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RES STANCE 6ª Edição

Junho 2012


Editorial Crise no Ensino Superior

Eleições NEDF/AAC

Não podemos negar que Portugal sofreu os maiores cortes no ensino superior na União Europeia, e como tal os estudantes estão a sofrer profundos cortes nas bolsas de apoio e de investigação. O apoio do Estado ao Ensino público não pode ser desprezado, de forma que exista igualdade de oportunidades para todos os jovens de Portugal. Infelizmente, durante anos, muitos estudantes possuíam bolsas que não mereciam e hoje aqueles que merecem têm dificuldade em obtê-las. Portanto, mais importante que protestar o corte das bolsas, é necessário verificar quantas dessas bolsas foram retiradas a estudantes que realmente necessitavam delas. Também é de notar que, durante a Queima, a crise estudantil não se notou. Pagar 900 euros por dois semestres de ensino, que custa 5 vezes mais é um ultraje, mas pagar 47 euros por um bilhete geral ninguém protesta.

Como já era esperado, a lista TAU ganhou as eleições por 30 votos de diferença. Para os mais distraídos isto poderá parecer uma margem mínima, no entanto, se fizermos uma análise minuciosa vemos que é uma grande diferença. Nestas eleições houve 239 votos, sendo que 124 foram da lista TAU, e 94 para a lista I, 14 brancos e 7 nulos. Uma vez que 110 pessoas faziam parte de ambas as listas, só houve 108 pessoas a votar nas listas que não faziam parte destas. Isto significa que foram somente 108 votos que decidiram as eleições, havendo uma diferença de 30 votos entre as listas. Assim, podemos presumir que 69 votou na lista tau e 39 votou na lista I. Fazendo as percentagens, temos 63,8% de votos na lista TAU e 36,1% na Lista I, o que demonstra que as eleições não foram particularmente equilibradas. Também é de salientar que 110 alunos se disponibilizaram para trabalhar no NEDF por duas listas diferentes. Este número é deveras impressionante, e só posso esperar que essas pessoas possam colaborar e trabalhar em conjunto para poderem responder às necessidades dos estudantes. Creio que 110 pessoas podem trabalhar de forma a cumprirem todas as actividades propostas, porque as razões de estas não se cumprirem ou são “mentiras partidárias” ou a falta de trabalho. Não encontro desculpas para as actividades não se realizarem. A Resistance também foi questionada porque é que este ano não realizou as sondagens das eleições e deveu-se a duas razões. A primeira é a falta de recursos humanos para fazer as sondagens, e a segunda razão foi a falta de consideração pelo nosso trabalho de alguns membros da lista vencedora do ano passado. Para quem não se lembra esses membros votaram na nossa sondagem propositadamente ao contrário.

Anti Matéria Gostaríamos de salientar o grande trabalho de edição feito no Anti Matéria que só peca por tardio. Uma revista “concorrente” (desculpa Mário) só pode beneficiar os estudantes, uma vez que têm duas revistas onde podem dar a sua opinião. Esperamos que o próximo núcleo continue o Anti Matéria e que juntos possamos dar mais voz aos estudantes do Departamento de Física.

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Índice 1 - Editorial 3 - Entrevista_Mário Ribeiro 5 - “A vida de Caloiro”_Andreia Fernandes 6 - “Picture Today, inspire tomorrow”_Gilberto Silva 7 - “Repúblicas de Coimbra, um património a preservar”_João Azevedo 8 - Entrevista_Carolina Silveira 9 - Estado estacionário_Andoni Santos 10 - Estado exitado_Carla Guerra 11 - 24 frames por segundo 13 - 78 rotações por minuto 15 - A gamer (re)view 16 - Depois do curso_João Fernandes 17 - Entrevista_André Carvalheira 19 - Jocelyn Bell, Pulsares e Estrelas de Neutrões_Maria Constança M. P. da Providência S. e Costa 20 - Crónica_Frederico Borges 21 - Sobre ser-se parvo_João Pedro Ferreira 22 - Mãe, afinal sei cozinhar

Ficha técnica: Edição: Joana Faria, Pedro Silva, Frederico Borges, André Silva, Rui Nunes, Karen Duarte. Colaboradores: Catarina Oliveira RESISTANCE

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Entrevista

Mário Ribeiro texto_Frederico Borges

Boa tarde, Mário. Poderias dispor um pequeno balanço do teu mandado, enquanto presidente do núcleo de estudantes do Departamento de Física? Bem, a cerca de dois meses do final, posso começar por dizer que, até agora uma vez que ainda temos mais programas planeados até o fim do ano -, considero que o balanço é bastante positivo. Penso que, desde o início, existiram dois pontos que me assustaram um pouco. O primeiro foi a recepção ao caloiro. Como deves perceber, é um processo um pouco complicado, dado que se dá a tomada de posse, vai-se de férias e, quando se regressa, tem-se umas cem pessoas novas por cá. Como é tradição no departamento, oferecemos-lhes um booklet, uma camisola e um kit de caloiro. Quanto a este processo, creio que o optimizámos, conseguindo algo formativo e completo. O segundo ponto foi quase imediatamente a seguir, na latada, com a barraca, onde é necessário lidar com entidades exteriores ao próprio núcleo, como a associação, e onde há sempre riscos, uma vez que é preciso investir algum dinheiro que, eventualmente, pode não ter retorno, o que acabou por não ser o caso. À parte disto, fomos capazes de organizar diversas actividades. Tivemos, ainda no primeiro semestre, uma feira do livro, alguns workshops e uma sessão de esclarecimento de mestrados, com trocas de ideias. No segundo semestre, começamos por apostar mais no trabalho de fundo, isto é, fizemos várias reuniões com a professora Constança e tentamos aperfeiçoar alguns projectos. Ultimamente, temos saído com uma nova ronda de actividades: um convívio, um ciclo de cinema e workshops de fotografia e de primeiros socorros. Como consideras a aderência dos alunos do departamento às actividades do núcleo? Um misto.

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Quando se planeia uma actividade podese pensar, previamente, que se está a realizar uma coisa bastante porreira e a aderência, no final, ser pouca, o que aconteceu no segundo filme do ciclo de cinema de ficção científica, em parceria com a Rómulo de Carvalho. Por outro lado, houve actividades com uma adesão enorme, como, por exemplo, o workshop de primeiros socorros, a sessão de esclarecimentos de mestrados e o workshop de escrita criativa, inserido no âmbito da feira do livro, uma outra parceira com a Rómulo de Carvalho. Quanto ao desporto, também sempre houve muita aderência. Por isso, lá está, acaba sempre por haver um misto, dependendo do interesse pessoal de cada indivíduo.

Quais as actividades em que conseguiram atingir o objectivo da melhor forma e as que deram mais trabalho? Creio que no workshop de primeiros socorros o objectivo foi cumprido. Agora, temos uma actividade que, na minha opinião, irá dar muito trabalho. Nós concorremos ao conselho internúcleos, na área da formação e do empreendorismo, e o nosso objectivo consiste em levar alunos de física, engenharia física e engenharia biomédica a instituições de trabalho nessas mesmas áreas. Aqui, os objectivos estão muito definidos: mostrar à comunidade estudantil o que é, realmente, exercer funções dentro da

temática do seu curso. Esta actividade está planeada para o mês de Maio. Para além disto, houve também, o Encontro Nacional de Bioengenharia, onde fomos convidados a participar na organização, o que também nos exigiu bastante esforço complementar. O que é que consideras que poderia ter corrido melhor? Creio que, em relação ao site, as coisas poderiam ter corrido de melhor forma mas, agora, estamos a trabalhar nisso muito a sério, remodelando-o e completando-o. Porém, provavelmente, o que mais falhou foi a presença de indivíduos nas actividades, o que acabo por considerar um pouco ingrato, uma vez que o núcleo faz trabalho para os alunos do Departamento de Física e, embora nos tenhamos de esforçar em termos de divulgação, também é necessário que quem esteja por fora se tente informar um pouco do que se está a passar. De todos os pelouros, pensas que algum deixou algo por cumprir? Por natureza, há pelouros que funcionam mais esporadicamente, fazendo, basicamente, trabalho de fundo, que não se transparece tão facilmente. Por vezes, quando não se veem palestras ou workshops, pode ficar a ideia de que nada está a ser feito, mas isso não é, necessariamente, a realidade. Por exemplo, o GAPE teve as suas funções mais direccionadas à recepção ao caloiro e à linha de apoio ao novo aluno, por isso, como disse, há pelouros que têm actividades mais complementares e menos visíveis, assim como, também, as Relações Externas. Um dos teus planos na candidatura era voltar a usar o B.13 e a sala do átrio da entrada. Como correu? Nós remodelamos os espaços, como tínhamos dito, mas ainda temos mais ideias para lá, como exposições temporárias. Contudo, em relação à B.

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Entrevista

13 não conseguimos captar tanta gente como queríamos, o que pode ser, ou não, culpa nossa, uma vez que o pessoal nunca ganhou o hábito de a frequentar. Neste momento, ambicionamos reformar um outro espaço, junto à C.1, colocando, entre outras coisas, um micro-ondas, uns sofás e uma estante para book-crossing, de forma a tornar o departamento mais interactivo. Ainda que, até o final do mandato, o espaço não fique completo, creio que, pelo menos, aberto há-de ficar. No inicio da lista, ela tinha cerca de oitenta pessoas. Quantas chegaram ao final? Posso dizer que ficaram bastantes. Há pessoas que, simplesmente, dizem que te vão apoiar e que, caso precises delas, podes sempre disponibilizar e, depois, há a malta que está mesmo disposta a trabalhar, como os integrantes dos pelouros e da direcção e, destes segundos, praticamente todos se mantiveram. Achas que os conseguiste motivar? Já disse várias vezes em plenários e em reuniões de núcleo que estou muito orgulhoso desta equipa. Nós, este ano, adoptámos uma filosofia completamente diferente: todas as decisões tomadas foram feitas em reuniões e cada pelouro possuía uma liberdade extrema, não tendo, necessariamente, de falar comigo para poder tomar a iniciativa de qualquer actividade, tornando cada equipa bastante autónoma e fazendo com que isto funcionasse tão bem entre todos – o que, na minha opinião, fez com que o grupo se conservasse.

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O que é que achas que o pessoal fora do núcleo pensa do vosso trabalho? Normalmente é feito apenas um plenário por direcção e nós já vamos no terceiro: marcámos um no primeiro semestre, outro em Março e agora mais um em Maio. O que nós queremos com isto é ouvir o que as pessoas pensam de nós, as nossas falhas e as suas propostas. O grande problema é a falta de comparência, o que faz com que não tenhamos um feedback da malta em geral, mas só de quem é mais próximo. Como é que está o Anti-Matéria? O Anti-Matéria está para sair. Provavelmente, já deveria ter saído há mais tempo mas, como vocês devem compreender, não é fácil. Estamos a modificar muitas coisas: esta edição terá temas novos, será mais artístico e tentará levar as mensagens de forma um pouco diferente, e estes pequenospormenores levam algum tempo. O que é que achas que irá acontecer ao Anti-Matéria e ao Aprender a Brincar, agora que o mandato está a acabar? Eu sugeri, no plenário de Março, uma coisa muito simples em relação ao Aprender a Brincar: a existência de uma transição gradual das duas coordenadoras à frente deste projecto, de modo a que elas continuem envolvidas pelo menos até Outubro, até que seja percebido da melhor maneira como o processo funciona. Isto porque, por exemplo, no Hospital Pediátrico, são criadas expectativas nas crianças e deixar de lá ir, de repente, poderia causar-lhes um determinado choque. Em relação ao AntiMatéria, temos uma proposta um pouco semelhante: se o próximo núcleo não tiver nenhuma publicação programada para o início do primeiro semestre, a malta que está, este ano, a tratar disso, não se importa de elaborar uma nova edição.

área, como o cinema ou a música, haverá sempre filmes diferentes, músicas diferentes… Eu acho que, apesar de sermos poucos, quanto mais melhor e, muito sinceramente, considero que os alunos do departamento só têm a ganhar. Mas só o futuro dirá! Quem é que achas que seria um bom candidato para presidente do núcleo? Eu acho que há muita gente capaz, mas não vou nomear ninguém. Em termos mais pessoais, que tiraste desta experiência? Eu considerava-me uma pessoa muito tímida e, com isto, melhorei imenso a esse aspecto. Conheci pessoas excepcionais, com quem aprendi bastante, e passei a gerar bem melhor o stress e o tempo. Creio que, antes, tinha muito medo de muitas coisas e cresci espantosamente nesse aspecto. Lembra-te da altura em que soubeste que ias ser presidente do núcleo. O que é que te veio à cabeça? Aquilo foi um dia muito bizarro para mim! Tinha uma apresentação nesse dia e a única coisa que consegui fazer foi um slide. Estava uma pilha de nervos! Eu sabia que ia ser bastante renhido e sempre tive muitas dúvidas quanto à nossa vitória! Senti-me muito aliviado, muito mais descansado! Agora para acabar: valeu a pena ser presidente do núcleo? Apesar dos altos e baixos, sem dúvida que valeu a pena!

Num departamento tão pequenino, fará sentido duas revistas? Depende sempre do tema que se aborda. E, mesmo que se aposte numa mesma

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A vida de caloiro Andreia Fernandes Pois bem, se realmente há um tempo para tudo, este é o nosso tempo, o tempo de estudante, de diversão, a vida caloiro. Tudo começa com a serenata, comovente para os mais sensíveis mas admirada por todos aqueles que sempre enchem a calçada da Sé velha para ouvir o coração do Fado de Coimbra a cantar ao cair da noite. Os padrinhos comovidos traçam a capa aos protegidos e estes recebem os melhores conselhos para uma vida que os espera, apercebendo-se realmente que têm à sua frente amigos eternos. É o primeiro dia de capa e batina e sente-se um êxtase no ar. Existe todo um espanto ao ver os colegas todos gostosos cumprindo-se mais uma etapa da vida académica, ainda que primordial. Finalmente segue-se a comemoração: noite, amigos, muito álcool, música, tudo o que se pode desejar para uma das melhores noites de sempre. Como já dizem ser de praxe nesta cidade, orgulhosa por ver mais uma geração crescer, talvez comovida, deixa cair suas lágrimas e assim estreamos as capas negras. O tão esperado cortejo acontece e, bem, poucos se lembram do que aconteceu na realidade, mas certamente que a diversão foi ao rubro, ou não estivessem as ruas de Coimbra repletas de estudantes e animação! Não falta nada para ninguém neste dia, à exceção de um salto ou outro dos sapatos

que lá ficou perdido pelo caminho, nada de mais, ou talvez, mais do mesmo! E como não poderíamos estar mais bem embalados, siga comer e depois: tudo para o recinto aproveitar mais uma noite! O Quim Barreiros marcou presença nesta Queima, como tem sido habitual, abrindo caminho para mais uma noite de loucura. Logo de seguida é a atuação da tuna, sempre acolhedora, bastante divertida e empenhada em educar os seus caloiros e aspirantes com os seus pedidos impossíveis que nos obrigam sempre a desenvencilhar de alguma forma. Mais finos, mais jogos, mais um caloiro

que merecidamente subiu a tuno num concerto magnífico. Bem, e entretanto nem se dá pelo passar do tempo. O ritual é acordar e ir para a companhia dos amigos (ou ficar em casa deles, como acontecia quase sempre) esperando mais um dia cheio de aventuras pela frente. Há aqueles que começam o dia no Mr Pizza a comer duas super fatias e a beber um metro de finos, aproveitando o embalo e o melhor remédio para evitar uma forte ressaca, enfim, há

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muitas escolhas aleatórias a tomar que nunca deixam de ser interessantes. É neste tempo que se encontram grandes amigos para a vida, que se fazem muitas asneiras, enfim, a queima das fitas é realmente o auge da diversão, de todos os abusos, da boémia e alguns arrependimentos. Também faz parte. Combinam-se jantaradas, desafios parvos que incrivelmente quase todos alinham, apesar de desistências ou aquisições futuras. Enfim, é verdadeiramente a melhor semana académica com a qual um estudante pode sonhar. Sem preocupações, diversão 24 horas por dia, sim, literalmente 24 horas! Conhecem-se pessoas fantásticas, encontram-se amigos de outrora e fazem-se novas amizades. Pessoalmente, nunca irei esquecer o tão querido Ribeiro que passou certamente os melhores momentos da sua vida com o melhor grupo de amigos que podia ter encontrado na cidade dos estudantes. Nunca serás esquecido! Uma visão magnífica é a acolhedora praia da Figueira pintalgada de pontos negros que, cansados e depois de um bom banho no mar, acabam por cair nas míticas areias douradas ao som da suave melodia do mar. Segue-se a garraiada para os apaixonados e umas dores escaldantes na pele para os parvinhos que adormeceram ao sol num dia tórrido, como eu. Enfim, são lembranças de uma queima atribulada, com cicatrizes de algumas quedas, e umas quantas nódoas negras que nunca se chega bem a saber como raio apareceram na nossa pele. Bem, o que interessa é que na altura não doía nada! Portanto, entre jantaradas, bebedeiras e concertos há tempo para tudo, algo inesperado acaba sempre por acontecer. É a magia de Coimbra que gentilmente guarda todos os segredos nas lágrimas do rio Mondego, levando toda a verdade consigo para o mar. E foi assim que aconteceu!

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Picture today, inspire tomorrow Gilberto Silva Picture today, inspire tomorrow é o lema do mais recente e massivo movimento que envolve a fotografia de todos os escalões. Desde o mais miúdo ao mais graúdo, do menos ao mais experiente, todos foram convidados a participar naquilo que vai ser a maior base de dados fotográfica online sobre um único dia na vida das pessoas. Os cliques começaram às zero horas de terça-feira, 15 de Maio de 2012, e foi este o dia em que cada um de nós pôde contribuir para marcar um momento na História. A essência deste evento corrobora a minha visão sobre a fotografia: capturar um momento é ter a oportunidade de o eternizar. É ter nas mãos uma máquina do tempo e poder utilizá-la no futuro. Além da perspectiva que foco acima, há vários campos onde o poder da imagem é utilizado, sendo que, na maioria das vezes, não tem fins lucrativos, servindo apenas para refrescar as nossas

ter noções de questões mais técnicas e aprender a dominar o equipamento que se tem. Para quem quer entrar e conhecer mais por dentro o mundo da fotografia, ficam algumas dicas que eu próprio vim seguindo: Comprar uma máquina reflex não é o primeiro passo para se ser fotógrafo. Uma digital compacta é o suficiente para começar a crescer e fazer-se crescer na fotografia. Sê crítico no teu trabalho. Hoje em dia podem tirarse infinitas fotografias, mas podem tirar-se infinitas fotografias imperfeitas, e haverá sempre uma melhor. Por isso tenta sempre melhorar. Pede uma visão a amigos e compara-a com a tua, para saberes se estás a conseguir transmitir aquilo que queres. Há muitos fotógrafos amadores hoje em dia, por isso sê diferente e arrojado. Não tenhas medo de tentar novas formas e técnicas de fotografar. A fotografia é arte e a arte é um acto criativo, que é das mais valorosas virtudes do Homem.

memórias de momentos passados. Pessoalmente, abordei a fotografia numa perspectiva mais artística, tentando apelar ao sentimento, procurando fenómenos naturais, paisagens, animais, pormenores. Curiosamente este tipo de fotografia tem um carácter mais intemporal e menos pessoal, pois pretendo mostrar às pessoas o que elas querem ver, não porque é (por ser) uma foto comercial, mas porque cada pessoa pode tomar a fotografia como sua, atribuindo-lhe o sentido que ela própria quer, sem no entanto deixar de ter a minha própria interpretação. Por isso, sou seguidor da ideia de que uma criação artística como a fotografia deve sempre vir acompanhada de uma memória, direccionando a mesma para um certo pensamento. Queres entrar no mundo da fotografia? Neste ponto, quem quer aprofundar-se como fotógrafo não pode somente dar um sentido às suas fotos e dominar apenas um botão da máquina digital, seja ela compacta, semi-profissional ou profissional. É necessário começar a

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Repúblicas de Coimbra, um património a preservar João Azevedo_República da Praça A nova lei do arrendamento urbano vem trazer consequências nefastas para as Repúblicas estudantis de Coimbra, casas únicas na transmissão de valores comunitários, de camaradagem e escolas de vida e de formação humana de muitos estudantes da nossa academia. Viver numa República é sobretudo um espirito, para partilhar e fechar amizades eternas, onde vivemos amores, tristezas mas sobretudo momentos que jamais serão esquecidos. Aqui, idealizou-se a liberdade. Combateu-se um regime e venceram-se inúmeras batalhas, académicas e políticas. A democratização do ensino e as grandes lutas estudantis que hoje marcam a história da academia começaram nestas Repúblicas. Nos dias de hoje contam-se 26 casas, “sempre de porta aberta” para receberem o outro, com uma refeição e um tecto sempre ao alcance do mais necessitado. Aqui prestase um serviço social, no desenvolver de actividades culturais como ciclos de cinema, concertos, peças de teatro, tertúlias e debates sobre os mais diversos temas. “Viver um ano numa República é como viver cem anos lá fora” – é um dito comum das Repúblicas, o que demonstra como o modo de vida nestas casas é único e marcante. Coimbra, hoje conhecida pela sua rica história sofrerá um vazio de valores enorme na perca de um património como este. Se o país continuar neste rumo e sem estas casas, estou certo que a nossa Universidade continuará a

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formar excelentes técnicos mas humana e culturalmente vazios, comprometendo ainda mais as gerações futuras deste país. É por tudo isto e muito mais, ao alcance de quem nos sente e visita, que estas casas, hoje candidatas a património mundial da UNESCO em conjunto com a Universidade de Coimbra, devem ser salvaguardadas. Em 1982, no sentido de proteger este património material, mas sobretudo imaterial foi criada uma lei que protegia as repúblicas nas lutas que estas vinham a travar com os seus senhorios. Os contratos foram definidos sem termo e as rendas foram congeladas, permitindo assim uma passagem de valores de geração em geração, de modo a garantir sempre a sustentabilidade da casa. Hoje, com a nova lei do arrendamento, esta lei de 1982 é automaticamente revogada e as repúblicas ficam facilmente sujeitas a acções de despejo por parte dos seus senhorios e com as previstas actualizações das rendas para valores incomportáveis para um estudante estas medidas decretarão a impossibilidade de se eternizar o modo de vida que caracteriza estas casas tão singulares e heterogéneas. Assim, é extremamente necessário uma consciencialização, de todos nós estudantes, da sociedade civil e do poder politico para esta nobre causa. As Repúblicas são história viva da academia coimbrã, são um valor imaterial que tem de ser preservado e impedido de ser sacrificado a interesses de ocasião. Preservar este pedaço de história é defender um património valioso e inalienável, na formação dos valores da nossa academia. Temos uma porta aberta para te receber…

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Carolina Silveira

Entrevista

texto_Joana Faria e Karen Duarte Olá Carolina, fala-nos um pouco de

ti. O meu nome é Carolina, tenho 19 anos, sou da Guarda e gosto de fazer muitas coisas nos meus tempos livres. Neste momento faço parte do Departamento de Tecnologia da jeKnowledge, estou também no BEST, onde estou a ajudar a preparar um curso de Verão, e pratico Judo todas as semanas. Ainda faço parte do clube de Robótica, mas de momento não estou a trabalhar em nenhum projeto. Como é que se proporcionou a tua entrada no Clube de Robótica? Bem, no decorrer do meu 10º ano, enquanto eu estudava na Guarda, tomei conhecimento de um curso de 3 dias que estava a ser feito no pólo de Robótica da Guarda, porque o meu irmão mais novo se tinha inscrito e eu também quis ir. Neste curso tínhamos de fazer um robô muito simples, e ao fim dos três dias tínhamos um minicompetição para testar os robôs e a nossa equipa ganhou. Fomos então convidados para fazer parte da equipa da Guarda e aceitamos. Depois comecei a participar nos campeonatos nacionais de Robótica. No final do secundário, o Tiago começou a pensar em falar com a Universidade de Coimbra para fundar um clube de robótica em Coimbra, uma vez que alguns dos membros da equipa vinham para cá estudar. Não sei precisar como foi todo o processo mas conseguiram. Portanto no meu 12º ano vinha a Coimbra todos os fins-de-semana para preparar o robô para a competição nacional, na qual tenho vindo a participar todos os anos. Este ano não participei porque já não iria participar na categoria Jovem. Que tipos de projetos fizeram no Clube de Robótica? O meu primeiro projeto foi um robô de busca e salvamento, em que o robô tem um pista onde tem que seguir uma linha, detectar vítimas que estão chão com sensores de luz, tem que se desviar de obstáculos, tem de subir uma rampa

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e tem que percorrer a pista do andar de cima. No entanto, neste momento a prova está diferente, penso que agora o robô tem que agarrar numa lata e movê-la. Este robô foi feito com NXT da LEGO e programávamos em linguagem C. Depois foi o projeto de dança, em que utilizávamos duas bolas gigantes e o eixo das bolas era um robô NXT que servia de pêndulo para fazer rodar a bola, nós calculávamos o ângulo para ver para que lado pretendiamos rodar a bola. Neste existia mesmo uma coreografia! Neste ano, fomos à Nacional do Robô bombeiro,

de se orientar pelas paredes e não pelo chão, com sonares em vez de sensores de luz. Tinha de detectar vítimas com sensores de temperatura. Outros projectos que também tenhas participado... Há um que também gostei muito, num curso do BEST que fiz o ano passado. Tínhamos de construir um satélite que coubesse dentro de uma lata de cerveja. Utilizámos o arduino e tivemos de soldar os componentes todos, o GPS por exemplo. Depois lançámos o satélite do telhado, incluímos-lhe um sistema de pára-quedas, a ideia era que durante a queda comunicasse com a nossa ground station, que era o computador. Não foi muito difícil, mas tínhamos 15 dias só. Gostei muito. Porque escolheste biomédica se tinhas tanto interesse em robótica? Pois. No 12º estava muito indecisa, sabia que queria uma engenharia, não sabia era qual. Como Biomédica tem também a parte de Biologia, e eu não a queria deixar completamente, escolhi-a. Agora estou a gostar.

este robô tem de se orientar num labirinto com quatro quartos. Num canto de um dos quartos está uma vela, assinalada com um círculo branco no chão, uma vez que o resto do chão é preto, e assim o robô pode fazer a distinção. O robô pode ser colocado em qualquer lugar do labirinto, e tinha que orientar-se, encontrar a vela, apagála e voltar ao início. Nesse ano fomos à competição internacional nos Estados Unidos da América, porque ganhamos o Nacional, e levamos dois robôs: um robô de rodas e robô de patas. No ano seguinte, foi a prova de Futebol: fizemos dois robôs que jogavam futebol 2x2, na categoria B. O robô tinha de permanecer dentro de linhas limitadoras. Não ganhámos, mas foi a categoria de que gostei mais. Depois foi robô de busca e salvamento outra vez, agora numa categoria em que o robô tem

Como é que tens tempo para fazer tudo? Como eu gosto do que faço, arranjo tempo e divido-me. Há dias que tenho mesmo por etapas, e tempos. E tenho de os cumprir, não posso estar com hesitações. Tenho muitos calendários, organizo bastante. O que é que gostavas de fazer no futuro? Se estás mais inclinada para a Biomédica, a Robótica, ou ambos? Acho que é mais ambos. Gosto da área da Robótica Médica, ou a relacionada com o Espaço, os astronautas e controlar os valores e níveis todos. Inicialmente até tinha pensado em Engenharia Aeroespacial, mas agora tenho colegas a estudar isso, e ainda bem que não fui para lá.

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Estado estacionário

Tondela Andoni Santos

Situado no distrito de Viseu, em plena região Dão-Lafões, ergue-se o concelho de Tondela. Envolvido pelas paisagens da Serra do Caramulo, todo o concelho está em grande contacto com a natureza, tirando grande proveito disso. Existem vários miradouros espalhados pela Serra, sendo o mais notável o do Caramulinho, um fantástico rochedo a 1075 metros de altitude, que nos deixa ter uma vista fantástica da região. Apesar de não ser recomendado a pessoas que tenham problemas em subir a sítios altos (como eu), vale a pena o esforço, apesar dos penosos 284 estreitos degraus. Este é ainda um ponto de referência para os amantes de escalada. Há ainda uma grande variedade de percursos pedestres disponíveis para quem estiver disposto a ceder algumas horas para conhecer melhor a zona a pé ou de bicicleta. Ainda na Serra, temos a vila do Caramulo, que ganhou uma certa fama no século passado pela frescura e pureza do ar, ideais para os sanatórios que davam abrigo aos doentes afectados pela Tuberculose. Com o passar dos anos, os sanatórios fecharam, à medida que se tornaram desnecessários. Surgiu entretanto o Museu do Caramulo, criado pelos dois filhos de um médico, dono da maioria dos sanatórios, um deles amante de arte e o outro de automóveis. Hoje em dia, além de exposições temporárias, o Museu alberga uma colecção de arte, de automóveis e de brinquedos, e é responsável pela organização do Caramulo Motorfestival,

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evento dedicado a veículos clássicos e desportivos, que tem tido enorme crescimento nos últimos anos. Em termos culturais existe ume referência incontornável no concelho. A ACERT – Associação Cultural e Recreativa de Tondela – é responsável por grande parte dos eventos no concelho. Desde concertos e festivais musicais dos mais diversos géneros, festivais internacionais de teatro, a única sala de cinema do concelho, até ajudar no desenvolvimento de tradições da cidade, pegando nelas e levando-as mais além, como é o exemplo da Queima e Rebentamento do Judas. Apesar de não ser um evento único em Portugal, até porque é uma tradição presente em muitas terras pelo país fora, a ACERT agarrou na tradição e, hoje em dia, todos os anos faz um espectáculo teatral e pirotécnico com mais de duzentos voluntários, maioritariamente jovens, que tem por público milhares de pessoas. Como estou a ficar sem espaço, resta-me então dizer que vale a pena visitar Tondela, seja para tirar um dia para passear por paisagens mais calmas, ou para participar num dos muitos eventos que todos os anos por lá passam.

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Estado exitado

Milão Carla Guerra “The world is a book and those who do not travel read only one page.” – St. Augustine. Depois de 6 meses demasiado curtos a ‘estudar’ em Milão tive de aproveitar esta oportunidade para vos passar o testemunho. O objectivo é convencer-vos que não estou a mentir quando digo que Milão é uma cidade maravilhosa para viver. Ora escutem: Facto nº 1: É uma cidade super cosmopolita, com imensa vida, onde passam por todas as nacionalidades a passear na rua, onde estão sempre mil e um eventos a acontecer. Facto nº 2: GASTRONOMIA ITALIANA - pizzas, massas, lasagna. limoncello, gelados, granizados!! e um conceito que com os tugas nunca funcionaria, os aperitivi: pagam a bebida e têm direito a petiscar tudo o que quiserem e na quantidade que quiserem do que eles têm na mesa aka para nós: comer tudo o que aguentarmos. Facto nº 3: Universidades muito conceituadas, principalmente o Politecnico di Milano no que toca às ciências e tecnologias. As presenças não são obrigatórias, mas a verdade é que, embora os italianos sejam muito parecidos connosco no que toca a (não)

trabalhar, no polimi eles vão a TODAS as aulas e passam a aula TODA a fazer apontamentos. Facto nº 4: O duomo, as galerias Vittorio Emanuele II, parques gigantes, as colunas de San Lorenzo, uma zona chamada Navigli constítuida por dois canais rodeados de restaurantes, barzinhos e creperias, onde todas as sextas feiras do último mês fazem um mercatone dell’antiquariato onde se encontram literalmente coisas do arco da velha. Por tudo e por nada organizam dias de entrada livre nos museus! e

Facto nº7: FESTA. São um povo muito bem disposto e não faltam sítios para se divertirem até de manhã, é impossível fartar! Para os estrangeiros, associações como a ESN e a ESEG são uma grande mais valia, porque a vida deles é basicamente proporcionar-nos a estadia mais animada possível.

por muito macabro que pareça, até o cemitério vale a pena visitar com as esculturas que apresenta. Facto nº 5 : Capital da moda. Podem dizer que é um ponto a favor só para as meninas pelas as imensas ruas com Gucci’s, Prada’s, Channel’s e conceituada fashion week. Mas os rapazes que não se esqueçam das modelos que podem encontrar por lá :p Facto nº 6: Uma das capitais do design. A design week é dos eventos que mais recomendo, tem concertos, comida,

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massagens à pala e claro os objectos/ decoração/ambientes mais estranhos e criativos que possam imaginar em exposição.

Facto nº 8: Óptimos transportes - metro, autocarro, tram, 3 aeroportos (o que dá grande liberdade para viajar para tudo quanto é sítio). Não se admirem de ver velhotas de casaco de vison no metro ao lado de um sem abrigo a dormir. Facto nº 9: O país! Itália tem tantos sítios lindíssimos para visitar de norte a sul. Facto nº10: e per ultimo, l’italiano!! para nós é fácil, chega fazer uns gestos com as mãos, dar entoação e dizer ‘scusi, babaribupi’- é um idioma quase cantado que dá gozo só de ouvir. Assim me despeço, CIAO RAGAZZI!

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Os Vingadores

Pedro Figueiredo

Mais do que esperado e prometido, o filme Os vingadores chega agora aos cinemas. Um filme que tem vindo a deixar migalhas de pão para ser encontrado, quem não ficou até ao último segundo do segundo filme do Hulk, ou então no filme do Iron Man? Pois é, se foste um desses como eu que não consegui tirar os olhos do ecrã nem mesmo durante a parte final na esperança de mais 5 segundos de filme ou de uma parte escondida, sabias que havia uma organização a recrutar heróis e, como tal, se aproximava um filme incrível. Neste filme Nick Fury (Samuel L. Jackson) junta uma equipa de Super-Heróis da Marvel como o Iron Man, o Captain America, o Hulk, o Thor, a Black Widow e o Hawkeye; esta equipa vai tentar salvar o mundo de Loki e do seu exército de extraterrestres que ameaça conquistar o mundo. Contudo esta equipa quando começa não é um “um mar de rosas” uma vez que que não passam de um grupo de pessoas com características muito diferentes, características essas que vão ser aproveitadas por Loki para fazer deles uma bomba relógio. Além disso será que Bruce Banner vai conseguir controlar o Hulk ou pelo menos guia-lo no caminho certo, ou o monstro verde será apenas prejudicial? Este é um filme que não podes perder se gostas de te dissipar pelo mundo da fantasia, alem disso é um filme onde os poderes dos heróis, as partes de acção e os efeitos especiais não foram poupados. E já quase me esquecia, desta vez pode ser que haja outra parte escondida; eu se fosse a ti ficava mais um bocado só para ter a certeza.

Sangue do meu sangue Frederico Borges O desenho de uma família portuguesa nos subúrbios de Lisboa é o quadro de uma realidade dura de muitos portugueses. Não, não são uns coitadinhos da TVI, mas uma família que tenta sobreviver quando a vida lhes dá um osso duro de roer. Apesar de a família ser a figura central deste filme, é a chefe da casa, Márcia, uma mãe solteira que trabalha como cozinheira, que faz de elo de ligação entre as diferentes histórias existentes neste filme, sendo de salientar a grandiosa interpretação de Rita Blanco neste papel. A filha mais velha, Cláudia interpretada por Cleia Almeida, apaixona-se e inicia uma relação amorosa com um professor casado, e o filho mais novo, Joca interpretado por Rafael Morais está novamente envolvido no mundo das drogas. A viver com esta família está a tia, Ivete interpretada por Anabela Moreira, uma solteirona que está desesperadamente à procura de um companheiro.À medida que o filme vai avançando as histórias vão-se interligando, de uma forma quase tarantiniana, e as acções que o coração dita complica cada vez mais os problemas das personagens. É de louvar a equipa de actores, Nuno Melo, Beatriz Batarda, Fernando Luís, etc., que este filme conseguiu concentrar que permite o filne fluir como um documentário das famílias portuguesas, no entanto o argumento é que agarra o espectador à cadeira de tal forma que as duas horas e meia de filme passam a correr. A direcção, tal como o argumento, estiveram a cargo de João Canijo, um mestre com as câmaras na mão. Os planos com duas conversas em paralelo que acompanham o filme são verdadeiramente magníficos. João Canijo alcança neste filme o reconhecimento internacional, que já deveria ter alcançado a nível nacional. Este é um dos melhores filmes de 2011 que representa a sociedade portuguesa que muitos de nós desejamos não conhecer. Não percam o que melhor se faz em Portugal, e no Mundo, na arte cinematográfica. Só para saberem vi este filme três vezes num mês numa sala de Cinema. A não perder.

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24 frames por segundo

12 Macacos

Gonçalo Louzada

Twelve Monkeys (12 Macacos) é um filme de ficção científica, que tem como pano de fundo viagens no tempo e se passa num futuro pós-apocalíptico. O trigger da história é uma cena desenhada num aeroporto, em que um jovem assiste aterrorizado a um assassinato de um homem que aparenta inocência. James Cole (Bruce Willis) é um prisioneiro em 2035 que ganha liberdade condicional se aceitar viajar atrás no tempo para procurar as causas de um vírus que dizimou a maioria da população da Terra (os sobreviventes vivem no subsolo). Mas quando volta ao ano de 1990, seis anos antes do início da praga, Cole é preso numa clínica psiquiátrica, pois as suas conversas futuristas soam a delírios loucos. Nessa clínica, Cole encontra duas personagens chave para a história: a Dra. Kathryn Railly (Madeleine Stowe) e o lunático Jeffrey Goines (Brad Pitt). O reconhecido realizador Terry Gilliam aproveita para explorar alguns dos seus temas mais recorrentes: a ténue linha entre a sanidade e a loucura, a discrepância ambígua entre o passado e o presente, a difícil distinção entre realidade e fantasia, as falhas da ciência, a tirania da razão e as (ainda?) surreais viagens no tempo. Um filme sombrio, por vezes desconfortável (influências de Blade Runner?), excessiva e espetacularmente complicado, bem ao estilo do inventivo de Gilliam. Willis está a um bom nível ao dar vida ao perturbado herói James Cole e Brad Pitt assina uma das suas performances mais memoráveis, marcando o filme com o seu louco Goines. Além destas performances, a densa textura deste filme, aliada às temáticas que Gilliam introduz são as principais atracções.

Scott Pilgrim vs. the world Gonçalo Louzada Baseado na banda desenhada de Bryan Lee O’Malley, Scott Pilgrim vs. the World (Scott Pilgrim Contra o Mundo) segue as peripécias do jovem Scott Pilgrim (Michael Cera), na sua colorida demanda pelo coração de Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead). Scott tem como única ocupação ser baixista na sua banda, os Sex Bob-Omb. Tudo muda quando o protagonista conhece Ramona, uma extravagante rapariga que entrega encomendas. Mas quando este decide perseguir a sua realização afetiva, eis que surgem sete enormes obstáculos neste caminho: os sete ex’s de Ramona, desde baixistas vegetarianos a estrelas do skate. Com realização de Edgar Wright, a magia do filme passa muito pela relação intrínseca entre realidade e fantasia, passeandose pelo meio dos videojogos de arcade. O espectador vê-se entretanto surpreendido com a maneira sinuosa como o filme caminha em direção ao seu objetivo, sendo esta imprevisibilidade um dos trunfos mais fortes do filme. Michael Cera não desilude ao personificar o jovem músico na sua luta pela conquista de Ramona, sempre com o look distraído e ingénuo que o caracteriza, oferecendo a leveza necessária para proporcionar hora e meia de diversão. Winstead completa a dicotomia de personalidades, ao fazer de Ramona um misto de galã e cérebro do filme, uma rapariga normalmente fora do alcance de rapazes como Scott, sem cair no cliché. E ainda há espaço para o Super-Homem Brandon Routh dar uma ajuda. Concluindo, um filme de culto moderno que tem tudo para agradar a várias audiências com o seu cariz leve, uma sinergia de energias provenientes do real e do fantástico e uma banda sonora dominada pelo rock.

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78 rotações por minuto

The Shins - Port of Morrow Gonçalo Louzada The Shins é nome de um grupo Norte Americano cuja sonoridade é povoada pelo rock, pop, um pouco de country e até de folk. Desta combinação (o que lhe chamar, Indie?) emergem uma série de canções capazes de marcar uma vida, compostas pela imaginação de James Mercer. O seu novo álbum chama-se Port of Morrow, e reaviva a chama de um grupo que tem estado adormecido nos últimos anos, com produção de Greg Kurstin cujo trabalho maximiza o poder emocional do álbum. The Rifle’s Spiral abre portas a uma mais uma epopeia musical, com a energia da bateria a marcar este início. Simple Song é tudo menos simples, guiada pela guitarra estridente e baixo pulsante, acrescentando um toque pop de piano ao refrão. Em alguns momentos do álbum, Mercer acaba por diminuir a intensidade deixando-se inundar pelo seu lado mais intimista, como em It’s Only Life. Mas depois desta, Bait and Switch repõe os níveis de energia, pintando os sons de alegria e uns retoque de groove. September por sua vez leva o ouvinte a pairar numa brisa primaveril, seguida de No Way Down que responde a quem questiona a expetativa que envolveu este álbum, cruzando perfeitamente os universos do Indie e do Pop. Por sua vez, For a Fool reveste-se de suavidade e carga emocional, embrenhando-se na cabeça de quem ouve. A recta final do álbum recorre a diferentes faces, com Fall of 82 a diminuir o ritmo, seguida de 40 Mark Strasse, calmamente comandada pela sua guitarra acústica. Port of Morrow, que empresta nome ao álbum, termina em beleza o último esforço do quinteto, sublime na sua simplicidade, finalizando está obra de arte sónica. Port of Morrow bebe influências de todos os álbuns passados, pescando no lago de ingenuidade de Oh, Inverted World e nas águas coloridas de Wincing The Night Away. É um álbum coerente que promete boa companhia qualquer que seja o instante, e que merece ser ouvido mais que uma vez.

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Torche - Harmonicraft João Borba Formados em Miami, e com quase 10 anos de existência, os Torche são vulgarmente caracterizados como uma banda de metal, mas não sabem como soar a metal. Na verdade, mais facilmente se poderia caracterizar os Torche como um misto de stoner metal e hard rock com uma estranha mais deliciosa sensibilidade pop. Depois do álbum de estreia homónimo (2005) e de Meanderthal (2008) terem sido aclamados positivamente pela crítica musical, seria expectável que o próximo álbum lançado pela banda viesse reforçar ainda mais o seu selo de qualidade. No entanto, é importante referir que depois de Meanderthal, o guitarrista Juan Montoya abandonou a banda (Andrew Elstner entrou para o seu lugar). Depois, em 2010, um EP com uma sonoridade diferente daquilo que a banda nos habituou foi lançado (Songs for Singles). Com estas pequenos grandes acontecimentos, havia motivo suficiente para duvidar se Harmonicraft poderia ter a identidade da banda intacta. Mas não só Harmonicraft é fiel ao que são os Torche, como se apresenta mais polido e tão forte, ou melhor que os seus antecessores. Vale a pena destacar a abertura em modo hino de estádio com “Letting Go” e “Kicking”, o brilhante trabalho de guitarras de “Snakes Are Charmed” ou “Roaming”, para ouvir num carro a alta velocidade. Pelo meio, o álbum também tem tempo para um puro instrumental (“Harmonicraft”), para umas rapidinhas noise (“Walk It Off”, “Sky Trials”) e para prestar homenagem aos Black Sabbath (“Looking On”), sem nunca perder qualidade.Num período onde o rock, o metal e as respectivas fusões de ambos os estilos estão a passar por uma crise de criatividade, é bom saber que há bandas que ainda conseguem, mantendo-se fiéis ao que são, produzir álbuns de qualidade. Harmonicraft é poderoso, por estar repleto de riffs raivosos e pegajosos, mas também sabe como ser belo e harmónico (já avisava o título!) Concorrente às listas de melhores álbuns de 2012? Provavelmente.

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78 rotações por minuto

Willie Wright - Telling the truth Bernardino Rocha Decorria o ano de 1977 quando Willie Wright, cantor e compositor praticamente desconhecido, gravou o seu primeiro e único disco de originais. Foram produzidas apenas 1000 cópias desse LP e Wright vendeu-as em Nantucket Island, Massachusetts, a transeuntes e turistas. Em 2011 a editora Numero reeditou Telling The Truth na sua integridade. Wright poliu as suas técnicas enquanto performer entre New York e Boston, durante o renascimento boémio das referidas cidades nos anos 60. Facto que explica a forte influência folk sobre as suas baladas soul e canções de cadência lenta mas de um generoso grooving funk. Um exemplo disso é “Nantucket Island”, uma ode ao lugar onde Wright se refugiou. O refrão volúvel harmoniza riffs de guitarra e pontualmente de piano. Despreocupada e de tom ameno é também a “Indian Reservation”, uma canção sobre as origens Cherokee da sua mãe e sobre a sua infância em St. Louis, Missouri. Em ambas as faixas, Wright descomplica na construção de letras elaboradas, sendo contudo incisivo no seu conteúdo. Wright, que era conhecido como nómada conjugal, canta sobre o seu estilo de vida em “Love is Expensive” e “Jackie´s Song”. No entanto, e em minha opinião, a faixa que se destaca deste Telling The Truth é sem dúvida “Right On For The Darkness”, original de Curtis Mayfield, que não se encontrava na edição original mas, felizmente, foi incluído na reedição a cargo da Numero e permite sondar as habilidades de Wright enquanto instrumentista. Para além de ser muito bom guitarrista funk, é de notar uma especial habilidade enquanto flautista. O groove esparso em “Right On For The Darkness” dá espaço suficiente para linhas de flauta bem como para percussão adicional de congas e bongós complementando perfeitamente a voz profunda de Wright, muito de acordo com a sonância de Marvin Gaye. De salientar ainda “I´m So Happy Now” numa consistente e funky linha de baixo é refrescante no período estival que se aproxima. Numa hora, Telling The Truth é uma experiência pura e agradável que pela Numero não foi perdida nos confins de uma memória pouco saudável.

My bloody valentine - loveless Bernardino Rocha Originários de Dublin os My Bloody Valentine são uma banda shoegaze incontornável. Formada no início dos anos 80 por Kevin Shields e Colm O’Ciosoig com o vocalista Dave Conway e a teclista Tina. No entanto em 1987 Conway abandonou a banda sendo substituído pela guitarrista/ vocalista Bilinda Butcher, cuja etérea voz se funde de forma mais fecunda na envolvência sonora da banda. Redefiniram o sentido e significado do noise, num contexto de demarcada presença de bandas precursoras como os Sonic Youth e Jesus & Mary Chain. Loveless, terceiro disco da banda editado em 1991 pela Sire, foi gravado num período aproximado de 2 anos. Como com qualquer obra de arte existe sempre um valor acrescido inerente à mesma, e neste caso o valor, que ascendeu alegadamente a 250000 libras, quase levou a editora (Creation) à falência, mas vale cada penny. O génio recluso de Shields conseguiu desprender-se de uma estética seguida por bandas contemporâneas, como os Slowdive e Ride, transportando e transformando Loveless numa sinfonia agridoce, expandindo as possibilidades do noise enquanto forma de melodia, que permanece até hoje sem paralelo. Uma vez que o álbum é essencialmente uma colagem sonora, polida e calibrada ao Hertz, onde cada canção se funde com a próxima, não é de todo congruente escolher uma em detrimento de outra, mas arrisco na “When You Sleep” uma das minhas favoritas. A ambiência provocada por uma densidade quase impenetrável dos riffs de guitarra, por Shields e Butcher, pela percussão sincopada, e pela catarse de loops abstractos, permite uma constante tensão sexual das vozes de Shields e Butcher que muitas vezes se confundem. O registo recombina traços da Pop, Rock e Punk numa amálgama de rara emancipação cultural, sendo um disco de referência de bandas como NIN, Mogwai, Radiohead entre outras. Loveless é a celebração depressiva pela privação do amor. É um álbum onde se percebe que a única coisa permanente no romance é a dor que resulta da sua ausência. De facto a única coisa que de depreciativo se pode dizer acerca deste disco é que foi o último da banda. Contudo Shileds reclamou de forma brilhante um lugar na história da música, junto a excêntricos como Syd Barret (Pink Floyd) e Brian Wilson (The Beach Boys).

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A gamer (re)view

João Faria

Chamar jogo a Journey será, talvez, insultuoso para o trabalho desenvolvido pela thatgamecompany. Não há dúvidas, estamos perante uma obra de arte que demonstra, mais uma vez, que não é necessário ter o melhor grafismo 3D para se obter uma experiência de jogo impar. Journey é algo que todos nós já jogamos inúmeras vezes, mas a sua componente artística torna-o em algo único. Journey, tal como o próprio nome indica, é uma viagem levada a cabo por uma personagem composta por tecido e que tem como objetivo, atravessar um longo e penoso deserto até alcançar uma montanha com um cume luminoso. É um jogo altamente intuitivo em que o próprio mundo incentiva o jogador a avançar, surgindo sempre algo que acaba por o levar a um segredo ou zona seguinte. No início do jogo a personagem limita-se a andar e produzir sons, mas mais tarde descobrirá um cachecol que permitirá que voe por breves instantes. Este cachecol começa bastante curto, mas após algum tempo de jogo, irão descobrir luzes escondidas ao longo do cenário de jogo que aumentam o cachecol e possibilitam que a personagem voe cada vez mais longe. Após cada utilização, o cachecol perde energia, existindo várias formas de a recuperar, através do contacto com outras peças de roupa espalhadas pelo mundo do jogo, ou através da utilização dos sons produzidos pela personagem, e por fim através do jogo cooperativo com outros jogadores. Em termos de online, Journey, é diferente de tudo o que estamos habituados. Para interagirmos com outros jogadores, apenas é necessário ligação á internet, não sendo preciso

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entrar em qualquer tipo de Lobby ou fazer convites. Aliás, não é permitido que convidem os vossos amigos para uma “jogatana”, tudo é feito de forma natural e em tempo real. Journey possibilita que a aventura seja, toda ela, jogada com outros jogadores. Deste modo podem unir forças com outros jogadores que ou se preferirem jogar sozinhos basta afastaremse do jogador até que ele desapareça no horizonte. A nível gráfico, Journey proporciona uma experiência única, sendo impossível ficar indiferente a toda a componente artística do jogo. Tudo é deslumbrante, os cenários, as personagens, os elementos físicos. Quanto ao som, oferece uma experiência constante de sons ambientes e músicas com teor místico, que parecem encaixar de forma perfeita no mundo que nos rodeia. Para além da música existe a comunicação, que cria momentos sonoros brutais. Apesar da obra de arte que é possuí defeitos, sendo o maior de todos a sua (falta de) longevidade. Caso pretendam, simplesmente, terminar a viajem, a experiência de jogo não ultrapassará as 2 horas de jogo. No entanto, se quiserem explorar todo o mundo de Journey, a experiência de jogo aumentará, consideravelmente, para 6 horas de jogo. Outro dos pontos negativos de Journey são as desconexões, isto é, por vezes devido a uma grande distância entre os jogadores /personagens perdemos os nossos “Colegas de viagem”. Em suma, Journey, oferece uma experiência artística e sonora ímpar tornando-o num dos jogos mais únicos do ano, comprovado pelo recorde de vendas na PSN. A não perder!

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Depois de Coimbra

‘Ficará melhor dizer Sandes ou Sande?’ João Fernandes Bem...escrevo-vos esta crónica, não muito tempo após mais uma épica (porque sempre o é) Queima das Fitas. Incumbiram-me da tarefa de vos relatar um pouco de como é a Vida Pós Coimbra, algo que aceitei, de início com agrado, mas depois, como sou um árduo defensor da procrastinação, tentei “chutar para canto” exigindo um cachet...caramba, é que nem uma sandes (ou sande!) de fiambre e uma Sumol foram capazes de me oferecer....não há direito! Vai um tipo perder, vá lá, na loucura uns bons 10 minutos da sua vida (que poderiam muito bem ser os 10 minutos mais épicos de todo o sempre) e é que nem um copito com água...mas enfim! Findas as lamentações, tal e qual um lavar de roupa suja, volto portanto ao ponto pelo qual gasto as teclas do meu PC, portanto, a Vida Pós Coimbra...não é fácil para mim dissertar sobre este tema pois eu, nascido, criado e tendo inclusive estudado e ficado a trabalhar na Cidade dos Estudantes tenho inevitavelmente uma opinião de certo modo tendenciosa. Tal como vocês, também eu deambulei pelos meandros do Departamento de Física durante algum tempo, entretido na minha vidinha a tirar o curso de Engenharia Biomédica, e findo esse ciclo, acabei por ficar a trabalhar numa empresa ligada às Energias Renováveis, situada na periferia. O que mudou entretanto (perguntarão vocês na minha cabeça)? Tanta coisa...Recordome vivamente das palavras do meu velhote quando me encontrava numa daquelas manhãs, após mais uma saída nocturna, com um ar de quem acabou de sobreviver a um assalto de boxe contra o Rocky: “Aproveita agora, que essa vida não dura sempre!”, ao que eu respondia, com o meu ar de entendido: “Ah, mas tu pensas que é só boa vida, eu farto-me de estudar e trabalhar!”; Confesso que não eram as palavras mais sinceras que saíam da minha boca, mas a verdade é que na altura eu pensava mesmo que tinha uma vida “dura” de certo modo. E aí reside a primeira diferença entre os ciclos estudar/ trabalhar: o facto de não podermos escolher, e termos de obedecer a

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horários, mais ou menos rígidos, e termos responsabilidades profissionais para com outras pessoas que não nós próprios. E isso pesa nomeadamente quando (e volto à minha primeira frase) aparecem as alturas em que os “Pinguins” saem à rua, as Queimas e Latadas, e aquele bichinho que nunca de cá saiu volta-se a manifestar e a extrapolar a minha vontade de sair porta fora e só voltar após o raiar do sol. Mas, exceptuando nos fins-desemana, não o posso (ou pelo menos não

o devo) fazer. Não me interpretem mal, eu até gosto do que faço, mas a quantidade exorbitante de responsabilidade que me foi “atirada” para cima, para a qual não estava minimamente preparado e exigiu de mim algum “jogo de cintura”, foi avassaladoramente assustadora. Vime atirado para um mundo que exigia de mim algo que eu não estava ainda preparado para dar, e foi um grande balde de água fria, e certamente um daqueles chamados “abr’olhos”. Mas o ser humano é um bicho que se adapta, e eu não sou excepção. Neste momento encontrei o meu “cantinho confortável” e já me habituei a esta vida que levo já há mais de um ano. Consegui de certo modo conciliar e achar aqui um ponto de equilíbrio entre a vida que levava antes e aquela que tenho que levar agora, orgulhando-me de não ter perdido o espírito que é tão característico da nossa

cidade (sim, nossa! De quem cá nasceu e de quem cá estuda!). A mensagem que quero passar é em tudo semelhante aquela que certamente o meu pai também me queria passar com as suas palavras, muito embora eu tenha algo mais a acrescentar; A verdade é que não posso afirmar com os dentes todos: “Não há vida como a de estudante”. Para mim, se possuísse esse dom, escolheria para a minha vida ter o tempo livre e as responsabilidades que tinha enquanto estudante de Coimbra, com o acréscimo da independência, nomeadamente a financeira, que adveio do meu até agora curto percurso profissional. Mas temos que nos contentar com o que temos, e se cada um de nós reflectir sobre isso e extrapolar para tudo o que acontece no mundo, penso que os nossos problemas parecem mais pequeninos e insignificantes...é um bom exercício, experimentem! Enfim, não tenho muito mais para vos transmitir, penso que chegou a hora de ir procurar uma qualquer sandes (ou sande!) e falar acerca desta crónica com os meus novos colegas. E com isto termino o meu pensamento: com a passagem dos ciclos, irão certamente conhecer novas pessoas, com vidas completamente diferentes da que estão habituados, muitas delas já com filhos da vossa idade ou mais velhos. No meu entender, a sociedade puxa-nos para sermos assim mais cedo ou mais tarde, mas eu sou um tipo resistente à mudança, e tento permanecer o mais fiel possível à minha antiga vida, agarrandome com unhas e dentes aos momentos que me dão aquela alegria verdadeira, sem nunca me esquecer que agora tenho um dever para com a sociedade...olha pra mim tão crescido, pago impostos e tudo! A verdade é que este texto reflecte, como disse, a minha opinião tendenciosa, alguns de vocês vão-se rever nas minhas palavras, outros irão olhar para isto e achar que não “bato bem”. Como diria o Raúl Solnado (tive que ir “googlar” porque já não me lembrava): “Façam o favor de ser felizes...”, acrescentando o meu cunho pessoal: “...porque o Mundo é uma caixinha cheia de possibilidades”.

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Entrevista

André Carvalheira No passado dia 30 de Maio, André Carvalheira, Segunda Matricula do Mestrado Integrado de Engenharia Biomédica, venceu as eleições de NEDF após a Lista Tau ter superado a lista I por 30 votos. Estavas à espera de vencer as eleições, ou foi uma surpresa agradável? Esse foi o nosso primeiro desafio enquanto projecto e trabalhámos para isso. Penso que tanto pela equipa e ideias que apresentámos como pelas actividades que dinamizámos durante a campanha éramos uma opção válida e com valor para representar os estudantes do Departamento de Física. Não poderíamos, portanto, encarar isso como uma surpresa ou um acaso. Estávamos, sim, confiantes e conscientes de que isso poderia acontecer e construímos o nosso projecto sempre com isso em mente: sermos o NEDF 2012/2013. Resta-me agradecer aos 124 estudantes que confiaram em nós e prometer trabalho para conquistar a confiança dos restantes 395 estudantes do Departamento de Física. A ideia de formar a lista partiu de ti, ou foste convidado a presidir a lista? Fui incentivado por algumas pessoas a formar um projecto e pensei ‘Porque não?’. E assim foi. Comecei a falar com algumas pessoas, marcámos a primeira reunião onde reflectimos todos se faria sentido avançarmos como candidatos ao NEDF, sobre o que é o NEDF e o que pode ser, sobre porque razão é que cada um de nós se iria preocupar com isto e foi depois de todos pensarmos um bocado nos porquês e delinearmos os princípios básicos do projecto que realmente formámos a lista. Fiquei entusiasmado pelo crescente número de pessoas que marcavam presença nas reuniões e estou muito orgulhoso do que fizemos até agora. Acredito que temos equipa para fazer um bom mandato! Tendo em conta que nas últimas eleições do NEDF e da DG/AAC pertencias a listas que não venceram,

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achas que possuis experiência suficiente para presidir o NEDF? Apesar de não terem vencido as eleições os projectos a que pertenci e que foram candidatos ao NEDF e a DG/AAC, nunca deixei de ter vontade de colaborar. Acho que, acima de tudo, qualquer projecto quer o melhor para os estudantes que representa, cada um com a sua visão, claro, e, portanto, não faz sentido que quem faça parte de uma lista só

manifeste interesse na altura das eleições. Deve sim esforçar-se por colaborar ao longo do mandato. No início deste ano integrei o NEDF no Pelouro das Saídas Profissionais e Formação onde organizei e ajudei nalgumas das actividades. Além disso tenho já experiência de outras organizações formais e informais (Associação Acordar o Sereia, MF24, jeKnowledge) que penso que é bastante valiosa para acrescentar inovação e diferentes formas de ver e fazer as coisas. Mas mais importante que tudo isto é a equipa fantástica com que sei que posso contar. O que achas que podia ter corrido melhor na direcção do anterior NEDF? Acho que o NEDF actual está a fazer um bom trabalho e não queremos de forma alguma ignorar isso. Há vontade

de ambas as partes para que não seja uma ruptura. Queremos, sim, tentar melhorar o que fizeram e acrescentar coisas novas. O ponto mais importante que queremos melhorar é a comunicação e a aproximação ao que nos rodeia (Estudantes, Mundo Laboral, Direcção do DF, Secções Culturais e Desportivas da AAC, Restantes Núcleos, CCV Rómulo de Carvalho, Ensino Secundário). É algo ambicioso mas em que queremos apostar, pois consideramos muito importante. O que é que a Lista Tau têm de diferente/melhor que a Lista I? Há alguns factores diferenciadores mas aquele que considero mais importante foi o facto de termos conseguido, mesmo antes de sermos NEDF, mostrar trabalho feito e pôr a nossa organização a funcionar nas actividades de campanha. Uma ideia qualquer um tem, trabalhar essa ideia de forma a torná-la exequível e útil já envolve esforço e algum tempo. Nós tentámos dar um salto maior, pois da teoria à prática há muitas variáveis em jogo. Dinamizámos algumas das actividades que pensámos para o mandato e conseguimos dar vida ao Departamento de Física e criar uma forma de ouvir todos os que se quisessem manifestar. Que actividades propostas pela Lista Tau são mais prioritárias? As duas linhas de acção prioritárias de cada Núcleo devem ser a Pedagogia e as Saídas Profissionais, isto porque são áreas mais específicas e que mais mudam de curso para curso. Para a Pedagogia, a proposta mais importante será a eleição de um representante por ano e curso. Este representante tem o potencial de ser importante não só a nível pedagógico mas também de comunicação. No que toca a Saídas Profissionais queremos apostar em mais workshops, na promoção de

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Entrevista estágios e numa maior aproximação ao mercado empresarial pela, por exemplo, criação de uma base de dados de possíveis empregadores e das competências que estes procuram e não só. À parte disto, todas as actividades que envolvam o aumento da proximidade com o que nos rodeia e melhorem a comunicação são também prioritárias. Os estudantes tendem a pertencer a listas por duas razões; Currículo, mais conhecido por “tacho” ou trabalho. Como defines a Lista Tau? Isso também foi discutido por nós. Somos estudantes do Departamento de Física e cada um deveria sentir a necessidade de dar um pouco de si ao Departamento de Física. Nem que fosse por ser pelas pessoas com quem se convive todos os dias. A escolha de eleger os cargos de mais responsabilidade só depois de o projecto estar em grande parte idealizado e trabalhado prende-se justamente com isso. A motivação traduz-se em fazer algo pelos estudantes e não ter o cargo X ou Y. Daí os coordenadores terem sido eleitos pelas pessoas com quem trabalharam directamente. Dá outro tipo de motivação tanto ao coordenador, por ter sido escolhido, como aos colaboradores, por terem sido eles a escolher. Esse “tacho” de que falas a meu ver não é equivalente a currículo. Mas para isso é preciso definir os conceitos . Para mim “Tacho” é uma responsabilidade ou cargo para o qual alguém foi nomeado ou eleito e da qual tira algum tipo de vantagem não desempenhando aquilo que esse cargo ou responsabilidade pressupõe (trabalho). Ora, cada vez mais o curriculum vitae conta menos. Ser isto ou aquilo, ter pertencido a isto ou àquilo ou ter tirado X curso, pouco conta. Numa entrevista de emprego cada vez mais conta aquilo que realmente sabes fazer. Pressupondo que num “tacho” não fazes nada que

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te permita crescer como pessoa, não vejo que vantagens isso terá, a não ser aumentar o ego. Finalizando, a Lista Tau assume-se como uma lista de trabalho. Foi esse o argumento que, até agora, sempre apresentamos como diferenciador e vamos continuar a apresentar enquanto NEDF. Por melhor que seja o candidato, se não tiver votos não ganha, assim, os colaboradores são uma “força de trabalho” ou uma forma para vencer as eleições? Não gosto de ver o Projecto Tau como o candidato mas sim como a equipa toda. Se o Projecto fosse só eu seria o primeiro a dizer para não votarem em mim. Há que distribuir o mérito por quem o merece. À parte disso, vencer as eleições é o primeiro passo para podermos cumprir aquilo a que nos propusemos, mas encarámos sempre isso como uma fase e uma consequência do bom trabalho que apresentámos e não como um fim em si mesmo. Construímos um projecto para trabalhar e não simplesmente para ganhar umas eleições. Seria difícil resultar no futuro se assim não fosse. Qual o papel do Estudante Universitário na sociedade? Vivemos num país em que felizmente podemos criar livremente organizações como a Resistance ou o NEDF, onde podemos sair à rua sem ter medo de levar um tiro, onde temos muitas horas de sol para aproveitar, onde temos história e cultura, onde temos um acesso privilegiado a informação e cuidados de saúde, etc. Por muitas asneiras que se tenham feito no passado, continuamos a ser uns privilegiados e nem nos apercebemos disso. A maioria dos jovens anda vinte e poucos anos a preparar-se para ser o futuro, sem produzir nada. E isto não é por acaso. As coisas funcionam

assim porque de facto a Educação é o motor de qualquer sociedade e é importante que os jovens se cultivem, pois afinal são eles o futuro. O papel de qualquer Estudante, em particular do Estudante Universitário, é justamente o de aproveitar este tempo para se preparar bem para a vida adulta. Chegámos a um nível bom enquanto sociedade e temos acesso a todas as coisas que acima enumerei e muitas mais, mas não nos devemos contentar só com isso. Não quero com isto dizer que devíamos fazer mais manifestações, pedir mais dinheiro, mais condições ao Estado, à Universidade ou aos pais. Quero sim com isto dizer que devemos ser melhores que isso. Devíamos também, nós próprios, lutar pelo nosso próprio futuro e não estar sempre à espera de alguém. Ajudar na solução e não só na crítica. Superarmo-nos e não fazer só o q.b.. Se esta vontade existir também os próximos médicos, engenheiros, físicos, químicos, gestores, governantes vão ter essa vontade porque vamos ser nós, os jovens, a desempenhar essas funções! E tudo isto tem vindo a acontecer nos últimos anos, pelo menos em Coimbra, que é o que conheço melhor: - Os prémios nacionais e internacionais recebidos por investigadores da Universidade de Coimbra acumulam-se em várias áreas; - O Instituto Pedro Nunes foi reconhecida como a melhor incubadora do Mundo; - Júniores Empresas, como a jeKnowledge, e iniciativas que pretendem incentivar os jovens a aprender fazendo também aumentam; - Começam a aumentar o número de start-up’s criadas em Coimbra; - A Universidade de Coimbra/AAC foi eleita pelo segundo ano consecutivo a melhor universidade do Mundo pela Associação Europeia de Desporto Universitário;

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Crónica

Jocelyn Bell, Pulsares e Estrelas de Neutrões Maria Constança M. P. da Providência S. e Costa Durante o seu doutoramento em Cambridge orientada por Anthony Hewish, Jocelyn Bell colaborou na construção de um telescópico de ondas de rádio e estudou quasares (quasi-stellar radio source), fontes intensas de radiação eletromagnética incluindo ondas de rádio. Os dados começaram a ser recolhidos em julho de 1967, 30 m de papel por dia. Após as primeiras 6 semanas de análise dos registos Jocelyn Bell descobriu um sinal estranho, não parecendo poder ser feito por interferência humana. O sinal era identificado em registos de diferentes dias e localizava-se sempre na mesma zona do céu. Era constituído por uma série de pulsos igualmente espaçados de 1,33 s. Não sabendo qual seria a sua origem, Jocelyn Bell e o seu supervisor chegaram a associar a origem do misterioso sinal a uma civilização extra-terrestre, “little green men” [1]. Entretanto, Jocelyn Bell descobriu sinais semelhantes, noutras zonas do céu. As propriedades dos sinais mostravam que deveriam ter origem fora do sistema solar. Trabalhos teóricos da época permitiram-lhes propor que os sinais seriam devidos à pulsação de estrelas muito compactas, estrelas de neutrões. Publicaram um artigo com as observações e interpretação na Nature em Fevereiro de 1968 [2]. Em 1974 Anthony

Hewish recebeu o prémio Nobel “pelo seu papel decisivo na descoberta das estrelas de neutrões”. Esta descoberta foi apenas o início de uma série de importantes descobertas numa área que tem atraído muitos físicos. No mesmo ano em que A. Hewish recebeu o prémio Nobel, os astrónomos Joseph Taylor e o seu aluno de doutoramento Russell Hulse identificaram o primeiro pulsar binário, PSR B1913+16. Esta foi uma descoberta muito importante porque permitiu confirmar a teoria da Relatividade Geral de Einstein, que prevê que objetos muito massivos em pequenas orbitas binárias devem emitir ondas gravitacionais. Em 1993 Russell Hulse e Joseph Taylor receberam o prémio Nobel “pela descoberta de um novo tipo de pulsar, uma descoberta que abriu novas oportunidades ao estudo da gravidade.” Jocelyn Bell Burnell afirmou não ter ficado ressentida por não receber o prémio Nobel, mas é interessante relembrar o que ela escreveu em 2004 num artigo da Science, ao comentar o facto de apenas 10% dos membros da Sociedade Internacional de Astronomia serem mulheres: “já não acredito que fazer as mulheres mais corajosas, mais assertivas, mais “parecidas com os homens” é o modo correto de prosseguir... Está na altura da sociedade se aproximar das mulheres e não as mulheres da sociedade”. E porque são tão interessantes os pulsares, as estrelas de neutrões? Estrelas de neutrões são na verdade supernúcleos

com cerca de 1057 nucleões e um raio de aproximadamente 12 km. Além de neutrões contêm protões, electrões e muões. Mas será só isso, que as faz tão interessantes? A verdade é que as suas propriedades podem-nos indicar como se comporta a força forte em circunstâncias muito especiais que ainda não conseguimos reproduzir no laboratório: altas densidades e grandes assimetrias de isopsin, i.e., matéria com uma pequena fração de protões relativamente aos neutrões. A altas densidades é possível que se formem graus de liberdade exóticos dentro da estrela. A força fraca permite o aparecimento de estranheza na forma de hiperões, bariões tais como os protões e neutrões mas com pelo menos um quark estranho, na forma de condensados de kaões ou na forma de matéria de quarks desconfinados. Há ainda os fortes campos magnéticos existentes na sua superfície (109 a 1012 G podendo atingir 1015 G na superfície dos magnetares) ou a estrutura interessante da sua crosta com uma fase “pasta” na transição para o inteiror. Em 2008 foi fundada a rede europeia, à qual a Universidade de Coimbra pertence, “The New Physics of Compact Stars” com a finalidade de fortalecer as colaborações entre físicos europeus nesta área e preparar uma nova geração de físicos com uma formação multidisciplinar em astrofísica, física nuclear e de partículas e relatividade geral (http://compstar-esf. org/).

1) Little Green Men, White Dwarfs or Pulsars? S. Jocelyn Bell Burnell http://www.bigear.org/CSMO/HTML/CS01/cs01p16.htm 2) A. Hewish, S J Bell, J D H Pilkington, P F Scott, R A Collins “Observation of a Rapidly Pulsating Radio Source”. Nature 217, 709 (1968) 3) Burnell, S. Jocelyn Bell “So Few Pulsars, So Few Females”. Science 304, 489 (2004)

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Crónica

Crescimento ou austeridade Frederico Borges Seria hipócrita de mim dizer-vos que sei das soluções para a crise económica que a Europa atravessa, no entanto, não preciso de estar a estudar Economia para dar algumas opiniões sobre tal. Nesta Europa que todos nós adoramos pertencer, excepto aqueles que vivem alienados do mundo (aka: extrema esquerda e direita), só existem duas respostas à crise. A austeridade ou o investimento. Como o vencedor do nobel da Economia, Paul Krugman, nos lembra todos os dias, o investimento leva ao crescimento e a austeridade leva a recessão.

Este gráfico mostra a evolução do PIB no primeiro trimestre de 2012 nas principais economias mundiais. Podemos facilmente observar que os países que estão a investir estão em crescimento, o Japão é o país desenvolvido com maior crescimento do PIB porque está a investir imenso na reconstrução do país depois do tsunami. A Itália e o Reino Unido estão a aplicar medidas de austeridade, o que os faz entrar em recessão, ou seja diminuição do PIB. Então porque é que a Europa teima em aplicar medidas de austeridade em vez de medidas de investimento? Existem duas explicações para isto. 1º Foram os investimentos sem nexo que colocaram o défice português em 10,2% do PIB, valor incomportável para um país pouco exportador como o nosso. O investimento só leva a crescimento quando é ponderado e estudado. Não é com estádios como o de Leiria, Loulé, Aveiro, etc. Não é com investimentos como na Madeira que a fizeram crescer mas agora existe um buraco financeiro que as gerações futuras se vão ver “gregas” para pagar. 2º Não existe dinheiro para investir. Portugal já usou o crédito todo que tinha. Assim, a Europa tende a aplicar medidas de austeridade aos seus membros para cortar nas despesas e tentar emendar os erros do passado, para que no futuro exista novamente dinheiro para investir. No entanto este remédio parece que esta a matar o paciente, pois os países que estão a aplicar estas medidas não vão conseguir

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cumprir com os compromissos, e o desemprego está a aumentar imenso em todos eles. O melhor exemplo é a Grécia. Subida do desemprego, redução de ordenados, aumento dos custos, etc está a ter como resultado graves tumultos sociais. Nas eleições legislativas da Grécia, no passado dia 6 de maio, registou-se uma perigosa subida de deputados das políticas extremas (esquerda e direita). O resultado destas eleições fazem lembrar um exemplo na História Mundial que não pode ser esquecido. A austeridade aplicada à República de Weimar (Alemanha), levou a que Hitler ganhasse democraticamente as eleições em 1933. O leitor certamente saberá como acabou essa história Então a economia europeia entrou num paradoxo. Não temos dinheiro para investir, logo não vai haver crescimento. Mas, para termos dinheiro, aplicamos medidas de austeridade que levam à recessão. Na recessão as populações não admitem perder certos direitos e eleitoralmente levam partidos extremistas ao poder. Qual será a solução para a Europa? Um compromisso entre austeridade e investimento, onde o défice público será somente aplicado em investimentos reprodutivos. Ou seja, medidas que facilitem o aparecimento de empresas que criarão postos de trabalho, fazendo diminuir o desemprego e aumentar o produto interno. Para isso poderíamos aplicar medidas de enquadramento legal e fiscal dinamização de empresas, ou seja, facilidade no aparecimento ou desaparecimento delas - e mobilidade e flexibilidade laboral facilidade em empregar e despedir pessoal-. Estas medidas iriam facilitar o aparecimento, e desaparecimento, de empresas que criariam postos de trabalho por todo o país. Ou seja, crescimento em austeridade. A Itália aprovou um plano de obras públicas de 100 mil milhões de euros para combater o desemprego, o que poderá augurar algumas medidas positivas para Portugal vindas da EU. No entanto não basta dizer crescer para crescer. Estas medidas de crescimento iriam demorar o seu tempo a surgir efeito, e até lá teríamos de continuar com as medidas de austeridade. Só me questiono como é que o governo português não discute medidas semelhantes a estas. Se um estudante de Engenharia Física consegue, eles também deveriam fazê-lo. PS: Gostaria de relembrar que os três partidos mais votados nas últimas eleições legislativas tinham o acordo assinado com a troika antes dessas eleições. Mesmo assim, 78,41% dos portugueses votaram a favor desses partidos. Para os extremistas que teimam em se manifestar contra estas medidas gostava de vos relembrar uma canção de Zeca Afonso: “O povo é quem mais ordena”, e este ordenou que as medidas da troika fossem tomadas. As vossas atitudes egoístas teimam em nos querer prejudicar a todos. Respeitem a democracia.

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Comédia

Sobre ser-se parvo João Pedro Ferreira Com um enorme sentido de oportunidade, os acontecimentos que irão ser relatados correspondem, tanto quanto se sabe, à verdade, não estando ainda sujeitos a manipulação de informação ou a censura. Tenho reflectido bastante sobre o que leva uma pessoa a fazer coisas parvas. Será que ser-se parvo é um acto intencional? Se não o for, o parvo deverá arcar com tudo o que possa daí advir? Eu não vou dar respostas pois a minha especialidade é a premissa (ser-se parvo) mas analisarei de seguida alguns episódios bem conhecidos do nosso quotidiano que, a meu ver, representam algumas das paragens cerebrais (colectivas ou individuais) mais expressivas da nossa sociedade.

Situação parva nº1 Certo dia, no início deste mês, seguia eu a bordo de um carro algures entre Coimbra e a Figueira da Foz quando, no rescaldo de uma discussão, decido descalçar a minha sapatilha direita e atirá-la janela fora. O sentido desta acção escapa-me, mas não precisei de pensar muito para chegar à conclusão que esta tinha sido uma atitude parva.

Situação parva nº2 Admito que admiro este senhor pela enorme lata que ele ainda tem, mas percebo-o porque eu também me considero bastante parvo e ainda assim sinto-me o maior. 24 de Janeiro de 2004 Jorge Nuno Pinto da Costa conversa ao telefone com António Araújo onde fica bem claro que em dia de jogo a maior

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preocupação de ambos é assegurar que um tal de JP receba a sua fruta a tempo. Ora, todos nós sabemos que a fruta é importante. E é enternecedor observar o comportamento paternal destes dois para com esse JP. Mas por amor de deus, será que não haveria nada mais urgente para tratar naquela tarde? Regar o relvado, encher as bolas, ligar à empresa de segurança, ou até, eu sou contra isto mas, comprar os árbitros, sei lá? Se for tudo pela calada e não se deixar vestígios é na boa. Aparentemente se forem apanhados é na boa também!

Situação parva nº3 Por estes dias, os autores destas palavras devem estar a pisar ovos com medo que alguém lá se lembre “então ó Zé, e quando tu disseste isto assim-assim?”. 24 de Abril de 2011 “Não vamos deixar que alguém destrua aquilo, que dura apenas durante a campanha e está previsto nos termos da lei eleitoral”, declarou esta tarde Manuel Rocha à agência Lusa. “Tratase, segundo Manuel Rocha, de “um mural com tinta de água como acontece há muito” e que “irá desaparecer com a chuva, como desapareceram os outros nestes anos”. Tendo estas declarações em mente, não posso deixar de manifestar a minha indignação e incredulidade: um ano depois, os donos da drogaria/loja de bricolage onde foram adquiridas as tintas ainda não foram chamados à praça pública para que lhes pudéssemos ralhar. Acho que é deplorável, prestar um serviço assim, deixando o cliente sair da loja convicto de poder ir para as escadas brincar com os seus novos guaches e lápis de cera sem precisar de usar o bibe, pois

a água lavaria tudo e a mãe não iria ficar chateada. Acho também que a atitude mais parva aqui seria continuar a analisar estes episódios mantendo este registo descontraído e pseudohumorístico. Tendo feito este reparo, permitam-me que prossiga: A ideia generalizada é a de que democracia significa que, ainda que a maioria não esteja de acordo, “eu e mais três amigos” podemos escrever aqui o que nos der na telha porque vivemos num país com liberdade de expressão, que é o mesmo que dizer que não devo respeito ao bom nome das pessoas ou instituições, e todos nós temos direito à opinião, que significa que todos nós ganhámos o direito a abrir a boca de cada vez que um fusível queima dentro da nossa cabeça. Ser-se parvo é uma arte. E eu conheço bons executantes. Não são estes senhores acima referidos, somos todos nós. Nós é que somos parvos. Ou fazem de nós parvos, porque amanhã, tal como hoje, já ninguém se lembra destes episódios outra vez. Se calhar não é um bom final para este texto, chamar toda a gente de parvo mas, tal como tenho escrito na parede do meu quarto, “laugh at your problems, everybody else does”. Só agora me dei conta de que não poderia discordar mais.

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Mãe, afinal sei cozinhar

Molho para cachorros Tempo de preparação: 10 minutos

Custo aproximadamente exacto:

Certamente mais barato que os cachorros das barracas na semana da Queima e afins!

Calorias:

Sejam felizes a comer e não se preocupem com isso.

Ingredientes para o molho para 6 cachorros:

Patrícia Santos

sal q.b., um ramo de salsa e um ramo de alecrim (também há à venda folhas de alecrim no supermercado em frasquinhos). Deixa-se cozer um pouco em lume brando e acrescenta-se um pouco de água para o molho ficar menos espesso, e não começar a queimar. Acrescentam-se as salsichas, et voilà! Quem for adepto de cogumelos pode também juntá-los ao molho. Coloquem uma salsicha e molho com fartura no pão de cachorro que fica bem bom, e o resto dos condimentos fica ao vosso critério (alface, cenoura, batatas fritas em palito, milho, etc). Nota: Não esquecer os guardanapos no acto de comer o cachorro, a não ser que não estejam rodeados de pessoas ou não se importem com o rótulo de lavajão.

- Fio de azeite - 1 Cebola pequena; -1 Dente de alho; - 100g de polpa de tomate; - 1 Pimento; - Pitada de sal; - Ramo de salsa; - Ramo de alecrim.

Modo de preparação:

Pica-se a cebola e o alho, junta-se ao azeite e deixa-se alourar. Corta-se o pimento às fatias compridas e fininhas. Junta-se a polpa de tomate e o pimento ao refogado. Tempera-se com

Joana Faria Tempo de preparação: 15 minutos

Custo aproximadamente exacto:

Se for frango do campo ~2€, se for de aviário deve rondar ~1,20€.

Calorias:

Sandes de frango com maionese de limão Modo de preparação:

Grelha o peito de frango temperado com sal e pimenta e põe a tostar o pão. Em simultâneo, mistura a maionese com as raspas de limão num robô de cozinha, prova a maionese e se achares adequado põe um pouco de pimenta preta e sal a gosto. De seguida, tempera a alface com vinagre balsâmico e azeite extravirgem. Serve o pão com o peito de frango, algumas folhas de alface e a maionese de limão. Bom apetite! Sugestão: Acompanha com umas batatinhas fritas.

Em época de exames alguém quer saber?

Ingredientes para uma sandes: Um pão; Um peito de frango; Algumas folhas de alface; A raspa de um limão; Sal qb; Pimenta preta moída no momento qb; Maionese q.b.; Vinagre balsâmico e azeite extra-virgem;

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Paul is 20 years old in 1980, but only 15 years old in 1985. How is this possible? Two spies want to get in an enemy’s military base.In order to get in they have to give the correct countersign to the guard at the gate after he gives them the sign. So they wait hidden nearby the gate so that they will overhear the countersign from another soldier. One soldier comes and the guard gives the sign: “6”.The soldier answers “3”.The guard lets him pass. Another soldier comes.The guard says “12” and the soldier gives the answer “6”.The guard lets him pass. So, the first spy goes at the gate and the guard asks says “10”.The spy, sure that he knew the answer as he was, says “5”. Immediately, the guard shoots him dead. Then the other spy, who saw that the other spy was killed when he gave the countersign, had now understood what the right answer would be, whatever the guard’s sign was.So, he walks to the gate and the guard says “8”.The spy gives the correct answer and the guard lets him in. What was the answer that the spy gave?

Envia as tuas respostas para resistancemag@gmail.com e ganha um prémio surpresa. Bom estudo e boas férias para todos

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Setembro 2011

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