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“Da China à Colômbia, do Líbano à África do Sul, vários países ditos em desenvolvimento têm olhado a economia criativa sob o ângulo que faz a diferença: o que busca caminhos para transformar criatividade em recursos socioeconômicos.”

/Ana Carla Fonseca Reis/

/Economia Criativa: transformando criatividade em renda e benefícios socioeconômicos/ Saindo dos bastidores das discussões restritas à Europa, aos Estados Unidos e à Oceania, a economia criativa finalmente vem tomando lugar de atriz oficial nos debates e conferências brasileiros. A contribuir para esse momento, representantes do governo, de empresas privadas e de instituições sem fins lucrativos discutem o papel da cultura e da criatividade como base de desenvolvimento de uma região ou país, no que se tem chamado de “economia criativa”. Mas, afinal o que é isso? A bem da verdade não há um conceito único – e está justamente aí a oportunidade para que nós definamos o conceito que mais nos interessa no Brasil. Como? Analisando o que realmente nos interessa em termos socioeconômicos e onde o Brasil pode utilizar sua maravilhosa e tão propalada criatividade como motor de desenvolvimento. Quimera? A julgar pelos países que vêm seguindo essa estrada, muito pelo contrário...

/Saiba mais sobre Ana Carla Fonseca Reis/ Administradora Pública pela FGV, Economista e mestre em Administração pela USP, Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela USP, Ana Carla é conferencista internacional. Fundadora da empresa “Garimpo de Soluções – Economia, Cultura e Desenvolvimento”, consultora em Economia Criativa para a ONU, curadora da conferência britânica “Creative Clusters”, Diretora de Economia da Cultura do Instituto Pensarte, coordenadora do curso “Gestão de Políticas e Produtos Culturais” da Faculdade São Luís e assessora da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Co-autora de “Teorias de Gestão – De Taylor a nossos Dias” e autora de “Marketing Cultural e Financiamento da Cultura” e “Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável - o Caleidoscópio da Cultura” (Prêmio Jabuti 2007).

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Na dianteira desse debate encontra-se indubitavelmente o Reino Unido. Inspirando-se em uma proposta que surgiu na Austrália, em meados nos anos 1990 – a das indústrias criativas -, o papel econômico da criatividade tomou corpo em 1997, quando o trabalhista Tony Blair chegou ao poder no Reino Unido. Preocupado com a derrocada das

manufaturas na economia nacional, em meio às transformações da União Européia e diante das ameaças das novas potências mundiais (dentre outros o já crescente fantasma da China...), Blair analisou as contas nacionais e selecionou treze setores que apresentariam maior potencial para a economia do país. O que eles têm em comum? A criatividade humana e a capacidade de gerar direitos de propriedade intelectual – equação perfeita para o contexto britânico. Entraram nesse balaio todas as indústrias culturais – reconhecendo o valor econômico da cultura - e outras que, embora não sejam necessariamente culturais, bebem da cultura para produzir bens e serviços criativos funcionais, como moda, design, software, arquitetura e propaganda. Afinal, quem duvida que a propaganda tem seus contornos definidos pela cultura de seus consumidores? E basta assistir a um dos desfiles da São Paulo Fashion Week, hoje a quinta maior semana de moda do mundo (atrás dos tradicionais eventos de Paris, Milão, Londres e Nova York), para perceber a inspiração cultural dos estilistas. Mas como o Reino Unido fez para transformar essa boa intenção nos nada negligenciáveis 7% do PIB que essas indústrias criativas representam no país? Para começar, reuniu diversas pastas do governo (Cultura, Desenvolvimento, Turismo, etc.) e representantes do setor privado, que passaram a se organizar em

forças-tarefa. Algo como uma parceria público-privada levada a sério, não em um projeto isolado, mas em um projeto nacional de desenvolvimento. Como maestro dessa empreitada foi designado o ex-Secretário da Cultura, Chris Smith, que esteve no Brasil em maio último, a convite da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Quando lhe perguntei quais desafios espreitam a economia criativa britânica nos próximos tempos (vale lembrar que o objetivo do país é transformar-se no pólo criativo do mundo), Lord Smith enfatizou dois: os direitos de propriedade intelectual (referindo-se não apenas à necessidade de controle da pirataria, mas também de adaptação das indústrias, como a musical, ao modelo digital) e a complacência. Sim, porque o fato de a economia britânica ser hoje a quarta maior economia do mundo não garante seu sucesso no futuro. Que o diga a Comunidade Européia, esse quebra-cabeças de 27 peças, cada uma defendendo e tratando cultura e criatividade de forma distinta, em uma participação econômica que varia de 0,2% a vários pontos percentuais do PIB. Mesmo congregando algumas das maiores economias do mundo, como Alemanha, França, Itália e o próprio Reino Unido, um estudo publicado ao final do ano passado pela Comissão Européia deixou patente o papel da cultura e da criatividade para assegurar o futuro da identidade nacional e da competitividade econômica da região: “O estabelecimento da Europa como um pólo criativo é essencial para a competitividade da União (Européia)... (e) deveria colocar cultura e criação no cerne do projeto europeu para beneficiar a economia européia e seu crescimento”. Se na Europa esse debate já tem dez anos, nos Estados

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