Page 1

Ano V N.º 25 Preço: 0,00 •

Escola Secundária

de

Casquilhos - Barreiro

jun 10

Diretor: Renato Albuquerque

Esta separata faz parte intrgrante do n.º 25 do jornal ESCrito

ihngpz y xu m

jb q t s a wc v k l o r „

d e f

Acordo ortográfico

Um discurso brilhante

No passado dia 3 de março o Professor Fernando Cristóvão veio à nossa escola, a convite da professora Esmeralda Lopes, falar sobre o Acordo Ortográfico de 1990 que irá entrar, em breve, em vigor. O Professor Fernando Cristóvão, para além de antigo diretor do Externato Diocesano Manuel de Mello quando este funcionava nas instalações que hoje são ocupadas pela nossa escola, é um dos responsáveis pelo referido Acordo e uma das pessoas mais habilitadas para o explicar. A sua conferência visou explicar, nas suas próprias palavras, “o porquê de um acordo e o porquê deste acordo”. Pela atenção que qualquer escola tem, necessariamente, de conferir a este tema e pelo brilhantismo da sua intervenção, a direção do ESCrito resolveu publicar os excertos mais significativos desse discurso. A edição do texto e os subtítulos são da inteira responsabilidade do nosso jornal. O Diretor

„

O percurso

Num quadro geral da política da língua já se perderam 10 anos… isto não é uma questão de purismo, isto não é uma questão de fonética, com certeza que tem consequências e grandes nessas áreas históricas, mas é com certeza um problema grave da política da língua e não se entende como é que se deixa arrastar este acordo na rua durante 24 anos. Foi quase por unanimidade (só houve 6 votos contra) que foi ratificada pela Assembleia da República, em 7 de agosto de 1991, através da Resolução 26/91 e foi aprovada por decreto do Presidente da República, Mário Soares, de 10 de dezembro de 90. O que nos interessa é saber porquê um Acordo Ortográfico e porquê este Acordo Ortográfico. É sobretudo a isto que eu irei responder. Lembro que foram feitos uma série de Acordos Ortográficos, em 1911, em 1931, em 1943-45, que era aquele que se pensava que ia ficar e que tem estado em vigor, mas o Brasil, a certa altura, entendeu que não devia seguilo, o que provocou um mal-estar porque havia duas ortografias e não

se conhece nenhuma língua que tenha duas ortografias. No caso do inglês, existem formas duplas e nós também temos formas duplas, que aumentaram – ouro e oiro, quota e cota…

Os autores

O Acordo foi feito pelas melhores cabeças que nós tínhamos (e digo tínhamos porque alguns já morreram) no domínio da Filologia da Língua Portuguesa. Começo, por exemplo, por falar no maior especialista de filologia portuguesa que era o Pro-

Professor Fernando Cristóvão


2

JUN.2010 N.º 25

ESCrito - Separata

fessor Lindley Cintra que fez o texto definitivo que antes já tinha sido preparado por outro professor, Jacinto Prado Coelho. Acompanhava-o o Professor Malaca Casteleiro que era o filólogo das “coisas miúdas”. Todos os acordos têm raízes históricas, filológicas e estéticas, até estéticas. A Professora Rocha Pereira, a melhor especialista, ainda hoje viva, de grego, assessorou este Acordo quanto às raízes gregas, à filiação das palavras; para as Clássicas, para o Latim, foi o Professor Costa Ramalho; para a parte literária e estética, a Maria de Lurdes Belchior. Eu também entrei, em parte para ajudar a Maria de Lurdes Belchior, mas também por outra razão: como Presidente do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, com cerca de 1000 professores espalhados pelo mundo inteiro, eu tinha a responsabilidade de divulgar o Acordo.

Pela primeira vez, deixámos de ser donos da língua e passámos a ser condóminos… Esta reforma estava pronta em 1974 mas com a Revolução de abril não havia a paz social necessária para iniciar um acordo que dá sempre polémica em todo o Mundo. E com razão por causa de uma confusão: é que muita gente julga que a

ortografia é a mesma coisa que a Língua e na Língua ninguém mexe que é de todos nós! Cuidado com isso! A ortografia é a grafia, que é outra coisa.

„

Um acordo a 8

Pela primeira vez na história da nossa língua, sentaram-se na Academia Brasileira de Letras os representantes de todos os países, em pé de igualdade. A primeira norma que aprovámos foi que não se aprovava absolutamente nada que não fosse por unanimidade. Pela primeira

O que é um acordo ortográfico? É uma convenção! vez, deixámos de ser donos da língua e passámos a ser condóminos… Daí que, daqui por diante, e há muita gente que ainda não meteu isto na cabeça, tudo tem de se resolver a oito, e o que não for resolvido a oito, é abuso! Porquê? Porque a língua portuguesa é hoje a Língua de um grupo de países das antigas colónias a que nós chamamos lusófonos. Quando estava no Instituto Camões, representava Portugal em Bruxelas, nas reuniões que se faziam na área da Educação e como todas as leis devem ser traduzidas na língua do país, a conversa

era sempre a mesma: é português de Portugal ou português do Brasil? Quando respondia que Portugal é que estava na União Europeia, que não era o Brasil diziam sempre que queriam era fazer negócios com o Brasil…

„

Uma língua de comunicação

Atualmente, o comércio, o turismo, os interesses políticos da China estão a expandir-se pelo mundo fora e têm de utilizar a língua portuguesa porque nós somos a 5ª ou, quanto muito, 6ª língua internacional de comunicação. Se fôssemos a contar o número de falantes, é claro que estaríamos talvez no 10º lugar. Efetivamente, há línguas como o mandarim, como o hindi e como muitas outras que estão muito à frente, em milhões, do português mas não são línguas de comunicação internacional. Ainda por cima, a nossa é de comunicação intercontinental. Este é o panorama em que estamos metidos que condiciona extraordinariamente o entendimento desta questão. Como sabem, nos chamados países do BRIC, o Brasil, a Rússia, a Índia e a China, não há nenhum que fale oficialmente o inglês. A língua portuguesa é a que está representada nos países do BRIC, pelo Brasil. É num plano de totalidade que a língua portuguesa tem de se afirmar.

„

Uma grafia unificada

Nas discussões do Rio de Janeiro, a certa altura, havia quem quisesse criar singularidades na sua língua. Angola, por exemplo, dizia “Então mas se o Brasil tem direito a ter uma ortografia diferente de nós, então e Angola não tem?” “E Moçambique, não tem?” “E Cabo Verde e a Guiné, por serem mais pequeninos, também não têm esse direito?” Se não fosse o professor Lindley Cintra e a autoridade que ele tinha sobre os que estavam ali e que tinham sido seus alunos, não sei onde é que tínhamos chegado nessa altura. Esta é uma das grandes razões porque é que o Acordo Ortográfico, a certa altura, aumenta o número das formas duplas e consagra outros elementos. Este é, digamos, o panorama geral mas eu gostava de começar pelo princípio. Eu

Ficha técnica y ESCrito y Proprietário: Escola Secundária de Casquilhos – Barreiro y Diretor: Renato Albuquerque (prof. G. 400) y Fotos: Renato Albuquerque. y Maquetagem: ReAL y Impressão: Serviços de Reprografia da Escola y Correspondência: Jornal ESCrito. Escola Secundária de Casquilhos. Quinta dos Casquilhos. 2830-046 BARREIRO y Telef.: 212148370 y Fax:212140265 y E mail: jornal@esec-casquilhos.rcts.pt y Publicação anotada na Entidade Reguladora para a Comunicação Social.


Separata - ESCrito gostaria de lembrar, antes de mais nada, uma coisa que todos os linguistas sabem perfeitamente e que é o seguinte: se imaginarem uma comunidade linguística ou populacional, antes da escrita, por exemplo, do tamanho de Leiria, essa comunidade não tem mais de 3.000 a 4.000 palavras e não é capaz de pensamento abstrato e científico. Estas línguas chamadas naturais têm entre 500 e 1000 regras de gramática. Onde quase todas as pessoas se conhecem ou, pelo menos, tem parentes, existe homogeneidade de vocabulário, homogeneidade de prosódia. Acima das línguas chamadas naturais, e ainda antes da escrita, temos as seminaturais que são aquelas que já têm um espaço maior e que já dominam vários povos. Têm entre cerca de 10 e 12.000 vocábulos. Como é que conseguem falar? Através das chamadas mnemónicas e dos rapsodos que existiam no tempo de Homero, que existem na Bíblia ou na recitação do Corão Com a escrita aparecem as línguas arcaicas, como o grego, o latim e o árabe com 40.000 vocábulos. Nas modernas, por exemplo, no português, temos um mínimo de 400.000 vocábulos. Ora, o nosso primeiro gramático, Fernão de Oliveira [1507-1581], que escreveu a primeira Gramática, perto de 1555 dizia esta coisa: “Há os do Norte que têm uma pronúncia diferente dos do Sul. Cá para baixo para o Sul pronunciam-se as palavras de outra maneira.” Um país tão pequenino já tem estas pronúncias. Agora imaginem uma língua de império, como foi a nossa língua, que chegou a toda a parte do mundo e por lá ficou! E será que para se ser fiel a uma escrita temos de escrever 15 variantes de cada palavra? Primeira conclusão, primeira evidência: o que é um Acordo Ortográfico? É uma convenção! Não podemos ter a pretensão de arranjar 2, 5, 10, 15 formas escritas porque há 15 pronúncias. “Mi diga”, diz-se no Brasil mas quando chega a hora de escrever, escreve-se “me diga”… Põem o pronome antes do verbo, é o estilo deles, ninguém vai corrigir isso… E nós pospomos o pronome: “diga-me”. Mas quando chega a hora da grafia todos escrevem “me”! No Rio fala-se muito “compa-ssa-da-men-tchi” Põem lá o “tchi”? Não põem! A ortografia é uma convenção. Há muitos colegas que vão a Congressos onde se tem de se adotar uma língua, normalmente é o inglês. Por vezes, as

pronúncias são ininteligíveis mas ninguém se perturba porque passado pouco tempo há um texto escrito e no texto escrito ninguém se atrapalha! Porquê? Porque não há variantes nenhumas, é uma convenção!

„

Os contra-argumentos

Há quem argumente que a grafia tem influência na escrita, na língua. Muito pouca! Lembro exemplos que são clássicos: na Albânia falava-se grego, na Turquia o árabe, no Vietname, o chinês.

A ortografia atual não foi revelada, nem por Deus, nem pelo Diabo! Todos adotaram os carateres latinos por causa dos negócios, por causa do turismo… Ora, os poetas, os contistas, os historiadores, os oradores, continuaram, imperturbáveis, com carateres completamente diferentes… E depois há outra coisa que tem de se dizer: a ortografia atual não foi revelada, nem por Deus, nem pelo Diabo! Já tivemos, ao longo dos séculos, outras ortografias. Porque é que esta é a melhor de todas? Será que esta é divina, esta que está a acabar? Já houve várias antes… Houve uma altura, para enobrecer o país em que se encheu a língua de latinismos, daí é que vêm os “ph”. Noutra altura, com as relações com a Espanha, veio o espanholismo. Camões, Gil Vicente,

N.º 25

JUN.2010

3

Rodrigues Lobo escreveram também em castelhano. No século XVIII, chega a influência francesa. Agora é o inglês. Com certeza que se deve falar o melhor possível mas se há que ter um cuidado maior com a escrita, a escrita é o grande ponto de encontro. Há a variante portuguesa, há a variante brasileira, há a variante galega que se está a transformar numa língua e, qualquer dia, haverá a variante angolana… Isto são enriquecimentos. Cada variante tem vocabulário, tem pronúncia, mas todos se entendem. Eu gosto de citar um exemplo: quando o presidente Mário Soares criou preços políticos para os produtos básicos (o pão, o leite…) era o “cabaz das compras”. No Brasil, uns anos depois, passaram pelo mesmo aperto. Chamavam-lhe “cesta básica”. Mas toda a gente entende o que é

Luís António Verney queria acabar com os hh todos

uma cesta básica, toda a gente entende o que é um cabaz de compras. No Brasil o avião “pousa”, como os pássaros, aqui “aterra”. Cada variante tem o seu vocabulário, tem a sua pronúncia, mas quando chega a hora da grafia, é uma coisa completamente diferente. Dizem que nós cedemos aos brasileiros. Mudamos mais do que eles porque eles já tinham feito uma simplificação.


4

JUN.2010 N.º 25

ESCrito - Separata

Há quem diga: “Há uma palavra emblemática da traição: o ‘ato’, sem o ‘c’”. Todos conhecem Luís António Verney que propôs uma reforma do ensino em Portugal e tem um capítulo no Verdadeiro Método de Estudar sobre ortografia. Sabem o que é que queria Verney, em 1746? Acabar com as consoantes mudas (tirar os hh todos!) e a outra é o “ato”. Eu leio uma frase, entre aspas, que podem encontrar no Verdadeiro Método de Estudar. Diz assim, a certa altura (cito): “ato (já sem “c”) é mui boa palavra e todos a entendem.”

„

As vantagens

Gostaria de pôr mais em evidência as vantagens do Acordo, antes de chegar a alguns pontos mais emblemáticos. A primeira coisa é a circulação do livro. A minha tese de doutoramento, foi sobre Graciliano Ramos, um dos maiores escritores brasileiros. A tese foi adotada por várias universidades brasileiras por causa da metodologia que eu tinha adotado. Pois o meu livro teve de ser reescrito no Brasil. Com o Acordo isto desaparece de uma vez por todas. Porquê? Sempre que é possível uma grafia comum, adotamos; sempre que não é possível, ficam as duplas. Isto é, aumenta o número das duplas que já existiam. Por outro lado, isto tem a ver com o mercado do livro. O Acordo Ortográfico, ao entrar em vigor, o que é que vai afetar? As gramáticas, os dicionários da área do ensino da língua. Agora, os romances, a física, a química, têm alguma coisa a ver com isso? E vocês não têm, como eu, lá em casa, edições antigas que até valem mais, do Eça de Queirós e dos outros, escritos com “ph”? É motivo para deitar fora? Nunca ninguém apresentou contas dos prejuízos advenientes do Acordo. E quando começarem a vender baterias e baterias de dicionários, de gramáticas, de prontuários, de etc. O lucro imediato sem ser preciso empatar dinheiro, onde é que estão as contas disto? Mas, sobretudo, o importante é a circulação universal e não acontecer a mesma coisa que em Bruxelas “Isto escreve-se em português de Portugal ou em português do Brasil?” E qualquer dia “Ou em português de Angola?”

„

O Acordo de 1990 foi o primeiro que pôs em pé de igualdade e unanimidade a grafia. Em 1945 queria-se 100% desta unidade, queria-se a unificação. Em 1986, perante as críticas, baixou-se a unificação para 99,5% e no que foi publicado no Diário da República passou-se para 98%. Para abreviar, num universo de 110.000 palavras, as principais modificações foram: suprimiram-se consoantes mudas, em 600; com dupla grafia, são 575; de dupla acentuação, 1400. Na dupla acentuação nós podemos dizer que isto é um preço “económico” e no Brasil é “econômico”, com acento circunflexo onde nós colocamos o agudo. As duas formas são legítimas mas não é para estarmos aqui a escrever “econômico”… Mas isso, aliás, é um excelente elemento de informação: se eu estou a ler um texto qualquer e vejo que é “econômico” eu digo isto é brasileiro…” Às vezes as pessoas argumentam que há certas palavras na língua com a prétónica aberta que devia ter um diacrítico, devia ter um acento. Mas há muitas palavras que não têm acento e se lê aberto. Por exemplo: “corar” [còrar], tem algum acento? E alguém lhe doeu a cabeça, escreveu para o jornal, por causa de não ter um acento em “corar”, em “padeiro” [pàdeiro], em “pregar” [prègar”]? Não há problema nenhum. Porque é que o inglês não tem acento nenhum e é a língua mais falada no mundo? Também se diz que se tira a consoante de apoio que abria a vogal como, por exemplo, “acionar” [accionar], “atual” [actual], “exatidão” [exactidão]. Mas, há muitas palavras que não têm nenhuma consoante de apoio e são abertas. Portanto, exceções já existiam muitas.

„

A lusofonia

Gostaria de terminar este discurso lembrando outra coisa: a grande expansão da língua portuguesa é pela escrita. Agora também querem mexer na terminologia, essa é outra conversa. Ainda por cima, uma conversa que é feita a um… Há uma política linguística ou não há? Trabalhamos a 8 ou não trabalhamos a 8? É exatamente o mundo da lusofonia que está em construção e eu termino com aquilo que escrevi num livro. Sabem que o Padre António Vieira tinha um sonho, o Quinto Império, o quinto império religioso, todo o mundo seria católico. E era o rei português, que era o grande rei católico, não eram os reis católicos ali do lado. Com Fernando Pessoa, continuou a ideia do Quinto Império mas já não era religioso, era cultural.

Nós éramos os donos da pureza da língua… Isso acabou! O Quinto Império é a lusofonia. Um grande gramático espanhol disse que “A língua é companheira do Império”. Isto é, o império é ajudado a expandir-se através da língua. O que é que aconteceu nas excolónias? A língua traiu o imperador e pôsse do lado do império. Porque hoje todas as constituições dos novos países africanos afirmam que a língua oficial é a língua portuguesa. E cada um, repito, tem a sua variante linguística e os que não têm hão-de ter, o que é um enriquecimento e não um empobrecimento. Aliás, quem estudou aqui linguística, sabe que antigamente havia uma palavra maldita: as corruptelas. O cabo-verdiano que dizia alguma coisa em crioulo, isso era corromper a língua… Agora tem a dignidade de língua igual à nossa. Nós éramos os donos da pureza da língua… Isso acabou! „

O ponto da situação

Como é que estamos? As antigas colónias não têm estruturas ainda, estão a fazê-las aos poucos.

O Professor Fernando Cristóvão autografando a mais recente obra que dirigiu, o Dicionário Temático da Lusofonia

Separata ao jornal ESCrito n. 25  

Jornal da Escola Secundária de Casquilhos - Barreiro - Portugal

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you