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JUNHO · 2010 · ASSOCIAÇÃO RENOVAR A MOURARIA WWW.RENOVARAMOURARIA.PT DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Rarzena 22 anos Bangladesh vive na Mouraria há 3 anos


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Rosa Maria

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destaque

Candeeiro de latão Comprado por José Malhoa a uma vizinha de Adelaide, Emília, que foi assassinada pelo amante no dia seguinte à compra.

Adelaide da Facada

Objectos pessoais

É a personagem que José Malhoa mais trabalhou (conhecem-se seis estudos individuais do pintor). Era vendedora de cautelas. O nome ‘artístico’ tem a ver com uma grande cicatriz que lhe corria no lado esquerdo da cara e, para esconder esse traço, a posição dos dois modelos foi trocada na pintura. Malhoa desejou representá-la despida, ou quase, da cintura para cima e ela posou para o pintor várias vezes descoberta, o que causou ciúmes a Amâncio. Nos estudos preparatórios do quadro vê-se uma Adelaide com o peito descoberto, um saiote branco e quase deitada, numa pose mais provocadora. Acabaria por ser pintada com ambas as alças da camisa para cima e com uma pesada saia vermelha em vezdo saiote branco.

São, quase todos, os que Malhoa encontrou na casa de Adelaide, na Rua do Capelão: a cómoda com a toalha de ramagem vermelha e o croché por cima, os santos na parede (Senhor dos Passos e São Lázaro), o manjerico com o cravo de papel, o toucador com o espelho partido (por um chinelo de Adelaide) e a gaveta aberta, o pó de arroz e o pente de alisar, o cigarro, a garrafa de vinho sobre a mesa, entre outros.

texto

Ana Luísa Rodrigues e António Henriques

O Fado nasceu na Mouraria

A obra mais conhecida e reproduzida do pintor José Malhoa foi feita com pessoas da Mouraria e inspirada pela vida do bairro. Pintado na Rua do Capelão há 100 anos, O Fado foi reproduzido vezes sem conta, dando origem a filmes, peças de teatro e outras telas. Inspirou também um fado de Amália. É conhecido como “o mais português dos quadros a óleo”, título muito discutível. 


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D.R.

Cortina Vermelha Foi adquirida pelo pintor “em Alfama, pintada suspensa e abrindo-se para a direita, convidando o observador a entrar (na alcova de Adelaide), o que constituía um sistema tradicional dos grandes mestres da pintura holandesa do século XVII”, escreve o investigador Nuno Saldanha.

entre burgueses, intelectuais e aristocratas; estava a abandonar o meio restrito e marginal de onde provinha e a tornar-se uma indústria do entretenimento. Ora, Malhoa procurou encontrar essas raízes mais antigas da marginalidade da vida fadista. 
O pintor sabia bem o que procurava: uma espécie de ‘verdade’ (os especialistas dirão um certo ‘realismo’) que mostrasse um meio pobre e violento, vivendo da economia paralela do roubo, contrabando, jogo e prostituição. Uma parte da vida urbana que, por certo, dividia Malhoa, porque havia nela simultaneamente um fascínio e um ‘fado’, como se àquelas pessoas estivesse traçado o destino. E um certo desdém por um outro género de violência, de que Malhoa se queixava em Lisboa: intrigas, invejas e má vontade, um lado urbano que detestava. 
A representação das duas figuras, no quadro, era comum na pintura e nada tem de ‘portugalidade’ – há influências da pintura espanhola e latino-americana – nem de fado propriamente dito, a não ser no sentido que lhe damos de ‘destino’. A transformação da pintura numa imagem que representa a essência de um país é, portanto, uma invenção. A pintura tem influências europeias marcadas e beneficiou de uma popularidade muito grande ao longo do século XX.  

Sete anos a percorrer o mundo

Amâncio Augusto Esteves Tinha estado em África e no Brasil, antes de Portugal. Sem ocupação certa, Amâncio cabe na figura de ‘fadista’ tal como a procurou Malhoa, “frequentemente o proxeneta que explora o trabalho de uma ou várias prostitutas” e cuja existência é envolvida em frequentes brigas. Malhoa pagou-lhe cada sessão realizada (seis vinténs cada) e uma das contrapartidas foi desenhar-lhe um retrato, que esteve exposto, em 1910, na Sociedade de Belas-Artes de Lisboa.

José Malhoa (1855-1933) vagueou longamente pelos bairros da Mouraria, Alfama e Bairro Alto para encontrar modelos e sentir o ambiente que lhe permitissem pintar O Fado, quadro que completa este ano um século. 
“Passou dois meses trabalhando com modelos profissionais no seu atelier, mas que o deixaram muito insatisfeito com os resultados obtidos”, de acordo com um trabalho do investigador Nuno Saldanha que cita Malhoa: “Esses modelos não me davam nada do que eu sentia e via no natural.” 
Foi na Mouraria que encontrou as personagens para a sua obra. Conheceu Amâncio Augusto Esteves, “ru-

fia, fadista e tocador de guitarra” que lhe apresentou a vendedora de cautelas e do corpo Adelaide da Facada. Ao longo de mais de um mês, José Malhoa deslocou-se à casa de Adelaide, na Rua do Capelão, para retratar o mais fielmente possível o ambiente que observava. Na Mouraria, não passava despercebido: ficou com a alcunha de ‘pintor fino’ entre prostitutas e moradores; por diversas vezes, teve de se explicar à polícia sobre as razões de estar ali; e passou a frequentar o Governo Civil, para ir buscar os detidos Adelaide e Amâncio e poder continuar a pintura. 
Na altura em que Malhoa pintou o quadro, o fado, como expressão musical, começava a popularizar-se

Após a sua conclusão em 1910, o quadro percorreu vários países e foi reconhecido internacionalmente. Em Maio de 1910, ganhou uma medalha de ouro numa exposição de arte na Argentina; em 1915, em São Francisco, Estados Unidos, arrebatou o grande prémio (sob o nome Native Song, que se pode traduzir como “canção nativa”). 
Tirando uma pequena aparição numa exposição individual no Porto, em 1912, só em 1917 foi apresentado em Portugal, na 14ª exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. Porém, a tela não teve um reconhecimento consensual entre a crítica portuguesa, já que muitos não viam com bons olhos a representação dos ambientes “de marginalidade e transgressão aos quais o fado andava associado”. Por contraste, O Fado foi muito bem recebido pelas classes populares. Aliás, devido à presença no estrangeiro, foram os habitantes da Rua do Capelão os primeiros portugueses a ver o quadro. O próprio Malhoa os convidou para o seu estúdio (a actual Casa Malhoa, na Avenida 5 de Outubro), depois da aprovação da pintura por Amâncio e Adelaide. Em 1917, O Fado foi rapidamente comprado pela Câmara Municipal de Lisboa, por quatro contos de réis. Actualmente, o quadro faz parte do acervo do Museu da Cidade, estando exposto desde 2008 no Museu do Fado, em Alfama. A pintura de Malhoa inspirou outras obras: foi caricaturada na imprensa logo em 1910 e reproduzida diversas vezes em jornais; esteve na origem de peças de teatro, “quadros vivos e montras de lojas comerciais”, filmes ou outras pinturas (O Fado Português, de João Vieira, 2005). Em 1948, o quadro serviu de inspiração para o “Fado Malhoa”. A letra de José Galhardo tornou-se célebre na voz de Amália, que cantava, e contava, como o “pintor consagrado”, “subiu a um quarto/ que viu à luz do petróleo/ e fez o mais português / dos quadros a óleo”. Obras consultadas: António Nuno Saldanha e Quadros Pereira Coelho (2006). José Vital Branco Malhoa (1855-1933). O pintor, o mestre e a obra. Lisboa: Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica [tese de doutoramento] José-Augusto França (2008). O essencial sobre José Malhoa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda Sara Pereira (2008). Museu do Fado 1998-2008. Catálogo do Museu do Fado. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa.


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Rosa Maria

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crónica

notícias

Leitura Furiosa

ANA CATARINA CALDEIRA

SEIS MEMÓRIAS DO ANTES E DEPOIS Mário de Carvalho escritor

Texto gentilmente cedido pelo autor e pela direcção da Casa da Achada

Novos vizinhos para o Intendente A zona do Intendente vai contar em breve com um novo inquilino. O Alto-Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) vai mudar a sua sede para um edifício entre a Rua do Benformoso e o Largo do Intendente (na foto). Neste momento decorrem negociações para a compra do espaço, que levará ano e meio a ser recuperado. “Têm de ser dados muitos passos e depois há uma aprovação final. Mas a ideia foi já aprovada pela tutela (ministro da Presidência)”, conta Rosário Farmhouse, Alta-Comissária do ACIDI. Actualmente, o ACIDI e o Centro Nacional de Apoio a Imigrantes (CNAI) funcionam em dois edifícios na zona dos Anjos. Mas com a mudança de instalações, a comissária quer também ajudar a mudar a dinâmica do Intendente. “Passando para aquela zona podemos fazer uma intervenção mais articulada e inclusive dar uma oportunidade de as pessoas repensarem a sua vida”. E defende que a instalação do ACIDI, com 100 funcionários, e do CNAI, que atende mais de 800 pessoas por dia, vão alterar o quotidiano do local. “É um sítio central da cidade, embora muito abandonado neste momento. Quase como se não existisse. E nós queremos voltar a dar-lhe vida. Porque é a freguesia mais intercultural do país, com um potencial fantástico. Todo o bairro é lindíssimo e é pena que não tenha uma vida mais aberta a quem passa, a quem quer conhecer a cidade”, entusiasma-se Rosário Farmhouse. Com o objectivo de trazer novos públicos, a futura sede do ACIDI contará

também com um restaurante étnico, um centro de exposições e uma creche. A creche é uma das valências mais acarinhadas pela Alta-Comissária. Para crianças até aos cinco, seis anos, será aberta à população local, “porque sabemos que nesta zona não há muitas respostas para esta faixa etária”. “Será uma espécie de laboratório dos nossos métodos pedagógicos de âmbito intercultural”, projecta Rosário Farmhouse. “Podemos ver até que ponto as crianças que lidam logo desde pequeninas num ambiente intercultural serão mais tolerantes posteriormente, porque estão habituadas às diferenças. Eu acredito profundamente nisso”.

CRISTIANO CHRISTILLIN

Circulamos pelo meu velho liceu que é hoje uma nova escola, com novos espaços, alguns bem arrojados, novos mobiliários, novos equipamentos. É um primeiro mundo, claro, asséptico, quase agressivo, dominando aquela extensa cerca, que vem sobrepor-se às minhas memórias de espaços ocupados por jovens fardados de verde, em formatura, braço alçado. Sou conduzido por cinco cicerones amáveis, prontos para me ajudar a franquear todas as portas, talvez um pouco admirados pela minha estranheza de encontrar um laboratório no sítio, antes ao ar livre, em que se costumava treinar esgrima, e de não descobrir em nenhum lado aquela citação do Mestre que dizia «há-de ser pecado cuspir alguém no mosteiro, quanto mais no ladrilhado». Na zona da biblioteca, numa sala clara, há uma mesa posta com sandes e bolos, discreta e gentilmente. Dá a impressão de que todos fizeram o possível por que nos sentíssemos confortáveis. Sinto-me um pouco num mundo de ficção científica. Digo isso. É, naturalmente, difícil compreenderem aonde quero chegar. Ao conversar com estes jovens só consigo ver o lado solar e aprazível. Aprecio a tolerância com que eles me ouvem, sorrindo, mesmo quando falo desabaladamente. O João é muito novo. Ainda não tem um projecto de vida. Gosta mais de ouvir que de falar. Nesse aspecto, é como eu. A Inês gosta de crianças e quer vir a ser educadora infantil. O Bruno joga futebol numa equipa, fora da escola, tem projectos de carreira. O Tiago conta que pesca no Tejo, safios e corvinas, e entusiasma-se quando fala do campo, da agricultura, dos animais. A Diana interessa-se por línguas, considera a possibilidade de aprender alemão, mas também admitiria ser enfermeira militar. Temos mais em comum do que pensamos: uma certa banda desenhada brasileira, a reminiscência de um tal Ulisses que nunca mais conseguia chegar a casa, o pianista de Roman Polanski, e a noção dos horrores da guerra, a memória sentida de Anne Frank, e séries como «Os Simpsons» ou o «Dr. House», familiares a quem, em chegando a casa, encontra sempre a televisão – por onde já andaram mãos de netos – ligada no Canal Fox. Trocamos filmes. Falo-lhe de «Ladrões de Bicicletas», nesta manhã a minha fita preferida. Não consigo ser interessante. Mas eles respondem-me com o filme «Lembra-te de Mim» e «Crónicas de Spiderwick» que não conheço e com o Mr. Bean, a que também acho muita graça. Resisto à tentação de ser didáctico, quando é mencionado o filme «300» e arrisco uma história a propósito da célebre – e a meu ver abominável – educação espartana. A Grécia não era só arte, filosofia e luz, tinha também o seu lado sinistro. Mas os gregos de outros tempos não parecem interessar muito esta geração. Almoçamos tranquilamente, rodeados de gentileza. Pousamos todos para a posteridade numa fotografia amável. Inês e Diana e Bruno e João e Tiago, quem sabe se nos encontraremos daqui a uns tempos quando eu seja capaz de reconhecer melhor os vossos interesses, as vossas aspirações e a vossa perspectiva deste nosso mundo.

Danças na Achada A dançarina Paula Petreca está a preparar uma performance — “Co” (de co-autoria) — para o final de Julho, nas Escadinhas da Achada, integrada no Festival Pedras d’água. Desde Janeiro, desloca-se para o local, onde permanece por longos períodos e, com o tempo, tornou-se familiar dos moradores e frequentadores, sendo interpelada por eles ou sendo ela a interpelá-los. É conhecida como a “rapariga da ginástica” ou “mulher da ginástica” e os habitantes elogiam-lhe os movimentos elegantes e a possibilidade de estar ao sol, contemplando. “Acho


que passo uma imagem de bem-estar”. O espectáculo parte de duas ideias. A primeira: como se pode habitar um espaço público “de forma não hierárquica”? Ou seja, como nos podemos apropriar de escadas, paredes, chão, corrimãos – sendo que estes elementos têm uma hierarquia desde logo porque uns estão mais abaixo – e dar-lhes um uso menos óbvio? “Como é que o nosso corpo se inscreve no espaço, o espaço se inscreve em nós e, juntos, criam uma terceira inscrição?” A segunda: perceber a “textura” das pessoas e do local, a sua disponibilidade, a sua intervenção, o que elas têm a dizer do que pensam ou apenas o facto de terem de passar por ali. Ao sentar-se nos corrimãos das Escadinhas, cinco longos lanços de escadas da Mouraria, Paula foi avisada por um habitante de que não devia pôr o rabo num sítio que é para as mãos. Escreveu-lhe então uma carta a explicar que se trata da preparação de um espectáculo. Noutra ocasião, um guarda de um dos centros de acolhimento de idosos da zona chegou ao pé dela e pediu: “Dança para mim”; uma habitante tornou-se já presença assídua e saúda-a alegremente; turistas passam e param. Paula frequentemente oferece “algumas prendas que a dança pode oferecer: um cumprimento, uma vénia”. O espectáculo, que deverá ter duas apresentações, será acompanhado de sons quotidianos gravados no local por Sara Pinheiro: um estendal que se abre, pássaros, passos ou outros ruídos, num diálogo dançante com

quem assiste e feito de coreografias preparadas e movimentos em que o corpo se molda às formas do local. Este diálogo trabalhado no espaço público “não existe tanto para entreter mas para viver, em conjunto com as pessoas, uma experiência estética. Estabelecemos relações particulares, mais próximas do que num espectáculo em que existem

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TODOS – Caminhada de Culturas regressa ao Martim Moniz

artistas, activos, e espectadores, passivos. Aqui as pessoas também são criadoras mesmo que não tenham essa consciência e elas transformam o espaço e intervêm nos meus movimentos”. Paula Petreca é natural de São Paulo, Brasil, e investigadora do Centro de Estudos em Dança da Universidade Católica daquela cidade. Tem formação em dança contemporânea e fez um mestrado em comunicação e semiótica [estudo dos processos de representação das ideias] sobre as transformações na dança brasileira por influência da companhia Tanztheater Wuppertal, da coreógrafa, dançarina e directora de dança teatral alemã Pina Bausch, falecida em 2009. http://projectoco.wordpress.com

A Câmara Municipal de Lisboa / Gabinete Lisboa na Encruzilhada dos Mundos em parceria com a Academia de Produtores Culturais assegura a iniciativa que em 2009 levou mais de 12.000 pessoas ao Martim Moniz. Um ano depois da sua primeira apresentação, regressa entre 16 e 19 de Setembro de 2010 o TODOS – Caminhada de Culturas. Celebrar a cidade de Lisboa, bairro a bairro, estimulando a convivialidade dos seus residentes, trabalhadores e visitantes é o objectivo genérico deste projecto. Porque só conhecendo a Cidade e nos reconhecendo nela podemos todos juntos, e cada um por si, transformá-la diariamente. O TODOS – Caminhada de Culturas elegeu, em 2009 e em 2010, o território da cidade de Lisboa compreendido entre o Largo de São Domingos e o Largo dos Anjos, com base na Praça do Martim Moniz, passagem pelo bairro da Mouraria, pela Rua do Benformoso e Largo do Intendente - um território central na cidade de Lisboa, um território muitas vezes ignorado por muitos dos lisboetas como se de um “não lugar” se tratasse. E, no entanto, este é um território pleno de História e de histórias, pleno de tensões culturais, logo de tensões criativas, riquíssimo para pensar a cidade e nela intervir de dentro para fora e não de fora para dentro. Combater o preconceito e o medo associado, convidar as pessoas de fora do bairro a visitá-lo calmamente, porta a porta, estimular o convívio entre vizinhos de culturas diversas e desconhecidas, implicar o poder político a ponderar com a comunidade as suas políticas para o bairro, são as nossas principais ambições. Sabemos que o tempo, aqui, tem o seu próprio tempo e as suas próprias velocidades; sabemos que nada se fará sem a participação activa das pessoas que vivem e trabalham no território, desde as pessoas singulares até às entidades públicas e privadas (comerciantes, associações cívicas e culturais, por exemplo); e por isso a elas, sobretudo à associação Renovar a Mouraria, lançamos o desafio de assumirem, para o ano, a continuidade deste esforço de qualificação e de dignificação do território, devidamente acompanhadas pelo indispensável apoio político e financeiro da autarquia.

TODOS traz este ano a mesma dinâmica iluminadora, participativa e festiva do ano passado – é fundamental o reconhecimento desse passado recente - e mantém a mesma equipa de programadores e de colaboradores. Mas traz novos espectáculos, novos artistas e novas experiências, oferecendo uma qualidade superior, como o território em causa e a suas populações merecem, de modo a convidar, uma vez mais, os milhares de espectadores que no ano passado participaram na festa, mas também para desafiar outras pessoas que, no ano passado, ainda recearam visitar o bairro. Assim, convidamos TODOS a conhecerem o grande circo cigano de Alexander Romanès, o Cirque Romanès, no Largo do Intendente, a acompanharem o fado de Aldina Duarte na Igreja de São Domingos, a assistirem ao espectáculo de teatro OTELO, pela companhia italiana Teatro delle Briciole, no ringue do Grupo Cultural e Desportivo da Mouraria, a percorrerem as ruas do bairro com a fanfarra Kocani Orkestar, a participarem no Martim Moniz no concerto de Gong Linna, Isabel de Noronha e mestre Chainho, numa incursão pela música chinesa e pelo fado, entre outras dezenas de actividades, disponíveis no nosso blogue htpp://caminhadadeculturas.blogspot.com/ Para lá do que se vê, na festa, há um permanente trabalho invisível, de valorização e reconhecimento humano, alicerce da transformação desejada e desejável, mais evidente em 2011 e 2012, nomeadamente a constituição da Orquestra TODOS, que o maestro Mario Tronco já prepara com músicos de várias partes do mundo residentes em Lisboa e com o patrocínio do ACIDI, e a abertura da Loja TODOS, na Rua da Palma, um entreposto permanente do TODOS e de todas as associações culturais e cívicas do território e destas com as restantes gentes da cidade e do mundo. TODOS 2010 testará, ainda, a possibilidade de transformação do Mercado do Forno de Tijolo num mercado multicultural, propício à interculturalidade, um novo espaço a programar e a viver. TODOS é um convite à cidadania e à alegria. Apareçam! São muito bem-vindos. Miguel Abreu, Direcção Geral do TODOS


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reportagem texto Oriana Alves fotografia Carlos Morganho

A casa da Severa Prédio setecentista deverá ser tertúlia do fado em 2013

Por muito longínquas que sejam as suas origens líricas, o fado cantado apareceu na Lisboa da primeira metade do século XIX, em tabernas e prostíbulos onde aportavam marinheiros, rufias, aristocratas marialvas e artistas variados. Foi nesta alcova que nasceu o fado, passando velozmente do fado batido, dançado, trazido do Brasil, ao pungente arrazoado de amores, ciúme e morte, acompanhado à viola, e mais tarde à guitarra portuguesa. De entre as primeiras estilistas do trinado lisboeta a mais famosa foi Maria Severa Onofriana. Nascida em 1820, numa barraca no alto dos Anjos, e falecida aos 26 anos no número 35 da Rua Suja (depois Rua do Capelão e agora Rua da Severa), herdou da mãe a profissão mais velha do mundo e do pai o nome (Severo passou a Severa) e o tempero cigano que tanto seduziu o 13º Conde de Vimioso, distinto Cavaleiro Tauromáquico. Foi aliás por via deste amor contrasta-

do, símbolo ilusório de fluidez social na sociedade classista da época, que a prostituta fadista passou a heroína pela pena de Júlio Dantas, em romance e teatro (1901), opereta (1909) e cinema (1931) — no primeiro filme sonoro português, de Leitão de Barros. Glórias póstumas para uma vida amargurada, mas nada nos fará chorar aqui Maria Severa, que entre “bater o fado liró e ver combater c’um boi só” terá gozado o seu bocado, e agora até vai ser Troféu de um Concurso de Fado (ver página 9). Já basta o que tem chorado Pedro Morgado, habitante do último andar do prédio setecentista onde Severa viveu. Pela pequenez da casa, o que chove no quarto, a barba feita no alguidar, o taco saltitante, as paredes demasiado finas, “uma miséria” que está para findar quando falta pouco para começarem as obras de requalificação que vão transformar o edifício num espaço de tertúlia fadista e

loja de divulgação turística (ver caixa). Aos 51 anos, administrativo aposentado da Câmara Municipal de Lisboa, prepara-se para se mudar com Rosário de Sousa, 43 anos, para uma nova e melhor casa da vizinhança, tal como Júlio, 74 anos, e Victor, 58, ambos solteiros e solitários, queixosos da vida mais do que da casa. Crescidos por conta própria, são homens de muitos ofícios, pensões de má memória, fome, amores impossíveis e outros casos que deixamos entre quatro paredes, que para desabafos há os fados que o Júlio canta com a ajuda de um copinho e o livro de poemas que Victor tem algures guardado. Da Severa, pouco sabem e não inventam. Alegram-se de ver surgir no “bairro mais fadista”, na rua onde também nasceu Fernando Maurício (“rei do fado sem coroa”), um sítio que dignifica a Mouraria, e talvez ajude a mudar-lhe o fado.

“O Sítio do Fado” A casa onde viveu a mãe do fado será em breve convertida num café-loja, com esplanada no Largo da Severa. O projecto de requalificação desenvolvido no âmbito do Programa QREN, estende-se às ruas adjacentes e deverá estar pronto em 2012. Espera-se que em 2013 esteja adjudicado e a funcionar este novo espaço que tem por missão “dar a conhecer a memória do edifício e a cultura do fado na Mouraria, abrindo-se à pluralidade do bairro e reforçando o comércio local”, como explica Estela Gonçalves, da Unidade de Projecto As Cidades dentro da Cidade.

sabia que…

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* estilo artístico desenvolvido no reinado de D. Manuel I (sec. XV e XVI)

Subimos as escadinhas de São Cristóvão. O olhar prende-se ao palácio dos condes de Vagos. No local existiram os paços de São Cristóvão. Quando foi paço real, recebeu as festas de casamento de D. Leonor; aqui nasceu o príncipe D. Afonso, filho de D. João II e as cortes reuniram-se para aclamarem o rei. O edifício tem um portal manuelino, monumento nacional desde Junho de 1910, única reminiscência dos paços de São Cristóvão que o terramoto poupou e que seria a entrada principal do paço. O marquês de Vagos vendeu o palácio em 1864. Do século XVIII manteve-se a fachada, com as cantarias e janelas joaninas. O salão nobre é a antiga sala de baile do palácio. A zona do piso térreo serviu de capela do Rosário, já retirada do culto. Nuno Franco


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texto Ana Filipa Fernandes, Carla Pirezas e Marie-line Darcy fotografia Camilla Watson e Adriana Freire

Olhos na perfeição Gerações em marcha O cenário repete-se ano após ano. O ca­fé do Grupo Desportivo da Mouraria acolhe calorosamente quem lá chega. O ambiente é diverso, pincelado de orgulho bairrista e de histórias de vida. Os marchantes aparecem conscientes das horas de trabalho que têm pela frente. O secretismo associado à marcha é evidente e a cumplicidade entre todos os que o partilham é ainda maior. Rui e Rita, pai e filha. Esperam tranqui­ lamente pelo início do ensaio. Claras são as semelhanças entre os dois e a admiração que nutrem um pelo outro. Rita, 15 anos, já foi mascote um dia, mas este ano está aqui para marchar e ser par de Rui, ourives, antigo morador da Mouraria, onde se iniciou na marcha em 1996, a convite dos vizinhos. Rita é estudante e uma das melhores da turma, tendo assim permissão paterna para desfilar. Sobre como é feita a gestão do dia-a-dia durante os meses de ensaios, respondem: “quem quer vir tem de se esforçar”. Entre jantares alternados em casa das avós e curtas noites de sono, ainda há tempo para os deveres escolares. O cansaço acumula-se, mas vale a pena. No fundo, “isto é só para quem gosta”, sublinha o senhor Abel, responsável e organizador da marcha da Mouraria, presente no clube desportivo há cinco anos. A chegada de um homem àquele café provoca um repetir de cumprimentos e saudações. Depois de tantos “boa noite”

percebemos que se trata de Reinaldo, o ensaiador. No recinto do grupo desportivo, já é de noite. São as meninas as primeiras a ensaiar. O vaivém repete-se, o passo é difícil e o ritmo também. Rita consegue acompanhar. “É uma questão de concentração”, explica o pai. Algumas marcham dentro do ritmo, outras não, mas o que importa é o resultado final, sublinha com um brilho nos olhos, seguro do jeito da filha. Hélder aguarda, entusiasmado, a sua vez de ensaiar. Este jovem técnico de manutenção de aparelhos eléctricos e praticante de luta greco-romana entrou para a marcha em 2005, por desafio do avô, responsável pela construção dos arcos. Conjugar a vida profissional com a marcha nem sempre é fácil. O cansaço que o faz adormecer profundamente após cada ensaio é tão forte como a vontade de fazer da marcha uma forma de descontracção. A música pára e, por breves instantes, as conversas de todos os presentes ganham vida, numa noite serena em que soam palmas em cada repetição. A pequena Mara corre e procura a mãe entre os marchantes. Este ano é ela a mascote da marcha. Para Hélder, a ansiedade está reservada para o final dos ensaios, onde o tempo é curto e o receio de que não esteja tudo bem espreita a todo o momento. Mas “no fim compensa tudo”.

Rapazes e raparigas juntam-se todas as noites e ensaiam até a perfeição ser atingida. Durante meses terão de conjugar as vidas pessoais com a marcha e vencer o cansaço. Há quem jante apressadamente uma sandes antes de chegar a vez de ensaiar, há quem chegue atrasado e peça desculpa e há quem durma noites mal dormidas para estar aqui, ainda assim, com alegria. A organização da marcha da Mouraria é da responsabilidade do Grupo Desportivo da Mouraria (GDM), fundado em Maio de 1936 e actualmente sediado no antigo Palácio dos Távoras. Em 1937 rea­liza o primeiro desfile na Av. da Liberdade, mantendo uma participação constante, apenas com um interregno de 5 anos após o 25 de Abril de 1974. Este ano desfilaram 24 pares de marchantes. Os ensaios diários tiveram início a 5 de Março, com horário rigoroso, das 21h30 às 23h30. Cada arco pesa 24kg. A primeira apresen­tação realizou-se a 5 de Junho no Pavilhão Atlântico. Na Avenida a marcha foi a última a desfilar, em 20º lugar. Este ano, a Marcha da Mouraria classificou-se em sétimo lugar, com 209 pontos e ganhou o prémio Melhor Cenografia, distinção partilhada com as marchas da Bica e Marvila.

mouraria, rua a rua

O lado aristocrático da Mouraria No coração da Mouraria à Rua das Farinhas, caminhemos para riba até desembocarmos no Largo da Rosa. Neste “sítio” podemos empreender uma viagem com mais de 700 anos de História ou não se localizasse aqui a Igreja de São Lourenço datada do século XIII. Luiz de Nogueira, médico de D. Dinis, foi o primeiro padroeiro da paróquia e morgado de São Lourenço.

Comecemos por esclarecer a origem do topónimo que deu nome ao Largo. No topo da Rua das Farinhas existe um alto e velho muro: no seu extremo observamos um cunhal, estilizado em forma de flor - acabamos de chegar ao que resta da cerca conventual que delimitava o convento de Nossa Senhora do Rosário ou da Rosa. Fundado em 1519 por D. Joana Ataíde, foi destruído pelo terramoto de 1755. Na origem deste piedoso acto está um casamento sem descendentes, levando D. Joana a oferecer a Deus o seu

dote de casamento para a construção de um mosteiro de freiras dominicanas em honra de Nossa Senhora do Rosário, de quem era devota. Recolheu-se para sempre na clausura do mosteiro após autorização papal. O que resta do convento (partes da cerca e portal gótico manuelino da igreja) podemos ver “artisticamente” integrado no solar e jardim do poeta Afonso Lopes Vieira. Ao lado do solar ergue-se o palácio seiscentista da Rosa. A sua frontaria bar-

roca ostenta o brasão dos viscondes de Vila Nova de Cerveira depois marqueses de Ponte de Lima. No início do século XX, o sétimo marquês de Castelo Melhor acrescenta dois andares ao palácio e recupera a Igreja de São Lourenço. Manda também fazer uma meia-laranja para melhor circulação de carruagens, já que aqui se reunia a fina flor da aristocracia em bailes e festas de salão. O palácio foi propriedade dos marqueses de Castelo Melhor até à segunda metade do século XX. Pedro Santa Rita


Rosa Maria

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editorial

está bem!

CAMILLA WATSON

Editorial esquisito Tem o fado e as caravelas e sopra na rua dela o cheiro de especiarias. Traz sempre notícias frescas, conta histórias, sabe ouvir, cantarola em várias línguas. Chama-se Rosa Maria. Nome de mulher, voz de bairro. Gazeta de uma Lisboa que não queremos ver morrer. Veste-se de mil cores e formas, com arrojo e descontracção. Gosta de usar o contemporâneo e o vernáculo para se afirmar. E é desta forma que se afirma uma verdade que a Mouraria viu nascer, garrida na sua atitude e forte no seu amanhecer. Nessa cor e no seu contraste, a hipótese de poder ver o bairro tal como ele é pelos nossos olhos. Onde tudo começa e onde nada acaba, é também pelos olhos dos outros que continuamos a voltar. Vamos e voltamos, sempre pelo caminho. Entendamos que percorrer o caminho é a maior rebelião, é o objectivo maior. Naquela escrita de livre pensamento, ia percorrendo os altos e baixos da bruma, sombra, verdadeira encosta guiada pelos aromas da rosa. E Rosa Maria, acompanhada de sempre-vivas de brincos-de-princesa, seguirá até à coroação imperial de amores-perfeitos lilases. Em amanheceres perpétuos bêbedos de azul e Tejo, nasce a pouco e pouco um sonho imaginado na alva manhã da Mouraria. A matéria-prima sempre esteve diante de nós! Da realidade passou-se à ideia de um jornal que falasse da tradição e da história que se encontra nas gentes e casas, de um lugar multicultural e moderno. Também Rosa Maria se apresenta ao mundo com um olhar inacabado, aberto a uma Mouraria cada vez mais viva e cheia de Graça, com os Anjos, o São Cristóvão e a Santa Justa mais próximos e menos necessitados de Socorro. E acudir faz lembrar sacudir. Pois se houve mãos que aqui foram cometendo a iniquidade, podemos hoje mostrar, para fora das barreiras invisíveis, os nossos sonhos, as nossas ambições, as nossas cores, as cores dos outros, aquele que é irmão daquela e vizinho do outro que vai à tasca, onde até encontra o cadáver esquisito bebendo o vinho novo. A dita personagem, até chegar ao derradeiro copo, subiu trinta escadas, escorregou na calçada, sentiu vindo das janelas o cheiro a caril e bacalhau, bebeu esse vinho, recente da videira mas com a antiguidade dos feitiços, e sentiu-se gente nova, desmanchando-se em riso e música que animaram toda a rua. E Rosa Maria dá gargalhadas, mas também barafusta. Jornal com nome de flor e espinhos para picar quando é preciso. Uma rosa regada por aqueles que, dentro e fora do bairro, amam a Mouraria e a cidade de Lisboa.

Texto escrito a 30 mãos

O Largo dos Trigueiros está a ficar uma categoria. está mal! CARLOS MORGANHO

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Então agora fecham-nos as ruas? É assim que se resolvem os problemas do bairro?

FICHA TÉCNICA Direcção: Associação Renovar a Mouraria Direcção gráfica: Armanda Vilar Edição: Ana Luísa Rodrigues, António Henriques, Maria João Amorim e Oriana Alves Revisão de texto: Ana Castro Colaboraram neste número: Adalberto Alves, Adriana Freire, Ana Castro, Ana Filipa Fernandes, Ana Luísa Rodrigues, António Henriques, Appio Sottomayor, Carla Pirezas, Marie-line Darcy, Inês Andrade, João Madeira, Maria João Amorim, Mário de Carvalho, Miguel Abreu, Mourad Ghanem, Nuno Franco, Oriana Alves, Pedro Santa Rita, Sara Figueiredo Costa e Sara Ludovico Fotografia: Adriana Freire, Ana Catarina Caldeira, Brian Astbury, Camilla Watson e Carlos Morganho Ilustração: Antònia Tinture, Hugo Henriques e Nuno Saraiva Agradecimentos: Arquivo Municipal de Lisboa / Arquivo Fotográfico , Eduarda Dionísio (Centro Mário Dionísio - Casa da Achada), IELT - Instituto dos Estudos de Literatura Tradicional e Museu da Cidade Propriedade: Associação Renovar a Mouraria Redacção, Administração e Publicidade: Rua da Mouraria, nº 30, 5º, 1100-364 Lisboa, Telf: 21885203, Telm: 922191892, geral@renovaramouraria.pt Impressão: MIRANDELA - ARTES GRÁFICAS Distribuição: Associação Renovar a Mouraria Versão digital: www.renovaramouraria.pt Direcção comercial: Associação Renovar a Mouraria Fonte: Leitura gentilmente cedida por DSTYPE Depósito legal: 310085/10 Periodicidade: Trimestral Tiragem: 10000 exemplares Número zero, Junho de 2010 CAPA: Camilla Watson


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notícias arm

A Associação Renovar a Mouraria (ARM) apresentou no dia 20 de Maio, no Museu do Fado, o concurso “Há Fado na Mouraria”. O evento está integrado nas Festas da Cidade e tem como parceiros o Museu do Fado, a EGEAC, o Teatro da Trindade/Inatel, a Rádio Amália, a Fundação Ricardo Espírito Santo, a Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto e o bar Anos 60. “Revitalizar o circuito do fado no bairro que o viu nascer e estimular o aparecimento de novos fadistas e letristas, contribuindo para refrescar o repertório do Fado e o imaginário de Lisboa” foram os objectivos destacados por Inês Andrade, presidente da ARM. Daí que a única condição para participar no concurso, além da de ser fadista amador e maior de 16 anos, seja a inscrição de, pelo menos, uma letra inédita. “Requisitos que tornam este concurso verdadeiramente original”, sublinhou José

Dois anos a renovar

La Feria. Para assegurar que nenhum talento fica de fora, seja o do fadista por falta de poema inédito, seja o do poeta por falta de afinação, a organização do Concurso criará um Banco de Letras que funcionará como arquivo de letras para o futuro. Além dos prémios de 1000€ (primeiro classificado), 500€ (segundo) e 250€ (terceiro), os 12 finalistas apurados para a final de Dezembro gravarão os seus fados num audiolivro a lançar em 2011. Sem esquecer o Troféu Maria Severa, que os primeiros três classificados levarão para casa. Desenhada por Nuno Saraiva, uma voluptuosa versão da lendária fadista da Mouraria (espécie de “óscar do Fado”) será esculpida em madeira e terá embutida uma voluta de guitarra portuguesa. Um aliciante que o ilustrador resumiu na forma de uma pergunta: “Qual é o fadista que não gostaria de agarrar a Severa pela cintura?” Entre os discursos, ouviuse fado pela voz de Ruca Fernandes e Andreia Lopes. OA Regulamento e informações em: hafadonamouraria.wordpress.pt

do, Maria do Carmo Espírito Santo, que apresentou a nova parceria entre os serviços educativos do Museu e a ARM. Inês Andrade, presidente da ARM, apresentou os projectos gerais da associação, bem como aqueles que se inscrevem no âm-

Em Março celebrámos o segundo aniver-

bito da parceria com a CML “Mouraria: As

sário da Associação Renovar a Mouraria

Cidades Dentro da Cidade”, cujos parceiros

(ARM) com uma ronda das tascas, a acção

são também as diversas Juntas de Freguesia

Limpar a Mouraria, teatro de rua, poesia,

do bairro, a Casa da Achada, a EPUL, o Ins-

milongas, a exposição “Sonhando a Mou-

tituto da Droga e da Toxicodependência e a

raria” e a apresentação dos projectos da

Associação de Turismo de Lisboa.

ARM, no Sindicato dos Trabalhadores da

António Costa salientou que este pro-

Actividade Seguradora. Na sessão esteve

grama “não consiste apenas numa opera-

presente o presidente da Câmara de Lisboa

ção de reabilitação do edificado, também

(CML), António Costa, o vice-presidente e

intervém no espaço público e envolve a po-

vereador dos pelouros do Urbanismo e da

pulação do bairro”. Com todos estes pro-

Reabilitação Urbana, Manuel Salgado, e a

jectos, a Mouraria apresenta-se como um

administradora do Museu Colecção Berar-

bairro cheio de oportunidades. ARM

texto Mourad Ghanem | desenho Hugo Henriques

A minha graça é Rosa Maria Foi um grande alvoroço na Rua do Capelão, mas a Albertina perdeu argumentos e foi a Rosa Maria quem levou a melhor. Não foi uma escolha fácil, depois de muitas horas em conversas com as pessoas, nos cafés, tascas e vielas, depois de muitos cartazes procurando um nome para o Jornal da Mouraria, eis que surge o “Rosa Maria”. Presente no nosso imaginário, parece que tem virtude quando vê passar a Senhora da Saúde e cruza-se connosco todos

os dias na rua uma voz feminina como o nome do bairro que a viu nascer. O senhor Manuel dos Santos escreveu o seu nome no cartaz do café da Rua das Olarias, e pensámos que o jornal poderia ter nome de pessoa, ao invés de nome de rua. Era assim que o sonhávamos, com rosto e com carácter. Mas o jornal deveria ser mais do que uma pessoa, deveria representar muitas pessoas, culturas, línguas. Já tínhamos centenas de propostas, novas iam chegando, eis quando surge a Adriana com a Rosa Maria, perdigueira irrequieta. De imediato foi sugerido o seu nome. Foi a votos e ganhou: Jornal da Mouraria, de seu nome Rosa Maria. IA

CAMILLA WATSON

Há fado na Mouraria


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CARLOS MORGANHO

mouraria, ontem e hoje

As décadas passam, mas os edifícios em vários tons de das igrejas mais antigas de Lisboa. Também o muro rosa continuam a marcar a traça do largo com o mes- que delimitava parte do largo e o lavadouro de São mo nome. Nas duas fotografias acima, separadas por Lourenço (à direita) foi demolido, na sequência da alteração urbanística que “a Rosa” cerca de 40 anos, vemos a Igreja de sofreu nos anos 90. Permanece São Lourenço, contígua ao PaláA rubrica Mouraria Ontem e Hoje é feita em colaboração com o Arquivo Municipal de Lisboa / o emblemático lavadouro, com cio da Rosa (à esquerda) e o rosa Fotográfico Arquivo, a quem pertencem as imagens antigas do bairro. os 37 lugares gravados em pevelho do solar de Afonso Lopes O Arquivo Fotográfico é um dos equipamentos situados na Mouraria (Rua da Palma, nº246). dra. Em tempos as suas pedras Vieira (em frente). A sua colecção de 600 mil imagens mostra a evolução serviam para as mulheres esfreNo jogo das diferenças entre da cidade desde 1850. As fotografias podem ser consultadas gratuitamente na sede do Arquivo garem roupa e trocarem as últiontem e hoje há, desde logo, a ou na internet, através do endereço: http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt mas novidades, ao abrigo de tepresença dos automóveis, em lhas vãs. Hoje serve de piscina às maior número e de elevada cilindrada. Mais discretos, mas nem por isso menos gri- crianças no Verão e de palco para os espectáculos das tantes, são os tijolos que entaipam as janelas da Igre- festas populares, agora sob uma moderna cobertura ja de São Lourenço – este é o actual destino de uma em ferro.


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retratos do quotidiano

texto e fotografia Adriana Freire

Quando se entra na pequena mercearia do Largo do Terreirinho somos de imediato contagiados pela simpatia do casal Davinder e Poonam. A família Singh chegou a Lisboa, vinda da região rural de Sangrur no Punjab, Índia, em Junho de 2007. Na sua terra natal, tinham uma livraria que vendia sobretudo livros de estudo. Viviam com os pais de Davinder que ainda lá habitam, na quinta da família, onde cultivam arroz e criam búfalos.

A família Singh Do Punjab para a Mouraria

Contam que, mal chegaram, se sentiram bem em Portugal, quer pela simpatia das pessoas quer pelo clima ameno. Vieram com o seu único filho, Amiteshwar, que tem 17 anos e frequenta a escola Gil Vicente na Graça. Franky, nome pelo qual gosta de ser tratado, fala várias línguas e quer ser engenheiro informático.Os seus melhores amigos são portugueses porque na escola não há nenhum indiano com a sua idade.

ensaio

Adalberto Alves

Mouraria

uma filha da tolerância Sem D. Afonso Henriques, este lugar nunca teria nascido.

O primeiro rei de Portugal, cavaleiro templário e homem tolerante, foi o aliado de Ibn Qasî, o mestre dos muçulmanos Muridinos e o defensor dos mouros vencidos na rendição de Lisboa. Não fora ele, e os excessos e desmandos dos Cruzados ter-se-iam saldado na liquidação da população islâmica

da cidade, que aqueles queriam integralmente passada a fio de espada. Porém, o Conquistador soube interpor-se entre os guerreiros do norte da Europa – alguns que pouco mais eram do que piratas – e os habitantes mouros de Lisboa, garantindo a vida, quer aos que quisessem partir, quer aos que quisessem ficar. A estes foi destinado um espaço fora das muralhas para recomeçarem a sua vida construindo um novo núcleo urbano. Nascia a Mouraria espaço físico e administrativo, e também cultural e religioso, tornado réplica em ponto mais pequeno da Lisboa Árabe. Nele existiam em breve, banhos públicos, escolas, mesquitas, tribunais com foro próprio, mercados e até prisão. Sob o chapéu de chuva protector do foral de Lisboa, a presença muçulmana prolongar-se-ia, pelo menos, por mais quatro séculos, enriquecendo a nossa nascente nacionalidade, graças a uma intercultura de arte e saberes que veio a ter um carácter matricial na portugalidade. Por outro lado, a Mouraria de Lisboa e a sua Comuna de Mouros foram, por assim dizer, o modelo de todas as outras Mourarias, por ser a maior, a mais rica e a mais influente. Foi mesmo das que mais durou.

Hoje, a Mouraria alfacinha, berço do fado e memória maior da nossa quota de arabidade, prepara-se para renascer das cinzas, graças a algumas brasas de paixão que a não deixaram morrer lutando contra a intolerância, o abandono e a indiferença. Nas malhas do destino que a História tece emerge esta Mouraria que persegue um sonho de modernização e progresso mas que sabe que o seu maior tesouro secreto é a sua Memória que a todo o custo deve ser preservada. Como que por acaso – mas o acaso existe ? – voltou ao bairro a presença do Oriente que o fez nascer. A multiculturalidade, apanágio da cidade e da nossa presença no mundo, é hoje uma emblemática realidade da Mouraria e muitos são os muçulmanos que nela voltaram a habitar. Possa ela ser no futuro, como todos desejam, um pólo de diálogo e de abertura ao Outro, dessa forma se tornando um incontornável pólo de “atracção” para os amantes da paz e do “diferente”.

Adalberto Alves é escritor e advogado. Reconhecido arabista, tem dedicado muita da sua obra ao estudo e divulgação da cultura árabe. Em 2008 foi distinguido pela UNESCO com o Prémio Sarjah para a Cultura Árabe. É director do Centro de Estudos Luso-Árabes, em Silves. Entre vários livros publicados, da poesia ao ensaio, é autor de O meu coração é árabe e Em busca da Lisboa Árabe. ALR


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— A notoriedade da Rua do Capelão vem, em grande parte, do facto de nela ter vivido a fadista que, por força da realidade, da literatura, do teatro e do cinema, se tornou num verdadeiro mito. Andarilha por Lisboa (viveu na Madragoa, no Pátio do Carrasco, no Bairro Alto, no Terreirinho...), acabou por se fixar na casa baixinha e pobre, assinalada por uma lápida, de onde saiu, aos 26 anos, para morrer a caminho do hospital. Mas a rua estava mesmo virada para o fado: lá nasceu Fernando Maurício, um dos grandes da canção nacional.

A Severa e o Maurício

passeando com appio sottomayor

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— Se a Mouraria tivesse uma catedral, essa seria, sem grande contestação, a capela da Senhora da Saúde. Ponto de encontro de todo o bairro e não só, continua a ser, desde o século XVI (quando S. Sebastião ainda era o orago), o local predilecto para a devoção de muitos e mantém o seu nome ligado à mais tradicional das procissões

Senhora da Saúde

texto Appio Sottomayor

Se a Mouraria tivesse uma catedral, seria a capela da Senhora da Saúde. A rua do Capelão não era bem “juncada de rosmaninho”. A Achada podia ser um dos largos mais castiços de Lisboa. Apontamentos do jornalista e olisipógrafo Appio Sottomayor em passeio pelo bairro.

Nobre e popular

fotografia Camilla Watson


— Já não funciona há muito por forma a dar razão ao nome. Assim, o que leva a falar dele são motivos meramente saudosistas e sentimentais. Fundado em 1916, começou por ser um barracão onde se exibiam filmes. Passou depois a ser uma sala de cinema digna desse nome, com plateia e balcão, como era costume. Na fase mais longa da sua existência (dos anos 40 até ao encerramento), era uma casa de espectáculos de índole extremamente popular, nos preços e na frequência. Desdenhosamente, a população mais burguesa chamava-lhe “piolho da Mouraria” ou “Tivolixo”. Mas era um consolo para a rapaziada: com sessões contínuas, podia-se entrar às 14 e sair à meia noite – sempre a ver fitas.

Salão Lisboa

— Podia (devia!) ser dos largos mais castiços de Lisboa. Custa a dar com ele, só o conseguindo depois de se andar por escadinhas e becos, próprios de uma Mouraria genuína. O nome, segundo os linguistas, vem do árabe e significa “terra chã”. Terreno em declive, aproveitável para fins lúdicos ou culturais, local onde se encontra um dos raros prédios medievais da cidade; tudo estaria bem, se não se desse o caso de ter o sítio um ar de abandono e de candidato a ruína. Dá Deus nozes…

A Achada

— Parece sofrer de má sina a simpática igreja de S. Lourenço. Rezam as crónicas que foi erguida no século XIII, mas as reconstruções de que foi alvo são muitas. As maiores deram-se depois do terramoto, depois em 1867, e uma, radical, em 1904. Foi pertença dos proprietários do palácio da Rosa, contíguo à igreja, com o qual comunicava por uma tribuna. A dada altura, fechou ao culto e foi-se transformando num valioso museu arqueológico. O pior é que hoje nem igreja nem museu; é um monumento perfeitamente desconhecido. Para cúmulo, emprestou o nome à freguesia de S. Cristóvão e S. Lourenço - mas pertence ao Socorro…

São Lourenço

— Mestre Norberto de Araújo considerava duas faces da Mouraria: a aristocrática e a popular. À primeira pertenciam alguns edifícios ricos em História e, entre eles, estava o Coleginho. A casa religiosa remonta a D. Manuel I, destinando-se em princípio a freiras dominicanas. Mas foram os jesuítas que lhe deram vida e fama, ainda em pleno século XVI. Funcionou ali o primeiro colégio jesuíta do mundo e, segundo a tradição, lá esteve S. Francisco Xavier antes de seguir para a Índia. A pequena igreja (hoje sede da paróquia do Socorro, desde que o templo desta invocação foi demolido), o claustro e a sacristia merecem visita atenta.

O Coleginho

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Appio Sottomayor nasceu em 1937, na freguesia do Socorro. Dedicou grande parte da sua vida a escrever sobre Lisboa, nomeadamente, no extinto jornal A Capital, onde publicou um conjunto de crónicas diárias com o nome “O poço da cidade”, a partir de meados da década de 80 do século XX. Em A Capital, a que chamou “albergue vitalício e razão de ser destas crónicas lisboetas”, acumulava as funções de contador de histórias da cidade – que só não eram publicadas ao fim-de-semana – com as de chefe de redacção do vespertino. Na introdução do livro que reúne esses textos (Editorial Notícias, 1993) diz-se que as crónicas, escritas para ler e deitar fora apesar da pesquisa a que obrigavam, falam “das broas castelar, do amigo do alheio, do íntimo de Lisboa, dos anjos e pobres diabos, das corridas e trajos, do drama dos acessos, dos aproveitadinhos, dos ‘jaquinzinhos’ com arroz de tomate e tudo o mais, numa saudável anarquia do sempre a-propósito.” Na altura, não havia nos jornais qualquer coisa de parecido: tentar falar quotidianamente sobre a matriz cultural de Lisboa com detalhe. A Câmara de Lisboa atribuiu-lhe, em 15 de Junho de 1987, a medalha de mérito municipal – uma forma de homenagear o olisipógrafo que punha em contacto com os leitores as referências de outros ilustres estudiosos de Lisboa (Norberto de Araújo, Júlio de Castilho, Matos Sequeira, Pastor de Macedo, Eduardo Bairrada). As crónicas publicadas em 1989 valeram-lhe o prémio municipal Júlio César Machado (escritor falecido em 1890). A Mouraria ocupa, com vastas referências, muitas das suas prosas.

— O fado descreve-a como “juncada de rosmaninho”. Não será bem assim. Na verdade, aquela via era conhecida, em tempos recuados, por Rua Suja e o poeta Miguel Torga comentou um dia que havia quem confundisse “rosmaninho com bosta”. Sem exageros de um lado ou de outro, dir-se-á que poderia ser uma artéria típica, com prédios humildes que, bem cuidados, mostrariam uma Mouraria que não mereceria más famas. Mas, como está, esta rua mediática conserva algum pitoresco e história – mas é triste.

Rua do Capelão

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— Em plena Rua da Mouraria, um edifício velho dá nas vistas. Uma curiosidade se destaca logo no portal de jeito quinhentista: as colunas estão invertidas, ou seja, com os capitéis para baixo, sinal da pressa com que foi reconstruído o prédio depois do terramoto. Mas a história vai muito mais além: ali funcionou o Colégio dos Meninos Órfãos, que remonta a tempos de D. Afonso III. Lá esteve depois, por um período, a imagem da Senhora da Guia. Passou por múltiplas facetas. E ainda hoje vale a pena subir a escada e admirar os magníficos azulejos.

Edifício do Amparo

lisboetas. Parecerá uma igrejinha de aldeia, é certo – mas faz parte do brasão espiritual da cidade grande. E algumas imagens merecem contemplação atenta.


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beco do imaginário “Eu vim contar histórias para vocês”, apresentou-se a contadora. “Histórias com personagens?”, quiseram saber. “Com muitos personagens”, confirmou ela, e logo um alvoroço participativo tomou conta dos meninos do Espaço INTERVIR, na Rua das Farinhas: “eu vou ser... um mocho”, disse um; “eu vou ser ....  ai, eu não sei quem vou ser...”, afligiu-se outro, ao que uma colega ia propor “tu vais ser...”. Mas Cláudia Fonseca resolveu: “eu vou ser a contadora e vocês vão ser os ouvidores”. Desânimo. “Ah,  fogo...”. Cláudia insistiu: “Ah fogo! E onde é que vão aparecer os personagens?” “Aqui

dentro”, apontou ela. “Dentro do cabelo?”, pinguepongueou outro, para a risota geral. “Dentro da cabeça. Porque as histórias são assim: a gente escuta as histórias, depois guardamos as histórias na cabeça e depois vamos contar a outras pessoas. Eu vou fazer isso aqui com vocês e vocês depois podem fazer isso noutro lugar”. A audiência serenava-se. “Agora eu queria saber que histórias vocês gostam mais de ouvir, se são histórias de bichos... nem vou perguntar se gostam de histórias de terror...

Esta rubrica tem o apoio do IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL · www.ielt.org

todos os anos, mas por mais que cresça nunca consegue apanhar a maçã. ““Ia buscar ajuda”, sugere uma menina; “ia a outra macieira”, opina o colega. Até que um ano o menino se põe a brincar com as formigas. A macieira, para provocar o menino, aproxima o galho cada vez mais, mas ele “nem te ligo”, sempre de costas, até que de repente se vira para trás e zás, agarra a maçã. Risos. “Sabes o que é?”, responde o menino quando a árvore o chama de batoteiro, “é que este ano, ó macieira, eu não cresci só no tamanho, eu cresci na esperteza”, e vai-se embora comendo a maçã, que estava mesmo uma delícia. Finalmente: “estão vendo o que é que dá a gente crescer aqui dentro?”

Alves texto Oriana Watson milla fotograf ia Ca

se gostam de histórias de amor...” Alguns sins e nãos alternados, conforme o género e as idades (entre 7 e 14 anos), bastaram para Cláudia decidir. O “jogo do búzio” trouxe o silêncio que faltava – e consiste em esticar os braços para baixo, sacudir muito muito muito as mãos e depois pô--las em concha nos ouvidos para escutar as ondas do mar. Cláudia pôde então começar o Conto da Macieira, escrito pelo italiano Stefano Benni e que costuma ser contado por Antonella Gilar-

di, outra Contabandista (ver caixa). É a história de um menino que ia a andar no campo quando de repente viu uma macieira. E, num dos galhos da macieira, uma maçã redonda, vermelha, sumarenta, e que cheirava bem. O menino foi ao pé da macieira e esticou o braço e esticou, mas era impossível agarrar a maçã, estava muito alta. “Ia buscar um escadote”, remata logo um ouvidor. Cláudia continua a contar. E para desespero da audiência a história repete-se: aliciado pela árvore, o menino regressa

E foi esta a história que quase todos escolheram para ilustrar. Não só por ser mais fácil desenhar a macieira e o menino do que as histórias que se seguiram: a divertida saga do anja anja catibiribanja serramatutanja da firififanja e a história de piratas subaquática contada em grupo e com sonoplastia também colectiva. É porque todos concordam que não é a altura que conta. O importante é ter ideias debaixo do cabelo, mais precisamente, na cabeça.

Contabandista e Ieltsadora

Ana Margarida

Ana Raquel

Ana, 10 anos

Catarina, 7 anos

Cláudia Fonseca nasceu em 1965 no Brasil, Rio de Janeiro, e vive em Portugal desde 1992. Licenciada em Economia (por engano) e Psicologia (por vocação), reparte o tempo entre a clínica e a narração. Começou a contar histórias na Biblioteca Municipal de Oeiras há cinco anos, no âmbito do projecto “Histórias de Ida e Volta”. Lá encontrou os seus parceiros nos contos, e criaram juntos a Contabandistas de Estórias Associação Cultural (http://contabandistas.no.sapo. pt/). Colabora com o IELT e prepara doutoramento em literatura tradicional e oral, fazendo uma ponte entre a psicanálise e a narração.


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fotograf ia Carlos Morgan

ho

A cabeça é de pano, a auréola é um CD, o tronco uma caixa forrada em papel crepe, os braços são tricotados e as pernas dois frasquinhos de vidro. O trono de Santo António é cem por cento reciclado mas a construção é original e da autoria de cinco artistas da Mouraria, devidamente assessorados por Euprémio Scarpa. Esta é a terceira representação do santo casamenteiro, que no fim das festas juninas se juntará às suas antecessoras na colecção da Associação Renovar a Mouraria.

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histórias com imagens

texto Pedro Santa Rita fotografia Adriana Freire, Brian Astbury e Camilla Watson

Saúde, senhora! Virgem, dá-nos vida! Era com estas preces que o povo de Lisboa acompanhava com devoção a procissão da Nossa Senhora da Saúde. Estava-se no século XVI e a peste ceifava muitas vidas na populosa e suja capital do Império. Quando a peste foi erradicada, e correspondendo ao desejo do povo, ordenou D. Sebastião que se fizesse uma solene procissão em honra da virgem, sob invocação de Senhora da Saúde.

NOSSA SENHORA DA SAÚDE A primeira procissão realizou-se numa quinta-feira a 20 de Abril de 1570, e se retirarmos um curto período de tempo republicano, pós 1910, a procissão mantém-se no essencial até aos dias de hoje, como uma das mais antigas expressões de religiosidade popular da cidade de Lisboa. A procissão realizava-se com grande pompa, nela tomando parte, além da nobreza e do povo, todas as irmandades e ordens religiosas da capital, clero, prelado, cabido da Sé e Senado da Câmara Municipal. Os anjinhos abundavam, assim como as bandas de música e tropa que atraía lisboetas e saloios. Todos os anos nos mês de Maio os andores saem à rua, transportando primeiro Santa Bárbara, depois Santo António, São Sebastião e por fim a Senhora da Saúde (orago), ao ritmo da cadência musical das bandas filarmónicas e das flores atiradas à virgem.

O percurso inicia-se na Igreja da Nossa Senhora da Saúde e percorre as ruas da Mouraria e do Benformoso, Largo do Intendente, Rua dos Anjos, Avenida Almirante Reis, Rua da Palma, Rua D. Duarte, Praça da Figueira (pelo lado oriental), Rua dos Condes de Monsanto, Poço do Borratém e, finalmente, Rua do Arco do Marquês do Alegrete.


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Há festa na Mouraria Poema Gabriel de Oliveira Música Alfredo Marceneiro

Há festa na Mouraria, É dia da procissão Da Senhora da Saúde. Até a Rosa Maria, Da Rua do Capelão, Parece que tem virtude. Naquele bairro fadista, Calaram-se as guitarradas. Não se canta nesse dia; Velha tradição bairrista: Vibram no ar badaladas Há festa na Mouraria. Colchas ricas nas janelas, Pétalas soltas no chão, Almas crentes, povo rude. Anda a fé pelas vielas, É dia da procissão Da Senhora da Saúde. Após um curto rumor, Profundo silêncio pesa, Por sobre o Largo da Guia. Passa a Virgem no andor, Tudo se ajoelha e reza, Até a Rosa Maria. Como que petrificada, Em fervorosa oração, É tal a sua atitude, Que a rosa já desfolhada, Da Rua do Capelão, Parece que tem virtude.


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agenda cultural

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Galeria Colorida

Teatro da Garagem

Junho / Julho /Agosto / Setembro 19 Jun a 2 Jul — Socorro Garcia Pintura México

Junho 19 e 20 Jun — 11h - O teatro no jardim Brincadeiras e Teatrices

Rua Costa do Castelo, 63

3 a 16 Jul — Liza Tancredi Fotografia Brasil 17 a 30 Jul — Ziva Zitnik Pintura Eslovénia

Este Arraial é Mundial! Largo da Rosa

Junho SEX 18 — 20h-02h — Lançamento do Rosa Maria - Jornal da Mouraria Concerto Maracatu Dubairro 23h30 - Concerto Ensemble Jer SAB 19 — 20h-02h — Lançamento

do audiolivro Memórias de um Craque (BOCA) 22h30 - Concerto Andersenmolière DJ LXPTO.COM SEX 25 — 20h-02h — 22h30 - Concerto Gonçalo Gonçalves + Artur Garcia DJs Dupla Perspectiva SAB 26 — 20h-02h — 22h30 - Concerto King Mokadi

31 Jul a 13 Ago — Ljubomir Simonovski Pintura Macedónia 14 a 27 Ago — John Weerong Bartoo Pintura Austrália Helena Victorino Aguarela Portugal 28 Ago a 10 Set — Nora Lizard Pintura Hungria

Rua Costa do Castelo, 75

Oficinas e actividades para toda a família

Jules et Jim, de François Truffaut

16h -Teatro Teen Espectáculo do Clube de Teatro Jovem 21h30 - Camino Real (teatro) Julho 16 a 19 Jul — 21h30 -Notações para Aristófanes e Kleist (gratuito) Público geral: 10€ Estudantes, menores de 25 anos, grupos de 10 pessoas e residentes: 5€ Reservas: 218854190

Flores de Papel, de Guru Dutt

Casa da Achada

Largo da Achada Junho / Julho / Agosto — Itinerários 19 Jun, 16h - À conversa com Claúdio Torres —

Citizen Kane, de Orson Welles

mouraria nas artes ilustração Hugo Henriques

Sara Figueiredo Costa, crítica literária cadeiraovoltaire.wordpress.com

Uma ‘sarrabulhada’

Perante o desafio do Rosa Maria, havia a hipótese documentalista e as outras todas. A hipótese documentalista aconselhava o levantamento exaustivo (tanto quanto possível) de todas as referências literárias à bela Mouraria, assim uma espécie de ‘ora tomem lá, que apesar de sermos um bairro menos falado do que o Restelo em certos meios, temos uma quota de presenças na literatura que não lembra a ninguém’. Para além de trabalhosa, era uma hipótese condenada ao aborrecimento. E seria tarefa para um olisipógrafo dedicado e não para uma escriba com mais dedicação pelo deambular desordenado por ruas e livros do que

pelos elencos arrumados dos catálogos temáticos. De qualquer modo, outras oportunidades haverá para referir literaturas várias onde as ruelas ascendentes e seus habitantes foram marcando presença. Não vale a pena esgotar tudo no entusiasmo do primeiro número. Mouraria, literatura, Mouraria, literatura... O que me vem à cabeça é o crime da Mouraria, motivo de discussão acesa no jantar no Hotel Central que Eça de Queirós registou como ficção, mas que obviamente se regista no imaginário de quem leu Os Maias como momento verídico incontestável (aliás, à semelhança de todo o livro). Uma rapariga morta à

navalhada por uma amiga em plena viela – “uma sarrabulhada”, como o classifica a personagem de Cohen, enquanto beberica o seu tinto com a sobranceria de quem comenta as navalhadas dos bairros do alto dos banquetes refinados – traz logo os ecos de histórias que se querem ‘very tipical’, mas o que verdadeiramente interessa nesta referência queirosiana é a discussão que se segue, opondo românticos e naturalistas numa acesa troca de ideias que é todo um programa literário. Mas antes, cite-se a passagem, que as oportunidades de conviver com a prosa do mestre nunca são demasiadas: “Falou-se logo do crime da Mouraria,


Junho de 2010

CAMILLA WATSON

20 Jun, 15h30 Oficina de Fotografia orientada por Catarina Alves e Vera Correia

Ciclo A Paleta e o Mundo (segundas às 18h30) 26 Jun, 15h - sessão coordenada por Pedro Rodrigues

3 Jul, 15h30 - 19h Pequeno é bom (encontros da edição independente) 50 anos de pintura e desenho (1943 - 1993) pinturas e desenhos de Mário Dionísio e de artistas seus amigos que lhe foram oferecidas Exposição 10 Jul, 16h - visita guiada 10 Jul, 10h - 19h II Feira da Achada Cinema ao ar livre Ciclo Assim Começaram 13 Grandes Realizadores 5 Jul, 21h30 - Citizen Kane, de Orson Welles 12 Jul, 21h30 - Aniki Bobó, de Manoel de Oliveira

BOCA

A reforça o seu plantel audiolivresco com as crónicas futebolísticas de Fernando Assis Pacheco e a colecção HOT - Histórias Oralmente Transmissíveis

Concurso de quadras de Santo António 2010

21 Jun a 2 Jul Oficina de Video orientada por Saguenail

Ciclo Filmes Proibidos antes do 25 de Abril 21 Jun, 21h30 - Jules et Jim, de François Truffaut 28 Jun, 21h30 - Flores de Papel, de Guru Dutt

‫ ايرام ازور‬

1º Lugar

O Arraial do Largo da Rosa, organizado pela Associação Renovar a Mouraria, apresenta-se este ano com o título “Este Arraial é Mundial”. Evocamos assim não só a diversidade cultural, étnica e gastronómica do bairro, como a (nossa) febre futebolística. Popular e alternativo, este arraial junta aos motivos tradicionais dos santos lisboetas uma programação eclética e exigente, que inclui concertos, DJs, o lançamento do concurso “Há Fado na Mouraria”, apresenta��ões de livros, uma competição de quadras, ateliês para crianças e projecção dos jogos do Mundial. E ainda o grandioso lançamento do número zero deste nosso Rosa Maria, Jornal da Mouraria.

drama fadista que impressionava Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado à navalha por uma companheira, vindo a morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma viela em sangue – uma ‘sarrabulhada’, como disse o Cohen, sorrindo e provando o Bucelas” (capítulo VI). Quando Carlos da Maia refere o interesse que poderia haver no facto de a literatura se debruçar sobre o crime da Mouraria com mão analítica, Alencar responde, exaltado, pedindo “que não se mencionasse o ‘excremento’”, exclamação a que se seguirá um debate aceso sobre os benefícios de cada uma

Mouraria é de Lisboa Mas todo o mundo está cá É por isso que afeiçoa Quem vem viver para cá. José Miranda —

2º Lugar Mouraria é de Lisboa Mas todo o mundo está cá Enquanto o fado se entoa A Rosa não murchará. Paula Costa —

3º Lugar Mouraria é de Lisboa Mas todo o mundo está cá Andam pela rua à toa Cantam o fado de lá. Malubarni

das abordagens literárias; de um lado a defesa do mergulho analítico e descritivo na realidade, do outro a importância dos modelos, dos ideais, das formas trabalhadas à luz de um código onde a superioridade e a beleza imperavam, de um lado o escritor Émile Zola, do outro a ‘catedral romântica’. O episódio é curto, e rapidamente dá lugar a outras conversas do mítico jantar, mas é ilustrativo do modo como o ângulo do olhar define aquilo que se vê. E isso é uma coisa a ter em conta para quase tudo, até para o bairro da Mouraria.

www.boca.pt bocaaudiolivros.blogspot.com

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Rosa Maria

passatempos

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7 Diferenças

Sopa de letras

As duas imagens parecem iguais, mas na verdade contêm 7 diferenças entre si. Descubra-as.

Ache no diagrama os 10 nomes de ruas pertencentes ao bairro da Mouraria que se indicam na lista em baixo. As palavras podem encontrar-se na horizontal, diagonal ou vertical e em ambos os sentidos. Benformoso Capelão Cavaleiros Farinhas Guia

Lagares Mouraria Olarias Regedor Terreirinho

Cachorro quente+cães: 1 - Posição da maçaneta da porta da casa da direita, 2 - Falta uma portada na janela da parte de cima do lado esquerdo, 3 -Boca do homem de trás, 4 - Cor do número da porta da casa da esquerda, 5 - Falta a dobradiça do suporte do chapéu, 6 - Posição da cauda do cão do lado direito, 7 - Cor de uma das partes do chapéu SOLUÇÕES


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design_Armanda Vilar/moldura+lettering_Baguinho/ilustração_Nuno Saraiva

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ARMouraria/Maio 2010

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parceiros:

www.quinta4lagares.com


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Rosa Maria

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salmoura

Caril de camarão com quiabos 2 cebolas 4 dentes de alho 3 cm de gengibre fresco óleo 2 colheres de chá de piri-piri em pó 2 colheres de chá de açafrão 2 colheres de chá de coentros em pó 5 colheres de colorau malagueta verde 1 barra de coco ou leite de coco camarões, peixe ou frango

Bojés

texto e fotografia Adriana Freire

Jesus Lee

Cozinheiro do restaurante Tentações de Goa

Colabora comigo!

2 cebolas malagueta verde 1 colher de café de cominhos em grão coentros frescos 100 g de farinha de grão sal óleo para fritar

Picar a cebola grosseiramente, deitar por cima um pouco de sal grosso e deixar descansar até ganhar um pouco de água. Cortar a malagueta verde em pequenas rodelas. Misturar a farinha com a cebola, juntar a malagueta verde, os cominhos e os coentros picados. Deve ficar uma massa consistente. Fritam-se em óleo quente.

Nascido em Goa, resolveu vir para Portugal quando tinha 15 anos. Começou por ajudar o tio Sebastião no já então conceituado restaurante Cantinho da Paz. Não falava uma palavra de português. Dois anos depois conheceu Maria, do restaurante Tentações de Goa que frequentava como cliente. Pouco depois aproveitou uma oportunidade e aí ficou como empregado de mesa: “Além de cozinhar, adoro servir à mesa. Conviver com as pessoas é uma das coisas que maior prazer me dá, foi assim que aprendi a língua portuguesa.” Aprender a língua do país que escolheu para viver foi um desafio: “No início tinha sempre um livrinho e uma caneta no bolso e apontava todas as palavras difíceis. Depois ia à procura delas no dicionário. Hoje falo fluentemente o português sem qualquer sotaque e, por isso, muita gente não acredita que eu não tenha nascido cá.” O caso de Jesus é quase excepção:

“A maioria dos indianos dão-se apenas entre si e não convivem com os portugueses, é por isso que não aprendem a falar português.” Quando trabalhava no Tentações de Goa, a cozinheira, que era goesa, adoeceu. Foi assim que Jesus Lee começou a cozinhar: “Liguei para a minha mãe em Goa, perguntei-lhe como se fazia o caril. Hoje cozinho todos os pratos da cozinha goesa. Mas já tinha algumas bases, sempre adorei cozinhar e, como era o filho mais velho, era sempre eu quem ajudava a minha mãe. Vivo na Mouraria há cinco anos. Andava à procura de casa e calhou encontrar uma mesmo ao lado do trabalho. Tenho alguns amigos que moram aqui no bairro e entretanto também fui ganhando amizade com os vizinhos. Gosto muito de aqui viver. Dos bairros onde morei, este é o que eu gosto mais, faz-me lembrar um bairro típico de Goa - o bairro das Fontainhas.”

Envia-me notícias, histórias do bairro, contos, fotografias novas e antigas, desenhos, receitas de culinária, anúncios e publicidade. Diz-me o que está mal, o assim-assim e o que vai bem. rosamaria@renovaramouraria.pt Telm: 922 191 892

Refogar, num pouco de óleo, a cebola picada com o alho também picado e o gengibre ralado. Juntar as especiarias e adicionar a barra de coco e a água necessária ou, se preferir, leite de coco e deixar apurar um pouco. Se gostar de picante, pode ainda acrescentar malagueta verde cortada às tirinhas. Deitar o camarão descascado, o peixe ou o frango. Cozer os quiabos à parte e, no fim, juntar ao caril. Servir com arroz branco.


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vox mourisco

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na dobra das palavras texto Ana Castro e Sara Ludovico ilustração Antònia Tinture Uma língua é uma espécie de rio: move-se, troca de águas, flui, estende-se em grandes lagos ou demora-se em vastas zonas pantanosas. Estes movimentos podem ser testemunhados pelas palavras que uma língua recebe e oferece. Para inaugurar esta rubrica do Rosa Maria, dedicada às viagens feitas pelas palavras dentro e fora da língua portuguesa, começaremos por lembrar um legado linguístico do árabe.

fotografia Carlos Morganho

O que recomendaria na Mouraria a um amigo seu que não conheça o bairro? “Vir ver a minha Capelinha da Senhora da Saúde e a procissão, que é no dia em que a gente diz que “Há festa na Mouraria”. A gente vive isto com muito amor. Aos meus amigos que venham de fora, e já vieram muitos, o que eu mostro sempre, primeiro do que nada, é a capela. Depois também a nossa guitarra, o Largo da Severa e a Marcha da Mouraria.” Áurea Maurício, 59 anos, doméstica

“Eu mostro tudo, com muito gosto! Desde a rua da Amendoeira lá em cima, dar a volta ao Largo do Terreirinho, ir pela Rua do Capelão abaixo e ir à rua da Mouraria. As pessoas que vêm de fora gostam de tirar retratos à guitarra. As janelas típicas, a tradição de serem pequeninas. Antigamente é que as Severas e as mulheres (prostitutas) se metiam nestas casinhas pequeninas. Eu era miúda nessa altura mas lembro-me de que havia as meias portas. Elas respeitavam a gente e a gente respeitava elas.”

sentem-se muito perto umas das outras e isso cria um espírito de união. Esse espírito ainda existe, principalmente na altura das marchas. As pessoas ficam mais alegres, o bairro fica enfeitado.” André Pereira, 20 anos, estudante

“Mostraria o Grupo Desportivo da Mouraria que é o sítio do bairro onde eu mais gosto de estar. Tem o campo de futebol. De resto… tem as tascas, mas isso não é bem para a nossa idade.”

purtugalle

(abruzzese – dialecto italiano) (grego)

portokall (albanês) portakal (turco)

Tiago Gomes, 15 anos, estudante

(árabe) (romeno)

“Mostrava a Severa, a rainha do fado. Aqui as tasquinhas são acolhedoras, é barato. Aquelas tabernas muito antigas, que ainda têm aqueles copos grossos. Tem muita coisa boa para mostrar e também há coisas ruins, mas essas não convém mostrar.” Vitor (Guigui), 47 anos, empregado da Junta Freguesia do Socorro

América Mendonça, 78 anos, reformada

“Para já mostrava a guitarra que é o simbolo da tradição do bairro. Depois mostrava a casa onde morou a Severa, que é uma casa histórica e também marca a história do bairro. Depois mostrava as ruas, que significam muito para as pessoas. Com as ruas estreitas as pessoas

aranja (palavra do árabe narandja que, por sua vez, foi colhida da língua persa que, por sua vez, a trazia já do sânscrito) chegou ao português por volta do século XVI. Mas a viagem do fruto e do nome que o designa não se fica por aqui: hoje, em muitas línguas (grego, albanês, romeno, turco, dialectos do italiano e, imagine-se, árabe!), laranja diz-se, sem mais nem menos, portugal, por ter sido este o país a partir de onde esta planta vinda do Oriente se difundiu por toda a Europa. Por extensão, laranja deu ainda nome à sua cor, a cor-de-laranja. E eis como a nossa laranja se torna então uma palavra com dois sentidos, transportando em si a história das suas longas viagens.

“Aqui no bairro há pouco para mostrar. Mostrava a Igreja e a rua de São Cristovão que antigamente era cheia de gente e agora tem pouca gente. Ah, temos também agora a Casa da Achada que contribui para dar vida ao bairro, para a malta lá ir se quiser ver os filmes, ler os livros. Há cá pouca coisa para ver… mas olhe, há cá boa gente!” Jorge Lopes, 68 anos, reformado

A IELTsar, escutamos de perto as falas da terra, do céu e do mar, os nossos cantos, contos e que mais, as relações entre tradição e modernidade. A IELTsar, olhamos de longe, com olhos transdisciplinares, o que visto de perto parece banal nas nossas práticas culturais. Recontando, publicando e praticando, andamos de trás para diante, do avesso e às avessas no complexo e vasto mundo da literatura tradicional.

(mandarim) (russo) (ucraniano)

B.I. Árabe Número de falantes no mundo: 221 milhões Variedades: Cerca de 30 variedades orais, nem todas compreensíveis entre si nem com versão escrita; o árabe moderno padrão, baseado no árabe clássico, é a “versão” unificadora (oral e escrita) que funciona como língua da religião islâmica, e é também usada no ensino, na admi­nistração pública e nos meios de comunicação social. Família*: Afro-asiática, Semítica Central do Sul – o árabe é “primo” do hebraico. Geografia: Língua oficial de cerca de 27 países do Norte de África e Médio Oriente (Egipto, Israel, Marrocos, Palestina, Tunísia, entre outros); língua nacional de alguns países de África (Mali e Senegal); e língua também falada por comunidades emigradas em países de todo o mundo. Sistema de escrita: Alfabeto árabe Ranking: 4ª língua mais falada no mundo *As línguas, como as pessoas e as espécies de animais e plantas, têm família (e apelidos!): pais, irmãos, tios, primos mais próximos e mais afastados, avós, bisavós e tetravós... todos descendendo de um antepassado comum e com diversos ramos (sub-famílias). Fontes: www.ethnologue.com e Wikipedia


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Rosa Maria

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banda desenhada de Nuno Saraiva

entrevista de Ana Luísa Rodrigues

“Há um potencial fantástico na Mouraria”

ANA CATARINA CALDEIRA

Rosário Farmhouse é a Alta-comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural desde Fevereiro de 2008. A imigração é um tema que conhece bem, com muito trabalho no terreno.

Defende a diversidade de culturas como riqueza. Porquê? Rosário Farmhouse: Quem tem competências interculturais tem competências para ir mais longe. Porque tem curiosidade e capacidade de aceitar o que não está previsto. Quando a nossa experiência é mais fechada, acontece darmos tudo por adquirido. Temos medo do desconhecido e tendência para dizer que não gostamos do que não conhecemos. Quando temos aquela riqueza – que não é fácil nem natural e temos de desenvolver – somos muito mais completos e preparados para mais desafios. Qual é a diferença entre uma zona como esta e as áreas suburbanas, como a Amadora ou Queluz, com grande percentagem de imigrantes? RF: Talvez não tenham tanta varie­ da­de de nacionalidades. Têm comu­ ni­dades mais antigas e portanto já há segundas, terceiras, às vezes quartas gerações. O que acontece aqui é que existem várias co­mu­­nidades, salteadas pela malha do bairro. É uma manta de retalhos. RF: Exacto, e de comunidades que não estão cá há muitos anos.

Nesta zona da cidade os imigrantes estão por menos tempo do que as comunidades de outras zonas. Há uma maior mobilidade, seja para o país de origem ou para outro país europeu. Quais as áreas em que os imigrantes mais precisam de ajuda? RF: Para além da língua, na regularização dos documentos, porque não entendem bem o que é preciso. Na habitação a maior parte é descriminada. Quando o proprietário percebe que não é uma família portuguesa, dificilmente aluga ou pede um fiador que seja português e tenha um comércio, o que é quase impossível. O que faz com que os proprietários peçam três ou quatro rendas de avanço. A situação da habitação é visível. Por isso agrupam-se em zonas onde as casas estão bastante degradadas. RF: Sem dúvida. Com a casa degradada, o proprietário dispõe-se a alugar, independentemente dos seus preconceitos. Explora os inquilinos. A requalificação da Mouraria pode vir a trazer novas oportunidades. Nesta zona da cidade há uma justaposição e não tanto uma interacção entre as várias comunidades… RF: Noutros países vemos também adolescentes portugueses num grupinho, por defesa, por uma questão de língua, ou porque os seus pais são amigos e acabam por estar mais próximos geográfica

e culturalmente. Também tem a ver com o facto de estarem lá há mais ou menos tempo. Numa altura de começo estão todos fechados, estão todos assustados. Temos aqui muita gente que veio porque sonhou ser possível uma vida melhor para si e para os filhos e quer lutar por isso. A diversidade cultural da Mouraria é uma imagem de marca? RF: Ainda não o suficiente. Tem de ser passada de forma mais positiva. Quando digo que vou mudar para o Largo do Intendente [a sede do ACIDI] toda a gente leva as mãos à cabeça. É uma zona desafiante, começa a ser conhecida pela diversidade do comércio e a ser procurada por isso. Do ponto de vista social e cultural, deverá ser uma zona agradável para se estar. Mas quando se associa tanto a Mouraria à multiculturalidade, não se corre o risco de a população portuguesa que aqui vive se sentir excluída? RF: De todo. Quando falamos da multiculturalidade, falamos dela também. A futura sede do ACIDI no Intendente vai ser um centro diferente do actual, porque vai ter uma grande vertente de sociedade portuguesa. Queremos aproveitar, por exemplo a riqueza das pessoas mais idosas, porque têm uma memória e uma história que faz parte da cidade. Falamos da integração de todos, portanto.


Rosa Maria nº0