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sexta-feira | 28 de agosto de 2009 | Ano 2 | nº 08

CONTAGEM REGRESSIVA!

OVERDOZE Marcos Filipe Sousa Está chegando a hora da maior maratona artística de Alagoas |Por Jacqueline Pinto

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projeto Aldeia SESC Guerreiro das Alagoas se encerra com chave de ouro! Neste sábado (29/08), a partir das 20h, terá inicio o tão esperado Overdoze, uma grande maratona artística que se estenderá até as 08h da manhã do domingo. Esse momento é sempre muito aguardado e sintetiza alegremente o que essa Aldeia representa. São doze horas de apresentações artísticas em suas várias linguagens: artes visuais, cinema, música e artes cênicas. Cada qual com uma programação especial para agradar a todos os gostos. A Galeria SESC Centro estará de

Ainda nesta edição:

Ciranda do TSI

portas abertas para receber o público com a exposição Uma Mudança Pela Manhã, do artista plástico arapiraquense Marcone Macêdo, que retrata em suas telas a rica cultura popular com muitas cores e traços marcantes e formas diversas que nos remetem ao cubismo, expressionismo e surrealismo com ar de contemporaneidade. Durante o Overdoze o restaurante SESC Centro irá se transformar em uma sala de cinema onde o público poderá assistir na madrugada à exibição de cerca de 30 curtas metragens nacionais, entre eles, alguns alagoanos. Ao todo são 8 horas

Sonoplastia é cenário?

de exibições com direito a pipoca! Para embalar a noite a programação musical contará com a presença de todos os estilos: MPB, Hip Hop, Rock e Pop Rock. Os amantes de manifestações cênicas poderão apreciar, ainda, espetáculos como intervenções artísticas, performances, teatro-dança, dança e apresentações retratando o melhor da nossa cultura com grupos do interior, capital e de outros estados. E a noite será aberta com a apresentação do espetáculo "Jandira", representado pelo artista pernambucano Kleber Lourenço. As apresentações do Overdoze se darão em dois espaços: o edifício do SESC Centro e a Rua Barão de Alagoas. Agora é só se preparar! Chamem os amigos e venham se divertir na nossa Aldeia.

Entrevista com José Castello

Seu Jofre Falou: ampliado


entrevista José Castello fala sobre a luta árdua pelo reconhecimento do escritor

Renato Medeiros

|Por Renato Medeiros Rodapé: Qual a proposta do mini-curso que começou na quarta-feira e o que você espera dos participantes? José Castello: A reflexão sobre a literatura é sempre ampla.A literatura, ao contrário do que muitos pensam, não é matéria de especialistas, pertence a todos, é “leiga”. E abre os mais estranhos e fantásticos caminhos. Cada um lê um livro como pode, com o que tem, com o que é. Não existem leituras “melhores”, mas apenas uma diversidade infinita de leituras. É nesse sentido que traduzir ou adaptar literatura é sempre muito difícil: é sempre uma aventura pessoal e singular, é também um trabalho de recriação. R: Uma das novidades da IV Aldeia SESC Guerreiros das Alagoas é o diálogo entre as linguagens. O mini-curso que você irá ministrar envolve a literatura e as artes cênicas. Como você vê esse casamento e o que pensa do diálogo entre as várias linguagens artísticas tão comuns nas artes contemporâneas? JC: Em nosso mundo, as fronteiras foram esgarçadas e rasgadas. Em um mundo simultâneo e instantâneo, não existem mais gavetas separadas, em que guardamos as coisas. Agora, a arte (e a literatura) é um instrumento de resistência a esse mundo superficial e veloz. Na arte você pode (e deve) aprofundar, pode e deve ser lento. Por isso eu acredito que a potência da literatura é cada vez maior. Por ser densa e lenta, ela é um antídoto fortíssimo contra a banalização do mundo. R: O que você conhece da literatura produzida em Alagoas contemporaneamente? JC: Sou franco: praticamente nada. O Brasil é muito grande e, apesar de todo o avanço tecnológico, ainda vivemos bastante isolados. É uma das coisas que me motivam, sempre, a visitar o nordeste: aprender com essa diversidade. Meu pai era piauiense, trago o norte e nordeste no sangue. Vir para cá é sempre me reencontrar com o que sou. Estamos sempre muito distantes de nós mesmos. Quando chego aqui, tenho sempre uma visão mais clara de mim.

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escritor e jornalista José Castello nasceu no Rio de Janeiro, mas mora em Curitiba há 16 anos. É um dos colaboradores do jornal literário Rascunho, um dos veículos literários mais importantes do Brasil. Em entrevista ao Rodapé, ele fala sobre sua participação na Aldeia SESC Guerreiro das Alagoas 2009 e sobre o que conhece da literatura produzida em Alagoas. R: Você colabora com diversos suplementos culturais e literários. Analisando o panorama atual e levando em consideração a internet como uma mídia poderosa para a divulgação de novos escritores e poetas, você avalia que os suplementos literários ainda são relevantes para o reconhecimento social de escritores e poetas? JC: Claro que sim. Veja o Prosa & Verso, de O Globo, onde assino uma coluna semanal dedicada à literatura. A repercussão e a penetração do caderno sempre me impressionam. É claro, a assinatura “O Globo” ajuda muito. De qualquer forma, por ser um caderno de grande qualidade, ele se torna um ponto de reflexão e de introspecção muito especial para o leitor. Estamos sempre afogados no noticiário: os jornais, a TV, a internet. Mal damos conta de tudo o que acontece! Os suplementos literários se tornam, nesse cenário, um lugar em que, em meio à grande zoeira do mundo contemporâneo, podemos parar e pensar. Um ponto de fuga, como a própria literatura. Não fuga para desistir, mas, ao contrário, para você se reencontrar com o que é. R: Quando surgiu seu interesse por literatura? E por teatro? E quando surgiu o interesse em fazer essas duas linguagens dialogarem? JC: Meu interesse pela literatura surgiu na infância. Ainda nem sabia ler, e já era fascinado pelas histórias de fadas e pelos relatos das Mil e Uma Noites, que minha madrinha, Maria da Paz, me lia. Desde menino me agarrei aos livros _ através deles, com a ajuda deles, com a força que me davam, construí meu mundo pessoal e me tornei um homem. Logo, a literatura está na base de minha formação. Não estudei Letras, não tenho mestrado ou doutorado em Literatura, ela sempre foi para mim, continua a ser, antes de tudo uma paixão. Quando ao teatro, minha irmã mais velha, Leyla, trabalhou com teatro quando jovem. Com ela aprendi muito a respeito da força das encenações, da fantasia e das palavras. Creio que as coisas mais importantes vêm desses momentos remotos, em que você se constitui como pessoa e em que constrói uma sensibilidade.

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R: Alagoas possui produção ficcional e poética. Entretanto, os escritores locais sofrem para serem reconhecidos por seus próprios conterrâneos. Quais dicas você daria para impulsionar a circulação de obras de escritores locais entre os próprios conterrâneos? JC: Essa luta pelo reconhecimento é sempre muito árdua, não só aqui. Em Curitiba, onde vivo há 16 anos, é a mesma coisa. O autor brasileiro mais premiado do ano passado foi Cristovão Tezza, com O Filho Eterno. Somos amigos e acompanhei de perto a luta do Tezza para conquistar o prestígio que merece. Infelizmente ele só foi reconhecido em Curitiba como o grande escritor que é depois de publicar por editoras do Rio! Os escritores e os artistas são sempre vistos com grande desconfiança. Quem é esse louco que passa 2, 3, 4 anos trancado em casa, sozinho, para escrever um livro? Para o mundo contemporâneo, mesmo com todo o glamour que cerca hoje a imagem do escritor, o escritor ainda é um sujeito extemporâneo, uma espécie de “louco” cuja demência deve ser respeitada – até porque pode produzir dinheiro. Infelizmente, a maioria das pessoas só admite que o cara é um gênio, e não um louco, depois que ele recebe o batismo dos especialistas e a consagração do mercado. É muito perverso, muito triste, mas é assim.

enquete: Como você percebe a interação das outras linguagens artísticas na programação da Aldeia SESC? A pergunta foi feita durante as apresentações da tarde e da noite de ontem, 27/08. Entre as respostas obtivemos os seguintes resultados: Na dose certa - 9,1% Quanto mais melhor - 18,18% Ba-ravilhoso! - 18,18% Não percebi - 54,54%


seu jofre falou E Negro de Estimação? Renato Medeiros

As palavras-chave de ontem: “amor” e “processo criativo” |Por Renato Medeiros

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nova etapa da Aldeia SESC Guerreiro das Alagoas 2009 teve início na quarta-feira passada, com a apresentação do espetáculo Insônia, da Cia. da Meia-Noite. Foi quando o escritor e jornalista José Castello (PR) foi chamado pela primeira vez a tecer comentários, junto ao trio de debatedores, logo após as apresentações cênicas. Mas com um diferencial: ter seu olhar centrado na questão da adaptação do texto literário para o palco. Sua participação nos debates faz parte do mini-curso “Diálogos entre Literatura e Cena”, que é ministrado por ele na Aldeia 2009 e que teve seu primeiro dia também na quarta-feira. Durante a tarde e a noite de ontem, essa segunda etapa teve continuidade com as apresentações dos espetáculos pernambucanos Enamorados – A Demanda do Amor, do Curso Regular de Teatro do SESC de Santo Amaro; e Negro de Estimação, do performerbailarino Kleber Lourenço. Ambas as apresentações são adaptações ou foram baseadas nas obras literárias: Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes; e Contos Negreiros, de Marcelino Freire, respectivamente. Interessante perceber que durante o debate de Insônia houve certa divergência entre Castello e Thürler (absolutamente amistosa e complementar, diga-se de passagem, para que não pareça que eles arengaram) no que diz respeito à adaptação do conto homônimo de Graciliano Ramos para o palco. Enquanto Castello opinou que o monólogo mantinha viva a força da escrita de Graciliano Ramos, Thürler alegou que o espetáculo ainda estava muito preso ao texto literário e que seria interessante se ele se desvencilhasse mais do conto, tornando-se assim outra obra de arte, que nem por isso deixava de dialogar com a literatura. Ontem, durante o debate sobre Enamorados – A Demanda do Amor, fato semelhante aconteceu. Castello comentou sobre como o espetáculo foi sensível ao falar de amor e ao colocar em cena um discurso de Roland Barthes que é considerado por muitos como sendo de difícil compreensão. Já Djalma Thürler opinou que o amor que estava ali em cena parecia meio mecânico e que poderia ser, de certa forma, mais ousado. Embora tenha ficado a sensação de leve tom de divergência entre os dois, vale repetir que os debates têm sido amistosos e que geralmente cada debatedor complementa o que o outro disse. Não há rixas, absolutamente. A questão não é essa, mas sim pensar aqui se essas leves divergências não estão relacionadas à formação artística ou teórica de forma geral. Por exemplo, e lá se vão as perguntas: a formação em literatura (não uma formação apenas acadêmica ou institucional, mas sim a formação de um grande leitor, que também pode ser um grande escritor) aceitaria mais tranquilamente a presença de muitos resquícios de um conto ou romance em uma adaptação cênica? Seria a formação em artes cênicas que faz o estudioso/artista dessa área considerar necessária que a adaptação cênica tenha elementos muito próprios e que não se apóie muito no texto literário? Por acaso, trata-se de um ruído de comunicação entre as duas linguagens, que talvez não permita que o diálogo entre elas seja pleno? Desde já, fica o convite para que José Castello e Djalma Thürler respondam a essas questões amanhã, na última coluna “Boca de Mateu” de 2009.

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á sobre Negro de Estimação, pode-se dizer que foi o espetáculo com menos pontos desfavoráveis citados pelos debatedores até agora. A interpretação de Kleber Lourenço foi muito elogiada tanto pelos debatedores, quanto pelo público. Inclusive, Flávio Rabelo ainda estava visivelmente impactado pelo espetáculo. Entretanto, foi com Negro de Estimação que a Aldeia 2009 talvez tenha tido o seu debate mais efervescente, com ampla participação da platéia. A questão principal discutida foi sobre o processo de criação do espetáculo de Lourenço. Afinal, por que essa pergunta do “processo de criação” sempre era repetida em todos os debates, até mesmo quando havia muitas improvisações no espetáculo, como o próprio Lourenço disse haver em sua obra? Esse questionamento, feito por Marcos Vanderlei (intérprete de Insônia) provocou diálogos calorosos entre os presentes, mas acabou divergindo do pensamento da maioria. Com divergências ou sem divergências, leves ou não, o processo criativo foi explanado e o dia foi muito produtivo, tanto para os grupos que se apresentaram, quanto para os debatedores. Ah, e para o público. (RM)

Dança circular: integração na Aldeia |Por Maryana Hayko

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origem da palavra Ciranda, segundo o Padre Jaime Diniz, pioneiro no assunto, vem do vocabulário espanhol Zaranda que designa instrumento de peneirar farinha e que seria uma evolução da palavra árabe Çarand. Na tarde de quinta-feira, dia 27, a programação do polo Jaraguá contou com a participação da Ciranda do Trabalho Social com Idosos, desenvolvido pelo SESC/AL, que, juntamente com a atmosfera descontraída criada pela intervenção urbana “De Passagem”, ajudou a abrilhantar a tarde. Trata-se de uma dança típica das praias que

apareceu, pela primeira vez, no litoral norte de Pernambuco e, logo depois, em áreas do interior da zona da mata norte do estado. E, embora muitas pessoas conheçam a ciranda como uma brincadeira infantil, na região nordeste, é conhecida como dança de adultos. A apresentação contou com o público formado pelos educandos e educadores do Ateliê SESC Aberto à Comunidade e dos moradores da Vila de Pescadores, mas o colorido das roupas, a vitalidade e disposição das integrantes, os desenhos das coreografias e a sonoridade das músicas atraíram um03 público diferenciado:

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os motoristas que, de passagem pelo bairro, não resistiram e se renderam ao parar seu trajeto, descer dos carros, ver mais de perto e até registrar o momento. A trilha sonora composta por músicas como Redescobrir, conhecida pela interpretação de Elis Regina e Ciranda da Rosa Vermelha, imortalizada na voz de Elba Ramalho, asseguraram a sintonia, energia e emoção transmitidas. Além da utilização das músicas, escolhidas criteriosamente, o público teve participação garantida ao receber o convite para compor a roda e dançar, embalado pelo ritmo e magia das famosas canções.


e tenho dito! Fabrício Alex

A sonoplastia como possibilidade de substituição da cenografia no teatro |Por Jailson Natividade*

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o teatro, a música recebe um caráter de componente orgânico, conforme Brecht em MAGALDI (1986, p.86) ou como recurso de expressão. Sendo aplicada como um recurso de expressão (música de efeito) e agregada à sonoplastia, estaria a música recebendo um caráter utilitário, meramente instrumental? O som utilizado pela sonoplastia no teatro passa a ser um recurso da própria sonoplastia, como parte da técnica e do processo de produção de efeitos sonoros, assim como, os ruídos produzidos pela sonoplastia não são música. A sonoplastia pode ser empregada no teatro de modo que venha a substituir elementos agregados ao cenário e inclusive, à própria cenografia. O som de uma porta que bate, pode substituir a existência dessa porta no cenário, assim como, uma mochila quando o seu zíper abre e fecha, pode ser substituída por uma sonoridade que identifique este elemento dentro de uma ação. Neste aspecto da relação do teatro com a sonoplastia, o espectador tem disponibilizados elementos auditivos para que elaborem em sua mente imagens visuais e também, os objetos que não estão presentes concretamente na cena, os quais por meio do som integram o ambiente cenográfico e com os atores no espetáculo. Discutir a substituição da cenografia pela sonoplastia no

teatro, não significa estar atribuindo à cenografia um caráter de menos importante, de insuficiente para suprimir as necessidades do espetáculo ou mesmo, invalidar as idéias dos cenógrafos por meio das características apresentadas pela sonoplastia. Significa utilizar recursos técnicos característicos de uma linguagem artística em lugar da outra, no intuito de gerar ações benéficas e vantajosas, por exemplo, para os pequenos grupos ou companhias de teatro. E assim, minimizar a problemática da escassez de recursos financeiros, bem como, pode possibilitar praticidade aos aspectos logísticos das montagens. Logo, o som vai direcionar ao criativo e imaginário, o qual dentro da idéia de substituição da cenografia pela sonoplastia no teatro vai constituir todo o universo cenográfico. *É professor de canto do SESC/AL

Maryana Hayko

Renato Medeiros

galeria

Renato Medeiros

Coordenador ArtísticoCultural: Guilherme Ramos Técnico de Teatro: Thiago Sampaio Técnico Assistente: Fabrício Alex Barros Estagiária de Teatro: Joelle Malta Informativo produzido pelo Serviço Planejamento Gráfico e Social do Comércio de Alagoas - Diagramação: Renato Medeiros SESC para o projeto Aldeia SESC Textos: Guerreiro das Alagoas 2009 Barbara Esteves MTE 1081/AL Fabrício Alex Barros Jacqueline Pinto O s t e x t o s a s s i n a d o s s ã o d e Joelle Malta responsabilidade dos autores e não Maryana Hayko refletem, necessariamente, a opinião do Renato Medeiros SESC Alagoas. Thiago Sampaio

expediente

O que vai rolar amanhã? Roda de Contação de Histórias com a Trupe Gogó da Ema de contadores de histórias. Das 9h às 12h, no Café e Livraria Livro Lido, Rua Sá e Albuquerque, 390, Jaraguá. Entrada franca. Mesa redonda “Das Linhas que Desenham a Aldeia” com Flávio Rabelo (AL); Djalma Thürler (RJ) e José Manoel (PE). A partir das15h, no SESC Centro. Aberto ao público. OVERDOZE. Abertura com apresentação do espetáculo Jandira, de Kleber Lourenço (PE). Das 20h do dia 29/08 às 8h do dia 30/08, no SESC Centro. Ingressos: R$ 2 – para comerciários, estudantes e idosos e R$ 5 – para usuários.Venda de ingressos apenas no dia. Mais informações: 3326.3133

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Rodapé | 08 | 2009  

Oitavo número do segundo ano do jornal Rodapé, que tem como objetivo fazer a cobertura dos 9 dias do projeto Aldeia SESC Guerreiro das Alago...