas até quando? A pergunta ainda não tem resposta e foi essa preocupação que fez com que o Estado do Rio de Janeiro fosse o primeiro a entrar de cabeça nesta guerra. Foi na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) que nasceu o primeiro manifesto contra a atitude da estatal. Dos 70 parlamentares, 21 assinaram o projeto de lei nº 1083/2007, que cria uma lista de prioridades na distribuição do gás canalizado. Junto com o projeto, os 21 deputados deram entrada também em um pedido de Requerimento de Urgência - previsto no Regimento Interno da Alerj - e com isso o projeto chegou a ser colocado em pauta em pouquíssimos dias. A votação, marcada para as 18h35, foi antecedida de uma conversa a portas fechadas na sala do presidente da Casa, deputado Jorge Picciane (PMDB). Às 18h30, porém, nem a sessão marcada para as 16h30 havia sido iniciada, um indício de que o projeto não estaria sendo bem recebido por todos. Após horas de conversa e negociações, uma novidade, o projeto 1083/2007 saiu da pauta de votações. A Alerj não confirmou oficialmente, mas os jornais do dia seguinte noticiaram que o pedido foi feito pelo presidente Lula, já que se o projeto fosse aprovado, as termelétricas ficariam como última opção, contrariando os interesses do governo federal. O projeto não foi votado e nem tem previsão para retornar ao plenário da Alerj, mas o presidente da Comissão de Minas e 28

Energia da Assembléia, deputado estadual Glauco Lopes (PSDB), assegurou que a batalha travada pelo Estado do Rio não teve fim. Segundo ele, a primeira audiência pública sobre o assunto ocorrerá no dia 29 de novembro, às 10h, na própria Alerj. “A audiência tem como tema a crise do gás natural e suas conseqüências para o Estado do Rio de Janeiro”, contou Lopes, que também chama a atenção para a necessidade de se discutir o assunto de forma ampla. “Em algumas cidades da nossa região, como Campos dos Goytacazes, por exemplo, não se sentiu tanto o corte dos 17% no mês passado como na cidade do Rio, mas isso não diminui em nada a nossa preocupação. Hoje está faltando gás na capital, amanhã pode ser na minha casa ou na sua”, assegurou ele. E parece que este é o pensamento de outros segmentos econômicos que também dependem do gás natural. “Esta é uma questão nacional, 180 milhões de pessoas estão interessadas”, afirmou o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira. Atualmente, segundo a Firjan, 40% das indústrias instaladas no Estado do Rio de Janeiro usam o gás natural. “Imaginem o que poderá acontecer se estas indústrias forem privadas do uso do gás natural. Serão milhares de desempregados”, calculou o presidente da Comissão de Minas e Energia, que também conquistou o apoio da bancada fluminense na Câmara dos Deputados.

Barrado no baile Assinado por 21 deputados, entre eles o macaense Glauco Lopes, o saquaremense Paulo Melo (PMDB) e o campista João Peixoto (PSDC), o projeto “barrado” estabelece no seu artigo segundo que: “para efeitos de atendimento às necessidades energéticas e funções sociais (...), ficam estabelecidos cinco grupos de destinatários de gás canalizado, listados a seguir por ordem de prioridade: hospitais, escolas e residências; comércio; postos de GNV; indústrias, petroquímica e unidades de CIDADE, Dezembro de 2007

Abastecimento com gás, incerteza para os consumidores produção de gás natural; refinarias e usinas termelétricas”. E é justamente na lista de prioridade, apresentada pelo projeto, que esbarra mais uma dúvida. Será que os postos de gás natural veicular devem mesmo estar na frente das indústrias? O que é mais importante para a economia do Estado, que seus motoristas tenham gás em seus cilindros ou que milhares de pessoas continuem empregadas e gerando riquezas nas indústrias? Esta é mais uma pergunta sem reposta definida.

Ameaça perde a força Nem faz tanto tempo assim, o governo estadual fazia anúncios de incentivo à conversão de combustível, oferecendo redução em 75% do valor integral do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) para quem usasse o gás natural também nos veículos. Hoje a história é outra. Agora o governo pretende desestimular o uso do gás nos veículos. Em 21 de agosto de 2000, o então secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços, Wagner Victer, afirmou que o Rio de Janei-


Divulgação/Petrobras

ro estava dando um exemplo para o país na questão do GNV. “Possuímos cerca de 60% da frota nacional de automóveis movidos a GNV e este número vem aumentando. No início do ano passado (1999), eram apenas 18, agora são quase 50, e até dezembro chegaremos a 60”, afirmou confiante, visto que a meta inicial era dobrar a quantidade de postos em três anos. A afirmação de Victer ainda pode ser lida na página do governo do Estado na internet. Há poucos dias, o atual chefe da pasta, Júlio Bueno, anunciou que vai criar um projeto de lei suspendendo o desconto no valor do IPVA dos veículos movidos a gás. Parece que não será fácil, já que o projeto dependerá da aprovação da maioria dos 70 deputados estaduais e o presidente da Alerj já anunciou que dificilmente a proposta será aprovada no plenário da Casa.

Divulgação/Petrobras

Dados da crise

JOSÉ GABRIELLI Presidente da Petrobras

A indústria de gás não é como um supermercado em que você vai lá e compra CIDADE, Dezembro de 2007

O presidente da Petrobras, José Gabrielli, admitiu durante uma entrevista em Londres que a companhia não tem como atender o crescimento da demanda por gás natural no curto prazo e disse que vem alertando as distribuidoras desde o início da crise da Bolívia. “Hoje, se tivermos de manter o crescimento no consumo de gás, vamos ter algumas dificuldades em entregar o volume além do contrato. A indústria de gás não é como um supermercado em que você vai lá e compra”, destacou Gabrielli, que mais uma vez reconheceu que a tendência, a médio e longo prazo, será que o consumidor pague mais caro pelo gás natural. No Rio, a diretora de Gás e Energia da Estatal, Maria das Graças Foster, seguiu a mesma linha e afirmou que “o preço do gás tem que pagar o custo de exploração e produção” do produto. Realmente a crise que se instalou no Estado do Rio de Janeiro é uma matemática difícil de entender. Tendo como base a média dos últimos 12 meses na produção de gás natural, a participação do Rio foi de 45,61% e o consumo de 20% deste total. Isso quer dizer que o Estado do Rio produz 45% do gás nacional e só consome 20%. E onde são gastos estes 20%? Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), no Estado do Rio, os principais setores consumidores do gás natural são a indústria (38%), as termelétricas (29%), o GNV (28%), as residências (3%) e o comércio (2%). 29


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Em Ticul: um táxi para fugir da chuva

Feira Maia de Oxkutzcab. Thomas pega no pesado para contrariar a cultura machista local.

Estupefato, diante da riqueza arquitetônica de Uxmal

O desbravador de Iucatã Thomas Sastre c Thiago Freitas e Thomas Sastre

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le não é exatamente um fã de Indiana Jones. Na verdade, é apenas um ator e artista plástico que tem um certo receio (não chega a caracterizar um pânico) de altura. Isso, no entanto, não o priva de, quando em vez, viver suas próprias aventuras. A última delas aconteceu de forma inesperada, há cerca de três meses, despertado pela incomum curio32

sidade. Estando em Cancun, no México, para realizar um trabalho para um dos hotéis do grupo Sheraton, Thomas Sastre – argentino que adotou Búzios como seu novo lar há 36 anos –, antigo curioso em História, decidiu, por si só, com a ajuda única de um guia, fazer um tour pelas milenárias cidades Maias e Astecas que compõem a Península de Iucatã. De volta ao Brasil, e à Região dos Lagos, o aventureiro fez questão de dividir com os leitores CIDADE, Dezembro de 2007

de CIDADE a mágica descoberta desse lugar histórico, com fotos belíssimas e fatos super-interessantes, alguns, porém, podem-se dizer cômicos (ele não gosta que fale, mas ficou paralisado de medo na hora de descer uma das pirâmides da cidade de Chichén Itzá). Enfim, ele se tornou o nosso enviado (“sem trocadilhos”, ressalta) especial, contando ele mesmo parte desta viagem e revelando um pouco da história dos locais que visitou.


Especial Seis destinos e muitas descobertas

THOMAS, NA CIDADE DE UXMAL A técnica da laje já estava presente nas construções

1ª parada Ao chegar em Valladolid, nossa primeira parada, situada na metade do caminho entre Mérida e Cancun, o que encontramos é uma cidade pitoresca, com sabor colonial excepcional. A cidade foi construída em 1823. Nela começou a Guerra de Castas, em 1847, assim como faiscaram as primeiras luzes de independência do México. 2ª parada De lá partimos para Chichén Itzá, uma cidade com três mil anos (987 a.C.). É um privilégio estar diante de um castelo que, no ano passado, foi considerado patrimônio da humanidade e eleito oitava maravilha do mundo. Outra característica incrível do lugar é melhor percebida no dia 21 de setembro, quando a luz do sol, refletida na ponta da pirâmide, faz aparecer, nas laterais dela, uma sombra na forma de uma serpente emplumada. As serpentes e o jaguar eram cultuados pelos Maias como deuses. Isso, inclusive, influenciou no nome dado à cidade de Cancun, que significa, em língua maia, “ninho de víboras”. Mas o curioso é entender como aquela civilização, naquela época, conseguiu atingir um conhecimento arquitetônico tão avançado, a ponto de calcular perfeitamente a posição da pirâmide em relação ao sol para que tal desenho fosse formado...

e conta suas aventuras na península mexicana O lugar A Península de Iucatã se tornou um dos centros turísticos mais importantes do mundo, tendo conseguido preservar suas belezas naturais e sua cultura ancestral, representada principalmente em cidades Maias e Astecas, como Tulum, Itzá, Chichén, civilizações fundadas no período pré-colombiano. Na Península do Iucatã, os Maias desenvolveram um tipo de orga-

nização, onde cada centro urbano possuía autonomia e comandava as comunidades camponesas ao seu redor. Nossa viagem começa em Cancun. De lá, percorremos pelo menos seis des sas cidades históricas (Valladolid, Chichén Itzá, Ticul, Oxkutzcab, Kabah e Uxmal), mergulhando nos mistérios e curiosidades do passado delas, na cultura de seus povos e nas belezas naturais que guardam. CIDADE, Dezembro de 2007

3ª parada Ticul foi meu terceiro ponto de parada. A 100 km ao Sul de Mérida, e cujo nome significa “lugar de serras”, a cidade é conhecida por típicas casas maias, com tetos de palha. Além disso, existe outra peculiaridade: o táxi-bicicleta, um meio de transporte comum do lugar. Ticul é uma cidade rica em argila, que mantém sua produção artesanal até hoje. Nela, a língua maia ainda é preservada. 4ª parada Após ela, conhecemos a cidade de Oxkutzcab. É o cinturão cítrico do Estado, fundado em 1841. O mais espantoso desse lugar é seu mercado de frutas e legumes, onde nada se compra; tudo se troca. Ali existe um grande intercâmbio de culturas regionais. 5ª parada Mais 70 km de estrada, chegamos a Kabah e às suas ruínas. Kabah é uma cidade rica em arquitetura, conhecida por deuses 33


Uxmal Grandiosidade para os reis Pirâmide de Chichén Itzá. Subir foi fácil; mas para descer... Uxmal Casa dos sacerdotes, exemplo de preservação: as construções são protegidas pelo Patrimônio Histórico do México Cabanas para o povo Thomas Sastre: “A cultura Maia permanecerá em seu lugar de origem” Afrescos talhados em pedra na cidade de Kabab 34

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Especial da fertilidade. Conta a História que seu rei contava com uma população de castas nobres, na qual mantinha-se a ordem de casamento poligâmico. Existia também o Templo das Virgens. A própria cama do rei era forrada por pétalas de rosa, onde ele podia ter relação com diversas mulheres. A principal pirâmide da cidade foi destruída pelos conquistadores, à procura de ouro. Há três mil anos mantém-se viva essa riqueza arquitetônica, em que as paredes mostram esculturas de jaguares com rabo de fora. Última cidade visitada Por último, visitamos a cidade de Uxmal, cuja civilização pode ser considerada uma das mais avançadas por ser a única que conhecia a técnica da laje, cobiçada e desconhecida pelos outros vizinhos. Uxmal fica a apenas nove quilômetros de Kabah e é conhecida como a cidade construída três vezes. Nela encontra-se o Castelo do Adivinho, o Palácio do Governador, o Templo das Pombas, além do Quadrângulo das Donzelas Virgens. Império rico e próspero, a cidade foi construída há três mil anos (985 a.C.).

Impressões da viagem Na opinião de Thomas, que é um grande apaixonado pela História, existe muito a ser revelado e desmistificado em cada lugar como esse. Para ele, muito do que se fala sobre a civilização maia é baseado em conceitos colocados e forçados pela Igreja Católica. “A Igreja e os conquistadores espanhóis que saíram de Cuba e chegaram a Ilha de Cozumel ficaram sete meses lá. Aprenderam a língua maia e dividiram-se em duas conquistas. Hernán Cortés e Pedro Alvarado foram conquistar o império asteca. Diego de Landa e Francisco Córdoba, em expedição de 1517, saem de Cozumel para conquistar o território que hoje constitui o México, até a América do Sul, saqueando e destruindo civilizações milenares. Para a opinião pública, usaram como desculpa, sobre a destruição e o roubo da civilização, da riqueza que a Igreja ‘herdou’, de que foi uma operação punitiva para acabar com os rituais de sacrifícios humanos. Uma grande mentira. O ritual maia é similar ao judaico. Enquanto os judeus sacrificavam cordeiros, os Maias sacrificavam cachorros do mato, que eram comuns na região”, explica Thomas. Ainda segundo ele, não só o Brasil, mas outros países, inclusive de primeiro mundo, tem muito a aprender com o povo mexicano. “Esta cultura milenar hoje está sendo catalogada por arqueólogos e técnicos do patrimônio histórico do México, já que há a cobiça de outros países para decorar museus. O povo mexicano, diferente do nosso, tem consciência de que a preservação do patrimônio será turisticamente rentável. Tem zelo, ao contrário do acontecido com o Pathernon, todo roubado. Hoje, para apreciar o patrimônio da Grécia, só visitando o Museu de História Natural de Nova Iorque ou o Museu de Londres. A cultura maia, no entanto, permanecerá em seu lugar de origem”, ressalta. CIDADE, Dezembro de 2007

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César Valente

Inaugurado Aterro Sanitário

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lixão de São Pedro da Aldeia, um dos maiores problemas ambientais e sociais do município, está com os dias contados. Com a presença do governador do Estado, Sérgio Cabral, de prefeitos da região e também do deputado estadual Alair Corrêa(PMDB) e do deputado federal Paulo César (PR) foi inaugurado em novembro o primeiro aterro sanitário privado do Estado do Rio de Janeiro. Numa área de aproximadamente um milhão de m2, no bairro Alecrim, no município de São Pedro da Aldeia, o aterro será administrado pela empresa Dois Arcos, criada, especialmente, para gerenciar o acúmulo dos resíduos sólidos gerados pelos municípios da Região dos Lagos. A Dois Arcos investiu, inicialmente, mais de R$ 2 milhões de reais em obras, compra de material e contratação de pessoal, priorizando, segundo a empresa, os fornecedores da própria região. Além disso, a empresa prevê, também, a implantação

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Governador Sérgio Cabral descerra a placa de inauguração junto com o prefeito Paulo Lobo, diretores da Dois Arcos e autoridades de um cinturão verde no entorno do aterro, utilizando plantas nativas para eliminar o efeito estético negativo. Caso o contrato com todos os municípios participantes do Consórcio Intermunicipal Lagos São João (CILSJ) seja

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concretizado, a previsão é de que o aterro receba cerca de 500 toneladas de lixo por dia, sem contar com o atendimento à iniciativa privada. O aterro tem uma capacidade de armazenar de forma adequada o lixo da região por cerca de vinte anos.


Gente

César Valente

Prata da Casa

PapiPress

Professor, ator e diretor do Teatro Municipal de Cabo Frio, Guilherme Guaral, 39 anos, está vivendo seu momento de fama. Devido a sua pequena – mas marcante pela comicidade – participação no filme “Tropa de Elite”, sucesso de público nos cinemas e de vendas na pirataria, ele não pára de receber elogios, pedidos de autógrafo entre outras tietagens. Essa foi a estréia dele nas telonas. Antes, o ator, formado pela Fundação Calouste Gulbenkian, no Rio, fizera diversas participações em novelas da Globo. Para Guaral, no entanto, o filme teve uma contribuição maior para sua carreira. “É cinema! E a pirataria ajudou. Acho que de certa forma foi bom, porque o filme estrapolou seu nicho, atingindo também um público que não costuma ir ao cinema. Para mim, pessoalmente, isso repercutiu positivamente. Para a Região dos Lagos, também, por ter um ator local em um filme recorde de público”, afirma. No momento, Guaral concentra suas energias na entrega do Prêmio Cabo Frio de Teatro e Dança, prevista para acontecer no dia 22 de dezembro. Para janeiro, mais trabalho à vista. Tem início outra edição do Projeto Verão, que já tem confirmada a apresentação de espetáculos como “O Auto dos Angicos”, com Marco Palmeiras e Adriana Esteves, o musical “West Side History”, “Minha Mãe É Uma Peça”, “O Analista de Bagé” entre outros.

Os donos da festa Na entrega dos títulos de Cidadão Buziano concedidos pela Câmara de Vereaodres de Búzios, no Hotel Atlântico no dia 10 de novembro último, dois personagens locais roubaram a cena: o ex-prefeito Mirinho Braga foi ovacionado pelo público ao receber seu diploma e Ruy Borba Filho, editor do Jornal Primeira Hora, homenageado pelo verador Messias, também mostrou força popular sendo longamente aplaudido.

Mirinho Braga

Ruy Borba Filho e o vereador Messias

Cristiane Oliveira é multi-função. Dona de um currículo invejável essa baiana-buziana, tem se destacado em tudo que faz. Velejadora, Instrutora, articulista, promotora de eventos, gerente de pousada, dona de loja e, agora, candidata a vereadora. O seu país é o mar, e não abandona, e nem é abandonada, pela família da Vela. Como já disseram Torben Grael e Marcelo Ferreira, em entrevista - “A Cristiane é a nossa referência náutica em Búzios”. Todos os eventos que acontecem na cidade, ela é procurada para organizar a confraternização entre os velejadores, jornalistas e patrocinadores. Foi ela a criadora da 1ª Escola de Esportes Náuticos em Búzios, a Happy Surf, na praia Rasa, com o objetivo de atrair e desenvolver o turismo esportivo náutico. Mais tarde, o inevitável: o então Prefeito Mirinho Braga a levou para exercer o cargo de Chefe da Divisão de Esportes Náuticos, da Secretaria de Esportes. Apenas isso já seria o bastante, mas Cristiane resolveu encarar uma outra briga. Ouviu os apelos dos muitos amigos e resolveu disputar as eleições municipais concorrendo para a Câmara de Vereadores. Ela acredita que chegou o momento de usar a sua experiência e seu amor à cidade que escolheu para viver, para ajudar o município a superar as dificuldades do momento. CIDADE, Dezembro de 2007

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ALÉM

dos números Polícia Militar apresenta números que demonstram controle da violência na Região dos Lagos. OAB/Cabo Frio contesta a estatística e diz que autoridades mascaram os fatos. 38

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PapiPress

Capa

“A violência não cresceu, a eficácia da polícia é que melhorou”, diz comandante. Por Danielle Carvalho Colaboração de Roberta Costa

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BURACO DO BOI - CABO FRIO Tachada de violenta, comunidade também sofre com a insegurança.

inte e dois de julho de 2007. Por volta das duas horas da manhã, a violência transforma a vida da família de Ettore Napolitano num verdadeiro pesadelo. Dono da pizzaria 21, no bairro Itajuru, no centro de Cabo Frio, ele foi morto com dois tiros na cabeça. O empresário de 43 anos se transformou em protagonista de um dos crimes mais bárbaros ocorridos nesse ano na Região dos Lagos. A mulher dele, Ângela Turrini, escapou por pouco da morte. Os dois foram rendidos por três homens, minutos depois que fecharam o estabelecimento, e levados para a zona rural de São Pedro da Aldeia. Os bandidos queriam dinheiro, e Ettore se recusou a entregar o caixa do dia. Pagou com a vida. Como queima de arquivo, os marginais tentaram matar Ângela. Ela foi atingida com um tiro no rosto, que perfurou os dois lados da face, mas se fingiu de morta até que os assassinos fossem embora. Quase quatro meses depois, a polícia conseguiu chegar até os dois culpados. Um está preso no Instituto Padre Severino, no Rio de Janeiro; o outro morreu em troca de tiros com a polícia, e o terceiro acusado continua foragido. O caso de Ettore Napolitano é, infelizmente, apenas mais um nas estatísticas. Embora a Polícia Militar confirme através de números que a violência em Cabo Frio está diminuindo quando comparada com as grandes cidades, ela ainda assusta. Para o coronel Adílson de Oliveira Nascimento, comandante do 25° Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo policiamento de sete municípios da Região dos Lagos (Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo, Cabo Frio e Armação dos Búzios), não é a violência na região que tem aumentado, mas a repressão ao crime. E a principal atuação é contra o tráfico de drogas. Segundo o balanço divulgado pela PM, CIDADE, Dezembro de 2007

somente em julho deste ano foram apreendidos 8,254 kg de maconha, contra apenas 661 gramas no mesmo mês em 2006. Em agosto passado, foram 430g da droga, contra apenas 15,98g do mesmo período do ano anterior. Em setembro, a Polícia Militar conseguiu apreender 3,597 kg; no ano passado foram apenas 488g. “Temos feito apreensões de drogas diárias por toda a Região dos Lagos. É por isso que eu gosto de destacar que a Polícia Militar trabalha no varejo e não no atacado. Quando registramos a apreensão de mais de oito quilos de drogas, estamos nos referindo ao trabalho de um mês inteiro. Na revista do dia-a-dia, na abordagem diária. Quem trabalha no atacado é a polícia investigativa, que são as polícias Civil e Federal”, afirmou o coronel, acrescentando que mesmo com esses números consideráveis, ainda há muito para ser apreendido por toda a Região dos Lagos. O aumento populacional e o crescimento da periferia dos sete municípios abrangidos pelo Batalhão são alguns dos fatores creditados pelo comandante como os causadores do crescimento da violência. Ainda de acordo com o coronel Adílson, a queda nos registros de homicídios devese ao fato do grande número de prisões efetuadas a pessoas que já tinham prisão preventiva decretada. “Somente neste ano, até setembro, conseguimos prender 77 foragidos da polícia, todos eles envolvidos com o crime e entre esses muitos acusados de homicídio. Essas pessoas estavam com pendências judiciais e com mandados de prisão, até mesmo condenados”, explicou o comandante, acrescentando que não há registro dessas prisões no ano passado, pois até então não existia a preocupação de documentar esse tipo de trabalho. Com a chegada do fim de ano e o aumento do movimento nos centros comerciais, o comandante lembra que a partir deste mês entra em ação a Operação Papai Noel, que consiste na redução do número de agentes no trabalho administrativo no Batalhão para aumentar o número de policiais nas ruas. “Ficamos somente com o número mínimo de policiais no trabalho interno. Neste período de alta temporada, também não concedemos férias para aumentarmos o policiamento por toda a região”. O 25º BPM conta com efetivo de 777 homens, que atuam de acordo com as escalas, porque o trabalho da PM é feito durante 39


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César Valente

as 24 horas do dia. Um grande problema registros, o número de apreensões de armas enfrentado pelo Batalhão da PM, que não é entre julho e setembro deste ano quase exclusivo da unidade da Região dos Lagos, dobrou em relação ao mesmo período é o sucateamento da frota, o que atrapalha do ano passado. Em relação à apreensão o trabalho dos policiais. de cocaína, em setembro passado foram “Aqui na região temos um agente com- apreendidos 266g, 44g a mais em relação plicador muito grande que é a degradação a 2006. Em agosto deste ano, foram 307 dos veículos, porque estamos na orla e so- g, contra 272 de agosto de 2006. Em Julho fremos a ação muito forte da salinidade, da deste ano, os policiais conseguiram tirar maresia. Além disso, ainda de circulação 392g, 90g a existe o desgaste natural por mais do que o registro de conta do trabalho intenso julho do ano passado. Os que fazemos diariamente”, números de mortes por comentou o comandante, violência também tiveram acrescentando que para queda significativa, de que o trabalho do 25º BPM acordo com os números fosse ainda mais eficiente, divulgados pelo 25º Bataprecisaria de que todas as lhão. Em setembro deste 56 viaturas da unidade estiano, 14 pessoas morreram vessem em perfeito estado assassinadas na Região de funcionamento. dos Lagos. No mesmo “Temos essas viaturas, mês, no ano passado, esse mas não podemos contar CEL. ADÍLSON DO NASCIMENTO número chegou a 29. Em com todas elas. Com esse Comandante do 25º BPM agosto deste ano, fora renúmero de veículos rodando gistrados 16 casos de hopor toda a Região dos Lagos, junto com micídios, 20 a menos do número de mortos o policiamento ostensivo a pé, nossos re- em agosto de 2006 pelo mesmo crime. Na sultados seriam ainda melhores”, disse o comparação do mês de julho entre os dois coronel, que está em sua segunda passagem anos, a diferença ficou na queda de dois assassinatos. pelo comando do 25º BPM. O número de autuações é ainda mais As explicações vêm dos números expressivo. Na comparação dos três meses O esforço nos trabalhos dos policiais (de julho a setembro), nos dois anos, o militares na Região dos Lagos tem surtido aumento é de mais de 40 autuações, o que efeito, pelo menos é o que revela o levan- revela que o policiamento na Região dos tamento do 25º BPM. De acordo com os Lagos está mais eficaz.

OS NÚMEROS PRISÕES EFETUADAS Mês / Ano 2007 Setembro 93 Agosto 83 Julho 83

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2006 51 43 54

AUTUAÇÕES Mês / Ano 2007 Setembro 96 Agosto 94 Julho 94

2006 48 43 44

APREENSÃO DE COCAÍNA Mês / Ano 2007 2006 Setembro 266 g 222 g Agosto 307 g 272 g Julho 392 g 302 g

APREENSÃO DE MACONHA Mês / Ano 2007 2006 Setembro 3,597 kg 488 g Agosto 430 g 15,98 g Julho 8,254 kg 661 g

HOMICÍDIOS Mês / Ano 2007 Setembro 14 Agosto 16 Julho 22

ARMAS APREENDIDAS Mês / Ano 2007 2006 Setembro 32 17 Agosto 32 25

2006 29 36 24

CIDADE, Dezembro de 2007


Danielle Carvalho

Jogando para o Turismo Presidente da OAB reforça afirmativa de que números da polícia não são reais Apesar da Polícia Militar demonstrar com números que a violência na Região dos Lagos está diminuindo, Eisenhower Dias Mariano, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, subseção Cabo Frio, insiste com a polêmica de que as estatísticas apresentadas não correspondem à realidade. No estilo “doa a quem doer” e sem temer represálias, o advogado afirma que os índices da violência apresentados são voltados para o turismo e não para o povo. EISENHOWER DIAS MARIANO, presidente da OAB/ Cabo Frio

São números que não condizem com a realidade em que vivemos “Eu continuo pensando da mesma maneira. A verdade é que essa estatística precisa ser real. Essa estatística é feita exclusivamente para agradar aos governantes, para não desagradar o turismo. São números que não condizem com a realidade em que vivemos. Sabe o que uma autoridade ganha como prêmio se revelar os números verdadeiros? Uma transferência para Bom Jesus de Itabapoana, para lugares bem distantes onde ninguém quer ir. Sabemos que existe esse problema todo é preciso que a população se conscientize disso. Temos um caso aqui de uma pessoa

que foi agredida na rua, cujo acusado, segundo informações, seria um policial. Ao ir à delegacia registrar a queixa, um policial militar ameaçou dar um tapa na cara dele. Enfim, ele não conseguiu fazer a ocorrência. Isso é uma coisa triste demais e que existe”, diz o advogado. Para ele, o Poder Público, de uma forma indireta, tem se rendido à criminalidade pelo simples fato de não agir com mais rigor: “Eu acho que os municípios da nossa região não são vocacionalmente violentos. CIDADE, Dezembro de 2007

Temos uma violência que antes era migratória, com bandidos que vinham para cá em época de férias, feriados, Natal e Ano Novo. Hoje essa violência está instalada aqui. Para mim, isso se deve também ao crescimento das cidades e, principalmente, a facilitação do Poder Público no que diz respeito à necessidade de coibir o avanço da criminalidade. Há pouco tempo, eu passei um período em Belém do Pará e percebi que, também lá, a questão da violência é muito problemática. Existe como no nosso Estado, mas ela não aparece tanto, porque 41


Capa a imprensa local não divulga, não mostra os índices. A mídia também está envolvida nisso. Mas os culpados pela violência somos nós que vemos o Poder Público olhar com desinteresse para essa questão crucial e não responder à altura. O Estado tinha que oferecer policiamento à altura, educação, saúde, habitação e trabalho para que as pessoas possam ter com que se ocupar.

Infelizmente, muita gente entra na vida do crime porque não tem nenhuma opção de trabalho, então resolve ser bandido”. Eisenhower conta que a OAB está fazendo sua parte, se infiltrando nas comunidades carentes e fazendo trabalhos voltados para o social: “Nós, da OAB - Cabo Frio, abrimos esse leque de oportunidades para a classe

carente, mas, infelizmente, criamos um impasse com alguns órgãos públicos, por não nos apoiar nessa empreitada. Fomos para dentro das favelas para realizar o nosso trabalho e nunca conseguimos que a prefeitura nos cedesse uma estrutura, nem mesmo algum tipo de segurança aos advogados, aos estagiários, médicos e enfermeiros que nos acompanham nessa

Mal que não escolhe as vítimas PapiPress

PapiPress

MARIA RAFAELA

Falaram que o rapaz que estava com ele (Cobá) estava com droga, e aí levaram ele também WILLIAN BRAGA RODRIGUES

VIELAS DO BURACO DO BOI Favela abriga mais de cem famílias

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CIDADE, Dezembro de 2007

Os policiais estão confundindo os moradores com os bandidos PapiPress


que realmente necessitam de ajuda. O mais absurdo disso é que a prefeitura, o Estado e a polícia não dão menor cobertura a esse trabalho que estamos desenvolvendo”, afirma o advogado. Para Mariano, o sistema falha quando acha que colocar um bandido na prisão vai resolver o problema: “Não adiantar prender, não adianta a

s

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Favela do Buraco do Boi sofre violência social e policial Willian Braga Rodrigues ciceroneou a reportagem de CIDADE pelas vielas estreitas da mais urbana das favelas de Cabo frio. Incrustada na área mais valorizada da cidade, a poucos metros da Praia do Forte, a comunidade sobrevive espremida em becos sem calçamento e saneamento. Willian explicou que o lugar é considerado como perigoso, mas diz que isso não é verdade. “Aqui não tem homicídio, violência. Já teve, mas agora não tem mais”, defende. Ao percorrer as vielas, chama a atenção o grande número de carrinhos para venda de mercadorias na praia e de crianças pequenas correndo ou andando de bicicleta. Os moradores se consideram trabalhadores e estão apreensivos com a notícia de que a favela será retirada do local. “Não adianta tirar a gente daqui. A gente vai viver do quê? Todo mundo aqui trabalha na praia. Vão colocar a gente aonde?”, questiona. Willian também reclama da violência da polícia, que, segundo ele, entra na favela várias vezes por dia, sem respeitar as crianças e agindo com violência com os moradores. “Os policiais estão confundindo os moradores com bandidos. Tem um menino, o Cobá, que é professor de surfe e está preso sem ter feito nada. Só porque a gente mora na favela é tratado como bandido. A gente mora aqui por necessidade. Nós somos tratados como bicho, eu fico triste com isso.” Maria Rafaela, avó de Cobá, explicou que a polícia confundiu seu neto com bandidos e o levou preso. O fato aconteceu há um mês e até agora não existe solução para o caso. “Ele está preso em Araruama. Meu neto dá aula de surfe para três rapazes, e depois da aula pegaram ele. Falaram que o rapaz que estava com ele estava com droga, e aí levaram ele também. Já vai fazer um mês. Não vi mais ele”, relata.

O Brasil é campeão mundial em violência contra os homossexuais, e essa estatística vai da simples agressão verbal até o homicídio

Justiça condenar. Quando coloca o indivíduo dentro do presídio, ele tem um contato maior com a criminalidade, ele aprende a ser mais marginal ainda. Os presídios que nós temos não recuperam ninguém. Se o governo fizesse um trabalho social de prevenção, hoje não estaríamos sofrendo com tanta violência.

César Valente

luta. Temos um grupo de advogados, todos voluntários, que prestam assistência jurídica aqui dentro da entidade. Funciona em plantão diário, ou seja, cada dia tem um grupo de advogados, que orienta a população carente. E esses voluntários nos acompanham nos trabalhos fora da OAB, nos bairros e nas escolas, saímos dos escritórios para atender a essas pessoas

Desabafo A violência não tem limites, não respeita raça, cor ou opção sexual, e neste último quisito, a Região dos Lagos também está enfrentando sérios problemas. Claúdio Lemos, presidente do grupo Cabo Free, é quem levanta a bandeira na luta contra a homofobia: “O Brasil é campeão mundial em violência contra os homossexuais, e essa estatística vai da simples agressão verbal até o homicídio. Segundo dados coletados pelo antropólogo Luiz Mott, um GLBT é assassinado a cada dois dias em nosso país. Só em 2006, foram 160 casos documentados”, informou. Em Cabo Frio, no ano passado, dois travestis foram assassinados. Neste ano, há cerca de um mês, mais uma morte brutal foi registrada na cidade. O turista Geraldo Leonardo, de 27 anos, que desapareceu após uma balada numa boate GLS, no bairro Ogiva, foi encontrado, dez dias depois, morto, com um tiro na cabeça. “Algumas pessoas ainda relutam em entender que esses casos foram motivados pela homofobia. No último feriado, eu e meu companheiro, ao sairmos de um bar gay, fomos agredidos por um assaltante que, certamente, estava à espreita no local na expectativa de roubar os ‘tão bem sucedidos’ homossexuais. Essa imagem que a mídia teima em vender dos gays nos coloca em uma posição de total vulnerabilidade e na mira dos criminosos. As paradas gays transformaram-se num celeiro de trombadinhas e a cada ano essa situação nos preocupa mais. Máquinas digitais, celulares e carteiras são roubadas por atacado nos eventos em que participamos. Até quando isso vai continuar acontecendo?”, questionou Cláudio Lemos.

CIDADE, Dezembro de 2007

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CIDADE, Dezembro de 2007


Turismo

JÓIAS

do passado

Casarões do ciclo da cana-de-açúcar viram atração e impulsionam o Turismo Cultural Fazenda São Manuel em Quissamã CIDADE, Dezembro de 2007

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Turismo Roberta Vitorino / Fotos Cezar Fernandes

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cidade com uma das maiores receitas per capita do país vem passando por transformações significativas ao longo de sua história. Da riqueza espetacular proporcionada pelo ciclo da cana-de-açúcar, passando pela decadência e estagnação à partir da crise de 1929, ao ressurgimento econômico, nos anos 70, com a criação do Proálcool e as descobertas de petróleo na Bacia de Campos, Quissamã, hoje com uma população em torno de 16 mil habitantes (IBGE), já viveu de tudo em sua história. Com 45 Km de costa, o município é beneficiado com repasses relativos aos royalties do petróleo, que, apenas neste ano, chegavam a R$ 64.470.961,00 em outubro, segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP). Com uma economia bastante diversificada, o município tem usado a “mesada” do petróleo para criar sistemas de sustentabilidade. E uma dessas alavancas é o turismo cultural, aproveitando o enorme patrimônio cultural representado pelas sedes das fazendas centenárias do ciclo da cana-de-açucar. Quando falamos de turismo em Quissamã, a primeira imagem que nos vem à cabeça são os casarões. Mais do que belos lugares para visitação, essas casas, que foram habitadas e freqüentadas por nobres à época do ciclo da cana–de-açúcar, ensinam muito da cultura local. Esse é um dos segredos da cidade: em Quissamã, é possível conhecer as raízes de perto, sejam quais forem elas. Desde as casas que abrigaram aristocratas às senzalas onde os escravos moravam e onde seus descendentes permanecem. De acordo com a chefe do departamento da secretaria de Turismo, Dalila Mello, o trabalho para conscientizar os donos dos casarões a respeito da importância para o turismo tem sido lento. Há dois anos, o município iniciou esse plano, em parceria com o Instituto Preservale, que fez um importante trabalho junto aos proprietários de casarões e comunidades da região do vale do Ciclo do Café durante anos. Em Quissamã não foi diferente. Durante esse tempo, o instituto buscou capacitar guias, proprietários, estudantes de turismo, funcionários da prefeitura e a própria população a respeito da importância da preservação da história local. “É importante que o turismo chegue num ritmo lento e criterioso”, diz ela. A 46

justificativa está relacionada à preocupação dos donos dos casarões abrirem suas casas para visitação. Enquanto o “clima” não contagia todos os moradores, muitos já contam suas histórias e expõem parte da história local em casarões particulares como o Solar São Manuel, Santa Francisca, São Miguel, Casa da Família Silva e Chácara São João. “Isso só acontece porque existem muitas pessoas apaixonadas pela história trabalhando juntas”, conta. Para a chefe do departamento de turismo, ainda há muito a ser mostrado. Ela cita a Fazenda Mandiqüera, erguida em 1875 e recentemente tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), vinculado à secretaria estadual de Cultura. “Isso permite que o patrimônio receba investimentos privados de empresas que poderão se beneficiar de leis como a Roaunet e a lei estadual de incentivo à cultura”, explica Dalila. Mandiqüera foi residência de Bento Carneiro da Silva, o Conde de Araruama. É um dos solares mais luxuosos do interior do Estado do Rio. A fachada da fazenda foi inspirada no Petit Trianon, vizinho ao Palácio de Versailles, na França. As grades da porta principal da fazenda são em estilo neoclássico. Outro exemplo citado pela chefe do departamento de turismo é a Casa Mato de Pipa, que esse ano completou 230 amos. Nessa casa nasceu o Visconde de Araruama, José Carneiro da Silva. Em 1847, o imperador Dom Pedro II veio ao município e se hospedou na Casa Quissamã. Na ocasião, aproveitou para visitar a Casa Mato de Pipa. O antigo sobradinho, construído em 1877, foi adquirido pela prefeitura em 2005. O prédio foi reconstituído respeitando as características originais e hoje abriga o Centro Cultural Sobradinho. O Complexo de Machadinha também faz parte do roteiro cultural do município, já que a casa grande, hoje em ruínas, foi construída em 1867. A fazenda hospedou por diversas ocasiões o Duque de Caxias, que era sogro do Visconde de Ururay. Mas a maior atração da Fazenda Machadinha – hoje propriedade do município – são as senzalas, conservadas pelos descendentes dos escravos que ainda moram na vila. O ambiente histórico, composto pelas ruínas da casa grande, três alas de antigas senzalas, armazém e capela, foi tombado pelo Inepac em 1978. “A comunidade está pleiteando junto ao Incra a titularidade de CIDADE, Dezembro de 2007

FAZENDA MANDIQÜERA, erguida em 1875 e tombada pelo Inepac

Quando falamos de turismo em Quissamã, a primeira imagem que nos vem à cabeça são os casarões comunidade quilombola”, conta a chefe do Turismo. De acordo com Dalila, o mérito de todo o sucesso conquistado até então pelo município em relação ao turismo cultural é dos próprios munícipes, que se orgulham de sua história e guardam documentos, mobílias, louças, fotos e objetos que hoje, mais do que enfeitar suas casas, contam a história de um povo orgulhoso.


Fazenda Santa Francisca

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Turismo

Museu Casa de Quissamã é um dos principais produtos culturais A casa que foi construída em 1826 pelo Visconde de Araruama recebeu o Imperador Dom Pedro II por diversas vezes. A intervenção da prefeitura, após aquisição do patrimônio arquitetônico em 2002, permitiu a transformação do solar no Museu Casa de Quissamã, inaugurado em 12 de junho de 2006. O trabalho para reconstituir o ambiente foi árduo. Restauração de móveis e fotos e, ainda, a busca por mobílias semelhantes àquelas usadas na época, para retratá-la da forma mais real possível. Os pisos e telhados estavam bastante danificados e havia também a dificuldade gerada pela falta de registros. Em relação às fotos e à história retratada nos ambientes do Museu, foi feito

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Trabalho árduo para retratar o século 19

um trabalho criterioso pelo historiador Leonardo Vasconcelos, com apoio da Coordenadora Especial de Cultura e lazer, Alexandra Gomes. O instituto Preservale também ajudou na reconstituição dos ambientes. Atualmente, o Museu Casa de Quissamã e o complexo arquitetônico de

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Machadinha são os principais produtos turísticos da cidade. Para visitar os casarões e o Museu Casa de Quissamã é necessário entrar em contatos com as agências locais. Os endereços estão na Internet, na página da prefeitura: www.quissama.rj.gov.br.


Armação dos Búzios

Obra segue em ritmo acelerado apesar do embargo

Ferradura ganha, mas não leva Texto e Foto de Mônica Casarin

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morosidade da justiça brasileira esta fazendo mais uma vítima: o bairro da Ferradura, em Armação dos Búzios, um dos IPTUs mais caros da Região dos Lagos. Desde o dia 7 de novembro último, a população aguarda a notificação judicial de uma obra embargada pelo juiz da Vara Única de Armação dos Búzios, doutor João Carlos Corrêa. Enquanto a decisão não é publicada e cumprida, a obra de um hotel de 21 quartos, feita dentro de uma área pública e que invade uma avenida e uma lagoa, continua a todo vapor. A obra, do empresário Nelson Xavier, foi embargada, junto com outras coisas, por fazer parte de irregularidades denunciadas pelo Ministério Público Estadual (MPE) - Tutela Coletiva do Núcleo de Cabo Frio. Na Ação Civil Pública, o MP denuncia a venda de áreas públicas no bairro da Ferradura e a ocupação irregular de áreas de proteção ambiental. São quase 600 mil metros quadrados de áreas públicas que estavam sendo negociadas pelos loteadores Sociedade Simples Condomínio do Atlântico (SSCA) e pela Prefeitura Municipal de Armação dos Búzios. O juiz de Búzios entende que a tutela antecipada para a suspensão das vendas e o embargo das obras é necessária. “É sintomático que a inexistência da cadeia sucessória remete à constatação de que efetivamente a área litigada seja de domínio público, o que traz de per si a inicial e imediata impressão de que a verdadeira lesão ocorre já agora e produz seus resultados

nefastos contra a própria cidade e seus habitantes. De forma que aos réus, em tempo algum, caberá alegar perigo ou existência de dano irreversível, posto que o real prejuízo é o que ora se constata.”, diz em sua decisão. No documento, o juiz ainda questiona o poder público por não cumprir sua função de proteção do patrimônio público. “Incabível, ainda, a alegação do ente público de que a alteração do memorial de loteamento deu-se por iniciativa dos próprios condôminos (...) Quer fazer crer o município réu que é completamente lícito e aceitável que mais de 520.000,00 m² de terras públicas sejam apropriadas por mera vontade dos condôminos da sociedade comercial, sem qualquer intervenção impeditiva do ente público”. Além disso, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que foi aberta na Câmara de Vereadores de Búzios logo após a revista CIDADE ter denunciado as invasões ainda não saiu do papel. O vereador Henrique Gomes, autor da CPI, ainda não conseguiu convencer os colegas a darem seqüência à Comissão.

Na decisão liminar, o juiz da Comarca de Armação dos Búzios determina: A suspensão dos efeitos da averbação procedida à margem do memorial descritivo do loteamento Condomínio do Atlântico, em 1978. A suspensão dos efeitos das certidões de constatação e aditamento à aprovação de projeto de loteamento emitida pela Secretaria Municipal de Finanças. O bloqueio dos efeitos dos registros realizados pelo Ofício Único da Comarca de Armação dos Búzios, bem como as conseqüentes matrículas abertas. A paralisação de toda e qualquer obra de construção, ampliação ou reforma em áreas adjacentes aos lotes residenciais do loteamento Condomínio do Atlântico, tendo como referência a planta nº 008, de 1978. A suspensão das licenças e autorizações para obras emitidas pela Prefeitura Municipal de Armação dos Búzios, em áreas adjacentes aos mesmos lotes residenciais descritos na planta mencionada.

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O CIRCO PEDE PASSAGEM

ANTテ年IO CARLOS PAP Diretor do Circo-lo Social

O projeto visa resgatar a dignidade do cidadテ」o atravテゥs da arte e integrテ。-lo ao meio social, mostrando caminhos de dignidade

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Espetáculo

Arte circense sobrevive e se transforma em projeto de inclusão social Augusto de Carvalho / Fotos Tatiana Grynberg Vai, vai, vai começar a brincadeira / Que a charanga vai tocar a noite inteira / Vem, vem, vem ver o circo de verdade / Tem, tem, tem picadeiro e qualidade...”. É com esse espírito que a Companhia Circo-lo de Criação foi fundada este ano. São Jovens de sete a 70 anos que exercem a arte milenar, com vigor e muita força de vontade, apesar da precariedade com que a cultura é encarada no país. Mas, como nem tudo é sempre escuridão, o município de Búzios saiu na frente e trouxe de volta para os palcos a força da arte circense. Tudo começou há cinco anos, quando o então secretário de Cultura de Búzios, Antônio Câmara, entrou em contato com a Escola Nacional de Circo, em busca da criação de uma oficina circense municipal, como forma de inclusão social. A escola indicou o artista e instrutor Antônio Carlos Pap, que permanece na frente do projeto até hoje. A receptividade foi tão grande na comunidade que o projeto, batizado como “Circo-lo Social”, já atendeu a mais de 500 pessoas, na Casa de Cultura da cidade. As oficinas são abertas ao público gratuitamente. O projeto Circo-lo Social é dirigido essencialmente por profissionais provenientes da Escola Nacional de Circo, a única Escola Federal de Técnicas Circenses da América Latina. Somaram-se ao projeto profissionais do teatro, da dança, da música, da ginástica olímpica, de técnicas de alpinismo e cenógrafos. Já em seu primeiro ano, a Companhia Circo-lo de Criação invadiu outros municípios. Foi recebida em Cabo Frio, numa temporada de sucesso de público, realizada em julho, no Teatro Municipal, com o espetáculo “Janelas – um salto além do olhar”. De lá para cá, recebeu vários convites: comemoração dos 10 anos do Teatro Municipal de Cabo Frio, Amigos da Escola (projeto da Rede Globo, que aconteceu no Ginásio Poliesportivo Aracy Machado), Festival de Esquetes, Curta Cabo Frio e a festa do Dia das Crianças, realizada no Tamoio Esporte Clube. “Infelizmente é no trapézio que vive o artista. Tudo é muito difícil e duvidoso quando se depende do poder público e de política para se dar continuidade a trabalhos que mostram resultados. Búzios não é diferente, e todo fim de ano é igual. A dúvida paira no ar, se o projeto vai continuar ou não. Os alunos também sofrem com isso. O projeto Circo-lo Social, como o nome já diz, é para inclusão social. Visa resgatar a dignidade do cidadão através da arte e integrá-lo ao meio social, mostrando caminhos de dignidade. É com essa filosofia que foi criado a Companhia Circo-lo de Criação, para fortalecer a auto-estima. Valorizar o jovem é plantar para colher um mundo melhor no futuro”, diz Antônio Carlos Pap. O projeto Circo-lo Social não é novidade no Brasil. Ele é composto de 22 entidades, formando a Rede Circo do Mundo Brasil, que envolve 15 mil crianças e jovens. A rede mantém relação com o Cirque du Monde do Cirque du Soleil, há 15 anos. A frase “O show não pode parar” é a meta da companhia e do projeto Circolo Social. “Espero que no ano de 2008 possamos abraçar mais espaços e levar a arte milenar para outros municípios da Região dos Lagos. Gostaria de tornar a região um pólo circense de referência nacional. Estamos negociando com os municípios de Cabo Frio e Rio das Ostras, e acredito muito na concretização dos projetos”, declara Carlos Pap, que conclui: “A Companhia Circo-lo de Criação é a única existente na Região dos Lagos e nasceu aqui nessa terra. Os novos artistas se orgulham quando estão em cena, apresentando técnicas milenares. Os olhos brilham de alegria ao ouvirem os aplausos. O circo não pode ficar na lembrança e a brincadeira não pode terminar. Ser criança é um estado de espírito e com certeza é a melhor fase da vida”, finaliza. CIDADE, Dezembro de 2007

Perfume de Gente São tantas as pessoas que merecem o Prêmio Nobel do reconhecimento, que é impossível não errar na escolha. Então, dedicamos este Perfume de Gente ao “Esquadrão do Bem” que são oficialmente as dignas representantes de todas as que trabalham unidas nestas nossas Obras Irmãs. Que esse “Perfume de Gente” feche o ano de 2007 e inicie o “Bissexto 2008”, espalhando no ar o intenso aroma, que as caracteriza em sua incansável caminhada de Amor. Marina Massari

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em gente que tem cheiro de roupinha de neném – dessas que a gente guarda nas cestinhas de rendas e fitas com sachet de alfazema que é pra que o neném logo ao chegar, sinta o primeiro perfume de amor de sua vida... Ao lado delas, a vida ganha um doce balanço de embalo de berço ao som de caixinha de música... Ao lado delas, a gente pode ouvir o canto de um pássaro, pode sentir a quietude de um entardecer numa fazenda antiga, a gente pode ver um riacho nascendo entre as pedras, crescendo na corredeira e cobrindo de espuma branca a queda lá embaixo num eterno milagre... Ao lado dessas pessoas, a gente tem vontade de reencontrar a infância, reler as histórias que enfeitaram o nosso imaginário e, por tê-las ao alcance da nossa sensibilidade, procurar o silêncio de uma capela e dizer: Obrigada Senhor por essa pessoa que tão bem representa o Seu Amor. Essa é você, Tathiana Massari de Andrade, eterno acalanto, eterna lição... 51


Saúde

CÂNCER DE PRÓSTATA A prevenção é o primeiro passo PapiPress

Graciele Soares

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reconceito, machismo e falta de informação são alguns dos fatores que levam muitos homens a não fazerem o exame de prevenção do câncer de próstata. De acordo com o urologista Jeison Martins, estatísticas do ano de 2004, da Sociedade Brasileira de Urologia, mostram que a cada três minutos uma pessoa descobre que tem câncer de próstata e a cada 24 minutos uma morre. Segundo o médico, este tipo de câncer é o mais comum entre os homens e o segundo que mais mata. O médico diz que quem tem histórico da doença na família deve fazer os exames a cada seis meses a partir dos quarenta anos de idade. Quem não tem deve fazer uma vez por ano, a partir dos quarenta e cinco. De acordo com Dr. Jeison, a próstata é uma glândula que se desenvolve ao redor da uretra e abaixo da bexiga. Ela é responsável pela produção de substâncias que fazem parte do esperma masculino. Quando o câncer está na fase inicial, ele não causa sintomas, por isso o importante é fazer os exames preventivos. “Os exames são muito simples. São dois exames básicos, o de PSA (Antígeno Prostático Específico), que é realizado por meio do exame de sangue, e o do toque retal, onde buscamos alguma alteração da próstata, como, por exemplo, nódulos. São esses dois exames em conjunto que dão indícios para que a gente faça o diagnóstico do câncer de próstata”, diz Dr. Jeison. Segundo o urologista, no caso de alteração nos exames, o próximo passo é a biopsia com ou sem a utilização da ultra-sonografia. “Se o câncer não for diagnosticado no início, ele pode se alastrar para outras partes do corpo. É fundamental fazer os exames e, se detectada a doença, o tratamento. Para tratar o câncer de próstata, nós indicamos, na maioria das vezes, a

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JEISON MARTINS - Urologista

Existem muitos mitos comuns entre os homens. A maioria acha que o exame dói, o que é mentira, porque ele é indolor e rápido

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cirurgia, que tem um índice de cura muito grande, em torno de noventa por cento. Agora, se a pessoa não puder ser submetida ao tratamento cirúrgico e tiver um problema cardíaco, nós indicamos um outro tipo de tratamento, que é a radioterapia da próstata”, ressalta o médico. “Caso o câncer não esteja localizado, o tratamento se torna mais difícil, e a chance de cura praticamente não existe. Neste caso só podemos fazer o bloqueio desse tumor com algumas técnicas e tratamentos”, afirma. Armando Neves Cardoso, de 70 anos, operou um câncer de próstata há cerca de dois meses. Os exames preventivos que ele faz há vinte anos não impediram a doença de se manifestar, mas deram a ele a chance de cura. Sua esposa, Dona Lucy de Souza Neves Cardoso, de 63 anos, sempre incentivou o marido a se cuidar. “Da mesma maneira que a gente faz o preventivo é preciso que os homens façam também. No caso de meu marido, foi descoberto no início, quando a chance de cura é praticamente total. Eu acho que é o caso de incentivar realmente, acompanhar, estar junto”. O médico diz que alguns hábitos de vida mais saudáveis são fundamentais para auxiliar na prevenção, como, por exemplo, incluir na alimentação vegetais e o licopeno (encontrado em frutas de polpa vermelha e no tomate), reduzir a quantidade de carne vermelha consumida e evitar gorduras. “Existem muitos mitos comuns entre os homens. A maioria acha que o exame dói, o que é mentira, porque ele é indolor e rápido. Alguns também acham que o exame não precisa ser feito sempre, o que também é mentira”, esclarece o urologista. Armando se recupera bem da cirurgia que fez. Para ele, uma nova etapa recomeça. “O mais importante é deixar o preconceito de lado e fazer o exame, porque ele pode evitar um mal maior”, diz ele.


Yázigi apresenta sua Cantata de Natal

As cores e os sons do natal apresentados na Rua Silva Jardim

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Alunos do Yázigi se apresentam na escadaria da escola

Divulgação

o dia 6 de dezembro, às 19h, os alunos de Kids e Teen Yázigi fazem a já tradicional apresentação da Cantata de Natal, este ano em sua 3ª edição. O momento é a culminância do trabalho de um ano de pais e professors que preparam os alunos para a apresentação de músicas natalinas. Maria Emília, diretora do Yázigi Cabo Frio, conta que o evento surgiu por acaso. “As aulas de música fazem parte do curriculo, e em todas as datas comemorativas sempre usamos fazer as apresentações de canto. Como nosso espaço era pequeno para os ensaios, começamos a ensaiar na rua, e foi um sucesso. As pessoas paravam para ver, os lojistas ficavam encantados. Então, resolvemos fazer a Cantata de Natal em frente ao curso, para que as pessoas que passam pela rua possam ouvir’, explica. Apesar de “recente”, a Cantata de Natal do Yázigi já é um sucesso e a rua Silva Jardim, onde fica o curso, localizada bem no centro da cidade de Cabo Frio, fica lotada. Perto de cem alunos, dirigidos pelo professor José Vinícius Cardoso - professor de música doYázigi -, vão apresentar as tradicionais canções natalinas e também outras canções populares.

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Ponto de Vista

Choveu, alagou, engarrafou, desabou, matou. E daí?

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país assiste, lava as mãos, mostra as palmas e diz, “Aqui estão as rugas de preocupação com o que acontece no Rio de Janeiro”. Espera-se o quê, numa cidade que tem mais de seis milhões de habitantes comprimidos numa área onde só cabem três milhões? Espera-se o quê, numa cidade cuja área plana está a um metro e pouco acima do nível do mar, a água da chuva, o esgoto não tendo para onde ir? Espera-se o quê, numa cidade, como todas no Brasil, dividida em guetos ocupados pelas classes média e alta que não dispensam a empregada, o faxineiro, o zelador, o lavador de carro, a babá, a cozinheira, a passadeira, o flanelinha, o limpador de vidros, o manobreiro, o ambulante, o camelô, o entregador de refeição? E, claro, o fornecedor de drogas. Espera-se o quê, numa cidade onde dois milhões são forçados a se pendurarem nos morros que circundam aqueles guetos. São aquelas empregadas, diaristas, faxineiros, lavadores de carros, zeladores, flanelinhas, babás, cozinheiras, passadeiras, lavadores de vidros, fornecedores de drogas, todos os que prestam algum tipo de serviço nos prédios-residências naqueles guetos, onde não se admite atrasos. Intuem os princípios básicos de economia urbana, os fornecedores de droga envolvidos numa disputa na otimização da economia de escala. Espera-se o quê? Que os morros não sejam raspados, tornados lisos, sem proteção para conter a lama que escorre quando chove? Espera-se o quê, numa cidade em que diariamente outros dois milhões de habitantes fazem jornadas de oitenta quilômetros, e até mais, na ida-e-volta de casa até o local de trabalho, apinhados em trens e ônibus? Espera-se o quê, numa cidade onde os filhos e filhas de toda essa gente - que tem renda mensal média de menos de

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seiscentos reais - só conseguem perceber que seu futuro é uma extensão do presente de seus pais? Que digam, humildes, “Sim, Sinhô, sim, Sinhô”? Espera-se o quê, onde não há a empatia necessária entre o residente e a cidade que faz com que dela queira cuidar, dela se orgulhe? Espera-se o quê, numa cidade

em que os planejadores, os técnicos, os sociólogos, os “entendidos” só se manifestam depois que um desastre acontece? Espera-se o quê, quando nas entrevistas a que se assiste no primeiro jornal na TV, pela manhã, depois dos alagamentos, engarrafamentos, deslizamentos, mortes, se oferecem sugestões sobre que medidas adotarem com coisas do tipo, “Na Alemanha se faz assim”, “Em Curitiba se fez isso e aquilo outro”. De que adianta isso? Nada. Que conseqüência tem? Nenhuma. Saber não basta. Espera-se o quê, numa cidade onde essas coisas fazem parte de seu cotidiano? A resposta é nada além de violência movida a ressentimento, os residentes enjaulados nos guetos, o medo imperando, pedindo socorro, “Façam alguma coisa”. Fazer o quê? O país assiste, lava as mãos, mostra as palmas e diz, “Aqui estão as rugas de preocupação com o que acontece no Rio de Janeiro”. Se um apelo deve ser pendurado na estátua do Cristo Redentor, ele é: “Tirem-me daqui!” ERNESTO LINDGREN é sociólogo

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Livros

Octávio Perelló

Reflexos da França Antártica em Búzios Houve certa vez, nos idos do século XVI, intenções de se fundar no Brasil o projeto França Antártica. Certamente que isto se permeava de interesses mercantilistas, pois as intensas investidas na costa brasileira por corsários franceses em busca de pau-brasil acirravam a visão de lucros estupendos. A investida de portugueses e tupiniquins no episódio que ficou conhecido como Massacre dos Tamoios, em Cabo Frio, tinha o nítido objetivo de aniquilar a aliança dos franceses com os tupinambás, que impediam os portugueses de controlar a região. Em sua maioria, os franceses viviam em harmonia com os tupinambás, muitos totalmente integrados ao modo de vida indígena. Este preâmbulo é somente para ilustrar o fascínio dos franceses pelo Brasil, que atravessou décadas e demarcou ícones como a presença da atriz Brigitte Bardot em Búzios, nos anos de 1960. Os ecos desta paixão persistem no tempo, e a prova mais recente é o lançamento, na França, do livro Em route vers Buzios – Comment se débrouiller au Brésil (Publibook, 2007, 255 páginas). Escrito pelo jornalista e escritor francês Patrick Sevila, com prefácio de ninguém menos que a própria Brigitte Bardot, o livro é um relato apaixonado sobre as belezas desta península de encantamentos e descobertas. O autor, que é casado com uma brasileira, revelou que uma noite de autógrafos na Rua das Pedras está em seus planos.

LEIA MAIS LIVROS LEIA MAIS LIVROS LEIA MAIS LIVROS LEIA MAIS A infiel de Irajá “Eu nasci para ser infiel, a infidelidade para mim é a última fronteira da autodefesa”. Esta é a sentença com a qual Sonia Rodrigues inicia o revelador Amor em segredo – As histórias infiéis que aprendi com meu pai Nelson Rodrigues (Agir, 2005, 240 páginas). Escritora, jornalista, roteirista e doutora em Literatura pela PUC-Rio, a autora é filha bastarda do genial escritor. Com a sua mãe, Yolanda Camejo, ex-secretária da Rádio Mayrink Veiga, o anjo pornográfico manteve um romance secreto durante 27 anos, que gerou mais dois filhos além de Sonia. Aos 38 anos, 14 após a morte de Nelson Rodrigues, a escritora provou a paternidade na Justiça, através de exame de DNA. Escrito em forma de contos e crônicas, num jorro de humor e dor, é obra imperdível que aponta fundamentos, antes inimagináveis, para a origem de algumas das badaladas obras rodrigueanas.

O clã hilariante e imaginário de Stanislaw Ponte Preta

Mistério e fantasia que abriram caminhos

Ex-condessa prussiana, exvedete do Folies Bergère, cozinheira da Coluna Prestes, Tia Zulmira é personagem recorrente na obra de Stanislaw Ponte Preta. Trata-se de um ente imaginário criado pela verve abundantemente criativa e pioneira deste que era pseudônimo de Sérgio Porto. Com ilustrações originais e prefácio do cartunista Jaguar, Tia Zulmira e eu (Agir, 2007, 219 páginas), é livro obrigatório para quem queira reviver os áureos tempos em que grandes artistas e intelectuais driblavam a censura com sacana maestria.

Mestre na arte de criar um clima de mistério e fantasia, impecável na oscilação entre os contos macabros e analíticos, Edgar Allan Poe tem inúmeros seguidores pelo mundo afora. Publicado originalmente em 1831, o Manuscrito Encontrado numa Garrafa e Outros Contos (Ediouro, 1996, 111 páginas), é obra fundamental deste que foi um dos mais brilhantes escritores norteamericanos, tendo iniciado como escritor de poemas, para se tornar um dos mais hábeis artesãos da prosa.

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OPINIÃO

Chico Sales

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caracterizadas. Até hoje não temos as Leis de Parcelamento do Solo e o Código de Obras; a Lei de Zoneamento e Uso do Solo já apresenta modificações, nem bem começando a ser utilizada, contrariando o disposto no Plano Diretor aprovado em 2006. Desta forma, cria-se todo tipo de dúvidas e incertezas, caracterizando - como bem definiu o procurador do município do Rio de Janeiro, Dr. André Tostes – um estado de insegurança jurídica, o qual conduz o município para uma situação de caos, onde “nada

Crise Permanente

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úzios é hoje um município que vive em crise e me parece que nem todos estão se dando conta da gravidade do que está acontecendo, ou pior, já estamos nos acomodando dentro desta realidade. Temos uma matriz econômica deformada, baseada no turismo (cada vez de mais baixa qualidade) e na construção civil, que sem parâmetros claramente definidos, abre espaço para a especulação imobiliária predadora, vinculada a interesses externos ao município, pouco se importando com a qualidade de vida local. Seria interessante voltarmos um pouco no tempo e lembrar-nos de quando foi desenvolvido o Plano Estratégico de Búzios e tudo que foi apontado no seu diagnóstico, e, mais recentemente, do Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentável, elaborado pela equipe da Fundação Getúlio Vargas e entregue ao município com todas as suas leis complementares, o que é fundamental para a implementação de um plano diretor, que sem todo um conjunto de leis que o acompanham torna-se um instrumento “capenga”. Nestes dois trabalhos, dos quais participei, já havia o alerta para a situação que estamos enfrentando. Notadamente, no Plano Diretor elaborado pela FGV, o desenvolvimento dos cenários prospectivos apontava claramente no cenário de estagnação os riscos que corríamos e a degradação social e ambiental para a qual caminhávamos. O Plano Diretor inicial foi totalmente modificado. As demandas e sugestões apresentadas pelos diversos setores da municipalidade, nas consultas públicas realizadas e incorporadas ao trabalho, foram inteiramente des-

pode e tudo é permitido”. Isso afasta investimentos e aprofunda a crise econômica e financeira que vive nossa cidade. É imperativo, portanto, que sejam corrigidas as deformações existentes, que todo o conjunto de leis que rege o município seja revisto e adequado e que seja criado um Conselho da Municipalidade e um Instituto de Planejamento nos moldes do adotado em Curitiba. Aí sim, teremos um município com todas as possibilidades de um desenvolvimento sadio e sustentável. Chico Sales é arquiteto, foi diretor executivo do PEB e consultor pela FGV na elaboração do Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentável de Búzios. chicoapa@terra.com.br CIDADE, Dezembro de 2007


Resumo

Estrada Cabo Frio - Búzios Trecho no município de Cabo Frio (Estrada do Guriri)

Trecho no muncípio de Búzios

Av. José Bento Ribeiro Dantas Manguinhos / Búzios

Bem-vindos a Búzios O motorista de primeira viagem, que esteja se dirigindo a Búzios saindo de Cabo Frio, deve levar a sério a placa que informa o fim do território cabo-friense, ou poderá ter problemas já na primeira curva. Em plena abertura da temporada de verão, as estradas de acesso à cidade estão destruídas e as ruas esburacadas.

Prolagos

Selo para o Turismo

Depois de oito anos à frente da Concessionária de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Prolagos) - que atua em cinco municípios da Região dos Lagos (Búzios, Cabo Frio, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia e Arraial do Cabo) e cuja concessão termina em 2023 - o Grupo Águas de Portugal deixa agora a direção da empresa nas mãos do Consórcio InfraEstrutura Bertin Equipav (CIBE), de capital 100% nacional e formado pelas empresas Bertin e Equipav, com forte expressão nas áreas de açúcar e álcool, agropecuária e de construção pesada, em todo o país. O Consórcio, com atuação em todo o Brasil e no mercado externo, foi citado na edição anual de 2007 da revista Isto É Dinheiro, “As Melhores da Dinheiro”, a qual classificou a Águas Guariroba entre as três melhores empresas do setor de Serviços Públicos do Brasil e sobre a qual o Consórcio CIBE mantém o controle acionário desde 2005.

O Governo do Estado e a Abav (Associação Brasileira das Agências de Viagem) criarão um selo para identificar as agências que atuam na recepção de turistas. O Detro (Departamento de Estrada e Rodagem) fará um outro selo, desta vez para identificar as vans e os micro-ônibus que as agências usam para levar os turistas para os hotéis.

Tudo novo no verão Com a aproximação do verão, o restaurante Salinas Grill fez novos investimentos em estrutura, para garantir a qualidade nos serviços que mantiveram a casa cheia no inverno. Uma nova câmara frigorífica. Forno e fogão também novos. Banheiros com estrutura para deficientes, construção de rampas de acesso. “Estamos reformando a estrutura e renovando o pessoal para esperar o verão”, diz Maurício, o proprietário.

Mensageiro digital Quem quiser saber as novidades de São Pedro e não tem tempo de ir até lá comprar um jornal, já pode assinar o Mensageiro dos Lagos Digital. O jornal disponibiliza seu arquivo por email, em PDF, para assinantes.

Lincoln Weinhardt, gerente de Comunicação e Segurança de Informação da Petrobras/UNBC e a jornalista Marjorie fizeram parte da equipe da CSI que recepcionou os convidados.

Reserva Peró

Encontro com a Imprensa

Anunciado para ter início em Agosto o empreendimento ainda está preso na burocracia. Mesmo com a Licença Prévia da Feema, a prefeitura não pode emitir a Licença de Construção porque a área ainda está em fase de regularização fundiária. Só depois de acertadas as contas com o INCRA é que o assunto passará para o Conselho Municipal de Meio Ambiente para ser analisado. Todos os empreendimentos do Projeto Reserva Peró serão licenciados individualmente e o primeiro da lista é o Club Med.

Mais uma vez a Petrobras /UNBC, realizou o Encontro com a Imprensa, recepcionando os veículos de comunicação da região. Este ano o evento, que acontceu no dia 22 de Novembro , em Macaé e é uma rotina na política de comunicação da empresa, também serviu para a entrega do Prêmio de Jornalismo 30 Anos Petrobras Bacia de Campos.

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Galeria PAULO FRANCO Nascido no Pará, o artista se considera auto-didata. Além da pintura e desenho, faz também texturização em paredes, móveis, entre outros materiais. Trabalha também com artesanato e decoração de ambientes, cenografia, desenho para moda, estamparia local e corrida. Morador de Arraial do Cabo/RJ , cidade que adotou desde 1978 e de onde “tira a inspiração para compor suas obras”, que, em sua maioria, são de temas náuticos e marinhos.

“Canoa do Pontal”- Acrílico sobre tela - 1,20 x 0,80 m - 2007

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