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Folha de S.Paulo - Londres - Clóvis Rossi: Obama, o bom vizinho - 02/04/2009

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São Paulo, quinta-feira, 02 de abril de 2009

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CLÓVIS ROSSI

Obama, o bom vizinho LONDRES - Antes de mais nada, uma explicação ao leitor: comecei a ler o noticiário internacional quando da revolta húngara contra o comunismo, em 1956. Tinha 13 anos. Portanto, o interesse pelo mundo não é recente. Desenvolvi uma verdadeira obsessão por conhecer "newsmakers", as pessoas que fazem notícias, e vê-los em ação. Presidentes dos Estados Unidos são dos mais clássicos "newsmakers" do planeta. Um presidente como Barack Obama, ainda mais pelos motivos que todo mundo já sabe. Por isso, um entusiasmo juvenil me assolou ao receber a confirmação de que estava na lista dos jornalistas autorizados a acompanhar a entrevista coletiva que Obama daria ao lado de Gordon Brown, o premiê britânico. Visto como "newsmaker", não me impressionou. O noticiário a respeito está páginas adiante, e você pode julgar por si mesmo. Visto como pessoa física, é outra história. É o único presidente norte-americano de todos os que conheci (desde Richard Nixon) que não exala o odor do império. Mesmo Bill Clinton, simpático, inteligente, superpreparado, não escondia o peito estufado ao falar (figuradamente, claro). Obama, ao contrário, parece o vizinho simpático que entra sem precisar de permissão na casa da gente. Eu sempre fico com medo de transmitir impressões pessoais, porque podem ser falsas. Só me animei a fazê-lo porque chequei com um membro da delegação brasileira que esteve com Lula no encontro com Obama e ficou com a mesmíssima impressão de "gente como a gente", se me perdoa o lugar-comum. Até no encontro com a rainha, Obama e a mulher, Michelle, se comportavam com a reverência que os netos de antigamente tinham com os avôs. Pode até ser um fracasso

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como presidente, mas, como gente, é um bom personagem. crossi@uol.com.br Texto Anterior: Editoriais: Metas municipais Próximo Texto: Brasília - Eliane Cantanhêde: Ouvidos moucos Índice Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

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Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Deus de papel - 29/03/2009

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São Paulo, domingo, 29 de março de 2009

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GILBERTO DIMENSTEIN

Deus de papel Com tantas limitações, a sobrevivência emocional de Gilvã estava ligada à poesia -era seu espaço de realização

OS DEDOS atrofiados e a dificuldade de teclar no computador eram apenas mais um obstáculo para Gilvã Mendes executar o maior projeto -escrever um livro sobre como lhe era difícil escrever um livro. Gilvã é uma síntese de quase todas as marginalidades possíveis. É negro, pobre, nordestino, mora num bairro contaminado pelo tráfico de drogas e sofre de paralisia cerebral, o que dificulta os movimentos do corpo e da fala. Para completar, depende de uma cadeira de rodas para circular em Salvador, com suas ladeiras. A deficiência fez com que, por muito tempo, não tenha sido aceito numa escola. Aos 17 anos de idade, estava na quinta série -obviamente de uma escola pública.

O que já era difícil ficou ainda mais difícil. Quando a primeira versão do livro ficou pronta, depois de dois anos de trabalho e noites insones, os arquivos desapareceram da memória do computador -um computador que, por várias vezes, quebrou e demorava para ser consertado. Quase desistiu. "Mas eu pensava que, se parasse, confirmaria tudo o que diziam e pensavam sobre mim: que eu era inútil, vegetativo, aleijado." Depois de quatro anos, o romance estava, enfim, pronto. Mas ele percebeu que a realidade era muito mais forte do que a ficção e preferiu reescrever tudo e

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fazer um relato sobre o cotidiano de sua sobrevivência, mesclando com suas poesias.

Com tantas limitações, a sobrevivência emocional de Gilvã estava ligada à poesia -era seu único espaço de realização. Ser poeta é quase que divino, Homem, menino, Ser poeta é viver, matar. Ser Deus, não como o todo- poderoso Jeová. Ser Deus de uma folha de papel, com uma caneta. Ser poeta é ser pateta, ser ridículo, um palhaço, ser um eterno apaixonado, um desgraçado, um abençoado. Por não ser aceito na escola, agarrava-se à leitura. "Enquanto meus irmãos apanhavam para aprender as lições da escola, eu olhava os livros feito um cão que deseja um frango de padaria." Até que conseguiu ser matriculado, quando tinha 17 anos. "Senti vontade de raspar a cabeça, era como se tivesse entrado na faculdade." Teve a chance de aprender a lidar com a internet e aprender comunicação. Aí nasceu a vontade de ser escritor, mas não tinha ideia dos obstáculos -teria de enfrentar até as ladeiras de Salvador. Uma coisa é ver o charme das ladeiras pelos livros de Jorge Amado; outra, pela visão de um cadeirante. Quem foi que disse que sou aleijado? Quem foi que disse que só vivo numa cadeira prostrado? Quem disse que eu não conheço de Salvador os becos, as vielas, ladeiras e botequins imundos, sambistas, malandros, putas, poetas e vagabundos.

No ano passado, Gilvã entrou na faculdade para estudar letras -era um de seus grandes sonhos. Mas seu grande sonho será visto apenas amanhã, quando sair da gráfica o livro intitulado "Queria Brincar de Mudar Meu Destino".

Por trabalhar com educação, sempre tento descobrir formas de motivar os alunos a aprenderem com mais profundidade, especialmente o prazer da leitura e da expressão -o que está cada vez mais difícil. Tive a possibilidade de acompanhar, ao longe, a briga de Gilvã. Por isso, quando me chegou às mãos, na semana passada, a versão final, senti-me diante de um dos relatos mais tocantes que já li de um estudante sobre a paixão pela palavra.

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PS - O título do livro é tirado de uma das poesias de Gilvã. Coloquei em meu site (http://www.dimenstein.com.br/) mais poesias dele, além de trechos do livro, que será lançado na Bienal do Livro de Salvador. gdimen@uol.com.br Texto Anterior: Romolo Maggi (1912-2009): O combatente italiano se encantou pelo país Próximo Texto: Bairro na zona sul de SP tem maior concentração de cães da cidade Índice Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

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Folha de S.Paulo - Jorge Wilheim: Crise: o urgente e o básico<br> - 05/03/2009

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São Paulo, quinta-feira, 05 de março de 2009

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TENDÊNCIAS/DEBATES

Crise: o urgente e o básico JORGE WILHEIM

Devemos considerar a crise como "o fim de um mundo" e torná-la fecunda, com criatividade e ousadia. A isso devemos nos dedicar

A PRESENTE crise ultrapassa o campo financeiro e é daquelas que, justificando as raízes etimológicas que associam esse termo a "decisão e mudança", exigem a reflexão de todos: economistas, antropólogos, sociólogos, filósofos, intelectuais, artistas, politólogos, urbanistas. Reflexões e até previsões, aliás, têm sido feitas há alguns anos: desde as veementes denúncias de favelização mundial de Mike Davis às restrições de Peter Drucker; das teses de transformações reflexivas do capitalismo de Back, Giddens e Lash, segundo as quais o progresso pode tornar-se autodestruição, às críticas de Baumann sobre a gravidade do abandono dos trabalhadores; das denúncias de Rifkin de que a finança estava abandonando a economia às de Roubini vaticinando a proximidade do estouro da "bolha". Não adiantaram os avisos. Cobiça, lucros imediatos, negação e fraudes -apoiados em políticas neoliberais e em ausência de transparência e de regulamentação- levaram a melhor. Melhor? Por ora só há falências, desemprego e recessão, um panorama aparentemente catastrófico. Crise dessa amplitude e profundidade, no entanto, mesmo quando traumática, também constitui uma oportunidade a não ser desperdiçada. As civilizações se urbanizaram, as favelas cresceram, o espaço e o tempo encolheram graças à conectividade global,

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as desigualdades e as injustiças sociais e de direitos tornaram-se insuportáveis, a "saúde" do planeta foi colocada em perigo em razão de ações predatórias do mercado. Isso constitui uma pauta nova. Para atender à emergência, é preciso investir recursos públicos em defesa do trabalho digno e da diminuição das desigualdades, na contramão da nefasta ação dos bem remunerados "job killers" da última década. Porém há que fazê-lo com critério. Automontadoras seriam socorridas somente se firmassem compromisso de acelerar a fabricação de veículos que consumam menos combustível, nãopoluidores, provavelmente elétricos com baterias de hidrogênio. Crédito bancário ao consumidor final a juros baixos, teto para os altos salários, transparência e controle acionário social seriam condições para bancos receberem recursos públicos. Ajuda financeira pública à habitação deveria implicar mais regulado e limitado uso do solo urbano, substituindo a voracidade que consome o espaço das cidades por uma maior qualidade de vida para todos. E, em todos os casos, financiamentos públicos devem ser ponderados por critérios ambientais e pelo número de empregos mantidos ou gerados e devem ainda depender de entendimento prévio entre empregados e empregadores. Além das emergências, há no entanto uma questão básica de fundo: o que está em jogo nesta década é, a meu ver, quais os processos e os mecanismos sociais e políticos mais adequados para hoje operar a economia de mercado. Suas leis básicas -oferta e demanda, excedente de produção, acumulação e valor- foram estabelecidas muito antes da invenção do capitalismo e mesmo antes da criação da moeda. Se o capitalismo, seus bancos -originários da Itália renascentista-, seus juros e demais jogos financeiros desenvolvidos no mercantilismo fizeram do sistema um operador ágil para o financiamento da Revolução Industrial do século 19 e sua expansão comercial, isso não quer dizer que ele continue sendo, no formato atual, o operador ideal da economia de mercado do século 21 em diante. Encerrado dramaticamente o triste episódio do neoliberalismo, cabe ao Estado e à sociedade reverem, em nova articulação, quais são os limites de ação do mercado. Essa nova articulação, a resultar em uma economia de mercado de nova gestão, coerente com o interesse público e socialmente monitorada -embora mantendo sua criatividade-, é, no fundo, o desafio da crise que explodiu quando ocorreu o transtorno causado por uma das pontas do iceberg: a aventura financeira irresponsável, desnudada pela queda, no setor imobiliário, da primeira pedra de dominó. Concluindo: para planejar no século 21, devemos encontrar as sementes de inovação que se encontram nas dobras das múltiplas rupturas que ocorreram na última década do século

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20. Até mesmo na atual ruptura entre finanças e economia, entre lucro e trabalho. Devemos considerar a crise como "o fim de um mundo" e torná-la fecunda, com criatividade e ousadia. Essa é a tarefa intelectual e política a que devemos, todos, nos dedicar. JORGE WILHEIM, 80, é arquiteto e urbanista. Foi secretário municipal de Planejamento Urbano de São Paulo (governo Marta Suplicy), secretário-geral da Conferência Habitat 2 da ONU (Organização das Nações Unidas), secretário estadual de Economia e Planejamento (governo Paulo Egydio) e secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo (governo Quércia).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

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Folha de S.Paulo - Londres - Clóvis Rossi: A mãe de todos os males - 15/03/2009

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São Paulo, domingo, 15 de março de 2009

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CLÓVIS ROSSI

A mãe de todos os males LONDRES - A desigualdade é, pelo menos para o meu gosto, inaceitável do ponto de vista ético e moral. Mas é também "a mãe de todos os males", segundo o jornal britânico "The Guardian", em levantamento com base no livro "O Nível do Espírito: por que sociedades mais igualitárias quase sempre se saem melhor", de Richard Wilkinson e Kate Pickett. Ele é pesquisador do Centro para Ciências da População da Universidade de Nottingham. Ela, do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade York. Dois exemplos: sociedades com alto nível de desigualdade registram três vezes mais doenças mentais do que países com bom nível de coesão social; nascem dez vezes mais bebês de mães adolescentes em sociedades desiguais do que nas mais iguais. No mundo desenvolvido, os Estados Unidos são os campeões da desigualdade: os 20% mais ricos têm renda 8,5 vezes superior a dos 20% mais pobres. O Japão é o mais igualitário: os ricos têm 3,4 vezes mais que os pobres. Detalhe sobre o Reino Unido: foi no governo Margaret Thatcher, a mãe mundial do ultraliberalismo, que a desigualdade disparou. Começou, em 1979, com 101 (a base de comparação é 1974, com 100), e chegou a 130 em 1989, quando ela deixou o posto para John Major. Hoje, depois de dez anos de trabalhismo, está em 140. Os dados sobre desigualdade no Brasil são sabidamente obscenos. Mas igualmente obscena é a lenda da queda da desigualdade que alguns acadêmicos vêm espalhando, mesmo sabendo que a única desigualdade que caiu foi entre assalariados. Não caiu, até aumentou, a desigualdade relevante que é entre o rendimento do capital e o rendimento do trabalho. Espalhar essa lenda significa anestesiar, no governo e na

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sociedade, a necessidade de combater a "mãe de todos os males". crossi@uol.com.br Texto Anterior: Editoriais: Todos fichados Próximo Texto: Brasília - Eliane Cantanhêde: Tagarelando Índice Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

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Folha de S.Paulo - Londres - Clóvis Rossi: A pedagogia da rua - 29/03/2009

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CLÓVIS ROSSI

A pedagogia da rua LONDRES - Por imposição industrial, escrevo antes de que termine a manifestação de ontem no Hyde Park, a primeira do que pretende ser uma série de protestos contra a cúpula do G20 e contra a crise. O lema geral de ontem (na semana que vem, é outro o grito) era "Put People First" ou, em livre tradução, "As pessoas em primeiro lugar". Pena que as pessoas -ao menos as que se engajam no rico caleidoscópio de entidades da sociedade civil que anima esses movimentos- estejam sendo colocadas não em primeiro lugar nem em segundo nem mesmo em último. Foram simplesmente expulsas do mundo político "mainstream". E também da mídia "mainstream". A superestrutura política virou um dueto monocórdico, com perdão da contradição em termos. É democratas x republicanos nos Estados Unidos, conservadores x trabalhistas no Reino Unido, social-democratas x democratacristãos na Alemanha, PT x PSDB no Brasil -todos brancos e de olhos azuis, para usar a metáfora de Lula, embora muito petista se ache preto ou índio. Pura demagogia. Criou-se um déficit democrático em que outras vozes não entram talvez porque digam verdades incômodas. Ou entram apenas para terem suas verdades apropriadas pela corrente principal, como já aconteceu com a mudança climática e repete-se com a crise. Esse pessoalzinho, em geral simpático, mas às vezes agressivo demais, dizia faz tempo que o modelo era intolerável. Agora, Paul Krugman, Nobel de Economia e como tal perfeito "mainstream", decreta "o fracasso de todo um modelo de banca, de um setor financeiro que cresceu demais e causou mais dano que bem". É óbvio que nem sempre esses movimentos têm razão. Mas, hoje por hoje, é possível aprender mais na rua, mesmo sob a chuva fina e o friozinho bem londrinos, do que nos gabinetes.

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Folha de S.Paulo - Verde Aguado - 29/03/2009

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Verde Aguado ANTHONY GIDDENS FALA DE "A POLÍTICA DE MUDANÇA CLIMÁTICA", RECÉM-LANÇADO NO REINO UNIDO, E DIZ QUE A REUNIÃO DO G20, NA PRÓXIMA QUINTA, IRÁ RESULTAR EM UM ACORDO "DE FACHADA" Alexandra Winkler-5.jan.03/Reuters

Homem caminha em várzea alagada devido à chuva em Kallmünz, na Alemanha; aquecimento global é tema do novo livro do sociólogo inglês, que é ex-reitor da London School of Economics

Vejo o Brasil como o negociador entre Europa, EUA e China

PEDRO DIAS LEITE DE LONDRES

Um dos sociólogos mais influentes da atualidade, Anthony Giddens, 71, afirma que a crise financeira global vai redefinir radicalmente a sociedade em que vivemos, mas "muito ainda depende de um fenômeno em cujas mãos ainda estamos -o mercado". Para ilustrar sua opinião, reforça: "Toda vez que uma decisão

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é tomada, as pessoas querem saber como os mercados vão reagir". A reunião do G20 na próxima quinta, em Londres, produzirá um acordo -ainda que "de fachada"-, porque os mercados e as pessoas precisam ser "tranquilizados", diz ele. Giddens avalia que "estamos no estágio inicial de descobrir o que seria um novo modelo de capitalismo responsável e global" e prevê uma convergência no debate sobre a grande recessão e os desafios da mudança climática. "Em ambos os casos, estamos falando de um papel forte para o Estado e de mais regulação, de um planejamento de mais longo prazo que não tivemos no passado, de controlar mecanismos de mercado mais efetivamente do que nos últimos 30 anos pelo menos, de mais inovações tecnológicas." Principal ideólogo da Terceira Via, a busca de um caminho alternativo entre o liberalismo radical e as tendências estatizantes tradicionais da social-democracia, Giddens agora volta sua atenção para o tema do aquecimento global, em livro lançado na semana passada: "The Politics of Climate Change" (A Política de Mudança Climática, Polity Press, 256 págs., 12,99, R$ 43). Ex-reitor da London School of Economics, lorde Giddens defende que os países ricos têm de arcar com 95% dos custos da luta contra o aquecimento global pelos próximos anos, pois "não é moralmente correto nem seria factível na prática impedir os países em desenvolvimento de se desenvolverem". Por outro lado, o sociólogo cobra o fim da "atitude passiva" dos países em desenvolvimento em relação ao tema e enxerga o Brasil exercendo um papel de liderança, como mediador entre EUA, China e União Europeia. Giddens deu a entrevista à Folha no pub da Câmara dos Lordes, depois de uma pequena volta explicativa pelo local (a palavra "lobby" vem do sistema britânico, em que os parlamentares favoráveis e contrários são separados em antessalas distintas antes de votar, os lobbies). No final, foi para casa de metrô. A seguir, os principais trechos da entrevista. FOLHA - Em seu livro, o sr. lança o "paradoxo de Giddens": uma vez que os perigos do aquecimento global não são visíveis no dia a dia, apesar de parecerem terríveis, as pessoas não irão agir; contudo, esperar até que se tornem visíveis e sérios para então tomar uma atitude será tarde demais. Como lidar com isso? ANTHONY GIDDENS - Eu aplico o paradoxo de Giddens especialmente aos países desenvolvidos, porque são eles que têm que tomar a liderança. Por exemplo, para alguém que caminha pelas ruas de Londres, as enchentes de Bangladesh não são algo que afete o dia a dia das pessoas. Para lidar com isso, é preciso romper com as estratégias do passado. As

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coisas que têm saído pré-Copenhague [em dezembro haverá uma conferência na capital dinamarquesa para definir o mundo pós-protocolo de Kyoto], com os cientistas dizendo que "é muito pior do que pensávamos", passam longe da realidade das pessoas nas ruas. Muitas questões que parecem apocalípticas, que saem nos jornais e na mídia, são iguais a filmes que as pessoas não conseguem distinguir da realidade. É bem difícil esperar que as pessoas comecem a agir com base nisso. Por isso proponho uma reorganização fundamental do pensamento, para focar muito mais nos investimentos, para ver os lados positivos do aquecimento global. Podemos criar uma genuína economia verde, quebrar a dependência do Oriente Médio, garantir segurança energética e levar a uma vida melhor por meio dessas transformações. Dizer para os empresários que eles podem se tornar mais competitivos. Não sou contra regulação ou metas para reduzir a emissão de carbono. Na verdade, sou a favor dessas coisas, mas não acho que elas possam mobilizar as pessoas. Olhe para o tipo de abordagem que o presidente [dos EUA, Barack] Obama produziu, é muito diferente de todos, é muito mais afirmativa. Não sabemos se vai ter sucesso, claro, porque estamos falando aqui em mudar o "estilo de vida americano". No entanto ele fala disso como um projeto inspirador, que tem muito mais ressonância. FOLHA - O sr. fala que o movimento verde sequestrou o debate sobre mudança climática e que é preciso sair dessa armadilha. Como assim? GIDDENS - O movimento verde começou da metade para o final do século 19, fortemente influenciado pela ideia romântica de uma crítica do industrialismo, a nostalgia de uma terra que não havia sido modificada pelas indústrias. Sua força motriz era a conservação, a proteção da natureza e do ambiente. Realmente deveríamos ter deixado a natureza em paz, só que agora é tarde demais, e maior intervenção na natureza será absolutamente necessária. A mudança climática é muito diferente das preocupações tradicionais dos verdes e, para lidar com ela, temos de nos livrar de alguns dos preconceitos que os verdes -não todos, mas alguns- têm, de não interferir muito na natureza, de um princípio da precaução. O caminho para lidar com a mudança climática deve ser de ousadia, inovação, o máximo uso da tecnologia. Não quero descartar completamente o movimento verde, pois tem um importante papel de trazer esses assuntos para a agenda, e isso tem valor. No entanto, se você olhar para o manifesto dos verdes globais, muito pouca coisa tem a ver com mudança climática. E um dos problemas é que alguns grupos se veem como operando fora da política, extremamente críticos das atividades das grandes corporações. Mas o vital agora para a mudança climática é trazer para o centro do debate algo que 60%, 70% da

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população possa compreender. FOLHA - Num artigo recente, o sr. mencionou que a crise financeira global, seus desdobramentos e o desafio de como lidar com a mudança climática levaram ao fim do fim da história. Por quê? GIDDENS - [Francis] Fukuyama inventou a versão moderna da frase do fim da história, e o que ele quis dizer foi que chegamos a uma fase da história em que não podemos ver nada diferente do mundo em que vivemos: de um lado, a democracia parlamentarista e, de outro, o sistema capitalista, com competição e mercados abertos. Acho que não se pode mais tomar essa posição como aceitável, pois uma sociedade de baixo carbono provavelmente mudará bastante o comportamento das pessoas, o modo como veem o mundo. Pode envolver uma crítica forte de viver num tipo de sociedade baseada no consumo, sem outros valores. O que quis dizer foi que temos de nos preparar para pensar novamente de modo muito radical lá na frente. É claro que, agora, temos de lidar com o mundo como o vemos. Mas sou a favor de um retorno parcial a certo utopismo. O mundo que criamos é insustentável, sabemos que não podemos continuar como estamos. FOLHA - O sr. fala que as nações em desenvolvimento deveriam ser autorizadas a emitir mais carbono no curto prazo, mas isso não funciona. Os EUA e a União Europeia, com medo de perderem competitividade, já disseram que isso é inaceitável. Como resolver essa equação? GIDDENS - Não podemos impedir os países em desenvolvimento de se desenvolverem. Não seria moralmente correto nem seria factível, na prática. Parte desse desenvolvimento tende a depender pesadamente de combustíveis fósseis e, logo, de emissões de carbono. É por isso que os países já industrializados têm de arcar com 95% do fardo pelos próximos 10, 15, 20 anos até, para reduzir as emissões. Por outro lado, é preciso que o mundo em desenvolvimento assuma um papel importante, não mais a posição passiva, de que isso "não tem nada a ver com a gente". Mas, no caminho, precisamos de avanços tecnológicos e de grandes áreas daquilo que chamo de "convergência econômica e convergência política", para que os países em desenvolvimento sigam um caminho diferente do que o que estão seguindo agora. Em primeiro lugar, estamos atrás de avanços tecnológicos que sejam capazes de levar os países em desenvolvimento a pular algumas etapas de desenvolvimento. Em segundo lugar, estamos procurando vários acordos bilaterais, não apenas a conferência de Copenhague, especialmente entre EUA e China, que produzem quase 50% das emissões. Idealmente, é necessário

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algum acordo entre os dois, como os EUA permitirem acesso a inovações tecnológicas, com a suspensão de patentes, em troca de algum tipo de concessão da China para os EUA. Mas isso é determinado politicamente. Se não há como repetir o modelo de desenvolvimento, temos de encontrar avanços. Até agora, não conseguimos. A China ainda está fazendo usinas de carvão. Os políticos se sentem muito confortáveis, prometendo cortar as emissões em 80% até 2050, mas não ficam nem um pouco felizes quando você diz que precisam começar agora. Existe muita retórica vazia nesse debate e temos de ver como superar isso para que os acordos sejam atingidos. Temos de olhar para o que pode ser feito, de modo a produzir uma combinação de competitividade e mudança tecnológica. Estou convencido de que países que seguirem o caminho tradicional de desenvolvimento industrial não serão competitivos no médio prazo. FOLHA - Como o sr. vê o papel do Brasil nesse debate sobre o clima? O que o país deveria fazer? GIDDENS - Vejo o Brasil como um negociador ou uma terceira parte nas negociações entre os EUA, a União Europeia e a China. Vejo o Brasil capaz de ter uma liderança entre os países de industrialização recente para levar os outros países a uma posição decente. O país pode ter um papel bastante importante, e seria desejável se de fato o exercesse. Mas isso também depende de uma liderança política forte. FOLHA - Estamos vivendo a pior crise econômica desde a Grande Depressão. Quais serão seus efeitos? GIDDENS - Depende de em que nível você está falando. Nos próximos dois anos e no momento, ninguém sabe realmente o que acontecerá, independentemente de suas credenciais acadêmicas. Se haverá declínio contínuo com desemprego crescente ou se, nesse período, haverá algum tipo de recuperação, pelo menos em algumas áreas. Ambos são possíveis. Muito depende de um fenômeno do qual ainda estamos nas mãos: o mercado. Toda vez que uma decisão é tomada, as pessoas querem saber como os mercados irão reagir. Ainda estamos nas mãos do mercado global, para o bem e para o mal. No médio prazo, pessoas como eu deveriam estar pensando em um modelo de capitalismo responsável. Pois existe uma convergência entre o debate sobre mudanças climáticas e a recessão, por razões óbvias. Nos dois casos, estamos falando de um papel forte do Estado e de mais regulação, de um planejamento de longo prazo que não houve antes, de controlar mecanismos de mercado de modo mais efetivo do que foi feito nos últimos 30 anos, de inovações tecnológicas. Mas ainda estamos no estágio inicial de descobrir o que seria um novo modelo de capitalismo

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responsável e global. A crise é mundial, não importa o que a Europa ou os EUA façam. Essa é uma questão em aberto, pois os países não têm sido bons em chegar a acordos, mesmo quando é de seu interesse. A Rodada Doha e a Organização Mundial do Comércio são exemplos perfeitos. FOLHA - Muitos teóricos têm falado em "desglobalização", como no caso do aumento do protecionismo. GIDDENS - A globalização é um termo que abarca muitas mudanças, e é preciso quebrá-lo em várias partes. Há alguns aspectos muito improváveis de serem revertidos, como a revolução das comunicações, uma das maiores forças da globalização. Goste-se ou não, isso ainda será o futuro: o mundo estará integrado imediatamente pela tecnologia e quase certamente isso continuará a ter avanços. Nesse sentido, a globalização está aqui para ficar. Mas, quando se fala em livre mercado, é diferente. Alguns aspectos podem ser revertidos, isso já aconteceu antes, e, em uma situação de recessão, as pessoas tendem a se voltar para seus países. Mas, se sabemos alguma coisa de teoria econômica, é que protecionismo, no final, prejudica sua própria economia. Nenhuma economia que se isolou do mercado global conseguiu realmente prosperar. Pessoalmente, não acho que o protecionismo voltará, como nos anos 1930. FOLHA - Quais são suas expectativas para o encontro do G20? GIDDENS - Acho que tem mais chances de chegar a um acordo do que a imprensa diz, pois esta é a primeira vez em que houve tal grau de reconhecimento da natureza global da crise. Poderá haver acordos para aumentar a transparência ou para expandir o papel do FMI. Mas será preciso verificar em que extensão serão implementadas no mundo real. O que certamente ocorrerá será um acordo de fachada. Haverá a apresentação de um acordo -ele de fato ocorrendo ou não-, pois todo mundo reconhece que precisamos tranquilizar o público e o mercado -ele de novo! FOLHA - Em uma palestra, o sr. afirmou que o clima do mundo vai mudar irremediavelmente, mas não vê isso como uma ameaça iminente. GIDDENS - O que disse é que o debate quanto à mudança climática é sobre riscos e sobre como analisar esse riscos. No momento existem várias formas de medição de risco feitas pelos cientistas, e o consenso parece ser que a mudança climática é mais iminente e mais perigosa do que pensávamos, mas não está claro completamente o que querem dizer com isso. É sensato dizer que as emissões na atmosfera já estão produzindo efeitos, mas, se se está falando de 2050, quem sabe dizer o que poderemos fazer para responder a

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isso? Existem muitas divergências na comunidade científica sobre quão iminentes essas coisas são, e posso dizer isso porque passei os últimos dois anos estudando o tema. É muito importante para países como o Brasil, com algumas condições climáticas violentas, pensar em se adaptar a esse novo contexto, fazer estudos de vulnerabilidade, encontrar meios de convergência para procedimentos que ajudarão em caso de mudanças significativas no clima. Por exemplo, proteção contra enchentes, ao mesmo tempo melhorando práticas de agricultura. Existe uma boa área de desconhecido nos próximos 20, 30 anos. Quem sabe o mundo possa ter um mecanismo de adaptação sozinho, talvez a própria natureza produza uma solução. Mas o que sabemos até agora é que, uma vez que as emissões forem lançadas na atmosfera, não sabemos como tirá-las, e os principais gases do efeito estufa podem permanecer lá por 400 anos. Há cientistas que já conseguem [retirar os gases da atmosfera] em pequena escala, mas não sabemos se será possível em grande escala. As pessoas estão muito confusas, apesar da grande educação formal. ONDE ENCOMENDAR - Livros em inglês podem ser encomendados pelo site http://www.amazon.co.uk/

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Folha de S.Paulo - Ensaio: Administrando a empresa em tempos bicudos - 06/04/2009

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Ensaio Kelley Holland

Administrando a empresa em tempos bicudos Pense nisso: milhões de postos de trabalho foram perdidos desde que a recessão global começou, o que significa que inúmeros administradores tiveram de demitir funcionários, viram colegas perderem seus empregos ou foram eles próprios cortados. Além disso, a tecnologia muda freneticamente, e os gestores que se formaram na época dos memorandos em papel estão repentinamente preocupados com o Twitter, com blogs e com as escapadas virtuais dos seus empregados. Em momentos como este, é fácil que os gestores embarquem numa mentalidade de bunker. De fato, quem quer conversar com os funcionários quando a única coisa a comunicar são demissões, férias coletivas, cortes draconianos de gastos ou tudo isso junto? Mesmo para gestores que não se inibem pode ser difícil dar alguma orientação útil aos empregados. Mas é essencial que eles deixem suas próprias preocupações de lado e ajudem sua equipe a lidar com este ambiente novo e assustador. Em tempos de incerteza, os funcionários precisam de liderança. Assim, é hora de espanar o pó de alguns preceitos consagrados da gestão que podem ajudar nestes tempos difíceis. Primeiro, lembre-se de que liderar significa tratar os empregados como adultos responsáveis, não como crianças voluntariosas que podem ser mandadas ou amaciadas com meias verdades. Repetidos estudos mostram que as organizações funcionam melhor quando seus integrantes estão informados e com poderes e quando são convidados a contribuir e demonstrar iniciativa. É preciso também que os gestores sejam diretos quando se trata de dar más notícias. Se os empregados ouvem rumores de demissões, por exemplo, possivelmente passarão seus dias numa nuvem de preocupação sobre a tragédia iminente,

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justo quando seria crucial que estivessem no seu momento mais produtivo. Por essa e muitas outras razões, os gestores precisam ir além do seu círculo íntimo —ou emergir dos seus bunkers metafóricos— para descobrir o que está realmente acontecendo no resto da empresa e do setor. Um pouco de inteligência emocional também faz maravilhas. As pessoas trabalham melhor quando acreditam que seus gestores e colegas as entendem e respeitam, quando podem concluir suas frases nas reuniões e quando sentem que suas ideias e opiniões são ouvidas. A justiça é outro preceito básico da administração que frequentemente acaba perdido em meio à confusão. Tratar as pessoas com justiça não significa necessariamente tratá-las como iguais. Mas estudos demonstram que empregados que entendem a base das decisões administrativas e as percebem como sendo justas se sentem mais confiantes de que suas próprias contribuições serão reconhecidas e, portanto, ficam mais motivados e engajados. Gestores inteligentes também permitem que os empregados tragam mais de si mesmos para o trabalho —e às vezes isso inclui coisas profundamente pessoais, como religião ou orientação sexual. Talvez o mais importante seja que os bons gestores encontrem prazer no trabalho e deixem que todos saibam disso. Quando as chefias se entusiasmam com a criação de um novo anúncio ou com a obtenção de uma nova conta importante, o local de trabalho fica com um clima completamente diferente, mais energizado. Texto Anterior: Ensaio: Fracasso pode trazer poucas lições Próximo Texto: Arte & Estilo Para exportar, Hollywood refaz filmes Índice Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

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Folha de S.Paulo - Marina Silva: Potência e compromisso - 06/04/2009

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MARINA SILVA

Potência e compromisso EM LUZIÂNIA, município goiano perto de Brasília, acontece até quarta-feira uma conferência nacional na qual o país deveria estar de olho. Ali se consolida um movimento capaz de causar grande impacto social, embora pouco o percebamos hoje. É a 3ª Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente, promovida pelos ministérios do Meio Ambiente e da Educação, com o tema "Mudanças Ambientais Globais". A primeira, em 2003, envolveu cerca de cinco milhões de pessoas de 4.000 municípios, em conferências estaduais que convergiram para a nacional. No sábado, participei, juntamente com o professor José Eli da Veiga, de diálogo com os 669 delegados de 11 a 14 anos. Voltei entusiasmada e tocada pela qualidade das intervenções. Confirmei meu prognóstico de seis anos atrás, de que essas conferências seriam paradoxalmente âncora e alavanca para transformar o paradigma de educação e também o de cidadania, incorporando-lhes questões essenciais para o advento da sociedade que esse momento de profunda crise global parece anunciar. Falamos sempre do que podemos fazer pelas gerações futuras. Em Luziânia, vi o que elas podem fazer por nós, agora. Um dos efeitos de seu engajamento nas propostas de um mundo mais sustentável e justo é a pressão exercida junto a pais e adultos em geral para assumirem novas atitudes em casa, nos espaços coletivos e profissionais, na política. Já ouvi depoimentos de empresários que mudaram o perfil de seus negócios após cobranças de filhos e netos. Podem parecer casos isolados, mas a verdade é que a infância e a juventude estão tendo papel inovador vital em suas casas, nas suas escolas e em outras instituições. A medir pelos cerca de 12 milhões de jovens que

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participaram das três conferências, novos valores e práticas se firmam no horizonte: respeito ao meio ambiente, processos mais democráticos, horizontais, multiculturais, diversificados. Um exemplo são os documentos que encerram as conferências. Em lugar de lista de reivindicações, entregam ao presidente da República, a ministros e a outras autoridades a "Carta de Compromissos", que diz o que os próprios jovens pretendem fazer. Desde medidas práticas, como limpar rios, até ações de conscientização e organização. Eles não têm poder, mas têm a potência dos sonhos e compromisso com causas. Ensinam a quem, mesmo tendo poder e ferramentas, faz muito pouco. Na terça-feira, estarão em Brasília para a Caminhada Vamos Cuidar do Brasil. Espera-se que os adultos tenham sensibilidade e humildade para ouvir e aprender. contatomarinasilva@uol.com.br MARINA SILVA escreve às segundas-feiras nesta coluna.

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Folha de S.Paulo - Música vira receita médica contra doenças - 06/04/2009

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Música vira receita médica contra doenças Por MATTHEW GUREWITSCH

O fato de que a música nos toca no próprio cerne de nosso ser é uma descoberta tão antiga quanto a consciência humana. Mas será que a música pode ser considerada medicamento? Uma especialista que aposta nisso é Vera Brandes, diretora do programa de pesquisas com música e medicina da Universidade Médica Privada Paracelsus, em Salzburgo, Áustria. “Sou a primeira farmacologista musical”, disse Brandes no ano passado em Viena. Como tal, ela vem desenvolvendo medicamentos na forma de música, prescritos como receita médica. Para promover a linha de produtos, ela ajudou a fundar a Sanoson (http://www.sanoson.at/), empresa que também cria sistemas de música sob medida para hospitais e clínicas. “Estamos preparando o lançamento de nossas terapias na Alemanha e na Áustria no final de 2009 e prevemos o lançamento nos EUA em 2010”, disse. O tratamento funciona assim: uma vez dado o diagnóstico médico, o paciente é enviado para casa com um protocolo musical para ouvir e músicas carregadas num tocador semelhante ao iPod. O timing é essencial. “Se você ouvir música para acalmar quando estiver num ponto ascendente de seu ciclo circadiano, isso não o acalmará”, explicou Brandes. “Pode até deixá-lo irritado.” Brandes e seus colaboradores analisam músicas de todo tipo para retirar seus “ingredientes ativos”, que então são misturados e balanceados para formar compostos medicinais. Embora eles não procurem tratar patologias graves ou doenças infecciosas, afirmam que seus métodos têm aplicações amplas em desordens psicossomáticas, administração de dor e o que Brandes descreve como “doenças da civilização”: ansiedade, depressão, insônia e determinados tipos de arritmia. A farmacopeia contém até

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agora cerca de 55 faixas de música medicinal, e novas faixas estão sendo planejadas. Num estudo piloto, que em 2008 foi citado na reunião científica anual da Sociedade Psicossomática Americana, Brandes e seus colaboradores estudaram os efeitos da música sobre pacientes com hipertensão sem causas orgânicas. “O tratamento convencional para pacientes hipertensos é com betabloqueadores, que suprimem seus sintomas”, disse Brandes. “A música pode tratar as causas psicossomáticas originais.” Segundo seu estudo, depois de ouvir um programa musical criado especialmente para o paciente, por 30 minutos por dia, cinco dias por semana, durante quatro semanas, os pacientes apresentaram melhoras significativas na variação do ritmo cardíaco, um indicador importante da função nervosa autônoma. Brandes, 52, já foi produtora de eventos e gravações musicais e tem um vasto currículo na área. Mas um acidente de carro quase fatal em 1995 a levou a pensar numa mudança de carreira. “Quebrei as vértebras 11 e 12, passando a um milímetro da medula espinhal”, ela contou. “O médico disse: ‘Não vou poder fazer nada por você durante algum tempo, mas você pode cantar, se quiser’.” A equipe médica previa que Brandes teria que ficar imobilizada entre 10 e 14 semanas. Ela estava dividindo o quarto do hospital com uma budista, cujos amigos vinham diariamente entoar cânticos para ela. Após apenas 15 dias no hospital, uma ressonância magnética mostrou que sua espinha estava curada. “Todo o mundo disse que era um milagre”, contou Brandes. “Os médicos me mandaram para casa. Aquilo me fez refletir.” Brandes, que não tem diploma de estudos avançados em medicina ou ciência, sabia que suas teorias jamais ganhariam aceitação se não passassem por testes clínicos. “Desde o início, eu estava determinada a satisfazer os mais exigentes critérios científicos ocidentais”, disse. Além dos esforços de Brandes, a Sourcetone Interactive Radio, que se descreve como “o maior serviço mundial de saúde com música”, emprega pesquisas feitas conjuntamente pelo Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston, e a Escola de Medicina Harvard, onde o neurologista Gottfried Schlaug estuda os efeitos da atividade musical sobre a função e a plasticidade cerebrais. “Acho que é importante participar, fazendo música, não apenas ouvir”, disse Schlaug. Stefan Koelsch, pesquisador-sênior sobre o neurorreconhecimento da música e da linguagem na Universidade de Sussex, em Brighton, Reino Unido, concorda e está trabalhando com tratamentos musicais participativos para a depressão. No longo prazo, ele enxerga possibilidades mais amplas. “Fisiologicamente falando, é perfeitamente plausível que a

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música afete não apenas as condições psiquiátricas, mas também as desordens endócrinas, autoimunes e do sistema autônomo”, disse ele. Vera Brandes também está pensando no futuro. “Digamos que um paciente chegue sofrendo de depressão”, disse ela. “O primeiro passo sempre é procurar um médico. Mas, a partir disso, haverá opções de tratamento: com psicólogo, antidepressivo ou música.” Texto Anterior: Arte & Estilo Para exportar, Hollywood refaz filmes Próximo Texto: Exposição de foto jornalística em galeria provoca debate Índice Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

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Folha de S.Paulo - MG muda currículo do ensino médio e provoca polêmica - 08/04/2009

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São Paulo, quarta-feira, 08 de abril de 2009

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MG muda currículo do ensino médio e provoca polêmica Alunos do 2º ano têm de escolher se focam esforço em humanas, exatas ou biológicas Desde o início do ano, quem escolher por humanas, por exemplo, não tem mais aulas de biologia, química e física até o fim do 3º ano BRENO COSTA DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELO HORIZONTE

Alunos do 2º ano do ensino médio de Minas têm agora de optar por uma área específica (humanas, exatas ou biológicas) para seguir até o fim do antigo colegial. A medida do governo Aécio Neves (PSDB) está em vigor desde o início do ano. Há 200 mil matriculados nessa série em toda a rede estadual. O número de aulas continua o mesmo. O que muda é que, se o aluno escolhe humanas, passa a não ter mais aulas de biologia, química e física nos dois últimos anos do ensino médio. Já o que opta por exatas e biológicas deixa de ter aulas de história, geografia e língua estrangeira. A maioria dos vestibulares exige todo o conteúdo. A escolha vale para quem obtiver rendimento de 70% em todas as disciplinas obrigatórias do 1º ano do ensino médio. A direção da escola definirá a área para quem entrar no 2º ano após passar por recuperação em alguma disciplina. As normas constam de uma resolução da Secretaria da Educação, publicada em dezembro. "Em vez de aprender um pouco de muito conteúdo, o aluno vai aprender mais aprofundadamente com menos disciplinas. Com muita disciplina, perde-se o foco. Achamos que isso é mais útil para o aluno", afirma o secretário-adjunto da Educação, João Filocre. O Ministério da Educação diz que o Estado tem autonomia

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para criar sua norma desde que não se choque com a Lei de Diretrizes e Bases, que dita as regras gerais da educação no país. A lei federal diz que são disciplinas obrigatórias língua portuguesa, matemática, educação física, filosofia e sociologia. Alunos ouvidos pela Folha afirmam que a ausência de disciplinas básicas poderá atrapalhá-los na hora do vestibular. Os alunos de Minas têm a chance cursar as disciplinas que não constam da grade obrigatória da sua área de ênfase. Para isso, precisam estudá-las em turno extra. O aluno matriculado na manhã pode cursar a aula que não faz parte do currículo à tarde ou à noite, desde que haja ao menos 20 alunos interessados. A direção da escola, então, comunica o desejo das aulas extras à secretaria, que abre a turma. Uma outra possibilidade, que também depende da decisão de cada uma das 1.800 escolas estaduais de ensino médio de Minas, é que oito aulas de 50 minutos sejam distribuídas livremente, desde que respeitado o teto de dez disciplinas no 2º ano e de nove no 3º ano. Isso foi feito na escola Governador Milton Campos, em Belo Horizonte, que tem mais de 3.700 alunos no ensino médio. Segundo a diretora, Maria José Duarte, como há seis disciplinas obrigatórias para cada área de ênfase, além de sociologia e filosofia, exigidas por lei federal, restaram só duas para serem incluídas no 2º ano. Uma votação com os alunos foi feita. Na área de humanas, física ficou em terceiro lugar e, portanto, fora do currículo. Uma aula de biologia e uma de química foram incluídas. Na área de exatas e biológicas, língua estrangeira foi sacrificada. Em um colégio menor, em São João del Rei, no interior de Minas, a diretora decidiu colocar todos numa só área: exatas. Texto Anterior: Edmundo Alves da Costa (1948-2009): O triatleta não conseguiu dar o sprint final Próximo Texto: A favor: Mudança é corajosa, diz professor Índice Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

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Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Pena alternativa - 18/03/2009

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São Paulo, quarta-feira, 18 de março de 2009

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GILBERTO DIMENSTEIN

Pena alternativa A rua de sua casa já tinha ensinado a Alexandre que, na periferia, muitas vezes a realidade supera a ficção

HAVIA CINCO PONTOS de droga na rua em que Alexandre De Maio morava na periferia de São Paulo, onde frequentemente ocorriam tiroteios. Numa das brigas entre quadrilhas, um bala perdida atingiu uma menina. A cena do sangue escorrendo pelo chão teve um impacto estético em Alexandre, que, até então, só fazia histórias em quadrinhos inspiradas nos super-heróis americanos. "Logo depois que o corpo foi retirado, me tranquei no carro para desenhar aquela história." Desenhava-se, naquele dia, um encontro que faria com que a mistura de periferia e arte moldasse a vida de Alexandre -os quadrinhos chamaram a atenção de Mano Brown, líder do Racionais MC's, que estimulou a sua publicação. Desde que era menino, a habilidade artística tinha salvado Alexandre do tiroteio escolar. Diante da dificuldade em matérias como matemática, ele argumentava com os professores que seu futuro estava em desenho, e não seria justo repeti-lo por causa dos números. Em contrapartida, fazia uma série de projetos de artes gráficas para a escola, como uma espécie de pena alternativa. Numa prova de matemática, a professora viu que ele estava apenas desenhando um casal se beijando. Ela pediu o desenho de presente para presentear o namorado -mais uma pena alternativa.

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Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Pena alternativa - 18/03/2009

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Seus colegas gostavam daquelas histórias em quadrinhos, afinal eram retratados como super-heróis, com extraordinários poderes; as meninas ficavam deslumbrantes nas sensuais roupas do tipo Mulher Maravilha. Até que veio a imagem da menina morta com a bala perdida em sua rua. "Vi como era bobo eu ficar me inspirando com os super-heróis." A fonte de inspiração estava bem à frente, a começar da briga de gangues de sua rua. Nasciam assim seus quadrinhos e a descoberta do rap, dos Racionais. Decidiu, então, ilustrar as letras do grupo. Mano Brown mostrou as tiras para o escritor Ferréz, que, em parceria com Alexandre, escreveu "Os inimigos não mandam flores". Em meio a seus quadrinhos, Alexandre começou a fazer publicações para relatar o movimento cultural da periferia, quase nunca coberto pelos meios de comunicação. Foi um dos primeiros a falar da onda de saraus poéticos que surgiram num bar (Zé do Batidão) da zona sul. Seu projeto mais ambicioso é fazer uma revista periódica apenas com quadrinhos sobre a periferia -a primeira história já está pronta, feita em parceria com Ferréz. A rua de sua casa da adolescência já tinha ensinado a Alexandre que, na periferia, muitas vezes a realidade supera a ficção. PS - Coloquei em meu site (http://www.dimenstein.com.br/) uma coleção dos desenhos do Alexandre -entende-se como ele conseguiu passar em matemática. gdimen@uol.com.br Texto Anterior: Outro lado: Prefeitura nega priorizar propaganda e diz que obras antienchentes são mais lentas Próximo Texto: A cidade é sua Índice Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

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Folha de S.Paulo - TENDÊNCIAS/DEBATES<br>Gesner Oliveira: Água: escassez e uso... Page 1 of 3

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São Paulo, terça-feira, 31 de março de 2009

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TENDÊNCIAS/DEBATES

Água: escassez e uso sustentável na crise GESNER OLIVEIRA Impõe-se, sobretudo aos grandes setores usuários da água, uma reflexão sobre o modo como tem sido utilizado esse recurso finito

A CRISE econômica mundial, além de trazer os já conhecidos efeitos na esfera produtiva -redução de investimentos, desemprego, perda de ativos, entre outros-, repercute sobre a questão da água. Recentemente, em Washington, durante a Water Week 2009 -evento organizado anualmente pelo Banco Mundial que reúne representantes de governos, empresas de saneamento e ONGs-, evidenciou-se que a atual crise veio se somar às preocupações habituais em relação à conservação da água e ao acesso ao saneamento. Além dos desafios associados à degradação ambiental, ao desperdício, às mudanças climáticas, aos usos não sustentáveis em processos produtivos, ao crescimento populacional e à miséria, teme-se que a crise traga impactos negativos devido à tendência de redução dos investimentos em serviços de infraestrutura, como energia, saneamento, transporte e irrigação. Tais impactos são danosos porque investimentos em infraestrutura são propulsores do crescimento econômico e da redução da pobreza. A crise constitui, assim, ameaça à continuidade das ações necessárias para atingir as metas estabelecidas para o desenvolvimento do milênio.

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Garantir a sustentabilidade ambiental é uma das metas aprovadas em 2000 no âmbito da ONU e que compreendem oito macro-objetivos a serem alcançados até 2015. No campo dos recursos hídricos, o cumprimento das metas requer implantação de instrumentos que visem à gestão integrada, bem como o desenvolvimento de mecanismos para sua conservação e seu uso sustentável. A preocupação com a universalização do acesso à água, sua conservação para fins múltiplos e a resolução de conflitos de uso tornam o tema prioritário na agenda internacional. Impõe-se, especialmente aos grandes setores usuários da água, uma revisão de procedimentos e reflexão sobre o modo como tem sido utilizado esse recurso finito e vulnerável. Embora o Brasil possua expressivo potencial hídrico -12% da disponibilidade mundial-, há bacias hidrográficas localizadas em áreas que apresentam combinação de baixa disponibilidade e grande utilização, como é o caso da bacia hidrográfica do Alto Tietê, onde está a região metropolitana de São Paulo. Nesse contexto, é mais urgente acelerar investimentos em programas de coleta e tratamento de esgoto e em ações de redução de perdas de água. É o que a Sabesp tem feito nos 365 municípios onde opera, seguindo orientação do governo José Serra. O percentual de tratamento de esgoto subiu de 63% em 2006 para 72% em 2008, permitindo incorporar 1,3 milhão de pessoas, equivalente à população de Guarulhos. A perda de água caiu de 32% do faturamento em 2006 para 28% no ano passado, contra média nacional de 40%. Tal declínio propiciou economia suficiente para abastecer uma cidade de 600 mil habitantes, como São José dos Campos. A meta é atingir 13% em 2019, que corresponde ao padrão de eficiência dos países desenvolvidos. Tão importante quanto o investimento em saneamento é mobilizar a sociedade para usar a água sem desperdício e despejar corretamente o esgoto doméstico nas redes coletoras. É inócuo investir em coleta e tratamento de esgotos se a população não faz a ligação correta do imóvel às redes. E as prefeituras devem ficar atentas e fiscalizar. O compromisso com o meio ambiente é hoje pré-requisito para a obtenção de financiamentos e de parcerias no Brasil e no exterior, sem as quais não será possível viabilizar projetos essenciais na área. Em contraste com a maioria das empresas na atual conjuntura, a Sabesp manteve de forma segura seu plano de investimentos, que somarão R$ 6 bilhões entre 2007 e 2010. A política de austeridade da Sabesp tem sido crucial para manter o acesso a linhas de financiamento de longo prazo com taxas de juros mais baixas e prazos adequados. Assim, tem sido possível o apoio do Banco Mundial, do BID, da Jica

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(Japan International Cooperation Agency), entre outras instituições. Nos momentos de expansão, é preciso atenção para garantir a conservação e o uso sustentável da água. Nos momentos de crise, tal preocupação deve ser redobrada para não descontinuar a formação da infraestrutura básica. A manutenção dos programas de investimento no saneamento torna-se particularmente importante. Daí a determinação da Sabesp de manter seu plano de investimento e perseguir a universalização dos serviços de saneamento. GESNER OLIVEIRA , 52, doutor em economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), professor da FGV-EAESP, é presidente da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). Foi presidente do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e colunista da Folha . Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

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Folha de S.Paulo - Emílio Odebrecht: O compromisso de cada um - 26/04/2009

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São Paulo, domingo, 26 de abril de 2009

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EMÍLIO ODEBRECHT

O compromisso de cada um NO PASSADO, era normal que trabalhadores e executivos deixassem às empresas o planejamento e a gestão de suas carreiras. Trabalhavam muito, atualizavam-se pouco e quase não pensavam em mudanças. Alguns ficavam décadas na mesma função. Raros eram os que adquiriam novas competências, ainda mais por conta própria. No máximo, reciclavam as antigas. A realidade mudou. Autodesenvolvimento passou a ser a chave do êxito para os profissionais no mundo de hoje, porque o propósito do aprimoramento constante deve ser uma responsabilidade do indivíduo para consigo, não da empresa para com ele. O mundo do trabalho agora exige de quem nele se insere que tome as rédeas de seu próprio destino. Quem investe em si mesmo demonstra estar comprometido com sua realização profissional -pela busca do domínio pleno naquilo em que se especializou-, com sua realização econômica -pelo compartilhamento dos resultados que ajuda a empresa a gerar- e com sua realização emocional, como um corolário do que almeja conquistar na vida. Mas, para isso, é indispensável que principalmente o trabalhador jovem se imponha o desafio de aprender a aprender, o que significa ter a capacidade de interpretar a realidade a partir das referências a seu alcance, formular novos conceitos e levá-los à prática. Uma condição para o aprimoramento das pessoas é esta aptidão, que chamo de pensar conceitualmente. Outra condição é a capacidade de autoavaliar-se e identificar com espírito crítico carências e motivações. Ocorre que, se a prática da autoeducação é o fermento que promove a ascensão do indivíduo, nem sempre isso é uma tarefa fácil. Em algumas circunstâncias, os resultados somente serão

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Folha de S.Paulo - Emílio Odebrecht: O compromisso de cada um - 26/04/2009

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alcançados se a predisposição de quem deseja aprender encontrar respaldo em um líder-educador que, ao perceber o potencial e o desejo de crescimento do liderado, tem a coragem de lhe atribuir responsabilidades que se mostram acima das qualificações que demonstra no momento. O efeito imediato desse gesto é a busca do conhecimento e das competências exigidas para a superação dos novos desafio. Meu pai, Norberto Odebrecht, até hoje lembra com gratidão de um pastor luterano, de nome Arnold, que lhe ensinou a ler e, sobretudo, a entender o mundo. Era um preceptor. No âmbito das organizações empresariais, o líder-educador exerce esse papel. A partir de sua autoeducação, pratica a pedagogia da presença, oferecendo tempo, presença, experiência e exemplos àqueles que têm no autodesenvolvimento um compromisso com o próprio futuro. EMÍLIO ODEBRECHT escreve aos domingos nesta coluna.

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Folha de S.Paulo - Marina Silva: Com o nosso chapéu - 27/04/2009

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São Paulo, segunda-feira, 27 de abril de 2009

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MARINA SILVA

Com o nosso chapéu NA SEMANA que passou, a Folha trouxe excelente reportagem (22/4, Dinheiro) de Marta Salomon mostrando, com base em estudo da organização não governamental Amigos da Terra ("A Hora da Conta: Pecuária, Amazônia e Conjuntura"), o avanço da pecuária na Amazônia e, especialmente, a migração para lá de grandes frigoríficos, com recursos do BNDES. Nada contra a pujança do setor. Tudo contra a maneira anárquica e predatória como se instala na Amazônia, alavancada por dinheiro público e sem condicionantes sociais e ambientais. Até com certa afronta, o presidente da associação que representa os grandes frigoríficos fecha questão: "Não dá para ter condicionantes. Acabar com o abate de gado de origem ilegal é desejável, mas impraticável". E como fica o governo e suas normas de proteção ambiental (decreto presidencial do final de 2007) que determinam a criminalização de toda a cadeia produtiva originada de práticas ilegais? Para conceder Bolsa Família, acertadamente são exigidas várias contrapartidas dos beneficiários. Por que não se faz o mesmo com outros setores, aos quais nada se pede em troca? O uso de ferramentas econômicas para redirecionar ou criar novos processos em benefício de toda a sociedade é dever do Estado, e sem isso ficaríamos sempre presos à teia dos interesses imediatistas e de seu pragmatismo. Mas falta ao Estado brasileiro inteligência estratégica para extrair dos empreendimentos um plus na forma de nova qualidade na produção, de compromissos para além da realização dos objetivos de negócio. O BNDES, no fundo, usa recursos da sociedade contra ela mesma. Se abre o cofre sem qualificar social e ambientalmente o resultado que espera do

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Folha de S.Paulo - Marina Silva: Com o nosso chapéu - 27/04/2009

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investimento, em lugar de contribuir para o cumprimento das leis, financia o desprezo por elas até o ponto de os beneficiários declararem em alto e bom som que não vão cumpri-las. E ponto final. Nunca houve discussão séria sobre as dimensões que cercam o apoio ao setor agropecuário. A agenda tradicional fala só de anistia, perdão de dívida, créditos subsidiados. Com a conivência dos governos, que não as exigem, não se fala de contrapartidas na forma de colaboração para proteger rios e florestas, potencializar o uso correto da biodiversidade e outros itens de interesse coletivo. O irônico é que os cuidados ambientais revertem em benefício da própria produção, no longo prazo. Que parte do agronegócio se recuse a pensar nesses termos é lastimável, mas compreensível. O que não dá para entender -nem aceitar- é que as instituições públicas operem na mesma lógica. contatomarinasilva@uol.com.br MARINA SILVA escreve às segundas-feiras nesta coluna.

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Folha de S.Paulo - Ponto de Fuga: Inteligência e afeto - 26/04/2009

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São Paulo, domingo, 26 de abril de 2009

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Ponto de Fuga

Inteligência e afeto Tzvetan Todorov é um pensador e teórico de primeira importância; interroga-se, em seu livro alarmado, sobre o que teria posto a literatura em perigo pela teoria

JORGE COLI COLUNISTA DA FOLHA

Tomemos como exemplo os alunos dos cursos de letras das universidades brasileiras: boa parte, com idades que variam em torno dos 20 anos, pouco ou quase nada leu de nossos romancistas ou poetas. Quase nenhum deles ouviu falar de Baudelaire, Edgar Allan Poe, Goethe, Fernando Pessoa, e raríssimos os leram. (...) O fato é que, até este momento, com raras exceções, a literatura -pelo menos de maneira direta, isto é, mediante a leitura de romances, contos, poemas etc.não participou de sua formação intelectual e afetiva"... Quem escreve isso é Caio Meira, na introdução para "A Literatura em Perigo", livro de Tzvetan Todorov, que ele traduziu com elegância para a Difel (2009). Caio Meira atua não num departamento "de letras", como diz seu texto, mas num dos departamentos "de teoria literária" que se multiplicaram pelo Brasil afora. Há algumas décadas, envergonhados de não parecerem suficientemente rigorosos ou científicos, eles abandonaram as belas denominações humanistas (de letras, de estudos literários ou de literatura) para proclamar a indiscutível tirania teórica. Nas universidades, com, felizmente, boas exceções, muitos alunos não são levados a ampliar e assentar uma cultura nascida pelo afeto. Leem, de maneira instrumental, sob encomenda, o romance ou o poema ao qual se refere o grande nome das teorias que estudam no momento. Chegam

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Folha de S.Paulo - Ponto de Fuga: Inteligência e afeto - 26/04/2009

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a Proust, a Dickens ou a Leopardi não pelo interesse ou pela paixão que esses autores deveriam despertar, impondo a urgência da leitura, mas por desencarnada necessidade técnica ou profissional. Mapa Todorov é um pensador e teórico de primeira importância. Interroga-se, em seu livro alarmado, quase manifesto, sobre o que teria posto a literatura em perigo pela teoria e levado "o ponteiro da balança a não se deter num ponto de equilíbrio". Esmiúça várias causas. Afirma, porém, graças ao tom pessoal e biográfico com que o livro começa, a necessidade de um percurso íntimo com a ficção e a poesia. Qualquer teoria pode servir como atalho, economizando a frequentação de romances e poemas. Mas apenas essa frequentação conduz ao saber mais profundo, em grande parte intuitivo e silencioso. É fácil identificar a esterilidade: está ali onde o prazer da leitura foi substituído pela engenhosidade analítica. Quando o pensamento astucioso eliminou os procedimentos sedimentares que só a assimilação das obras lidas pode provocar. Trono "Estaria eu sugerindo que o ensino da disciplina [teórica] deve se apagar inteiramente em prol do ensino das obras?", escreve Todorov. As diversas teorias literárias são fecundas. Para tanto, porém, devem limitar-se ao papel de um instrumento, possível e parcial, como servas humildes, e não tiranas triunfantes. Antes delas vem a leitura vivida e humanista. "Em nenhum caso o estudo desses meios de acesso pode substituir o sentido da obra, que é o seu fim", diz Todorov. Caso contrário, desaparece a cultura individual, e tais meios tornam-se a melhor alavanca para a ignorância. Identidades Entre os livros de Todorov está, fascinante, "A Conquista da América - A Questão do Outro" (Martins Fontes, 1983). Ao ler as narrativas deixadas no século 16 sobre a América espanhola, mostra, junto ao tremendo genocídio cometido pelos europeus, modos, tantas vezes assustadores e sempre complexos, de delinear o perfil de si mesmo e do outro. jorgecoli@uol.com.br

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Folha de S.Paulo - Jorge da Cunha Lima: A substituição dos desejos<br> - 12/02/2009

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São Paulo, quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

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TENDÊNCIAS/DEBATES

A substituição dos desejos JORGE DA CUNHA LIMA

Não é a economia que precisa mudar. O que precisa mudar é o comportamento da sociedade, dos políticos e da mídia FELIZMENTE não sou economista, sou apenas poeta, jornalista, bacharel em direito com uma pós-graduação, ministrada na FGV há muitos anos por um administrador que lecionava em Israel. Nessa condição posso afirmar, impunemente, que a economia de mercado foi tão malconduzida nos últimos 30 anos quanto a tentativa de salvá-la neste infeliz alvorecer de 2009. Responsáveis diretos por esta nação e só indiretamente pelo mundo, devemos avaliar e criar as saídas para a crise brasileira, ainda que no contexto do mundo. Para isso, temos que qualificar os dizeres da bandeira: civilização em vez de progresso, organização democrática em vez de ordem unida. Os desejos induzidos pela economia de mercado depois da queda cruenta do nazismo tornaram-se avassaladores depois da queda fria do comunismo. Os ingênuos que desejavam um Mustang, nos anos 50, e as mulheres que pretendiam vestirse como a Jacqueline Kennedy, nos 60, hoje, mesmo se simples pescadores das margens poluídas do São Francisco, se encantam com uma Ferrari, e as mulheres desejam o anel de R$ 30 mil que Patrícia Pillar usava na novela. A economia capitalista tornou-se modelo único e indiscutível, exatamente porque o desejo de consumo, consumindo as mentes, aperfeiçoava e estimulava a oferta, até os esgares.

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O segredo era simples: crédito farto a serviço do desejo. Desejo do supérfluo, que o pessoal do Iseb já chamava nos anos 60 de consumo conspícuo, definição difícil de entender. Assim, a sociedade produtiva produzia o necessário e o supérfluo, enquanto o Estado, empobrecido, não produzia nem oferecia o essencial. Como a gula fosse maior que a fatia, o crédito revestiu-se de artifícios embutidos e juros explícitos, quase imorais. Quando se começou a oferecer carros para pagamento em 90 meses, todos sabíamos que, na metade do prazo, o carro já não valeria nada, e o proprietário continuaria pagando (?) com o salário do emprego presumido. Nos Estados Unidos o mesmo empréstimo, sem muita garantia de ressarcimento, financiava casa, carro, barco e tudo o que o sonho desejasse. Deu no que deu. Mas o mercado não é bom nem mau. É mercado. A regulação do desejo é um problema da sociedade. E sociedade não é mercado. Sociedade é uma montagem política da cidadania. A sociedade deve definir e qualificar os desejos para que o mandato político dos legisladores, do presidente da República e do Banco Central não seja exercido em nome dos "fundamentals" da globalização, mas dos fundamentos da vida. Assim, a superação da crise deve levar em conta os desejos fundamentais dos homens, e não a estrutura de um sistema que não deu certo, pois, se recuperado, irá produzir os mesmos efeitos destruidores. Esses desejos são simples. Uma família precisa de casa para morar, comida no armário e na geladeira, saúde desde o recém-nascido até o vovô aposentado, matricular os filhos numa escola boa e ter dinheiro para pagar o material escolar; precisa um pouco de lazer, dentro e fora de casa, transporte que garanta a mobilidade, a possibilidade de vez ou outra ir à praia, tomar um banho de mar e, ainda, precisa muito da convivência humana no espaço privado e público, em segurança, A sociedade quer mais festa no espaço público. A estética do pobre está, sobretudo, na beleza das cidades. A satisfação econômica desses desejos produzirá os patamares desejados de desenvolvimento. Não é a economia que precisa mudar, porque a economia é uma ciência, não é um dogma, nem é o mercado, esse animal com energia própria. O que precisa mudar é o comportamento da sociedade. O comportamento dos políticos e também da mídia, a propor novos desejos, compatíveis com a natureza humana, e não com os humores destrutivos da moda. A exuberância do progresso moderno se baseou na proposição de desejos inatingíveis. Para saciar o desejo de um tênis Nike, o menor aponta um revólver para a cabeça de outro menor com tênis. Para comprar uma bolsa Vuitton, muitas belas jovens já se prostituíram. Para consumir crack,

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Folha de S.Paulo - Jorge da Cunha Lima: A substituição dos desejos<br> - 12/02/2009

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se mata, se rapta, se dança um tango argentino. Para comprar um carro, 90 meses de um salário suado são empenhados no colóquio sedutor de um gerente. Enfim, vende-se no varejo a alma ao diabo. Mesmo sendo poeta, acho que sair da crise é promover uma organização racional dos desejos em busca da civilização. Não podemos nos contentar com desejos alucinatórios de um mercado robotizado. Essa cocaína financeira de Wall Street acabou, na prática e no modelo. JORGE DA CUNHA LIMA , 77, jornalista e escritor, é presidente do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta e vice-presidente do Itaú Cultural. Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

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Edição 221 | 04/2009

Vale mais que um trocado Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi Rodrigo Ratier (rodrigo.ratier@abril.com.br)

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CAMINHO LIVRE A cada livro oferecido em vez de esmola, um leitor descoberto. Foto: Rogério Albuquerque. Clique para ampliar "Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?" Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas de NOVA ESCOLA: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse - e conferiria as reações. Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais. Conteúdo relacionado Reportagens z z z

Leitura não pode ser só folia Oba! Hoje é dia de leitura Roger Chartier: o especialista em história da leitura

Atividades permanentes z z

Aprendendo a ler textos jornalísticos Leitura de textos informativos

Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo: - Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler. Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro - "Esse do castelo, que deve ser de mistério" - para presentear a mulher que o esperava na calçada. Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu: - Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

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As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico*, 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro: - Sabe ler?, perguntei. - Não..., disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta: - Sim. Sei, sim. - Em que ano você está? - Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que já se aproximavam. Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor. Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina após esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro... - Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos. Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria*. Carregava a pequena Vitória*, 1 ano recém-completado, e cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria. * os nomes foram trocados para preservar os personagens.

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Folha de S.Paulo - Myanna Lahsen: O debate sobre as mudanças climáticas<br> - 03/04/2... Page 1 of 3

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São Paulo, sexta-feira, 03 de abril de 2009

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TENDÊNCIAS/DEBATES

O debate sobre as mudanças climáticas MYANNA LAHSEN É fácil criar confusão sobre a ciência do clima. E as consequências dessa confusão podem ser enormes e catastróficas

É FÁCIL criar confusão sobre a ciência do clima. E as consequências dessa confusão podem ser enormes e catastróficas. O exemplo são os EUA, onde, desde os anos 90, uma dezena de cientistas contrários (em inglês, "contrarians") têm dado uma força fundamental a um movimento conservador e antirregulatório, contestando a ciência e as preocupações relativas às mudanças climáticas provocadas pelos seres humanos. Financiado e organizado por uma elite financeira sem paralelo do outro lado, o movimento tem tido impacto importante na opinião pública americana. Consequentemente, esta é muito mais cética no assunto e menos inclinada a apoiar políticas públicas na área se comparada, por exemplo, com populações da Europa. No Brasil, não temos visto -até agora- um movimento organizado questionando a ciência do clima, pois não há fortes interesses materiais nisso. Mas essa situação pode mudar com o aumento das pressões para que o Brasil cumpra metas obrigatórias de redução das suas emissões, sobretudo as ligadas ao desmatamento. Por todas essas razões, é importante responder quando jornais brasileiros de alta influência publicam artigos

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Folha de S.Paulo - Myanna Lahsen: O debate sobre as mudanças climáticas<br> - 03/04/2... Page 2 of 3

questionando as conclusões do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, na siga em inglês), das Nações Unidas, e mais ainda quando invocam a autoridade dos cientistas contrários americanos, como fez José Carlos de Azevedo nos textos publicados por esta Folha em 13/10/08 e 25/2/09. Azevedo se apoia num relatório do NIPCC -organização criada para contestar as conclusões do IPCC- e o apresenta, ao lado dos cientistas contrários Fred Singer e Frederick Seitz, como fonte mais confiável de conhecimento científico do que o IPCC. Algum debate deve existir e é saudável, pois as mudanças climáticas globais são uma ameaça complexa e há incertezas. O que é perigoso e errado é sugerir que os cientistas céticos e o relatório do NIPCC são fontes mais confiáveis para o conhecimento científico do que o IPCC. Por cima, Azevedo baseia seus argumentos contra o IPCC e as evidências científicas das mudanças climáticas num entendimento errado do que é o IPCC -que não é uma instituição de pesquisa, ao contrário do que ele diz. O IPCC não faz previsões de tempo nem do clima. Ele avalia ciência já produzida. Há tantos erros nos artigos que o espaço não permite a correção de todos. O importante é que os leitores brasileiros saibam identificar as fraquezas dos argumentos de Azevedo e os perigos que esse tipo de discurso representa, à medida que consegue colocar em dúvida a necessidade de agir para diminuir o risco e os impactos das mudanças ambientais globais. Azevedo escreve que o relatório do NIPCC, contrariando o IPCC, foi produzido por "muitos" cientistas "renomados". Esse número, 23 cientistas, é muito pequeno se comparado aos milhares de cientistas que participaram da produção dos relatórios do IPCC, os quais sempre são submetidos a um processo de revisão científica ("peer review") rigorosa e extensa. Além disso, cientistas do NIPCC, tais como Singer e Seitz (que Azevedo cita como autoridades científicas), não são cientistas ativos e reconhecidos na área do clima. Singer tem publicado poucos artigos em revistas científicas na área do clima, mas nada de impacto. Seitz nunca fez nem publicou ciência sobre o clima e faleceu em março de 2008, aos 96 anos, décadas após sua aposentadoria. Ambos se dedicaram à política muito tempo atrás, com grupos conservadores ligados a elites financeiras e indústrias interessadas. Seus discursos e associações demonstram valores políticos e culturais fortemente antirregulatórios e antipolíticas ambientais, colocando em dúvida as autoidentificações com a objetividade. O mais problemático é que eles têm participado integralmente de práticas enganosas para simular autoridade científica não merecida, amparados por interesses financeiros privados, como eu e outros analistas temos estabelecido em revistas científicas

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Folha de S.Paulo - Myanna Lahsen: O debate sobre as mudanças climáticas<br> - 03/04/2... Page 3 of 3

internacionais. Os argumentos de Azevedo são igualmente enganosos e mistificadores. Como Seitz e Singer, Azevedo está aposentado há muito tempo e não é, e nunca foi, pesquisador ou "expert" na área de mudanças climáticas e mostra, como eles, uma inclinação forte e ideológica contra o ambientalismo. Claro que tem o direito de se expressar. É preciso haver espaço para todos os pontos de vista. Porém, para assegurar processos democráticos e desenvolver políticas públicas cautelosas diante das ameaças ambientais, é essencial que a sociedade em geral fortaleça sua capacidade de identificar fontes científicas robustas, fundadas não em ignorância ou em interesses financeiros escondidos e de curto prazo, mas em processos rigorosos e transparentes de controle e avaliação independente, como é o caso do IPCC. Tais fontes também podem errar, mas são -de longe- a melhor aposta. MYANNA HVID LAHSEN, antropóloga, doutora pela Rice University (EUA), é pesquisadora do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e do Centro para Pesquisa de Políticas de Ciência e Tecnologia da Universidade do Colorado (EUA).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

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Folha de S.Paulo - Benjamin Steinbruch: Por que não? - 10/02/2009

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São Paulo, terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

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BENJAMIN STEINBRUCH

Por que não? A mobilização para a guerra contra a pobreza é tão possível quanto a de 1940 para a guerra contra o Eixo

MUITOS ANALISTAS têm recorrido às lições das décadas de 30 e 40 do século passado, especialmente ao período de mais de 12 anos em que Franklin Delano Roosevelt foi presidente dos EUA, em busca de receitas para combater a atual crise econômica. Uma das obras indispensáveis para entender aquela época é o livro "Tempos Muito Estranhos", de Doris Kearns Goodwin (editora Nova Fronteira), que narra com riqueza de detalhes o que se passou nos bastidores da Casa Branca durante a 2ª Guerra Mundial. Está claro que, mais do que o New Deal, foi a mobilização coletiva para vencer a guerra contra o Eixo que levou os EUA e o mundo a superarem a Grande Depressão econômica. Entre 1940 e 1945, a indústria americana, sob a forte demanda da guerra, revigorou-se e atingiu níveis de produção impressionantes até para os dias de hoje. Nesse período de seis anos, mediante injeções bilionárias de recursos públicos, foram fabricados 340 mil aviões de combate, 87 mil navios de guerra, 2 milhões de caminhões, 107 mil tanques, 20 milhões de fuzis e 44 bilhões de projéteis de todos os tipos. O PIB americano saltou de US$ 100 bilhões para US$ 215 bilhões. Não é difícil imaginar o impacto dessa produção no nível de emprego da época -17 milhões de vagas foram criadas. Pela primeira vez, as mulheres foram chamadas ao mercado de trabalho, uma tendência sem volta e de grande importância na formação da sociedade familiar moderna, com as mulheres em pé de igualdade com os homens. Ainda que tenham ocorrido demissões em massa com o fim da guerra,

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principalmente de mulheres, milhões delas permaneceram em seus postos e as admissões voltaram a crescer a partir de 1946, em razão da reconstrução do pós-guerra. Hoje, apesar dos conflitos em várias partes do mundo, felizmente não há demandas de equipamentos bélicos para justificar investimentos como nos anos 40. Mas temos uma demanda muito maior não atendida, de bilhões de pessoas desprovidas, que justificaria uma mobilização de guerra contra a pobreza mundial. É irônico que a economia global caminhe para a recessão por falta de demanda quando essa demanda existe, não só em países subdesenvolvidos mas nas camadas muito pobres de emergentes e até de nações ricas. Essas populações, que certamente serão as mais prejudicadas pela atual crise, precisam de tudo para viver com dignidade: comida, roupas, moradias, medicamentos, estradas, transporte e toda a sorte de bens de consumo essenciais. Sem dúvida, parece utópica a ideia de eliminar a pobreza mundial. Seguramente, porém, não se enquadra nessa categoria a proposta de uma mobilização solidária de guerra contra a pobreza. No momento em que os governos de países ricos e emergentes injetam trilhões de dólares para reanimar a economia, uma parte desses recursos poderia ser utilizada, a fundo perdido, para produzir e financiar bens que possam atender à demanda de 2,7 bilhões de pessoas que dispõem de menos de US$ 2 por dia para satisfazer suas necessidades. Com apenas mais US$ 1 por dia, seria criada uma demanda anual de quase US$ 1 trilhão. A mobilização para a guerra contra a pobreza é tão possível quanto a de 1940 para a guerra contra o Eixo. Com uma diferença fundamental: essa seria para salvar 20 milhões de pessoas que morrem anualmente por razões relacionadas à pobreza. Serviria também para incorporar bilhões de novos consumidores ao mercado. O mundo poderia sair desta crise menos desigual. Por que não? BENJAMIN STEINBRUCH , 55, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). bvictoria@psi.com.br

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Folha de S.Paulo - Contardo Calligaris: "Milk", o preço da liberdade - 26/02/2009

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São Paulo, quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

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CONTARDO CALLIGARIS

"Milk", o preço da liberdade Para continuarmos livres, é preciso defender a liberdade do vizinho como se fosse a nossa

ASSISTINDO a "Milk - A Voz da Igualdade", de Gus Van Sant (extraordinário Sean Penn no papel de Harvey Milk), lembrei-me de um e-mail que recebi em abril de 2008. Era uma circular de http://www.boxturtlebulletin.com/ (um site sobre os direitos das minorias sexuais), que "comemorava" os 55 anos de um evento sinistro: em 1953, Dwight Eisenhower, presidente dos EUA, assinou um decreto pelo qual seriam despedidos todos os funcionários federais que fossem culpados de "perversão sexual". Essa lei permaneceu em vigor durante mais de 20 anos: milhares de americanos perderam seus empregos por causa de sua orientação sexual. Fato frequentemente esquecido (um pouco como foi esquecida, durante décadas, a perseguição dos homossexuais pelo nazismo), nos anos 50, no discurso do senador McCarthy, a caça às bruxas "comunistas" se confundia com a caça às bruxas homossexuais. Por exemplo, uma carta do secretário nacional do Partido Republicano (citada na circular) dizia: "Talvez tão perigosos quanto os comunistas propriamente ditos são os pervertidos escusos que infiltraram nosso governo nos últimos anos". Essa não era uma posição extrema: na época, a revista "Time" defendeu o projeto de despedir todos os homossexuais que trabalhassem para o governo federal. É nesse clima que, nos anos 70, em San Francisco, Milk se tornou o primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público. Poderia escrever sobre as razões que, quase invariavelmente, levam alguém a querer esmagar a liberdade de seus semelhantes. O segredo (de polichinelo) é que muitos

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preferem odiar nos outros alguma coisa que eles não querem reconhecer e odiar neles mesmos. E poderia contar a história de Roy Cohn, braço direito de McCarthy, que morreu, em 1984, odiando e escondendo sua homossexualidade e gritando ao mundo que a causa de sua morte não era a Aids (ele foi imortalizado por Al Pacino na peça e no filme "Anjos na América", de Tony Kushner). Mas, depois de assistir a "Milk", estou a fim de festejar o caminho percorrido em apenas meio século: o mundo é, hoje, um lugar mais habitável do que 50 anos atrás. Aconteceu graças a milhares de Harvey Milks e a milhões de outros que não precisaram ser nem homossexuais nem comunistas nem coisa que valesse: eles apenas descobriram que só é possível proteger a liberdade da gente se entendermos que, para isso, é necessário defender a liberdade de nosso vizinho como se fosse a nossa. Nos anos 70, quase decorei a carta aberta que James Baldwin (escritor, negro e homossexual) endereçou a Angela Davis (jovem filósofa, negra e militante), quando ela estava sendo processada por um assassinato que não cometera, e o risco era grande que o processo acabasse em uma condenação "exemplar". Baldwin lembrava as diferenças de história, engajamento e pensamento entre ele e Davis, para concluir: "Devemos lutar pela tua vida como se fosse a nossa - ela é a nossa, aliás - e obstruir com nossos corpos o corredor que leva à câmara de gás. Porque, se eles te pegarem de manhã, voltarão para nós naquela mesma noite". Os direitos fundamentais não são direitos de grupo, eles valem para cada indivíduo singularmente, um a um. É óbvio que grupos particulares (constituídos por raça, orientação sexual, ideologia, etnia etc.) podem e devem militar coletivamente pelos direitos de seus membros, mas, em uma sociedade de indivíduos, a liberdade de cada um, por "diferente" que ele seja, é condição da liberdade de todos. Por quê? Simples: se meu vizinho, sem violar as leis básicas da cidade, for impedido de ter a vida concreta que ele quer, então meu jeito de viver poderá ser tolerado ou até permitido, mas ele não será nunca mais propriamente meu direito. "Milk" é um filme sobre um momento crucial na história das liberdades, mas não é um filme "arqueológico". A gente sai do cinema com a sensação renovada de que a militância libertária ainda é a grande exigência do dia. Ótimo assim. Um amigo me disse recentemente que eu dou uma importância excessiva à contracultura dos anos 60/70. Acho, de fato, que ela foi a única revolução do século 20 que deu certo e, ao dar certo, melhorou a vida concreta de muitos, se não de todos. Acho também que suas conquistas só se mantêm pelo esforço cotidiano de muitos. Afinal (quem viu o filme entenderá), surge uma Anita Bryant a cada dia.

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Folha de S.Paulo - Editoriais: Darwin, 200<br> - 10/02/2009

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Darwin, 200 ENTRE OS pensadores mais influentes dos séculos 19 e 20, só Charles Darwin sobreviveu incólume ao teste do tempo. Os 200 anos de seu nascimento, comemorados nesta semana, encontram sua reputação em excelente forma. Com efeito, nunca foi tão válida a afirmação do grande evolucionista Theodosius Dobzhansky (1900-1975): "Nada em biologia faz sentido a não ser sob a luz da evolução". A teoria darwiniana sofreu aperfeiçoamentos, mas seu cerne, a seleção natural, permanece intacto. O mecanismo foi exposto em obra clássica, "Origem das Espécies", que também faz aniversário (150 anos): a diversidade observável nos organismos é fruto da acumulação de incontáveis e discretas características hereditárias que tenham contribuído para a sobrevivência e a reprodução de seus portadores. Outro pilar da teoria darwiniana: os milhões de espécies de plantas, animais e micro-organismos que vivem e já viveram sobre a Terra descendem todos de um ancestral comum, que surgiu há mais de 3 bilhões de anos. Durante um século e meio reuniram-se inúmeras comprovações empíricas desses princípios. A universalidade do DNA, a substância presente no núcleo das células portadora de hereditariedade, é só uma delas. É uma ideia poderosa, em sua simplicidade. Os organismos não são como são em obediência a um desígnio superior. Ao contrário, sua diversificação resulta do entrechoque de eventos inteiramente naturais -sobretudo mutações genéticas e modificações no ambiente- ao longo de um tempo muito profundo. Compreende-se que esse modo de encarar a biosfera torne problemáticas outras explicações para a miríade de formas

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que povoam o mundo, como as inspiradas na literalidade de textos religiosos. Apesar disso, é possível conciliar o mecanismo da seleção natural com a noção de um Deus que o tenha criado. O próprio Darwin, ateu ou agnóstico, jamais fez de sua teoria uma arma antirreligião. Essa é a caricatura que dele se construiu nos últimos 150 anos. Deixar-se arrastar por ela não faz jus à grandiosidade de sua visão da vida, que está na raiz do enorme avanço da biologia nas últimas décadas e que tanto fez para dissipar ilusões sobre o lugar da espécie humana no universo. Texto Anterior: Editoriais: Evitar o retrocesso Próximo Texto: São Paulo - Clóvis Rossi: Sinais, mas ambíguos Índice Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

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Folha de S.Paulo - Filme exibe em Berlim "capitalismo de desastre" - 10/02/2009

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Filme exibe em Berlim "capitalismo de desastre" Longa de Michael Winterbottom prega resistência e busca por novo modelo econômico "A Doutrina do Choque", exibido ontem no festival, traça um painel da implementação de ideias do economista Milton Friedman SILVANA ARANTES ENVIADA ESPECIAL A BERLIM

Imagens da posse do presidente dos EUA, Barack Obama, no último dia 20, estão no novo filme do diretor britânico Michael Winterbottom ("O Caminho para Guantánamo"), codirigido por Mat Whitecross. O documentário "A Doutrina do Choque", exibido ontem no Festival de Berlim, prega resistência (à teoria da desregulação do mercado personificada pelo economista Milton Friedman) e ação popular, por outro "new deal", que remodele a economia mundial. O paralelo entre Obama e Franklin Roosevelt, o presidente americano que atravessou a Grande Depressão nos anos 1930, é feito pela jornalista Naomi Klein, em cujo livro ("A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo de Desastre") o filme se baseia. Winterbottom disse que aceitou o convite de Klein por achar o livro "muito potente" e ver nele "a oportunidade de falar desses acontecimentos de uma perspectiva particular". Com numerosas imagens de arquivo, "A Doutrina do Choque" se propõe a traçar um painel da implementação das ideias de Friedman e seu grupo de colaboradores na universidade, os "meninos de Chicago", em distintas partes do mundo, a começar pela América Latina. O golpe que depôs e matou Salvador Allende no Chile é citado como primeiro exemplo de que o "incontrolável cassino capitalista" resultante das teorias de Friedman requereu regimes totalitários para se estabelecer fora dos

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EUA. "No mundo anglofônico [EUA e Reino Unido]", as guerras, a começar pela das Malvinas (1982), sob o comando de Margareth Thatcher, foram o elemento impulsionador da economia de livre mercado, sustenta o filme. Klein participa do longa entrevistando pessoas e em extratos de palestras que profere, com a intenção por ela declarada de impedir que a "memória coletiva" se deixe tomar por uma enviesada versão da história do tempo corrente. "A Doutrina do Choque" compara as vítimas civis da Guerra do Iraque com os desaparecidos durante a ditadura argentina (1976-83), igualando-os à condição de "pessoas que se opuseram" ao regime econômico que se tentou impor em seus respectivos países. A estranhar no filme é sua trilha sonora pouco inventiva, considerando que Whitecross prepara agora um documentário sobre a banda Coldplay. Ecoando o chamado de Klein pelo engajamento popular, Whitecross disse, ontem: "O fato de Obama estar na presidência não significa que as coisas vão ficar melhores ou piores. Cabe às pessoas pressionarem a administração dele". Texto Anterior: João Pereira Coutinho: Máquinas, não Próximo Texto: Em sua estreia, americano aborda a Guerra do Iraque Índice Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

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Folha de S.Paulo - Artigo: O meu jornal diário - 29/03/2009

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São Paulo, domingo, 29 de março de 2009

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ARTIGO

O meu jornal diário Ao contrário do jornal, internet nos leva a buscar ideias afins às nossas e vai nos isolar ainda mais em nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas NICHOLAS D. KRISTOF DO "NEW YORK TIMES"

Alguns dos obituários mais recentes não estão saindo nos jornais, mas são dos jornais. O "Seattle Post-Intelligencer" é o mais recente a desaparecer, excetuando um resquício de que vai existir só no ciberespaço, e o público está cada vez mais buscando as notícias que consome não nas grandes redes de televisão ou em fontes impressas em tinta sobre árvores mortas, mas em suas incursões on-line. Quando navegamos on-line, cada um de nós é seu próprio editor, o guardião de sua própria entrada. Selecionamos o tipo de notícias e opiniões de que mais gostamos. Nicholas Negroponte, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), chamou a esse produto noticioso emergente "O Meu Jornal Diário". E, se isso for uma tendência, que Deus nos salve de nós mesmos. Isso porque existem provas bastante convincentes de que, em geral, não desejamos realmente informações confiáveis, e sim as que confirmem nossas ideias preconcebidas. Podemos acreditar intelectualmente no valor do choque de opiniões, mas na prática gostamos de nos encerrar no útero tranquilizador de uma câmara de ecos. Um estudo clássico enviou despachos a republicanos e democratas, oferecendolhes vários tipos de pesquisas políticas, ostensivamente de uma fonte neutra. Os dois grupos mostraram mais interesse em receber argumentos inteligentes que corroborassem suas ideias preexistentes. Também houve interesse mediano em receber argumentos tolos em favor das posições do outro partido (nós nos sentimos bem quando podemos caricaturar os outros). Mas

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houve pouco interesse em estudar argumentos sólidos que pudessem enfraquecer as posições anteriores de cada um. Essa constatação geral foi repetida muitas vezes, como observou o autor e ensaísta Farhad Manjoo em 2008 em seu ótimo livro "True Enough: Learning to Live in a Post-Fact Society" [Verdade Suficiente: aprendendo a viver numa sociedade pós-fatos]. Permita que deixe uma coisa clara: eu mesmo às vezes sou culpado de buscar verdades na web de maneira seletiva. O blog no qual busco análises sobre notícias do Oriente Médio frequentemente é o do professor Juan Cole, porque ele é inteligente, bem informado e sensato -em outras palavras, frequentemente concordo com ele. É menos provável que leia o blog de Daniel Pipes, especialista em Oriente Médio que é inteligente e bem informado -mas que me parece menos sensato, em parte porque frequentemente discordo dele. Segregação O efeito do "Meu Jornal" seria nos isolar ainda mais em nossas câmaras políticas hermeticamente fechadas. Um dos livros mais fascinantes de 2008 foi "The Big Sort: Why the Clustering of Like-Minded America is Tearing Us Apart" [A grande classificação: porque a divisão da América em agrupamentos de ideias iguais nos está dividindo], de Bill Bishop. Ele argumenta que os americanos vêm se segregando em comunidades, clubes e igrejas onde são cercados por pessoas que pensam como eles. Hoje, diz Bishop, quase metade dos americanos vive em condados que votam por maioria avassaladora em candidatos democratas ou republicanos. Nos anos 60 e 70, em eleições nacionais igualmente disputadas, só cerca de um terço dos eleitores vivia em condados que apresentavam maiorias avassaladoras nas eleições. "O país está ficando mais politicamente segregado -e o benefício que deveria advir da presença de uma diversidade de opiniões se perde para o sentimento de estar com a razão que é próprio dos grupos homogêneos", escreve Bishop. Um estudo que abrangeu 12 países concluiu que os americanos são os que demonstram menos tendência a discutir política com pessoas de visões diferentes, e isso se aplica especialmente aos mais bem instruídos. Pessoas que não concluíram o ensino médio tinham o grupo mais diversificado de pessoas com quem discutiam ideias. Já as que tinham concluído a faculdade conseguiam colocar-se ao abrigo de ideias que lhes eram incômodas. O resultado disso é a polarização e a intolerância. Cass Sunstein, professor de direito em Harvard que agora trabalha para o presidente Obama, fez uma pesquisa que mostrou que, quando progressistas ou conservadores discutem questões

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como ação afirmativa ou mudanças climáticas com pessoas que pensam como eles, suas ideias rapidamente se tornam mais homogêneas e mais extremas que antes da discussão. Em um estudo, alguns progressistas inicialmente temiam que as ações para enfrentar as mudanças climáticas pudessem prejudicar os pobres, enquanto alguns conservadores inicialmente se mostravam a favor da ação afirmativa. Mas, depois de discutir a questão durante 15 minutos com pessoas que pensavam como eles, os progressistas se tornavam mais progressistas, e os conservadores, mais conservadores. O declínio da mídia noticiosa tradicional vai acelerar a ascensão do "Meu Jornal"; vamos nos irritar menos com o que lemos e veremos nossas ideias preconcebidas confirmadas com mais frequência. O perigo é que esse "noticiário" autosselecionado aja como entorpecente, mergulhando-nos num estupor autoconfiante por meio do qual enxergaremos as coisas em preto e branco, sendo que os fatos normalmente se desenrolam em tons de cinza. Qual seria a solução? Incentivos fiscais para progressistas que assistam a Bill O'Reilly [comentarista do canal conservador Fox News] ou conservadores que vejam Keith Olbermann [âncora do canal progressista MSNBC]? Não enquanto o presidente Obama não nos dá o atendimento médico universal, não podemos correr o risco de um aumento grande no número de infartos. Então talvez a única maneira de avançar seja que cada um se esforce por conta própria para fazer uma malhação intelectual, enfrentando parceiros de discussão cujas opiniões deploramos. Pense nisso como uma sessão diária de exercícios mentais análoga a uma ida à academia: se você não se exercitou até transpirar, não valeu. Agora, com licença. Vou ler a página de editoriais do "Wall Street Journal". Tradução de CLARA ALLAIN

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