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Aquela coisa… Ontem tive uma agradável surpresa. Quando andava no sótão, remexendo nas coisas que sempre arrumamos e das quais não nos queremos desfazer. Manias de um cinquentão ou manias de quase toda a gente. Encontrei uma coisa que norteou a minha vida precisamente durante 40 meses. Coisa essa perdida entre livros e outras velharias, daquelas coisas às quais no seu tempo não dávamos a devida importância mas, que quando as revisitamos, nos contam histórias, retalhos de uma vida. Essa coisa que encontrei, e que já tinha dado por perdida, tem muitas histórias por contar, e todas por escrever. Essa coisa representa seis por cento dos já muitos dias, meses e anos que por cá ando. Essa coisa que desprezei durante quarenta meses, que me dava vontade de sei lá o quê, apesar da pouca consciência que eu tinha do mundo e principalmente da política. Essa coisa azul de treze por dez centímetros, com tantas páginas como eu conto por anos a minha vida, precisamente cinquenta e cinco. Essa coisa chamada caderneta militar. Essa coisa relata, desde dezoito de Dezembro de 1969 a quatro de Outubro de 1973, a vida de um militar na aeronáutica, que serviu nas forças pára-quedistas, por entre a recruta e os cursos de pára-quedismo, do combate, de minas e armadilhas, boxe e defesa pessoal e tantas outras coisas. Ainda atravessou uma guerra como tropa especial, especialmente treinados para combater, sofrer e morrer. Mil histórias por contar aos retalhos, narrativas verídicas e testemunhadas por colegas ainda presentes. Tivesse eu o talento e o bom português necessário e tentaria deixar aqui algumas dessas histórias. Vou tentar


Não ouvem suas merdas! Estávamos em Julho de 1969, quando o astronauta Neil Armstrong, bem lá em cima na Lua, dizia aquela famosa frase: "Um pequeno passo para o Homem, um salto gigantesco para a Humanidade" e eu cá em baixo com os meus quase vinte anos e com um calor abrasador, vou, estupidamente, todo pimpão, a uma Junta Distrital de Recrutamento Militar situada numa antiga casa conventual que se transformou em Hospital Militar (Enfermaria Militar em pleno séc. XX, até à década de setenta). Este edifício deteriorou-se e foi parcialmente delapidado, entregue ao ostracismo e degradação (anos setenta), valendo a recuperação pela paróquia que o adquiriu em 1981, procedendo às necessárias obras de restauro: Centro Social e Paroquial, jardim-de-infância e serviços de alcance humano e espiritual. Estávamos todos no átrio, rapazes de todas as classes e origens. Do rapaz pobre da urbe (como eu), acolhido no largo das almas, junto à antiga Igreja Matriz, (hoje Igreja das Almas), ao filho de boas (ricas) famílias, que envergonhados por não pertencer à maioria (a pobreza abundava por estas regiões), se refugiavam num canto. Dos vulgos saloios das aldeias e das serras, de ceroulas e chancas no verão, até ao filho do abastado agricultor. E lá ia vociferando aquele animal fardado: - “Não ouvem suas merdas, é assim que querem ser militares?”. Ouvem-se vozes em surdina entre os reguilas de pé descalço cá da urbe: - “Quem pensa que é este filho da puta?”. Ninguém teve a coragem de levantar a voz para aquela barriga fardada. Lá nos pesaram e mediram, sempre nus, não sei porquê, pois aproveitavam coxos e marrecos e tudo o que viesse à rede. Quem não quisesse, que fugisse a salto para França como tantos outros. Depois de todos estes procedimentos, deram-nos uns impressos para preencher: se não quiséssemos ir para o exército, poderíamos escolher entre a Marinha e a Aeronáutica. O gajo afinal era nosso amigo! Até nos sugeria outras opções! Nada mais falso: eles queriam era voluntários para tropas especializadas, a que hoje vulgarmente chamamos “Forças de Intervenção Rápida”. Nessa altura ainda me martelava nos ouvidos “Não ouvem suas merdas? É assim que querem ser militares?” e foi com isso a zurzir nos ouvidos que tomei a minha primeira grande decisão e disse para o João Loureiro, um homenzarrão, mas com cara de menino, meu amigo de muitas lides e brincadeiras desde a escola primária: - “Militar como ele não vou ser de certeza! Vamos para a Marinha, Jão?”. - Era assim que o tratava


Respondeu-me de imediato á minha provocação: - “Estás maluco, eu nem sei nadar!, vou para o exército que lá não se faz nada”. E do outro lado do trio, disse o Fiúza, o pescador: - “Vamos Zé? Eu vou inscrever-me para a Marinha”. Estas posições opostas, de dois amigos de infância, baralharam-me as contas, pois fazia intenção de irmos os três juntos para a tropa. Então, sem lhes dizer a verdadeira razão, pois para mal dos meus pecados também não sabia nadar, disse: - “Nada disso, vamos para a Força Aérea e o culpado é aquela barriga fardada. Não quero ir para o Exército”. E foi assim que eu e o Fiúza nos inscrevemos na Força Aérea. Como dentro desse ramo das Forças Armadas havia pára-quedismo, e como os putos da rua como nós eram ávidos de aventura, vai daí… alistámo-nos, os três amigos, nas Forças Páraquedistas. Assim, tomei uma das minhas decisões mais importantes, a qual iria marcar positivamente o resto da minha vida, quer pelo espírito de grupo e camaradagem, quer pelos ensinamentos que fui recolhendo ao longo de quarenta meses de serviço militar, onde o lema era: “Que nunca por vencidos se conheçam”. Mas a parte “estúpida” desta crónica consiste no que aconteceu a seguir. O grupo oriundo das aldeias e das serras, munindo-se de bombos e pandeiretas, foi tocando e bebendo ainda mais, pelas ruas, como quem ia para uma festa muito importante. Muitos deles acabariam por perecer na guerra… Só passados uns bons meses é que eu percebi e interiorizei o sentido e as motivações com que eles, no fim da inspecção militar, foram festejar pelas ruas, como o anunciar de uma festa ou de uma romaria. Era provavelmente um grito de libertação, por saírem do mundo atrasado e das aldeias em que o ditador Salazar os tinha deixado. Sempre que me lembro disto, lembro-me, simultaneamente dos mortos da guerra, da carne para canhão em que eles se tornaram. QUE DESCANSEM EM PAZ!


Embarque para a aventura A doze de Dezembro de 1969 ocorre o "Massacre de Estado": bombas colocadas por fascistas, e manipuladas pelos serviços secretos italianos que praticam a "estratégia da tensão" (o que só se saberá anos mais tarde), explodem na estação de Milão, matando várias pessoas. O anarquista Pietro Valpreda é acusado e preso por dois anos, injustamente. Seis dias após estes acontecimentos, lá estava eu também numa estação ferroviária em Viana. Um belo conjunto arquitectónico edificado entre 1878 e 1982, sob projecto do Eng.º Alfredo Soares, que incluía uma elegante escadaria voltada para Sul. Subsiste a obra dos alçados em cantaria; elementos acessórios (gare e coberturas laterais) com a característica estrutura de ferro fundido, muito em voga nas últimas décadas de Oitocentos. Hoje está praticamente fundida com o centro comercial Estação de Viana, com arquitectura temática, inspirada nos caminhos-de-ferro. Estava pronto para embarcar pelas 22 horas na aventura de fazer trezentos quilómetros em cerca de sete horas. Tinha sido convocado para prestar testes nos pára-quedistas em Tancos. Tancos era uma freguesia de Vila Nova da Barquinha, situada no centro do país, com uma população civil de cerca de seiscentas almas. Para além do Entroncamento, que deve o seu nome ao facto de aqui entroncarem duas linhas de comboio (a que liga Lisboa ao Porto e a que liga a Linha do Norte a Espanha), surge situado numa pequena ilha escarpada, no curso médio do rio Tejo, o Castelo de Almourol, um dos monumentos militares medievais mais emblemáticos e cenográficos da Reconquista, sendo, simultaneamente, um dos que melhor evoca a memória dos Templários no nosso país. É desta simpática localidade, sob o comando do general Norton de Matos, que o Corpo Expedicionário Português (CEP), formado por trinta mil homens, sai em 1917 do Tejo para França (1.ª Brigada do CEP) a bordo de três vapores britânicos; é aqui que, em 1956, é criado o Batalhão de Caçadores Pára-quedistas – BCP - dependente da recém criada Força Aérea Portuguesa. Mais tarde, com o rebentamento da guerra em África, é criado o Regimento de Caçadores Pára-quedistas (RCP). Lá chegámos ao RCP por volta das cinco horas da manhã. Cinquenta candidatos a pára-quedistas de vários pontos de país, cansados da viagem mas também excitados pela aventura. Ficaram todos à conversa, todos com histórias para contar. Sentia-se ali um misto de basófilas e valentões e eu lá pensei com os meus botões: onde é que me vim meter? Acabaria por comentar com o Fiúza pescador: - “Pá, já viste isto? Acho que não pertenço a esta guerra, só marados e cabeludos”. Então, debaixo daquela calma enervante, diz o Fiúza: - “Tem calma, não há-de ser nada, se eles conseguem… nós vamos conseguir”. E pensava eu que era um puto reguila da rua… Comparado com os tripeiros da banharia, alfacinhas do Casal Ventoso e outros, até me sentia meio envergonhado. Quase sem darmos conta, toca o clarim de alvorada e, como se houvesse uma mola, todos nos levantámos pensando que era para nós. A partir desse momento, acho que as pulsações subiram para a centena e por lá permaneceram, durante todo o dia. Enquanto isso, os militares “verdadeiros” lá se preparavam para a formatura e para mais um dia de instrução militar.


E lá fomos nós também para a parada, bem desalinhados como convém, para irmos ao pequeno-almoço. Depois disso, aí é que foram elas, pois na parada avisaram que íamos ter toda a manhã para exames médicos e a tarde para a parte física. Logo comentei: - “Não fizerem já isso no Verão, em Viana?”. E atalha logo um camarada do lado alentejano de nome Patacão - “Em Viana exames médicos para ir para a tropa? 'Tás maluco! Na minha terra só foi para mostrar os tomates e ir para a lista dos apurados!” - não resistimos a uma sonora gargalhada. Como é norma, ficámos todos nus, mas agora com uma simples diferença: estava um frio de rachar. Todos bem alinhados e virados contra uma parede. Lá chegaram os tipos de bata branca com um marcador preto na mão dizendo ao colega mais próximo, mas desta vez com educação: “- Levante o pé se faz favor!” E nós, apesar de nos sentirmos como simples cavalos a quem vê os cascos, pela forma educada como fomos interpelados sentimo-nos desarmados. E lá foram eles fazendo algumas cruzes nas plantas dos pés e eu sem perceber patavina. Chegou a minha vez, analisaram e deixaram uma cruz num deles, o que me deixou ainda mais confuso. Mais tarde vim a saber que também tinha os pés um pouco “chatos”, mas com o resto estava tudo bem. Entre medições, auscultações e pesagens, começaram a excluir os casados, quem tinha problemas de dentes ou varizes e sei lá mais o quê. Só sei que nos testes físicos reprovaram metade, sobrando para a parte da tarde vinte e cinco. Na ida para o almoço um pára-quedista que por lá andava e com ar de “peito inchado” foi avisando: - “Da parte da tarde nas provas físicas, „vão de vela‟ mais metade”. Depois de uma manhã dedicada aos testes físicos, lá fomos para um refeitório moderno e bem apetrechado, que funcionava já em sistema de self-service onde registei como primeira nota, e que me agradou de sobremaneira o seguinte: além do regime militar dos pára-quedistas ser duro, exigente, com uma disciplina férrea, e apesar de vivermos num período salazarista fascista, ali respirava-se democracia. A comida que era distribuída ao recluso ou ao recruta, era exactamente a mesma para o resto das patentes, fosse comandante ou ministro. Com o sol a pique, logo nas primeiras provas começaram a vir ao de cima algumas particularidades, sobressaindo dois grupos distintos. O que tinha a ver com força física bruta... desde o trabalhador agrícola ao que trabalhava nas obras e até na estiva – o trabalho exigia-lhes apenas força física e pouco mais, tinham poucos conhecimentos, só a escolarização e aprendizagem até á idade escolar primária e muitos deles sem a completarem; o outro grupo tinha a ver com menos força física, mas mais destreza, habilidade e inteligência. Estes eram aqueles a quem eu chamei de putos da rua, os reguilas habituados às espertezas, aos narizes esmurrados e algumas cabeças partidas mas que levavam a melhor. Nós, para além do Fiúza que vinha das fainas de mar sendo uma força da natureza e muito combativo, éramos também putos da rua. - “Fiúza, já viste nas que nos metemos? São só brutamontes” – disse eu baixinho. Aproveitou para me devolver o incentivo, com um sorriso descolorido, dizendome: - “Pá, se eles conseguem nós também conseguiremos”.


- “Onde é que eu já ouvi isto?” – respondo eu com ar de gozo. Lá fomos dando cumprimento ao programa, com corridas, saltos, passagem de obstáculos e outros que tais, onde eu me sentia como peixe na água. Há três aspectos que me marcaram: a força física, a inteligência e a coragem. A Força física Nunca me tinha passado pela cabeça o difícil que era elevar o peso do nosso corpo, só com a força dos braços numa barra de aço suspensa. - “Tudo lá para cima, minhas meninas, ou pesa-vos o rabo?” – dizia o instrutor. Eu não sei quanto ou o que é que me pesava, mas subindo à força de braços, esgatanhando ou trepando, eu tinha de chegar lá acima cinco vezes. A inteligência Apercebi-me dessa importância numa das provas quando, às tantas, gritou um sargento nada barrigudo e com um porte físico de respeito: - “Vai toda a gente junto daquele caixote tirar um par de luvas e regressar aqui imediatamente!”. Na terra batida onde o cascalho abundava, lá fomos nós mostrar a nossa agressividade. Tocou-me em sorte um rapaz alentejano que pesava bastante mais do que eu. Comecei então a enfardar porrada, mas ia sempre à luta, quanto mais enfardava, mais ganas e vontade me dava para ir para cima dele. - “Alto lá, parem!” – avisou o instrutor. Depois virou-se para mim, talvez com um misto de pena por estar a levar uma boa dose, mas também com admiração pela valentia, apontou com o dedo espetado para a cara do opositor, gritando-me: - “Que adianta a valentia se não está a ser inteligente? Vês aqui a cara deste chaparro todo contente? É aqui que tens de lhe bater. Aqui! Olhos bem abertos e vailhe às fuças sempre que lhe vires a cara destapada!”. Claro que a partir daquele momento tudo mudou, deixei de ser eu a enfardar. A partir dali, toda a valentia e confiança do amigo alentejano se esfumou, acabando por se acobardar e encolher. Isto levou a que fosse eliminado. A Coragem Partimos para o último teste só com treze resistentes para o temido salto da torre. Todos alinhados para ver um salto de demonstração. Quando vimos um páraquedista subir a uma torre enorme, preso por uma corda e lançar-se para baixo… um friozinho subiu pela espinha acima não deixando ninguém respirar até a queda se consumar. Os cabos retesaram-se, a cerca de um metro do solo, levando o Páraquedista a manter os membros completamente firmes colados ao corpo, para que no momento do choque não virasse espantalho e lesionando-se gravemente. Lá fui subindo, com as pernas “trémulas de coragem”, até ao patamar superior e, em posição de salto, lembrei-me do conselho do instrutor de boxe: “Olhos bem abertos e vai-lhe às fuças!”. Ao sinal, atirei-me com os olhos bem abertos para o espaço, recusando-me sempre olhar para baixo. Só houve um colega que não conseguiu saltar, já em cima da torre entrou em pânico e gritou: - “Nãoooooooooo, não consigo! Não! …”. De facto, o temível salto da torre mete mais respeito do que saltar de um avião. Coincidência ou não, apenas metade dos que passaram nas provas médicas foi apurada.


O famoso pente zero Foi assim que nós, os três amigos, fomos escolhidos para as Tropas Páraquedistas, em dezoito de Dezembro de 1969, ficando eu com o Nº 1626/69. Passados seis meses… a 11 de Maio de 1969 apresenteime em Tancos, no Regimento de Caçadores Páraquedistas, para dar início à verdadeira aventura o alistamento nas tropas pára-quedistas, a frequência da escola de recrutas e por aí adiante até à conquista da célebre boina verde e do brevete. Chegámos por volta das cinco e meia da manhã, depois de uma viagem turbulenta de sete horas num comboio, procedente do norte, superlotado só com militares. Do fim-de-semana chegavam ao Entroncamento, de vários pontos do país, militares do Exército, da Força Aérea e os Pára-quedistas - às centenas. Um grupo de pára-quedistas esperava por nós à porta de armas, para nos acompanhar às instalações. Na entrada do quartel, e de forma imponente, estava à entrada do aquartelamento do RCP, o monumento aos Pára-quedistas mortos em combate. A estátua simbolizava um Pára-quedista vindo dos céus; nós, feitos “maçaricos”, limitámo-nos a olhar com respeito. . Todos os militares eram obrigados a “bater a pala” em sinal de respeito Depois das apresentações a cerca de duas centenas de candidatos a recrutas, os três amigos foram colocados no 7º pelotão da 1ª Companhia. Fomos alojados num dos três edifícios de dois pisos que albergavam as três companhias de militares, ali formadas para fornecer homens muito bem preparados para alimentar a guerra em África. O facto de continuarmos sempre juntos tem uma explicação simples: quando, pela primeira vez, em Tancos, nos mandaram formar, ficámos juntos - mais por instinto de defesa do que por qualquer outra coisa pré-concebida - e assim nos foi atribuída numeração seguida. Por via disso e durante 40 meses, andámos sempre próximos.


Formámos na parada frontal ao edifício. Distribuíram a cada um o kit de fardamento com 32 peças. O oficial destacado logo avisou: - “Senhores recrutas, acaba de vos ser distribuído um kit de fardamento, composto por 32 peças, para iniciarem a vossa vida militar. No fim do serviço militar - demore este o tempo que demorar - têm de devolver todas as peças para fazerem o respectivo espólio.” Depois de uma pausa continuou: - “O nosso Sargento vai acompanhar-vos e ajudar nas tarefas que se seguirão. Deixo-vos com ele.” Notou-se algum agrado na forma educada como nos tratou o Capitão, isso era visível em cada um de nós. - “COMPANHIA!!!” – soou o vozeirão do sargento -” Isto está uma bandalheira, eu quero toda a gente agrupada por pelotões na próxima formatura. Têm meia hora para arrumar o kit que vos foi distribuído e regressarem já equipados de ténis, calção e camisola branca!”– gritou o sargento. - “Vamos depois fazer uma visitinha, que se vai prolongar por toda a manhã.” Apesar de inebriados pela simpatia do capitão, veio o reverso, e acordámos com aquele vozeirão do sargento, como que a alertar que a tropa começaria naquele momento. E começara mesmo: acabaram as palavras simpáticas com que até aí sempre nos tinham brindado, a bandalheira na formatura como naquele dia, acabara a roupa civil no quartel e estava quase certo que também iria acabar o cabelo daqueles jovens cabeludos de uma época de ouro, anos 60 - ainda hoje falam dela com evidente orgulho. Numa tremenda confusão, cerca de 200 recrutas rapidamente mudaram de roupa, como se veio a confirmar, fomos ao nosso amigo e famoso „pente zero‟. Pela primeira vez na minha vida e em 5 minutos, vi-me despojado do cabelo até ao casco e o surpreendentemente já não nos reconhecíamos, mais parecíamos almas penadas. Apesar do tempo quente ou talvez por isso, sentia-se na barbearia um cheiro esquisito, era o cheiro a carecada que eu acabei por vivenciar, ao longo de 40 meses, mais de uma vintena de vezes. Aos mais cabeludos, os barbeiros entretinham-se a fazer as mais disparatadas tropelias com o cabelo. Ora eram Beatles, oram eram índios moicanos, mas acabavam invariavelmente de cabeça lisa. Desta vez senti-me nu, espoliado e violentado com esta carecada higiénica. Senti-me mais frágil, mais despido e já com saudades do que tinha ficado para trás: os colegas de trabalho, os amigos e, como não podia deixar de ser, a namorada. Mal cheguei à caserna fui ao saco e desencantei um bloco para escrever para ela e para a famelga. Aproveitei para tirar, no interior da caserna, umas fotos comigo já fardado, com a velha Mauser e capacete de guerra, mas com ar apalermado. Como se não fosse ter milhentas oportunidades de tirar esses retratos sem ser a fingir. Enfim… deviam ser efeitos da anestesia que a carecada me provocou. Na época dos cabelos à Beatles, o famoso „pente zero‟ produziu em nós efeitos anormais: ficámos todos estranhos e quase não falávamos uns com os outros. Aproveitei para ir dormir bem cedo, descansando das últimas 24 horas que quase me derrotaram, mas um pensamento não parou de martelar a minha cabeça desprotegida: “Lindo começo este!”.


Incha, desincha e passa Depois do ataque às nossas cabeças com o barbeiro a ser o único homem capaz de elevar a sua cadeira da barbearia à categoria de um cadafalso ou mesmo à da terrível guilhotina, tal o sentimento descabelado que provoca nas suas “vítimas”, o dia-a-dia de uma recruta nos pára-quedistas sem ser um inferno, é sem dúvida terrivelmente duro em todos os aspectos. É um embate tremendo esta alteração nas nossas vidas sob o ponto de vista organizacional. Quase todos os candidatos traziam expectativas erradas pelo fascínio do voo e dos saltos. Vínhamos pelo espírito de aventura e pelo deslumbramento de fazer parte de uma tropa especial, movidos por sonhos mais ou menos comuns de chegar até ao brevete, mas sem avaliar o percurso. Regras e mais regras nos são impostas. Elas são-nos inscritas para sabermos com o que podemos contar, desde a primeira hora. Depois de aprendermos a pôr os atacadores nas botas, a fazer as camas, a vestir, a arrumar os cacifos e com todos já fardados, ainda com os bonés de pala espetada da goma, marchando já a passo mais ou menos certo, o instrutor deu pela falta de um colega que se demorou um pouco mais na casa de banho, e logo gritou: “- Quando um falha, todos os outros pagam da mesma maneira. Dez flexões para toda a gente – enquanto cumpríamos” – continuou o sargento: -“ Aqui senhores recrutas, não há lugar para o individualismo ou egoísmo. São uma equipa que têm de agir entre si. Por uma questão de sobrevivência e de respeito pela elite que vos espera, é assim que é e é assim que vai ser sempre no vosso futuro!” Nesta etapa, fazem-se novas amizades e cumplicidades salutares na acção e desta vez determinadas pelas alturas de cada um. O Martins (Risotas), minhoto de gema da Pousada de Saramagos, tinha mais um centímetro do que eu e portanto precedia-me na coluna. Por esse facto ele foi quase sempre meu colega de exercícios nas corridas, nas marchas e em quase tudo. Era por assim dizer o meu par. O Risotas era a boa disposição em pessoa e daí a alcunha. Era um amigo a sério, sempre disponível em todas as situações. Devo-lhe a sua amizade e solidariedade nos momentos de maior pressão em que chegava a duvidar das minhas capacidades. “- Vamos lá Marques, esta merda incha desincha e passa” - incentivava o Risotas.


Quando não o via com um sorriso malandro, era ele que estava em sofrimento e só lhe dizia: “- Vamos lá com essa merda pá, que raio de minhoto és tu?” – ele esboçava um sorriso – como a dizer que não se queria dar por vencido. Ninguém se deixa ir abaixo, mas os rostos ilustram bem o ar inexpressivo e obstinado de quem pretende vingar. O cansaço psicológico é mais duro que o físico. Estamos todos sempre na expectativa sobre o que se seguirá, a mente acaba por sofrer mais do que todo o resto. Quando se está em formação no campo de instrução, uns arregalam os olhos para afugentar o choque resultante de um tratamento que nos escapa ao controle, outros erguem a cabeça, dispostos a não vergar. Todos compenetrados e direitos muito atentos às palavras dos instrutores que nos podem levar do céu para o inferno, em segundos, nunca se sabem as ideias que atravessam a mente dos duros e exigentes instrutores. É tudo ou nada em termos de emoções, começase ali a formar o espírito de equipa, a cumplicidade com o Risotas alastra no pelotão. Tudo é novo para nós e por isso apoiamo-nos uns aos outros. Se um cai, caem todos. Se um vence vencemos todos. Na dureza dos exercícios, no peso das ordens e no imperativo das vozes de comando é este o nosso dia a dia. A primeira semana é terrível pelo choque, pela violência no tratamento e pela dureza dos exercícios, logo se registam as primeiras baixas. Não é por acaso que nas primeiras três semanas ninguém pode sair de fim-de-semana e mesmo com essas cautelas alguns desistem, desertando para a emigração. Os que ficam são os que aceitam com disciplina a voz rija que os dirige, bem diferente do carinho da família que ficou para trás. Estamos todos por nossa conta. Longe de casa e muito perto de descobrirmos uma realidade ainda desconhecida, boa ou má, mas que já nos marca para sempre. Integramo-nos com muito trabalho e determinação sempre lutando por vencer o medo. Ao fim de três semanas, foi-nos concedida uma saída para podermos recuperar energias, visitar a família, os amigos e as namoradas. Quase todos partiram para as suas terrinhas, só quem morava para lá da serra do Marão, não se aventurou pois os dois dias de férias iriam direitinhos para a viagem. Com a farda azul substituindo a velha farda cinzenta, apresentámo-nos em parada para uma revista ao fardamento com todos bem alinhados, botas reluzentes, e com o bivaque altivo da aeronáutica bem aconchegado tentando tapar a careca. Surgiu finalmente a voz de comando mais ansiada: -“ DESTROOOÇAR…” Como por magia só se via bivaques no ar a comemorar, como se tivesse acabado a vida militar e não um simples passaporte de fim-de-semana ao fim de vinte e um dias. Foram dois dias que voaram num ápice. Às cinco da manhã de segunda-feira, estava de volta ao quartel pronto para novas batalhas. Mais de uma dúzia de recrutas aproveitou para não voltar mais optando pela deserção. Enquanto desfazia o saco da roupa lavada, que minha mãe tinha esmerado e acautelava o chouriço da ordem no


armário, reparo no Covilhã (um recruta que era pastor na serra da estrela - daí a alcunha) com aquele porte físico impressionante de farda verde de instrução, deitado no chão, rejeitando a cama esmeradamente feita, completamente pronto para iniciar a recruta às oito horas e não resisti: “- Covilhã, para te deitares no chão deves estar maluco ou com saudades da serra e das ovelhas.” “- O gajo está maluco” – diz outro. Responde o Covilhã com absoluta calma: “- Malucos estais vós! Prefiro dormir no chão e aproveitar este tempinho do que perder meia hora a fazer a cama. Logo mais, está na hora de ir dar cabo do cabedal.” Olhámos uns para os outros e quase todos seguimos o exemplo. O tempo vai passando e o corpo acostuma-se à dor. Os nervos fintando as emoções e os desejos para responder apenas perante a razão. Braços treinados e cabeças frias perante a dureza da recruta. Em finais de Julho de 1970, com o aproximar do fim da recruta, autocarros azuis da Força Aérea esperam-nos para uma visita de estudo à Barragem do Castelo de Bode e à Nazaré. Eis que surge a notícia há muito esperada principalmente por quem aguarda mudanças: a morte de Salazar. Depois de uma cadeira ter-lhe pregado realmente uma partida: queda, a cabeça a bater no chão, hematoma cerebral, bloco operatório, diminuição das faculdades mentais o que o levou a dois anos em agonia. Depois de muito hesitar, Américo Tomás acaba por nomear Marcelo Caetano para a Presidência do Conselho de Ministros. Alguns, junto de Salazar, fingem que é ele ainda o Presidente do Conselho ou ele finge acreditar na encenação e, a fingir, lá vai dando despacho aos assuntos correntes. Morre a 27 de Julho de 1970, com 81 anos de idade e 42 de poder ininterrupto. Estando a nossa escola de recrutas praticamente concluída e o pessoal devidamente fardado fomos aproveitados para irmos ao Mosteiros dos Jerónimos onde o ditador estava em câmara ardente, fazer a visita da ordem, na segunda metade da aprazada visita. Cerca de duas semanas depois, terminei a minha recruta com aproveitamento, em 14 de Agosto de 1970.


da recruta até à boina… Concluí a recruta, com a Cerimónia do Juramento de Bandeira, sem a presença de qualquer dos meus familiares, pois a disponibilidade era pouca e os cobres não abundavam. A minha pobre mãe, para além deste rapaz, ainda tinha o meu mano velho, o Manuel Elpídio, no exército em Sacavém. Este, acabou por não ir para a guerra, mas sim, por passar os últimos dias na prisão, à custa de um episódio curioso que, bem lembrado, até dá para rir. O Manel era casado, por via daqueles deslizes fortuitos entre namorados e quem o queria ver contente, era em casa, junto da mulher e mais tarde do fruto dessa relação que eu apadrinhei Então vai daí, surripiou os passaportes de saída do quartel, autorizando-se a si próprio a ir visitar a família. Se juntarmos a isto, o facto de, enquanto cabo da guarda, ter permitido a saída do quartel, de colegas não autorizados, deu como resultado uns dias à sombra. Ah valente mano, só por isso já valeu a pena, de entre os três irmãos que nós éramos, só eu ter batido com os costados na guerra. Finda a cerimónia, gozei alguns dias de férias, que bem merecia, findas as quais e precisamente no dia em que o meu outro mano, o Fernando, fazia 15 anos, inicio a segunda fase da minha aventura, o Curso de Pára-Quedismo, para a conquista do almejado brevete. O primeiro dia, confesso que não me agradou muito, pois começou logo pela vacinação contra a febre-amarela. Éramos umas centenas de recrutas alinhados e sentados no chão, já sem camisa, à espera do sacrifício. Passava o primeiro enfermeiro com um tabuleiro de algodões ensopados em tintura de iodo, com que desinfectava a zona onde seria dada a picada. O segundo, vinha com as agulhas e sem parar, espetava uma no sítio assinalado. O terceiro, trazia uma seringa enorme, que enroscava na agulha e comprimia o líquido, que rapidamente era injectado, provocando uma sensação muito dolorosa, agravada pelo terror às enormes agulhas. O quarto, passava com outro recipiente, retirando e enfermeiro, com novos algodões molhados em tintura de iodo, fazia a desinfecção final para minimizar os efeitos da vacina, que provocava uma tremenda reacção deixando o braço quase imobilizado, e impedir a formação de um hematoma. Assim, demos início ao primeiro dia, das três semanas em terra, com uma bateria de exercícios, especialmente duros, onde se privilegiavam os movimentos de braços, para que o corpo não "emperrasse”. A amostra do primeiro dia, não augurava


nada de bom para o cabedal. O curso iria culminar com uma semana no ar, de forma a serem executados seis saltos em cinco dias, para finalmente podermos ostentar no peito, o brevete de pára-quedista. Acho que nunca sofri tanto na minha vida, como nestas três semanas. - Quem disse que o homem não chora? Puro engano, chora por amor e chora também pela dor. Senti que o meu arreganho, destemor e vontade de vencer, não chegavam. Valeram o espírito de corpo e os amigos. Destaco o Risotas, sempre com uma palavra de ânimo e coragem apesar do seu sofrimento. Os exercícios eram desumanos e violentos demais para que, quem está de fora possa acreditar na sua execução. Os que eram feitos em especial com toros de madeira, eram de uma violência extrema, especialmente: os Alás, a Ama-seca, a Rosca, o Combinado, o Lançado e o Cumprimento. Ao fim de cada sessão diária eu só dizia para o Fiúza, colega da escola primária: “- A minha mãe não criou um filho para isto, vão para o raio que os parta” “- Zé falta só um dia e vamos conseguir, depois do banho vamos ao bar e pagote uma cerveja.” “- Não brinques comigo pá, acho que ia morrer bêbado” - dizia sem fôlego. “- Ai de ti pá, se contas esta merda em Viana, a minha mãe, coitada, tinha um chilique”. Ao longe passava um pelotão de novos recrutas, na maior bandalheira, com passos algo trocados. O Fiúza não se conteve: “- A figura que nós fazíamos pá, já pensaste que para a semana já vamos saltar? “- Como o tempo passa - atalhou ele” – alguém dizia: incha, desincha e passa. Lá voltámos à temível torre de saltos uma e outra vez. Como a foto ilustra, eram quedas a 45º com embate violento, em que ninguém se magoava, pois bem treinados e preparados fisicamente, o corpo enrolava-se ao tocar no chão. Tão martirizado pela intensidade dos exercícios e pelos vários embates a que era sujeito: cambalhotas no empedrado, crosses de botas calçadas, luta em que


predominava o boxe, pistas de cordas onde queriam fazer de nós uns Tarzan‟s, pistas vermelha e branca como meras toupeiras, cada vez me sentia com menos tempo para estar cansado. Ficava á mercê dos instrutores, mas nunca dos abutres. Já interiorizara que eles tinham razão e portanto nem em pensamento os questionava. Instrução dura, Combate fácil, era o lema que nos norteava sempre. Pensava comigo: “- Vamos para a guerra? Então, há que prepararmo-nos como deve ser.” A semana dos saltos, há muito tempo almejada, tinha chegado, finalmente ia saltar. “- Para a semana serão os saltos” – gritou o sargento de cima do palanque – “vão finalmente dar corpo a estas semanas de treino intensivo e ganharem merecidamente a vossa boina verde e o brevete.” E gritando a plenos pulmões: “- INSTRUÇÃO DURA…” “- COMBATE FÁCIL” – Responderam forte, mas com emoção, as centenas de vozes dos futuros pára-quedistas. Estas seis semanas de instrução reduziram-se a poucos segundos de forma vertiginosa no meu cérebro. O esforço, testado ao limite, o calor a bater no corpo, o suor a escorrer por cada milímetro da pele, o querer vergar pelo cansaço ganho a cada dia que passava, a voz austera, firme e sabedora do instrutor, o testar toda a energia física e mental, era superior a tudo o que eu julgava poder aguentar. Não me sentia especial, nem diferente dos outros, era sim, um futuro páraquedista! A boina era ainda uma miragem, mas estava tão perto... iria consegui-la. Todos os instrutores estavam ali, em frente a nós, a incutir-nos na alma e no sangue o que é ser Pára-quedista... Tudo transpirava à tão falada mística dos Boinas Verdes. Senti o peso de um toro, travando com ele a teimosia de ambos. As calistenias, pareciam minutos intermináveis, mas cada gota de suor ali largada era para que o verde da boina fosse merecido. Os crosses, com os instrutores, que noutra vida quase de certeza foram lebres nunca derrubadas pelo predador, faziam com que no final pensasse que não existia oxigénio suficiente para me restabelecer de tal cansaço... mas foi mais um que concluí! A pista de cordas, cada vez que olhava para ela, só pensava que nada ali era fácil mas ia conseguir! A sensação de se mandar para o chão como se do avião estivesse a sair, fazia com que nesse instante, pensasse que poderiam vir os crosses, as calistenias os saltos da torre e tudo o mais, porque estava ali para ser aquilo que tantos queriam e poucos conseguiam! Realmente o sonho comanda a vida... e agora o sonho vai tomar forma, a forma da placa de embarque do Nordatlas com o seu som inconfundível, o azul do céu e para concluí-lo, os campos do Arrepiado ali ao lado do Tejo. Quando saí destes segundos que me trespassaram, dei por mim sobrevoando o Tejo e o campo de saltos do Arrepiado. Um barulho ensurdecedor aliviava-me o medo, olhei para os colegas e nem um sorriso de confiança, tal a concentração de todos. Lá ao fundo vislumbrei o Risotas, que mesmo com um sorriso amarelo me acalmou e me fez lembrar do “vai-lhe às fuças”.


Até que chegou a minha vez... finalmente o “já”, aquilo que tanto ansiava, a pancada confiante do largador nas minhas costas, atirou-me para aquilo por que tanto lutara... o salto... o esticão da fita extractora, foi como se alguém me tivesse dito: “acorda, conseguiste!” Ao mesmo tempo o vento a batia-me na cara, com carícias que nunca mais vou esquecer. Olhei para baixo e vi árvores tão pequeninas, que pensei que o chão ainda estava longe, mas qual quê, eram árvores do Ribatejo, muito pequenas. Aterrei da pior maneira, comendo terra lavrada e ainda tive que correr atrás do pára-quedas, qual barco à vela. Apesar disso, o encontro com o solo foi uma experiência que queria repetir vezes sem conta. Claro que repeti, sempre com a alegria que só um verdadeiro Pára-quedista pode descrever... Seguiram-se mais cinco saltos e no último obtive aquilo que tanto esperava. Agora sim, era merecedor... Depois de tanta luta, tanto sacrifício, tanta lágrima caída, os instrutores, que tanto me tinham ensinado, sendo para mim exemplos a seguir, com ar orgulhoso, colocaram-me na cabeça o meu justo prémio... a Boina Verde! Uma luta contra as lágrimas que teimavam em cair-me, só provava que, somente quem passa por tão duras provas, lhe sabe dar o valor. Era minha e juntamente com ela, já erguia ao peito o meu brevete.



Retalhos I