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E GS ATÁ L I LD E IU. GG I TA LO N BD O O .C . . .O M

estamos de olho

.

para que tá feio

.

. só observo

TROCAMCELULARES COMDEFEITOSEM DAVERBADOSJOGOSSERÁ TENTARCONSERTAR GASTACOMTECNOLOGIA

INTERNET FIXA: TRÊS EMPRESAS CONTROLAM DO SERVIÇO SEM TERRA: FALTA ESPAÇO, E FAZENDAS MIGRAMOFERTA PARA CIDADE GRANDE P.P.27 50

.

não julgo ninguém, mas

se ele cair quem assume é o aécio?

não sou machista, mas

81%

.

. me representa

.

.

fato! lacrou

eu ri

.

.

seje menas

.

299 297

VENDA PROIBIDA

07

UM GOVERNO CASO DE GASTA DOPING MILHÕES NO COMMUNDO DOCUMENTOS DOS GAMES INÚTEIS

19%

EDIÇÃO

ARGA TRIBUTÁRIA TRIBUTÁRIA FEDER FEDERAL AL APROX. APROX. 4,65% 4,65% CCARGA

6654

OMANDAMOS QUE VOCÊ APRENDE UM REPÓRTER COM TESTES AO SUDÃOPSICOLÓGICOS DO SUL

digitando com os pés porque com as mãos tô aplaudindo

começou o mimimi

OBSOLESCÊNCIA OLIMPÍADA PROGRAMADA

EXEMPLAR DE ASSINANTE

7248

R$14,00

ESPECIAL DOSSIÊ

OS EGOFÍSICOS ATRAPALHA QUE PROVARAM BUSCA UMA POR VIDA TEORIA FORA DE EINSTEIN DA TERRA

EDIÇÃO DIGITAL IPAD

JUN. ABR.16 16

petralha detected

parabéns aos envolvidos

sou dessas

. da série: tá tendo

.

temos um vencedor

. melhore

. fica a dica

c o m o l i d a r? . ô m i f a z e n d o o m i c e . f e m i n a z i d e t e c t e d . a s s i m f i c a d i f í c i l t e d e f e n d e r . d e u s t á v e n d o

que ano é hoje?

.

zerou a internet

.

amo/sou

.

agora virou modinha

.

aceita que dói menos

mitou . vai ter sim, e se reclamar vai ter mais . não passarão . gratidão! . melhor pessoa . não, pera

olha a vitimização

.

toma aqui o meu like

.

é o que tem pra hoje

.

não sou racista, mas...

Feministas, negros, gays, militantes de direita e de esquerda: a internet transformou todo mundo em são ativista — e isso é ótimo. Entenda Em média, as brasileiras assediadas pela primeira vez por que até os bate - boca s vir tua is for t a lecem a democr. . .VER MAIS aos 9 anos. Entenda por que a sexualização de meninas é tratada como normal e quais são as consequências disso na vida delas P. 3 8 P. 36


COMPOSIÇÃO

DIRETOR-GERAL: Frederic Zoghaib Kachar DIRETOR DE MERCADO LEITOR: Luciano Touguinha de Castro DIRETOR DE MERCADO ANUNCIANTE: Virginia Any

JUNHO 2016

ANTIMATÉRIA DIRETORA DE GRUPO CASA E COMIDA, CASA E JARDIM, CRESCER E GALILEU: Paula Perim EDITORES EXECUTIVOS: Cristine Kist (texto) e Rafael Quick (arte) EDITORES: Giuliana de Toledo, Nathan Fernandes e Thiago Tanji REPÓRTERES: André Jorge de Oliveira e Isabela Moreira DESIGNERS: Felipe Eugênio (Feu), Fernanda Didini e João Pedro Brito ESTAGIÁRIOS: Bruno Vaiano e Lucas Alencar (texto) e Giovana Ansoain (arte)

ARRUMANDO O ARMÁRIO DA BUROCRACIA P.07

COLABORADORES DESTA EDIÇÃO:

Agência Cartola, Agência Fronteira, Douglas Utescher, Elaine Guerini, Fellipe Abreu (texto). Beatriz Liranço, Bernardo Borges, Dulla, Estúdio Barca, Evandro Bertol, Guilherme Henrique, Horacio Gama, Jorge Oliveira, Marcus Penna, Moises Costa, Rafaela Alves, Rômolo, Tomás Artuzzi, Vanessa Kinoshita, Zansky (arte). Monique Murad Velloso (revisão)

VIDA DE PEDESTRE

É DIFÍCIL

CARTAS À REDAÇÃO: galileu@edglobo.com.br ASSISTENTE DE REDAÇÃO: Gabriela Nogueira

P.17 P.10

MERCADO ANUNCIANTE UNIDADE DE NEGÓCIOS — PEGN, GR, AE, GALILEU DIRETOR DE NEGÓCIOS MULTIPLATAFORMA: Renato Augusto Cassis Siniscalco EXECUTIVOS MULTIPLATAFORMA: Diego Fabiano, João Carlos Meyer, UNIDADE DE NEGÓCIOS — DIGITAL DIRETORA: Renata Simões Alves de Oliveira EXECUTIVAS DE NEGÓCIOS DIGITAIS: Andressa Aguiar Bonfim, Giovanna Sellan

Perez, Lilian Ramos Jardim e Taly Czeresnia Wakrat

CONSULTORA DE MARCAS EGCN: Olivia Cipolla Bolonha UNIDADE DE NEGÓCIOS — ESCRITÓRIOS REGIONAIS GERENTE MULTIPLATAFORMA: Sandra Regina de Melo Pepe EXECUTIVOS MULTIPLATAFORMA: Lilian de Marche Noffs e Guilherme Iegawa Sugio UNIDADE DE NEGÓCIOS — RIO DE JANEIRO GERENTE MULTIPLATAFORMA: Rogério Pereira Ponce de Leon EXECUTIVOS MULTIPLATAFORMA: Andréa Manhães Muniz, Daniela Nunes

Lopes Chahim, Juliane Ribeiro Silva, Maria Cristina Machado e Pedro Paulo Rios Vieira dos Santos UNIDADE DE NEGÓCIOS — BRASÍLIA GERENTE MULTIPLATAFORMA: Barbara Costa Freitas Silva EXECUTIVOS MULTIPLATAFORMA: Camila Amaral da Silva e

Jorge Bicalho Felix Junior

P.20

DONNIE DARKO

O RETORNO

DE ONDE VEM O ÍIDICHE?

P.13

Priscila Ferreira da Silva e Cristiane Soares Nogueira

GERENTE DE EVENTOS: Daniela Valente COORDENADORES DA OPEC OFFLINE: José Soares,

Carlos Roberto Alves de Sá e Douglas Vieira da Costa INOVAÇÃO DIGITAL DIRETOR DE INOVAÇÃO DIGITAL: Alexandre Maron GERENTE DE ESTRATÉGIA DE CONTEÚDO DIGITAL: Silvia Balieiro TECNOLOGIA DIRETOR DE TECNOLOGIA DE INFORMAÇÃO: Rodrigo José Gosling GERENTE DE TECNOLOGIA DIGITAL: Carlos Eduardo Cruz Garcia DESENVOLVEDORES: Everton Ribeiro, Jeferson Mendonça,

CHÁ DE COGUMELO

CARETA DE

BABEL

GALILEU é uma publicação da EDITORA GLOBO S.A. — Av. Nove de Julho, 5.229, 8º andar, CEP 01406-200, São Paulo/SP. Tel. (11) 3767-7000. Distribuidor exclusivo para todo o Brasil: Dinap — Distribuidora Nacional de Publicações. Impressão: Plural Indústria Gráfica Ltda. Av. Marcos Penteado de Ulhoa Rodrigues, 700, Tamboré, Santana de Parnaíba/SP, CEP 06543-001.

ATENDIMENTO AO ASSINANTE

P. 10

BANDA LARGA

MERCADO LEITOR DIRETOR DE MARKETING: Cristiano Augusto Soares Santos GERENTE DE CRIAÇÃO: Valter Bicudo Silva Neto GERENTE DE INTELIGÊNCIA DE MERCADO: Wilma Conceição Montilha COORDENADOR DE MARKETING: Eduardo Roccato Almeida ANALISTA DE MARKETING: Aline Nammur Carrijo GERENTE DE OPERAÇÕES E PLANEJAMENTO DE ASSINATURAS: Ednei Zampese GERENTE DE VENDAS DE ASSINATURAS: Reginaldo Moreira da Silva

P.11

DOSSIÊ

Leonardo Turbiani e Victor Hugo Oliveira da Silva OPEC ONLINE: Danilo Panzarini, Higor Daniel Chabes, Rodrigo Pecoschi, Rodrigo Santana Oliveira e Thiago Previero

ACORDO DE PARIS P.14

PREPAREM AS TOALHAS

P.21

VISTA A CAMISA DA MACONHA P.15

P. 24 P. 27

Disponível de segunda a sexta-feira, das 8 às 21 horas; sábados, das 8 às 15 horas. INTERNET: www.sacglobo.com.br SÃO PAULO: (11) 3362-2000 DEMAIS LOCALIDADES: 4003-9393* FAX: (11) 3766-3755 *Custo de ligação local. Serviço não disponível em todo o Brasil. Para saber da disponibilidade do serviço em sua cidade, consulte sua operadora local.

DENTRO DA CAIXA

PANORÂMICA P.88

PARA ANUNCIAR LIGUE: SP: (11) 3767-7700/3767-7500 RJ: (21) 3380-5924 E-MAIL: publigalileu@edglobo.com.br PARA SE CORRESPONDER COM A REDAÇÃO: endereçar cartas ao Diretor de redação, GALILEU. Caixa postal 66011, CEP 05315-999, São Paulo/SP. FAX: (11) 3767-7707 E-MAIL: galileu@edglobo.com.br As cartas devem ser encaminhadas com assinatura, endereço e telefone do remetente. GALILEU reserva-se o direito de selecioná-las e resumi-las para publicação. EDIÇÕES ANTERIORES: o pedido será atendido por meio do jornaleiro pelo preço da

CURTO-CIRCUITO

ELEMENTAR

P. 26

edição atual, desde que haja disponibilidade de estoque. Faça seu pedido na banca mais próxima.

O Bureau Veritas Certification, com base nos processos e procedimentos descritos no seu Relatório de Verificação, adotando um nível de confiança razoável, declara que o Inventário de Gases de Efeito Estufa — Ano 2012 da Editora Globo S.A. é preciso, confiável e livre de erro ou distorção e é uma representação equitativa dos dados e informações de GEE sobre o período de referência para o escopo definido; foi elaborado em conformidade com a NBR ISO 14064-1:2007 e Especificações do Programa Brasileiro GHG Protocol.

O FUTURO DO

P.87


De Rebecca Donovan, autora best-seller da trilogia Breathing

E s E v o c ĂŞ t i v Es s E u m a s E g u N d a c h a N c E d E c o N h Ec E r a lg u ĂŠ m p E l a p r i m E i r a v E z ?

e

e


PRIMEIRAMENTE 06. 2016

COLABORADOR DO MÊS

CAPA FOTO Tomás Arthuzzi MAQUIAGEM Moisés Costa MODELO Rafaela Alves

W W W.G ALILEU.GLOBO.COM

POR CRISTINE KIST E RAFAEL QUICK

1

2

PARTY IN THE USA A editora de arte Fernanda Didini foi a Nova York acompanhada do agora ex-editor executivo Rafael Quick e do designer Rodolfo França para participar da cerimônia de premiação da Society of Publication Designers (SPD). GALILEU recebeu três reconhecimentos de excelência pelo novo projeto gráfico, que estreou em novembro.

NÃO APRENDI DIZER ADEUS, MAS TENHO QUE ACEITAR

pânico: em seu lugar ficou a excelente Fernanda Didini, que já era designer da revista e colaborou muito na última mudança

Fellipe Abreu PROFISSÃO Fotojornalista IDADE 31 anos ONDE MORA São Paulo QUANTOS PAÍSES CONHECE 22 Fellipe passou duas semanas no Sudão do Sul , o quarto país mais violento do mundo, para fazer a reportagem que você lê na página 54.

AMO/SOU CORRENTE DE WHATSAPP Em maio, uma matéria antiga do nosso site sobre uma tempestade solar recebeu mais de 700 mil cliques sem explicação. Descobrimos mais tarde que uma corrente do WhatsApp dizia que a tal tempestade seria “hoje” e pedia que os usuários desligassem o celular para que ele não estragasse.

de projeto gráfico.

aio foi um mês de

Foi também a Fernanda que

muitas mudanças na

fez a (linda) capa desta edição.

GALILEU. Nathan

Com a promoção dela e a che-

Fernandes, que se participasse

gada de Giuliana, estamos — ao

de um reality show poderia ser

contrário do ministério forma-

classificado tanto como jorna-

do pelo presidente interino

lista quanto como “personalida-

Michel Temer — mais perto de

de da mídia”, tamanho é o seu

alcançar um ambiente de igual-

fã-clube na internet, assumiu

dade numérica entre homens e

a edição do nosso site. Para o

mulheres. O resultado disso são

lugar dele na revista veio Giu-

reportagens como a que você lê

liana de Toledo, ex-repórter

na página 36 e a mudança de

da Folha de S.Paulo e uma das

alguns lugares-comuns do jor-

pessoas mais talentosas que já

nalismo, como uma regra criada

conheci. Neste mês, ela chegou

sabe-se lá por quem que deter-

aos 48 do segundo tempo e já

mina que, enquanto os entre-

editou a reportagem especial

vistados homens são tratados

sobre Olimpíadas (página 70).

pelo sobrenome, as mulheres

Enquanto isso, tal qual um vo-

são citadas sempre pelo pri-

calista de banda de axé, Rafael

meiro nome. É só um pequeno

Quick resolveu seguir carreira

passo na direção da igualdade,

solo depois de um ano brilhante

mas, em época de tantos passos

à frente do núcleo de arte da

para trás, já é melhor que nada.

M

O LIXO E O LUXO É a segunda vez em menos de três meses que a GALILEU recorre ao Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (Cedir) da USP para uma matéria. Na edição de abril, o órgão foi fonte para o Dossiê Obsolescência Programada. Neste mês, cedeu seu acervo para as fotos de outro dossiê, este sobre banda larga (p. 27).

GALILEU. O título deste texto, por sinal, faz referência à saída

Cristine Kist

dele. Mas não há motivo para

ckist@edglobo.com.br

REVISTA NÃO É PASTEL

Fazer revista é um trabalho complicado. Todo mês, nós aqui da GALILEU temos que criar mais de 80 páginas de conteúdo relevante, bem escrito e bonito. É uma grande responsabilidade: dinheiro, papel, tinta, transporte. E, claro, existe a pressão para transmitir a informação correta para quem nos lê. Tudo o que escrevemos nestas páginas é absorvido por milhares de pessoas que nos confiam tempo — e dinheiro — a cada edição. Temos ainda mais respeito por nossos 90 mil assinantes, que pagam com antecedência sem saber sequer qual vai ser a capa dos meses seguintes. E é aí que nosso trabalho fica complicado. Como disse antes, nós fazemos um produto diferente. Não é pastel, não é sabonete, é revista. A constante aqui é a mudança, temos que abordar novos assuntos todos os meses. Como então podemos honrar nosso compromisso

e entregar a vocês o produto que esperam? Mais do que jornalistas e designers, somos leitores da GALILEU. Para manter esta revista viva e se reinventando precisamos de pessoas que estejam aqui com todo o coração. É por esse motivo que escrevo hoje para me despedir e abrir espaço para outra pessoa brilhar: a talentosíssima Fernanda Didini. Assumi a direção de arte há um ano, com o objetivo de reposicionar a revista, dar a ela além de uma cara nova, relevância. Hoje saio com a sensação de missão cumprida, não só pelo trabalho que fiz mas também por ver aqui uma equipe capaz de continuar melhorando a cada edição. Duvida? Basta olhar esta edição, que já foi feita toda por eles. É muito orgulho! A todos, um grande abraço (já com saudades),

Rafael Quick


POR NATHAN FERNANDES

POR NATHAN FERNANDES

CONSELHO

Edição mai./2016

Depois de muita ponderação, escolhemos os consultores mais implacáveis do Brasil para avaliar a revista nos próximos meses

OS BONS CONSELHEIROS

ÁREAS DE INTERESSE

CIDADE/ESTADO Número de inscritos por estado

22%

Tecnologia

27%

Astronomia

1

8

8

5

Biologia 8

3 6

1 1

Jornalismo

2

5

História 19

Psicologia

4

86

55

5

Filosofia

6

Total

QUAL FOI A COISA MAIS LEGAL QUE VOCÊ JÁ FEZ NA VIDA?

3%

Ocultismo

0,3% 0,3%

Linux

35%

Viajar

15%

Trabalho voluntário

17%

Estudar

Tocar em uma banda

3% 5% 0,3%

258

Nascer

14%

Permacultura

25

Formar família

3% 5%

Direito

4

3

17,1%

Matemática

3

MATÉRIAS MAIS ELOGIADAS 35% GÊNERO 15% CIENTISTAS DESCOBREM BURACO NEGRO FORMADO POR TRÊS GALÁXIAS ESPIRAIS

5% 7%

22% O BANDIDO ESTÁ MORTO

8%

Construir um HAL 9000

0,3%

5% PRESIDIÁRIAS BRASILEIRAS

Treinar arte samurai

0,3%

10% ATIVISMO VIRTUAL

Fumar cânhamo na Pedra do Arpoador

0,3%

2% A PSICOLOGIA APLICADA A EDUARDO CUNHA 7% MÁ-FÉ

OS ESCOLHIDOS

1% A ERA DA AUTODESTRUIÇÃO

06

Antonio M. Júnior Matão, SP Camila Acosta São Paulo , SP

Daniela M. de Morais Campinas, SP Ellen R. da Silva Goiânia, GO

Camila Oliveira Porto Alegre, RS Daniel Oshiro São Paulo, SP

Gislaine Basto Milani Maringá, PR Jean S. dos Santos Maceió, AL

João Bonorino Porto Alegre, RS

Kelly Miranda São Paulo, SP

João V. Ravaneda Rio de Janeiro, RJ Júlia C. de Castro Belém, PA

Lilian Capitanio Diadema, SP Lucas Martins Costa Teresina, PI

Juliano Santanna Rio de Janeiro, RJ

Marlon Neto Curvelo, MG

Orlando Lustosa Piripiri, PI Sávio Félix Mota Fortaleza, CE Thyago Nogueira Fortaleza, CE

Os integrantes foram escolhidos com base nas inscrições no site. A próxima temporada começa em janeiro de 2017.

3% O QUE SERÁ DE MARIANA DEPOIS DE TANTA LAMA ERRAR É HUMANO O histerometro é utilizado antes da curetagem, e não após como consta no texto Dossiê: Aborto (edição 298)


06.2016

Pg. 07

EDIÇÃO NATHAN FERNANDES E THIAGO TANJI

ANTIMATÉRIA

Fig. 01 -R

CIDADES DE PAPEL

06.2016

Cerca de 80% dos documentos guardados no Arquivo Público de SP são inúteis: é temporada de caça à burocracia — POR BRUNO VAIANO

DESIGN BERNARDO BORGES

ILUSTRADORES CONVIDADOS 1 2 3

ROMOLO (R) GUILHERME HENRIQUE (GH) HORÁCIO GAMA (HG)


1.083,98TON Pg. 08

06.2016

é o peso do papel eliminado dos órgãos públicos de São Paulo. É só 2% do que poderia ir para o lixo. Você abre o armário. Uma pilha de roupas amas-

R$ 850 mil para fazer a manutenção do local. A eco-

sadas escorrega e cai aos seus pés, anunciando a

nomia de quase R$ 1 milhão para o estado paulista,

inevitável bagunça. Deu preguiça só de pensar em

porém, é só a ponta do iceberg para os arquivistas.

arrumar tudo isso? Marcelo Henrique de Assis, di-

Em 2015, o Apesp ajudou a descartar 151.555 cai-

retor do Centro de Gestão Documental do Arquivo

xas de arquivo inúteis de órgãos públicos. Empilhadas,

Público do Estado de São Paulo (Apesp), conhece

elas alcançariam 20 mil metros, ou mais de duas ve-

essa sensação como ninguém. Em 2010, sua equipe

zes a altura do Monte Everest. Foi um recorde. Em

abriu o “armário” de documentos do Departamento

2013, 57.130 caixas foram eliminadas; em 2014, 75.532.

de Trânsito de São Paulo, o Detran: a ideia era dar

“Nós verificamos, em 2010, 800 quilômetros de docu-

uma mãozinha na arrumação dos papéis do órgão,

mentos guardados em órgãos públicos. E nossa nova

desenvolvendo uma tabela que explica quanto tem-

estimativa é de mil quilômetros, mais ou menos. É pro-

po um determinado documento precisa ou não ficar

vável que 80% disso possa ser descartado sem prejuí-

guardado antes de ser descartado de acordo com

zo”, explica Assis, completando o raciocínio com uma

critérios de relevância jurídica e cultural — uma

conta rápida: “Isso dá 7.142.857 caixas de arquivo”.

ciência chamada arquivologia. Cinco anos depois, o

Como chegamos a esse ponto? “No setor público,

método deu certo e 82.157 caixas de arquivo, reple-

tudo que acontece é registrado, mas os instrumentos

tas de pedidos de CNH, multas, ofícios, cartas e até

que dão respaldo legal e social à eliminação de docu-

abaixo-assinados, foram enviadas para reciclagem.

mentos não existiam até 2004”, explica o arquivista.

Nada disso tinha validade legal ou histórica. Os gal-

Ou seja, sempre produzimos documentos, mas faz só

pões que essa papelada ocupava eram alugados por

dez anos que há uma forma de saber o que pode ou

R$ 125 mil mensais, e uma empresa cobrava outros

não ser descartado. O raciocínio é simples: ninguém

3,5

milhões de documentos de pessoas, partidos políticos, empresas e movimentos sociais de interesse dos órgãos de repressão acumulados pelo Deops. O órgão da polícia civil paulista era responsável pela manutenção da ordem social e política. Fundado em 1924 e encer-rado em 1983, com o processo de democratização.


NELADAS

06.2016

Pg. 09

O Arquivo Público de São Paulo é o único do Brasil cuja estrutura física foi projetada especialmente para armazenar artefatos históricos. Ele contém...

mapas, plantas, croquis e esboços produzidos entre os séculos 16 e 19

caixas de arquivo fotografias, negativos, filmes e ilustrações

documentos

Ciências da Informação na USP. “Antes, quando um rolo de filme tinha apenas 12 ou 24 poses, tomávamos muito cuidado com cada clique. Agora, tiramos 10 mil fotos, mas qual parcela disso é relevante? Não podemos digitalizar lixo só porque há espaço.” O rápido processo de obsolescência e a dificuldade de garantir a autenticidade e evitar a adulteração de documentos no meio virtual também são problemas. Hoje, podemos saber como e quando nossos bisavôs chegaram ao Brasil ao abrir um livro de registro com mais de

joga fora a nota fiscal de uma geladeira ou fogão antes

um século de idade. Um disquete com essas mesmas

do término da garantia. Mas se você não soubesse a

informações, entretanto, não poderia ser lido por pra-

duração da garantia, guardaria a nota por tempo inde-

ticamente nenhum computador atual. Se o papel tem

terminado. Imagine agora que, em vez do conserto de

o inconveniente de ocupar espaço, ele também é me-

um eletrodoméstico, estivesse em jogo um documen-

nos suscetível ao tempo e a adulterações.

to capaz de provar um crime ou um papel que registra

Com quilômetros de prateleiras, temperatura e umi-

parte da história do país. Desde a década de 1940, com

dade controladas e um silêncio sepulcral, o Arquivo

a ampliação das funções do Estado, o número de itens

Público paulista não parece um dos lugares mais fas-

que é “melhor guardar” aumentou vertiginosamente.

cinantes para visitação. Mas, muito além de guardar a

“O senso comum vê o documento como algo inútil,

história das instituições, ali está a história de cada um

mas ele assegura a vida em sociedade, os direitos e

de nós. “A partir dos anos 1990, após a queda do Muro

deveres das pessoas”, afirma Ieda Pimenta Bernardes,

de Berlim, surgiu na Europa a expressão ‘arquivos sen-

doutora em História Social pela Universidade de

síveis’, ou seja, documentos que mexem com a vida

São Paulo (USP) e responsável pela implantação

das pessoas”, destaca Marcelo Quintanilha Martins,

do Sistema de Arquivos do Estado de São Paulo, o

diretor do acervo permanente do Apesp, onde boa par-

Saesp. Produzir documentos demais não é errado,

te da história de São Paulo está guardada, de censos

mas precisamos saber quando cada um deles deixa

demográficos do século 18 aos arquivos da Ditadura

de ser útil, buscando formas eficientes de processá-

Militar, procurados até hoje por quem busca o para-

-los e armazená-los que considerem as políticas de

deiro de presos políticos. Ali, até mesmo as lacunas

transparência e acesso à informação. Ler e interpre-

deixadas por momentos políticos mais conturbados

tar papéis burocráticos não é uma atividade das mais

são parte da história: afinal, um governo que nada

divertidas, mas disponibilizá-los à população é um

registra diz muito sobre si mesmo.

dever de qualquer Estado democrático.

Um papel de alguns séculos de história é visto como

Parte da solução para o armazenamento de infor-

uma relíquia, não importa sua relevância. Mas quase

mações poderia estar na digitalização dos arquivos,

ninguém percebe que, daqui a cem anos, um documen-

mas o critério para seleção e arquivamento de docu-

to emitido hoje também será uma recordação do passa-

mentos é mais importante do que a plataforma dos

do. É preciso limpar o armário e separar o útil do inútil,

registros. “Digilitalizar é como fotografar com o ce-

para dar às próximas gerações um retrato transparente

lular”, explica Francisco Carlos Paletta, professor de

de nosso tempo. Portanto, guarde bem esta revista.


Pg. 10

06.2016

NOTÁVEIS BOA ESPERANÇA

Dispositivo desenvolvido por biomédica brasileira identifica até 18 tipos de câncer em estágio inicial, em um procedimento que dura apenas 15 minutos

FIG. 03 - HG

POR LUCAS ALENCAR

A CIENTISTA pernambucana Deborah Zanforlin iniciou uma nova etapa na luta da ciência contra o câncer: ela é a criadora do chip ConquerX, dispositivo que informa, em 15 minutos, se o paciente apresenta algum tipo de câncer em estágio inicial — um biossensor mapeia marcadores sanguíneos que podem indicar 18 tipos da doença. Por ser portátil, o dispositivo será utilizado em lugares onde o acesso a exames como tomografia e mamografia são restritos. Premiada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em 2015, Deborah decidiu globalizar seu projeto. Para fazer os testes finais do ConquerX, a cientista formou uma sociedade com profissionais

eslovacos, vietnamitas, espanhóis e argentinos. Atualmente, a equipe espera o término do processo de patenteamento do dispositivo e autorizações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (AnviNOME sa) para começar a Deborah Zanforlin produzir e utilizar o NACIONALIDADE chip. De acordo com Brasileira a pesquisadora, IDADE pacientes que des25 anos cobrem um câncer PROFISSÃO Biomédica precocemente têm as chances de soFEITO Criou um brevivência aumendispositivo que detecta 18 tadas em até 70%. tipos de câncer

FIG. 03 -GH

CIÊNCIA CARETA EXPRESSÃO FACIAL QUE INDICA AQUELA CARA DE QUEM COMEU E NÃO GOSTOU É UNIVERSAL, EXPLICAM ESPECIALISTAS EM LINGUAGEM POR NATHAN FERNANDES

A CARA QUE VOCÊ FAZ QUANDO lhe pedem dinheiro

interessados em psicopatolo-

emprestado pode representar o futuro dos estudos de

gias”, diz Martinez, explican-

linguagem. Pesquisadores da Universidade estadual de

do que o conhecimento das

Ohio, nos Estados Unidos, descobriram uma expres-

expressões faciais auxiliaria

são facial cuja função gramatical é entendida em to-

no diagnóstico de doenças de

dos os idiomas. “Isso nos dá um caminho para des-

maneira mais rápida e precisa.

vendar a evolução da linguagem, que é um dos maiores

Nas próximas etapas do tra-

mistérios da ciência”, afirma o coordenador do estudo,

balho, os pesquisadores estu-

Aleix Martinez, que é cientista cognitivo e professor de

darão como a comunicação se

Engenharia da Computação. Batizada de not face, a ex-

originou entre os seres huma-

pressão que denota desagrado é considerada uma mis-

nos e quais foram as princi-

tura de raiva, nojo e desprezo. “Nosso principal objetivo

pais mudanças de acordo

é entender a cognição humana, mas também estamos

com a evolução cultural.


06.2016

Pg. 11

MEDICINA PSICODÉLICA

Fontes: World Happiness Report

Alemanha 6.994

Brasil 6.952

16°

17°

Israel 7.267

guém feliz. Entre as metas dos pesquisadores está a elaboração de um abrangente índice científico da felicidade. O dinheiro para a criação do centro veio da família Lee Kum Kee, magnata da indústria de molho de ostras da China. Uma coisa é certa: a doação de U$ 21 milhões deve ter deixado o reitor de Harvard bastante feliz.

11°

A CIÊNCIA estuda como superar problemas da humanidade, tais como doenças, pobreza e violência. Mas por que não estudar também elementos positivos, como a felicidade? Criado no final de abril, o Centro Lee Kum Sheung para a Saúde e Felicidade realizará uma abordagem multidisciplinar para estudar os fatores que fazem al-

Holanda 7.339

Número de mulheres empossadas como ministras pelo governo de Michel Temer

Família chinesa doa milhões para financiar um centro de estudos sobre felicidade — POR ANDRÉ JORGE

NOTA GERAL DOS PAÍSES MAIS FELIZES

0

HARVARD SORRIDENTE

NADA É MAIS CATASTRÓFICO na vida moderna do que ver os dois riscos azuis do WhatsApp e não receber uma resposta imediata. Para resolver esse e outros problemas, psicólogos da universidade suíça de Zurique descobriram que cogumelos alucinógenos são um potente antídoto contra a rejeição. Os especialistas compararam a atividade cerebral de voluntários que receberam,

em ocasiões distintas, doses do fungo da alegria e de um placebo, enquanto jogavam um game online de interação social. Escaneando seus cérebros, os psicólogos notaram diferenças na atividade daqueles que receberam os cogumelos: eles eram menos afetados pelas demonstrações de rejeição do jogo e adquiriam um senso maior de comunidade. Tudo graças a uma substância chamada psilocibina. A descoberta é importante porque permite estudar áreas do cérebro que são impactadas por esse sentimento que influencia doenças como depressão e ansiedade. “A ideia não é usar a psilocibina como um tratamento”, afirma à GALILEU a psicóloga Katrin Preller, que liderou o estudo. “Queremos investigar os mecanismos que influenciam o sentimento de exclusão social para identificar como curar isso no futuro.” Vale lembrar que o efeito só ocorre com a dose adequada administrada por especialistas, e não por amigos entusiasmados ao som de Lucy in the Sky with Diamonds.

Dinamarca 7.526

POR N.F.

FIG. 03 - R

Cogumelos alucinógenos são testados para ajudar a combater rejeição


Pg. 12

06.2016

GIGANTE FUJÃO

Astrônomos estão convencidos de que o Planeta Nove existe. Mas, até agora, ninguém conseguiu encontrá-lo

LUNETA

UM ESTRANHO ALINHAMENTO nas órbitas de seis objetos do Cinturão de Kuiper (KBOs), o longínquo reino de Plutão, levantou suspeitas de que o POR ANDRÉ JORGE Sistema Solar possa ter um planeta extra: afinal, só a gravidade de um corpo gigante poderia causar um efeito desse tipo. O fenômeno foi notado em janeiro deste ano por dois astrônomos do Instituto de Tecnologia da Califórnia, Konstantin Batygin e Mike Brown (esse segundo, o responsável pelo rebaixamento de Plutão como planeta em 2006). Encontrar o planeta seria um legado e tanto para Brown, que vê a caça como uma diversão. “Pensar em como o Planeta Nove afeta KBOs é algo que realmente me distrai, eu recomendo”, tuitou. Apesar de ser quatro vezes maior e dez vezes mais massivo que a Terra, o planeta não foi encontrado até agora porque está, li-

teralmente, nos confins do Sistema Solar: sua órbita é, em média, 700 vezes mais distante do Sol que a terráquea, e ficaria 20 vezes mais longe que Netuno, o último dos gigantes gasosos conhecidos. A enorme distância faz com que esse mundo reflita pouca luz solar, sendo muito difícil achá-lo com um telescópio convencional. Os cientistas acreditam, entretanto, que o planeta emita calor interno, sendo capaz de aparecer em análises de radiação infravermelha. Estudos teóricos já descobriram coisas como detalhes da órbita e das propriedades físicas do Planeta Nove (veja infográfico abaixo). Respostas mais concretas só virão, é claro, quando alguém encontrar esse gigante fujão.

ESTÁ NO BOLSO O minissatélite SunCube permitirá que qualquer pessoa explore o espaço

Desenvolvido em um laboratório da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, o pequenino SunCube pesa 35 gramas, mas conta com

FOCO NO GRANDÃO

todos os equipamentos

Ele pode estar sumido, mas suas pistas não: saiba o que os astrônomos descobriram sobre o Planeta Nove

que uma espaçonave deve ter: antenas de rádio, minipainéis solares, espaço de carga para experimen-

Órbita do Planeta 9

tos científicos e combustível. “A tecnologia do SunCube deriva dos eletrônicos miniaturizados

Localização possível Localização mais provável

que se tornaram acessíveis graças ao amplo uso de smartphones”, afirma

Saturno

Jekan Thanga, engenheiro

Localização possível

Localização descartada

aeroespacial que encolheu

Sol

Urano

o satélite. Ainda duvida que, em breve, qualquer

núcleo de ferro

Netuno

pessoa poderá ter a próLocalização possível

pria sonda fora da Terra? O grupo estima que, com apenas mil dólares, seja

gelo (água)

manto de silicato

possível levar o equipamento até a Estação

Localização descartada

Espacial Internacional

camada gasosa (H/He)

e, com três vezes esse valor, colocá-lo em uma

Jun. 2016

AGENDA

atmosfera (H/He)

O DIA DE SATURNO Melhor dia do ano para observar o planeta dos anéis. Saturno entra em oposição e fica mais próximo da Terra. Visível a noite toda, surge no leste logo após o pôr do sol.

3

LUA E ESTRELA Após o anoitecer, uma “estrela” bem brilhante estará visível logo ao lado da Lua crescente. Na verdade, não é nenhuma estrela, mas sim o planeta Júpiter, em conjunção.

11

órbita terrestre baixa.

O INVERNO CHEGOU A noite mais longa do ano marca o solstício de inverno. O lema dos Stark, de Game of Thrones, agora vale para o Hemisfério Sul. Uma coincidência: a Lua estará cheia.

20


06.2016

QUÍMICA DO BEM

Pg. 13

Rota da Seda Outras rotas comerciais

Substâncias utilizadas em diferentes atividades econômicas passarão por transformações nas próximas décadas

ALQUENO Para produzir plásticos como polipropileno e polietileno é necessária uma reação química que produz o composto alqueno, em um processo que utiliza cerca de 0,3% da energia consumida no mundo, anualmente. Encontrar uma alternativa para essa reação é essencial para diminuir o gasto de energia.

Iskenaz

M

Eskenaz

ÊN IA

ESTUDO GENÉTICO SUGERE NOVA TEORIA PARA EXPLICAR A ORIGEM DO IÍDICHE, MISTERIOSA LÍNGUA FALADA POR GRUPOS JUDAICOS HÁ SÉCULOS

AR

BENZENO Esses compostos são usados como essências na manufatura de tipos de plástico e solventes. Para separar suas moléculas, gasta-se cerca de 50 gigawatts, energia suficiente para alimentar 40 milhões de residências. Pesquisas com o objetivo de diminuir o uso de energia nesse processo estarão em foco nos próximos anos.

NA PONTA DA LÍNGUA

Ashanaz Ashkuz

TURQUIA

POR A.J. COM MAIS DE 1 MILHÃO de falantes em comunidades judaicas do mundo todo, o

SÍRIA

I

QU RA

E

iídiche intriga os linguistas por conta da LANTANÍDEOS Essenciais para a confecção de ímãs e lâmpadas fluorescentes. Mas os processos químicos para lapidar essas substâncias geram detritos radioativos e são caríssimos. É necessário desenvolver estruturas que substituam os lantanídeos.

ÁGUA O processo de dessalinização ainda é muito caro e depende de alto gasto de energia. A destilação da substância não é a resposta, já que utiliza grande quantidade de energia e produz pouca água potável.

imprecisão de sua origem: por ter fortes

isso está de acordo com documentos histó-

traços germânicos, o dialeto é considerado

ricos”, afirma Elhaik. Localizados há mais

uma espécie de alemão escrito em alfabeto

de mil anos no nordeste do atual território

hebraico, com pitadas de outras linguagens.

da Turquia, os povoados ficavam em uma

Porém, pesquisadores liderados por Eran

área cortada por caminhos que levavam à

Elhaik, geneticista da universidade britâ-

Rota da Seda, por onde circulavam mer-

nica de Sheffield, têm motivos para acre-

cadorias entre a Europa e o Oriente (veja

ditar que a língua teria surgido bem lon-

mapa). O estudo sugere que o iídiche teria

ge da Alemanha. Em artigo publicado no

sido criado como uma estratégia para ga-

periódico Genome Biology and Evolution, o

rantir o domínio dos judeus asquenazes no

grupo explica como usou um algoritmo que

comércio da região, ao se comunicarem de

extrai informações geográficas do material

um jeito que ninguém entendesse. Segundo

genético para obter o local de origem dos

Elhaik, a origem mercantil explicaria o fato

criadores do iídiche. “O DNA de judeus as-

de o idioma ter 251 termos que se referem

quenazes está mapeado precisamente em

a “compra” e “venda”. “Demonstramos o

quatro antigos vilarejos cujos nomes pro-

uso de ferramentas genéticas biogeográ-

vavelmente derivam da palavra Ashkenaz, e

ficas para estudar a origem de línguas.”


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CARTOGRÁFICO

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POR CLARISSA BARRETO

RANKING DA TRAGÉDIA

HOLANDA (50º) Além de o país ficar muito próximo e até abaixo do nível do mar, ele é alagadiço. Por isso, a Holanda é repleta de diques e represas na tentativa de segurar a força das águas.

Levantamento mostra países mais suscetíveis a vulcões e tsunamis O World Risk Report 2015, levantamento feito pelo Institute for Environment and Human Security, ranqueia 171 países para saber quais estão mais expostos às consequências de desastres naturais. Para isso, analisa não só a frequência das tragédias como a vulnerabilidade das populações — quanto mais pobres, mais sofrerão as consequências. São incluídos no cál-

R A N K I N G

culo dados de infraestrutura, moradia,

171º lugar

saúde e educação. De acordo com o último levantamento, o destino das ilhas

CHILE (27º) Um terremoto que matou 500 pessoas em 2010 acendeu o alerta no país: foi detectada uma falha geológica na capital Santiago.

100º a 170º

do globo terrestre não é dos melhores: quatro dos cinco países com maior vul-

50º a 99º

nerabilidade em desastres naturais do mundo são arquipélagos do Oceano

BRASIL (123º) Sem grandes chances de terremotos, sem vulcões e sem placas tectônicas, o Brasil tem a vida ganha no ranking de risco de desastres naturais.

1º a 49º

Pacífico, que enfrentam tempestades, tufões, vulcões e tsunamis. 160O

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“O TRABALHO DURO COMEÇA AGORA”

O Acordo de Paris foi uma vitória diplomática para os ambientalistas. Agora é hora de os países cumprirem as promessas POR BRUNO VAIANO

acordo ambiental de Paris,

“Nós já sofremos os impactos da mudan-

assinado por 177 países no

ça climática, e eles vão aumentar indepen-

dia 22 de abril, ainda não sal-

dentemente do que fizermos de agora em

vou o planeta. Mas já é um

diante para reduzir emissões de carbono”,

grande passo para a confirmação diplo-

afirma Rachel Cleetus, especialista em po-

mática de compromissos ambientais as-

líticas climáticas da Union of Concerned

sumidos internamente por nações como

Scientists (UCS). “Precisamos fazer muito

China, Índia e Estados Unidos. A questão,

mais, e muito mais rápido.” Cada país é livre

agora, é se essas medidas serão aplicadas

para definir as próprias metas e nada além

até a próxima revisão de metas, em 2020.

de pressão diplomática os força a cumprir

E o mais importante: se os acordos serão

o acordo. “Demonstrar progresso nacional-

suficientes para evitar que a temperatura

mente dá credibilidade na arena internacio-

média do globo suba mais que 2°C.

nal”, diz Cleetus. É pagar para ver.

O

FIG. 03 -FD

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O

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S

VANUATU (1º) O conjunto de 83 ilhotas fica no Oceano Pacífico. O país é cheio de vulcões que podem entrar em erupção, além de ter propensão a terremotos e tsunamis.

CATAR (171º) Lotado de petróleo e gás natural, o país é uma ilha de tranquilidade no Oriente Médio: não há previsão de grandes variações climáticas e outros desastres.

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LEGALIZADO?

China substituirá o algodão por cânhamo, planta da família da maconha – POR C.B.

M

aior produtora, consumidora e importadora de

algodão do planeta, a China está de olho no cânhamo, fibra fabricada com a planta que dá origem à maconha, para substituir o tecido tradicional. Primeiro brasileiro a investir na liberação da

maconha para uso recreativo no Uruguai, o empresário carioca Fábio Bastos está atento a esse mercado. Dono da empresa de nome autoexplicativo Sediña, ele vem trabalhando em parceria com o China’s Hemp Research Centre, instituto do governo que estuda os diferentes usos da cannabis. De acordo com o órgão, 1,3 milhão de hectares de maconha plantada substituiriam 5 milhões de hectares destinados ao algodão, sobrando mais terra para o plantio de alimentos. O consumo e a posse da erva para fins recreativos são proibidos

no país asiático. Mas as camisetas estão legalizadas.

FIG. 02 - R


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MENOS É MAIS

Construir mais avenidas não diminui o trânsito nas metrópoles POR CLARISSA BARRETO

Sabe quando você está andando a 15 quilômetros por hora no engarrafamento e pensa como seria bom se derrubassem os prédios ao redor e construíssem mais uma pista para diminuir o gargalo de carros? A realidade não é tão simples: um relatório divulgado pelo estado norte-americano da Califórnia indicou que, ao adicionar 10% de novas rodovias, o tráfego total de carros aumentou 9% em quatro anos. Ou seja, em um prazo médio o benefício zera: é só o tempo de os motoristas descobrirem a nova rota. A ampliação da oferta do transporte público e a redução da velocidade nas grandes vias ainda são as melhores medidas para enfrentar esse problema.

TÁ TRANQUILO, TÁ FAVORÁVEL Ciência e soluções estão em alta: crise não quebrou as pernas das startups nacionais de tecnologia, como a 99Taxis POR BRUNO VAIANO

A CRISE ECONÔMICA É COMBUSTÍVEL para as startups brasileiras. “O alto grau de inovação torna essas empresas mais atraentes em momentos de crise”, diz Artur Vilas Boas, do Núcleo de Empreendedorismo da USP. Afinal, no aperto, quem perderia uma chance de economizar? “Desde 2015 tivemos boas rodadas de investimentos nas startups formadas por alunos da USP, como a 99Taxis”, afirma o especialista. Bruno Ramos, do Encontre um Nerd, aplicativo para usuários encontrarem técnicos de informática, comemora os resultados deste ano. “As startups atingem cada vez mais pessoas a um custo relativamente baixo.” Crise também pode ser oportunidade.


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BIG DATA SÓ PARA PEDESTRES

Startup do Quênia mapeia os atropelamentos na capital do país e ajuda a evitar acidentes POR C.B.

Quase metade dos 3 mil mortos por ano em acidentes de trânsito no Quênia estavam a pé — o número é bem superior aos 39% registrados em todo o continente africano, de acordo com a publicação Quartz Africa. Em uma tentativa de superar esse problema, a startup queniana Ma3Route analisou dados de tráfego e acidentes no país e, com as informações dos 500 mil usuários que utilizaram a plataforma ao longo de seis meses, criou um site que apresenta os mapas dos acidentes na capital, Nairóbi. Com esse projeto de big data descobriu-se que quase metade dos acidentes ocorreram a 500 metros de uma passarela: os pedestres se sentiam inseguros para atravessar essas construções por medo da violência. Os pesquisadores sugeriram ao poder público criar faixas de pedestres com maior frequência nas vias, além de investir em iluminação pública e infraestrutura urbana.

A CIDADE NA PALMA DA MÃO Novos aplicativos de mobilidade ganham as ruas brasileiras BLABLACAR

Com mais de 20 milhões de usuários no mundo, o serviço permite que o condutor do carro publique o trajeto e combine um ponto de encontro com o passageiro. O valor da “carona” é sugerido pelo aplicativo.

T81

Lançado no final de março na cidade pernambucana de Jaboatão dos Guararapes, o aplicativo oferece transportes compartilhados. A empresa afirma que o valor da corrida é até 60% menor do que o de táxis.

MAVEN

Desenvolvida pela General Motors e em testes no complexo industrial da empresa, na cidade paulista de São Caetano do Sul, a plataforma conta com um aplicativo para localizar veículos disponíveis para locação.

CICLOWATCH

O projeto coletará informações sobre o uso de bicicletas nas cidades do país a partir da instalação de um aplicativo. Com os dados coletados, o serviço fornecerá as melhores rotas para os ciclistas.


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06.2016

POR LUCAS ALENCAR E BERNARDO BORGES

primeiro Publicação do italiano dicionário de

O período colonial, a dificuldade em combater o analfabetismo e o alto preço dos livros explicam o atraso do desenvolvimento da literatura brasileira

ta, de e Julie Romeu Shakespeare William

ALGUMAS PÁGINAS ATRÁS e, cip l rín iave O P aqu o do a ã u M aç iom s ola ializ id paí Nic Ofic omo l do c a de ês ci nc ofi

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1410

1380

1370 1360 Decamerão, de Giovanni Boccaccio

FRANÇA

R$ 5.897

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R$ 4.020

REINO UNIDO

R$ 8.092

EUA

R$ 5.624

RÚSSIA

R$ 310

BRASIL

R$ 880

BRASIL

RÚSSIA

EUA

REINO UNIDO

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FRANÇA

1350

SA L ÁR IO M ÍNIM O*

Dados do instituto alemão WSI (Witschafts und Sozialwissenschaftliche Institut) A Itália não tem lei que institui o salário mínimo. O valor utilizado é a média salarial de jovens entre 18 e 30 anos

1620

colorir — somaram 1,96 milhão de exemplares vendidos. Na França, a história em quadrinhos O Papiro de César, com os personagens Asterix e Obelix, foi publicada no ano passado com tiragem de 2 milhões de exemplares.

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1390

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143 0

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R$ 34 e representa pouco mais de 0,6% do salário mínimo de R$ 5.897. Em 2015, as quatro publicações mais procuradas pelo leitor brasileiro — dois títulos religiosos e dois livros de

14 50

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0 155

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0 153 152

10 15 00

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EO SALÁRIO, Ó!

O livro é um artigo de luxo no Brasil: em média, o preço de um livro no país é de R$ 35, aproximadamente 4% do salário mínimo nacional, que é de R$ 880. Na França, o produto sai por

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desenvolvimento tardio da literatura brasileira tem relação direta com o passado colonial do país. A Biblioteca Nacional, fundada em 1810, era basicamente composta de títulos portugueses, franceses e ingleses. Na época, somente a imprensa real imprimia e publicava no Brasil,

sob a tutela do imperador e da Igreja Católica, limitando a produção a obras de cunho oficial ou religioso. Como agravante, o censo realizado no país em 1876 indicava que 78,11% da população brasileira era analfabeta. Já nos Estados Unidos, um recenseamento de 1870 informava que somente 14% dos americanos não sabiam ler e escrever.

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Pg. 19

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Para determinar o preço médio do livro em cada país, usou-se como referência o custo de livros lançados em todas as nações e mundialmente conhecidos (Lolita, Um Estudo em Vermelho, 1984, O Alquimista, Admirável Mundo Novo, Cem Anos de Solidão, Guerra e Paz e O Pequeno Príncipe).

de nde isto, O Conte Crn dre Mo Alexa de mas Du

m Viagentro e C o a ra, da Terlio ú J de e Vern


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FIG. 03 -HG

A

ÀS VEZES, O INDIVÍDUO FICA LOUCO PELA VIAGEM DE UM COELHO

JUNTE O PONTO A COM O PONTO B PARA FORMAR O

FOI TUDO ILUSÃO O mágico David Copperfield conta qual é a sensação de enganar o público na sequência do filme Truque de Mestre POR ELAINE GUERINI

Um truque de mágica do ilusionista David Copperfield inspirou o assalto a banco do filme Truque de Mestre, de 2013. Conhecido por fazer a Estátua da Liberdade desaparecer, por levitar sobre o Grand Canyon e por atravessar a Grande Muralha da China, Copperfield foi convidado para assumir o cargo de coprodutor de Truque de Mestre: O Segundo Ato, que estreia em junho. “Ao fazer coisas monumentais, foi possível expandir o conceito de mágica, indo além das apresentações cafonas de gente usando fantasia e peruca, típicas dos anos 1980”, afirma o ilusionista. Ele colaborou com os roteiristas, incorporando os truques mais adequados à história, além de ajudar na preparação dos atores. Ainda que o cinema conte com efeitos para garantir a ilusão do

A versão literária do filme Donnie Darko eleva as problematizações dos fãs a níveis cósmicos

do cinema se sentir engajado, como se tudo estivesse acontecendo diante de

POR NATHAN FERNANDES

errado”, revela o ator Dave Franco, rindo. Ainda bem que não deu.

público, a franquia Truque de Mestre insiste em realizar os truques mecanicamente, como nos shows. “Talvez a maior dificuldade seja fazer o espectador seus olhos”, diz o diretor Jon M. Chu, lembrando que os atores fizeram cursos de mágica durante a preparação. “Como os truques são minuciosamente elaborados, na hora de rodar eu ficava morrendo de medo de que algo desse


06.2016

Pg. 21

B

SEU BURACO DE MINHOCA E LEIA A NOTA NA ÍNTEGRA

FIG. 03 - R

O GUIA DO GUIA

Nova biografia de Douglas Adams apresenta os bastidores do mais famoso mochileiro das galáxias — POR N.F.

O AUTOR britânico Douglas Adams acreditava que escrever sobre os enigmas do cosmo poderia ser um exercício muito mais divertido do que as discussões intermináveis entre astrônomos. Inicialmente exibida como uma série de rádio no final dos anos 1970, O Guia do Mochileiro das Galáxias se tornou uma série de livros que transcendeu a ficção científica para ganhar a condição de um clássico de todos os tempos.

Escrita pelo britânico Jem Roberts, A Espetacular e Incrível Vida de Douglas Adams e do Guia do Mochileiro das Galáxias (Editora Aleph) apresenta trechos inéditos da obra de Adams, sendo fruto da primeira incursão de um pesquisador aos arquivos pessoais do homem que também roteirizou obras-primas da cultura do Reino Unido, como Doctor Who e Monty Python. Leia, mas não se esqueça da toalha.

GUERRA DO PORNÔ

O site PornHub apresenta os termos mais buscados em relação à série Game of Thrones Cenas de sexo

GAME OF THRONES

Paródia Walk of Shame Missandei Daenerys Pornografia Khaleesi Peitos Lésbicas Shae Atriz Cersei Melisandre Nude Jon Snow Gostoso (a)

UM COELHO que leva o protagonista do filme para outra realidade. Mas nada de País das Maravilhas: em Donnie Darko, filme lançado em 2001 e que já conta com status de clássico, conceitos de metafísica são aplicados a um drama psicológico suburbano. Agora, a produção do diretor norte--americano Richard Kelly acaba de ganhar uma versão em livro. Na caprichada edição de Donnie Darko, publicada pela Editora Dark Side, o leitor encontrará uma longa entrevista com o criador da obra, as impressões do ator Jake Gyllenhaal sobre seu esquizofrênico personagem e a versão original do roteiro do longa, além de uma edição fictícia de A Filosofia da Viagem do Tempo — livro que faz parte do enredo do filme. Já o leitor mais inquieto enfrentará mistérios maiores do que aqueles deixados pelo coelho macabro da película.


ED. 05 - JUNHO 2016

Brasil reduz em mais de 50% emissão de gás carbônico entre 2005 e 2010

A

queda é atribuída ao controle do desmatamento da Amazônia e do Cerrado. Além disso, um documento elaborado pelo Ministério da Ciência,Tecnologia e Inovação (MCTI) apresenta nova metodologia para cálculo das emissões de gases.

A Terceira Comunicação Nacional do Brasil (TCN), submetida à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), aponta redução de 53,5% no total de gás carbônico (CO2) emitido pelo Brasil na atmosfera, entre 2005 e 2010. Segundo o levantamento, os números caíram de 2,73 bilhões de toneladas de CO2 para 1,27 bilhão. A metodologia de cálculo desenvolvida pelo ministério é de última geração e será capaz de transmitir conhecimento para estudo do clima e efeito do gás carbônico no mundo todo. A TCN traduz o esforço brasileiro para atingir a meta de reduzir entre 36,1% e 38,9% as emissões projetadas até 2020. O estudo avalia os impactos das mudanças climáticas distribuídos em cinco setores: uso da terra, mudança do uso da terra e florestas; agropecuária; energia; processos industriais e tratamento de resíduos.

Sirene Além da Terceira Comunicação Nacional, o MCTI também lançou o Sistema de Registro Nacional de Emissões (Sirene), um sistema computacional desenvolvido para disponibilizar resultados do Inventário Brasileiro de Emissões Antrópicas por Fontes e Remoções por Sumidouros de Gases de Efeito Estufa não Controlados pelo Protocolo de Montreal e informações oriundas de outras iniciativas de contabilização de emissões.

O portal do Sirene está disponível no endereço: http://sirene.mcti.gov.br, bem como o sumário executivo da Terceira Comunicação em português e inglês, e a versão completa do documento em inglês.

A ciência na corrida por medalhas do Time Brasil

A

menos de três meses dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, institutos de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) estão ajudando os atletas a alcançar a excelência esportiva na busca por medalhas. Recursos de supercomputação e equipamentos adaptados às necessidades dos atletas são importantes aliados para quem disputa um lugar no pódio.

O Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) integra uma das maiores iniciativas do País pelo esporte: o Laboratório Olímpico. Instalado no Parque Aquático Maria Lenk, no Rio de Janeiro, o LNCC serve

para dar suporte aos atletas em diferentes áreas do conhecimento. São sete ao todo: bioquímica, biomecânica, nutrição, psicologia, fisiologia, treinamento esportivo e modelagem computacional. O primeiro passo foi desenvolver o Sistema para Acompanhamento Holístico de Atletas (Saha), rodado em um dos supercomputadores do LNCC, em Petrópolis (RJ). A ferramenta cruza os dados levantados pelas diferentes áreas do conhecimento e faz sugestões para melhorar a performance do atleta. Assim, uma braçada na piscina, um golpe no tatame ou uma corrida na pista de atletismo podem ser aperfeiçoados, aumentando as chances de medalha.


INFORME PUBLICITÁRIO

Navio Vital de Oliveira aporta nos 100 anos da Academia Brasileira de Ciências

O

Navio Vital de Oliveira, uma das embarcações de pesquisa mais modernas do mundo, foi aportado no Museu do Amanhã, no centro do Rio de Janeiro, durante as comemorações dos 100 anos da Academia Brasileira de Ciências (ABC), e recebeu a visita de cerca de 1.300 pessoas apenas no primeiro dia.

Com o desenvolvimento da ciência nós hoje podemos ter esse navio maravilhoso de pesquisas e muitos outros desenvolvimentos que servem à sociedade brasileira”, disse.

Durante o evento, o novo presidente da ABC, Luiz Davidovich, lembrou a importância do Almirante Álvaro Alberto, fundador do CNPq, para o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação (CT&I) brasileira. “Eu queria lembrar um grande nome da ciência nacional, da ABC e da Marinha do Brasil que foi o Almirante Álvaro Alberto. Ele teve participação importantíssima no desenvolvimento e na inovação do Brasil. É importante lembrá-lo. Isso aqui é um resultado da ação dele.

MCTI lança Start-Up Brasil 2.0 em apoio a projetos de software e hardware

O

Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou nova etapa do programa Start-Up Brasil, batizada de StartUp Brasil 2.0. Os investimentos totalizam R$ 40 milhões – R$ 20 milhões para aceleração de 100 empresas nascentes de base tecnológica, R$ 10 milhões em apoio a Start-Ups de hardware e R$ 10 milhões de incentivo ao nascimento de ideias inovadoras.

As empresas candidatas a participar da principal chamada, responsável por selecionar as turmas 5 e 6 do Start-Up Brasil, devem ter, no máximo, quatro anos de existência. Após serem escolhidas, as Start-Ups precisam negociar sua adesão a uma das 12 aceleradoras qualificadas pelo último edital do programa. A aceleração tem duração estimada de até 12 meses para empresas de software e 18 meses para as companhias de hardware, com apoio a pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), apoio à modelagem de negócios, participação em atividades de capacitação e programas de acesso ao mercado. O coordenador-geral de Serviços e Programas de Computador do MCTI, José Henrique Dieguez, ressaltou a importância do desenvolvimento de itens físicos de computação para a nova etapa do programa. “Nós já temos empresas de hardware sendo beneficiadas e aceleradoras com ‘pegada’ de hardware, mas queremos dar apoio integral a partir de agora”, apontou. “Trabalhar com hardware significa dizer que você tem etapas mais complexas e que demoram mais e necessitam de mais investimento por conta disso.”

A segunda iniciativa prevê apoio adicional às Start-Ups de hardware. O auxílio complementa necessidades de PD&I e engenharia, tais como prototipagem, desenvolvimento de pré-produtos e testes – atividades reconhecidamente mais densas e complexas, que geralmente exigem mais tempo de maturação. Já a terceira vertente estimula o surgimento de empreendedores em tecnologias da informação e comunicação (TICs), por meio do apoio a ações de concepção, em conjunto com incubadoras de empresas. A linha deve oferecer atividades como competições locais e testes de conceito.

Start-Up Brasil Criado pelo MCTI, o Start-Up Brasil é um programa do governo federal com gestão operacional da Softex, que busca agregar um conjunto de atores e instituições em favor do empreendedorismo de base tecnológica. As chamadas nacionais e internacionais ocorrem pelo CNPq e pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), respectivamente.

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DENTRO DA CAIXA TEXTO BRUNO VAIANO

N

o Brasil, foram produzidos 1,318 bilhão de litros de tinta em

2015. São R$ 10,174 bilhões de

CORES...

Cada vez menos cheiro, cada vez mais variedade. A tinta de hoje é magnética, vira lousa e controla a temperatura *Rendimento calculado para cada 5 litros de tinta, com aplicação de duas demãos

1

SUVINIL PROTEÇÃO TOTAL

2

CORAL TEXTURA

3

OXIMAG PRIMER SINTÉTICO MAGNÉTICO

R$ 429 18 litros 35 m²*

faturamento, o PIB de um país pequeno como a Gâmbia. Solventes voláteis e tóxicos, que antes eram maioria no mercado, estão sendo substituídos por água. “A tecnologia evoluiu muito. Os custos de uma tinta

R$ 85 18 litros 5,5 m²*

Orçamento personalizado 15 m²*

à base d’água e de uma com solvente são iguais, então as compostas de água passaram a dominar o mercado, com 83% de participação”, explica Fábio Humberg, da Associação Brasileira dos Fabricantes de

Ideal para ambientes externos, essa tinta evita rachaduras, mofo e maresia

Tintas (Abrafati). É no programa setorial de qualidade da associação que a qualidade das tintas é ava-

Fazer textura exige mais ferramentas e paciência, mas o resultado fica ótimo

liada. Dois dos principais critérios são poder de cobertura e resistência ao atrito. Tintas classificadas como econômicas devem cobrir, no míni-

1

mo, 4 m² de parede por litro. As que não se encaixam nas normas técnicas da ABNT são levadas ao Ministério Público, que pode suspender as vendas.

OLHO NA LATA

Conheça as três categorias de tintas e avalie a sua ECONÔMICA 4 m² por litro Deve cobrir, no mínimo, 55% da área em que foi aplicada quando úmida STANDART

5 m² por litro Deve cobrir, no mínimo, 85% da área em que foi aplicada quando úmida

PREMIUM 6 m² por litro Deve cobrir, no mínimo, 90% da área em que foi aplicada quando úmida

24

Fonte: Programa Setorial de Qualidade da Abrafati

2


... E VALORES

Tinta ecológica preparada com terra é atóxica, não cheira e deixa a parede respirar Nada de sintético. Aqui, o pigmento é terra e o solvente é água

FORA DA CAIXA FOTO TOMÁS ARTHUZZI

C

5

loreto de Vinila. Estireno Butadieno. Se você não estudou

química, a lista de ingredienVaca versátil: o que mantém essa tinta na parede é a caseína, proteína extraída do leite

tes de uma tinta não é muito diferente de sânscrito. “Já há componentes como óleos vegetais sendo usados nas tintas em substituição a produtos que vinham da petroquímica”, explica Fábio Humberg, da Abrafati.

4

ORGANUM TINTA A CASEÍNA Orçamento personalizado

14 m²*

SOLUM TINTA MINERAL ECOLÓGICA R$ 325

18 litros

5 m²*

4

“A indústria busca matéria-prima sustentável e soluções mais amigáveis.” Boas intenções, porém, não impediram o

5

surgimento do nicho de tintas ecológicas. É o caso da Solum, fabricante paulistana de revestimentos minerais fundada em 2007, que usa terra como pigmento e não aplica substâncias nocivas no processo produtivo. O resultado? Cheiro zero e ambiente ameno. “Nossa tinta permite trocas de calor e de temperatura, aumentando o conforto térmico”, explica Valéria Achcar, representante comercial da Solum.

TINTA 100% ROOTS

Pintando com as coisas que a natureza dá 3

INGREDIENTES 8 kg de terra · 4 kg de cola branca · 8 litros de água

Aplicado embaixo da camada de tinta definitiva, transforma sua parede em um imã gigante

Misture 4 quilos de terra com 6 litros de água até ficar homogêneo.

Adicione os outros 4 quilos de terra e repita o processo.

Adicione os 2 litros de água restantes à cola e junte ao resto.

APLICAÇÃO Rolo, como uma tinta normal. A parede deve ser totalmente lixada, sem resquícios de cal ou tinta látex industrializada. Fonte: Projeto Cores da Terra – Universidade Federal de Viçosa Ícones: Estúdio Barca

25


ELEMENTAR C

VELHA INFÂNCIA

H C Ti

Fe

N

O

Zn

Entenda de onde vêm o aroma e a coloração do Cheetos — POR MARIA JOANA DE AVELLAR

omo a maioria absoluta dos salgadinhos industriais, Cheetos é feito de milho. A farinha (por

lei, enriquecida com ferro e ácido fólico) é combinada com água e óleo e essa massa ganha a consistência e o formato que conhecemos ao passar por uma extrusora. A máquina submete a mistura a altos níveis de pressão e temperatura, o que faz com que a água vaporize, expandindo-se rapidamente e gelatinizando o amido. Depois

1 1

H

desse cozimento rápido, quase instantâneo, uma matriz perfurada determina a forma que o Cheetos vai ganhar: bola, onda, lua ou (por que não?) uma mãozinha.

7

C

7

N

Na

15

P

6

11

8

O

Até aí, o salgadinho já tem a cara que você conhece, mas ainda está desbotado e sem gosto. A magia acontece quando a tostagem é concluída em um forno e a mistura de temperos e aromas que varia a cada sabor é pulverizada. Para dar aderência e tornar possível a formação

INOSINATO DE SÓDIO E GUANILATO DE SÓDIO

de uma verdadeira névoa de especiarias sintéticas e naturais, os aromas, corantes e acentuadores de sabor são dissolvidos em água e acrescentados ao óleo — não sem a ajuda de emulsificantes capazes de tornar homogênea essa solução de moléculas que não se misturam. Por terem uma parte hidrofílica que se liga à água e uma hidrofóbica que se liga à gordura, os emulsificantes estabilizam os dois

17

Cl

19

K

H

6

C

N

8

O

11

Na

GLUTAMATO MONOSSÓDICO É um sal derivado de algas que costuma aparecer acompanhado de outros dois realçadores de sabor, o inosinato de sódio e o guanilato de sódio (ao lado).

CLORETO DE POTÁSSIO Conhecido como sal light, o cloreto de potássio tem menos sabor e é dez vezes mais tóxico do que o sal tradicional.

compostos e fazem o produto permanecer sequinho por mais tempo. De lá, ele sai pronto, alaranjado — e bem fedorento.

1

H

8

O

6

C

AMIDO Principal carboidrato da alimentação humana, o amido é constituído de glicose. O fabricante não entrega a fórmula, mas desconfiamos que o queijo emulado seja do tipo limburger, o mais fedorento do mundo.

*Com reportagem de Cartola Agência de Conteúdo Foto: Tomás Arthuzzi/Editora Globo Fontes: Caroline Steel (Depto. de Tecnologia de Alimentos da Unicamp)/Tiziano Dalla Rosa (Faculdade de Química da PUCRS)/Roberta Thys (Engenharia de Alimentos da UFRGS)


DOSSIÊ

INTERNET

TEXTO THIAGO TANJI

DESIGN J. P. BRITO

FOTOS DULLA

BANDA LARGA

ILIMITADA P A R A

Q U E M ?

No Brasil, três empresas controlam mais de 85% do mercado de banda larga, um serviço lembrado mais pelas reclamações dos consumidores do que por sua qualidade. Para piorar, operadoras tentaram limitar o acesso e prejudicar usuários mais pobres A era da banda larga ili-

no contrato. Ou seja, se o con-

gar por um pacote maior de da-

mitada quase terminou. "Essa

sumidor assinasse um plano de

dos enfrentará uma barreira eco-

questão do infinito acabou edu-

10 GB mensais, ele poderia as-

nômica", afirma Fabro Steibel,

cando mal o usuário", disse João

sistir a apenas dez capítulos de

diretor executivo do Instituto de

Batista de Rezende, executivo

House of Cards no Netflix antes

Tecnologia e Sociedade do Rio.

experiente no setor de teleco-

de ser obrigado a pagar um valor

No final de abril, após pressão

municações, em abril deste ano.

adicional para continuar a acessar

dos usuários, o conselho diretor

A afirmação era condizente com

a rede, como atualmente acontece

da Anatel voltou atrás e proibiu as

a atuação das maiores empresas

com os serviços de telefonia mó-

empresas de realizarem esse pro-

brasileiras que oferecem servi-

vel oferecidos pelas empresas.

cedimento. Uma vitória pequena

ços de internet: em fevereiro, a

Ironicamente, Rezende ocupa

se comparada à necessidade de ex-

Vivo anunciou que bloquearia o

o cargo de presidente da Anatel,

pansão da infraestrutura de rede,

acesso de consumidores de ban-

agência criada para defender os

melhoria nos serviços e inclusão

da larga fixa que excedessem a

consumidores ante o poder das

dos quase 79 milhões de brasilei-

utilização de dados delimitada

operadoras. "Quem não pode pa-

ros que ainda estão offline.

27


TUDOCONGESTIONADONAREDE FALTA DE INFRAESTRUTURA TECNOLÓGICA PREJUDICA A QUALIDADE DA CONEXÃO DE USUÁRIOS rank Underwood, de House of

mação", afirma o professor Henrique Poyatos,

Cards, está prestes a protagonizar

da Fiap. "Há um limite na infraestrutura: caso

o momento mais aguardado da tem-

existam muitas pessoas no mesmo cabeamen-

porada quando um círculo com a

to, há queda na velocidade." Para chegar até

porcentagem de carregamento do vídeo invade

sua casa, esses dados buscam caminhos mais

a tela. Além de estragar todo o clímax, esses en-

rápidos, passando por pontos de rede que se

gasgos na conexão representam um problema

deslocam por um meio físico, o cabo. Quando

de infraestrutura que acompanha as operadoras

há milhões de dados pedindo passagem ao mes-

brasileiras de banda larga. Para entender por

mo tempo e no mesmo espaço, o tráfego fica tão

que isso acontece, basta imaginar o tráfego da

empacado quanto aquela estrada na volta do fe-

rede como uma estrada repleta de carros — ou

riado prolongado. E, mesmo quando o consumi-

pacotes de dados. "Quando você assiste a uma

dor assina planos com maior velocidade para a

série no Netflix em uma tela full HD, por exem-

transmissão das informações, a qualidade não é

plo, cada um dos pixels demanda muita infor-

garantida. Só resta xingar muito no Twitter.

ESTAMOS CONECTADOS?

Sistema de Medição de Tráfego de Internet (Simet) indica como é a qualidade da infraestrutura da rede no Brasil

Fernando de Noronha

TCP/IP

PACOTES

Enviar e receber informações de diferentes partes da internet são ações que dependem de uma comunicação estabelecida por uma linguagem em comum. Esse dialeto da rede é estipulado pelo protocolo TCP/ IP, que determina o transporte dos dados a partir de "pacotes".

Para que o tráfego na rede tenha maior eficiência, o envio e o recebimento de dados na internet ocorrem com a divisão dos grandes blocos de informação em pacotes menores. Quando chega ao destino, o computador é responsável por reunificar os pacotes.

GLOSSÁRIO DA REDE Velocidade média de conexão Até 512 kbit/s De 512 kbit/s a 1 Mbit/s De 1 Mbit/s a 5 Mbit/s De 5 Mbit/s a 10 Mbit/s De 10 Mbit/s a 35 Mbit/s De 35 Mbit/s a 50 Mbit/s A partir de 50 Mbit/s

Plataformas de petróleo

LARGURA DE BANDA

INTERNET MÓVEL

A velocidade da transmissão de informações na rede depende da infraestrutura utilizada. Na época da conexão discada, por exemplo, a causa da baixa velocidade era o fato de que a linha telefônica era responsável pela transmissão de dados.

A transmissão de dados funciona por meio de torres e antenas que transmitem as informações a partir de uma determinada faixa de frequência. A tecnologia 4G, por exemplo, é capaz de enviar dados com velocidade e em maiores quantidades.


DO FUNDO DO MAR AO ESPAÇO COM QUASE 97 MILHÕES DE USUÁRIOS, INTERNET BRASILEIRA TAMBÉM APRESENTA DESIGUALDADES NA CONEXÃO

O

tráfego de dados da inter-

zam a infraestrutura para transmi-

net depende do transporte

tir outros dados, como telefonia e

de um volume de informa-

serviços de audiovisual. O proble-

ções tão grande quanto a

ma é que a qualidade da conexão

própria rede. Cabeamento

também é reflexo das opções co-

residencial, antenas e satélites

merciais dessas companhias. "Em

são alguns dos meios de infraes-

regiões periféricas, o atendimento

trutura para prover a transmissão

costuma ser feito por uma única

de dados: no Brasil, seis cabos

empresa, e a qualidade da internet

submarinos também conectam

piora, pois não há investimentos",

o país a Estados Unidos, Europa

diz Fabricio Tamusiunas, gerente

e restante da América Latina.

do Nic.br, entidade que desenvolve

A maior parte desse suporte físi-

os projetos do Comitê Gestor da

co está nas mãos das empresas de

Internet no Brasil. "Quanto maior a

telecomunicações, que ainda utili-

concorrência, melhor a qualidade."

REDE MEIO CHEIA

Dados divulgados pelo IBGE indicam que 54,9% dos domicílios brasileiros têm acesso à internet

Banda larga fixa é predominante nas residências do país

Os cabos para transmitir informações da rede utilizam a mesma infraestrutura da televisão a cabo e da telefonia fixa

67%

Banda larga fixa

25%

Banda larga móvel

53% Modem

6%

Náo responderam

2%

Acesso discado

5%

9%

Conexão via satélite

Conexão via rádio

Fonte: Consultoria Teleco, 2014

FIBRA ÓPTICA Com diâmetro semelhante ao do cabelo humano, o filamento fabricado com vidro especial ou plástico é capaz de transmitir informações em alta velocidade por não apresentar grandes distorções causadas por interferências eletromagnéticas.

SATÉLITE Em regiões onde há dificuldades de infraestrutura para instalação de antenas ou cabos, pode-se utilizar uma conexão estabelecida a partir de satélites, que transmitem as informações para uma antena. A tecnologia, no entanto, ainda é cara.

Dados consumidos por atividade (por hora)

1 GB Netflix (padrão normal) 3 GB Netflix (HD) 7 GB 100-150 MB

Netflix (ultra HD)

Dark Souls 3 (Game)

100-150 MB Counter Strike (Game) 12-30 MB Vídeo no YouTube (HD) Fonte: Fiap

29


ACONCORRÊNCIA ÉLIVRE,MASNEMTANTO

A FALTA DE OPÇÕES DE OPERADORAS DE BANDA LARGA AJUDA A EXPLICAR A QUALIDADE DOS SERVIÇOS PRESTADOS

té a década de 1990, os brasileiros que tinham linha telefônica eram privilegiados: os serviços de telecomunicação eram controlados majoritariamente por uma empresa estatal, a Telebras, que não oferecia qualidade de serviço nem disponibilizava a infraestrutura necessária para toda a população. Em 1997, durante o processo de privatização dos bens do Estado no governo de Fernando Henrique Cardoso, a Telebras foi leiloada para concessionárias privadas, que deveriam cumprir metas de expansão das telecomunicações. "Poucas empresas ficaram responsáveis pelos serviços de telefonia fixa no país", afirma Veridiana Alimonti, que faz parte do Intervozes, organização que trabalha pelo direito à comunicação. Donas da infraestrutura do tráfego de dados, essas empresas passaram a oferecer outros serviços, como TV a cabo e internet, que não contavam com as obrigações da prestação de um serviço público. "Em algumas cidades ocorre praticamente um monopólio da empresa que levou a infraestrutura na época da telefonia", diz Alimonti.

DA ESTATIZAÇÃO À CONCENTRAÇÃO Após o processo de privatização do setor de telecomunicações, poucas empresas controlaram o mercado

1972

1995

Com 13 milhões de linhas

A Sercomtel, fundada

ções determinava a participação do Estado no serviço de telecomunicações. Na

Militar, o general Emílio Garrastazu Médici cria a Telebras. A empresa

instaladas, a Telebras controla 95% dos telefones do Brasil. A Lei Geral

na cidade paranaense de Londrina, na década de 1960, é a primeira

início da privatização com a criação da Anatel, agência reguladora que

época, o Brasil contava

funcionava no regime

de Telecomunicações

operadora de telefonia

determinaria a qualidade

com 1,3 milhão de telefones para uma população de 77,3 milhões de habitantes.

estatal e tinha o objetivo de unificar o sistema de telecomunicações do país.

coloca fim ao monopólio estatal da operação de telecomunicações.

a comercializar serviços de internet para os consumidores.

da prestação de serviços por parte das empresas privadas de telefonia.

O Código de Telecomunica-

No auge da Ditadura

1998 Objetos: CEDIR-USP

1996

1962

1997

O governo prepara o

2008

2012

2014

A Telebras é dividida em

Brasil Telecom opera na

A Oi, nome adotado pela

Com investimento de

O grupo América Móvil

empresas de telefonia fixa

região central e no Sul do

antiga Telemar, conclui a

R$ 120 milhões, a Telefôni-

conclui a incorporação

e móvel, oferecidas em um leilão que arrecada mais de R$ 22 bilhões. A espa-

país e a Telemar atua principalmente nos estados do litoral do país e na Região

compra da Brasil Telecom em um negócio avaliado em R$ 5,8 bilhões,

ca unifica a operação com a empresa Vivo. Em 2015 o grupo viria a comprar a

das empresas Embratel e NET, passando a adotar o nome de Grupo Claro.

nhola Telefônica assume o controle das operações

Norte. A Embratel, de serviços de longa distância,

unificando os serviços de telefonia fixa, móvel

GVT, operadora de grande porte de serviços de inter-

A companhia iniciou sua operação no Brasil com

no estado de São Paulo, a

também é privatizada.

e de banda larga.

net, telefonia e TV a cabo.

telefonia móvel em 2003.


SE PIORAR ESTRAGA Anatel divulga avaliação dos clientes das empresas de internet

Indicadores de avaliação (notas de 0 a 10)

6,72 6,58

5,89 5,62

Satisfação geral

Reparo e instalação

Capacidade de resolução

6,5

Atendimento telefônico

7,02

Canais de atendimento

Funcionamento

Oferta e contratação

6,5 6,62

Cobrança

Empresas de telefonia que chegaram ao país durante a privatização ganharam força ao oferecer serviços de internet

As notas das operadoras (de 0 a 10) Nota geral

TIM

8,33 7,28 7,81

Cabo

O Grupo Claro, a Vivo e a Oi controlam mais de 85% do mercado brasileiro de banda larga fixa

7,93

7,49 7,98 7,56

Sercomtel

COMANDO DOMERCADO

Espera entre abertura de chamado e visita do técnico

Velocidade de conexão

7,06 7,27

GVT

7,27

32,7%

7,35 7,01

Grupo Claro

Algar

7,03 6,82 7,42

NET

6,91 6,79 6,98

29%

6,61 Blue

Vivo

10%

6,42 6,64

Outras

Vivo

6,27

1,8%

5,85 6,48

Algar

Oi

Sercomtel

5,88 5,63

Oi

25%

0,6%

5,23

TIM

Sky

Fonte: Consultoria Teleco, 2016

Sky

1,1% 1,1%

5,74 5,61 4,62 Fonte: Anatel, 2015

31


CONEXÕESPOLÍTICAS A QUEDA DE BRAÇO ENTRE OPERADORAS E CONSUMIDORES INFLUENCIA AS DECISÕES DO GOVERNO EM RELAÇÃO À INTERNET

NA DÚVIDA, CHAME UM MOTOBOY Como a limitação de banda prejudica empreendedores

S

e a limitação do uso de dados da banda larga fixa prejudicaria os consumidores, em es-

pecial aqueles que não teriam condições financeiras de arcar com planos mais caros, o cenário também não é nem um pouco animador para microempresários. "Podemos voltar para a época em que o Brasil não tinha internet", diz Fabro Steibel, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio. "O empresário pensará se será mais caro enviar um e-mail ou chamar um motoboy para levar um documento." Para as startups, que desenvolvem serviços ligados à internet, a cobrança adicional pelo uso de dados seria mais uma barreira para o desenvolvimento de inovação no Brasil. "Muitas vezes, o empreendedor é obrigado a aceitar um serviço de internet de pior qualidade porque os planos empresariais são bem mais caros", afirma Pedro Waengertner, um dos fundadores da Aceleratech, que fornece suporte ao desenvolvimento de startups nacionais. "O mercado de telecomunicações carece de inovação e de gente que preste um ótimo serviço."

32

Ícone: Estúdio Barca

C

om mais de 1,6 milhão de assinaturas virtuais coletadas no serviço de petições online Avaaz, a mobilização dos consumidores contra a iniciativa das operadoras de limitar a franquia de dados da banda larga fixa deu resultados — até o momento, a Anatel manterá a proibição da prática. Mas por que demorou tanto tempo para a agência, criada para regular o setor e defender os consumidores, tomar essa posição? "Embora existam organizações da sociedade que participam da discussão, elas não estão diariamente em diálogo com a Anatel", afirma Veridiana Alimonti, do Intervozes. "Nem de longe o diálogo é igual, já que o dia a dia da agência é estar em contato com o setor privado." Em meio à crise política que culminou com o afastamento temporário de Dilma Rousseff, um dos últimos atos da presidente foi a regulamentação oficial do Marco Civil da Internet, ins-

tituído em 2014 para definir os direitos e deveres de empresas e usuários. Um dos pontos determinados pela lei regula justamente o poder das operadoras sobre o conteúdo distribuído: o Marco Civil estabelece que as empresas não podem discriminar os dados que trafegam na rede. "Uma rede que não garante a neutralidade pode fazer com que o usuário veja ou não um determinado conteúdo", diz Marco Konopacki, coordenador de projetos do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio. Na época da discussão, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) se mostrava avesso à neutralidade da rede: de acordo com os registros de doações para campanhas para as eleições de 2014, o presidente da Câmara dos Deputados afastado pela Justiça recebeu R$ 900 mil da Telemont, companhia de telecomunicações que oferece instalação e manutenção de rede de telefonia fixa e banda larga.


INTERNETNA CESTABÁSICA

PARA GRINGO NÃO VER

Ao contrário da justificativa das operadoras, franquia de dados da banda larga fixa é um tema polêmico no exterior RELATÓRIO DIVULGADO no final do ano passado pela União Internacional de Telecomunicações, vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), afirmava que quase 70% dos países do

REDE MUNDIAL

mundo não utilizavam franquia de dados na banda

20,5

larga fixa. Em países que adotam o modelo, como Estados Unidos e Canadá, o tema está longe de

Coreia do Sul

17,4

ser unanimidade entre consumidores e agências governamentais. O FCC, órgão regulatório norte-americano semelhante à Anatel, registrou mais

Suécia

16,4

de 8 mil reclamações relacionadas a problemas de franquia de dados só no segundo semestre do

Noruega

16,2

ano passado. "São relatos da empresa propositalmente errando a mensuração dos dados con-

Suíça

sumidos ou situações em que os consumidores

15,8

desejavam a reconexão, mas isso não era possível mesmo com o pagamento", afirma Rafael

Hong Kong

12,6

Zanatta, pesquisador de telecomunicações do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec).

EUA

11,9 Com a assinatura do Marco Civil da Internet, operadoras não podem priorizar a velocidade de um determinado pacote de dados

Organização realiza projetos para expandir internet para mais pessoas

Velocidade média de conexão (em megabits⁄segundo)

Canadá

10,2 Rússia

5,9 Uruguai

5,7 Chile

5,5 México

5,1 Média mundial

4,4 Peru

4,2 Argentina

3,6 BRASIL Fonte: Relatório State of the Internet, 2015

Até o final de 2015, mais de 4 bilhões de pessoas ainda não tinham nenhum tipo de acesso à rede. Para reverter essa impensável contradição, o norte-americano Kosta Grammatis fundou a organização A Human Right, que, em conjunto com empresas, desenvolve projetos para que o acesso à livre informação seja considerado um direito fundamental. POR QUE O LIVRE ACESSO À REDE É UM DIREITO HUMANO?

Acessar a internet é uma maneira de se inserir como um cidadão global: a habilidade de colaborar, aprender e ter empatia. O acesso a alimentação, habitação e cuidados médicos é um direito humano. A internet também deveria pertencer a essa categoria de direitos.

QUAIS SÃO OS DESAFIOS DE LEVAR A INTERNET PARA LOCAIS DO MUNDO SEM ACESSO A INFRAESTRUTURAS BÁSICAS DE CONEXÃO?

Alguns locais não contam com eletricidade, outras regiões apresentam instabilidades políticas que limitam a expansão do acesso à internet. Outro grande problema é o custo para acessar a rede, que em muitos locais é extremamente alto: normalmente, isso é consequência dos monopólios das empresas de telecomunicações. Mudanças políticas em relação à competição das companhias melhorariam essa questão, mas há vários outros fatores em jogo.

E COMO AS EMPRESAS PODERIAM EXPANDIR SEUS SERVIÇOS PARA ESSES LOCAIS DE INFRAESTRUTURA PRECÁRIA?

As grandes empresas de tecnologia estão interessadas em promover "internet para todos". O Google, por meio do projeto Loon (que desenvolverá balões para levar conexão a locais remotos); o Facebook, com o Internet.org; Richard Branson (dono do grupo Virgin) tem planos para criar uma empresa que oferece conexão a partir de satélites. São iniciativas para que a era digital seja alcançada de uma vez por todas, mas precisamos verificar se elas terão sucesso.

O QUE OS GOVERNOS PRECISAM FAZER PARA GARANTIR O ACESSO DOS CIDADÃOS?

As pessoas devem pressionar seus governos para que realizem mudanças a fim de garantir que os monopólios deixem de dominar os serviços de telecomunicações. Esse é um cenário bastante complicado, especialmente nos países em desenvolvimento.

33


A CULPA É DO SISTEMA? COM SERVIÇOS TERCEIRIZADOS, EMPRESAS DE TELECOMUNICAÇÕES LIDERAM AS RECLAMAÇÕES DE CONSUMIDORES

C

"As empresas operam com a ma-

ra para solucionar ques-

ximização do lucro, mesmo com

tões técnicas, desencon-

uma má prestação de serviços",

tro entre as informações

afirma Rafael Zanatta, do Idec.

fornecidas e atendimen-

Com estruturas de call center ter-

to técnico ruim. Familiarizado

ceirizadas, a resolução de proble-

com esses problemas? Não se

mas fica comprometida pelos

Telefonia fixa

sinta só: de acordo com pes-

famigerados "erros no sistema".

quisa realizada pelo Idec, quase

"As companhias têm a estratégia

54 mil reclamações sobre serviços

de reter clientes, e isso é pas-

136.622

de internet foram registradas em

sado ao funcionário como uma

Internet (Serviços)

Procons de todo o país em 2015.

meta", diz Zanatta.

Fonte: Idec

DIREITOS VIRTUAIS

Informações coletadas em Procons de todo o país

338.247

Queixas de telefonia celular

2 41 . 3 1 1 TV por assinatura

53.946

As diretrizes de direitos do consumidor determinadas pela Anatel são obrigatórias a todas as empresas de telecomunicações:

NO SEU TEMPO

As informações solicitadas pelo consumidor deverão ser imediatamente fornecidas, e as reclamações, resolvidas em um prazo máximo de cinco dias úteis. O tempo para instalação ou reparo de um serviço dependerá do contrato estabelecido previamente.

NO CONTRATO A empresa é obrigada a informar: • Preços do plano, com e sem promoção. • Data e regras de reajuste de preços. • Valores de aquisição, instalação e manutenção dos serviços e equipamentos. • Velocidades mínima e média de conexão.

TUDO REGISTRADO

Caso solicitado pelo cliente, a empresa tem a obrigação de enviar o histórico de registros dos últimos três anos, como reclamações, pedidos de informação e outras resquisições. Essas informações serão enviadas por correspondência ou digitalmente.

• Qual é a viabilidade de instalação imediata, ativação e utilização do serviço.

COBRANÇA NO MELHOR DIA

A empresa é obrigada a oferecer pelo menos seis possíveis datas de vencimento para o cliente escolher o dia mais adequado para pagamento da fatura. O documento de cobrança deve ser entregue, no mínimo, com prazo de cinco dias antes do vencimento.

ESTAREMOS FAZENDO O CANCELAMENTO O cliente pode rescindir todo o contrato com a empresa ou cancelar apenas um serviço, como o pacote de dados do celular. Após a requisição do cancelamento, a companhia deve suspender todas as cobranças relativas à prestação daquele serviço.

34

CHUVA DE RECLAMAÇÕES

obranças indevidas, demo-

JÁ VAMOS ATENDÊ-LO O tempo máximo para o contato direto com o atendente deve ser de até 60 segundos no call center. Presencialmente, o tempo máximo de espera deverá ser de até 30 minutos.

CHECAGEM

Após o pagamento, caso o cliente confira na cobrança que há algum serviço não contratado previamente, deve entrar em contato com a empresa e solicitar a devolução da quantia paga referente aos itens não reconhecidos. Se a prestadora não responder em 30 dias, ficará obrigada a devolver esse valor em dobro, acrescido de correção monetária e juros.

DEVO, NÃO NEGO

COMBO SEM PROBLEMAS As companhias têm a obrigação de fornecer os serviços do combo de forma isolada: o preço de um serviço avulso também não pode ser superior ao valor estabelecido em um pacote que disponibilize condições semelhantes de utilização. Não é possível, no entanto, o cancelamento de apenas um dos serviços do combo. Se o cliente não se interessar por um deles, pode cancelar o contrato e contratar outro combo. Ícone: Estúdio Barca

Depois do pagamento de uma conta atrasada, a companhia deve restabelecer a conexão em até 24 horas. Para ter um melhor controle do andamento do serviço, a Anatel recomenda que o cliente encaminhe o comprovante de pagamento para a operadora e peça o número de protocolo do envio.

LISTA DE DEVERES

As empresas têm a obrigação de informar um relatório detalhado dos serviços prestados dos últimos seis meses. Entre as informações, o cliente pode saber o volume diário de dados trafegados, os limites estabelecidos por franquias e os tributos detalhados por serviço.


POR MARCUS PENNA

P. 36 EROTIZAÇÃO DE MENINAS P. 48 A VIDA COMO NÃO CONHECEMOS P. 54 FOMOS AO SUDÃO DO SUL P. 62 ENTREVISTA: DIRETORA DO HAPPN P. 70 ESPECIAL OLIMPÍADA


GRAÇAS A UMA SÉRIE DE CASOS DE GRANDE REPERCUSSÃO

A

E À POPULARIZAÇÃO DO MOVIMENTO FEMINISTA,

N O V IN HA O VELHO FENÔMENO DA EROTIZAÇÃO DE MENINAS

É A PE NAS COMEÇA A SER PROBLEMATIZADO PELA CIÊNCIA


TEXTO ISABELA MOREIRA EDIÇÃO CRISTINE KIST

FOTOS TOMÁS ARTHUZZI

DESIGN FERNANDA DIDINI LETTERING VANESSA KINOSHITA

37


ERA PARA SER MAIS UM DIA DE PASSEIO NA PRAIA COM A FAMÍLIA. KELLI PERCEBEU QUE DOIS R APAZES

em pornografia na internet. Fora das telas,

olhavam para o seu corpo e ficou inco-

versões menores das roupas de adultas são

modada, mas não se sentiu em condições

fabricadas para meninas que, antes de de-

de protestar. Ela então saiu da orla para

senvolverem sua identidade, entendem que

acompanhar a tia nas compras e, quando

só têm valor se corresponderem a padrões

as duas entraram na fila do caixa, deram de

de beleza e sensualidade. Como consequ-

cara com os dois sujeitos da praia. Um de-

ência, a autoestima delas diminui, ao passo

les estava com uma câmera. “Não era pra

que aumenta o número de assédios — o pri-

eu notar que ele estava tirando fotos, mas

meiro ocorre, em média, aos 9,7 anos, se-

eu notei”, lembra. “Comecei a me pergun-

gundo o coletivo Think Olga — e de abusos

tar por que caras de 20 e poucos anos es-

sexuais. De acordo com o Instituto de Pes-

tavam tirando fotos de mim. Percebi que

quisa Econômica Aplicada (Ipea), mais da

tinha algo errado ali.” Kelli tinha 11 anos.

metade dos estupros registrados no Brasil

Os assédios não pararam por ali. Entre

são de crianças, em sua maioria, meninas.

os 13 e os 14, ouviu muitas cantadas e co-

Por muito tempo, a erotização de crian-

mentários de cunho sexual pela rua. “Co-

ças foi vista como normal. Cercado de

mecei a usar bermudão, camisa masculina

câmeras no Big Brother Brasil 16, o par-

e o cabelo preso. Só andava com homens

ticipante Laércio de Moura, 53, não se cons-

porque entre eles conseguia me camuflar”,

trangeu em dizer que preferia se relacionar

conta. Hoje com 18 anos, diz que episó-

com meninas mais jovens, “na faixa dos 17,

dios como o da praia ainda são comuns.

18 e 20 anos”. Nas redes sociais, ele tam-

Nos últimos meses, as histórias de uma

bém já tinha dito que era “efebófilo”, alguém

aspirante a miss de 13 anos, de uma cozi-

que sente atração sexual por adolescentes.

nheira de 12 e de uma funkeira de 9 trouxe-

Fora da casa, porém, a repercussão da fala

ram à tona as diversas formas pelas quais

levou a uma investigação e, em maio, ele

crianças são hipersexualizadas e causaram

foi preso acusado de estupro de vulnerável.

a ira de coletivos feministas, que debatem

Mas o episódio é exceção no país. Foi

os problemas que esse comportamento traz

só recentemente que o assunto começou

para o desenvolvimento dessas meninas.

a ser pesquisado e problematizado. E um

Um levantamento do site Pornhub mos-

dos primeiros casos a chamar a atenção

tra que “teen” (adolescente, em inglês) é

foi o de um concurso de beleza infantoju-

um dos termos mais procurados do mundo

venil que gerou revolta na internet.

ANTIGAMENTE JÁ ERA ASSIM A erotização de meninas é incentivada e normalizada pela indústria cultural há muitos anos

38

O termo “novinha” surgiu no Rio de Janeiro e é usado para descrever meninas vistas como ninfetas

1933

1955

POLLY TIX IN WASHINGTON A produção fez parte de uma série de curtas-metragens que satirizavam a indústria cinematográfica, mas os filmes eram estrelados por crianças interpretando papéis inapropriados. O caso mais famoso é o de Shirley Temple, que viveu uma prostituta quando tinha apenas 4 anos.

LOLITA A publicação do livro de Vladimir Nabokov criou no imaginário cultural a figura da pré-adolescente sedutora, perversa e pronta para se engajar em relações sexuais — que é como “os predadores sempre veem as vítimas infantis”, explica a pesquisadora Meenakshi Gigi Durham.


PAR A TO DOS OS

GOSTOS

OS CORPOS FEMININOS SÃO OBJETIFICADOS EM VÁRIOS ESTILOS MUSICAIS

NO FUNK “AS NOVINHA TÃO SENSACIONAL”, POR MC ROMÂNTICO (2014):

“As novinha tão sensacional As novinha tão sensacional Descendo gostosa, prendendo legal Subindo gostosa, prendendo legal Rebola gostosa, prendendo legal” NO SAMBA “VAI NOVINHA”, THIAGUINHO (2012)

“Falei: ‘Novinha faz assim comigo não’ Vai novinha (2x) Vai que eu quero ver Vai novinha (2x) Mostra o seu poder Vai novinha (2x)” NO SERTANEJO “VEM NOVINHA”, HENRIQUE E JULIANO (2013)

“Vem novinha, delícia do papai Que as mina tudo pira no jeito que o papai faz Vem novinha que eu tô louco pra ver o que esse seu corpo gostoso é capaz de fazer”

1978

1999

2010

PRETTY BABY: MENINA BONITA Dirigido por Louis Malle, o filme causou grande controvérsia não só por tratar de prostituição infantil como também por conter cenas de nudez da atriz Brooke Shields, que tinha somente 11 anos na época das gravações.

“...BABY ONE MORE TIME” Quando lançou o clipe do seu primeiro single, Britney Spears consolidou no inconsciente coletivo a imagem da colegial sensual: vestindo saia plissada , a cantora de 17 anos representava a mistura de sedução e ingenuidade que tornou a personagem Lolita tão famosa.

GOSSIP GIRL A série, voltada para o público adolescente, foi duramente criticada por sexualizar menores de idade. Os produtores aproveitaram a polêmica na divulgação do programa. “Extremamente inapropriado” e “O pesadelo de todos os pais”, diziam alguns dos cartazes promocionais.


Há 30 anos o Clube Esportivo da Penha,

criança. No Brasil, por exemplo, o conjunto

de São Paulo, realiza o concurso Garota

de normas que têm como objetivo garan-

Verão para premiar as sócias entre 13 e

tir esses direitos, o Estatuto da Criança

17 anos consideradas as mais bonitas do

e do Adolescente, só foi criado em 1990.

clube. A cerimônia acontece em meados

A forma como elementos culturais in-

de fevereiro. De biquíni, com os cabe-

fluenciam essa construção não passou des-

los arrumados e os rostos maquiados,

percebida para os pesquisadores. Para a es-

as participantes desfilam por um tapete

pecialista em representação da mulher na

vermelho em frente a uma bancada de

mídia Meenakshi Gigi Durham, da Univer-

jurados e centenas de sócios.

sidade de Iowa (EUA), a publicação do livro

No início deste ano, fotos das partici-

Lolita, de Vladimir Nabokov, em 1955, criou

pantes na borda da piscina foram publi-

no imaginário cultural a imagem da menina

cadas na página do Facebook do clube.

precoce e sedutora — uma ideia que per-

Uma das imagens exibe uma candidata

manece no inconsciente coletivo até hoje.

DEPOIS DE NOVE

MESES

de 13 anos. “Loiríssima, olhos lindos, che-

No romance, Nabokov conta a histó-

gou para apimentar um pouco mais o con-

ria do professor Humbert Humbert, que

curso”, dizia a descrição da foto. Em ques-

mantém relações sexuais com sua en-

tão de horas, a publicação estava cheia de

teada, Dolores, de 12 anos, por quem é

comentários acusando o clube de sexua-

obcecado. Na perspectiva do protago-

lizar a menina. “Gente, mas são 13 anos!

nista, a garota — conhecida pelos familia-

Apimentar? Ela não tem idade para api-

res como Lo e pelo padrasto como Lolita

mentar nada!”, escreveu um usuário.

— é uma ninfeta. “Entre os 9 e 14 anos

No Brasil, 70% das vítimas de

Procurada pela reportagem, a diretoria

de idade, ocorrem donzelas que, a certos

do clube afirmou que a descrição “pode

viajantes enfeitiçados, duas ou muitas ve-

estupro são crianças e adolescentes, e muitas delas engravidam

ter sido mal colocada, mas foi uma brinca-

zes mais velhos do que elas, revelam sua

deira interna”. Depois do ocorrido, a pos-

verdadeira natureza que não é humana,

tagem em questão, bem como todas as

mas nínfica (isto é, demoníaca); e essas

fotos das participantes, foi deletada da

criaturas predestinadas proponho desig-

página do clube no Facebook. Mas inter-

nar como ‘ninfetas’”, explica o professor

nautas já haviam registrado imagens do

no livro. No dicionário, é definida como

post e repassado pela internet, questio-

ninfeta uma “menina jovem ou adoles-

nando a necessidade de haver um con-

cente cujo comportamento e pensamento

curso desse tipo para meninas de 13 a 17

estão direcionados para o sexo; menina

anos. O evento acontece há três décadas,

que incita o desejo sexual”.

mas a edição deste ano foi a primeira em

Mas essa é a visão que Humbert, um

que se atentou para as questões da idade e

homem com o triplo de idade da enteada,

da sexualização precoce das participantes.

tem da garota. “O crime de Humbert é for-

Boa parcela desse movimento tem rela-

çá-la a agir contra a sua natureza — forçar

ção direta com a campanha #primeiroassé-

uma criança a saltar através dos arcos da

dio, do coletivo Think Olga, que reuniu nas

feminilidade adulta, insultando e degra-

redes sociais milhares de histórias de mu-

dando sua essência infantil”, afirma o es-

lheres que foram assediadas quando crian-

critor britânico Martin Amis no posfácio

ças. Mas parte da explicação também passa

de Lolita (Editora Alfaguara, 2011).

pela nossa relação com a infância, que já não é a mesma de alguns anos atrás.

COISA DE CRIANÇA

“Ela é vista pelos olhos do predador

NÚMERO DE ESTUPROS REGISTRADOS NO BRASIL

88,5%

50,7%

19,3%

Crianças

Vítimas Adolescentes do sexo feminino (entre 14 e 17 anos)

como uma sedutora disposta a participar de atos sexuais, que é como predadores

PORCENTAGEM DE NASCIMENTOS

sempre veem as vítimas infantis. E, claro,

NO PAÍS SEGUNDO IDADE DAS MÃES

Em História Social da Criança e da Famí-

é um mito com o qual eles sonham a ponto

lia, o historiador francês Philippe Ariès ex-

de usá-lo para justificar suas ações”, ex-

plica que, na Idade Média, não existia o

plica Durham. Autora do livro The Lolita

conceito de infância: as crianças eram vis-

Effect: The Media Sexualization of Young

tas como pequenos adultos. Para o pesqui-

Girls and What We Can Do About It (Efeito

sador, a noção de infância surge na Idade

Lolita: A Sexualização de Jovens Garotas e

Moderna, quando meninos e meninas co-

o que Podemos Fazer Sobre Isso, em tradu-

meçam a ser inseridos no espaço da fa-

ção livre), a pesquisadora afirma que é um

mília. Mas é só a partir do século 20 que

equívoco enorme acusar as meninas de

a sociedade passa a se preocupar de

apresentar um comportamento visto como

fato com o bem-estar e os direitos da

sensual. “Existe muita conversa sobre ga-

40

e dão à luz por falta de atendimento médico e orientação

Mães de 10 a 14 anos

0,9%

18% Fonte: Ipea

Mães de 15 a 19 anos


UM PRIMO CHEGOU A DESABOTOAR MINHAS CALÇAS E PASSAR A MÃO EM MIM

Os relatos ao longo da reportagem foram retirados dos depoimentos feitos por meio da hashtag #primeiroassédio (os nomes são fictícios)

BRUNA*, TINH A 8 ANOS

O QUE S E AP R EN D E N A ES COL A

Na pesquisa Com que roupa eu vou? Embelezamento e consumo na composição dos uniformes escolares infantis, a doutora em Educação Dinah Quesada aponta as diferenças entre os uniformes desenvolvidos para meninos e para meninas

MENINOS

MENINAS

Corte de cabelo da moda

Cabelo bem cuidado

Peças largas Os uniformes unissex costumam ser vistos como “de menino”: bermudas, calças e camisetas, todas peças mais largas em geral e, por isso mesmo, mais propícias para a atividade física. Os meninos não se preocupam tanto com as roupas, e sim em reproduzir cortes de cabelo de jogadores de futebol e utilizar acessórios relacionados ao esporte.

Chuteira ou acessórios relacionados ao esporte

Blusas justas A oferta de uniformes para meninas normalmente é mais ampla. Além dos tradicionais, elas podem optar por shorts-saia, calça legging e baby look. Essas peças costumam ser produzidas com tecidos mais apertados. Mesmo novas, as garotas sentem ainda a necessidade de cuidar de outros aspectos da aparência, como o cabelo e até as unhas.

Bijuterias e unhas feitas

Calças de tecidos apertados

41


A NOVI CA M P E Ã D E AUD

Vídeos com adolescentes estão procurados em sites de pornografia

80% DOS PAÍSES ANALISADOS PELO PORNHUB TÊM TERMOS RELACIONADOS A MENINAS JOVENS EM SUAS PRINCIPAIS BUSCAS

O BRASIL É O

O SITE RECEBEU

21,2

PAÍS QUE MAIS

BILHÕES DE VISITAS

ACESSA O PORNHUB

APENAS EM 2015

AS NOVINHAS AO REDOR DO MUNDO

ESTAVA SAINDO DO TREINO DA NATAÇÃO E O PORTEIRO DA ESCOLA DISSE QUE EU ERA ‘GOSTOSA’ 42

AN A*, T INHA 11 ANOS

ALEMANHA GERMAN TEEN FRANÇA ÉTUDIANTE FRANÇAISE

BRASIL NOVINHA

ESTADOS UNIDOS TEEN

ARGENTINA JOVENCITAS ARGENTINAS


NHA

rotas que usam roupas sensuais e se en-

Para os acadêmicos, essa contradição

gajam em atividades sexuais desde muito

entre a busca pela garantia da inocên-

novas, e o discurso tende a culpar as meni-

cia da infância e a erotização precoce

nas por tudo isso”, ressalta Durham. “Mas

tem nome: pedofilização. O termo foi

TERMO MAIS

elas simplesmente estão reagindo a um

cunhado pela pesquisadora Jane Felipe

PROCURADO

marketing e a uma mídia agressivos que

de Souza, da Universidade Federal do

NO BRASIL

empurram na direção delas mitos de sexu-

Rio Grande do Sul (UFRGS). “Ao mesmo

EM 2015,

alização em vez de ajudá-las a entender os

tempo que a sociedade faz leis para pro-

2014, 2013

próprios corpos em desenvolvimento de

teger a infância e a adolescência, tam-

maneira apropriada e correta.”

bém coloca os corpos infantis dentro da

IÊN C I A

PARECE GENTE GRANDE

entre os mais no mundo todo

604 VÍDEOS PODEM SER

ENCONTRADOS NA BUSCA PELO TERMO NO PORNHUB

TEEN ACESSADA NO MUNDO

291.941

corpos e da sexualidade”, explica Souza.

Em abril de 2015, o Ministério Público de

De acordo com ela, existem roteiros so-

São Paulo abriu inquérito para investigar

ciais que definem o que é o ideal de cada gê-

o teor de músicas e coreografias de funke-

nero antes mesmo que as crianças nasçam.

iros mirins. “São crianças e adolescentes

Espera-se que o bebê seja durão se for me-

cantando e desempenhando coreografias

nino e delicado se for menina. E as expecta-

inadequadas para suas faixas etárias, em

tivas não ficam só no plano das ideias: pro-

especial pelo forte conteúdo erótico e de

dutos desenvolvidos para crianças nas mais

apelo sexual”, disse o promotor Eduardo

tenras idades já reproduzem esses valores.

Dias de Souza Ferreira na época.

2ª CATEGORIA MAIS

perspectiva de espetacularização desses

Na pesquisa Que Linda, Parece Gente

Uma das crianças investigadas foi Ga-

Grande — Construção de um Ideal de Femi-

briela Abreu, mais conhecida como MC

nilidade na Infância, a pedagoga Annelise

Melody, então com 8 anos de idade. A

Ribeiro, também da UFRGS, conta que, ao

funkeira mirim começou a ganhar aten-

anunciar que estava grávida de uma me-

ção na internet após a viralização de um

nina, amigos e parentes começaram a lhe

vídeo em que ela aparece fazendo a co-

enviar imagens de roupas infantis femini-

reografia altamente erotizada da música

nas. Ela logo reparou que a erotização pre-

“Quadradinho de Oito”, do grupo Bonde

coce era constante nos acessórios e rou-

das Maravilhas. Naquele mesmo ano, o

pinhas para bebês do sexo feminino. Com

MP fez com que MC Belinho, pai e em-

base na análise dos catálogos de duas lojas

presário da menina, assinasse um termo

virtuais, a pedagoga constatou a presença

VÍDEOS SÃO ENCONTRADOS AO

de ajustamento de conduta, comprome-

de transparências, ombros de fora, costas

BUSCAR ESSE TERMO NO PORNHUB

tendo-se a cumprir uma série de medi-

nuas e o uso de tecidos como cetim, tafetá

das para garantir o bem-estar da filha,

e malhas apertadas na maioria das peças.

JAPÃO JAPANESE TEEN, JAPANESE SCHOOL GIRL

ÍNDIA INDIAN TEEN

FILIPINAS PINAY TEEN

Países onde os termos mais procurados no PornHub são novinha ou uma classificação parecida

Fonte: PornHub

C O M O L E R

entre elas a retirada de expressões de co-

Em muitas das imagens estudadas por

notação pornográfica de suas músicas e

Ribeiro, as meninas aparecem como mi-

a garantia de que ela usaria roupas ade-

niaturas de mulheres adultas. Segundo ela,

quadas para sua idade. Uma das maio-

a adultização da infância é um fenômeno

res acusações na época do processo era

do nosso tempo. “Vestir e produzir uma

a de que MC Belinho estaria explorando

criança como adulto é privá-la de viven-

a imagem da filha para lucrar. Procurado

ciar situações fundamentais para o seu de-

pela reportagem, o funkeiro até concor-

senvolvimento, como a liberdade de correr,

dou em conversar, mas com uma condi-

saltar, pular. Para isso, é preciso que ela

ção: pagamento antecipado de R$ 2 mil

use roupas que possam facilitar tais movi-

(a repórter declinou da oferta).

mentos”, escreve Ribeiro. “Pulando fases,

Passado um ano desde a abertura do

a criança não amadurecerá psiquicamente

inquérito do Ministério Público, Melody

o suficiente para lidar com as transforma-

— atualmente com 9 anos — continua fa-

ções que virão até alcançar a vida adulta.”

zendo aparições na mídia. Em programas

Essas características não são privilégio

de auditório, costuma se apresentar como

da moda comercial. Em 2006, a doutora

uma versão pequena de uma adulta. Para

em Educação Dinah Quesada percebeu que

um quadro do programa Pânico na Band,

os uniformes de algumas escolas também

a menina reproduziu o clipe de “Bang”,

erotizam precocemente as crianças, princi-

de Anitta, em que, caracterizada como a

palmente as meninas. Na ocasião, ela tra-

cantora de 23 anos, rebola e joga os ca-

balhava em uma escola da rede privada de

belos para os lados, fazendo a coreografia

Porto Alegre que oferecia versões dife-

acompanhada de duas dançarinas adultas.

rentes do mesmo uniforme para meni-

43


nos e meninas. “Desde a educação infantil

tes de colégios de todo o Brasil se inspi-

já existia a possibilidade do investimento no

raram no movimento e algumas até con-

corpo por meio dos uniformes, aspecto que

seguiram a permissão para usar a peça na

se aprofundava no Ensino Fundamental”,

escola. “Foi bom porque demos coragem

diz Quesada. “Para os meninos, os ideários

para as pessoas. Contribuímos para que

de masculinidade eram reproduzir o corte

elas vissem que isso é um direito delas.”

de cabelo da época e, se possível, usar al-

Contudo, o efeito Lolita também opera

gum acessório relacionado ao esporte. Mas

por contradições. Enquanto Martins e as

esse investimento era muito mais forte nas

amigas eram criticadas por defender o

meninas. Inclusive, o número de peças de

uso de shorts, a cantora Maísa Silva, de 13

uniforme era maior para elas.”

anos, era acusada de “ser infantil demais”.

Para as meninas, o uniforme unissex e

Quando lançou o clipe da música “Cabelo”,

as camisetas eram consideradas “roupas

em que aparece brincando com amigas, re-

de menino”. Por isso, elas preferiam pe-

cebeu uma enxurrada de comentários que

ças mais apertadas, como calça legging e

diziam que ela não era sensual o suficiente.

blusas baby look. Além disso, as alunas de

“Acontece que eu tenho 13 anos, ainda não

Quesada se envolviam com outros aspec-

sou mulher nem quero ser com essa idade”,

tos da aparência. “Elas não só escolhiam

desabafou a ex-apresentadora do SBT em

as peças como usavam maquiagem, fa-

suas redes sociais. “Sou uma pré-adoles-

ziam as unhas, queriam arrumar o cabelo”,

cente e me comporto como menina, pois

afirma. Como ela aponta em sua pesquisa,

conservo minha alma de criança.”

quando apareciam arrumadas, as meninas eram elogiadas pelos meninos e, por ve-

CHAVE DE CADEIA

zes, até por pais e professores; quando não

A hipersexualização de garotas novas é

o faziam, eram consideradas desleixadas.

perceptível principalmente por meio da

O oposto também ocorre. No Colégio

pornografia. Um levantamento realizado

Anchieta, de Porto Alegre, a partir do 8º

pelo PornHub, um dos maiores sites de

ano os estudantes podem usar as roupas

conteúdo adulto do mundo, revela que

que quiserem — em partes: se as meni-

“novinha” e “teen” (adolescente, em in-

nas usam shorts, são convidadas a se re-

glês) são dois dos termos mais procura-

tirar da sala de aula; se os meninos ves-

dos no Brasil e no mundo, respectiva-

tem bermudas e chinelos, nada acontece.

mente. Variações da busca por corpos

“A justificativa da escola é que o uso de

infantojuvenis também ocorrem em ou-

shorts está proibido porque pode causar

tros países (veja na página anterior).

acidentes e prende a atenção dos alunos

Ao digitar o termo “teen” no PornHub,

e professores. Parece que é mais impor-

mais de 290 mil vídeos aparecem, muitos

tante que os meninos aprendam as maté-

deles estrelados por adolescentes e jovens

rias do que as meninas”, reclama a estu-

mulheres. Em Miami, nos Estados Uni-

dante Júlia Martins, do 2º colegial.

dos, existe toda uma estrutura pronta para

No fim de fevereiro, Martins e suas cole-

recrutar meninas recém-saídas do cole-

gas começaram o movimento “Vai ter shor-

gial, entre 18 e 20 anos, para serem atri-

tinho sim”. Elas criaram um abaixo-assi-

zes de filmes pornô amadores.

nado para ser entregue à diretoria. “Em

O documentário Hot Girls Wanted, di-

vez de humilhar meninas por usar shorts

rigido por Jill Bauer e Ronna Gradus,

em climas quentes, ensine estudantes e

acompanha os passos de algumas meni-

professores homens a não sexualizar par-

nas que querem tentar fazer carreira na

tes normais do corpo feminino”, dizia o do-

indústria pornográfica. O resultado é de-

cumento. O objetivo era conseguir cem as-

vastador: as moças tendem a permane-

sinaturas — elas conseguiram mais de 25

cer, no máximo, três meses nos sets de

mil. Mas também tiveram de lidar com crí-

filmagem; para ficarem por mais tempo,

ticas que dificilmente poderiam ser classi-

optam por gravar os tipos de cenas mais

ficadas como construtivas. “Já que é para

degradantes, que, consequentemente, são

ficar sem dignidade nenhuma, por que vo-

os que pagam valores mais altos de cachê.

cês não vão nuas?”, dizia um comentário

Em uma das cenas nos bastidores de

na página que as meninas criaram no Fa-

uma gravação, o diretor instrui a atriz Ra-

cebook. No final, a diretoria não liberou o

chel Bernard a não corresponder quando

uso de shorts, mas Martins não vê o

o ator mais velho com quem contracena

episódio como de todo ruim: estudan-

investir sobre ela. “É como se você nunca

44

UM CARA SE MASTURBOU ATRÁS DE UM POSTE VENDO MINHAS VIZINHAS E EU BRINCANDO LUIZ A*, AO S 8 ANOS

E F E I TO

LOLITA A pesquisadora Meenakshi Gigi Durham, professora da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, e autora de The Lolita Effect, diz que houve poucos avanços na questão da erotização de meninas desde que seu livro foi publicado, há quase dez anos.

O QUE É O EFEITO LOLITA?

O Efeito Lolita se refere a uma série de mitos sobre a sexualidade das meninas que circula na mídia e na nossa cultura. A “Lolita” do título é uma referência clara ao famoso romance de Vladimir Nabokov em que uma menina de 12 anos se torna sexualmente envolvida com seu padrasto. No livro, a garota é vista pelos olhos do predador como uma sedutora disposta a participar de atos sexuais, que é como predadores sempre veem as vítimas infantis, e, claro, é um mito com o qual eles sonham a ponto de usá-lo para justificar suas ações.


Mas é claro que a criança nunca é a culpada. A Lolita no romance é, na verdade, a vítima do abuso cometido por seu padrasto. Existe muita conversa sobre garotas que usam roupas sensuais e se engajam em atividades sexuais desde muito novas, e o discurso tende a culpar as meninas por tudo isso. Mas elas simplesmente estão reagindo a um marketing e a uma mídia agressivos que empurram na direção delas mitos de sexualização em vez de ajudá-las a entender os próprios corpos em desenvolvimento de forma apropriada e correta.

COMO PODEMOS CRIAR REPRESENTAÇÕES MAIS COMPLEXAS DE MENINAS NA MÍDIA?

Honestamente, é bem difícil, porque existem indústrias que dependem das aspirações das meninas a modelos nada realistas de beleza e desejabilidade para que elas gastem bastante dinheiro em produtos de beleza, dietas e por aí vai. A publicidade voltada para meninas novas é uma indústria multibilionária que entraria em colapso se as garotas tivessem uma imagem forte delas mesmas. Podemos tentar retrucar a mídia exigindo representações mais realistas e positivas das meninas e boicotar anúncios e produtos sexistas. Podemos também tentar apoiar os tipos de mídias que oferecem uma gama de imagens e opções relacionadas a gênero e sexualidade. Mas é difícil encontrá-las.

SEU LIVRO FOI PUBLICADO HÁ OITO ANOS. O QUE MUDOU DESDE ENTÃO?

Não muito, em minha opinião. Na verdade, a sexualização de garotas tornou-se algo visto como normal. E não estamos observando muito progresso no que diz respeito à saúde e segurança sexual. O número de crianças e adolescentes com distúrbios alimentares está aumentando, pelo menos nos Estados Unidos. Garotas adolescentes correm mais risco de sofrer violência sexual do que qualquer outro grupo. Adolescentes registram altos índices de doenças sexualmente transmissíveis. Apesar de os índices de gravidez estarem caindo ao redor do mundo, nos Estados Unidos eles são bem altos em comparação aos de outros países industrializados. Não posso afirmar que estamos progredindo muito. Por outro lado, acredito que há mais conscientização em torno da agressão sexual e da necessidade de desafiarmos os padrões de gênero.

VOCÊ VÊ A POPULARIZAÇÃO DO MOVIMENTO FEMINISTA COMO UMA FERRAMENTA IMPORTANTE NA LUTA CONTRA A SEXUALIZAÇÃO PRECOCE DE MENINAS?

Eu sou feminista, então minha resposta é sim. O foco feminista em impedir casos de violência sexual e doméstica, em desafiar os padrões tradicionais de gênero na busca da igualdade, em reconhecer as intersecções de raça, classe, gênero e orientação sexual… Esse tipo de ativismo coletivo é ótimo e está fazendo muita diferença. Claro, também é importante ressaltar que existem vários feminismos na sociedade contemporânea, e nem todos se alinham à forma pela qual abordo essas questões. Mas é bom trabalhar nossas diferenças e alcançar clareza a respeito de como apoiar melhor e empoderar as mulheres e meninas.


ASSÉDIO #PRIMEIRO

Graças à campanha do coletivo Think Olga, “primeiro assédio” foi uma das buscas mais feitas por brasileiros no Google em 2015. Segundo a ONG, foram mais de 11 milhões de pesquisas relacionadas à campanha.

3,1 M I L

9,7A N O S FOI A IDADE MÉDIA DO PRIMEIRO

TWEETS FORAM FEITOS PELA HASHTAG

ANALISADAS PELO COLETIVO

ASSÉDIO NESSES RELATOS

A P Ó S C A S O N O “ M A S T E R C H E F J R .”

HISTÓRIAS CONTADAS COM A HASHTAG FORAM

82 M I L

NO CAMINHO DA ESCOLA UM CARA DE MOTO ME SEGUIU NUMA RUA VAZIA E MOSTROU O PÊNIS PARA MIM CARL A*, TINH A 11 ANOS


realmente tivesse consentido, entende?”,

res foram incentivadas a compartilhar a

explica. “Nossa, me sinto todo predador”,

história da primeira vez em que foram ví-

diz o ator. Bernard só se manifesta quando

timas de assédio. “Queríamos mostrar o

fica a sós com os documentaristas: “Odiei

quanto o assédio é comum, e a reação que

tudo aquilo. Não tem nada de sensual no

isso gerou só comprova que tínhamos ra-

que fizemos”, confessa, nervosa.

zão: foram 82 mil tweets mencionando a

A partir da busca por “teen” em sites

campanha em quatro dias. Ficamos im-

de pornografia é possível ainda encontrar

pressionadas com a quantidade de com-

vídeos de atrizes adultas utilizando rou-

partilhamentos, mas não surpresas”, re-

pas e acessórios infantis e juvenis. Entre

vela Luíse Bello, gerente de conteúdo do

os resultados há desde mulheres agindo

Think Olga. “O assédio é extremamente

de forma inocente vestindo uniformes co-

comum e normatizado, e ainda é uma con-

legiais até outras usando chupeta e imi-

versa muito recente no Brasil e no mundo.”

tando o comportamento de bebês.

Entre os compartilhamentos é possí-

No artigo Poder, Mickey Mouse e a In-

vel encontrar casos que retratam diferen-

fantilização de Mulheres, a socióloga Lisa

tes tipos de assédio. Há a história da mu-

Wade, do Occidental College (EUA), afirma

lher que, quando tinha 7 anos, percebeu

que vivemos numa cultura imperativa na

que um homem se masturbava enquanto

qual as mulheres têm que incorporar tanto

a assistia brincar na rua com as amigas; a

a sensualidade quanto a fofura. “A sexu-

da mulher que, aos 5 anos, sofreu um as-

alização de meninas e a infantilização de

sédio tão sério que não conseguiu nem

mulheres adultas são dois lados da mesma

escrever sobre o que aconteceu sem pas-

moeda. Ambos nos dizem que deveríamos

sar mal; e o caso de Kelli, a moça do iní-

achar a juventude, a inexperiência e a inge-

cio desta matéria, que, até a campanha do

nuidade sensuais nas mulheres”, escreve.

Think Olga, nunca havia comentado sobre

Um estudo realizado por psicólogos da

o ocorrido com ninguém. “Eu quis mos-

Universidade do Texas em Austin, nos Es-

trar o que aconteceu comigo; todas nós

tados Unidos, sugere que quanto mais as

passamos por esse tipo de coisa e precisa-

meninas são expostas a imagens sexuali-

mos divulgar esses casos. A erotização do

zadas de mulheres na mídia, mais acredi-

corpo das meninas existe e é um absurdo”,

tam que precisam ser sensuais para con-

diz Kelli. “Quando as mulheres começa-

seguirem ser valorizadas. Ao analisar o

ram a ver que havia muita gente compar-

comportamento de garotas entre 10 e 15

tilhando histórias de assédio e abuso na

anos, os pesquisadores descobriram ainda

infância, perceberam que a culpa não era

que o contato com a hipersexualização faz

delas e que não eram as únicas que tinham

com que as jovens tenham baixa autoes-

passado por situações como aquelas”, ex-

tima, principalmente no que diz respeito

plica Isadora Cabral, que atualmente de-

aos seus próprios corpos.

senvolve uma pesquisa sobre gênero, se-

NADA DE FIU FIU

xualidade e ciberativismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Quando o primeiro episódio da versão

Cabral acredita que os efeitos da cam-

brasileira do programa de televisão Mas-

panha, a primeira de vários movimentos

terChef Jr. foi ao ar, a internet entrou em

de grande repercussão voltados para os

polvorosa. Não só porque o reality show é

direitos da mulher nos últimos meses,

um dos mais assistidos em duas telas —

não é de curto prazo. “O poder da inter-

acompanhado pela televisão e pelas redes

net é muito grande. Quando veem essas

sociais — mas pela repercussão que teve

movimentações nas redes sociais, mui-

online. Percebeu-se que vários dos comen-

tas meninas novas começam a pensar so-

tários sobre o programa eram relaciona-

bre as próprias experiências. Isso não só

dos à participante Valentina, de 12 anos.

cria uma nova leva de meninas mais cons-

Ou melhor, à aparência dela. “Sobre essa

cientes de seus direitos como gera discus-

Valentina: se tiver consenso, é pedofilia?”,

sões e conduz os movimentos para fora da

escreveu um dos usuários.

internet”, explica. Esse é o melhor cami-

O coletivo feminista Think Olga pronta-

nho para que outras Kellis, Júlias, Maísas

mente se posicionou contra esses comen-

e Valentinas aprendam a resistir à pres-

tários, reforçando o fato de a participante

são criada sobre elas e entendam que suas

ser uma criança. Assim nasceu a campa-

próprias vozes são a melhor e mais po-

nha #primeiroassédio, em que as mulhe-

tente forma de romper esse ciclo.

47


ILUSTRAÇÃO ZANSKY

Estamos vivos, mas não sabemos o que isso significa. Sem uma teoria biológica

TEXTO ANDRÉ JORGE OLIVEIRA

48


geral, as agĂŞncias espaciais talvez nunca encontrem seres extraterrestres

DESIGN RAFAEL QUICK E FEU

49


“Para mim, essa é uma

e sinais de vida independentes do ma-

visão extremamente limi-

terial que a constitui”, diz Rampelotto.

tada”, diz o pesquisador.

Uma dessas características seria o am-

Só que conseguir achar or-

biente estar fora de equilíbrio: um exem-

ganismos como os terres-

plo disso é a abundância de oxigênio em

tres em outros mundos já é

nosso planeta que, não fossem os or-

um imenso desafio. Como

ganismos, teria sido esgotado por rea-

procurar, então, por algo

ções químicas. No artigo A Química da

ainda mais abstrato?

Vida como Nós Não Conhecemos, publicado na revista Química Nova, o astro-

QUEM É VIVO SEMPRE APARECE

micas alternativas que poderiam dar

A área multidisciplinar

origem a criaturas exóticas. O carbo-

que investiga o fenôme-

no é extremamente versátil e gera uma

no da vida e tenta contex-

grande complexidade de elementos

tualizá-lo de maneira mais

químicos, por isso se tornou a espinha

O telescópio espacial Kepler chegava ao

ampla é a astrobiologia. O objetivo não

dorsal dos organismos terrestres, sen-

espaço em 2009. Até então, pouco se sa-

se restringe a encontrar criaturas fora da

do a base do DNA e dos aminoácidos.

bia sobre os chamados planetas extrasso-

Terra, mas visa compreender como a vida

Mas, em um ambiente livre de oxigênio

lares — aqueles que orbitam outros sóis.

surge e evolui em situações distintas, tra-

e com metano em estado líquido, por

Apenas duas décadas antes disso, o número

balhando com nada menos que as princi-

exemplo, o silício poderia desempenhar

de exoplanetas conhecidos se resumia a um

pais perguntas existenciais que há milê-

o papel do carbono. Outro requisito para

redondo zero. Seriam eles abundantes em

nios atormentam a humanidade. Achar

a vida, além de moléculas complexas e

nosso Universo? Quantos estariam na zona

seres alienígenas é, com certeza, o maior

um solvente, é o acesso a uma fonte de

habitável, onde água líquida pode existir na

sonho dos astrobiólogos, pois permiti-

energia que, no caso da Terra, é princi-

superfície e sustentar a vida como conhece-

ria estudos comparativos com a vida ter-

palmente o Sol. Em lugares mais afasta-

mos? Foi para responder a essas perguntas

restre: um único micróbio extraterrestre

dos, ela pode ser obtida de vulcões ou

que a Nasa investiu US$ 550 milhões na

bastaria para “desprovincializar a biolo-

com a quebra de certos elementos.

construção do equipamento responsável

gia”, como disse o astrônomo Carl Sagan.

por caçar planetas distantes que estão em

Ou então, nas palavras de Rampelotto, se-

MUNDOS NOVOS, VIDA NOVA

trânsito — fenômeno observado em maio

ria a prova de que “a biologia é uma lei

Encarar a biologia como um resultado das

com a passagem de Mercúrio em frente ao

universal, como a física e a química”.

condições físicas e químicas de seu mun-

Sol. Coincidência ou não, um dia depois do

Pesquisas sobre exoplanetas como as do

do torna as possibilidades

raro evento, a agência anunciou a confirma-

telescópio Kepler estão entre as mais im-

infinitas. “Se adaptarmos

ção do maior “lote” de exoplanetas até aqui,

portantes para a astrobiologia. Mas como

esses conceitos aos mé-

1.284. Destes, apenas nove são rochosos e

nossa tecnologia ainda não permite enviar

todos e instrumentos que

ficam na zona habitável, podendo abrigar

sondas a outros sistemas solares, o que se

usamos para detectar vida,

vida como a terrestre, à base de água e car-

pode fazer é pouco mais que determinar

estaremos aumentando

bono. Mas se biologias exóticas também

os gases presentes nas atmosferas des-

significativamente as chan-

fossem levadas em consideração, o núme-

ses planetas distantes por meio da análise

ces de reconhecer um ser

ro de candidatos poderia ser bem maior.

da luz que passa por eles e chega até nós.

vivo”, afirma o astrobiólo-

Acontece que as agências espaciais e

Alguns gases como o ozônio ou o oxigênio

go. A linha que estuda es-

grande parte da comunidade científica não

até indicariam alguma atividade biológica,

sas questões é chamada de

têm muito interesse em vasculhar o cosmos

mas também podem surgir de processos

química pré-biótica, outro

à procura de vida como não a conhecemos.

naturais. Essa ambiguidade é apenas um

pilar da astrobiologia mo-

E não há nada de errado em tomar a Terra

dos reflexos de uma questão maior: não há

derna. Análises com essa

como exemplo na busca por vida alieníge-

consenso na comunidade científica sobre

abordagem, mais focada

na. Afinal, até agora, é o único lugar onde

o que é a vida. Sem uma teoria geral, fica

na origem da vida, são

se sabe que a biologia prosperou e onde ela

muito difícil saber como procurar por ela

conduzidas por meio de

pode ser estudada em detalhes. “A gran-

no espaço. O problema é que, talvez, essa

experimentos em labora-

de questão é que, se apenas procurarmos

compreensão mais profunda só surja a par-

tório que simulam diferen-

por vida como a conhecemos, isso é tudo

tir dos estudos comparativos entre organis-

tes ambientes planetários e

o que vamos encontrar”, afirma Pabulo

mos terrestres e alienígenas. Se for assim,

até criam células artificiais.

Rampelotto, astrobiólogo da Universidade

estamos fadados a tatear no escuro.

Mas o oásis das pesquisas,

Federal do Rio Grande do Sul. Em outras

“Em vez de procurar sinais biológi-

palavras, buscamos apenas por nós mes-

cos específicos que apareceram tarde na

É aqui que as sondas es-

mos no espaço — o que não deixa de ser

história da Terra, as missões deveriam

paciais desempenham um

um gesto narcisista e geocêntrico.

se concentrar em características gerais

papel fundamental: além de

50

obviamente, está lá fora.

CANDIDATOS A PLANETAS: 4.696

biólogo descreve uma série de bioquí-


4.

3.

2.

1.

Pedimos ao astrobiólogo Pabulo Rampelotto que imaginasse como seria a vida em duas luas do Sistema Solar. O resultado você confere na ilustração acima e na página 50

PLANETAS CONFIRMADOS: 3.264

2.325

TITÃ, OÁSIS DE VIDA EXÓTICA

DESCOBERTOS

A maior lua de Saturno é um paraíso para organismos à base de metano ou silício

PELOKEPLER

1.

ROCHOSOS NAZONAHABITÁVEL:21

Por estar a 1,4 bilhão de quilômetros do Sol, Titã recebe pouca energia solar. O efeito disso nos organismos seria uma menor pigmentação da pele, resultando em colorações mais escuras.

2.

Lagos de metano e etano fornecem condições bioquímicas para a vida surgir e prosperar. A presença de silício nas moléculas protegeria os organismos do frio de -180 graus Celsius.

3.

Com geologia complexa, a superfície de Titã tem relevo acidentado. Barreiras naturais como montanhas e dunas poderiam isolar os animais, estimulando novas espécies.

4.

A atmosfera da lua é avermelhada. Ela é rica em compostos orgânicos (à base de carbono), que são bons para a biologia. O ambiente tem um ciclo hidrológico de metano, com chuva e neve.

NELES PODE HAVER VIDA COMO A CONHECEMOS

DO LOTE DE 1.284 EXOPLANETAS ANUNCIADOS EM MAIO PELA NASA,

550

SÃO ROCHOSOS COMO A TERRA

poderem procurar diretamente por orga-

trumentos e de um alvo claro resultou em

nismos, instrumentos como microscópios

desinteresse da agência por investigações

são capazes de testar teorias em outros

sobre o assunto, que só foram retomadas

mundos e coletar dados para aprimorá-

no fim dos anos 1990. Ele destaca tam-

-las ainda mais. “A detecção de vida como

bém o fracasso do experimento biológico

meta de missões planetárias vem ganhan-

da sonda Viking, que pousou em Marte em

do força, o nível de interesse jamais esteve

1976, como um dos principais fatores.

tão alto”, diz Chris McKay, astrobiólogo

“O sistema das sondas injetou uma solu-

do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa, e

ção no solo para tentar medir metabolismo

um dos principais nomes da área. O pes-

procurando detectar metano, que é produ-

quisador afirma que a falta de bons ins-

zido pela respiração de micro-orga-

Fonte: Nasa Exoplanet Archive

51


1.

2.

nismos”, explica Douglas Galante, do Núcleo de Pesquisa em Astrobiologia da USP, relembrando a visita da sonda ao planeta vermelho. Para surpresa de todos, o resultado deu positivo — mas logo se descobriu ser um falso positivo: o metano era ge-

VIVENDO NO BREU EM EUROPA

Seres da lua de Júpiter brilhariam no escuro e dependeriam de vulcões submarinos

1.

Fluidos aquecidos e ricos em minerais emitidos nas fontes hidrotermais seriam a base da vida em Europa. A quebra de compostos como enxofre e metano forneceria energia aos organismos aquáticos.

2.

A lua deve ter um núcleo de ferro revestido de um manto rochoso em contato direto com o oceano. A gravidade de Júpiter estimula atividade geológica e cria as fontes hidrotermais.

3.

Nenhuma criatura teria olhos, pois não há luz alguma. A bioluminescência (brilho no escuro) seria comum. Os animais abissais são o melhor exemplo para imaginar os predadores de lá.

4.

Estima-se que o oceano abaixo da crosta seja dez vezes mais profundo que o terrestre, com duas vezes mais água. Bons para a vida, oxidantes em abundância tornam a água muito ácida.

rado por reações químicas do próprio solo. “Todas as missões posteriores foram feitas para pro-

entendimento em termos de variabilida-

em um desses meteoritos, um micro-or-

duzir uma boa caracterização físico-quími-

de. Inclusive, ambas podem ser da mes-

ganismo ultrarresistente pode muito bem

ca do ambiente e só depois seguir para as

ma árvore, ou seja, serem a mesma vida.

ter sobrevivido à viagem e se adaptado

moléculas”, afirma Galante. Marte é o que-

Existe até uma chance palpável de que

ao novo lar. São os chamados micróbios

ridinho do time da “vida como a conhece-

nós sejamos marcianos. Há evidências de

extremófilos. Esses seres vivem em am-

mos” justamente por ser tão parecido com

que, 4 bilhões de anos atrás, impactos co-

bientes hostis como o deserto do Atacama

a Terra — se houver vida ali, certamente

lossais de asteroides nos dois mundos fi-

ou lagos abaixo do gelo na Antártica, e

será à base de água e carbono. Por isso,

zeram com que pedaços de um fossem pa-

o estudo deles é fundamental para que a

não aumentaria tanto assim nosso

rar no outro. É a hipótese da panspermia:

astrobiologia defina os limites da vida.

52

Fonte das ilustrações: Pabulo Rampelotto


Em Marte as coisas soam um pouco

que contém um oceano de água salga-

familiares, mas no reino dos planetas

da abaixo da superfície e, possivelmente,

gasosos elas se tornam bem mais im-

vida. Titã seria a próxima da lista.

previsíveis. “Se nos aventurarmos mais

3.

4.

para fora, precisamos ter em mente que

O SEGUNDO GÊNESIS

a bioquímica da vida lá deve ser um tanto

Como a vida ali seria completamente di-

diferente”, diz Dirk Schulze-Makuch, as-

ferente da que conhecemos e missões do

trobiólogo da Universidade do Estado de

gênero são muito caras, as agências espa-

Washington. A maior lua de Saturno está

ciais n��o investem nesse tipo de pesquisa.

entre os destinos preferidos do pessoal

É muito arriscado. A falta de financiamen-

da “vida como não a conhecemos”. É um

to é um dos fatores que afastam cientis-

mundo fascinante: com diâmetro maior

tas mais conservadores de estudos da vida

que o de Mercúrio, Titã é o único corpo

como não a conhecemos. Lucy Norman faz

celeste conhecido com líquidos na super-

parte da minoria de pesquisadores ousa-

fície além da Terra. Mas não é a água que

dos que se dedicam a entender o desco-

forma seus grandes lagos — são os hidro-

nhecido e expandir nossa concepção de

carbonetos. O principal componente é o

vida. Assim como muitos de seus colegas,

metano, protagonista de um ciclo hidro-

ela compreende o cenário desfavorável e

lógico que inclui chuva e neve. A espessa

sabe lidar com a situação: “Entendo que vi-

atmosfera é rica em compostos orgâni-

vemos em uma era movida a resultados”.

cos, o que torna possível vida à base de

Enquanto a possibilidade de vida exó-

carbono. Mas, ainda assim, é bem prová-

tica não for levada mais à sério pela co-

vel que ela fosse diferente da terrestre:

munidade científica, talvez nunca encon-

incluir o silício nas moléculas, por exem-

tremos aquilo a que os especialistas dão

plo, ajudaria a lidar com as baixíssimas

o nome de segundo gênesis — uma outra

temperaturas de lá, que ficam em torno

origem da vida. Por mais esquisito que

dos 180 graus Celsius negativos.

possa parecer, formas de vida desconheci-

Cientistas descobriram algo misterio-

das podem existir aqui mesmo, na Terra, e

so ocorrendo naquele mundo, que pode

a ciência seria incapaz de detectá-las. É a

muito bem ser um indício de seres vivos:

hipótese da biosfera oculta, descrita pela

a quantidade de hidrogênio e acetileno

astrobióloga e filósofa Carol Cleland, da

na superfície é menor do que o esperado.

Universidade do Colorado em Boulder.

“Se existe uma causa não biológica para

Considerando que estudamos apenas cer-

essa anomalia, ela ainda não foi identifi-

ca de 1% das espécies de micro-organis-

cada”, afirma Lucy Norman, astrobióloga

mos do planeta, é possível que alguma

da Universidade de Hong

delas seja exótica e tenha surgido a partir

Kong especializada nessa

de circunstâncias diferentes da nossa.

PLANETA DOS MICRÓBIOS

lua. A única maneira de

A formação em Filosofia dá a Cleland

descobrir seria com o en-

um ponto de vista privilegiado, em ter-

vio de uma nova sonda, de

mos intelectuais. “Filósofos fazem per-

DEINOCOCCUS RADIODURANS

preferência que operasse

guntas que um cientista, incorporado em

É a bactéria mais resistente do mundo, reconhecida até mesmo no Guinness Book. Resiste a condições extremas de frio, desidratação, vácuo, acidez e radiação intensa.

também como submarino.

uma tradição científica particular, pode

Em 2005, durante uma

não fazer”, diz. Talvez, a visão mais am-

missão conjunta entre a

pla dos filósofos aplicada à ciência seja

Nasa e a Agência Espacial

o que falta para podermos responder, de

Europeia (ESA) que levou

uma vez por todas, à pergunta que tanto

a sonda Cassini até o sis-

nos atormenta: estamos sós no Universo?

tema de Saturno, o mó-

É justamente essa abertura de ideias

dulo Huygens se tornou o

que o astrobiólogo Pabulo Rampelotto

primeiro a fazer um pou-

defende. “Para procurar vida em outros

so suave na lua, e man-

planetas, devemos estar preparados para

dou dados durante algu-

reconhecer vida como nós não conhece-

mas horas. Mas não houve

mos.” Pois, afinal, é bem provável que ela

nenhum experimento as-

esteja lá fora agora mesmo, pronta para

trobiológico. A meta das

ser detectada, em algum planeta ou lua

duas agências é lançar, até

do Sistema Solar. Ou então, em um dos

2025, uma missão para

1.284 mundos que o telescópio Kepler

Europa, a lua de Júpiter

acaba de descobrir.

SAIBA QUAIS SÃO OS ORGANISMOS TERRESTRES MAIS DUROS NA QUEDA

METHANOPYRUS KANDLERI Entre os representantes mais notáveis das arqueas, esse micróbio detém o recorde de temperatura de crescimento mais elevada: 122 graus Celsius. Também sobrevive em níveis extremos de salinidade.

TARDÍGRADO É o animal mais resistente. Aguenta temperaturas de -272 até 151 graus Celsius, pressão de 180 km abaixo da superfície e altas doses de radiação. Fica até 10 anos em estado criptobiótico (latente).

53


TIRO AO ALVO

54

Soldado do ExÊrcito Nuer em Ulang, capital do estado Upper Nile, empunha um lançador de granadas RPG


AVIDA NOQUARTO PAÍSMAIS VIOLENTO DOMUNDO O repórter Fellipe Abreu passou uma semana no Sudão do Sul e o alojamento em que ele estava foi invadido já no segundo dia TEXTO E FOTOS FELLIPE ABREU DESIGN BERNARDO BORGES

55


Enquanto tudo isso acontecia, eu dormia no

POR VOLTA DAS 3h15 , três homens entram ca-

minhando por uma rua estreita e esburacada de Juba, capital do Sudão do Sul, onde funciona um alojamento da organização não governamental Nonviolent Peaceforce. Em cima do muro de dois metros de altura, uma fileira grossa de arame farpado foi colocada para dificultar qualquer tentativa de invasão.

SUDÃO DO SUL

cômodo entre os quartos de Yohan e Marco. Mas, como era apenas minha segunda noite no país e eu ainda não havia sido apresentado a Yohan, ele pulou o meu quarto por acreditar que estava vazio. “Eles tentaram abrir a porta e a janela do seu quarto antes de irem para o do Marco, mas não

Mas os homens conseguem se meter por uma pequena brecha

conseguiram”, disse Yohan no dia seguinte. Depois de quase

e rendem dois seguranças desarmados. “Eu tentei brigar com o

duas horas assaltando os quartos, os homens foram embora

primeiro que pulou, mas logo veio o segundo. Eles me bateram

levando tudo que conseguiram carregar.

e me jogaram no chão”, contou um deles mais tarde.

Estamos no Sudão do Sul, que, de acordo com o Índice de

Ninguém dentro dos quartos sabe que o alojamento foi in-

Paz Global realizado pelo Institute for Economics and Peace,

vadido. Após render os guardas, os três homens, com a ajuda

é o quarto país mais perigoso do mundo, atrás da Síria, do

de um facão, arrombam a janela e invadem o primeiro dormi-

Iraque e do Afeganistão. Em meio à guerra civil que arrasa a

tório. “Acordei com o barulho e, quando meus olhos se acos-

nação desde dezembro de 2013, a economia, que nunca che-

tumaram à escuridão, percebi que três homens tinham inva-

gou a começar a funcionar bem, parou de vez. Os poços de pe-

dido meu quarto. Dois armados com AK-47 e outro, com um

tróleo do norte, que seriam a principal fonte para fazer o país

facão”, relembra Sashimal Yohan, natural do Sri Lanka. Depois

prosperar, não podem ser totalmente explorados por conta da

de roubarem tudo de valor, os homens o levam até uma das

guerra. Quebrado, o governo sul-sudanês depende única e ex-

portas ao lado e o obrigam a chamar pelo nome a pessoa que

clusivamente de ajuda externa. Dessa forma, além da guerra

dorme lá dentro. Com medo, Yohan bate à porta e pede ao

civil, a criminalidade comum aumenta bastante nas principais

amigo Marco que a abra. Sem desconfiar de nada, Marco, um

cidades. Embora não seja possível cravar, muito provavelmente

português que também trabalha na organização, abre a

os três assaltantes que invadiram o alojamento da organização

porta e, do mesmo modo, é rendido e assaltado.

eram militares do próprio exército sul-sudanês.

56


1

1

2

3 4

DE OLHO

Soldado do Exército Nuer faz a guarda de um dos locais próximos ao centro militar, em Ulang 2

GALHO VIRA ARMA

As principais brincadeiras entre as crianças sul-sudanesas envolvem “armas” e simulações de conflitos 3

MUNIÇÃO IMPORTADA

Soldado Nuer posa para a foto ostentando nos braços a arma mais vista pelas comunidades do país: o lendário fuzil AK-47 4

ATIVIDADE EM GRUPO

Crianças da etnia Nuer brincam no campo de refugiados de Juba

57


58

MULHERESECRIANÇAS, ASPRINCIPAISVÍTIMAS DAGUERRACIVIL


Em consequência do antigo conflito com o Sudão, grande parte da população do Sudão do Sul recebeu formação militar e ocupa cargos nas Forças Armadas do país. Coincidência ou não, quando há atraso no pagamento dos salários dos militares, aumenta o número de saques na capital. E os alvos geralmente são as organizações internacionais — únicos locais em que há dólares e artigos de valor. Nos três meses anteriores à minha chegada, 38 residências onde viviam estrangeiros foram assaltadas. Fora isso, Juba parece quase igual a muitas outras pequenas cidades africanas. Eletricidade não há, só por gerador. De todas as ruas da cidade, apenas cinco são asfaltadas. Grupos de crianças jogam futebol em terrenos baldios e cheios de mato, enquanto outros, na falta de carrinhos, usam pedaços de madeira para empurrar uma velha roda de bicicleta e correm como loucos pelas ruas esburacadas.

UM CARIOCA NO SUDÃO DO SUL O Sudão, de maioria árabe, e o Sudão do Sul, cristão, travaram algumas das guerras civis mais longas do continente africano. A primeira delas aconteceu de 1962 até 1978, e a segunda começou em 1983 e só acabou em 2005. Foi só em julho de 2011 que o Sudão do Sul finalmente se tornou um país independente. Mal deu tempo de comemorar e a nação caiu em uma nova guerra civil, dessa vez entre suas duas etnias principais: os Dinkas e os Nuer. A rixa entre os grupos é antiga, com massacres perpetuados por ambos ao longo das últimas décadas. Quando o Sudão do Sul passou a ser um país independe, o jeito encontrado para acomodar os interesses das duas etnias foi indicar um representante dos Dinka para a Presidência e um representante dos Neur para vice. Porém, antes do fim do mandato, o então presidente Salva Kiir acusou o vice, Riek Machar, de conspirar para ocupar seu cargo, e não só o expulsou do governo como indicou outro Dinka para substituí-lo. Como diz um ditado popular africano, “quando os elefantes brigam, quem sofre é a grama”: com a batalha política armada, cada um dos desafetos levantou a bandeira da própria etnia, e o Exército se dividiu. Quando a guerra civil começou, na noite de 15 de dezembro, o carioca Thiago Wolfer estava trabalhando em uma cidade chamada Wanjuk, e sua mulher estava em Juba. “Foi um momento muito tenso. A casa onde minha mulher vivia foi invadida por soldados Dinkas, todos bêbados”, relembra o brasileiro. Formado em Relações Internacionais com ênfase em Análise de Conflitos Internacionais, ele decidiu ir para o Sudão do Sul para trabalhar como coordenador da Nonviolent Peaceforce. Hoje, depois de três anos no país, pode-se dizer que Wolfer é 2 1

3 4

2

A VIDA NO CAMPO

Campo de refugiados de Juba, onde vivem atualmente cerca de 30 mil refugiados Nuer 3

PAUSA

Todo dia, depois da aula, dezenas de crianças passam horas brincando em frente ao colégio 1

RETRATOS DA GUERRA

Alguns dos milhares de mulheres e crianças do campo de refugiados de Ulang

4

PRECARIEDADE

Uma das melhores salas de aula do único colégio da região — parcialmente destruído no ataque que a comunidade sofreu em 2014

o maior especialista brasileiro no Sudão do Sul. No entanto, mesmo com tantos desafios, algumas vivências positivas fazem todo o esforço valer a pena. Em maio de 2014, Wolfer viveu uma das suas experiências mais especiais no país, enquanto trabalhava em uma região chamada Old Fangak — dominada pela oposição Nuer. Três civis naturais de Uganda foram presos por soldados Nuer e acusados de espionagem, já que, como se sabe, Uganda apoia claramente os Dinkas, inclusive com tropas militares. “Os três foram acusados e seriam executados em poucos dias. Rapidamente, fui deslocado para esse caso e, depois de um processo de negociação que durou uma semana, nós conseguimos tirá-los de lá com vida. Foi uma pequena vitória!”, finaliza.

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1

2

4 3

1

É BRASIL

O carioca Thiago Wolfer em um dia de trabalho no campo de refugiados de Ulang 2

A BÊNÇÃO

Padre Raimundo coordena sessão de cura de traumas com refugiados da etnia Nuer

3

A BÊNÇÃO 2

Duas senhoras participam de uma sessão de cura organizada pelo brasileiro 4

DIA DE MISSA

O padre durante a missa de domingo no campo de Juba

DO SERTÃO AO SUDÃO

dizendo que quem estava na linha de frente, abrindo caminho

Aos domingos, o despertador de Raimundo costuma tocar

para as tropas do governo, eram mercenários muçulmanos de

às 6h30 da manhã. Depois de tomar o café da manhã e fazer

Darfur. “O comunicado dizia que esses mercenários matavam

sua oração matinal, ele se arruma, coloca a bata na mochila

todos que encontravam pela frente e, como eram muçulmanos,

e segue para o campo de refugiados de Juba. Lá, reza a mis-

não respeitariam a igreja católica”, conta Raimundo.

sa semanal em uma construção simples de ripas de madeira,

Ele e os outros missionários, então, fugiram para um vilarejo

telhado de zinco e chão de terra batida, onde se amontoam

às margens do Rio Nilo onde ficaram por 18 dias. Eles dormiam

entre 400 e 500 pessoas, sentadas em cadeiras de plástico

em montes de capim, bebiam água do mesmo pântano onde

ou de pé nas laterais e nos fundos.

tomavam banho e comiam o que o povo oferecia. “Mas logo a

Nascido em Balsas, interior do Maranhão, Raimundo Rocha

comida acabou, e passamos fome por alguns dias. Tivemos de

dos Santos decidiu se dedicar à vida religiosa aos 21 anos. Foi

pensar em uma solução para sair de lá”, relembra. Eles concor-

ordenado padre em 2005 e, depois de destinar cinco anos ao

daram que o jeito era mandar alguém até a cidade mais próxima

trabalho missionário no Maranhão, resolveu ir para o Sudão

para negociar com a autoridade local. Uma senhora idosa se

do Sul. Chegou em junho de 2010, apenas 13 meses antes de o

ofereceu para a tarefa, argumentando que não seria morta, por

país se tornar oficialmente independente: “Eu me lembro que

ser mulher, tampouco violentada, por ser idosa demais. “Àquela

naquele período falava-se muito em desenvolvimento, existia a

altura, todos nós pensávamos que iríamos morrer, mas graças

esperança de que o país finalmente prosperasse”.

a Deus tudo deu certo e fomos resgatados.”

Quando a guerra estourou, além da missão da qual Raimundo

Passados mais de dois anos do resgate, os traumas vividos em

faz parte, havia outras cinco ONGs na cidade. Com a invasão

Leer, em vez de afastarem o padre Raimundo do Sudão do Sul,

iminente, todas elas tiveram de evacuar, mas Raimundo e os de-

deram-lhe ainda mais força para continuar: “Infelizmente, vejo

mais missionários decidiram ficar. “Éramos nove, cinco homens

uma longa estrada pela frente para a reconciliação entre os povos

e quatro mulheres. Resolvemos ficar para que a nossa presença

do Sudão do Sul. Mas minha missão é trabalhar para que exista

inibisse as atrocidades que as tropas infligiam aos civis”, explica.

mais perdão entre eles, para que um dia a paz seja estabele-

Dias depois, eles receberam um recado pelo telefone via satélite

cida. Com calma, paciência e fé nós vamos chegar lá”.

61


TEXTO NATHAN FERNANDES

DESIGN FEU

62


Em tempos de apps de paquera, o amor parece estar fora de moda. Desde o começo dos anos 2000, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman escreve sobre a fragilidade das relações atuais. E, há 30 anos, o cantor David Bowie já nos alertava para a falta de credibilidade do amor moderno. Para muita gente, aplicativos como Tinder e Grindr são o tiro de misericórdia no coração da sociedade. Mas a francesa Marie Cosnard, diretora de tendências do Happn, tem uma visão menos apocalíptica dos romances de hoje. Para ela, é a tecnologia que acompanha os comportamentos sociais, não o contrário. Cosnard cita o exemplo de São Paulo, que, dentre as 30 cidades nas quais o Happn está presente, é o lugar com maior vocação para acompanhar esse tipo de tecnologia. “Definitivamente, São Paulo é a capital global do crush”, afirma a diretora. O app francês, que usa geolocalização para mostrar pessoas que se cruzaram e apresentar possíveis parceiros, foi criado em 2014, chegou ao Brasil em abril de 2015 e já conta com 1,7 milhão de usuários à procura de um “lance” [insira aqui a definição mais adequada]. O país já é o principal mercado do aplicativo, que tem mais de 10 milhões de perfis cadastrados no mundo. Segundo Cosnard, o entusiasmo paulistano se deve, principalmente, à cultura sociável do brasileiro. “Além disso, há o paradoxo das grandes cidades: onde existem muitas pessoas que gastam muito tempo nos transportes ou no trabalho e acham difícil conduzir um relacionamento, o app é uma facilidade.”

GALILEU convocou um editor recém-solteiro, que odeia escrever em terceira pessoa, para conversar com Cosnard sobre como os aplicativos de paquera podem mudar a percepção sobre os relacionamentos, de que forma isso banaliza (ou não) o amor e como essa tecnologia pode ser associada às causas feministas. No final, compadecida com a solteirice do entrevistador, a executiva concedeu a ele um crédito de 100 Charmes (o equivalente à“cutucada” do Facebook) para avaliar com rigor a superficialidade das relações contemporâneas.

63


Quando perguntei aos meus amigos gays qual app de paquera deveria usar, eles me disseram que, se quisesse só sexo, deveria usar o Hornett, mas para casar seria melhor optar pelo Happn. Esse estereótipo faz sentido? [Risos.] Não julgamos e não ditamos comportamento. Só queremos que você encontre gente com quem cruzou. São pessoas do seu entorno, geralmente do trabalho ou vizinhos, gente fácil de encontrar... Nós conectamos e você faz o que quiser. Afinal, estamos em 2016. A questão é que, por usar a geolocalização, pode ser que você cruze novamente com a pessoa. Isso faz com que o pessoal seja mais resposável ao pensar em fazer sexo casual com o vizinho, por exemplo.

Ao nos abrirmos para alguém, corremos o risco da rejeição. Eliminando esse risco, como os apps de paquera afetam as relações amorosas? No Happn há duas opções. Uma é o like, ou seja, se voce gosta de alguém, pode dar um like na pessoa e ela só vai saber se retribuir, assim tem-se o “Crush”. Não existe rejeição aí. A outra opção é o “Charme”, isto é, se quiser ser mais proativo, você usa essa alternativa para se assegurar de que a pessoa vai ver você. Mas sempre me perguntam: “Se eu estiver em uma festa e me interessar por alguém, devo procurá-lo no celular?”. Claro que não! Você vai lá e fala com ele. Por que ficar online se a pessoa está na sua frente? Os apps são uma ajuda, e, no Happn, o foco é a vida real.

As brasileiras estão no topo do ranking de mulheres da América Latina que mais enviam Charmes. Acha que podemos associar isso às causas feministas? Existe esse problema de pessoas mais conservadoras acharem que não é natural uma mulher tomar a iniciativa. Mas acredito que isso, na verdade, é uma questão comum a todos — digo a questão de sair do seu círculo social e ter um lugar reservado para fazer coisas que você quer, sem ser julgado por conhecidos. Isso empodera não só as mulheres, mas qualquer pessoa. Hoje, as mulheres não precisam mais ter vergonha de nada, e os apps ajudam.

MARIE COSNARD Participante da equipe do Happn desde seu lançamento na França, em 2014, Cosnard comandou a entrada do app em Londres e logo se tornou diretora de tendências e porta-voz da empresa.

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Alguns especialistas consideram que quem fica muito tempo online cria uma personalidade virtual mais crítica e sexualizada, o que provoca depressão e crises de pânico quando confrontado com a vida real. No caso dos apps de paquera, quão longe podemos ir?

mo, já que, se estiver interpretando um personagem, nunca vai se encontrar com a pessoa. A ansiedade moderna na era digital é um problema de todas as redes sociais. O que recomendo é: seja você mesmo, porque se alguém se apaixonar por você na rua e quiser encontrá-lo, você terá que ser reconhecível.

A escritora Nancy Jo Sales escreveu que a cultura da pegação (que não é uma coisa nada nova) colidiu com os apps de paquera como um meteoro, destruindo os rituais de flerte. Concorda? Não. Atualmente estamos mais abertos, não temos medo de dizer que transamos com alguém e não queremos mais nada com essa pessoa. Acho que há 20 anos não se falaria isso abertamente, ou era uma coisa mais reservada aos homens — voltando àquela questão sobre feminismo. Creio que o flerte é o mesmo, mas os apps facilitam essa circunstância. Nós ainda dependemos muito da vida real, das pequenas chamas — que só se acendem quando vemos a pessoa cara a cara.

Acho que a geocalização é uma fer-

Nancy Sales também escreveu que o ato de escolher produtos hoje pode ser comparado ao ato de escolher um parceiro sexual. Você acha que estamos escolhendo amantes como escolhemos coisas no mercado?

ramenta importante contra esse tipo

Não. Um estudo da Universidade San

de problema. É claro que as pessoas podem manter uma relação virtual durante anos sem nem acontecer um encontro. Mas no Happn isso não existe, porque as pessoas vivem perto. Isso é um incentivo natural a ser você mes-

Diego diz que os millennials hoje estão fazendo menos sexo do que as gerações anteriores (veja quadro ao lado). Acontece que agora falamos mais de sexo casual do que antes, mas não quer dizer que estejamos fazendo mais sexo.


NASCIDOS ENTRE 1910 E 1925

NASCIDOS ENTRE 1925 E 1942

NASCIDOS ENTRE 1946 E 1964

NASCIDOS ENTRE 1960 E 1980

NASCIDOS ENTRE 1981 E 1996

Você acha que o problema dessas relações superficiais são dos apps de paquera ou das pessoas que os usam? Não acho que sejam os apps, porque antes da internet e das redes sociais nós também podíamos escolher nunca 3

mais ligar para uma pessoa ou nunca mais vê-la. Era exatamente a mesma coisa de hoje. Ok, não existia um botão

SEXO ATRAVÉS DOS ANOS 5

Estudo mostra a média de parceiros sexuais por geração*

Um estudo da Universidade de Chicago afirmou que, entre 2005 e 2012, os relacionamentos que começaram online têm uma taxa de término menor (6%) do que aqueles que começaram offline (7,6%). Por que você você acha que isso acontece?

8

10

Acho que isso é um bom sinal [risos]. Mas, na verdade, pessoalmente, dou 11

muita importância à vida real. Então, não gosto muito desses resultados, porque eles comparam as duas situações como se uma fosse melhor do que a outra. E penso que, talvez, os números estejam até errados, pois com certeza já tivemos mais relacionamentos

“SEMPRE ME PERGUNTAM: ‘SE EU ESTIVER EM UMA FESTA E ME INTERESSAR POR ALGUÉM, DEVO PROCURÁ-LO NO CELULAR?’. CLARO QUE NÃO! POR QUE FICAR ONLINE SE A PESSOA ESTÁ NA SUA FRENTE? OS APPS SÃO UMA AJUDA, E, NO HAPPN, O FOCO É A VIDA REAL.”

que começaram offline do que online, e os divórcios que acontecem agora dizem respeito a esses relacionamentos. Os que começaram online talvez ainda estejam acontecendo, é uma coisa nova. As pessoas são bastante diferentes, não acho que devemos dar atenção a esses números.

Ao sociólgo Zygmunt Bauman um entrevistado afirmou que a vantagem dos apps de paquera é que você sempre pode apertar o botão “delete”. Além disso, a palavra “ghosting” — que é o ato de parar repentinamente de se comunicar com uma pessoa com quem você está ficando — foi eleita uma das palavras do ano de 2015 pelo Collins English Dictionary.

para apagar alguém de forma efetiva, mas era exatamente a mesma coisa. Logo, não é uma novidade. A questão é que hoje há muito mais pontos de conexão para você bloquear.

Várias pessoas acham que os apps de paquera incentivam essas relações superficiais. Mas Bauman já escreveu sobre isso há 13 anos, em Amor Líquido. Será que os apps estão só acelerando algo inevitável? Não creio que os apps estejam incentivando isso. A tecnologia é que acompanha o comportamento social. Sempre me perguntam se as pessoas estão traindo mais agora com a ajuda dos apps, e eu sempre respondo que não. Isso é da natureza humana. Se a pessoa é do tipo que trai, ela não precisa de app para trair. Ela encontra uma forma, não se trata de tecnologia.

Bauman também diz que as coisas na pós-modernidade — ou modernidade líquida, como ele chama — não são feitas para durar para sempre. Como o Happn planeja desmentir essa afirmação? Não sei se vamos viver para sempre, mas definitivamente queremos ser mais do que um buzz [risos]. Realmente acreditamos que temos algo diferente. Não estamos tentando ditar nenhum comportamento, ou objetificar pessoas com um simples “sim” ou “não”. O que estamos tentando fazer é recriar encontros da vida real. *FONTE: Jean Twenge, Departamento de Psicologia da Universidade San Diego.

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APRESENTAM

REMENAS A

Como tecnologia, inovação e dados (muitos dados) são cada vez mais usados para garantir maior eficiência e produtividade na indústria e esporte

era digital já começou. Cada vez mais, dados coletados em tempo real estão sendo usados para melhorar a pro-

dutividade e transformar diversos setores da indústria. A GE trará essa nova realidade para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, eventos dos quais é patrocinadora oficial. Durante a competição, mais de 125 projetos da GE, envolvendo energia, saúde, tratamento de água, entre outros, suportarão o sucesso dos Jogos. A empresa ainda foi além: encontrou no esporte uma maneira de mostrar o potencial da

País, soma-se ao conhecimento global da GE e transforma a maneira de coletar dados para deixar o mundo mais eficiente.

TUDO

CONECTADO Entenda como a internet industrial da GE está tornando o mundo mais produtivo

ILUMINAÇÃO

análise de dados para aumento de produtividade. Essa solução digital, já referência em todo o

LUZ PARA TODOS

Com mais de 40 projetos de iluminação, a GE entregará cerca de 200 mil luminárias para o Rio de Janeiro.

CARA NOVA Um dos presentes da GE para o Rio são mais de 1,6 mil luminárias, que serão instaladas no Aterro do Flamengo e na Lapa, com telegestão, que permitem monitoramento remoto e ajustes à distância, além de alteração da intensidade da luz conforme o trânsito.

RESULTADO A NOVA ILUMINAÇÃO PÚBLICA NOS BAIRROS DO RIO DE JANEIRO PERMITIRÁ REDUZIR O CONSUMO EM ATÉ

78%


PETRÓLEO

CANOAGEM

REVOLUÇÃO NOS TREINOS

PLATAFORMA CONECTADA

Em uma parceria inovadora com a Canoagem Brasileira, o Centro de Pesquisas da GE desenvolveu um software para avaliar a performance dos atletas. Um sistema inteligente conecta as canoas à nuvem, e o cruzamento dos dados coletados oferece ao técnico uma análise completa e de fácil visualização, disponível em um tablet, se tornando um valioso diferencial na preparação dos nossos atletas rumo ao pódio.

Monitoramento e diagnóstico remotos das turbinas a gás de variáveis como temperatura, pressão, vibração, nível de óleo e velocidade melhoram a eficiência das FPSOs.

RESULTADO O RECURSO PERMITE EVITAR PARADAS NÃO PROGRAMADAS.

FERROVIAS

RESULTADO

“NÃO EXISTE NO MUNDO NADA PARECIDO, EM TERMOS DE ANÁLISE DE DADOS OU DE TRANSMISSÃO EM TEMPO REAL, COM O QUE A GE ESTÁ TRAZENDO PARA A CANOAGEM BRASILEIRA”

LOCOMOTIVA DIGITAL PARA O BRASIL

Seu sistema liga e desliga o motor a diesel automaticamente. A locomotiva também conta com sensores que a monitoram em tempo real. Diante de um problema, um sinal é enviado para a central de controle remoto da GE, que avisa o cliente.

João Tomasini Schwertner, presidente da Confederação Brasileira de Canoagem RESULTADO REDUZ OS DESGASTES, O USO DE COMBUSTÍVEL E A EMISSÃO DE POLUENTES SAÚDE

R$ 20MI LHÕES

=

80% MENOS POLUENTES ATENDIMENTO DE OURO

É O VALOR DO PRESENTE DA GE EM SOLUÇÕES NAS ÁREAS DE SAÚDE E ILUMINAÇÃO PARA O RIO DE JANEIRO. O OBJETIVO É MELHORAR A CIDADE E DEIXAR UM LEGADO PARA A POPULAÇÃO.

RESULTADO RESULTADO

MEDICINA HIGH-TECH

A GE também deixará de presente para o Rio equipamentos e softwares no Hospital Souza Aguiar, com a substituição de soluções analógicas por máquinas de diagnóstico por imagem (como tomografia e ultrassom) com alta tecnologia digital.

A GE traz aos Jogos o Registro Médico Eletrônico, uma solução digital que conecta e disponibiliza todo o histórico médico dos pacientes em uma plataforma na nuvem.

24 NOVOS EQUIPAMENTOS 30% MAIS CIRURGIAS 100% MAIS EXAMES DE DIANÓSTICO POR IMAGEM 130 MIL EXAMES ARMAZENADOS DIGITALMENTE POR ANO

COMBINAÇÃO DE DADOS PARA UM DIAGNÓSTICO MAIS INTELIGENTE E PRECISO A QUALQUER MOMENTO.

CAMINHOSPARAOFUTURO.COM


CÉREB MENOS MÚSCULOS,

MAIS

DESIGN JORGE OLIVEIRA

POR ALEXANDRE DE SANTI E MARCELA DONINI

EDIÇÃO GIULIANA DE TOLEDO

ILUSTRAÇÕES EVANDRO BERTOL

70


BRO A elite do esporte vem aos Jogos do Rio cheia de apps e sensores. Inovação também será vista nos locais de provas pensados para dar origem a outros prédios depois do evento

71


Os Jogos Olímpicos são um grande showroom de inovação. As marcas não perdem a chance de exibir o que têm de mais avançado.

4

Ao redor do mundo, o evento deve ser assistido por

mais de

BI LHÕES DE

PESSOAS 72

NA ESSÊNCIA, tudo podia ser muito simples. Atletas, espírito olímpico e medalhas. Para correr a maratona, bastaria uniforme e um par de calçados. Na piscina, menos ainda: maiô ou sunga e a vontade de vencer. Mas o esporte se desenvolveu muito além dos princípios propostos pelo Barão de Coubertin, o inventor dos Jogos da Era Moderna. Ao desejo de união dos povos, treinadores e atletas vêm somando as mais avançadas técnicas. A partir de 5 de agosto, no Rio de Janeiro, seremos testemunhas de uma prova paralela: a corrida da tecnologia. Dentro e fora das quadras. No século 21, as competições servem de desculpa para um grande desfile de equipamentos e uniformes criados por engenheiros e amantes do esporte. Um centro de treinamento pode incluir salas de simulação, com telões realistas e controle de temperatura e pressão. Tudo para ambientar os competidores aos mais variados locais de competição. Não por acaso, a aventura olímpica se tornou cara, e os atletas recorrem até a vaquinhas virtuais para pagar os seus treinamentos.

Durante a competição, os uniformes prometem tornar os competidores mais rápidos. Uma imensidão de dados é enviada para aplicativos que ajudam as delegações a traçar as melhores estratégias para cada prova. As federações esportivas, tradicionalmente avessas a técnicas que tornem o esporte dependente de tecnologia, estão cada vez mais abertas a sistemas eletrônicos, principalmente para reduzir erros de juízes. E, no Rio, o público poderá acompanhar a aplicação de inovações até após o fim da Olimpíada, quando estruturas serão desmontadas para a construção de centros de treinamento e escolas. Os organizadores reservaram um orçamento recorde para garantir que tudo isso seja assistido por uma audiência gigantesca — a previsão é que 4 bilhões de pessoas ao redor do mundo acompanhem o evento. Dos R$ 7,4 bilhões de verba do Comitê Organizador, 19% serão gastos em tecnologia. Plateia não falta para tanto investimento.


M

ANTES DOS JOGOS

NOS BRAÇOS DA TORCIDA

Vaquinhas virtuais ajudam a levar esportistas para a Olimpíada. Mas alguns ficam pelo caminho

que pretendia para custear uma temporada no exterior. Já o triatleta Wesley Matos ficou nos 71% da meta. Mesmo assim, levou para casa os R$ 14.115 doados por 71 apoiadores. Com a grana, o cearense comprou uma bicicleta nova. Nem todas as plataformas de crowdfunding são boazinhas assim — algumas trabalham com o método “tudo ou nada”, ou seja, se você não atinge a meta, não recebe nem um centavo, e o dinheiro arrecadado pode ser direcionado a outras campanhas ou devolvido aos doadores. Porém, o Make a Champ é um projeto criado pelo judoca canadense David Ancor, que conhece bem as dificuldades para viver do esporte. Ancor lançou a plataforma em 2013, depois de ter se decepcionado com o apoio do governo do Canadá, país que representou no mundial juvenil de judô. Com foco em campanhas de atletas e times, a plataforma levantou US$ 350 mil no primei-

Medalha no peito e chapéu na mão. Atletas olím-

ro ano de operação. Hoje já bateu a marca de

picos de peso, como Maurren Maggi, ouro em

US$ 2,5 milhões. Estão cadastrados 10 mil es-

Pequim no salto em distância, apostam nos sites

portistas de 36 países, dos quais seis foram para

de financiamento coletivo para tapar os buracos

a Olimpíada de Inverno de Sochi, em 2014.

deixados pelos patrocinadores. Em 2014, a pau-

Enquanto isso, no Brasil, sites como o Vakinha,

lista lançou uma campanha de crowdfunding para

no qual não é preciso oferecer recompensas aos

subsidiar seus treinos de olho na Olimpíada do Rio.

doadores, atraem atletas paraolímpicos e até volun-

Mas, no início deste ano, despediu-se das pistas.

tários dos Jogos que pedem ajuda para se bancar —

Antes disso, a campanha, que buscava juntar

mas ainda estão longe das suas metas, mesmo que

R$ 100 mil, já havia ficado pela metade — conseguiu

algumas não passem de R$ 1 mil. Já na plataforma

R$ 44.483. Lá fora há exemplos mais bem-suce-

Catarse, velejadores como João Siemsen Bulhões

didos, como o do jovem palestino Mohammed

e Juliana Mota conseguiram mais de R$ 60 mil.

Al-Khatib. Com 216 apoiadores, o velocista ar-

O Comitê Olímpico do Brasil (COB) também

recadou US$ 12.765, 163% do que pediu no site

entrou na onda e está apoiando o Coletivo do

Indiegogo para treinar para os Jogos do Rio.

Esporte, lançado pela Microsoft neste ano. A pla-

No exterior ou aqui, o recurso tem sido mais

taforma tem foco em projetos esportivos e de in-

eficaz para atletas iniciantes. Com metas meno-

clusão social, liderados por personalidades como

res, nomes pouco conhecidos, como a esgrimis-

o ex-atleta olímpico Robson Caetano. O site con-

ta Giulia Gasparin, encontram ajuda para dar

ta com uma calculadora para que o doador, pes-

sequência a seus treinos. A menina de Curitiba

soa física ou jurídica, saiba quanto pode deduzir

está fora dos Jogos Olímpicos deste ano, mas,

do Imposto de Renda ao contribuir para proje-

pelo site especializado em crowdfunding espor-

tos enquadrados na Lei de Incentivo ao Esporte

tivo Make a Champ, arrecadou, com 128 doado-

— talvez o estímulo que falte para que a ideia

res, US$ 4.138 (cerca de R$ 14.500), 103% do

deslanche de vez entre os brasileiros.

73


UM OLHO NA QUADRA, OUTRO NA TELA Programadores estão entre os maiores aliados dos técnicos de atletas de alta performance

J

pela Cisco, companhia responsável pela comu-

brasileira de futebol na Copa do Mundo de

Nem o árbitro escapa da decupagem, que é

2014. Obviamente, não era com lápis e papel

feita em tempo real pelo analista de desempe-

que o então diretor esportivo da Alemanha,

nho e pode ser acessada remotamente por ou-

Oliver Bierhoff, fazia seus cálculos. Se quiser-

tro profissional. Estrategista da Confederação

mos culpar algo pela derrota histórica, o alvo

Brasileira de Judô, Leonardo Mataruna explica

pode ser o software da empresa alemã SAP, que

que é possível saber se o juiz tende a deixar a

possibilitou o cruzamento de informações du-

luta rolar e até se costuma punir mais atletas

rante os jogos com base em imagens.

brasileiros ou de outras nacionalidades. “Tudo

ANTES DOS JOGOS

gravadas com drones, como nas provas de BMX (bicicross) —, são geradas estatísticas para novas técnicas e correções de movimento, destaca Sebastian Pereira, gerente de performance esportiva do COB. Centros de Treinamento já receberam algumas das 30 câmeras fornecidas nicação a distância do comitê. Por meio delas, profissionais observam, controlando ângulos e zoom, e interagem com o esportista. Os dois softwares utilizados pelo COB, com versões desktop e mobile, são o Dartfish e o Sportcode, mais indicado para modalidades coletivas — uma exceção é o judô. No tatame, são mais de cem as técnicas permitidas, que têm variações e inúmeras possibilidades de cruzamento de dados. Assim, é possível traçar um perfil do rival e se preparar, por exemplo, para lutar contra alguém que faz oito ataques por mi-

Junte dez jogadores, três bolas e, em ape-

nuto, tende a ser mais ofensivo nos dois minu-

nas dez minutos de treino, você terá 7 mi-

tos iniciais e tem maior probabilidade de atacar

lhões de dados. Essa é a matemática que está

no centro da área. Isso se o oponente for destro

por trás do massacre alemão sobre a seleção

— caso seja canhoto, os dados podem mudar.

A Olimpíada do Rio tem tudo para ser a edi-

74

Com imagens em alta resolução — às vezes

depende do objetivo do treinador”, ressalta.

ção do big data. O aprimoramento dos atle-

No último ano, Mataruna começou um traba-

tas por meio de dados obtidos em vídeos é a

lho de leitura de expressão facial pelo software

grande aposta do Comitê Olímpico do Brasil

Face Reader, para identificar emoções antes,

(COB). Em 2012, a estratégia ganhou força com

durante e depois de uma luta, enquanto o atleta

a contratação da americana especialista em

assiste a uma partida sua. Se aprovado, o soft-

tecnologia esportiva Kristin Collins.

ware já será usado nos Jogos do Rio.


O TREINO PERFEITO

Em busca de um milésimo a menos ou de um ponto a mais, a tecnologia do esporte movimenta bilhões de dólares. O tempo perdido pode ser recuperado com a roupa perfeita debaixo d’água ou com o ângulo exato entre o braço e o antebraço que vai levar ao nocaute. Para que os humanos atinjam essa perfeição, só mesmo com a ajuda de computadores

TÁ QUENTE, TÁ FRIO Cercada de morros, a cidade da Universidade Federal de Santa Maria (RS) é famosa pelo clima abafado. Apenas uma área de 36 metros quadrados está a salvo das variações naturais — mas a mando do treinador. No Laboratório de Performance em Ambiente Simulado, é só decidir a temperatura, a umidade relativa do ar e a con-

centração de O2 e, assim, avaliar as reações do atleta dentro de uma caixa de vidro. Esportistas de diferentes modalidades podem se beneficiar de simuladores como este, alguns deles com TV na frente para imitar o circuito. Basta levar para dentro da câmara aparelhos ergométricos, como bicicletas, esteiras e remos, e a tela.

ADVERSÁRIO DE MENTIRINHA

Que atleta não gostaria de garantir treinos sem lesões? Lutadores britânicos de taekwondo estão perto disso. O simulador desenvolvido pela Bae Systems promove a luta contra um adversário virtual. Por meio de sensores sofisticados, é possível rastrear com precisão os movimentos do lutador e seu tempo de reação.

O PULSO AINDA PULSA

E O VENTO NÃO LEVOU

Da água ou da neve, atletas testam em túneis de vento a aerodinâmica de roupas de natação, capacetes de bobsled e movimentos sobre o esqui. Os esportistas entram em câmaras desenvolvidas por marcas como Audi e BMW, que testam carros e até aviões. Com um jato de fumaça direcionado ao atleta no sentido do vento (que pode chegar a 300 km/h), o fluxo de ar torna-se visível. Os dados da análise dessa trajetória servem de base para estratégias que diminuam o atrito com o ar (ou com a água), que pode custar frações de segundos — e uma medalha.

Usadas por atletas de fim de semana, as pulseiras inteligentes podem ser úteis também para os profissionais. O Comitê Olímpico do Brasil estuda uma parceria com a Microsoft para monitorar dados dos esportistas e usá-los para aprimorar treinamentos. A segunda geração da smartband da marca mede batimentos cardíacos, calorias perdidas, distância percorrida, passos dados e até aproveitamento de oxigênio, além de analisar a qualidade do sono do usuário.

75


TECNOLOGIA DENTRO E FORA DA QUADRA DURANTE OS JOGOS

Nos tecidos dos uniformes, nas telas dos juízes, nos celulares dos técnicos. As competições dependem cada vez mais dos eletrônicos e de engenheiros para distribuir as medalhas aos melhores. Conheça alguns recursos tecnológicos que serão apresentados no Rio

3

1

2

2. TECH-WONDO 1. TERNINHO ANTIZIKA Os sul-coreanos vão desfilar nas cerimônias de abertura e encerramento com uniformes tratados com repelente contra o mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue e zika, que têm causado pânico global. Nas provas, no entanto, os atletas poderão contar apenas com o bom e velho spray: as roupas de competição não puderam receber o tratamento especial em respeito às regras das olimpíadas.

76

Até os Jogos Olímpícos de Londres, em 2012, toda a pontuação do taekwondo dependia somente do olho do árbitro. Se ele enxergava o contato, validava o golpe. Mas era um sistema cheio de erros, é claro. Em Londres, os lutadores passaram a usar coletes eletrônicos, que marcavam a pontuação automaticamente no contato com o adversário. Agora a tecnologia chegou aos capacetes dos atletas. Além disso, o taekwondo ganhou o auxílio do replay para esclarecer dúvidas sobre as decisões dos juízes.

4. ROBÔ CIRURGIÃO

3. PERFORMANCE NO BOLSO Os mesmos softwares que ajudam na preparação dos esportistas são usados durante as competições. Os técnicos podem sacar o smartphone do bolso e, com os aplicativos customizados, descobrir estatísticas em tempo real, para tomar as melhores decisões sobre a estratégia de cada prova ou partida.

Para economizar dinheiro, algumas delegações deixam os médicos das equipes nos seus países de origem. Mas os atletas podem sofrer lesões e, nesses episódios, é necessário tomar medidas rápidas em relação a tratamentos e eventuais cirurgias. Para atenuar a distância, os organizadores dos Jogos vão colocar robôs de telepresença em salas de operação para que os especialistas, de longe, ajudem cirurgiões in loco nos procedimentos. Os robôs têm rodas e são comandados por quem está no outro país.


VÍDEO NA AREIA

4

6 5

O jogador dá a cortada, e o adversário sobe para bloqueá-la. A bola vai para fora. Mas pegou ou não na mão do bloqueador? Desde 2013, essa dúvida pode ser sanada no vôlei de quadra com ajuda do replay.

Cada time pode desafiar a decisão do juiz até duas vezes por set. Agora, o sistema eletrônico chega ao vôlei de praia pela primeira vez em uma olimpíada depois de testes realizados desde 2015.

E- OLIMPÍADA 5. ROUPA MÁGICA O Brasil e outras 12 delegações usarão um novo tipo de uniforme criado pela Nike que promete deixar os atletas mais rápidos. Polêmicas parecidas já atingiram a natação, quando maiôs especiais supostamente ultrarrápidos foram proibidos em competições. De acordo com a fabricante, o efeito é resultado de duas tecnologias: o tecido AeroSwift, mais leve, e o aparato AeroBlade, espécie de manga e de polaina de compressão, o que reduz o atrito.

6. SEM GUIA

NUM FUTURO NÃO MUITO DISTANTE...

Pesquisadores também estão criando tecnologias para as paralimpíadas. Uma das ideias vem da Universidade Nilton Lins, de Manaus. O projeto Meu Guia quer eliminar a figura do guia nas corridas de deficientes visuais. Hoje os atletas contam com um acompanhante, ligado por uma corda, para se manterem no rumo certo. O Meu Guia testa macacões e braceletes que transmitem sinais para que o corredor se localize. O sistema não está pronto. Na Rio-2016 deverá ser feita uma demonstração do projeto.

Em 2015, uma competição de games levou 12 mil pessoas ao estádio do Palmeiras. Acostume-se: esses eventos vieram para ficar. No Rio, um torneio de dois dias, paralelo à Olimpíada, será promovido com apoio do governo britânico. Ainda não estão definidos os jogos dos eGames de 2016 ou quais países

terão representantes, mas a competição é apenas um aperitivo para a primeira verdadeira olimpíada de games, a ser realizada em 2018, na Coreia do Sul.

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NOS BASTIDORES

Um dos contratos da Rio-2016 com fornecedores prevê 55 terabytes (equivalente a 6,8 mil pendrives de 8 GB) para armazenamento de dados, mas o volume pode chegar a até 120 terabytes (15 mil pendrives). Outro fornecedor instalou um backbone, rede de alta performance, com 340 km de extensão.

DURANTE OS JOGOS

HAJA INTERNET A infraestrutura dos jogos inclui

100 MIL PORTAS

VOLUNTARIADO NERD

Ponto para o Brasil! Mas quem é responsável por apertar o botão que muda o placar eletrônico? E quem abastece as estatísticas dos jogos que aparecem na tela da TV? Essas tarefas são realizadas por cerca de 2 mil voluntários. Além de dar apoio na operação desses sistemas eletrônicos, eles ajudam no suporte de computadores, máquinas e aparelhos que mantêm a chama acesa.

DE

NA TELINHA

Os direitos de transmissão dos Jogos são a maior fonte de receita do Comitê Olímpico Internacional (COI). O atual contrato, validado para os Jogos de 2012, 2016 e 2020, rendeu US$ 4,4 bilhões para a entidade. Natural, portanto, que as acomodações para os funcionários das emissoras estejam entre as principais preocupações dos organizadores. O prédio que vai abrigar apenas as 95 emissoras de rádio e televisão credenciadas, o IBC (sigla em inglês para Centro Internacional de Transmissão), custou cerca de R$ 640 milhões. Para hospedar cerca de 10 mil profissionais e manter os equipamentos que vão levar som e imagem em alta definição a 203 países, é necessário ar-condicionado e gerador de energia para garantir a transmissão ininterrupta das competições. Somente esses dois itens, ar e gerador, custaram R$ 240 milhões, ou 37% da obra. Os dois sistemas, inclusive, foram motivo de atraso na construção. Inicialmente, seriam pagos pelo governo federal, mas a União teve de contar com a ajuda do Comitê Rio 2016, que comprou o ar-condicionado, e do governo estadual, que bancou o gerador.

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REDE LOCAL

8 mil rádios wi-fi

150 500

dispositivos de segurança de rede (Firewall e IDS/IPS)

SERVIDORES

SEGURANÇA AÉREA

Quatro balões equipados com câmeras de alta definição vão ajudar a polícia a manter a paz nos espaços olímpicos. Cada bola branca inflável sobe até 200 metros e faz imagens de 360 graus com 13 câmeras capazes de reconhecer um rosto a 13 quilômetros de distância. As imagens, que podem ser produzidas por 72 horas ininterruptas, são enviadas em tempo real para uma central de controle. Os balões custaram R$ 20 milhões, mas seu uso após os Jogos está em xeque. O problema é o custo do combustível. Para cada voo, é necessário investir R$ 12 mil em gás hélio.


PARA O PÚBLICO

Mesmo quem não estará no Rio poderá perceber o investimento em tecnologia feito para esta edição dos Jogos Olímpicos. Prepare-se (especialmente no bolso) para experimentar as competições até em realidade virtual

As cerimônias de abertura e encerramento serão transmitidas ao vivo e em realidade virtual — uma novidade para este ano. Os organizadores ainda não deram muitos detalhes de como será a experiência do público que possuir óculos como o Rift (US$ 600) ou o Cardboard (US$ 15). Mas garantem imersão nas festas e em ao menos um evento por dia. Além disso, o público poderá ver vídeos em 360 graus durante a cobertura, sem necessidade dos óculos especiais.

MEDALHAS EM 8K Cerca de 130 horas do evento serão captadas e transmitidas em resolução 8K. Mas o que é 8K? Se você parou de acompanhar a evolução das televisões quando elas chegaram à tecnologia full HD, está desculpado pela dúvida. Só agora o mercado começa a ser povoado por aparelhos 4K, que transmitem imagens próximas do grau de detalhamento captado pelo olho humano. O sistema 8K, com resolução de 7.680 pixels por 4.320 pixels, é um passo adiante — quase ficção científica. Mas alguns japoneses (sempre eles) já possuem esses aparelhos, que chegam a custar mais de R$ 300 mil. As festas de abertura e encerramento, além de provas de natação, judô, atletismo, basquete e futebol, serão transmitidas nessa super-resolução. É um teste para os Jogos de 2020, que acontecerão em… Tóquio.

O aplicativo oficial dos Jogos, o Meu Rio 2016, oferece o básico do que se espera de um serviço desses: notícias, informações sobre o trajeto da tocha, calendário de provas etc. Porém, o app também já promoveu desafios para dar prêmios a usuários. No início do ano, uma brincadeira de completar tarefas rendeu ingressos para assistir de perto à cerimônia de abertura, em 5 de agosto, no Maracanã.

SNAP OLÍMPICO

7 MIL HORAS

VOCÊ TAMBÉM COMPETE

FESTA VIRTUAL

Nos EUA, usuários do aplicativo Snapchat poderão assistir diariamente as histórias produzidas com ajuda do site BuzzFeed e da rede de TV NBC. As empresas firmaram um acordo inédito em abril para disponibilizar vídeos das competições junto de conteúdo dos próprios usuários da plataforma.

DE

IMAGENS DOS JOGOS

serão captadas em alta definição e som surround 5.1.

BUSÃO WI-FI Em grandes eventos, é comum sofrer com a rede de internet congestionada das operadoras de telefonia. O Twitter buscou uma solução sobre rodas: vai colocar um ônibus que emite sinal wi-fi para circular pelo Rio de Janeiro durante os Jogos. Assim, espera transformar a Olimpíada no evento mais tuitado da história, superando a Copa do Mundo de 2014. O veículo terá telas no lugar de janelas, onde serão mostradas mensagens publicadas pelos usuários.

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O FUTURO DA ARENA DO FUTURO

Sede das competições de handebol e golbol (na Paralimpíada), a Arena do Futuro é um dos projetos mais elogiados dos Jogos do Rio. A estrutura, projetada com o conceito de arquitetura nômade na Barra, zona oeste da cidade, será desmontada e reconstruída como quatro DEPOIS DOS JOGOS escolas públicas municipais

2

1 3

12MIL CAPACIDADE

4

5

ASSENTOS

146,8 CUSTO

MILHÕES

1. FACHADA As paredes externas são vazadas para permitir a entrada de ar e luz. No futuro, serão desmontadas e usadas como fachadas das escolas. Parece madeira, mas não é: os painéis são feitos de um material batizado de Lesco, composto de pó de madeira e de outros elementos petroquímicos.

80

7

2. TELHADO São oito placas pré-moldadas. Assim como a fachada, podem ser desmontadas e serão utilizadas no teto das escolas.

3. AR-CONDICIONADO Foi dividido em quatro partes no projeto para facilitar a instalação nos colégios.

4. PAREDES São de drywall, ou seja, placas de gesso que facilitam a montagem de construções (são erguidas com mais rapidez do que paredes de alvenaria). Elas estão parafusadas e encaixadas e podem ser retiradas inteiras, o que vai agilizar o processo de construção das escolas.

5. VIGAS METÁLICAS Dezoito pilares de metal sustentam a arena. As estruturas também serão reaproveitadas na construção das unidades de ensino, para dar suporte ao telhado.

6. JANELAS E MIUDEZAS Praticamente tudo pode ser reaproveitado: portas, janelas e esquadrias, os vasos, chuveiros e pias dos banheiros, luminárias e interruptores.


4 ESCOLAS

17 SALAS POR COLÉGIO, 500 ALUNOS POR UNIDADE

8 1 6 2

7

7. RAMPAS E ESCADAS

Quadra

8. ARQUIBANCADA

Entrada

Os assentos não serão reaproveitados nas escolas — as 12 mil cadeiras foram alugadas. Mas parte da estrutura da arquibancada, feita de concreto pré-moldado e vigas de metal encaixadas, poderá ser usada nas novas estruturas.

Escola

Construídas com material pré-moldado, as seis escadas e rampas serão desmontadas e reutilizadas nas vias de circulação das quatro novas escolas.

AS ESCOLAS

A desmontagem da arena levará sete meses. O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), prometeu instalar as escolas nas regiões de Camorim, Cidade de Deus, Anil e São Cristóvão. A ideia é deixá-las prontas para o ano letivo de 2018. Cada unidade terá 14 metros de altura, 20 metros de profundidade e 67,5 metros de largura. Com 17 salas e uma quadra esportiva, cada uma poderá atender 500 alunos. A estrutura ainda contará com o básico: biblioteca, auditório, estacionamento, refeitório, cozinha e banheiros. O desmanche da arena e a construção das escolas custará R$ 31 milhões.

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225,3 CUSTO

1

1. FACHADA

LEGADOS AQUÁTICOS

Após sediar as competições de natação e polo aquático, o Estádio Aquático será transformado em três novos locais

MILHÕES

2

2. TELHADO

3

4

3. ARQUIBANCADAS

Sustentado por quatro pilares, é desmontável e tem proteção térmica. Será desmanchado e utilizado na construção de um dos futuros centros de treinamento.

18MIL CAPACIDADE

ASSENTOS

2

É um dos principais destaques do projeto. Reproduz a obra da artista plástica brasileira Adriana Varejão intitulada Celacanto Provoca Maremoto (2004-2008), um trabalho em gesso e óleo sobre tela que está exposto no prestigiado Instituto Inhotim, museu ao ar livre de arte contemporânea situado em Brumadinho (MG). A obra foi inspirada em azulejos portugueses e em pichações. A fachada do Estádio Aquático foi projetada para permitir a entrada de ar através de uma rede de poliéster permeável de alta resistência revestida com PVC. Mas as paredes de fora do edifício não serão desmontadas: a estrutura vai permanecer para abrigar o centro administrativo do Centro Olímpico de Treinamento para atletas de alto rendimento.

Parte dos assentos do Estádio Aquático será usada, depois dos Jogos, nos novos centros de treinamento: um coberto e outro a céu aberto.

4. PISCINAS As duas piscinas do local também mudarão de endereço depois dos Jogos. Ambas são olímpicas, é claro — tamanho que é raridade em centros de treinamento pelo país. Por isso, várias localidades, até de fora do Rio de Janeiro, fazem lobby para receber a estrutura.

3

4

DEPOIS DOS JOGOS

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CENTROS DE TREINAMENTO

Uma das três novas estruturas que serão feitas para os Jogos Olímpicos ficará lá mesmo depois, no local do Estádio Aquático: o centro administrativo do Centro Olímpico de Treinamento para atletas de alto rendimento. As demais, dois centros de treinamento, serão construídas em lugares ainda não definidos. Segundo a Prefeitura do Rio de Janeiro, os espaços serão públicos e destinados ao acesso gratuito ao esporte.


HERANÇAS BENDITAS

Para o controle de dengue, zika e chikungunya, o governo aposta na coleta de informações por meio de um aplicativo, que deve continuar funcionando depois dos Jogos. Para o cuidado dos mares também há uma boa notícia: novas boias foram adquiridas

TRATAMENTO DE BOLSO

Todo dia você pode acordar e saber como está a temperatura da água da Baía de Guanabara (quando esta nota foi redigida, era de 21,33°C). Basta consultar a página www.simcosta.furg.br e escolher o ícone de uma das boias metaoceonográficas que flutuam sobre o mapa. O site do Sistema de Monitoramento da Costa Brasileira (SimCosta) coleta dados de nove equipamentos, localizados nas águas dos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Pelo sistema, qualquer pessoa pode se informar sobre as condições do vento, da água, das ondas e das correntes a qualquer momento.

Para os Jogos, a novidade foi a instalação, em julho do ano passado, de duas boias na Baía de Guanabara, uma no centro e outra na entrada das águas. Uma terceira ainda vai ser ancorada na Praia de Copacabana até o início das competições. As boias funcionam com energia solar e enviam informações em tempo real. Durante a Olimpíada, as equipes poderão usar os dados para decidir a melhor estratégia antes de cada prova. Mas, no futuro, elas devem ser encaminhadas para outras regiões do Brasil para ajudar a monitorar os mares. O investimento do governo federal nas três novas boias foi de R$ 2,05 milhões.

R$2,05MI

TÁ QUENTINHA?

foram gastos com três boias para monitorar a Baía de Guanabara

Dor de cabeça? Pegue seu smartphone e relate os sintomas no aplicativo Guardiões da Saúde, desenvolvido pelo Ministério da Saúde em parceria com a ONG Skoll Global Threats Fund. O programa vai informar que tipo de doença você pode ter e indicar o posto de saúde mais próximo — o serviço funciona também fora do Rio. Mais do que orientar indivíduos, a reunião de informações enviadas pelos usuários ajudará agentes de saúde a identificar surtos de doenças — especialmente dengue, zika e chikungunya — mais rapidamente do que se esperassem as estatísticas oficiais. A iniciativa é tida pelo ministério como um dos legados da Olimpíada, uma vez que o projeto continuará em operação no país. A ideia não é exatamente nova. Durante a Copa, um aplicativo similar, o Saúde na Copa, teve 10 mil downloads.

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PARA OS ATLETAS DE FIM DE SEMANA (E SOFÁ) KIT DO ATLETA OLÍMPICO Nike R$ 15.000. O pacote, que imita o que recebem os esportistas brasileiros, vem com 40 itens, entre pares de tênis e roupas de tecidos aerodinâmicos e flexíveis; há versões masculina e feminina.

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O novo uniforme da seleção, com furinhos cortados a laser, promete absorver o suor 20% mais rápido e secar 25% mais depressa que a versão anterior

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são as horas pelas quais a malha das jaquetas mantém o corpo aquecido

Nike preço não anunciado Previsão julho Para a elite do basquete, o modelo de malha dá sustentação e deixa os pés transpirarem; a sola tem grandes sulcos, que ajudam a dar impulso

FONE COM MONITOR CARDÍACO

Nike R$ 449,90.

14 TÊNIS HYPERDUNK 2016

são as garrafas plásticas recicladas usadas no poliéster de cada uniforme da seleção

A NOVA CANARINHO

Mesmo quem não está atrás de medalhas pode aproveitar algumas das tecnologias usadas pelos atletas olímpicos, que já estão à venda. Mas, se a preguiça bater, dá para simplesmente se imaginar competindo... no videogame

SMS Audio BioSport US$ 40* Da marca do rapper 50 Cent, o modelo foi adotado por atletas estrangeiros para controlar batimentos enquanto a música deixa os treinos mais animados (*) cerca de R$ 140


BLUSAS COM SENSORES

NO PAIN, NO GAIN

Hexoskin a partir de US$ 379* O velocista sul-africano Willem Coertzen é um dos que adotaram as camisetas com sensores que medem batimentos, gasto de calorias e outros dados do corpo

Se não der para chegar ao pódio, ao menos consiga recompensas em aplicativos

(*) cerca de R$ 1.300

Mova Mais grátis para iOS e Android

5

é o número de jogos em que Mario e Sonic, concorrentes nos anos 90, aparecem juntos desde 2007

POLAINA DE COMPRESSÃO COM SENSORES BSX Insight a partir de US$ 299,99* Mede a oxigenação e a produção de ácido lático na panturrilha; os dados são transferidos para um aplicativo que indica exercícios para melhorar a performance (*) cerca de R$ 1.040

O projeto brasileiro funciona com os apps Strava, RunKeeper e MapMyRun para identificar os exercícios e trocá-los por milhas, ainda que poucas. Uma passagem entre Rio e SP pode custar três anos e meio de atividades diárias.

Charity Miles grátis para iOS e Android Aqui o esforço é por uma causa maior. O aplicativo converte caminhadas, corridas e pedaladas em fundos para mais de 30 instituições de caridade, como a WWF e a fundação do ator Michael J. Fox para cura do Parkinson.

Pact grátis para iOS e Android O app dá dinheiro — de US$ 0,30 a US$ 5 por semana, a depender da meta —, mas também tira. No mínimo US$ 5 são cobrados por cada falta a um treino. É preciso indicar o local da academia, que será rastreado pelo GPS.

MARIO & SONIC AT THE RIO 2016 OLYMPIC GAMES Sega R$ 229,90 para Nintendo 3DS As equipes dos dois clássicos personagens se enfrentam em modalidades dos Jogos; a versão para Wii U deve ser lançada em junho

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MOMENTOS HISTÓRICOS COMO OS QUE ESTAMOS VIVENDO NÃO PODEM SER IGNORADOS. O JORNALISMO INVESTIGATIVO DA REVISTA ÉPOCA FISCALIZA O PODER E CONTA A HISTÓRIA POR TRÁS DOS FATOS SEM FUGIR DA POLÊMICA.

INFORME-SE. ENTENDA. OPINE.

LEIA

E FAÇA PARTE DA HISTÓRIA


CURTO-CIRCUITO POR DOUGLAS UTESCHER*

NOTAS DO SUBSOLO A EBULIÇÃO DO ROCK N’ ROLL marcou a década de 1990. Com a explosão do chamado “som de Seattle”, encabeçada por bandas como Nirvana, o mundo foi acometido por uma febre de cultura alternativa. Assim como o punk, nos anos 1970, o grunge trouxe de volta aos holofotes o rock em sua forma mais bruta. No Brasil, bandas de diversos estilos pipocaram nas garagens, zines foram publicados à exaustão, festivais aconteceram em toda parte e milhares de fitas demos foram lançados. Mas não demorou muito para o alternativo virar mainstream, saturar *Criador da editora e loja Ugra Press

o mercado e entrar em decadência. Essa é a história de Magnéticos 90: a Geração do Rock Brasileiro Lançada em Fita Cassete, contada em primeira pessoa por alguém que não só assistiu a esse processo como participou dele: Gabriel Thomaz. Membro de bandas como Little Quail & The Mad Birds e Autoramas, Gabriel foi um ávido colecionador de demos, além de ter presenciado (e protagonizado) causos divertidíssimos. Por si só, essas memórias renderiam um bom livro. Mas a grande sacada foi apresentá-las em quadrinhos, aproveitando o potencial imagético do texto. Em total sintonia com o espírito das bandas retratadas, a

Testemunha ocular do movimento underground da década de 1990 relata suas memórias em HQ arte de Daniel Juca é despojada, cartunesca e assume sua imperfeição como recurso estético. Colaborador da lendária revista Tarja Preta e coautor do documentário Malditos Cartunistas, Juca deu ao livro a cara dos fanzines da época. Pontuadas pela reprodução de capinhas de fitas, as páginas se sucedem numa leitura rápida e divertida. Mais do que entretenimento, porém, Magnéticos 90 é um importante registro de uma movimentação cultural que ainda não foi devidamente documentada. Dada a vastidão do underground roqueiro do período, muitas histórias e visões ainda estão por ser contadas.

MAGNÉTICOS 90

Gabriel Thomaz e Daniel Juca Edições Ideal 244 páginas – R$ 49,90 ugrapress.com.br

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PANORÂMICA

Três mil artesãos chineses declararam coletivamente seu amor à madeira em uma mostra de móveis realizada na província de Zhejiang, leste da China.

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Mil tĂŠcnicos em raspagem e moagem, mil carpinteiros e mil entalhadores de uma Ăşnica empresa demonstraram toda a habilidade e o esmero exigidos pela marcenaria.

PESQUISA: Franklin Barcelos FOTO: VCG/Getty Images


ULTIMATO PERCEBER COMO A VIDA É RARA INSPIROU VOCÊ A PROTEGÊ-LA AQUI NA TERRA?

PARA FAZER A DIFERENÇA AGORA QUE VOCÊ LEU A REVISTA, SAIA DO SOFÁ

LEU SOBRE TELEFONIA E AGORA QUER ACABAR COM O LIXO ELETRÔNICO?

Os micróbios conhecidos somam só 1% do total existente no planeta

QUER AJUDAR A REVERTER A SEXUALIZAÇÃO DE GAROTAS?

ACREDITA QUE, PARA ALÉM DA OLIMPÍADA, O ESPORTE É UM MEIO DE INCLUSÃO SOCIAL?

QUER CONHECER OS DOCUMENTOS QUE CONTAM A HISTÓRIA DE SUA CIDADE?

Busca pelo termo “teen” no Pornhub gera 290 mil resultados

O custo da Olimpíada 2016 gira em torno de R$ 40 bilhões

CEDIR–USP

O Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática fica em um galpão no campus da USP, em São Paulo. O projeto coleta eletrônicos usados e garante que eles tenham um fim sustentável. cedir.usp.br

SÓ + 1 MIN. Aconteceu em maio, mas não coube na revista

WORLD ANIMAL PROTECTION ARQUIVO PÚBLICO

A ONG trabalha no mundo todo para pôr um fim ao sofrimento desnecessário de animais. Uma das campanhas no Brasil visa à proteção do boto, caçado brutalmente e usado como isca. worldanimalprotection.org

CAÇA-COXINHA Mark Zuckerbeg anunciou uma investigação interna de coxinhas e mortadelas da sua empresa. Após denúncia de que funcionários do Facebook escondem mensagens conservadoras das timelines, senadores dos EUA exigiram explicações.

Na cidade de São Paulo, é possível realizar visitas monitoradas no acervo histórico da instituição. Para isso, os interessados só precisam realizar um agendamento no site. arquivoestado.sp.gov.br

Mortadela lembra, aliás, que turistas brasileiros passam a poder trazer salame e doce de leite (alô, Uruguai!).

CRIANÇA E CONSUMO

Imagens de mulheres sexualizadas afetam a situação de meninas novas. Conheça o projeto do Instituto Alana, que combate publicidades abusivas e o consumo desse material na infância. criancaeconsumo.org.br

ALGO DE PODRE Com Dilma afastada da Presidência, Michel Temer realiza o sonho do governo próprio, mas nem tudo cheira bem — é o que tentam dizer os petistas. A página oficial do PMDB no Facebook sofre um vomitaço, uma invasão de emojis de vômito.

ONG VEMSER

O projeto, sediado no Rio, usa o esporte como ferramenta de inclusão e cidadania para meninas em situação de risco. Você pode ser voluntário ou então apadrinhar uma atleta. vemser.org.br

BELA E AMEAÇADA Um hacker foi preso em São Paulo acusado de invadir o celular da nova primeira-dama, Marcela Temer, e extorqui-la sob ameaça de divulgar suas fotos íntimas. Segundo a polícia, o suspeito exigiu R$ 15 mil pelos dados do aparelho.

QUE BRISA Um canadense de 15 anos afirmou ter descoberto uma cidade maia se orientando por um mapa milenar de constelações. Parte dos especialistas contestou. Para um deles, é tudo viagem e o local não passa de um campo de maconha.



Galileu brasil edição 299 junho de 2016